A VISITA DO “AÇOUGUEIRO” ARTHUR HARRIS A NATAL E AO BRASIL

O Que Uma Das Mais Controvertidas Figuras da Segunda Guerra Mundial, Tido Por Muitos Como Um Implacável e Sanguinário Criminoso de Guerra, Veio Fazer em Nosso País e em Parnamirim Field?

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros  

Na tarde do dia 10 de agosto de 1945, uma bela sexta-feira de sol, o povo da cidade do Natal foi surpreendido pelo sobrevoo de duas grandes aeronaves estranhas e bastante chamativas.

E observem que durante grande parte da Segunda Guerra Mundial, os natalenses testemunharam a passagem de milhares de aeronaves envolvidas naquele conflito e nessa época pouca coisa que voava ainda chamaria a atenção dos que aqui viviam. Mas aqueles dois aviões certamente fizeram as pessoas olharem para o céu!

Eles eram grandes quadrimotores, com duas grandes aletas elípticas na cauda onde ficavam os lemes que as guiavam. A parte de baixo das aeronaves era pintada de negro e na parte superior eram totalmente brancas[1]. Voando em um dia claro como aquele, aquelas aeronaves se destacaram bastante na paisagem.

Mas certamente para os natalenses que testemunharam o voo daqueles colossos aéreos, uma das coisas que mais deve ter chamado à atenção foi o ronco dos quatro motores que cada um daqueles majestosos aviões emitia. Pois era o inconfundível som dos motores Rolls-Royce Merlin, que equiparam e fizeram a fama de aeronaves inglesas como os caças Supermarine Spitfire e De Havilland Mosquito, além dos bombardeiros Vickers Wellington, Handley Page Halifax e os pesados Avro Lancaster. E as aeronaves que sobrevoaram Natal naquela sexta feira eram dois originais quadrimotores Avro Lancaster da RAF (Royal Air Force).

Bem, alguém deve ter se perguntado – Mas o que aqueles aviões estavam fazendo em Natal?

Enfim, a guerra na Europa já havia cessado desde abril, os combatentes da FEB e da FAB retornavam da Itália cobertos de glórias e no dia anterior os americanos haviam lançado uma superarma chamada “Bomba Atômica” na cidade japonesa de Nagasaki, depois de terem destruído dias antes e com o mesmo tipo de artefato outra cidade chamada Hiroshima!

Certamente quase ninguém em Natal sabia a razão da vinda daqueles pesados bombardeiros Lancaster, ou de quem viajavam neles. Mas um dos tripulantes era ninguém menos que Sir Arthur Harris, o comandante da toda poderosa força de bombardeiros da RAF.

Seguramente essa ainda é uma das figuras mais controversas de toda a História da Segunda Guerra Mundial. Tudo por causa das suas ordens que provocaram indiscriminados ataques aéreos contra as cidades alemãs e a morte de milhares de pessoas, a grande maioria delas civis. Certamente a ação de Harris que mais chamou a atenção do público ocorreu nos últimos dias do conflito, ao ordenar a total destruição da cidade alemã de Dresden. Um objetivo militar sem nenhuma importância concreta, repleta de refugiados que fugiam dos exércitos russos e que sofreu três dias de bombardeios devastadores.

Sir Arthur Travers Harris – Fonte – Wikipédia.

Mas o que esse homem veio fazer no Brasil e em Natal?

Um Militar Rude e Difícil, Mas que Inspirava Seus Comandados

Arthur Travers Harris nasceu em Cheltenham, sudoeste da Inglaterra, em 13 de abril de 1892. Seu pai era um engenheiro e arquiteto lotado no serviço público indiano e sua mãe uma típica dona de casa inglesa. Sua família vivia na Índia, mas Harris estudou na Inglaterra. Aos dezessete anos e contra a vontade do seu pai, largou tudo e foi para a colônia britânica da Rodésia, na África, atual Zimbábue. Ali tentou a sorte na mineração de ouro, na condução de diligências e na agricultura. Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, ele se juntou ao 1º Regimento da Rodésia e lutou na vitoriosa campanha para dominar territórios alemães no sudoeste da África.

Harris retornou à Inglaterra em 1915 e decidiu se juntar ao incipiente corpo de aviadores do exército. Ali obteve sucesso como piloto, provando ser um combatente tranquilo e eficaz, sendo-lhe atribuídas cinco vitórias aéreas. Em 1918 se juntou à recém-fundada RAF como oficial de carreira e chegou a comandar um esquadrão. Foi lembrado como um oficial que buscava constantemente maneiras de aprimorar o desempenho tático e técnico de seus comandados, mas era também rigoroso e exigia altos padrões de desempenho de todos ao seu redor.

Com o fim da Primeira Guerra Harris serviu na Índia, Iraque e Irã. Durante esse período a RAF realizou bombardeios com gás e bombas de ação retardada contra as tribos iraquianas que se rebelaram contra o domínio britânico. O Comodoro do ar Lional Evelyn Oswald Charlton, chefe do Estado Maior da RAF no Iraque, ficou horrorizado ao visitar em 1924 um hospital que abrigava vítimas civis desses ataques aéreos. Ele então se opôs a essa política e passou a criticar abertamente tais ações de bombardeio, o que o levou a renunciar ao seu comando. Não descobri o quanto e como Arthur Harris participou dessas ações, mas sei que ao lhe perguntarem o que achava dos bombardeios, a sua resposta foi “-A única coisa que os árabes entendem é a força e a mão pesada“.

Entre 1928 e 29, Harris frequentou a Escola de Estado-Maior e foi tendo uma progressão normal na sua carreira. Ele defendeu abertamente a produção de bombardeiros que pudessem atingir a União Soviética. Acreditava que o comunismo era a principal ameaça à Grã-Bretanha e foi considerado um dos primeiros “Combatentes da Guerra Fria“. Acreditava também que a Inglaterra entraria em guerra contra a Alemanha Nazista e previu corretamente 1939 como o ano do início desse conflito.

Bombardeio noturno da RAF na Segunda Guerra Mundial – Fonte – Wikipédia.

Harris passou os primeiros meses da Segunda Guerra comprando aeronaves para a RAF nos Estados Unidos. Mas ele achou seu relacionamento com os americanos muito difícil. Disse a amigos que não gostava de ter que lidar com “um povo tão arrogante, que simplesmente se recusava a ouvir os conselhos técnicos dos britânicos”. Harris também reclamou que os americanos não iriam lutar, a menos que fossem empurrados para a guerra.

Em fevereiro de 1942, Harris foi chamado de volta a Londres para ser nomeado comandante em chefe do Comando de Bombardeiros. Embora muitos no Ministério da Aeronáutica o considerassem rude e inacessível, ele também era capaz de inspirar intensa lealdade naqueles que serviram com ele.

Harris herdou uma força de uns 400 bombardeiros em condições de combate e apenas um punhado eram quadrimotores novos. Nessa época as suas aeronaves eram capazes de modestos e imprecisos ataques contra áreas do oeste da Alemanha e o lançamento de inúteis panfletos com pedidos para as forças de Hitler encerrarem as suas ações de combate.

Heinkel 111, o principal bombardeiro dos alemães na Segunda Guerra, em ação nos céus da Polônia em setembro de 1939 – Fonte – Wikipédia.

Mas é bom que se registre que quem começou os bombardeios contra civis na Segunda Guerra foram os alemães. Aconteceu já no primeiro dia do conflito, 1º de setembro de 1939, quando Varsóvia, capital da Polônia, foi alvo de uma campanha irrestrita de bombardeios aéreos iniciados pela Luftwaffe, a força aérea nazista. Em seguida foi atacada com extrema violência a cidade de Roterdã, na Holanda, seguida de Coventry, Londres e outros centros urbanos britânicos. Isso apenas para citar alguns alvos da Luftwaffe.

Harris e seus comandados decidiram então dar o troco!

Tempestade de Fogo

Arthur Harris não foi o inventor da guerra aérea contra as cidades, nem o comandante de unidades de bombardeiros que fizeram mais vítimas na Segunda Guerra Mundial e nem sequer o criador do conceito de bombardeamento estratégico. Mas ele foi um dos primeiros oficiais generais a aplicar esse conceito.

Foi o general italiano Giulio Douhet, que argumentou em sua influente obra “O Comando do Ar“, publicada em 1921, que o bombardeio estratégico — particularmente contra populações civis e a infraestrutura existente — poderia destruir a vontade de lutar de uma nação. O italiano acreditava que, ao infligir terror e destruição suficientes do ar, o moral da população civil entraria em colapso, forçando o governo inimigo a capitular. Chamou essa prática de “a mais alta arte da guerra aérea“, que provocaria nos inimigos “o esmagamento de todas as forças materiais e morais de um povo“.

Já seu colega britânico Hugh Trenchard defendia a ideia de decidir futuras guerras pelo ar, bombardeando alvos civis na retaguarda do inimigo.

Com o desenrolar da Segunda Guerra, a RAF passou a realizar ataques noturnos, mas os resultados foram decepcionantes. As perdas continuaram inaceitáveis ​​e a precisão dos bombardeios era péssima. Harris então buscou aperfeiçoar as táticas de bombardeamento de uma forma até então inimaginável: com base em critérios cientificamente estabelecidos, sua equipe selecionou as cidades na Alemanha que poderiam ser mais facilmente incendiadas do ar, realizando o chamado “Bombardeamento de área” e sem se importar com a precisão.

Esquadrilha de Lancaster durante a Segunda Guerra.

Seus pilotos aprenderam a lançar sua carga mortal nos centros densamente povoados, com ataques que concentravam muitos bombardeiros para destruir o máximo que pudessem e sobrecarregar os serviços de uma cidade. Harris também decidiu apostar as reservas do Comando de Bombardeiros em ataques de peso sem precedentes: centenas de aeronaves contra um único objetivo.

O primeiro-ministro britânico Winston Leonard Spencer Churchill e sua equipe aérea de alto escalão acreditava que o bombardeio de área desaceleraria a produção bélica alemã, destruiria o moral da frente interna e talvez levasse a uma revolta dos trabalhadores contra o regime nazista.

Em 1942 o Comando de Bombardeiros Britânico passou a contar com a parceria da formidável Oitava Força Aérea dos Estados Unidos, com suas tripulações e seus bombardeiros quadrimotores B-17 e B-24, que uniram forças aos bombardeiros ingleses Wellington, Blenheim, Stirling, Halifax e Lancaster.

Não demorou e a destruição das cidades alemãs logo ultrapassou o alcance e a ferocidade que a Luftwaffe havia feito em Varsóvia, Roterdã, Coventry ou Londres. As cidades de Lübeck, Rostock e Colônia foram as primeiras urbes alemãs a serem quase que totalmente destruídas por bombardeios. Em Hamburgo, outra “primeira vez” foi alcançada em 1943: em uma tempestade de fogo de proporções apocalípticas, cerca de 40.000 pessoas, a maioria delas civis, morreram queimadas. Nesse período, em apenas dez dias, mais civis foram mortos na Alemanha do que na Grã-Bretanha durante toda a Segunda Guerra.

A partir do verão de 1944, a RAF e os americanos conseguiam incendiar qualquer cidade alemã do ar, como Trier, Essen, Heilbronn, Stuttgart e Darmstadt. A sequência de ataques e seus resultados são inúmeros e seria até enfadonho listá-las nesse texto.

Já sobre os quadrimotores Lancaster, pode-se considerá-lo um dos maiores aviões de guerra de todos os tempos. Transportava uma carga normal de bombas de 6.300 kg e chegou a ser utilizado por 56 esquadrões do Comando de Bombardeiros da RAF. As tripulações dos Lancaster realizaram 156.000 surtidas sobre a Europa ocupada pelos nazistas e lançaram 681.645 toneladas de bombas. Com isso ajudaram a matar cerca de 600.000 pessoas, a maioria mulheres e crianças, e mais de um terço das moradias urbanas da Alemanha foram destruídas.

Três Lancaster da RAF em 1942– Fonte – Wilipédia.

Harris compreendeu as implicações sombrias do que lhe era exigido e dedicou-se à sua tarefa ingrata e nada glamorosa com vigor e por isso ganhou o apelido de Butcher (Açougueiro). Some-se a tudo isso o fato que mais de 55.000 homens das tripulações do Comando de Bombardeiros Britânico morreram e um total de 10.321 aeronaves foram perdidas em 389.809 surtidas.

O Controverso Herói de Guerra

No entanto, como comentamos anteriormente, Arthur Harris é mais conhecido pelo bombardeio à cidade alemã de Dresden, ocorrido entre 13 e 15 de fevereiro de 1945.

Poucos dias depois desse terrível e cruel ataque, ele teria dito a um dos secretários de Churchill: “– Dresden? Esse lugar não existe mais!”

Um dos dois únicos Lancaster em condições de voo na atualidade – Fonte – Wilipédia.

Com a destruição terrivelmente eficiente da velha cidade barroca alemã, que custou a vida de 25.000 pessoas, Harris havia ultrapassado um determinado limite na barbárie. Tanto que a necessidade do ataque a Dresden tão no fim da guerra tem sido muito debatida desde então.

A questão é que, em meio ao horror da Segunda Guerra Mundial, bombardear algumas cidades matando centenas de milhares de civis para desacelerar a produção bélica não parecia algo extraordinariamente cruel, especialmente se encerrasse a guerra mais cedo. Mas, ao final da guerra, quando os alemães estavam claramente prestes a se renderem em algumas semanas ou dias, o ataque a Dresden causou indignação e muitas vozes passaram a reclamar dos ataques indiscriminados às cidades alemãs e das mortes de tantos civis.

Dresden, vista parcial do centro da cidade destruído, do outro lado do Rio Elba, até o bairro de Neustadt. No centro da imagem, estão a praça Neumarkt e as ruínas da Frauenkirche – Fonte – Bundesarchiv.

O primeiro-ministro Winston Churchill havia defendido o bombardeio da Alemanha e trabalhado em estreita colaboração com o Harris por três anos, mas em 1945 estava perpetuamente preocupado com o bombardeio de civis. Após Dresden e diante da reação indignada dos países neutros ao ataque, Churchill se distanciou do chefe do Comando de Bombardeiros, primeiro internamente e depois também em relação aos Aliados.

No fim das contas Arthur Harris nunca fez nada além de cumprir os desejos do seu Primeiro Ministro. A sua contribuição foi a consistência assassina, a determinação férrea, a crueldade para com seus próprios homens e também para com as vítimas alemãs.

O primeiro-ministro britânico Winston Churchill. 

E o que Arthur Harris fez diante das repercussões negativas e das críticas?

Deu uma esticadinha até o Brasil!

No Grande País Tropical

A razão divulgada nos jornais brasileiros para o comandante inglês sair da distante e fria Inglaterra para o nosso caliente e varonil país, seria assistir no Rio de Janeiro ao desfile da chegada do 2º escalão da Força Expedicionária Brasileira. Ao menos isso foi o que publicou com destaque os jornais cariocas, mas Harris só chegou três dias depois que nossos pracinhas da FEB desfilaram pelas ruas do Rio e ninguém explicou a razão da sua não participação!

Independente disso, no dia 25 de julho de 1945, três quadrimotores Lancasters B.III partiram da base da RAF de St. Mawgan, na Cornualha, no extremo sudoeste da Inglaterra. Eram as aeronaves com os indicativos NX687, NX688 e NX689, todas do 156 Squadron.

Os Lancaster que trouxeram Arthur Harris aop Brasil., estavam pintados com o esquema da “Tiger Force”.

Após paradas para reabastecimento e descanso em Rabat, no Marrocos, e na cidade de Bathurst, então capital da colônia inglesa da Gâmbia e atualmente conhecida como Banjul, o primeiro dos três quadrimotores ingleses chegou ao Recife na tarde do dia 27 de agosto, faltando dez minutos para as quatro horas.

Foi o Lancaster NX687 que aterrissou no Campo do Ibura, ou Ibura Field para os americanos, onde um grande número de autoridades e populares aguardava o “Grande Herói Inglês”. Mesmo depois de nove horas de voo, Harris e seu séquito só desembarcaram depois que os funcionários do Serviço Nacional da Malária dedetizaram totalmente a aeronave.

Desembarque no Campo do Ibura, em Recife.

Ao finalmente desembarcar, Harris foi recebido por Etelvino Lins de Albuquerque, Interventor Federal em Pernambuco, e pelo brigadeiro Ajalmar Vieira Mascarenhas, comandante da 2ª Zona Aérea da FAB. Depois das solenidades de praxe, seguiram em cortejo pelas ruas da capital pernambucana até o Grande Hotel, onde atualmente funciona o Fórum Thomaz de Aquino Cyrillo Wanderley, do Tribunal de Justiça de Pernambuco, na Avenida Martins de Barros, 593, bairro de Santo Antônio.

Às quatro e meia chegou o segundo Lancaster e devido a um problema mecânico o terceiro avião ficou de aterrissar em Recife só no outro dia. Um dado interessante é que na chegada da segunda aeronave desembarcou no Campo do Ibura um oficial inglês alto, de boa aparência, falando português fluentemente com os oficiais brasileiros e que trazia pela mão uma criança.

Harris discursando para as autoridades brasileiras, tendo a sua esquerda o capitão da RAF Walter Pretyman como seu tradutor. A direita de Herris está o brigadeiro Eduardo Gomes.

Esse oficial era o capitão Walter Frederick Pretyman, um londrino de família pertencente ao mais fino High Society britânico, antigo estudante da Universidade de Oxford, que havia desembarcado no Brasil em 1923 e se apaixonou pelo país. Aqui Walter Pretyman morou no Rio de Janeiro, se tornou um empresário de sucesso no ramo açucareiro na cidade carioca de Campos e foi um dos fundadores da poderosa Usina Santa Cruz. Também no Rio ele foi um dos fundadores e assíduo frequentador do Gávea Golf and Country Club e um dos pioneiros do jogo de polo em nosso país[2].

Pretyman era muito ativo na alta sociedade carioca, com amizades entre muitos oficiais das forças armadas brasileiras e membros do governo de Getúlio Vargas. Com a entrada da Inglaterra na guerra ele voltou para Londres em 1942 e se alistou na RAF. Quis o destino que se tornasse um dos membros do staff de Arthur Harris no Comando de Bombardeiros e foi Pretyman que articulou a vinda deste chefe britânico ao Brasil.

Arthur Harris obsevando de binoculos uma corrida de cavalos no Jockey Club no Rio de Janeiro, tendo ao seu lado Walter Pretyman e o Ministro da Aeronáutica Salgado Filho.

Seu entrosamento com o comandante dos bombardeiros era tanto, que Harris deixou que o capitão Pretyman trouxesse no Lancaster a sua filha Cristina, nascida no Brasil e com cinco anos de idade em 1945. Nessa época Pretyman era viúvo e poucos anos depois se casaria com a paranaense Vera Sá Souto Maior.

Visitando o Rio, Petrópolis, São Paulo e Porto Alegre

No dia 28 de agosto, com a esquadrilha britânica já completa, partiram do Recife às nove da manhã em direção ao Rio de Janeiro. Na chegada fizeram um sobrevoo sobre a Cidade Maravilhosa, chamando a atenção dos cariocas e depois pousaram no Aeroporto Santos Dumont.

Quem primeiro se entendeu com Arthur Harris na pista do aeroporto foi o gaúcho Joaquim Pedro Salgado Filho, Ministro da Aeronáutica. Pelos próximos doze dias o inglês iria conhecer muita coisa no Brasil e aproveitar a estadia.

Sentados da esquerda para direita estão Donald Saint Clair Gainer, Getúlio Vargas, Arthur Harris e Salgado Filho. O capitão da RAF Walter Pretyman está em pé e de costas, atuando como tradutor. Junto com ele nessa função está o brigadeiro da FAB Antônio Appel Neto, visível no reflexo do espelho e com uniforme claro.

Logo Harris teve um encontro protocolar com Getúlio Vargas e os tradutores foram o capitão Walter Pretyman e o brigadeiro da FAB Antônio Appel Neto.

Depois o comandante inglês e Sir Donald Saint Clair Gainer, Embaixador do Reino Unido no Brasil, ofereceram as autoridades brasileiras um concorrido jantar na Embaixada Britânica.

Arthur Harris apreciando um belo churrasco, junto com o brigadeiro Appel Neto.

Em outro momento Harris participou de um evento especial no grill-room do mundialmente famoso Casino da Urca. O “grill” era um grande salão com um bem estruturado palco para apresentações e recebia grandes atrações e shows. Harris não ficou só no Rio, visitou também a cidade de Petrópolis, onde se hospedou no Hotel Quitandinha, o maior cassino hotel da América do Sul. Depois seguiu de avião para São Paulo e na sequência para Porto Alegre, onde Salgado Filho o ciceroneou na capital dos gaúchos e visitaram a Base Aérea de Canoas.

Nessas visitas, para deleite dos brasileiros, Harris deixou de lado o tradicional chá inglês e publicamente se fartou de café brasileiro de primeira qualidade.

Em nome da RAF o inglês homenageou a figura de Santos Dumont, colocando uma coroa de flores no monumento existente em frente ao terminal de passageiros do aeroporto que homenageia o nosso Pai da Aviação.

Nesse dia os quadrimotores Lancaster foram abertos para a visitação pública e o comparecimento dos cariocas foi enorme.

Como não poderia deixar de ser em se tratando de uma personalidade estrangeira, mesmo sendo um controverso herói de guerra, o governo brasileiro outorgou a Harris a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a mais alta honraria que o Brasil concede a cidadãos estrangeiros. Mesmo sem achar que Harris merecia receber uma medalha dessas, eu até entendo as razões diplomáticas para o governo lhe entregar esse belo regalo. Só não entendi mesmo foi porque os aviadores da RAF Alan John Laird Craig, Charles Cranston Calder e Robert Martin Brown Cains foram igualmente agraciados com essa comenda[3].

Finalmente em Parnamirim Field

Na manhã de 10 de agosto duas aeronaves Lancaster da RAF decolaram para Natal, onde chagaram na parte da tarde. Não encontrei nos jornais nenhuma informação sobre o destino do terceiro avião.

Após sobrevoarem a cidade do Natal, os Lancaster aterrissaram em Parnamirim e Harris foi recebido pelo Desembargador João Dionísio Filgueira (então Interventor Federal Interino do Governo do Rio Grande do Norte)[4], o coronel norte-americano William David (Subcomandante da Divisão do Comando de Transporte Aéreo para o Atlântico Sul)[5], o coronel John M. Price (Comandante da Base Americana em Natal)[6], Jaime Wanderley (Representante de José Augusto Varela, então Prefeito de Natal), o major Salvador Roses Lizarralde (Comandante da Base Aérea de Natal) e outras autoridades brasileiras e americanas.

Em síntese a visita de Arthur Harris a Parnamirim foi rápida e pouca coisa em termos de informações eu consegui sobre o que aconteceu. Sabemos que ele percorreu as dependências da grande base, que houve um jantar no casino dos oficiais, que ele e seu séquito não vieram para Natal (pernoitaram na base) e que no outro dia pela manhã partiu para os Estados Unidos.

Apesar de parecer uma visita rápida, protocolar e simplória, o que mais me chamou a atenção foi encontrar várias declarações que Arthur Harris fez aos jornalistas brasileiros sobre a importância de Natal e sua grande base aérea para o esforço de guerra. Trago aqui duas destas declarações que foram publicadas em jornais cariocas.

Tal como muitos militares de renome e prestígio que atuaram na Segunda Guerra Mundial e estiveram em Parnamirim Field, como os generais Dwight D. Eisenhower, Mark Clark, Willis Crittenberger e outros, o inglês Arthur Harris sabia o valor daquela base e desejou conhecer esse local que ajudou as forças aliadas a ganhar a guerra contra o nazi fascismo.

As suas impressões sobre esse local eu não consegui encontrar. Mas, quem sabe, como Harris era um estrategista de mão cheia, talvez ele tenha pensado que os americanos iriam continuar por aqui depois de construir aquela cara e enorme base aérea e não entregariam nada aos brasileiros. Então, em um possível e futuro conflito contra os soviéticos, estar presente em Parnamirim Field poderia ser interessante para a RAF!

Bem, se ele assim pensou isso logo se desvaneceu, pois Harris deixou à RAF em 15 de setembro de 1945. Isso aconteceu em meio a uma disputa com o novo primeiro-ministro inglês Clement Attlee. Amargurado, ele foi viver na África.

Criminoso de Guerra?

Após a sua temporada africana e logo depois que Winston Churchill retornou ao poder na Grã Bretanha em 1951, Arthur Harris voltou ao seu país de origem.

Foi quando recebeu a oferta de ser agraciado com um título de nobreza, situação que ele recusou. Mas em 1953 aceitou um título mais modesto de baronete. No final das contas Harris nunca foi homenageado no mesmo nível de outros heróis de guerra britânicos, como os generais de exército Bernard Law Montgomery e Harold Alexander, ou comandante de caças da RAF Hugh Dowding.

Arthur Harris então se estabeleceu definitivamente com a sua família em Oxfordshire, aproveitando uma aposentadoria tranquila, porém ativa. Mas na década de 1960 a opinião pública britânica se voltou fortemente contra Harris e ele passou a ser visto por muitos como um “criminoso de guerra“.

Enfim, Arthur Harris foi um criminoso de guerra?

Não há uma resposta simples para isso: de acordo com critérios objetivos, a destruição seletiva dos centros urbanos alemães não era justificada militarmente e, portanto, era uma violação grave das leis da guerra. Por outro lado, essa violação não relativizou a culpa exclusiva de Hitler pela Segunda Guerra Mundial, nem pelos crimes de guerra da Wehrmacht e das tropas SS, e muito menos pelos assassinatos de milhões de judeus, eslavos, deficientes, homossexuais, ciganos e outros grupos de seres humanos.

Harris trabalhando no Comando de Bombardeiros.

Apesar disso, no entanto, o horror em relação à figura de Arthur Harris permaneceu. E ele ajudou bastante em tudo isso!

O ex-comandante dos bombardeiros lançou um livro com as suas memórias da Segunda Guerra. Intitulado “Bomber Offensive”, veio com muitas justificativas para as suas ações e entre estas existe a seguinte passagem: “Apesar de tudo o que aconteceu em Hamburgo, o bombardeio era um método de guerra relativamente humano“.

Arthur Harris provavelmente nunca se considerou um humanitário, mas sim um comandante militar encarregado de matar alemães, fossem eles soldados ou civis.

Quando Arthur Harris faleceu, uma aeronave Lancaster sobrevivente realizou um sobrevoo sobre o cemitério onde acontecia o sepultamento.

Faleceu discretamente no dia 5 de abril de 1984, oito dias antes de completar 92 anos. Um preservado Lancaster sobrevoou o seu sepultamento e anunciou a homenagem final da RAF ao último de seus grandes comandantes da Segunda Guerra Mundial.

Quando foi decidido erigir uma estátua de Harris do lado de fora da igreja de St. Clement Danes, em Westminster, Londres, houve amplas objeções e severas críticas.

O homem se foi, mas a controvérsia que o cercava ainda persiste.

NOTAS ————————————————————————


[1] Essas pinturas brancas existentes nesses aviões Lancaster que vieram para o Brasil foram feitas para os Avro Lancaster do Comando de Bombardeiros Britânico que estavam destinados a atacar alvos no Japão. Essa foi uma oferta de Winston Churchill aos Estados Unidos para que 40 esquadrões de Lancaster fossem disponibilizados para uso na área do Oceano Pacífico e esse grande grupo de bombardeiros foi denominado “Tiger Force”. Durante a Segunda Guerra o esquema padrão do Comando de Bombardeiros Britânico em ação na Europa era a parte inferior preta e a parte superior com tons verde e marrom. Já nos Lancaster da “Tiger Force” a parte inferior preta foi mantida, mas a parte superior foi pintada de branco para refletir o calor. Com o lançamento das bombas atômicas sobre o Japão e a rendição desse país, a ideia da “Tiger Force” foi colocada de lado.

[2] Em 1926 Walter Pretyman sagrou-se campeão com a sua equipe em um badalado torneio de polo no Rio e a taça de vencedor foi entregue pelo então Presidente da República Arthur Bernardes.

[3] E ainda sobre essa história da entrega dessa comenda existe uma situação interessante. Antes da chegada de Arthur Harris ao Brasil, esteve em nosso país o general norte-americano Mark Clark, que foi o comandante do 5º Exército dos Estados Unido, que atuou na Campanha da Itália e tinha sob seu comando a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Ocorre que Clark, que inclusive nessa ocasião veio ao Brasil para assistir a chegada do 1º escalão da FEB no Rio, não recebeu essa mesma honraria e desconheço a razão disso. Clark só veio a receber essa comenda em maio de 1975, das mãos do Presidente Ernesto Geisel.

[4] Dionísio Filgueira estava recepcionando o comandante Arthur Harris em razão da ausência de Natal do general Antônio Fernandes Dantas, o Interventor Federal do Rio Grande do Norte na época.

[5] O Comando de Transporte Aéreo (em inglês Air Transport Command – ATC) era o setor da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Force – USAAF) que durante a Segunda Guerra Mundial organizou e operou os transportes aéreos do exército americano em todo o mundo.

[6] Essa base aérea era a famosa Parnamirim Field, que se subdividia em uma base área da força aérea do exército americano e outra da marinha dos Estados Unidos, que trabalhavam em parceria com a base aérea brasileira, a chamada Base Aérea de Natal, todas na mesma região. O coronel Price havia assumido esse posto recentemente, substituindo o coronel Léo F. Post.  

A FEB E O USS GENERAL MANN – NAVEGANDO PARA A GUERRA

Navio transporte de tropas USS General W. A. Mann. Em 1944 ele levou os primeiros combatentes da FEB para a Itália
Navio transporte de tropas USS General W. A. Mann. Em 1944 ele levou os primeiros combatentes da FEB para a Itália – CLIQUE PARA AMPLIAR AS FOTOS

Autor – Rostand Medeiros 

Ao longo da história do Brasil muitos foram os barcos e navios que marcaram a história deste país. Hoje a maioria das histórias destes barcos e seus homens estão esquecidos, mas os exemplos são muitos. Desde as caravelas da esquadra de Cabral[1], ou dos barcos holandeses lutando contra naves espanhol-portuguesas em 1640, na maior batalha naval em águas brasileiras[2]. Passando pela fragata Nichteroy, que comandada por John Taylor em 1823, perseguiu uma esquadra portuguesa até a foz do Rio Tejo[3]. Não podemos esquecer do almirante Barroso, a figura mais exponencial da Marinha do Brasil e seus combates na triste Guerra do Paraguai[4].

Rotas e cidade onde o General Mann esteve durante a II Guerra
Rotas e cidade onde o General Mann esteve durante a II Guerra

Entretanto existe um navio que, mesmo não sendo uma nave da nossa marinha e nem sequer ostentando a bandeira brasileira, marcou de maneira muito intensa um momento na história do país. Comento sobre o USS General W. A. Mann, um navio de transporte de tropas da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), que em julho 1944 levou o primeiro grupo de militares da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para lutar na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.

Interessante Missão

Como parte da estratégia dos estadunidenses de vencer as forças do Eixo na Europa e no Pacífico, foram construídos ao longo do conflito 19 navios da classe P-2, destinados exclusivamente ao transporte de tropas. Estas naves ostentavam nomes de almirantes e generais, pesavam mais de 17.000 toneladas, tinham quase 200 metros de comprimento, sua velocidade máxima era de 19 nós (35 km/h) e podiam transportar 5.000 homens destinados ao combate[5]. Um destes navios era o USS General William Abram Mann, ou simplesmente General Mann como ficou mais conhecido entre nossos pracinhas.[6]

O USS General W. A. Mann deixando o estaleiro em New Jersey
O USS General W. A. Mann deixando o estaleiro em New Jersey

Este navio foi construído entre 1942 e 1943, no Federal Shipbuilding and Dry Dock Company, em Kearny, estado de New Jersey, leste dos Estados Unidos. Foi incorporado a US Navy em 13 de outubro de 1943 e recebeu o código AP-112. Seu primeiro comandante efetivo foi o capitão Paul Sylvester Maguire, que realizou sua primeira missão nesta nave em 7 de janeiro de 1944, partindo de Newport News, estado da Virgínia para a cidade marroquina de Casablanca.

Maguire comandou sua nave em outras três travessias entre Newport News e Casablanca e duas tendo como destino a cidade argelina de Orã, as margens do Mar Mediterrâneo.

Em 6 de maio daquele ano o General Mann levantou âncora de Orã, atravessou o Estreito de Gibraltar e, ao invés de seguir rumo noroeste para Newport News, arribou em direção sul, ao Brasil, ao Rio de Janeiro, com a interessante missão de transportar os primeiros soldados latino-americanos a irem combater na Europa. O General Mann atracou porto do Rio, no Píer 10, em 27 de junho de 1944, uma terça-feira.

Símbolo

Não consegui descobrir nenhum documento que aponte se o capitão Paul Maguire e sua tripulação tinham ideia do que aquela missão de transporte representava para o Brasil.

Capitão Paul Sylvester Maguire. comandante do General Mann
Capitão Paul Sylvester Maguire. comandante do General Mann

Acredito que para os homens do General Mann, quando o seu navio atracou no Rio, aquele era apenas mais um porto e aqueles que embarcavam era apenas mais uma grande quantidade de homens fardados que eles levariam para algum lugar para lutar contra os odiados nazistas[7].

Mas para alguns setores do governo brasileiro, grande parte do alto comando militar e, principalmente, para os pracinhas e seus familiares aquele monstro de aço cinzento representou muita coisa. Principalmente a realização de um anseio que surgiu nas ruas das principais cidades brasileiras, diante dos ataques dos submarinos alemães e italianos ocorridos principalmente em 1942.

Após atracar no Rio, o capitão Maguire, o general Gaspar Dutra e o brigadeiro general Hayes A. Kroner, trocam ideias sobre a rota do General Mann para Europa
Após atracar no Rio, o capitão Maguire, o general Eurico Gaspar Dutra e o brigadeiro general Hayes A. Kroner, trocam ideias sobre a rota do General Mann para Europa

Para os setores do governo de Getúlio Vargas e os militares que acreditaram no projeto da FEB, a presença do General Mann no cais do porto do Rio era a finalização anos de muita superação, de muito aprendizado, treinamento duro e muita luta contra todo tipo de entraves e deficiências. Para o general João Batista Mascarenhas de Morais, comandante do corpo expedicionário, a partida do 1º Escalão da FEB naquele navio foi considerada como sendo uma vitória contra a onda de pessimismo e de derrotismo que impregnava certos setores da administração e da própria opinião pública nacional. Na época o militar comentou – “Agora que vencemos o inimigo interno, vamos ver de perto o Exército alemão”[8].

Mann (13)

Percebi lendo os livros que tratam do tema que a chegada do General Mann foi visto em parte como algo do tipo “Agora vai”, ou “Agora era prá valer”. Enfim, havia chegado a hora de os pracinhas iniciarem a travessia do Atlântico. Os brasileiros iriam para os campos de batalha, finalmente “A Cobra ia fumar”.

FEB Embarcada

Na quinta-feira, 29 de junho, começou o embarque de milhares de soldados vindos da Vila Militar, na zona oeste do Rio, sendo transportados pela Estrada de Ferro Central do Brasil, até o cais da Praça Mauá, no centro da cidade.

Embarque da FEB
Embarque da FEB

Ao redor do porto havia muita segurança e isolamento. Gente de toda parte do país, com seus sotaques, cores, trejeitos e maneiras próprias entravam na grande nave carregando sacos de lona. O general Mascarenhas de Moraes e alguns oficiais de seu Estado Maior embarcaram ao lado dos militares do 1º escalão, que totalizaram 5.075 homens.

Mascarenhas de Moraes listou as primeiras unidades da FEB transportadas no General Mann – Escalão Avançado do  Quartel General da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), Estado Maior da Infantaria Divisionária da 1ª DIE, 6º Regimento de Infantaria, 4ª Companhia e 1º Pelotão de Metralhadoras do 11º Regimento de Infantaria, II Grupo do 1º Regimento de Obuses Auto Rebocados, 1ª Companhia do 9º Batalhão de Engenharia, uma parte da Seção de Suprimento e Manutenção do 9º Batalhão de Engenharia, 1º Pelotão do Esquadrão de Reconhecimento, Seção de Exploração e elementos da Seção de Comando da 1ª Companhia de Transmissões, 1ª Companhia de Evacuação, o Pelotão Tratamento e elementos da Seção de Comando, todos do 1º Batalhão de Saúde, Companhia de Manutenção, Pelotão de Polícia Militar, um pelotão de viaturas, uma Seção do Pelotão de Serviços e elementos da Seção de Comando da 1ª Companhia de Intendência, o Correio Regulador, o Depósito de Intendência, a Pagadoria Fixa, os correspondentes de guerra, elementos do Hospital Primário, Serviço de Justiça e Banco do Brasil[9].

O capitão Paul Maguire e Getúlio Vargas no General Mann
O capitão Paul Maguire e Getúlio Vargas no General Mann

Segundo o diário de bordo do USS General W. A. Mann, o embarque do 1º escalão da FEB foi concluído ás três da manhã do sábado, 1 de julho.

João Barone afirma que na madrugada do dia 30 de junho quem subiu a bordo, de forma totalmente discreta, foi o presidente Getúlio Vargas. Ele proferiu um discurso pelo intercomunicador da nave, visitou as instalações do General Mann, apertou a mão de pracinhas deitados em seus catres, posou para fotos e foi embora para uma viagem a Minas Gerais que foi amplamente divulgada nos jornais[10].

No domingo, 2 de julho, ás cinco e quarenta e três da matina o navio norte-americano General Mann desatracou e partiu. Pelos próximos quatorze dias a nave seguiria pelo Oceano Atlântico e pelo Mar Mediterrâneo, sempre escoltado.

Diário de bordo do USS General W. A. Mann sobre a partida do Rio de Janeiro
Diário de bordo do USS General W. A. Mann sobre a partida do Rio de Janeiro

Enquanto toda essa movimentação militar acontecia no porto, os jornais cariocas nada comentaram do que acontecia devido a pesada censura. Mas o Rio seguia sua vida normal, inclusive nos esportes. No sábado, enquanto centenas e centenas de pracinhas embarcavam, tinha início o campeonato carioca de futebol com o “match” entre o Fluminense e o Vasco da Gama (Empataram em 3 x 3). Já no domingo estavam marcados mais seis jogos, sendo um deles entre as equipes do Botafogo e do Bonsucesso (Botafogo venceu de 4 x 3).

O Cardeal Arcebispo do Dom Jaime de Barros Câmara transmite uma prece para os pracinhas pelo intercomunicador do navio. Dom Jaime foi bispo de Mossoró-RN, entre 1934 e 1941.
O Cardeal Arcebispo do Dom Jaime de Barros Câmara transmite uma prece para os pracinhas pelo intercomunicador do navio. Dom Jaime foi bispo de Mossoró-RN, entre 1934 e 1941.

Mas o jogo principal envolveu o Flamengo e o América carioca, com a peleja sedo disputada no tradicional Estádio de São Januário (América 2 x 1 no Mengo). No Jóquei Clube foram disputados nove páreos, onde no oitavo ocorreria o “Grande Prêmio Diana”, cuja égua “Cataflor” era tida como uma verdadeira barbada (E a égua ganhou com quatro corpos de vantagem para o segundo colocado)[11].

Tédio e Preocupação

Nos primeiros dias da viagem os destróieres brasileiros “Marcilio Dias”, “Greenhalgh”, “Mariz e Barros” escoltaram o transporte de tropas, normalmente navegando a velocidade de 17 nós e sempre ziguezagueando para evitar ataques de submarinos[12].

Elogio do almirante Ingram aos capitães das escoltas brasileiras e publicado nos jornais cariocas
Elogio do almirante Ingram aos capitães das escoltas brasileiras e publicado nos jornais cariocas

Sobre a escolta realizada pelos barcos brasileiros, o capitão Paul Maguire fez elevados elogios a atuação dos comandantes Raul G. Reis de Souza, Archimedes B. Pires de Souza e Roberto Nunes. Fato que foi repercutido pelo comandante da 4ª Frota da US Navy, o almirante Jonas Howard Ingram, a partir de sua base em Recife e que teve ampla divulgação na imprensa nacional.[13]

Diário de bordo do USS Omaha, comentando sobre o encontro com o General Mann e suas escoltas brasileiras
Diário de bordo do USS Omaha, comentando sobre o encontro com o General Mann e suas escoltas brasileiras

Na manhã do dia 5 de julho, o grande navio americano e suas três escoltas brasileiras foram captados pelo radar do cruzador USS Omaha (CL-4), que havia partido de Recife na madrugada do dia 4, junto com os destróieres USS Reybold (DE-177) e o USS Marts (DE-174). As naves americanas renderam as brasileiras e prosseguiram na escolta. Esta mudança foi marcada por uma cerimônia marítima.

Apesar de uma pequena diminuição de velocidade devido a um problema no motor de um dos navios, a pequena frota seguia tranquila. Durante certo tempo tiveram cobertura aérea de hidroaviões PBYs Catalinas[14].

Um PBY Catalina sobrevoando o General Mann
Um PBY Catalina sobrevoando o General Mann

A noite todas as luzes do General Mann eram apagadas e o calor tornava a viagem bastante desgastante para os nossos soldados. Devido a possibilidade de ataques de submarinos, era necessário total alerta e treinamentos constantes para a tropa e a tripulação.

Era aconselhado ficar dentro dos dormitórios, e, quando se saía, geralmente era para ir à cozinha ou à lavanderia. Os corredores do navio eram cheios de guardas americanos observando tudo, e pela dificuldade de comunicação, dado que não falavam o Português, os guardas só apontavam para a direção em que os soldados deveriam ir.[15]

Canhão antiaereo do general Mann
Canhão antiaereo do general Mann

Lendo os diários de bordo do Omaha e do General Mann sobre esta travessia, pude confirmar um fato muito comentado pelos brasileiros que estiveram no navio de transporte – houve durante vários dias ocorreram disparos de armas, principalmente as antiaéreas, para treinamento das tripulações. Por exemplo, no dia 7 de julho ocorreu no General Mann, respectivamente 40 e 52 “rounds” de disparos nos canhões antiaéreos de 75 e de 20 m.m. Já no Omaha, muito mais armado, houve um treinamento no dia 11 de julho onde foram disparados 246 “rounds” de antiaéreos de 20 m.m[16].

Contato entre pracinhas brasileiros e marujos americanos
Contato entre pracinhas brasileiros e marujos americanos

Apesar dos navios mistos de carga e passageiros serem o principal meio de transporte naquele tempo no Brasil, onde viajar de navio era algo normal até para as classes menos abastadas, muitos pracinhas deixaram registrado o misto de tédio e preocupação que sentiam a bordo do navio de transporte. Até aquele momento o destino final era completamente desconhecido, o que fazia com que muitos deles andassem da popa à proa do General Mann, seguindo a balaustrada, apenas para fazer o tempo passar e diminuir a ansiedade. Outros para passar o tempo jogavam baralho e assistiam a sessões de cinema.

Enquanto os brasileiros seguiam o seu misto de tédio e tensão, a pequena frota progredia e os membros da US Navy continuavam seu intenso trabalho de vigilância antissubmarino e atentas ao horizonte em busca de aviões e navios desconhecidos. Existe o registro no diário do Omaha a informação que foi avistado um barco que causou certa preocupação inicial, mas que depois foi identificado como sendo a fragata inglesa HMS Tess, comandada pelo capitão C. H. Candler[17].

Um dos inúmeros treinamentos que os pracinhas realizaram para o caso de alguma emergência
Um dos inúmeros treinamentos que os pracinhas realizaram para o caso de alguma emergência

Para a maioria dos pracinhas, a travessia foi tensa e cansativa. Na US Navy havia uma tradicional brincadeira que consistia em presentear os marinheiros que atravessam a Linha Imaginária do Equador com “Diplomas do Rei Netuno. Para diminuir a tensão da viagem, esta cerimonia tornou a viagem mais animada e, como o espírito brasileiro naturalmente é caracterizado pela irreverência, trouxe um ânimo a mais para tropa no General Mann.[18]

A Chegada ao Teatro de Luta

No dia 12 os pracinhas tiveram novamente a visão da terra, mas de terras africanas, o Marrocos. Finalmente, no dia 13 de julho, por volta de três da tarde, os navios chegaram ao Estreito de Gibraltar. Do transporte de tropas, com a ajuda de binóculos, foi possível os brasileiros avistarem a cidade espanhola de Algeciras e o rochedo de Gibraltar. No lado africano foram visualizadas as cidades de Tanger e Ceuta[19].

Militar brasileiro de patente elevada passando em ordem a guarda de Fuzileiros navais (Marines) a bordo do General Mann. Eram estes fuzileiros que mantinha a ordem a bordo.
Militar brasileiro de patente elevada passando em ordem a guarda de Fuzileiros Navais (Marines) a bordo do General Mann. Eram estes fuzileiros que mantinha a ordem a bordo. O armamento é o fuzil M1903A3

Nesta área o Omaha, o Reybold e o Martz, foram substituídos na escolta e o General Mann passou a ser protegido pelos destroieres USS Kearny (DE-432), USS Hollis (DE-794) e USS Marsh (DE-699)[20].

Ao entrar no Mar Mediterrâneo sentiu-se logo um alívio geral, pois com as águas mais calmas, o navio já não jogava e sacudia tanto quanto no Oceano Atlântico, o que fazia quase todos ficarem mareados e vomitarem quase o tempo todo.[21] Durante o trajeto, uma das grandes dificuldades enfrentadas pelos pracinhas dizia respeito à alimentação servida a bordo. Com um efetivo superior a 5.000 militares embarcados, as refeições eram feitas em sistema de rodízio. A cozinha funcionava 24 horas por dia, e não podia ser de modo diferente, pois eram servidas duas refeições diárias para cada homem. Para os que estivessem trabalhando eram três.

A não adaptação à comida, em conjunto com o balanço do navio, fez com que muitos dos pracinhas adoecessem logo ao partirem do Rio de Janeiro[22].

Diário de bordo do General Mann, sobre a chegada a Nápoles e o desembarque da FEB nesta cidade italiana.
Diário de bordo do General Mann, sobre a chegada a Nápoles e o desembarque da FEB nesta cidade italiana.

O capitão Paul Maguire apontou no diário de bordo do General Mann que na manhã de 16 de julho de 1944 o seu navio entrava na Baía de Nápoles, Itália. Lentamente, o navio foi se aproximando do cais do porto em escombros, pontilhado de embarcação em variados graus de destruição. Navio chegou ao Píer A, e atracou no Ancoradouro 8 e logo foi visitado pelos tenente general Jacob Devers e pelo major general David G. Barr, ambos do Exército dos Estados Unidos (US Army). Os generais americanos e seus oficiais confraternizaram com o general Mascarenhas de Morais e os oficiais da FEB. Além da presença dos oficiais estadunidenses, jornalistas também estavam no cais. Já o desembarque dos pracinhas e dos equipamentos levou três horas e meia.

A FEB estava na Europa e logo iria lutar. Já o USS General W. A. Mann partiu três dias depois para Orã e de lá para Liverpool, Inglaterra, depois seguiu para Nova York, Estados Unidos e em 14 de setembro de 1944 retornava ao Rio de janeiro para transportar o 2° escalão de combate da FEB na Itália.

Fim de Carreira

O USS General W.A. Mann continuou sendo usado na Segunda Guerra Mundial, na Guerra da Coréia e na Guerra do Vietnã. Na Guerra da Coréia, foi utilizado pelo governo da República da Coréia para transportar documentos, além de ouro e prata. Na crise dos mísseis cubanos, transportou para o Caribe, armamento caso o conflito ocorresse. Em 1966 foi colocado na frota da Reserva Nacional Americana e em 1987 foi vendido como sucata, sendo desmontado em Taiwan.

Mann (17)

O USS General W.A. Mann ganhou duas Estrela de Serviço, uma para a Guerra da Coréia e outra pelos seus serviços na Guerra do Vietnã.[23]


NOTAS –

[1] – Sobre este tema ver – http://veja.abril.com.br/historia/descobrimento/naus-caravelas-portuguesas.shtml

[2] – Sobre este tema ver – https://tokdehistoria.com.br/2013/11/02/1640-a-maior-batalha-naval-ocorrida-nos-mares-brasileiros/

[3] – Sobre este tema ver – https://www.marinha.mil.br/marinha-do-brasil-e-independ%C3%AAncia

[4] – Sobre este tema ver – http://www.naviosbrasileiros.com.br/ngb/b/B017/B017-NB.htm

[5] – Sobre essa classe de navios ver – http://www.globalsecurity.org/military/systems/ship/ap.htm

[6] – O Major General William Abram Mann (1854 – 1934) Se formou na Academia Militar de West Point em 1875, da arma de infantaria, onde serviu em várias unidades até o final do século XIX. Em 1917 tornou-se o primeiro comandante da 42ª Divisão de Infantaria, conhecida como Divisão do Arco-íris, composta por unidades da Guarda Nacional a partir de 26 estados e o Distrito de Columbia. Foi a primeira vez que as unidades da Guarda Nacional a partir de vários estados foram organizadas em conjunto. Mann levou a Divisão do Arco-íris para a França durante a Primeira Guerra Mundial, mas não conseguiu passar pelo exame físico e por isso não foi capaz de comandar a sua divisão em combate. Voltou para os Estados Unidos e continuou no exército até chegar a idade da aposentadoria compulsória no final de 1918. Após sair da carreira militar se tornou empresário.

[7] – Diário de bordo do USS General A. W. Mann, 2 de julho de 1944, pág. 2.

[8] – Sobre este tema ver – http://www.cepen.org/web1/index.php/48-portal-cepen/feb-fab/mascarenhas/326-embarque-e-desembarque-da-feb-em-italia

[9] – Enciclopédia da II Guerra Mundial, Editora Globo, Livro VI, páginas 285 e 286, 2ª edição, 1956.

[10] – Barone, João, “1942 – O Brasil e sua guerra quase desconhecida”, páginas 137 a 142. Editora Nova Fronteira, 1ª edição, 2013.

[11] – Ver edições esportivas do jornal “Diário da Noite”, Rio de Janeiro-RJ, edições de 1 a 3 de julho de 1944.

[12] – Diário de bordo do USS General A. W. Mann, 2 de julho de 1944, pág. 2.

[13] – Ver jornal “Gazeta de Notícias”, Rio de Janeiro-RJ, edições de 1 a 3 de julho de 1944, pág. 2.

[14] – Diário de bordo do USS Omaha, 5 de julho de 1944, pág 6.

[15] – Ver em http://www.portalfeb.com.br/uma-conversa-com-a-historia-veterano-pedro-candido-ribeiro/

[16] – Diário de bordo do USS Omaha, 7 de julho de 1944, pág. 7 e Diário de bordo do USS General A. W. Mann, 11 de julho de 1944, pág. 10.

[17] – Diário de bordo do USS Omaha, 11 de julho de 1944, pág. 10.

[18] – Ver https://chicomiranda.wordpress.com/tag/navio-general-mann/

[19] – Ver jornal “Diário da Noite”, Rio de Janeiro-RJ, edição de 19 de setembro de 1944, págs. 1 e 2.

[20] – Diário de bordo do USS General A. W. Mann, 13 de julho de 1944, pág. 13.

[21] – Ver http://www.anvfeb.com.br/siteantigo/amynthas.htm

[22] – Ver http://www.portalfeb.com.br/longa-jornada-com-a-feb-na-italia-capitulo-8/

[23] – Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/USS_General_W.A._Mann

JOÃO GAMBARRA E A LUTA PELA MEMÓRIA DOS QUE LUTARAM

O responsável pelo TOK DE HISTÓRIA, junto com o Sr. João Gambarra, no monumento aos combatentes brasileiros da Segunda Guerra Mundial em Santa Luzia, Praíba
O responsável pelo TOK DE HISTÓRIA, junto com o Sr. João Gambarra, no monumento aos combatentes brasileiros da Segunda Guerra Mundial em Santa Luzia, Paraíba-CLIQUE PARA AMPLIAR AS FOTOS.

Um ex-combatente de 96 anos, que mantém vivo no sertão a memória dos paraibanos que lutaram na Segunda Guerra Mundial 

Junto a Rudolf Thales Diniz Lourenço e German Zaunseder, bons amigos que gostam de história, estivemos recentemente no sertão da Paraíba, mais precisamente na cidade de Santa Luzia, também conhecida tradicionalmente como Santa Luzia do Sabugy, onde conhecemos um ser humano muito especial.

Através da minha querida prima Fátima Cavalcanti, respeitada odontóloga que residente em João Pessoa, conseguimos chegar ao Senhor João Bezerra da Nóbrega Gambarra, um odontólogo aposentado, muito respeitado profissionalmente na sua terra e nascido no longínquo ano de 1919.

Rostand Medeiros, Seu João e Dona Dagmar
Rostand Medeiros, Seu João e Dona Dagmar

Verdadeira memória da viva da sua região, tivemos o privilégio e a honra de sermos muito bem recebidos em sua casa, onde ele e sua esposa, Dona Dagmar, foram de extrema cortesia e atenção.

Junto a Seu João conversamos algumas horas sobre a história do nosso sertão nordestino, o cangaço na Paraíba, as antigas revoluções ocorridas na primeira metade do século XX e a Segunda Guerra Mundial.

O interessante foi que descobri que seu pai, o vaqueiro José Alves Bezerra, no início do século XX negociava gado entre a Paraíba e a região do Seridó Potiguar (Santa Luzia é próxima a fronteira do Rio Grande do Norte). José Alves também trazia gado do distante Piauí, percorrendo antigos caminhos coloniais, aonde seus negócios chegavam a alcançar a região da Serra da Rajada, próximo ao Rio Carnaúba e da pequena vila homônima ao rio. Ali mantinha negócios e tinha amizade com o fazendeiro Joaquim Paulino de Medeiros, conhecido como coronel Quincó da Ramada e meu bisavô. Através de Seu João soube interessantes detalhes do ataque que a minha família sofreu de cangaceiros supostamente comandados por Chico Pereira, no dia 1 de fevereiro de 1927, na Fazenda Rajada, município de Acari. O papo rolou solto!

O amigo German Zaunseder, argentino de Buenos Aires e descendente de alemães, conhecendo o sertão potiguar. Ao fundo a Serra da Rajada.
O amigo German Zaunseder, argentino de Buenos Aires e descendente de alemães, conhecendo o sertão potiguar. Ao fundo a Serra da Rajada.

Já em relação a segunda Guerra Mundial Seu João contou que foi o terceiro sargento Gambarra, lotado entre os anos de 1942 e 1945 no 40º Batalhão de Caçadores da cidade de Campina Grande. Ele não seguiu para a Itália com a FEB – Força Expedicionária Brasileira, mas vivenciou a partida de amigos e a tristeza da perda de alguns deles em combate. Esteve vigilante nas nossas praias, patrulhando extensas faixas do então praticamente deserto litoral paraibano.

Mas o fato mais intenso e relevante da nossa visita foi quando Seu João, com extremo orgulho e satisfação, levou os três amantes da história vindos de Natal até o monumento existente em sua cidade para honrar a memória dos ex-combatentes paraibanos que participaram da Segunda Guerra Mundial.

Localizado as margens da BR-230, que corta toda Paraíba de lesta a oeste, o monumento impressiona bela beleza e singeleza. Encimado por três grandes pilares retangulares que sustentam uma grande coluna, possui no alto uma estátua que representa um combatente brasileiro da Segunda Guerra. Nos três pilares que servem de base estão os nomes dos paraibanos que seguiram para a Itália e dos que protegeram nosso litoral, além dos símbolos da FEB e do 5º Exército dos Estados Unidos. Não faltam os nomes daqueles que participaram do conselho gestor para a existência deste monumento, entre eles está o nome de João Gambarra. Foi uma visita muito especial.

German, Rudolf e Seu João no monumento de Santa Luzia
German, Rudolf e Seu João no monumento de Santa Luzia

Após o fim da guerra Seu João estudou em Recife, onde se formou em odontologia. Foi amigo de turma do respeitado odontólogo potiguar Sólon Galvão.

O Seu João Gambarra é sempre prestigiado pelo Exército Brasileiro
O Seu João Gambarra é sempre prestigiado pelo Exército Brasileiro

Seu João é um homem que possui uma lucidez, uma vitalidade e um prazer pela vida que são fantásticos!

Rijo, lúcido, ativo, seus olhos brilham ao relembrar o passado. Ao lembrar-se do velho sertão que não existe mais, da época da guerra e dos que partiram. Mas Seu João vive a vida cada momento intensamente, onde memorizar este passado não é um peso, mas uma satisfação. Uma satisfação que ele faz questão de dividir, principalmente com os mais jovens. Mas ele se entristece ao comentar que atualmente poucos se interessam pela história.

Rudolf junto ao AT-26 Xavante da FAB, espetado em Parelhas, Rio Grande do Norte, ao lado da Igreja de São Sebastião
Rudolf junto ao AT-26 Xavante da FAB, espetado em Parelhas, Rio Grande do Norte, ao lado da Igreja de São Sebastião

Espero na minha vida poder encontrar outras pessoas como João Gambarra.

Um encontro destes não seria tão especial se não tivesse ao meu lado amigos que também gostam de história. Rudolf Lourenço é paraibano de Campina Grande, radicado em Natal, estudou economia na UFRN, é casado com a minha amiga Erika Leite e possui um grande interesse na história Segunda Guerra por influência de seu pai Josemar Lourenço da Silva, tenente da reserva da FAB.

Já German Zaunseder é argentino de Buenos Aires, estudou direito na Universadad Federal de Buenos Aires, reside em Natal há seis anos, é casado com uma potiguar, tem um filho de quatro anos e um grande interesse na história da Segunda Guerra Mundial por razões pessoais. Sua família é originária da Bavária, mas emigrou para a cidade de Duseldorff, onde nasceu seu tataravô Siegfredo.

1Gambarra (7)

Por uma razão que German desconhece, seu tataravô colocou em um dos seus filhos o nome muito pouco germânico de Antônio Zaunseder, avô do nosso amigo. Fugindo da crise que se abateu sobre a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, a família Zaunseder emigrou para a Argentina no início da década de 1920. Mas em 1939 os homens em idade de servirem as forças armadas de Hitler retornaram ao país de origem para lutar na guerra. Segundo German os irmãos do seu avô morreram em combate, mas Antônio sobreviveu, falecendo na Alemanha em 1954. Entretanto nosso amigo desconhece como foi a história do seu avô na Wehrmacht.  

MITOS NA BERLINDA

O Brasil coleciona personalidades que inspiram liderança.
Mas os heróis de hoje podem não ser os de amanhã

Vivi Fernandes de Lima

O paulistano Benedito Eliseu dos Santos foi um dos mais de 25 mil brasileiros que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Ele não ostentava as divisas dos oficiais militares em sua farda – era soldado – e não pôde ver a calorosa recepção que a população e o governo brasileiro prepararam para a chegada dos pracinhas, vindos da Itália em 1945. Benedito morreu na guerra, como outros 456 expedicionários, e é reconhecido como um herói pela Força Expedicionária Brasileira (FEB). Afinal, “é melhor morrer em combate do que ver ultrajada a nossa nação”, já dizia o primeiro-ministro britânico Winston Churchill.

Três pracinhas do 11.º RI. na FEB - ACERVO FAMÍLIA NALVO
Três pracinhas da FEB. A guerra é um ótimo palco para se criar heróis, que muitas vezes só desejavam voltar vivos e inteiros para suas casas – ACERVO FAMÍLIA NALVO

Hoje, Benedito dá nome à rua de um colégio que homenageia todos os combatentes da Segunda Guerra: a Escola Estadual Heróis da FEB, no Parque Novo Mundo, em São Paulo. A escola e seu endereço não estão sozinhos na homenagem a esses homens: o bairro inteiro tem ruas com nomes de expedicionários. Cristiane Matos, professora de História do colégio, levou o tema para a sala de aula: “Fizemos um projeto em que os alunos saíram à caça de documentos de ex-combatentes. Foi ótimo; eles buscaram a história de cada um que dá nome às ruas”.

A atividade fez com que os estudantes se interessassem pela guerra, o que nem sempre é fácil. “Normalmente, os alunos não têm facilidade em relacionar os heróis com os fatos históricos. Sobre Tiradentes, por exemplo, a maioria sabe que ele morreu enforcado e que se parecia com Jesus. Só isso”, diz a professora. A distância entre a figura do líder e a sua causa está presente até no caso de Che Guevara, apontado por professores como o personagem histórico mais popular para a juventude. Aqui, “muitos vestem a camisa com a foto do Che e não têm noção da história dele. O que atrai o interesse dos jovens é mais o poder de comando e de liderança do personagem do que a sua causa”, afirma Cristiane.

Em um primeiro olhar, todos sabem quem é o personagem da foto. Mas nem todos sabem que ele é seguramente o argentino mais famoso no Brasil, mais até do que Maradona, seus pais eram oriundos de famílias pertencentes a classe alta argentina, seu nome era Ernesto Guevara de la Serna e nasceu na cidade de Rosário, em 1928 - Fonte - http://www.havana-cultura.com/
Em um primeiro olhar, todos sabem quem é o famoso personagem da foto ligado a história cubana. Mas nem todos sabem que ele é seguramente o argentino mais famoso no Brasil (mais até do que Maradona), seus pais eram oriundos de famílias pertencentes a classe alta do seu país de origem e nasceu em 1928 na cidade de Rosário  – Fonte – http://www.havana-cultura.com/

O professor de História da Escola Estadual Tiradentes, em Umuarama (PR), Ângelo Alves, concorda com a colega de profissão paulista. Mesmo estudando no colégio que tem o nome do mais famoso inconfidente, muitos de seus alunos não reconhecem Tiradentes como um herói. “Atualmente, a historiografia vem desmitificando muitos nomes. O próprio Tiradentes se diluiu bastante. Já Che Guevara chama muito a atenção dos jovens. Eles se encantam com seu espírito aventureiro e por ter entrado numa luta que parecia impossível. E, claro, com o grande marketing que é feito com sua imagem”, explica o professor.

Mas, afinal, o que faz um personagem histórico ser reconhecido como herói? O poeta espanhol Reinaldo Ferreira (1922-1959), em sua “Receita para fazer um herói”, menciona alguns passos para a construção desse personagem mítico: “Tome-se um homem,/ feito de nada, como nós/ (…) Depois, perto do fim,/agite-se um pendão,/e toque-se um clarim”. Para arrematar a receita, uma dica fundamental: “Serve-se morto”.

Nesse ponto, as definições de herói e mártir se assemelham. Mas a permanência do heroísmo de quem sofreu por uma causa depende de muitas circunstâncias. “A construção de um herói é, ao mesmo tempo, um processo político e histórico. Ou seja, um protagonista da História delineia, simultaneamente à sua atuação, uma memória de si mesmo e de seus atos”, explica a historiadora Cecília Helena Lorenzini de Salles Oliveira, diretora do Museu Paulista da USP. A memória a que ela se refere pode ser enaltecida ou difamada, durante ou após sua vida. Isso depende dos objetos e documentos deixados, mas também da vontade de outras pessoas e de segmentos sociais que interpretem este protagonista como um representante do que desejam. “Assim, um protagonista que, para seus contemporâneos, não mereceu consideração pode vir a se tornar posteriormente uma referência na compreensão de certos eventos”, esclarece Cecília.

Já Tiradentes só foi reconhecido herói quase 100 anos após a sua morte
Já Tiradentes só foi reconhecido herói, com direito a um feriado, 100 anos após a sua morte

Esse reconhecimento pode demorar muitos anos, décadas e até séculos. No caso de Tiradentes, a primeira celebração do 21 de abril ocorreu em 1881, 89 anos após sua morte. A data só virou feriado nacional em 1890, no mesmo ano em que o 15 de novembro também passou a ser comemorado. Coincidência? Nem um pouco. Os republicanos estavam ávidos por lançar um herói para o novo regime. E esta era uma tarefa difícil, já que a Proclamação teve quase nenhuma participação popular e, como o historiador José Murilo de Carvalho escreveu, “a pequena densidade histórica do 15 de novembro (uma passeata militar) não fornecia terreno adequado para a germinação de mitos”.

Enquanto tentavam exaltar a imagem do marechal Deodoro, de Benjamim Constant e Floriano Peixoto – que sequer foram heróis militares –, Tiradentes vinha aparecendo na literatura e nas artes. O poeta Castro Alves chegou a se referir ao inconfidente como “o Cristo da multidão”. Sua simpatia pela república – nos moldes norte-americanos, e não nos da que foi implantada aqui – e a memória de seu martírio couberam como uma luva na vaga de herói daquele momento político. A proliferação de estudos sobre o personagem chegou a levantar a hipótese de que Tiradentes teria escapado da forca, teoria desmentida posteriormente.

Em 1965, quando o país estava novamente sob o regime militar, Tiradentes foi proclamado patrono cívico da nação brasileira. O mesmo governo também decretou que todas as repartições públicas do país afixassem o retrato do inconfidente, o que era impensável no Império, quando se aclamava D. Pedro I como herói da Independência, ou melhor, o neto da rainha que mandou executar Tiradentes. A divulgação da imagem do imperador estava fortemente ligada à atuação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838 para criar uma história nacional.

A figura de Luís Alves de Lima e Silva, dependendo do grupo que ocupa a liderança máxima do Brasil, pode ser cultuada como um grande herói nacional, a um cruel exterminador de membros de movimentos libertários
A figura de Luís Alves de Lima e Silva, dependendo do grupo que ocupa a liderança máxima do Brasil, pode ser cultuada como um grande herói nacional, a um cruel exterminador de paraguaios e de brasileiros membros de movimentos libertários

Outro exemplo de herói a serviço do governo é o duque de Caxias, que já era reconhecido pelos políticos do Partido Conservador, do qual fazia parte, durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). “Ele havia tomado decisões em campo de batalha que dirigiram os combates a favor do Império. Foi essa situação que fez com que sua biografia se engrandecesse e que sua atuação anterior – no combate às revoluções que ocorreram no Brasil nas décadas de 1830 e 1840 – fosse interpretada de modo positivo”, explica Cecília Oliveira. Mas durante a ditadura, a historiografia marxista atacou o herói militar, considerando-o um assassino, por ter liderado o Brasil na guerra mais sangrenta da América Latina.

Essa discussão sobre quem são os heróis, expondo versões sobre “o outro lado” do senso comum, pode parecer uma tentativa de derrubar os grandes personagens. Mas a questão não é assim tão simplória. “Os estudos históricos, desde os anos 1920, têm procurado desmistificar os heróis para evidenciar como foram projetados. Para o historiador, o fundamental não é descobrir ou destruir  heróis, mas reconstituir uma época, um evento, uma situação, para entendê-los por inteiro, nas suas várias facetas e contradições”, elucida Cecília.

Já este personagem seguramente foi um grande líder para aqueles que o seguiam, estrategista e conhecer a sua história ajuda muito a compreender o nosso atual flagelo da violência no Brasil. Infelizmente se perde muito tempo na quase eterna discussão se ele foi herói ou bandido!
Seguramente este homem foi um grande líder para aqueles que o seguiam, um inteligente estrategista e muito valente. Conhecer a sua história ajuda muito a compreender o nosso atual flagelo da violência no Brasil. Infelizmente se perde muito tempo na quase eterna discussão se ele foi herói ou bandido!

E contradição é o que não falta quando ao assunto é um grande personagem. Além de suas biografias terem diferentes versões com o passar do tempo, há também casos em que o indivíduo é endeusado e demonizado num mesmo período. Assim é Lampião: alguns batem palmas para sua origem humilde e para o discurso de que ele entrou no cangaço para fazer justiça; outros têm repugnância por quem talvez tenha sido o mais cruel dos bandidos do Nordeste. Já o padre Cícero é ainda uma personalidade muito popular na região, onde nem sempre o senso comum está de acordo com a historiografia acadêmica. Sua biografia não deixa escapar uma possível aliança com o cangaço para combater a Coluna Prestes, liderada por outro herói nacional, Luiz Carlos Prestes.

Como se vê, há heróis para todos os lados. E se eles refletem, de certa forma, as transformações das sociedades, é natural que novos heróis surjam a cada época. Decretar um feriado em homenagem a Zumbi e à Consciência Negra, como ocorre hoje em mais de 200 cidades brasileiras, só foi possível quatro séculos depois do fim do Quilombo dos Palmares. Nesse caso, novamente a memória e a política se unem. Desta vez, como resultado do crescente movimento em defesa dos direitos dos negros.

Além de Zumbi, o quilombola Malunguinho foi bastante perseguido em Pernambuco no século XIX e é reverenciado como herói. “Hoje, este líder é muito comemorado no catimbó, no meio da mata, com festas”, conta o historiador pernambucano Marcus de Carvalho. Em 1827, tropas do governo enfrentaram o quilombo de Malunguinho, mas muitos negros conseguiram fugir, inclusive o líder. Uma recompensa de 100 mil-réis foi oferecida por sua captura ou morte. “Para se ter uma ideia do temor que ele provocava, foi a maior quantia proposta pela captura de alguém vivo ou morto em Pernambuco até a Cabanada (1832-1835)”, diz o historiador. Atualmente, o quilombola é, inclusive, nome de uma lei estadual que criou a Semana Estadual da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana, em 2007.

O marinheiro João Cândido
O marinheiro João Cândido

O líder da Revolta da Chibata, João Cândido, é outro personagem que foi ainda mais valorizado com o movimento negro. Sua vida não para de despertar a curiosidade de pesquisadores, que volta e meia encontram uma novidade sobre o Almirante Negro. Aliás, enquanto ainda se investiga esse mito, a historiografia recente traz a existência de outro líder da Revolta. Os historiadores Marco Morel e Sílvia Capanema de Almeida publicaram recentemente descobertas sobre Adalberto Ferreira Ribas (1891-1963), que provavelmente foi quem escreveu o manifesto com as reivindicações do movimento contra os castigos corporais aplicados aos marinheiros.

A descoberta de novos heróis e a revisão dos antigos pode estar também associada ao aumento de estudos biográficos. Durante muito tempo – aproximadamente até a década de 1970 –, a biografia não era considerada História por se tratar de uma investigação sobre um indivíduo, e não sobre acontecimentos coletivos. Mas o próprio Karl Marx, que é referência para a história social, já dizia que não via os indivíduos como elementos isolados… Se a historiografia muda, os heróis também podem mudar. Enquanto isso, a juventude brasileira veste camisetas com estampas do argentino Che Guevara.

Saiba Mais – Bibliografia

CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

RÉMOND, René (org.). Por uma História política. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003.

MALERBA, Jurandir (org.). A independência brasileira: novas dimensões. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/mitos-na-berlinda

OS BRASILEIROS QUE FORAM A GUERRA NA ITÁLIA

 

À direita, o então sargento Samuel Silva, que serviu na 3ª Companhia de Petrechos Pesados do 6º Regimento de Infantaria durante a guerra. Silva foi condecorado com a Cruz de Combate de 1ª Classe por se distinguir em combate durante a ofensiva da primavera
ACERVO SILVA

AUTOR – Marcelo Godoy

FONTE – http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,os-brasileiros-que-foram-a-guerra,921241,0.htm

A história pessoal de cada um desses homens – comandantes ou comandados – está indissoluvelmente ligada à guerra. Não a uma guerra qualquer, mas à maior de todas até agora enfrentada pela humanidade. Suas experiências pessoais não são simples anedotas, mas representam as angústias, as decisões e os comportamentos de uma geração.

Os brigadeiros Rui Moreira Lima e José Rabelo Meira Vasconcelos já foram entrevistados dezenas de vezes. Não se negam a falar sobre a guerra e a contar o que viveram. Foram os pioneiros da aviação de caça no Brasil. Lima acabou cassado em 1964 – achavam-no próximo demais do governo de João Goulart. “Sempre fui um democrata. Tenho horror a ditaduras – comunista ou fascista, não importa.”

Militares do pelotão de transmissões do 1º Regimento de Infantaria, da FEB, acompanhados por dois italianos que auxiliavam a tropa brasileira (primeiro à direita e o homem em pé no jeep, à direita). O soldado Jacob Gorender está de pé, sem camisa, no centro da foto

Meira, com sua voz calma, é outro que viveu as perturbações que a política trouxe à caserna. “Foi um grande erro: militar não deve se envolver com política.”

Em São Paulo, a memória dos veteranos têm um endereço: Rua Santa Madalena. Todos os dias alguns senhores procuram a sede da Associação de ex-Combatentes do Brasil. Quase todos com mais de 90 anos. Cada um deles carrega uma história de sacrifícios em silêncio: primeiro na Itália, depois, no Brasil. A difícil readaptação desses homens à vida longe da batalha é uma experiência que marcou essa geração. O coronel Jairo Junqueira, comanda o associação, com seu amigo, o major Samuel Silva, ambos entrevistados pelo Estadão para essa série.

O então sargento João Gonzales (centro) com dois outros colegas ainda no Brasil, antes da partida para a Itália. Gonzales serviu na 1ª Companhia de Petrechos Pesados do 6º Regimento de Infantaria e foi ferido por três estilhaços de granada no tórax quando sua companhia estava em Riola Vecchia, nos Montes Apeninos

O mesmo trabalho de resgate da memória dos expedicionários mobiliza o coronel Amerino Raposo (comandou o último tiro de artilharia dado pela FEB na Itália) e o capitão Enéas de Sá Araújo, do 6º Regimento de Infantaria – foi ferido por estilhaços de uma granada. A mesma disposição de contar suas histórias teve o almirante Hélio Leôncio Martins , o general Octavio Costa e os colegas de 1ª Companhia de Petrechos Pesados, João Gonzales e Newton Lascalea. Foi isso que levou intelectuais, como Boris Schnaiderman, de 95 anos, e Jacob Gorender, de 91, a enfrentar o cansaço de longas entrevistas para contar suas experiências na guerra. Suas vidas se entrelaçam com as de seus comandantes – generais como Mascarenhas de Moraes e Zenóbio da Costa – ou do inimigo – o general Otto Fretter Pico, que se rendera aos brasileiros.

O comandante da FEB, general João Baptista Mascarenhas de Moraes, ao lado de seu jeep, apelidado de Liliana em homenagem a uma sobrinha, na Itália. Na rodas do carro, correntes para enfrentar a neve nas estradas dos Montes Apeninos. O ferro na frente do veículo servia de proteção contra armadilhas escondidas nas estradas pelos alemães

 

 

O BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – NO IMPROVISO, PAÍS SE UNE AOS ALIADOS


Marcelo de Moraes / BRASÍLIA

FONTE – http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,no-improviso-pais-se-une-aos-aliados,921558,0.htm

Documentos inéditos e classificados do Conselho de Segurança Nacional mostram como o Brasil estava despreparado para enfrentar a 2.ª Guerra Mundial e precisou recorrer aos Estados Unidos para conseguir enviar suas tropas para o combate na Europa. A decisão de participar da guerra fez com que o governo brasileiro se deparasse com a incrível falta de infraestrutura de suas tropas, deficientes em efetivos, armas, equipamentos e treinamentos. Os documentos, aos quais o Estado teve acesso, estão guardados no Arquivo Nacional, em Brasília, e foram liberados na íntegra graças à Lei de Acesso à Informação.

O Brasil declarou guerra à Alemanha em 1942, mas decidiu mandar tropas para o conflito apenas no ano seguinte. Documento de 2 de junho de 1943, classificado como secreto e enviado pelo Conselho de Segurança Nacional para o então presidente Getúlio Vargas, trata do acordo político-militar firmado com os Estados Unidos para o envio de tropas. No documento, o Brasil chega ao inusitado ponto de tentar escolher o local onde as tropas brasileiras iriam combater para evitar que os soldados nacionais sofressem com o frio europeu.

Segundo o documento, o Ministério da Guerra salientava “ser absolutamente imprescindível assentar, por uma questão de clima e condições mesológicas, que, em princípio, o emprego de nossa força expedicionária se restrinja à região sul mediterrânea da Europa”.

Nesse documento, o Ministério da Guerra também deixa clara a precariedade dos armamentos nacionais e pede que o governo avise os americanos sobre a questão. O texto diz que o Brasil deve “estipular, de modo explícito, o problema do armamento do Corpo Expedicionário, como dos demais elementos guarnecedores do território nacional”.

Getúlio Vargas no interior de navio de transporte de tropas, conversando com soldados brasileiros a caminho da Itália.

Outro documento reservado, enviado em 8 de novembro de 1943 pelo Conselho de Segurança Nacional para Getúlio Vargas, trata justamente da criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e narra a preocupação que o Ministério da Guerra tinha com as medidas que deveriam ser adotadas para evitar “os inconvenientes de uma improvisação”.

As deficiências brasileiras eram totais. Arquivo secreto de 5 de janeiro de 1944 mostra a solicitação do Ministério da Guerra para enviar à América do Norte um oficial para “estudar a organização da Infantaria do Ar – tropa especialmente adestrada para o transporte aéreo”. A exposição de motivos não poderia ser mais direta: os militares brasileiros simplesmente não tinham nenhum conhecimento sobre o uso militar de tropas de paraquedistas.

“Alega o senhor ministro que nada possuímos a respeito, não passando os exercícios de paraquedismo entre nós de meras demonstrações de eficiência dos aparelhos na salvação das equipagens de aviões no caso de acidente”, cita o texto do documento secreto.

10265370_10204879539931154_8899539066435233591_o
Coluna motorizada da FEB

A improvisação do governo brasileiro alcançava todas as suas áreas. Excertos tirados da Ata da Comissão de Estudos de Segurança Nacional mostravam a preocupação com abastecimento de alimentos para regiões do Brasil mais diretamente envolvidas com o conflito, como o Nordeste. A região era considerada um ponto estratégico nas operações militares e a comissão chegou a ter dúvida entre a fomentação de frigoríficos para estocar carne no Nordeste ou o incentivo a uma prosaica “indústria do charque”, carne menos perecível.

Rapadura. Se equipamentos e armas faltavam para as tropas, integrantes da comissão avaliaram que não poderia faltar também rapadura. Nessa reunião, os estudiosos consultados pelo governo defenderam a estocagem de gêneros e lembraram “ser a rapadura produto primordial na alimentação do nordestino”.