JOHN DILLINGER – CRIMINOSO SANGUINÁRIO OU O ROBIN HOOD DO SÉCULO XX?

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Em 1929 a Bolsa de Valores de Nova York quebrou, no que ficou conhecido como “Crash”, e essa complicada situação econômica empurrou os Estados Unidos para a chamada a Grande Depressão da década de 1930[1]. Muitos norte-americanos ficaram praticamente impotentes diante do desemprego, das execuções hipotecárias dos bancos, das filas dos pães e da fome. Foi quando o povo estadunidense transformou em heróis os foras da lei que tomavam o que queriam à força e proliferaram sensivelmente diante daquela crise. De todos os bandidos sinistros dessa época, certamente John Herbert Dillinger marcou essa terrível “Era dos Gangster”[2], que despertou emoções na massa a um nível raramente visto naquele país. 

John Herbert Dillinger – Fonte – https://www.wikitree.com/wiki/Dillinger-109

Dillinger, cujo nome outrora dominou as manchetes, era um ladrão notório e cruel. De setembro de 1933 a julho de 1934, ele e seu violento bando aterrorizaram várias regiões dos Estados Unidos, matando e ferindo homens, assaltando bancos, roubando arsenais da polícia e realizando mirabolantes fugas de várias prisões.

Ele e seus homens fizeram parte de uma nova geração de bandidos que dirigiam possantes veículos com motores V8, carregavam metralhadoras Thompson[3], pistolas Colt 45[4], usavam roupas finas, perfumes caros e deixaram uma marca profunda no imaginário dos Estados Unidos.

De Delinquente Juvenil a Marinheiro

John Herbert Dillinger nasceu em 22 de junho de 1903, em Indianápolis. Seu pai, John Wilson Dillinger, era dono de um pequeno armazém e proprietário de quatro casas. Sua mãe, Mollie Lancaster, faleceu quando o pequeno Johnnie tinha três anos e ele foi criado durante um tempo pela sua irmã Audrey, quatorze anos mais velha. Essa situação durou até seu pai casar novamente quando ele tinha nove anos.

Metralhadora Thompson, calibre 45, em um estojo de violino, a arma dos gangsters – Fonte https://www.firearmsnews.com/editorial/auto-ordnance-1927-a1-thompson-review/380166

O pai de Dillinger alternava entre disciplinar e mimar o filho. Batia no garoto, mas logo lhe dava dinheiro suficiente para comprar doces. Em alguns dias o pai trancava Johnnie na casa o dia todo e em outros o deixava vagar livremente pelo seu bairro até escurecer.

 Johnnie vivia se metendo em confusão. Ele liderava uma gangue de bairro chamada “Os Doze Sujos” e roubava carvão de vagões de trem. A maioria dos vizinhos não sabia das façanhas de Johnnie e o descreveram como um garoto alegre e simpático, que se vestia bem e não era mais travesso do que qualquer outro menino.

O jovem Dillinger.

Dillinger frequentemente se metia em brigas e pequenos furtos, também era conhecido por sua personalidade desconcertante e por intimidar crianças menores. Aos 16 anos, o futuro bandoleiro abandonou a escola e começou a trabalhar em uma oficina mecânica, onde se destacou. À noite ele sempre chegava tarde a sua casa, o que gerava tensão com o pai. Ele não contava ao velho Dillinger sobre suas aventuras noturnas, que incluíam bebidas, cigarros, brigas e visitas a prostitutas.

Temendo que a cidade estivesse corrompendo seu filho, em 1921 o pai de Dillinger mudou a família para a pequena e pacata cidade de Mooresville, no estado de Indiana. Ele esperava que o campo proporcionasse ao filho um ambiente saudável. Mas apesar de sua nova vida rural, o comportamento selvagem e rebelde do jovem Dillinger permaneceu inalterado. Em 1922 ele foi preso por roubo de carro e seu relacionamento com o pai se deteriorou.

O encouraçado Uss Utha – Foto – US Navy.

Em 1923, os problemas de Dillinger resultaram em seu alistamento na Marinha dos Estados Unidos, onde ele foi designado para o poderoso encouraçado USS Utah[5], onde atuava como um Bombeiro de 3ª classe, trabalhando no departamento de engenharia e era também um reparador de máquinas. Mas após seis meses do início de seu serviço militar, ele desertou quando seu navio atracou no Porto de Boston e acabou sendo dispensado desonrosamente.

O marinheiro Dillinger – Fonte – US Navy.

Após sua deserção, Dillinger retornou a Mooresville, onde conheceu Beryl Ethel Hovious e os dois se casaram em 12 de abril de 1924. Ele tinha 20 anos e ela 16.

Nove Anos Atrás das Grades

No ano seguinte, em 6 de setembro, Dillinger e seu amigo Edgar Singleton assaltaram um homem chamado Frank Morgan, no lugar Mooresville. A vítima voltava para casa com o salário semanal, quando os dois homens o atacaram. Embora Dillinger tenha espancado Morgan com um parafuso de ferro envolto em um pano, ele não se feriu gravemente.

Dillinger foi novamente preso. Seu pai o aconselhou severamente a se declarar culpado e aceitar sua punição, que acabou sendo bastante dura. O jovem foi condenado há de dez anos de prisão, mesmo sem antecedentes criminais. Singleton, que era muito mais velho e tinha antecedentes criminais, cumpriu menos de dois anos de uma sentença de catorze, tudo graças ao seu advogado.

O antigo Reformatório Estadual de Indiana, na cidade de Pendleton, Indiana, nos dias atuais – Fonte – Google.com

Dillinger então foi enviado para o Reformatório Estadual de Indiana, na cidade de Pendleton. Embora ocasionalmente fosse disciplinado com violência por sua conduta desordeira, não era considerado perigoso. Jogava no time de beisebol da prisão e trabalhava como costureiro em uma fábrica de camisas. A esposa Beryl Hovious e a família de Dillinger o visitavam com frequência. Ele escrevia bastante e suas cartas eram repletas de carinho e afeto. Pouco depois de receber uma de suas cartas, Beryl entrou com um pedido de divórcio, que obteve em 20 de junho de 1929. Anos depois Dillinger comentaria que a separação lhe destroçou por dentro e o impulsionou ainda mais para o crime.

Seu exame físico na prisão mostrou que ele tinha gonorreia, cujo tratamento na época era bastante doloroso. Ele fez amizade com outros criminosos, que ensinaram a Dillinger a ser um bandido bem-sucedido e não demorou para que ele se sobressaia na liderança e planejasse com seus amigos assaltos que cometeriam logo após serem libertados.

Somente depois de nove longos anos, em 22 de maio de 1933, foi que Dillinger recebeu liberdade condicional. Ele sentia que tinha pago a sua dívida com a sociedade ao passar a juventude na prisão. Sua família e ele próprio sempre alegaram que foi a prisão e a lei que o transformaram em um bandido. Mas, na verdade, seus antecedentes criminais antes de ir para a prisão já eram bastante graves e é evidente que o cárcere nada fez para reabilitá-lo. Nesse ponto de sua vida, Dillinger estava determinado a se tornar um assaltante de bancos profissional.

Primeiro Roubo de Um Banco e a Primeira Fuga

Faltando um dia para completar um mês de sua liberdade, Dillinger cometeu seu primeiro assalto a banco. Foi em 21 de junho de 1933, na localidade de New Carlisle, no estado de Ohio, onde roubou com dois comparsas 10.000 dólares (equivalente em janeiro de 2026 a 250.000 dólares, ou cerca de 1.350.000 reais). Tempos depois, em 14 de agosto, ele e seus asseclas assaltaram o banco de Bluffton, também em Ohio. Mas dessa vez ele foi rastreado pela polícia e capturado. Ficou preso na cadeia do Condado de Allen, na cidade de Lima, Ohio, e parecia que suas perspectivas futuras se tornaram bem complicadas!

Fotos de nove dos dez fugitivos da da Prisão Estadual de Indiana, em 22 de setembro de 1933 – Fonte – https://www.fbi.gov/services

Foi quando no dia 22 de setembro, dez de seus colegas de cárcere fugiram da Prisão Estadual de Indiana. Desses homens quem continuou mais tempo com Dillinger foram principalmente Harry Pierpont[6], Charles Makley[7], John Hamilton[8] e Russell Clark[9]. A evasão desses homens, que atiraram em dois guardas na ocasião, havia sido anteriormente arquitetada e apoiada por Dillinger. Quando eles souberam da sua prisão, decidiram resgatá-lo.

Pierpont, Clark e Makley chegaram a Lima em 12 de outubro, onde se fizeram passar por policiais do estado de Indiana, alegando que tinham vindo para extraditar Dillinger por violação da sua liberdade condicional. Quando o xerife Jess Sarber pediu suas credenciais, Pierpont rapidamente atirou duas vezes nele e o espancou até deixar o homem da lei inconsciente. Em seguida os meliantes libertaram Dillinger, trancaram a esposa do xerife e um policial em uma cela e deixaram o xerife Sarber agonizando no chão por noventa minutos até morrer.

Os quatro homens escaparam de volta para Indiana, onde se juntaram ao resto da gangue. Esse grupo de bandidos formou o que ficou conhecido como “Primeira Gangue de Dillinger”.

John Dillinger – Fonte – https://en.wikipedia.org/

Foi por essa época que o chefe do bando de assaltantes de bancos conheceu a jovem Evelyn “Billie” Frechette[10] e eles começaram um relacionamento.

Roubos, Tiros, Prisões e um Novo Robin Hood?

A quadrilha de Dillinger era muito bem armada, equipada com possantes veículos e realizaram diversos assaltos a bancos. O primeiro foi na cidade de Greencastle, Indiana, em 23 de outubro de 1933.

Dillinger aramado e perigoso, apesar do sorriso debochado.

As duas e quarenta e cinco da tarde, um grande Studebaker estacionou em uma colina ao lado do banco e quatro homens entraram: Dillinger, Pierpont, Makley e Clark. Pierpont dirigiu-se até um dos caixas para trocar uma nota de 20 dólares e quando o funcionário lhe disse para ir a outro guichê, Pierpont sacou sua metralhadora Thompson e colocou na cara do sujeito. Os outros membros da quadrilha sacaram suas armas e começaram a retirar dinheiro dos cofres. Testemunhas identificaram claramente Pierpont como o líder dos assaltantes. Cinco minutos depois, o assalto havia terminado e a quadrilha saiu sem disparar um tiro e levando 74.000 dólares em dinheiro e títulos. Eles foram tão silenciosos que ninguém na delegacia do outro lado da rua sabia o que havia acontecido.

Harry Pierpont (de camisa clara) junto a um policial de Tucson, Arizona.

No mês seguinte foi à vez de um banco em Racine, no estado de Wisconsin, quando a quadrilha feriu um caixa da agência e um segurança. Só que a polícia cercou o local e o grupo foi forçado a usar reféns como escudos humanos. Eles marcharam até seu carro e partiram com uma mulher, o presidente do banco e um policial pendurado no estribo do veículo. Alguns quarteirões depois, quando o carro entrou no trânsito, o policial foi arremessado ao solo.

Esse era John “Red” Hamilton, canadense e o companheiro de Dillinger que matou o o detetive William Shanley – Fonte – https://www.facebook.com/TheMobMad/posts/on-december-14-1933-canadian-criminal-bank-robber-active-in-the-1920s1930s-john-/1164309458665633/

Em 13 de dezembro de 1933, a gangue de Dillinger invadiu um banco de Chicago de armas na mão e esvaziaram seus cofres. Um dia depois, após John Hamilton ter deixado seu carro em uma oficina mecânica, um funcionário do lugar suspeitou que aquele veículo pertencesse a um bandido e chamou a polícia. Quando Hamilton voltou para buscar o automóvel, se deparou com o detetive William Shanley e outros dois policiais esperando para interrogá-lo. Sem pestanejar abriu fogo com sua pistola Colt 45, matando Shanley e conseguindo escapar. Esse incidente levou o Departamento de Polícia de Chicago a formar o chamado “Esquadrão Dillinger”, composto por mais de quarenta homens.

Nesse período o bando saqueou os arsenais da polícia de duas cidades, roubando várias metralhadoras, rifles, pistolas, revólveres, farta munição e coletes à prova de balas.

O “Modus Operandi” do grupo era simples e prático: Um ou dois homens visitavam um banco durante o horário comercial, memorizavam a planta interna e anotavam a distância até a delegacia de polícia mais próxima. Também percorriam a rota de fuga três ou quatro vezes, desenhavam mapas mostrando as ruas e saídas das cidades, os pontos de referência e as distâncias entre vários locais. Essas informações eram marcadas em uma carta que o “navegador” lia para o motorista. Os homens chegaram a esconder latas de gasolina em montes de feno ao longo da rota de fuga.

Em dezembro de 1933, devido à atenção indesejada gerada por seus crimes, a gangue e suas amantes tiraram longas férias em uma casa de praia em Daytona Beach, Flórida, com destaque para um churrasco de Ano Novo que culminou com Dillinger descarregando sua submetralhadora Thompson na lua à meia-noite.

Em 15 de janeiro de 1934, durante um assalto ao First National Bank, na cidade de East Chicago, Indiana, um patrulheiro chamado William Patrick O’Malley foi morto. O caso aconteceu enquanto os criminosos deixavam o local e houve uma cerrada troca de tiros contra policias. Apesar de ter sido mortalmente ferido por disparos de metralhadora efetuados por John Dillinger, o policial O’Malley conseguiu revidar os tiros antes de falecer. Já Dillinger saiu ileso, pois usava um colete à prova de balas. Tempos depois, ao comentar sobre esse episódio, Dillinger disse ao seu advogado: “Sempre me senti mal pela morte de O’Malley, mas apenas por causa de sua esposa e filhos… Ele ficou bem na minha frente e continuou atirando em mim. O que mais eu poderia fazer?” 

O First National Bank de East Chicago, Indiana. Este edifício histórico ficou tristemente conhecido por ter sido palco de um assalto do bando de John Dillinger em janeiro de 1934, quando o policial William Patrick O’Malley, foi morto a tiros do lado de fora do banco enquanto os assaltantes fugiam – Fonte – https://www.joeyblsphotography.com/photography/first-national-bank-east-chicago-1934-john-dillinger-robbery/

Em 23 (alguns dizem 25) de janeiro de 1934, em Tucson, capital do estado de Arizona, um incêndio começou no hotel onde Dillinger, Pierpont, Makley e Clark estavam escondidos com nomes falsos. Os bombeiros reconheceram os homens pelas fotografias e a polícia local os prendeu. Também foram apreendidas três metralhadoras Thompson, dois rifles Winchester, cinco coletes à prova de balas, muita munição e mais de 25.000 dólares.

Pierpont, Makley e Clark foram extraditados para Lima, Ohio, e condenados pelo assassinato do xerife Jess Sarber. Sendo Pierpont e Makley sentenciados à morte e Clark à prisão perpétua. Mas, em uma tentativa de fuga, Makley foi morto e Pierpont ficou ferido. Um mês depois Pierpont se recuperou o suficiente para ser executado na cadeira elétrica. Já Clark permaneceu preso na cidade de Columbus, Ohio, por longos trinta e quatro anos. Foi libertado condicionalmente por motivos de saúde em 14 de agosto de 1968 e morreu na véspera de Natal daquele ano, apenas quatro meses após sua libertação. Ele foi o último membro sobrevivente da gangue original de Dillinger.

Voltando a 1934, Dillinger seguiu para Indiana para responder pelo assassinato do policial William O’Malley, sendo transportado de avião, uma situação bastante incomum para a época. Como ele resistiu, a polícia teve que algemá-lo e praticamente arrastá-lo até a aeronave. Quando o acorrentaram dentro da fuselagem, ele disse: “Ora, eu não pulo dessas coisas.”

Em meio a muita bravata dita pelo chefe do bando, a mídia publicou relatos exagerados de suas ações que eletrizaram o país e acabaram descrevendo-o como homem de personalidade extravagante e uma figura do tipo Robin Hood.

Fuga Cinematográfica

Dillinger havia se tornado um herói popular entre os americanos desiludidos com a falência dos bancos, o desemprego, a fome e a ineficácia do governo federal diante da crise econômica. E a sua popularidade chegou a tal ponto que naquele ano de 1934 a empresa cinematográfica Warner Brothers lançou um cinejornal mostrando a caçada a John Dillinger. A película apresentava o idoso pai do bandoleiro, os moradores de sua cidade natal e os locais atacados pelo seu bando. O público das salas de cinema em todos os Estados Unidos aplaudia fortemente quando a imagem de Dillinger aparecia na tela e vaiavam as cenas com os agentes da lei.

Dillinger chegou à prisão de Crown Point, no estado de Indiana, em 30 de janeiro de 1934. A polícia local gabou-se nos jornais da região que a prisão era à prova de fugas e havia colocado guardas extras como precaução. No entanto, em 3 de março, um sábado, Dillinger conseguiu escapar durante os exercícios matinais com outros quinze detentos.

Dillinger sacou uma pistola e pegou os guardas de surpresa. Depois os obrigou a abrir a sua cela, se apossou de duas metralhadoras, trancou os guardas e fugiu. Conseguiu sair do local sem disparar um tiro. Durante a fuga Dillinger roubou o carro do xerife e dirigiu em direção a Chicago. Quase imediatamente começaram as especulações se a arma que Dillinger exibiu era real ou não. Os arquivos do FBI indicam que o ladrão de bvancos usou uma pistola falsa, esculpida em madeira (algumas fontes afirmam que ela foi esculpida em uma barra de sabão e escurecida com graxa de sapato). Foi então o Governo Federal entrou na caçada. 

Armas do bando de Dillinger capturada pela polícia.

Em resposta a situação, J. Edgar Hoover, um administrador da área de segurança pública, usou Dillinger como justificativa para criar o Federal Bureau of Investigation, ou FBI, defendendo a adoção de técnicas de investigação mais sofisticadas contra o crime organizado. Logo o novo órgão governamental organizou uma caçada humana em todo o país para capturá-lo. Enquanto tudo isso se desenrolava, poucas horas após sua fuga Dillinger se reencontrou com sua namorada Evelyn “Billie” Frechette e aproveitou muitas noites de amor.

Na sequência Dillinger se juntou a John Hamilton e conseguiram reunir um grupo de marginais para formar a “Segunda Gangue de Dillinger”. Esta era composta por Lester Joseph Gillis, conhecido no mundo do crime como “Baby Face Nelson”[11], Homer Van Meter[12], Tommy Carroll[13] e Eddie Green[14].

O perigoso Lester Joseph Gillis, o “Baby Face Nelson”.

Em 6 de março eles assaltaram o Security National Bank & Trust Company, na cidade de Sioux Falls, estado da Dakota do Sul. Uma semana depois foi a vez do First National Bank, em Mason City, Iowa. No primeiro assalto um policial chamado Hale Keith foi gravemente ferido quando Baby Face Nelson descarregou uma rajada de balas de sua metralhadora Thompson através de uma vitrine. Já no assalto em Mason City, Hamilton foi ferido no ombro por um juiz idoso do outro lado da rua, que também conseguiu ferir Dillinger.

Na sequência foi em busca da sua namorada Evelyn Frechette.

Tiroteio na Porta do Apartamento 303

Em 19 de março de 1934, Dillinger e sua namorada se hospedaram no apartamento 303, de um edifício chamado Lincoln Court, em St. Paul, capital do estado de Minnesota[15]. A ideia era que Dillinger pudesse se recuperar dos ferimentos à bala sofridos durante um assalto a banco em Mason City. Eles se registraram como Sr. e Sra. Carl P. Hellman, mas mesmo assim conseguiram despertar as suspeitas da proprietária do prédio, que buscou o FBI.

Evelyn “Billie” Frechette

Os agentes federais Rufus Coulter e Rosser Nalls, com o apoio do detetive Henry Cummings, da polícia de St. Paul, vigiaram o apartamento durante a noite de 30 de março. Na ,manhã seguinte, por volta das dez e quinze, o agente Coulter e o detetive Cummings bateram à porta do apartamento 303, enquanto o agente Nalls aguardava do lado de fora do prédio. Ao abrir a porta, Frechette distraiu os policiais e de alguma forma alertou Dillinger sobre a presença deles. Enquanto isso, de maneira surpreendente, Homer Van Meter acabava de chegar ao Edifício Lincoln Court em um Ford cupê verde. Ele seguiu para o apartamento 303 e se deparou com os policiais. Ao ser questionado quem era, disse que era um vendedor de sabonetes e conseguiu convencer Coulter a ir até o primeiro andar para lhe mostrar seus produtos, só que em dado momento abriu fogo contra o agente da lei com uma pistola. Coulter não foi atingido e correu para frente do prédio, enquanto revidava os disparos, sendo perseguido por Van Meter. Nalls se juntou ao tiroteio e Van Meter recuou para dentro do prédio.

Situação atual do edifício Lincoln Court, em St. Paul, capital do estado de Minnesota – Fonte – https://www.facebook.com/photo/?fbid=461902942626803&set=a.461902909293473

Quase ao mesmo tempo, em meio a essa balaceira toda, dentro do apartamento Frechette implorou a Dillinger que não atirasse, mas ele não escutou. O chefe do bando abriu uma fresta na porta do apartamento 303 e disparou para o corredor uma saraivada de balas com sua metralhadora. Mas o detetive Cummings se abrigou e conseguiu revidar, atingindo Dillinger na perna. Dillinger e Frechette então fugiram pela porta dos fundos do Edifício Lincoln Court.

Frechette deu ré em um sedã Hudson preto para fora de uma garagem, Dillinger entrou e os dois fugiram. Enquanto isso, Van Meter tomou o cavalo de um coletor de lixo, disfarçou-se com o boné do lixeiro e galopou para longe. Nenhum dos policiais ficou ferido no tiroteio.

Naquela mesma manhã, Dillinger e Frechette apareceram na porta dos fundos da clínica do Dr. Clayton E. May, no número 1835 da Avenida Park, em Minneapolis. A bala que atingiu Dillinger atravessou sua perna e May tratou Dillinger durante os quatro dias seguintes, aplicando injeções de soro antitetânico e enfaixando o ferimento. No dia 4 de maio, Dillinger e Frechette saíram da clínica do Dr. May no mesmo Hudson em que haviam chegado.

Tiroteio no Resort

O resort Little Bohemia na época do tiroteio – Fonte – https://housecrazysarah.life/little-bohemia-lodge-in-wisconsin-john-dillinger-slept-here/

De 5 a 8 de abril de 1934, Dillinger e Frechette visitaram a família dele em Mooresville. O encontro foi alegre e incluiu um jantar de domingo. No dia seguinte, Dillinger e Frechette dirigiram-se a Chicago. Na tarde seguinte, segunda-feira, 9 de abril, Dillinger tinha um encontro em uma taverna na parte norte da cidade, a duas quadras do Rio Chicago. Pressentindo problemas, Frechette entrou primeiro e seu namorado ficou esperando no carro. Ela foi prontamente presa por agentes, mas se recusou a revelar o paradeiro de Dillinger. Ao perceber a movimentação ele partiu sem ser notado e os dois nunca mais se viram.

Carro metralhado pela polícia no no resort Little Bohemia.

Agora Dillinger e seu bando eram alvos de uma enorme caçada humana e de uma forte campanha midiática para capturá-los. A gangue então refugiou-se no resort Little Bohemia, perto de Rhinelander, Wisconsin. Em 22 de abril o local foi alvo de uma operação do FBI sob a direção do agente federal Melvin Purvis[16], que recebeu uma denúncia do dono do resort. Mas a operação não ocorreu como planejado: os homens da lei abriram fogo por engano contra um carro que continha três funcionários do local e um foi morto e os outros dois ficaram gravemente feridos.

Dillinger, Hamilton, Van Meter e Tommy Carroll escaparam pela parte de trás da pousada, saltando de uma janela do segundo andar para um monte de neve congelada e então correram ao longo da margem de um lago. eventualmente Dillinger, Hamilton e Van Meter roubaram um carro de um carpinteiro a meio quilômetro a noroeste do resort.

O resort Little Bohemia ainda existe, recebe hóspedes e em vários locais do estabelecimento existem marcas do pesado tiroteio ali ocorrido em 22 de abril de 1934 – Fonte – https://housecrazysarah.life/little-bohemia-lodge-in-wisconsin-john-dillinger-slept-here/

Um dia depois, em 23 de abril, Hamilton, Dillinger e Homer Van Meter foram novamente confrontados pelas autoridades e outro tiroteio ocorreu. Hamilton foi mortalmente ferido por uma bala, enquanto todos escaparam em um carro. Dillinger então escondeu Hamilton, já moribundo, na casa de amigos e ele morreu em 26 de abril. Dillinger e o dono da casa enterraram Hamilton e o chefe do bando teria coberto o rosto e as mãos de Hamilton com soda cáustica para dificultar qualquer tentativa posterior de identificação do corpo.

Devido à sua fama, a vida estava se tornando cada vez mais difícil para Dillinger. Ele e Van Meter se submeteram a cirurgias plásticas em 27 de maio, realizada por um médico ligado a bandidagem. O procedimento aconteceu na casa de Jimmy Probasco, dono de um bar com ligações com o Sindicato do Crime de Chicago. Os dois passaram o mês seguinte se recuperando na casa de Probasco.

Morte na Saída do Cinema

No dia do seu 31º aniversário, 22 de junho de 1934, Dillinger foi declarado o primeiro Inimigo Público Número Um dos Estados Unidos, o primeiro a ter essa distinção. No dia seguinte, o governo federal prometeu uma recompensa de 10.000 dólares pela sua captura e uma recompensa de 5.000 dólares por informações que levassem à sua prisão.

Ainda em Chicago no início de julho, o chefe da gang de ladrões de bancos buscou refúgio junto a uma cafetina conhecida como Anna Sage. Nesse período uma antiga prostituta que havia trabalhado no bordel de Sage e chamada Rita “Polly” Hamilton, se tornou amante de Dillinger.

Anna Sege.

O que Dillinger não sabia era que Anna Sage enfrentava um processo de deportação por administrar um bordel. Nascida na Romênia como Ana Ivanova Akalieva, se tornou Ana Cumpăna (ou Cumpăaș) após se casar no seu país de origem. Logo se separou e imigrou para os Estados Unidos, onde adotou o nome de Anna Sage. A cafetina então decidiu entregar Dillinger ao FBI em troca de dinheiro da recompensa e de sua permanência nos Estados Unidos.

Em 22 de julho de 1934, Dillinger convidou Sage e Polly Hamilton para assistir o filme “Manhattan Melodrama”, cujos atores eram Clark Gable, Myrna Loy e William Powell. A exibição seria há noite no Biograph Theater, na zona norte da cidade. Antes de partirem, Sage deu a desculpa que precisava ir a um açougue comprar uma carne e lá conseguiu ligar para os policiais. Passou todas as informações sobre os planos de Dillinger para aquela noite.

Fotografia do Biograph Theater tirada em 28 de julho de 1934, seis dias após o tiroteio – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/John_Dillinger#/media/File:BiographFBI1934.jpg

Uma equipe de agentes federais e policiais de forças policiais de fora de Chicago foi formada, juntamente com um número muito pequeno de policiais locais. Nessa época as autoridades federais acreditavam que o Departamento de Polícia de Chicago era completamente corrupto e não confiável.

Quando o filme terminou, Dillinger saiu do cinema entre Sage e Hamilton. A visualização do pequeno grupo ficou fácil porque Anna Sage vestia uma saia de cor laranja, que os jornais depois afirmaram ser vermelha e por isso Sage entrou para a história como a fatal “Mulher de Vermelho”.

O agente federal Melvin Purvis ficou junto à porta da frente e sinalizou a saída de Dillinger acendendo um charuto. Tanto ele como os outros agentes relataram que Dillinger virou a cabeça e olhou diretamente para Purvis enquanto passava, olhou para o outro lado da rua e depois ultrapassou as suas acompanhantes.

A multidão no Biograph Theater de Chicago em 22 de julho de 1934, pouco depois de Dillinger ter sido morto ali por agentes – Fonte – https://en.wikipedia.org/

Em seguida colocou a mão no bolso, mas não conseguiu sacar o seu Colt M1903, calibre .380, e correu para um beco próximo. Outros relatos afirmaram que ele ignorou uma ordem para se render, sacou a arma e dirigiu-se para o beco. O certo é que os policiais Clarence Hurt, Charles Winstead e Herman Hollis perseguiram Dillinger até o beco e abriram fogo com suas pistolas. Hurt atirou duas vezes, Winstead três vezes e Hollis uma vez. Dillinger foi atingido por trás e caiu de bruços no chão.

Logo o circo de horrores começou: Houve relatos de pessoas mergulhando na poça de sangue que se formou seus jornais, lenços e até saias, como forma de guardar uma lembrança rubra daquela noite. E houve mais horrores: No necrotério o corpo de Dillinger ficou disponível para exibição pública e estima-se que umas 15.000 pessoas viram o cadáver durante um dia e meio. Até quatro máscaras mortuárias do seu rosto também foram feitas.

Cadáver de John Dillinger.

Segundo o FBI, esse gangster, que viveu 31 anos, foi acusado de roubar vinte e quatro bancos, quatro delegacias de polícia, de matar dez pessoas durante seus assaltos, inclusive o policial William O’Malley. A família de Dillinger lhe deu um enterro cristão em 25 de julho de 1934, sendo sepultado no jazigo da família no Cemitério Crown Hill, em Indianápolis.

Embora Dillinger nunca tenha se arrependido de seus crimes, ele não tinha ilusões sobre sua situação. Comentou uma vez: “Estou numa estrada sem volta e não me iludo quanto ao meu fim. Se eu me render, sei que significa a cadeira elétrica. Se eu continuar, é apenas uma questão de quanto tempo me resta.


NOTAS ——————————————————————————————————————————————————


[1] A quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, frequentemente conhecida como “Quinta-feira Negra” (24 de outubro) e “Terça-feira Negra” (29 de outubro), marcou o colapso dramático da Bolsa de Valores de Nova York, desencadeando a Grande Depressão, levando ao desemprego em massa, falências bancárias e pobreza, e sinalizando o fim dos Loucos Anos da década de 1920. A venda em pânico em massa fez com que os preços das ações despencassem, arruinando inúmeros investidores e dando início a uma recessão global que levou anos para ser superada. Como consequência milhões de pessoas perderam suas economias, empresas faliram e a produção industrial entrou em colapso, levando a uma grave crise econômica global.

[2] Os Gangsters eram (e são) membros de organizações criminosas que frequentemente atuavam nos Estados Unidos nas décadas de 1920 e 30, mas que existem hoje em formas como o crime organizado em várias partes do mundo e estão envolvidos com tráfico de drogas, extorsão, prostituição e lavagem de dinheiro. Eles operavam (e operam) por meio de violência, intimidação e corrupção, muitas vezes utilizando estruturas familiares (caso da Máfia) ou redes étnicas para conduzir seus negócios ilegais e consolidar seu poder.

[3] A submetralhadora Thompson (frequentemente chamada de “Tommy Gun”) era uma arma norte-americana icônica, desenvolvida por John Taliaferro Thompson, principalmente no calibre 45 ACP (Automatic Colt Pistol). Ela ganhou destaque durante as década de 1920 e 30 como “armas de gângsteres” e foi amplamente utilizada pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial, sendo os modelos de 1928 e M1A1 os mais conhecidos. Fabricada nos Estados Unidos principalmente pela Auto-Ordnance Corporation, era renomada por sua confiabilidade, mas também por seu peso e tamanho.

[4] A lendária pistola Colt M1911 norte-americana, em calibre 45 foi projetada por John Moses Browning e adotada como arma padrão das Forças Armadas dos Estados Unidos em 1911, permanecendo em serviço até 1985. É considerada uma arma icônica e conhecida por sua robustez e poder de parada.

[5] O USS Utah (BB-31) era um navio de guerra da classe Flórida, comissionado em 1911, que escoltou comboios na Primeira Guerra Mundial e foi posteriormente convertido em navio de treinamento antiaéreo. Foi destruído no dia 7 de dezembro de 1941, durante o ataque aéreo japonês a base naval americana de Pearl Harbor, quando foi atingido por dois torpedos, emborcando e afundando com a perda de 58 homens. Seus destroços agora servem como memorial.

[6] Harry “Pete” Pierpont (13 de outubro de 1902 – 17 de outubro de 1934) foi um assassino condenado, assaltante de bancos e tido como amigo e mentor de John Dillinger. Foi descrito como bonito e de voz suave, com mais de 1,80 m de altura, cabelo castanho claro e olhos azuis. Era considerado um líder brilhante, extremamente leal e nato. Tinha a reputação de cuidar daqueles ao seu redor e de não dedurar seus amigos. Pierpont era o colega de prisão que Dillinger mais admirava. Detestava publicidade e se contentava em deixar que outros, especialmente Dillinger, levassem o crédito pelos ousados assaltos a bancos cometidos.

[7] Charles Omer Makley (24 de novembro de 1889 – 22 de setembro de 1934), também conhecido como Charles McGray e Fat (Gordo) Charles. Makley foi identificado pelo FBI como um dos membros principais da gangue de Dillinger, participou de inúmeros assaltos a bancos e as autoridades policiais o consideravam uma figura-chave nas operações da gangue.

[8] John “Red” Hamilton (27 de agosto de 1898 – 26 de abril de 1934) era canadense e é mais conhecido por sua morte lenta e agonizante e pelo sepultamento secreto após ser mortalmente ferido durante um assalto.

[9] Russell Lee “Boobie” Clark (9 de agosto de 1898 – 24 de dezembro de 1968) Ele é mais conhecido como o membro “bem-humorado” da gangue de Dillinger.

[10] Evelyn “Billie” Frechette nasceu em 1907, filha de pai francês e mãe indígena. Viveu na Reserva Menominee, em Wisconsin, até os 13 anos e aos 18 mudou-se para Chicago, onde trabalhou como babá e garçonete. Frechette casou-se com Welton Sparks, que foi condenado à prisão em 1933 por roubo de correspondência. Ela contou à imprensa que, como resultado da prisão do marido, ela tinha uma “visão de mundo confusa”. Em novembro de 1933, ela conheceu John Dillinger em um salão de baile. Na prática, Frechette ofereceu a Dillinger uma ajuda mínima nas suas ações. Ela fazia compras, como roupas e carros, mas, na maior parte do tempo, desempenhava o papel de dona de casa, onde cozinhava e limpava para ele, além de ser amante e companheira. Frechette cumpriu dois anos de prisão federal por acobertar um criminoso e após a morte de Dillinger vendeu sua história para a revistas, jornais e fez uma turnê com um espetáculo teatral chamado “O Crime Não Compensa”,  acompanhado por membros da família de Dillinger. Frechette acabou se casando duas vezes depois disso e morreu de câncer em 13 de janeiro de 1969, em Shawano, Wisconsin.

[11] Lester Joseph Gillis (6 de dezembro de 1908 – 27 de novembro de 1934), também conhecido como George Nelson, ou Baby Face Nelson, cujo apelido derivava do fato de Gillis ser um homem baixo e ter aparência jovial. Filho de imigrantes belgas, Nelson foi um violento assaltante de bancos, que matou mais agentes do FBI do que qualquer outro criminoso. Após a morte de Dillinger se tornou o novo Inimigo Público Número Um. Em 27 de novembro de 1934, agentes do FBI feriram fatalmente Nelson na chamada “Batalha de Barrington”, travada em um subúrbio de Chicago.

[12] Homer Virgil Van Meter (3 de dezembro de 1905 – 23 de agosto de 1934) foi um criminoso condenado por roubo de veículos e assalto a passageiros de um trem. Enquanto estava no Reformatório de Indiana, Van Meter conheceu John Dillinger e Harry Pierpont. Enquanto fez amizade com Dillinger, foi desprezado por Pierpont por causa das suas palhaçadas e do seu comportamento. Um mês após a morte de Dillinger, Van Meter foi morto por policiais em St. Paul, Minnesota, todos fortemente armados com espingardas e submetralhadoras Thompson. Os policiais alegaram que Van Meter ignorou a ordem de parar e fugiu disparando duas vezes contra seus perseguidores com uma pistola. A família de Van Meter disse depois que seu parente havia sido usado para “prática de tiro ao alvo”. Os policiais relataram ter encontrado 1.323 dólares com Van Meter, embora seus amigos comentassem que naquele dia ele tinha cerca de 10.000 em dinheiro. Em 1939 o FBI anunciou que um gangster rival havia armado para os policiais executarem Van Meter, para ficar com seu dinheiro e dividir com seus matadores.

[13] Thomas Leonard Carroll (28 de novembro de 1900 – 7 de junho de 1934) foi um veterano do exército durante a Primeira Guerra Mundial e boxeador que se tornou criminoso. Participou de vários assaltos no bando de Dillinger e foi morto em Waterloo, Iowa, durante um confronto com a polícia enquanto tentava fugir após ser descoberto por policiais.

[14] Harold Eugene “Eddie” Green (2 de novembro de 1898 – 10 de abril de 1934). Green era considerado um criminoso altamente inteligente e especialista em “marcação de alvos”, amplamente conhecido por empregar táticas como observar bancos e planejar rotas de fuga que ele percorria antes de um roubo para garantir uma fuga perfeita. Suas conexões com políticos corruptos e policiais em St. Paul, Minnesota, o tornavam extremamente útil na criação de casas seguras e no fornecimento de avisos sobre batidas policiais. Em 3 de abril de 1934, em St. Paul, Green foi emboscado por agentes federais armados com metralhadoras Thompson e foi baleado na cabeça e no ombro. Em meio a relatos conflitantes de que Green teria tentado fugir ou sido morto a sangue frio, o FBI receberia duras críticas da imprensa em relação à morte de um suspeito desarmado.

[15] O edifício Lincoln Court em St. Paul, Minnesota, ainda existe e é utilizado como moradia. Na década de 1930, a cidade de St. Paul era conhecida como um lugar onde gangsters podiam se esconder, com as autoridades frequentemente fazendo vista grossa, desde que crimes não fossem cometidos na cidade.

[16] Melvin Horace Purvis II (24 de outubro de 1903 – 29 de fevereiro de 1960) foi um agente do FBI que desempenhou um papel fundamental na captura de John Dillinger e Pretty Boy Floyd em 1934. Durante a Segunda Guerra Purvis ingressou no serviço como capitão na Polícia Militar, setor de investigação criminal. Em 1945, no posto de coronel, foi incumbido de localizar nazistas de alto escalão acusados ​​de crimes de guerra. Depois foi nomeado Investigador Chefe Americano de Crimes de Guerra e auxiliou no estabelecimento dos protocolos para os Julgamentos de Nuremberg. Em 1958, ele aceitou o convite de do governo para atuar como consultor da Subcomissão do Comitê Judiciário do Senado sobre Melhorias na Máquina Judicial, em sua tarefa de reformar as práticas judiciais e acabar com o acúmulo de casos. Suicidou-se em 29 de fevereiro de 1960.

1941 – SÓ UM VOLTOU… E PASSOU PELO RIO, RECIFE E NATAL

A Interessante História do Piloto da Luftwaffe Franz von Werra, o Único Prisioneiro de Guerra Alemão Que Conseguiu Voltar Para a Sua Pátria. E no Caminho Dele Estava o Brasil. Uma Vitória da Espionagem Nazifascista em Nosso País e Como Eles Enganaram a Polícia de Getúlio Vargas..

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Franz von Werra, cujo nome original era François Gustave von Werra, nasceu em Leuk, no cantão suíço de Valais, em 13 de julho de 1914. Era filho do Barão Leo von Werra, um nobre empobrecido devido a decadência econômica dos seus negócios.

Quando a família perdeu as finanças, seu pai confiou a educação de Franz e de sua irmã Emma à família da Baronesa von Haber, uma representante autorizada da aristocracia alemã. Eles cresceram na casa Haber e o menino mudou seu nome, tornando-se Franz von Werra.

Franz von Werra

Em 1936, após a sua formatura, Werra alistou-se na Luftwaffe, a Força Aérea da Alemanha de Hitler. Obteve sua licença de piloto em 1938 e foi designado para um esquadrão de caça. Com a eclosão da Segunda Guerra, Werra e a sua unidade participam da conquista da França e em maio de 1940 ele derruba sozinho dois bombardeiros franceses e é condecorado com a Cruz de Ferro. Consta que teria destruído mais duas aeronaves inimigas.

Desenho com o esquema de cores do caça Messerschmitt ME 109 do tenente Werra.

A Autopromoção de Um Piloto de Caça.

Durante a Batalha da Inglaterra, quando os pilotos alemães se bateram contra os aviadores da Força Aérea Real, ou Royal Air Force (a famosa RAF), Werra alegou que derrotou e destruiu nove aviões ingleses, quatro no ar e cinco em terra. No entanto, por falta de testemunhas, seus superiores creditaram apenas quatro aeronaves abatidas em voo e ele recebeu uma segunda condecoração.

Werra e o filhote de leão.

Ambicioso, o tenente Franz von Werra logo percebeu que para ter uma carreira de sucesso na Luftwaffe não bastava apenas conquistar vitórias no ar, era necessário realizar muita autopromoção. Ele começou a usar regularmente o título de “Barão” e em uma ocasião, quando um grupo de jornalistas visitou a sua esquadrilha para uma sessão de fotos e entrevistas, o tenente Werra apareceu com um pequeno leão vindo de um zoológico alemão. O animal era chamado de Simba e o piloto disse aos visitantes que ele era “o mascote da unidade”. Como era uma mascote bem diferente, os fotógrafos fizeram a festa. A série resultante de fotografias mostrava Werra posando no cockpit de seu caça Messerschmitt ME 109, usando o boné de oficial e segurando Simba para a câmera. As imagens do piloto e do leãozinho apareceram nas mais populares revistas da Alemanha.

Em 5 de setembro de 1940, caças ME 109 decolaram de Calais, França, em direção à Inglaterra, como parte de uma escolta para um ataque de bombardeiros, sendo um dos caças pilotado por Werra. No retorno da missão eles foram atacados por vários aviões de caça Spitfire e a aeronave de Werra foi atingida. Ele então realizou um pouso de emergência bem sucedido em uma área de plantação. Depois que a nuvem de poeira baixou, o piloto do Messerschmitt danificado levantou o capô e saiu do cockpit ileso. Percebeu que não tinha como fugir e ficou ao lado da aeronave. Seus captores o encontraram queimando calmamente seus documentos de voo.

O caça Messerschmitt ME 109 de Werra nas mãos dos ingleses.

O Cativeiro e as Fugas.

Franz von Werra foi levado pelos militares para interrogatório. Ocorre que os ingleses sabiam do gosto daquele alemão pelos holofotes e lhe dedicaram uma atenção especial.

Os oficiais dos serviços de informação lhe questionaram várias vezes, usando seus melhores meios disponíveis para fazê-lo falar. Segundo Werra explicou em seu relatório, produzido após ele conseguir retornar para Berlim e que depois foi transformado em um livro (Einer kam durch. Fluchtbericht des Fliegerleutnants Franz von Werra / Um conseguiu passar –  Relatório de fuga do Tenente Franz von Werra), ele resistiu e nunca perdeu a calma, fechando-se em um silêncio quase absoluto.

Depois de vinte dias de infrutíferos interrogatórios, os britânicos o transferiram para um campo de prisioneiros em uma antiga casa chamada Grizedale Hall, localizada em um pântano a 30 quilômetros do Mar da Irlanda, no noroeste da Inglaterra.

Grizedale Hall.

O piloto alemão estava determinado a escapar e logo estudou as características daquela prisão. Em 7 de outubro, com a cooperação dos outros prisioneiros, Werra realizou a sua fuga. Durante uma caminhada diurna fora do acampamento, quando os ingleses ordenaram uma parada para descanso, o piloto alemão deslizou sobre um muro de pedra seca e ganhou o campo. Após descobrirem que ele fugira, os guardas alertaram os agricultores locais. Werra conseguiu ficar escondido durante três dias, mas no quarto foi localizado por dois soldados da Home Guard, a força de vigilância interna da Inglaterra na época. Estava em uma cabana de materiais agrícolas, mas percebeu a chegada dos seus captores e novamente conseguiu escapar. Em 12 de outubro ele foi visto por agricultores, que informaram as autoridades e a área onde se encontrava foi cercada. Finalmente Werra foi achado em uma depressão lamacenta no chão completamente exausto. Foi levado de volta para Grizedal Hall, onde passou 21 dias de confinamento na solitária.

Local da prisão em Swanwick, o casarão “The Hayes”.

Mais tarde o piloto alemão foi transferido para Swanwick, região de Derbyshire, centro da Inglaterra, onde foi encarcerado em uma grande casa construída na década de 1860. Chamada “The Hayes”, essa velha residência foi denominada na Segunda Guerra como “Campo 13” e apesar das medidas de alta segurança desse local, Werra começou a estudar a possibilidade de uma nova fuga.

Werra conseguiu desenvolver um plano com outros quatro companheiros e começou a construir um túnel subterrâneo. Trabalharam por cerca de um mês e mesmo com um colapso parcial do teto da galeria e o risco constante de serem capturados, os cinco presos fugiram na noite de 20 para 21 de dezembro de 1940.

O túnel aberto por Werra e seus companheiros no subsolo do casarão “The Hayes” ainda existe.

Segundo Werra comentou em seu relatório, o plano era um tanto simples, como imprudente: ele iria até uma base aérea dos ingleses, se apresentaria na porta da frente como um capitão da aviação holandesa e tentaria na base da conversa se apossar de uma aeronave.

Nessa época a Holanda havia sido ocupada pelos alemães e muitos dos seus pilotos voavam agora em esquadrilhas britânicas. Ele deu um jeito de fazer junto com seus companheiros de prisão um traje de voo improvável e uma identidade falsa. Mas as suas principais armas eram o seu talento e a sua audácia para inventar histórias.

Aviadores holandeses na Inglaterra, sendo fotografados em um caça Spitfire.

Aproveitando-se de seu bom conhecimento de inglês, o jovem tenente chegou a uma base aérea da RAF chamada Codnor Park Station, onde convenceu os guardas que era o “capitão van Lott” e entrou. Disse então a um funcionário local que seu avião teve que fazer um pouso forçado ao retornar de uma missão sobre a Dinamarca e que ele telefonasse para a base de Hucknall pedindo que fosse buscá-lo. Esperando o carro, a polícia submeteu o piloto a algumas perguntas sobre a sua história, concluindo que aquele estranho dizia a verdade. O carro chegou e ele partiu.

Base de Hucknall.

Na base de Hucknall sua história foi ainda verificada por um oficial de plantão, que telefonou para uma base, a qual o holandês disse que pertencia. Nesse meio tempo Von Werra pediu para ir ao banheiro e deixou a sala, caminhou até o hangar e, com a ajuda involuntária de um mecânico, entrou na cabine de um avião de caça Hurricane. Enquanto tentava freneticamente ligar a aeronave, o oficial de serviço saltou sobre a asa com a arma na mão e o prendeu. Os ingleses ficaram impressionados, pois até então ninguém tinha sido capaz de entrar em uma base aérea pelo portão da frente e quase se apossar de uma aeronave para fugir. O audacioso piloto alemão foi enviado de volta para o campo Swanwick.

Os ingleses já estavam fartos dele e decidiram enviá-lo em janeiro de 1941 para o distante Canadá, junto com outros 1.050 prisioneiros alemães.

A Fuga do Navio.

Ele cruzou o Oceano Atlântico no navio Dusshes of York e a bordo começou a arquitetar uma nova fuga.

Navio Dusshes of York.

Werra conheceu entre os prisioneiros alguns oficiais de submarinos alemães e descobriu que se o navio fosse tomado à força, seria possível conseguir apoio dos submarinos germânicos espalhados pelo Atlântico Norte e chegar até a costa da França dominada pelos alemães.

Mas havia um empecilho: o Dusshes of York transportava 1.050 alemães prisioneiros e 1.500 soldados britânicos armados, que iriam para a África do Norte lutar contra as tropas do Afrika Korps, comandado pelo famoso general Erwin Rommel. Aí realmente complicou para um possível motim a bordo.

Prisioneiros alemães desembarcando no Canadá.

Mas o endiabrado piloto da Luftwaffe não parou. Logo ele deu um jeito de roubar os documentos, dinheiro e um uniforme do contramestre Arthur Wood, um dos tripulantes do navio. Preparou-se corretamente e escapuliu quando a nave atracou no porto da cidade canadense de Halifax. Demorou mais de três horas para os ingleses e canadenses descobrirem a sua fuga e começaram uma busca pela cidade.

Apesar de ter conseguido com esse roubo certa quantidade de libras esterlinas, a moeda da Inglaterra, Werra descobriu amargamente que o comércio local estava proibido de transacionar com dinheiro estrangeiro devido ao estado de guerra. Continuou então a circular feito um vagabundo pelos próximos dias. Chegou a ver a sua foto em um cartaz de procura-se e tratou de ser ainda mais cauteloso. Por onde passou em Halifax se apresentou como um marinheiro inglês em busca de trabalho. Chegou a dormir no relento e conseguiu alguma comida.

Docas de Halifax em 1941.

Espertamente ele lembrou que próximo aos portos de todo mundo, sempre existiram pessoas para as quais as regras e as leis normalmente são burladas. Ele encontrou essa pessoa na figura de um chinês, que tinha um bar perto do cais. Era um lugar de péssima fama, que aparentemente também servia de prostíbulo, mas o proprietário do estabelecimento não teve problemas em trocar o dinheiro inglês por dólares canadenses e conseguiu para ele um quarto verdadeiramente imundo, mas com uma cama grande e alguma comida.

Marinheiros na região do Porto de Halifax durante a Segunda Guerra Mundial 

Mas a Real Polícia Montada do Canadá continuava procurando Werra em toda Halifax e eles fizeram uma verdadeira operação pente fino na área do porto. Não demorou quando dois homens da lei chegaram até o seu quarto e procuraram saber quem ele era. Em um primeiro momento os policiais até acreditaram na sua conversa de homem do mar desempregado e em busca de trabalho. Só que um deles desconfiou do linguajar refinado daquele homem, bem diferente do rude e típico palavreado dos marinheiros ingleses, normalmente cheio de palavrões. Werra continuou tentando levá-los na conversa, mas acabou novamente preso.

Nessa ocasião, por um ato de rebeldia ao se negar a colocar algemas com a alegação que era um oficial da Luftwaffe, levou foi uma boa surra dos policiais canadenses!

Cruzando a Fronteira e Se Tornando Uma Estrela.

Ele foi colocado em um trem com os mesmos prisioneiros que conhecera no Dusshes of York e, sem nenhuma novidade, começou a planejar uma nova fuga.

Soube que o trem estava seguindo para um lugar chamado Schreiber, no Lago Superior, na província de Ontário, onde os oficiais alemães seriam alojados no chamado “Campo W” e que o trajeto levaria três dias para ser completado.

Para a sorte de Werra, os canadenses colocaram cerca de 200 homens da Guarda de Veteranos Canadenses, que já haviam servido na Primeira Guerra Mundial. Aquilo para alguém com o currículo de Franz von Werra era uma situação muito positiva.

Não demorou e ele conseguiu saltar do seu vagão quando a composição fazia uma curva e diminuiu a velocidade. Só que a ação foi à noite, com uma temperatura de menos 20 graus célsius, a neve com mais de um metro de profundidade e um céu magnificamente estrelado.

Werra novamente deu muita sorte, pois a fuga só foi descoberta na manhã seguinte. Sete outros prisioneiros tentaram escapar do mesmo trem, mas foram logo recapturados.

Já o fugitivo solitário alcançou a pé a fronteira com os Estados Unidos, delimitada pelo Rio São Lourenço, que na época estava congelado. Ele tentou atravessar o rio caminhando sobre o gelo, mas então encontrou um canal aberto e foi obrigado a desistir. Voltou então para a região canadense, tomou posse de um barco a remos e conseguiu chegar ao território dos Estados Unidos.

Nessa época esse país mantinha-se neutro em relação à guerra na Europa, mas o clima interno era completamente a favor dos ingleses.

1941 – SÓ UM VOLTOU... E PASSOU PELO RIO, RECIFE E NATAL - A Interessante História do Piloto da Luftwaffe Franz von Werra, o Único Prisioneiro de Guerra Alemão Que Conseguiu Voltar Para a Sua Pátria. E no Caminho Dele Estava o Brasil. Uma Vitória da Espionagem Nazifascista em Nosso País e Como Eles Enganaram a Polícia de Vargas.
Foto do tenente Werra em jornais americanos.

O fugitivo conseguiu chegar à cidade americana de Ogdensbur, no estado de Nova York, e entregou-se à polícia. Quando encontrou um guarda caminhando na rua, ele levantou os braços e disse “- Eu me rendo!”.

As autoridades de imigração o acusaram de entrar ilegalmente no país e foi arbitrada uma fiança de 5.000 dólares. No outro dia o advogado do consulado alemão de Nova York chegou à cidade e pagou a fiança. O juiz local encerrou o processo e Franz von Werra estava novamente livre. Naquela mesma noite ele viajou para Nova York, onde a colônia alemã o recebeu com entusiasmo.

No outro dia após a sua chegada, esteve com o Cônsul Geral Dr. Hans Borchers e o General Friedrich von Bötticher, adido militar da Embaixada da Alemanha em Washington. Diante da situação, o consulado alemão lhe deu dinheiro, e crédito para ele comprar ternos caros das melhores lojas de roupas masculinas da Quinta Avenida.

Logo ele começou a sair pelas ruas da “Big City” americana e se apresentar a todos como o “Barão von Werra”. As qualidades de autopromoção de Werra o fizeram rapidamente se tornar famoso em todo o país, enquanto a história de sua fuga se espalhava por todo o mundo.

A chegada de Werra em um joprnal americano.

Ele se deixou fotografar com mulheres bonitas, visitou os teatros da Broadway e as pequenas e intimistas casas noturnas da Times Square. Quase sempre estava acompanhado por uma legião de admiradores. Deu entrevistas e, sem nenhuma surpresa, começou a se gabar por se considerar “um estrangeiro ilegal nos Estados Unidos”. Aos jornalistas, Werra deu uma versão muito embelezada de sua história.

Nesse meio tempo o governo canadense passou a exigir a sua extradição como um reles ladrão, pois ele havia roubado um barco para escapar pelo Rio São Lourenço. Essa era uma forma de contornar a extradição ilegal de um prisioneiro de guerra de um país neutro. O Cônsul Geral Borchers ofereceu-se para enviar aos canadenses um cheque de 35 dólares — o valor que o barco havia custado. Os canadenses recusaram. Eles queriam Werra, não o cheque.

Em 1º de fevereiro, um tribunal federal em Albany, capital do estado de Nova York, julgou o imigrante ilegal Franz von Werra. O tribunal não conseguiu chegar a um veredito final, sendo a audiência adiada e a sua fiança foi arbitrada em 10.000 dólares (algumas fontes afirmam que foram 15.000). Mas o Cônsul Geral Borchers pagou sem pestanejar.

Werra e sua fuga foram noticiados em jornais de todo o mundo.

Nos bastidores, uma batalha feroz por Werra se desenrolava.

Enquanto o público americano estava, em geral, bastante satisfeito com o fugitivo e suas aventuras, as relações entre os Estados Unidos e a Alemanha Nazista pioravam a cada dia e se tornou óbvio que aquele fugitivo era um problema complicado.

Já para o governo inglês, além de Werra ter se tornado um sério aborrecimento pelas muitas fugas empreendidas, havia algo muito pior. Aquele piloto havia se tornado um perigo para a segurança militar, pois testemunhara as técnicas de interrogatório durante a sua prisão e, se conseguisse retornar a Alemanha, levaria para os nazistas toda a sua experiência. Algo que futuramente poderia ser utilizado contra os ingleses.

Nova York em 1941.

Em meio a toda essa confusão, na noite de 24 de março de 1941, Franz von Werra partiu de Nova York sem que as autoridades americanas percebessem.

Ele então embarcou em sua última grande jornada, que o levaria a percorrer metade do mundo, com passagem pelo Brasil.

Rumo ao Sul Caliente.

Passando por uma longa série de mudanças de trem, táxis, ou carros particulares, Werra chegou à cidade de El Paso, no Texas, onde ele poderia misturar-se a uma verdadeira legião de humildes trabalhadores mexicanos, que cruzavam a fronteira do seu país com os Estados Unidos em busca de trabalho nas lavouras texanas.

Cartão postal de El Paso, no Texas, em 1941.

O fugitivo ultrapassou a fronteira em meio aos que retornavam dos Estados Unidos e conseguiu chegar à estação ferroviária de Ciudad Juárez, onde comprou uma passagem de trem destinada à Cidade do México.

Werra viajou na terceira classe, a mais barata, reservada apenas para os mexicanos mais pobres. Mas ele tinha certeza que os funcionários da alfândega mexicana deixariam em paz aqueles que utilizavam aquela parte do trem. E acertou, pois ninguém lhe perturbou naquela longa viagem através do território mexicano.

Trabalhadores mexicanos em uma lavoura nos Estados Unidos na década de 1940.

O alemão sentou-se espremido entre fazendeiros, operários, trabalhadores do campo, moças de pele escura, velhas de cabelos brancos emaranhados e crianças chorando. Em seu relatório afirmou que “Os mexicanos tagarelaram da manhã à noite”. Mas eram pessoas de boa índole, que lhe ofereceram um pouco da sua comida e lhe estenderam jarras de barro com água e vinho. Ele tentou se comunicar com muitos gestos, mas os nativos não entenderam absolutamente nada.

Depois de dois dias e meio viajando 1.970 quilômetro no compartimento superlotado e quente, ele não precisava mais se preocupar em ser reconhecido. Estava suado, com o terno amassado, sujo, coberto com a poeira cor vermelha-tijolo daquele país e que constantemente entrava pelas janelas abertas do vagão.

Estação Central da Cidade do México.

Na noite de 28 de março, Werra chegou à Cidade do México, na Estação Central. A embaixada alemã havia recebido a informação que o fugitivo era esperado naquele dia. Quando a multidão se dispersou, Werra foi até o pátio da estação e viu um grande Mercedes-Benz preto, com o motorista examinando as pessoas que saíam. Ele não prestou atenção alguma a Werra em seu traje mexicano. O piloto então ficou na sua frente e lhe disse sorrindo: “Grüß gott!” (Bom dia!). O motorista o encarou e então compreendeu a situação. Com uma risada larga, abriu a porta do carro, bateu discretamente os calcanhares e disse “Seja bem-vindo à Cidade do México tenente Werra”.

Na embaixada alemã, Franz von Werra se transformou no estudante “Bernd Natus”, o nome que constava em um passaporte falso, que incluía vistos de trânsito para o Peru, a Bolívia e o Brasil.

Consulado da Alemanha Nazista no México em 1940.

Evidentemente tudo foi tratado de maneira muito discreta, sem recepções à imprensa, entrevistas ou celebrações públicas no México. Werra conta que passou o fim de semana recluso na propriedade do cônsul alemão em Cuernavaca e chegou até a fazer algumas compras para sua noiva Elfi, e ainda lhe escreveu contando suas aventuras. Werra visitou vários monumentos astecas e ficou maravilhado diante dessas testemunhas do grande passado do México.

A Fuga Durante a Semana Santa.

Voou do México para o Peru em 1º de abril. Após três dias deixou Lima, onde havia se hospedado com o cônsul alemão, e seguiu em um avião de transporte trimotor Junkers Ju 52 para a Bolívia. Passou uma noite na capital La Paz, e em 9 de abril voou para o território brasileiro em uma aeronave do Lloyd Aéreo Boliviano, pertencente a empresários alemães. Chegou sem problemas a Corumbá, Mato Grosso.

Aquele era um tempo onde viajar de avião no Brasil era para muito poucos e os jornais da época registravam os que tinham esse privilégio. Era normalmente divulgadas as listas de passageiros, que também não eram muitos. Assim é possível compreender a operação de apoio ao tenente Werra no Brasil.

O hidroavião JU-52 Maipó, do Sindicato Condor.

Os jornais informaram que no dia 8 de abril de 1941, partiu do Rio de Janeiro o hidroavião Junkers Ju 52, batizado como “Maipó”, e pertencente à empresa aérea Sindicato Condor. Essa era uma subsidiária da Deutsche Lufthansa, que operava em todo o Brasil. A aeronave tinha como destino Cuiabá, com escala em Corumbá, e transportava onze passageiros, entre eles o engenheiro alemão Gustav Albert Salz, que desembarcou em Cuiabá. Consta então nos jornais que Salz retornou para o Rio um dia após a sua chegada à capital mato-grossense, utilizando o mesmo hidroavião “Maipó” e que na escala de Corumbá embarcou um certo elemento de nome Bruno Krause. Eles dois estavam entre os quatro passageiros que desembarcaram no Rio no dia 10 de abril, que Werra afirma em seu relatório ter sido a data de sua chegada à então Capital Federal.

Seria então Bruno Krause uma nova e falsa identidade de Franz von Werra?

Notícia publicada após a passagem do tenente Werra pela América do Sul, mostrando a rota da sua fuga.

Meses depois que esse piloto alemão passou pela América do Sul e conseguiu chegar ao seu país, jornais cariocas publicaram uma nota vinda da agência de notícias norte-americana United Press, que basicamente resumiu parte da trajetória do fugitivo pelos países sul-americanos e informou que ele vinha com nome falso. Isso pode apontar que os americanos da OSS que estavam no encalço de Werra, tenham perdido a sua pista na capital peruana por ele utilizar os nomes falsos de Bernd Natus e Bruno Krause. Em tempo, a OSS era a sigla em inglês para o antigo Office of Strategic Services, ou Escritório de Serviços Estratégicos, o serviço de inteligência dos Estados Unidos na época da Segunda Guerra e que hoje é conhecido como CIA.

E qual foi à razão do engenheiro alemão Salz realizar essa viagem tão longa e de maneira tão rápida? Seria para ele dar apoio e cobertura a Werra? Não sabemos!

Mas temos conhecimento que o engenheiro Salz havia inicialmente chegado ao Brasil em 29 de maio de 1940, vindo do Peru, passando depois pela Bolívia e utilizando a mesma rota aérea que o “Maipó” percorreu em 10 de abril de 1941 para chegar ao Rio. Outra informação aponta que ele morava no 8º andar de um prédio na Avenida Rio Branco, 128, Centro do Rio. Guardem o endereço!

Rua Paissandu, no bairro do Flamengo, onde ficava a sede da Embaixada Alemã no Brasil em 1941.

Em seu relatório Werra não informa, mas como ele fez isso no México e no Peru, é muito provável que após a sua chegada ele tenha se dirigido a Embaixada da Alemanha, que nessa época ficava na bela e arborizada Rua Paissandu, número 53, no bairro do Flamengo.

Se em seu relatório Werra não comenta nenhuma visita a embaixada do seu país no Rio, entretanto afirma que esteve na sede da empresa LATI, ou Linee Aeree Transcontinentali Italiane. Essa era uma empresa de aviação e também um verdadeiro valhacouto de espiões do Eixo atuando no Brasil. Sua sede ficava no térreo de um edifício na Avenida Rio Branco, 104, Centro do Rio, a poucos metros de onde morava o engenheiro alemão Gustav Albert Salz.

Propaganda da empresa LATI no Rio, com seu endereço.

Seria apenas coincidência?

Independente dessa questão, temos que observar a astúcia das autoridades alemãs que atuaram na fuga do piloto da Luftwaffe, que culminou com a sua chegada ao Rio em plena Quinta Feira Santa. Em um país que nessa época era majoritariamente católico, o feriado da Semana Santa era o melhor momento para qualquer fugitivo estar circulando tranquilamente por aqui.

Mas qual seria a melhor maneira de continuar essa fuga e voltar ileso para a Alemanha?

Uma Empresa Complicada.

Certamente o avião era o melhor transporte para Werra e naquele momento no Brasil só os italianos da LATI poderiam resolver a questão.

Chegada de avião da LATI no Rio – Fonte – Arquivo Time-Life.

A LATI foi oficialmente fundada em 11 de setembro de 1939, dez dias após o início da Segunda Guerra Mundial, como uma empresa aérea destinada a atuar em uma rota que buscava ligar a Itália à América do Sul em menos de 48 horas.

Os voos experimentais foram então iniciados em 3 de outubro de 1939 e a empresa contava com apoio do governo italiano. Tanto que o seu diretor era simplesmente Bruno Mussolini, filho do ditador Benito Mussolini. Com esse aporte a organização da empresa e dos seus voos seguiu bem rápido e em 22 de dezembro ocorreu o voo inaugural partindo do Brasil para a Itália.

Chegada de avião da LATI no Rio – Fonte – Arquivo Time-Life.

Os italianos utilizaram nesta rota da LATI os confiáveis e resistentes aviões trimotores Savoia Marchetti SM.75, SM.76, SM.82 e SM.83. Até 19 de junho de 1940, essas aeronaves conseguiram realizar quase 60 travessias atlânticas, levando principalmente correspondência, a uma média de 260 a 330 kg de malotes por voo, além de alguns passageiros adicionais.

A linha previa uma viagem semanal nas duas direções, com a rota partindo de Roma (Itália), depois Sevilha (Espanha), Lisboa (Portugal), Villa Cisneros (atual cidade de Dakhla, no Saara Ocidental, na época uma possessão espanhola), Ilha do Sal (no Cabo Verde, então colônia portuguesa), Natal, Recife e Rio de Janeiro.

Chegada de avião da LATI no Rio – Fonte – Arquivo Time-Life.

Com o tempo, os voos regulares entre o Brasil e a Europa passaram a transportar importantes figuras nacionais e estrangeiras, além de correios especiais dos diplomatas alemães e italianos, que não podiam ser violados. Muitos desses diplomatas eram na verdade espiões nazifascistas disfarçados. Já nos voos de retorno a Europa seguiram materiais raros e estratégicos, como diamantes, platina, mica, substâncias químicas, livros e filmes de propaganda dos Aliados. Um verdadeiro “buraco” no bloqueio militar e econômico efetuado pelos ingleses contra a Alemanha e a Itália.

Mas tinha mais. O historiador norte-americano Stanley E. Hilton, em seu livro Hitler’s Secret War In South America, 1939-1945: German Military Espionage and Allied Counterespionage in Brazil informou que membros da embaixada americana no Brasil transmitiram aos britânicos que durante as travessias no Oceano Atlântico, os pilotos da LATI estavam visualizando navios britânicos, marcando suas posições em mapas e informando os alemães para enviar seus submarinos e afundá-los.

Mas os voos da LATI não seguiam sem problemas e houve um bem sério!

Em 15 de janeiro de 1941, um SM.75C com a matrícula I-BAYR, partiu de Natal para a ilha do Sal com dez tripulantes e passageiros. Ao se aproximarem de Fernando de Noronha o motor central nº 2 perdeu potência e o piloto foi forçado a descer a aeronave no mar. Ninguém que estava a bordo foi encontrado com vida. Existiu na época a informação que esse acidente poderia ter ocorrido pela sobrecarga de minerais estratégicos sendo contrabandeados para o aliado alemão, ou por uma bem montada operação de sabotagem dos ingleses.

Houve outras situações negativas envolvendo a LATI e sua atuação no Brasil, mas agora uma de suas aeronaves serviria para uma missão diferenciada; transportar clandestinamente um combatente das forças armadas nazistas para a Alemanha. 

A Viagem Para o Nordeste do Brasil.

Como comentamos anteriormente, Franz von Werra chegou na Quinta Feira Santa ao Rio de Janeiro. Já a sua partida se deu no dia 13 de abril de 1941, Domingo de Páscoa. E o que ele fez no Rio enquanto ali esteve? Não sabemos, pois nada deixou escrito em seu relatório.

Provavelmente ele ficou mesmo escondido na embaixada, ou na casa de algum funcionário. Até porque a espionagem britânica atuava então fortemente no Brasil e recapturar Werra, ou mesmo matá-lo, seria algo bastante desejado.

Campo do Ibura durante a Segunda Guerra Mundial.

Nos jornais cariocas não existe nenhuma informação da partida de alguma aeronave da LATI para o Nordeste do Brasil no dia 13. Mas no Diário de Pernambuco, encontrei uma nota (abaixo) que comenta sobre a aterrissagem da aeronave Savoia Marchetti SM.83, prefixo I-ASSO, no Campo do Ibura, Recife. Eram 13h50min do domingo e a bordo vinha um único passageiro – Berd Notus.

Após desembarcar e diante de sua situação, seria de esperar que esse único passageiro agisse de maneira discreta e sem chamar a atenção. Mas foi tudo exatamente o contrário.

Notus (Werra) não resistiu e começou a dar declarações ao encontrar o jornalista do Diário de Pernambuco que estava de plantão no Ibura e acompanhava os pousos e as decolagens das aeronaves. Apresentou-se como “estudante” e “filho do ministro da Alemanha no México” e chegou ao cúmulo de afirmar que “vai à Alemanha alistar-se na Luftwaffe” e que “esperava lutar ainda esse ano”. Só faltou dizer que era um “Barão”!

Era uma total falta de senso de segurança, muita irresponsabilidade e, certamente, um extremo excesso de arrogância. Aparentemente o tenente alemão nem se importou com a presença de Gino Portesi, um capitão da Regia Aeronáutica, a força aérea fascista, que além de ter sido o piloto do avião que trouxe Werra do Rio, era o subdiretor no Brasil da Ala Littoria, a companhia aérea nacional italiana e controladora do capital da LATI.

Através de um documento (acima) da Delegacia de Ordem Política e Social, DOPS, de Recife, produzido em 5 de maio de 1942, descobrimos que realmente o piloto alemão quase colocou tudo a perder no Campo do Ibura. Nesse documento, produzido um ano depois da passagem de Franz von Werra pela capital pernambucana, existe a informação que um inspetor da Polícia Marítima desconfiou do jovem falastrão que se dizia “estudante” e apresentou o passaporte nº 298. Mas ficou só nisso.

A verdade é que Werra passou pelo Brasil e a polícia do ditador Getúlio Vargas nem se deu conta e nem tomou conhecimento. Isso se ele não recebeu algum tipo de ajuda de alguma autoridade brasileira. Situação que não duvido, dado o grande número de simpatizantes nazifascistas em nosso país.

Esquema de cores de um trimotor SM.82 da empresa LATI.

Na mesma tarde o fugitivo embarcou em um moderno Savoia Marchetti SM.82 de prefixo I-BATO. Era uma aeronave recém-construída, que transportava dez passageiros, possuía um piloto automático, banheiro, rádios aprimorados e dois tanques de combustível adicionais. Além da tripulação, o I-BATO transportava oito passageiros, sendo cinco alemães e três italianos, entre eles Werra e Portesi. A aeronave decolou do Ibura utilizando a potência máxima de seus três poderosos motores Alfa Romeo 128RC e chegou a Natal cerca de uma hora depois.

No Campo de Parnamirim.

A pista era longa, mas de terra batida. Entretanto era boa, bem preparada, com 700 metros de extensão, 40 de largura e o SM.82 aterrissou sem problemas no chamado Campo de Parnamirim. Sabemos que Natal entrou na rota de retorno da LATI porque Recife não possuía em seu campo de pouso uma pista longa o suficiente para permitir a decolagem das aeronaves completamente carregadas.

A aeronave chegou pilotada por Guido Pavia, com Bruno Palermo como copiloto, Michele de Toma como radiotelegrafista e Alfredo Piacentini como mecânico. Foi informado que transportava “grande quantidade de mercadoria e malas postais”.

No antigo jornal natalense O Diário, futuro Diário de Natal, encontrei a informação que normalmente o avião da LATI vinha para a capital potiguar na sexta feira, mas aquele chegou em pleno Domingo de Páscoa e isso aparentemente não foi visto como estranho ou anormal.  

Os tripulantes e passageiros foram então acomodados no que era conhecido como “Hotel da LATI”, próximo do hangar da empresa. Não existem maiores informações sobre esse local, mas tudo indica que era tipo uma estalagem, sem maiores confortos, servindo apenas para acomodar os que embarcariam na manhã seguinte para a travessia do Atlântico Sul.

Situação atual da antiga casa de apoio construida para os aviadores franceses no Campo de Parnamirim.

Próximo ao hangar dos italianos existia outros dois Hangares, uma casa de apoio, uma estação de rádio e outras infraestruturas. Elas pertenciam aos franceses da Air France e algumas delas estavam ali desde o início da década anterior. Inclusive a casa de apoio havia servido em algumas ocasiões ao mítico piloto francês Jean Mermoz, quando das suas passagens por Natal. Não era sem razão que nos primeiros tempos de sua utilização, aquele local era conhecido como o “Campo dos Franceses”.

Não sabemos de nenhuma outra movimentação específica no Campo de Parnamirim naquela tarde e início da noite de 13 de abril de 1941, mas sabemos que nessa época o aeroporto estava com uma boa movimentação de estrangeiros, com vários deles circulando por Natal e as regiões Norte e Nordeste. Segundo os jornais natalenses, poucos dias antes de Werra desembarcar no Campo de Parnamirim, em 5 de abril, esteve em Natal uma “missão comercial japonesa” com quatro membros. Eles viajavam em um hidroavião do Sindicato Condor batizado como “Curupira”, que depois de Natal seguiu para Belém do Pará.

Situação atual do antigo hangar da LATI no Campo de Parnamirim.

E após a chegada do fugitivo Werra ao Rio Grande do Norte, ele teria vindo para Natal? Acho difícil!

Era algo que chamaria bastante a atenção para alguém com um passado que, se não era muito conhecido pela população local, certamente era conhecido de muitos estrangeiros que circulavam na cidade, a grande maioria deles de países contrários aos interesses da Alemanha, Itália e Japão, os países do Eixo. E em caso de Werra ser reconhecido, coisa que poderia acontecer com a sua terrível e constante indiscrição, logo os ingleses estariam no seu encalço.

Além do mais, se havia alguma coisa interessante naquela parte do Brasil para ser vista por um piloto da Luftwaffe, estava no próprio Campo de Parnamirim onde ele havia desembarcado. Pois dali era possível ver como o dinheiro do governo americano alterava drasticamente aquele lugar.

A grande base de Parnamirim Field durante a Segunda Guerra Mundial.

Desde novembro de 1940 que o governo de Franklin Delano Roosevelt, utilizando a fachada de uma das empresas de aviação do país, estava construindo vários aeroportos em todo o Brasil, sendo o maior o de Parnamirim. Pelo mesmo motivo, estes eram empreendimentos destinados à aviação civil. Mas que sem muitas alterações poderia acomodar centenas de aeronaves militares e com diversas finalidades.

Diante daquela situação e da oportunidade, acredito que dificilmente Werra e os outros ocupantes deixaram de dar uma espiadinha no que estava acontecendo naquela grande obra e levar essa informação aos seus superiores em Roma e Berlim. E se assim fizeram, certamente visualizaram a partir do hangar da LATI e com a utilização de binóculos, pois as construções estavam a 1.700 metros de distância.

Aeronave da companhia aérea LATI – Este tipo de aeronave opera voos entre Roma e Rio de Janeiro – Fonte – http://www.spmodelismo.com.br/howto/ac/lati.php

No outro dia, por volta das cinco da manhã, o Savoia Marchetti SM.82 de prefixo I-BATO decolou de Natal.

O Fim da Sua Sorte.

A estrela da sorte brilhou mais uma vez para Franz von Werra.

A aeronave italiana cruzou o Atlântico Sul sem problemas. Na sequência aterrissou em Barcelona e Werra trocou de avião pela última vez. Na quinta-feira, 17 de abril de 1941, ele chegou a Roma, desembarcando no Aeroporto de Guidonia, pisando em solo do Eixo pela primeira vez em mais de meio ano.

Werra estava livre e sua fuga foi bem-sucedida. Ele voou para a Alemanha a bordo de um bimotor Junkers Ju 90 e finalmente chegou em Berlim, no Aeroporto de Tempelhof, onde sua noiva Elfi e os amigos lhe esperavam.

Haviam decorrido exatamente 32 semanas desde a derrubada do seu avião de caça e sob todos os aspectos, a sua audaciosa fuga foi realmente prodigiosa.

Foi algo que o levou desde os campos de prisioneiros da Inglaterra, através do Atlântico, até chegar ao Canadá. Depois atravessou o congelado Rio São Lourenço e entrou clandestinamente nos Estados Unidos. Mesmo em meio a muita divulgação, ele conseguiu burlar as autoridades daquele país e atravessou sua larga extensão até o México, circulando completamente incógnito. Finalmente chegou à América do Sul, passou sem problemas pelo Brasil e em poucos dias atravessou o Atlântico Sul até a Europa.

O agora capitão Franz von Werra.

Rapidamente Franz von Werra tornou-se um herói em toda a Alemanha.

Houve um encontro com Adolf Hitler, que lhe concedeu uma alta condecoração.

Já Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda do Reich alemão, celebrou freneticamente o jovem Werra, que adorava ser o centro das atenções. Foi Goebbels que afirmou que durante o curso de sua fuga, Werra escreveu regularmente cartões postais para a sua irmã e nunca se esqueceu de enviar postais para os oficiais ingleses que haviam lhe interrogado.

O intrépido aviador foi promovido a capitão e chegou a ser recebido pelo obeso Hermann Goering, o todo poderoso chefe da força aérea alemã. Nesse meio tempo von Werra se casou com a sua noiva, na melhor tradição da pompa nazista.

O antigo prisioneiro relatou ao comando alemão sobre seu tratamento como um prisioneiro de guerra e com base em sua própria experiência esses relatos ajudaram a melhorar as técnicas para os pilotos alemães capturados atrapalharem ao máximo os britânicos no momento dos interrogatórios. Inclusive consta que esses relatos ajudaram a melhorar o tratamento dos prisioneiros de guerra dos países aliados presos na Alemanha.

O agora capitão Franz von Werra retornou então à luta e foi inicialmente enviado para frente russa. Nesse front de guerra ele elevou até julho de 1941 o seu registro para 21 vitórias aéreas. Quando sua esquadrilha foi retirada da Rússia, ele passou a voar em patrulhas sobre o Mar do Norte.

Em 25 de outubro de 1941, apenas sete meses depois de seu retorno à Alemanha, Werra estava realizando um voo de rotina, em mais um patrulhamento solitário, quando a sua sorte acabou. Ele desapareceu sobre o Mar do Norte, nas proximidades da cidade holandesa de Vlissingen. Provavelmente foi uma falha no motor da aeronave que o levou ao desastre e seu corpo nunca foi encontrado. Ele viveu apenas 27 anos.

O ator alemão Hardy Krüger no papel do tenente Werra.

Em 1957 a história de Werra foi tema de um filme chamado The One That Got Away, estrelado pelo alemão Hardy Krüger no papel principal. Consta que a película produzida pelo cinema inglês conseguiu uma grande bilheteria na Europa, principalmente na Alemanha.

Atualmente o avião com o qual ele caiu na Inglaterra, está em exposição no Museu da Força Aérea Real em Folkestown, Kent, sul do país.

O PREÇO DA GUERRA

A ucraniana Ada é operadora de UAV das Forças Armadas da Ucrânia. Após passar por cima de uma mina antitanque inimiga em setembro de 2024, a mulher perdeu a perna esquerda, enquanto várias operações complexas a aguardam para salvar o calcanhar quebrado da perna direita. Foto: Konstantyn & Vlada Liberov / Superhumans Center -Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/?photo=58399

Enquanto as negociações sobre um cessar-fogo na Ucrânia estão a todo vapor, o bombardeio massivo de Kiev pela Rússia mais uma vez lançou dúvidas sobre a real disposição de Vladimir Putin em negociar. No entanto, é um padrão familiar: pouco antes de um cessar-fogo acordado, os combates se intensificam novamente para melhorar a posição do oponente e enfraquecer a infraestrutura militar do lado oposto. Esse comportamento cínico também pôde ser observado antes do cessar-fogo na guerra de Gaza no início do ano. Uma coisa é certa: guerras são difíceis de terminar, especialmente quando elas duram muito tempo e nenhuma das partes aceita a derrota. Entretanto, se a continuação da guerra não promete mais vantagens para nenhum dos lados, mas sim prejuízo para ambos, uma janela para negociações inevitavelmente se abre.

Uma voluntária das Bruxas de Bucha, o grupo móvel feminino de defesa aérea, durante um treinamento de combate. As Bruxas de Bucha operam perto de Bucha, na região de Kiev, para abater drones russos que atacam a capital. 3 de agosto de 2024. Foto: Efrem Lukatsky/AP – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/2/?photo=56307

Uma situação dessas existe agora mesmo. Não é só Kiev que deve ter um interesse vital em acabar com a guerra — por mais dolorosas que sejam as conquistas territoriais da Rússia — devido aos seus próprios problemas de recrutamento e à iminente cessação da ajuda militar americana. Também é improvável que a Rússia tenha qualquer interesse em uma guerra perpétua: as perdas persistentemente altas de pessoal e material, sem perspectiva de mudança de regime em Kiev, estão minando a estabilidade do regime de Putin a longo prazo. O Kremlin poderia usar um cessar-fogo para se preparar para outro grande ataque contra Kiev e possivelmente também contra estados europeus da OTAN. Mas há muito a ser dito contra essa suposição. É preciso ter em mente qualObjetivos de guerra russos na Ucrânia e além, e quais recursos de poder Moscou tem à disposição para implementar esses objetivos.

Treinamento da organização feminina “Ukrainian Walkyrie”: participantes aprendem noções básicas sobre armas e kits de primeiros socorros. Março de 2024, Kiev. Por Roman Pilipey para a AFP Photo – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/6/?photo=52455

O objetivo estratégico de longo prazo da Rússia desde a década de 1990 tem sido ser reconhecida novamente como uma grande potência preeminente em uma ordem mundial multipolar – isto é, em um sistema sem hegemonia ocidental.

Na sua opinião, a voz da Rússia foi repetidamente ignorada em questões-chave – por exemplo, na guerra do Kosovo ou na expansão da OTAN e da UE. Constitutiva dessa reivindicação ao status de grande potência é a reivindicação a esferas exclusivas de influência e a reivindicação de “resolver” problemas globais em conjunto com outras grandes potências. A guerra contra a Ucrânia está no centro da luta da Rússia pelo status de grande potência. Oficialmente, o Kremlin fala de uma “desnazificação” e “desmilitarização” da Ucrânia. Isso significa uma mudança de regime em Kyiv – em favor de uma elite governamental pró-Rússia. De uma perspectiva cultural, geoestratégica e geoeconômica, Moscou considera a Ucrânia uma parte indispensável de sua própria esfera de influência – portanto, ela tem um status diferente do que, por exemplo, os Estados Bálticos ou a Polônia.

Etapa final do curso de treinamento de cinco dias da Resistência Nacional para civis ucranianos. 11 de agosto de 2023, região de Kiev. Por Yevhenii Zavhorodnii – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/20/?photo=46850

Forçar toda a Ucrânia a entrar na esfera de influência russa – pela força militar ou, possivelmente, por eleições fraudadas – parece cada vez mais irrealista. A Ucrânia se tornou um baluarte anti-Rússia. Mesmo com meios brutais de repressão, como tortura, sequestros e assassinatos arbitrários, a Rússia tem considerável dificuldade em manter o controle sobre os territórios ocupados em Donbass. Uma subjugação completa do país provavelmente só seria possível com uma mobilização geral e o estabelecimento de um regime repressivo de violência, o que, no entanto, ocuparia enormes recursos e não traria nenhuma vantagem para Moscou. O resultado seria um êxodo em massa, imensa resistência e, devido à resistência ucraniana, uma população economicamente improdutiva.

Militares da 128ª Brigada Separada de Assalto em Montanha de Zakarpattia em treinamento. Instrutores ensinam os membros da brigada recriando diversos cenários de combate semelhantes às situações da linha de frente. 15 de julho de 2023. Por Ercin Erturk / Agência Anadolu / Getty Images – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/22/?photo=46440

Uma tática de desgaste através da continuação da guerra de agressão também não pode ser do interesse de Moscou a longo prazo. Embora o exército ucraniano seja inferior ao russo em muitas áreas, ele se tornou uma força testada em batalha e, graças à sua própria produção de drones, também tecnicamente qualificada, que mantém relações de segurança estreitas com os países da UE e da OTAN. Ao mesmo tempo, a insatisfação com as consequências negativas da guerra está crescendo na Rússia. O plano original de simplesmente usurpar o estado ucraniano se transformou em uma custosa guerra de posição e atrito que durou três anos. Apenas dois meses após a invasão total no final de fevereiro de 2022, um impasse estava surgindo. Naquela época, a Rússia ocupava cerca de 15% do território ucraniano – hoje, três anos depois, é cerca de 18% .

Alina (indicativo de chamada “Nika”) é comandante de artilharia das Forças Armadas da Ucrânia. Sua unidade militar defende os flancos das forças ucranianas no eixo Bakhmut.
Por Kostiantyn Liberov e Vlada Liberova
– Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/27/?photo=44549

Embora a Rússia não tenha esgotado seu potencial militar, Putin está ciente de que a ofensiva em larga escala contra a Ucrânia não é popular. Isso é ressaltado, principalmente, pelos muitos desertores que se seguiram à mobilização parcial em setembro de 2022. Até hoje, o Kremlin fala de uma “operação militar especial” e tenta manter a realidade da guerra longe do público russo o máximo possível. Nesse sentido, grupos marginalizados da sociedade eram recrutado preferencialmente – como prisioneiros ou homens de baixa renda de regiões remotas que eram recrutados com altos salários. Para evitar uma mobilização geral, o exército russo chegou a recorrer a milícias e mercenários de países como Iêmen, Cuba, Nepal, Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão, além de cerca de 50.000 soldados norte-coreanos. No entanto, a guerra não pode ser apagada da realidade social da Rússia. A guerra causou pesadas perdas – cerca de 800.000 baixas militares, incluindo cerca de 170.000 mortes. Além disso, cerca de metade dos tanques de batalha (aproximadamente 10.000 ) e veículos blindados ( aproximadamente 19.000 ), bem como cerca de 21.000 sistemas de artilharia e 300 aeronaves e helicópteros, foram destruídos.

Um casal de médicos de combate ucranianos com os codinomes “Pion” e “Frits”. Eles se conhecem há sete meses e estão casados ​​há quatro. Região de Donetsk. Por Kostiantyn Liberov e Vlada Liberova – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/32/?photo=43216

Embora a Rússia use predominantemente armas da era soviética e possua sistemas mais modernos, a substituição dos equipamentos destruídos provavelmente levará muitos anos.

O dano econômico também é considerável. Moscou conseguiu mitigar parcialmente o impacto das sanções ocidentais – por meio da substituição de importações, do comércio por meio de terceiros países e da venda de petróleo e gás para a China, Índia e Turquia. No entanto, as exportações de combustíveis fósseis caíram para cerca de metade dos níveis pré-guerra. Apesar de uma frota paralela considerável e do aumento temporário dos preços do petróleo, as receitas de exportação de petróleo caíram cerca de 120 bilhões de euros. Após o colapso drástico das exportações de gás natural para a Europa, Pequim pagou apenas cerca de metade do que os países da UE pagavam anteriormente por metro cúbico. Como resultado, a Gazprom registrou prejuízo pela primeira vez em sua história em 2023. Resultado: a Rússia está se tornando cada vez mais dependente da China, o que não pode de forma alguma ser do interesse de Putin. O fato de a economia russa ter crescido dois anos após o início da invasão em grande escala se deve principalmente ao alto nível de investimento no complexo militar-industrial – um fenômeno conhecido como “keynesianismo militar”. Isso funciona como um pacote de estímulo econômico, do qual setores não militares da economia e da sociedade em geral também se beneficiam direta ou indiretamente.

A zagueira ucraniana Ruslana Danilkina, de 19 anos, perdeu a perna na linha de frente. 27 de fevereiro de 2023. Por Konstantyn e Vlada Liberov – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/35/?photo=42239

Para financiar as despesas, o governo russo tomou emprestado e usou 67% das reservas líquidas do Fundo Nacional de Riqueza. No final de 2024, restavam apenas 33,6 mil milhões de euros; O fundo poderá estar completamente esgotado até ao final de 2026. O aumento do orçamento de defesa estimulou a economia – atingiu os 100 mil milhões de euros em 2024;  Em 2025, subirá para 130 bilhões , o que corresponde a cerca de 300 bilhões de euros ajustados ao poder de compra. Ao mesmo tempo, a desvalorização do rublo russo tornou as importações mais caras, incluindo os chamados bens de dupla utilização da China, necessários para a indústria de armas russa. A atual recuperação econômica é, portanto, insustentável, pois o setor de petróleo e gás continua sendo a espinha dorsal do sistema econômico russo baseado em aluguel. De acordo com o Instituto de Estudos Econômicos Internacionais de Viena, o crescimento econômico, que foi de 3,6% em 2023 e 3,8% em 2024 , cairá pela metade em 2025 e diminuirá ainda mais em 2026. A inflação estava em dez por cento em 2024, razão pela qual o Banco Central Russo aumentou a taxa básica de juros para 21% , o que por sua vez está prejudicando as empresas russas. Cerca de um milhão de russos, em sua maioria jovens, educados e ricos, já deixaram seu país desde 2022. Para uma das sociedades mais antigas do mundo, esse é um grande problema que não pode ser compensado pela imigração.

Militares ucranianas com cestas de Páscoa perto de Zaporizhzhya. 24 de abril. Por Andriy Dubchak – Fonte https://war.ukraine.ua/photos/page/56/?photo=17786

A Rússia está se rearmando, expandindo e modernizando seu exército, mas está sofrendo mais do que admite. A continuação da guerra traz o risco de que o regime de Putin — que se baseia no contrato social de troca de liberdade por prosperidade e segurança — se torne mais instável e só possa ser mantido com repressão cada vez maior. Saudações do Irã.

*Lukas Theinert é doutorando na Universidade Martin Luther em Halle-Wittenberg. Ele está escrevendo seu doutorado sobre a política externa revisionista comparativa da Rússia e da Turquia.

O RETORNO DOS MERCENÁRIOS

Há Dois Séculos, os Exércitos Públicos Substituíram os Privados Como Instrumento Dominante de Guerra. Agora, os Exércitos Privados Estão de Volta e com Força Total!

Sean McFate

É uma história familiar – Uma superpotência entra em guerra e enfrenta uma insurreição mais forte do que o esperado em terras distantes, mas tem forças insuficientes para a combater devido a restrições políticas e militares. A superpotência decide contratar empreiteiros, alguns dos quais armados, para apoiar o seu esforço de guerra. Os contratantes armados revelam-se simultaneamente uma bênção e uma maldição, fornecendo serviços de segurança vitais para a campanha, mas por vezes matando civis inocentes, causando reveses estratégicos e prejudicando a legitimidade da superpotência. Sem estes empreiteiros, a superpotência não poderia travar a guerra. Com eles é mais difícil vencer.

Encenação com utilização de trajes de mercenários medievais Fonte – https://www.medievalchronicles.com/wp-content/uploads/2020/08/Medieval-Times-Soldiers.jpg

Os contratantes armados em questão não estão no Iraque ou no Afeganistão, mas no norte da Itália, e o ano não é 2007, mas 1377. A superpotência não são os Estados Unidos, mas o papado sob o Papa Gregório XI, lutando contra a liga antipapa liderada pelo ducado de Milão. O trágico assassinato de civis por empreiteiros armados não ocorreu em Bagdá, mas em Cesena, 630 anos antes. As empresas militares empregadas não eram DynCorp International, Triple Canopy ou Blackwater, mas sim a Company of the Star, a Company of the Hat e a White Company.

Conhecidos como empresas livres, estes guerreiros com fins lucrativos eram organizados como corporações, com uma hierarquia bem articulada de subcomandantes e maquinaria administrativa que supervisionava a distribuição justa do saque de acordo com os contratos dos funcionários. Capitães semelhantes a CEOs lideravam essas corporações militares medievais.

Mercenários do regimento Glarus vencem o rei Henrique IV da França no campo de batalha de Arques em 1589 – Fonte – https://www.swissinfo.ch/eng/culture/mercenary-trade-paid-for-peace-and-prosperity/31568266

Os paralelos entre as empresas militares privadas (PMCs) medievais e contemporâneas são fortes. Hoje, os Estados Unidos e muitos outros contratam empreiteiros para cumprir contratos relacionados com a segurança nos locais mais perigosos do mundo. No final da Idade Média, esses homens eram chamados de condottiere – literalmente, “empreiteiros” – que concordavam em realizar serviços de segurança descritos em contratos escritos, ou condotte.

Tanto os empreiteiros modernos como os medievais eram organizados como empresas, e os seus serviços estavam disponíveis para o maior ou mais poderoso licitante em busca de lucro. Ambos preencheram suas fileiras com homens de armas profissionais vindos de diferentes países e leais principalmente ao contracheque. Ambos funcionaram como exércitos privados, geralmente oferecendo competências de combate terrestres em vez de capacidades navais (ou aéreas) e mobilizando a força de forma militar e não como forças de aplicação da lei ou policiais.

Os Mercenários Estão de Volta

Outrora brandidos como bandidos vilões, estão a emergir das sombras para se tornarem mais uma vez num instrumento dominante da política mundial. Os Emirados Árabes Unidos (EAU) contrataram centenas de mercenários latino-americanos para combater os Houthis apoiados pelo Irão no Iémen. Depois de anos de luta contra o Boko Haram, a Nigéria finalmente contratou mercenários para fazer o trabalho, e eles o fizeram. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, enviou mercenários para “libertar” o leste da Ucrânia, um conflito que ainda ferve. Os mercenários estão supostamente trabalhando em partes do Iraque.

Os Estados não são os únicos consumidores no mercado da força. A indústria extrativista e as organizações humanitárias contratam mercenários para proteger as suas pessoas e os seus bens nos locais mais perigosos do mundo. Navios cheios de empreiteiros armados atuam como corsários no Golfo de Omã e em outras águas infestadas de piratas.

Os mercenários perseguem o ciberespaço como “empresas de hack-back”: ciber mercenários que hackearão aqueles que hackearem os seus clientes, dissuadindo os hackers em primeiro lugar.

Em 2008, a atriz Mia Farrow considerou contratar a Blackwater para realizar uma intervenção humanitária em Darfur para acabar com o genocídio ali. Alguns, como Malcolm Hugh em Privatizing Peace (2009), pensam que os mercenários deveriam aumentar a diminuição das forças de manutenção da paz das Nações Unidas, um argumento com algum mérito. Outros sugeriram que a comunidade internacional os utilizasse para derrotar o Daesh/ISIS, e os super ricos brincaram com a possibilidade de utilizar mercenários para os seus próprios fins.

Os mercenários lutam principalmente pelo lucro e não pela política ou pelo patriotismo. A palavra ‘mercenário’ vem do latim merces (‘salários’ ou ‘pagamento’); hoje, conota vileza, traição e assassinato. Mas nem sempre foi assim.

Ao Longo da História

Durante grande parte da história, ser mercenário foi considerado um ofício honesto, embora sangrento, e empregar mercenários para travar guerras era rotina: houve o exército do rei Shulgi de Ur (2.094-2.047 aC); O exército de mercenários gregos de Xenofonte conhecido como os Dez Mil (401-399 aC); e os exércitos mercenários de Cartago nas Guerras Púnicas contra Roma (264-146 aC), incluindo o exército de 60.000 homens de Aníbal, que marchou com elefantes sobre os Alpes para atacar Roma pelo norte. Quando Alexandre invadiu a Ásia em 334 a.C., o seu exército incluía 5.000 mercenários estrangeiros, e o exército persa que o enfrentou continha 10.000 gregos.

Aníbal lidera seu exército cartaginês, montado em elefantes, contra os romanos nesta pintura do século XVI – Fonte – https://warfarehistorynetwork.com/article/hannibal-and-the-failure-of-success/

Roma contou com mercenários durante todo o seu reinado de 1.000 anos, e Júlio César foi salvo em Alésia por mercenários alemães montados em sua guerra contra Vercingetorix na Gália. Quase metade do exército de Guilherme, o Conquistador, no século XI, era composto de mercenários, pois ele não tinha condições de pagar um grande exército permanente e não havia nobres e cavaleiros suficientes para realizar a conquista normanda da Inglaterra. No Egipto e na Síria, o sultanato mameluco (1250-1517) era um regime de escravos mercenários que tinham sido convertidos ao Islã.

Do final do século X ao início do século XV, os imperadores bizantinos cercaram-se de mercenários nórdicos, a Guarda Varangiana, que eram conhecidos pela sua lealdade feroz, destreza com o machado de batalha e capacidade de engolir grandes quantidades de álcool. Na Europa, os condottieres italianos, os landsknechts alemães, bem como as companhias suíças, bretões, gascões, picardos e outros mercenários dominaram a guerra dos séculos XIII a XVI. Durante pelo menos 3.000 anos, a força militar privada tem sido uma característica – muitas vezes a principal característica – da guerra.

Mercenários Escoceses na Guerra dos Trinta Anos – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/File:Scottish_mercenaries_in_the_Thirty_Years_War.jpg

A guerra começou a mudar no século XVI, transformando com ela a guerra privada. As batalhas europeias tornaram-se cada vez mais violentas à medida que os exércitos cresciam, as armas se tornavam mais destrutivas e as consequências mais graves. Durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), por exemplo, os principais combates envolveram normalmente 50.000 combatentes, como evidenciado pelas batalhas de White Mountain (1620), Breitenfeld (1631), Lützen (1632), Nördlingen (1634), Wittstock (1634), Wittstock (1634). (1636) e Rocroi (1643). Os exércitos eram um amálgama de mercenários com uma minoria de tropas nacionais. O patriotismo não estava ligado ao serviço militar.

Para satisfazer a crescente procura de tropas, surgiu uma nova espécie de empreendedores de conflitos – os “empreendedores militares” – que equiparam regimentos e os alugaram a quem necessitava de serviços marciais. Diferentes dos mercenários, os empreendedores militares formaram exércitos inteiros. Estes “regimentos de aluguer” ou exércitos contratados permitiram aos governantes travar guerras em grande escala sem reformas administrativas ou fiscais indevidas, reduzindo Efectivamente a barreira à entrada na guerra e encorajando batalhas cada vez maiores.

Ernst von Mansfeld (na imagem com a roupa amrela – 1580-1626), líder mercenário, empreiteiro militar contra os Habsburgos na Guerra dos Trinta Anos – Fonte – Duncker & Humblot, Berlim, 2010 Walter  Krüssmann.

Exemplos dos maiores empreendedores militares incluem o conde Ernst von Mansfeld, que reuniu um exército inteiro para o Eleitor Palatino; o empresário de Amsterdã, Louis de Geer, que forneceu uma marinha para a Suécia; o marquês genovês de Spinola, que administrou os assuntos militares do rei da Espanha na Holanda; e Bernard von Weimar, que produziu exércitos para a Suécia e depois para a França. O mais famoso é que o conde Albrecht von Wallenstein gerou um enorme exército para o Sacro Imperador Romano Fernando II e se tornou o homem mais rico da Europa. No final da guerra, o mercado tinha passado de oligarcas como Wallenstein para atores mais pequenos, como coronéis mercenários e financistas mercantis, fortalecidos por redes de crédito e de abastecimento baseadas em Amesterdão, Hamburgo e Génova.

Quando os negócios estavam lentos, os mercenários saqueavam o interior até serem contratados por um cliente ou pagos para partir. Um mercado livre para a força incentiva a guerra

A Batalha do Puig de Santa Maria, obra do pintor espanhol de Andrés Marzal de Sas. A Batalha do Puig de Santa Maria foi um combate da Reconquista Espanhola e da Conquista Aragonesa de Valência. A batalha ocorreu em 1237, colocando as forças da Coroa de Aragão, sob o comando de Bernat Guillem d’Entença, contra as forças da Taifa de Valência, sob o comando de Zayyan ibn Mardanish. A batalha resultou numa vitória aragonesa decisiva e na conquista de Valência pela coroa de Aragão. A pintura faz parte de um retábulo que conta a história de São Jorge. O que poucos sabiam era que mercernário mulçumanos participaram da batalha ao lçado dos cristãos – Fonte – https://www.medieval.eu/the-mercenary-mediterranean-sovereignty-religion-and-violence-in-the-medieval-crown-of-aragon/

Os empreendedores militares eram um híbrido de ambos. Tal como os mercenários, são intervenientes do sector privado envolvidos em conflitos armados e motivados principalmente pelo lucro. Ao contrário dos mercenários, eles normalmente trabalhavam em parcerias público-privadas monogâmicas com um cliente do governo para construir exércitos em vez de comandá-los. Os empreendedores são parcerias militares público-privadas, que combinam a motivação do lucro dos mercenários com a lealdade dos exércitos nacionais.

O Conflito é Mercantilizado

Os empresários militares mudaram o negócio da guerra, transformando-a de um mercado de força livre num mercado mediado. Num mercado livre, o conflito é mercantilizado: consumidores e fornecedores de guerra procuram-se, negociam um preço e travam a guerra. Ambos os lados do acordo eram geralmente irrestritos e o mercado era de natureza laissez-faire. Por exemplo, mercenários como os condottieres muitas vezes trabalhavam para quem pagava mais, mudavam de lado quando lhes convinha, procuravam guerras e ocasionalmente as iniciavam. Quando os negócios estavam lentos, muitas vezes saqueavam o interior até serem contratados por um cliente ou pagos para ir embora. Um mercado livre para a força incentiva a guerra.

Morte do rei sueco Gustavo II Adolfo, na Batalha de Lützen, em 1632. Pintura de Carl Wahlbom (1855) – Em 6 de novembro de 1632, Gustavo encontrou o Exército Imperial comandado por Albrecht von Wallenstein em Lützen , no que viria a ser uma das batalhas mais significativas da Guerra dos Trinta Anos. Gustavo foi morto quando, em um ponto crucial da batalha, se separou de suas tropas enquanto liderava um ataque de cavalaria em sua ala. Lützen foi uma vitória para os protestantes, mas custou-lhes o seu líder – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Gustavus_Adolphus

Isto contrasta com um mercado mediado por empresários militares, que imbuiu um mínimo de restrição aos fornecedores de força e aos seus patronos. Parcerias público-privadas exclusivas e de longo prazo alinharam os interesses de ambas as partes, tornando mais difícil para qualquer um dos lados desertar e infundindo estabilidade no mercado. Por exemplo, Albrecht von Wallenstein não teve incentivo para trair Fernando II. Pelo contrário, o governante era a sua principal fonte de receitas. Nem Fernando II estava motivado a quebrar o seu contrato com Wallenstein, já que o empresário era o seu principal fornecedor das forças armadas durante uma guerra de sobrevivência. Por outras palavras, eles eram codependentes de uma forma que os mercenários medievais e a sua clientela não eram. Tais relações existiram no passado, mas na época de Wallenstein eram dominantes. A presença de interesses partilhados e de longo prazo restringiu comportamentos corruptos e, portanto, mediou o mercado da força.

A transição dos exércitos privados para os exércitos públicos foi gradual, ao longo de séculos, à medida que os estados consolidavam o seu poder na política europeia. Em 1650, era claro que os serviços militares a pedido já não eram económicos para os governantes, dada a destruição que os mercenários causavam no campo e a ameaça que representavam para os seus empregadores. O que era necessário era um exército público de profissionais sistematicamente treinados e disciplinados, mantidos na paz e na guerra, no inverno e no verão, com meios regulares de obtenção de suprimentos e reposição. Criticamente, esta força militar seria paga e leal ao Estado.

Luís XIV em Douai, norte da França, na Guerra de Devolução de 1667 – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/War_of_Devolution

Por exemplo, após a Paz dos Pirenéus (1659), a França formou um exército permanente, absorvendo a maioria dos oficiais de Luís XIV na gendarmaria e estabelecendo seis unidades de infantaria permanentes. Estes regimentos permitiram ao Rei Sol mobilizar rapidamente os seus exércitos na Guerra de Devolução (1667-1668) e invadir os Países Baixos espanhóis controlados pelos Habsburgos e a região de Franche-Comté, no leste da França. Luís XIV, por sua vez, criou um exército permanente ainda maior no final da guerra. Ao mesmo tempo, na Inglaterra, com seu Novo Exército Modelo, Oliver Cromwell estava criando um protótipo de exército permanente. Após a Restauração de 1660, Carlos II foi autorizado a reter cinco regimentos desta força, totalizando cerca de 3.000 homens. Estas forças especializadas relativamente pequenas foram o início das grandes forças armadas nacionais que se desenvolveriam ao longo dos séculos seguintes.

Período de Resseção

Nos três séculos seguintes, os estados continuaram a expulsar os mercenários. A pólvora também os prejudicou, pois desvalorizou a habilidade dos mercenários, permitindo que os camponeses os derrotassem. As crescentes burocracias estatais tornaram possível administrar grandes forças armadas e cobrar os impostos para mantê-las. As ideias iluministas e as revoluções políticas que as acompanharam também estimularam o desaparecimento dos exércitos privados, fortalecendo o vínculo entre o soldado e o Estado.

O “contrato social”, imposto em massa, as reformas napoleónicas, a ascensão do nacionalismo e outras ideias encorajaram o “serviço” militar como um dever patriótico fundamental. Esta norma permeia os exércitos públicos hoje. No final do século XVIII, os exércitos nacionais eram tão grandes que o Ministro Friedrich von Schrötter observou: “A Prússia não era um país com um exército, mas um exército com um país”.

Com o tempo, o Estado tornou-se o principal interveniente no mercado da força e proibiu a concorrência, como a dos mercenários. A única excepção a isto foi para os estados que desejavam “alugar” os seus exércitos a outros estados com fins lucrativos. Durante a Guerra Revolucionária Americana, a Grã-Bretanha duplicou o seu exército, contratando quase 30.000 soldados de estados alemães, principalmente de Hesse-Kassel, para reprimir a revolta colonial. Os rebeldes americanos chamaram esses soldados alemães de Hessianos.

Da mesma forma, embora a pirataria fosse ilegal e, se apanhados, os piratas enfrentassem à forca, os estados contrataram navios de guerra privados, ou corsários, emitindo uma carta de marca para atacar navios inimigos. Os corsários foram autorizados a roubar como parte do prêmio. A linha entre pirataria e corsário era tênue. Os atos de pirataria foram considerados ilegais porque, como explicou um jurista do século XIX, foram “realizados em condições que tornam impossível ou injusto responsabilizar qualquer Estado pela sua prática”. Em 1856, com o nacionalismo em ascensão, a Declaração de Paris sobre o Respeito do Direito Marítimo aboliu o corsário.

Soldados durante a Guerra da Crimeia, que ocorreu de 1853 a 1856 – Fonte – https://www.britannica.com/event/Crimean-War

Os Estados também delegaram assuntos militares a empresas comerciais quase estatais, como as Companhias Holandesas ou Britânicas das Índias Orientais, que comandavam as suas próprias forças armadas. Mas a última vez que um Estado reuniu um exército de estrangeiros foi durante a Guerra da Crimeia, em 1854, quando a Grã-Bretanha contratou 16.500 mercenários.

No século XX, o poder estatal atingiu o seu apogeu e empurrou para a clandestinidade o livre mercado da força. Os grandes conflitos do período – a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, a Guerra Fria – foram travados entre nações de “grande potência” utilizando enormes forças armadas públicas.

Clandestinidade 

A presunção de que apenas os Estados podem legitimamente travar a guerra é tida como certa na teoria das relações internacionais e codificada nas “leis da guerra”, que regulam apenas a guerra interestatal, ignorando os intervenientes armados não estatais. Em Humanity in Warfare (1980), o historiador e jurista Geoffrey Best descreve o período de 1856 a 1909 como a “época de maior reputação” para a etiqueta de guerra, mas apenas ignorando as “pequenas guerras” por vezes genocidas nas colónias e nas fronteiras.

A Legião Estrangeira Francesa em marcha na Argélia antes de 1914 – Fonte – https://www.britannica.com/topic/French-Foreign-Legion.

Apesar do movimento no sentido da deslegitimação dos mercenários, o mercenarismo patrocinado pelo Estado continuou no século XX. A Legião Estrangeira Francesa recruta globalmente, mas continua a fazer parte das forças armadas francesas: recebe ordens exclusivamente de Paris, segue a doutrina militar francesa e é liderada por oficiais franceses.

Os Flying Tigers, que realizaram missões de combate contra as forças japonesas que ocuparam a China em 1940-41, eram compostos por antigos militares dos EUA e eram uma forma de os Estados Unidos combaterem o Japão antes da guerra ser formalmente declarada. A empresa militar privada britânica Watch Guard International, fundada em 1965 e a primeira de várias empresas militares privadas britânicas, é composta quase inteiramente por veteranos dos Serviços Aéreos Especiais (SAS). Especializaram-se em travar complicadas “guerras agrícolas” e trabalharam apenas em contratos favoráveis ​​ao interesse nacional britânico, oferecendo aos decisores políticos uma negação plausível no caso de uma operação secreta correr mal. Mas estes mercenários patrocinados pelo Estado são a excepção que desrespeita a norma do século XX.

Dois mercenários detidos por tropas indianas da ONU na África na década de 1960.

A maioria dos mercenários durante este período levavam vidas ilícitas, operando como guerreiros privados nas sombras e não como empresas com fins lucrativos no mercado aberto. Soldados da fortuna individuais oscilaram entre pontos geopolíticos críticos na China, na América Latina e especialmente na África.

Os seus empregadores incluíam grupos rebeldes, governos fracos, empresas multinacionais que operam em regiões precárias e antigas potências coloniais que desejavam influência clandestina nos assuntos das suas colónias passadas. A descolonização que se seguiu à Segunda Guerra Mundial ofereceu oportunidades particularmente ricas para estes guerreiros privados. A secessão de Katanga e a crise do Congo de 1960-1968 atraíram centenas de mercenários, alguns conhecidos como Les Affreux (‘Os Frightfuls’), e incluíam o belga Jean “Black Jack” Schramme (Sobre esse personagem veja no TOK DE HISTÓRIA sua biografia – https://tokdehistoria.com.br/2023/04/14/jean-schramme-o-lider-mercenario-belga-que-viveu-no-mato-grosso/), o irlandês ‘Mad’ Mike Hoare e o francês Bob Denard. Suas façanhas informaram os filmes influentes The Wild Geese (1978), do qual Hoare foi consultor técnico, e The Dogs of War (1980), baseado em um romance de Frederick Forsyth inspirado na vida de Denard.

Mercenários deixando a região de Katanga.

Foram estas guerras de descolonização africana que levaram a Terceira e a Quarta Convenções de Genebra a proibir os mercenários. A definição legal de mercenário mais amplamente aceite encontra-se no Artigo 47 do Protocolo I. A sua linguagem é tão restritiva e imprecisa, no entanto, que quase ninguém se enquadra nesta categoria. Como Best observa: “Qualquer mercenário que não consiga excluir-se desta definição merece ser fuzilado – e o seu advogado com ele!” Mais importante ainda, as definições não são o problema principal; é difícil para o direito internacional regular os mercenários porque eles podem dominar a aplicação da lei.

Decada de 1970 – Mercenários portugueses na África.

O Retorno

Pouco depois da Guerra Fria, o mundo testemunhou o ressurgimento da força militar privada. A primeira verdadeira empresa mercenária surgiu na África. Com a queda do regime de apartheid sul-africano, soldados desempregados de unidades de forças especiais como o 32º Batalhão e a polícia especial Koevoet (“pé-de-cabra” em africâner) formaram a primeira companhia militar privada moderna, apropriadamente denominada Executive Outcomes.

Membros do Executive Outcomes em Serra Leoa – Fonte – https://greydynamics.com/executive-outcomes-the-rise-fall-and-rebirth/

Ao contrário da WatchGuard, a Executive Outcomes não era uma empresa militar, mas uma verdadeira empresa mercenária, travando guerra pelo melhor lance. Operou em Angola, Moçambique, Uganda e Quénia. Ofereceu-se para ajudar a pôr fim ao genocídio no Ruanda em 1994, mas Kofi Annan – então chefe da manutenção da paz da ONU – recusou, alegando que “o mundo pode não estar preparado para privatizar a paz”. A ideologia de Annan era cara, dado o facto de 800 mil pessoas terem morrido. Em 1998, a empresa fechou as portas, mas o mercado mercenário da força cresceu.

Os membros do Executive Outcomes ajudaram a fundar a Sandline International, uma empresa com sede em Londres gerida pelo antigo tenente-coronel britânico Tim Spicer, pelo ex-oficial do SAS Simon Mann e pelo coronel aposentado das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos, Bernard McCabe.

Sandline International Contractors – Afeganistão 1993Fonte – https://www.dayzrp.com/forums/topic/89073-sandline-international/

Em 1997, o primeiro-ministro da Papua Nova Guiné, Julius Chan, contratou a Sandline para recapturar minas de cobre detidas por separatistas na ilha de Bougainville por 36 milhões de dólares. Sandline foi rejeitado pelo exército da Papua Nova Guiné, que prendeu e deportou estes mercenários sem disparar tiros. Chan foi forçado a renunciar, e todo o espetáculo virou notícia mundial como o ‘Caso Sandline’.

Da mesma forma, o presidente deposto da Serra Leoa, Ahmad Tejan Kabbah, contratou a Sandline para treinar e equipar 40.000 milícias e forças de manutenção da paz do povo Kamajor para derrubar a junta militar e proteger as áreas diamantíferas. A Sandline também foi contratada para apoiar um golpe de Estado na vizinha Guiné. Isto também terminou em fracasso, resultando no escândalo das armas para África no Reino Unido.

Mais tarde, os guerreiros particulares passaram a trabalhar para lados diferentes. Em 2004, Mann liderou um grupo de mercenários com alegado apoio financeiro de Mark Thatcher, filho da antiga primeiro-ministro do Reino Unido, numa tentativa de derrube da Guiné Equatorial, rica em petróleo, também conhecida como Golpe de Wonga. Falhou e Mann foi enviado para a prisão.

McCabe deixou a Sandline para se tornar chefe de segurança da Marathon Oil Corporation no Texas, que investiu pesadamente na Guiné Equatorial. Quanto a Spicer, pouco depois dos Estados Unidos terem invadido o Iraque em 2003, fundou uma nova empresa chamada Aegis Defense Services em Londres e ganhou um lucrativo contrato de segurança no valor de 293 milhões de dólares com o governo dos Estados Unidos no Iraque. A descendência da Executive Outcomes continua viva até hoje.

A Volta do Mercado da Força

Foram os Estados Unidos e as suas guerras no Iraque e no Afeganistão que restauraram verdadeiramente o mercado da força. Os decisores políticos dos Estados Unidos, nomeadamente o Vice-Presidente Dick Cheney e o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld, esperavam que as guerras “durassem semanas, não meses”. Claro, isso foi há mais de uma década.

As forças armadas dos Estados Unidos, totalmente voluntárias, descobriram rapidamente que não conseguiam recrutar americanos suficientes para as suas fileiras para sustentar estes esforços, deixando aos decisores políticos algumas opções desagradáveis. Primeiro, eles poderiam recuar e admitir a derrota. Em segundo lugar, eles poderiam instituir um recrutamento para preencher as fileiras. Terceiro, podiam esperar que os aliados e a ONU resgatassem os Estados Unidos das suas guerras. Por último, eles poderiam manter viva a guerra com os empreiteiros. As três primeiras opções eram suicídio político ou irrealistas, pelo que optaram por empreiteiros, uma política continuada pelo Presidente Barack Obama.

A contratação pode ser a nova forma americana de guerra. É uma forma que faz sentido para um país rico que quer projectar força no estrangeiro, mas cujos cidadãos não querem sangrar. Os empreiteiros representavam 50% da estrutura da força dos Estados Unidos no Iraque e 55% no Afeganistão. Este é um aumento notável em relação à Segunda Guerra Mundial, quando apenas 10 por cento da força foi contratada. Alguns interrogam-se se os Estados Unidos irão externalizar 80-90 por cento da sua força em conflitos futuros.

Os empreiteiros também são responsáveis ​​por 25 por cento de todas as mortes nos Estados Unidos desde o início das guerras no Iraque e no Afeganistão. Em 2003, as mortes de prestadores de serviços representaram apenas 4 por cento de todas as mortes. Em 2010, foram mortos mais empreiteiros do que militares, marcando a primeira vez na história em que as baixas corporativas superaram as perdas militares nos campos de batalha dos Estados Unidos. Além disso, estas são estimativas conservadoras, uma vez que os Estados Unidos não registam estes dados e as empresas subnotificam os seus feridos e mortos, pois isso é mau para os negócios.

A maioria dos empreiteiros no Iraque e no Afeganistão eram inofensivos, fornecendo apoio logístico desarmado. Apenas 12-15 por cento dos empreiteiros eram letais ou treinavam outros para matar. Mas os fracassos dos empreiteiros armados têm um impacto estratégico descomunal, como evidenciado pelos acontecimentos na Praça Nisour, em Bagdad, em 2007, quando um punhado de funcionários da Blackwater mataram 17 civis numa rotunda, marcando um dos pontos mais baixos da guerra.

O investimento dos Estados Unidos na indústria militar privada também tornou a guerra um negócio ainda maior. O valor do mercado permanece desconhecido; as estimativas dos especialistas variam enormemente entre US$ 20 bilhões e US$ 100 bilhões anualmente. Mais certamente, de 1999 a 2008, as obrigações contratuais do Departamento de Defesa dos Estados Unidos aumentaram de 165 milhões de dólares para 414 milhões de dólares.

Membros da Blackwater escoltando um político, ao lado de militares americanos no Iraque – Fonte –https://socialchangecourse.wordpress.com/2014/11/14/blackwater-in-iraq-the-changing-social-roles-of-mercenaries/

Em 2010, os militares dos Estados Unidos comprometeram 366 milhões de dólares em contratos, no valor de seis vezes todo o orçamento de defesa do Reino Unido. Além disso, isto envolve apenas contratos militares e não inclui aqueles celebrados por outras agências governamentais, como o Departamento de Estado ou a USAID, através dos seus “parceiros de implementação”. O montante real que os Estados Unidos pagaram por contratos puramente de segurança permanece desconhecido.

A dependência dos Estados Unidos em relação aos empreiteiros é tal que a superpotência depende estrategicamente do sector privado para travar guerras. Os Estados Unidos também legitimaram de facto a indústria militar privada, encorajando a Nigéria, os Emirados Árabes Unidos e a Rússia, por exemplo, a contratar mercenários. Até as companhias petrolíferas e as companhias marítimas os empregam agora. Estes acontecimentos suscitam pouca indignação pública (ou mesmo atenção), marcando a sua crescente aceitação nas relações internacionais. Resumindo, os mercenários estão de volta.

Decada de 1960 – Mercenário em Biafra.

Improvável Que Desapareçam

A guerra privada tem sido a norma e não à excepção na história, sendo os últimos 400 anos anómalos. As implicações deste retorno são significativas. Oferecer os meios de guerra a qualquer pessoa que possa pagar mudará a guerra, a razão pela qual lutamos e o futuro da guerra. Se o dinheiro puder comprar poder de fogo, então as grandes corporações e os indivíduos ultra ricos poderão tornar-se um novo tipo de superpotência. Novos mercenários surgirão para satisfazer esta procura, oferecendo serviços mais letais, sem serem impedidos pelas leis da guerra.

Mais mercenários significam mais guerra, pois são incentivados a iniciar e expandir guerras com fins lucrativos e a recorrer à criminalidade entre contratos. Também surgirá um novo tipo de guerra – a guerra contratual – que responde à lógica do mercado, como o suborno, as aquisições e o engano. Um mercado ativo da força tem o poder de alterar as relações internacionais. A ordem mundial irá parecer-se cada vez mais com a Idade Média Europeia, quando as guerras eram travadas com mercenários e os ricos podiam travar a guerra por qualquer razão que quisessem. Uma tal ordem mundial é melhor descrita como “desordem duradoura”: uma governação global que contém, em vez de resolver, os problemas.

Esse mundo já está sobre nós!

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