A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE

Rostand Medeiros https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Desde que comecei a ler livros e a me interessar pelas envolventes histórias dos cangaceiros nordestinos, uma passagem em particular sempre me chamou muito a atenção. Foram as circunstâncias envolvendo um intenso tiroteio entre um antigo cangaceiro do bando de Lampião, conhecido como Meia-Noite, que enfrentou praticamente sozinho, durante mais de cinco horas de fogo cerrado, um grupamento policial que chegou a ter mais de oitenta homens.

Ocorrido em uma data incerta, mas que se situa em algum dia da segunda quinzena de agosto ou início de setembro de 1924, este desigual combate se desenrolou em uma propriedade rural chamada Tataíra, em meio às serras do então município paraibano de Princesa, na fronteira com Pernambuco.

Cangaceiro, de Portinari

O que chama atenção neste caso, além do imenso volume de fogo, foi a capacidade de resistência deste cangaceiro que, mesmo acuado em uma pequena casa rural e ferido, ainda conseguiu, em um primeiro momento, fugir, sendo morto apenas alguns dias depois, através de uma emboscada perpetrada por dois homens, um dos quais o ajudava em seu restabelecimento.

Ao ler estes fatos, no começo pensei ser mais uma das muitas fantasias que pululam nos inúmeros livros escritos sobre o cangaço. Pensava que, no caso de a história ser verdadeira, certamente esta casa deveria ter sido derrubada há muitos anos e que, após mais de oitenta anos, não haveria ninguém que pudesse narrar algo deste incrível episódio.

Não sabia o quanto estava enganado.

AS ORIGENS DO CONFLITO

Segundo a literatura relativa ao assunto, o tiroteio no sítio Tataíra tem origem em 27 de julho de 1924, quando um forte grupo de cangaceiros atacou com sucesso a cidade paraibana de Sousa, uma das mais importantes daquele estado.

Chico Pereira

O fazendeiro que vivia a alguns quilômetros de Sousa, em uma propriedade denominada Jacu, no então distrito de Nazareth, atual município de Nazarezinho, chamava-se Francisco Pereira Dantas, conhecido como Chico Pereira.

Seu pai, o afamado coronel João Pereira, foi assassinado em meio a disputas políticas. O comentário na região era de que os mandantes seriam pessoas importantes de Sousa. Entre os prováveis articuladores, constava o nome de Otávio Mariz.

O clima na cidade estava pesado, na iminência de ocorrerem novas ações violentas. Logo, este membro da influente família Mariz envolveu-se em uma briga na feira da cidade, onde chicoteou severamente uma pessoa ligada a Chico Pereira.

Estado atual da Casa Grande da Fazenda Jacu, Nazarezinho, Paraíba – Fonte – http://nazarezinho.informecapital.com.br

Em sua fazenda, ao saber do ocorrido, Chico Pereira exaltou-se. Ele teria então enviado um portador para dialogar diretamente com o famoso chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, solicitando seu apoio para a realização de um decisivo ataque contra seus inimigos em Sousa.

Após ouvir o portador vindo de Sousa, Lampião teria dado o aval para que dois de seus irmãos, Antônio e Levino Ferreira, além de certa quantidade de cangaceiros, seguissem para o Jacu, unissem forças com o grupo de homens em armas mantidos por Chico Pereira e atacassem a cidade.

O coronel José Pereira, no destaque de gravata.

Por esta época, Lampião convalescia de um forte ferimento, ocasionado inicialmente em um combate no lugar conhecido como Lagoa do Vieira, na zona rural do atual município pernambucano de São José de Belmonte.

O mais importante cangaceiro brasileiro recuperava-se na área da propriedade denominada Saco dos Caçulas, na zona rural da cidade de Princesa, na fronteira da Paraíba com Pernambuco. Esta propriedade pertencia a Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes de José Pereira de Lima, líder político e verdadeiro “dono” de Princesa.

Segundo relatos coletados na região, Marcolino Diniz, através da anuência de seu parente José Pereira, aparentemente firmou um acordo tácito com Lampião. O chefe cangaceiro estava protegido por estes homens poderosos na região da fazenda Saco dos Caçulas. Em contrapartida, seus cangaceiros não deveriam criar problemas em suas áreas de interesse.

Rodrigues de Carvalho, autor do livro “Serrote Preto” (Rio de Janeiro, 1974), afirma, na página 273, que Sousa ficava distante “35 léguas” de Princesa, equivalente a 210 quilômetros. Provavelmente Lampião imaginou que o ataque àquela cidade não traria problemas junto aos seus protetores e, assim, ficaria mantido o pretenso acordo.

Entre os homens que Lampião cedeu a Chico Pereira estava a “fina flor” do cangaceirismo da época. Homens como Sabino, José Cachoeira, Lua Branca e um homem negro, alto e forte, conhecido como Meia-Noite.

O cangaceiro Meia Noite

Segundo o escritor Érico de Almeida, no livro “Lampeão – Sua História” (págs. 63 a 68), publicado em 1926, o cangaceiro Meia-Noite chamava-se Antonio Augusto Feitosa. Teria, em 1924, a idade de 22 anos, sendo originário da região de Olho D’Água do Casado, próximo a Paulo Afonso, Alagoas, e possuía a fama de ser extremamente valente.

Diante de uma horda composta por um número de cangaceiros que superava os oitenta homens, todos dispostos e bem armados, o assalto a Sousa foi um sucesso para o bando.

Foto do bando de Lampião nos primeiros anos da década de 1920.

O saque foi tão desenfreado que até mesmo os aliados de Chico Pereira sofreram nas mãos dos cangaceiros. Casas comerciais, residências e qualquer local onde houvesse algo de valor foram “visitados”. A situação chegou a tal ponto que, durante o ataque, Chico Pereira deixou a função de chefe cangaceiro para tentar controlar as feras que ele mesmo havia incentivado a atacar a cidade.

João Gomes de Lira, que foi oficial da Polícia do Estado de Pernambuco, antigo perseguidor de Lampião e autor do livro “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” (Recife, 1990), afirma, na página 143, que Chico Pereira foi “quem muito defendeu Sousa de piores desatinos”.

Até hoje perdura o desconforto em relação a esta página negra da história daquela cidade. Em nossas pesquisas na região, ao entrarmos em contato com filhos daqueles que vivenciaram os fatos, é facilmente perceptível o constrangimento dessas pessoas em tecer algum comentário sobre este assunto.

Enquanto o grupo de atacantes retornava para Princesa, a repercussão do ocorrido espalhava-se pela Paraíba e pelo Nordeste.

Logo após tomar conhecimento dos estragos em Sousa, Lampião percebeu que enfrentaria a polícia paraibana e que dificilmente Marcolino Diniz e José Pereira continuariam a lhe oferecer a mesma proteção e o apoio de outrora.

Marcolino Diniz e seus cabras

Justamente nesta hora, quando o horizonte se mostrava repleto de nuvens negras, ocorreu, no seio do bando de Lampião, a saída de um dos seus mais destemidos membros.

Após retornarem para junto do chefe, durante um pernoite em uma fazenda denominada “Bruscas”, pertencente à família Lacerda, o intrépido Meia-Noite percebeu que algum companheiro havia lhe surrupiado a quantia de nove contos de réis, tão “arduamente” conseguida como “fruto do seu labor”.

Logo se iniciou uma discussão. Sem medo de nada, o cangaceiro enganado pelos companheiros apontou o dedo diretamente para os irmãos de Lampião, que, por sua vez, afirmavam inocência. O clima esquentou. Meia-Noite logo se colocou pronto para o que viesse a ocorrer, empunhando seu fuzil Mauser.

Lampião, em pessoa, interveio no conflito, mas naturalmente se posicionou a favor dos irmãos, e a situação quase chegou a um desfecho trágico.

Lampião tinha enorme respeito pelo cangaceiro Meia-Noite

Sabendo o tipo de homem que Meia-Noite era, a quem conhecia há alguns anos, Lampião decidiu então pagar os nove contos ao terrível cangaceiro.

Após a entrega do dinheiro, Lampião impôs uma condição: seu companheiro teria de entregar suas armas para outros membros do bando. Meia-Noite percebeu que, estando desarmado, fatalmente seria novamente roubado e morto.

O valente negro não se fez de rogado. Colocou uma bala na câmara de seu fuzil, apontou a arma para Lampião e “convidou” o chefe e quem mais o acompanhava a vir tomar seu armamento.

Segundo relatos obtidos por Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 274 e 275) junto ao fazendeiro Zuza Rodrigues — que anteriormente ouviu a história do cangaceiro Lua Branca, presente à cena —, nesse momento todos ficaram quietos, admirados ante a valentia do negro, que mantinha o fuzil apontado diretamente para Lampião. O chefe sempre admirava os valentes e, apesar de consternado diante da afronta, baixou a guarda. Além do mais, não havia muito o que fazer, pois, se Meia-Noite atirasse, Lampião sabia que dali seu destemido cangaceiro não sairia vivo, mas provavelmente ele, Lampião, também não. O cangaceiro negro foi, então, expulso do bando e seguiu viagem pelas estradas do sertão.

Região da Serra do Pau Ferrado – Foto – Rostand Medeiros

Em sua juventude o Senhor Antônio Antas Dias, que vive na cidade paraibana de Manaíra e não muito distante de Princesa, conviveu e conheceu na intimidade Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes do “dono” de Princesa, José Pereira. Além de Marcolino, Antônio Antas conviveu igualmente com Luiz Nunes de Souza, que ficou conhecido como o mítico cangaceiro “Luís do Triângulo”, com Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso”, e com outro homem conhecido como “Tocha”. Todos eles eram homens de extrema valentia e de total confiança de José Pereira e Marcolino Diniz.

Altivo, tranquilo e prestativo, Antônio Antas foi quem me fez conhecer aspectos interessantes da região, onde já estive em quatro ocasiões. Em uma delas, perguntei ao amigo Antônio sobre o combate da Tataíra. Para minha surpresa, ele afirmou que a história da valentia de Meia-Noite era muito conhecida na região, que a casa ainda estava de pé, servindo de moradia até hoje (2008), e que aparentemente não tinha sido drasticamente reformada. O mais importante: havia pessoas, filhas daqueles que vivenciaram os fatos, que poderiam transmitir de forma correta aquilo que seus pais e parentes relataram do tiroteio de 1924.

O amigo Antônio Antas, apontando os caminhos da história da Tataíra

Parti junto com Antônio Antas para visitar o local e resgatar, junto aos filhos das testemunhas — pessoas que atualmente se situam na faixa dos sessenta a oitenta anos e que continuam lúcidas —, a memória desse acontecimento. Essas pessoas, mesmo não sendo testemunhas diretas, ouviram as narrativas em um ambiente mais tranquilo, anterior à massificação do rádio e da televisão, que era mais propício para que a lembrança dos fatos ocorridos fosse transmitida de forma rica em detalhes. O resultado foi muito animador.

A TRANQUILIDADE NO SACO DOS CAÇULAS

O agricultor Anastácio de Souza de Moraes, de 69 anos à época de minha entrevista (2008) e morador do sítio Bandeira, vizinho a Tataíra, narrou-me que seu pai, Manuel Moraes, assistiu de sua casa (onde até hoje Anastácio reside) a todo o conflito ocorrido em setembro de 1924. Anastácio, homem calmo, tranquilo e calejado nas lides do campo, comentou que, para as pessoas da região, o apelido Meia-Noite não tinha origem apenas no fato de ele ser negro, mas porque o valente cangaceiro possuía o hábito de circular pela região sempre à noite.

Casa Grande dos Patos

Segundo o nosso entrevistado, nos dias em que Meia-Noite circulou por aquele setor, ainda junto a Lampião e seu bando, os cangaceiros consideravam aquele local o seu melhor refúgio. Percebemos isso ao circular na estrada de barro que liga a cidade de São José de Princesa à fronteira de Pernambuco, pois em nenhum momento é possível visualizar, mesmo estando em altitude, a atual comunidade do Saco dos Caçulas ou as casas da propriedade Tataíra. São elevações se sobrepondo a elevações, criando no meio delas uma área quase fechada, um verdadeiro “saco”.

Além do apoio de Marcolino Diniz, outra razão positiva para a região do Saco dos Caçulas ser considerada um ótimo esconderijo era a existência de um afamado armeiro e ferreiro chamado Zé André. Este sempre calibrava as armas, ajeitava uma agulha, um gatilho, trocava uma mola ou uma coronha. Anastácio e Antônio Antas o conheceram em plena atividade e são unânimes em afirmar que André era um verdadeiro artista.

É conhecido na região que, muitas vezes, Lampião saiu de seus esconderijos, acompanhado de seus homens de maior confiança, como seus irmãos e Luís Pedro do Retiro, para jogar cartas com Marcolino Diniz no casarão da fazenda Patos de Irerê. A tônica dessas jogatinas eram as apostas com altas somas de dinheiro.

Os cangaceiros não ficavam fixos em uma única casa; estavam sempre passando de um refúgio para outro. A residência que eles mais apreciavam, segundo relatos do pai de Anastácio, era uma velha vivenda situada no sítio Pedra, cujo proprietário era conhecido como “Domingos da Pedra” e era muito ligado a Marcolino Diniz.

Nesse refúgio, era comum a presença de um sanfoneiro chamado Joaquim Preto, que vinha do sítio Covão, local onde bailes eram frequentemente realizados. O agricultor Manoel Moraes, pai do nosso entrevistado, frequentou muitas dessas festas ao lado de outras pessoas da região.

Segundo ele, sempre existiu muito respeito por parte dos cangaceiros em relação à população local, sendo provável que tenha sido em um desses bailes que o afamado Meia-Noite conheceu Zulmira.

Igreja de Patos do Irerê

Sobre essa sertaneja, ela era natural da área da fazenda Saco dos Caçulas, onde morava com sua família. Segundo Anastácio, os pais da jovem posicionaram-se contrários ao relacionamento. Mas quem iria contra Meia-Noite? Logo, ela fugiu com seu cangaceiro.

A REGIÃO SE TORNA PERIGOSA

Mas, depois do ataque a Sousa, tudo mudou.

Lampião foi avisado de que deveria deixar a região do Saco dos Caçulas. Logo, ele e seus homens passaram a ser tenazmente acossados pela polícia e por homens contratados por José Pereira.

Diante da nova situação e do seu retorno à região, Meia-Noite passou a circular com muito cuidado. Ele nunca dormia no mesmo local; seguia para vários esconderijos diferentes, levando a amada a reboque.

Consta que Meia-Noite era visto circulando abertamente com um fuzil Mauser, uma pistola e um punhal. Já Zulmira transportava um rifle modelo Winchester.

Manoel Moraes informou a seu filho que, pela proteção e pelo silêncio do povo da região, Meia-Noite desembolsava certas quantias em dinheiro, que satisfaziam aqueles que lhe davam abrigo e deixavam outros se roendo de inveja.

Para o pai de Anastácio, foi na ocasião em que o valente cangaceiro se encontrava homiziado em uma das casas do sítio Tataíra, pertencente a um fazendeiro conhecido como Tibúrcio Barreto, que provavelmente algum proprietário vizinho se dirigiu a Princesa e delatou ao coronel José Pereira o local onde Meia-Noite se encontrava.

A antiga Pincesa Isabel

Segundo Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 280), o coronel ordenou a um de seus homens de confiança, Manoel Virgulino, que fosse a Tataíra com doze homens, trazendo a ordem de:

“– Trazer o negro de qualquer maneira, na corda ou no pau”.

Esta ordem significava que deveriam trazê-lo amarrado vivo ou, caso estivesse morto, transportá-lo amarrado a uma vara, carregada por dois homens.

Às nove da noite, Manoel Virgulino segue de Princesa junto com seu grupo. Demoram quatro horas em marcha discreta e ininterrupta. Anastácio Moraes informou que o grupo de captura passou por várias casas perguntando sobre o cangaceiro e logo chegou à casa do ferreiro e armeiro Zé André. Este acordou com a movimentação ao redor de sua residência e com homens batendo à sua porta. Ao abrir, Zé André se assustou com as pessoas armadas, que lhe perguntaram de forma ríspida se Meia-Noite estava homiziado em sua casa ou se ele sabia de seu paradeiro. Ele negou conhecer a localização do cangaceiro; os homens aceitaram a informação e seguiram em direção às casas do sítio Tataíra.

Zé André não foi molestado, mas não teve dúvidas em relação ao que iria ocorrer e tratou de abandonar sua pequena vivenda em busca de refúgio na casa de parentes.

Casa do sítio Tataíra, onde ocorreu o feroz tiroteio. Na época a casa tinha uma divisão.

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 280) informa que, realmente, a volante bateu de casa em casa, recebendo sempre respostas negativas, e que o grupo já estava desanimando com o resultado, pronto para retornar a Princesa.

Em uma das últimas tentativas, o grupo encontrou duas casas lado a lado no sítio Tataíra, com uma grande palmeira na parte frontal. Não eram residências muito grandes; possuíam telhados típicos do sertão, em forma de “V” invertido, tipo conhecido como “duas águas”. Suas paredes eram bem rígidas, feitas com grandes tijolos maciços e aparentes. Perceberam que uma das casas servia de moradia e a outra funcionava como local de transformação de mandioca em farinha, pois possuía uma chaminé no alto e apenas uma porta e uma janela na parte frontal. As casas estavam situadas em uma pequena elevação, o que deixava os atacantes em desvantagem, pois quem estava no interior tinha o campo de tiro completamente aberto e facilitado.

O grupo passou a interpelar os que ali habitavam. Não obtiveram uma resposta rápida, mas ouviram barulhos e aguardaram. Logo, uma voz de mulher se fez ouvir. Os membros da volante pediram para entrar, mas a voz feminina afirmou ser de uma mulher idosa, que estava sozinha e não iria abrir. Os homens de José Pereira voltaram à carga, batendo com mais força na porta. A voz feminina perguntou: “— Se são homens do coronel?”. Diante da resposta afirmativa, Meia-Noite deixou de lado o disfarce e abriu fogo, em meio a uma série de impropérios, palavrões e baixarias.

Lateral da casa do sítio Tataíra

Manoel Virgulino interpelou o cangaceiro para que se entregasse, pois iriam pegá-lo “vivo ou morto”. O cangaceiro, segundo Anastácio, respondeu: “— Nem morto nem vivo, e quem entrar leva tiro!”.

Teve início, então, aquele que é considerado um dos mais intensos, desiguais, longos e ferozes combates ocorridos no período do cangaço.

O INCRÍVEL “FOGO” DA TATAÍRA

Os membros do grupo atacante perceberam que estavam diante de um combatente destemido e preparado. Era tal a quantidade de disparos que saíam do interior da casa que ficava difícil acreditar que apenas uma arma era disparada por vez. Tanto as narrativas dos moradores da região quanto a literatura existente são taxativas em afirmar que Zulmira não atirou, mas municiava as armas do companheiro.

O esperto Meia-Noite tinha certeza de que os homens de José Pereira desconheciam sua saída do bando de Lampião e passou a admoestar os atacantes com o blefe de que seus companheiros os atacariam pela retaguarda. Não é difícil imaginar que, diante da possibilidade de seu grupo sofrer uma emboscada, Manoel Virgulino tenha dividido o contingente de ataque, e essa atitude ajudou a prolongar o cerco.

Outra vista da casa

O combate se prolongava. A madrugada estava findando e os atacantes certamente sabiam que, com o eco do tiroteio se expandindo pelas serras, logo outros companheiros das volantes estariam chegando.

Em dado momento, Meia-Noite pediu garantia de vida para sua companheira. Para a sertaneja Zulmira, aquela zoada, aquela tensão, eram demais. Os homens de Manoel Virgulino informaram que ela estava garantida, que nada de mal ocorreria à jovem e que, se Meia-Noite quisesse, ele também teria sua vida poupada para seguir para sua cela em Princesa.

Valentão e ousado, ir para a cadeia era a máxima das desonras para Meia-Noite, e sua resposta foi outra série de impropérios e mais chumbo.

Mas, diante da situação da jovem e das palavras de seus inimigos, que diziam que ele era covarde por manter a mulher dentro da casa, houve uma trégua, e Zulmira deixou a casa de farinha levando alguns poucos pertences.

Após a saída de sua amada, Meia-Noite despejou fogo e novos insultos contra seus inimigos.

Tenente Manuel Benício

Já eram quatro horas de troca de tiros quando ecoou na serra o toque de uma corneta. Segundo Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 66), era a volante do tenente Manuel Benício, acrescida do pessoal de Clementino Quelé e Francisco Oliveira, que estavam aquartelados no alto da serra do Pau Ferrado.

Já Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 284) informa que este grupo se encontrava em um sítio denominado Baixio, a 15 quilômetros de Tataíra e próximo à fazenda Patos, cujo proprietário era Marcolino Diniz. O autor narra as inúmeras dificuldades enfrentadas pelo grupo de policiais para alcançar a região do conflito e, neste aspecto, estava correto.

Visitando a região, esplendorosa em sua beleza serrana, não foi difícil perceber o enorme grau de dificuldade que os policiais enfrentaram para chegar a Tataíra.

Segundo o mapa em escala de 1:100.000, produzido pela SUDENE, a altitude onde se localiza o sítio Baixio é de quase 900 metros. O grupo, então, desceu em torno de 400 a 450 metros até o vale onde se situa o antigo casarão da fazenda Patos e tornou a subir para uma cota superior a 800 metros, seguindo em direção à casa onde se encontrava o terrível e valente cangaceiro. Tudo isso em uma época em que a cobertura vegetal era bem mais cerrada.

Entrevistado de 2008 apontando onde a polícia estava. A casa da Tataíra está nas costas do fotógrafo – Foto – Rostand Medeiros

Certamente, nesta hora, o cangaceiro Meia-Noite deve ter se imaginado perdido, pois sabia que aquela corneta significava a chegada de uma força policial que, segundo Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 67), chegava a 84 homens.

Para a população local, o número de combatentes contra o solitário Meia-Noite ficava em torno de 100 a 120 homens. Independentemente do número exato, a desproporção era enorme, e logo uma sinfonia de disparos ecoava pelas serras.

Mesmo assim, nem com a chegada dos reforços policiais o valente alagoano refreou seu ímpeto, continuando a dizer todos os palavrões que conhecia e mandando bala. Logo, dois membros da polícia foram feridos.

Manoel Moraes informou a seu filho que, depois do “fogo”, os policiais comentaram na região que:

“– O negro tanto atirava como dizia baixarias, recitava versos e até cantava”.

Provavelmente Meia-Noite, sozinho dentro da casa, cantava, dizia palavrões e recitava versos populares para suportar o cansaço, a tensão e encontrar forças para continuar a luta.

Outra área onde se posicionou as tropas policiais – Foto – Rostand Medeiros

A noite se encerrava. Dentro da casa de farinha, Meia-Noite via as munições do fuzil, da pistola e do rifle escassearem rapidamente.

Só tinha duas saídas: ou se entregar ou sair para o “campo da honra” e lutar até a morte. No final das contas, Meia-Noite sabia que morreria de qualquer maneira.

Os atacantes atiravam incessantemente quando Meia-Noite gritou que iria sair. Certamente, um frêmito de vitória percorreu o meio da tropa e, possivelmente, alguns até comemoraram antecipadamente.

Ele ainda alertou que a polícia preparasse as armas:

“– Que ele iria sair”.

Durante cerca de dez a quinze minutos, o silêncio imperou no campo de luta. Os atacantes imaginaram que o cangaceiro estaria morto ou ferido.

Existem duas versões para o que ocorreu a seguir. Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 286 e 287) afirma que os atacantes, já perturbados com o silêncio prolongado e acreditando que Meia-Noite estava ferido ou morto, entraram no recinto e descobriram que ele havia sumido, desaparecido.

Região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

O autor afirma que a quantidade de tiros era tão grande que a fumaça produzida pelas armas foi “capaz de anular a visibilidade”. O cangaceiro teria aproveitado aquele momento para fugir, deixando um rastro de sangue.

Já as pessoas da região, como Anastácio, Antônio Antas e outros, são categóricas em afirmar que Meia-Noite, após anunciar que ia sair, deu um tempo e então atirou um objeto com certo volume diante da casa de farinha. Quem estava de arma pronta meteu bala no que se projetou para fora da casa. Para uns, o que Meia-Noite jogou foi uma mala; para outros, um caçuá; e, para terceiros, um saco.

Depois dos inúmeros disparos no objeto, o ágil alagoano de 22 anos aproveitou o momento em que o grupo de atacantes recarregava as armas e saiu da casa em desabalada carreira. O comentário na região foi que ele correu atirando, gritando, colocando nova munição na câmara do seu fuzil, atirando novamente, pulando no meio dos soldados e descendo o aclive onde se situa a casa da Tataíra. Manuel Moraes informou ao seu filho que dois soldados, vendo a figura de Meia-Noite se aproximar, abandonaram seus postos e fugiram.

Mesmo conseguindo furar o cerco inicial, o grupo de atacantes não era pequeno. Apesar de a visibilidade estar limitada pela pouca luz e de o alvo estar correndo, um policial mais atento fez pontaria com seu fuzil e abriu fogo. O tiro atingiu uma das pernas do cangaceiro. Ele caiu, mas logo se levantou, pulou uma cerca, caiu de novo e continuou a fuga em meio a outros disparos.

Outra vista da região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

Não encontrei na região ninguém para corroborar a afirmação de Rodrigues de Carvalho, mas todos são unânimes em comentar, sempre com uma ponta de espanto, a segunda versão da escapada de Meia-Noite.

Para os moradores locais, o sucesso inicial da fuga de Meia-Noite deveu-se ao fato de ele ter aproveitado espertamente o lusco-fusco da manhã, aquela hora em que a visibilidade ainda não é plena. Houve também um excesso de confiança dos atacantes em relação à sua superioridade numérica, o que os deixou desatentos. Outra causa possível pode estar no fato de que o grupo de Manoel Virgulino, assim como as tropas de Benício, Quelé e Oliveira, já estava muito cansado — uns pelo cerco prolongado e outros pelo sobe e desce de serras elevadas.

O certo é que, mesmo em grande vantagem numérica, a tropa não se movimentou para caçar o fugitivo, apesar de ele estar ferido.

A BUSCA POR UM ABRIGO

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 286 e 287) afirma que, depois de baleado, em meio à fuga desesperada pelas serras, Meia-Noite teria quebrado um braço ao pular uma cerca. Após isso, ele teria se encontrado com um agricultor, a quem entregou uma pequena soma em dinheiro para ser repassada a Zulmira.

Foto – Rostand Medeiros

Já Anastácio Moraes afirma que foi um amigo de sua família quem realmente se encontrou com o fugitivo. Ele se chamava Olegário Bezerra, era conhecido do cangaceiro, proprietário de um pequeno sítio no lugar Bandeira e considerado uma pessoa humilde e honrada. Diante da situação vexatória, Meia-Noite entregou a Olegário grande parte do dinheiro que transportava e disse: “— Olegário, pegue esse dinheiro aí. Se eu voltar, eu pego novamente; se não voltar, é seu”, fugindo em seguida.

Zulmira, em um primeiro momento, foi levada para Princesa, onde ficou presa.

Na sequência, segundo a versão oficial apresentada por Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 67) e Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 288), Meia-Noite caminhou cerca de doze quilômetros até a casa de um agricultor, que aparentemente lhe dispensou todo o cuidado e apoio. O benfeitor avisou ao ferido que iria buscar uma pessoa de confiança, que trabalhava com ervas, para preparar algo que cuidasse de seus ferimentos. Mas, em vez de buscar ajuda para o rapaz, ele foi atrás do inspetor de quarteirão da povoação de Patos, o valente Manoel Lopes Diniz, conhecido como “Ronco Grosso”. Este teria, então, ido à casa do agricultor acompanhado de mais quatro homens e dado voz de prisão a Meia-Noite, que resistiu e acabou trucidado.

Manoel Lopes Filho e Antônio Antas – Foto – Rostand Medeiros

Para Anastácio e Antônio Antas, a história foi “mais ou menos assim”. Eles me aconselharam, então, a procurar uma fonte mais gabaritada e que fora muito próxima de Manoel “Ronco Grosso” Lopes: o seu próprio filho.

Morando perto da comunidade do Saco dos Caçulas, encontrei um homem chamado Manoel Lopes Filho. Ele tem mais de 1,80 m de altura, é magro, mas ágil de corpo, tem cara de poucos amigos, usa bigode e possui uma aparência que não deixa transparecer sua idade já superior a 70 anos.

No primeiro momento, ele me olhou de uma maneira que me pareceu desconfiada. Sua voz é de barítono, grave e forte como a de seu pai. À medida que conversávamos e ele percebia que eu tinha certo conhecimento dos fatos, foi relaxando e ficando mais à vontade. Minha sorte foi estar na companhia de Antônio Antas, amigo de longa data dele, pois Lopes Filho me confessou mais tarde que não gosta de falar sobre o pai com pessoas estranhas.

Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso” e sua esposa. Foto provavelmente da década de 1950 – Foto – Aldo Lopes

Mesmo estando em um local calmo, na “rua” de um vilarejo que não possui nem 500 habitantes, ele me disse que era melhor irmos para um bar mais afastado da pequena comunidade, onde poderíamos conversar mais à vontade, sem a presença de pessoas indiscretas. Ao chegarmos a um barzinho que mais parecia um depósito, sentamos em uma mesa simples de madeira com tamboretes velhos. Lopes Filho prontamente procurou ficar de costas para a parede e de frente para a porta.

Ele adiantou que, em várias ocasiões, seu pai lhe narrou diversos acontecimentos e diálogos que manteve com Lampião e outros cangaceiros. Não negou, de forma alguma, que “Ronco Grosso” foi homem de extrema confiança de José Pereira, para quem realizava “o que fosse necessário”. Sobre Meia-Noite, Lopes Filho comentou que seu pai o considerava o cangaceiro mais valente e perigoso de todo o bando de Lampião.

No dia do tiroteio, “Ronco Grosso” estava realizando tarefas em sua propriedade; logo soube do ocorrido na Tataíra e ficou alerta. Seu filho afirma que o velho Manuel Lopes não sabia da caçada a Meia-Noite ordenada por José Pereira e continuou sua lide normalmente. Nesse meio-tempo, o cangaceiro alagoano ferido chegou à casa do agricultor Zé Sabino, e este ajudou a levar Meia-Noite ao sítio de Manuel Lopes, que era relativamente próximo.

O valente combatente trazia um pano amarrado à perna para estancar o sangue, além do braço machucado. Manuel Lopes, no dizer de seu filho, era um “raizeiro”; logo começou a cuidar do ferimento em um barraco que existia nas proximidades. Fez uma mistura de farinha, mastruz e pimenta-malagueta para o ferimento na perna, que já estava ficando escuro, e entalou o braço de Meia-Noite. Gradativamente, com a aplicação dos remédios naturais, o cangaceiro foi melhorando.

Foto – Rostand Medeiros

O FIM DE UM VALENTE

Logo, Manuel Lopes tomou conhecimento de que a volante de Manuel Benício estava nas proximidades, rondando em busca do fugitivo. Sem saber que seu patrão estava interessado na eliminação do cangaceiro, Manuel Lopes levou Meia-Noite para uma pequena gruta existente nas proximidades, localizada no alto de um serrote.

Segundo Lopes Filho, coube a um amigo de seu pai, chamado João Bezerra, então um jovem de 18 anos, levar duas vezes por dia alimentação e água ao cangaceiro. Em 2008, mesmo debilitado, João Bezerra ainda estava vivo, aos 102 anos.

Manuel Benício soube, através de outras pessoas, que Manuel Lopes estava dando apoio a Meia-Noite. Seguiu então para a propriedade do homem de confiança de José Pereira, com a intenção de cercá-la e tentar capturar o fugitivo.

Em 2015, sete anos depois da primeira visita, voltei a região do saco dos Caçulas e reencontrei os amigo Antônio Antas e Manoel Lopes Filho, que junto com um guia buscamos ir até agruta onde o cangaceiro Meia Noite foi morto por Manoel Lopes e Tocha.

Antes de chegar à casa de Manuel Lopes, encontraram João Bezerra transportando uma bolsa com alimentos e uma cabaça d’água. Começaram a “arrochar” o jovem, e ele “abriu o bico” sobre o que estava fazendo.

Entre seguir diretamente para o esconderijo onde estava Meia-Noite ou obter informações com Manuel Lopes sobre o que estava ocorrendo, Benício optou pela segunda alternativa.

Lopes Filho informa que “Ronco Grosso”, ao saber da aproximação da volante, deixou sua casa e seguiu em direção a Princesa para dialogar com José Pereira e saber o que significava aquilo.

Aspecto do relevo da região íngreme do Saco dos Caçulas, onde Meia-Noite buscou abrigo após ficar ferido.

Para o filho de Manuel Lopes, se havia uma classe de pessoas que seu pai mais desprezava, de todas as maneiras, eram os policiais.

Em Princesa, no casarão de José Pereira, o chefe político informou-lhe toda a situação. Com relação à polícia, José Pereira foi enfático e disse que “Ronco Grosso” não se preocupasse, pois eles não lhe perturbariam.

Mas, em relação ao caso envolvendo Meia-Noite, José Pereira foi categórico:

“– Ele tinha que trazer as duas orelhas do cangaceiro e ponto final”.

Manuel Lopes nada tinha contra o cangaceiro alagoano. Pelo contrário, até o admirava pela valentia e coragem. Porém, desobedecer a uma ordem direta de José Pereira, principalmente em um caso como aquele, seria o mesmo que praticar um suicídio.

Entre esses dois grandes blocos de granito está a abertura da gruta onde morreu o cangaceiro Meia Noite. Infelizmente a sua entrada estava obstruida.

Sem outra alternativa, buscou o apoio de outro homem, conhecido como “Tocha”, tido como valente e disposto.

Cerca de cinco dias depois do “Fogo da Tataíra”, já durante a noite, os dois homens encarregaram-se de levar a comida e a água ao cangaceiro.

Ao chegarem à gruta, o arisco Meia-Noite estranhou a ausência de João Bezerra. Estranhou ainda mais a presença daqueles dois homens armados e, conhecendo quem eles eram, ficou bastante desconfiado.

“Ronco Grosso” e “Tocha” prontamente acalmaram o valente Meia-Noite. Comentaram que estavam juntos para se protegerem da polícia, mas o fugitivo não baixou a guarda. Colocou uma bala na câmara do fuzil e permaneceu à espreita.

Obstrução da entrada da gruta do cangaceiro Meia Noite.

Os dois homens preparavam-se para sair — ou assim diziam — quando perceberam um momento de distração de Meia-Noite. Sacaram suas armas e abriram fogo.

O cangaceiro ainda tentou um salto, empunhando uma pistola na mão, mas novas descargas o atingiram e o abateram.

Sem muita cerimônia, enterraram o cangaceiro na parte externa dos grandes blocos graníticos que formavam a pequena cavidade natural. Antes, porém, cortaram suas orelhas como prova.

Antonio Antas afirmou ter escutado muitas vezes Manuel Lopes comentar que foi “Tocha” quem realizou a primeira deflagração. Este, por sua vez, afirmava categoricamente que havia sido “Ronco Grosso” quem efetuara o primeiro disparo.

Em relação à “prestação de contas” a José Pereira, não apenas Lopes Filho e Antonio Antas, mas também outras pessoas da região, afirmaram que, na tarde posterior à morte de Meia-Noite, os dois matadores foram ao casarão do chefe político de Princesa.

José Pereira encontrava-se em uma reunião com “pessoas gradas” da sociedade local, todos sentados na sala principal da casa, entre eles algumas senhoras.

A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE
Foto – Rostand Medeiros

Os dois homens valentes, porém simples nos gestos e no vestir, ficaram aguardando mais reservadamente o chefe, trazendo um pacote nas mãos.

José Pereira mandou que eles se aproximassem e perguntou, animadamente, diante de todos, o que desejavam. Eles permaneceram calados, um tanto acabrunhados.

O dono da casa, imaginando que o silêncio daqueles homens rudes fosse resultado da timidez por se encontrarem diante dos doutores do lugar e de suas senhoras, incentivou novamente para que falassem, mesmo diante de todos.

A partir daí, “Ronco Grosso” não se fez de rogado. Abriu o pacote, retirou um pano ensanguentado e foi desenrolando-o, apresentando a todos as orelhas de Meia-Noite.

O espanto foi geral, e o embaraço de José Pereira tornou-se evidente.

Mas eles haviam cumprido à risca aquilo que lhes fora mandado.

Foto – Rostand Medeiros

CONCLUSÃO

Após a saída de Lampião de Princesa, ele ainda circulou pela região por alguns anos. Em 1929, seguiu para a Bahia e pouco retornou à Paraíba. Provavelmente, até o fim de sua vida na Grota de Angico, em 1938, Lampião devotou um enorme ódio a José Pereira. Para alguns, parte desse sentimento estava ligado à morte de Meia-Noite, a quem o chefe cangaceiro sempre tratou com enorme respeito.

Existe uma versão na qual a razão da morte de Meia-Noite envolvia a raiva que José Pereira sentia do cangaceiro por este ter feito uma piada ou observações baixas e indecorosas sobre a esposa do líder político de Princesa. Entretanto, o próprio Lopes Filho considera essa versão falsa ou criada apenas para encobrir as verdadeiras intenções de José Pereira.

Para ele, o desejo do “dono” de Princesa com a eliminação de Meia-Noite, bem como com a expulsão de Lampião da região, era afastar essa gente para evitar que seus adversários na capital paraibana o tachassem de ser um reles “coiteiro de cangaceiros”. Outra situação que o entrevistado aponta, com razão, é o fato de Meia-Noite ser um arquivo vivo, de modo que sua eliminação teria sido efetuada para evitar problemas futuros.

Existe também outra versão, propagada por muitos pesquisadores do cangaço, na qual José Pereira e Marcolino Diniz teriam se compactuado com Lampião, dando-lhe proteção e apoio em troca de dividirem o apurado conseguido em roubos e assaltos, servindo como uma espécie de “banco”. Com a consequente expulsão do capitão da região, José Pereira e Marcolino teriam ficado com todo o dinheiro. Lopes Filho já havia ouvido falar sobre essa versão, mas de seu pai, que lhe contou muita coisa sobre aquela época, ele nunca ouviu nada que confirmasse tal situação.

Ao longo dos anos, a região de Princesa presenciou outros acontecimentos ligados ao cangaço. Mas o fato histórico mais importante ocorrido nessa cidade em todo o século XX ficou conhecido como a Revolta, Sedição ou Guerra de Princesa. Esse foi um curto, mas intenso conflito ocorrido no sertão paraibano, ocasionado basicamente por divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e da política do interior do estado, encabeçados principalmente por José Pereira.

Um interessante visual do Saco dos Caçulas.

Durante cerca de quatro meses, com o apoio do Governo Federal e dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte — respectivamente, Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria —, José Pereira sustentou um sangrento conflito contra as forças públicas estaduais comandadas por João Pessoa e pelo seu chefe de polícia, José Américo de Almeida. Além das pessoas ligadas diretamente por vários laços a José Pereira, inúmeros ex-cangaceiros e desertores da polícia paraibana formavam suas tropas. Marcolino Diniz, Manuel “Ronco Grosso” Lopes, “Tocha” e “Luiz do Triângulo” foram figuras de liderança e destaque nos combates. As narrativas obtidas na região sobre a participação desses homens nesse conflito dariam para escrever, no mínimo, três artigos como este.

Com a morte de João Pessoa em Recife e a deflagração da Revolução de 30 — que culminou com a chegada de Getúlio Vargas ao poder —, a maré mudou de lado e o conflito se encerrou. Logo, tropas do Exército ocuparam Princesa, e José Pereira fugiu, ficando incomunicável durante anos. Tempos depois, ele chegou a ocupar uma cadeira no legislativo estadual paraibano.

Não deixa de ser interessante observar como esses fatos ainda se mantêm vivos na memória da população local, mesmo entre os mais jovens. Fora dessa região, no entanto, esse conflito é praticamente desconhecido.

Sobre os participantes do caso Meia-Noite, sua amada Zulmira — razão de seu retorno para uma região tão perigosa, onde ele veio a morrer — foi em pouco tempo liberada da prisão e voltou para o convívio de sua família no Saco dos Caçulas. Logo, devido ao volume de sua barriga, ficou claro que ela estava grávida. Não sabemos exatamente o que ocorreu com a jovem, qual foi sua relação com a família e com as pessoas de seu lugar, nem o nome de seu filho. Poucos descendentes de seus familiares ainda vivem na região, e apenas apuramos que, após o nascimento da criança, ela se mudou para Campina Grande, onde se casou, teve outros filhos e viria a falecer anos mais tarde.

Marcolino Pereira Diniz não soube expandir as inúmeras riquezas recebidas como herança de seu pai, o coronel Marçal, e morreu na pobreza. Antes disso, teve seu amor pela amada esposa, conhecida como “Xandu”, imortalizado na música “Xanduzinha”, interpretada pelo inigualável Luiz Gonzaga.

Aproveitando o conhecimento dos mais experientes, junto com um doce de leita do sertão paraibano, na tranquila hospitalidade do nosso povo

Manuel Lopes, o “Ronco Grosso”, viveu inúmeras situações de perigo e atribulações. Mas Lopes Filho e Antônio Antas afirmam que ele prosperou, teve vários filhos, viu-os crescer, assistiu ao nascimento de vários netos e morreu na tranquilidade de sua velhice.

Sobre “Tocha”, sabe-se que ele seguiu para o sul do país, falecendo idoso na cidade paulista de Cubatão.

Segundo Anastácio Moraes e Antônio Antas, a única pessoa que realmente ganhou alguma coisa nessa história toda foi o humilde e honrado agricultor Olegário Bezerra, que seguiu à risca o que Meia-Noite lhe pediu.

  • TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOPG TOK DE HISTÓRIA EM 2008.

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QUANDO UM ÁS DA AVIAÇÃO ALEMÃO FEZ AMIZADE COM UM PRISIONEIRO DE GUERRA PRETO SUL-AFRICANO E DESAFIOU OS NAZISTAS!

Peter Dickenshttps://samilhistory.com/2016/12/29/german-ww2-fighter-ace-befriends-a-black-south-african-pow-and-defies-the-nazi-status-quo/

Esta fotografia é extraordinária por diversos motivos.

Nela, vemos o Hauptmann (Capitão) Hans-Joachim Marseille, o ás da aviação alemã da Segunda Guerra Mundial conhecido pelas Forças do Eixo como “A Estrela da África”, à extrema esquerda, e o Cabo Mathew ‘Mathias’ Letulu, um prisioneiro de guerra sul-africano que foi forçado a se tornar seu “batman” (assistente pessoal de um oficial) em 1942, mas que acabou se tornando seu amigo íntimo, à extrema direita da fotografia.

É bastante intrigante que Hans-Joachim Marseille tivesse um assistente sul-africano, por um lado, quando, por outro, ele era o piloto alemão mais temido na campanha do Norte da África, indiscutivelmente um dos melhores pilotos de combate que o mundo já viu. Ele acumulou um número considerável de aeronaves da Força Aérea Sul-Africana destruídas, totalizando mais de 100 aeronaves aliadas – principalmente da Força Aérea Real (RAF), da Força Aérea Real Australiana (RAAF) e da Força Aérea Sul-Africana (SAAF).

Hauptmann (Capitão) Hans-Joachim Marseille

É igualmente uma demonstração do caráter de Hans-Joachim Marseille como pessoa, visto que ele se opôs diretamente às políticas nazistas de segregação racial e fez amizade abertamente com um homem preto, o que é especialmente surpreendente considerando seu papel como oficial superior da Força Aérea Alemã (Luftwaffe) e herói do Reich.

Com o tempo, Marseille e “Mathias” Letulu tornaram-se inseparáveis. Marseille estava preocupado com a forma como Letulu seria tratado por outras unidades da Wehrmacht e certa vez comentou:

“Para onde eu for, Mathias vai.”

Cabo Mathew ‘Mathias’ Letulu

Marseille obteve a promessa de seu comandant.e superior, Neumann, de que, caso algo lhe acontecesse, o cabo “Mathias” Letulu permaneceria na unidade. Um comportamento incomum para um oficial alemão no Terceiro Reich, mas Marseille não era filiado ao partido nazista; na verdade, ele os desprezava.

Não Era Um Nazista

Em termos de personalidade, Hans-Joachim Marseille era o oposto de um oficial alemão altamente disciplinado; ele era “o engraçadinho” e quase foi expulso da Luftwaffe diversas vezes por suas travessuras. A única razão pela qual não foi expulso foi porque seu pai era um veterano de alta patente da Primeira Guerra Mundial e oficial do exército, e Hans-Joachim Marseille testou os limites dessa proteção.

Se você procurar “canalha desordeiro” no dicionário, deve encontrar uma foto do rosto sorridente de Hans ao lado. Em uma ocasião, ele chegou a metralhar o chão em frente à tenda de seu superior. Só por isso, ele poderia ter sido levado à corte marcial, mas a essa altura já estava demonstrando suas habilidades superiores de piloto, consolidando-se como um futuro ás da aviação de caça.

Comandante de esquadrão popular. Fonte da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille

Ele odiava os nazistas e desprezava a autoridade em geral, tendo sempre tido uma relação tensa com seu pai autoritário, que era o modelo de um oficial prussiano rigoroso. Hans era verdadeiramente o oposto de seu pai.

Seus biógrafos americanos, Colin Heaton e Anne-Marie Lewis, relembram em “A Estrela da África” ​​que ele certa vez parou na Autobahn simplesmente para urinar. Cansado de seu comportamento indisciplinado, um oficial superior o transferiu para o Norte da África em 1941. Lá, ele prosperou, seu currículo brilhante lhe rendeu a Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho, Espadas e Diamantes, e aclamação em seu país. Mas os registros sugerem que ele não era um nazista fervoroso.

Durante o treino. Crédito da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille

Ele ouvia abertamente música jazz proibida, bebia muito e às vezes aparecia para o serviço com cheiro de álcool e de ressaca; era um notório mulherengo, indo contra a ideologia nazista de todas as maneiras possíveis – e saindo impune.

Aconteceu um incidente que realmente demonstra a fibra e a atitude do homem. Ocorreu quando Hans-Joachim Marseille foi convocado a Berlim, pois Hitler queria lhe entregar condecorações. Como pianista talentoso, Marseille foi convidado a tocar uma peça na casa de Willy Messerschmitt, industrial e projetista do caça Messerschmitt Bf 109, com o qual Marseille havia obtido tanto sucesso.

Entre os convidados da festa estavam Adolf Hitler, o presidente do partido, Martin Borman, o vice de Hitler e comandante-em-chefe da Luftwaffe, Hermann Göring, o chefe da SS, Heinrich Himmler, e o ministro da Propaganda do Reich, Joseph Goebbels. Depois de impressioná-los com uma apresentação de piano de mais de uma hora, incluindo a obra “Für Elise”, de Ludwig van Beethoven, Marseille passou a tocar jazz americano, considerado degenerado pela ideologia nazista. Hitler se levantou, ergueu a mão e disse: “Acho que já ouvimos o suficiente” e saiu da sala.

Magda Goebbels achou a brincadeira divertida e Artur Axmann lembrou como seu “sangue gelou” ao ouvir aquela música “Ragtime” sendo tocada na frente do Führer.

Mas um episódio ainda mais revelador sobre sua atitude em relação ao nazismo estava por vir. Em uma ocasião, quando foi convocado à Alemanha, ele notou que judeus haviam sido removidos de sua vizinhança (incluindo o médico de sua família, que o havia trazido ao mundo) e questionou seus colegas oficiais sobre o que havia acontecido com eles – o que ele então ouviu foram os planos para a Solução Final – o extermínio dos judeus da Europa. Isso o chocou profundamente e ele desertou, tornando-se um desertor de fato e indo para a Itália, onde se escondeu na clandestinidade.

O Messerschmitt Bf-109F-4, do esquadrão JG27, pilotado por Hans-Joachim Marseille – Quadro de Arkadiusz Wróbel

A Gestapo (Polícia Secreta) nazista alemã, no entanto, conseguiu localizá-lo e o obrigou a retornar à sua unidade, onde outros pilotos notaram que ele parecia profundamente deprimido e preocupado, completamente diferente da pessoa alegre a que estavam acostumados.

Amizade Com o Cabo Mathew Letulu

A amizade de Marseille com seu “batman” (ajudante pessoal) também é usada para mostrar seu caráter antinazista. Em 1942, Marseille fez amizade com um prisioneiro de guerra do Exército Sul-Africano, o cabo Mathew Letulu. Marseille o acolheu como ajudante pessoal em vez de permitir que ele fosse enviado para um campo de prisioneiros de guerra na Europa.

“Mathias” era o apelido dado ao cabo Mathew Letulu por seus captores. O cabo Letulu fazia parte do Corpo Militar Nativo Sul-Africano e foi feito prisioneiro de guerra pelos alemães na manhã de 21 de junho de 1942, quando Tobruk e as tropas sul-africanas que a defendiam, sob o comando do General Klopper, foram invadidas pelo Marechal de Campo Erwin Rommel.

Marseille com um Hawker Hurricane MkIIB do Esquadrão 274 da RAF, Norte da África – 30 de março de 1942. Fonte da imagem: samilhistory.com

Os prisioneiros de guerra pretos recebiam tratamento diferenciado dos prisioneiros de guerra brancos pela Alemanha nazista. Em vez de serem simplesmente confinados conforme as convenções, os prisioneiros africanos eram submetidos a “trabalho” não remunerado, auxiliando a causa nazista, cuja resistência resultava em um desfecho terrível. Letulu foi colocado para trabalhar pelos alemães – inicialmente como motorista. O veículo pertencia ao 3º Esquadrão da Jagdgeschwader – ou Ala de Caça – 27 (JG 27), baseado em Gazala, 80 km a oeste de Tobruk. Lá, Letulu chamou a atenção do audacioso e romântico Hans-Joachim Marseille.

Nessa altura, Letulu já tinha progredido um pouco na sua carreira, tornando-se ajudante no casino do clube do 3º Esquadrão, onde desenvolveu uma afeição especial por Marseille. Como os oficiais alemães precisavam de assistentes pessoais (conhecidos no meio militar como “batman”), alguns prisioneiros de guerra foram recrutados, e com Hans-Joachim Marseille não foi diferente. O cabo Letulu foi inicialmente contratado como seu batman, mas rapidamente se tornou um amigo próximo.

Marseille sabia que, à medida que seu número de mortes aumentava, a chance de ser retirado da linha de frente crescia a cada dia, e se isso acontecesse, o cabo “Mathias” Letulu, que por ser preto, poderia estar em perigo devido à filosofia racial nazista. Com a maior seriedade, ele fez com que seu colega piloto, Ludwig Franzisket, prometesse se tornar o protetor de Mathias caso Marseille perdesse a capacidade de desempenhar essa função.

O cabo Letulu também sabia que, permanecendo com Marseille, teria uma chance maior de sobreviver à guerra e, eventualmente, escapar. Além disso, como ambos tinham uma relação extremamente positiva, Letulu fez o possível para que a vida de Marseille na zona de combate fosse a mais confortável possível.

O seguinte trecho sobre o vínculo único entre eles foi extraído de “German Fighter Ace – Hans-Joachim Marseille, The life story of the Star of Africa” de Franz Kurowksi.

Por algumas estranhas reviravoltas do destino, Hans designou Mathew como seu assistente pessoal, mas o tratou em todos os sentidos como um amigo, tendo longas conversas com ele e possivelmente até compartilhando bebidas alcoólicas e ouvindo música juntos, simplesmente passando tempo como dois amigos que por acaso estavam em uma guerra e em lados opostos.

Além de Mathew, Hans frequentemente encontrava outros pilotos aliados capturados e conversava com eles em inglês, socializando. Hans também desobedecia a ordens diretas de não informar o inimigo sobre o destino de seus pilotos – ele decolava sozinho com um bilhete de paraquedas explicando os nomes dos pilotos capturados e que estavam vivos e bem. Ao sobrevoar aeródromos inimigos para lançar esses bilhetes, ele era atacado por fogo antiaéreo, arriscando assim a própria vida para informar às famílias dos pilotos inimigos que eles estavam vivos e bem – ou mortos, removendo assim o status de MIA (Desaparecidos em Ação). Segundo diversas fontes, ele era assim: uma pessoa que acreditava na cavalaria e cujo país foi ocupado pelos nazistas.

Com o tempo, Hans se tornaria ainda mais protetor com Mathew, especialmente contra os nazistas.

Fonte da Imagem – giftedsofia.com

A “Estrela da África”

O recorde de Hans-Joachim Marseille de 151 vitórias no Norte da África foi nada menos que impressionante – ele destruiu esquadrões Aliados (RAF, SAAF e RAAF) abatendo cento e um (101) caças Curtiss P-40 Tomahawk/Kittyhawk, 30 caças Hawker Hurricane, 16 caças Supermarine Spitfire, dois bombardeiros Martin A-30 Baltimore, um bombardeiro Bristol Blenheim e um bombardeiro Martin Maryland.

Como piloto de caça, Marseille sempre se esforçou para aprimorar suas habilidades. Ele trabalhou para fortalecer as pernas e os músculos abdominais, para ajudá-lo a tolerar as forças G extremas do combate aéreo. Marseille também bebia uma quantidade anormal de leite e evitava usar óculos de sol, para melhorar sua visão.

Apresentado com um Volkswagen Kübelwagen pintado com a inscrição “Otto” (Otto = oito) . 
Fonte da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille

Para neutralizar os ataques dos caças alemães, os pilotos aliados voavam em “círculos de Lufbery” (nos quais a cauda de cada aeronave era coberta pela aeronave amiga atrás). A tática era eficaz e perigosa, pois um piloto que atacasse essa formação podia se encontrar constantemente na mira dos pilotos inimigos. Marseille frequentemente mergulhava em alta velocidade no meio dessas formações defensivas, tanto por cima quanto por baixo, executando uma curva fechada e disparando um tiro de deflexão de dois segundos para destruir uma aeronave inimiga.

Marseille atacou em condições consideradas desfavoráveis ​​por muitos, mas sua pontaria permitiu que ele se aproximasse com rapidez suficiente para escapar do fogo de resposta das duas aeronaves que voavam em cada flanco do alvo. A excelente visão de Marseille possibilitou que ele avistasse o oponente antes de ser avistado, permitindo-lhe tomar as medidas apropriadas e manobrar para a posição de ataque.

Em combate, os métodos pouco ortodoxos de Marseille o levaram a operar em uma pequena unidade líder/ala, que ele acreditava ser a maneira mais segura e eficaz de lutar nas condições de alta visibilidade dos céus do Norte da África. Marseille “trabalhava” sozinho em combate, mantendo seu ala a uma distância segura para que não colidisse com ele ou atirasse nele por engano.

Hans-Joachim Marseille com Erwin Rommel e outros, Líbia, 16 de setembro de 1942. Fonte da imagem: Pinterest

Em combates aéreos, especialmente ao atacar aeronaves aliadas em círculo de Lufbery, Marseille frequentemente preferia reduzir drasticamente a potência e até mesmo baixar os flaps para diminuir a velocidade e encurtar o raio de curva, em vez do procedimento padrão de usar potência máxima o tempo todo. Emil Clade afirmou que nenhum dos outros pilotos conseguia fazer isso com eficácia, preferindo mergulhar sobre oponentes isolados em alta velocidade para escapar caso algo desse errado.

As ligações de Marseille com a África do Sul iam além de seu vínculo com o Cabo “Mathias” Letulu e eram muito mais letais em relação aos pilotos sul-africanos. Nas semanas anteriores ao encontro dos dois, Marseille é creditado por ter abatido três pilotos da Força Aérea Sul-Africana a oeste de Bir-el Harmat, em 31 de maio, incluindo o Major Andrew Duncan, ex-aluno da Bishops (que morreu em combate), e três dias depois, outros seis pilotos da Força Aérea Sul-Africana em apenas 11 minutos, três dos quais eram ases da aviação. Um deles, Robin Pare, morreu em combate.

Morte do Capitão Hans-Joachim Marseille

Em 30 de setembro de 1942, o brilhante recorde de Marseille, com um total de 158 vitórias na carreira, chegou ao fim (151 delas com o JG 27 no Norte da África).

Messerschmitt Bf 109F-4, Hans Joachim Marseille, imagem colorizada. Fonte da imagem: samilhistory.com

Após o motor de seu caça Bf 109G apresentar sérios problemas, ele saltou de paraquedas próximo a território amigo, sob o olhar atento de seus companheiros de esquadrão. Para horror deles, o caça de Marseille caiu inesperadamente em um ângulo acentuado no momento do salto, com o estabilizador vertical atingindo-o no peito e no quadril. Ele morreu instantaneamente ou ficou inconsciente; em ambos os casos, seu paraquedas não abriu e ele caiu a cerca de 7 quilômetros ao sul de Sidi Abdel Rahman, no Egito.

Seu amigo e companheiro piloto da JG 27, o capitão Ludwig Franzisket, condecorado com a Cruz de Cavaleiro, juntamente com o cirurgião do esquadrão, Dr. Winkelmann, foram os dois primeiros a chegar ao local, trazendo os restos mortais de Marseille de volta à base.

Mathias foi o primeiro a cumprimentá-los, e o relato a seguir foi extraído das memórias de Wilhelm Ratuszynski.

Local da queda da aeronave de Marseille, chamado Memorial Pirâmide Hans Joachim Marseille (Bf 109 G-2/trop WK-Nr. 14256). Fonte da imagem: tracesofwar.com

Embora o calor não incentivasse nenhuma atividade, algo dizia a Mathias para lavar as roupas de Hans. Hans gostava de vestir um uniforme limpo depois do voo. Ele sempre gostava de estar apresentável. Mathias optou por usar gasolina desta vez. As roupas secariam em poucos minutos.

Normalmente, isso era feito esfregando os uniformes com areia para remover o sal, o óleo e a sujeira. Tudo era escasso. Ser ordenança pessoal de Hans-Joachim Marseille, o piloto mais famoso da Luftwaffe, tinha suas vantagens. Por exemplo, ele recebia um pouco de combustível de avião para lavar os uniformes. Mathias gostava de ser servo de Jochen e gostava do próprio Jochen.

Fonte da imagem: findagrave.com/memorial/81058613/hans_joachim-marseille

Eles eram amigos. Mathias mal havia começado sua tarefa quando o som de aeronaves se aproximando sinalizou para a equipe de solo que era hora de trocar a letargia pela atividade. Mathias colocou a tampa nos uniformes encharcados e começou a caminhar em direção à aeronave que estava pousando. Ele procurava um avião familiar que deveria ter o número 14 pintado em amarelo visível na fuselagem. Era para ser o último a pousar. Ele notou que três aviões estavam faltando e que o último a tocar o solo tinha um número diferente.

Sem se alarmar, ele se virou para Rudi, que já havia saltado da asa de seu 109. Viu Mathias se aproximando e interrompeu a conversa com seu mecânico. Seu rosto estava sombrio quando olhou para Mathias e balançou a cabeça lentamente. E Mathias entendeu imediatamente. Continuou olhando fixamente para o rosto de Rudi por mais alguns segundos, virou-se devagar e foi embora. Percebeu uma sensação estranha. Nenhuma raiva, tristeza, pesar ou resignação. Estava calmo, mas algo lhe apertava a garganta. Os músculos do pescoço se contraíram e ele teve dificuldade para engolir. Caminhou por alguns minutos sem notar os outros que o observavam. Chegou ao colorido Volkswagen de Jochen, chamado “Otto”, e sentou-se ao volante. Por um instante, pareceu querer ir a algum lugar, mas saiu do carro e se aproximou dos uniformes encharcados.

Marseille tocou jazz americano no piano de Messerschmitt na frente de Adolf Hitler. Crédito da imagem: samilhistory.com

Ele olhou para a sacola de lona com as iniciais HJ.M. ao lado. Levou a mão ao bolso do peito em busca de fósforos. Lentamente, mas sem hesitar, acendeu um fósforo e o jogou sobre a roupa. As chamas que irromperam aumentaram o calor já escaldante. Nesse instante, os últimos fogos de artifício começaram a cair. Mathias instintivamente ergueu a cabeça, acompanhando-os. O nó em sua garganta aumentou.

Embora todo o esquadrão estivesse devastado com a perda de um ás da aviação tão importante, Mathias, apesar de conhecer Marseille há pouco tempo, ficou profundamente deprimido com a perda de um querido amigo.

Marseille foi inicialmente sepultado em um cemitério militar alemão em Derna, na Líbia, durante uma cerimônia que contou com a presença de líderes como Albert Kesselring e Eduard Neumann. Posteriormente, seus restos mortais foram transferidos para Tobruk, também na Líbia.

Pirâmide de Marselha vista do oeste, Sidi Abd el-Rahman, Egito. Fonte da imagem: wikimedia.org

A Proteção de Ludwig Franzisket

Após a morte de Marseille, conforme prometido ao amigo, o Hauptmann Ludwig Franzisket acolheu o Cabo Letulu, que por sua vez se tornou seu assistente pessoal. O Cabo Letulu permaneceu no Esquadrão mesmo depois de Franzisket ter sido forçado a saltar de paraquedas, ocasião em que também atingiu o estabilizador vertical, fraturando uma perna. Após se recuperar, Franzisket retornou ao seu Esquadrão e o Cabo Letulu continuou a servi-lo na Tunísia, Sicília e, finalmente, na Grécia.

No verão de 1944, a situação na Grécia tornou-se crítica, com a iminente invasão britânica do continente grego. Surgiu então a oportunidade de “contrabandear” o cabo “Mathias” Letulu para um dos campos de prisioneiros de guerra improvisados, onde ele poderia ser “libertado” pelos britânicos. Franzisket planejou esse golpe em conjunto com o capitão Buchholz. “Mathias” voltou a ser “Mathew” e tornou-se cabo na Divisão Sul-Africana. Tudo correu sem problemas. Ele foi libertado pelas tropas britânicas em setembro de 1944 e autorizado a retornar para casa após o fim das hostilidades.

Fonte da imagem: Pinterest

Reunião em 1984

Por coincidência, após a guerra, antigos membros da JG 27 descobriram que o Cabo “Mathias” Letulu ainda estava vivo. Imediatamente enviaram-lhe um convite, pagaram a viagem e outras despesas e, finalmente, no décimo reencontro do Deutsches Afrikakorps, no outono de 1984, reencontraram-se com o seu antigo amigo sul-africano.

Os antigos pilotos ficaram radiantes ao vê-lo e os convites choveram de todos os lados. As palavras a seguir, proferidas em alemão como uma homenagem a Hans-Joachim Marseille por “Mathias” Letulu, no feliz desfecho de sua jornada, oferecem uma ideia do vínculo que uniu Letulu a seu amigo alemão:

“O Hauptmann Marseille era um grande homem e uma pessoa sempre disposta a ajudar. Ele era sempre bem-humorado e amigável. E foi muito bom para mim. ”

Em 1989, uma nova lápide e uma nova placa foram colocadas em seu túmulo; os camaradas sobreviventes da Luftwaffe de Marseille compareceram ao evento, incluindo seu amigo aliado – Mathew “Mathias” Letulu, que voou da África do Sul especialmente para participar da cerimônia.