A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE

Rostand Medeiros https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Desde que comecei a ler livros e a me interessar pelas envolventes histórias dos cangaceiros nordestinos, uma passagem em particular sempre me chamou muito a atenção. Foram as circunstâncias envolvendo um intenso tiroteio entre um antigo cangaceiro do bando de Lampião, conhecido como Meia-Noite, que enfrentou praticamente sozinho, durante mais de cinco horas de fogo cerrado, um grupamento policial que chegou a ter mais de oitenta homens.

Ocorrido em uma data incerta, mas que se situa em algum dia da segunda quinzena de agosto ou início de setembro de 1924, este desigual combate se desenrolou em uma propriedade rural chamada Tataíra, em meio às serras do então município paraibano de Princesa, na fronteira com Pernambuco.

Cangaceiro, de Portinari

O que chama atenção neste caso, além do imenso volume de fogo, foi a capacidade de resistência deste cangaceiro que, mesmo acuado em uma pequena casa rural e ferido, ainda conseguiu, em um primeiro momento, fugir, sendo morto apenas alguns dias depois, através de uma emboscada perpetrada por dois homens, um dos quais o ajudava em seu restabelecimento.

Ao ler estes fatos, no começo pensei ser mais uma das muitas fantasias que pululam nos inúmeros livros escritos sobre o cangaço. Pensava que, no caso de a história ser verdadeira, certamente esta casa deveria ter sido derrubada há muitos anos e que, após mais de oitenta anos, não haveria ninguém que pudesse narrar algo deste incrível episódio.

Não sabia o quanto estava enganado.

AS ORIGENS DO CONFLITO

Segundo a literatura relativa ao assunto, o tiroteio no sítio Tataíra tem origem em 27 de julho de 1924, quando um forte grupo de cangaceiros atacou com sucesso a cidade paraibana de Sousa, uma das mais importantes daquele estado.

Chico Pereira

O fazendeiro que vivia a alguns quilômetros de Sousa, em uma propriedade denominada Jacu, no então distrito de Nazareth, atual município de Nazarezinho, chamava-se Francisco Pereira Dantas, conhecido como Chico Pereira.

Seu pai, o afamado coronel João Pereira, foi assassinado em meio a disputas políticas. O comentário na região era de que os mandantes seriam pessoas importantes de Sousa. Entre os prováveis articuladores, constava o nome de Otávio Mariz.

O clima na cidade estava pesado, na iminência de ocorrerem novas ações violentas. Logo, este membro da influente família Mariz envolveu-se em uma briga na feira da cidade, onde chicoteou severamente uma pessoa ligada a Chico Pereira.

Estado atual da Casa Grande da Fazenda Jacu, Nazarezinho, Paraíba – Fonte – http://nazarezinho.informecapital.com.br

Em sua fazenda, ao saber do ocorrido, Chico Pereira exaltou-se. Ele teria então enviado um portador para dialogar diretamente com o famoso chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, solicitando seu apoio para a realização de um decisivo ataque contra seus inimigos em Sousa.

Após ouvir o portador vindo de Sousa, Lampião teria dado o aval para que dois de seus irmãos, Antônio e Levino Ferreira, além de certa quantidade de cangaceiros, seguissem para o Jacu, unissem forças com o grupo de homens em armas mantidos por Chico Pereira e atacassem a cidade.

O coronel José Pereira, no destaque de gravata.

Por esta época, Lampião convalescia de um forte ferimento, ocasionado inicialmente em um combate no lugar conhecido como Lagoa do Vieira, na zona rural do atual município pernambucano de São José de Belmonte.

O mais importante cangaceiro brasileiro recuperava-se na área da propriedade denominada Saco dos Caçulas, na zona rural da cidade de Princesa, na fronteira da Paraíba com Pernambuco. Esta propriedade pertencia a Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes de José Pereira de Lima, líder político e verdadeiro “dono” de Princesa.

Segundo relatos coletados na região, Marcolino Diniz, através da anuência de seu parente José Pereira, aparentemente firmou um acordo tácito com Lampião. O chefe cangaceiro estava protegido por estes homens poderosos na região da fazenda Saco dos Caçulas. Em contrapartida, seus cangaceiros não deveriam criar problemas em suas áreas de interesse.

Rodrigues de Carvalho, autor do livro “Serrote Preto” (Rio de Janeiro, 1974), afirma, na página 273, que Sousa ficava distante “35 léguas” de Princesa, equivalente a 210 quilômetros. Provavelmente Lampião imaginou que o ataque àquela cidade não traria problemas junto aos seus protetores e, assim, ficaria mantido o pretenso acordo.

Entre os homens que Lampião cedeu a Chico Pereira estava a “fina flor” do cangaceirismo da época. Homens como Sabino, José Cachoeira, Lua Branca e um homem negro, alto e forte, conhecido como Meia-Noite.

O cangaceiro Meia Noite

Segundo o escritor Érico de Almeida, no livro “Lampeão – Sua História” (págs. 63 a 68), publicado em 1926, o cangaceiro Meia-Noite chamava-se Antonio Augusto Feitosa. Teria, em 1924, a idade de 22 anos, sendo originário da região de Olho D’Água do Casado, próximo a Paulo Afonso, Alagoas, e possuía a fama de ser extremamente valente.

Diante de uma horda composta por um número de cangaceiros que superava os oitenta homens, todos dispostos e bem armados, o assalto a Sousa foi um sucesso para o bando.

Foto do bando de Lampião nos primeiros anos da década de 1920.

O saque foi tão desenfreado que até mesmo os aliados de Chico Pereira sofreram nas mãos dos cangaceiros. Casas comerciais, residências e qualquer local onde houvesse algo de valor foram “visitados”. A situação chegou a tal ponto que, durante o ataque, Chico Pereira deixou a função de chefe cangaceiro para tentar controlar as feras que ele mesmo havia incentivado a atacar a cidade.

João Gomes de Lira, que foi oficial da Polícia do Estado de Pernambuco, antigo perseguidor de Lampião e autor do livro “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” (Recife, 1990), afirma, na página 143, que Chico Pereira foi “quem muito defendeu Sousa de piores desatinos”.

Até hoje perdura o desconforto em relação a esta página negra da história daquela cidade. Em nossas pesquisas na região, ao entrarmos em contato com filhos daqueles que vivenciaram os fatos, é facilmente perceptível o constrangimento dessas pessoas em tecer algum comentário sobre este assunto.

Enquanto o grupo de atacantes retornava para Princesa, a repercussão do ocorrido espalhava-se pela Paraíba e pelo Nordeste.

Logo após tomar conhecimento dos estragos em Sousa, Lampião percebeu que enfrentaria a polícia paraibana e que dificilmente Marcolino Diniz e José Pereira continuariam a lhe oferecer a mesma proteção e o apoio de outrora.

Marcolino Diniz e seus cabras

Justamente nesta hora, quando o horizonte se mostrava repleto de nuvens negras, ocorreu, no seio do bando de Lampião, a saída de um dos seus mais destemidos membros.

Após retornarem para junto do chefe, durante um pernoite em uma fazenda denominada “Bruscas”, pertencente à família Lacerda, o intrépido Meia-Noite percebeu que algum companheiro havia lhe surrupiado a quantia de nove contos de réis, tão “arduamente” conseguida como “fruto do seu labor”.

Logo se iniciou uma discussão. Sem medo de nada, o cangaceiro enganado pelos companheiros apontou o dedo diretamente para os irmãos de Lampião, que, por sua vez, afirmavam inocência. O clima esquentou. Meia-Noite logo se colocou pronto para o que viesse a ocorrer, empunhando seu fuzil Mauser.

Lampião, em pessoa, interveio no conflito, mas naturalmente se posicionou a favor dos irmãos, e a situação quase chegou a um desfecho trágico.

Lampião tinha enorme respeito pelo cangaceiro Meia-Noite

Sabendo o tipo de homem que Meia-Noite era, a quem conhecia há alguns anos, Lampião decidiu então pagar os nove contos ao terrível cangaceiro.

Após a entrega do dinheiro, Lampião impôs uma condição: seu companheiro teria de entregar suas armas para outros membros do bando. Meia-Noite percebeu que, estando desarmado, fatalmente seria novamente roubado e morto.

O valente negro não se fez de rogado. Colocou uma bala na câmara de seu fuzil, apontou a arma para Lampião e “convidou” o chefe e quem mais o acompanhava a vir tomar seu armamento.

Segundo relatos obtidos por Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 274 e 275) junto ao fazendeiro Zuza Rodrigues — que anteriormente ouviu a história do cangaceiro Lua Branca, presente à cena —, nesse momento todos ficaram quietos, admirados ante a valentia do negro, que mantinha o fuzil apontado diretamente para Lampião. O chefe sempre admirava os valentes e, apesar de consternado diante da afronta, baixou a guarda. Além do mais, não havia muito o que fazer, pois, se Meia-Noite atirasse, Lampião sabia que dali seu destemido cangaceiro não sairia vivo, mas provavelmente ele, Lampião, também não. O cangaceiro negro foi, então, expulso do bando e seguiu viagem pelas estradas do sertão.

Região da Serra do Pau Ferrado – Foto – Rostand Medeiros

Em sua juventude o Senhor Antônio Antas Dias, que vive na cidade paraibana de Manaíra e não muito distante de Princesa, conviveu e conheceu na intimidade Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes do “dono” de Princesa, José Pereira. Além de Marcolino, Antônio Antas conviveu igualmente com Luiz Nunes de Souza, que ficou conhecido como o mítico cangaceiro “Luís do Triângulo”, com Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso”, e com outro homem conhecido como “Tocha”. Todos eles eram homens de extrema valentia e de total confiança de José Pereira e Marcolino Diniz.

Altivo, tranquilo e prestativo, Antônio Antas foi quem me fez conhecer aspectos interessantes da região, onde já estive em quatro ocasiões. Em uma delas, perguntei ao amigo Antônio sobre o combate da Tataíra. Para minha surpresa, ele afirmou que a história da valentia de Meia-Noite era muito conhecida na região, que a casa ainda estava de pé, servindo de moradia até hoje (2008), e que aparentemente não tinha sido drasticamente reformada. O mais importante: havia pessoas, filhas daqueles que vivenciaram os fatos, que poderiam transmitir de forma correta aquilo que seus pais e parentes relataram do tiroteio de 1924.

O amigo Antônio Antas, apontando os caminhos da história da Tataíra

Parti junto com Antônio Antas para visitar o local e resgatar, junto aos filhos das testemunhas — pessoas que atualmente se situam na faixa dos sessenta a oitenta anos e que continuam lúcidas —, a memória desse acontecimento. Essas pessoas, mesmo não sendo testemunhas diretas, ouviram as narrativas em um ambiente mais tranquilo, anterior à massificação do rádio e da televisão, que era mais propício para que a lembrança dos fatos ocorridos fosse transmitida de forma rica em detalhes. O resultado foi muito animador.

A TRANQUILIDADE NO SACO DOS CAÇULAS

O agricultor Anastácio de Souza de Moraes, de 69 anos à época de minha entrevista (2008) e morador do sítio Bandeira, vizinho a Tataíra, narrou-me que seu pai, Manuel Moraes, assistiu de sua casa (onde até hoje Anastácio reside) a todo o conflito ocorrido em setembro de 1924. Anastácio, homem calmo, tranquilo e calejado nas lides do campo, comentou que, para as pessoas da região, o apelido Meia-Noite não tinha origem apenas no fato de ele ser negro, mas porque o valente cangaceiro possuía o hábito de circular pela região sempre à noite.

Casa Grande dos Patos

Segundo o nosso entrevistado, nos dias em que Meia-Noite circulou por aquele setor, ainda junto a Lampião e seu bando, os cangaceiros consideravam aquele local o seu melhor refúgio. Percebemos isso ao circular na estrada de barro que liga a cidade de São José de Princesa à fronteira de Pernambuco, pois em nenhum momento é possível visualizar, mesmo estando em altitude, a atual comunidade do Saco dos Caçulas ou as casas da propriedade Tataíra. São elevações se sobrepondo a elevações, criando no meio delas uma área quase fechada, um verdadeiro “saco”.

Além do apoio de Marcolino Diniz, outra razão positiva para a região do Saco dos Caçulas ser considerada um ótimo esconderijo era a existência de um afamado armeiro e ferreiro chamado Zé André. Este sempre calibrava as armas, ajeitava uma agulha, um gatilho, trocava uma mola ou uma coronha. Anastácio e Antônio Antas o conheceram em plena atividade e são unânimes em afirmar que André era um verdadeiro artista.

É conhecido na região que, muitas vezes, Lampião saiu de seus esconderijos, acompanhado de seus homens de maior confiança, como seus irmãos e Luís Pedro do Retiro, para jogar cartas com Marcolino Diniz no casarão da fazenda Patos de Irerê. A tônica dessas jogatinas eram as apostas com altas somas de dinheiro.

Os cangaceiros não ficavam fixos em uma única casa; estavam sempre passando de um refúgio para outro. A residência que eles mais apreciavam, segundo relatos do pai de Anastácio, era uma velha vivenda situada no sítio Pedra, cujo proprietário era conhecido como “Domingos da Pedra” e era muito ligado a Marcolino Diniz.

Nesse refúgio, era comum a presença de um sanfoneiro chamado Joaquim Preto, que vinha do sítio Covão, local onde bailes eram frequentemente realizados. O agricultor Manoel Moraes, pai do nosso entrevistado, frequentou muitas dessas festas ao lado de outras pessoas da região.

Segundo ele, sempre existiu muito respeito por parte dos cangaceiros em relação à população local, sendo provável que tenha sido em um desses bailes que o afamado Meia-Noite conheceu Zulmira.

Igreja de Patos do Irerê

Sobre essa sertaneja, ela era natural da área da fazenda Saco dos Caçulas, onde morava com sua família. Segundo Anastácio, os pais da jovem posicionaram-se contrários ao relacionamento. Mas quem iria contra Meia-Noite? Logo, ela fugiu com seu cangaceiro.

A REGIÃO SE TORNA PERIGOSA

Mas, depois do ataque a Sousa, tudo mudou.

Lampião foi avisado de que deveria deixar a região do Saco dos Caçulas. Logo, ele e seus homens passaram a ser tenazmente acossados pela polícia e por homens contratados por José Pereira.

Diante da nova situação e do seu retorno à região, Meia-Noite passou a circular com muito cuidado. Ele nunca dormia no mesmo local; seguia para vários esconderijos diferentes, levando a amada a reboque.

Consta que Meia-Noite era visto circulando abertamente com um fuzil Mauser, uma pistola e um punhal. Já Zulmira transportava um rifle modelo Winchester.

Manoel Moraes informou a seu filho que, pela proteção e pelo silêncio do povo da região, Meia-Noite desembolsava certas quantias em dinheiro, que satisfaziam aqueles que lhe davam abrigo e deixavam outros se roendo de inveja.

Para o pai de Anastácio, foi na ocasião em que o valente cangaceiro se encontrava homiziado em uma das casas do sítio Tataíra, pertencente a um fazendeiro conhecido como Tibúrcio Barreto, que provavelmente algum proprietário vizinho se dirigiu a Princesa e delatou ao coronel José Pereira o local onde Meia-Noite se encontrava.

A antiga Pincesa Isabel

Segundo Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 280), o coronel ordenou a um de seus homens de confiança, Manoel Virgulino, que fosse a Tataíra com doze homens, trazendo a ordem de:

“– Trazer o negro de qualquer maneira, na corda ou no pau”.

Esta ordem significava que deveriam trazê-lo amarrado vivo ou, caso estivesse morto, transportá-lo amarrado a uma vara, carregada por dois homens.

Às nove da noite, Manoel Virgulino segue de Princesa junto com seu grupo. Demoram quatro horas em marcha discreta e ininterrupta. Anastácio Moraes informou que o grupo de captura passou por várias casas perguntando sobre o cangaceiro e logo chegou à casa do ferreiro e armeiro Zé André. Este acordou com a movimentação ao redor de sua residência e com homens batendo à sua porta. Ao abrir, Zé André se assustou com as pessoas armadas, que lhe perguntaram de forma ríspida se Meia-Noite estava homiziado em sua casa ou se ele sabia de seu paradeiro. Ele negou conhecer a localização do cangaceiro; os homens aceitaram a informação e seguiram em direção às casas do sítio Tataíra.

Zé André não foi molestado, mas não teve dúvidas em relação ao que iria ocorrer e tratou de abandonar sua pequena vivenda em busca de refúgio na casa de parentes.

Casa do sítio Tataíra, onde ocorreu o feroz tiroteio. Na época a casa tinha uma divisão.

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 280) informa que, realmente, a volante bateu de casa em casa, recebendo sempre respostas negativas, e que o grupo já estava desanimando com o resultado, pronto para retornar a Princesa.

Em uma das últimas tentativas, o grupo encontrou duas casas lado a lado no sítio Tataíra, com uma grande palmeira na parte frontal. Não eram residências muito grandes; possuíam telhados típicos do sertão, em forma de “V” invertido, tipo conhecido como “duas águas”. Suas paredes eram bem rígidas, feitas com grandes tijolos maciços e aparentes. Perceberam que uma das casas servia de moradia e a outra funcionava como local de transformação de mandioca em farinha, pois possuía uma chaminé no alto e apenas uma porta e uma janela na parte frontal. As casas estavam situadas em uma pequena elevação, o que deixava os atacantes em desvantagem, pois quem estava no interior tinha o campo de tiro completamente aberto e facilitado.

O grupo passou a interpelar os que ali habitavam. Não obtiveram uma resposta rápida, mas ouviram barulhos e aguardaram. Logo, uma voz de mulher se fez ouvir. Os membros da volante pediram para entrar, mas a voz feminina afirmou ser de uma mulher idosa, que estava sozinha e não iria abrir. Os homens de José Pereira voltaram à carga, batendo com mais força na porta. A voz feminina perguntou: “— Se são homens do coronel?”. Diante da resposta afirmativa, Meia-Noite deixou de lado o disfarce e abriu fogo, em meio a uma série de impropérios, palavrões e baixarias.

Lateral da casa do sítio Tataíra

Manoel Virgulino interpelou o cangaceiro para que se entregasse, pois iriam pegá-lo “vivo ou morto”. O cangaceiro, segundo Anastácio, respondeu: “— Nem morto nem vivo, e quem entrar leva tiro!”.

Teve início, então, aquele que é considerado um dos mais intensos, desiguais, longos e ferozes combates ocorridos no período do cangaço.

O INCRÍVEL “FOGO” DA TATAÍRA

Os membros do grupo atacante perceberam que estavam diante de um combatente destemido e preparado. Era tal a quantidade de disparos que saíam do interior da casa que ficava difícil acreditar que apenas uma arma era disparada por vez. Tanto as narrativas dos moradores da região quanto a literatura existente são taxativas em afirmar que Zulmira não atirou, mas municiava as armas do companheiro.

O esperto Meia-Noite tinha certeza de que os homens de José Pereira desconheciam sua saída do bando de Lampião e passou a admoestar os atacantes com o blefe de que seus companheiros os atacariam pela retaguarda. Não é difícil imaginar que, diante da possibilidade de seu grupo sofrer uma emboscada, Manoel Virgulino tenha dividido o contingente de ataque, e essa atitude ajudou a prolongar o cerco.

Outra vista da casa

O combate se prolongava. A madrugada estava findando e os atacantes certamente sabiam que, com o eco do tiroteio se expandindo pelas serras, logo outros companheiros das volantes estariam chegando.

Em dado momento, Meia-Noite pediu garantia de vida para sua companheira. Para a sertaneja Zulmira, aquela zoada, aquela tensão, eram demais. Os homens de Manoel Virgulino informaram que ela estava garantida, que nada de mal ocorreria à jovem e que, se Meia-Noite quisesse, ele também teria sua vida poupada para seguir para sua cela em Princesa.

Valentão e ousado, ir para a cadeia era a máxima das desonras para Meia-Noite, e sua resposta foi outra série de impropérios e mais chumbo.

Mas, diante da situação da jovem e das palavras de seus inimigos, que diziam que ele era covarde por manter a mulher dentro da casa, houve uma trégua, e Zulmira deixou a casa de farinha levando alguns poucos pertences.

Após a saída de sua amada, Meia-Noite despejou fogo e novos insultos contra seus inimigos.

Tenente Manuel Benício

Já eram quatro horas de troca de tiros quando ecoou na serra o toque de uma corneta. Segundo Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 66), era a volante do tenente Manuel Benício, acrescida do pessoal de Clementino Quelé e Francisco Oliveira, que estavam aquartelados no alto da serra do Pau Ferrado.

Já Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 284) informa que este grupo se encontrava em um sítio denominado Baixio, a 15 quilômetros de Tataíra e próximo à fazenda Patos, cujo proprietário era Marcolino Diniz. O autor narra as inúmeras dificuldades enfrentadas pelo grupo de policiais para alcançar a região do conflito e, neste aspecto, estava correto.

Visitando a região, esplendorosa em sua beleza serrana, não foi difícil perceber o enorme grau de dificuldade que os policiais enfrentaram para chegar a Tataíra.

Segundo o mapa em escala de 1:100.000, produzido pela SUDENE, a altitude onde se localiza o sítio Baixio é de quase 900 metros. O grupo, então, desceu em torno de 400 a 450 metros até o vale onde se situa o antigo casarão da fazenda Patos e tornou a subir para uma cota superior a 800 metros, seguindo em direção à casa onde se encontrava o terrível e valente cangaceiro. Tudo isso em uma época em que a cobertura vegetal era bem mais cerrada.

Entrevistado de 2008 apontando onde a polícia estava. A casa da Tataíra está nas costas do fotógrafo – Foto – Rostand Medeiros

Certamente, nesta hora, o cangaceiro Meia-Noite deve ter se imaginado perdido, pois sabia que aquela corneta significava a chegada de uma força policial que, segundo Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 67), chegava a 84 homens.

Para a população local, o número de combatentes contra o solitário Meia-Noite ficava em torno de 100 a 120 homens. Independentemente do número exato, a desproporção era enorme, e logo uma sinfonia de disparos ecoava pelas serras.

Mesmo assim, nem com a chegada dos reforços policiais o valente alagoano refreou seu ímpeto, continuando a dizer todos os palavrões que conhecia e mandando bala. Logo, dois membros da polícia foram feridos.

Manoel Moraes informou a seu filho que, depois do “fogo”, os policiais comentaram na região que:

“– O negro tanto atirava como dizia baixarias, recitava versos e até cantava”.

Provavelmente Meia-Noite, sozinho dentro da casa, cantava, dizia palavrões e recitava versos populares para suportar o cansaço, a tensão e encontrar forças para continuar a luta.

Outra área onde se posicionou as tropas policiais – Foto – Rostand Medeiros

A noite se encerrava. Dentro da casa de farinha, Meia-Noite via as munições do fuzil, da pistola e do rifle escassearem rapidamente.

Só tinha duas saídas: ou se entregar ou sair para o “campo da honra” e lutar até a morte. No final das contas, Meia-Noite sabia que morreria de qualquer maneira.

Os atacantes atiravam incessantemente quando Meia-Noite gritou que iria sair. Certamente, um frêmito de vitória percorreu o meio da tropa e, possivelmente, alguns até comemoraram antecipadamente.

Ele ainda alertou que a polícia preparasse as armas:

“– Que ele iria sair”.

Durante cerca de dez a quinze minutos, o silêncio imperou no campo de luta. Os atacantes imaginaram que o cangaceiro estaria morto ou ferido.

Existem duas versões para o que ocorreu a seguir. Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 286 e 287) afirma que os atacantes, já perturbados com o silêncio prolongado e acreditando que Meia-Noite estava ferido ou morto, entraram no recinto e descobriram que ele havia sumido, desaparecido.

Região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

O autor afirma que a quantidade de tiros era tão grande que a fumaça produzida pelas armas foi “capaz de anular a visibilidade”. O cangaceiro teria aproveitado aquele momento para fugir, deixando um rastro de sangue.

Já as pessoas da região, como Anastácio, Antônio Antas e outros, são categóricas em afirmar que Meia-Noite, após anunciar que ia sair, deu um tempo e então atirou um objeto com certo volume diante da casa de farinha. Quem estava de arma pronta meteu bala no que se projetou para fora da casa. Para uns, o que Meia-Noite jogou foi uma mala; para outros, um caçuá; e, para terceiros, um saco.

Depois dos inúmeros disparos no objeto, o ágil alagoano de 22 anos aproveitou o momento em que o grupo de atacantes recarregava as armas e saiu da casa em desabalada carreira. O comentário na região foi que ele correu atirando, gritando, colocando nova munição na câmara do seu fuzil, atirando novamente, pulando no meio dos soldados e descendo o aclive onde se situa a casa da Tataíra. Manuel Moraes informou ao seu filho que dois soldados, vendo a figura de Meia-Noite se aproximar, abandonaram seus postos e fugiram.

Mesmo conseguindo furar o cerco inicial, o grupo de atacantes não era pequeno. Apesar de a visibilidade estar limitada pela pouca luz e de o alvo estar correndo, um policial mais atento fez pontaria com seu fuzil e abriu fogo. O tiro atingiu uma das pernas do cangaceiro. Ele caiu, mas logo se levantou, pulou uma cerca, caiu de novo e continuou a fuga em meio a outros disparos.

Outra vista da região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

Não encontrei na região ninguém para corroborar a afirmação de Rodrigues de Carvalho, mas todos são unânimes em comentar, sempre com uma ponta de espanto, a segunda versão da escapada de Meia-Noite.

Para os moradores locais, o sucesso inicial da fuga de Meia-Noite deveu-se ao fato de ele ter aproveitado espertamente o lusco-fusco da manhã, aquela hora em que a visibilidade ainda não é plena. Houve também um excesso de confiança dos atacantes em relação à sua superioridade numérica, o que os deixou desatentos. Outra causa possível pode estar no fato de que o grupo de Manoel Virgulino, assim como as tropas de Benício, Quelé e Oliveira, já estava muito cansado — uns pelo cerco prolongado e outros pelo sobe e desce de serras elevadas.

O certo é que, mesmo em grande vantagem numérica, a tropa não se movimentou para caçar o fugitivo, apesar de ele estar ferido.

A BUSCA POR UM ABRIGO

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 286 e 287) afirma que, depois de baleado, em meio à fuga desesperada pelas serras, Meia-Noite teria quebrado um braço ao pular uma cerca. Após isso, ele teria se encontrado com um agricultor, a quem entregou uma pequena soma em dinheiro para ser repassada a Zulmira.

Foto – Rostand Medeiros

Já Anastácio Moraes afirma que foi um amigo de sua família quem realmente se encontrou com o fugitivo. Ele se chamava Olegário Bezerra, era conhecido do cangaceiro, proprietário de um pequeno sítio no lugar Bandeira e considerado uma pessoa humilde e honrada. Diante da situação vexatória, Meia-Noite entregou a Olegário grande parte do dinheiro que transportava e disse: “— Olegário, pegue esse dinheiro aí. Se eu voltar, eu pego novamente; se não voltar, é seu”, fugindo em seguida.

Zulmira, em um primeiro momento, foi levada para Princesa, onde ficou presa.

Na sequência, segundo a versão oficial apresentada por Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 67) e Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 288), Meia-Noite caminhou cerca de doze quilômetros até a casa de um agricultor, que aparentemente lhe dispensou todo o cuidado e apoio. O benfeitor avisou ao ferido que iria buscar uma pessoa de confiança, que trabalhava com ervas, para preparar algo que cuidasse de seus ferimentos. Mas, em vez de buscar ajuda para o rapaz, ele foi atrás do inspetor de quarteirão da povoação de Patos, o valente Manoel Lopes Diniz, conhecido como “Ronco Grosso”. Este teria, então, ido à casa do agricultor acompanhado de mais quatro homens e dado voz de prisão a Meia-Noite, que resistiu e acabou trucidado.

Manoel Lopes Filho e Antônio Antas – Foto – Rostand Medeiros

Para Anastácio e Antônio Antas, a história foi “mais ou menos assim”. Eles me aconselharam, então, a procurar uma fonte mais gabaritada e que fora muito próxima de Manoel “Ronco Grosso” Lopes: o seu próprio filho.

Morando perto da comunidade do Saco dos Caçulas, encontrei um homem chamado Manoel Lopes Filho. Ele tem mais de 1,80 m de altura, é magro, mas ágil de corpo, tem cara de poucos amigos, usa bigode e possui uma aparência que não deixa transparecer sua idade já superior a 70 anos.

No primeiro momento, ele me olhou de uma maneira que me pareceu desconfiada. Sua voz é de barítono, grave e forte como a de seu pai. À medida que conversávamos e ele percebia que eu tinha certo conhecimento dos fatos, foi relaxando e ficando mais à vontade. Minha sorte foi estar na companhia de Antônio Antas, amigo de longa data dele, pois Lopes Filho me confessou mais tarde que não gosta de falar sobre o pai com pessoas estranhas.

Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso” e sua esposa. Foto provavelmente da década de 1950 – Foto – Aldo Lopes

Mesmo estando em um local calmo, na “rua” de um vilarejo que não possui nem 500 habitantes, ele me disse que era melhor irmos para um bar mais afastado da pequena comunidade, onde poderíamos conversar mais à vontade, sem a presença de pessoas indiscretas. Ao chegarmos a um barzinho que mais parecia um depósito, sentamos em uma mesa simples de madeira com tamboretes velhos. Lopes Filho prontamente procurou ficar de costas para a parede e de frente para a porta.

Ele adiantou que, em várias ocasiões, seu pai lhe narrou diversos acontecimentos e diálogos que manteve com Lampião e outros cangaceiros. Não negou, de forma alguma, que “Ronco Grosso” foi homem de extrema confiança de José Pereira, para quem realizava “o que fosse necessário”. Sobre Meia-Noite, Lopes Filho comentou que seu pai o considerava o cangaceiro mais valente e perigoso de todo o bando de Lampião.

No dia do tiroteio, “Ronco Grosso” estava realizando tarefas em sua propriedade; logo soube do ocorrido na Tataíra e ficou alerta. Seu filho afirma que o velho Manuel Lopes não sabia da caçada a Meia-Noite ordenada por José Pereira e continuou sua lide normalmente. Nesse meio-tempo, o cangaceiro alagoano ferido chegou à casa do agricultor Zé Sabino, e este ajudou a levar Meia-Noite ao sítio de Manuel Lopes, que era relativamente próximo.

O valente combatente trazia um pano amarrado à perna para estancar o sangue, além do braço machucado. Manuel Lopes, no dizer de seu filho, era um “raizeiro”; logo começou a cuidar do ferimento em um barraco que existia nas proximidades. Fez uma mistura de farinha, mastruz e pimenta-malagueta para o ferimento na perna, que já estava ficando escuro, e entalou o braço de Meia-Noite. Gradativamente, com a aplicação dos remédios naturais, o cangaceiro foi melhorando.

Foto – Rostand Medeiros

O FIM DE UM VALENTE

Logo, Manuel Lopes tomou conhecimento de que a volante de Manuel Benício estava nas proximidades, rondando em busca do fugitivo. Sem saber que seu patrão estava interessado na eliminação do cangaceiro, Manuel Lopes levou Meia-Noite para uma pequena gruta existente nas proximidades, localizada no alto de um serrote.

Segundo Lopes Filho, coube a um amigo de seu pai, chamado João Bezerra, então um jovem de 18 anos, levar duas vezes por dia alimentação e água ao cangaceiro. Em 2008, mesmo debilitado, João Bezerra ainda estava vivo, aos 102 anos.

Manuel Benício soube, através de outras pessoas, que Manuel Lopes estava dando apoio a Meia-Noite. Seguiu então para a propriedade do homem de confiança de José Pereira, com a intenção de cercá-la e tentar capturar o fugitivo.

Em 2015, sete anos depois da primeira visita, voltei a região do saco dos Caçulas e reencontrei os amigo Antônio Antas e Manoel Lopes Filho, que junto com um guia buscamos ir até agruta onde o cangaceiro Meia Noite foi morto por Manoel Lopes e Tocha.

Antes de chegar à casa de Manuel Lopes, encontraram João Bezerra transportando uma bolsa com alimentos e uma cabaça d’água. Começaram a “arrochar” o jovem, e ele “abriu o bico” sobre o que estava fazendo.

Entre seguir diretamente para o esconderijo onde estava Meia-Noite ou obter informações com Manuel Lopes sobre o que estava ocorrendo, Benício optou pela segunda alternativa.

Lopes Filho informa que “Ronco Grosso”, ao saber da aproximação da volante, deixou sua casa e seguiu em direção a Princesa para dialogar com José Pereira e saber o que significava aquilo.

Aspecto do relevo da região íngreme do Saco dos Caçulas, onde Meia-Noite buscou abrigo após ficar ferido.

Para o filho de Manuel Lopes, se havia uma classe de pessoas que seu pai mais desprezava, de todas as maneiras, eram os policiais.

Em Princesa, no casarão de José Pereira, o chefe político informou-lhe toda a situação. Com relação à polícia, José Pereira foi enfático e disse que “Ronco Grosso” não se preocupasse, pois eles não lhe perturbariam.

Mas, em relação ao caso envolvendo Meia-Noite, José Pereira foi categórico:

“– Ele tinha que trazer as duas orelhas do cangaceiro e ponto final”.

Manuel Lopes nada tinha contra o cangaceiro alagoano. Pelo contrário, até o admirava pela valentia e coragem. Porém, desobedecer a uma ordem direta de José Pereira, principalmente em um caso como aquele, seria o mesmo que praticar um suicídio.

Entre esses dois grandes blocos de granito está a abertura da gruta onde morreu o cangaceiro Meia Noite. Infelizmente a sua entrada estava obstruida.

Sem outra alternativa, buscou o apoio de outro homem, conhecido como “Tocha”, tido como valente e disposto.

Cerca de cinco dias depois do “Fogo da Tataíra”, já durante a noite, os dois homens encarregaram-se de levar a comida e a água ao cangaceiro.

Ao chegarem à gruta, o arisco Meia-Noite estranhou a ausência de João Bezerra. Estranhou ainda mais a presença daqueles dois homens armados e, conhecendo quem eles eram, ficou bastante desconfiado.

“Ronco Grosso” e “Tocha” prontamente acalmaram o valente Meia-Noite. Comentaram que estavam juntos para se protegerem da polícia, mas o fugitivo não baixou a guarda. Colocou uma bala na câmara do fuzil e permaneceu à espreita.

Obstrução da entrada da gruta do cangaceiro Meia Noite.

Os dois homens preparavam-se para sair — ou assim diziam — quando perceberam um momento de distração de Meia-Noite. Sacaram suas armas e abriram fogo.

O cangaceiro ainda tentou um salto, empunhando uma pistola na mão, mas novas descargas o atingiram e o abateram.

Sem muita cerimônia, enterraram o cangaceiro na parte externa dos grandes blocos graníticos que formavam a pequena cavidade natural. Antes, porém, cortaram suas orelhas como prova.

Antonio Antas afirmou ter escutado muitas vezes Manuel Lopes comentar que foi “Tocha” quem realizou a primeira deflagração. Este, por sua vez, afirmava categoricamente que havia sido “Ronco Grosso” quem efetuara o primeiro disparo.

Em relação à “prestação de contas” a José Pereira, não apenas Lopes Filho e Antonio Antas, mas também outras pessoas da região, afirmaram que, na tarde posterior à morte de Meia-Noite, os dois matadores foram ao casarão do chefe político de Princesa.

José Pereira encontrava-se em uma reunião com “pessoas gradas” da sociedade local, todos sentados na sala principal da casa, entre eles algumas senhoras.

A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE
Foto – Rostand Medeiros

Os dois homens valentes, porém simples nos gestos e no vestir, ficaram aguardando mais reservadamente o chefe, trazendo um pacote nas mãos.

José Pereira mandou que eles se aproximassem e perguntou, animadamente, diante de todos, o que desejavam. Eles permaneceram calados, um tanto acabrunhados.

O dono da casa, imaginando que o silêncio daqueles homens rudes fosse resultado da timidez por se encontrarem diante dos doutores do lugar e de suas senhoras, incentivou novamente para que falassem, mesmo diante de todos.

A partir daí, “Ronco Grosso” não se fez de rogado. Abriu o pacote, retirou um pano ensanguentado e foi desenrolando-o, apresentando a todos as orelhas de Meia-Noite.

O espanto foi geral, e o embaraço de José Pereira tornou-se evidente.

Mas eles haviam cumprido à risca aquilo que lhes fora mandado.

Foto – Rostand Medeiros

CONCLUSÃO

Após a saída de Lampião de Princesa, ele ainda circulou pela região por alguns anos. Em 1929, seguiu para a Bahia e pouco retornou à Paraíba. Provavelmente, até o fim de sua vida na Grota de Angico, em 1938, Lampião devotou um enorme ódio a José Pereira. Para alguns, parte desse sentimento estava ligado à morte de Meia-Noite, a quem o chefe cangaceiro sempre tratou com enorme respeito.

Existe uma versão na qual a razão da morte de Meia-Noite envolvia a raiva que José Pereira sentia do cangaceiro por este ter feito uma piada ou observações baixas e indecorosas sobre a esposa do líder político de Princesa. Entretanto, o próprio Lopes Filho considera essa versão falsa ou criada apenas para encobrir as verdadeiras intenções de José Pereira.

Para ele, o desejo do “dono” de Princesa com a eliminação de Meia-Noite, bem como com a expulsão de Lampião da região, era afastar essa gente para evitar que seus adversários na capital paraibana o tachassem de ser um reles “coiteiro de cangaceiros”. Outra situação que o entrevistado aponta, com razão, é o fato de Meia-Noite ser um arquivo vivo, de modo que sua eliminação teria sido efetuada para evitar problemas futuros.

Existe também outra versão, propagada por muitos pesquisadores do cangaço, na qual José Pereira e Marcolino Diniz teriam se compactuado com Lampião, dando-lhe proteção e apoio em troca de dividirem o apurado conseguido em roubos e assaltos, servindo como uma espécie de “banco”. Com a consequente expulsão do capitão da região, José Pereira e Marcolino teriam ficado com todo o dinheiro. Lopes Filho já havia ouvido falar sobre essa versão, mas de seu pai, que lhe contou muita coisa sobre aquela época, ele nunca ouviu nada que confirmasse tal situação.

Ao longo dos anos, a região de Princesa presenciou outros acontecimentos ligados ao cangaço. Mas o fato histórico mais importante ocorrido nessa cidade em todo o século XX ficou conhecido como a Revolta, Sedição ou Guerra de Princesa. Esse foi um curto, mas intenso conflito ocorrido no sertão paraibano, ocasionado basicamente por divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e da política do interior do estado, encabeçados principalmente por José Pereira.

Um interessante visual do Saco dos Caçulas.

Durante cerca de quatro meses, com o apoio do Governo Federal e dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte — respectivamente, Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria —, José Pereira sustentou um sangrento conflito contra as forças públicas estaduais comandadas por João Pessoa e pelo seu chefe de polícia, José Américo de Almeida. Além das pessoas ligadas diretamente por vários laços a José Pereira, inúmeros ex-cangaceiros e desertores da polícia paraibana formavam suas tropas. Marcolino Diniz, Manuel “Ronco Grosso” Lopes, “Tocha” e “Luiz do Triângulo” foram figuras de liderança e destaque nos combates. As narrativas obtidas na região sobre a participação desses homens nesse conflito dariam para escrever, no mínimo, três artigos como este.

Com a morte de João Pessoa em Recife e a deflagração da Revolução de 30 — que culminou com a chegada de Getúlio Vargas ao poder —, a maré mudou de lado e o conflito se encerrou. Logo, tropas do Exército ocuparam Princesa, e José Pereira fugiu, ficando incomunicável durante anos. Tempos depois, ele chegou a ocupar uma cadeira no legislativo estadual paraibano.

Não deixa de ser interessante observar como esses fatos ainda se mantêm vivos na memória da população local, mesmo entre os mais jovens. Fora dessa região, no entanto, esse conflito é praticamente desconhecido.

Sobre os participantes do caso Meia-Noite, sua amada Zulmira — razão de seu retorno para uma região tão perigosa, onde ele veio a morrer — foi em pouco tempo liberada da prisão e voltou para o convívio de sua família no Saco dos Caçulas. Logo, devido ao volume de sua barriga, ficou claro que ela estava grávida. Não sabemos exatamente o que ocorreu com a jovem, qual foi sua relação com a família e com as pessoas de seu lugar, nem o nome de seu filho. Poucos descendentes de seus familiares ainda vivem na região, e apenas apuramos que, após o nascimento da criança, ela se mudou para Campina Grande, onde se casou, teve outros filhos e viria a falecer anos mais tarde.

Marcolino Pereira Diniz não soube expandir as inúmeras riquezas recebidas como herança de seu pai, o coronel Marçal, e morreu na pobreza. Antes disso, teve seu amor pela amada esposa, conhecida como “Xandu”, imortalizado na música “Xanduzinha”, interpretada pelo inigualável Luiz Gonzaga.

Aproveitando o conhecimento dos mais experientes, junto com um doce de leita do sertão paraibano, na tranquila hospitalidade do nosso povo

Manuel Lopes, o “Ronco Grosso”, viveu inúmeras situações de perigo e atribulações. Mas Lopes Filho e Antônio Antas afirmam que ele prosperou, teve vários filhos, viu-os crescer, assistiu ao nascimento de vários netos e morreu na tranquilidade de sua velhice.

Sobre “Tocha”, sabe-se que ele seguiu para o sul do país, falecendo idoso na cidade paulista de Cubatão.

Segundo Anastácio Moraes e Antônio Antas, a única pessoa que realmente ganhou alguma coisa nessa história toda foi o humilde e honrado agricultor Olegário Bezerra, que seguiu à risca o que Meia-Noite lhe pediu.

  • TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOPG TOK DE HISTÓRIA EM 2008.

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A BELA E INTERESSANTE “DEUSA DO ASSÚ”

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Sabemos que em março de 1828, em um dia que se perdeu no tempo, encalhou em um banco de areia na embocadura do rio Assú, um grande barco a vela e casco de madeira.

Quem assistiu o episódio, provavelmente deve ter ficado impressionado com o desembarque de um grande número de pessoas de pele clara, altos, cabelos loiros e falando uma língua estranha. Era um grupo de 122 colonos alemães, entre eles muitas mulheres e crianças, que migraram para ocupar terras no Brasil. Já o grande barco era um brigue holandês chamado Actief, ou Actif, mas que ficou conhecido por aqui como Ativo.

Brigue dos Estados Unidos chamado Salmon P. Chase, de três mastros. Talvez o barco holandês que encalhou próximo a Macau tivesse essas características.

A nave havia partido do porto de Amsterdã no dia 29 de abril de 1828 e, mesmo sem saber os detalhes, a viagem deve ter sido no mínimo horrível, pois levou quatro longos meses para atravessar o Oceano Atlântico. O destino era o Rio de Janeiro, mas a razão da chegada desse barco na embocadura do Rio Assú teria sido, supostamente, por problemas de alimentação a bordo, e aí teve seu itinerário alterado. Só que houve o acidente e o capitão desembarcou os imigrantes na costa.

O barco ficou destruído, mas foi possível salvar parte do seu carregamento de madeira de pinho de riga e pertences dos passageiros. Já os loiros colonos alemães descobriram que naquela praia ensolarada não havia barcos disponíveis para transportá-los para o seu destino. Eles então decidiram seguir a pé pela beira do mar até a pequena Natal, que provavelmente mal tinha 10.000 habitantes nessa época.

Jornal recifense comentando sobre os colonos alemães que chegaram no navio Ativo.

Não sabemos como foi a progressão pelas nossas belas praias dessa estranha e singular procissão de estrangeiros, em meio ao quente sol da terra potiguar. E nem ficou registro do contato desse pessoal com os moradores da capital, mas eles certamente foram aconselhados a seguir para Recife do mesmo jeito que chegaram a Natal, pois ficou registrado que surgiram na capital pernambucana caminhando. Uma verdadeira epopeia que chegou a quase 500 quilômetros de caminhada e durou vários dias e noites!

Em Recife, após as deliberações das autoridades, os alemães foram encaminhados para a região da Zona da Mata Norte, onde foi criado um núcleo de colonização chamado Santa Emília, em homenagem a princesa Amélia de Leuchtenberg, uma mulher de origem franco-bávara, segunda esposa do Imperador Pedro I e Imperatriz Consorte do Brasil de 1829 a 1831[1].

Amélia de Leuchtenberg – Obra da coleção Brasiliana Iconográfica – Fonte – Wikipédia.

Enquanto isso, em Macau o que restou do Ativo ficou sem uma destinação prática por doze anos, quando um leilão foi finalmente realizado em 1840.

Essa informação é interessante porque naqueles tempos, quando não existiam os aparelhos de GPS, fotos de satélite e sistemas de radar, era muito comum barcos encalharem nas praias, ou baterem em rochas desconhecidas e muitas vezes restava algo da embarcação para ser leiloado. Podia ser parte da carga que transportavam, o casco de madeira, velas, mastros, escaleres e outras coisas. Esse dinheiro servia como compensação para o dono do barco, ou para cobrir as despesas da tripulação e outras contas que surgiam. Só que pesquisando nos antigos jornais descobri que esses leilões eram realizados de maneira até célere, coisa de poucos dias ou semanas, com a ideia de arrecadar logo o dinheiro. Mas no caso desse brigue holandês eu não descobri a razão de toda essa demora!

Quem arrematou os salvados foi o italiano Antunino Campiello Maresco, um comerciante que morava no povoado Logradouro, próximo a Macau. Consta que Maresco utilizou a madeira do navio nos assoalhos de três casas e um sótão em Macau e no Logradouro[2].

A estátua de madeira de Ônfale, que chegou ao Rio Grande do Norte há quase 200 anos – Fonte – Ruben Fonseca

Mas havia algo mais nos salvados do navio – uma grande e bela estátua de madeira representando uma linda mulher. A mulher de um grande personagem da mitologia greco-romana!

Uma Bela Mulher do Reino da Lídia

Naqueles tempos, estátuas de madeira eram colocadas na frente dos antigos veleiros e eram chamadas de figuras de proa. Geralmente esculpidas em madeira e pintadas com cores vivas, eram muito comuns entre os séculos XVI e XIX, representavam figuras mitológicas, personagens históricos, animais ou símbolos, com o objetivo de proteger a embarcação e intimidar inimigos. Acreditava-se que as figuras de proa traziam boa sorte, proteção contra maus espíritos e indicavam o nome ou função do navio.

Consta que a estátua da figura de proa do Ativo foi esculpida em pinho de riga, com 2,40 metros de altura, mas existe graça nos gestos fixados: o braço esquerdo curvado onde existe um interessante detalhe de uma capa esculpida com uma figura de um leão, a perna direita está um pouco levantada, suas unhas perfeitíssimas e delicadas e sua cabeça era móvel. Os marinheiros, homens extremamente supersticiosos, giravam a cabeça da estátua em direção ao próximo porto e assim a viagem finalizava de maneira tranquila[3].

Já quem a estátua representava e sua origem foi motivo de muita discussão na Potyguarânia. Por conta de alguns detalhes existentes, acharam que ela podia ser de origem romana, nórdica, ou até seria de “antes do Descobrimento do Brasil”. Mas na entrevista concedida ao Diário de Pernambuco, Luís da Câmara Cascudo afirmou categoricamente que aquela majestosa obra em madeira era “Ônfale, uma das esposas de Hércules, que depois de conquistar seu amor, o obrigou a tecer uma capa e lhe tomou o manto feito de pele de leão”. Manto este que era reproduzido na estátua do navio Ativo e o felino era o mítico Leão de Nemeia, morto por Hércules no primeiro dos seus famosos doze trabalhos.

Em seu mito mais conhecido, Ônfale é a rainha (ou princesa) do reino da Lídia, na Ásia Menor, a quem Hércules foi escravizado como punição por ordem dos oráculos. Segundo a tradição, o valente herói aceita a ordem divina apenas para, no fim, sucumbir aos encantos de sua amada. A coragem e a vontade inabaláveis ​​do herói não resistem ao poder do amor e da beleza. Ele então oferece a Ônfale um dos seus atributos essenciais: a pele de leão.

Hércules and Ônfale (detalhe), de François Lemoyne, 1724, Mudeu do Louvre, Paris – Fonte – https://www.historytoday.com/archive/foundations/hercules-and-omphale

Dependendo da interpretação, este tema exalta tanto o dever da obediência, quanto a onipotência do amor. Essa narrativa também ofereceu a escritores e artistas a oportunidade de explorar papéis sexuais, temas eróticos e a submissão do herói ao poder do amor. Mas os gregos antigos não reconheciam Ônfale como uma deusa. Ainda segundo Cascudo, a estátua do navio era a segunda conhecida com a capa de Hércules, estando a primeira em um museu na França.

Mudando de Mãos

Não sabemos se o italiano Campiello Maresco conhecia essa história sobre a sua estátua, mas o certo foi que ele a levou para casa, onde as décadas seguintes chamava muita atenção dos membros da comunidade e dos visitantes. Aquele interessante objeto começou a ser conhecido como “Rainha da Costa D’África”, mas não descobri a razão disso. Havia também na sua casa portinholas e outros objetos do navio holandês.

Fonte – Ruben Fonseca

Edilson Siqueira, descendente do italiano Maresco, contou ao escritor Getúlio Moura que ouviu do seu avô e de sua mãe que havia uma segunda estátua no navio holandês. Era menor que a figura de proa e que seu antepassado a enviou para um amigo na Itália e o povo de Macau e região dizia que dentro dela “tinha muito ouro”.

A figura de proa do Ativo ficou por 135 anos com a família Campiello Maresco, passando de geração em geração nas mãos dos seus descendentes. Existe a informação que essa bela Ônfale de madeira teria servido de apoio de corte de macambira a facão. A reportagem do Diário de Pernambuco informou que faltava um pedaço do nariz e dois dedos de cada mão. Segundo Ruben Fonseca, o atual proprietário da antiga figura de proa do Ativo, lhe chegou a informação a sua estátua era utilizada para apoiar o corte de cana-de-açúcar e sua base também estava danificada.

A estátua de Ônfale e Ruben Fonseca

Então veio o ano de 1964, quando em Macau a Dona Pautilha Maresco fez negócio com o fazendeiro de Parnamirim Ezequiel Fonseca Neto, na sua casa com piso de pinho de riga. O negócio foi fechado por um milhão de cruzeiros e nessa época Ezequiel havia comprado uma bela residência na Rua Capitão Abdon Nunes, no bairro do Tirol. Ezequiel é o pai de Ruben.

Segundo o jornalista Paulo Macedo, na sua tradicional coluna social do extinto Diário de Natal, edição de quarta-feira, 16 de fevereiro de 1963, desde a chegada da estátua de Ônfale a Natal, muita gente, “mais de mil pessoas” segundo ele, esteve na casa de Ezequiel observando a beleza e a grandiosidade da antiga “Deusa do Assú”.

Fonte – Ruben Fonseca

Segundo Getúlio Moura, a última vez que essa estátua deixou a residência dos descendentes de Ezequiel Fonseca foi em 1999, quando seu filho Rubem e sua esposa Suzana exibiram a escultura na “Casa Bonita Brasil – Mostra Natal”, que fez parte do calendário de comemorações dos 400 anos da cidade de Natal. Atualmente essa bela estátua está em um local abrigado, completamente protegida e continua a ser admirada por Ruben, Suzana e seus familiares.

Um último detalhe. Porque a estátua ficou conhecida no Rio Grande do Norte como “Deusa do Assú”, se toda a sua relação histórica é ligada à cidade de Macau? A resposta é simples – Macau era uma povoação Em 1828, que então pertencia a vasta área territorial do município de Assú e só foi criado oficialmente pela Lei Provincial nº 158, de 2 de outubro de 1847, desmembrando-se de Angicos, que por sua vez havia se desmembrado de Assú em 11 de abril de 1833.

REFERÊNCIAS —————————————————————————————————————————————

[1] KONRAD ADENAUER STIFTUNG. O bicentenário da imigração alemã no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: 2024. p. 19, 34. Várias fontes informam que o número de colonos a bordo do Ativo era de 140 pessoas, mas nesse texto eu decidi utilizar o número fornecido por autoridades alemãs no livro do bicentenário da imigração alemã.

[2] MOURA, Getúlio. Um Rio Grande e Macau: cronologia da história geral. Natal: [s.n.], 2003. p. 140-141.

[3] FRANSINETTI, Paula, Deusa do Vale do Assú não é pré-histórica: Pertencia ao Ativo, naufragado em 1828. Diário de Pernambuco, Recife (PE), 16 de dezembro de 1964, p. 2.

SÍTIO ARQUEOLÓGICO SERROTE DO LETREIRO – A PARAÍBA QUE ENCANTA O MUNDO DA ARQUEOLOGIA

Jonas do Nascimento dos Santos – https://paraibacriativa.com.br/artista/sitio-arqueologico-serrote-do-letreiro/

Localização: Sousa-PB

Classificação: arqueológico e paleontológico                                                  

Período Geológico: Cretáceo (145 a 65 milhões de anos atrás)                                              

Instituição: Serviço Geológico do Brasil – SGB-CPRM                                              

Acesso: lado leste da estrada Lagoa-Pereiros (800 m da sede da fazenda Lagoa dos Estrela)             

Área: 10.000 m²

O Patrimônio Arqueológico brasileiro conta agora com um bem de valor único: o Sítio do Serrote do Letreiro, no Vale dos Dinossauros, em Sousa, sertão da Paraíba. Trata-se do primeiro sítio no mundo em que foram encontradas pegadas fossilizadas de dinossauros em afinidade com a arte rupestre de povos pré-coloniais, criada milhões de anos depois da existência daqueles animais, o que indica que essas populações reconheceram esses registros fósseis e os assimilaram em seus desenhos e sua expressão simbólica.

A descoberta foi publicada em março de 2024 na revista científica internacional Scientific Report, do portfólio Nature, em artigo dos arqueólogos Heloísa Bitú e Leonardo Troiano e dos paleontólogos Aline Chilardi e Tituo Aureliano, e levou ao recente recadastramento do sítio pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).  Os sítios arqueológicos já são legalmente protegidos pela Lei 3.924/61, mas a inclusão de informações sobre estes bens no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) é fundamental para que o Iphan tome conhecimento do bem e realize a sua gestão. 

O Instituto pode tomar ações próprias para a sua preservação, como a fiscalização do bem, o monitoramento do seu estado de conservação, indicação de medidas para sua proteção e, eventualmente, sua restauração. E realizar também sua socialização, como a exploração turística e a extroversão, aproximando o bem arqueológico e a sociedade.

Nas palavras de Larissa Araújo, arqueóloga do Iphan na Paraíba, a raridade do sítio faz com que ele ocupe destaque internacional e aumenta a importância de que seja garantida sua integridade, na medida em que é um testemunho excepcional da ocupação da região do sertão paraibano e das relações culturais dos grupos entre si e com o ambiente ao redor. O Iphan zela  pela proteção e pela garantia de preservação desse bem para gerações futuras. A pesquisa destaca o interesse e a apropriação de registros fósseis por aquelas populações, e isso milhares de anos antes da formação dos campos científicos da paleontologia e da arqueologia em sociedades europeias.

No Serrote do Letreiro foram registradas pegadas de dinossauros terópodes, saurópodes e ornitópodes de aproximadamente 140 milhões de anos atrás. Destes, os vestígios dos dois primeiros grupos foram encontrados lado a lado com as artes rupestres dos povos pré-coloniais, jamais sobrepostas pelos desenhos e sem que tenham sofrido qualquer alteração por parte daquela população.

Para os autores do artigo, ainda que não tivesse a compreensão do que haviam sido os dinossauros, extintos milhões de anos antes, aquele agrupamento humano percebeu tais marcas como pegadas e com elas interagiu de modo intencional, possivelmente por suas semelhanças formais com as das emas – maior ave do Brasil.

O significado das gravuras ainda é desconhecido. Os povos indígenas da região observaram essas pegadas fossilizadas e entenderam, à sua maneira, que eram importantes de alguma forma, se não, não teriam dedicado tempo, energia e recursos na criação desta arte rupestre em pleno sertão paraibano, tese reforçada pela arqueóloga pesquisadora Heloísa Bitú, da Fundação Casa Grande. Tais achados confirmam que os povos indígenas antigos produziram conhecimento a respeito dos fósseis e desconstroem a narrativa que tira a legitimidade dos saberes e das descobertas feitas pelos povos americanos pré-coloniais, tratados como não científicos.

Fontes:

https://auniao.pb.gov.br/noticias/caderno_paraiba/sitio-une-arte-rupestre-a-pegadas-fossilizadas