DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER

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Entrevista com o Prof. Moacyr de Góes

P – O que foi, em poucas palavras, o movimento DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER?

M – Foi um Movimento de Educação Popular que, tendo nascido no âmbito dos Comitês Nacionalistas, quando das eleições de 1960 para Prefeitos de Natal (RN), veio a se desenvolver na Secretaria Municipal de Educação durante a administração Djalma Maranhão. A sua principal especificidade é justamente esta: um movimento popular que opera dentro de um aparelho de Estado. Daí a fase de 1960-64 ter significado um fortalecimento da Escola Pública Municipal em Natal. Inicialmente programado para ser uma campanha de erradicação do analfabetismo, DE PÉ NO CHÃO extrapolou de sua proposta inicial e se converteu numa política de cultura e educação popular na qual a sociedade organizada é o seu principal sujeito e os administradores da Secretaria Municipal de Educação são os seus “intelectuais orgânicos”, nas tarefas de planejamento, acompanhamento e avaliação dessa mesma política.

Djalma Maranhão
Djalma Maranhão

P – Qual a clientela atendida?

M – Crianças, jovens e adultos. Implantada, principalmente, na periferia da Cidade, onde não existiam escolas, a sua clientela básica foi constituída pelas classes sociais despossuídas. Isso não significou uma exclusão de outras classes sociais, considerando a abrangência da proposta e o envolvimento da sociedade, como um todo.

P – Qual era formação dos professores?

M – O corpo técnico da Secretaria Municipal de Educação era constituído de profissionais qualificados em Escola Normal e Universidade. Considerando a falta de professores, na época, DE PÉ NO CHÃO preparou os seus próprios recursos humanos que operaram nas salas de aula. Assim, através dos Cursos de Emergência (quatro meses de duração, cinco horas de aula por dia, inclusive aos sábados) foram qualificados 500 monitores entre 1960-63. Os professores diplomados por Escola Normal foram reciclados para desempenhar as funções de supervisores. Cada Supervisor era responsável pelo desempenho de 20 monitores. Semanalmente, o Supervisor se reunia com os seus monitores e com eles discutia o processo de trabalho verificado “in loco” pelo Supervisor, quando de suas visitas às classes. Quinzenalmente, os Supervisores se reuniam com a Direção da SME, para avaliação do trabalho. Assim, este acompanhamento muito próximo se transformou na chave da qualidade pedagógica.

Local das aulas
Local das aulas

Ainda para melhor qualificação docente foi criado um Centro de Formação de Professores (responsável pelos Cursos de Emergência e implementação da política educacional, inclusive de expansão para o interior do Rio Grande do Norte), um Ginásio Normal (de quatro anos) e um Colégio Pedagógico (de sete anos).

Para a Campanha DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE UMA PROFISSÃO, os monitores eram recrutados entre profissionais e artesãos que desempenhavam os respectivos ofícios.

P – Quais os principais resultados?

M – Em três anos, uma matrícula acumulada de cerca de 40.000 alunos (lembrar que Natal, á época, contava com uma população de 160.000 habitantes). 500 profissionais qualificados para a regência de classes. índices de aprovação de 60%, 74% e 85%, respectivamente, em 1961, 62 e 63. Custo-aluno médio anual de menos de dois dólares.

Djalma Maranhão visitando o local das aulas
Djalma Maranhão visitando o local das aulas

DE PÉ NO CHÃO, numa concepção de Terceiro Mundo, isto é, contando, apenas, com os recursos de uma Prefeitura do Nordeste, respondeu a quatro desafios básicos da escola brasileira:

A- Espaço físico, Respaldado pelo movimento social organizado -os Comitês Nacionalistas – a Prefeitura, na impossibilidade de construções de alvenaria, implantou uma rede de Acampamentos Escolares isto é, contruções de grandes galpões de palha de coqueiro. O movimento não confundiu Escola com Prédio Escolar. A Escola funcionou, mesmo sem prédio escolar.

B- Pessoal. Ao qualificar o seu próprio pessoal docente e intermediar o seu trabalho com a cooperação de quadros oriundos da Academia.

C- Material didático. A partir de 1963 a SME produziu o seu próprio material docente, com isso reduzindo a alienação e aproximando a sua política educacional da realidade nordestina.

D- Acompanhamento docente. A rede de intercomunicações permanente Monitor-Diretor de Acampamento-Supervisor-Equipe Técnica do Centro de Formação de Professores assegurou a qualidade pedagógica da política educacional.

P – Como terminou o movimento?

M – Foi destruído pelo Golpe de Estado de 1964, sob a acusação de que estava comunizando o Nordeste. Igual destino tiveram o Movimento de Cultura Popular do Recife (MCP), o Método Paulo Freire, o Centro Popular de Cultura da UNE (CPC). O Movimento de Educação de Base (MEB) sobreviveu, mas perdeu as características de Movimento de Educação Popular, sua matriz ideológica.

P – Como o Sr. avalia a atual situação do Brasil e que perspectiva vê a médio prazo?

M – Para responder à pergunta teríamos que organizar um Curso, não é? Mas, respondendo, apenas, pelo óbvio. A situação é de uma grave crise. Para ficar só na nossa área, é visível a proposta de sucateamento da educação pública. A educação virou “Marketing” político. Não há seriedade – e, conseqüentemente, credibilidade – para as propostas que estão nos jornais.

A médio prazo espero uma mobilização da sociedade civil, a sua auto-crítica pelo comportamento assumido a partir da Nova República (“Nova”, hein?) e uma retomada da discussão e encaminhamento das grandes questões nacionais.

Situação como encontrei os slides originais do Projeto de Pé no Chão Também se Aprende a Ler no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte. A maioria já mofados. Espero que esta situação tenha mudado
Situação como encontrei os slides originais do Projeto de Pé no Chão Também se Aprende a Ler no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte. A maioria já mofados. Espero que esta situação tenha mudado
Caixas onde estão (?) guardados estes slides no arquivo.
Caixas onde estão (?) guardados estes slides no arquivo.

R – O que falta para a educação brasileira “dar certo”?

M – Uma vontade política, realmente, responsável.

M – Uma vontade política, realmente, responsável.

P – Que saídas o Sr. vê para a Crise educacional brasileira?

M – Aqui seria outro Curso, não é? Mas, vamos ao óbvio:

1º – Aplicar em educação 5 a 6% do PIB. 

2º – Corrigir as distorções e impedir a malversação dos dinheiros públicos na aplicação desses recursos.

3º – Aplicar os recursos públicos nas redes públicas.

4º – Gerenciar corretamente a aplicação dos recursos públicos para cumprimento de um Plano de Educação, democraticamente discutido, definido, em suas linhas gerais no plano nacional e operacionalizado ao nível descentralizado de Estados e Municípios.

5º – Acompanhamento e controle social sobre as políticas estatais.

6º – Vergonha na cara.

Rio de Janeiro, 08 de Janeiro de 1992.

Prof. Moacyr de Góis
Prof. Moacyr de Góis

Dados Biográficos

Moacyr de Góes era natalense, nascido aos 15 de agosto de 1930, Na capital potiguar, foi professor do Colégio Atheneu, assim como da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Por três vezes assumiu Secretarias de Educação: Natal (1960-64), Rio de Janeiro (1987-88) e novamente Natal (1989). Da primeira vez, na administração do Prefeito Djalma Maranhão, implantou a política de erradicação do analfabetismo, aliando a escola pública ao movimento de educação e cultura popular De Pé no Chão Também se Aprende a Ler. Em 1964, foi preso pela Polícia Federal, onde ficou por dois meses. De lá, seguiu para o 16º Batalhão de Infantaria, onde também ficou detido.  Depois que foi solto, no mesmo ano, afastou-se das funções públicas e foi embora com toda a família para a capital carioca. Virou professor da Universidade Federal do Rio  de Janeiro, onde ajudou a criar a Extensão Universitária da UFRJ (1986-87). Resistiu à Ditadura participando dos Movimentos do magistério, coordenados pela Confederação dos Professores do Brasil e integrando-se à luta de organização de partidos democráticos. Na capital carioca voltou a ser secretário Municipal de Educação, na gestão de Saturnino Braga, em 1986. Ocupou a mesma pasta em Natal, na primeira gestão da então prefeita Wilma Maria. Divide com Luiz Antônio Cunha a autoria do Livro O Golpe na Educação (6ª edição, J. Zahar, Rio de Janeiro). Morreu em casa, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, em março de 2009. 

Fonte – Paidéia (Ribeirão Preto)  no.3 Ribeirão Preto Aug./ 1992,

Via – http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-863X1992000300002&script=sci_arttext

EXALTAÇÃO AO NORDESTE

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Eita,Nordeste da peste,
Mesmo com toda sêca
Abandono e solidão,
Talvez pouca gente perceba

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Que teu mapa aproximado
Tem forma de coração.
E se dizem que temos pobreza
E atribuem à natureza,

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Contra isso,eu digo não.
Na verdade temos fartura
Do petróleo ao algodão.
Isso prova que temos riqueza

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Embaixo e em cima do chão.
Procure por aí a fora
“Cabra” que acorda antes da aurora
E da enxada lança mão.

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Procure mulher com dez filhos
Que quando a palma não alimenta
Bebem leite de jumenta
E nenhum dá pra ladrão

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Procure por aí a fora
Quem melhor que a gente canta,
Quem melhor que a gente dança
Xote,xaxado e baião.

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Procure no mundo uma cidade
Com a beleza e a claridade
Do luar do meu sertão.

Autor – Luiz Gonzaga de Moura

ESPETACULAR! DÊ UMA VOLTA NA TERRA A BORDO DA ESTAÇÃO ESPACIAL

Imagine-se na janelinha da Estação Espacial Internacional. É de noite. Lá em baixo as luzes das cidades brilham, enquanto as auroras polares, coloridas, parecem dançar na frente dos seus olhos. Não é um sonho. É uma viagem fantástica!

É só clicar e ampliar. É show!

Abaixo da nave, os oceanos negros emolduram nuvens brancas e cidades iluminadas por pontos laranja. Relâmpagos e tempestades severas desfilam juntos, denunciando a chuva que cai ou se aproxima. No horizonte, a fina camada da atmosfera brilha como ouro, enquanto as auroras em tons esverdeados dançam, excitadas pelas partículas solares.

As Sequências de filmagem são :

1. Norte-sul ao longo da costa ocidental da América do Norte e do Sul.
2. Norte-sul sobre a Flórida, Bahamas e outras ilhas do Caribe.
3. Sudeste da Ásia, aproximando-se do Mar das Filipinas
4. Europa Ocidental, da França através da Itália, Grécia, Turquia e Oriente Médio.
5. Aurora Austral, sobre o Oceano Índico, aproximando-se da Austrália
6. Aurora Austral, sobre o Oceano Índico.
7. Aurora Austral, local desconhecido no hemisfério sul.

Apesar de estarem bem abaixo da altitude da nave, em alguns momentos a Estação Espacial passa por dentro das auroras mais elevadas, revelando maravilhosos tons vermelhos e púrpuros. Na busca incessante pela luz, os painéis solares giram.

Estação Espacial ISS
Estação Espacial Internacional ISS

O vídeo foi feito a partir de milhares de fotos estáticas capturadas por uma das câmeras a bordo da Estação Espacial Internacional, ISS e mostra diversas cenas noturnas do nosso planeta, visto de 420 km de altitude.

A onda luminosa e sinistra vista ao final de cada sequência é apenas o início da viagem da nave pela parte clara da Terra, uma alvorada rápida e brilhante, vista pelos astronautas a cada 90 minutos a 28 mil km/h.

A música é “Freedom Fighters”, do compositor norueguês Thomas Jacob Bergersen e do americano Nick Phoenix.

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Fonte – http://www.apolo11.com

O MARCO NO MORRO DO NAVIO, EM PIUM, NÍSIA FLORESTA, RIO GRANDE DO NORTE

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Autor – Rostand Medeiros

Uma situação que pessoalmente me deixa muito feliz é encontrar, trocar ideias e fazer amizade com pessoas que gostam de história. Mas esta situação se torna mais interessante é quando encontro pessoas interessadas em também proteger o nosso patrimônio histórico, tão vilipendiado e dilapidado que faz pena.

Bem, no último mês de março recebi um e-mail de um cidadão de nome Flávio Gameleira, um dentista, que curiosamente está terminando o curso de Gestão Ambiental. Em sua mensagem ele me trazia a notícia da existência de um estranho objeto de concreto, tombado no alto de uma duna no nosso litoral sul e que poderia ter haver com a Segunda Guerra Mundial.

Ele me enviou um link de um filme postado no You Tube em janeiro último e com pouco mais de um minuto de duração. Para evitar muita escrita, vejam o material clicando no link abaixo;

http://www.youtube.com/watch?v=q0KbAVM1Ln0

Então marcamos um encontro em minha casa, onde conheci Flávio e seu amigo Keber Kennedy e juntos trocamos ideias e teorias sobre aquele artefato.

Ligação com a Guerra

Flávio Gameleira me comentou que esteve no local com seus amigos Keber Kennedy e Március Vinícius no dia 4 de janeiro de 2013. Para chegar ao local ele contratou os serviços do Guia de Turismo chamado Marcelo.  Ele me revelou que havia um marco de concreto que havia sido fincado inicialmente no alto do morro e atualmente se encontrava cerca de 50 metros abaixo do local original. O Guia Marcelo lhe relatou que pessoas da região haviam informado que havia um ano gravado no marco: 1942 ou 1943.

No marco no Morro do Navio vemos Keber Kennedy (com a cãmera), Flávio Gameleira e Március Vivícius em janeiro de 2013
No marco no Morro do Navio vemos Keber Kennedy (com a cãmera), Flávio Gameleira e Március Vinícius em janeiro de 2013

Neste encontro Flávio me afirmou que ele e seus amigos tentaram desenterrar o marco, mas aquilo era uma tarefa muito pesada para ser realizada apenas com as mãos. Ele me comentou, e eu também achei o fato intrigante, saber que em um local de dificílimo acesso existia algo como aquilo e que a maioria das pessoas de nada saiba.

Para Flávio era importante saber quem, quando e porque foi colocado aquele marco naquele local , pois poderia se tratar de um patrimônio histórico.

Morro do Navio em abril de 2013, agora completamente desenterrado
Morro do Navio em abril de 2013, agora completamente desenterrado

O marco está na duna conhecida como Morro do Navio, ou Morro Vermelho, próximo a localidade de Pium, zona rural do município de Nísia Floresta a poucos quilômetros ao sul de Natal. Em meio a uma zona litorânea com ausência significativa de elevações naturais, este acidente geográfico se destaca na paisagem por possuir cerca de 350 metros de altitude. Ele é um pouco mais elevado que o famoso Morro do Careca, na Praia de Ponta Negra, este com uma altitude próxima de 340 metros.

Mas além da altitude o Morro do Navio é extremamente interessante para quem estuda a Segunda Guerra Mundial pela sua localização.

E como se encontrava em janeiro de 2013
E como se encontrava em janeiro de 2013

O morro fica exatamente entre o Aeroporto Internacional Augusto Severo/Base Aérea de Natal e o litoral. Evidentemente que durante a guerra muitos dos aviadores aliados que decolavam do movimentado Parnamirim Field tiveram oportunidade de ver este morro de suas aeronaves. Mas o Morro do Navio também é um ponto de localização muito visível para qualquer hidroavião que levantasse voo a partir da Lagoa do Bonfim.

Mas a questão era saber o porquê daquele objeto está ali no Morro do Navio?

Indicações

Para Flávio Gameleira uma das indicações estava no livro “Cartas da Praia”, do escritor potiguar Hélio Galvão.

Nesta obra o autor aponta que alguns morros mais altos na região de Tibau do Sul possuíam bases de concreto que eram utilizadas por geógrafos militares para comunicação com a utilização de espelhos, transmitindo sinais entre eles e chegando até a torre da igreja de São José de Mipibu.

Se este fato existiu realmente, este sistema de comunicação só poderia ser a conhecida heliografia e o dispositivo utilizado para enviar mensagens ópticas com a ajuda de luz solar era um heliógrafo.

A utilização da heliografia remonta à antiguidade, em que inúmeras culturas utilizavam a luz solar refletidas em materiais apropriados para enviar mensagens ou sinais através de distâncias consideráveis, além de inúmeras outras funções. Já o dispositivo de emissão de sinais consiste de um objeto brilhante montado sobre um suporte. Para usá-lo, o objeto pode ser girado ou fechado a fim de criar uma série de explosões de luz que podem ser lidas por um observador. Essas transmissões eram comumente feitas em código Morse, que utiliza uma série de transmissões longas e curtas para repassar informações.

Seria então o tal marco, quando se encontrava no alto do Morro do Navio, utilizado para a transmissão de informações através de um heliógrafo? Ou teria outra utilidade?

Em meio a estas conjecturas, na mesma semana que me encontrei com o Flávio, me encontro casualmente com o jornalista Luiz Gonzaga Cortez na mais importante casa da memória potiguar, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Neste momento me recordei que Gonzaga Cortez estava realizando uma pesquisa sobre antigos marcos de memória relativos a Segunda Guerra Mundial e decidi lhe relatar o fato.

Morro do Navio ou Morro Vermelho
Morro do Navio ou Morro Vermelho

Ele gostou da informação de Flávio e propôs realizarmos uma visita ao Morro do Navio.

Na hora confesso que fiquei muito surpreso, pois aqui em Natal é difícil as pessoas que trabalham com assuntos históricos realizarem pesquisas em conjunto. Além do mais sempre tive um extremo respeito pelo trabalho de Cortez. Lembro-me que ainda garoto, em 1985, por ocasião do cinquenta anos da Intentona Comunista, o jornal O Poti, edição dominical do periódico Diário de Natal, publicou uma série de reportagens assinadas por Cortez sobre este tema. Depois ele reuniu este material e publicou o livro ”A Revolta Comunista de 35 em Natal”, do qual fui ao lançamento e tenho uma edição autografada do autor.

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No domingo (07/04/2013) seguimos para o morro. Junto com o autor deste artigo e Gonzaga Cortez, seguiram seu filho Cleando e seu neto. Flávio Gameleira foi contatado, convidado, mas não pode ir.

Visitando o Local

Ao chegarmos no local tivemos que deixar o carro a cerca de dois quilômetros de distância pela possibilidade do mesmo atolar na areia fofa. O problema é que chegamos tarde e nossa caminhada começou depois das onze da manhã, de um dia plenamente ensolarado e sem nenhuma nuvem no céu.

Neste ponto da trilha, a diferença no solo poderia indicar utilização de um trator para abrir este caminho em tempos passados?
Neste ponto da trilha, a diferença no solo poderia indicar utilização de um trator para abrir este caminho em tempos passados?

A trilha é larga, com muitas marcas de passagens de veículos tipo 4×4. Percebi que em alguns pontos parecia que aquele caminho havia sido aberto por um trator equipado com uma lâmina de terraplanagem.

Finalmente chegamos ao marco.

Primeiramente fomos surpreendidos diante do fato da peça em questão está totalmente desenterrada em relação ao vídeo realizado por Flávio Gameleira em janeiro último. Também vimos na área muitas e muitas marcas de pneus de veículos tracionados.

O marco totalmente desenterrado
O marco totalmente desenterrado

Mais interessante era que comparando com o vídeo, o marco parecia ter sido movido. Só não sabíamos para que e por quem?

Em relação ao marco propriamente dito, este possui um orifício na ponta, tem em torno de 1,50 m, sendo 40 centímetros só na base. Em uma de suas laterais encontram-se as inscrições  “1942”, “S.G.H.E.” e “45”.

Certamente aquele era um marco histórico relacionado com alguma missão militar realizada na década de 1940, provavelmente destinado a utilização na heliografia, ou com a área de levantamento geográfico e cartográfico do Serviço Geográfico do Exército.

Algumas marcas estranhas no marco
Algumas marcas estranhas no marco parecendo que ele havia sido amarrado por algum cabo e acabou deixando marcas de soltura no início da peça e na lateral

Como na área de pesquisa histórica ninguém faz nada sozinho, busquei ajuda de um historiador militar, possuidor de um enorme e sólido conhecimento nesta área e que não nega ajuda a quem lhe busca informações.

Na foto um marco geodésico impkantado na década de 1930, localizado na Trilha do Travessão, na Serra do Cipó, em Minas Gerais. Apontando que que o marco do Morro do navio deve ter possuído uma destas peças informativas de bronze, que se encaixavam no orifício que agora está vazio. isso mostra que o vandalismo contra este marco histórico é bem antigo
Na foto um marco geodésico localizado na Trilha do Travessão, na Serra do Cipó, em Minas Gerais. Apontando que o marco do Morro do Navio deve ter possuído uma destas peças informativas de bronze, que se encaixavam no orifício que agora está vazio. Isso mostra que o vandalismo contra este marco histórico é bem antigo – Fonte – http://www.clubedosaventureiros.com

Ao responder nossa consulta ele acredita que provavelmente este marco foi colocado há mais de 70 anos pelo Serviço Geográfico do Exército (SGEx). Em sua opinião este material está ligada a missão de um grupo de cartógrafos/topógrafos militares que realizou o levantamento de parte do litoral nordestino (de Pernambuco ao Ceará, incluindo o arquipélago de Fernando de Noronha), mediante a necessidade de operações de guerra que iriam se desenvolver naquela região.

Djalma Polly Coelho, que comandou o trabalho topográfico no litoral nordestino em 1941. Nasceu em 17 Outubro de 1892, em Curitiba, Paraná, sentou praça em 1911 e chegou a Aspirante Oficial em 1914. Chegou ao generalato em 1946. Foi Diretor do Serviço Geográfico Militar, posteriormente Serviço Geográfico do Exército e promoveu a criação do Curso de Topografia da Escola Técnica do Exército, hoje Instituto Militar de Engenharia. Foi Presidente da Comissão para a localização da nova Capital do Brasil (1946 a 1948) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Faleceu em 18 Out 1954 na cidade do Rio de Janeiro - Fonte - http://portal.dgp.eb.mil.br/
Djalma Polly Coelho – Fonte – http://portal.dgp.eb.mil.br/

Para cumprir tal missão foi organizado, em meados de 1941, o Destacamento Especial do Nordeste (DEN), chefiado pelo então Tenente Coronel Djalma Polly Coelho, contando com um número superior a trinta oficiais engenheiros e sargentos topógrafos.

O Serviço Geográfico mobilizou o curso de geodesia da Escola Técnica do Exército (atualmente Instituto Militar de Engenharia, IME), convocando seus oficiais e alunos, juntos com os da 1ª Divisão de Levantamento, para inclusão no Destacamento, assim como seis primeiros-tenentes da reserva e engenheiros civis possuidores do curso complementar da Escola de Engenheiros Geógrafos Militares.

Na foto vemos um C-47 Dakota em Parnamirim Field. Certamente este marco ajudou na construção desta grande base aérea
Na foto vemos em destaque um bimotor de transporte C-47 Dakota, em Parnamirim Field. Certamente este marco ajudou na construção desta grande base aérea

Entre estes levantamentos estava a da região onde seria construída a Base Aérea de Natal. O fato do marco estar num ponto dominante serve justamente para a realização deste tipo de trabalho com base no movimento dos astros.

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Possivelmente a equipe que colocou o marco veio de Recife. Ainda segundo este nosso amigo historiador, é possível que na 3ª Divisão de Levantamento, com sede na capital pernambucana, ainda existam as coordenadas desse marco em algum documento antigo.

Protegidos Por Lei Federal…

Esses materiais são protegidos pelo DECRETO-LEI N° 243, DE 28 DE FEVEREIRO DE 1967, que fixa as diretrizes e bases da cartografia brasileira.

É interessante a leitura de um dos seus artigos:

CAPÍTULO VII

Dos Marcos, Pilares e Sinais Geodésicos

Art. 13 – Os marcos, pilares e sinais geodésicos são considerados obras públicas, podendo ser desapropriadas, como de utilidade pública, nas áreas adjacentes necessárias à sua proteção.

§ 1º – Os marcos, pilares e sinais conterão obrigatoriamente a indicação do órgão responsável pela sua implantação, seguida da advertência: “Protegido por lei” (Código Penal e demais leis civis de proteção aos bens do patrimônio público). .

§ 2° – Qualquer nova edificação, obra ou arborização, que, a critério do órgão cartográfico responsável, possa prejudicar a utilização de marco, pilar ou sinal geodésico, só poderá ser autorizada após prévia audiência desse órgão.

§ 3° – Quando não efetivada a desapropriação, o proprietário da terra será obrigatoriamente notificado, pelo órgão responsável, da materialização e sinalização do ponto geodésico, das obrigações que a lei estabelece para sua preservação e das restrições necessárias a assegurar sua utilização.

§ 4° – A notificação será averbada gratuitamente, no Registro de Imóveis competente, por iniciativa do órgão responsável.

Art. 14 – Os operadores de campo dos órgãos públicos e das empresas oficialmente autorizadas, quando no exercício de suas funções técnicas, atendidas as restrições atinentes ao direito de propriedade e a segurança nacional, têm livre acesso às propriedades públicas e particulares.

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Ou seja, este tipo de material é protegido por LEI FEDERAL e isso implica em problemas com o Ministério Público Federal, através da Procuradoria da República no Rio Grande do Norte.

Bem, o objeto no alto do Morro do Navio aparenta ter sido um dos marcos iniciais de construção de uma das maiores bases aéreas fora dos Estados Unidos em toda a Segunda Guerra Mundial e a importância de Natal e Parnamirim Field foi tremenda para a vitória Aliada, onde seus símbolos deveriam ser motivo de preservação e proteção do Estado, ao abrigo da ação de pessoas despreparadas.

Na busca de maiores informações busquei um contato pela manhã sobre este objeto com o amigo Edgard Ramalho Dantas. Este é geólogo, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me comentou que a importância histórica da Base de Parnamirim não está apenas em saber detalhes de esquadrões, pilotos e aviões, mas está também nos marcos de fundação e de desenvolvimento da referida obra.

Neste ponto, o mais elevado do Morro do Navio, ficava este marco
Neste ponto, o mais elevado do Morro do Navio, ficava este marco. Ao fundo os edifícios de Natal e Parnamirim

Diante de toda esta situação, na condição de cidadãos preocupados com a questão, o autor deste artigo e o jornalista Luiz Gonzaga Cortez decidiram procurar o jornal Tribuna Do Norte, que acolheu a nossa informação e publicou a seguinte matéria.

Morro do Navio é alvo de degradação ambiental

Publicação: 10 de Abril de 2013 às 00:00

Localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) Bonfim-Guaraíra, o Morro do Navio, também conhecido como Morro Vermelho, nas dunas pertencentes ao município de Nísia Floresta, passa por um processo de degradação  por bugueiros e praticantes de rally. O gestor da APA Bonfim-Guaraíra do  Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do RN (Idema), Fábio de Vasconcelos Silva, confirmou que recebeu denúncia da situação na semana passada. Apesar de informar que a prática na área é proibida, o gestor da APA admitiu que não há um Plano de Manejo para a região.

Fábio de Vasconcelos Silva informou que o Conselho Gestor da APA Bonfim-Guaraíra vai se reunir no dia 16 de abril, às 9h, no auditório do Ecoposto da APA, em Nísia Floresta, para tratar do Plano de Manejo. De maneira provisória, vamos  identificar quais locais onde as trilhas podem ser feitas de maneira a minimizar ao máximo os impactos na área. Há locais que são mais sensíveis que outros, explicou.

A APA Bonfim-Guaraíra não possui um estudo que permita definir o Zoneamento Ecológico e Econômico, que regulamenta as áreas que podem ser utilizadas de maneira a minimizar os impactos no local. Por esse motivo, segundo Fábio de Vasconcelos Silva, qualquer atividade deve ser comunicada ao Idema e autorizada pelo órgão e pelo Conselho Gestor da APA.

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As pessoas estão fazendo ralis de forma clandestina. Durante o monitoramento, me deparei com uma empresa de turismo que faz passeios de quadriciclos.  Esses passeios são ilegais, afirmou. Os organizadores de passeios turísticos e os praticantes de rally que forem surpreendidos pela Polícia Ambiental no local estarão sujeitos a sanções penais. Quem estiver fazendo passeios no local terá o carro apreendido, disse o gestor da APA.

A situação de degradação da Área de Proteção Ambiental também se confirma no relato de pesquisadores que foram ao local para identificar um marco de concreto que teria importância histórica. Ao averiguarem o objeto, que poderia ter servido de alicerce para a utilização de um equipamento militar do Exército Brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial, o jornalista e membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN (IHG-RN) Luiz Gonzaga Cortez, e o pesquisador e escritor Rostand Medeiros verificaram diversas marcas de pneus no Morro do Navio.

Morro pode ter marco histórico da II Guerra

A possibilidade de que o Morro do Navio seja um ponto que conserva a história do Rio Grande do Norte durante a Segunda Guerra Mundial reforça a importância da preservação da Área de Proteção Ambiental (APA) Bonfim-Guaraíra.

A Lagoa do Bonfim vista do alto do Morro do Navio
A Lagoa do Bonfim vista do alto do Morro do Navio

O marco tem 1,55 metros de altura e 47 centímetros de largura. Nele está gravado o número 1942, que segundo os pesquisadores  Rostand Medeiros  e Luiz Gonzaga Cortez poderia representar a data de instalação do equipamento. Também há no objeto a sigla SGHE.

De acordo com Rostand Medeiros, é possível que o marco tenha sido instalado por um grupo de cartógrafos e topógrafos que estariam fazendo o levantamento da região, provavelmente para a construção da Base de Natal (Parnamirim Field). O fato do marco estar num ponto dominante pode ter servido para este tipo de levantamento com base no movimento dos astros, explicou.

Outra possibilidade ventilada pelos pesquisadores é que o marco tenha servido de alicerce para a utilização de um heliógrafo, equipamento militar que pertenceria ao Exército Brasileiro, de uso manual, para fins de orientação e comunicação.

Acreditamos que esse marco também poderia ter servido de base para esse aparelho, que teria a função de enviar sinais com a luz do sol por código morse, evitando assim a interceptação das mensagens, disse Rostand Medeiros.

Conclusão 

Mas enfim, vale a pena tanto papel, tanta digitação por um pedaço velho de concreto e que está largado no alto de uma duna?

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Com certeza, pois é um marco de nossa história.

Qualquer museu que trabalhe a memória de forma séria, gostaria de ter uma peça original que ajudou na construção de uma das maiores bases Aliadas fora dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas qualquer museu sério, ou qualquer entidade que trabalhe com o tema da memória de forma séria em terras potiguares, deve seguir todos os trâmites legais para possuir este material. O desejo de preservação da memória não deve jamais se sobrepor a ideia de realizar as ações de maneira correta.

Certamente na questão relativa a este marco, em minha opinião ele deve ir para um museu.

Mas com a devida anuência de pessoas ligadas ao Exército Brasileiro, o Ministério Público Federal e Estadual, certamente o IDEMA e IBAMA. Não podemos esquecer da participação dos agentes do meio turístico, além das entidades de preservação da memória como o Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Norte e as entidades de preservação da memória na cidade de Nísia Floresta, onde territorialmente o marco foi fincado a mais de setenta anos.

A união destes atores deve dar um destino correto a esta peça histórica.

P.S. – Quero agradecer a Flávio Gameleira, Keber Kennedy e Március Vinícius pela divulgação deste material, pois sem isso não saberíamos da existência deste marco histórico. Logicamente estendo estes agradecimentos a Luiz Gonzaga Cortez, ao seu filho e ao seu neto, por terem me convidado para visitar o local.

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MULHERES DE ASAS

WASP (4)

DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL AS MULHERES AMERICANAS QUE VOARAM NO WASP MOSTRARAM SEU VALOR, CORAGEM E DEDICAÇÃO. MAS TAMBÉM SOFRERAM TODA SORTE DE HUMILHAÇÕES POR SEREM APENAS MULHERES QUE QUERIAM VOAR

Autor – Rostand Medeiros

Fotos – Wikipedia

Em setembro de 1942, uma piloto norte-americana de 28 anos de idade chamada Nancy Harkness Love conseguiu convencer o ATC – Air Transport Command a deixá-la treinar outras mulheres já licenciadas como pilotos civis, em funções destinada a pilotos militares masculinos. Elas teriam a função de levar aviões para inúmeras bases aéreas, recém-saídos das várias fábricas então existentes em todo os Estados Unidos.

A princípio foram selecionadas 27 recrutas, as primeiras mulheres a pilotar aviões militares na terra do Tio Sam e logo elas faziam parte do Women’s Auxiliary Ferrying Squadron -WAFS. Em pouco tempo este esquadrão foi ampliado e se tornou o Women Airforce Service Pilots – WASP, uma organização não militar dentro de um grande esquema militar. Aquilo era na verdade um experimento.

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As meninas do WASP viveram e trabalharam em mais de 120 bases aéreas nos Estados Unidos. Elas usavam uniformes, seguiram códigos militares rigorosos e recebiam ordens como qualquer um que estava nas forças armadas americanas na época. Mas como sempre ocorre quando as mulheres adentram em uma nova área de trabalho, elas sofreram preconceitos severos.

Elas não usufruíam de um seguro de vida e de acidentes, não tinham maiores benefícios em caso de morte e não poderiam ser enterradas em um cemitério militar com as honras de praxe. Elas não podiam alcançar nenhum posto de significado fora de sua organização, nem podiam dar ordens aos homens. Havia uma lei federal que proibia as mulheres de pilotar aviões militares em situação de combate ou fora das fronteiras dos Estados Unidos. Mesmo assim elas foram adiante e 38 mulheres do WASP morreram em acidentes.

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No final elas tinham o que comemorar.

O que tinha começado como um “experimento” deu muito certo. Até o final da guerra o programa WASP treinou quase duas mil mulheres, das quais mais de 1.000 foram graduadas com sucesso e orgulhosamente ganharam suas “asas”, que ostentavam no seu uniforme. Elas transportaram quase 12.650 aeronaves militares, voaram mais de 60 milhões de quilômetros e realizaram outros inúmeros trabalhos de pilotagem.

Quando os Aliados ganharam o controle na Europa e os americanos voltaram para casa, o experimento foi encerrado. As mulheres receberam ordens de abandonar seus empregos como pilotos, para dar lugar aos homens que retornavam e logo ficou claro que era quase impossível para elas encontrar um emprego na aviação civil depois da guerra. Algumas poucas optaram por entrar para o exército e a grande maioria voltou para as suas vidas anteriores.

Ao pesquisar na Internet a vida destas aviadoras pioneiras percebi que muitas nunca mais voltaram a pilotar, mas para a maioria delas o período da Segunda Guerra Mundial foi onde tiveram alguns dos melhores dias de suas vidas. Cada uma destas histórias é verdadeiramente fascinante.

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Entre as que continuaram utilizando uniformes temos o caso de  Nancy Harkness Love, que depois da criação da Força Aérea dos Estados Unidos em 1948, se tornou tenente-coronel. Em maio de 1953 uma ex-piloto do WASP chamada Jackie Cochran, voando um poderoso caça a jato Canadair F-86 Sabre, se tornou a primeira mulher piloto a quebrar a barreira do som. Na década de 1960 a mesma Jackie Cochran se envolveu com o programa espacial Mercury, para desenvolver um projeto de treinamento para mulheres astronautas. Durante este trabalho pioneiro algumas mulheres ultrapassaram as realizações dos astronautas do sexo masculino. Mesmo assim a NASA decidiu cancelar este programa sem maiores explicações. Inclusive os famosos astronautas John Glenn e Scott Carpenter foram ao congresso americano e abertamente se colocaram contra a admissão de mulheres no programa espacial americano.

O papel das mulheres do WASP é quase sempre avaliado pelos historiadores normalmente como uma simples notinha de rodapé nos volumes sobre a Segunda Guerra Mundial. O mais incrível em relação a desativação deste programa foi a ordem do Pentágono, o ministério da defesa dos americanos, que ordenou o fechamento dos arquivos referentes ao trabalho destas mulheres e tornou estas informações como “classificadas”. Por mais de 30 anos, ninguém falava, escrevia, ou aprendeu algo sobre as mulheres do WASP e seu trabalho.

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Na década de 1950 algumas destas mulheres fizeram reivindicações para receberem as mesmas vantagens que os homens recebiam por ferimentos sofridos na guerra. Uma delas solicitou assistência por causa da surdez provocada pelo trabalho nos aviões, mas além de ter o beneficio negado, foi severamente repreendida por fazer o pedido, uma vez que ela não era considerada uma veterana.

Mas essa verdadeira infâmia realizada pelo governo americano contra estas valorosas mulheres não parou por aí. Em 1977 um anúncio feito pela Força Aérea dos Estados Unidos informava que 10 mulheres seriam licenciadas como as “primeiras” a voarem em aviões militares naquele país. Isso provocou um verdadeiro rebuliço nas meninas do WASP, agora distintas avós. Mas elas não desistiram e foram a luta.

Reuniram assinaturas para apoio a um projeto de lei para que concedesse as veteranas do WASP todos os benefícios que os veteranos de guerra do sexo masculino recebiam. O apoio veio de gente como William Randolph Hearst, então o grande magnata da imprensa americana e de outras pessoas bem colocadas na sociedade americana.

Finalmente em novembro de 1977 foi aprovado o projeto de lei que trazia justiça a situação daquelas mulheres. Elas agora eram veteranas.

Em 1 de julho de 2009, o presidente Obama concedeu a Medalha de Ouro do Congresso, a maior honraria civil dos Estados Unidos, para as mulheres que participaram do WASP. Estavam na cerimônia cerca de 175 veteranas ainda vivas e mais de 2.000 membros das famílias das pilotos já falecidas .

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No final de outubro de 2012 lancei o meu livro “Eu não sou herói-A história de Emil Petr”, que conta a história do veterano de guerra Emil Anthony Petr. Ele foi oficial navegador de radar da USAAF –United States Army Air Force, lotado em um bimotor quadrimotor B-24 que tinha a sua base no sul da Itália. Ainda no período de treinamento teve contato com algumas meninas da WASP, em uma engraçada história que reproduzi no capítulo 10, nas páginas 74 a 76.

“Sobre a condição natural de evacuação de resíduos líquidos e sólidos, que afeta a todos os seres humanos na face da Terra, Emil recordou um caso engraçado.

Como eles voavam para várias partes do país, em meio aos exercícios, não era anormal transportar algum militar em trânsito entre uma base aérea e outra. Em uma ocasião, durante um voo que tinha como destino a base aérea de Las Vegas, atualmente conhecida como base aérea de Nellis, para deleite da tripulação em que Emil estava provisoriamente engajado, deram carona a algumas moças da WASP – Women Airforce Service Pilots (Mulheres Pilotos a Serviço da Força Aérea). Esta era uma organização criada dentro da USAAF que utilizava apenas mulheres com a função prioritária de transportar aviões novos e usados, a partir de suas locais de fabricação ou entre as muitas bases aéreas existentes.

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Era a primeira vez que elas voavam em uma B-24 e estavam curiosas. Já a tripulação masculina se desdobrava para tornar a viagem mais agradável e tranquila para as garotas. Estavam todos animados, de riso aberto e tratavam as colegas com muito respeito.

Mas uma delas estava com uma aparência que transparecia preocupação. A jovem não falava muito, olhava dos lados, como procurando algo. Em solo ela não se mostrou uma pessoa arredia, nem antipática, isso apontava que alguma coisa estava errada. Logo se soube que ela estava “apertada”, precisando ir ao banheiro da aeronave. Quando lhe mostraram um dos canos, a sua face mudou de preocupação para a de terror.

Apesar de alguns tripulantes acharem que ela deveria ir para o local destinado a este fim, os oficiais, Emil entre eles, já arquitetavam tirar o artilheiro de ré do seu posto e a moça iria se resolver por lá mesmo. O rapaz que ocupava este local não gostou nem um pouco da sugestão.

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Para a sorte da jovem, nos momentos finais, chegou pelo intercomunicador a notícia que o piloto avistou Las Vegas, o destino das garotas. Emil conta que mal a B-24 parou, a pobre coitada desceu e desabou em uma carreira para o banheiro mais próximo, que aparentemente era masculino.

Mas na hora do desespero, vale tudo!”

Conforme podemos ver nestas fotos aqui apresentadas, a meninas do WASP não abriam mão de sua feminilidade e beleza. Junto com os uniformes e equipamentos de voo, seguiam o batom, material de maquiagem e coisas que deixam as mulheres, seres que se não existissem tornariam a vida dos homens um verdadeiro lixo, cada vez mais belas.

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HISTORIADOR ACHA PEGADAS DE GATO EM REGISTRO DE 1445

Um antigo hábito dos felinos
Um antigo hábito dos felinos – Emir O. Filipovic/Reprodução

BORRÕES DO FELINO ESTÃO EM DOCUMENTO MEDIEVAL

PERTENCENTE A ARQUIVO DA CROÁCIA

Para os donos de gatos a cena é muito familiar: Você está sentado, feliz por ter finalmente concluído algum trabalho feito em seu computador, daí, sem avisar, vem o gatinho da casa e começa a passear tranquilamente pelo teclado e seu trabalho acaba indo para o beleléu!

Mas a prática felina é muito, muito antiga!

Através do medievalista Emir O. Filipovic surge uma real evidência de que os gatos vêm realizando esta prática a mais seis séculos. O pesquisador descobriu que um gato da idade média passou com as patas cheias de tinta sobre o manuscrito pertencente ao arquivo público de Dubrovnik, na atual Croácia. As marcas ficaram eternizadas em uma página do volume 13 do documento chamado “Lettere e commissioni di Levante”.

Palacio Sponza - Dubrovnik - Croácia - onde fica o arquivo.
Palacio Sponza – Dubrovnik – Croácia – onde fica o arquivo.

O material é um registro de cartas de instruções que o antigo governo feudal de Dubrovnik remetia para seus comerciantes e enviados em todo o sudeste da Europa (Bósnia, Sérvia, Croácia, etc). De acordo com o pesquisador Filipovic, este material seria uma espécie de Registro Federal da época. Já as pegadas foram feitas em um documento datado de 11 de março de 1445. O que não quer dizer que ele tenha passado por ali exatamente naquele dia.

Mais do que apenas um lembrete bobo que os gatos nunca mudaram ao longo dos séculos, as pegadas no pergaminho a cintilar através do tempo serve para descrever um pouco da realidade dos animais de estimação da época.

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Fonte – https://sorrisodegato.files.wordpress.com/2012/05/lyra-notebook-dormindo.png

Material realizado a partir de texto do jornalista Carlos Eduardo Entini, jornal O Estado de São Paulo – Fonte – http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,historiador-acha-pegadas-de-gato-em-registro-de-1445-,8911,0.htm

 

MINHA CIDADE SE CHAMA NATAL!

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SECA NO RIO GRANDE DO NORTE – QUE ESTAS FOTOS LOGO SE REPITAM

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O mundo anda meio nervoso!

É um filho e neto de ditador, que busca cantar de galo para mostrar quem manda na sua nação empobrecida, faminta e super armada.

E por falar em galo, de novo vem da velha China um novo vírus aviário, que possui a sigla H7N9 e ninguém sabe ao certo o que ele pode, ou não, fazer contra os seres humanos.

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Por mais antenados que nós estejamos, o que realmente nós importa são os problemas mais próximos.

Enfim a Península Coreana e a China estão do outro lado do mundo e se o pau cantar entre as duas Coreias (com os Estados Unidos no meio), ou esta nova gripe se propagar, a grande distância que temos destas nações nós faz ter certa tranquilidade. Embora isso possa ser um paliativo muito fraco.

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Por mais que tenhamos em nossas grandes cidades os já costumeiros problemas com a violência excessiva, com a falência do nosso sistema de saúde, a decadência da nossa educação, com a nossa caótica mobilidade urbana, não podemos esquecer que o interior do Nordeste está vivendo a pior seca registrada nós últimos cinquenta anos. Às vezes penso que muitas pessoas aqui em Natal não se deram conta disso.

Estive esta semana no interior do Rio Grande do Norte e vi muita coisa triste.

Tradicionalmente em nosso estado as chuvas mais significativas iniciam-se em janeiro de cada ano e podem estender-se até maio, dependendo das condições oceânicas e atmosféricas. As chuvas que caíram no Rio Grande do Norte neste ano de 2013 foram de baixíssimos volumes, com precipitações pluviométricas irregulares. As condições climatológicas até então apresentadas não oferecem condições para o plantio da safra de grãos de 2013 em terras potiguares.

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Após enfrentarem um 2012 seco, com chuvas irregulares e com a confirmação de que a tendência de precipitações no próximo trimestre ficará abaixo do normal, os agricultores do Rio Grande do Norte tentam encontrar mecanismos que garantam a sobrevivência durante este período de estiagem. Mas está difícil.

Só nas últimas semanas os governos a nível federal e estadual parecem ter despertado para uma maior preocupação com a problemática. Já muitas das prefeituras do interior do nosso estado não têm recursos para apoiar quase nada e a ajuda a quem necessita parece ser trabalhada de uma forma muito lenta.

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Só restam as populações rurais do nosso estado duas coisas; ou esperar resignados que os desígnios de Deus repitam as imagens que trago nesta mensagem, ou invadir as cidades para mostrar que a situação está muito difícil e chamar a atenção das pessoas e dos governantes. 

A AUTOPERAÇÃO DE UM MÉDICO RUSSO NA ANTÁRTICA

Leonid Rogozov atuando em seu próprio corpo.
Leonid Rogozov atuando em seu próprio corpo.

Em 29 de abril de 1961, No 4º mês do inverno, Um médico russo chamado Leonid Rogozov, com 27 anos estava lotado na estação Novolazarevskaya, uma base da extinta União Soviética na Antártica, onde viveu uma história realmente diferente e fez com que ele se tornasse famoso em todo mundo.

Em 1959, o graduado em medicina Rogozov foi imediatamente aceito para fazer a residência como cirurgião. No entanto, os seus estudos foram postergados por algum tempo devido à necessidade de realizar uma viagem à Antártica em setembro de 1960. Ele deveria assumir a função de médico da expedição soviética na estação polar Novolazarevskaya.

Em uma noite muito tempestuosa, sem maiores atrativos, Rogozov apresentou sintomas inquietantes: fraqueza, náuseas, febre e dor na região ilíaca direita. No dia seguinte, sua temperatura subiu ainda mais. Não tendo nenhuma possibilidade de chamar um avião e sendo o único médico na expedição composta por 13 pessoas, Leonid diagnosticou a si mesmo com apendicite aguda.

Uma inusitada intervenção que foi um sucesso, felizmente!
Uma inusitada intervenção que foi um sucesso, felizmente!

Naquele lugar perdido no continente austral, as condições meteorológicas adversas não permitiriam de forma alguma ele sair dali e não havia aviões em qualquer uma das estações estrangeiras nas proximidades para realizar a sua remoção.

Sem outro jeito o cirurgião realizou uma operação de remoção do apêndice nele mesmo.

Na noite de 30 de abril de 1961, o cirurgião foi auxiliado por um engenheiro mecânico e um meteorologista. Um entregavam a ele os instrumentos cirúrgicos necessários e outro segurava um pequeno espelho sobre sua barriga para que melhor enxergasse o processo cirúrgico.

O médico fez uma anestesia local com solução de novocaína seguida de uma incisão de 12 centímetros na região ilíaca direita com um bisturi. Entre a visão do espelho e o tato ele removeu o apêndice inflamado e injetou antibiótico na cavidade abdominal. Mas não foi nada fácil, 30 ou 40 minutos após o início da operação Leonid sentiu um incipiente desmaio com o formigamento e vertigem que percorreu todo seu corpo obrigando o cirurgião a fazer algumas pausas para descanso. No entanto, à meia-noite, depois de 1 hora e 45 minutos de operação, tudo terminou. Cinco dias depois a temperatura normalizou e dois dias depois os pontos foram retirados.

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Em São Petersburgo, em um museu dedicado as atividades russas nos continentes Ártico e Antártico, há uma exposição dos instrumentos cirúrgicos usados por Leonid Rogozov naquela operação.

Fonte – http://ads.tt/4w0dxA

FALECEU O COMANDANTE MEIRA

José Rabelo Meira de Vasconcelos - 27/09/1922 - 30/03/2013
José Rabelo Meira de Vasconcelos – 27/09/1922 – 30/03/2013

Lamentamos informar que  faleceu José Rebelo Meira de Vasconcelos, veterano piloto de caça da Força Aérea Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. O Comandante Meira participou de 93 missões de combate nos céus da Itália.

Tive oportunidade de apertar sua mão e conversar um pouco com ele alguns anos atrás aqui em Natal. Pessoa séria, mas altamente acessível, simples, de ótimo trato e que em nenhum momento se mostrava com algum arroubo de heroísmo.

2008
Em Natal-RN no ano de 2008

Ao lhe comentar que gostaria de escrever sobre a vida de um ex-combatente na época da guerra, elogiou a iniciativa e disse-me uma coisa que não esqueci; “Que as memórias da guerra jamais deveriam ser esquecidas, para que não se repetissem. Mas que jamais deveria ser enaltecido para tornar alguém um herói”.

Conheci alguns pracinhas da FEB que também traziam na mente o mesmo pensamento.

Quando conheci o veterano norte-americano Emil Anthony Petr, que foi navegador de radar de um bombardeiro B-24 da USAAF, que tinha a sua base na Itália, completou 39 missões de combate pela 15ª Air Force e passou oito meses prisioneiros dos nazistas, a primeira coisa que ele me pediu foi que nunca o tratasse como um herói, pois isso ele não havia sido de forma alguma. Deste encontro nasceu o nosso livro intitulado “Eu Não Sou Herói-A Biografia de Emil Petr”, lançado ano passado.

Percebi que as pessoas que participaram e vivenciaram o maio conflito da história da humanidade, conforme a idade avança, possuem o desejo que aqueles fatos sejam conhecidos, para que eles não se repitam. Mas não desejam de forma alguma serem tratados como heróis.

Reproduzo matéria do jornal O Estado de São Paulo, publicada em 25 de agosto de 2012, onde o Comandante Meira comentou sobre a sua experiência durante a Segunda Guerra Mundial.

“Se eles fossem descobertos, seriam fuzilados por alemães” – Depoimento: José Rebelo Meira de Vasconcelos, major brigadeiro da FAB e piloto de caça.

Por que alguém bota sua família em risco por um sujeito que nunca viu na vida? Meu colega foi abatido, saltou em território inimigo e ficou escondido na casa de uma família italiana. Se eles fossem descobertos, seriam fuzilados por alemães. Não consigo entender. Essa pergunta fica até hoje na minha cabeça: por que eles ajudavam? Porque o fascista não perdoava: ia a família inteira. Anos depois, a Franca, que era a jovem que cuidou do meu amigo, veio nos ver no Brasil. Nós éramos todos jovens e voluntários. Todos.

Eu era instrutor de pilotagem da Escola da Aeronáutica quando abriu o voluntariado para o 1.º Grupo de Aviação de Caça. Cumpri 93 missões durante a 2.ª Guerra Mundial. Minha primeira missão foi um passeio. Eu era o número quatro da esquadrilha. Normalmente, o mais novo era o último que mergulhava. Ia sempre atrás do seu líder. É claro que todo mundo sabia que ia levar tiro. Não podia passar pela cabeça de ninguém que você ia para um negócio daqueles (guerra) sem acontecer nada. Mas o tiro a gente não via. Você ouvia o barulho: páááááá. Não dava nenhuma sensação. Naquele momento, sua cabeça estava preocupada com a missão a realizar.

P-47 do Comandante Meira na Itália
P-47 do Comandante Meira na Itália

Eu me lembro do dia em que fui atingido. Deve ter sido por uma granada de 20 mm. Num determinado momento, o comandante da esquadrilha disse: “See, atenção, vamos fazer um break para a direita de 90°”. O break era uma curva fechada porque estávamos com um campo de vida franca pela frente. Campo de vida franca era um campo de aviação. Era um terror, pois eles eram tremendamente defendidos. Esse break era justamente para sair de lá. Mas me esqueci de que havia uma pista nova nessa base e, quando acabei minha curva, vi na minha frente aquela faixa preta das explosões. Aí eu já levei uma cacetada direto – baaaannnn -, que quase joga o avião no chão. Joguei fora o tanque extra e colei no chão para voar o mais baixo possível e fugir da artilharia antiaérea. O avião (P-47) era um monstro, era uma coisa inacreditável de forte.

Eu voei no último dia da guerra. Tudo já estava praticamente decidido. Sabia-se que ia haver uma parada do alemão. Nesta missão, foram dois pilotos: eu e meu ala. A ordem era fazer reconhecimento armado, como a gente chamava, sem atirar. Só o faríamos se fôssemos alvejados pelo inimigo. Mas, na realidade, quando chegamos estava todo mundo na rua. Todos com lenço, aquela euforia maluca de que a guerra tinha acabado. Milhões de pessoas tinham ido embora, mas o resto estava salvo. Voamos baixo. A gente passava, todos faziam sinal com a mão. Foi como se fosse um 7 de setembro. / M.G. e E.F.

ÓCULOS RAY-BAN, REFERÊNCIA DE UMA ÉPOCA

Com seus inconfundíveis óculos Ray-Ban vemos o 2º tenente Charles R. Lambert, do 9th Photographic Reconnaissance Squadron, no cockpite do seu bimotor Lockheed F-5, na Índia, em 1944.
Com seus inconfundíveis óculos Ray-Ban vemos o 2º tenente Charles R. Lambert, do 9th Photographic Reconnaissance Squadron, no cockpite do seu bimotor Lockheed F-5, na Índia, em 1944.

Imagina-se que os óculos Ray-Ban foram criados durante a Segunda Guerra Mundial, pelo enorme sucesso  que este produto obteve junto aos aviadores. Na verdade os famosos Ray-Ban foram criados em 1936 pela empresa americana Bausch & Lomb, até hoje um dos principais fornecedores mundiais de produtos para a saúde ocular. Consta que a ideia da criação dos afamados óculos surgiu quando o tenente John A. Macready (um piloto de teste americano) voltou de um voo de balão e reclamou que o sol tinha danificado permanentemente seus olhos (ainda bem que este voo não foi em nosso Seridó em época de seca). Daí Macready entrou em contato com a Bausch & Lomb, explicando a situação e pedindo-lhes para criar óculos de sol que oferecem proteção e que tivessem um formato sofisticado.

Os técnicos da empresa criada em 1857 pelos alemães John Jacob Bausch e Lomb Henry, perceberam através da solicitação do piloto que deveriam criar um produto específico para a aviação. Como este setor do transporte estava em franco crescimento em todo o mundo, estava ali um interessante mercado.

Em 7 de maio de 1937, a Bausch & Lomb requereu a patente, e os óculos da marca “Aviador” (Aviator) foram disponibilizados para o público. O produto tinha armação de metal banhado com ouro, lentes verdes de vidro mineral para filtrar os raios infravermelhos e ultravioleta e o sucesso foi imediato. Pilotos da USAAF (United States Army Air Force) imediatamente adotaram os óculos de sol. 

O general Douglas MacArthur
O general Douglas MacArthur

O modelo “Aviador” da Ray-Ban tornou-se um estilo bem conhecido de óculos de sol. Um dos momentos mais marcantes deste produto durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu quando o famoso general americano Douglas MacArthur, ao realizar seu extremamente midiático desembarque na praia de Palo, na ilha de Leyte, Filipinas, em 20 de outubro de 1944, desceu de um barco de desembarque, andando ereto e confiante, molhando o seu uniforme e trazendo na cara os seus inconfundíveis Ray-Ban.

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Depois da guerra a empresa desenvolveu vários novos modelos de óculos Ray-Ban, com constantes mudanças de cor, armações e lentes. Logo os modelos foram vistos nos rostos de estrelas de cinema, de TV e músicos.

A famosa marca de óculos de sol foi vendida em 1999 para o grupo italiano Luxottica e ainda continua em produção. Mesmo depois de setenta anos do seu lançamento os óculos Ray-Ban são um top em termos de  designer na indústria de óculos de sol.

A BUSCA PELO JESUS DA HISTÓRIA

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CRISTO FOI BATIZADO POR JOÃO BATISTA NO RIO JORDÃO, ESCOLHEU DOZE DISCÍPULOS,
PREGOU PELA GALILEIA DURANTE MENOS DE UM ANO E FOI CRUCIFICADO. MAS ESSAS POUCAS CERTEZAS SOBRE SUA VIDA SÓ TORNAM AINDA MAIS INSTIGANTE AQUILO QUE NÃO SE SABE – E PROVAVELMENTE NUNCA SE SABERÁ – SOBRE ELE

Isabela Boscov

A fé cristã se fortaleceu no decorrer dos últimos vinte séculos não por se constituir em um impecável museu de relíquias capazes de narrar de forma coerente e incontestável a história de Jesus. A fé cristã se enriqueceu da adversidade e construiu uma vigorosa verdade teológica apesar das falhas gritantes dos registros históricos sobre o homem que mandou o apóstolo Pedro construir a sua Igreja. Sua passagem terrestre, no entanto, deitou sobre o tempo histórico marcas muito tênue. Fora os Evangelhos, textos sagrados do cristianismo, a figura de Jesus aparece citada apenas de forma cifrada ou pouco clara em obras escritas dezenas de anos depois de sua morte. Por essa razão, as raras descobertas arqueológicas que iluminam o período histórico de Jesus na Palestina são recebidas com grande curiosidade pelos estudiosos. Há dois anos, foi encontrada uma urna funerária de pedra gravada com a inscrição em aramaico “Tiago, filho de José, irmão de Jesus”. Passada a excitação inicial com o que parecia ser a primeira prova não textual da existência física de Jesus, as dúvidas prevaleceram. O fato de a relíquia ter sido removida há muitos séculos da terra, só agora encontrada e não se poder precisar onde andou por tanto tempo contribuiu para que a descoberta não fosse considerada definitiva. O episódio, porém, encerra a lição de que a força da palavra de Jesus independe das provas históricas. Estas, por sua vez, continuarão a ser buscadas com afinco e precisão crescentes.

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O Natal é uma data cristã em que a tradição menos se harmoniza com a história. Jesus não nasceu no ano que dá início à sua era, mas sim algo como seis anos antes – culpa de uma confusão entre os calendários romano e cristão. O local de nascimento de Jesus também é fonte de questionamentos. Ignora-se por que seus pais, Maria e José, que moravam em Nazaré, estariam em Belém no momento do parto. A explicação tradicional, de que teriam retornado à cidade natal de José para um censo, esbarra na falta de registros de alguma grande convocação desse tipo nesses anos. Os romanos, que dominavam a região, faziam censos em seu império para recolher tributos – e a lógica sugere que eles registravam seus contribuintes nos locais em que trabalhavam e residiam. Os Evangelhos de Lucas e Mateus, com pequenas discrepâncias, fazem narração semelhante do nascimento. Até o século XVIII, não havia a preocupação de procurar fatos que comprovassem os Evangelhos. Isso mudou. Diz o teólogo espanhol Julián Carrón: “Desde o início, a Igreja Católica acreditou que os Evangelhos tivessem origem na figura histórica de Jesus, e sempre os considerou testemunhos de fatos acontecidos. Apesar disso, a partir do iluminismo alguns estudiosos começaram a achar que os Evangelhos não tinham valor histórico e que era preciso encontrar outro tipo de correspondência entre eles e os fatos”.

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Os especialistas discutem livremente a função de proselitismo dos Evangelhos. A própria narração do Natal é interpretada como sendo uma espécie de esforço de propaganda. Belém era a cidade do rei Davi, uma ótima maneira de reforçar, a posteriori, a afirmação de que Jesus era o Messias: ele seria, assim, descendente pela linha paterna de um dos fundadores do judaísmo, e teria nascido na mesma cidade que ele. A estrela de Belém, citada apenas por Mateus, é outro mistério. Nascer no leste, aparecer sobre Jerusalém e então virar-se para o sul, na direção de Belém, como descreve o evangelista, é um comportamento no mínimo estranho para uma estrela. O enigma astronômico há séculos intriga os cientistas. Uma primeira resposta foi aventada em 1604, pelo astrônomo alemão Johannes Kepler. Ao observar uma conjunção de Júpiter, Saturno e Marte, ele calculou que o fenômeno teria ocorrido também em 6 a.C. – o possível ano do nascimento de Jesus –, produzindo impressão semelhante àquela descrita por Mateus. Outros estudiosos acreditam que o evangelista ficou tão encantado com a passagem do cometa Halley, em 66 D.C., que o teria incluído em sua narrativa. E há os que acham que a estrela de Belém não passa de um símbolo, lendário do começo ao fim, da chegada de um rei. “Os astrônomos nunca vão encontrar a verdadeira estrela de Belém, porque ela é produto da nossa imaginação: é a luz que brilha sobre o Cristo criança”, diz A.N. Wilson, autor de Jesus: A Life. Atribui-se, ainda, à imaginação dos artistas (e ao euro centrismo) o aspecto físico com que Jesus passou à história. Os longos cabelos castanhos aloirados, os traços esculpidos e os olhos claros são incongruentes com o biótipo de um palestino do século I. O mais provável é que ele fosse moreno, com olhos escuros e cabelos crespos – bem diferente, portanto, não só do Jesus da iconografia, como da imagem impressa no Sudário que está exposto em Turim, na Itália.

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A busca pelo Jesus histórico – como de resto da maioria das investigações materiais da Antiguidade – produz mais dúvidas do que respostas. Nem a morte do Nazareno na cruz, uma das poucas certezas da história, deixa de suscitar interrogações. No mundo greco-romano, não havia desonra maior do que a morte sem sepultura. Um corpo exposto ao tempo, aos olhares de estranhos, às feras e às aves era um insulto público, e significava também a destruição da identidade – um fim sem epitáfio e, portanto sem posteridade, uma preocupação suprema da Antiguidade. Por isso, para acrescentar injúria à tortura, os romanos crucificavam os escravos desobedientes e os presos políticos. Mesmo após o condenado expirar, os soldados continuavam a montar guarda: baixar um morto da cruz era um privilégio que exigia súplica, influência ou propina, ou todas as três coisas. Não é de estranhar que, dentre os milhares de pessoas que se calcula terem sido crucificadas nos arredores de Jerusalém durante o domínio romano, um único esqueleto tenha sido encontrado – o de um judeu de seus 20 anos de idade chamado Yehohanan, filho de Hagkol, como consta da inscrição em seu ossuário.

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A análise da ossada de Yehohanan, localizada em 1968, revela que suas mãos não foram pregadas à cruz: provavelmente, seus braços foram amarrados à trave, enquanto seus pés foram dispostos lateralmente à viga e atravessados por trás, na altura do calcanhar, por um pino de ferro. Como o pino entortou, não foi possível despregar o pé direito de Yehohanan, e sua família teve de enterrá-lo com um pedaço da cruz preso ao osso. Na suposição de o jovem judeu preservado no ossuário servir de modelo para a morte de Jesus Cristo – e ele é o único de que se dispõe –, ele levanta duas questões relevantes. A primeira é que é, sim, possível que Jesus tenha ganhado uma sepultura, apesar de não ser esse o costume. A outra é que, se as mãos e os pés de Jesus não foram perfurados por cravos, as chagas com que ele é descrito nos Evangelhos e habitualmente representado não correspondem aos seus ferimentos reais. Essas são meras suposições, claro, e é quase certo que nunca será possível prová-las ou desaprová-las. Na tentativa de retraçar os passos de Jesus, historiadores e arqueólogos esbarram continuamente em dilemas semelhantes: as evidências concretas são ínfimas, e por isso mesmo nem se pode descartá-las, nem tomá-las como indícios seguros.

Tácito
Tácito

A procura por traços concretos da existência de Jesus é relativamente recente. Começou com os movimentos racionalistas da virada do século XVII para o XVIII, quando ganhou força a ideia de que qualquer dúvida ou mistério poderiam ser desfeitos pela ciência – e, no espírito da época, o objetivo era menos verificar a existência de Jesus e mais negá-la como um mito comparável a tantos outros presentes na Bíblia. Hoje, não há mais como pôr em disputa o fato de que Jesus existiu. Ele é citado, ainda que de passagem, por dois cronistas não cristãos do período, o judeu Josefo e o romano Tácito. As fontes mais aceitas sobre a trajetória de Jesus – os Evangelhos Sinópticos, de Mateus, Lucas e Marcos – são consistentes com o que se sabe sobre a Palestina do século I, de forma que a chance de ser fruto da imaginação de seus autores é desprezível. Muitas informações podem ser tiradas também das Cartas de Paulo (anteriores aos Evangelhos em sua forma escrita), o mais instruído dos discípulos, e de fontes não canônicas, especialmente do Evangelho de Tomé, cujo texto integral foi descoberto em 1945 e desde então vem sendo objeto de grande atenção. Ainda que os consensos sobre a trajetória de Jesus sejam frágeis, os historiadores acreditam ser fato que ele tenha sido batizado no Rio Jordão pelo profeta João Batista, que tenha escolhido doze apóstolos, que tenha pregado pela Galileia – talvez numa missão muito curta, de menos de um ano –, e que tenha sido crucificado, muito provavelmente durante uma Páscoa. Essas certezas, porém, só tornam ainda mais instigante aquilo que não se conhece sobre Jesus, e que vai do prosaico, como a sua aparência física, ao absolutamente cifrado – de que forma ele teria passado os anos de sua adolescência e juventude, sobre os quais nenhuma pista confiável sobreviveu.

Mar da Galileia
Mar da Galileia

Mesmo o local mais sagrado da religião a que Jesus deu origem, a Igreja do Santo Sepulcro – erigida sobre a caverna em que o corpo de Jesus teria sido colocado por José de Arimatéia –, não está a salvo de incertezas. A igreja foi consagrada em 335, a mando do imperador Constantino (que instaurou o cristianismo como religião oficial do Império Romano), quando uma tumba que se acredita ser a de Cristo foi descoberta sob um templo pagão. Se sua descrição e localização conferem com os Evangelhos e a crônica do período, não há, por outro lado, provas arqueológicas que confirmem ser essa a sepultura de Jesus. Muito mais tênue ainda é a ligação que se pretende estabelecer entre Jesus e a seita dos essênios, cujos célebres Manuscritos do Mar Morto foram encontrados no fim da década de 40. Praticantes de um judaísmo ascético e radical, os essênios pareciam ter, conforme os documentos que legaram, muito em comum com o pensamento de Jesus – daí a hipótese de que Cristo tenha passado a juventude com eles. A teoria tem muitos adeptos, e outros tantos detratores. Itzhak Magen e Yuval Peleg, dois arqueólogos israelenses ligados aos órgãos históricos de seu país, argumentaram que um exame mais detido das cavernas de Qumran, onde estavam os manuscritos, sugere que elas funcionavam não como um refúgio de ermitãos, mas talvez como olaria, e que os pergaminhos foram simplesmente levados da biblioteca do templo de Jerusalém para lá, para sua proteção. Não seria, portanto, um lugar de estudo onde um jovem fosse se iniciar.

Cavernas de Qumran
Cavernas de Qumran

São remotas as chances de que, algum dia, venham a surgir as evidências diretas que tanto se buscam sobre Jesus. A Palestina era uma província menor, que interessava ao Império Romano apenas na medida em que se situava entre o Egito e a Síria. Menos importância equivale a menos documentos e monumentos – a primeira dificuldade no caminho da arqueologia. O ossuário do sumo sacerdote judeu Caifás, que entregou Jesus ao governador romano Pôncio Pilatos e exigiu sua execução, é dado como genuíno. Mas só há poucas décadas se encontrou uma laje com a inscrição do nome de Pôncio Pilatos. Até autenticar-se esse fragmento de pedra, o nome do governador romano existia apenas na literatura. Escavar em Jerusalém e arredores é, além disso, uma proposição delicada. A cidade vive uma divisão conflituosa entre as três religiões para as quais é sagrada – o cristianismo, o judaísmo e o islamismo –, e expedir uma autorização é uma questão que exige sensatez política e diplomática. Em anos recentes, com o recrudescimento das hostilidades entre israelenses e palestinos, a situação se agravou: das quase cinqüenta grandes escavações em andamento em Israel, apenas quatro continuam em atividade. Não há como garantir a segurança das demais. Finalmente, a região é o paraíso dos caçadores de troféus, que retiram peças de seu contexto para vendê-las – e, assim, eliminam quase todo o seu valor científico –, e dos arqueólogos ambiciosos, que anunciam descobertas bombásticas antes que elas possam ser analisadas por seus pares. Em agosto deste ano, por exemplo, o arqueólogo britânico Shimon Gibson anunciou com grande alarde ter encontrado a suposta caverna de João Batista, localizada no que é hoje um pequeno kibutz. Há indícios de que seguidores de João, ao menos, tenham usado o local, que conta com o que se julga ser uma pia batismal por onde escorreriam o óleo e a água empregados na unção. Qualquer outra hipótese, porém – como a de que João ou mesmo Jesus tenham administrado batismos ali, conforme especula Gibson –, é prematura.

João Batista
João Batista

A fé, claro, não precisa de provas que a confirmem, ou não levaria o nome de fé. Não precisa, mas, de alguma forma, sempre as deseja. Os Evangelhos descrevem a relutância de Jesus em fazer milagres, mas deixam entrever sua visão de que, ocasionalmente, esses sinais eram necessários. Conta-se também como, após a Ressurreição, Cristo deixou que o incrédulo São Tomé tocasse suas chagas para comprovar que era ele mesmo, o Filho de Deus, quem estava ali. Desde que o cristianismo começou a se espalhar – e ele se alastrou como um rastilho de pólvora pela Palestina e logo também por todo o mundo romano em suas primeiras décadas –, começaram a surgir também as relíquias: fragmentos da Cruz Verdadeira (que, fossem todos eles autênticos, teria dimensões descomunais), ossos de santos, frascos de sangue e toda uma miríade de testemunhos físicos de que Cristo, seus apóstolos e mártires caminharam sobre a Terra, gerando um culto que poderia muito bem ser caracterizado como fetichismo ou superstição. Na Idade Média, a Igreja muitas vezes se valeu da venda de relíquias e de indulgências como fonte de renda – um comércio que, durante uma visita a Roma, horrorizou o padre Martinho Lutero e acabou servindo como um dos estopins para a Reforma Protestante. Hoje o Vaticano desencoraja esse tipo de apego, ou, quando muito, o tolera, e trata as descobertas de possíveis relíquias com o máximo de circunspecção. Mesmo assim, elas ainda pipocam.

Para os cientistas esta seria uma possibilidade da face aproximada de Jesus Cristo
Para os cientistas esta seria uma possibilidade da face aproximada de Jesus Cristo

Quando se pensa no homem que fundou a maior religião monoteísta do planeta, resistente a 2.000 anos de sismos políticos e sociais, ao crescimento de outras religiões e às cizânias em seu próprio interior, é natural imaginá-lo voltado para nós, transmitindo para as gerações vindouras sua mensagem. Esse Jesus, contudo, é o da teologia. De acordo com a historiadora Paula Fredriksen, professora de escritura da Universidade de Boston, para encontrar o Jesus histórico deve-se visualizá-lo de outra forma: de costas para nós, e voltado para os seus contemporâneos e conterrâneos. O problema imediato de Jesus era fazer-se entender por eles, e foi para pessoas como ele próprio que Cristo elaborou seu discurso, ou que os evangelistas escreveram seus relatos. É preciso, então, primeiro entender a Palestina do século I e, em seguida, contrapor a ela os relatos dos Evangelhos – um exercício que pode render frutos surpreendentes.

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Diz a máxima – quase sempre verdadeira – que quem escreve a história são os vencedores. Os Evangelhos, porém, são a mais notável exceção a essa regra. Tudo sugere que os relatos de Mateus, Lucas, Marcos e João começaram a ganhar forma na segunda metade do século I, quando o cristianismo ainda era um movimento marginal, que apenas começava a ensaiar o seu passo decisivo – o de transpor a esfera do judaísmo para conquistar os gentios e se alastrar pelo mundo romano. Os Evangelhos estão carregados de marcas dessa trajetória. Eles assinalam, por exemplo, a relutância do romano Pôncio Pilatos em aceitar as acusações do sacerdote judeu Caifás e condenar Jesus à morte. Nas menções a Pilatos que sobreviveram na crônica política da época, contudo, o governador é retratado como um oficial brutal, que se excedia no zelo com que executava prisioneiros a ponto de incomodar Roma. Esse é um dos pontos em que os estudiosos convergem: a maneira como os Evangelhos mitigam a culpa de Pilatos, transferindo-a quase toda para o clero judaico, é uma herança clara do momento que o cristianismo atravessava por volta dos anos 60 e 70, de tentar seduzir Roma e forjar laços com ela. Do ponto de vista de um historiador, portanto, até em suas omissões ou contradições os Evangelhos são um documento historiográfico riquíssimo, repleto de pistas sobre as intenções de Jesus e sobre as tensões políticas a que ele e seus seguidores estavam submetidos.  

Flavius Josefus
Flavius Josefus

Essa tática – a de estudar o que não é dito – é, segundo Paula Fredriksen, útil também no caso do historiador judeu Josefo. O mais ativo cronista da região no século I, Josefo forneceu descrições detalhadas dos acontecimentos políticos e sociais. Mas não menciona fome, impostos escorchantes, violações flagrantes da lei judaica (por parte de Herodes Antipas, rei da Galileia  ou dos oficiais romanos) nem forte presença de tropas do invasor. Não relata, enfim, turbulências além do normal. O retrato consensual que se tem da região no início do século I é o de uma terra cultivada, muito populosa – outro cronista diz que nunca se andava um dia inteiro sem atravessar uma vila, uma aldeia ou uma cidade –, e que usufruía uma convivência não exatamente harmoniosa, mas também não particularmente tensa, com o poder romano. A Galileia era já muito romanizada, mas eram os judeus, e não os romanos, que a governavam, frisa Paula Fredriksen. Ou seja, a julgar pelo que narra Josefo, é muito mais lógico que Jesus tenha feito mais oposição a preceitos judaicos do que à dominação romana – o contrário do que dizem, por exemplo, alguns teólogos ligados à Teologia da Libertação, que gostam de ver em Jesus um proto-socialista.

Palestina hoje
Palestina hoje

O irlandês radicado nos Estados Unidos John Dominic Crossan, professor de estudos bíblicos da Universidade DePaul de Chicago e talvez o mais influente estudioso da área, vai mais fundo nesse panorama da Palestina. Em O Jesus Histórico, Crossan se vale de numerosos trabalhos de colegas seus para reconstruir um retrato minucioso dessa sociedade. E duas características da Palestina – assim como de toda a bacia do Mediterrâneo – são fundamentais para entender Jesus, diz ele. A primeira delas é o código de honra e vergonha, que assegurava à força a lealdade no interior das comunidades. Nesse sistema, famílias e clãs se tornavam pequenos soberanos, com poder de vida e morte sobre seus membros – e ai de quem transgredisse suas regras. Outro traço muito típico do Mediterrâneo, aponta o historiador, é o costume do apadrinhamento: tudo nesse universo dependia de intercessão, de que se pedisse um favor e alguém o concedesse.

John Dominic Crossan
John Dominic Crossan

Para as pessoas humildes que viviam espremidas entre os sistemas de honra e apadrinhamento, imagina John Dominic Crossan, o desejo de escapar não devia ser pequeno. Mas como alguém pode se subtrair à sociedade? Os cínicos – e a palavra aqui são derivados do grego para “canino”, sem o sentido atual – filosofaram uma resposta a essa pergunta: segundo os partidários dessa espécie de contracultura da Antiguidade (que achavam que se devia “latir” contra as injustiças), a pobreza levava à liberdade, que por sua vez levava à realeza – a um homem que é senhor de si mesmo. Não se tratava apenas de teoria. Os cínicos tinham diretrizes práticas em relação à aparência (cabelo comprido, manto e pés descalços), alimentação (tirada de um alforje) e moradia (proporcionada por quem se dispusesse a dar abrigo ao rebelde itinerante). No tempo de Cristo, os cínicos eram figuras comuns, e facilmente reconhecíveis por suas vestimentas, seu cajado e suas atitudes. Não eram benquistos pelas autoridades romanas, claro, porque enchiam de ideias as classes menos favorecidas. De certa forma, Jesus se encaixaria no papel de um cínico, diz Crossan – exceto pelo fato de que ele foi bem além da proposta do movimento. Jesus não pregava a autossuficiência, como os cínicos, mas sim a mais absoluta comensalidade, sem distinções entre homens e mulheres, pobres e ricos, gentios ou judeus, poderosos ou párias. Isso não desagradaria só aos romanos. Enfureceria acima de tudo os adeptos da lei judaica, que nesse momento atravessava uma fase de sectarismo pronunciado. E, como arrisca Crossan, mais desmoralizante e subversivo do que combater uma regra é simplesmente ignorá-la.

Muito já se discutiu se Jesus estaria em continuidade com o judaísmo ou em oposição aos padrões sociais e religiosos de sua época. Mas o inglês Christopher Tuckett, professor de estudos do Novo Testamento na Universidade de Oxford, levanta um argumento forte a favor do Jesus radical: o ministério de Cristo se mostrou tão ofensivo para parte de seus contemporâneos que eles o levaram à morte pelo método mais cruel de execução já inventado. Sob essa luz, muito do que Jesus pregou ganha um novo sentido. Tome-se, por exemplo, sua condenação do divórcio. “Todo aquele que se divorciar de sua mulher e desposar outra comete adultério contra a primeira”, diz o Evangelho de Marcos. Ora, à primeira vista essa parece ser uma posição conservadora. Mas é preciso reparar que Jesus fala que um homem que toma uma segunda esposa é um adúltero. Na lei judaica, só os homens, e não as mulheres podiam pedir o divórcio. Nivelando o direito feminino ao masculino, Jesus desfere um golpe contra o androcentrismo, um dos pilares da tradição.  

São Marcos
São Marcos

Nesse cenário, até o sacramento do batismo adquire um sentido subversivo. Na época em que Cristo viveu, o único local em que um judeu podia oferecer sacrifícios para purificar-se era o Templo de Jerusalém – caro chegar até lá, caro custear a estada e caro comprar, à entrada do templo, os animais que seriam sacrificados. Na prática, isso equivalia a excluir da redenção, por critérios econômicos, uma parcela da população. O batismo seria, assim, um atalho barato e viável para o poder divino: bastava um banho para limpar-se dos pecados – e bastava esse gesto para minar o monopólio dos sacerdotes sobre a salvação.

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Foi isso que o ministério de Jesus fez: solapar de forma sistemática a hierarquia. Quase todas as suas alusões ao Reino de Deus deixam transparecer essa preocupação. Um reino que é das crianças não seria, na Antiguidade, propriamente um reino dos inocentes – e sim daqueles sem poder nem direito de opinião ou escolha. Numa tradução mais correta do grego original, o reino dos pobres viraria o reino dos indigentes, dos indesejados. Nada fala mais alto, entretanto, que a decisão de Jesus de confiar ao seu apóstolo Pedro, e não ao seu irmão Tiago, os rumos de sua Igreja. Num ambiente regrado pelo apadrinhamento, seria natural que os familiares de Jesus se beneficiassem mais de seus dons, sua fama e seu poder crescente. Jesus, porém, preferiu quebrar a espinha aos usos e costumes de seu tempo. Seu reino, de certa forma, não estava no futuro: nesses termos, era já muito presente.

Cristo en Majestad, Fra Angelico

Por mais valioso que seja conhecê-la, a dimensão política de Jesus, entretanto, em nada ajuda a compreender a sua natureza essencial – a divina. É nesse ponto, em que fé e ciência colidem, que começam as questões verdadeiramente insolúveis. A Ressurreição é a passagem mais desafiadora dos Evangelhos para um historiador secular: ela é a chave para o reconhecimento da divindade de Jesus, mas a que menos possibilidade oferece de se encaixar numa perspectiva científica. Francis Watson, professor de exegese do Novo Testamento na Universidade de Aberdeen, na Escócia, argumenta que o problema de não ser possível provar os milagres e a ressurreição de Jesus – nem nunca ter sido possível provar fenômenos semelhantes – não é, em si só, prova em contrário de que tais fatos tenham sucedido. A questão levantada por Francis não é apenas técnica, ou um jogo de palavras. Qualquer tentativa de contar a história de Jesus pondo de lado a confissão de que ele é o Cristo – enfim, o filho de Deus e o próprio Deus – seria equivocada, diz o professor: separar Jesus, a figura histórica, de Cristo, a figura divina, significa desprezar exatamente o fator que confere a ele sua importância absoluta e insuperável. Não importa se se pensa que Jesus é o filho que integra a Santíssima Trindade, que era um profeta como qualquer outro de seu tempo ou que era meramente um lunático que se acreditava o Messias – Jesus será sempre definido como sendo o Cristo ou o não-Cristo. Será sempre definido, em suma, por uma indagação. Assim foi durante sua vida, na Galileia, quando seus próprios familiares duvidaram de sua origem divina, ou quando os aldeões que o viram expulsar os demônios do corpo de um homem o acusaram de ter esse poder por meio de Belzebu. E assim é hoje: quanto mais se tenta chegar ao Jesus “verdadeiro”, mais fé e história se entrelaçam. E mais o mistério se aprofunda. Mistério cuja chave Jesus mesmo produziu, ao afirmar: “Meu reino não é deste mundo”. 

SOU VAQUEIRO NORDESTINO POETA E NAMORADOR

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SOU VAQUEIRO PREPARADO
MONTO EM CAVALO LIGEIRO
E A FILHA DO FAZENDEIRO
SÓ QUER VIVER DO MEU LADO
FAÇO VERSO IMPROVISADO
MESMO SEM SER CANTADOR
E TRAGO COM MUITO AMOR
O MEU SONHO DE MENINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR
.

SER POETA, SER VAQUEIRO
É TER DO CAMPO A IMAGEM
SER O ESPÍRITO SELVAGEM
QUE PERCORRE O TABOLEIRO
MINHA ROUPA TRAZ O CHEIRO
DA CLOROFILA E DA FLOR
FAÇO SEXO POR AMOR
COM A DONA DO MEU DESTINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR. 

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NAMORO AS FLORES DO MATO,
A FACE DA LUA PÁLIDA,
CAMPEIO NA TARDE CÁLIDA,
NAS VEREDAS DO REGATO
VEJO DE DEUS O RETRATO
NA HORA DO SOL SE POR,
SOU DO REBANHO O PASTOR
SOM DE VIOLA É MEU HINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR.

SOU DA MULHER GUARDIÃO
DA VIOLA UM FÃ ETERNO
SOU UM BOÊMIO MODERNO
DO SONETO E DA CANÇÃO
SOU A PURA INSPIRAÇÃO
PRA O MAIS DOCE CANTADOR
CANTANDO EU SOU SONHADOR
PRA GADO SOU TANGERINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR.

Poeta – Onildo barbosa

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EM BUSCA DO SERTÃO NORDESTINO!

Quando você acha que não pode nada por muitas coisas, quando muitos problemas surgem, muitas situações que parecem sem solução, o melhor para botar a cabeça no lugar é busca a natureza do nosso sertão nordestino.

Isso foi em Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, onde fui visitar sítios arqueológicos e grutas em granito no alto de belas serras. Foi show de bola, mas eu só faltei botar os bofes prá fora! Mas também, com 4.5 de quilometragem no motor, mais de 100 quilos na carroceria, eu quase tive uma turica, um passamento. Mas não desisti não! O negócio de andar no sertão é devagar e sempre, respeitar a hora do sol a pino (procurar uma sombra) e curtir a natureza. A comida foi a boa e velha rapadura, uma paçoquinha, muita água e, já que ninguém é de ferro, um bom café Santa Clara, que esquentamos no meio do mato. O melhor mesmo são as companhias, as conversas, a contemplação. Isso aí rolou em um sábado. Saímos de Natal na sexta, fizemos a trip no sábado e depois voltamos para casa no domingão. Melhor que assistir Faustão e o hômi do Baú….

Até onde sei, não existe na maioria das cidades do interior do Nordeste algo preparado e/ou programado para atender o turismo. Exceção as que possuem atrativos que estão sendo trabalhados e são bem comentados. Normalmente realizo estas viagens com amigos, pessoas simples, cujo objetivo principal é fotografar e visitar locais diferenciados, de preferência com conotação histórica. Praticamente todas as cidade do nosso sertão possuem algum meio de hospedagem, mas muito são precários. Não faltam pessoas dispostas a guiar e o custo é muito baixo. Normalmente buscamos áreas serranas, que dão um trabalho danado para subir, mas lá em cima a vista é fenomenal. Vale o esforço. Umas pessoas já me criticaram dizendo que isso é “programa de índio”, então UGA! UGA! Forte abraço….

A REPERCUSSÃO DOS ATAQUES DO CANGACEIRO SINHÔ PEREIRA A PARAÍBA E A INFORMAÇÃO SE LAMPIÃO ESTEVE EM TERRAS POTIGUARES EM 1922

 “NOTÍCIA RUIM CHEGA LIGEIRO!”

Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922
Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922

No dia 25 de dezembro de 1921, na pequena vila de Luís Gomes, o cabo Francisco Rodrigues Martins e o soldado Luis Antonio de Oliveira, foram assassinados por um grupo de cangaceiros quando realizavam uma diligência policial. Nesta época, o jornal natalense A Republica era extremamente econômico no seu noticiário quando o assunto era a ação de cangaceiros em terras potiguares e não publica uma só linha detalhando este episódio.

Vamos ter conhecimento deste fato já na edição de 20 de janeiro de 1922, onde está estampada a publicação do Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922, que informa terem as viúvas dos policiais mortos recebido “uma pensão correspondente à metade da etapa que os mesmo ganhavam, considerando que os militares foram assassinados por cangaceiros”.

De qual bando pertenciam estes bandidos? Quantos eram? Quem era o chefe? Infelizmente não sabemos, mas sabemos que o ataque aconteceu. Podemos deduzir que a não vinculação da notícia pelo principal jornal potiguar da época teria mais a ver com um desejo de evitar o pânico entre a população rural potiguar?

E este medo tinha fundamento?

Conforme descreve o então governador potiguar Antônio José de Mello e Souza, na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1921, parece que sim!

Devido a forte de seca dos anos de 1918 a 1920, aliado a uma acentuada baixa de produção do algodão e dos baixos valores alcançados por esta matéria-prima no mercado internacional, o Rio Grande do Norte se encontrava em uma precária situação financeira. Esta situação gerava reflexos principalmente nas ações de segurança e ordem pública, onde o governo mantinha a força pública com um efetivo bem abaixo de suas necessidades e material obsoleto para o combate ao banditismo.

A ERA DE 22 COMEÇA COM MUITA CHUVA E CANGACEIRO

Neste ínterim, a vida passou a sorrir de uma forma mais alegre para o sertanejo potiguar, pois tinha início uma promissora estação chuvosa, sendo noticiadas fortes chuvas em todo Estado (A Republica ed. 29/02/1922).

Por outro lado, o meio político estava agitado, pois a dia 1 de março ocorria em todo país a eleição para Presidência da República, onde Arthur Bernardes disputava com Nilo Peçanha, em um sufrágio muito pouco democrático, quem governaria o país pelos próximos quatro anos. É informado que o futuro presidente já assumiria a partir do dia 15 do mesmo mês de março (Mensagem, RN 1922, pág. 4).

Em meio a todo positivo noticiário sobre as chuvas e as eleições presidenciais, um dia é publicado uma pequena nota que mostrava que nem tudo corria as mil maravilhas no sertão paraibano, próximo a fronteira potiguar e a fonte da pequena nota era uma importante liderança política e empresarial potiguar.

Informe de Simplício Cascudo sobre ataque de cangaceiros na Paraíba e publicado em Natal
Informe de Simplício Cascudo sobre ataque de cangaceiros na Paraíba e publicado em Natal

O coronel Francisco Cascudo, pai do folclorista Câmara Cascudo, apresentou a redação de A República um telegrama remetido no dia 3 de março, emitido pelo seu parente Simplício Cascudo, então residente na cidade paraibana de Sousa, dando conta que um grande grupo de cangaceiros estava percorrendo as zonas rurais das cidades de Pombal, Brejo do Cruz, Catolé do Rocha e São Bento, na Paraíba e propriedades na área próxima a Vila de Alexandria, já no Rio Grande do Norte (mas sem trazer maiores detalhes). Informava Simplício Cascudo que as propriedades São Braz, Santa Umbellina e Brejo das Freiras foram “visitadas” pelos cangaceiros, sendo assaltados as pessoas de “José Olympio, filho de Antonio Fernandes, Adolpho Maia, Valdevino Lobo, proprietário da estância Dois Riachos, e Mestre Ignácio”. Informa o missivista que a cidade de São Bento estava “arrasada” com os acontecimentos, tendo os saques nas propriedades próximas sidos superiores a 200 contos de réis. Comentava que no dia 2 os cangaceiros se encontravam no lugar “Catolé”, próximo a Cajazeiras, estando a cidade receosa de ser atacada. Simplício Cascudo finalizava a nota informando que até o momento as garantias solicitadas ao governador da Paraíba, Sólon de Lucena, ainda não estavam presentes (A Republica ed. 07/03/1922).

Ora, diante de notícia fornecida por pessoa tão grada da sociedade potiguar, os grandes produtores rurais do Rio Grande do Norte, principalmente aqueles que tinham seus bens mais próximos à fronteira paraibana, ficam extremamente apreensivos com o que poderia ocorrer.

Logo seus piores pesadelos pareciam se concretizar…

Nota sobre o ataque a Jericó, Paraíba
Nota sobre o ataque a Jericó, Paraíba

Telegramas vindos da vila paraibana de Jericó, retransmitidos por postos telegráficos potiguares, fazem chegar a Natal a informação que em 5 de março de 1922, o celebre chefe cangaceiro Sinhô Pereira, com a ajuda do cangaceiro Liberato Alencar, acompanhados de um bando com um número estimado (pelos jornais da época) de 35 a 60 cangaceiros, ataca com sucesso toda aquela região. Desde a zona oeste do Rio Grande do Norte, até o Seridó, a notícia correu célere. Uma das notas de um dos jornais potiguares que noticiaram o fato assim apresentou a questão informando que “Notícia ruim chega ligeiro!”. Na antiga Jericó eles cometeram atrocidades e causaram inúmeros prejuízos aos moradores da localidade. Os cangaceiros foram finalmente rechaçados por um grupo de corajosos habitantes do lugar, destacando-se o nome de Antônio Felipe, João Bento, soldado João Ferreira e João Belarmino.

PÂNICO ENTRE A ELITE RURAL POTIGUAR

Os acontecimentos são publicados em grandes manchetes na edição de 8 de março de A República. A partir de então o pânico se generaliza de uma forma contundente entre os políticos e os fazendeiros que tinham interesses na fronteira do rio Grande do Norte com a Paraíba.

Um típico cangaceiro nordestino na década de 1920
Um típico cangaceiro nordestino na década de 1920

Em Natal começam a chover na mesa do governador Mello e Souza telegramas solicitando urgentemente o envio de efetivos da força pública potiguar para a defesa das cidades e vilas localizadas em praticamente toda a fronteira com a Paraíba. Os aflitos telegramas vinham desde a cidade de Luís Gomes, quase na divisa com o Ceará, à Nova Cruz, próximo ao litoral, todos informando existirem boatos de ataques eminentes e simultâneos de cangaceiros.

Nas amareladas folhas do velho jornal A Republica, existente na hemeroteca do Instituto Histórico do Estado do Rio Grande do Norte e no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte, é tal a quantidade de telegramas enviados ao governo, que aqueles que não possuem um maior conhecimento da história do cangaço nesta época, ao ler as alarmantes missivas reproduzidas, parece que a ação dos cangaceiros havia crescido numa proporção assustadora e o número de bandos havia aumentado por dez.

No geral as mensagens seguem quase um mesmo padrão. Comentam sobre a existência de “informações”, ou “boatos”, transmitidos por pessoas “vindas da Paraíba” da “existência de grupos de cangaceiros nas proximidades” e a possível “eminência de um ataque”.

OS JORNAIS REPERCUTEM A SITUAÇÃO

A imprensa dos dois Estados tratava a situação de modo alarmante e exagerado.

Possível combate próximo a cidade de potiguar de Santa Cruz. Jamais foi confirmado
Possível combate próximo a cidade de potiguar de Santa Cruz. Jamais foi confirmado

Na edição de 12 de março do jornal paraibano “A União”, existe a informação que havia ocorrido um violento combate nas proximidades da cidade potiguar de Santa Cruz, no qual teriam morrido 6 cangaceiros. Já o natalense A República chega a comentar na sua edição de 21 de março que, “se abstivera de divulgar as movimentações da tropa, por um princípio das táticas militares; Não fornecer indicações ao inimigo”. Como fosse o caso dos cangaceiros terem condição de ler jornais continuamente no meio da caatinga!

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Esta mesma edição de A República informa que em Caicó houve pânico com a notícia da aproximação de cangaceiros na fronteira desta cidade com a Paraíba, ficando a situação mais calma por haver deslocamento de forte contingente policial em direção à localidade de Jardim de Piranhas. Outro jornal natalense denominado A Notícia, informa que até mesmo ocorreu “fuzilamento de oficiais de nossa Força Pública e rapto de crianças”.

Até as repartições dos Correios e Telégrafos entraram na ideia de pânico generalizado. Houve o caso de um telegrafista enviar pedidos de ajuda ao Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro.

Os cangaceiros atrapalharam a coleta de materiais da cidade Martins para a exposição do centenário
Os cangaceiros atrapalharam a coleta de materiais da cidade Martins para a exposição do centenário

Até jornais do Rio de Janeiro noticiaram aqueles acontecimentos aparentemente através de notícias recebidas de informes telegráficos e um destes informes mostra uma interessante situação; no primeiro semestre de 1922 estava acontecendo em todo o Brasil os preparativos para as grandes festas do centenário da nossa independência e no Rio Grande do Norte estes preparativos estavam a toda. Cabia a cada estado brasileiro organizar e enviar para a Capital Federal, na época o Rio de Janeiro, uma coleção de produtos naturais típicos. No Rio Grande do Norte o responsável por tal trabalho era o Dr. João Vicente, que a época destes alarmes estava no município serrano de Martins. Na edição do periódico carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922, foi noticiado que o Dr. João “não podia trabalhar devido a ação dos cangaceiros e que o pessoal da serra estava pronto a reagir”.

MAS HOUVE ATAQUE?

Mesmo com todo exagero, o governador Antônio José de Mello e Souza, juntamente com o então chefe de polícia Sebastião Fernandes não perdem tempo na reação e tratam o assunto como uma verdadeira “situação de guerra”.

O chefe de polícia potiguar a época da crise
O chefe de polícia potiguar a época da crise

Convocam por decreto emergencial 100 praças para a força pública, promovem 2 sargentos a oficiais, despacham um grupo de policiais para seguir de navio até a cidade de Areia Branca, para depois seguirem a cavalo para fronteira. Com a ajuda do então IFOCS – Instituto Federal de Obras Contra as Secas (futuro DNOCS) mais de 100 militares serão enviados de caminhão ao interior. São feitas solicitações aos serviços de correios e telégrafos para a isenção de taxas para que os oficiais pudessem emitir telegramas da “frente de batalha”.

Na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1922, o governador Mello e Souza informa que recebeu que durante esta “crise”, mais de 100 despachos telegráficos vindos do interior. O próprio governador, tido como homem calmo e comedido, chegou ao ponto de reclamar que “até a cortesia sertaneja havia sido deixada de lado” naquelas solicitações de ajuda.

Apesar do estado limitadop desta fotografia, ela mostra oficiais da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, se preparando para seguir para o sertão para combater os cangaceiros que desejavam invadir o estado em 1922
Apesar do estado limitado desta fotografia, ela mostra oficiais da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, se preparando para seguir para o sertão e combater os cangaceiros que desejavam invadir o estado em 1922

Foram enviados policiais em tal quantidade que em Natal o efetivo policial foi classificado como “mínimo”, apenas para o essencial para a proteção do quartel da força pública e do presídio (Mensagem, RN, 1922, páginas 31 a 35).

Seja por conta das ações policiais praticadas pelos governos da Paraíba e da ação preventiva da polícia potiguar, ou por terem conseguido o que desejavam, o bando de Sinhô Pereira toma novamente o rumo do Ceará. Com a saída dos cangaceiros, pouco a pouco a situação volta a se normalizar. No dia 29 de março chega a Natal o Chefe de Polícia da Paraíba, Demócrito de Almeida, que vinha agradecer a ação da polícia potiguar e, juntamente com Mello e Souza e Sebastião Fernandes, acertarem as bases para ações de patrulhamento da fronteira (A Republica, pág. 1, Ed. 01/04/1922).

Nas edições do jornal “A Republica” e na própria Mensagem ao Legislativo de 1922, podem-se ler as respostas às críticas feitas a ação do governador Mello e Souza na proteção das fronteiras. Estas críticas comentavam principalmente sobre os gastos excessivos realizados pelo executivo estadual no deslocamento de tropas, em meio a grave crise financeira vivida pelo Tesouro do Estado.

Existem insinuações que a mobilização serviu para uma grande intimidação da classe política que se encontrava na oposição, devido a proximidade da eleição federal, além de mostrar quem estava no poder e quem mandava na Força Pública.

Mas enfim, os cangaceiros de Sinhô Pereira estiveram, ou não estiveram no Rio Grande do Norte em 1922?

Consta na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1922, que o governador Mello e Souza informou que estes cangaceiros ao seguirem em direção ao vizinho Ceará, teriam então realizado a única e verdadeiramente comprovada penetração em território potiguar. Foi quando realizaram um pequeno saque em Luís Gomes e passando nas imediações da Vila de Alexandria, sem, contudo esta localidade ser efetivamente atacada (Mensagem, RN, 1922, pág. 34).

Jornal carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922
Jornal carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922

Conforme podemos ver na reprodução da nota publicada na edição do periódico carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922, parece que estes cangaceiros estiveram no Rio Grande do Norte, mas não existem registros de saques em Patu, Alexandria e que a nossa polícia perseguiu a horda de meliantes até o Ceará.

UMA QUASE CONCLUSÃO…

Ao observamos estes episódios, é de se perguntar de onde vinha tamanho receio, ou medo, que as classes produtoras rurais potiguares tinham em relação aos cangaceiros? Até mesmo porque a marcante invasão do bando de Lampião ao Rio Grande do Norte só iria ocorrer cinco anos depois de todo a aquele pânico de 1922.

Sinhô Pereira (sentado) e seu primo Luiz Padre, dois grandes cangaceiros
Sinhô Pereira (sentado) e seu primo Luiz Padre, dois grandes cangaceiros

É certo que os produtores rurais estavam saindo de uma seca pesada e uma ação de cangaceiros em nada ajudaria a nossa já combalida economia rural. Mas não havia registro de grandes ações destes bandidos no Rio Grande do Norte desde a prisão do celebre Antônio Silvino em 1914.

No meu entendimento toda aquela movimentação foi na verdade uma combinação de receio das elites rurais com a chegada dos cangaceiros, acompanhado de exagerados equívocos de informações, tudo isso transmitido para a capital potiguar através de uma bem organizada linha de comunicação telegráfica, que encheu a mesa do governador de pedidos de ajuda contra bandidos que simplesmente não apareceram.

Tudo isso associado a uma tradicional posição destas mesmas elites rurais potiguares; a de não terem uma associação muito estreita com cangaceiros, fossem eles potiguares, ou principalmente de outros estados.

Os donos do poder do sertão potiguar, como até hoje acontece, jamais deixaram de ter uma parceria estreita com hordas de sanguinários pistoleiros, de gente execrável que mata exclusivamente por dinheiro. Que a soldo dos poderosos resolviam (e ainda resolvem) certos tipos de problemas. Mas a figura do cangaceiro, talvez pelo seu aspecto único de possuir determinado nível de autonomia em meio a estas elites, jamais teve dos coronéis do sertão potiguar muita guarida.

E ONDE ENTRA LAMPIÃO NESTA HISTÓRIA?

Ao realizar esta simples pesquisa, me veio o seguinte questionamento; e então o grande cangaceiro Lampião esteve no Rio Grande do Norte antes do ataque de Mossoró? Teria o Rei do Cangaço pisado solo potiguar antes de 1927? Teria ele atacado uma fazenda nos limites do nosso estado com a Paraíba e passado perto da Vila de Alexandria?

Sei que Lampião entrou no bando de Sinhô Pereira em 1921, mas daí a afirmar que ele e seus irmãos Antônio e Levino participaram destas ações, é complicado. Tem gente por aí que conhece muito mais desta história do que eu e pode responder.

Notícia do Diário de Pernambuco, edição de 17 de março de 1922, mostrando a presença de Sinhô Pereira e seus cangaceiros na Fazenda Feijão, Belmonte, Pernambuco. Logo ele deixaria o cangaço
Notícia do Diário de Pernambuco, edição de 17 de março de 1922, mostrando a presença de Sinhô Pereira e seus cangaceiros na Fazenda Feijão, Belmonte, Pernambuco. Logo ele deixaria o cangaço

Mas sei que nos primeiros dias de junho de 1922, no sítio Feijão, zona rural do município pernambucano de Belmonte, próximo a fronteira do Ceará, Sinhô Pereira informou aos membros do seu bando, que em breve iria entregar o comando a Lampião, então o seu melhor cangaceiro. Apesar de ter menos de 27 anos de idade, Sinhô alegou problemas de saúde para a sua decisão e que seguia um apelo do mítico Padre Cícero Romão Batista, da cidade de Juazeiro, Ceará, que havia lhe pedido para deixar esta vida bandida e ir embora para fora do Nordeste. A incursão de Sinhô Pereira e outros cangaceiros pelo interior da Paraíba teria tão somente o ensejo de arrecadar numerário para este chefe bandoleiro sair do sertão e só voltar em 1971, já idoso.

Lampião e seu irmão Antônio em Juazeiro, Ceará
Lampião e seu irmão Antônio em Juazeiro, Ceará

Vinte e dois dias depois de receber a notícia que a passagem de comando está próxima, Lampião efetivamente já é chefe de grupo. Neste momento começa a imprimir sua horrenda marca pelo Nordeste e vai se tornar o maior cangaceiro do Brasil.

Mas esta é outra história….

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CHÁVEZ MORREU, E AGORA?

Hugo-Chavez

Brena Queiroz – Estudante de Jornalismo – UFRN

Fonte – http://serjornalinda.wordpress.com/2013/03/05/chavez-morreu-e-agora/

Se eu hoje não fosse uma estudante do curso de comunicação, eu deixaria esse assunto pra lá… Mas como hoje sei que é preciso ter opinião pra tudo (o que é meio infeliz de vez em quando),  dei uma estudadinha em Hugo Chávez e vim nesse post falar da trajetória desse ditador que divide opiniões, além de expressar minha opinião no final, me baseando no que li.

Hugo subiu ao poder em 1988 (assumindo em 99) e mudou as diretrizes governamentais na Venezuela, impondo um governo de esquerda e nada liberal.  O que ele chamou de Revolução Bolivariana foi interpretado por “socialismo do século XXI”, que mantinha uma relação  nada amigável com as nações desenvolvidas, principalmente com os Estados Unidos. Chávez era contra o capitalismo e polemizou em suas desavenças. Ele se inspirava, principalmente, no líder cubano Fidel Castro e sua ideologia tinha  como objetivo “unir a democracia participativa com um partido civil-militar de esquerda”. Bem inteligente.

Uma de duas primeiras medidas ditatoriais foi a criação de uma lei que permitia ao presidente governar o país por um ano e criasse decretos sem intervenção da Assembleia. Huguinho usou e abusou do seu poder e criou, logo de cara decretos radicais e nacionalistas que deixaram a sociedade venezuelana bolada. Outra mudança na Constituição foi a possibilidade dele poder ser reeleito, além do aumento do mandato, que antes era de 5, para 6 lindos anos de puro amor.

Teve gente que tentou mudar isso. Em uma tentativa de golpe de Estado, Chávez foi sequestrado por aproximadamente dois dias. Quando foi solto, voltou mais “bonzinho” ainda e intensificou a força da sua ditadura, o que fez com que a insatisfação aumentasse e que greves surgissem com o intuito de interromper seu mandato. O que não deu certo. Em 2002, pelo menos 15 pessoas morreram nos embates entre as frentes políticas. Uma nova tentativa de Golpe de Estado foi feita, também fracassada. Foi até anunciado que Chávez, no momento preso, renunciaria o cargo. Mas no outro dia a mensagem foi desmentida e ele voltou para assumir o comando. (Posso até ter me enrolado, mas o importante é saber que o governo do camarada foi cheio de idas e vindas nada agradáveis).

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Em 2003, fez-se uma consulta popular sobre sua permanência no poder e mais de 50% concordou que o Hugo administrasse a Venezuela até o fim do mandato. As eleições chegaram e Huguinho foi reeleito.  [O incrível é analisar o grau de insatisfação e perceber que o cara foi reeleito. Era estranho até eu achar isso nas internets da vida http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=b7o780KbHWM e ler que o adversário Manuel Rosales foi processado por enriquecimento ilícito].

O seu terceiro mandato, 2007, foi mais tranquilo porquê não havia oposição no Congresso. Chávez conseguiu ampliar seus poderes e seus decretos até que uma reforma (sobre esses poderes) na Constituição  foi proposta e submetida ao veredicto da população. Os venezuelanos se posicionaram contra e Chávez foi pra frente da TV anunciar que acatava a decisão da galera.  Por falar em veículos de comunicação, devo dizer que Huguinho não foi nada gentil com a imprensa. É só lembrar da ditadura no Brasil e pensar em algo semelhante. “O governo expandiu drasticamente sua capacidade de controlar o conteúdo das transmissões e da cobertura de notícias no país. Ele (Chávez) ampliou e reforçou as multas por discursos que “ofendam” funcionários do governo, proibindo a transmissão de mensagens que “gerem ansiedade no público” e permitindo a suspensão arbitrária de canais de TV, emissoras de rádio e websites”. Massa.

Para terminar essa aula de história, é válido lembrar que em 2009 a “Venê” passou por uma crise energética onde Chavinho propôs que a população tomasse menos banho para economizar água e energia (imagina isso no Brasil?!) e que ano passado, saudoso 2012, o falecido – que já estava com câncer há pelo menos 1 ano e meio – ganhou as eleições “mais acirradas dos últimos tempos”. Todos sabem que ele não conseguiu tomar posse por já estar debilitado, e que ele morreu com 58 anos devido ao câncer (óbvio) e a umas complicações das cirurgias. Enfim. Para quem não sabia nada de Chávez, esse texto deve ter ajudado. Mas vamos lá!

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O que vou falar de Chávez quando me perguntarem sobre isso tudo?

Primeiro vou agradecer por não ter nascido na Venezuela. Segundo tenho que dizer que procurei pela internet “elogios ao governo de Hugo Chávez” e só encontrei  que ele foi importante nas negociações de paz entre o governo colombiano e as Farc (ajudou a mediar a libertação de seis reféns).  Em terceiro, vou dizer que não sou venezuelana pra falar com convicção sobre, mas que percebi que, se Hugo tinha algum propósito bom por trás disso tudo, eu não consegui reconhecer e ele não soube fazer da maneira que era pra fazer. Sou contra a ditadura, principalmente quando se fala da falta da liberdade de expressão (qual a graça de ser jornalista nesses lugares?). Acho que esse estilo de governo se torna ultrapassado quando começa a desandar a relação da sociedade dentro de seu próprio território. A Venezuela pode ter ganhado pontos bons com esses anos, mas também perdeu muitos. E, mesmo com a morte do ditador, fala-se que o país não mudará muito. E essa é a parte que vou custar a entender. Parte da população reclama por anos e quando tem a oportunidade de virar o jogo, ainda ficam nessa? Agora o que se tem a fazer é esperar pelo sucessor e torcer para que a Venê cresça e recupere o que se perdeu.

E é nessas horas que  a gente agradece pelo Brasil-sil-sil que temos. Oh pátria amada, idolatrada, salve salve! s2

AS BELEZAS SUBTERRÂNEAS DE JANDAÍRA – POSSIBILIDADES DE CRIAÇÃO DE UM ROTEIRO TURÍSTICO QUE UNE MAR E SERTÃO

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 Um Roteiro Que Une Mar e Sertão, Sertão e Mar!

Autor – Rostand Medeiros

Fotos – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais

Recentemente, a convite do amigo Ricardo Sávio, estivemos revendo as cavernas e a grande área de afloramento de calcário localizado ao norte da área urbana de Jandaíra. Conheço esta região desde 1987 ou 1988 e vale a pena cada retorno para vivenciar esta natureza sertaneja!

Jandaíra, município localizado na Região do Mato Grande, Rio Grande do Norte, está a cerca de 117 quilômetros da capital potiguar, sendo atravessado pela BR 304, rodovia que liga Natal a regiões de grande e tradicional atratividade turística, tanto a nível regional como nacional, como é o caso da bela praia de Galinhos.

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O município de Jandaíra apresenta diversas áreas com ocorrência de cavidades naturais, sendo que sua caracterização geológica constitui-se pela Formação Jandaíra, Grupo Apodi, correspondendo a uma sequência carbonática que mergulha suavemente em direção à costa atlântica. Essa gênese carbonática, favorece a ocorrência de cavernas, dolinas e ravinas em vários pontos do município, servindo como áreas de pousio e reprodução de aves, répteis e mamíferos, típicos da Caatinga e importantes agentes polinizadores e difusores de sementes deste Bioma.

Afloramento de calcário de Jandaíra
Afloramento de calcário de Jandaíra

Contudo, Jandaíra não tem utilizado este fator como elemento de desenvolvimento, principalmente pela falta de atrações e infraestrutura que possam despertar o interesse de visitação turística, tanto para entretenimento, como também para turismo escolar, científico ou de aventura.

Mas tem muito que mostrar, como vemos nas imagens do grande afloramento de calcário aqui apresentadas pelas lentes do amigo e fotógrafo Ricardo Sávio.

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Temos neste local a interessante e crua beleza típica da caatinga, em uma área de fácil acesso, a pouco mais de um quilômetro do município de Jandaíra.

Sem dúvida este local poderá ser uma ótima opção para complementar o turismo que atualmente se destina, com extremo sucesso, para a região de Galinhos.

Para quem não conhece a geografia potiguar, pode parecer um tanto estranho à ideia de levar turistas para uma parada destinada a conhecer a caatinga, cavernas e depois levá-los para um dos melhores pontos do nosso litoral.

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Mas ao mesmo tempo, já pensaram que contraste interessante!

Não podemos esquecer que é no Rio Grande do Norte, o estado nordestino onde proporcionalmente a caatinga possui a maior cobertura em termos territoriais, que este Bioma praticamente alcança a beira mar!

Em todo o Brasil isso só acontece aqui!

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A caatinga, com todos os seus aspectos característicos, é única no mundo e só em terras potiguares poderíamos imaginar um roteiro que unisse mar e sertão, sertão e mar!

Evidentemente que um tipo de roteiro como este tem (e deve) ser minuciosamente elaborado. A caatinga tem suas belezas, mas igualmente possui características que se não forem bem analisadas, podem não ser tão confortáveis aos visitantes.

Já em relação às cavernas, estas então é que necessitam de um cuidado extremo. Pois são ambientes frágeis, algumas delas com uma fauna extremamente delicada e rara, que não suportariam uma visitação desordenada.

Detalhes que mostram que o sertão já foi mar
Detalhes que mostram que o sertão de jandaíra já foi mar

Em relação aos visitantes tem de ser realizado todo um trabalho informativo, de preparação em relação ao ambiente a ser visitado, utilizando elementos da educação ambiental, além de cuidados com o bem estar dos turistas e outros aspectos importantes.

Como comentamos anteriormente, as cavernas do município de Jandaíra têm atraído, de maneira informal e desordenada visitantes do próprio município, de municípios vizinhos e até mesmo de Natal, curiosos por conhecer a mística das cavernas, impregnados no imaginário popular.  Além disso, há ainda a utilização das cavernas como áreas de diversão, por parte de parcela da comunidade local, promovendo piqueniques e momentos de lazer em seu entorno.

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A área de afloramento de calcário de Jandaíra, aqui apresentada nas fotos de Ricardo Sávio, compreende grande parte das cavidades naturais existentes no município, estando estas ameaçadas pela mineração clandestina e desmatamento indiscriminado. 

A atividade turística pode oferecer uma alternativa a estas atividades degradadoras, implicando em impactos positivos sobre o meio ambiente, ao mesmo tempo em que oferece meios para melhorar as condições de vida da população local.

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Como no caso dos jovens Hyurann Oliveira e Jan Pierre Martins, que estiveram conosco nesta visita. Estes jovens moram em Jandaíra, amam as cavernas do seu lugar e eles amanhã poderiam, ou não, sobreviverem da atividade turística em sua própria região!

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Durante a nossa visita, o amigo e jornalista Everton Santos, ficou verdadeiramente encantado com o que viu e, junto com Ricardo, debatemos bastante sobre a utilização positiva desta área de cavernas.

Percebemos que a ausência um planejamento tecnicamente embasado, orientado para utilização turística e de uma infraestrutura capaz de receber os visitantes, tem feito com que esse patrimônio natural esteja submetido à ação de degradação, visto a quantidade de lixo presente na área, à presença de resíduos orgânicos humanos (fezes e urina) e a depredação do patrimônio espeleológico, que varia desde a pichação das paredes e a retirada criminosa de espeleotemas (cortinas, estalactites, estalagmites etc.), mostrando a necessidade de algo que regulamente e regule a interação entre aproveitamento turístico e conservação dos recursos naturais, fazendo surgir um novo arranjo produtivo local, com bases sustentáveis.

Nada impede que se possa estudar com seriedade este processo e analisar a viabilidade de sua execução.

Final do trabalho e vamos voltar...
Da esquerda para direita Hyurann, Jan, Rostand, nosso grande Joaquim, Everton e Ricardo. Final do trabalho e comn certeza vamos voltar…
Mapa da região de Jandaíra e sua proximidade a Galinhos e o mar
Mapa da região de Jandaíra e sua proximidade a Galinhos e o mar

A PRIMEIRA FOTO DE UM SER HUMANO

O primeiro ser humano fotografado
O primeiro ser humano fotografado

Robert Cornelius era um jovem estudante de química e metalurgia. Quando concluiu seus estudos foi trabalhar com a família, por volta de 1831. Especializou-se em revestimento de prata e polimento de metal.

Por ostentar a fama de ser um grande químico, foi procurado por Saxton para fazer uma placa para seu daguerreotipo, e então surge seu interesse pela fotografia. Tanto, que largou o trabalho com seu pai para se dedicar ao aprimoramento de técnicas fotográficas.

A foto acima é considerada a primeira tirada de um ser humano, um autorretrato ao lado da loja de sua família em 1839. A imagem com os braços cruzados e os cabelos desgrenhados eram algo de pura rebeldia para a época.

QUANDO AS PEDRAS CAÍRAM DO CÉU NO RIO GRANDE DO NORTE

Casos de Quedas de Corpos Celestes no Rio Grande do Norte

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

O Rio Grande do Norte, desde que a sua história passou a ser registrada através de documentação escrita, guarda poucos informes de fatos naturais que, de tão incomuns, marcaram o momento em que ocorreram, fazendo com que os homens do passado registrassem para a posteridade estes acontecimentos insólitos.

Um dos fenômenos naturais incomuns que mais chamavam a atenção dos antigos habitantes das terras potiguares eram os tremores de terra. Comuns até os dias atuais, estes acontecimentos geológicos ocorrem principalmente na região da antiga Baixa Verde, atual município de João Câmara. Desde o final do século XVIII, antigos cronistas já registraram a impressão que os tremores deixaram junto aos antigos habitantes. Quem está na faixa dos 30 anos de idade, certamente deve se lembrar do terremoto ocorrido em 1986, que abalou a região, alcançando a magnitude de 5.3 na escala Ritcher e que marcou profundamente a história potiguar e chama a atenção dos geólogos.

Se ocasionalmente os potiguares sentem o solo tremer, muito mais raros são os registros de bólidos vindos do céu, de meteoros despencando com estrondo na nossa região. Entretanto, estes fenômenos já ocorreram.

Uma chuva de meteoritos em Macau

Nos anais do VIII Simpósio de Geologia do Nordeste, realizado em 1977, em Campina Grande, Paraíba, encontramos o resumo de uma pesquisa realizada pelos geólogos brasileiros Celso de Barros Gomes, da USP (Universidade de São Paulo), W. S. Crurvello, do Museu Nacional do Rio de Janeiro acompanhado dos cientistas norte-americanos K. Kiel, da Universidade do Novo México e E. Jarosewich, do Instituto Smithsonian, de Washington, que estiveram na região de Macau e Açu, em busca de restos de um meteorito, que caiu do céu no dia 11 de novembro de 1836.

A queda deste bólido ocorreu ás cinco da tarde, nas imediações da foz do rio Açu, em uma área territorial que então pertencia ao município de Macau. Segundo os relatos da época devido ao impacto no solo, morreram algumas vacas e a queda do objeto celeste foi acompanhada de um forte clarão e ribombos. Aparentemente o meteorito se fragmentou em vários pedaços, alguns maiores e outros tocaram o chão no formato de uma chuva de pequenas pedras. Fontes pesquisadas por estes cientistas relataram que o clarão produzido pela queda deste meteoro foi visto por uma embarcação que se encontrava a 324 milhas náuticas, ou cerca de 600 quilômetros de distância, da costa potiguar. Consta que os tripulantes relataram a passagem do objeto seguindo em direção a costa, que não era visível aos tripulantes a esta distância.

Durante as pesquisas de campo, foram encontrados restos do meteorito, que foi recolhido e transportado para o sul do país, onde análises detalhadas apontaram a existência principalmente de ferro-níquel na sua composição.

O resumo deste trabalho científico não informa de qual fonte histórica provinham estes dados, mas aparentemente este é o primeiro relato conhecido, descrevendo a queda de meteoritos no Rio Grande do Norte.

Um juiz informa a queda de um meteorito em Açu

Dezenove anos depois, coincidentemente a mesma região anteriormente atingida seria o local da queda de outro meteorito.

Na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, volume XIV, de 1916, encontra-se a transcrição de um documento datado de 28 de agosto de 1855, produzido pelo então juiz de direito de Açu, João Valentim Dantas Pinagé, que informa ao então Presidente da Província, Antônio Bernardo dos Passos, que ele estava enviando a capital da província algumas amostras de um meteorito que havia caído na região de Açu. Informava o magistrado que as amostras apresentadas pesavam juntas “duas arroubas”, equivalente a 30 quilos, e sua queda havia deixado o povo da região assombrado com o fato que aquelas rochas “pudessem vir do céu”.

Aldeões e agricultores indianos posam em 2019 ao lado de uma cratera de meteorito 
(AFP / Getty Images)Fonte – https://www.independent.co.uk/news/science/india-meteorite-bihar-nasa-farmers-mahadeva-a9020716.html

O juiz informava que o objeto foi visto desde as “praias”, provavelmente entre as áreas territoriais dos atuais municípios litorâneos de Guamaré, Macau e Porto do Mangue, e por outros locais da Comarca de Açu. Durante a sua queda, o meteorito foi visto vindo da direção nordeste, seguindo em descendente na direção sudoeste e sendo testemunhado por várias pessoas na região.

Infelizmente o juiz Pinagé não informou exatamente a data do ocorrido, nem o local exato do impacto, mas indica que recebeu as amostras que remetia para Natal “quatro dias depois da passagem do meteoro”.

Tarcísio Medeiros, em seu ótimo livro “Aspectos geopolíticos e antropológicos da história do Rio Grande do Norte”, comenta sobre este fato.

Um “corisco” assombra Santana do Matos

Quarenta e dois anos depois, no dia 8 de abril de 1897, a primeira página do jornal “A Republica”, estampava uma nota intitulada “Aerólito”, onde uma “pessoa de fé, ultimamente chegada do sertão”, informava que no dia 21 de março, um domingo, pelas cinco e meia da tarde, foi visto por diversas pessoas, tanto na área urbana e na zona rural da pequena Santana do Matos, um objeto incandescente, em formato de um ”globo brilhante caindo do céu”.

“A Republica”, 8 de abril de 1897.

As testemunhas comentaram que durante a queda o objeto se mostrava extremamente luminoso e soltava fagulhas. No impacto, segundo o informante, o estrondo foi ouvido a uma distância de oito léguas, equivalente a cinquenta quilômetros. O fenômeno natural chamou a atenção de todos, tendo um grupo de pessoas se deslocado ao ponto onde ocorreu à queda.

Segundo a nota, o impacto se deu na região da “serra de São João”, a sudeste da sede do município de Santana do Matos, onde as pessoas do lugar informaram que um grande “bálsamo”, provavelmente alguma árvore frondosa, fora reduzida a “estilhaços”, mas nenhuma parte do “aerólito” foi encontrado.

A não existência de uma cratera de impacto, que houvesse deixado uma marca mais permanente no solo da região, deixa a entender que o bólido poderia ser classificado como um meteorito de pequenas dimensões. Provavelmente durante a queda, com o atrito junto à atmosfera terrestre, esta rocha foi perdendo massa, criando fagulhas e ao tocar o solo teve força suficiente apenas para destruir esta possível árvore frondosa. O que de toda maneira causou um tremendo espanto aos habitantes da região.

No final do século XIX, ainda era comum a utilização por parte da imprensa do termo aerólito, em detrimento a meteoro ou meteorito. Para o homem simples do campo, e a nota registra isto, a pedra caída do céu era tão somente um “corisco”.

Extremamente econômico na discrição, o relato não cita fontes, nome do informante e outras informações mais apuradas. Mas tudo indica que o local da queda seja localizado no município de Jucurutu, próximo a fronteira com Santana do Matos, na área da fazenda conhecida como “São João”, ou “Saco de São João”, onde existe uma serra homônima.

Um corpo celeste ilumina a noite de Caraúbas

Passados seis anos da queda deste meteorito, o Rio Grande do Norte, foi novamente “visitado” por outra rocha vinda do céu. Na edição do jornal “A Republica”, de 23 de outubro de 1903, o correspondente baseado na cidade de Caraúbas, remeteu uma série de notícias referentes ao município. Entre estas constam informes da seca que assolava a região e sobre o benemérito trabalho do senhor Benevenuto Simões, em perfurar poços na busca do precioso líquido. Em meio a notas políticas, sobre casamentos e de viagens de membros da elite local ao Rio de Janeiro, uma pequena nota, novamente intitulada “Aerólito”, informava ter sido “nossa vila espectadora de um lindo drama”.

“A Republica”, 23 de outubro de 1903.

Por volta das nove horas da noite do dia 30 de setembro, uma quarta-feira, foi visto um brilhante meteorito que percorreu todo o firmamento, deixando um rastro luminoso em sua queda e produzindo uma forte iluminação sobre a pequena cidade. O bólido foi visto vindo da direção sudoeste, seguindo descendentemente na direção oeste, e que após cinco minutos produziu um forte estrondo.

Devido à diferença de tempo entre a visualização do meteorito e o estrondo produzido pelo impacto, partindo do princípio que o correspondente calculou corretamente o tempo, este bólido caiu em uma área distante da sede municipal e a nota do jornal não especifica o ponto exato da queda.

Mesmo sendo um fenômeno raro, chama a atenção à economia de informações do correspondente, onde é mais provável que o mesmo não tenha sido testemunha direta dos fatos, anotando informações prestadas por terceiro, mas nada mais sobre este fato foi comentado.

Os meteoritos

Os meteoritos são classificados de fragmento de um meteoroide que resistiu ao impacto com a atmosfera e alcançou a superfície da Terra ou de outro planeta antes de se consumir. Eles podem ter desde poucos quilos e dimensões mínimas a serem pesadas pedras voadoras de várias toneladas. Quase todos os meteoritos são fragmentos procedentes dos asteroides ou cometas. Podem ter em suas composições minérios como ferro-níquel, silicatos ou ferro metálico. Os meteoritos têm geralmente uma superfície irregular e uma camada exterior carbonizada, fundida. Todos os dias a terra é bombardeada por uma chuva de pedras vindas do espaço, a maioria são inofensivos micrometeoritos. Acredita-se que por ano, caiam sobre a terra seis toneladas de rochas.

Os maiores meteoros, quando se chocam com a Terra, sempre deixam suas marcas, criando crateras profundas.

Acredita-se que o maior meteorito que atingiu a atmosfera da terra, mas sem comprovação definitiva, ocorreu no dia 30 de junho de 1908, na bacia do rio Podkamennaya Tunguska, a 64 quilômetros ao norte de Vanavar, na Sibéria, Rússia. Acreditam os cientistas que um meteorito de 30 metros de comprimento, explodiu a 10 quilômetros de altitude, tendo produzido uma onde de choque sentida a mais de 1.000 quilômetros de distância. O maior meteorito conhecido, que se chocou contra a superfície terrestre, foi encontrado em Hoba West, próximo a Grootfontein, na Namíbia, África, com 59 toneladas.

Estima-se que ao longo de 600 milhões de anos, o planeta Terra tenha sido atingido em mais de duas mil ocasiões por asteroides de grande peso. A maior cratera do mundo, comprovadamente criada pela queda de um meteorito, é chamada Coon Butte, ou Cratera Barringer, localizada próximo à cidade de Winslon, Arizona, nos Estados Unidos.

Pedra de Bendegó

Em 1784, no sertão da Bahia, próximo a região de Canudos, caiu próximo a uma serra, um meteorito de 5.360 quilos, conhecida como Pedra de Bendegó. Este corpo celeste, com muito sacrifício, foi transportado em 1888 para o Rio de Janeiro e encontra-se até hoje exposto no Museu Nacional. Contudo, cientistas descobriram que o maior meteorito que já tocou o solo brasileiro, ocorreu na divisa entre Goiás e Mato Grosso, é conhecido como “Domo de Araguainha”, deixou uma marca na forma de uma cratera de 40 quilômetros e este impacto ocorreu à cerca de 350 milhões de anos.

Os impactos ocorridos no Rio Grande do Norte e aqui relatados, certamente não foram os únicos casos de impacto destes corpos celestes em solo potiguar, que apesar de possuir uma superfície territorial pequena, não está isento de receber novas “visitas celestes”.

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O ALEMÃO QUE NÃO FEZ A SAUDAÇÃO NAZISTA – QUANTOS DE NÓS TERÍAMOS A MESMA CORAGEM?

No destaque vemos  August Landmesser sem realizar a saudação nazista, em uma solenidade onde o próprio Hitler estava presente
No destaque vemos August Landmesser sem realizar a saudação nazista, em uma solenidade onde o próprio Hitler estava presente

Autor – Rostand Medeiros

Hamburgo, Alemanha Nazista, 1936, uma multidão de pessoas se reuniu em um estaleiro para assistir ao lançamento do navio-escola da marinha SSS Horst Wessel, em que o próprio Adolf Hitler estava presente. Enquanto centenas levantavam obedientemente seus braços em uníssono na saudação nazista, um homem na parte de trás da multidão ficou com os braços cruzados sobre o peito e apertando os olhos para quem estava fazendo a saudação.

Esta figura era desconhecida até 1991, quando a sua famosa foto foi publicada em 22 de março, no jornal alemão “Die Zeit”. Logo uma de suas filhas o identificou como sendo August Landmesser, um trabalhador do estaleiro Blohm + Voss, da cidade de Hamburgo.

August Landmesser
August Landmesser

Landmesser, nascido em 24 de maio de 1910,  foi inclusive membro de carteirinha do Partido Nazista, onde entrou em 1931 na esperança de conseguir um emprego, mas tinha uma razão muito pessoal para não fazer mais a infame saudação. No verão de 1935, de acordo com o “Nürnberger Gesetze” (“Leis de Neuremberg”), o Estado nazista proibia Landmesser, como um não judeu, a se casar com Irma Eckler, a sua amada companheira.

Consta que a condição de judia de Irma não era totalmente correta. Seu pai, Arthur Eckler, nasceu da união de uma mãe judia e um pai não judeu. Com a morte de seu pai, seu padrasto conseguiu convencer Irma, sua mãe e suas irmãs a se converterem ao protestantismo e serem batizadas. Mas para o regime de Hitler a jovem Irma era uma judia.

Irma Eckler
Irma Eckler

Independente disso o casal seguiu adiante na sua luta para continuarem unidos. Em 29 de outubro de 1935 nasceu a primeira filha, chamada Ingrid. Em 1937 a família tentou fugir para a Dinamarca, mas Landmesser foi preso e se tornou conhecido que Irma estava grávida.

Landmesser então foi acusado pelas leis nazistas de “desonrar a raça”. Ele argumentou que não sabia se Irma era totalmente judia e foi absolvido por falta de provas em 27 de maio de 1938. Mas com o aviso de que uma reincidência resultaria em uma pena de prisão de vários anos.

Mesmo com o perigo a espreita, Landmesser e Irma continuaram seu relacionamento publicamente e esta atitude foi fatal.

No dia 15 de julho de 1938 ele foi novamente preso por ter se apaixonado e condenado há dois anos e meio em regime fechado. Entre as peças de acusação estava a foto que se tornaria famosa. Landmesser cumpriu a pena no campo de concentração de Börgermoor, onde os presos foram usados ​​para o trabalho forçado em fábricas de armamento e estaleiros.

Já Irma foi detida pela Gestapo e colocada na prisão de Fuhlsbüttel, em Hamburgo, onde ela deu à luz uma segunda filha, Irene. De lá ela foi enviada para o campo de concentração de Oranienburg, depois para o campo de Lichtenburg e em seguida campo de concentração das mulheres de Ravensbrück.

Ficha de Irma
Ficha de Irma

Suas filhas foram inicialmente levadas para o orfanato da cidade de Hamburgo. Ingrid mais tarde foi autorizada a viver com uma avó e Irene foi adotada por outra família. Algumas cartas de Irma Eckler chegaram até suas filhas em janeiro de 1942. Acredita-se que Irma foi levada para o chamado Centro de Eutanásia de Bernburg em fevereiro de 1942, onde ela foi morta na câmara de gás junto com outras 14 mil pessoas.

Landmesser foi libertado em 1941 e viveu como capataz de uma fábrica. Mas em fevereiro de 1944 ele foi convocado para servir no batalhão penal Bewaehrungsbattalion 999 (uma unidade do exército alemão formada por ex-criminosos). Foi declarado desaparecido em ação e supostamente morto durante combates ocorridos na Croácia, em 17 de outubro de 1944.

Landmesser, Irma e suas filhas
Landmesser, Irma e suas filhas

Irene Eckler publicou em 1996 o livro “Die Vormundschaftsakte 1935-1958:einer Familie Verfolgung wegen Rassenschande”, onde conta a história da destruição de sua família pelas leis racistas da Alemanha nazista. Publicado em alemão e em inglês, obteve grande sucesso na Alemanha e em outro países da Europa.

A autora buscou familiares da sua mãe que tivessem sobrevivido a guerra para descobrir o máximo que pudesse acerca do seu passado e esteve nos tribunais locais em busca de documentos. O livro inclui uma grande quantidade de fotos de materiais originais, como cartas de sua mãe e documentos de instituições estatais.

Quando eu olho para a fotografia de August Landmesser, eu vejo um homem que se recusou a realizar um nefasto gesto coletivo e, assim, optou por não ficar em silêncio e viver junto de quem amava.

August Landmesser em momentos mais aprazíveis
August Landmesser em momentos mais aprazíveis

Tenho certeza de que no meio da multidão naquele dia, havia muitos mais que desejariam não realizar aquela saudação infame, mas não tiveram a coragem de repetir o mesmo gesto de Landmesser. Quase oitenta anos depois é fácil ser crítico de todos aqueles que são vistos saudando. Mas isso é uma reação simples.

Mais instrutivo é olhar no espelho e se perguntar: “Qual tipo de sacrifício eu realmente faria por quem eu amo?”.

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ELES DESONRARAM A FARDA DA FEB

Adão Damasceno Paz e Luís Bernardo de Morais, assassinaram e estruparam envergando o uniforme da FEB
Adão Damasceno Paz e Luís Bernardo de Morais, assassinaram e estruparam envergando o uniforme da FEB

A HISTÓRIA DE DOIS PRACINHAS QUE QUASE FORAM PARA O

PELOTÃO DE FUZILAMENTO POR HOMICÍDIO E ESTUPRO

Autor – Rostand Medeiros

Na atualidade, passados mais de sete não décadas do fim da Segunda Guerra Mundial, a visão que a maioria do povo brasileiro possui da FEB – Força Expedicionária Brasileira, e de sua ação nos campos da Itália é muito positiva.

Primeira e até hoje única força de combate latino-americana a lutar de maneira efetiva , abrangente e com grande número de militares em solo europeu. A ação da FEB está registrada em inúmeros livros de memória, documentários e filmes que enaltecem a participação de simples brasileiros, a maioria deles saídos dos campos de um país ainda prioritariamente agrário, para combater no maior conflito da história da humanidade.

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Aqueles que lá estiveram merecem ter por parte dos familiares, amigos, das autoridades e de todos os brasileiros o amparo, apoio e atenção pelo que fizeram nos campos de combate.

Mas nem todos cumpriram com o seu dever.

SEGUINDO PARA A GUERRA

Em 1942, em meio aos vários afundamentos ocasionados pela ação de submarinos alemães e italianos e a mortes de muitos brasileiros, o sentimento provocado por estas tragédias fez com que o povo apoiasse sem contestação a ida de nossas tropas para lutar contra os nazifascistas.

Manchete comum na época da guerra e que revoltava o povo brasileiro
Manchete comum na época da guerra e que revoltava o povo brasileiro

Homens e mulheres de várias partes do país foram convocados e aceitaram o compromisso de envergar o uniforme das nossas forças armadas para ombrear-se com outras nações aliadas pelo fim do conflito.

Muitos jovens, que anteriormente sequer conheciam algo além da vila mais próxima da fazendinha em que viviam com seus familiares, que utilizavam a enxada como instrumento de trabalho e o chapéu de palha para se protegerem do sol, foram deslocados para outras terras, onde existiam outros sotaques e outros pensamentos. Lá vislumbraram novos horizontes, receberam o fuzil para realizar o seu novo ofício e colocaram o capacete de aço na cabeça.

Essa situação, extremamente comum dentro das fileiras da FEB, se repetiu com Adão Damasceno Paz e Luís Bernardo de Morais, ambos agricultores e oriundos respectivamente da regiões rurais das cidades gaúchas de Santiago e São Borja.

O presidente Vargas visita soldados brasileiros no navio transporte que os levou a Itália
O presidente Vargas visita soldados brasileiros no navio transporte que os levou a Itália

Eles seguiram para o Rio de Janeiro, então capital do país, onde iniciaram um forte e pesado treinamento, aguardando o momento de embarcarem para além mar. Nos momentos de folga os dois rapazes seguiam a conhecer as belezas e o mundo novo que existia na cidade maravilhosa.

Em 2 de julho de 1944, Adão e Luís estavam dentro de um enorme navio como membros do primeiro escalão da FEB e junto a eles estavam milhares de pracinhas vindos de todas as partes do país.

PROTEÇÃO DO GENERAL MASCARENHAS DE MORAIS

Não sei se os dois agricultores se conheceram ainda no seu estado de origem, apesar das suas cidades serem muito próximas, ou no campo de treinamento no Rio, ou ainda no navio transporte que os levou a Itália. Mas na pátria de Dante Alighieri, aonde chegaram a Nápoles no dia 16 de julho de 1944, consta nas informações apuradas que os dois homens foram designados para uma função na FEB que muitos consideravam de extrema honra e importância. Eles ficaram lotados no Pelotão de Defesa do Quartel General, compondo a guarda pessoal do comandante da 1ª Divisão de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira, o general João Batista Mascarenhas de Morais.

Juntos na Itália os generais Mark Clark (esq.) e Mascarenhas de Morais (dir.)
Juntos na Itália os generais Mark Clark (esq.) e Mascarenhas de Morais (dir.)

Segundo a narrativa dos dois ex-militares, que se encontra na edição da “Revista da Semana”, de 16 de julho de 1949, trabalhar na proteção do general Mascarenhas de Morais não era tarefa fácil, pois o comandante estava sempre em deslocamento por toda área de atuação das FEB no norte da Itália.

A todo o momento aconteciam deslocamentos do general, onde durante quatro meses, nas próprias palavras de Luís Bernardo de Morais, os dois rapazes protegeram o general Mascarenhas em suas viagens a linha de frente. Para eles era muito fatigante, pois “o general não parava”.

O general Mascarenhas de Morais recebendo frutas de uma camponesa italiana
O general Mascarenhas de Morais recebendo frutas de uma camponesa italiana

A reportagem de 1949 não comenta nada disso, mas devido à atividade a qual Adão e Luís estavam designados, acredito que eles não entraram efetivamente em combate contra as forças nazifascistas.

Até porque ao general Mascarenhas cabia à função de comandar sua tropa, recebendo ordens do general norte-americano Mark Clark, então comandante do 5º Exército, força militar aliada a qual a nossa FEB estava subordinada na Itália. Não cabia ao general comandante da Força Expedicionária Brasileira se expor desnecessariamente as balas inimigas, ou arriscar uma desastrosa captura e criar sérios entreveros a participação brasileira naquele cenário.

A VERSÃO DOS CRIMINOSOS PARA A IMPRENSA 

Em meio a estas andanças, em um dia de folga, segundo eles “Lá pelos lados de Porretta”. Informaram também que passaram dos limites no consumo de álcool, que era franco e facilmente encontrado. Alterados pela bebida, os dois rapazes se sentiram estimulados a procurarem mulheres e saciarem suas vontades sexuais.

Capa da Revista da Semana onde está a reportagem sobre o caso - Fonte - BN
Capa da Revista da Semana onde está a reportagem sobre o caso – Fonte – BN

Na reportagem da “Revista da Semana”, Adão e Luís comentam que a miséria na Itália era intensa e a fome grassava impiedosamente entre os seus habitantes. Premidas pela necessidade, segundo os dois pracinhas, as moças italianas davam preferência aos soldados norte-americanos, mais ricos e com mais comida.

Afirmaram que havia uma casa onde eles sabiam que havia “jovens italianas” que saiam com soldados da U.S. Army. Alterados e encorajados pela bebida, os dois brasileiros foram em busca das jovens, desejosos de receberem os mesmos favores que eram dispensados aos estadunidenses.

Tropas americanas junto a população civil italiana durante a Segunda Guerra
Tropas americanas junto a população civil italiana durante a Segunda Guerra

Na matéria os dois soldados pareceram ficar particularmente irritados com a atitude dos soldados gringos, que passavam acintosamente na frente dos militares brasileiros, levando mais de uma destas mulheres. Percebe-se que eles tinham uma certa inveja dos americanos.

A reportagem não diz o número exato de mulheres que estavam no local, mas informa que os dois soldados brasileiros entraram na casa a noite, armados de submetralhadoras.

Surpresas, as italianas não tiveram como reagir e durante meia hora os brasileiros praticaram várias sevícias contra elas.

Enquanto um montava numa das vítimas o outro ficava de guarda. Nisso Luís ouviu um barulho, saiu para ver o que ocorria e percebeu o vulto de um homem que se aproximava. Em meio gritaria que se formou, ele apagou as luzes do recinto e metralhou a estranha figura.

Os dois soldados brasileiros fugiram pela praça principal deste lugarejo próximo a cidade de Porreta e correram por mais de meia hora, até terem a certeza que não eram perseguidos.

Aqui vemos Luís, Adão e o jornalista Hélio Fernandes
Aqui vemos Luís, Adão e o jornalista Hélio Fernandes

Ao repórter da “Revista da Semana”, Hélio Fernandes, Adão e Luís afirmaram que logo o comentário do ocorrido no lugarejo italiano foi intenso. Em pouco tempo o pessoal do pelotão da Polícia do Exército incorporada a FEB, comandado pelo 1º tenente José Sabino Maciel Monteiro, estavam recebendo informações sobre a situação e os dois militares foram capturados.

A VERSÃO DA JUSTIÇA MILITAR 

A reportagem da “Revista da Semana” é muito falha em termos de detalhes, além de extremamente tendenciosa, que pudesse esclarecer mais sobre este assunto. Mas no trabalho de conclusão de curso realizado em 2003, pela historiadora Carolina Mendes Pereira, da Universidade Federal do Paraná, e intitulado “Delitos sexuais cometidos pelos soldados brasileiros em campanha na Itália durante a Segunda Guerra Mundial: do estupro e homicídio ao indulto” (ver http://www.historia.ufpr.br/monografias/2002/carolina_mendes_pereira.pdf) e no próprio  Boletim do Exército nº 13, de 31 de março de 1945 (páginas 948 a 953), nos excertos do Parecer n. 8 da Procuradoria Geral (transcritos no blog http://froilamoliveira.blogspot.com.br/2011/10/condenado-morte.html), encontramos informações bem mais detalhadas sobre o caso.

Adão em sua cela
Adão em sua cela

Os dois brasileiros confessaram, segundo o Boletim do Exército, “friamente e com abundância de detalhes” que o fato ocorreu na pequena aldeia medieval de Madognana, distante quase quatro quilômetros da comuna de Granaglione, província da Bolonha, na região italiana da Emilia-Romagna, nordeste daquele país e não muito distante da cidade de Porretta-Termi.

Segundo o trabalho de Carolina Mendes Pereira, os soldados avistaram a vítima, a menor Giovanna Margelli, com 15 anos de idade, por volta das 16 horas, enquanto esta passeava pela rua acompanhada da jovem Vittoria Mendola. Os pracinhas brasileiros seguiram as duas garotas até a casa em que Giovanna estava hospedada e onde ambas haviam entrado.

Quadro típico de uma localidade italiana da região próxima a Magdonana, onde ocorreram os crimes
Quadro típico de uma localidade italiana da região próxima a Magdonana, onde ocorreram os crimes

Inicialmente a dupla se limitou a agradar as pessoas que ali estavam, oferecendo um pedaço de chocolate e dirigiram algumas poucas palavras. De forma vil e dissimulada declararam que não tivessem medo “pois os brasileiros eram bons”, fizeram mais alguns comentários e se retiraram, afirmando que iriam entrar em serviço.

“QUERIA PEGAR A MULHER”

Ao Boletim do Exército informaram que logo após o jantar muniram-se de metralhadoras portáteis e dirigiram-se a casa onde já haviam estado à tarde, em procura de uma mulher, que segundo informaram lhes “tinha feito cara feia”.

Luís acompanhando as notícias na cadeia
Luís acompanhando as notícias sobre as praias cariocas

Na noite de inverno rigoroso os soldados entraram na casa de número 231, às 20h30 de 9 de janeiro de 1945, “movidos por intuitos que não deveriam ser de natureza nobre”, pois seguiram para o seu intento utilizando o chamado “passa montanha”, gorro com abertura apenas nos olhos.

Neste segundo momento naquela casa, os moradores convidaram-nos a entrar e a aquecer-se junto ao fogo, talvez esperançosos de receber alguma migalha que lhes mitigasse a fome. Encontraram na residência Giovana, a prima Tonina, de 23 anos, o filho de Tonina, Ferdinando, de 3, os primos Stefano, de 20, e Giuseppe, de 14, e a avó doente, Maria Rita.

A seguir Adão Damasceno disse a Luís Bernardo que era melhor apagar a luz de uma lamparina a querosene dizendo “Vamos apagar a luz de uma vez para pegar a mulher no escuro”, esta era Giovanna Margelli. Consta no Boletim do Exército que Luís repetiu a ordem de apagar a luz para Stefano, mas o rapaz não entendeu. O soldado da FEB então deu uma rajada de metralhadora que destruiu a lamparina e todas as pessoas, menos Giovanna, fugiram atemorizadas. Adão conduziu a jovem para o quarto e passou a saciar os seus “instintos carnais”.

Adão com um companheiro de cadeia
Adão com um companheiro de cadeia

Para facilitar a conclusão deste crime covarde, Luís ficou de guarda em uma porta onde ficava de olho no movimento fora do recinto.

Certamente alertado pelos disparos e pelo terror transmitido por quem conseguiu fugir, Leornado Vivarelli, de 57 anos, tio da jovem que estava sendo estuprada, veio em seu auxílio completamente desarmado. Ao ser visto pelo soldado brasileiro este não pestanejou e disparou uma rajada de balas que atingiu o idoso no pescoço e no ouvido. Após o assassinato Luís gritou: “Apressa-te (Adão) que já matei um homem”.

Stefano sustentou outra versão. Afirmou que ouviu o soldado gritar: “Andare via (vá embora)!”. “Após uns segundos, ouvi a descarga de metralhadora. Depois, o silêncio.

No depoimento os soldados disseram que, à exceção de Giovanna, todos “fugiram”. O jovem Giuseppe deu outra versão. Relatou que foi trancado no banheiro por Luiz Bernardo e depois empurrado a um quarto, onde foi obrigado a pular da janela. O soldado ainda teria disparado, sem acertá-lo. Todos relataram que Adão agarrou Giovanna. Ela pediu socorro a Stefano, que alegou nada ter feito por estar desarmado.

Em meio a confusão os soldados inverteram os papéis. Adão foi fazer sentinela. Luiz Bernardo seguiu para o quarto, onde passou meia hora com Giovanna. Depois, disse a Adão que a havia violentado. Mas admitiu em depoimento, versão confirmada pela jovem, que estava embriagado e não conseguiu praticar o ato. Mentiu por “amor-próprio”, ressaltou o auditor do inquérito – uma junta médica da FEB confirmou, sete dias depois, a violência praticada por Adão. Aos médicos, Giovanna disse que foi “tomada pelo terror”.

Após isso os soldados voltaram para o acampamento de sua unidade. Na saída de Madognana, Luiz Bernardo deixou cair um cachecol e uma lanterna e Stefano os achou.

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Soldados norte-americanos da 34º Divisão de Infantaria, conhecida como “Divisão Red Bull”, junto a uma jovem italiana.

Já no dia seguinte o irmão de Leonardo Vivarelli vai ao encontro de oficiais da FEB e apresenta uma queixa dos crimes praticados. Ele entregou no Quartel-General da 1.ª Divisão de Infantaria Expedicionária, em Porreta Terme, cidade cercada por montanhas controladas pelo exército nazista, os materiais encontrados por Stefano. Detidos, os acusados confessaram tudo e eles são prontamente presos pela Polícia do Exército.

Embora ressalte a embriaguez, forma de evidenciar o desrespeito às normas militares, o processo destaca que o crime ocorreu logo após o jantar, não deixando claro quando e quanto tomaram de vinho.

Ouvido no inquérito como testemunha, o cabo Renan Alves Pinheiro disse que, na tarde do dia do crime, os dois soldados na verdade perseguiram Giovanna pelo vilarejo. Perguntados se podiam justificar sua inocência, Adão e Luiz Alberto ficaram em silêncio. O advogado deles, 2.º tenente Bento Costa Lima Leite de Albuquerque, chegou a afirmar que não houve crime doloso pois Giovanna não teria reagido.

Os dois soldados foram celeremente julgados pela justiça militar brasileira, que na época possuía o Conselho Supremo de Justiça com sede em Nápoles. O auditor do inquérito, tenente-coronel Eugênio Carvalho do Nascimento, condenou os dois à morte por matar um homem para garantir violência carnal. Consta que os dois envolvidos possuíam históricos que registravam prisões por embriaguez e saídas sem autorização do quartel.

Na reportagem publicada no jornal paulistano O Estado de São Paulo, edição de domingo, 25 de agosto de 2012, comemorativa aos 70 anos da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o repórter Capixaba,  Leonencio Nossa, atualmente trabalhando na sucursal de Brasília do jornal O Estado de São Paulo, informa que uma dezena de estupros foram praticados por pracinhas na Itália. Mas apenas o caso de Adão e Luiz Bernardo foi julgado devido aos assassinatos. O jornalista não aponta detalhes.

O Gen. Morais (centro) junto a oficiais aliados - Fonte - FGV-CPDOC
O Gen. Morais (centro) junto a oficiais aliados – Fonte – FGV-CPDOC

Desde o dia 6 de novembro de 1944, quase quatro meses após a chegada da FEB na Itália, o Quartel-General do general Mascarenhas estava na pequena cidade de Porretta-Termi. Deste ponto o bravo general comandou o primeiro dos cinco ataques que iriam tomar Monte Castelo dos alemães, fato ocorrido somente em 21 de fevereiro de 1945. Como estes dois homens faziam parte da guarda do general Mascarenhas de Morais, imagino o quanto deve ter sido difícil para o comando da FEB, em meio aos inúmeros problemas relativos aos combates de Monte Castelo, saber que dois membros da sua guarda pessoal estavam envolvidos em homicídio e estrupo.

PENA CAPITAL

Segundo o trabalho da historiadora Carolina Mendes Pereira, no caso dos soldados Adão e Luís, o crime de estupro por eles cometidos estava descrito nos artigos 192 e 312 do Código Penal Militar vigente em 1944, isto é, código das normas aplicadas aos crimes cometidos na guerra.

Os artigos acima mencionados apontam que:

Art. 192. Constranger mulher a conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça: Pena – reclusão, de três a oito anos.

Art. 312. Praticar qualquer dos crimes de violência carnal previstos nos arts . 192 e 193, em lugar de efetivas operações militar: Pena – reclusão, de quatro a doze anos.

Parágrafo único. Se da violência resulta:

Lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão, de oito a vinte anos;

Morte: Pena – morte, grau máximo; reclusão de quinze anos, grau mínimo.

A historiadora aponta que no caso da execução da pena capital em crimes militares ocorridos em tempo de guerra, a pena seria realizada através do fuzilamento do culpado. Se ela é imposta em zona de operações de guerra, pode ser imediatamente executada, quando exija o interesse da ordem e da disciplina militar.

Artilheiros da FEB na Itália. Todos os soldados brasileiros estavam sujeitos a rígidos códigos militares
Artilheiros da FEB na Itália. Todos os soldados brasileiros estavam sujeitos a rígidos códigos militares

Carolina Pereira mostra que um total de 66 sentenças foram proferidas contra militares brasileiros da FEB, sendo que metade foi lavrada na Itália e outra metade no Rio de Janeiro. Das 33 condenações conhecidas na Itália, duas foram proferidas em Pisa, 14 em Pistóia, sete em Pavana, duas em Vignola e oito em Alessandria. A primeira destas condenações ocorreu em Pisa, em 2 de outubro de 1944.

Já em relação ao caso aqui comentado, a historiadora aponta que pela justiça militar, Adão e Luís deveriam ter sido sumariamente fuzilados na própria frente de combate.

Pelotão de fuzilamento americano, executando um colaboracionista dos alemães
Pelotão de fuzilamento americano, executando um colaboracionista dos alemães

Na análise dos documentos do processo, percebe-se no texto de um dos votos dos membros do Conselho Supremo de Justiça Militar, que a execução da pena de morte destes dois elementos na frente de combate era aceita. Vemos isso claramente no Diário de Justiça, Ano XX, março de 1945 – Sentença de Pena de Morte em tempo de Guerra, apelação nº 21, da 2º auditoria militar da 1º D. I., cujo relator, o general Boanerges Lopes de Souza, assim se pronunciou em 6 de março de 1945:

“Votando, como voto, pela confirmação da sentença, defendo a honra do Exército e a própria civilização brasileira. Não fossem os embaraços opostos pela moderna legislação, estou certo de que o comandante das forças brasileiras na Itália teria, com grande proveito para a boa ordem de suas tropas, feito fuzilar, sem quaisquer delongas, esses criminosos.”

SOFRIMENTO DAS MULHERES NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

O hediondo crime de estrupo durante a Segunda Guerra Mundial foi quase um lugar comum em todas as frentes de combate, praticado por todos os envolvidos no conflito e pouco apresentado nos filmes de guerra estrelados por John Wayne e companhia.

Nas guerras as mulheres civis normalmente se tornam alvos fáceis para diversas práticas de violências
Nas guerras as mulheres civis normalmente se tornam alvos fáceis para diversas práticas de violências – Fonte – AP Photo

Segundo o site progettolineagotica.blogspot.com (http://progettolineagotica.blogspot.com.br/2009/06/stupro-di-guerra-lonu-scopre-una-nuova.html ), entre 1943 e 1945 as normalmente belas mulheres italianas foram duramente atacadas em seu país.

Na região onde existia o setor de defesa alemão denominado “Linha Gótica”, em seis meses do ano de 1944, em particular em torno Marzabotto, bem como nos Apeninos, Ligúria e Piemonte, foram registrados 262 casos de estupro realizados pelos chamados de “Mongóis”, os desertores soviéticos de origem asiática, que passaram a servir no exército alemão.

Mas as italianas, tal qual a mulher atacada pelos brasileiros Luís e Adão, sofreram igualmente nas mãos de tropas aliadas. Segundo este site, entre 15 e 17 de maio de 1944, os soldados coloniais franceses que chegaram à cidade de Esperia, antiga sede da 71º Divisão de Infantaria da Wehrmacht (Exército Alemão), protagonizou o estupro contra muitas mulheres que chocou os comandantes aliados.

Está mais do que marcado no imaginário popular como os russos tyrataram as alemãs em 1945. Mas muitos apontam que eles apenas repetiam o que as tropas de Hitler haviam protagonizado com as russas
Está mais do que marcado no imaginário popular como os russos trataram as alemãs em 1945. Mas muitos apontam que eles apenas repetiam o que as tropas de Hitler haviam protagonizado com as mulheres russas

Até mesmo nas forças armadas norte-americanas houve inúmeros destes casos. A maioria das ocorrências de pena de morte envolvendo tropas americanas durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu devido a estupros ou assassinatos contra mulheres, a maioria delas alemães.

De acordo com documentos no Arquivo Nacional daquele país, só no teatro de guerra europeu, o exército dos Estados Unidos executaram 70 dos seus próprios soldados à morte, a maioria pela forca. O número total de soldados americanos executados em todas as frentes de combate durante aquele conflito foi de 141 militares.

Corpo do soldado americano Eddie Slovik sendo retirado após seu fuzilamento
Corpo do soldado americano Eddie Slovik sendo retirado após seu fuzilamento. Sua condenação foi por deserção

Para os americanos a desonra envolvida nestes casos era uma coisa era tão séria, que aqueles que foram executados estão enterrados fora de seus vários cemitérios militares. As autoridades militares se recusaram a dar a estes criminosos o privilégio de serem enterrados ao lado dos que caíram em combate.

Um caso típico envolve o estupro de uma mulher italiana na Sicília. Quatro membros de uma unidade de soldados negros que havia desembarcado na invasão daquela ilha italiana em 9 de Julho de 1943,  entraram uma tarde na pequena aldeia de Marretta, perto da cidade de Gela. Lá David White, Armstead White, Harvey L. Stroud, e Willie A. Pitman, estupraram e surraram seriamente uma mulher italiana diante de seus familiares. Mais tarde todos os quatro foram julgados e condenados por estupro. Em pouco mais de um mês todos quatro militares foram sumariamente executados por enforcamento.

DE VOLTA AO BRASIL

Mas voltando ao caso dos brasileiros Adão e Luís. Consta que estes foram enviados para uma prisão em Roma, destinada a receber os sentenciados a morte pelas forças aliadas e ali aguardaram o destino.

O ex-pracinha Luís, diante da imagem de sua santa padroeira, Nossa Senhora das Graças
O ex-pracinha Luís, diante da imagem de sua santa padroeira, Nossa Senhora das Graças

Segundo os dois condenados, teria sido um “Cardeal”, do qual não é citado o nome, que conseguiu transformar a pena dos dois brasileiros em 30 anos de prisão. Não encontrei nada que corroborasse esta afirmação da entrevista feita pelo jornalista Hélio Fernandes, mas é certo que eles não morreram diante de um pelotão de fuzilamento.

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Relação dos militares sentenciados da FEB, trazidos no navio Pedro I
Relação dos militares sentenciados da FEB, trazidos no navio Pedro I

Em julho de 1945 os dois foram então embarcados no navio brasileiro Pedro I, junto com outros 900 pracinhas. Durante a travessia oceânica eles ficaram sob a guarda da Polícia do Exército, que além dos soldados Adão e Luís custodiavam outros 54 condenados. Constavam da lista um segundo tenente dentista, um suboficial, um sargento, três cabos e os outros eram soldados (ver a relação completa acima, retirada do jornal carioca “Correio da Manhã”, pág. 9, edição de quarta feira, 25 de julho de 1945).

Segundo a historiadora Carolina Pereira, em 3 de dezembro de 1945, o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto 20.082, que concedeu indulto a todos os integrantes da FEB que cometeram crimes durante a Segunda Guerra Mundial, excluindo os crimes de natureza gravíssima ou infamante, como os praticados por Adão e Luís.

Já no Rio de Janeiro os dois passaram a cumprir os 30 anos de pena na então conhecida Penitenciária Central do Distrito Federal, antiga Casa de Correção, que em 1957 seria batizada como Penitenciária Lemos de Brito.

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Segundo a reportagem Adão e Luís tinham bom comportamento, eram respeitados pelos companheiros de cadeia e não criavam problemas para o Diretor Castro Pinto. Como mostra de boa conduta naquele recinto penitenciário, ambos possuíam um distintivo no formato de estrela que envergavam no peito

Em 1949 eles aguardavam um indulto presidencial, que havia sido positivamente recomendado pelo Conselho Penitenciário do Distrito Federal . Mais tarde o processo de indulto restituiu a liberdade aos ex-pracinhas.

Após deixar qualquer prisão, após o cumprimento de qualquer pena imposta, o antigo sentenciado está livre para conviver novamente com a sociedade. Mas no caso destes homens, aparentemente o fardo foi muito grande.

Segundo a reportagem de Leonencio Nossa, os dois ex-soldados da FEB morreram na década de 1990. Consta que Adão vivia solitário, andava em dificuldades. Anos depois da guerra, foi acusado de furto. Na audiência, o juiz perguntou se já havia sido processado. “Fui condenado à morte.” O juiz se assustou: “Que história é essa? Brasil não tem pena de morte”.

CONCLUSÃO

A historiadora Carolina Pereira aponta que a guerra não produz só heróis. Os conflitos constroem e desmascaram monstros, embalam pesadelos, dão visibilidade à parte mais vil e desumana do ser humano.

As guerras não são apenas constituídas de batalhas, mas, também, de incessantes horas de espera e vigília dos atores, direta ou indiretamente, no front, remete à possibilidade da existência de um convívio social.

Adão junto a São Jorge
Adão junto a São Jorge

Os combatentes interagem não só dentro do próprio corpo do exército, mas também com a população local onde estão alojados. Pode-se dizer que nestes cenários são travadas outras batalhas em que tais populações recebem o rebatimento das condições físicas e emocionais dos militares. Para a historiadora a população civil também é vítima do estado de guerra.

Joel Silveira na FEB
Joel Silveira na FEB

O falecido jornalista Joel Silveira, correspondente de guerra brasileiro na Itália, deixou registrado em um recente documentário produzido pelo repórter Geneton Moraes Neto, que na retaguarda as brutalidades podem ser piores do que na frente de combate. E realmente ele tinha razão. Naqueles dias em solo italiano o ato sexual era mercadoria de troca, pois a miséria e a devastação causada pela guerra fizeram com que a população local trocasse o corpo por comida e proteção.

Sabemos que todas as instituições militares em combate estão sujeitas a possuírem em suas fileiras, por mais que existam ótimos critérios de seleção, as chamadas “maçãs podres” e no caso da FEB não foi diferente. Mas percebemos, ao remeter-se a realidade enfrentada pelos soldados brasileiros em solo italiano, que a incidência de crimes de violência sexual no meio de nossa tropa pode ser considerada pequena.

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A PINTURA E A VIDA DE VAN GOGH

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Autor –  Almandrade

Ai, ai, as pinturas mais belas são as que sonhamos deitados na cama, fumando um cachimbo, mas nunca pintamos.” 

Vincent Van Gogh

Uma vida curta e conturbada para uma longa biografia de mais de mil páginas, Van Gogh, filho de pastor, depois de fracassar em tudo que tentou fazer, decidiu ser pintor. Um pintor também “fracassado”, ou melhor incompreendido pelo seu tempo, cuja obra imensa e invejável que construiu em sua rápida existência penosa e turbulenta, vem inquietando e provocando as gerações posteriores. O livro escrito por Steven Naifeh e Gregory White Smith, é uma das biografias mais extensas e completas de um artista que se tornou um mito da arte moderna. Do nascimento do pintor à sua morte aos trinta e sete anos, os autores vasculharam a vida de um navegante solitário, remando sempre contra a correnteza.

A biografia de um artista não explica, nem justifica sua obra, mas elas se comunicam, diria o filósofo francês Merleau-Ponty. Em se tratando de Van Gogh e sua vida difícil, com episódios trágicos, é possível ver uma relação estreita entre sua obra e o modo como viveu. Mesmo com todas as dificuldades não desistiu da ilusão de ser pintor. Desde a infância com um olhar desconfiado sobre o mundo, crises de raivas, caminhadas solitárias por lugares distantes, quem sabe para distanciar-se de tudo e de todos. Criado num ambiente religioso, protegido dos excessos do pecado, privado de emoção e cor, criou um mundo colorido e emotivo como meio de transgressão.

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Uma vida que colecionava infelicidades, zombarias e desafetos, buscava encontrar na arte o que não via na vida. Talvez o mais deprimido dos artistas, mas com uma produtividade incansável, como se estivesse sublimando na tela a infância não vivida e as emoções reprimidas. Ariscou a vida no trabalho da pintura, produziu como um louco mas sem perder a razão, indispensável ao ofício de pintor, “dedico-me a minhas telas com toda a minha mente”, escreveu para o irmão Theo. Acrescentou ao mundo a verdade da pintura.

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Tinha um único amigo, confidente, incentivador e responsável pelo seu sustento, com quem se correspondia e também tinha atritos, o irmão mais novo, Theo. Sem negar a rivalidade familiar, Theo era o filho que deu certo, tinha profissão, ajudava no sustento da família, tinha uma vida correta dentro do esperado nos padrões da classe média. Van Gogh era o contrário, com sua pintura ridicularizada pelos seus contemporâneos, desprovidos de informações para compreendê-las, sem aceitação no mercado. Quanta aflição. Somente mais de cinco anos depois de sua morte é que veio a ser reconhecido e celebrado.

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Queria pintar o que via, mas via o que pintava. Uma pintura de uma força irresistível, cor firme, céu agitado, uma forma particular de ver as coisas e a paisagem. Vida e obra se misturavam, o temperamento rebelde do artista, diagnosticado com várias enfermidades, – entre elas esquizofrenia, – desentendimentos, crises existenciais, a amizade tumultuada com Paul Gauguin, amputação da orelha, até a morte trágica, reavaliada no livro. Os autores descartam a hipótese, mais conhecida, de suicídio do pintor. Com um inventário de provas, acreditam em assassinato acidental. Com base em laudos médicos, que informam que a arma do crime foi disparada de certa distância do corpo, declaração do próprio artista que achava o suicídio “uma covardia moral” etc. Um crime misterioso, sem testemunha e sem o local exato do disparo, que até a arma desapareceu, mas não tão misterioso quanto a sua arte.

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Suicídio ou assassinato? Longe de mim de tomar partido, não sou advogado nem perito criminal. As condições precárias em que viveu numa sociedade hostil contribuíram, sem dúvida, para o final brutal, por um ferimento de bala na parte superior do abdômen. Mas de uma coisa ninguém duvida, da fascinação e da certeza de sua pintura que muito acrescentou à história da arte. Uma obra inquestionável que ultrapassa os acidentes da vida. Quantos artistas na história viveram à margem do sistema social, com uma vida pouco digna e construíram uma obra que sensibiliza gerações.

O livro faz uma revelação importante, a meu ver, para o meio de arte, hoje em dia, recheado de qualquer coisa e sintomas culturais. Os autores mostram um Van Gogh com uma sólida formação cultural, leitor e frequentador de museus, reflexivo, que planejava suas telas antes de realizá-las e as pintava na mais plena lucidez. “Chamam um pintor de louco se vê as coisas com olhos diferentes dos deles,” dizia nas suas correspondências para Theo. Sua pintura não era obra do acaso ou da loucura, cada gesto, cor e pincelada eram a manifestação de um pensamento.

imagesA problemática e a ambígua relação entre arte e loucura vem à tona. Um artista que passou temporadas internado num abismo moderno chamado hospício, nos últimos anos de sua vida, onde a liberdade humana é restrita, nos deixou uma experiência artística longe do estado de loucura. Através da arte Van Gogh escorregou da psicose, a sua pintura, se nasceu na angústia pessoal, a realidade foi transformada a partir da vontade consciente de um sujeito.

É quase impossível a compreensão da vida humana sem a presença da arte, a irracionalidade está presente na estrutura interna da obra de arte, nos adverte o filosofo alemão Heidegger. Até mesmo a pintura de uma visualidade racional, como a de um Mondrian, não deixa de ser um fenômeno irracional. A suposta loucura na arte de Van Gohg é perfeitamente reconhecida e apreendida em nosso mundo racional.

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Se contemplamos nas suas telas paisagens, retratos, campos de trigo, girassóis, corvos, é um problema nosso. Ele fez apenas pintura e por isso nos inquieta até hoje e vai inquietar muitas gerações enquanto a arte existir. Se os autores dedicaram dez anos para escrever esta biografia é porque o seu personagem se entregou ao mundo para transformá-lo em pintura. Lembrei-me de Paul Valery. Van Gogh sabia o que estava pintando e para isso ele precisava não só de telas, tintas e pincéis; precisava também da razão e da imaginação.

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

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Livro – VAN GOGH – A VIDA

Steven Naifeh e Gregory White Smith

Trad: Denise Bottmann

São Paulo: Companhia das Letras, 2012

VENDETA AMERICANA – A GUERRA ENTRE AS FAMÍLIAS HATFIELD E McCOY

O clã Hatfield pronto para a guerra, até as crianças pegavam em armas
O clã Hatfield pronto para a guerra, até as crianças pegavam em armas

UMA ANTIGA LUTA DE FAMÍLIAS NOS ESTADOS UNIDOS, COMO OS AMERICANOS FATURAM COM ISSO E O QUE A CIDADE DE MOSSORÓ TEM A VER COM ESTA HISTÓRIA

Autor – Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

No Brasil é comum associar as fratricidas brigas de entre clãs familiares como sendo uma prática basicamente entre nordestinos. Lerdo engano, pois brigas entre famílias, daquelas que deixaram (e que infelizmente ainda deixam) a terra bem encharcada de sangue não é uma exclusividade nordestina de forma alguma. Outros podem imaginar que este tipo de conflito é coisa típica dos povos latinos, que possuem sangue quente. Valendo isso tanto para os europeus do sul, como para seus descendentes que vivem abaixo da linha do equador, aqui pelas Américas.

Esse é outro engano. As brigas de famílias ocorreram (e ainda ocorrem) em várias partes do mundo. Basta inserir no contexto a fraca atuação do poder judiciário, um naco de corrupção, associada a questões de honra, luta por terras, exploração de recursos naturais, ampliação de poder político e inúmeros outros fatores que as mortes logo ocorrem.

Randolph "Randall" or "Ole Ran'l" McCoy, chefe do clã McCoy na Luta
Randolph “Randall” or “Ole Ran’l” McCoy, chefe do clã McCoy na Luta

Nos Estados Unidos, na última metade do século XIX, a luta entre os clãs Hatfield e McCoy entrou para o imaginário desta nação. Até hoje, a simples menção de seus nomes desperta visões de uma briga de família sem lei e totalmente inflexível. Para os americanos, os nomes Hatfield e McCoy evocam cenas de armas em punho, parentes que teimam em defender os membros de seus grupos familiares, inflamando ressentimentos amargos que abrangem gerações.

A rivalidade entrou para o folclore americano como figura de metonímia para qualquer luta amarga entre partidos rivais e um símbolo para as questões de honra de família, a justiça e vingança. A luta até hoje é relembrada em várias formas de entretenimento, incluindo livros, músicas e filmes de Hollywood. Recentemente uma série televisiva trouxe novamente o tema para as telinhas.

Mas afinal quem eram os Hatfields e McCoys? Qual foi a origem desse conflito cruel? E o que ficou disso?

Quem eram, onde viviam, o que faziam…

É aceito por grande parte dos pesquisadores nos Estados Unidos que esta briga durou de 1863 a 1891, envolvendo a família Hatfield, do estado da West Virginia, e os McCoy, do Kentucky. Todos habitavam as respectivas fronteiras de seus estados, separados pelo Rios Tug e Big Sandy. Os Hatfields de West Virginia habitavam o Condado de Logan e eram liderados por William Anderson Hatfield, conhecido como “Devil Anse”, enquanto os McCoys vivam no Condado de Pike County, no Kentucky e estavam sob a liderança de Randolph McCoy.

Área geográfica onde ocorreu o conflito
Área geográfica onde ocorreu o conflito

Os pesquisadores americanos apontam que os Hatfields eram mais ricos do que os McCoys e possuíam fortes ligações com os meios políticos. Apesar de não possuir uma condição financeira tão próspera, Randolph McCoy tinha uma boa propriedade e gado. Para outros pesquisadores os dois clãs familiares eram na verdade concorrentes na indústria madeireira, que também contribuiu para o seu desgosto mútuo. Como consequência da briga, diz-se que ambas as famílias perderam muito de sua riqueza, mas durante a luta e muito antes, as famílias foram bem sucedidas e eram considerados membros respeitáveis em suas comunidades.

Os Hatfield trabalhavam principalmente com a extração de madeira, mas eles empregavam muitos membros da família McCoy em seus negócios. Consta que neste conflito a lealdade familiar foi muitas vezes determinada não apenas pelo sangue, mas pelo emprego e pela proximidade entre as pessoas. Pois membros das duas famílias em luta já se misturavam através de casamentos antes da briga se iniciar.

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William Anderson Hatfield, conhecido como “Devil Anse”

O Fator Guerra Civil

Os McCoy eram descendentes de irlandeses e os Hatfields são originários da Inglaterra e durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) a maioria dos membros destes clãs familiares lutaram pela Confederação, ou seja, pelos estados do sul, liderados pelo general Robert E. Lee. Eram aquelas tropas que aparecem nos filmes de Hollywood com um desbotado uniforme cinza e foram os derrotados neste terrível conflito entre irmãos de uma mesma nação.

Porta retrato com um soldado Confederado
Porta retrato com um soldado Confederado

Dizem que toda família tem sempre um dos seus membros que dá na cabeça a ideia de ser diferente. Isso aconteceu com Asa Harmon McCoy, que não sei o porquê decidiu servir nas tropas da União, os exércitos dos estados do norte, comandados pelo general Ulysses S. Grant, que usavam uniformes azuis e foram os vencedores.

O fim da Guerra Civil não significou uma paz imediata e muitos ressentimentos pairavam no ar.

Muitos ex-soldados Confederados que não foram feitos prisioneiros, passaram a perseguir qualquer um ex-soldado da União que estivessem de uniforme azul, de preferência em menor número e desarmados.

Muitos ex-soldados eram viajantes, que ao passar nas terras do sul eram caçados impiedosamente e a violência era real. Na região de fronteira entre West Virginia e Kentucky, um grupo de ex-soldados sulistas, que se autodenominavam “Logan Wildcats”, praticavam esses atos de covardia gratuita contra antigos membros da União e os ânimos se acirraram com posteriores investigações realizadas pelas autoridades.

Asa Harmon McCoy
Asa Harmon McCoy

Asa Harmon McCoy havia sido dispensado do exército nortista por causa de uma perna quebrada. Ele voltou para sua casa e logo recebeu um aviso que poderia esperar uma visita dos Wildcats. Assustado, Harmon se escondeu em uma caverna e alimentos eram levados até ele pelos seus familiares. Mas os Wildcats descobriram o seu esconderijo e o mataram em 7 de janeiro de 1865.

De início recaiu sobre William Hatfield a suspeita de participação neste crime, mas depois foi confirmado que ele estava doente em sua casa. Acreditava-se amplamente que o seu tio Jim Vance, um membro dos Wildcats, estava entre os que mataram Harmon. O interessante é que Jim Vance sequer participou da Guerra Civil como soldado Confederado.

Eventualmente o caso foi deixado de lado e nenhum suspeito foi levado a julgamento.

Um Porco Participa da Briga

Embora alguns pesquisadores do conflito tenham a ideia que a morte de Asa tenha iniciado a famosa briga, a maioria dos historiadores aponta este incidente como um evento independente. Tanto que depois da morte de Harmon, o clã McCoy não retaliou.

Acreditasse que isso ocorreu por que parte da família McCoy não aceitava o fato de Asa Harmon McCoy haver servido na União e que esta decisão fatalmente lhe trouxe consequências.

As relações entre as duas famílias começou a azedar de verdade 13 anos depois e tudo teve início com uma questão aparentemente pequena: a disputa de um porco.

Floyd Hatfield já na velhice
Floyd Hatfield já na velhice

Randolph McCoy acusou Floyd Hatfield, um primo de William Hatfield, de roubar um de seus porcos, uma mercadoria valiosa em uma região pobre. Os Hatfields alegavam que o animal lhes pertencia por se encontrar em suas terras. Já os McCoys opuseram, dizendo que as certas marcas existentes nas orelhas do gordo quadrupede eram tradicionalmente feitas por eles.

Esta questão tão besta e ridícula acabou em um julgamento. Este ocorreu em território McCoy, mas foi presidida por um primo de William Hatfield, o Juiz de Paz Anderson Hatfield. É chamado para depor como testemunha Bill Staton, um parente dos McCoy, mas casado com uma Hatfield. Para complicar o meio de campo, Staton testemunhou em favor Floyd Hatfield e os McCoys ficaram furiosos quando este foi absolvido das acusações que pesavam contra ele.

Dois anos depois, mais precisamente em junho de 1880, Staton foi violentamente morto em uma briga com Sam e Paris McCoy, sobrinhos de Randolph. Eles foram julgados pelo assassinato, mas foram absolvidos por razões de autodefesa.

Muitos apontam que este infame julgamento fez com as duas aguerridas famílias, que há muito tempo interagiam, vivam e trabalhavam juntas, estavam definitivamente seguindo para o caminho das armas.

Um Toque de Romance Trágico

Em uma história que mistura tantas emoções, não poderia faltar uma pitada de romance do tipo Romeu e Julieta.

Roseanna McCoy. Na recente série televisa sobre este conflito ela é apresentada como sendo loira
Roseanna McCoy. Na recente série televisa sobre este conflito ela é apresentada como sendo loira.

Poucos meses depois do assassinato de Bill Staton, em um encontro local para a realização de uma eleição, Johnse Hatfield, o filho de 18 anos de idade de William Hatfield, começou um romance com Roseanna McCoy, filha de Randolph.

De acordo com relatos, Johnse e Roseanna desapareceram por horas durante a eleição. Supostamente temendo represálias de sua família por estar entre os Hatfields, Roseanna permaneceu na residência desses por um período de tempo, atraindo a ira dos McCoys. Quando Roseanna ouviu rumores de que alguns membros da sua família tinham planos de lhe pegar a força na casa dos Hatfields, ela voltou sozinha, mas estava grávida de Johnse.

Seu pai estava tão chateado que se recusou a olhar, ou até mesmo falar com ela. Roseana foi morar com sua tia Betty McCoy. Como Johnse Hatfield continuou a visitar Roseana na casa de sua tia, aumentou a ira de sua família contra ela.

Johnse Hatfield
Johnse Hatfield

Logo este idílio de amor iria ter outros desdobramentos.

Quando o casal tentou retomar seu relacionamento, Johnse Hatfield foi preso pelos filhos de Randolph McCoy. Quando Roseanna soube que seu amado estava cativo de seus irmãos, ela seguiu de cavalo, a meia-noite, desesperada para alertar William Hatfield do fato. Este imediatamente organizou uma equipe de resgate com seus parentes. Estes cercaram o local onde os irmãos McCoy estavam e resgataram Johnse de volta para West Virginia.

Apesar de Roseanna fazer este grande favor a Johnse Hatfield, outro ato visto como uma nova traição por parte de sua família, em maio de 1881 ele a abandonou gravida e se juntou com Nancy McCoy, prima de Roseanna.

Consta que o bebê morreu com tenra idade e as atribulações ocasionadas pelas decisões de Roseanna, lhe ocasionaram um ataque cardíaco que a matou em 1889, quando tinha entre 29 ou 30 anos de idade.

Sangue no Dia da Eleição

Para muitos pesquisadores, tudo o que havia acontecido entre as famílias não significou nada diante do verdadeiro ponto de viragem desta disputa; a morte de Ellison Hatfield.

Ellison Hatfield como soldado Confederado
Ellison Hatfield como soldado Confederado

De acordo com a maioria dos registros históricos, o fato ocorreu em outro dia de eleição local, em agosto de 1882. Três dos filhos de Randolph McCoy, Tolbert, Pharmer e Bud iniciaram uma violenta briga com dois irmãos de William Hatfield. A luta logo se tornou um caos, com um os McCoy esfaqueando Ellison Hatfield 26 vezes e depois o baleando pelas costas.

A história real aponta que os irmãos McCoy foram inicialmente presos e estavam sendo levados para Pikeville, onde seriam julgados. William Hatfield organizou um grande grupo de seguidores e interceptou os policiais antes de chegarem Pikeville. Os McCoy foram levados à força para West Virginia com a intenção de aguardar o que aconteceria com o convalescente Ellison Hatfield.

Luta entre Ellison Hatfield  e os irmãos McCoy no dia da eleição
Luta entre Ellison Hatfield e os irmãos McCoy no dia da eleição

Quando este morreu, o destino dos rapazes ficou definitivamente selado.

Apesar de uma tentativa infrutífera de Sarah McCoy, a mãe dos garotos, em apelar pela vida dos filhos, chegando até mesmo a se ajoelhar diante de William Hatfield, os membros desta família amarraram os três McCoys em algumas árvores e os fuzilaram com mais de 50 tiros.

Descendentes de William Hatfield, convenientemente apontam em sites que seu antepassado comandou esta execução sumária porque ele não confiava no sistema judicial e temia que eles fossem libertados sem punição pela morte de seu irmão. Fico imaginando se essa moda pega aqui no Brasil!

Sarah McCoy clama pela vida de seus filhos. Sem sucesso
Sarah McCoy clama pela vida de seus filhos. Sem sucesso

Bom, embora os Hatfields estivessem satisfeitos com a vingança, a lei pensava de forma contrária. Logo 20 homens da família foram acusados de assassinato, incluindo William Hatfield e seus filhos.

Apesar das acusações, os Hatfields iludiram as autoridades, deixando os McCoys fervendo de raiva e indignação pelo clã rival estar livre. A questão aqui reside no fato de cada um dos 50 estados da terra do Tio Sam possuir legislação própria e os Hatfields estarem utilizando de variados artifícios jurídicos para escapar. Situação que conhecemos bem na justiça do paraíso verde e amarelo!

Neste meio tempo Perry Cline, um advogado que era casado com Martha McCoy, a viúva de Asa Harmon, abraçou a causa para a prisão dos Hatfields. Anos antes Cline havia perdido uma ação judicial contra William Hatfield, na questão da posse milhares de hectares de terra e muitos historiadores acreditam que esta foi a maneira deste advogado buscar sua própria vingança.

Fuzilamento dos irmãos McCoys
Fuzilamento dos irmãos McCoys

Usando suas conexões políticas, Cline teve as acusações contra os Hatfields revistas e logo eram anunciadas recompensas para a prisão destes.

A Luta Se Torna Conhecida do Grande Público

Para completar o desmantelo, a mídia americana “descobriu” aquela guerra nos cafundós dos Estados Unidos e o grande público começou a receber informações sobre a disputa em 1887.

Nota sobre a luta em um jornal americano
Nota sobre a luta em um jornal americano

Os jornais da época apontam os Hatfields como  violentos caipiras do sertão, que percorriam as montanhas e sempre agiam com violência. A cobertura sensacionalista plantou a semente para a rivalidade crescer na imaginação do americano comum. O que tinha sido uma história local foi se tornando uma lenda nacional.

Os Hatfields podem, ou não, ter prestado atenção a essas histórias, mas certamente prestaram muita atenção à recompensa por suas cabeças.

Em um esforço para acabar com todo aquele conflito de uma vez por todas, um grupo dos Hatfields e seus apoiadores criaram um plano para atacar diretamente Randolph McCoy e sua família.

Ataque contra a família McCoy
Ataque contra a família McCoy

Liderada por Cap, filho de William Hatfield, aliado a Jim Vance, este grupo atacou impiedosamente a casa dos McCoys no dia de Ano Novo em 1888 e atearam fogo no lugar. Randolph fugiu escapando para a floresta. O caos estourou de verdade quando Sarah McCoy e seus filhos correram para fora do seu lar. Seu filho Calvin e sua filha Alifair foram mortos após saírem da casa e Sarah foi gravemente espancada pelos Hatfields, tendo o crânio esmagado.

Poucos dias depois do que ficou conhecido como “Massacre do Ano Novo”, o caçador de recompensas Frank Phillips perseguiu Jim Vance e Cap Hatfield, matando Vance.

o caçador de recompensas Frank Phillips
o caçador de recompensas Frank Phillips

Para os descendentes de William Hatfield, este cruel ataque a casa McCoy nem foi planejado e nem perpetrado pelo chefe do clã, embora a recente minissérie mostre o contrário. Seus descendentes afirmam que na verdade ele não sabia nada sobre isso, até que o ataque aconteceu. Dizem que se ele soubesse da forma como o ataque foi realizado não teria concordado. O chefe do clã sabia que um desfecho daqueles seria o mesmo que chover o fogo do inferno sobre a sua própria casa. Mas muitos pesquisadores não acreditam nesta versão.

A Luta Cresce

Com a divulgação do massacre na casa dos McCoys, a vida dos Hatfields se tornou bem complicada.

Até 1891 a disputa acabou com a vida de uma dúzia de membros das duas famílias e pelo menos 10 pessoas ficaram feridas, tornando-se notícia de primeira página em todo o país. O conflito obrigou os governadores do Kentucky e de West Virginia a intervirem para evitar mais derramamento de sangue e manter a ordem.

Os Hatfields prontos para a luta
Os Hatfields prontos para a luta

Descendentes da família Hatfield afirmam que a Guarda Nacional foi mobilizada para controlar a briga e que o conflito foi muito mais perturbador do que o que foi retratado na recente minissérie.

Existem até mesmo nomes para as suas batalhas, como se fosse uma guerra real. Houve tiroteios nas montanhas, com os McCoys e mercenários pagos por eles utilizando explosivos na tentativa de matar os Hatfields, enquanto estes atiravam de um penhasco. Era o tipo de violência que nunca se esperaria ver fora de uma guerra real.

Em 1888, Wall Hatfield e outros oito homens foram presos por um bando de mercenários liderados pelo caçador de recompensas Frank Phillips, que trouxe todos para o Kentucky para serem julgados pelo assassinato da família McCoy durante o “Massacre do Ano Novo”.

Outra nota de jornal sobre a luta
Outra nota de jornal sobre a luta

Tal como ocorre no Brasil, quando alguém faz algo de errado e tem dinheiro para pagar advogados, os membros da família Hatfield apelaram para uma série de tribunais em busca de liberdade e para serem julgados os méritos legais do caso.

Eventualmente a questão foi encaminhada a Suprema Corte dos Estados Unidos, que decidiu que os Hatfields deveriam ser mantidos sob custódia até o julgamento final.

Este começou em 1889, e no final sete dos Hatfields e seus simpatizantes foram condenados à prisão perpétua e Ellison “Cotton top” Mounts foi condenado à morte.

Aspecto do enforcamento de Ellison Mounts
Aspecto do enforcamento de Ellison Mounts

Em 18 de fevereiro de 1890 Mounts foi enforcado em uma área onde atualmente se encontra as salas de aulas da Universidade Pikeville. Trabalhadores construíram uma cerca em torno da forca para esconder a execução dos olhares curiosos, pois nesta época as execuções públicas já não eram mais permitidas no Kentucky. Mesmo assim milhares de espectadores foram presenciar o evento.

Ellison Mounts era conhecido por ser deficiente mental e muitos viram sua condenação como um bode expiatório, apesar de ele ter confessado sua culpa. Relatórios afirmam que suas últimas palavras foram: “Eles me fizeram fazer isso! Os Hatfields me fizeram fazer isso!”.

Já o galanteador Johnse Hatfield se escondeu, mas foi preso cerca de dez anos depois. Ele foi condenado e sentenciado à prisão perpétua, mas foi posteriormente perdoado depois que salvou a vida do vice-governador de Kentucky. O fato ocorreu quando este visitava a prisão e um detento tentou matar o político com uma faca caseira.

Sempre namorador, consta que Johnse casou várias vezes após a sua libertação.

Fim da Contenda

As duas famílias pareciam concordar que após a condenação de sete Hatfields, a prisão perpétua e a execução Mounts por enforcamento, a disputa chegou ao fim.

A família Hatfield após o fim da luta
A família Hatfield após o fim da luta

Em uma primeira análise este conflito mostra duas famílias divididas através de uma linha geográfica, firmemente dedicados a seus respectivos clãs, que não pensavam duas vezes em utilizar armas para se matarem, sem um segundo de hesitação na defesa dos seus membros.

Entretanto chama atenção como durante o conflito, muitas vezes estas famílias se voltariam para a lei vigente na época, para os tribunais e para aqueles que exerciam o poder, no objetivo de atingir seus adversários.

Eles não tinham nenhum problema em apresentar uns contra os outros várias acusações criminais, onde seus nomes constam em vários processos judiciais. Estiveram tão presente nos tribunais, a ponto de suas pendências baterem as portas da instância máxima da justiça nos Estados Unidos e nesta contenda envolveram os governadores de seus respectivos estados.

Ao final desta briga de 30 anos, menos de 20 pessoas perderam a vida diretamente na disputa. Número que podemos considerar pífio se comparada a algumas lutas familiares brasileiras que ocorreram na nossa história.

Com o fim do conflito ambos os chefes dos clãs em disputa recuaram para uma relativa obscuridade.

Randolph McCoy na velhice
Uma das poucas fotos com Randolph McCoy, aqui na velhice

Randolph McCoy tornou-se um homem amargo com a idade, assombrado pelas mortes de seus cinco filhos, terminando seus dias trabalhando como um simples operador de balsa em Pikeville. Consta que falava para quem quisesse ouvir sobre seus sofrimentos nas mãos do Hatfields. Ele morreu em um incêndio caseiro em 28 de março de 1914, com a idade de 88. Ele e Sarah McCoy estão enterrados no Cemitério Dils, em Pikeville.

O chefe do clã Hatfield, que não tinha problemas em se deixar fotografar
O chefe do clã Hatfield, que não tinha problemas em se deixar fotografar

Já William Hatfield, que há muito tempo havia proclamado seu ceticismo sobre a religião, decidiu ser batizado pela primeira vez aos 73 anos. Ele viveu mais de três décadas após o fim do conflito e saboreou sua celebridade crescente. Apareceu em muitas entrevistas, se deixou fotografar várias vezes com sua família (onde a maioria aparecia armada) e deu algumas entrevistas que ajudaram a popularizar essa luta.

Túmulo de William Hatfield na década de 1940
Túmulo de William Hatfield na década de 1940

Antes mesmo de sua morte, talvez para mostrar força e prestígio, William Hatfield encomendou para ser colocado sobre seu mausoléu uma estátua sua em tamanho natural, feita em mármore de Carrara italiano.

E assim foi feito.

O Que Ficou e o Que se Ganha Disso… 

Mas como bem sabemos que por aqui tudo acaba em samba e nos Estados Unidos tudo acaba em grana, os americanos deram um jeito para faturar em cima do velho conflito.

Frankie McCoy e Shirley Hatfield, que trabalharam juntas durante a Segunda Guerra Mundial
Frankie McCoy e Shirley Hatfield, que trabalharam juntas durante a Segunda Guerra Mundial

Durante décadas as histórias de lutas entre os clãs Hatfield e McCoy circularam no imaginário popular americano e algumas vezes nas páginas dos jornais e revistas.

Em maio de 1944, uma edição da revista Life entrevistou os descendentes dos Hatfields e dos McCoys, quase 50 anos depois da violência que abalou aquela região entre o Kentucky e West Virginia. O artigo foi feito para mostrar como as duas famílias famosas viviam juntas e em paz. Foi entrevistado um bom número de descendentes sobre a rivalidade e as relações entre as duas famílias. Entre as fotografias estão a de duas mulheres jovens, Shirley Hatfield e Frankie McCoy, que trabalhavam juntas em uma fábrica que produzia uniformes militares. Era para simbolizar o efeito unificador do esforço de guerra americano no auge da Segunda Guerra Mundial.

Em 1979, as famílias foram reunidas para gravação de um programa televisivo popular na época, em que eles batalharam por um prêmio em dinheiro e um porco foi mantido no palco durante os jogos. No final deram um jeitinho, bem tipicamente brasileiro, para a disputa terminar em empate. Fico imaginando se daria certo algumas famílias brasileiras, que se envolveram em contendas bem sérias, participando de algum tipo de “game show” no Programa do Faustão ou em Silvio Santos?

Imagem atual da região do Rio Tug
Imagem atual da região do Rio Tug

Devido à popularidade da disputa no imaginário americano, não são poucos os turistas que viajam para a região a cada ano para visitar as áreas e relíquias históricas que se mantêm desde os dias da disputa.

Em 1999 um grande projeto conhecido como a “Restauração Histórica da Área  Hatfield e McCoy” ​​foi concluído. Este foi financiado com verba federal e resultou em várias melhorias na área onde ocorreu o conflito. Uma comissão de historiadores locais passou meses pesquisando várias fontes de informações para saber mais sobre a história factual dos acontecimentos em torno da disputa. Esta pesquisa foi compilada em um CD, que é vendido aos turistas, onde proporciona um passeio de carro autoguiado aos locais restaurados. O CD inclui mapas e imagens.

Descendentes das famílias Hatfield McCoy no marco histórico sobre a luta
Descendentes das famílias Hatfield McCoy no marco histórico sobre a luta

Bisnetos e tetranetos dos envolvidos organizaram em 2000 uma grande reunião com membros das duas famílias. Mais de 5.000 pessoas participaram do evento que atingiu a atenção nacional e recebeu grande destaque da mídia. Desde então o evento é realizado anualmente em junho, em um fim de semana de três dias, e inclui uma maratona e meia maratona, além de um passeio de quadriciclo. Há também um cabo-de-guerra em um afluente do Rio Tug, perto do qual as famílias rivais viveram. Ocorrem igualmente encenações das lutas mais famosas, entretenimento ao vivo, passeios ao marco histórico Hatfield-McCoy, concurso de culinária, artes, artesanato e dança. O festival atrai milhares de turistas e normalmente conta com mais de 300 corredores participando das provas.

Trilha Hatfield-McCoy
Trilha Hatfield-McCoy

Em 2002 foi criado na região uma trilha para veículos fora de estrada com 500 milhas (800 km) de extensão e denominada Trilha Hatfield-McCoy. Para percorrer o trajeto os turistas motorizados pagam uma taxa e recebem várias maneiras de apoio e informações.

Em 14 de junho de 2003, em Pikeville, Kentucky, os descendentes dos McCoys e Hatfields firmaram uma trégua oficial. Afirmaram a imprensa que queriam mostrar que se aquelas duas famílias poderiam chegar a um acordo, outros também poderiam. Assinado por mais de 60 descendentes durante o Hatfield-McCoy Festival, a trégua foi apresentado como uma proclamação de paz. Os Governadores de Kentucky e West Virginia estiveram presentes ao evento e assinaram proclamações conjuntas, declarando o dia 14 de junho como o “Dia da Reconciliação Hatfield – McCoy”.

Logicamente isso foi notícia em todo o país!

Local do show que utiliza a antiga rixa como atração principal
Local do show que utiliza a antiga rixa como atração principal

Em 2011 foi inaugurado o “Hatfields e McCoys Dinner Show”, em Pigeon Force, Tennessee, próximo à entrada do Smoky Mountains Great Park National, uma área de grande fluxo turístico. A casa atua com shows folclóricos, mostrando teatralmente as lutas e oferecendo jantares típicos aos turistas.

Espetáculo "Chuva de Balas", em Mossoró, Rio Grande do Norte
Espetáculo “Chuva de Balas”, em Mossoró, Rio Grande do Norte

Antes desses negócios serem vistos como algo do tipo “Ganhando dinheiro com a desgraça alheia”, serve mais como uma lição do que se pode aproveitar dos eventos históricos para alavancar o turismo de uma região.

Como muito bem faz a cidade potiguar de Mossoró, com seu belo e interessante espetáculo “Chuva de Balas”, que encena o ataque de Lampião a esta cidade, fato ocorrido em junho de 1927.

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TELEJORNAL BOM DIA RN EXIBE SÉRIE ESPECIAL SOBRE A SEGUNDA GUERRA – DESTAQUE PARA O LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”

Capa - Cópia

A INTERTV CABUGI, AFILIADA DA TV GLOBO EM NATAL, ESTÁ EXIBINDO UMA SÉRIE DE REPORTAGENS SOBRE NATAL DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, EM UM DOS TRECHOS ESTÁ DESTACADO A NOTÍCIA DO LANÇAMENTO DO NOSSO LIVRO LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”.

MAIS DETALHES SOBRE ESTE LIVRO VEJA – 

https://tokdehistoria.wordpress.com/2012/10/13/o-meu-novo-livro-nunca-fui-heroi-a-vida-de-emil-petr/

https://tokdehistoria.wordpress.com/2012/11/02/fotos-do-lancamento-do-nosso-livro-eu-nao-sou-heroi-a-historia-de-emil-petr/

Emil Petr sendo entrevistado pela jornalista Margot Ferreira
Emil Petr sendo entrevistado pela jornalista Margot Ferreira

ACHEI A REPORTAGEM MUITO BOA, UM ÓTIMO TRABALHO PROFISSIONAL DA JORNALISTA MARGOT FERREIRA, QUE MOSTROU MUITOS ASPECTOS INTERESSANTES SOBRE ESTE ASSUNTO.

NOSSO AMIGO EMIL FICOU MUITO FELIZ COM O TRABALHO REALIZADO PELA INTERTV CABUGI.

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AQUELES QUE DESEJAREM ADQUIRIR ESTE LIVRO, O VALOR É DE R$ 50,00, ATRAVÉS DO SITE –  http://jovensescribas.com.br/

REVOLTA DA CACHAÇA – PRIMEIRO EXERCÍCIO DE DEMOCRACIA NO BRASIL

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Autor – Pedro Doria

No anoitecer do dia 6 de abril, em 1661, Jerônimo Barbalho Bezerra foi decapitado no Largo da Polé, hoje Praça XV, perante a população. Sua cabeça, escreveu dias depois o governador Salvador Corrêa de Sá e Benevides, foi posta “no pelourinho para se conseguir a quietação” do povo. Terminou assim o período de cinco meses em que os cariocas governaram-se a si mesmos, no primeiro exercício de democracia da História do Brasil. Faz mais de 350 anos.

A Revolta da Cachaça, que Bezerra liderou, é pouco documentada e por isso mesmo objeto de polêmica. Ele era, nos dizeres do tempo, “nobre da terra”. Senhor de engenho, filho de herói da batalha que expulsou os holandeses da Bahia em 1625, um homem que tinha ao seu lado vereadores e outros donos de terra na região. É o que sugere ter sido uma briga interna da elite.

Não era a impressão do importante historiador britânico Charles Boxer, corroborada recentemente pelo geógrafo Maurício de Almeida Abreu, autor de “Geografia Histórica do Rio de Janeiro”. Ao lado de Jerônimo, entre os 131 listados como revoltosos, tinha gente da elite, mas aparentemente também despossuídos de terras. Foi um levante amplo, de todas as classes, contra um ditador.

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Salvador Corrêa de Sá e Benevides tinha 58 anos. Pertencia à terceira geração da família Sá no comando do Rio, desde Estácio. Com quase um século de idade, a pequena cidade era pobre, como todo o Brasil sul, e domínio absoluto de sua família. Salvador era também uma lenda viva no Brasil e em Portugal. Místico, passou a juventude seguindo os conselhos do padre jesuíta João d’Almeida, um sujeito que diziam flutuar em transes longos. Todos os Sás eram ligados aos jesuítas.

Salvador era também bandeirante e, como todo bandeirante, mais tupi do que europeu em batalha. Lutava com os pés descalços, acompanhado em mar de longas canoas de índios flecheiros. Venceu assim Piet Heyn, o maior corsário holandês de seu tempo. Heyn quebrou a Espanha ao saquear, no Caribe, o navio que levava o ouro das Américas. E Salvador o venceu com índios, expulsando-o do Espírito Santo, quando ainda tinha 23 anos. Assim como, também acompanhado de índios, conquistou Angola dos holandeses e venceu em seu próprio território a mítica rainha N’Zinga, uma das mais ferozes líderes guerreiras da África. (Vem de seu nome o termo ginga, da capoeira).

O corsário Pieter Pieterszoon Heyn
O corsário Pieter Pieterszoon Heyn

Se tupi em batalha, a corte em Lisboa não o intimidava. Tinha assento no Conselho Ultramarino, a mais alta instância de comando do império. Ainda antes de sua morte, esteve entre os líderes de uma tentativa de depor o rei português. Na Ilha do Governador, sua ilha posto que era Sá, o governador, e dono das terras ali, construiu o galeão d’El Rey, maior navio do mundo de então. Construiu-o na Ponta do Galeão. Salvador Corrêa de Sá e Benevides era muito maior do que o Rio e fazia do Rio o que bem quisesse. Como, por exemplo, aumentar impostos.

No fim de 1660, decidido a aumentar o número de soldados no Rio, Salvador liberou a produção de cachaça e instituiu sobre ela um pesado tributo. Daí criou um imposto predial. A população, ricos e pobres, já enfrentava sérias dificuldades. A cidade vivia uma crise. Os conjurados reuniram-se por várias madrugadas em São Gonçalo, onde ficava a fazenda de Jerônimo. No dia 7 de novembro, cruzaram de madrugada a Guanabara. O sol ainda não havia raiado quando uma turba invadiu a Câmara, no alto do Morro do Castelo, e derrubou o interino Thomé Corrêa de Alvarenga, primo de Salvador. O governador estava em São Paulo.

Os cariocas instituíram governo, mandaram cartas ao rei português garantindo fidelidade e pedindo só que pudessem governar com um nível tolerável de impostos. Pediram também aos paulistas que prendessem Salvador – mas, em São Paulo, os de lá decidiram que era boa política não aderir.

Gravura da cidade de Salvador feita no século XVII por Hessel Gerritsz - Fonte - http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/memoria-em-apuros
Gravura da cidade de Salvador feita no século XVII por Hessel Gerritsz – Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/memoria-em-apuros

Tão espetacular quanto o golpe foi o contragolpe. Salvador tinha o comando da frota da Companhia Geral de Comércio, que anualmente navegava para o Brasil para recolher os produtos que voltariam à Europa. Ele esperou que os navios chegassem ao Rio. Naquele 6 de abril, de madrugada – era sempre madrugada nos ataques de surpresa de antanho – Salvador, seu filho João e um exército de índios tupis invadiram o Rio e tomaram o paiol onde ficava a munição. Os soldados da frota desceram a terra e enfileiraram-se na Praça XV, um bocado o centro da cidade do tempo. Quando o dia amanheceu, o Rio independente já havia caído sem que um tiro fosse disparado. O próprio Salvador decidiu pela execução de Jerônimo, naquela noite.

Se venceu militarmente, perdeu na política. Em menos de um ano, Lisboa deu ordens para que ele deixasse o cargo de governador. Convocado para a Europa em 1663, nunca mais pôs os pés do Brasil. Assim como, nunca mais, um Sá governou o Rio. O filho primogênito de Salvador foi feito Visconde de Asseca, um título de nobreza alto. Mas não ele. Era o equivalente real a uma punição na alta esfera.

O primeiro experimento com democracia no Brasil, de certa forma, deu mais liberdade à cidade que ainda demoraria algumas décadas para se tornar capital. Não há qualquer monumento a Jerônimo Barbalho, mas não custa nada lembrar que ele morreu há mais de 350 anos.

Fonte – http://saibahistoria.blogspot.com.br/2012/11/revolta-da-cachaca-primeiro-exercicio.html

Quer saber mais? Clique também nos links abaixo:

http://guerras.brasilescola.com/seculo-xvi-xix/revolta-cachaca.htm

http://www.historiabrasileira.com/brasil-colonia/revolta-da-cachaca/

http://www.apaixonadosporcachaca.com.br/revolta-da-cachaca/26/01/2010/ 

O VETERANO DE GUERRA QUE FICOU COM QUASE MEIO QUILO DE ESTILHAÇOS NO CORPO… POR 68 ANOS!

Choque: a família de  Brown disse que sabia de havia estilhaços em sua perna, mas eles ficaram surpresos ao ver com quantos fragmentos o ex-soldado tinha vivido com por quase 70 anos
Choque: a família de Brown disse que sabia de havia estilhaços em sua perna, mas eles ficaram surpresos ao ver com quantos fragmentos o ex-soldado tinha vivido com por quase 70 anos

Fonte – Jornal Daily Mail, Inglaterra – http://www.dailymail.co.uk/news/article-2219472/Ronald-Brown-War-veteran-walked-shrapnel-embedded-thigh–68-years.html#ixzz2GmvTk0CN

Durante a Segunda Guerra Mundial, o inglês Ronald Brown foi um soldado do Regimento East Yorkshire. Em 1944 ele foi atingido pela explosão de uma mina na França.

Recentemente o veterano faleceu aos 94 anos e seu corpo foi entregue para cremação, como era o seu desejo. Após o serviço executado pela funerária veio à surpresa. A família do ex-soldado ficou completamente estarrecida com a massa de fragmentos de metal afiado encontrados após a cremação. Quase 450 gramas de estilhaços ficaram permanentemente na perna de Brown por mais de 68 anos.

Sua filha Jane Madden, de 55 anos, da cidade de Exeter, Sudoeste da Inglaterra, comentou aos jornalistas que “-É incrível, porque ele nunca se queixou de dores”. Para ela “-Isso só mostra o quão corajoso ele era”.

O metal encontrado no corpo de Ronald Brown, veio quando uma explosão o atingiu na Segunda Guerra Mundial
O metal encontrado no corpo de Ronald Brown, veio quando uma explosão o atingiu durante a Segunda Guerra Mundial

Os parentes contaram aos repórteres do jornal britânico Daily Mail como Brown, que sempre realizava caminhadas diárias, nunca reclamou de dores e raramente falava de suas experiências no período da guerra. Quando os netos lhes pediam para sentar no seu colo, Brown sempre lhes pedia para evitar a perna esquerda. Só após a sua morte a família descobriu o porque.

Brown era natural da cidade de Kingston upon Hull, nordeste da Inglaterra e juntou-se ao Regimento de East Yorkshire em 1939. O então jovem de 21 anos de idade serviu na área da intendência desta unidade militar durante todo o conflito. Entre suas aventuras na guerra, seus familiares informaram que ele foi evacuado de Dunquerque (França), em seguida passou a lutar em El Alamein (Norte da África) e depois foi ajudar a libertar a Sicília, na Itália.

Em junho de 1944, após o desembarque aliado do Dia D, ele está novamente na França. Durante o avanço do seu regimento, uma mina explodiu próximo a sua perna esquerda, que foi salpicada com quentes estilhaços de metal. Ferido, Brown foi forçado a engatinhar por duas milhas para um setor mais seguro. Por causa das condições médicas no campo de batalha, acharam melhor deixar os estilhaços no seu corpo.

Vemos a direita a Sra. Jane Madden e a esquerda Holly Madden, filha e neta de Brown, orgulhosas ao olhar para as fotografias do veterano durante a Segunda Guerra Mundial
Vemos a direita a Sra. Jane Madden e a esquerda Holly Madden, filha e neta de Brown, orgulhosas ao reverem as velhas fotografias do veterano durante a Segunda Guerra Mundial

Após a guerra Brown passou a viver e trabalhar em Exeter, onde ao longo da vida comentou poucos detalhes do incidente ocorrido na França a seus dois filhos. Dizia apenas que a explosão o deixou com um “joelho ruim”.

A sua filha Jane Madden informou aos jornalistas que seu pai além dos estilhaços recebidos na França, informou que em outro momento da guerra havia sido atingido por uma bala na perna. Então quando a família recebeu as cinzas, perguntaram se a bala tinha sido encontrada e receberam do pessoal do crematório um saco cheio de metais.

A jovem Holly Madden, de 25 anos, um dos cinco netos de Brown, disse que nem com os membros mais novos da família ele falou muito sobre a guerra, “-Nós sempre pensamos que seu problema era devido a uma bala no joelho, mas quando os diretores da funerária nos deram este saco de estilhaços ficamos chocados com o quanto havia”.

Ronald Brown (centro) é visto aqui na África do Sul, junto com um colega de farda e um e um tradicional guerreiro Zulu
Ronald Brown (centro) é visto aqui na África do Sul, junto com um colega de farda e um e um tradicional guerreiro Zulu

Ela complementa que “-Os pedaços de metal apenas mostrar o quão horrível é a guerra”. Para Holly ela acha que estes metais são uma memória que simboliza tudo o que seu avô fez e como ele sofreu. Para ela é incrível que ele andasse normalmente com todos estes estilhaços na perna e por tanto tempo.

Holly disse que seu avô manteve um diário de suas experiências de guerra, onde descreveu que dos 900 membros originais do seu regimento no início do conflito, apenas 29 voltaram para casa no final de tudo.

Jane Madden está doando este material para o antigo regimento de Brown, ou para o conceituado Imperial War Museum. Para ela o sentimento que fica na família é que “-Ele tinha uma vida boa e fez um monte de coisas com seu tempo. Estamos todos muito orgulhosos dele”.

JERÔNIMO ROSADO – O PARAIBANO QUE MUDOU MOSSORÓ

Jerônimo Rosado
Jerônimo Rosado

Jerônimo Ribeiro Rosado, o dono da farmácia que levava seu nome, nasceu em Pombal-PB, aos 8 de dezembro de 1861, era filho de Jerônimo Ribeiro Rosado e Vicência Maria da Conceição Rosado. Formou-se em Farmácia no Rio de Janeiro, onde atuava como fiscal da iluminação pública. Voltou ao seu Estado natal em 1889, quando abriu a primeira botica em Catolé do Rocha e desposou Maria Rosado Maia, a Sinhazinha.

Na página de anúncios do periódico natalense A Republica, de, 21 de março de 1901, vemos uma propaganda da farmácia que Jerônimo Rosado possuía em Mossoró
Na página de anúncios do periódico natalense A Republica, de, 21 de março de 1901, vemos uma propaganda da farmácia que Jerônimo Rosado possuía em Mossoró

O casal teve três filhos: Jerônimo Rosado Filho, médico, farmacêutico e poeta, morto aos 30 anos; Laurentino Rosado Maia, que morreu 15 dias depois do nascimento, e Tércio Rosado Maia, farmacêutico, odontólogo, advogado, poeta, pioneiro do cooperativismo brasileiro, comerciante de livros usados, professor universitário.

Sinhazinha partiu em 1892, pouco depois do último parto, vítima de tuberculose. No leito de morte, conforme relata mestre Luís da Câmara Cascudo, pediu “que o marido a fizesse sepultar no Catolé do Rocha, na terra onde nascera”. E casasse com sua irmã Isaura, para que seus filhos não tivessem madrasta.

Nesta mota do jornal carioca Gazeta de Notícias, de 19 de janeiro de 1887, vemos o jovem Jerônimo como estudante no Rio de Janeiro
Nesta mota do jornal carioca Gazeta de Notícias, de 19 de janeiro de 1887, vemos o jovem Jerônimo como estudante no Rio de Janeiro

Reivindicações atendidas: o corpo de Maria Amélia foi sepultado o viúvo, de 32, casou-se com a cunhada, de 17 anos, em 1893. A noiva se mudou para Mossoró, onde o marido residia e para onde transferiu os negócios em 1890, a convite do médico e líder político Francisco Pinheiro de Almeida Castro, patrocinador da drogaria.

Em Mossoró, a principal cidade do interior potiguar, Jerônimo abriu sua farmácia e, em 40 anos, gerou 21 filhos. Foi uma figura central na construção histórica e política do chamado eufemisticamente como “País de Mossoró”.

Do segundo enlace advieram 18 rebentos, nem todos chamados “Jerônimo” e nem todos numerados. Diferentemente do que reza a lenda, nem todos receberam nomes franceses. Do terceiro até o décimo, a inspiração para os nomes era o latim. A partir do 11º, e só com a exceção do 12º filho, todos levaram nomes inspirados nos numerais franceses. Foram ao todo 12 homens e nove mulheres. A maioria recebendo Jerônimo ou Isaura como primeiro nome.

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Laurentino Rosado Maia (homônimo do segundo)

Isaura Sexta Rosado de Sá

Jerônima Rosado, que tem como apelido o nome de “Sétima”

Maria Rosado Maia, que tem como apelido “Oitava”

Isauro Rosado Maia, que tem por apelido “Nono”

Vicência Rosado Maia, que como apelido o nome de “Décima”

Laurentina Rosado, que tem como apelido o nome de “Onzième”

Laurentino Rosado Maia, que tem como apelido “Duodécimo”

Isaura Rosado, que tem como apelido o nome de “Trezième”

Isaura Rosado, que tem como apelido o nome de “Quatorzième”

Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido o nome de “Quinzième”

Isaura Rosado Maia, que tem como apelido o nome de “Seize”

Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido “Dix-sept”

Jerônimo Dix-huit Rosado Maia

Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido o nome “Dix-neuf”

Jerônimo Vingt Rosado Maia

Jerônimo Vingt-un Rosado Maia.

Entre outras notícias publicadas pelo jornal carioca Gazeta de Notícias, de 3 de novembro de 1925, vemos o relato da morte de um dos filhos de Jerônimo Rosado
Entre outras notícias publicadas pelo jornal carioca Gazeta de Notícias, de 3 de novembro de 1925, vemos o relato da morte de um dos filhos de Jerônimo Rosado

Numeração

Ninguém sabe ao certo o que levou o patriarca a numerar os filhos. Talvez influência dos tratados farmacêuticos da época, todos escritos nas duas línguas, ou algum tipo extremo de obsessão pela ordem. O que se sabe é que o velho Jerônimo Rosado era fanático pela educação dos filhos e dos netos. Tão fanático que, certa vez, quando um de seus netos decidiu que não iria mais estudar, ele não pensou duas vezes. Mandou fazer uma engraxateira para o menino, deu-lhe um macacão de engraxate e ordenou que começasse a trabalhar. Sugeriu, até, que ele nem precisava sair de casa, já que a família era grande e ali mesmo ele teria uma boa clientela. Logo, logo o menino voltou para a escola.

O velho Rosado ensinou os filhos, ainda, a serem solidários. Se houvesse apenas uma fruta para comer, ela era dividida igualmente entre todos. Estimulava as crianças a conversar com estranhos, levando-as consigo, sempre, a encontros ou jantares. Não fazia distinção de sexo: meninos e meninas deviam acompanhar o pai. Tratava todos da mesma maneira. Queria vê-los trabalhando e estudando. Em razão disso, fundou a primeira escola exclusivamente feminina de Mossoró: o Externato Mossoroense.

Tese

Em sua tese de doutorado sobre a família Rosado, o professor José Lacerda Alves Felipe defende a ideia de que essa forma de educar adotada por Jerônimo Rosado tinha como objetivo formar o núcleo de uma oligarquia. Nela, cada filho teria uma função econômica. Felipe trata Jerônimo Rosado como o “herói civilizador” de Mossoró. Uma espécie de grande criador, de instituições sociais, elementos culturais, mitos. O objetivo não declarado era sempre, ele diz, conquistar o poder político.

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Cada vez que um filho se aproximava da maturidade, o velho Rosado o chamava para uma conversa em particular, em que tentava convencê-lo a entrar para a política. Os Rosado desmentem isso. Alguns mossoroenses afirmam, contudo, que essa foi uma das revelações feitas por Dix-Huit em seu leito de morte. Verdade ou mito? O que se sabe é que, apenas 18 anos depois da morte do patriarca, um Rosado abraçou, de fato, a carreira política. Em 1948, Dix-Sept Rosado Maia, em uma campanha na qual pela primeira vez se usaram trios elétricos, foi eleito prefeito de Mossoró.

 O Mito Rosado

Dix-Sept governou a cidade durante quatro anos. Tornou-se, depois, governador do estado, mas morreu, em um acidente aéreo, seis meses depois da posse. Virou um mito. No País de Mossoró, há uma estátua de Dix-Sept, em bronze e tamanho real, na principal praça da cidade. Sob ela, podemos ler: “Nele se conjugaram idealismo e ação, espírito público e solidariedade humana, capacidade de resistência e destino de comando […]”. Logo abaixo, em letras enormes, a assinatura: “Homenagem do povo”. A estátua foi construída pelo irmão Vingt, que, em 1954, o sucedeu na prefeitura de Mossoró.

O 17º filho foi, de fato, a raiz política dos Rosado. Irmãos, sobrinhos e netos o sucederam como prefeitos da cidade, vereadores, deputados e até senadores. Entre eles, destacam-se Dix-Huit e Vingt Rosado. Depois de algum tempo, os dois irmãos romperam. Diz-se em Mossoró que a briga entre eles não passou de uma jogada política para conservar, em definitivo, os Rosado no poder. Desde então, Rosado é oposição de Rosado. Não importa o vencedor: a família sempre leva. O sobrenome Rosado batiza, hoje, muitas ruas, praças e até estabelecimentos comerciais de Mossoró.

Nota do jornal carioca Gazeta de Notícias, 1 de julho de 1922, mostrando a atuação política de Jerônimo Rosado
Nota do jornal carioca Gazeta de Notícias, 1 de julho de 1922, mostrando a atuação política de Jerônimo Rosado

A cultura, porém, ficou nas mãos do 21º, Vingt-un, a quem coube realizar os sonhos educacionais do pai. Desde cedo, ele se empenhou para contar a história de Mossoró, registrar tudo que levasse o nome de sua terra natal e gerar e publicar a produção intelectual dos mossoroenses. Foi por isso que nos anos 1960 ele idealizou e fundou a Escola Superior de Agronomia de Mossoró (ESAM), onde organizou encontros e seminários e fez amizade com grandes intelectuais. Vingt-un Rosado foi uma espécie benigna de fanático.

A biografia completa do pombalense Jeronimo Rosado foi escrita pelo historiador Luiz da Câmara Cascudo, no livro “Jerônimo Rosado: uma ação brasileira na província de Mossoró(1861-1930)”.

Fontes de texto – http://www.itaucultural.org.br/rumos/webreportagem/osrosados.htm

http://clemildo-brunet.blogspot.com.br/2011/06/jeronimo-ribeiro-rosado.html

Fonte de fotos – Autor do Blog Tok de História

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O SAL NO RIO GRANDE DO NORTE

Fonte http://naesquinadobrasil.blogspot.com.br/
Fonte http://naesquinadobrasil.blogspot.com.br/

O sal foi um dos primeiros produtos a ser explorado comercialmente no Rio Grande do Norte. A exploração normal e extensiva das salinas de Mossoró, litoral de Areia Branca, Açu e Macau data de 1802. Mas o conhecimento de jazidas espontâneas na região já era conhecida desde o início da colonização.

A primeira referência que se tem sobre sal no Rio Grande do Norte, encontra-se registrado no documento que Jerônimo d’Albuquerque escreveu a seus filhos Antônio e Matias em 20 de agosto de 1605, onde fala de salinas formadas espontaneamente a aproximadamente 40 léguas ao norte, o que corresponde hoje as salinas de Macau. Desse fato, voltamos a ter notícias quando consultamos o “Alto de repartição das terras” feito em Natal em fevereiro de 1614, onde está escrito que Jerônimo de Albuquerque dera aos filhos Antônio e Matias, em 20 de agosto de 1605, umas salinas que estariam a quarenta léguas para o norte (aproximadamente 240 km), mas que nunca foram cultivadas nem feitas benfeitorias.

Salinas na década de 1920
Salinas na década de 1920

Em 1627, frei Vicente do Salvador registrou a colonização Norte-rio-grandense. Notou que “as salinas onde naturalmente se coalha o sal em tanta quantidade que se podem carregar grandes embarcações”.

Outro registro que encontramos nos velhos livros de história fala que em janeiro de 1644, alguns Tapuias, de volta do Outeiro da Cruz (Maranhão), onde tinham estado em combate, entraram nas salinas de Mossoró e degolaram alguns trabalhadores que ali se encontravam.

Em 1808 os salineiros da região foram beneficiados, quando o rei de Portugal, D. João VI, impossibilitado de receber carregamentos de sal de Portugal, assinou a carta régia que liberava de quaisquer imposições a extração do sal favorecendo, sobremaneira, o comércio interno.

Tradicional catavento para extração de sal na década de 1920
Tradicional catavento para extração de sal na década de 1920

Em 1844/45, setenta e oito barcos carregaram em Macau 59.895 alqueires de sal. No entanto, embora o sal extraído no Rio Grande do Norte fosse superior pela sua qualidade intrínseca, perdia essa qualidade pela rudeza como era produzido, de modo que nos anos seguintes perdia mercado para o sal europeu que era mais barato e melhor preparado. Um dos fatores que onerava o preço do sal produzido no Rio Grande do Norte era a dificuldade no transporte por causa do assoreamento das barras dos rios Mossoró e Açu.

Em 1886 é criado um imposto protecionista para tributar o sal estrangeiro. Dessa forma, o sal produzido no Rio Grande do Norte passa a ser competitivo, e isso impulsiona decisivamente o desenvolvimento da nossa indústria salineira.

No período de 1941/45, houve uma retração na extração do sal, motivada pela diminuição da navegação de cabotagem durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar disso, o sal continuou sendo o principal produto comercializado por Mossoró e região, sofrendo oscilações que não comprometeram o mercado de forma mais acentuada.

Os municípios do Rio Grande do Norte produtores de sal são os seguintes: Galinhos, Guamaré, Macau, Areia Branca, Grossos e Mossoró.

Barco tradicional utilizado no transporte de sal
Barco tradicional utilizado no transporte de sal

Depois de toda essa explicação, o leitor poderia perguntar: como Mossoró está entre os municípios produtores de sal se não fica no litoral? Para responder a essa pergunta, temos que dá outras explicações: o clima predominante em Mossoró é semiárido quente, com temperatura oscilando entre 24o e 35o centígrados, temperatura essa que dura a maior parte do ano. O ar apresenta baixo teor de umidade, elevada evaporação, apresentando uma média de 2.850mm. As precipitações ocorrem ao redor de 450 mm anuais e a evaporação líquida é de 2.400, sendo que a intensidade de irradiação solar varia entre 120 e 320 horas/mês, com ventos que apresentam velocidade média entre 3,8 e 4,4 m/s. Junto a isso temos ainda um solo impermeável, o que assegura condições ideais para a cristalização e colheita do sal, com um grau de pureza que atin ge até 98 Baumé (Graus de Baumé é uma escala hidrométrica criada pelo farmacêutico francês Antoine Baumé em 1768 para medição de densidade de líquidos.).

Local de extração de sal
Local de extração de sal

E onde estão localizadas as salinas? Poderia perguntar ainda o atencioso leitor. As salinas de Mossoró estão localizadas na várzea estuarina dos rios Mossoró e do Carmo. Essa várzea é inundada, ora pelas águas do mar, ora pelas águas das enchentes dos rios, que quando cessam as chuvas formam salinas naturais, onde o relevo é plano e baixo, estreitando-se para o litoral, onde a água do mar chega a alcançar até 35 Km do litoral. Essa série de fenômenos naturais é que faz com que Mossoró possa figurar entre os municípios produtores de sal do Rio Grande do Norte.

Fonte do texto – http://salnautico.com.br/historia.php

Fotos – Coleção do proprietário do Blog Tok de História

NATAL – INÍCIO DO SÉCULO XX – QUANDO O LIXO DOMINOU A NOSSA CIDADE

Lixo no bairro do Alecrim, Natal, 2012
Lixo no bairro do Alecrim, Natal, 2012

OS ATUAIS PROBLEMAS COM O LIXO EM NATAL É UMA HISTÓRIA BEM ANTIGA E QUE SE REPETE

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Segundo o artigo “Resíduos do Progresso: urbanização, modernidade e limpeza pública em Natal na Primeira República”, de Francisco Carlos Oliveira de Sousa, Mestre em Ciências Sociais, apresentado no XXV Simpósio Nacional de História, ocorrido em Fortaleza, no ano de 2009, o tema da higiene nos centros urbanos, reconhecido como de extrema importância para a saúde pública, foi muito debatido na passagem dos séculos XIX para o XX em nosso país.

Segundo Francisco Carlos, a temática da higienização urbana em Natal ganhou projeção entre os segmentos instruídos da nossa sociedade. Resolver este problema era um desafio significativo e, sem uma intervenção drástica nessa área dos serviços urbanos, afirmavam, o saneamento e o aformoseamento da cidade estariam comprometidos.

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O artigo apresentado em Fortaleza afirma que, ainda em 1886, a Inspetoria de Saúde Pública, sob o comando do Dr. Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, apontava dois fatores cruciais para os problemas sanitários existentes em Natal: a má alimentação e o precário asseio da população, sendo a cidade caracterizada como uma imensa “esterqueira a céu aberto”.

Estávamos às vésperas da Proclamação da República e novos temas emergiam na agenda governamental. A higiene corporal, e também a urbana, começou a despertar maiores interesses.

Após a Proclamação da República em 1889, Pedro Velho seria o primeiro governador republicano do Rio Grande do Norte, onde, sob a sua liderança, formou-se a oligarquia dos Maranhão, cujo domínio político no Estado perdurou por mais de duas décadas.

Logo, o tema da coleta de lixo voltou com razoável frequência às mensagens dos governadores do Rio Grande do Norte encaminhadas ao Congresso Legislativo (antiga denominação das atuais Assembleias Legislativas).

Já não era mais possível negligenciar os desafios impostos pela necessária reformulação dos serviços de limpeza urbana em Natal. Contudo, segundo Francisco Carlos, a dimensão do problema ainda não fora mensurada em sua plenitude.

Como o então governador Adolfo Affonso da Silva Gordo viu a higiene no centro de Natal
Como o então governador Adolfo Affonso da Silva Gordo viu a higiene no centro de Natal

Em 1890, o presidente estadual, Adolfo Affonso da Silva Gordo, criticou o próprio centro da cidade de Natal, que nesta época tinha em torno de 15.000 habitantes, ao classificá-lo como uma das áreas mais carentes em higiene da capital. Apontava o governador que as áreas adjacentes, ou periféricas, eram mais salubres que o centro.

Os Primeiros Passos em Busca de uma Solução

No periódico “Rio Grande do Norte”, edição de quinta-feira, 8 de janeiro de 1891, o “Conselho de Intendência da Cidade do Natal” tornava público que a municipalidade desejava contratar, “com quem maiores vantagens oferecer”, algum empreendedor para desenvolver na nossa cidade o serviço de limpeza pública. Acreditamos ser este o primeiro contrato do gênero a ser formulado em Natal.

“Rio Grande do Norte”, edição de quinta feira, 8 de janeiro de 1891
“Rio Grande do Norte”, edição de quinta feira, 8 de janeiro de 1891

As solicitações existentes neste contrato mostram aspectos do que era a capital potiguar na época; para recolher todo o lixo de Natal, deveriam haver apenas três carroças de duas rodas, com um grande caixão de madeira e puxadas por animais. Duas das carroças ficariam na Cidade Alta e outra na Ribeira, apontando a densidade populacional dos dois únicos bairros da cidade. Os serviços deveriam ser diários, ter início sempre às seis e meia da manhã e foi solicitado ao contratante uma caução de 200$000 réis para participar da possível concorrência. Também estava designado a quem aceitasse este contrato a obrigação de varrer as ruas e praças, serviço que deveria ser sempre realizado à noite.

Mas talvez a mais importante cláusula existente era a necessidade do contratante incinerar os restos a cada 15 dias, que ficariam em um depósito a ser designado.

Parece que este contrato de coleta de lixo e limpeza urbana possuía muitas exigências que inviabilizavam a sua execução, pois não encontrei registros de que alguém tenha apresentado alguma proposta.

Novas Posturas em Meio a uma Situação Lastimável

Paralelo à publicação de interessados no contrato de limpeza pública, a fim de combater essa situação sanitária, percebemos que os republicanos que assumiram o poder buscaram criar toda uma mudança de postura da sociedade natalense da época. Documentos apontam que a falta de conhecimento da população em relação às questões sanitárias ajudava na ampliação de toda a problemática.

Quadro desolador de Natal, na opinião do  Dr. Manoel Segundo Wanderley
Quadro desolador de Natal, na opinião do Dr. Manoel Segundo Wanderley

Na mensagem governamental encaminhada ao Congresso Legislativo potiguar em 1896 (Anexo 6, página 2), o então Inspetor de Higiene Interino e Médico Adjunto do Hospital da Caridade, o Dr. Manoel Segundo Wanderley, traz um quadro verdadeiramente desolador da situação de higiene em Natal.

Ele denunciou que “a maioria dos quintais é feita de latrina e as cloacas abertas na superfície do solo, adicionados a uma certa dose de ignorância condenável e incorrigível indolência de grande parte da população”.

Utilizando como referência o livro do Professor Itamar de Souza “Nova história de Natal”, em sua 2ª edição (2008), nas páginas 79 a 81, vemos que na edição de segunda feira, 26 de janeiro de 1891, do jornal “a República”, foi publicado um documento denominado “Código de Posturas Municipais”. Em 10 Artigos os governantes da época apontavam para os habitantes de Natal as suas obrigações e penalidades em relação à maneira como eles teriam que trabalhar o lixo, a limpeza pública e sobre a cobrança dos impostos devidos a este setor.

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Nos seus primeiros artigos constava a implantação de uma taxa de 500 réis para as pessoas que ocupassem casas na área do município de Natal. Consta que este dinheiro era destinado a pagar o “asseio urbano”. Na Ribeira e na Cidade Alta deveria haver um cobrador para cada bairro, aplicando multas por infrações que chegavam a até 10$000 réis. Os dirigentes municipais entendiam que através das multas, poderiam disciplinar a população de Natal e assim extinguir antigas e reprováveis práticas.

Não deixa de chamar atenção neste “Código de Posturas Municipais” o artigo 4º, onde se lê;

“Organizado os serviços de limpeza ficarão todos obrigados a mandarem varrer diariamente as suas casas e quintais e depositar o lixo em uma vasilha a porta, pela manhã”.

Bem, o que hoje pode parecer o básico, naquele limiar do século XX tinha que ser colocado em documento e publicado em jornal, mesmo que grande parte da população de Natal fosse completamente analfabeta.

Serviço sem Qualidade

Os republicanos que assumiram a administração potiguar passaram a demonstrar crescente interesse pela questão da limpeza pública, em especial na capital do Estado.

Como a tentativa de fechar um contrato de coleta de lixo em  janeiro de 1891 não surtiu nenhum efeito, segundo o professor Itamar de Souza, em agosto de 1892 foi aberta outra concorrência pública para o serviço de coleta de lixo e limpeza da cidade.

Entre as novidades deste novo contrato estavam a de colocar nas carroças a placa “Limpeza Pública”, a obrigatoriedade das carroças de coleta percorrer as ruas da cidade três vezes por semana, arborizar praças e recolher animais mortos.

Mas tal como no contrato de 1891, este novo documento trazia a importante cláusula para que o contratante incinerasse os restos a cada 15 dias, que ficariam em um depósito a ser designado. A íntegra das regras deste novo contrato está publicada na edição de sábado, 27 de agosto de 1892 do jornal “A República”, página 4.

Os problemas do lixo em Natal em 1895
Os problemas do lixo em Natal em 1895

Três anos depois o contratante do serviço era o Sr. José Domingues de Oliveira. Mas os serviços de coleta eram de baixa qualidade, gerando inúmeras críticas em relação a atrasos no recolhimento, onde os restos permaneciam dias nas caçadas (Ver Itamar de Souza, “Nova história de Natal”, 2ª edição, 2008, págs. 79 a 81).

Mas não era apenas o atraso na coleta que marcaria negativamente o contrato firmado entre a municipalidade de Natal e o Sr. José Domingues de Oliveira.

O Rio Potengi e Nossas Praias Viram Depósito de Lixo

Naquele início do século XX, tal como nos dias atuais, um dos graves problemas relacionados era o destino dos resíduos.

Como vimos anteriormente, apesar dos contratos de coleta do lixo apresentarem cláusulas que obrigavam os pretendentes que desejavam assumir este serviço a montarem um incinerador de lixo, nada foi feito.

Em uma época onde a preocupação com o meio ambiente era bem limitada, o empreendedor que assumiu os serviços de coleta de lixo e limpeza pública, decidiu resolver esta parte do seu trabalho da forma mais simples e barata possível; jogar tudo que recolhia no rio Potengi, ou nas nossas praias.

Porto de Natal
Porto de Natal

Mas a abominável solução não deu certo!

Certamente em razão das marés no estuário do Potengi, os restos acabaram chegando ao ancoradouro do nosso porto. Segundo o professor Itamar, através de um texto publicado no jornal “A República”, em 10 de setembro de 1897, o então comandante da Capitania dos Portos de Natal, o capitão tenente José Lobato Thomaz de Castro, publicou uma advertência onde afirmava que era proibido por lei depositar ao longo da praia “lixo, monturo e resíduos diversos”. O oficial naval apontava que estes dejetos estavam provocando “graves prejuízos para a conservação do ancoradouro desta capital”.

Desejo de Mudanças

Natal entra no século XX. Mas os velhos problemas persistiam

Segundo o artigo “Resíduos do Progresso: urbanização, modernidade e limpeza pública em Natal na Primeira República”,  do Mestre em Ciências Sociais, Francisco Carlos Oliveira de Sousa, durante o primeiro mandato o governador potiguar Alberto Frederico de Albuquerque Maranhão, em sua mensagem de 1900, anunciou várias medidas higiênicas.

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Anunciou que o Governo do Estado passaria a colaborar com o serviço de limpeza urbana da capital, que era alvo de constantes reclamações da sociedade, de modo a garantir a regular higienização dos logradouros públicos e domicílios. Justificava essa medida pela insuficiência dos recursos da Intendência Municipal para o desempenho satisfatório desse serviço.

Quatro anos depois, o relatório da Inspetoria de Higiene Pública apresentado ao governador, registrou o desalento em relação aos resultados obtidos pela parceria. Entre as observações apontadas constava que “sem um serviço regular de limpeza pública, sem esgotos, sem calçamento, sem arborização adequada, latrinas à superfície do solo, nossa capital será constante presa dos assaltos morbígeros”.

Para o cientista social Francisco Carlos, a ineficiência persistiu indiscutível e desafiou os novos governantes e seus ideais de modernidade.

A Cidade Muda

Nesta época a população natalense habitava basicamente os atuais bairros da Ribeira e Cidade Alta. As Rocas e o Alecrim eram bairros em formação e o que hoje são os supervalorizados bairros de Petrópolis e Tirol, se transformava no terceiro bairro de Natal; a Cidade Nova.

Apesar de toda esta simplicidade é indubitável que Natal passava um processo de transição, que alteraria os aspectos sociais, do comportamento de sua população e seus aspectos físicos. O novo bairro de Cidade Nova, onde antes existiam apenas as granjas dos mais abonados, era fruto de um plano de urbanização.

Naqueles primeiros anos do século XX, algumas “modernidades” estavam acontecendo na nossa cidade; desde 1904 já existia iluminação com gás acetileno na Cidade Alta, (com hora para ser apagada). Dois anos depois a novidade chegou à Ribeira. Logo teve inicio o transporte de pessoas em bondes puxados por animais, em um trecho que ligava apenas a Cidade Alta à Ribeira.

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Com o natural crescimento da população e também influenciadas pelas ações higienistas ocorridas na época no Rio de Janeiro, então a Capital Federal, foram drenadas e saneadas as áreas alagadiças na Ribeira e no Baldo, onde foram construídos a Praça Augusto Severo e o chamado balneário do Baldo.

A necessária urgência na tomada de decisões levou o governador a anunciar medidas mais consistentes. O governo propunha uma novidade técnica: a tão sonhada implantação de um sistema de incineração em larga escala do lixo urbano, que os empreendedores privados não conseguiram realizar.

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Mas os recursos eram escassos. O próprio governador comunicara que no último ano nenhuma obra fora construída em Natal com verbas oriundas do governo do Estado, em virtude da forçosa economia pecuniária. Em síntese, o sonho da cidade moderna estava longe e as melhorias indispensáveis exigiam somas consideráveis.

Logo um fato interessante mostraria como o problema do lixo era amplo naquela tranquila Natal.

Insinuações de Facilitações

Em 1908 a nossa cidade tinha aspetos extremamente provincianos e uma população que ficava em torno de 20.000 habitantes (tamanho equivalente atualmente às cidades potiguares de Monte Alegre, Parelhas e Caraúbas).

Na primeira página do periódico “Diário de Natal”, edição de quinta feira, 9 de janeiro, o editor Elias Souto relembrava que na época em que o lixo era recolhido mediante contrato, este “adormecia” em montões, apodrecendo  nas portas das casas dos natalenses e trazendo vários problemas. Mas naquele 1908, a crítica do editor do “Diário de Natal” estava na forma que os novos contratos de coleta estavam sendo realizados.

Joaquim Manoel Teixeira de Moura
Joaquim Manoel Teixeira de Moura

Souto insinua que o “felizardo” ganhador deste novo contrato, desta “rendosa empresa”, não seria outro senão o filho do então Presidente da Intendência de Natal, cargo exercido na época por Joaquim Manoel Teixeira de Moura, chamado popularmente de “Quincas Moura”.

Acusava Souto que o novo contratante era um “filhote melhor apadrinhado”,

Para melhor entendimento, naquele tempo cada município potiguar era administrado por um Conselho Municipal de Intendência, que possuíam normalmente sete membros. Mas na capital haviam nove membros. Tais conselhos de intendência eram responsáveis, com exclusividade, pelo poder executivo municipal, separando este poder do legislativo, que continua a cargo das câmaras municipais. Assim o Presidente do Conselho de Intendência possuía  a mesma equivalência ao atual cargo de Prefeito.

Insubordinação com o Lixo do Quartel? 

Nesta época o jornal de Elias Souto mantinha uma incrível batalha política contra a oligarquia Maranhão, em debates homéricos entre o seu periódico e o jornal governista “A República”, com uma intensa troca de acusações e de insinuações de malversação da utilização do dinheiro público. Praticamente todos os dias Elias Souto criticava a atuação (ou a falta dela) do governo em todas as áreas. Um dia era contra a falta de apoio aos flagelados da seca, no outro era contra o contrato de fornecimento de carne verde a Intendência e sempre a problemática do lixo era recorrente.

“Diário de Natal”, edição de quinta feira, 9 de janeiro de 1908
“Diário de Natal”, edição de quinta feira, 9 de janeiro de 1908

Ainda na edição do “Diário de Natal” de 9 de janeiro de 1908, Souto acusou que a troca do contratante para a coleta do lixo estava deixando com que a carroça da limpeza passasse diante das casas dos natalenses “de mês em mês” e o lixo “cresce, domina e impera nesta cidade progressista”.

Militares do 2º Batalhão de Caçadores
Militares do 2º Batalhão de Caçadores

Para exemplificar o grave problema que denunciava no seu jornal, Souto afirmou que diante da inatividade da Intendência em tomar alguma providência em relação ao recolhimento do lixo, os militares do único quartel do Exército Brasileiro existente na cidade tomaram uma atitude radical; simplesmente jogaram todo seu lixo no terreno diante do quartel.

Nesta época esse quartel ficava no centro de nossa cidade, onde hoje está localizada a Escola Estadual Winston Churchill. O terreno defronte ao antigo quartel é onde fica atualmente o SESC do centro de Natal, na Rua coronel José Bezerra, pertinho da sede da OAB-RN.

A pretensa insubordinação no 2º Batalhão de Caçadores no “Diário de Natal”, edição de quinta feira, 9 de janeiro
A pretensa insubordinação no 2º Batalhão de Caçadores no “Diário de Natal”, edição de quinta feira, 9 de janeiro

Mas voltando na 1908. Nas páginas de seu jornal Elias Souto despejava mais lenha na fogueira, aconselhando os proprietários de residências e lojas comerciais a tomarem a mesma atitude dos militares. Enfim, se a representação oficial do Exército Brasileiro em Natal, na época uma das principais e mais atuantes forças políticas do país, havia tomado tal posicionamento, porque o cidadão comum não faria o mesmo?

Um Militar de Fibra

O então comandante do 2º Batalhão de Caçadores era um militar veterano de muitas batalhas e com fibra suficiente para fazer o que Elias Souto comentou em seu jornal. Este era o tenente coronel Febrônio de Brito.

Quando chegou a Natal, em 27 de agosto de 1906, teve publicado pela imprensa local o seu currículo. Este era baiano, nascido em 25 de junho de 1851, aos 14 anos marchou para participar da Guerra do Paraguai e voltou promovido a alferes. No posto de major vai comandar a segunda expedição do Exército Brasileiro ao arraial de Canudos, no interior da Bahia, em 19 de janeiro de 1897.

Tenente coronel Febrônio de Brito, comandante do 2º Batalhão de Caçadores em Natal, 1908
Tenente coronel Febrônio de Brito, comandante do 2º Batalhão de Caçadores em Natal, 1908

Neste combate, apesar de contar com 543 praças, 14 oficiais combatentes, 3 médicos, dois canhões Krupp de 7,5 polegadas e duas metralhadoras Nordenfelt, esta expedição não alcançou seus objetivos. Mas repeliu com pesadas baixas os homens que seguiam a figura de Antônio Conselheiro. O violento combate ocorreu às margens de uma lagoa, que mudou de cor pelo sangue perdido pelos combatentes. A força militar se viu obrigada a retirar, cansada, com sede e com fome, tendo sofrido mais de 70 baixas, dez deles mortos. Não foi possível determinar o número de conselheiristas mortos, mas seguramente em número muito superior. Segundo o relato do comandante da força, seriam mais de 600 mortos. Apesar do apelido de “Fujão” que ganhou, Febrônio de Brito  conseguiu pelo menos organizar uma retirada correta de sua tropa. Situação que o comandante da próxima expedição a Canudos, o coronel Moreira César, não conseguiu e pagou com a sua vida e centenas de seus comandados.

Podemos ver pelo passado do tenente coronel Febrônio de Brito que, se realmente ele estava revoltado com a carência dos serviços públicos na cidade, ele não teria nenhum problema em fazer o que Elias Souto propagou em seu jornal.

Quartel do 2º Batalhão de Caçadores em Natal
Quartel do 2º Batalhão de Caçadores em Natal

Infelizmente, por não haver material histórico que confrontasse as afirmações de Elias Souto, não tive como apurar se as afirmações deste batalhador jornalista de oposição eram verídicas, falsas ou simplesmente exageradas. Pesquisei nos restos do jornal “A República” existente no nosso Instituto Histórico, mas os exemplares deste período estão bastante deteriorados.

E os Problemas Continuaram,,,

Para o cientista social Francisco Carlos, para alguns os atores da época, as soluções em relação às problemáticas do recolhimento do lixo em Natal só começaram a ser resolvidas em 1912.

Alberto Maranhão tomando posse. Ao fundo, no alto da colina, o quartel das forças federais em Natal, no início do século XX
Alberto Maranhão tomando posse. Ao fundo, no alto da colina, o quartel das forças federais em Natal, no início do século XX

Foi quando o governador Alberto Maranhão, no início do seu segundo mandato, solicitou ao Congresso Legislativo a responsabilidade integral pelos serviços de limpeza urbana da capital. Logo inaugurou no dia 1 de setembro o forno de incineração de lixo. Para Maranhão, a técnica da incineração dos resíduos era a mais apropriada para vencer os desafios da limpeza urbana e a sua inauguração foi saudada como um marco para a higienização de Natal.

Francisco Carlos, em seu trabalho aponta que, mesmo com a implantação deste incinerador, a questão da salubridade urbana estava longe de uma solução satisfatória.

Em 1924, o então governador José Augusto Bezerra de Medeiros apresentou a sua primeira mensagem governamental ao Congresso Legislativo, onde informava que havia criado a Comissão de Saneamento de Natal. Era uma outra investida do Poder Público no sentido da modernização da cidade.

Para o autor de “Resíduos do Progresso: urbanização, modernidade e limpeza pública em Natal na Primeira República”, nesse conturbado cenário, a questão do lixo urbano em Natal continuava a ser um desafio para os gestores locais.

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O forno de incineração, cuja menção reaparece nos documentos oficiais de 1927, ainda era citado como indispensável para a resolução do problema da limpeza pública. Depois de 15 anos de sua inauguração, o velho incinerador já não suportava a demanda proveniente das ruas e logo estava prestes a passar por mais uma reforma.

No ocaso da chamada República Velha, os desafios impostos aos gestores persistiam e ganharam vulto com o crescimento da cidade.

E Continuam até Hoje.

Bem, acho que tirando a pretensa insubordinação militar de Febrônio de Brito e narrada por Elias Souto, tudo que está nestas velhas histórias ocorridas em nossa querida cidade no final do século XIX, e na primeira metade do século passado, se repetiram agora em pleno século XXI.

Nós estamos vivendo no século em que nossos bisavós e avós imaginavam que tudo seria moderno, prático, funcional e perfeito. Mas infelizmente vemos que a última gestão municipal repetiu a mesma falta de planejamento público diante do crescimento urbano, a mesma má utilização de verbas públicas, ocorreram às mesmas insinuações de favorecimentos em contratos de coleta de lixo, a mesma falta de gerenciamento adequado e até poluição ambiental.

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O que fica destas velhas lições do passado.

Que aparentemente em Natal a problemática do recolhimento do lixo e sua destinação nunca foi realmente trabalhada a sério pelos nossos governantes. O lixo e suas consequências, como afirma o dito popular, nunca foi “atacado de frente”.

Com o crescimento da cidade, este problema se torna cada vez maior, preocupante e recorrente. Basta o descaso e a descontinuidade dos trabalhos de recolhimento, conforme vimos agora com Micarla de Souza, para a situação se tornar rapidamente um verdadeiro caos.

Aí se repete a máxima; quem não conhece os erros de sua história, tornam a repeti-los.

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QUANDO A PREOCUPAÇÃO ERA ENGORDAR

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Pode parecer estranho em uma época onde o padrão de beleza feminino é a Gisele Bündchen (não para mim) e diante da verdadeira epidemia de obesidade que atinge a humanidade (entre eles eu), que houvesse uma época em que os jornais natalense publicavam anúncios de duvidosos remédios que prometiam engordar em tempo recorde.

Realmente no século passado a nossa população se sobressaia pelo excesso de pessoas magras. Na época da Segunda Guerra Mundial está comprovado que muitos dos nossos soldados tinham uma alimentação limitada na vida civil e ganhar uns quilinhos a mais era preciso.

Quem pesquisa jornais antigos encontra com perturbadora frequência a notícia de mulheres que morriam no parto. Logicamente que as más condições da saúde pública e da higiene sanitária nos hospitais explicam muito da razão desta situação, mas também as deficiências alimentares da época ajudaram a ceifar a vida de muitas mães de família.

Naquele tempo, uma mulher sem maior estrutura corporal, muito magra, era tida como “doente”, como não tendo as condições adequadas para procriar, de ser mãe. Visto ser este o papel principal das mulheres de uma época onde o mercado de trabalho feminino era limitadíssimo.

Na nossa sociedade muita coisa mudou para melhor neste tema. Certamente este anúncio publicado no jornal natalense “A República” em 3 de junho de 1939 deverá se tornar bem raro de ser repetido.

Rostand Medeiros

TURISMO NO RIO GRANDE DO NORTE

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NA TERRA DO “JÁ TEVE” E DO “JÁ FOI”, O TURISMO OBTEVE UM GRANDE SUCESSO ECONÔMICO. MAS LOGO VEIO A  QUEDA. MUITOS ESPERAM QUE A COPA DO MUNDO DE 2014 AJUDE O TURISMO DO RN A VOLTAR AO SEU PASSADO DE GLÓRIA. SERÁ QUE ISSO VAI ACONTECER?  

Autor – Rostand Medeiros

O turismo no Rio Grande do Norte se tornou uma das principais atividades econômicas do estado. Esta atividade já possuiu um dos principais papeis no processo de desenvolvimento do estado, ocupando o posto de segunda fonte de renda estadual (Receita estimada de US$ 216.131.752 em 2002, segundo dados da SETUR-RN) e de maior empregador da iniciativa própria.

Em apenas cinco anos o número de visitantes que estiveram o Rio Grande do Norte praticamente dobrou – saiu de 1.423.886 em 2002, para 2.096.322 em 2007. Além disso, os atrativos se mostraram extremamente interessantes para os turistas. Dados indicavam que 91% dos turistas entrevistados desejavam retornar para uma nova visita.

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De 5 voos internacionais em 2003, o RN passou a receber 23 voos internacionais em 2005, sendo 5 regulares, operados pela TAP. Em 2002 o turismo gerava 80 mil empregos diretos. Em 2005 a atividade foi responsável por mais de 120 mil empregos diretos e 600 indiretos, em todo o estado. E nesse mesmo ano, a participação do turismo na economia potiguar excedeu o petróleo, o camarão, o melão e a castanha de caju, juntos e fez crescer a atividade imobiliária no estado, que passou a se voltar muito para o mercado internacional.

O Rio Grande do Norte passou a ser referência nacional em turismo internacional, com a maior quantidade de voos charters, conforme dados da própria EMBRATUR. Outra coisa importantíssima foi a implantação da política de Interiorização do Turismo. Isso acarretou a criação em 2005 de dois importantes polos turísticos: o Polo Turístico Costa Branca e o Polo Turístico do Seridó. Este último já roteirizado, em parceria com o SEBRAE, e o primeiro com o projeto de roteirização sendo executado em 2006. O próprio Polo Turístico Costa das Dunas, do qual faz parte Natal, Pipa e Touros, foi institucionalizado em 2005.

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Mas o Rio Grande do Norte, que já foi o segundo destino turístico mais procurado em 2006 no Nordeste, caiu para a quarta posição em 2010.

Com efeito, mesmo registrando rentabilidade, o turismo no Rio Grande do Norte vem em queda vertiginosa, principalmente no critério da chegada de visitantes estrangeiros. Se em 2010 foram 46 mil, o número está aquém dos anos anteriores. Em 2007, foram 255 mil, contra 299 mil do ano anterior e quase 350 mil em 2005.

Em termos de porcentagem  entre 2006 e 2010, o turismo internacional recuou 60,4% no Estado. Levantamento da OMT cita que o Rio Grande do Norte recebeu 46 mil turistas estrangeiros em 2010 – ano mais recente da pesquisa, enquanto aplicou R$ 30 milhões nesta área.

Em Pernambuco e Ceará, concorrentes diretos do Rio Grande do Norte, a redução não ultrapassou 16%. De acordo com dados do Ministério do Turismo, o Rio Grande do Norte recebeu  117,6 mil turistas estrangeiros em 2006. O Ceará, um dos principais concorrentes dentro do Nordeste, recebeu 108 mil.Um fluxo 8,1% menor que o do Rio Grande do Norte. Em 2010, a situação se inverteu. Enquanto o Rio Grande do Norte recebeu 46 mil turistas estrangeiros, para o Ceará seguiram 94,7 mil – mais que o dobro.

Apesar de estados como o Ceará não terem tido o pico que o Rio Grande do Norte teve recentemente, outras unidades da federação continuaram investindo na promoção internacional, inclusive na Argentina e na Europa, através de diversas parcerias.

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Estudiosos e pesquisadores apontam que um destino turístico,por alguma razão perde seu mercado, a reconquista é sempre mais difícil. O ideal seria manter constantes ações promocionais, independente do cenário macroeconômico. Com a queda dos recursos investidos na divulgação dos atrativos turísticos, levando em consideração o cenário de crise internacional, a tendência é criar um grande hiato até a retomada do fluxo turístico nos mesmos patamares vivenciados anteriormente.

Apesar do recuo, o Rio Grande do Norte ainda é o estado brasileiro onde o turismo tem maior participação na economia formal. De acordo com estudo realizado pelo IPEA, a participação é de 4,4% – a maior do Brasil. O índice coloca o Rio Grande do Norte na frente de estados como São Paulo e Rio de Janeiro, maiores portas de entrada de turistas estrangeiros.

A Copa do Mundo da FIFA de 2014 no Brasil e a escolha de Natal como uma das cidades sede deste evento mundial podem alterar esta situação. Entre os efeitos positivos do mundial de seleções no turismo potiguar está o de praticamente dobrar o fluxo de turistas internacionais durante o evento.

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A capital potiguar receberá quatro jogos da Copa do Mundo, que acontecerão no novo estádio Arena das Dunas, com capacidade de receber 43 mil expectadores e com entrega prevista para dezembro de 2013.

Segundo um estudo da Fundação Getúlio Vargas, encomendado pelo Ministério do Turismo, apontam que cerca de 600 mil turistas virão ao Brasil no mês da Copa do Mundo. Eles realizarão cerca de 2 milhões de viagens na cidades sedes. No Rio Grande do Norte, esse segmento deverá ter 84.979 visitas – um dos menores entre as 12 cidades-sede do Mundial, mas representará um incremento de 82,4% no fluxo de estrangeiros na capital potiguar.

Já os números do Estudo Programa SEBRAE 2014: Mapa de Oportunidades para as Micro e Pequenas Empresas nas cidades-sede, encomendado pelo SEBRAE Nacional à Fundação Getúlio Vargas (FGV), 22,7% das 356 oportunidades de negócios geradas pela Copa em Natal, grande parte se destinará para o setor do comércio/serviços.

Especialistas apontam que na a copa de 2014 deixará três grandes legados para as cidades sedes: 1) Visibilidade mundial – O Brasil está na mídia mundial desde o final da Copa da África e permanecerá na mídia até 2018; 2) Obras de mobilidade urbana e infraestrutura que serão realizadas nas 12 cidades sedes; 3) Uma melhor qualificação e capacitação da mão-de-obra.

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Dentre as várias áreas relativas a comércio e serviços, o turismo, quando associado a toda uma  cadeia (cultura, artesanato, gastronomia), tem posição de destaque. É o primeiro lugar no ranking, com mais de 30% das oportunidades.

Dado o volume de estrangeiros que os estudos mostram que virão para Natal em 2014, um aspecto extremamente importante aponta para a questão da preparação das cidades-sede para receberem estes visitantes, corrigindo suas deficiências de infraestrutura e transmitindo uma imagem positiva. Estas melhor preparação garante o retorno dos turistas estrangeiros após a Copa.

A questão da capacitação dos profissionais da área turística para o período da Copa do Mundo de 2014, e após, está entre as prioridades dos setores do governo federal que atuam na área do turismo.

Entre os resultados já obtidos, destaca-se o programa de capacitação viabilizado através de parceria do Governo do Estado com o Ministério do Turismo no valor de R$ 440 mil.

A primeira fase prevê capacitação de 900 pessoas, entre bombeiros e policiais civis e militares. Na segunda fase o projeto deverá capacitar 400 taxistas e permissionários que trabalham na Grande Natal. Esta capacitação consiste em aulas de inglês básico, novas tecnologias e noções sobre a história do RN e seus principais pontos turísticos.

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Outra questão relativa ao turismo potiguar e a Copa do Mundo de 2014 é sobre os novos hotéis na área da Via Costeira.

Projetada parcialmente durante o governo de Cortez Pereira, com base numa ideia bem mais antiga, da época de Juvenal Lamartine, a Via Costeira teve seu projeto final definido por Tarcísio Maia, foi iniciada por Lavoisier Maia e concluída por José Agripino. O primeiro empreendimento hoteleiro ali instalado foi o Natal Mar Hotel, em dezembro de 1984.

Os atuais 28 mil leitos conseguem suprir a demanda de turistas que visitam a cidade, porém o advento da Copa do Mundo de 2014 aponta a necessidade de novas unidades hoteleiras. A última inauguração de hotel na Via Costeira foi em 2006 com o hotel do grupo catalão SERHS.

Segundo empresários locais existe a necessidade de acelerar a ampliação do número de leitos para a Copa do Mundo de 2014. Eles acreditam que efetivando a conclusão dos 11 empreendimentos planejados para a área e atualmente parados, Natal vai ganhar mais 7 mil leitos e dessa forma, atingir a marca de 33 mil; exigência da FIFA para as cidades-sede do evento. Estes novos leitos vão gerar cerca de 3.800 empregos indiretos, com a garantia de ter todas as obras concluídas em até 30 meses, a tempo para atender a demanda da Copa de 2014.

Pesquisas realizadas pela Secretaria Estadual de Turismo calculam que o consumo médio diário feito pelos visitantes (cerca de R$ 150) multiplicado ainda pelo número médio de diárias (sete dias) projeta um aporte de R$ 2,8 bilhões na economia potiguar e a arrecadação de aproximadamente R$ 425 milhões em tributos.

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Entretanto os investimentos na Via Costeira estão sujeitos a instabilidades jurídicas em decorrência de questões ligadas a área de preservação do meio ambiente.

A Via Costeira foi definida como sendo uma Área de Proteção Permanente (APP) em um relatório técnico coordenado pela Advocacia Geral da União (AGU) em 2010, onde a área não poderia receber novas construções. É o que defendem IBAMA, Ministério Público Federal e Estadual, além da Superintendência do Patrimônio da União (SPU/RN).

O IBAMA argumenta que as construções ajudam a degradar o meio ambiente no local, visto que a Via Costeira fica numa região de Dunas e as novas edificações poderiam gerar sérios problemas ambientais. Já o Governo do Estado, prefeitura e entidades do setor turístico acreditam que por ter sido projetada para atender o desenvolvimento do turismo, a área pode sim receber novas construções.

O que o trade turístico espera é que o episódio envolvendo a paralisação da construção do hotel da BRA não aconteça novamente.

Esta obra teve início em 2005, mas no ano seguinte teve um dos andares embargados por ter ultrapassado a altura máxima permitida pelo pano Diretor à época (15 metros a partir do solo).

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Em 2007, a Procuradoria da República enviou uma petição a Justiça Federal, exigindo a demolição do pavimento irregular. No mesmo ano a BRA recorreu. Em 2008, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região emitiu liminar afirmando que o hotel não deveria ser derrubado. Apenas em 2012 um acordo começou a ser definido junto ao IBAMA, que se mostrava contra a liberação da construção. Os proprietários do empreendimento prevêem que no primeiro semestre de 2013 será reinício a obra, cuja conclusão está prevista para 2015.

Em recente entrevista (Novo Jornal, 15/12/2012), o empresário hoteleiro e ex-secretário estadual de turismo Ramzi Elali, têm a esperança que o diálogo em torno do caso do hotel da BRA influenciasse na análise das demais áreas não edificadas da Via Costeira. Para este empresário já deveria existir uma regra clara para a utilização da área em prol do mercado turístico e da própria população de Natal. Ramzi comentou que o importante é que “se utilize do bom senso e a compreensão para se recuperar a área, colocar ponto final e começar a desenvolver o turismo no estado”.

Uma notícia alvissareira para o turismo potiguar está no convênio que a EMBRATUR firmou convênio com o Governo do Rio Grande do Norte para intensificar a promoção dos nossos atrativos turísticos nos Países Baixos. A intenção é captar voos diretos entre Amsterdam e Natal.

Existe um voo direto semanal entre Amsterdam e Natal, em operação desde 2003, comporta 180 passageiros, porém a frequência é dividida com Fortaleza. Na atualidade a única rota aérea vinda do exterior, utilizando Natal como destino é a que parte de Lisboa, sendo operacionalizada pela empresa aérea portuguesa TAP.

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A verba destinada pela EMBRATUR é de R$ 527 mil. As ações previstas são viagens de familiarização dos operadores de turismo com a nossa região, a vinda de jornalistas especializados desta área (as chamadas “press trips”), a produção de material promocional, campanhas publicitárias e pesquisas qualitativas.

A Holanda está entre os 20 primeiros países emissores de turistas para o Brasil. No ano passado, 72.162 holandeses estiveram aqui, dos quais 37% deles o lazer. Eles geralmente permanecem em torno de 19 dias e cada turista holandês gasta, em média, 81 dólares por dia no Brasil.

Mas se por um lado ações são planejadas para melhorar o turismo no Rio Grande do Norte, por outro existem problemas relacionados com a cobrança do ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, sobre o preço dos combustíveis de aviação. Este custo representa entre 40 a 45 % no preço final das passagens aéreas e nos últimos três anos o aumento médio deste insumo foi quase de 60%.

Foto postada no blog www.canindesoares.com

No aeroporto de Guarulhos (SP), o mais movimentado do Brasil, as companhias aéreas pagam R$ 2,65 pelo litro do querosene de aviação para voos nacionais e R4 1,98 o litro para voos internacionais. Isso cria uma situação inusitada; se um turista compara pela empresa área TAM uma passagem de São Paulo para Recife, vai desembolsar R$ 1.470,70. Mas se o mesmo turista desejar comprar pela mesma empresa uma passagem ligando São Paulo a Buenos Aires (Argentina), vai pagar R$ 1.171,46.

Este turista terá então uma economia de R$ 299,24, adquirindo uma passagem aérea para o exterior.

Desta maneira, será que voltaremos a ter aquele turismo tão ativo e pulsante, do qual participei como Guia de turismo?

IL BRASILE IN GUERRA

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Fino al 1939 indeciso tra Washington e Berlino, il regime brasiliano si schierò ufficialmente a fianco degli Alleati con la dichiarazione di guerra a Germania e Italia dell’agosto 1942. Le ragioni che indussero a premere per il successivo invio di un corpo di spedizione in Italia furono di ordine internazionale e interno: rafforzare la propria posizione in Sudamerica e avviare uno sviluppo democratico del paese. Sbarcato in Italia nel luglio 1944, il contingente brasiliano ebbe il suo battesimo del fuoco nell’autunno successivo, in Garfagnana. E il 25 aprile 1945 i suoi uomini sfilarono con i partigiani per le vie di Milano.

Rivoluzione del 1930 in Brasile
Rivoluzione del 1930 in Brasile

Nel 1930 il Brasile nel 1930 visse una Rivoluzione che portò al potere, con l’appoggio dei militari, il presidente Getulio Vargas. Il governo del “padre dei poveri”, come spesso era definito Vargas, non fu subito ben accetto ma in breve riuscì, con varie riforme economiche, a creare nel paese una certa atmosfera di benessere. Il presidente realizzò un’ideologia di Stato, il nazionalismo populista, che ebbe grande ripercussione nella vita politica del Brasile.

Nel 1937, ricorrendo al pretesto di una falsa cospirazione comunista, Vargas compì l’atto finale del suo disegno dittatoriale e decretò, sempre con l’aiuto dei militari, l’abolizione della Costituzione del 1934 e decise che ne venisse preparata un’altra, ispirata a quella della Polonia, che all’epoca era retta da un regime autoritario.

Quando la Germania aggredì la Polonia, scatenando la reazione di Francia e Inghilterra, il Brasile dichiarò, il 6 settembre 1939, la propria neutralità proseguendo l’ambigua linea politica dettata dal presidente Vargas. In politica internazionale, già da alcuni anni, il Brasile si era avvicinato agli Stati Uniti d’America vivendo così gli stessi timori per i segnali premonitori della futura guerra mondiale.

Fu così che, il 27 novembre 1936, il presidente statunitense Roosevelt fu invitato ad un banchetto nel Palazzo Itamaraty (residenza presidenziale brasiliana a Rio de Janeiro), e in tale cerimonia il presidente brasiliano pronunciò un discorso definendo gli Stati Uniti la «grande nazione americana tradizionalmente amica del Brasile». L’incontro tra i due presidenti precedette di pochi giorni la prima Conferenza Interamericana di Buenos Aires, fortemente voluta dagli Stati Uniti in proseguimento della politica dettata dal presidente Monroe nel 1823 (lo slogan che caratterizzò tale dottrina politica fu: “L’America agli americani”). Nella capitale argentina i delegati brasiliani prepararono, appoggiati dai rappresentanti statunitensi, un progetto di patto interamericano che cercava «…di difendere il Continente contro la tendenza espansionistica degli altri popoli…» e i tentativi di «… intromissione di qualche potenza extra-continentale in un paese americano».

Getúlio Dornelles Vargas
Getúlio Dornelles Vargas

La proposta brasiliana, in caso di aggressione esterna, prevedeva il ricorso alle armi e all’arbitraggio di Washington; questa eventualità però non fu accettata dall’Argentina che propose alla Commissione un nuovo progetto, appoggiato però, in fase di votazione, solo da sei paesi contro gli otto firmatari della mozione brasiliana. Finalmente il 19 dicembre 1936 fu stipulato un atto finale che trovò, tuttavia, i paesi firmatari ancora divisi. Per capire l’atteggiamento ostile dell’Argentina bisogna ricordare che in Sudamerica, da alcuni anni, si era scatenata una lotta politica tra i due paesi più forti, appunto Brasile e Argentina, per ricoprire il ruolo di paese leader dell’America Latina.

Mentre in politica estera il Brasile giocava il ruolo di paese libertario, nelle vicende politiche interne il governo Vargas cercò di eliminare definitivamente gli unici oppositori all’Estado Novo: i comunisti. La situazione mondiale aveva visto l’affermarsi di Stati totalitari europei che elaborarono ed attuarono, dopo il 1936, una forte politica estera anticomunista (Patti Anticomintern). In questa ottica l’11 dicembre 1937 l’Ambasciatore tedesco a Rio de Janeiro,Karl Ritter, incontrò segretamente Francisco Campos, numero due del governo sudamericano. Durante la riunione, in realtà voluta dai brasiliani, si discusse la possibilità del Brasile di entrare nel Patto Anticomintern e l’opportunità di inviare in Germania alcuni ufficiali dell’Esercito brasiliano per seguire un corso di lotta anticomunista. I militari brasiliani sarebbero stati ospiti del Bureau Anticomintern di Berlino dove lo stesso Heinrich Himmler, capo della Gestapo, avrebbe insegnato loro le migliori tecniche di “controllo politico” del paese.

Gruppo Integralista Camicie Verdi
Gruppo Integralista Camicie Verdi

Nel 1937 gli Stati Uniti inaugurarono una politica di avvicinamento e controllo degli stati sudamericani. In Brasile, però, esistevano contrastanti spinte interne originate dalle numerose minoranze d’origine italiana e tedesca, in aperto conflitto con i gruppi democratici altrettanto forti. E fu proprio ad opera di gruppi integralisti il tentativo insurrezionale delle “Camicie Verdi”, avvenuto l’11 maggio 1938 a Rio de Janeiro. Le “Camicie Verdi”, versione brasiliana delle “Camicie Nere” italiane e delle “Camicie Brune” tedesche, avevano avuto fino allora una grande influenza, costituendo un movimento di destra che Vargas utilizzò per rafforzare il potere.

Il governo di Vargas, suo malgrado, fu spinto all’azione contro i membri tedeschi dei Circoli Nazisti, dalle maldestre scelte adottate proprio dall’Ambasciatore nazista a Rio de Janeiro. Infatti, il rappresentante tedesco non riuscì ad aprire un dialogo con i leaders brasiliani, ma cercò comunque di spingere il paese sudamericano nella sfera politica, militare ed economica di Berlino. Le relazioni tra Brasile e Germania si stavano rapidamente deteriorando e la crisi si aggravò, quando il Ministro degli Esteri brasiliano Oswaldo Aranha (esponente dei circoli democratici), ritirò, nell’ottobre 1938, la qualifica di “persona grata” a Karl Ritter, provocando la reazione tedesca. Infine, al termine del 1938, il governo di Vargas promulgò speciali leggi contro tutte le organizzazioni fasciste e nazionalsocialiste e ottenne dalle autorità italiane il ten. Fournier, uno dei capi della rivolta delle “Camicie Verdi”, che si era rifugiato nell’Ambasciata italiana di Rio de Janeiro. L’inettitudine dell’Ambasciatore tedesco giocò a favore degli Stati Uniti che continuarono così la loro politica di buon vicinato con il Brasile e gli altri Stati sudamericani. E quando il governo tedesco nel novembre 1938 inviò a Rio copia del Patto Anticomintern, Aranha (filo-statunitense) aveva già sostituito Campos (filo-tedesco) e la politica estera brasiliana era ormai indirizzata verso Washington.

Graf Spee
Corazzata Tascabile tedesca Admiral Graf Spee

Ma Vargas non aveva ancora definitivamente fatto una chiara scelta di campo. Tanto che nei primi mesi del 1939 furono ripresi e rafforzati accordi commerciali con Germania e Italia. E Washington dovette lavorare molto per raggiungere l’accordo del 3 ottobre 1939 quando fu approvata la “Dichiarazione di Panama”, che sanciva la volontà dei paesi firmatari di «…mantenere la pace nel continente americano e di favorire il suo ristabilimento in tutto il mondo». Inoltre, l’accordo affermava l’inviolabilità delle acque territoriali delle repubbliche americane, con un’estensione da trecento a mille miglia di distanza dalla costa. Ma, nonostante le assicurazioni dei paesi belligeranti, il 13 dicembre 1939, avvenne a largo della costa uruguayana lo scontro tra la corazzata tascabile tedesca Admiral Graf Spee e tre incrociatori britannici. La nave tedesca, inflitti e ricevuti danni, fu costretta a rifugiarsi nel porto di Montevideo creando una grave crisi diplomatica. Gli Stati Uniti, appoggiati dal Brasile e dall’Argentina, spinsero il governo uruguayano a ordinare la partenza della Graf Spee, che si autoaffondò nei pressi delle foci del Rio de La Plata.

Come già ricordato, allo scoppio della seconda guerra mondiale, il Brasile si collocò in una posizione di assoluta neutralità. Il 3 settembre 1939 il governo promulgò un decreto legge circa le Regole generali di neutralità, che vietava a navi o aerei dei paesi belligeranti di entrare nel paese e «…compiere atti ostili». L’accesso alle acque territoriali brasiliane era consentito solo in casi di emergenza e solo per 24 ore. Trascorso questo periodo le navi e gli equipaggi sarebbero satati internati fino alla fine del conflitto.

L’anno successivo, con la caduta della Francia e con la dimostrazione della crescente forza militare nazifascista, il presidente statunitense, Roosevelt, riuscì a far approvare da tutti gli Stati americani una nuova linea di principio, che si concretizzò in un altro vertice interamericano, svoltosi a La Avana nel luglio del 1940. In tale assemblea si affermò, dietro pressioni del governo di Washington, che qualunque atto di ostilità compiuto ai danni di uno Stato del nuovo continente sarebbe stato in avvenire considerato «…come un atto di aggressione contro gli Stati firmatari della dichiarazione». Tale clausola sarebbe dovuta scattare il 7 dicembre 1941, giorno in cui la flotta giapponese effettuò l’attacco a Pearl Harbor, ma in realtà non fu proprio così, tanto è vero che subito dopo l’aggressione giapponese agli USA, nessun paese firmatario della Dichiarazione scese in campo e, come vedremo, solo il Brasile espresse solidarietà a Washington con un atto ufficiale.

Góis Monteiro
Góis Monteiro – Fonte – FGV-CPDOC

Ritornando alle vicende del 1939 è opportuno ricordare che i rapporti tra il Brasile e gli Stati Uniti erano, in tale periodo, ancora vaghi ed incerti. Nella seconda metà di quell’anno avvenne, tra l’altro, uno scambio di lettere tra i Capi di Stato Maggiore brasiliano (generale Pedro Aurèlio de Gòis Monteiro) e statunitense (generale George C. Marshall). In tale circostanza l’ufficiale brasiliano rimproverava agli Stati Uniti, sia pure in termini accuratamente diplomatici, l’assoluta insufficienza nell’aiuto di forniture militari e ricattava velatamente Washington con l’incapacità brasiliana di difendere, in tali condizioni, il nordest del continente sudamericano, in altre parole la zona più vitale dal punto di vista militare. Il generale Marshall, rispondendo, insistette sul problema delle basi aeree USA nel nordest brasiliano, considerate una necessità strategica di primo piano e su quello delle materie prime brasiliane indispensabili allo sforzo bellico, rimanendo tuttavia nel vago circa le forniture. Nonostante questo i rapporti tra i due paesi migliorarono notevolmente in seguito, soprattutto dopo il messaggio dal presidente Roosevelt al presidente Vargas in data 10 luglio 1941, nel quale era chiaramente messa in evidenza la situazione mondiale con i pericoli connessi, e venivano elencate tutte le possibili ipotesi di difesa dell’emisfero occidentale e più in particolare quelle che concernevano direttamente il Brasile e ne coinvolgevano l’azione. Nell’attenta analisi si poneva in risalto il pericolo dell’espansionismo tedesco e della possibilità di conquista nazista dell’Islanda a nord e delle Isole Capo Verde a sud, e da cui poi con la «…tipica Blitzkrieg … attaccare l’emisfero occidentale».

Il punto di arrivo, in questa fase delle trattative, fu rappresentato dalla firma (24 luglio 1941) dell’accordo per la costituzione di una delegazione mista Brasile-Stati Uniti composta da ufficiali di Stato Maggiore. Il primo incontro di questo consesso si svolse a Rio dove l’incrociatore statunitense Nashville portò in terra brasiliana il colonnello James Chaney e il tenente colonnello Lehman Miller che visitarono il paese «… ricevendo impressioni del nostro progresso e della preparazione della nostra difesa».

Mercantili brasiliano Siqueira Campos
Mercantile brasiliano Siqueira Campos

Sul piano diplomatico, nella metà del 1940, si creò invece una rottura con l’Inghilterra che, nonostante acquistasse molti prodotti brasiliani, attuava uno stretto blocco navale che provocò vivaci proteste del governo sudamericano. L’11 ottobre il mercantile brasiliano Siqueira Campos fu bloccato a Lisbona dalle autorità britanniche perché stava per trasportare in Brasile un carico di armi proveniente dalle industrie Krupp di Essen. Il 27 novembre 1940 il mercantile brasiliano Buarque fu fermato da navi da guerra inglesi in acque territoriali brasiliane e fu confiscato il carico definito di origine sospetta. Solo dopo lunghi accertamenti si stabilì l’origine argentina dei prodotti che consistevano in 32 casse di cotone e 38 di profumo. Il 1° dicembre fu la volta della nave Itapè dalla quale i militari inglesi prelevarono 22 passeggeri di origine tedesca. Il governo brasiliano tenne un fermo atteggiamento di condanna che fu seguito dall’intensificarsi della propaganda favorevole all’Asse dopo le vittorie tedesche in Europa, e tutto ciò indusse molti ad interpretare come manifestazione di solidarietà con i paesi totalitari il discorso – in più di un punto riecheggiante luoghi comuni della retorica mussoliniana – tenuto da Vargas l’11 giugno.

Inoltre Vargas per convincere gli Stati Uniti ad accelerare le operazioni di versamento dei prestiti per lo sviluppo industriale del paese, nel maggio 1940 «… provvedeva ad informare Washington che la Krupp era disposta a costruire a Volta Redonda la prima industria siderurgica». Subito dopo gli Stati Uniti, temendo che il Brasile cadesse nell’orbita della Germania, offrirono 20 milioni di dollari nel settembre 1940, che salirono a 45 l’anno successivo al momento dell’installazione degli impianti a Volta Redonda. Sempre nel 1940 il governo di Rio espropriò compagnie ferroviarie belghe, francesi e inglesi e si preparò a riprendere il pagamento dei debiti esteri. Nonostante la firma del trattato per un prestito di 100 milioni di dollari, che avrebbe dovuto facilitare la vendita di armi degli Stati Uniti al Brasile con la clausola del “Lend-Lease” (1 ottobre), non ebbe fino a dicembre conseguenze tangibili e rimase in sostanza lettera morta in qualche cassetto a Rio de Janeiro.

1942 - Natal, in Brasile, il principale punto di interesse strategico degli Stati Uniti in America del Sud - Time Life
1942 – Natal, in Brasile, il principale punto di interesse strategico degli Stati Uniti in America del Sud – Time Life

In ogni modo, nonostante gli alti e bassi nei rapporti tra Washington e Rio de Janeiro, la prima reazione diplomatica brasiliana all’attacco giapponese alla base navale statunitense di Pearl Harbor fu di un certo valore. La mattina dell’8 dicembre, infatti, il presidente Vargas convocò una riunione improvvisa, al termine della quale il governo brasiliano decise di esprimere totale solidarietà agli Stati Uniti, immediatamente comunicata al presidente Roosevelt. In base agli accordi già stabiliti fu immediatamente concesso al governo di Washington il permesso di inviare al più presto nelle basi di Bèlem, Natal e Recife dei reparti di marines, che furono fatti passare, agli occhi dei non addetti ai lavori, per “personale tecnico”. Nello stesso periodo cominciarono ad arrivare in Brasile quantità, seppur non abbondanti, di armi statunitensi e fu ampliato l’accordo del 1° ottobre, fino a raggiungere sei mesi più tardi la cifra di circa 200 milioni di dollari. Tale accordo, firmato nel marzo 1942, oltre alla concessione delle basi navali del nordest, in dettaglio stabiliva che il Brasile ricevesse «… armamenti moderni per 200 milioni di dollari, la concessione della Itabira Iron Company, già inglese, e un prestito di 14 milioni di dollari dell’Eximbank per lo sfruttamento minerario. Nasceva così la Companhia Vale do Rio Doce, dalla quale USA e Gran Bretagna si impegnavano ad acquistare 750.000 tonnellate di ferro».

In sudamerica però alcuni paesi come Argentina e Cile mantennero saldi i loro buoni rapporti con i paesi dell’Asse e neppure la dichiarazione di guerra della Germania e dell’Italia agli Stati Uniti, avvenuta subito dopo i primi atti bellici del Giappone, valse ad indurre i firmatari delle dichiarazioni di solidarietà (espresse soprattutto all’Avana) ad entrare in azione unitariamente contro il Tripartito.

Oswaldo Aranha
Oswaldo Aranha

Solo il Brasile aveva fatto la sua scelta di campo tanto che il 28 gennaio 1942 Aranha annunciò a sorpresa che il Brasile aveva deciso di rompere le relazioni politiche con i paesi dell’Asse. La risposta di Hitler e Mussolini non si fece attendere e venne intensificata la guerra sottomarina tedesca e italiana nelle acque brasiliane, che già aveva provocato affondamenti di navi mercantili nazionali. Il Brasile in seguito ruppe le relazioni diplomatiche con la Romania (marzo) e l’Ungheria (maggio). Nel novembre, a seguito di un’incursione della polizia “collaborazionista” nella sede dell’Ambasciata brasiliana a Vichy, furono sospese le relazioni anche con la Francia di Petain.

Nei primi mesi del 1942 gli attacchi dei sottomarini tedeschi ed italiani nei pressi delle coste brasiliane provocarono l’affondamento di molte navi. Il 14 febbraio fu affondata la prima nave brasiliana, la Cabedelo , con la morte di 54 marinai. Seguirono altri 24 affondamenti nel 1942, 8 nel 1943 e 1 nel 1944, per un totale di 36 navi e quasi 1000 morti. Il periodo più nero della storia della Marina mercantile brasiliana fu l’agosto del 1942. Tra il 15 e il 19 i siluri italo-tedeschi colarono a picco ben 6 navi tra le quali la Baependi, la Anibal Benevolo e la Araraquara. A questo proposito è importante ricordare che il 28 luglio, ad opera di un sottomarino tedesco, era già colata a picco la nave Piave che aveva a bordo alcuni marinai italo-brasiliani tra cui il motorista Ernesto Rocco. In Brasile, dopo i primi affondamenti di navi nazionali, l’opinione pubblica si scagliò contro la polizia politica dell’Estado Novo, diretta da Filinto Mùller, accusata di non fare niente contro la rete di spie filo naziste presenti nel Paese. In effetti, per il governo il problema della “Quinta-Colonna” diventò scottante. Le spie trasmettevano i movimenti delle navi e il caso più famoso fu quello di un certo Nils Cristennsen, che trasmise ai sottomarini nazisti la rotta della Queen Marycarica di soldati statunitensi diretti in Africa. Scoperto ed arrestato, Cristennsen, fu condannato a trenta anni di prigione con l’accusa di criminale di guerra. Contemporaneamente furono smantellate le compagnie aeree Condor (tedesca) e LATI (italiana) considerate centri di operazioni spionistiche.

Anche l’attività diplomatica si fece intensa e il 23 maggio 1942 venne firmato tra gli Stati Uniti ed il Brasile un trattato segreto politico-militare, la cui principale conseguenza fu la creazione di due commissioni tecnico-militari miste.

Aereo compagnia LATI - Questo tipo di aeromobile effettuati voli tra Roma e Rio de Janeiro - http://www.spmodelismo.com.br/howto/ac/lati.php
Aereo compagnia LATI – Questo tipo di aeromobile effettuati voli tra Roma e Rio de Janeiro – http://www.spmodelismo.com.br/howto/ac/lati.php

In Brasile, i militari che, sul piano della politica interna, favorivano un regime duro sulla falsa riga dei regimi nazifascisti europei e che in precedenza si erano opposti ad una stretta collaborazione con gli Stati Uniti, erano in apparenza sconfitti. Così subito dopo Pearl Harbor e dopo la decisione del governo di Rio di schierarsi con gli Stati Uniti, i due esponenti dell’ala nazionalista, Gaspar Dutra e Goes Monteiro, proposero le dimissioni dai loro incarichi governativi. Vargas fu però costretto a non accettare per non indebolire i vertici delle Forze Armate e rilanciò ancora una volta la necessità di appoggio dell’Esercito all’Estado Novo. Per questo nei differenti articoli del trattato segreto, stipulato tra il Brasile e gli Stati Uniti il 23 maggio 1942, si poneva la base per la prossima futura collaborazione bellica che non si riduceva soltanto alla presenza di truppe straniere in Brasile, ma che prevedeva anche l’intervento statunitense in caso d’attacco al Brasile da parte di un altro paese americano. Infine si accennava alla futura partecipazione diretta del Brasile ad operazioni all’estero, che configurava l’origine della Forza di Spedizione Brasiliana e quindi una valorizzazione dell’Esercito stesso e dei suoi quadri.

A seguito di questi nuovi passi il 31 agosto 1942, con il Decreto n° 10.358, fu dichiarato lo stato di guerra al termine di una riunione alla quale avevano partecipato tutti i ministri del governo Vargas. Il Brasile era in guerra contro la Germania e l’Italia.
Intanto, a livello internazionale, il 5 settembre 1942, il presidente statunitense Roosevelt aveva approvato l’operazione “Torch” e l’8 novembre avvenne lo sbarco angloamericano nel Nord Africa. In breve si ridussero gli attacchi da parte dei sommergibili dell’asse e Rio dovette mutare la sua posizione e chiese di poter partecipare attivamente al conflitto.

La prima proposta di Roosevelt fu quella di usare le truppe brasiliane nella difesa delle Azzorre portoghesi, per permettere alle truppe di Salazar di essere impiegate più utilmente in Portogallo. Così il 15 marzo il ministro della guerra, generale Gaspar Dutra, decretava, autorizzato da Vargas, la creazione di un Corpo di spedizione «…da inviare in Europa e composto da 100 mila uomini».

Il simbolo della Forza di Spedizione Brasiliana
Il simbolo della Forza di Spedizione Brasiliana

Le ragioni che indussero il Brasile a premere per l’impresa militare d’oltreoceano erano numerose e di tipo diverso. Dal punto di vista della politica internazionale si trattava, per il grande stato populista sudamericano, di sostenere la propria posizione di fronte ai futuri negoziati di pace e di rafforzare e riaffermare il proprio prestigio politico, diplomatico e militare nell’America Latina.

Ma i motivi di carattere interno prevalsero nettamente in quest’atteggiamento. I cambiamenti nella posizione internazionale del Brasile, che erano stati relativamente lenti ad evolvere fino ad un punto di integrale inserimento nello schieramento alleato, furono determinati da uno sviluppo socio-politico, che avrebbe avuto poi vaste conseguenze nel futuro del paese. Per questo motivo il governo di Vargas, una vera e propria dittatura, si trovò di fronte ad enormi cambiamenti sociali e non poteva fare a meno di prenderne atto. Paradossalmente anche lo stesso P.C.B. (Partito Comunista Brasiliano) era dell’idea che la creazione della FEB avrebbe rafforzato, in un certo senso, la marcia verso la restaurazione della democrazia brasiliana; infatti, secondo i comunisti, la FEB andando a combattere in Europa contro le dittature fasciste dell’Asse, avrebbe scosso il paese. Fu così che i maggiori partiti di opposizione iniziarono una politica di “appoggio condizionato” a Vargas, seguendo la politica del capo dell’opposizione Prestes che, privilegiando lo scontro con il nemico nazifascista, sapeva perfettamente che la contraddizione di combattere le dittature all’estero, mantenendone una all’interno, sarebbe prima o poi venuta a galla.

Sul piano militare alcuni ufficiali dell’Esercito brasiliano partirono nel 1943 per gli Stati Uniti dove seguirono, presso le scuole militari di Fort Knox, Fort Benning e Fort Leavenworth, corsi speciali di scuola di guerra. Ma il problema più grave che dovette affrontare l’esercito brasiliano fu quello della formazione dell’intera gerarchia militare. Infatti a partire dagli anni ’20 il processo di modernizzazione dell’Esercito brasiliano era stato operato da una missione militare francese guidata dal generale Maurice Gamelin.

Oltre a questo aspetto cresceva anche l’opposizione alla creazione di un corpo di spedizione brasiliano in Europa. Dwight Eisenhower, comandante in capo delle forze alleate nell’Africa del Nord, e Mark Clark, comandante della 5ª armata degli Stati Uniti, erano profondamente convinti dell’inutilità di inviare truppe impreparate ad affrontare una guerra che non conoscevano. In ogni caso, le presunte obiezioni alla partecipazione del Brasile alla guerra in Europa, scomparirono improvvisamente quando il fronte italiano perse sette divisioni alleate, trasferite all’Operazione “Anvil” (sbarco nella Francia del Sud).

In ogni caso Rio il 9 agosto 1943 decise di formare la 1ª Divisione di Fanteria (1ª D.I.E.), disponendo che essa sarebbe stata composta da tre reggimenti, da quattro gruppi di artiglieria, da un battaglione del genio militare, da un reggimento motorizzato e infine dai vari servizi.

A capo di questa unità fu scelto il generale João Baptista Mascarenhas de Moraes.

João Baptista Mascarenhas de Moraes
João Baptista Mascarenhas de Moraes

L’Esercito brasiliano aveva dottrine di impiego di scuola francese ed era dotato di armi di fabbricazione tedesca, italiana e francese, per cui il problema di farlo combattere a fianco di unità statunitensi presentava diversi aspetti complessi e non poche difficoltà materiali (uno tra tutti il problema del rifornimento munizioni). La fanteria era armata con fucili “Mauser” e mitragliatrici “Hotchkiss”, mentre l’artiglieria possedeva cannoni “Schneider” trasportati a dorso di muli. Per quanto riguarda le unità motorizzate, assenti nell’esercito brasiliano, il governo aveva commissionato 175 carri armati di vario tipo alla “Fiat-Ansaldo” italiana. Occorreva quindi rivedere fin dall’inizio la formazione e l’addestramento dei quadri militari, trasferendo una differente maniera di pensare, per vari aspetti abbastanza innaturale, a ufficiali che dovevano dimenticare tutto il loro precedente addestramento, sovrapponendovi una nuova concezione dei rapporti militari, della tattica e della strategia. Tuttavia, in un modo o nell’altro, bisognava raggiungere questo nuovo addestramento, più psicologico che tecnico, e, quindi, sostituire West Point a Saint Cyr. Nello stesso momento si cercava di preparare un corpo di spedizione secondo i disegni adottati dal potente alleato nordamericano che forniva anche le armi. Tutto, quindi, dovette cambiare e dovette essere, in qualche occasione, improvvisato, poiché i brasiliani non avevano esperienza di spedizioni oltreoceano, non conoscevano il paese e il clima in cui avrebbero dovuto combattere e non avevano nemmeno un significativo patrimonio militare.

Isolata l’Argentina, gli Stati Uniti proseguirono il progetto di costituzione di un Corpo di Spedizione brasiliano, ma fin dai primi incontri si crearono forti attriti tra i comandanti sudamericani e i pari grado nordamericani. In questo periodo ebbero origine le diatribe tra brasiliani e americani che ebbero a manifestarsi in seguito e di cui abbiamo ampie testimonianze nelle memorie del comandante Mascarenhas de Moraes e del Capo di Stato Maggiore De Lima Brayner. Certamente il corpo di spedizione brasiliano non fu considerato dai comandanti statunitensi con grande attenzione, salvo che in qualche episodio, e tutto ciò dette a molti l’impressione che, fin dal principio, lo si reputasse più come “carne da cannone” che come unità militare alleata da considerarsi alla pari.

Intanto, mentre in Brasile si discuteva circa la partecipazione di un contingente sudamericano alla Campagna europea, altri paesi latino americani cercarono di scendere sul campo di battaglia a fianco dell’alleato nordamericano. Il governo del Messico, tra il novembre 1942 e il febbraio 1943, cercò di convincere il governo di Washington ad accettare un proprio corpo di spedizione. Lo “State Department” accettò l’aiuto del partner messicano, ma il “War Department” respinse la richiesta elencando le difficoltà nell’equipaggiare, addestrare e trasportare le truppe.

Trasporto veicoli dell'esercito brasiliano nel 1941 -http://viaturasbrasil.blogspot.com.br/2012/06/chevrolet-1941-exercito-brasileiro.html
Trasporto veicoli dell’esercito brasiliano nel 1941 -http://viaturasbrasil.blogspot.com.br/2012/06/chevrolet-1941-exercito-brasileiro.html

Ma se da una parte si rifiutavano “aiuti”, dall’altra Washington premeva con maggior convinzione su Rio de Janeiro. Venne dunque firmato un nuovo accordo per armare, addestrare e poi far combattere tre divisioni brasiliane, ma la diffidenza tra le parti crebbe e alla fine ne fu preparata una sola in maniera confusa tanto che il contingente brasiliano ricevette i fucili “Garand” e “Springfield”, le mitragliatrici “Thompson” e “Browning” e tutte le armi d’accompagnamento solo al suo arrivo in Italia. Così in Brasile i militari si preparono solo “fisicamente” con estenuanti marce e lunghe e laboriose parate.

La carenza di preparazione ed organizzazione delle unità d’appoggio della FEB non riguardava solo l’armamento: mancavano, infatti, stenografi, chimici, elettricisti, radio-operatori, conducenti di autocarri e trattori, operatori di compressori d’aria e meccanici. Inoltre l’esercito brasiliano disponeva di un solo tipo di uniforme che non era adatta ad affrontare l’inverno italiano. Nacque così il problema di chiedere agli americani anche le divise, a proposito delle quali esistono varie testimonianze su un fatto tragicomico avvenuto subito dopo lo sbarco della FEB a Napoli. Le originali uniformi brasiliane erano di colore molto simile a quello delle divise delle truppe tedesche impiegate in Africa così quando i militari sudamericani si trovarono a passare tra la gente, senza armi, furono scambiati per prigionieri di guerra.

Per avere una idea dell’immensità del materiale che sarebbe servito alla FEB per prepararsi alla guerra, citiamo alcuni dati pubblicati al rientro dei brasiliani in patria; la FEB durante gli otto mesi trascorsi in prima linea con l’impiego di 15.000 uomini sul fronte e 10.000 nei servizi, utilizzò: 11.741 fucili, 1.156 pistole, 500 mitragliatrici, 144 mortai, 585 lanciafiamme, 66 cannoni e ancora 736 telefoni, 42 telegrafi e ben 592 stazioni radio, tutto materiale americano che ricevette solo in Italia.

Un altro problema nell’Esercito brasiliano, che si accentuò durante il conflitto, fu la presenza tra i comandanti di mediocri ufficiali, quasi tutti provenienti dalle classi medie e abituati a trattare i loro soldati come uomini socialmente inferiori. Tutti questi ragazzi, usciti dalle Accademie militari di Resende (Stato di Rio de Janeiro) e Realengo (Distretto Federale), erano motivati più da interessi personali che da un sentimento patriottico. Basti pensare che mentre un generale brasiliano guadagnava 250 $ al mese e un capitano 105 $, un soldato percepiva una paga mensile di 11.40 $. Inoltre nel mondo civile un lavoratore medio guadagnava 14.40 $ al mese e il costo della vita nel 1942 era calcolato in 11 $ mensili.

Un soldato tipico dell'esercito brasiliano nel 1940 - http://www.quata.com.br/claudomiro_fausto_de_lima.htm
Un soldato tipico dell’esercito brasiliano nel 1940 – http://www.quata.com.br/claudomiro_fausto_de_lima.htm

Nel frattempo, in novanta giorni, fu completata la mobilitazione generale dei primi 20.000 soldati brasiliani provenienti da ogni regione del paese, senza alcun criterio di scelta.

Dopo che tutte le unità furono giunte nell’area di raccolta di Rio de Janeiro iniziarono in vari campi i primi addestramenti. Purtroppo i soldati trovarono, invece di efficienti campi di addestramento, delle aree improvvisate con baracche malmesse, costruite senza il minimo riguardo alle comuni norme igieniche e soprattutto senza percorsi di guerra e armi. Anche gli ufficiali che accolsero i soldati non erano all’altezza della situazione. Degli 870 ufficiali molti erano cadetti, appena usciti dalle Accademie, spesso molto più giovani dei soldati che avrebbero dovuto comandare, e ben 302 ufficiali erano riservisti. Fu così che in prima linea si trovarono medici, ingegneri, insegnanti che non avevano alcuna capacità militare, a fianco di giovani ufficiali senza alcuna esperienza di comando.

I primi giorni del neocostituito Corpo di Spedizione trascorsero nel riparare gli “alloggi”, nel costruire i percorsi di guerra e nella immancabile visita medica. E’ giusto premettere che precedentemente nelle Regioni Militari alcune Commissioni mediche avevano esaminato 107.609 richiamati scartandone ben 23.236. Soltanto la sezione medica dentista fece, durante i lunghi mesi di guerra, 16.015 visite, 10.399 trattamenti, 9.071 estrazioni e ben 8.329 otturazioni. La lista dei malati non si fermò alle patologie dentali; molti furono i casi di ricoveri per tubercolosi, sifilide, imbecillità, ernia, daltonismo, parassitosi, problemi circolatori e respiratori, e, incredibilmente, anche due malati di lebbra. Altri avvenimenti che suscitarono scalpore furono la scoperta, durante il viaggio in nave, di un soldato affetto da epilessia grave e di un ufficiale colpito già da alcuni anni da una epatite cronica.

Per terminare questa grave pagina, non possiamo dimenticare che al momento della selezione generale i richiamati non furono sottoposti al test psicologico. Le autorità militari brasiliane avevano, infatti, istituito un gruppo di medici che stava lavorando alla preparazione dei test e che, ironia della sorte, furono pronti per la selezione, mai avvenuta, degli uomini della 2ª Divisione. Purtroppo anche questa mancanza fu pagata in Italia essendo poi risultati 433 i casi di ricoveri per disturbi mentali.
Era logico che in un panorama così nebuloso non ci fosse un grande entusiasmo nella FEB e per la FEB.

Gli uomini stavano svolgendo due cicli di preparazione, studiati dal generale Mascarenhas, che avrebbero dovuto addestrare la 1ª D.I.E. alle tecniche e alle tattiche militari moderne. Al termine dei cicli operativi, il 31 marzo 1944, i soldati brasiliani sfilarono per le strade di Rio de Janeiro in un’imponente parata militare.

Vargas comunicò a Washington che tutto era pronto ma gli statunitensi, impegnati nella preparazione dell’Operazione “Overlord”, presero tempo, e ciò causò tra i generali brasiliani il timore di un calo d’interesse da parte degli Stati Uniti nel progetto. Il problema risiedeva nell’assenza nella Marina mercantile brasiliana di grandi piroscafi idonei al trasporto di truppe e nel contemporaneo impegno delle Marine alleate nell’organizzazione dello sbarco in Normandia. A giugno finalmente l’ufficiale di collegamento a Washington, Leitào de Carvalho, riuscì ad ottenere una nave statunitense e immediatamente informò Rio di tenersi pronti.

Nave della Marina degli Stati Uniti USS Gen. W. A. Mann, che ha trasportato le truppe brasiliane in Italia nel 1944 – http://www.navsource.org/archives/09/22/22112.htm

Fu così che, nella notte tra il 29 ed il 30 giugno un primo scaglione, al comando del generale Zenobio da Costa, raggiunse il porto di Rio, Cais do Porto, dove ad attenderli era ancorato il piroscafo statunitense General William a. Mann di 36.000 t.

Le operazioni di imbarco dei militari brasiliani si svolsero velocemente, ma a creare polemiche e scompiglio ci si misero i militari statunitensi, che, contravvenendo agli ordini brasiliani, se ne stavano in città a festeggiare la partenza. Tutta questa fretta e segretezza trovò spiegazione, secondo McCann, nel fatto che gli ufficiali brasiliani svolsero le operazioni di imbarco anche “…per evitare possibili diserzioni ed evasioni” 71.

La particolarità stava nel fatto che i comandi non temevano solo fughe di soldati, ma defezioni di ufficiali; infatti un plotone del 6° Reggimento di Fanteria, durante i mesi di addestramento, aveva cambiato ben 8 comandanti, e tutti avevano chiesto di essere trasferiti fuori dalla FEB, tanto che 5 delle 9 compagnie del 6° Reggimento avevano subito un “turn-over”.

Alle 06.30 di domenica 2 luglio 1944 il General Mann salpò l’ancora con 5.075 uomini a bordo dei quali 304 ufficiali, scortato dai cacciatorpediniere brasiliani Marcilio Dias e Mariz e Barros, e dallo statunitense Greenhalgh.

Durante la navigazione la cosa che provocò più disagi fu l’alimentazione americana; infatti il rancio era composto da scatolette di carne, di fagioli, da gallette e altri generi sconosciuti, nel sapore e nel confezionamento, a molti brasiliani. Inoltre, durante il primo giorno di navigazione, il rancio fu distribuito con ben sei ore di ritardo e al termine gli americani scoprirono che i cambusieri sudamericani avevano servito ben 14.000 razioni a fronte di solo 5.000 uomini imbarcati.

Al 1° convoglio ne seguirono altri 3. Il secondo convoglio salpò da Rio de Janeiro il 22 settembre trasportando il 1° e 3° Gruppo Tattico per complessivi 10.304 uomini dei quali 653 ufficiali. I trasporti truppe utilizzati furono nuovamente il General Mann (sotto il comando del Generale Cordeiro De Farias) e il General Meigs (sotto il comando del generale Olimpio Falconieri Da Cunha) e la scorta fu costituita dall’incrociatore brasiliano Rio Grande do Sul, dall’incrociatore statunitense Memphis e dai cacciatorpediniere americani Trumpter e Cannon. Dopo aver raggiunto Gibilterra al convoglio si aggiunsero navi da guerra britanniche. Tutte le unità raggiunsero poi il porto di Napoli il 6 ottobre.

Soldati brasiliani nel loro cammino verso la guerra in Europa - http://www.portalfeb.com.br/longa-jornada-com-a-feb-na-italia-capitulo-8
Soldati brasiliani nel loro cammino verso la guerra in Europa – http://www.portalfeb.com.br/longa-jornada-com-a-feb-na-italia-capitulo-8

Il terzo convoglio partì invece da Rio il 25 novembre con il trasporto truppe USS General Meigs (sotto il comando del colonnello Mario Travassos) con un totale di 4.682 uomini di cui 277 ufficiali. Il General Meigs fu scortato dall’incrociatore americano Omaha, dall’incrociatore brasiliano Rio Grande do Sul e dal cacciatorpediniere brasiliano Marcilio Dias. Giunti nel nordest del Brasile in prossimità della base di Belem, le navi scorta brasiliane furono sostituite dall’incrociatore Bahia e dal cacciatorpediniere Mariz e Barros. Tale convoglio, nuovamente rinforzato a Gibilterra da unità della marina britannica, giunse a Napoli il 7 dicembre.

Infine il 9 febbraio 1945 fu imbarcato sul trasporto dell’USS General Meigs (comandato dal tenente colonnello Ibà Jobim Meirelles) l’ultimo contingente della FEB, composto da 5.082 uomini di cui 247 ufficiali. Scortato dai cacciatorpediniere brasiliani Mariz e Barros e americano Greenhalgh e dall’incrociatore statunitense Marblehead, giunse a Napoli il 22 febbraio77.

Pertanto furono inviati in Italia 25.334 uomini dei quali, è importante ricordare, 111 raggiunsero l’Italia con gli aerei della FAB. Il trasporto aereo, che seguì la rotta Rio-Natal-Dakar-Napoli, fu necessario per la presenza di 67 infermiere che potevano, in nave, creare alcuni problemi di ordine e disciplina.

Generale Mark Wayne Clark
Generale Mark Wayne Clark

La FEB (Forza di Spedizione Brasiliana) in Italia fu aggregata al IV Corpo d’Armata (del generale Willys Crittenberger) della 5ª Armata (del generale Mark Clark). La 5ª e l’8ª facevano parte del XV Gruppo d’Armate comandato dal maresciallo Alexander.
Il primo scaglione delle truppe brasiliane sbarcò il 16 luglio nel porto di Napoli e fu subito trasferito con autocarri in una vicina area destinata alla prima fase dell’addestramento. In realtà, nei piani alleati, il punto d’arrivo della FEB avrebbe dovuto essere l’Africa, dove già esistevano campi di addestramento utilizzati dalle truppe inglesi e americane; il mutare della situazione militare fece cambiare i piani e quando i sudamericani sbarcarono in Italia nel campo base loro destinato non trovarono altro che alberi da frutta.
Oltre a mancare la dotazione del campo non giunse neppure l’armamento così come l’equipaggiamento. Non rimase che riproporre nuovamente un programma di addestramento fisico. A rallentare la preparazione anche un lungo litigio tra i comandi. Gli americani infatti inviarono 5.000 fucili “Springfield” M-1903, ma il comandante della FEB, Mascarenhas de Moraes, avendo capito che le sue truppe avrebbero ricevuto dagli americani i nuovi fucili semiautomatici “Garand” M-1 rifiutò i M-1903 ormai superati. Trascorsero così altre due settimane di paralisi.

Lentamente poi ogni reparto iniziò a ricevere il necessario per iniziare l’addestramento, ma prima ancora di preparare un buon programma il contingente fu trasferito a Tarquinia dove gli istruttori statunitensi, affrontando anche il problema della differenza di lingua, iniziarono il lavoro.

Il 18 agosto cominciò un nuovo trasferimento nei pressi di Vada (Livorno) e l’indomani arrivò, proveniente dalla 5ª Armata, il reparto istruttori: ufficiali e uomini di truppa di divisioni americane sperimentate in combattimento. Per completare con le prove sul campo il periodo stabilito di 3 settimane. Troppo poco, come vedremo per dire di aver formato sufficientemente il contingente.

Il giorno successivo all’arrivo dei brasiliani a Vada, 19 agosto, la FEB ricevette la visita del Primo ministro inglese Winston Churchill.
Durante i giorni di Vada si procedette a formare anche il corpo autisti del Corpo di Spedizione, che mancava totalmente di esperienza di guida. Così per tutto il periodo di guerra si ebbero incidenti di ogni tipo, e perdite di mezzi per banali uscite di strada (anche lontano dalla linea del fronte). E alla fine della guerra su un totale di 457 caduti della FEB furono ben 24 i morti per incidente d’auto (7 per incidenti da arma da fuoco, 4 per annegamento, 3 per omicidio, 1 per suicidio).

Finalmente poi a fine agosto dalla P.B.S. (Peninsular Base Section) giunsero a Vada i camion carichi di materiali: fucili, mitragliatrici, radio, elmetti, uniformi, borracce, ecc. A quel punto molti credettero di aver preparato i brasiliani alla guerra ma già dai primi giorni di settembre apparvero subito evidenti le carenze nell’addestramento della FEB. La 5ª armata aveva però bisogno di uomini per l’operazione Olive e il 9 settembre fu deciso di sostituire gli elementi della 1ª Divisione corazzata USA del generale Vernon Prichard con la FEB. Il I gruppo d’artiglieria della FEB, al comando del colonnello Da Camino, avrebbe sostituito il 434° battaglione statunitense. I brasiliani avrebbero preso contatto con i tedeschi dopo Vecchiano (Pisa) risalendo poi le coste delle Alpi Apuane in direzione di Massarosa e Camaiore.

I primi reparti brasiliani furono inseriti nella 45ª Task Force americana che era una formazione assai eterogenea, composta da americani bianchi (598° battaglione di artiglieria da campo USA), americani di origine giapponese (il 100° battaglione fanteria nippo-americano del 442° gruppo da combattimento), americani neri (370° reggimento di fanteria della 92ª Divisione USA “Buffalo”), britannici (un reparto di contraerea) e i brasiliani del 6° R.I.

Il 18 settembre il primo plotone della 1ª compagnia del genio, al comando del tenente Paulo Nunes Leal, raggiunse la cittadina di Camaiore e fu accolto dalla formazione partigiana “Garosi”. Il rapporto con i partigiani italiani fu prezioso per i sudamericani durante tutto il periodo bellico. Questi ricercarono la collaborazione degli italiani e spesso li usarono per le pattuglie o sortite ma dopo la guerra la memorialista lentamente ha cercato di seppellire questa vicenda.

Aggregato alla FEB si trovava come ufficiale di collegamento il colonnello N.S. Mathewson, che ha lasciato una importante “Storia operativa della 1° B.E.F. (Brazilian Expedicionary Force)” nella quale viene tracciata – tra luci e ombre – la vicenda della FEB in Italia.
In quei giorni si registrò anche la prima vittima brasiliana. Il caduto apparteneva alla 9ª compagnia del II/6° ed era soprannominato Mussolini per la sua somiglianza con il dittatore italiano. Morì ucciso nottetempo dalla sventagliata di una mitragliatrice manovrata troppo precipitosamente da un suo compagno. Si chiamava Antenor Chirlanda ed era originario di San Paolo.

Nel frattempo le unità brasiliane proseguivano nella loro progressione raggiungendo le pendici versiliesi delle Apuane sotto il Monte Prana. Il 28 settembre l’unità brasiliana ricevette l’ordine di spostarsi nel settore della Valle del Serchio con il compito di raggiungere Castelnuovo di Garfagnana. Durante la notte tra il 29 ed il 30 settembre gli uomini del magg. Nobrega (III/6°) raggiunsero la zona di Pescaglia-Borgo a Mozzano e sostituirono gli effettivi di colore del III/370° (92ª divisione USA). Dopo alcuni giorni di spostamenti finalmente il 2 ottobre, sotto una pioggia che cadeva da oltre 24 ore, il distaccamento brasiliano concluse il suo nuovo schieramento, sistemando il I/6° e il III/6° lungo la Valle del Serchio e il II/6° in copertura nella zona montagnosa ad occidente del fiume.

I tedeschi in quel settore avevano già raggiunto e armato una linea di difesa che lasceranno sono nell’aprile del 1945 e per alcuni giorni si creò tra Borgo a Mozzano e Castelnuovo di Garfagnana una fascia terra di nessuno all’interno della quale solo i partigiani scesi dalle montagne avevano un parziale controllo. Il comando brasiliano infatti fermò ogni tipo di azione rimanendo immobile sulle posizioni di partenza. Il caso più eclatante si compì a Barga – a pochi chilometri da Borgo a Mozzano – che fu abbandonata dai tedeschi il 4 ottobre e raggiunta dai brasiliani solo sette giorni dopo. Nel settore avversario dal 19 ottobre, era giunta in Garfagnana la divisione alpina “Monterosa” della Repubblica Sociale Italiana. L’unità al comando del gen. Mario Carloni, era rinforzata dal II battaglione del 6° reggimento della divisione di fanteria di Marina “San Marco” (meglio conosciuto come battaglione “Uccelli” dal nome del suo comandante) e dal 285° reggimento della 148ª divisione tedesca.

Il 21 ottobre i brasiliani avanzarono nel settore dell’Aosta che da poche ore si trovava in prima linea riuscendo a superare la linea. Ma il successo – seppur parziale – non venne colto e unità tedesche della 232ª divisione tedesca e le riserve dell’Aosta e del battaglione Brescia in poche ore ristabilirono la difesa passando al contrattacco.

Il fronte poi si arrestò e la FEB ricevette l’ordine di spostarsi nella zona di Porretta Terme.

In questa prima fase si ebbero 13 morti, 151 feriti ed infortunati e 29 dispersi.

Dopo il brusco fallimento dell’Operazione “Olive”, che avrebbe dovuto portare allo sfondamento del fronte italiano, nuovi scenari andavano maturando in seno ai comandi militari angloamericani e ben presto la posizione dei brasiliani come combattenti alleati cambiò radicalmente. Il gen. Clark alla Conferenza della Futa il 31 ottobre 1944 decise di gettare nella mischia nuove unità: la 1ª DIE e la 92ª Divisione USA, sostituendo la 88ª Divisione USA del magg. gen. Kendall, che aveva sostenuto l’attacco e che da 2 mesi viveva in prima linea.

Fu così che nei primi giorni di novembre il generale Mascarenhas de Moraes trasferì il comando generale della FEB dalla base di Pisa a quella di Pistoia, mentre il P.C. (Posto Comando) Avanzato fu spostato dal piccolo centro della Valle del Serchio, Borgo a Mozzano, a Porretta Terme.

Il 5 novembre tutte le unità della FEB si erano schierate nel nuovo settore e al termine degli spostamenti il nuovo dispositivo del IV Corpo d’Armata si presentava eterogeneo: a sinistra della valle del Reno si trovava la 6ª Divisione Blindata sudafricana del magg. gen. Poole, al centro la FEB del gen. Mascarenhas e a destra della valle del Reno si trovava la 45ª Task Force del gen. Rutledge, rinforzata dalla 1ª Divisione Blindata USA. I tedeschi difendevano il settore centrale con il XIV Corpo Panzer, composto da 5 divisioni, che dipendeva dalla 10ª Armata. Nel settore specifico difeso dai brasiliani si trovava la 232ª Divisione di fanteria del gen. Eckard von Gablenz.

Il nuovo fronte si presentò come un settore maggiormente impegnativo, rispetto al terreno della valle del Serchio e alla veloce azione svolta dai brasiliani durante i primi giorni di guerra in settembre. L’artiglieria germanica, da posizioni dominanti, era in grado di battere la zona occupata dalle truppe brasiliane con precisione e continuità e l’attività delle pattuglie era sempre vivace.

Gli uomini della FEB rimasero fino al 15 novembre praticamente inattivi per gli inconsistenti attacchi del nemico, poi il 16 la 2ª e la 3ª compagnia del 6° reggimento occuparono quota 670, meglio conosciuta come Torre di Nerone.

Si trattava di un’azione legata all’operazione denominata “Preliminary” che doveva portare alla conquista di Monte Castello, un’impervia collina alta 887 metri posta tra la congiunzione della divisione brasiliana e la Task Force.

La presa di Monte Castello avrebbe permesso alle unità alleate di poter sferrare un attacco al Monte Belvedere – quota 1200 – che rappresentava la chiave dell’intero settore. Fu così che nella notte tra il 28 ed il 29 novembre il I/1° (magg. Uzeda), il III/11° (magg.Candido) e il III/6° (magg. Nobrega) con l’appoggio dell’artiglieria, sotto il diretto comando del gen. Cordeiro de Faria, iniziarono la manovra verso l’obiettivo. Fin dalle prime ore però fu chiaro che l’intento sarebbe fallito. Le unità giunsero al contatto con i tedeschi in maniera disgregata e in poche ore persero 190 tra morti, feriti e dispersi. Fu un vero disastro tecnico e tattico e mentre i comandanti sudamericani cercavano di studiare un’operazione d’attacco che potesse garantire una pronta rivincita, i tedeschi operarono tra il 30 novembre e il 2 dicembre profonde penetrazioni nelle linee brasiliane. Le unità sudamericane che avevano attaccato il 29 novembre avevano il morale molto basso per le alte perdite subite furono rimpiazzate da reparti freschi tra il primo ed il 3 dicembre. Ma era chiaro che la FEB non era pronta alla guerra. In questa fase il col. Mathewson, parlò nel suo diario di “situazione critica” per il Corpo di Spedizione brasiliano che nel mese di novembre aveva perso ben 340 uomini (48 morti, 289 feriti e 3 dispersi).

Solo a partire dal 5 dicembre la linea difensiva fu pienamente ristabilita e tornò ad una certa normalità.

Ma lo smacco di Monte Castello bruciava e il 12 dicembre i brasiliani tornarono all’attacco della collina.

Per la seconda azione brasiliana contro Monte Castello fu affidato il comando delle operazioni al gen. Zenobio da Costa, il “conquistatore” di Camaiore. Il piano prevedeva l’avanzata coordinata del II/1° e del III/1°, in direzione di Casa Guanella e Quota 887, mentre un distaccamento misto di uomini del 6° reggimento al comando del col. Nelson de Mello avrebbe creato una azione diversiva sul fianco destro. Per l’occasione tutti i gruppi d’artiglieria furono preparati e rinforzati dai pezzi del 68° battaglione da campo USA.

L’ora X era stata stabilita alle 06.00 della mattina del 12 dicembre, ma le pesanti condizioni del terreno aggravarono notevolmente il compito degli attaccanti, e ben presto il II/1° del magg. Syseno non poté mantenere i tempi di marcia, mentre il III/1° del magg. Franklin avanzò sotto un fitto fuoco di mitragliatrici e, constatata l’impossibilità di procedere, ripiegò, lasciando senza copertura il II/1° e nei duri scontri successivi la 7ª e la 9ª compagnia subirono ingenti perdite.

La regione di Monte Castello oggi - http://www.portalfeb.com.br/nos-passos-da-feb
La regione di Monte Castello oggi – http://www.portalfeb.com.br/nos-passos-da-feb

Nel tardo pomeriggio il gen. Zenobio da Costa ordinò un ripiegamento generale sulle posizioni di partenza.

I brasiliani subirono 250 perdite (tra questi ben 49 morti) e l’ordine perentorio da parte degli americani di rinforzare le posizioni e lasciar passare l’inverno. E le polemiche e i litigi aumentarono tra statunitensi, sudamericani e in seno ai comandi stessi del corpo di spedizione. Lo stesso Vargas richiamò in patria il capo di stato maggiore De Lima Brayner, mentre la stampa diffondeva notizie sulla disfatta.

Gennaio 1945 fu dunque il mese della completa riorganizzazione militare e psicologica dei reparti della FEB.

L’arrivo poi nel settore della 10ª divisione USA rappresentò per i brasiliani la possibilità di un futuro riscatto dalla sconfitta di Monte Castello, essendo questa una grande unità specializzata nei terreni di montagna.

L’8 febbraio a Lucca il generale Crittenberger presentò l’operzione “Encore” che prevedeva lo sfondamento della Linea Gotica nel settore del IV Corpo d’armata, dove la linea era chiamata “Gengis Khan”. Monte Belvedere rimaneva la quota più importante del settore con Monte Castello a fare da cerniera sul punto cardine. Il 19 febbraio fu sferrato l’attacco che – seppur tra mille difficoltà – condusse i brasiliani a conquistare la vetta. Non mancarono le polemiche perché per dimostrare di aver raggiunto la piena maturità militare i comandi della FEB avevano preteso di prendere da soli Monte Castello. Certo che l’avanzata americana aveva giocato un ruolo fondamentale nello scardinamento della linea difensiva. In Brasile la conquista venne festeggiata e ancora oggi rappresenta un vanto militare di tutto rispetto.

Raggiunti gli obiettivi prefissati, l’azione offensiva delle unità del IV Corpo d’armata del gen. Crittenberger si fermò. Monte Belvedere e Monte Castello furono occupati e difesi dai contrattacchi tedeschi, che per alcuni giorni cercarono di riconquistare le posizioni perse.

Il 4 marzo i brasiliani occuparono l’abitato di Castelnuovo dopo sanguinosi scontri e tra questi un combattimento all’arma bianca che vide soccombere i sudamericani con piccole e veloci unità tedesche.

Nel mese di marzo gli alti comandi alleati studiarono un nuovo piano d’attacco per scardinare definitivamente le linee tedesche. Nella nuova strategia Alexander e Clark accantonarono l’ipotesi di raggiungere Bologna e concertarono con il comandante dell’8ª Armata, gen. McCreery, l’apertura di un varco lungo la strada di Argenta. Le istruzioni prevedevano un primo attacco dell’8ª Armata e, il giorno 14, la spallata degli americani della 5ª Armata.

Simbolo della 5 ª Armata
Simbolo della 5 ª Armata

Lo schieramento alleato del XV Gruppo d’Armate al comando del gen. Clark era composto da 20 divisioni e 10 brigate così disposte sulla linea: il settore occidentale tirrenico era stato affidato ai neri della 92ª divisione di fanteria “Buffalo” (sotto il diretto controllo del comando della 5ª Armata); tra la valle del Serchio e la statale 64 furono disposte la 1ª divisione brasiliana, la 10ª divisione da montagna USA e la 1ª divisione corazzata USA (tutte unità del IV Corpo d’Armata del gen. Crittenberger). Al centro dello scacchiere trovarono posto la 6ª divisione corazzata sudafricana, la 88ª, 91ª, 34ª, e 85ª divisioni di fanteria USA (del II Corpo d’Armata del gen. Keyes). Nel settore orientale difeso dalle unità dell’8ª Armata del gen. McCreery si trovavano: al centro, in corrispondenza del fiume Santerno, la 1ª divisione di fanteria britannica, la 6ª divisione corazzata britannica, la 8ª divisione indiana e la 1ª divisione corazzata canadese (tutte unità del XIII Corpo d’Armata del gen. Kirkman). In prossimità di Imola furono disposte le unità del X Corpo d’Armata britannico del gen. Hawksworth; sulla direttrice della Via Emilia la 3ª e la 5ª divisioni di fanteria polacche (del II Corpo d’Armata polacco del gen. Anders). Infine nel settore di Ravenna furono disposte la 2ª divisione di fanteria neozelandese, la 78ª divisione di fanteria britannica, la 56ª divisione di fanteria britannica (unità del V Corpo d’Armata del gen. Keightley), insieme con i Gruppi di combattimento italiani “Legnano”, “Cremona”, “Friuli” e “Folgore” e alcune brigate britanniche, indiane, polacche e una composta da ebrei.

I brasiliani ricevettero il compito di prendere la cittadina di Montese e poi salire fino a Zocca.

I tedeschi e i repubblichini aveva disposte sul campo il Gruppo d’Armate Liguria, nel settore tirrenico, al comando del gen. Graziani (tra alcune unità tedesche troviamo le divisioni della R.S.I. “Monterosa”, “San Marco”, “Italia” e “Littorio”), al centro la 14ª Armata del gen. Lemelsen e a difesa del settore adriatico la 10ª Armata del gen. Herr.

Il 14 aprile alle ore 09.45 tutto il settore centrale della Linea Gotica si mosse in avanti dopo un intenso fuoco delle artiglierie e gli attacchi a volo radente degli aerei alleati. I primi reparti ad avanzare furono i reggimenti della 10ª divisione da montagna che occuparono in poche ore le posizioni di Castel d’Aiano. I secondi a partire dalle linee furono gli uomini della 1ª divisione corazzata che presero Susano e Vergato. Alle ore 10.15 si mossero gli uomini della 1ª divisione di fanteria brasiliana che, nelle prime ore di avanzata, incontrò una debole resistenza nemica. Ma prima di sera lungo il settore tutte le unità della FEB avevano preso contatto con il nemico subendo in alcuni casi dure perdite.

La distruzione avvenuta nel Montese
La distruzione avvenuta nel Montese

Solo durante la notte tra il 18 e il 19 aprile, i reparti della 114ª divisione tedesca, che difendeva il settore attaccato dalla FEB, ricevettero l’ordine di ritirata fino al fiume Panaro. Montese fu occupato lamentando 34 morti, 382 feriti e 10 dispersi, per un totale di 426 uomini fuori combattimento.

I tedeschi, dopo aver abbandonato le posizioni di Montese, si ritirarono nell’area di Zocca e, da quella nuova posizione, continuarono a bombardare le linee brasiliane. Tutto il settore centrale del fronte si fermò per una necessaria riorganizzazione ma già il 20 aprile tutte le unità del settore centrale della Linea Gotica erano nuovamente in movimento e le unità esploranti del cap. Plinio Pitalunga del Corpo di Spedizione Brasiliano ricevettero l’ordine di conquistare le posizioni a nord di Zocca.

Ormai il fronte era crollato, ma mentre le unità americano correvano verso la Pianura Padana i brasiliani si ritrovarono senza mezzi. A quel punto il comando brasiliano decise di costituire una unità celere per chiudere la valle del Panaro e bloccare la via delle unità nemiche in ritirata dalla Garfagnana.

Il gruppo celere costituito prese il nome dal suo comandante e divenne “Grupamento Coronel Nelson de Mello” e fu composto dal II/6° e dal II/1° fanteria, da una compagnia di obici del 6°, da quattro plotoni di carri armati americani del 894° battaglione e da unità di sanità, trasmissioni e genio.

Il 25 aprile il comando della 1ª divisione brasiliana fu trasferito da Vignola a Montecchio Emilia e tutte le unità del corpo affluirono in pianura. Dal 26 al 30 aprile brasiliani, tedeschi, repubblichini e naturalmente partigiani si misurarono in un duro scontro distinto in tre fasi: la prima, avvenuta tra il 26 ed il 27 aprile, è ricordata come combattimento di Collecchio; la seconda, svoltasi il 28 aprile, è nota come combattimento di Fornovo. La terza, avvenuta tra il 29 ed il 30 aprile, rappresenta l’apice della partecipazione brasiliana in Italia, ed è passata a memoria come la giornata della resa del nemico. Si consegnarono infatti nelle mani dei brasiliani 13.579 prigioni e tra questi alle 18.30 del 29, insieme alla truppa, giunse il gen. Carloni con tutto il suo Stato Maggiore, mentre alle 18.00 del 30 aprile arrivò infine, con gli ultimi uomini della sua divisione, anche il generale tedesco Fretter Pico.

Il generale Otto Fretter-Pico , comandante della 148. Infanterie-Division tedesca
Il generale Otto Fretter-Pico , comandante della 148. Infanterie-Division tedesca

Il 30 aprile la FEB ricevette l’ordine di occupare una zona nei pressi di Alessandria e lì attendere nuovi ordini.

Unità brasiliane sfilarono a Milano assieme ai partigiani lombardi, il Combat Command B della 1ª divisione blindata USA, il II/135 reggimento della 34ª divisione USA, la compagnia A del 1° battaglione di carri della 1ª divisione blindata USA, un plotone del reggimento speciale della Raggruppamento “Legnano”, una batteria d’artiglieria del 7° gruppo dell’artiglieria inglese, una sezione del 26° reggimento d’artiglieria contraerea inglese, due plotoni della compagnia A del 751° battaglione carri da combattimento USA.

Il 4 luglio 1945 la FEB ricevette l’ordine di spostarsi nei pressi di Napoli per iniziare le operazioni preliminari di imbarco per il rimpatrio. Il presidente Vargas temendo l’arrivo di un eroe di guerra e di 25.000 soldati ben armati e ben addestrati decise di “seppellire” la memoria e i febiani. Il gen. Mascarenhas de Moraes fu rimpatriato in aereo e una volta giunto a Rio de Janeiro fu accompagnato nella sua residenza privata dallo stesso Ministro della Guerra gen. Dutra. Pochi giorni dopo, il 23 luglio, il generale fu inviato in Perù per una missione diplomatica che lo tenne lontano dal paese. Nel frattempo le partenze dei soldati, come citato, iniziarono dal porto di Napoli il 6 luglio e si conclusero il 19 settembre. Ma poche ore prima del ritorno a casa i comandi brasiliani fecero stampare in fretta e furia dalla tipografia milanese A. Macchi & C., migliaia di congedi che furono rilasciati ai soldati durante il viaggio. Al loro arrivo il Ministro della Guerra ordinò che entro 8 giorni dallo sbarco le divise, i distintivi con il Cobra e lo stemma della 5ª Armata dovevano scomparire per sempre dal Brasile.

Un Aereo brasiliano P-47 in Italia - http://voandoemsonhosuomini.blogspot.com.br/2010/11/p-47d-thunderbolt.html
Un caccia-bombardieri P-47 brasiliano in Italia – voandoemsonhosuomini.blogspot.com.br

Dal febbraio 1945 la FEB aveva ricevuto anche l’appoggio del gruppo aereo brasiliano – F.A.B. (Força Aérea Brasileira) – dotato di  caccia-bombardieri P-47 ceduti dagli Stati Uniti.

La decisione di inviare in Europa un gruppo d’aviazione brasiliano risale alla fine del 1943 e fu presa insieme a quella di impegnarsi con il Corpo di Spedizione terrestre. In linea generale fu deciso di costituire un gruppo da caccia-bombardieri e, al servizio dell’artiglieria divisionale, una squadriglia per il collegamento e l’osservazione.

In Brasile da alcuni anni il presidente Vargas stava lavorando per rendere efficiente l’aeronautica delle forze armate; il primo passo fu la creazione, il 20 gennaio 1941, del Ministero dell’Aviazione e, subito dopo, l’unificazione dell’Aviazione dell’Esercito con quella della Marina. A partire dal 1942 giunsero in Brasile alcune squadriglie aeree dell’USAAF, che operarono nelle basi di Natal e Recife con il compito di difesa aerea dei convogli alleati che attraversavano l’Atlantico. In quel periodo esperti piloti americani prepararono una squadriglia di aviatori brasiliani che si distinse in azioni di difesa marittima. L’azione più importante compiuta dai brasiliani durante i pattugliamenti sull’oceano fu l’affondamento di un U-Boot tedesco, avvenuto il 12 agosto 1943. Il cap. Santos Polycarpo, a bordo di un “A-28-A” e il cap. Coutinho Marques, ai comandi del PBY “Catalina” 14, intercettarono l’U-199, comandato dal cap. Hans Werner Kraus e, dopo averlo mitragliato, lo affondarono con tre siluri.

Un idrovolante Consolidated PBY Catalina utilizzato dai brasiliani per proteggere le proprie coste
Un idrovolante Consolidated PBY Catalina utilizzato dai brasiliani per proteggere le proprie coste

Il 18 dicembre 1943 fu istituito il 1° Gruppo da Caccia e a comandarlo fu chiamato il magg. Nero Moura. L’addestramento del primo gruppo di piloti iniziò il 3 gennaio 1944 negli Stati Uniti. Nel marzo, dopo una pratica individuale di 60 ore sui caccia “Curtiss P-40”, i primi piloti addestrati raggiunsero i 350 uomini mobilitati per la creazione del Gruppo nella base aerea di Agua Dulce, a Panama. Nel campo del paese centroamericano tutti i piloti iniziarono un duro addestramento, che fu poi completato nella base dell’USAAF a Suffolk, presso New York. Alla fine i brasiliani furono dotati dei citati caccia-bombardieri “Republic P-47 Thunderbolt” di fabbricazione statunitense.

Terminato l’addestramento il gruppo con aerei e materiali fu imbarcato il 19 settembre 1944 sul trasporto francese Colombie nel porto di New York. Il 9 ottobre la nave giunse a Livorno e il 1° Gruppo da Caccia brasiliano fu destinato al campo di aviazione di Tarquinia. In quei giorni la FAB fu inquadrata nel 350° reggimento aereo da combattimento (Fighter Regiment), della 62ª aerobrigata da caccia Usa. A sua volta la 62ª brigata faceva parte del XXII Comando Aereo Tattico di supporto alle azioni terrestri della 5ª armata. Il 4 dicembre, in relazioni agli sviluppi del conflitto, l’intero 350° reggimento fu spostato nella base di Pisa, a ridosso del fronte.

Durante i primi giorni di guerra, come era consuetudine nelle squadriglie americane, la FAB scelse il suo emblema e il motto da combattimento. Come stemma fu preferito un agguerrito struzzo che volando tra le nuvole sparava fucilate; mentre come motto i piloti optarono per il grido “Senta a Pua!” (Senti la Punta!).

Simbolo usato in aerei brasiliani in Italia durante la Seconda Guerra Mondiale.
Simbolo usato in aerei brasiliani in Italia durante la Seconda Guerra Mondiale.

La FAB dal comandante magg. gen. B.J. Chidlaw, del XXII Comando aereo tattico, ricevette l’ordine di seguire tre principali linee d’azione:

a) appoggio diretto alle forze terrestri, con la regolazione del fuoco dell’artiglieria;

b) isolamento del campo di battaglia, con l’interruzione sistematica delle vie di comunicazione che collegavano il fronte nemico con la valle del Po e il resto del territorio occupato fino al passo del Brennero;

c) distruzione degli impianti militari e industriali dell’Italia settentrionali265.

Purtroppo la FAB pagò un alto tributo di sangue. Durante l’inverno perirono in seguito di incidenti di volo 3 piloti. Il 23 dicembre il ten. Motta Paes, colpito dalla contraerea a nord di Ostiglia (Verona), dopo essersi lanciato con il paracadute fu catturato dai tedeschi.

Tenente aviatore Ismael da Motta Paes, catturato dai tedeschi e lebertado dopo la fine della guerra - http://www.abra-pc.com.br/mito19.html
Tenente aviatore Ismael da Motta Paes, catturato dai tedeschi e lebertado dopo la fine della guerra – http://www.abra-pc.com.br/mito19.html

Il 2 gennaio, nei pressi di Alessandria, il ten. Medeiros lanciatosi dall’aereo in fiamme atterrò sui fili elettrici dell’alta tensione e morì fulminato. Il 4 febbraio il cap. Miranda e il ten. Danilo Moura saltarono dai loro aerei in fiamme dopo essere stati colpiti dalla contraerea; il cap. Miranda con un braccio spezzato fu nascosto da un gruppo di partigiani nei pressi di Padova. Mentre il ten. Moura aiutato da diversi gruppi partigiani, dopo 24 giorni e 260 km di cammino, raggiunse i compagni a Pisa. Anche il cap. Kopp, abbattuto a Parma, fu salvato dai partigiani della zona. Altri 4 piloti invece furono catturati dai tedeschi e inviati nei campi di prigionia; il ten. Paes finì nel campo di Stettino, in Prussia, e ivi liberato dai Sovietici dopo 4 mesi di prigionia. Dei 48 piloti brasiliani impiegati totalmente in combattimento, 6 erano ufficiali del Q.G. e ufficiali di collegamento statunitensi, 3 furono vittime di incidenti, 5 caddero durante operazioni belliche, 8 si lanciarono con il paracadute e finirono o in prigionia o nascosti dai partigiani, infine 5 piloti furono allontanati dal volo e rimpatriati per esaurimento fisico e psichico.

Dalle statistiche formulate nel dopoguerra risulta che furono accreditate ai piloti brasiliani il 28% dei ponti e il 15% dei veicoli tedeschi distrutti, nonché l’85% dei depositi munizioni e il 36% dei depositi combustibile colpiti. In 192 giorni operativi la FAB effettuò ben 2.995 sortite ed uscite offensive, durante le quali lanciò 4.442 bombe di vario genere che colpirono 4.454 obiettivi.

Ovviamente dati propagandistici, gonfiati da qualche solerte burocrate, che comunque non nascondono il buon comportamento dei piloti.

Due P-47 brasiliana, al momento del decollo
Due P-47 brasiliana, al momento del decollo

Per completare il richiamo all’attività della Força Aérea Brasileira sul fronte italiano, è necessario far cenno anche all’attività della squadriglia per il collegamento e l’osservazione. Tale unità lavorò al servizio dell’artiglieria divisionale e giunse in Italia nell’ottobre 1944 assieme al 3° scaglione della FEB. Il 10 ottobre con il mezzo da sbarco “LC-1- 116” i piloti e gli avieri della squadriglia furono trasportati a Livorno, e, in seguito, con alcuni camion a Pisa. Nell’aeroporto toscano il reparto di collegamento ricevette 9 aerei del tipo Piper Cub, con motore da 65 cavalli, equipaggiati solo con una radio e senza alcun tipo di armamento. Nello stesso periodo si aggregò alla squadriglia il magg. J.W. Buyers, ufficiale di collegamento USA, che svolse un magnifico lavoro di addestramento e preparazione dei piloti brasiliani. La Squadriglia di collegamento e osservazione effettuò 1.654 ore di volo, 682 missioni e più di 400 correzioni del tiro dell’artiglieria. Ogni pilota eseguì tra le 95 e le 70 missioni.

Da parte sua il personale terrestre della FAB (Força Aérea Brasileira) fece rientro in Brasile via mare con il primo scaglione che partì da Napoli il 6 luglio. I piloti invece furono selezionati e 20 di essi furono scelti per essere inviati nella base statunitense di San Antonio in Texas, dove ricevettero 20 nuovi P-47 Republic “Thunderbolt”. Poi tutta la nuova squadriglia si spostò nella base aerea brasiliana di “Campo dos Afonsos” presso Rio de Janeiro, dove stabilì la sede operativa.

In conclusione, il bilancio delle operazioni oltre oceano della Forza di Spedizione brasiliana può essere riassunto in pochi dati statistici. Furono presenti in Italia 25.334 uomini, che giunsero nella penisola in 5 scaglioni. Inoltre giunsero in Italia 111 persone, tra le quali il gruppo di infermiere, per via aerea. 15.069 uomini presero parte ai combattimenti, con il seguente bilancio di perdite: 457 morti, dei quali 13 ufficiali e 444 uomini di truppa. Inoltre persero la vita 8 piloti del gruppo aereo della FAB (Força Aerea Brasileira). I feriti da arma da fuoco in azioni di guerra furono 1.577, mentre quelli feriti per incidenti in zona di guerra furono 487; infine gli infortunati lontani dalla linea del fronte furono 658. Il deposito personale, a fronte di 3.179 uomini messi fuori combattimento, fornì alle unità di prima linea 3.379 rimpiazzi.

Il giudizio complessivo dell’operato dei soldati brasiliani in Italia può essere tutto sommato considerato positivo. I sudamericani riuscirono a superare difficoltà che avrebbero costretto anche gli stessi americani a tragiche battute a vuoto e chiaro è il riferimento alla crisi che colpì la FEB dopo la sanguinosa sconfitta di Monte Castello avvenuta nel mese di dicembre.

Truppe brasiliane nella parata per la vittoria a Rio de Janeiro nel 1945
Truppe brasiliane nella parata per la vittoria a Rio de Janeiro nel 1945

Il Brasile pagò enormemente la sua scelta di partecipare al conflitto. Estromesso dalle trattative per i risarcimenti di guerra dovette pagare interamente il prestito di guerra che gli Stati Uniti avevano accordato a Vargas nel 1942. L’ultima rata dei 361 milioni di dollari giunti in Sudamerica fu pagata il 1° luglio 1954. Il totale dei danni, delle spese, dei prestiti da restituire e degli interessi da pagare sommava a 12 bilioni di cruzeiros (2 milioni di sterline o 2 milioni di marchi, del 1945), e tale perdita non fu mai più pareggiata.

Certamente l’amarezza per il torto subito dagli ex-alleati non alimentò tentativi di facili ritorsioni verso i vecchi nemici. Il governo di Rio de Janeiro, che aveva confiscato all’inizio della guerra tutti i beni dei paesi e dei cittadini tedeschi, italiani e giapponesi, superò ogni rancore e restituì tutti i beni sequestrati ai legittimi proprietari. Con questo gesto terminarono tutte le vicende aperte con l’inizio della seconda guerra mondiale ed il Brasile, che aveva vinto la guerra, finì per pagare un conto fin troppo elevato.

AUTORE – ANDREA GIANNASI

http://www.storiain.net/arret/num131/artic3.asp

http://www.storiain.net/arret/num132/artic5.asp

About the Blog author Tokdehistória

Rostand Medeiros was born in Natal, Rio Grande do Norte. He is a 45 years old writer, researcher and expert in producing biographical works. Also does researches in history of aviation, participation of Brazil in World War II and in regionalist aspects of Northeast Brazil.
His member of Genealogy Institute of Rio Grande do Norte – IGRN and SBEC – Brazilian Society for the Study of Cangaço.
In 2009, he was co-author of “Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete” (in free translation, “The Knights of the Sky: The Saga of Ferrarin and Del Prete Flight”), a book that tells a story from 1928, of the first nonstop flight between Europe and Latin America. This book was supported by the Italian Embassy in Brazil, Brazilian Air Force (FAB) and Potiguar University (UNP).
In 2010, Rostand was a consultant of SEBRAE – Brazil’s Micro and Small Business Support Service, participating of the project “Território do Apodi – nas pegadas de Lampião” (in free translation, “Apodi Territory – In the footsteps of Lampião”), which deals with historical and cultural aspects of rural areas in Northeast Brazil.
In 2011, Rostand Medeiros launched the book “João Rufino – Um Visionário de Fé” (“João Rufino – A visionary of Faith”), a biography of the founder of industrial group Santa Clara / 3 Corações, a large coffee roasting company in Latin America. The book shows how a simple man, with a lot of hard work, was able to develop, in Rio Grande do Norte state, a large industry that currently has seven units and 6,000 employees in Brazil.
Also in 2011, he wrote, with other authors, a book of short stories entitled “Travessa da Alfândega” (in free translation, “Customs Cross Street”).
In 2012, Medeiros produced the following books: “Fernando Leitão de Moraes – Da Serra dos Canaviais à Cidade do Sol” (“Fernando Leitão de Moraes – From Sugarcane Mountains to Sun City”) and “Eu Não Sou Herói – A História de Emil Petr” (“I’m not a hero – The Story of Emil Petr”). This latest book is a biography of Emil Anthony Petr, a farmer who was born in Nebraska, United States. During World War II, he was an aviator in a B-24 bombing and became a prisoner of the Germans. This work shows the relationship of Emil with Brazilian people, whose with he decided to live from 1963, when he started to work for Catholic Church.
He also published articles in “Tribuna do Norte”, newspaper of the city of Natal, and in “Preá”, cultural magazine published by Rio Grande do Norte State Government.
He founded SEPARN – Society for Research and Environmental, Historical and Cultural Development of Rio Grande do Norte.
Currently, is working as a Parliamentary Assistant in Rio Grande do Norte Legislative Assembly and develops other books.
Rostand Medeiros is married, has a nine years old daughter and lives in Natal, Rio Grande do Norte, Brazil.

Phones: 0051 84 9904-3153 (TIM) / 0051 84 9140-6202 (CLARO) / 0051 84 8724-9692 (Oi)
E-mail: rostandmedeiros@gmail.com
Blog: https://tokdehistoria.wordpress.com/

LUIZ GONZAGA – 100 ANOS DO MAIOR ARTISTA DA CULTURA NORDESTINA

O Meste Luiz
O Meste Luiz

Luiz Gonzaga Nascimento, nasceu em uma sexta-feira, no dia 13 de dezembro de 1912 , numa casa de barro batido na Fazenda Caiçara, povoado do Araripe, à 13 quilômetros de uma longínqua cidade sertaneja chamada Exu, no extremo oeste do Estado de Pernambuco.

É apontado pela crítica como um dos nomes mais importantes da música popular brasileira de todos os tempos. A importância de Luiz Gonzaga deve-se à abrangência que sua obra tem em todo o território brasileiro.

Era filho de Ana Batista de Jesus, conhecida como Mãe Santana, ou simplesmente Santana, uma dedicada agricultora e dona de casa, e de Januário José dos Santos, afamado tocador de sanfona de 8 baixos na sua região e que também concertava este tipo de instrumento musical.

Exu e a Igreja do Bom Jesus
Exu e a Igreja do Bom Jesus na década de 1950

Consta que seu nome se deu pelos seguintes motivos; Luiz, porque era dia de Santa Luzia; Gonzaga por sugestão do vigário que o batizou, e Nascimento por ser o mês que Maria deu à luz a Jesus. Foi batizado na matriz de Exu no dia 05 de janeiro de 1913, pelo Padre José Fernandes de Medeiros.

Desde criança, Luiz Gonzaga se interessou pela sanfona, ele ajudava o pai tocando e cantando em festas religiosas e forrós. Luiz Gonzaga, mesmo muito precoce já recebia cachê ( 20$000 vinte mil réis) para cantar e tocar a noite toda em festas de região, tornando-se famoso em 1920. Quatro anos depois, sua família mudou-se para Araripe, após uma enchente. Lá, Luiz chegou a receber mais que seu pai, mas o que ele recebia ainda não era suficiente para comprar um fole. Diferente dos outros garotos de sua idade que queriam ir para se divertirem, Luiz Gonzaga gostava era de ficar no palco tocando com seu pai e demais músicos.

Aos treze anos, Luiz Gonzaga compra sua primeira sanfona, na cidade de Ouricuri-PE, graças ao empréstimo concedido pelo coronel Manoel Ayres de Alencar: um 8 Baixos, Koch, marca veado, igual ao do Mestre Januário, ao preço de 120 mil réis. Quando saldou sua dívida, anunciou ao coronel Ayres que não iria mais trabalhar com ele, pois a partir de então, seria sanfoneiro profissional.

Antiga Rua Padre João Batista, na Exu da década de 1950
Antiga Rua Padre João Batista, na Exu da década de 1950

Antes dos dezoito anos Luiz teve sua primeira paixão: Nazarena, uma moça da região e que Luiz conheceu ao participar de um grupo de escoteiros. Foi rejeitado pelo pai dela, que não o queria para genro e ameaçou-o. Ferido na sua honra de macho novo, aproveita o dia da feira e vai tirar satisfações da desfeita armado com uma faquinha, isso tudo após tomar uns goles de cana para dar coragem. Ao saberem do episódio, Januário e Santana lhe dão uma surra. Revoltado por não poder casar-se, Luiz Gonzaga fugiu de casa e ingressou no exército como voluntário.

Luiz Gonzaga aumenta sua idade para sentar praça no Exército, mais precisamente no no 23º Batalhão de Caçadores, em Fortaleza. Ali é conhecido como soldado Nascimento. O ano era 1930, ano de revolução, isso fez Gonzaga seguir em missão militar por várias partes do Brasil como corneteiro de sua unidade. Para ele foi uma fase também muito importante, pois teve realmente acesso às várias culturas que encontramos neste país.

Soldado nascimento - Fonte - http://www.defesanet.com.br
Soldado nascimento – Fonte – http://www.defesanet.com.br

Após o término do tempo legal de serviço militar, o soldado Nascimento escolhe continuar servindo no Exército, instituição que representou o papel de uma grande e importante escola. Nas horas vagas acompanhava, pelos programas de rádio, os sucessos musicais da época. Por não conhecer a escala musical, é reprovado num concurso para músico numa unidade do exército, em Minas Gerais. Vira “soldado-corneteiro 122” e ganha o apelido de “bico de aço”.

Em Juiz de Fora-MG, conheceu Domingos Ambrósio, também soldado e conhecido na região pela sua habilidade como acordeonista. A partir daí começou a se interessar pela área musical e aprende a tocar sanfona de 120 baixos .

Gonzaga é ludibriado por um caixeiro-viajante, a quem paga 500 mil réis em prestações mensais para adquirir uma sanfona branca, Honner, de 80 baixos. Foge do quartel, em Ouro Fino-MG, para ir buscar a sanfona em São Paulo. Lá chegando, descobre que não vendiam sanfona no endereço que o caixeiro lhe dera. Ao retornar ao hotel onde se hospedara, acaba comprando uma sanfona igualzinha à que tinha ido buscar.

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Em 1939 Luiz dá baixa das Forças Armadas, impulsionado por um decreto que proibia para os soldados um engajamento superior a dez anos no Exército. Desembarca no Rio com bilhetes comprados para Recife, de navio, e Exu, de trem. Enquanto aguardava a chegada do navio que o levaria ao Recife, resolve conhecer o Mangue, o bairro boêmio vizinho. E lá, com sua sanfona Honner branca, faz sucesso tocando valsas, tangos, choros, foxtrotes e outros ritmos da época. Através de um músico amigo, o baiano Xavier Pinheiro, casado com uma portuguesa, Gonzaga vai morar no morro de São Carlos, à época tranquilo reduto português no Rio. Consta que teve sua primeira apresentação em palco, num cabaré chamado “O Tabu”.

Luiz Gonzaga tocava em festas na Lapa ou se apresentava nas ruas passando o chapéu. O homem simples não tinha vergonha de se apresentar na rua e foi assim, longe dos holofotes, longe dos palcos que ele começou sua carreira no Rio de Janeiro, tocando na rua, apenas um estranho, apenas mais um entre muitos que buscavam ganhar algum dinheiro para sobreviver na cidade maravilhosa.

Por consequência da Segunda Guerra Mundial, o país foi invadido por músicas e ritmos estrangeiros, mas nada impediu Luiz Gonzaga de  tocar, sendo assim, ele começou a tocar os ritmos incluindo blues e fox trot, afinal vivia da música e precisava agradar o público.

Dono de um enorme talento logo começou a participar de programas de calouros, com um  repertório composto basicamente de músicas estrangeiras. Mas o sucesso não veio.

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Tudo mudou em 1941. Um dia, pressionado por estudantes cearenses, Luiz Gonzaga modifica o seu repertório e consegue tirar nota máxima no programa “Calouros em Desfile”, de Ary Barroso, na Rádio Tupi, executando a música Vira e Mexe, um “xamego” (chorinho) lá do seu pé-de-serra. Pouco tempo depois vai trabalhar com Zé do Norte no programa “A hora Sertaneja”, na Rádio Transmissora. Nesta mesma época chega ao Rio seu irmão José Januário Gonzaga, fugindo da seca devastadora e trazendo um pedido de ajuda por parte de Santana. Zé Gonzaga passa a morar com o irmão.

Luiz Gonzaga já atraia a atenção das pessoas, já tocava bem melhor, sua voz inconfundível dava nova tonalidade às canções e o ritmo não deixava ninguém ficar parado e tudo isto despertava a atenção das pessoas e começava já a chegar também nas rádios.

Em 5 de março de 1941 Luiz realiza sua primeira participação numa gravação da empresa Victor, atuando como sanfoneiro da dupla Genésio Arruda e Januário França. Seu talento chama a atenção de Ernesto Augusto Matos, chefe do setor de vendas da Victor. E no dia 14 de março Luiz Gonzaga grava, assinando pela primeira vez como artista principal, e exclusivo da Victor, quatro músicas que são lançadas em dois 78 rotações. É publicada a primeira reportagem sobre Luiz Gonzaga na revista carioca Vitrine, com o título “Luiz Gonzaga, o virtuoso do acordeom”. Ainda em 1941, Gonzaga grava mais dois 78 rotações. O sucesso havia chegado, e Gonzaga já era chamado como “O maior sanfoneiro do nordeste, e até do Brasil”.

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Gonzaga apresentava-se com o típico figurino do músico profissional: paletó e gravata. Mas em 1943, após conhecer o trabalho do sanfoneiro catarinense Pedro Raimundo, que se apesentava no palco com as roupas típicas de sua cultura; Luiz decidiu vestir-se com roupas típicas do nordeste, adotando o traje de vaqueiro – figurino que o consagrou como artista.

Desta época recebeu o apelido de Lua do amigo O apelido “Lua”, invenção de Dino 7 Cordas pelo rosto arredondado de Gonzaga, é divulgado pelo radialista Paulo Gracindo na Rádio Nacional.

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Dois anos depois, em 11 de abril, Luiz Gonzaga grava o 25º disco de sua carreira como sanfoneiro, e o primeiro como cantor, com as músicas Dança Mariquinha, mazurca de sua autoria com letra de Miguel Lima, e Impertinente, polca também de sua autoria, instrumental. Mas a afirmação como intérprete só chega com o 31º disco, lançado em novembro, pelo sucesso estrondoso da mazurca Cortando o pano, uma parceria com Miguel Lima e Jeová Portella.

Ainda em 1945, uma cantora de coro chamada Odaléia Guedes dos Santos deu à luz um menino, no Rio. Luiz Gonzaga mantinha um caso há meses com a moça – iniciado quando ela já estava grávida – Luiz, sabendo que sua amante ia ser mãe solteira, assumiu a paternidade da criança, adotando-o e dando-lhe seu nome: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior.

Odaléia, que além de cantora de coro era sambista, foi expulsa de casa por ter engravidado do namorado, que não assumiu a criança. Ela foi parar nas ruas, sofrendo muito, até que foi ajudada e descobriu-se seu talento para cantar e dançar. Ela passou a se apresentar em casas de samba no Rio, quando conheceu Luiz.

A relação de Odaléia, conhecida por Léia, e Luiz, era bastante agitada, cheia de brigas e discussões, e ao mesmo tempo muita atração física e paixão. Após o nascimento do menino, as brigas pioraram, já que havia muitos ciúmes entre os dois. Eles resolveram se separar com menos de dois anos de convivência. Léia ficou criando o filho, e Luiz ia às vezes visitá-los.

Em 1946 voltou pela primeira vez a Exu, e teve um emocionante reencontro com seus pais, Januário e Santana, que desde 1930 não viam o filho. No retorno para o Rio, passa pela primeira vez no Recife, participando de vários programas de rádio e muitas festas. Nesse momento conhece Sivuca, Nelson Ferreira, Capiba e Zé Dantas, estudante de medicina, natural de Carnaíba, músico por vocação e apaixonado pela cultura nordestina.

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Desejoso de encontrar o parceiro certo para expressar sua musicalidade sertaneja, Luiz Gonzaga procura o cearense Lauro Maia. Este lhe apresenta o cunhado, também cearense, advogado e poeta, Humberto Teixeira. Esse primeiro encontro rendeu a primeira parceria, No meu pé de serra, xote que só seria gravado em novembro do ano seguinte.

Em 1947, em parceria com Humberto Teixeira, a música ícone do Nordeste: Asa Branca.  Asa Branca tornou-se praticamente um hino do povo sofrido do nordeste brasileiro. A parceria com Humberto Teixeira gerou sucessos como BaiãoJuazeiro, MangaratibaParaíba e tantos outros. Nessa época Luiz Gonzaga adotou o acessório que marcou sua imagem, um chapéu de couro estilizado, baseado no que Lampião usava nas tropelias do cangaço.

Outubro de 1948. A conceituda "Revista do Rádio", aponta Luiz Gonzaga, artista da RCA Victor, emplacando os primeiros lugares da venda de discos
Outubro de 1948. A conceituda “Revista do Rádio”, aponta Luiz Gonzaga, artista da RCA Victor, emplacando os primeiros lugares da venda de discos

Num domingo de julho de 1947, Gonzaga conhece na Rádio Nacional, a contadora Helena das Neves Cavalcanti, e a contrata para ser sua secretária. Rapidamente o namoro acontece, e Gonzaga pensa em casar. No ano seguinte o matrimônio acontece e o casal vai viver, juntamente com a mãe de Helena, dona Marieta, no bairro de Cachambi. Eles não tiveram filhos biológicos, por Helena não poder engravidar, mas adotaram uma menina, a quem batizaram de Rosa Maria.

Gonzaga chamando atenção nos jornais cariocas, como nesta edição de 12-03-1948, do jornal "A Noite"
Gonzaga chamando atenção nos jornais cariocas, como nesta edição de 12-03-1948, do jornal “A Noite”

Ainda em 1948 Odaléia morre de tuberculose. O filho deles, apelidado de Gonzaguinha, ficou órfão com dois anos e meio. Luiz queria levar o menino para morar com ele e Helena, e pediu para a mulher criá-lo como se fosse dela, mas Helena não aceitou. Luiz não viu saída: Entregou o filho para os padrinhhos da criança, Leopoldina e Henrique Xavier Pinheiro, criá-lo, no Morro do São Carlos. Luiz sempre visitava a criança e o menino era sustentado com a assistência financeira do artista. Luizinho foi criado como muito amor. Xavier o considerava filho de verdade, e lhe ensinava viola, e o menino teve em Dina um amor verdadeiro de mãe.

A luta em Exu, entre as famílias Alencar e Sampaio, repercutia fortemente no Rio de Janeiro em 1949. Jornal carioca "A Manhã", 06-11-1949.
A luta em Exu, entre as famílias Alencar e Sampaio, repercutia fortemente no Rio de Janeiro em 1949. Jornal carioca “A Manhã”, 06-11-1949.

Aproveitando uma folga entre as gravações, Luiz Gonzaga leva a esposa e sogra para conhecerem o Araripe, e sua terra Exu. Porém, interrompem a viagem quando estavam no Crato, por causa das desavenças e mortes entre as famílias tradicionais Sampaio e Alencar. A grande violência que marcava a disputa entre os clãs rivais ameaçava sua família, ligada aos Alencar. Preocupado, Gonzaga aluga uma casa no Crato, para onde leva seus pais e irmãos, enquanto preparava a mudança de sua família para o Rio de Janeiro, o que ocorreu ainda em 1949.

Em 1950, em janeiro, o médico formando Zé Dantas chega ao Rio de janeiro, a fim de prestar residência no Hospital dos Servidores. Nesse ano, Luiz Gonzaga lançou, gravando ou cedendo para outros intérpretes, mais de vinte músicas inéditas, a maioria parcerias com Humberto Teixeira e Zé Dantas que se tornariam clássicos nacionais. Depois deste ano, começou a fazer shows pelo interior do país continuando muito popular. Neste período Luiz Gonzaga já era bem mais conhecido e seus shows estavam sempre cheios, por onde passava o sucesso era garantido.

Cantando acompanhado de sua sanfona, zabumba e triângulo, levou a alegria das festas juninas e dos forrós pé-de-serra, bem como a pobreza, as tristezas e as injustiças de sua árida terra – o Sertão nordestino – para o resto do país, numa época em que a maioria das pessoas desconhecia o baião, o xote e o xaxado.

Depois da morte de Zé Dantas, fez parceira com outras pessoas. Ganhou o apelido de Rei do Baião dos cidadãos paulistas e até hoje é conhecido como tal. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, não parou mais de fazer sucesso e se tornou um dos artistas mais conhecidos e respeitados do Brasil.

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Em 1968, aconteceu uma coisa engraçada na carreira do cantor; Carlos Imperial espalhou que os Beatles gravaram “Asa Branca” tudo mentira, é claro! Sendo assim, Luiz ocupou muito lugar na imprensa por causa da repercussão dessa brincadeira. Em 1971, após Caetano Veloso e Sérgio Mendes gravaram “Asa Branca”. Depois disso o Rei do Baião chegou a se tornar sucesso entre os hippies.

Em 1980 foi convidado a cantar para o  Papa João Paulo II e recebeu um “Obrigado, cantador”. Em 1982, enfim, virou o Gonzagão e seu filho o Gonzaguinha que acompanhou seu pai numa turnê, mostrava que só daria orgulho ao pai.

Jornal do Brasil - Caderno B - 13-01-1982
Jornal do Brasil – Caderno B – 13-01-1982

Admirado por grandes músicos, gravou nos anos oitenta com cantores de grande sucesso como Raimundo Fagner, Dominguinhos, Elba Ramalho, Milton Nascimento e outros, conseguindo alavancar ainda mais sua carreira. Ao todo, Luiz Gonzaga conseguiu gravar em toda sua vida cinquenta e seis discos compondo mais de quinhentas canções de grande sucesso nacional. Recebeu no ano de 1984 o primeiro disco de ouro com o Danado de Bom, outro grande sucesso.

RElação das músicas e sequência como elas foram cantadas no show de Gonzagão & Gozaguinha no Rio de Janeiro - Jornal do Brasil - Caderno B - 13-01-1982,
Relação das músicas e sequência como elas foram cantadas no show de Gonzagão & Gozaguinha no Rio de Janeiro – Jornal do Brasil – Caderno B – 13-01-1982,

Em 1988, separou-se de Helena e assumiu a relação com Edelzuíta Rabelo. Em 1989, Gonzagão se apresentou pela última vez, surgindo no palco em uma cadeira de rodas. Ele sofria osteoporose e desobedecendo a ordens médicas, participou de um show no dia 6 de junho no Teatro Guararapes em Recife, cidade onde viveu seus últimos dias de vida.

No dia 21 de junho foi internado, morrendo em dois de agosto, aos 76 anos, no Hospital Santa Joana, na capital de Pernambuco. Como ele próprio contou em tributo à Humberto Teixeira ” o homem morre, mas sua obra torna-se imortal”.

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Aos 76 anos, no ano de 1989 no dia dois de agosto às cinco e quinze da manhã morreu o Rei do Baião, depois de quarenta e dois dias internado no Hospital Santa Joana na cidade de Recife. No seu sepultamento compareceram mais de vinte mil pessoas que cantaram Asa Branca quando o caixão descia as quatorze horas e cinquenta minutos do dia quatro de agosto. Uma data que ficou marcada na vida de muitos brasileiros.

E assim o Brasil perdia um ícone da música popular e ganhava um mito que viverá para sempre em suas músicas, pois o homem simples soube cantar a simplicidade do sofrido povo brasileiro e chegou a conquistar a todos, independente da classe social, Luiz Gonzaga é querido por todos, é sem dúvida alguma o eterno Rei do Baião.

Fontes – http://100luizgonzaga.blogspot.com.br/2012/06/biografia_11.html

http://100anosdegonzagao.blogspot.com.br/2012/05/biografia-de-luiz-gonzaga.html

http://www.portaljatoba.com.br/site/musica/item/908-100-anos-de-luiz-gonzaga-o-rei-do-bai%C3%A3o

http://dicasgratisnanet.blogspot.com.br/2012/05/biografia-de-luiz-gonzaga-resumo.html

http://maniadehistoria.wordpress.com/2012/06/24/100-anos-de-luiz-gonzaga-o-rei-do-baiao/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Gonzaga

MOUVEMENTS MESSIANIQUES ET BANDITISME SOCIAL DANS LE NORDESTE BRÉSILIEN

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LES HOMMES RÉSOLUS DU SERTÃO AVAIENT TROUVE LE LIEU DE LEUR COMBAT : CE VILLAGE DEMASURES A L’ASPECT D’UNE CITADELLE. L’ÉTAT SE TROUVAIT CONFRONTE A L’HOSTILITE SOURDE ET TENACE DE TOUS CEUX QUI SAVAIENT FORT BIEN CE QUE LA NATION EXIGEAIT D’EUX : LA SOUMISSION ET LA RESIGNATION. ILS N’ÉTAIENT NI SOUMIS, NI RÉSIGNÉS. ILS NE SE LAISSERAIENT PAS VAINCRE.

Aujourd’hui, dans le sertao, restent quelques groupes éphémères rassemblés autour des beatos, vite dispersés par la police ; quelques bandits isolés, de simples brigands, qui se consacrent surtout au vol. Par contre, les hommes de main aux ordres du capanga ont continué à proliférer ; ils sont au service du fazendeiro qui entend bien interdire toute velléité de révolte chez ses journaliers, la plupart du temps par l’assassinat pur et simple. Cette milice privée est soutenue dans sa tâche de maintenir l’ordre par une police et une armée dont les moyens actuels, hélicoptères, napalm, mitraillettes, radio, troupes spéciales, rendent impossible toute espèce de mouvement social. La sécurité de l’État est désormais assurée dans cette vaste région aride au nord-est du Brésil qui fut, un temps, le lieu où se sont développés des mouvements messianiques de grande ampleur conjointement à l’épopée des cangaceiros.

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Pourtant, là-bas, dans le Nordeste, il y a des gens qui se souviennent encore des cangaceiros, d’Antonio Silvino, de Sinhô, de Lampião, de Corisco, qui en rêvent comme à des paladins d’un monde perdu ; des gens qui gardent une sorte de nostalgie du temps de conselheiro, comme d’une ère de bonheur, d’abondance et de liberté qui s’incorpore aux temps légendaires de l’Empire de Charlemagne et d’autres royaumes enchantés ; qui colportent la légende du père Cicero, celui-ci devant revenir en apportant l’âge du bonheur parfait ; ou, plus au Sud, dans la zona serrana, celle du moine « endormi » Joâo Maria qui est parti se réfugier en haut de la montagne enchantée du Tayô :

«De temps en temps, de nouveaux émissaires du Moine João Maria viennent annoncer son retour ; la dernière tentative date de 1954. Mais les autorités veillent et réussissent toujours à disperser les petits rassemblements de fidèles. Le souvenir du Moine João Maria ne semble pas près de s’éteindre cependant, et les endroits où il séjourna sont vénérés par ses adeptes.1 »La loi règne désormais dans le sertao, il n’en fut pas toujours ainsi. Que les fidèles abandonnent tous leurs biens, tout ce qui les salirait de la plus légère trace de vanité. Les fortunes étant à la merci d’une catastrophe imminente, ce serait une témérité inutile de les conserver. »

Vers 1870, la popularité d’Antonio Conselheiro, autrement dit le «Conseiller », grandit peu à peu dans les bourgs et les villages de l’intérieur, dans la province de Bahia.

Antônio Conselheiro dépeint par la presse à l'époque de la Guerre de Canudos
Antônio Conselheiro dépeint par la presse à l’époque de la Guerre de Canudos

Son vrai nom, Antonio Vicente Mendes Maciel ; il était originaire de l’état de Ceará où une sombre et sanglante rivalité opposait sa famille à celle des Araujo, les plus puissants propriétaires de la région.

Il passait, annonçant la fin du monde, une catastrophe cosmique suivie du jugement dernier. Il était l’envoyé de Dieu et promettait aux fidèles le salut et les délices d’une Ville Sainte où régneraient la paix et la fraternité. C’était le Christ qui avait prophétisé sa venue quand : «la neuvième heure, alors qu’il se reposait sur le mont des Oliviers, un de ses apôtres demandant : Seigneur ! pour la fin de cet âge, quels signes nous laissez-nous ?

Il répondit : Beaucoup de signes dans la Lune, dans le Soleil et dans les Étoiles. On verra apparaître un Ange envoyé par mon tendre père, prêchant devant les portes, peuplant les déserts, faisant des églises et des petites chapelles, donnant des conseils. »

Le sertão, aux montagnes aux lames de schistes étincelants de mica, aux immenses étendues couvertes de caatinga : «elle s’étend sur des lieues et des lieues, immuable : arbres sans feuilles aux branches tordues, desséchées, qui s’entortillent et s’enchevêtrent, pointant toutes droites vers l’espace ou s’étirant sinueuses sur le sol, comme l’immense gesticulation d’une flore à l’agonie2 », aux plaines où la nature se complaît au jeu des antithèses les plus abruptes, elles sont affreusement stériles, elles sont merveilleusement florissantes, venait de trouver son prophète.

Représentation publiés dans les journaux dans le sud du Brésil, montrant Antônio Conselheiro et sa lutte contre le Brésilien République
Représentation publiés dans les journaux dans le sud du Brésil, montrant Antônio Conselheiro et sa lutte contre le Brésilien République

Maigre, austère, ascétique, habillé de bure, chaussé de sandales, il allait de hameaux en hameaux, distribuant aux pauvres tout ce qu’on lui donnait ; c’était un beato. Il fut bientôt appelé « Saint Antoine » ou «Bon Jésus » ; la rumeur lui attribuait des miracles : il avait sauvé une fillette mordue par un serpent à sonnettes ; lesmuletiers colportaient la nouvelle. Peu à peu, son prestige grandissait. Quand il arrivait, on se précipitait vers lui pour lui demander des conseils. Des fidèles l’accompagnèrent dans ses pérégrinations. Demois enmois, le groupe s’amplifiait.

Avec ses adeptes, il réparait les églises, édifiait des chapelles ; partout où il passait, il prêchait avec force contre les abus, les exactions, les injustices qui infestaient la région déchirée par les luttes politiques qui se transformaient en vendetta, en querelles sourdes et sanglantes.

L’influence du Conselheiro devenait formidable, il parlait dans ses harangues un langage apocalyptique émaillé de citations latines, un langage sibyllin, inspiré, qui donnait l’impression que son message venait de l’au-delà : «Le Jugement Dernier inflexible s’approchait ».

Le prophète prédisait des choses étranges pour les années à venir, toutes annonçaient un bouleversement cosmique imminent : «En 1896, on verra des troupeaux, mille, courir de la plage au sertao, alors le sertão se changera en plage et la plage en sertão.

Image actuelle de la région intérieure de l'Etat de Bahia. Un paysage presque égale à l'époque de la Guerre de Canudos - Source - http://jonildogloria.blogspot.com.br
Image actuelle de la région intérieure de l’Etat de Bahia. Un paysage presque égale à l’époque de la Guerre de Canudos – Source – http://jonildogloria.blogspot.com.br

En 1897, il y aura beaucoup à paître et peu à naître, et un seul pasteur et un seul troupeau.

En 1898, il y aura beaucoup de chapeaux et peu de têtes.

En 1899, les eaux deviendront du sang et l’on verra la planète apparaître à l’orient, là où se trouve le rayon du soleil ; il rencontrera la Terre et la Terre se rencontrera avec lui, sur un point quelconque du ciel. Il pleuvra une grande pluie d’étoiles et ce sera la fin du monde.

En 1900, s’éteindront les lumières, Dieu a dit dans son évangile : J’ai un troupeau qui se promène hors de cet enclos et qu’il faut ramener, parce qu’il y a un seul pasteur et un seul troupeau. »3

Seuls ceux qui l’aidaient et le suivaient allaient être sauvés. Il répondait ainsi aux aspirations profondes des pauvres d’échapper à la fatalité sournoise, à une existence précaire ou servile, à l’écrasement et au désespoir. Sa détermination, sa fougue, ses colères, ses exhortations énergiques, les avaient séduits comme elles avaient séduit les rebelles, les quilombolas, les esclaves noirs insurgés et en fuite, les indiens insoumis, tous ceux, métis ou blancs, recherchés par la police des petites villes.

Itapicurû, État de Bahia, cinquante ans après la Guerre de Canudos - Source - http://historiavivasuzybrilho.blogspot.com.br/
Itapicurû, État de Bahia, cinquante ans après la Guerre de Canudos – Source – http://historiavivasuzybrilho.blogspot.com.br/

Saint Sébastien avait tiré son épée et, quand Conselheiro fonda sa première communauté messianique en 1873, près de Itapicurû, dans la province de Bahia, celle-ci rappelait par bien des côtés les bandes du cangaço.

«Comme il y a eu mésentente entre le groupe d’Antonio Conselheiro et le curé d’Inhambupe, ce village se trouve en état de siège et il paraît qu’on attend la venue du vicaire au lieu dit Junco pour l’assassiner. Les passants sont apeurés devant des bandits armés de gourdins, de couteaux, de coutelas et de carabines ; malheur à celui qui est soupçonné d’être l’adversaire du saint homme. » dit un rapport de police de l’époque.L’archevêque, lui-même, en appela au président de la province de Bahia demandant du renfort pour contenir «l’individu Antonio Vicente Mendes Maciel qui, prêchant des doctrines subversives, fait beaucoup demal à la religion et à l’État et, entraînant le peuple derrière lui, l’empêche de remplir ses obligations… » Pourtant, comme l’écrit l’universitaire soumis Euclydes da Cunha avec une certaine objectivité, mais dans le jargon injurieux de ses maîtres, «s’il entraînait le peuple sertanejo, ce n’est pas parce qu’il le dominait, mais bien parce que les aberrations (sic !) de ce peuple le dominait, lui. »

Il annonçait, certes, le règne du Christ sur la terre pour mille ans après la fin du monde mais, autour de lui, sous son impulsion, les jagunços, les rebelles, les insurgés, s’organisaient, occupaient des terres, répartissaient le travail et les biens, recevaient des dons, qui pouvaient être un peu forcés parfois. L’ordre constitué ne pouvait rester plus longtemps indifférent à l’extension d’une communauté qui faisait si bon marché de l’idée de propriété, qui ignorait avec tant de superbe le fondement de l’autorité, de la religion et de l’État comme dit l’apostolique archevêque. Aussi l’avènement de la République, cette démocratie des possédants, en 1889, allait-il précipiter le conflit et ouvrir au grand jour les hostilités. La république était prise par les millénaristes exactement pour ce qu’elle signifiait : plus d’État. Elle était le péché mortel, le pouvoir de l’égoïsme, de la cupidité, l’hérésie suprême indiquant le triomphe éphémère de l’antéchrist.

«Ce sont des êtres malheureux 

Ne sachant pas faire le bien

Ils abattent la loi de Dieu.

Ils représentent la loi du chien.

Garantis par la loi

Vous l’êtes, gens de rien

Nous avons la loi de Dieu

Vous avez la loi du chien. »4

Conselheiro prêcha l’insurrection contre la République et commença à mettre le feu aux décrets gouvernementaux affichés dans les villages : «En vérité, je vous le dis, pendant que les nations se querellent avec les nations, le Brésil avec le Brésil, l’Angleterre avec l’Angleterre, la Prusse avec la Prusse, D. Sebastião émergera des ondes de la mer avec toute son armée. Depuis le commencement du monde, il subit un enchantement avec toute son armée et il l’a remise en guerre.5

Et quand il fut enchanté il enfonça son épée jusqu’à la garde dans la pierre et il dit : “ Adieu monde, tu arriveras peut-être jusqu’à mille et quelque, mais pas jusqu’à deux mille”. Ce jour-là, quand il sortira avec son armée, il les passera tous au fil de l’épée, tous ceux qui ont un rôle dans la République. La fin de la guerre aura lieu dans la Maison Sainte de Rome et le sang montera jusqu’à la Haute Assemblée. »

Euclydes da Cunha
Euclydes da Cunha

Comme le constate, avec la suffisance du valet, l’universitaire Euclydes da Cunha, «le jagunço est aussi inapte à comprendre la forme républicaine que la forme constitutionnelle de la monarchie. Toutes deux sont pour lui des abstractions inaccessibles. Et instinctivement il est l’adversaire de l’une et de l’autre… Il est impossible de prêter une signification politique quelconque aux tendances messianiques qui y sont exposées… le révolté attaquait l’ordre établi parce qu’il croyait imminente la venue du règne des délices. »

L’ordre établi par les monarchistes ou par les républicains n’a jamais abouti, jusqu’à présent, au règne des délices chez les pauvres, loin s’en faut. Nous assisterions d’ailleurs plutôt, avec la République, à une aggravation très nette du sort réservé à ceux qui n’ont rien. C’est cela que combattent Conselheiro et ses partisans, la mise en place progressive d’un ordre nouveau.

Ils ne se révoltent pas au nom d’un ordre ancien, mais pour l’idée qu’ils se font d’une société humaine. Ils n’ont pas le regard tourné vers le passé, mais vers le futur, ils sont porteurs d’un projet social. En s’insurgeant contre l’ordre établi, ou quis’établit, ils s’insurgent contre l’esprit d’un monde, celui qui a créé la propriété privée, le travail forcé, le salariat, la police, l’argent ; ils s’insurgent contre une pratique sociale et son esprit.

L’avenir n’est pas pour eux un retour au passé mais un coup du monde, un bouleversement de fond en comble de la société, une révolution où ce qui était au commencement, l’humanité, reviendra à la fin comme humanité accomplie.

L’autonomie des communes ayant été décrétée, les Conseils des localités de l’intérieur de Bahia avaient affiché sur les tableaux, planches traditionnelles qui remplaçaient la presse, les édits destinés au recouvrement des impôts.

Un combattant typique qui se sont battus au nom de Antônio Conselheiro
Un combattant typique qui se sont battus au nom de Antônio Conselheiro

Quand cette nouvelle fut connue, Conselheiro se trouvait à Bom Conselho ; les impôts l’irritèrent et il prépara aussitôt une protestation. Le jour du marché il réunit le peuple et, au milieu des cris séditieux et du crépitement des pétards, il fît brûler les planches sur la place. Après cet autodafé que les autorités ne purent empêcher, il éleva la voix et, toujours de bon conseil, il prêcha ouvertement la rébellion contre les lois.

Conscient du danger qui le menaçait lui et les siens, il quitta la ville et se dirigea vers le Nord par la route de Monte-Santo. Vers une zone écartée, abandonnée, entourée de montagnes abruptes et de caatinga infranchissable, refuge éphémère de bandits.

L’événement avait eu une répercussion dans la capitale d’où une force de police partit pour prendre les rebelles dont le groupe n’excédait pas alors 200 hommes.

La troupe les trouva à Massète, lieu découvert et stérile entre Tucano et Cumbe. Les trente policiers, bien armés, les attaquèrent impétueusement, certains qu’à la première décharge ils seraient victorieux.Mais ils avaient devant eux des jagunços téméraires ; ils furent battus et durent prendre précipitamment la fuite ; le commandant fut le premier à en donner l’exemple.

Après avoir accompli cet exploit, les millénaristes, reprenant leur marche, accompagnèrent l’hégire du prophète. Ils ne recherchaient plus les endroits peuplés comme avant ; ils allaient vers le désert. Traversant des chaînes de montagnes, des plateaux dénudés, des plaines stériles, ils arrivèrent à Canudos.

C’était une ancienne fazenda, un domaine situé sur le fleuve temporaire Vasa-Barris. En 1890, étant abandonné, il servait de halte et comprenait une cinquantaine de masures faites de pisé. En 1893, quand l’apôtre y vint, Canudos était en pleine décadence : partout des hangars abandonnés, des cabanes vides ; et, sur le haut d’un contrefort du mont de la Favella, on voyait, sans toit, réduite aux murs extérieurs en ruines, l’ancienne demeure du propriétaire.

Dessin représentant le Canudos village à l'époque de la guerre
Dessin représentant le Canudos village à l’époque de la guerre

La communauté occupa les terres incultes qu’elle fit fructifier rapidement. Le village se développa à un rythme accéléré, les adeptes provenant des endroits les plus divers venaient s’y installer. C’était aux yeux des habitants un lieu sacré, entouré de montagnes, où l’action maudite du gouvernement ne pénétrait pas. Canudos allait connaître un accroissement vertigineux. Voici ce que nous dit un témoin : «Quelques-unes des localités de cette commune et des communes avoisinantes, jusqu’à l’État de Sergipe n’ont plus d’habitants tellement est grand le nombre de familles qui rejoignent l’endroit choisi par Antonio Conselheiro. Cela fait peine à voir sur les marchés cette grande quantité de bétail, chevaux, boeufs, chèvres, sans parler de terrains, des maisons, des objets, mis en vente pour une bagatelle.

Ce à quoi l’on aspire, c’est d’obtenir de l’argent pour aller le partager avec le Saint apôtre. » Le hameau couvrit entièrement les collines, l’absence des rues, des places, à part celle de l’église, le grand entassement des masures, en faisaient une demeure unique. Le village était invisible à une certaine distance, encerclé par une sinuosité du Vasa-Barris, il se confondait avec le sol lui-même. Vu de près, il y avait un terrible dédale de passages étroits séparant mal le mélange chaotique des masures au toit d’argile. Les habitations faites de pisé se composaient de trois compartiments minuscules : un vestibule exigu, une pièce qui servait de cuisine et de salle à manger et une alcôve latérale dissimulée par une porte étroite et basse. Quelques meubles : un banc, deux ou trois petits escabeaux, des caisses de cèdres, des hamacs; quelques accessoires : le bogo ou borracha, seau en cuir pour le transport de l’eau, yaiô, carnassière en fibre de carûa (petit palmier). Au fond de la pièce principale un oratoire rustique.

Des armes enfin, d’un modèle ancien : le coutelas jacaré à la lame robuste et large, la parnahyba des guetteurs longue comme une épée, l’aiguillon à la pointe de fer, de trois mètres, le gourdin creux qu’on remplit de plomb, les arcs, les fusils : la canardière au canon effilé que l’on charge de grenaille, le mousqueton nourri de gros plomb, la lourde arquebuse capable de lancer des pierres ou des cornes, le tromblon évasé comme une cloche.

Arme commune des avocats de Canudos, les tromblon, actuellement utilisés pour les représentations culturelles - Source - http://pombalgincana.blogspot.com.br
Arme commune des avocats de Canudos, les tromblon, actuellement utilisés pour les représentations culturelles – Source – http://pombalgincana.blogspot.com.br

C’est tout, les habitants de Canudos n’avaient nul besoin d’autre chose. «Les jagunços errants y installaient leurs tentes une ultime fois sur la route d’un pèlerinage miraculeux vers le ciel. » Mais chacune de ces cabanes était en même temps un foyer et un réduit fortifié. Canudos allait être laMunster du sertao et ses habitants «des Baptistes terribles capables de charger des tromblons homicides avec les grains des rosaires. » Canudos ouvrait généreusement aux démunis ses celliers remplis par les dons et par le produit du travail commun. L’activité sociale n’y était pas dirigée, elle s’organisait. Seul l’eau de vie y avait été prohibée et ceci d’un commun consentement. Les uns s’occupaient de la culture ou bien soignaient les troupeaux de chèvres pendant que d’autres surveillaient les alentours ; des groupes se formaient pour aller au loin mener quelques expéditions.

Mais toute cette activité semblait converger vers la construction d’une nouvelle église, y puiser son sens ; c’était l’oeuvre commune autour de laquelle s’organisaient les initiatives. Cette société campée dans le désert s’était donnée une mission sacrée dans laquelle elle se saisissait comme communauté ; cette société était religieuse dans son essence, en élevant pierre par pierre son église, elle donnait corps à son esprit.

La nouvelle église s’élevait à l’extrémité de la place en face de l’ancienne. Ses murs principaux et épais rappelaient les murailles des fortifications ; cette masse rectangulaire allait être transfigurée par deux tours très hautes, ayant l’audace d’un gothique fruste. «L’admirable cathédrale des jagunços avait l’éloquence silencieuse des édifices dont nous parle Bossuet. »

De grandes quantités de bétail arrivaient de Geremoabo, de Bom Conselho et de Simão Dias ; de Canudos partaient des bandes qui allaient attaquer les domaines des environs et, parfois, conquéraient des villes. À Bom Conselho, l’une d’elle, après avoir pris possession du lieu, le mit en état de siège, dispersa les autorités, en commençant par le juge de Paix. Ces expéditions d’hommes belliqueux alarmèrent les pouvoirs constitués.

Uniforme de l'armée brésilienne en 1890 - Source - http://bicentenario.aman.ensino.eb.br
Uniforme de l’armée brésilienne en 1890 – http://bicentenario.aman.ensino.eb.br

La ville sainte fut dénoncée au gouvernement provincial puis au gouvernement fédéral. L’exemple qu’elle constituait présentait une menace grave pour l’État, d’autant que sa notoriété allait grandissant. Cette expérience risquait de s’étendre. Il devenait urgent de rayer à jamais cette ville de la carte, de la faire disparaître par le feu et le sang, de l’extirper. Quatre expéditions militaires de plus en plus importantes furent engagées contre Canudos entre 1896 et 1897.

«Les cangaceiros et les jagunços dans leurs expéditions, les premiers vers le Sud, les seconds vers le Nord, se rencontraient sans s’unir, séparés par le val en pente de Paulo Affonso. L’insurrection de la commune de Monte-Santoallait les réunir.6

La guerre de Canudos naquit de la convergence spontanée de toutes les forces déréglées perdues dans les sertoes. » Des bandits fameux vont se révéler de terribles stratèges. Les habitants de Canudos vont faire vaciller des armées. Octobre 1896, le premier magistrat de Joazeiro télégraphie au gouverneur de Bahia : il sollicite son intervention dans le but de prendre des mesures pour protéger la population, disait-on, d’une attaque de la part des jagunços d’Antonio Conselheiro.

La ville de Uauá dans les années 1950, avec une vue de la Place Saint-Jean-Baptiste
La ville de Uauâ dans les années 1950, avec une vue de la Place Saint-Jean-Baptiste

Le 4 novembre, le gouverneur envoie une force armée composée de 100 soldats et d’un médecin, sous le commandement du lieutenant Manuel da Silva Pires Ferreira. Le 19, elle arrive à Uaûa, petit village sur le rio Vasa-Barris entre Joazeiro et Canudos. Le 21, elle est brutalement attaquée à l’aube par les jagunços ; ceux-ci se battent pratiquement à l’arme blanche contre des soldats armés de fusils modernes à répétition. Ils perdent 150 hommes, la troupe a 10 morts et 16 blessés. Le médecin devient fou. La retraite sur Joazeiro est ordonnée.

Le 25 novembre, une force armée (543 soldats, 14 officiers, 3 médecins), avec deux canons Krupp et deux mitrailleuses, part de Bahia pour Queimadas. Elle est sous les ordres du commandant Frebônio de Brito. Elle arrive à Monte-Santo le 29 décembre. Le 12 janvier 1897, elle part pour Canudos en empruntant la route du Cambaio ; le 18 et 19, dans la traversée de la serra et en vue de Canudos, ont lieu les premiers combats, tromblons contre comblains (fusils à répétition) et mitrailleuses ; les jagunços attaquent soudainement, disparaissent pour ressurgir plus loin ; ils laissent beaucoup de morts sur le terrain mais infligent une dure et surprenante défaite à l’armée qui doit battre précipitamment en retraite sur Monte-Santo. En apprenant l’étendue du désastre dans la traversée du Cambaio, le gouvernement comprit la gravité de la guerre aux sertões, d’autant qu’à la suite de cet exploit la notoriété de Canudos s’étendait dans tout le sertão.

Le colonel Antônio Moreira César
Le colonel Antônio Moreira César

Le 3 février 1897, le colonel Moreira César, de renommée nationale, commande la première expédition régulière qui embarque à Rio pour Bahia. Le 8, l’expédition arrive à Queimadas avec 1300 hommes et tout l’équipement nécessaire. De Monte-Santo, elle contourne la montagne par l’Est pour arriver à Angico et au sommet de la Favella l’après-midi du 2 mars.

Sûr de son fait, Moreira César lance l’assaut contre le village après un bombardement sommaire ; c’est la catastrophe pour lui et ses hommes ; le village, comme un piège, comme une immense toile d’araignée, comme une nasse, se referme sur l’armée; chaque ruelle, chaque impasse, chaque détour, chaque maison, cachent des hommes déterminés, armés de coutelas, de piques, de tromblons ; l’armée s’enferre dans un corps à corps tragique ; c’est un désastre qui tourne bientôt à la panique. Le fameux colonel Moreira César est mortellement blessé, le colonel Tamarindo qui le remplace est tué. «Dans les environs, de tous les côtés, les sertanejos trouvèrent des armes et des munitions, même des uniformes, tuniques et culottes à bandes rouges dont la couleur vive aurait trahi leurs possesseurs et qui étaient incompatibles avec la fuite ; de sorte que la plupart des soldats ne s’étaient pas seulement désarmés devant l’ennemi, ils s’étaient aussi déshabillés. C’est pourquoi, dans la région qui va de Rosario à Canudos, il y avait à l’air libre un arsenal en désordre, où les jagunços purent largement se ravitailler. L’expédition semblait n’avoir eu qu’un seul objectif : remettre gratuitement aux adversaires tout un armement moderne avec ses munitions.

Fusil utilisé par l'armée brésilienne dans la guerre, le modèle M1873 Comblain - Source - http://www.militaryrifles.com
Fusil utilisé par l’armée brésilienne dans la guerre, le modèle M1873 Comblain – Source – http://www.militaryrifles.com

Les Comblains terribles remplacèrent dans les mains des lutteurs de première ligne les vieux fusils au chargement minutieux et lent ; quant aux uniformes, ceinturons et bonnets, c’est-à-dire tout ce qui avait touché les corps maudits des soldats, ils ne pouvaient les porter, leur épiderme de combattants sacrés en aurait été souillé ; ils s’en servirent pour un divertissement cruellement lugubre… Ils réunirent les cadavres épars des adversaires, les décapitèrent et brûlèrent les corps. Puis, sur les deux côté de la route, régulièrement espacées, se faisant vis-à-vis, se regardant, ils alignèrent les têtes. Au-dessus, en bordure, sur les arbustes les plus hauts, ils pendirent les pièces d’équipement, pantalons et tuniques multicolores, selles, ceinturons, képis aux raies rouges, manteaux, capes, gourdes et musettes.

La caatinga desséchée et nue fut brusquement couverte d’une floraison extravagante aux couleurs vives, allant du rouge violent des galons au bleu déteint des étoffes et se joignant au scintillement de l’acier des éperons et des étriers. Un détail douloureux complétait cette mise en scène macabre.

Au détour d’un chemin se détachait le corps du colonel Tamarindo, empalé, dressé sur un rameau sec d’angico. C’était stupéfiant. Épouvantail lugubre, le cadavre informe, bras et jambes pendantes, oscillant au gré du vent, sur la branche flexible et courbée, apparaissait dans la solitude comme une vision démoniaque.

Il séjourna là très longtemps.

Quand trois mois plus tard une nouvelle expédition partit pour Canudos, elle vit encore cette mise en scène, ces têtes de morts blanchissantes sur les bords des chemins entourées de vieux oripeaux, et à côté, protagoniste muet d’un drame formidable, le spectre du vieux commandant. » Alors que dans le sertao l’épopée de Canudos est chantée dans des poèmes où les exploits deviennent des légendes, dans la capitale le gouvernement ne comprend plus : Canudos était une misérable bourgade que les cartes ignoraient et voilà qu’elle tient tête et met en échec des régiments. L’État invente des complots politiques mais il commence à s’inquiéter sérieusement.

Cadre qui utilise la technique de la peinture typique du nord-est du Brésil, connue sous le nom "Xilogravura" qui met en scène la Guerre de Canudos
Cadre qui utilise la technique de la peinture typique du nord-est du Brésil, connue sous le nom “Xilogravura” qui met en scène la Guerre de Canudos

Il redoute ce sertão mal connu d’où surgissent des hommes armés de leur vengeance qui, de toutes les provinces, convergent vers Canudos, pour en découdre. L’universitaire Euclydes da Cunha écrit à ce sujet : «Le jagunço ne pouvait faire que ce qu’il a fait, battre, battre tenacement le principe d’une nationalité qui, après l’avoir rejeté pendant près de trois siècles, prétendait l’emmener vers les merveilles de notre époque, encadré par des baïonnettes et luimontrer la beauté de la civilisation à la lueur des explosions d’obus. » Les hommes résolus du sertao avaient trouvé le lieu de leur combat : ce village de masures à l’aspect d’une citadelle. L’État se trouvait confronté à l’hostilité sourde et tenace de tous ceux qui savaient fort bien ce que la nation exigeait d’eux : la soumission et la résignation. Ils n’étaient ni soumis, ni résignés. Ils ne se laisseraient pas vaincre.

C’est dans la guerre sociale que le principe de la guerre, qui veut l’anéantissement définitif de l’adversaire, connaît son application la plus complète, sa conclusion, si l’on peut dire. L’enjeu des guerres entre nations est complexe, il est essentiellement  politique, comme l’est, d’ailleurs, celui des guerres de libération nationale ; cet enjeu n’exige pas nécessairement l’anéantissement de l’ennemi, au contraire sa fin est d’imposer une volonté politique à son adversaire et donc de se donner les conditions, par les moyens de la guerre, de traiter avec lui. Ici la guerre est la continuation de la politique par d’autres moyens, comme le note Carl von Clausewitz ; là elle exige l’écrasement complet et définitif de l’ennemi ; l’enjeu est social : suppression ou maintien de l’esclavage, et il n’est pas possible de faire les choses à moitié.

Soldats de l'armée brésilienne pendant la guerre
Soldats de l’armée brésilienne pendant la guerre

Pour l’insurgé, il s’agit de mettre fin à son esclavage et il n’y a aucun compromis possible sur une question aussi essentielle. Pour le maître, il s’agit de sauvegarder sa position sociale, sa qualité de maître, son état. Aucune considération extérieure à la guerre elle-même ne vient donc freiner et modérer sa violence, c’est la guerre à l’état pur, originelle ; celle qui fut au commencement, la négativité pure.

Dans une affaire aussi dangereuse que la guerre sociale, les erreurs dues aux hésitations, aux atermoiements, à la bonté d’âme, sont précisément la pire des choses. Toutes considérations extérieures à la finalité même de la guerre, la déroute totale de l’ennemi, sont la pire des choses. Comme l’usage de la force physique dans son intégralité n’exclut nullement la coopération de l’intelligence, celui qui use sans pitié de cette force et ne recule devant aucune effusion de sang, aucune restriction morale, prendra l’avantage sur son ennemi, si celui-ci n’agit pas de même.

La violence, c’est-à-dire la violence physique (car il n’existe pas de violence morale, en dehors des concepts de l’État et de la Loi, et cette violence est celle du vainqueur qui impose sa volonté) est donc le moyen est d’abattre l’adversaire.

Soldats de l'armée brésilienne du 38e bataillon d'infanterie pendant la Guerre de Canudos
Soldats de l’armée brésilienne du 38e bataillon d’infanterie pendant la Guerre de Canudos

La guerre sociale est la brutalité absolue qui ne tolère aucune faiblesse. Ignorer cet élément de brutalité à cause de la répugnance qu’il inspire est un gaspillage de force, pour ne pas dire une erreur ; montrer à un moment donné de l’irrésolution quant à la fin recherchée, c’est laisser l’initiative à l’ennemi, une faute qui se paie très cher.

Il ne peut y avoir de négociations, la paix est soit le retour à l’esclavage, soit la fin de l’esclavage ; quoiqu’il en soit, l’anéantissement d’un des partis.

Le 5 avril 1897, le général Arthur Oscar organise les forces de la quatrième expédition : 6 brigades en 2 colonnes. Des bataillons sont levés dans tout le pays, c’est l’union nationale, l’union sacrée, contre l’ennemi intérieur.

L'artillerie de l'armée de terre brésilienne pendant la Guerre de Canudos
L’artillerie de l’armée de terre brésilienne pendant la Guerre de Canudos

La première et la deuxième colonne doivent converger sur Canudos, l’une commandée par Arthur Oscar, par la route de Monte-Santo, l’autre sous les ordres de Savaget, par la route de Geremoabo, pour attaquer toutes deux ensemble fin juin. Mais aux abords de Canudos, elles rencontrent, l’une et l’autre, des difficultés. La colonne Savaget est attaquée deux fois entre Cocorobô et Canudos, les pertes sont sévères et le général est blessé : «Comme toujours les sertanejos en surgissant à l’improviste parmi le désordre, sur le lieu d’un combat qu’ils avaient perdu, troublaient le succès. Battus, ils ne se laissaient pas écraser. Délogés de toutes parts ils s’accrochaient partout ; vaincus et menaçants tout à la fois, ils fuyaient et tuaient à la façon des Parthes. » Les choses étaient encore plus sérieuses pour le général Arthur Oscar qui avait atteint le sommet de la Favella qui surplombe le village ; après une rapide victoire pour la place, il se trouvait prisonnier, assiégé par ceux qu’il venait de vaincre. Il dut appeler la colonne Savaget à son secours. Le 1er juillet les jagunços attaquent le campement, certains vont s’efforcer de parvenir jusqu’à la «Tueuse », ce canon de siège (unWithworth 32), qui bombarde Canudos. Ils n’y arriveront pas.

L’armée se trouve dans une situation critique ; coupée de son ravitaillement, elle ne peut ni avancer, ni reculer : «C’était indéniablement un siège en règle, bien qu’il fût déguisé par le peu de densité des tranchées, dont le tracé lâche et compliqué couvrait la montagne… La tactique invariable des jagunços consistait à résister en reculant, en tenant ferme derrière tous les accidents protecteurs du terrain, tactique terrifiante.

Canudos en 1897
Canudos en 1897

L’attaquant c’était l’homme matériellement fort et brutal, outillé par les ressources guerrières de l’industrie moderne, versant, par la bouche des canons, des tonnes d’acier sur le rebelle qui lui opposait un réseau magistral de ruses inextricables.

Les jagunços laissaient volontiers à leurs adversaires la jouissance de victoires inutiles,mais quand ceux-ci, après avoir pavé de projectiles la terre broussailleuse, déployaient leurs drapeaux et remplissaient la calme atmosphère avec la sonnerie de leurs clairons, ils se vengeaient des hymnes de triomphe en envoyant avec leurs tromblons une bruyante pluie de balles. » Deux semaines plus tard le ravitaillement finit par arriver et les troupes sont lancées à l’assaut du village ; c’est un échec et les pertes sont importantes. Dans l’armée, au gouvernement, c’est la consternation.

En hâte on forme à Queimadas une nouvelle brigade, la brigade Girard, 1042 hommes et 68 officiers, elle part le 3 août pour renforcer en soldats et en vivres l’armée d’Arthur Oscar. Elle est attaquée le 15 et perd 91 boeufs, ce qui lui vaudra, par dérision, le nom de brigade gracieuse. Dans le gouvernement on a compris qu’il ne s’agit plus de prendre d’assaut un village, mais d’organiser une véritable campagne militaire de plusieurs semaines sinon de plusieurs mois afin de l’encercler complètement ; on a compris que la guerre sera longue et difficile et qu’il s’agit de s’en donner les moyens. Le maréchal Bittencourt se met à la tête de cette campagne.

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Deux brigades supplémentaires arrivent de Bahia et forment une division ; un service régulier de convois vers Monte-Santo est organisé ; l’armée ne risque plus de se trouver coupée de ses arrières et peut donc s’installer dans une guerre de retranchements.

Le long étranglement de Canudos est commencé.

Le 7 septembre on ouvre la route de Calumby qui permettra de consolider le siège. Le 22, meurt Antonio Conselheiro. Les combats reprennent de plus belle aux abords de Canudos. Les habitants retrouvent l’initiative ; dans unmouvement tournant et étourdissant, les escarmouches atteignent toutes les positions de l’ennemi, touchent, tranchée par tranchée, toute la ligne du front.

Le corps d'Antônio Conselheiro retiré de son tombeau par les militaires pour se faire photographier
Le corps d’Antônio Conselheiro retiré de son tombeau par les militaires pour se faire photographier

«Tout à coup, ils surgissaient inopinément sur un point quelconque du front. On les battait, on les repoussait ; ils se jetaient alors sur les tranchées les plus proches ; on recommençait à les battre et à les repousser, ils revenaient contre les suivantes et continuaient ainsi sans succès, leurs assauts ininterrompus qui formaient devant les troupes comme une ronde immense.

Ceux des soldats qui, la veille, dédaignaient un adversaire caché dans les masures, étaient stupéfiés. Comme dans les mauvais jours passés, mais avec plus d’intensité encore, cette stupéfaction les jugulait.

Les défis imprudents cessèrent. Finies les fanfaronnades visant à provoquer l’ennemi. Les clairons reçurent à nouveau l’ordre de faire silence ; il n’y avait qu’une sonnerie possible, l’alarme, et celle-là, l’ennemi, éloquemment, se chargeait de la donner… La situation devint tout à coup insupportable…

Femmes, enfants et vieillards capturés par l'armée brésilienne
Femmes, enfants et vieillards capturés par l’armée brésilienne

La lutte arrivait fébrilement aux combats décisifs qui allaient amener la conclusion de la campagne. Mais son paroxysme stupéfiant terrorisait les vainqueurs. » Les troupes tentent de resserrer l’encerclement en pénétrant pas à pas à l’intérieur de la bourgade mais ils se heurtent à une résistance farouche qui limite leur avancée. De plus les jagunços reculent mais ne fuient pas. Ils restent à côté, à deux pas, dans la pièce contiguë de la même maison, séparés de leur ennemi par quelques centimètres de pisé. Le peu d’espace du lieu a amassé dans les maisons ceux qui veulent les conserver et qui, les remplissant, opposent aux soldats une résistance croissante.

S’ils cèdent sur l’un ou l’autre point, ils réservent aux vainqueurs bien des surprises. La ruse du sertanejo se fait toujours sentir ;même dans lesmoments les plus tragiques pour lui, il ne l’avouera jamais vaincu. Loin de se contenter de résister jusqu’à la mort, il défie l’ennemi et passe à l’offensive.

Le 26, pendant la nuit, les jagunços attaquent violemment quatre fois ; le 27, dix-huit fois ; le lendemain ils ne répondent pas au bombardement du matin et de l’après-midi, mais leur fusillade dure depuis 6 heures du soir jusqu’à 5 heures du matin.

Commandants militaires brésiliens
Commandants militaires brésiliens

Le premier octobre 1897, le bombardement intensif du dernier carré de résistance commença. Il fallait un sol franchement nettoyé pour l’assaut ; cet assaut devait s’exécuter d’un seul coup, au pas de charge, avec une seule gêne, les ruines. Aucun projectile n’était perdu, retournant inflexiblement d’un bout à l’autre, maison par maison, le dernier morceau de Canudos. Tout fut entièrement dévasté par les tirs des batteries. Les derniers j a g u n ç o s subissaient dans toute sa violence destructrice ce bombardement impitoyable.

Cependant on ne remarqua aucune silhouette en fuite, pas la moindre agitation.

Et quand le dernier coup fut tiré, l’inexplicable quiétude du village anéanti aurait fait supposer qu’il était désert, comme si durant la nuit la population avait fui miraculeusement.

L’assaut commença ; les bataillons partirent de trois points pour converger vers l’église nouvelle. Ils n’allèrent pas loin : le jagunço suivant pas à pas l’agresseur, se réveillait comme toujours à l’improviste d’une façon surprenante et glorieuse.

L'un des défenseurs de la ville de Canudos, capturé par des soldats de l'armée brésilienne
L’un des défenseurs de la ville de Canudos, capturé par des soldats de l’armée brésilienne

Tous les mouvements tactiques préétablis s’en trouvèrent modifiés, au lieu de converger sur l’église, les brigades s’arrêtaient, sa fractionnaient et se perdaient dans les ruines. Les sertanejos restèrent invisibles ; pas un seul n’apparut et ne chercha à traverser la place. Cet insuccès ressemblait absolument à une défaite, car les assaillants s’arrêtèrent, trouvant devant eux une résistance sur laquelle ils ne comptaient pas ; ils s’abritèrent dans les tranchées et finalement s’en tinrent à la franche défensive ; alors les jagunços, débordant des masures fumantes, attaquèrent à leur tour et tombèrent sur eux. Il fallait d’urgence agrandir le plan primitif de l’attaque ; on lança alors sur ce qui restait de Canudos 90 bombes de dynamite : «le tremblement produisait des fissures qui se croisaient sur le sol comme des courbes sismiques, les murs s’abattirent, de nombreux toits volèrent en éclats ; un énorme cumulus de poussière noircissante rendit l’air irrespirable. Tout avait disparu semblait-il. En fait, c’était le complet démantèlement de ce qui restait du village sacré. » Les bataillons attendaient que le cyclone de flammes se fut calmé pour se lancer dans le dernier des derniers assauts.

Mais ils ne l’exécutèrent pas ; au contraire un soudain recul eut lieu. Des décharges sortirent, on ne sait comment, des ruines embrasées et les assaillants se mirent à couvert dans tous les coins et se retirèrent, pour la plupart derrière leurs tranchées.

Ne cherchant pas à se cacher, sautant sur les brasiers ou les chaumes encore debout, se dressaient les derniers défenseurs de Canudos. Ils se lançaient dans des assauts d’une folle témérité ; ils venaient tuer leurs ennemis dans leurs propres tranchées.

L'église du village de Canudos après la fin de la guerre
L’église du village de Canudos après la fin de la guerre

Ceux-ci se sentaient faiblir. Ils perdirent courage. L’unité de commandement et l’unité d’action disparurent ; leurs pertes furent particulièrement lourdes. Finalement, vers 2 heures de l’après-midi, les soldats se replièrent sur la défensive avec le goût de la défaite. Cependant la situation des sertanejos avait empiré, ils se trouvaient coincés dans un réduit des plus minuscules.

Mais à l’aube du 2 octobre, les « triomphateurs » fatigués virent poindre le matin sous une fusillade nourrie qui ressemblait à un défi. Dans la journée, profitant d’une trêve, 300 personnes demandèrent à se rendre ; mais au grand dépit des autorités militaires, ce n’étaient que des femmes harassées, des enfants en bas âge ou blessés, des vieillards infirmes, tous ceux qui ne pouvaient plus porter une arme. Ils furent massacrés la nuit suivante («…et de quelle façon, n’ayant que la voix humaine si faible et si fragile, commenterions-nous ce fait singulier de ne plus avoir vu, dès le matin du 3, les prisonniers valides recueillis la veille. »).

Il n’y eut pas à proprement parler de prisonniers, tous les jagunços blessés qui tombaient entre les pattes des soldats étaient achevés un peu plus tard à l’arme blanche. «Le 3 et le 4, il ne se passa rien qui méritât d’être raconté. La lutte perdait de jour en jour son caractère militaire et finit par dégénérer entièrement… On savait seulement que la résistance des jagunços ne pourrait durer que quelques heures. Les soldats, s’étant approchés du dernier réduit fortifié, avaient compris la situation des adversaires. Elle était invraisemblable : à côté de la nouvelle église vingt rebelles affamés, déchirés, effrayants à voir, se tenaient dans un fossé quadrangulaire n’ayant pas beaucoup plus d’un mètre de profondeur… Ils concentraient ce qui leur restait de vie sur la dernière contraction des doigts manoeuvrant la gâchette du fusil. Ces moribonds combattaient contre une armée et, jusque là, avec un certain avantage.

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Tout au moins, ils obligèrent leurs ennemis à s’arrêter. Ceux d’entre eux qui s’approchèrent de trop près, y restèrent, augmentant le nombre de corps dans la tranchée sinistre… Fermons ce livre. Canudos ne s’est pas rendu. Exemple unique dans toute l’histoire, il résista jusqu’à épuisement complet.

Conquis, pas à pas, dans l’exacte signification du terme, il tomba le 5 à la fin de l’après-midi, quand tombèrent ses derniers défenseurs quimoururent tous ; ils n’étaient plus que quatre : un vieillard, deux adultes et un enfant, devant lesquels rugissaient rageusement cinq mille soldats…

Canudos tomba le 5. Le 6, on finit de détruire le village en abattant ses dernières maisons : 5200 soigneusement comptées7. » La loi de la République règne à nouveau sur le sertao ; ainsi prit fin l’épopée héroïque de Canudos ; une aventure pleine d’humanité qui périt dans le bruit et la fureur. Canudos, l’empire de Belo-Monte, ne fut pas vaincu, disparu avec le dernier coup de feu et a été détruit.

Ala même époque, dans la province de Ceará, se développait un vaste mouvement de réforme sociale d’inspiration religieuse sous la houlette du père Cicero. Ce mouvement connut une fin moins tragique parce que le père Cicero sut louvoyer avec autorité parmi les composantes politiques de la région dans le respect de l’État et de la propriété ; cette compromission à l’égard du pouvoir et donc des riches lui assura non seulement l’impunité mais aussi une position reconnue et respectée par tous.

Père Cícero Romão Batista
Père Cícero Romão Batista

Cemouvement était plutôt d’esprit sacerdotal que d’esprit franchement messianique. C’était plutôt l’esprit du catholicisme, dans son sens politique et social, qui l’animait que celui du millénarisme qui, lui, est purement social et n’a rien à voir avec l’esprit politique. Il s’agissait de retrouver le dessein de l’Église primitive : se donner les moyens politiques d’une mission sociale. Le père Cicero dont le prestige devint exceptionnel fut le seul messie brésilien à appartenir au clergé, tous les autres étaient des laïcs amenés au service divin par vocation, mais qui n’entrèrent jamais dans les ordres. Envoyé comme curé dans le hameau de Joazeiro en 1870, il parcourut les alentours en prêchant pendant les premiers temps de son ministère. Après cette période de pauvreté toute franciscaine, il commença à animer l’activité sociale autour de Joazeiro selon l’idéal de paix où l’intérêt de tous devait prévaloir sur les intérêts particuliers sources de turbulences et de conflits. Il avait réussi à convaincre petits propriétaires et paysans à ne plus habiter sur leurs terres mais dans le village, auprès de lui : ils partaient le matin travailler sur leurs champs et revenaient le soir.

Joazeiro devint une ville où les pèlerins ne cessaient d’arriver pour demander la bénédiction du père Cicero et des conseils.

En 1889, à la proclamation de la République, le père Cicero réagit à sa manière en réalisant ses premiers miracles, ce qui conforta sa position et son prestige. L’État républicain n’osa pas déclencher les hostilités et supporta ce mouvement qui critiquait l’esprit bourgeois sans critiquer l’État. Les pèlerins devinrent de plus en plus nombreux, beaucoup s’établirent dans la ville sainte de Joazeiro où ils trouvaient protection auprès du « parrain ». L’Église s’en émut et essaya de mettre fin à des agissements qu’elle considérait comme dangereux. Elle condamna le père Cicero à ne plus dire la messe et à ne plus prêcher, mais elle ne peut le contraindre à abandonner Joazeiro ; elle eut peur qu’il ne mobilisât ses adeptes pour le défendre, ce qu’il fallait éviter à tout prix.

La ville de Joazeiro dans les années 1920
La ville de Joazeiro dans les années 1920 – http://oberronet.blogspot.com.br

Le père Cicero comptait des alliés parmi les chefs politiques locaux. Son prestige, son influence, la force électorale croissante dont il disposait, l’incitèrent à confirmer son autorité politique grandissante en se faisant élire préfet municipal. En 1914, la victoire de ses adversaires rendit les rapports entre lui et le gouvernement provincial critiques. Le « parrain» exhorta alors ses adeptes à la guerre sainte contre le gouvernement provincial qui représentait l’Antéchrist, Dieu voulait qu’il fût renversé pour que le bonheur parfait et sans ombrage pût s’installer sur terre. Ces incitations à la lutte eurent pour résultat l’envoi des troupes contre la Nouvelle Jérusalem. Mais à la différence du Conselheiro, le père Cicero avait des appuis politiques importants jusque dans la capitale du Brésil ; et puis, surtout, ce soulèvement était limité à des fins politiques, il n’avait pas pour ambition de bouleverser l’ordre établi. Les adeptes du prophète, avec des complicités fédérales, triomphèrent des forces engagées contre eux et assiégèrent la capitale provinciale dont le gouverneur s’enfuit. Le père Cicero, vainqueur, devint officiellement vice-gouverneur de l’État de Ceará.

Dans un monde perturbé par les guerres continuelles que se livraient entre-elles les grandes familles et dont les pauvres faisaient immanquablement les frais, le père Cicero put instaurer une société plus paisible, et améliorer ainsi la situation dramatique des plus démunis. Il a pu le faire parce qu’il parlait au nom de l’autorité la plus élevée, l’autorité divine. Il se plaçait, ainsi, au-dessus de la mêlée, en dehors des querelles locales, seul moyen pour être écouté de tous.

Atualmente existe um grandioso monumento a mémória do Padre Cicero na cidade de Joazeiro, no estado do Ceará
Il existe actuellement un grand monument à la mémoire du Père Cicéron dans la ville de Joazeiro, dans l’État de Ceará.

Dans unmonde de plus en plus dominé par les intér êts égoïstes, la religion, seule, pouvait unir, du moins en apparence, ce qui se trouvait séparé de fait. Dans les sermons du père Cicero, on trouve des remontrances contre « petits » et « grands » parce qu’ils ne vivent pas selon les lois divines de la charité, de l’entraide, du pardon des offenses. Il put ainsi mettre fin, du moins provisoirement, à l’hostilité entre familles, gommer les dissensions, renouer des alliances, être enfin l’arbitre des querelles, le maître incontestable et incontesté de la région, le « parrain ».

Son mouvement eut une fonction consciente de réforme sociale : les adeptes faisaient au messie des dons volontaires qui servaient à former une caisse commune pour subvenir aux besoins des invalides, des veuves, des orphelins, pour acheter des terres, pour financer des entreprises (Joazeiro, simple hameau en 1870, allait devenir, sous l’impulsion du prophète, la deuxième ville de la province avec 70 000 habitants) ; mais il eut aussi une fonction de sauvegarde du système existant ; l’idéal de fraternité et d’égalité fut strictement compris comme fraternité et égalité dans la foi et devant Dieu. Les cangaceiros se reconnaissaient autour d’une idée simple, la vengeance, dont la réalisation leur appartenait. Ils formaient une communauté guerrière dont le projet social (la vengeance est bien évidemment un projet social) était absolument négatif et, la plupart du temps, tout à fait personnel : chacun avait sa vengeance à satisfaire ; elle lui était propre et elle concernait une personne, ou plus généralement une famille, précise. Cette vengeance, il comptait lamener à bien s’il ne l’avait pas déjà assouvie.

Cangaceiro
Cangaceiro

Tout l’ordre établi s’opposait à cette vengeance, en la réalisant, le cangaceiro défiait la société toute entière.

Le cangaceiro ne critiquait pas la société dans laquelle il vivait mais il se vengeait et cela faisait de lui un rebelle. Le millénariste ne cherchait pas à se venger, ou, plus exactement, l’heure de la vengeance ne lui appartenait pas, elle devait venir de Dieu ou d’un être surnaturel comme le roi D. Sebastião, mais il critiquait la société. Ils devaient donc presque nécessairement se rencontrer comme ils se sont rencontrés effectivement à Canudos ; l’État se chargeant de faire d’une communauté spirituelle une communauté guerrière et d’un individu qui se venge, un bandit social.

L’affront que le cangaceiro doit laver est à la fois le fait d’une personne singulière et celui de la société qui se trouve derrière cette personne particulière et qui la soutient, qui est de connivence avec elle.

L’offense ne vient pas d’un individu isolé, d’un semblable, le règlement de ce genre d’affront ne posant pas de problèmes à cette époque, mais d’une autorité sociale ; c’est celle d’un « colonel » ou, ce qui revient au même, d’une personne de son entourage ; l’offense vient d’un fazendeiro qui est investi à la fois d’une autorité sociale comme grand propriétaire et d’une autorité politique comme représentant de l’État dans la région.

Dessin stylisé d'un groupe de Cangaceiros - Source - http://www.erepublik.com
Dessin stylisé d’un groupe de Cangaceiros – Source – http://www.erepublik.com

La vengeance du cangaceiro devient, de fait, une vengeance sociale. L’assouvir, ce n’est plus simplement devoir affronter un individu, mais c’est aussi devoir affronter l’État qui est derrière celui-ci.

Le cangaceiro se fait justice envers et contre l’État, qui est du côté de l’offenseur. Son droit inaliénable et universel en tant qu’individu libre entre en conflit avec le droit objectif de l’État quasi immédiate de toutes les forces conjuguées de l’ordre établi. Les sertanejos empoignèrent les armes, faux contre canons comme à Canudos, et résistèrent jusqu’à la mort. Tous furent massacrés après un combat acharné et farouche, mais par trop inégal. Depuis quelque temps déjà la loi de la République régnait sur le sertão.

1938 : Le mouvement du beato Lourenço s’achève dans un bain de sang ; ce sera le dernier mouvement messianique révolutionnaire ; le 28 juillet de la même année, Lampião est tué avec quelques compadres à Angico ; sa mort sera le coup de grâce donné au cangaceirismo ; la police a facilement raison des derniers petits groupes dispersés, indécis, sans protection ni complicité.

Le bandit le plus célèbre du Brésil, Virgulino Ferreira da Silva, le timide Lampião
Le bandit le plus célèbre du Brésil, Virgulino Ferreira da Silva, le timide Lampião

Le massacre est brutal.

Le cangaceiro fut le bandit social du nord-est et le cangaço sa bande. Le cangaceiro se venge d’une humiliation, d’une injustice, l’exaction d’un « colonel » ou de la police, le meurtre d’un parent. Il décide alors de s’exclure de la société et prend le maquis où il rejoint une bande déjà constituée.

Cette bande lui permettra de survivre par le vol organisé et d’échapper aux forces de police qui le pourchassent. Vengeur plus que redresseur de torts, le cangaceiro incarne la rébellion généralisée contre tout l’ordre social. Les bandes de cangaceiros qui, à la fin du XIXe siècle et au début du XXe siècle, parcouraient le Nordeste, côtoyaient les mouvements millénaristes. Nous trouvons chez les uns comme chez les autres le même mépris de la propriété et donc des lois, le même goût de la richesse, la même générosité, le même défi lancé à l’État et à ses sbires, la même résolution farouche, la même combativité, la même fureur. La frontière entre les deux est ténue sinon inexistante et le passage est aisé dans un sens comme dans l’autre. Nous avons vu des bandits fameux, séduits par les prophéties du Conselheiro, participer à la fondation de Canudos ou accourir pour la défendre, y apporter leur expérience et leur savoir-faire ; Lampiao eut une telle considération pour le mouvement du père Cicero qu’il évita toujours soigneusement la province de Ceara au cours de ses raids. C’étaient les mêmes hommes.

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«L’habitant du sertao, nous dit l’universitaire Euclydes da Cunha, a de bonne heure envisagé la vie par son côté tourmenté et compris qu’il était destiné à un combat sans trêve qui exigeait impérieusement la convergence de toutes ses énergies… toujours prêt pour un combat où il ne vaincra pas mais où il ne se laissera pas vaincre. » Je ne pense pas que la nature du Nordeste ait façonné le caractère indomptable de ces hommes ; mais c’étaient bien des hommes indomptables. Ils préféraient la mort à l’esclavage. Ils furent toujours prêts à défendre avec la plus grande vigueur, la plus grande témérité, leur liberté, une certaine idée qu’ils se faisaient de l’Homme, une certaine idée de la richesse. Ils eurent un monde contre eux ; de part et d’autre, ils étaient destinés à un combat sans trêve qui exigeait impérieusement la convergence de toutes leurs énergies, à une guerre où ils ne se laisseraient pas vaincre.

Millénaristes ou cangaceiros, ils avaient été bouviers, métayers, muletiers, ils avaient appartenu à cette partie de la société rurale continuellement menacée dans son existence et plus essentiellement dans sa liberté ; ils en étaient issus ; non seulement ils trouvaient au sein de cette société une réelle complicité mais aussi ils en représentaient les aspirations les plus profondes.

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Finalement ce qui les différenciait se réduisait à peu de chose : les uns étaient porteurs d’un projet social positif mais d’essence religieuse quand les autres étaient porteurs d’un projet social purement négatif mais non religieux dans son essence.

Unis autour d’un prophète par la croyance à la venue imminente du Millénium, dans la même aspiration à une vie nouvelle, les millénaristes brésiliens formaient une communauté spirituelle qui s’organisait dans l’attente de l’événement final, qui s’y préparait. Cette communauté messianique n’avait pas l’ambition de réaliser elle-même le Millénium mais déjà elle rompait radicalement avec l’esprit du monde existant pour se reconnaître dans l’esprit d’un monde à venir. Elle contenait un projet social positif tout en restant essentiellement religieuse ; elle était la pensée d’une société non encore réalisée et dont la réalisation ne lui appartenait pas ; elle en était la prémonition. Les cangaceiros se reconnaissaient autour d’une idée simple, la vengeance, dont la réalisation leur appartenait. Ils formaient une communauté guerrière dont le projet social (la vengeance est bien évidemment un projet social) était absolument négatif et, la plupart du temps, tout à fait personnel : chacun avait sa vengeance à satisfaire ; elle lui était propre et elle concernait une personne, ou plus généralement une famille, précise. Cette vengeance, il comptait lamener à bien s’il ne l’avait pas déjà assouvie.

Tout l’ordre établi s’opposait à cette vengeance, en la réalisant, le cangaceiro défiait la société toute entière.

Le cangaceiro ne critiquait pas la société dans laquelle il vivait mais il se vengeait et cela faisait de lui un rebelle. Le millénariste ne cherchait pas à se venger, ou, plus exactement, l’heure de la vengeance ne lui appartenait pas, elle devait venir de Dieu ou d’un être surnaturel comme le roi D. Sebastião, mais il critiquait la société. Ils devaient donc presque nécessairement se rencontrer comme ils se sont rencontrés effectivement à Canudos ; l’État se chargeant de faire d’une communauté spirituelle une communauté guerrière et d’un individu qui se venge, un bandit social.

Un groupe de policiers qui ont chassé les cangaceiros dans le Nordeste brésilien. Ces groupes étaient connus comme "Volantes" - Source - http://diariodonordeste.globo.com
Un groupe de policiers qui ont chassé les cangaceiros dans le Nordeste brésilien. Ces groupes étaient connus comme “Volantes” – Source – http://diariodonordeste.globo.com

L’affront que le cangaceiro doit laver est à la fois le fait d’une personne singulière et celui de la société qui se trouve derrière cette personne particulière et qui la soutient, qui est de connivence avec elle.

L’offense ne vient pas d’un individu isolé, d’un semblable, le règlement de ce genre d’affront ne posant pas de problèmes à cette époque, mais d’une autorité sociale ; c’est celle d’un « colonel » ou, ce qui revient au même, d’une personne de son entourage ; l’offense vient d’un fazendeiro qui est investi à la fois d’une autorité sociale comme grand propriétaire et d’une autorité politique comme représentant de l’État dans la région.

La vengeance du cangaceiro devient, de fait, une vengeance sociale. L’assouvir, ce n’est plus simplement devoir affronter un individu, mais c’est aussi devoir affronter l’État qui est derrière celui-ci.

Le cangaceiro se fait justice envers et contre l’État, qui est du côté de l’offenseur. Son droit inaliénable et universel en tant qu’individu libre entre en conflit avec le droit objectif de l’État dont l’objet apparaît précisément dans l’affaire : contraindre l’individu à aliéner son droit universel et immédiat à la liberté. «Il suffit que le moi comme libre soit vivant dans mon corps, pour qu’il soit interdit de dégrader cette existence vivante au rang de bête de somme. Tant que je vis, mon âme (qui est concept et même liberté) et mon corps ne sont pas séparés ; celui-ci est l’existence de la liberté et c’est en lui que j’éprouve. C’est donc un entendement sans idée, sophistique, qui peut faire cette distinction selon laquelle la chose en soi, l’âme n’est pas atteinte ni l’idée quand le corps est maltraité et quand l’existence de la personne est soumise à la puissance d’un autre. »8

Lampião
Lampião

En se vengeant, le sertanejo réalise son idée qui veut que tous les hommes soient égaux en humanité ; il devient effectivement libre, pour lui et pour les autres. Ce passage de l’idée dans l’effectivité correspond, pour lui, au passage dans la clandestinité : il abandonne une existence civile abstraite, qui apparaît du coup pour ce qu’elle est réellement, une existence servile ; il devient cangaceiro. La liberté est un risque à courir. Subir un affront sans réagir, c’est se soumettre à la puissance d’un autre, tomber dans l’esclavage ; ce qui correspond à la mort sociale d’un homme à laquelle il ne peut répondre que par la mort du maître.

Quand il s’agit d’une réaction essentiellement humaine, les universitaires de notre temps, comme Josué de Castro, vont jusqu’à parler de carence alimentaire pour expliquer la révolte des cangaceiros ou des millénaristes, ils parlent de fuite quand ils affrontent l’État et un monde. C’est plutôt à leur égard qu’il conviendrait de parler de carence chronique de l’intelligence la plus élémentaire des pratiques humaines.9

Cette intelligence les sertanejos l’avaient qui se reconnaissaient dans les cangaceiros et les louaient comme des hommes courageux qui risquaient leur vie plutôt que de mourir esclaves.

C’est qu’ils pouvaient, eux aussi, d’un moment à l’autre, devoir prendre le maquis pour exactement les mêmes raisons. Ces hommes côtoyaient l’esclavage, leur existence d’hommes libres était sans cesse menacée de basculer dans la soumission, de tomber ou de retomber dans l’esclavage. Ils étaient sur le quivive et réagissaient vite.

Ici, nous voyons un cangaceiro mort et les hommes qui l'ont battu au combat
Ici, nous voyons un cangaceiro mort et les hommes qui l’ont battu au combat

Le cangaceiro démontre par tous ses actes que les pauvres, eux aussi, peuvent devenir terribles. Craint et admiré, héros cruel et bandit au grand coeur, il devient vite une figuremythique du sertão.

Il est difficile dans la geste des cangaceiros de faire la part entre la légende et la réalité : les témoignages, dépositions, poèmes,  récits, chroniques, s’ajoutent et se contredisent ; c’est que la réalité elle-même où se mêlent intérêts inavouables, trahison et complicité, exploits et fourberies, est non seulement complexe et contradictoire, mais déjà légendaire. Avec les cangaceiros, la réalité est traversée d’une idée, c’est le propre de l’épopée.

Au XIXe siècle, à partir de l’indépendance, le banditisme social prend de l’ampleur au Brésil pour atteindre son apogée à la proclamation de la République ; il prend alors les traits du cangaceirismo moderne qui culminera avec Lampião dans les années trente. Au début du siècle deux figures se détachent : Antonio Silvino et Sebastião (Sinhô) Pereira, chez qui Virgulino Ferreira, le futur Lampião, fera ses premières armes. La légende nous les présente comme particulièrement bons et généreux, dans le style des bandits sociaux à la Robin des bois. Antonio Silvino, capturé en 1914 et condamné à trente ans de prison, fut libéré après vingt ans. Sinhô Pereira se retira dans « la vie publique ».

Antônio Silvino
Antônio Silvino

Virgulino (Lampião) était né dans un petit village de la province de Pernambouc en 1897 où son père était à la fois métayer d’une petite terre et muletier. Un jour, un détachement de la police dont le commandant était lié à une famille ennemie massacra le vieux et la mère en l’absence des enfants.

Virgulino et ses frères brûlèrent leurs habits de deuil sur l’aire et firent le serment que désormais ils ne porteraient plus le deuil mais le fusil. Ils confièrent les soeurs au plus jeune d’entre-eux et prirent lemaquis. Mais c’était une situation trop précaire et incertaine, après quelques accrochages victorieux avec la police militaire ils devinrent membres du cangaço de Sinhô Pereira.

Un des premiers exploits de Lampiao fut le meurtre du « colonel » Gonzaga, sous-délégué de police à Belmonte, état de Pernambouc. L’homme fut tué avec tous les siens et même les chèvres et les poules furent massacrés sur l’aire. Pour finir, Lampião ôta son alliance au cadavre, se la passa au doigt et elle ne le quitta plus jusqu’à son dernier jour.

Reportage sur la mort du colonel Gonzaga - Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, Octobre 21, 1922
Reportage sur la mort du colonel Gonzaga – Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, Octobre 21, 1922

Quand en 1922, Sinhô Pereira se retira (cela se produisait quelquefois quand on pouvait compter sur la bénédiction complice du père Cicero), Virgulino devint le chef indiscuté de la bande.

S’il allait être le plus célèbre des cangaceiros, il allait être aussi le dernier. Lampiao écrivit le dernier chapitre d’une histoire. Son surnom, Lampiao (lampion, lanterne) lui serait venu d’un de ses premiers combats : au cours d’une embuscade nocturne, il tirait si vite qu’il illuminait la nuit. Pendant près de vingt ans, à travers tout le sertao, Lampiao allait se déplacer d’une province à l’autre sur une scène immense, apparaissant de façon imprévisible, brouillant ses traces, se tirant toujours à son avantage de ses rencontres avec la police. «Les civils, on les laisse tranquilles. Contre la police et les traîtres : FEU! »

Les coups se faisaient souvent par petits groupes commandés par les meilleurs hommes, mais le chef supervisait tout ; parfois toute la bande participait à de véritables expéditions guerrières.

Lampião étudiait les parcours, cherchait où l’argent était concentré, suivait les déplacements des « volants ». Il s’y prenait en bandit « moderne » et usait de la stratégie et de la tactique avec la plus grande habilité.

A partir de 1930, les femmes ont fait partie du groupe de cangaceiros
A partir de 1930, les femmes ont fait partie du groupe de cangaceiros

La bande restait cachée pendant de longues périodes en un lieu sûr, un bois, un massif inaccessible, une source dans le désert ou la fazenda d’un ami. Les hommes ne circulaient alors que par petits groupes pour se réapprovisionner en munitions, entreprise d’ailleurs fort difficile, pour porter des messages réclamant de l’argent et pour acheter de la nourriture et différents articles. Ils se déplaçaient dans un rayon limité, juste une douzaine d’hommes avec un guide si besoin était ; la virée durait tout au plus une semaine. Parfois si la situation était trop chaude, la bande disparaissait littéralement sans laisser de traces, répandant délibérément des rumeurs et des signes qui brouillaient toutes les pistes et rendaient fous policiers et rabatteurs.

Moyennant quoi, les cangaceiros prenaient du repos et se remettaient des fatigues de leurs dernières équipées, tout en se préparant, dans la bonne humeur, pour les prochaines10.

Les expéditions duraient plusieurs mois et pouvaient couvrir plusieurs provinces du Nordeste. Lampião rançonnait les riches propriétaires, les bourgs et parfois même les villes d’une certaine importance. Il se présentait avec sa bande, recevait l’argent collecté auprès des riches, commerçants ou propriétaires, de la main même des autorités locales ; quelquefois il visitait l’école pendant que les hommes étaient assis sur la place de l’église, puis tout se terminait en général par un banquet suivi d’un bal ; la fête s’inaugurait par l’absorption de larges rasades de cette eau-de-vie qu’on appelait « l’entêtée » ; des défis poétiques étaient lancés où s’affrontaient les meilleurs chanteurs, des rencontres se nouaient et se dénouaient… Dans la nuit, la troupe s’éloignait en chantant son histoire sur l’air de « Mulher Rendeira ».

Maria Bonita, la femme du bandit Lampião
Maria Bonita, la femme du bandit Lampião

«Ole, mulher rendeira

Ole, mulher renda

Tu me ensina a fazer renda,

Eu te ensino a namorar ! »

Parfois cela se passait très mal.

Lors de l’attaque d’Inharéma dans le Paraíba par exemple ; les cangaceiros ne réussirent pas à prendre le centre de la petite ville. Cette fois, fous de rage, ils se retirèrent en détruisant et en pillant, incendiant tout sur leur passage.

«De retour dans l’état de Pernambouc à la fin de 1925, Lampião occupa la ville de Custodia, mais cette fois le plus pacifiquement du monde. Les bandits passèrent leur journée à se promener dans les rues. Chacun paya pour ses achats. Tout autour de la localité veillaient les sentinelles. Lampiao rançonna quelques richards, acheta des vivres, des médicaments et des munitions. Il se fit faire un costume que le tailleur lui termina le jour même, comme promis, et qui fut payé en bonne et due forme. Il expédia un télégramme au gouverneur de l’État et lui en dit de toutes les couleurs, mais il ne paya pas sous prétexte que le télégraphe était un service “ public ”. Le détachement de police qui avait disparu à la première alerte, ne donna pas signe de vie. »

À Carnaíba de Flores, il cerna la ville et fit parvenir un billet menaçant : si on ne lui donnait pas la somme exigée, il mettrait le feu au village et massacrerait tout le monde ; la somme était considérable mais pas excessive, si bien que les notables entamèrent aussitôt une collecte. Mais soudain, une brigade « volante » assez fournie se présenta à l’improviste, et les cangaceiros alertés par leurs sentinelles décrochèrent prudemment.

La grande maison de la baronne Água Branca
La grande maison de la baronne Água Branca

Finalement la bande se présenta de nouveau sans crier gare, elle reprit le dialogue interrompu pendant quelques mois et obtint satisfaction. Un episode celebre et amplement commente, vu le rang de la victime, fut l’attaque contre la fazenda d’une richissime aristocrate, la baronne d’Água Branca. Le bandit ne toucha pas aux bijoux que la dame portait sur elle, mais il fit main basse sur le reste, broches, bagues, bracelets, colliers, pierres precieuses et objets en or, entre autres une longue chaine qu’il devait offrir plus tard a Maria Bonita sa compagne. Celle-ci la portera jusqu’a lamort avant qu’elle n’echoue dans la poche grande ouverte d’un soldat ou de quelque officier. Ainsi, invariablement, Lampiao suivait son chemin, devorant des kilometres et des kilometres de sertão.

En 1926, Lampião rencontra le pere Cicero dans la ville sainte de Joazeiro. Avec le titre de Capitaine, il y recut du gouvernement un armement moderne et des munitions. Il devait aller combattre la colonne Prestes (Luis Carlos Prestes deviendra plus tard secretaire general du Parti Communiste bresilien) qui s’etait formee a la suite du coup d’Etat manque d’officiers democrates et qui avait entrepris une longue marche a travers le Bresil. Lampiao accepta la benediction du pere, le titre de capitaine, les armes, mais se garda bien d’attaquer la colonne Prestes, ce n’etait pas son affaire.

1927 - Groupe Lampião après l'attaque de la ville de Mossoró
1927 – Groupe Lampião après l’attaque de la ville de Mossoró

En juin 1927, Lampiao mit le cap sur une ville importante, plus riche que les autres, Mossoró, dans l’etat de Rio Grande do Norte. Il fit savoir qu’il exigeait une grosse rancon. En guise de reponse le prefet lui envoya un paquet contenant une cartouche de fusil. Le ≪ capitaine ≫ se facha. Dans un village les cangaceiros jeterent a la rue les pieces d’etoffe d’un grossiste et les distribuerent aux pauvres. Dans d’autres, ils pulveriserent tout ce qui leur tombait sous la main. C’etait la technique de la terreur.

Enfin les cangaceiros, divises en quatre groupes, attaquerent la ville. Mais Mossoró et sa police les attendaient. Lampião avait sous-estime son adversaire et se trouva bel et bien en position de desavantage. Toujours realiste, Lampiao siffla la retraite et les 150 bandits se retirerent dans un ordre parfait. Les pertes etaient negligeables. Les cangaceiros firent cherement payer leur echec aux villes voisines. Les saccages se multiplierent.

Mais ils ne s’attarderent pas dans le Rio Grande do Norte ou le terrain leur était hostile (plaines étendues, pas de montagnes, de bois). Du reste, cette aventure avait quand même rapporté un gros butin. Lampiao inventa alors une maxime : «plus d’une église dans une ville, mieux vaut la laisser tranquille ».

Lampião à côté de la photographe libanaise Benjamin Abraão
Lampião à côté de la photographe libanaise Benjamin Abraão

Lors de son retour dans l’état de Pernambouc, eut lieu son plus violent combat contre la police : quatre vingt seize cangaceiros contre plus de deux cent cinquante macacos. Lampiao, sûr de ses chances, se lança avec fureur dans un combat qui selon toutes les apparences aurait dû lui être funeste. Les hommes furent divisés en trois groupes et l’affrontement se termina par la défaite des troupes de l’État qui, malgré leur mitrailleuse, abandonnèrent plus de vingt morts sur le terrain et emportèrent une trentaine de blessés. Du côté des cangaceiros les pertes furent dérisoires.

Parfois est entré dans la légende un fait identique à mille autres, mais un témoin l’a rapporté qui l’a vu, de ses yeux vu.On saute ainsi d’une année à l’autre, d’un état à l’autre, rappelant une aventure, un nom, une anecdote oumême un simple geste.

Terribles et magnifiques avec leurs chapeaux de cuir en forme de croissant ornés d’une profusion de médailles, monnaies d’or ou d’argent, boutons de col, bijoux, bagues, dans un luxe barbare et prestigieux.

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La bandoulière du fusil aussi foisonnait d’une infinité de boutons et de médailles. Pistolets et revolvers avaient des étuis de cuir travaillé et décoré, comme les ceintures. Leurs besaces elles-mêmes étaient richement brodées. Dans sa gaine ouvragée était glissé l’inévitable poignard effilé, de soixante cinq à soixante quinze centimètres, attribut du vrai cangaceiro.

Ils étaient l’incarnation du guerrier mythique, du Vengeur.

Ils survenaient. Ils surgissaient du désert là où on ne les attendait plus pour disparaître comme par enchantement dans l’étendue infinie du sertao. Ils ouvraient la porte des prisons, et le coffre des riches, dans les bourgs qu’ils traversaient. Ils semblaient avoir le don d’ubiquité. Omniprésents, ils échappaient comme par magie aux forces de police, le corps fermé aux balles, à la mort et au malheur.

«Il prend aux riches pour donner aux pauvres » dit-on du cangaceiro. En fait, les cangaceiros vivaient luxueusement : toujours sur le pied de guerre, mais dépensant le fruit de leur rapine en fêtes, en habits richement ornés, en mille largesses qu’ils dispersaient autour d’eux. Dans leur comportement envers les richesses, ils étaient exactement à l’opposé des gros propriétaires locaux : la richesse que ceux-ci avaient amassée entre leurs mains, les cangaceiros la dispersaient à nouveau.

Le cangaceiro Jararaca arrêtés après l'attaque de la ville de Mossoro dans l'état de Rio Grande do Norte
Le cangaceiro Jararaca arrêtés après l’attaque de la ville de Mossoro dans l’état de Rio Grande do Norte

Les latifundiaires ne pouvaient concevoir la richesse que comme bien privé, qui excluait les autres et faisait leur misère ; les cangaceiros, en dépensant ce qu’ils avaient pris, associaient tout le monde à ce luxe.

Alors que dans le « système féodal » ancien le pouvoir venait de la conquête, il allait désormais se fonder de plus en plus sur l’argent. Les cangaceiros, c’est le pouvoir qui dédaigne l’argent ; ils se faisaient un point d’honneur de dépenser leur fric en achats payés sans marchander, en banquets et en dons.

Alors que l’État garantissait le pouvoir des « colonels », le droit à la propriété, en fait, le droit d’exploiter le travail d’autrui, les angaceiros semblaient renouer avec la tradition des bandeirantes dont les grandes caravanes guerrières, infatigables, se suivaient à la conquête du Nordeste : «Loin du littoral où l’on trouvait la décadence de la métropole, ces bandeirantes, tirant profit des territoires extrêmes de Pernambuco à l’Amazone, semblaient être d’une autre race à cause de leur intrépidité téméraire et de leur résistance au revers. »11

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Quand le « prestige » du fazendeiro n’était plus fondé que sur l’exploitation, le cangaceiro renouait avec l’esprit de conquête. L’argent qu’il dispensait avec largesse, il l’avait gagné en risquant sa vie, en dépouillant les riches et les puissants détestés mais redoutés de tous. Dans les années trente, l’État sentit la nécessité de renforcer son contrôle sur tout le Nordeste et de pacifier entièrement cette vaste région éloignée du pouvoir central : réorganisation de la police, établissement de postes de contrôle, utilisation de la radio et du téléphone, introduction d’un armement plus efficace, développement des routes et desmoyens de transport ; un vaste dispositif se mit en place pour liquider le banditisme.

La répression s’intensifiait.

De fait pendant les dernières années, Lampião resta planqué la plupart du temps ; les rangs s’étaient resserrés, les munitions de plus en plus chères et presque introuvables.

Vers la fin ils n’étaient plus que cinquante cinq hommes et, s’ils faisaient encore quelques opérations, c’était presque toujours par groupes. Ce fut une trahison qui causa expressément la perte de Lampião.

Le 28 juillet 1938, il fut empoisonné à Angico dans l’état de Sergipe, avec quelques-uns de ses hommes et sa compagne Maria Bonita. La vengeance de Corisco, son « compadre » fut terrible, il massacra toute la famille du traître qui, lui, s’était engagé illico dans la police militaire.L’histoire de Corisco fut celle de tous ses compagnons : vendetta, fuite. Il s’enrôla dans l’armée puis déserta. Encore victime des injustices et des abus, il fut de plus humilié jusqu’à être piétiné par un délégué de police.

En 1938, peu de temps après la mort de Lampião, Maria Bonita et d'autres camarades, leurs têtes ont été coupées et exposées de la ville de Piranhas dans l'état d'Alagoas
En 1938, peu de temps après la mort de Lampião, Maria Bonita et d’autres camarades, leurs têtes ont été coupées et exposées de la ville de Piranhas dans l’état d’Alagoas

Il entra dans le cangaço. Il devint rapidement le meilleur cangaceiro après Lampiao. Il réussit à retrouver le délégué qui l’avait humilié, il prit l’homme par les pieds, le transperça et le taillada avec son poignard, le saignant lentement comme un porc. Après la mort de Lampiao, Corisco continua à battre la campagne avec ses hommes pendant près de deux ans. En mars 1940, encerclé avec Dada, sa femme, dans un petit village de la caatinga de Bahia par les macacos (ils avaient même une mitrailleuse), il refusa de se rendre.

Le chef des cangaceiro Corisco
Le chef des cangaceiro Corisco

Il mourut quelques heures plus tard. Ce fut la fin. Le cangaceiro porte en lui le témoignage qu’il est possible de secouer le joug de l’oppression ; que celle-ci n’est pas invincible ni éternelle. Le châtiment peut toujours tomber, inattendu, sur les épaules des riches et des puissants. Le cangaceiro remet alors les choses à l’endroit. Il prouve aussi que la lutte est sans merci et que la liberté doit se conquérir. Le cangaceiro, c’est l’énergie tendue vers une forme de vie nouvelle. Finalement, le cangaceiro, c’est la révolution.

Cette épopée fut chantée dans les foires et les fêtes où s’improvisaient des poèmes comme celui qui raconte l’arrivée de Lampiao en Enfer :

«Il y eut grand préjudice

En Enfer, en ce jour.

On brûla tout l’argent

Que possédait Satan.

On brûla le registre de contrôle

Et plus de six cent mille cruzeiros

Seulement en marchandises. »

À partir de 1940, les territoires du Nordeste sont totalement pacifiés ; l’ordre s’y maintient par la terreur ; le Nordeste est sous occupation armée s’il n’est pas encore sous occupation idéologique ; il n’en fut pas toujours ainsi.

Cette omniprésence de l’État signifie le sommeil de l’Esprit, un vrai cauchemar pour les pauvres ; elle interdit tout débat sur le monde ; la pensée de l’État est hors de toute critique, le mondeest devenu une fatalité. Les mouvements messianiques brésiliens se sont développés à un moment où le débat était encore possible. Pendant près d’un siècle, les pauvres ont débattu du monde dans cette région lointaine.

La dimension historique ou la dimension humaine est absente soit de l’interprétation de Vittorio Lanternari12 qui y voit une réaction du peuple opprimé qui «tente d’échapper à une situation étouffante qui tient assujettie toute la société», soit de celle de Pereira de Queiroz qui y décèle au contraire une aspiration à l’ordre dans une société où «règne une trop grande liberté qui dégénère en licence. » Les conditions historiques qui ont présidé au développement de ces mouvements sont comparables à celles que nous avons rencontrées à la fin du Moyen-Âge en Occident : une organisation sociale devenue archaïque se décompose alors que s’instaure progressivement un ordre nouveau. Le monde débat du monde: esprit marchand contre esprit féodal ; les pauvres à leur manière participent au débat qui ne veulent ni de l’un ni de l’autre et surtout pas de l’esprit marchand, du monde qui advient.13

Pour eux il ne s’agit pas de faire un choix entre le passé et l’avenir, ils ne sont pas, comme les sociologues ou les historiens, payés par l’État ; il s’agit beaucoup plus simplement de refuser farouchement l’esprit bourgeois ; non parce que celuici dérange leurs habitudes mais parce qu’il s’oppose en tout point à l’idée qu’ils se font d’une société humaine. Voilà bien une excellente raison ! Ils luttent effectivement contre le progrès, le progrès dans le monde de la pensée capitaliste.

C’est bien un débat d’idées, qu’ils engagent ainsi pratiquement, entre leur projet social et le projet social du capital ; entre l’idée qu’ils ont d’une pratique sociale humaine et l’argent comme pratique sociale.

Les mouvements millénaristes de l’époque médiévale se trouvaient au coeur d’une mutation historique, de la société féodale à la société marchande. Cette mutation est accomplie presque partout dans le monde quand apparaissent les mouvements brésiliens ; ceux-ci se trouvent comme à la périphérie historique de cette mutation. Cette situation explique leur caractère purement messianique : ils sont dans l’attente d’un bouleversement cosmique, l’heure de la vengeance de Dieu allait venir d’un moment à l’autre ; alors que pour les millénaristes médiévaux les plus radicaux, l’heure était venue d’accomplir ce bouleversement ; ils participaient activement, avec l’aide de Dieu, à la réalisation terrestre du Millénium quand les mouvements messianiques brésiliens ne pouvaient que s’y préparer.

Les insurrections millénaristes de l’Europe médiévale eurent à s’affronter aussitôt au principe ancien et au principe nouveau. Elles furent immédiatement critiques vis-à-vis de l’Église et vis-à-vis de l’Argent ; c’est que l’Église y avait une tradition historique et l’Argent une nouveauté historique. La société du Nordeste était d’essence religieuse mais l’Église y était peu implantée, quant à la bourgeoisie, elle y était inexistante. Les pauvres ne vont pas entrer directement en conflit avec l’Église ou avec les marchands, ils vont s’insurger contre un état d’esprit qui s’insinue dans la société, transforme les mentalités. Quand le conflit éclatera, ce sera tout de suite avec l’État.

Les mouvements messianiques se sont développés dans une région qui ne connaissait pas encore les conditions modernes d’exploitation ; cette région aride, souvent désertique, n’intéressait pas les grands marchands ni les industriels ; le salariat y était pratiquement inconnu.Mais cette zone était cernée par le monde moderne, par l’esprit moderne : au Sud, le point de vue capitaliste s’était imposé depuis la fin du siècle dernier avec les grandes plantations de café ; cette monoculture tournée uniquement vers l’exportation, totalement dépendante des lois de la concurrence, du marché international et des spéculations boursières, exigeait une organisation toute moderne du travail, une discipline industrielle. Elle était en soi ce contrôle social, elle en était l’esprit puisqu’elle créait pratiquement les conditions d’une dépendance absolue à l’argent. À l’est, le littoral avait été dès le début engagé dans un échangemarchand avec la métropole ; depuis quelque temps, il se trouvait pris dans un processus de modernisation de cette activité. Les senhores de engenho, les patrons des sucreries rudimentaires, ne pouvaient plus soutenir la concurrence étrangère ; l’esclavage lui-même revenait trop cher, il fut aboli par la République, on lui substitua une exploitation plus rationnelle : le travail salarié, quimettait directement le travailleur sous la dépendance de l’argent.

Avec l’aide de capitaux étrangers de nouvelles fabriques furent installées, ce qui entraîna une demande accrue de canne à sucre ; les patrons se lancèrent dans l’achat de terres : une fringale dévorante, pas question d’engrais pourvu qu’on plante toujours plus avant ; et là où on ne peut pas planter, on élève du bétail.

C’est ainsi que l’esprit capitaliste pénétra peu à peu dans le sertão, ouleversant en profondeur les rapports coutumiers. Il s’agissait de faire de l’argent et le plus vite possible. En outre les conditions d’exploitation devenant draconiennes, beaucoup de gens se retrouvèrent sans terre et sans travail, dans une misère la plus noire et la plus désespérée ; en masse ils fuirent la côte où il leur était impossible de survivre pour s’enfoncer à l’intérieur.

Cette population désorientée, qui n’était pas intégrée au système traditionnel en vigueur, alla grossir les rangs de ceux qui suivaient les prophètes millénaristes. Enfin les échanges entre l’intérieur et le littoral (cuir pour les harnais ou qui servait à emballer les rouleaux de tabac, boeufs pour les moulins à sucre et les plantations) qui équilibraient la vie sociale dans le sertão, allaient se trouver brutalement compromis par l’industrialisation capitaliste. Cette rupture dans les échanges allait avoir des conséquences tragiques pour les petits paysans, bouviers et métayers et allait remettre en question le rapport qui liait le vacher ou le métayer au propriétaire de la terre. Tout ceci se reflétait dans les querelles locales et les envenimait. C’est dans ce processus qu’il faut comprendre la genèse des mouvements millénaristes : ils se sont développés dans une région de relative liberté où ni l’État, ni l’Église n’étaient omniprésents mais qui subit, à son corps défendant, les contrecoups de l’offensive capitaliste. Peu à peu, des rapports indifférents, impersonnels, des rapports d’argent, vont se substituer aux rapports traditionnels de type « clientèle ». À partir de ce moment, la trahison est dans l’air : au respect de la parole donnée, va se substituer l’argent qui ne respecte aucune parole. L’appât du gain leur enlevant toute dignité, les gros propriétaires vont trahir allègrement les droits coutumiers et s’appliquer à rendre l’existence des pauvres abominable. Il y avait quelque chose de pourri dans le sertão.

Autrefois, éleveurs, propriétaires, bouviers et métayers menaient en général la même vie rude. La famille constituait la cellule de base de cette société, non pas la famille conjugale mais une grande famille, une « famille étendue » : la parentele était formée d’une famille noyau (frères, cousins, filleuls) et de sa clientèle (branches bâtardes,métayers, anciens esclaves). Ces lignées avaient toujours un chef à l’intérieur du groupe familial, tous ceux qui avaient la même position prééminente recevaient la dénomination de colonel, mais il y avait un «colonel des colonels ».

Il existait un contrat tacite d’échange de service qui assurait la cohésion du groupe et renforçait la position du colonel ; celuici se devait d’aider ses parents et ses hommes liges : cession de terres, respect des contrats de métayage (le bouvier avait une part du troupeau comme le métayer avait une part de la récolte, celle-ci était fixée par la coutume), prêts, garantie de défense judiciaire…, ce qui entraînait une obligation morale qui attachait l’intéressé au service du colonel. Les rétributions en argent étaient rares sinon inexistantes.

Le pouvoir politique fut toujours le grand enjeu des luttes opposant les clans les uns aux autres à l’intérieur du Brésil. Le colonel était né pour commander, il avait hérité de la terre et c’était d’elle qu’il détenait son pouvoir, l’État ne faisait que le confirmer en lui apportant sa garantie, sa caution juridique. Le colonel était décidé à défendre jalousement sa position sociale. Il jouissait d’une impunité absolue. On disait que l’activité d’un colonel qui se respectait était prévue à toutes les pages du code pénal. Il protégeait et maintenait son pouvoir et son prestige en entretenant de véritables bandes d’hommes armés, dans lesquelles s’enrôlaient, dans les périodes de conflits entre grandes familles, tous les hommes relevant de sa juridiction. Il représentait la véritable autorité de la région.

Aucune limite sinon le respect de la parole, la tradition, n’était imposée au colonel : tous étaient à la merci de son arbitraire. La convoitise allait faire de lui un homme redoutable. La trahison représentait donc le danger immédiat : tout risquait de basculer alors dans l’arbitraire le plus total, d’où cette susceptibilité à fleur de peau qui, à la moindre alerte, déclenchait des conflits en chaîne à l’intérieur des clans et entre les clans (inutile de dire qu’aujourd’hui l’arbitraire est total et garanti).

Millénaristes et cangaceiros ont surgi dans une société où les rapports étaient encore personnels, où la solidarité jouait encore, mais où existait une inquiétude latente due à la désagrégation progressive de ces rapports. Ils ont pris naissance dans une société désagrégée, minée peu à peu par l’esprit capitaliste, qui rendait caducs les rapports traditionnels. Cet esprit allait durcir la société, exacerber les susceptibilités, exciter les appétits.

Les gros propriétaires allaient se livrer à une impitoyable concurrence aboutissant à l’élimination des plus faibles et à l’accroissement de la puissance des plus forts.

Les messies brésiliens ne condamnaient pas, en général, l’organisation ancienne, mais l’âpreté au gain que manifestaient de plus en plus les colonels et qui entraînait l’oubli de leurs obligations. Bouviers et métayers en subissaient de plein fouet les conséquences ; cette dégénérescence des rapports, ils pouvaient en situer historiquement le début, ils pouvaient comparer ce nouvel état de chose avec un passé pas très lointain.

Les mouvements messianiques exprimaient le désir de réorganiser la société dans le sens de la solidarité au moment où tout sentiment de solidarité tendait à disparaître.

Deux directions étaient envisageables : ou renouer avec la tradition et la  renforcer d’un principe supérieur, l’autorité divine, le parrainage de Dieu, ce que fit le mouvement du père Cicero ; ou dépasser l’organisation ancienne, qui se révélait incapable de résister à l’esprit capitaliste et à l’exacerbation des égoïsmes, pour retrouver le sens de la communauté originelle.

Ils ont eu recours à la religion, comme esprit objectif de la communauté, pour sceller le pacte d’alliance. Le rituel catholique consacrait, selon l’esprit, les liens qui les unissaient. Ces rites étaient l’affirmation solennelle du rejet du vieux monde devenu profane et l’entrée dans un monde nouveau qui, lui, présentait seul maintenant un caractère sacré.

«Une fois la Ville Sainte fondée, lesmessies tentaient de l’identifier le plus possible avec les Lieux Saints. Dans le Nordeste, surtout, le paysage aride se prêtait à des rapprochements surprenants avec celui de la Judée, tel qu’on pouvait le voir reproduit sur les grossières images religieuses en vente dans les foires du sertao. Père Cicero, très habile, avait baptisé de dénominations prises dans l’Évangile les accidents de terrain autour de Joazeiro : le Mont des Oliviers, le Jardin du Saint Sépulcre, le Calvaire. Agrémentés de petites chapelles et de multiples croix, ils attiraient les pèlerins curieux et émus, et constituaient une nouvelle preuve de la sainteté des lieux. »14 Ce ne furent pas des mouvements hérétiques à proprement parler bien que l’Église les condamnât. Ils ne critiquèrent pas les sacrements comme le firent en leur temps les disciples d’Amaury de Bêne, les Taborites, ou les anabaptistes de Munster.

Ils se contentèrent d’opposer le vrai catholicisme qui était le leur au catholicisme dévoyé des prêtres.

Si le sentiment religieux était profondément enraciné dans la société, l’Église n’était pas cette citadelle de la pensée qu’elle fut à l’époque médiévale, et les efforts des quelques curés de campagne pour combattre les traditions populaires étaient dérisoires. Ils ne faisaient que renforcer chez les paysans le sentiment que seuls leurs beatos, leursmessies, connaissaient le vrai catholicisme. Il était d’ailleurs rare de voir les prêtres qui, par hasard, vivaient dans ces régions reculées, correspondre à l’idéal que se faisaient les pauvres de la vie chrétienne. Les sertanejos leur reprochaient surtout de vendre les différents rites ; ils en gardaient un vif ressentiment à l’égard du clergé officiel accusé de trahir sa fonction dans son aspect le plus sacré. Les prêches des messies reflétaient ces opinions ; Severino, un des apôtres de Lourenço, proclamait : «La parole de Dieu n’est pas à vendre, à aucun prix ; la parole de Dieu est gratuite. »Les prophètes brésiliens ont toujours puisé leur inspiration dans le catholicisme populaire, dans les légendes de la péninsule ibérique : leur façon de vivre correspondait parfaitement à l’idée que se faisaient les paysans des saints catholiques : c’étaient des pèlerins, vivant d’aumônes, distribuant aux pauvres les dons qu’ils recevaient. Ce catholicisme nourri de légendes, de mystères, de superstitions, de familiarité et de mysticisme, était d’essence millénariste. «Le temps paraît s’être immobilisé chez la population rustique du sertao. Ayant évité le mouvement général de l’évolution humaine, elle respire encore l’atmosphère morale des illuminés… »15 Ils attendaient la vengeance de Dieu, mais cette attente était dynamique, elle invitait les pauvres à s’organiser en vue d’actions concrètes comme l’occupation des terres, et à défendre énergiquement leurs conquêtes. C’était une attente qui, loin de contrarier l’activité sociale, l’incitait. Canudos était la Tabor du sertao où régnait une intense activité. Les millénaristes étaient animés d’un enthousiasme que rien ne pouvait briser. Ils ne s’isolaient pas et ils n’étaient pas isolés, ils n’avaient pas le sentiment d’être des élus, c’étaient des sertanejos, des jagunços ; simplement l’esprit de leur activité avait changé.

Cet esprit qui inspirait les disciples de Lourenço, par exemple, était le même que celui qui avait inspiré, deux à trois siècles auparavant, la colonie des Bêcheux de la colline Saint-Georges de Londres : «Celui qui travaille pour un autre soit à gages, soit pour payer redevance, n’accomplit pas un juste travail ; mais celui qui est résolu à travailler et à manger avec tous les autres, faisant ainsi de la terre un commun trésor, celui-là donne la main au Christ pour libérer la création de la servitude et laver toute chose de la malédiction originelle.» (Winstanley) À l’instar du pasteur Lee de l’Angleterre de 1650 («Une haie dans un champ est aussi nécessaire à sa façon que l’autorité dans l’Église ou l’État. »), l’État brésilien ne s’y trompa pas : cette occupation des terres, même à une fin religieuse, constituait en soi un défi à l’autorité. L’intention des millénaristes brésiliens n’était pas d’entrer en guerre ouverte contre l’État, ils attendaient que s’accomplît la vengeance divine mais, en attendant, ils le défiaient.

Pour eux, cependant, cette organisation collective du travail, cette activité commune, n’était pas la richesse. L’esprit de cette expérience était, sans doute, riche, mais cette expérience ne trouvait pas sa richesse en elle-même ; elle était son au-delà.

La richesse que promettaient les messies à leurs fidèles, cette promesse revenait toujours comme un leitmotiv dans leurs prêches, ne pouvait en aucun cas se confondre avec la prospérité et le bien-être, ni surtout, et c’est là l’essentiel, se réduire à une activité commune restreinte, aussi humaine fût-elle;

elle devait être l’aboutissement de toute l’activité sociale ; le moment de la dépense infinie, de la fête, et cet instant espéré était celui de son universalité.

Un monde s’opposait à sa réalisation.

GEORGES LAPIERRE

 GLOSSAIRE

–Bandeirantes : pionniers portugais de l’époque

coloniale.

–Beato : bienheureux, laïc voué au service de Dieu

(il reçoit le nom de « moine » plus au Sud).

–Caatinga : vaste étendue de broussailles

enchevêtrées difficilement pénétrables.

–Cangaceiro : bandit d’honneur, son nom

viendrait du fait qu’il portait son fusil sur les deux

épaules à la manière d’un joug (canga : joug).

Le cangaço est sa bande.

–Capanga : tueur à gage.

–Colonel : nom donné au Brésil aux chefs politiques

locaux. Pendant l’époque coloniale et l’Empire,

la Garde Nationale remplaçait l’armée ; les

planteurs puissants y achetaient des grades élevés ;

l’appellation de « colonel » s’est étendue petit à

petit à tous les individus puissants, indépendamment

de leur appartenance à la Garde

Nationale.

–Fazendeiro : propriétaire éleveur, la fazenda est

un domaine souvent considérable.

–Jagunço : bouvier, le gaucho du Nordeste.

–Quilombola : esclave noir insurgé ; à Palmarès ils

furent 30 000 à tenir tête à l’armée.

–Sertao : (serton) vaste région semi-désertique du

nord-est du Brésil

–Sertanejo : habitant du sertao.

CHRONOLOGIE

1500 – Le portugais Pedro Alvares Cabrai

“découvre” le Brésil.

1530 – Avancée de la colonisation vers les terres

de l’intérieur.

1550 – Début de la traite des esclaves.

1716 – La colonie devient une vice-royauté.

1817 – Début du mouvement messianique de

Sylvestre José dos Santos.

1822 – Déclaration de l’indépendance.

Proclamation de l’Empire.

1835 –Mouvement messianique de Joao Ferreira.

1871 – Vote de la loi dite « du ventre libre »,

acheminement vers l’abolition de l’esclavage.

Périgrinations du «Conselheiro » dans l’état de

Bahia, du père Cicero dans le Ceara.

Les groupes de cangaceiros se multiplient.

1888 –Abolition de l’esclavage dans tout le pays.

1889 – Proclamation de la République.

Le père Cicero accomplit ses premiers miracles.

Le Conselheiro prêche l’insurrection contre la

République.

1896 /97 – Campagne de Canudos contre Antonio

Conselheiro. Le cangaceiro Antonio Silvino

commence à s’affirmer.

1913 – Mouvement séditieux du père Cicero

contre le gouvernement fédéral.

1914 – Arrestation du chef cangaceiro Antonio

Silvino.

1920 – Lampião entre dans le cangaço de Sinhô

Pereira.

1922 – Lampiao est proclamé chef de bande.

1926 –Entrevue de Lampiao avec le père Cicero.

1930 – Présidence de Getûlio Vargas.

1934 – Mort du père Cicero. Naissance du

mouvement messianique de Lourenço.

1937 – Dictature de Getûlio Vargas.

1938 – Piège d’Angico et mort de Lampiao.

Le mouvement de Lourenço est massacré.

1940 – Corisco meurt, avec lui disparaît le

cangaceirismo.

 

RÉFÉRENCES

 

1– Pereira de Queiroz : Réforme et Révolution dans les Sociétés

traditionnelles.

2–Euclydes da Cunha : Os Sertoes,

traduction française : Les terres de Canudos (1947)

3–Cahiers trouvés à Canudos.

4–Poèmes retrouvés à Canudos, écrits sur de petits morceaux de papier.

5–D. Sebastiao : Roi du Portugal (1557-1578) ; il meurt au cours d’une

expédition contre lesMaures. Le peuple ne voulut pas croire à sa mort ;

il devint une figure légendaire et messianique comparable à celle de

l’Empereur des derniers jours : il reviendrait de l’île des Brumes et organiserait

une armée pour libérer Jérusalem. Nous retrouvons cette légende

portugaise de la fin du XVIè siècle encore très populaire au

Brésil ; elle fut au coeur de deux mouvements messianiques d’importance

qui eurent lieu dans la province de Pernambuco en 1817 et en

1835 : celui de Sylvestre José dos Santos et celui de Joao Ferreira.

6–Il s’agit bien évidemment de Canudos.

Euclydes da Cunha : Os Sertoes, l’auteur fait un récit très détaillé des

différentes expéditions militaires menées contre Canudos, il fut présent

au cours de la dernière ; nous nous inspirerons de son témoignage et

nous le citerons souvent.

7–Le livre d’Euclydes da Cunha se termine par une calomnie bien dans

le ton de l’époque : «On apporta le crâne (du Conselheiro) sur le littoral,

où la foule fêtait la victoire, dans une joie délirante. La science devait

dire le dernier mot : dans le relief des circonvolutions

caractéristiques du cerveau, il y avait les lignes essentielles du crime

et de la folie. »

8–Hegel : Principes de la Philosophie du Droit.

9–Josué de Castro: Une Zone explosive, Le nord-est du Brésil.

10 – Cangaceiros : Ballade Tragique

texte : Mario Fiorani, illustration : Jô Oliveira

11– Euclydes da Cunha : Les Terres de Canudos.

12–Vittorio Lanternari : Les Mouvements Religieux des Peuples

opprimés.

13– Pereira de Queiroz : Réforme et Révolution dans les Sociétés

traditionnelles.

14– Pereira de Queiroz

15– Euclydes da Cunha

A HISTÓRIA DA AVIAÇÃO NO RIO GRANDE DO NORTE – CONTADA POR TARCÍSIO MEDEIROS

Mapa mostrando a proximidade da região Nordeste do Brasil com a África e a Europa – Fonte – Coleção do autor

A situação geográfica do Rio Grande do Norte no saliente Sul-americano ficou mais em evidência perante o mundo no período de 1922-1937, em decorrência do desenvolvimento aviatório ocorrido logo após o término da 1ª Grande Guerra. De 1920, sobretudo, á busca de pontos estratégicos para encurtar distâncias entre os Continentes, em razão da precária estrutura e potência dos motores dos aviões de então, constituía a preocupação dos países líderes na exploração das rotas aéreas comerciais.

Antiga nau portuguesa – Fonte – Coleção do autor

O litoral do Estado, que fora ponto de convergência das naus do movimento de expansão marítima do passado, vai ser o ponto de reunião das novas naus do espaço para o salto sobre o atlântico Sul, meta de todos os grandes vôos entre Europa, África e América.

E que inexplicável coincidência do destino! A terra de Augusto Severo, pioneiro da aviação, marcaria, mais uma vez, a sua presença no momento consagrador de sua evolução, testemunhando rasgos de audácia, coragem, sacrifícios, fracassos, daqueles que buscavam a glória em luta com o tempo. Os fenômenos meteorológicos e os das correntes marítimas existentes no corredor Atlântico entre Natal e Dakar foram descritos desde o ano de 1860 por Robert-Avé-Lallemant como perigosos na área do litoral potiguar, provocadores de situações difíceis e capazes de atrair as suas costas embarcações desconhecedoras dessas particularidades.

O médico e explorador alemão Robert Christian Barthold Avé-Lallemant – Fonte – http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Christian_Av%C3%A9-Lallemant

Também do outro lado, a começar do Cabo Bojador para o sul, abrangendo o cotovelo africano, existe o chamado “Mar da Escuridão” dos antigos navegantes. Paul Herrman (A Conquista do Mundo) descreve a região como consequência da água do mar que, lançada sobre recifes e bancos de areia por quilômetros de oceano, de forma violenta, agitada pelos ventos, provoca uma cortina de vapor que escurece tudo, até grande altitude. A região, por tal, passou a ser conhecida como “Pot-au-Noir” para qualquer espécie de navegação, sobretudo aérea ao tempo das primeiras travessias, quando os aviões não tinham condições para atravessá-la. Aí seria o túmulo de muitos aviadores e o de Mermoz, em 1936. Esse obstáculo originou a que as tentativas iniciais do vôo transatlântico partissem da costa africana em demanda de Natal, porque em sentido contrário os ventos soprando, ainda, rijos contra o nariz do avião, consumindo, pelo esforço, mais combustível, complicava a conclusão do “raid”.

Natal, uma cidade que cresceu sobre asas – Fonte – Coleção do autor

Por isso, Natal acolheu muitos desses aviadores vindos da África, ou em vôos percorrendo as Américas. Poucos ficaram para o retorno, apenas franceses e alemães em competição para exploração do correio aéreo internacional. Os franceses, inicialmente, mantiveram o serviço percorrendo o caminho de volta por meio do “Aviso Postal”, pequeno navio rápido, tripulado por senegaleses brancos e negros, até Mermoz conseguir realizar a façanha direta com o “Arc-em-Ciel”. Os alemães da Syndikat kondor, reabastecendo os seus aviões no meio do Atlântico com o navio catapulta “Deustchland”, depois o “Westfalen”, finalmente com o dirigível “Graf Zepellin” e os aviões da Lufhansa “Dornier-Wal”, dois motores, de 1.500HP, também, diretamente.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral partindo de Lisboa em direção ao Brasil Natal, uma cidade que cresceu sobre asas – Fonte – Coleção do autor

A travessia das 1.890 milhas entre a África e o Brasil (Natal) foi iniciada em 1922 pelos portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho, que executaram o trajeto com muitas dificuldades entre Lisboa e Rio de Janeiro, em etapas, arrebentando aviões até Fernando de Noronha. Daí rumaram para Recife, passando sobre Natal. Como outrora as caravelas de Cabral, agora eles percorriam roteiro semelhante, porém com as novas “Caravelas dos Ares”. Depois, outros seus patrícios repetiram o feito, com mais sucesso. Nesse ano de 1922, já o estuário do Potengi abrigava os primeiros hidroaviões que começavam a percorrer as Américas.

Na foto vemos o norte americano Walter Hilton e o cearense Euclides Pinto Martins, que possuía forte ligação com o Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção do autor

Assim, no dia 21 de Dezembro, amerissava o Sampaio Correia-II, tripulado pelo brasileiro Euclides Pinto Martins e o norte americano Walter Hilton, num “raid” Nova York-Rio de Janeiro, percorrendo 5.587 milhas. Pelas 14 horas, “a libellula de aço”, no dizer de “A República”, tocava as águas do rio, atracando no Cais Tavares de Lyra debaixo de aclamação popular e homenagens prestadas pelas autoridades do Estado. No dia imediato, rumava para o sul. O percurso anterior tinha sido feito de Aracati (Ceará) para Natal.

Hidroavião espanhol “Plus Ultra” e sua tripulação – Fonte – Coleção do autor

Somente de 1926 em diante, o movimento aviatório é intensivo em Natal. Alvoroçada ficou a cidade, desde o mês de fevereiro, porque estava no roteiro dos aviões “Plus Ultra” comandando por Ramon Franco e Ruiz de Alda y Duran, pretendendo a travessia Espanha-Buenos Aires, e do “Buenos Aires” comandando por Bernado Duggan acompanhado de Olivieri e Ernesto Campanelli, italianos, no intuito do “raid” Nova York – Buenos Aires. O primeiro, depois de partir de Dakar e haver percorrido 2.950 Ks, caiu em Fernando de Noronha. Reparado, seguiu para Recife- Rio de Janeiro- Buenos Aires.

Hidroavião “Buenos Ayres”, que apenas sobrevoou Natal em 1926 e aterrissaram na Barra de Cunhaú – Fonte – Coleção do autor

O segundo, iniciando viagem em maio, após vários acidentes no trajeto Havana-Pará, chegou ao litoral do estado no dia 11 de julho, pousando sem maiores consequências na Baía de Cunhaú. Socorrido com o necessário, partiu, depois, para Cabedelo, Paraíba.

Hidroavião “Santa Maria” – Fonte – Coleção do autor

No ano de 1927, em 24 de fevereiro, chega o “Santa Maria” de propriedade do Marquês de Pinedo, tendo como companheiros o cavaleiro Carlo Del Prete, Capitão de aeronáutica, e Victale Zachetti, “motorista”, todos italianos. “A República abria notícias:” Natal é o primeiro porto brasileiro em que pisa o marquês De Pinedo. Há três dias a alma da cidade vibra de emoção para saudar o grande aviador italiano. O coração do povo queria aplaudir o feito do famoso conquistador dos ares que hoje é considerado uma das verdadeiras glórias da aviação universal “”. De Pinedo, partira de Elmas, em 13 de fevereiro, chegando a Vila Cisneiros (Colônia do Rio do Ouro), 14 do mesmo mês, pelas 16 horas. Largou para Bolama, na Guiné portuguesa, aonde chegou no dia 15 as 7.30. Depois seguiu para Dakar a 17, decolando daí na noite do dia 18 para Porto Praia, local em que amerrissou no dia 19, pelas 9,30.

O italiano De Pinedo – Fonte – Coleção do autor

Somente no dia 22, levantou voo para Natal. Em Fernando de Noronha, como outros, faltando gasolina, teve de fazer um pouso de emergência. Foi reconhecido pelo Cruzador “Barroso”, no qual se hospedou. No dia 24 de fevereiro, pelas 7 horas decolava para Natal, chegando ás 9,30.

Como os anteriores, recebeu grandes manifestações. Desfilou em carro aberto pelas ruas da cidade, com as autoridades. A Assembléia Estadual, pelas 12 horas, ofereceu um almoço de 40 talheres. No seu discurso de agradecimento, De Pinedo foi profético: “Natal será a mais extraordinária estação da aviação mundial”. Carlo Del Prete e Victale Zachetti não desceram a terra, tendo permanecido todo o tempo a bordo do avião, procedendo á limpeza interna do aparelho, no qual foram ajudados por dois marinheiros da Capitania dos Portos. “A Rotisserie Natal” forneceu-lhes almoço a bordo por conta do governo do Estado. Carlo Del Prete voltaria a Natal, em 5 de julho de 1928, em companhia de Arturo Ferrarin, quando bateriam o “recorde” na travessia Roma – Natal (Praia de Touros). Partiram pelas 15:30, rumando para Recife.

O hidroavião português “Argos” – Fonte – Coleção do autor

O “Argos”, sob a direção do Major Sarmento de Beires, e tendo como auxiliares de navegação Jorge de Castilho e Manuel Gouveia, foi um dos aviões mais festejados que tocaram em Natal, por serem seus tripulantes portugueses. Tendo decolado de Bolama às 17 horas do dia 12 de março de 1927, amerrissou 150 quilômetros adiante. Recomeçou o voo para também pousar em Fernando de Noronha, no dia 18 de março pelas 10:15 às 12:55, contudo, do mesmo dia, estava em Natal, saudando a população em nota distribuída á imprensa: “A tripulação do avião” Argos “saúda o povo brasileiro que tão intensamente sabe vibrar sob a impressão resultante de qualquer tentativa levada a feito por homens dessa raça única e que pertencem os povos brasileiros e portugueses. Que o nosso esforço possa contribuir para o estreitamento da união luso-brasileira, tal é a nossa aspiração”.

Depois, Sarmento de Beires autografou um álbum de Sérgio Severo, filho de Augusto Severo, com a significativa mensagem: “Se não tivesse havido toda essa coorte de sacrifícios, entre os quais Severo fulge com cintilação imorredoura, as asas humanas não poderiam hoje singrar no espaço com segurança que nos permitiu atravessar o Atlântico numa noite inteira de voo . Pelas 16 horas, um após outro, suavemente, baixaram no Potente, amarrando em boias frente á pedra do Rosário.

Hidroavião norte-americano Loening OA-1A, da conhecida “Esquadrilha Dargue”, que estiveram em Natal em 1927 – Fonte – http://earlyaviators.com/eloenin2.htm

Comandante: Major Herbert A. Dargue, natural de Brooklin, Nova York. Sub-comandante, Capitão Artur B. Mac Doniel, de Santo Antônio, Texas, 1.o Tenente, Bernad S. Thompsom de Begdad, Flórida 1.o Tenente, Charles Mac Robson, de Columbus Ohio. 1.o Tenente, Luiz Fairchind, de Bellingham, Washington. A esquadrilha tinha feito o trajeto: Santo Antônio (Texas), Tambicu, Vera Cruz e Santa Cruz, no México; Guatemala, S. Salvador, Honduras, Costa Rica, Nicarágua, Panamá, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, passando pelo Rio Grande do Sul, Florianópolis, Santos, Rio, Bahia, Recife e Natal. Segui para o norte até completar o percurso nos Estados Unidos. Ao sair dos Estados Unidos, era composta de cinco aviões. Na Argentina houve um desastre, quando perdeu dois: o “New York e o Detroit”, que se chocaram no aeroporto de Palomar.

A capital potiguar parou para receber os brasileiros do “Jahú”- Fonte – Coleção do autor

Fins de abril, maio, junho de 1927, foram dias movimentadíssimos em Natal e para o mundo, por acontecimentos inusitados, envolvendo a avião da época. Ao mesmo tempo, em regiões diferentes, era programados vários vôos transoceânicos, abrindo “manchetes” nos jornais de todos os países.

O “Jahú”, tendo a frente o piloto Ribeiro de Barros- Fonte – Coleção do autor

Para a travessia do Atlântico Sul, interessando o brasil particularmente, estava o avião brasileiro “Jahu”, tripulado e de propriedade de João Ribeiro de Barros, paulista de 26 anos; com os companheiros João Negrão, de 26 anos; Vasco Cinquini, filho de italianos, porém brasileiro de nascimento, com 27 anos, mecânico do campo dos Afonsos e o Capitão Newtom Braga, com 42 anos. O raid seria Gênova-Dakar – Natal até Rio de Janeiro.

Preparado para o mesmo salto, de Rue (França) -Dakar-Natal, também desde abril, estava pronto o Marquês de Saint-Roman, com o “Paris-Amérique-Latine”. Pretendendo a travessia do Atlântico Norte, Europa – América do Norte, os franceses Nungesse e Coli tinham preparado o “Pássaro Azul”, e de New York para Paris, Charles Lindbergh, o “Saint-Louis, estando em jogo um prêmio no valor de 25.000 dólares. Da Inglaterra, os Tenentes Carr e Gilman preparavam o vôo Inglaterra-Índia. Da Espanha, chegavam notícias da circunavegação do globo pretendia por Ruiz Alba e Padelo Roda.

Outra imagem do “Jahú”- Fonte – Coleção do autor

Como se nota, estava-se presenciando um momento histórico da aviação: A conquista do espaço intercontinental contra o tempo numa provação de coragem humana e valorização de suas máquinas. O “O Jahu” depois de fazer o percurso Gênova – Dakar sem acidentes, pelas 3,45 do dia 29 de abril, largava de Porto Praia para Natal. Estações de rádio mais variadas, montadas por todo o brasil e, especialmente em Fernando de Noronha, espalhavam notícias constantes da travessia, esperando-se que batesse o feito anterior do “Argos”, então festivamente acolhido no Rio de Janeiro, e que chegasse primeiro a Natal do que de Saint-Roman.

Durante à tarde do mesmo dia, silenciaram as comunicações. O povo dormia nas calçadas dos jornais de várias cidades, aguardando notícias. Somente no dia seguinte, soube-se que o “Jahu”, pelas 17:30, caíra a 100 milhas de Fernando de Noronha, por Ter rompido uma hélice de um dos motores. O navio “Belvedére”, que passava no local, radiografou a triste nota, e que o “Angel Losi”, mais próximo do sinistro, estava rebocando o “Jahu” para a ilha nada tendo acontecido aos tripulantes. O jornal “Á Pátria”, que então era editado no Rio de Janeiro, achou de dar a notícia do acidente como motivado pela imperícia dos tripulantes do “Jahu”, fato que não ocorrera com o “Argos”. O povo que sofria apreensivo com o possível fracasso do avião brasileiro, rompeu num protesto violento contra o jornal, quebrando tudo, morrendo gente na confusão.

O “Jahú”, um hidroavião Savoia-Marchetti S.55, o último de seu modelo no mundo, atualmente se encontra no Museu de aviação da TAM, em São Carlos, São Paulo – Fonte – http://www.trekearth.com

No dia 5 de maio, Ribeiro de Barros ainda aguardava a nova hélice em Fernando de Noronha, quando a imprensa anunciou a largada de Dakar para Natal do “Paris-Amérique-Latine” de Saint-Roman. Então, o suspense foi martirizante. Recife, 5 – “De Dakar informa que o” Paris-Amérique-Latine “passou alto, pelas 12 horas, sobre os rochedos de S. Pedro e São Paulo” – Expectativa.

Recife, 6 – “Depois das 18 horas de ontem, nenhuma notícia positiva veio mais sobre o” Paris-Amérique-Latine “. As estações de rádio de Olinda e Fernando de Noronha têm estado em comunicação com os navios que cruzam o Atlântico, não conseguindo nenhuma informação do aparelho. O cabo francês também não recebeu notícia alguma. Parece que Saint-Roman anda fora de rota comum de navegação”. Consternação geral.

Natal esperou um nobre francês que viria pelo ar e que jamis chegou- Fonte – Coleção do autor

Depois, de todo o mundo, chegavam pedidos de informações sobre o paradeiro do “louco sublime”, como fora apelidado o simpático marquês. Organizaram-se buscas e mais buscas por todo o litoral brasileiro. Navios de vários países vasculharam o Atlântico Sul, e nada. Os mais desencontrados boatos davam Saint-Roman nas praias do Recife, Fortaleza, Maranhão até ás margens do São Francisco; ou que os destroços tinham batido no litoral de Massachusetts  Estados Unidos. Tão somente em 29 de junho, os restos do avião de Saint-Roman eram identificados no litoral brasileiro, entre o Maranhão e Pará. Mas um herói para a galeria da França, cujo drama emocionou as nações, especialmente o Rio Grande do Norte, que o esperou sempre. Enquanto isto, no dia 10 de maio, chegavam informações de Paris de que o drama de Saint-Roman não abatera o ânimo dos tripulantes do “Pássaro Azul”. No dia anterior, tinham partido para o “raid”. Paris-Nova-York. Idêntico destino estava reservado para eles: Desapareceram também nas águas frias do Atlântico Norte. A 14 de maio, finalmente, Natal aguardava a chegada do “Jahú”, que, recuperado, partira de Fernando de Noronha, ás 9,10.

Como um jornal pernambucano estampou a chegada do “Jahú” a Natal – Fonte – Coleção do autor

Multidão. Toda a cidade estava ás margens do Potengi. Navios, embarcações de todos os tipos, engalanados em arcos de bandeiras multicores. Pelas 13 horas, o ronco dos motores cresce á medida que a silhueta vermelha avulta no horizonte, vinda do mar. Quando numa curva sobrevoou Natal, o delírio foi indescritível: Palmas, gritos. Baixando após a ponte de Igapó, na altura da Pedra do Rosário, suavemente, uma, duas vezes, toca as águas do Potengi e depois desliza até ás proximidades do Cais Tavares de Lyra, onde atracou numa bóia.

O desembarque desses homens em terra foi um pandemônio. Ninguém conteve a multidão. Arrebatados, percorreram ruas de Natal nos ombros do povo. Depois, manifestações oficiais e particulares intermináveis. Durante dias, estafaram-se em um nunca acabar de festas, os solteiros arrebatando os corações das moças da terra… De tal modo que a poesia de cordel do tempo cantou… De forma irreverente. Pretendia Ribeiro de Barros deixar Natal depois do dia 20 para tanto distribuiu á imprensa uma nota: “Quando de perto sentimos a grandeza da alma, o civismo e a hospitalidade desse povo, embora de passagem, só temos um pensamento: Ficar. Só um compromisso do dever elevado e os reclamos de outros brasileiros podem ser uma força capaz de nos fazer partir, levando no coração um sentimento que nem a palavra saudada traduz”. a) Ribeiro de Barros – Newton Braga – João Negrão – Vasco Cinquini. A 24, pretendeu decolar. Tentativas e mais tentativas, e o “Jahu” teimava em ficar. E ficou até junho, revisando os motores.

Charles Lindbergh – Fonte – Coleção do autor

No mesmo dia 24 de maio, os jornais de todo o mundo saudavam um novo herói: Charles Lindgergh, o “ás” que realizou, sem etapas, diretamente, a travessia Nova York – Paris, fazendo jus ao prêmio “Orteig” de 25.000 dólares. A recepção do aeródromo de Bourget foi uma coisa nunca vista em Paris, quando Lindbergh aterrissou já á noite. Os cordões de isolamento foram rompidos e o povo carregou o aviador nos braços, também. Cansado, arrebentado, dormiu 14 horas seguidas, depois. Só mais não fez, porque foi acordado pela multidão que reclamava sua presença na sacada do hotel. Tarde de 3 de junho de 1927, o “Argos” voltava a Natal em sua viagem de regresso á pátria. O “Jahu” continuava em reparos. Domingo 5, pelas 7:30, com a presença dos tripulantes do “Argos”, autoridades e povo, o “Jahu”, finalmente, decolava rapidamente em demanda do Recife, aonde chegou pelas 9,30 do mesmo dia.

No dia seguinte o “Argos” seguiu para o Pará. Lá sofreria um acidente, danificando-se. Toda a equipagem, porém, safou-se para chegar em Lisboa, via Marítima.

Paul Vachet, terceiro a partir da esquerda, pousou com seu avião na praia da Redinha. Aqui o vemos em Buenos Aires – Fonte – http://sterlingnumismatic.blogspot.com.br

No mês de julho de 1927, continuava Natal em constantes surpresas ao receber aviadores inesperados. Em 18, é a vez de um Breguet da Latecoère. Companhia francesa de aviação, em busca de fixar-se na cidade, a fim de tentar o salto á África, e com isso conseguir o privilégio de um convênio com o governo para fazer o transporte do correio internacional, de vez que aos alemães haviam conseguido o mesmo no sul do país. Esse avião, que era um biplano terrestre, ou um aeroplano, somente podia aterrar em campo apropriado que não existia ainda na cidade. Partindo de Alagoas, chegou a Natal nessa data, aterrissando na Praia da Redinha, por não encontrar local melhor. Era comandado por Paul Vachet, acompanhado de Dely e Fayard.

Paul Vachet em um dos seus voos – Fonte – http://www.ladepeche.fr

O “Diário de Natal”, em duas edições de março de 1966, sob o título “Primeiro Avião em Natal”, publicou a tradução em trechos esparsos do livro desse aviador, então Coronel da Aviação francesa, já setuagenário, em que diz: “O voo foi efetuado a 17 de julho de 1927(e não 18) de 1927: esta é, portanto, a data da descoberta de Natal, do ponto de vista aeronáutico, de Natal que jamais recebera um avião e devia ser nossa cabeça de linha transatlântica para a América do Sul até o armistício de 1945. Evidentemente, por tudo que foi dito anteriormente, a afirmativa do velho Coronel, data vênia, constitui uma lastimável inverdade, justificável, apenas, para que lhe seja atribuído o mérito do pioneirismo da missão. Antes dele, pelos dramas heroicos de que fora testemunha da história, Natal já estava nas manchetes dos jornais de todas as nações, fazendo justiça àquela afirmativa de De Pinedo: “a mais extraordinária estação da aviação mundial”. E foi por isso que ele veio para cá.

Campo de Parnamirim na década de 1930 – Fonte – http://embuscadenovoscaminhos.blogspot.com.br

Paul Vachet, não resta dúvida, foi quem primeiro trouxe a Natal um aeroplano, o qual, por falta daquelas condições, aterrou na Redinha, e para atender os interesses de sua Companhia, por indicação do então Capitão Luiz Tavares Guerreiro conheceu o local no qual ergueria “PARNAMIRIM”. O terreno de propriedade da família Machado foi-lhe doado em seu próprio nome, mais tarde sendo lavrada a escritura para a Latecoère, que, sendo Companhia francesa sem personalidade jurídica reconhecida no Brasil, não poderia Ter recebido, naquele tempo, a doação.

Juvenal Lamartine – Fonte – http://encantosdoserido.blogspot.com.br

“Parnamirim”, a partir de então, tornou-se o Aeroporto Internacional maior da América do Sul, famoso em todo o mundo, especialmente por ocasião da Segunda Grande Guerra. A glória de sua fundação deve-se a Paul Vachet e a Latecoère. Prevendo o futuro do Estado que iria governar, Juvenal Lamartine, desde 21 de maio de 1927, apresentou na Câmara Federal, posteriormente aprovado e sancionado, o projeto de lei autorizado o poder Executivo criar no Porto de Natal um AVIÓDROMO que de acordo com a navegação aérea, teria oficinas para reparos, depósitos de material e combustível.

Avião Francês Laté-25 – Fonte – http://www.airwar.ru

Concretizando os trabalhos iniciados por Paul Vachet, Dely e Fayard, “Parnamirim” com pistas de grama e barro, estava em condições de receber os aviões da Latecoère. Assim, no dia 14 de outubro de 1927, aterrissava o “Nungesser-et-Coli”, com Costes e Le Brix, concluindo o pulo ATLÂNTICO de São Luís do Senegal a Natal. EM 20 de novembro do mesmo ano, o Laté-25 iniciava a linha regular, com Pivot, Pichad e Gaffe.

Logotipo da Condor – Fonte – Coleção do autor

No ano de 1928, os alemães que haviam fundado uma sociedade denominada “Syndikat Kondor”, desde 1.o de dezembro de 1927, estendem suas linhas na rota Porto Alegre – Rio de Janeiro- Natal. Em 14 de junho desse ano, amerissava no “Potengi”, um “Junkers” trimotor.

Festividade em Natal para os aviadores italianos Ferrarin e Del Prete. Da esquerda para direita vemos o Cônsul italiano em Recife, Arturo Ferrarin, Juvenal Lamartine, Carlo del Prete e a cientista Berta Lutz

Também os italianos entram na competição atlântica. A 5 de julho de 1928, Arturo Ferrarin e Carlo Del Prete, com um avião Savóia-64, conseguem bater o “Recorde” de distância Roma-Natal, caindo, porém, na Praia de Touros. Recebidos com carinho e entusiasmo pelos natalenses, a Itália reconhecida, oferecida, quando da chegada de Ítalo Balbo em 6 de janeiro de 1931, a Coluna Capitolina a fim de perpetuar a façanha inusitada, e por muitos anos insuperável, dos seus dois filhos heróis.

Ainda em 1928,29 de dezembro, pelo Dr. Juvenal Lamartine, Presidente, Dr. Dioclécio Duarte, Vice-Presidente, Dr. Adauto Câmara, 1.o Secretário, era fundado o “Aero Club” do Rio Grande do Norte, no bairro do Tirol, com o seu pequeno campo de pouso ao lado do poente da sede social. Participaram das festividades, numa revoada de Parnamirim a Natal, um “Blue-Bird”, pilotado pelo Diretor-Técnico, Comandante Djalma Petit, trazendo a bordo o Sr. Fernando Pedroza, e um aparelho da Générale Aéropostale (C. G. A.), pilotado por Depecker, conduzido o Sr. J. Pinon e dois mecânicos. Na ocasião, foi batizado o primeiro aeroplano do “Club”, com o nome de Natal.

De gravata borboleta vemos o piloto Djalma Fontes Cordovil Petit, oficial da Aviação Naval e diretor do Aero Clube do Rio Grande do Norte, tendo a sua esquerda o governador Lamartine

A partir de 1929, quando, possuindo o campo de “Parnamirim” e o estuário do Potengi, com meios de pouso para aeroplanos e hidroaviões, Natal passou a ser a capital do Brasil mais em evidência, eixo das rotas aéreas, sobretudo internacionais, é possível, como resumo dos fatos principais, fixar em EFEMÉRIDES, os seguintes:

Avião Bellanca CH-200, igual ao que os aviadores peruanos Carlos Martínez de Pinillos e Carlos Zegarra Lanfranco estiveram em Natal – Fonte – http://zonamisterio.site90.com

Em 8 de janeiro de 1929 – pretendendo fazer o circuito das Américas, passa o “Peru”, um Wright de 220 HP, de nacionalidade peruana, pilotado por Martinez e Zagarrra, que declararam, em a “República” de 9 do mesmo mês: “Natal confirma, dia a dia, o prognóstico de quantos asseveraram para si um posto de merecido destaque na América, como centro aviatório de interesse nacional e internacional”. Em 16, decolava com destino a São Luís do Maranhão.

Avião Breguet XIX GR, batizado como “Jesús del Gran Poder” em exposição no Museu del Aire de Cuatro Vientos, em Madrid, Espanha – Fonte – http://www.lasegundaguerra.com

Em 22 de janeiro de 1929 – Os primeiros campos de pouso são inaugurados no interior do Estado: _ (Ararinha) e Mossoró. Logo no dia 27, o de Ceará-Mirim. Em 28 de março – passa sobre Natal o avião Jesus Del Grand Poder, vindo da costa da África para aquatisar em Salvador, Bahia. Pretendia bater o recorde de distância e permanência no ar, de posse de Ferrarin e Del Prete. Em 9 de abril o aviador Chernu, partindo de Parnamirim, bate o “recorde” Natal – Rio de Janeiro, em 6 dias e 10 horas de voo, com escalas.

Hidroavião Consolidated Commodore da empresa New York, Rio & Buenos Aires Line (NYRBA) – Fonte – http://www.edcoatescollection.com

Em 5 de julho o hidroavião “Washington” amerrissa no Potengi, iniciando a linha Nova York – Rio- Buenos Aires, tripulação: Ralph A. O’Neill, acompanhado da esposa; M.M. Cloukey, piloto; H. Lelis, engenheiro; e miss Jane, secretária. Tinha a aeronave ainda capacidade para mais oito passageiros. No dia 6 demandou Recife. Em 7 de setembro – “A República” transcreve a reportagem traduzida do “The Sportman Pilot”, assinada por Miss Desbriere Irwin, de passagem por Natal para estudar as condições de instalação da “Pan-American Aiways”, na qual declarou: Natal é o ponto de escala das linhas comerciais e possui um clima agradável. Por sua posição geográfica foi escolhido como “Pivot” da linha aérea francesa. Tenho certeza que, futuramente, se tornará um dos grandes aeroportos internacionais do mundo “”. Em 13 de novembro O “Bahia”, pertencente á “Nyrba Line”, da rota Nova York – Rio – Buenos Aires, amerrissou no Potengi e depois decolou para Parnamirim onde aterrissou demonstrando ser um avião anfíbio já em uso. No dia 14, o “Tampa” da mesma Companhia, passou com destino ao norte. Foram demonstrações da nova técnica de fabricação da indústria aeronáutica norte-americana, caminhando para vencer a competição com os franceses e alemães. Em 20 de novembro A companhia Générale Aéropostale publica anúncio nos jornais advertindo á compra de passagens do tráfego regular entre Natal – Buenos Aires, até 11 horas das quintas-feiras.

Local da queda do avião que tinha como tripulantes o uruguaio Tydeo Larre Borges e o francês Leon Chale , na zona rural do município de Santo Antônio – Fonte – http://www.pilotoviejo.com

Em 6 de dezembro o “Aero Club” abre a matrícula para a sua escola de voo  sob a direção do Comandante Djalma Petit seu diretor técnico. Em 16 de dezembro de 1929 Cai em “Maracajá”, município de S. Antônio, distante de Nova Cruz quatro léguas, o biplano do aviadores Chelle e Larre Borges, que tentava o “raid” Sevilha-Buenos Aires. De Natal, seguiram para o local do sinistro, o Dr. Joaquim Inácio com uma ambulância e medicamentos, acompanhados pelo Sr. Ramade, Chefe do Aeroporto da CGA (Compagnie General Aeropostale), mecânico Chaulet. No avião do Aero Club, também partiram para o local do acidente, Djalma Petit e André Depecker. O aparelho ficou completamente destruído, sendo os destroços removidos para Natal, bem como o mais ferido Chelle. No dia 21 de dezembro, voltavam á pátria pelo Laté da linha regular.)

Em 10 de janeiro de 1930 o estuário do Potengi recebe o avião da “Pan -American Aiways” trazendo o sr. e sra. Georg Rihl e W. M. Cullbertson, 1.o piloto, Barnett Boyd, 2.o piloto e W. W. Ihma, radiotelegrafista, que iniciava o tráfego dessa Companhia com transportes de passageiros. Pelas 15:15, seguiu para Recife.

Jean Mermoz – Fonte – http://www.contre-info.com

Em 11 de janeiro Jean Mermoz começa a sua carreira de grande “ás” na América do Sul. Notícias de Buenos Aires afirmavam haver, no dia anterior (10), pilotando um Laté-28, n.o 926, com motor Hispano – Suíço de 500 C. V., em companhia do mecânico Colenot e como passageiro o banqueiro Macel-Bouilloux-Lafont, com a velocidade média de 228 quilômetros por hora, conseguido bater o “recorde” em 11 horas e 8 minutos do rio a Buenos Aires. Natal passava a conhecer o nome do homem famoso, que faria dela sua própria cidade.

Hidroavião de fabricação alemã, modelo Dornier Do J “Wal”, utilizado pela Condor – Fonte – mhttp://www.influindo.com.br

Em 22 de janeiro – O “Guanabara” hidroavião da “Sindicato Condor”, com sete passageiros, começou o tráfego costeiro e estabeleceu em Natal sua Agência, tendo como representantes Gurgel, Luck e companhia. Em 20 de fevereiro – Anúncio da vinda do “Conde Zeppelin” pela primeira vez no Brasil na rota Angola-Natal – Rio. Conforme notícia da imprensa, Natal tinha sido escolhida a cidade brasileira como base de suas futuras travessias. Por falta de meios do governo local para construir a torre de atracação, transferiu o local para Recife. Em 26 de fevereiro- “A República”- “Os que viajaram na Condor “. Dia 21, pelo Pirajá, de Natal para Recife: Simplício Cristino e Plínio Saraiva. De Recife para Natal: Luiz Pimentel Ribeiro e Jorge Kyrillus.

Em 16 de março (Domingo)- Pelas 15:30 o primeiro “Show aéreo” com Djalma Petit, pilotando o Natal-I, levando o acrobata Charles Cester, que passou pelas asas do aeroplano, ficou de cabeça para baixo, fez trapézio e L’enlévement du drapeau, ou seja, suspenso em trapézio, colocado abaixo das rodas do avião, de cabeça para baixo, arrancou, de passagem, uma bandeira suspensa do solo entre dois postes. Em 1.o de maio-Inaugura a Companhia Aeronáutica Brasileira a sua rota Recife – Natal, interligando-se com os aviões da Laté para transporte de malas postais á Europa.

Hidroavião Latécoère 28-3, pintado de vermelho, com o qual Mermoz e seus companheiros conseguiram atravessar o Atlântico – Fonte – http://jn.passieux.free.fr

Em 13 de maio de 1930 – Jean Mermoz faz sua primeira travessia de São Luís do Senegal para Natal pela “Cia. Générale Aéropostale” num Laté-28 com flutuadores. Tendo partido ás 8,55 (hora brasileira), chegou ás 18,20 depois de percorrer 3.100 quilômetros. A partir de então, ficou em Natal para tentar o percurso em sentido contrário, ainda não tentado por outros.

Em 20 de maio-Parte de Servilha com destino ao Brasil, o “Graf Zeppelin”. Dia 21, sobrevoava as Canárias e São Luís do Senegal. Dia 22 esperado em Natal, em vão. No dia 23, pelas 18:30, amarrava em Recife (Jiquiá). Partiria, depois, para o trajeto Recife-Nova York, sob o comando do Dr. Hugo Eckner.

Queda do avião do Aeroclube do Rio Grande do Norte que vitimou Edgar Dantas – Fonte – Coleção do autor

Em 23 de maio de 1930 – O primeiro desastre fatal na Escola de Voo do “Aero Club”. Falece no sinistro do “Natal-I”, Edgar Dantas, pertencente á tradicional família potiguar. Consternação geral na cidade.

Dirigível alemão “Graf Zeppelin” sobre a igreja Bom Jesus, no bairro da Ribeira – Fonte – http://aldeiapoti.blogspot.com.br/

Em 28 de maio de 1930 – Desamarrou de Recife com destino á Havana, pelas 11 horas, o “Graf Zeppelin”. Pelas 14 horas, sobrevoa Natal sob aclamação popular na praça “Augusto Severo”, sobre a qual deixou cair uma coroa de flores artificiais com os dizeres: “Homenagem da Alemanha ao Brasil na pessoa do seu grande filho Augusto Severo”. No momento era comboiado pelo Laté-25, n.o 616, pilotado por Velle e Dupont.

Em 8 de julho de 1930 – Pelas 16,30 após diversas tentativas na Lagoa do Bonfim (município de Nísia Floresta), próxima a Natal, decolou o grande hidroavião “Laté-28”, tripulado por Jean Mermoz, Gimié e Dabray, para a travessia Natal – São Luís do Senegal. A tentativa não foi completada, porque o avião caiu pelas 10,30 do dia 9, á altura de Dakar, no terrível “Pot-au-Noir”, em pleno mar. Sendo socorrido, voltou a Natal.

Aviadora norte-americana Laura Ingalls Houghtaling, a primeira grande aviadora a passar por Natal – Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Laura_Ingalls_(aviator)

Em 8 de abril de 1934 – Aviadora Laura Ingalls- Prosseguindo seu “raid” sensacional através do Continente, passa em Natal, aterrando em Parnamirim, a aviadora Laura Ingalls, que foi recebida pelos senhores Etienne Duthuron, gerente da Air France e R. H. Dacuart, gerente da Standard Oil, demorando-se apenas o tempo indispensável á retribuição dos cumprimentos, havendo externado seu entusiasmo pela terra brasileira: Aterrissou em Parnamirim, pela curiosidade de conhecer o campo, do qual se falava muito nas rodas aviatórias dos Estados Unidos, tendo verificado que, realmente, pelas condições naturais de que o mesmo dispõe, é dos melhores do mundo. Uma hora, após o “AWAY” (andorinha americana), levantou vôo para Fortaleza.

O jovem espanhol Juan Ignácio Pombo e seu pequeno avião British Klemm Eagle 2, batizado como “Santander” – Fonte – http://cabeceras.eldiariomontanes.es

Em 22 de maio de 1935 – Pilotando o pequeno avião de turismo “Kienim”, pelas 15:10, em Parnamirim, aterra Juan Ignácio Pombo, concluindo a travessia Balhurst-Natal, no “raid” Espanha-México. Tinha, então, 21 anos e desde os 16 foi aviador mais moço de Espanha, sendo filho de aviador civil de sua pátria. O avião possuía um motor de 130HP, media 12 metros e 7 cm de comprimento, e peso de 1.350 quilos. Partiu no dia 26, pelas 8 horas, sendo obrigado a descer em Camocim (CE), á falta de gasolina. Ao aterrissar  capotou quebrando uma hélice e o trem de aterragem. Depois dos reparos, com material enviado de Natal, prosseguiu viagem.

A bela aviadora neozelandesa Jean Batten – Fonte – http://www.ianmackersey.com

Em 13 de novembro de 1935 – AVIADORA JEAN BATTEN- Parnamirim recebe, pelas 16:40, a aviadora Jean Batten, natural de Nova Zelândia que levantara voo de Lympne, na Inglaterra, ás 6,20 do dia 11; de Dakar, ás 3 horas do dia 12 (hora G.M.T.), tendo feito a viagem com o tempo favorável, chegou, porém estafada, e logo se recolheu á residência do Sr. William Scolchbrook, em Petrópolis  de quem foi hóspede nesta capital. A destemida aviadora fez percurso sozinha, sem rádio, sem pára-quedas, nem colete salva-vidas, tampouco canoa, em um aeroplano tipo “Percival-Grull”, de fabricação inglesa, monomotor de 200 cavalos, com condições para vôos a longa distância. No dia seguinte, partiu para o Rio de Janeiro.

Em 13 de novembro – Ainda nesse dia, o “Graf Zepelim”, procedente de Balhurst, pelas 19:20, sobrevoa a praia da Limpa em Natal, deixando cair às malas postais procedentes da Europa. Um hidroavião da Sindicato Condor tomando-as, rapidamente decolou para o sul levando as mesmas para distribuição. Esse método passou a ser adotado, todas as vezes que o grande dirigível veio ao Brasil, inclusive quando foi substituído pelo “Hindemburg”.

Um grande avião do seu tempo, o francês Latécoère 521, batizado “Lieutenant de Vaisseau Paris” – Fonte – http://jn.passieux.free.fr

Em 14 de dezembro de 1935 – “LIEUTENANT DE VAISSEAU PARIS”. Voou sobre Natal, indo aquatizar na hidrobase da” Air France “em frente ao Réfoles, o gigantesco hidroavião “Lieutenant de Vasseau Paris”, o mais potente aparelho desse tipo até hoje construído no mundo. A poderosa aeronave de seis (6) motores de 900 cavalos de força, o que lhe dá maior capacidade que o “DOX”, o qual apenas o supera em proporções e peso, tendo aquela a tonelagem de 40.000 quilos. A sua tripulação era composta de oficiais da Marinha e do Exército da França, devendo ir de Natal direto á Ilha de Martinica, possessão francesa nas Antilhas, onde assistiria ás festas patrióticas que ali seriam realizadas. Comandante, Capitão-tenente Bonnot; capitão-de-corveta Jozan,1.o piloto;1.o brigadeiro Castellari, 2.o piloto; 1.o brigadeiro Morvan, mecânico; Emont, radiotelegrafista, e mecânicos civis, Dessendi e Durutty.

Em 9 de janeiro de 1936 – A “Air France”, sucessora da Laté, faz realizar importante melhoramento no seu serviço aéreo, no Brasil. A Companhia que possui a mais extensa rede do mundo, ligando os quatros Continentes, estabeleceu no seu serviço de ligação entre Natal e Dakar, e vise e versa, cada semana, além dos hidroaviões transatlânticos “Santos Dumunt”, “Croix du Sud” e o quadrimotor “Centaure”, acaba de incorporar á sua frota o “Ville de Rio de Janeiro”, “Ville de Buenos Aires” e “ville de Santiago”.Todos esses aparelhos são munidos de quatro motores e já deram prova de sua eficiência com a perfeita regularidade com que asseguram seu serviço bimensal inteiramente aéreo durante o ano de 1935. A partir de então, os pequenos navios “Avisos Postais”, que faziam a travessia Natal-Dakar, começam a desaparecer do nosso porto. Não tinham mais utilidade. Como herança funesta, tinham deixado o “anofelis-gambiae”, ainda sendo combatido em nossos sertões.

Em 15 de janeiro – Naufragou no ancoradouro de Pensacola, Estados Unidos, o hidroavião “Lieutenant de Vaisseau Paris”, não havendo perda de vidas. No dia 16, estava sendo içado.

O aviador cubano Antonio Menéndez Peláez – Fonte – http://asociacioneltrichorio.blogspot.com.br

Em 17 de janeiro de 1936 – “Raid” Cuba – Servilha- Em Natal, o aviador Menendez Pelaéz. Tendo partido de Cuba e, após fazer escalas em Trinidad, nas Guianas, em Belém, São Luís e Fortaleza, chegou a esta capital o avião “4 de setembro”, pertencente á Marinha de Guerra Cubana, e pilotado pelo Capitão Antônio Mendez. O aviador cubano destinava-se a Sevilha, na Espanha. A partida realizou-se três dias depois, quando foram concluídos os trabalhos de revisão dos motores de 550 HP WASP. Foi abastecido com 2.000 litros de gasolina.

O grande dirigivel “Hindenburg”, que sobrevoou Natal – Fonte – http://lingeriehistorica.blogspot.com.br

Em 20 de julho -Procedente de Dakar, chegou pelas 23,35 horas o hidroavião transatlântico “Ville de Santiago”, sob o comando do piloto Guerrero. Com essa viagem completou a “Air France” a centésima travessia direta do Atlântico Sul. Em 29 de agosto – Pela primeira vez, passa em Natal, pelas 19:12, o grande dirigível alemão Hindemburg, sob o comando do Capitão Pruss, em sua Sexta viagem ao Brasil. Após evoluir sobre o aeroporto da Condor (Praia da Limpa), deixou cair às malas postais e seguiu para o Rio de Janeiro. Trazidas as malas do correio para o hangar da Condor, estas foram transportadas para o “Anhangá”, que levantou voo com destino ao sul. Enquanto esteve em atividade, esse dirigível, todas as vezes que veio ao nosso país, passou sempre por Natal, para essa finalidade.

Aviadora inglesa Amy Mollinson – Fonte – http://www.dieselpunks.org

Em 20 de outubro- AVIADOR AMY MOLLISON- Notícias de Paris dizem que, ao levantar voo o avião da famosa aviadora Amy Mollison, caiu ao solo deixando-a gravemente ferida. Restabelecida, Amy Mollison, em data posterior, esteve em Natal, depois da travessia do Atlântico Sul.

Em 10 de dezembro – A Condor-Lufhansa comemorava a 200 travessia aérea do Atlântico Sul, no serviço de transporte do correio internacional. Entretanto, é preciso fazer-se ressalva de que iniciara com escalas, fazendo baldeação das malas postais em plano Atlântico, com os seus navios catapultas.

Hidroavião Latécoère 300, batizado como “Croix du Sud” – Fonte – http://www.lesmanantsduroi.com

Em 11 de dezembro de 1936 – O DESAPARECIMENTO DE MERMOZ – Os jornais de Natal, abriram manchetes para anunciar. “Vem sendo infrutíferas todas as pesquisas no Atlântico, através da rota seguida pelo hidroavião da Air France, a fim de se encontrar Mermoz e seu “Croix du Sud”. As últimas esperanças se vão desvanecendo e no espírito de todos os que admiravam em Mermoz o esplendor de uma bela e gloriosa mocidade, já se firmou a implacável certeza do seu desaparecimento. Assim, aprofunda-se no sorvedouro ignorado um dos heróis mais queridos da aviação francesa. Jean Mermoz, 35 anos, brevetado em plena adolescência e possuidor de um grande e brilhante tirocínio….” “Esse homem que a França hoje lamenta, o Brasil também se solidariza, particularmente, nesta dor, pois centenas de vezes os céus foram cruzados por ele, nos seus vôos de incansável bandeirante do espaço. Natal bem conhecia Mermoz, pois aqui era um dos seus ninhos preferidos. Teve ele um fim digno de sua vida. Morreu como um grande pássaro, acompanhado o colapso do aparelho que dominava e dirigia. Morte de Condor, precipitado do azul, Banhado na ofuscante luz oceânica e aos estertores de uma tragédia para sempre ignorada.

Jena Mermoz desapareceu no “Pot-au-Noir”, quando, mais uma vez, retornava da África para Natal. Pelas 10,40 em rápida mensagem, disse que o motor da direita estava falhando. Depois, silêncio.

Antoine de Saint-Exupéry em Toulouse, França, 1933 – Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Antoine_de_Saint-Exup%C3%A9ry

Antoine de Saint ‘Exupéry, seu antigo aluno e companheiro, pelo que lhe contou Mermoz na primeira vez que atravessou, descreve o “Pot-au-Noir”: “Trombas marinhas elevavam-se ali, acumuladas, imóveis, na aparência da escura e baixa da tempestade; mas através dos rasgões da abóbada, feixes de luz caminham e a lua cheia brilhava, entre os pilares, nas lajes frias do mar. E Mermoz seguiu sua rota através daquelas ruínas desabitadas, obliquamente, pelos canais de luz, contornando os pilares gigantes onde bramia a ascensão do marchando quatro horas, ao longo da esteira da lua, para a saída do tempo. E o espetáculo era tão esmagador que Mermoz, uma vez transposto o “Pot-au-Noir”, percebeu que não tivera medo”. Agora, Mermoz que havia decifrado as areias, as montanhas, à noite e o mar; que havia soçobrado mais de uma vez nas areias, nas montanhas, na noite, no mar, voltando sempre para partir outra vez, traído pelo encantamento do “pot-au-Noir, enfrentando a morte como enfrentou a vida, com arrojos, caiu, e, pela primeira vez não voltou mais. Ficou no seio das ondas do Atlântico, velho palco de suas epopeias.

A aviadora francesa Maryse Bastié- Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Maryse_Basti%C3%A9

Em 30 de dezembro de 1936 – A AVIADORA MARYSE BASTIÉ – A aviadora francesa sem abater-se a tragédia de Mermoz e seus companheiros, concluiu o “raid” Paris-Dakar-Natal, em apenas 12 horas e 7 minutos, tripulando, solitária, um “Caudron-Simon”, do Ministério do Ar da França, sob prefixo “Fenxo”, sem rádio, com um só motor de 220 C.V. – A partida de Mlle. Bastié de Dakar verificou-se ás 4,23 (hora brasileira), tendo chegado ao campo de Parnamirim, ás 16,30. Era a Segunda vez que Natal hospedava a destemida aviadora francesa, detentora de vários “recordes” femininos entre os quais avultam o de permanência no ar, com a duração de 30 horas, e o assinalado nesta travessia atlântica.

Amélia Earhart em 1936- Fonte – http://www.archives.gov

Em 7 de junho de 1937 – Procedente de Fortaleza, chegou a Natal, pilotando o seu monoplano “Lockhead-Electra”, miss Amélia Earhart que realizava um voo em redor do mundo. Pouco antes das 9 horas, a arrojada aviadora norte-americana descia no campo de Parnamirim, sendo ali cumprimentada pelas autoridades e jornalistas. Em seguida viajou de automóvel para esta capital, onde permaneceu durante o resto do dia, recebendo as homenagens da colônia britânica.

“Ontem, pela madrugada, ás 3,13 minutos (hora local), miss Amélia Earhart reiniciou o seu voo  para cobrir uma das maiores etapas dessa audaciosa tentativa, a travessia do Atlântico Sul. Segundo informações telegráficas, a destemida aviadora havia alcançado Dakar, ontem mesmo, ás 16,15 (hora local), estabelecendo, assim, na travessia o tempo de 13 horas e 2 minutos. Acompanhava miss Earhart o seu piloto ajudante, capitão Fred Noonan”, informava “A República , de 8 junho de 1937. O monoplano de Amélia Earhart tinha capacidade para 4.800 litros de gasolina, dos quais 1.600 nos tanques das asas e 3.200 nos da fuselagem, podendo alcançar cerca de 9.000 metros de altitude.

Amélia no cockpit do bimotor Lockheed Model 10 Electra – Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Amelia_Earhart

Amélia Earhart, nascida em Atchison-Kansas, em 24 de julho de 1898, morreu no mês seguinte (julho) ao desse “raid”, desse ano, sobre o pacífico, em condições misteriosas, dizem a serviço da espionagem americana, sobre ilhas próximas ao Japão. Professora em Massachusetts abandonou o magistério, em 1927, sendo a primeira mulher a participar de um voo solitário sobre o atlântico, em 1932. Repetiu a façanha sobre o pacífico, 1935, voando do Havaí á Califórnia. Escreveu as obras “20 Hs. e 40 minutos” 1928, “Último Voo , publicado posteriormente por seu marido George Palmer Putman.

A partir de 1938, em face do constante aperfeiçoamento das estruturas e potência dos aviões, bem como dos novos meios de comunicações, a travessia direta do Atlântico Sul, em ambos os sentidos deixou de constituir atrativo para constantes aventuras. A rotina tornou-se evidente ante o desbravamento da rota suicida até então, pois a região “Pot-au-Noir” já não constituía um risco ante aviões tipos usados por Marise Bastié e Amélia Earhart, que podiam alcançar até 9.000 metros de altura, transpondo-se sem dificuldades. Por outro lado, o “Rádio Farol de Natal”, instalado desde 1936, na Praia da Limpa, frente ao Atlântico, emitindo de meia em meia hora, em ondas médias, o seu prefixo P.X.N., permitiu orientação segura por intermédio do “radiogoniômetro” do momento em que a aeronave ou navio partisse do litoral africano.

Grande base aérea de Parnamirim Field – Fonte – http://moraisvinna.blogspot.com.br

Todavia, Natal não perdeu a sua importância estratégica como cabeça de linha transatlântica para a América do Sul, uma das esquinas do mundo. Confirmaria, mais uma vez, o seu determinismo geográfico necessário á segurança das Américas, logo mais por ocasião da Segunda Grande Guerra, quando, no dizer de Paul Vachet – “ia transformar-se numa das maiores importantes bases aéreas do mundo, de onde se lançaram, aos milhares para África, Europa e Oriente, os bombardeios americanos e aliados”, e Parnamirim passou a ser conhecido como o “Trampolim da Vitória”. Por tudo isto, Natal foi e continua sendo: “Ninho de Ases de todas as Bandeiras”.

Este texto foi transcrito do livro de Tarcísio Medeiros, “Aspectos Geopolíticos e Antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, capítulo 17, páginas 160 a 186, lançado em Natal no ano de 1973, pela Imprensa Universitária.

BRAZIL IN WORLD WAR TWO – THE CAMPAIGN IN ITALY

The Brazilian Expeditionary Force (Portuguese: Força Expedicionária Brasileira, or FEB) was the 25,300-man force formed by the Brazilian Navy, Army and Air Force that fought alongside the Allied forces in the Italian Campaign of World War II.

The Brazilian 1st Division of the FEB was under the command of 15th Army Group of Field Marshal Harold Alexander (later General Mark Clark), via the U.S. Fifth Army of Lieutenant General Mark Clark (later Lieutenant General Lucian Truscott) and the US IV Corps of Major General Willis D. Crittenberger.

The Brazilian Air Force component was under the command of XXII Tactical Air Command, which was itself under the Mediterranean Allied Tactical Air Force.

REASON WHY BRAZIL ENTERED IN WW2

One could argue which was the main reason why Brazil entered the Second World War. In the early 40’s, as a result of the diplomatic actions for the “good vicinity” politics, led by Pres. Roosevelt, fascist – oriented Brazilian strong man, Getúlio Vargas, had to realign his political cores with big brother United States, fighting for Democracy and the Free World.

Getúlio Vargas

Brazil was a very important strategic point for the Allies in the more intense scale of war in Europe and North Africa. Right after Pearl Harbor in 41, Brazil cut relations with Axis countries. Sooner, United States was engaged in the war in Europe and North Africa. All this settled, in a short time there were several air bases in Brazilian land to help the American planes, ships, men and material reach North Africa, in what was called “The Springboard for Victory “. It is said that the American Air base in the city of Recife was one of the busiest in the world at that time.

Natal AFB in World War Two

This base along with another in the city of Natal, helped men, equipment and provisions reach North Africa, since these bases were in the Northeast seashore of Brazil. At the same time, American Army instructors started to train Brazilian troops and supply equipment to Brazilian Army, Navy and Air Force, in the hay days of 1942. With all this privileges to Roosevelt and the war effort of the Allies, the German U Boats that once were routing through the South Atlantic, using bases in Argentina and Chile, started to sink as many merchant ships as they could, being many of this ships with Brazilian flag, in territorial waters. This ragged the public opinion in Brazil so as to force a declaration of war against the Axis on August 42.

Symbol of FEB

When Brazil – the only country in South America who fought along the Allies – entered WWII, no significant victories of the Allies had occurred at that early stage of the war in the fields of Europe or the Pacific. Soon came the mobilization of men to form the Brazilian Expeditionary Force ­ FEB, in a giant effort to upgrade a backdated army in its doctrine and equipment. It took two years to get these men ready to join the war effort against the Axis forces.

Later in 1944, the Brazilian Forces joined the Allies in Europe to help the actions in Italy, after a gross part of the more experienced troops left for Anzio, South of France and even Normandy. With very few time for proper training, the Brazilian troops compensated with great character and capacity of adaptation to war conditions in a very tough terrain and climate, being well honored by all the staff of the Allied High Command during their participation in the Italian Campaign. Many Brazilian soldiers were condecorated with the highest medals of the American Forces. This has been the finest hour for the Brazilian Expeditionary Force ­ FEB.

THE CAMPAIGN

In the first days of July, 1944, the first Echelon of the Brazilian Expeditionary Force ­ FEB – left to Europe, aboard the American ship General Mann, in a total of 5.081 men. Originally, the ship should be going to Argel, where the troops would get preliminary training before landing in Italian soil. However, the convoy headed straight to Naples, where the troops disembarked and waited to join US Task Force 45. Later, on the 22nd July, two more ships, Gen Mann and Gen Meigs, left to Europe, with the Second and Third Echelons, with 10.369 men total. The last two Echelons, Fourth, with more 4.722 men and Fifth,with 5.128 men, left Brazil on the last days of November and first days of February ’45, totaling 25.300 men.

Brazilian soldiers in Italian front

The first moments of the Brazilian troops in Italy were dedicated to acquiring and training with new equipment, since the uniform and gear of the Brazilian Army would not fit the different climate and tough exigencies of a modern war (yes, it was obsolete). So that, all the gear used by the Brazilian Army was the average US G.I. equipment. The troops were moved to Tarquinia, 350 Km North of Naples, where the US 5th Army, commanded by the famous Gen Mark Clark, was based. The Brazilian troops were incorporated to the 4th Army Core, commanded by Gen Crittenberger. On the 19th August, Churchill himself visited the 5th Army in Cecina, where he was told that Brazilian troops were part of the Guard of Honor. He directed some of his speech to the Brazilian troops that now joined the war effort in Italy.

The right is General Mark Clark, commander of the 5th Army and a Brazilian military

The Brazilian troops were filling the gap left by several divisions of the 5th US Army and French Expeditionary Force that went to the invasion in the South of France. This straight action with the fresh Brazilian troops was a necessity, due to the great operation at Anzio, to where so many American and British troops were issued. The overall command of Brazilian troops was made from the High Command of the 15th Allied Army Group, headed by Gen Mark Clark and Gen Crittenberger (5th Army and 4th Army Core, USA), Field marshal Alexander (8th Royal Army, England) together with the high staff of the Brazilian Army, Gen Euríco Dutra, Gen Mascarenhas de Moraes, Gen Zenóbio da Costa and Gen Cordeiro de Farias (commanders of several Infantry and Artillery Divisions among the whole of the Brazilian Expeditionary Force).

On the 16th November, FEB occupied Massarosa. Two days later, Camaiore and other small towns and cities on the way North. During this period, the Brazilians G.I.s, or “pracinhas”, created the FEB symbol, consisting of a badge with a snake over National colors (Green and Yellow), with a smoking pipe in mouth. This was a big irony to answer a group of the society opposing Brazil entering the conflict, who used to say that it was easier to see a snake smoking than to see Brazilian troops sent to fight the war…

In October, FEB conquered Monte Prano, controlled the Sercchio river valley and Castelnuovo, with first significant losses. Later that month, troops were directed to the Reno valley. This region, at the feet of the Appenines, was the place where FEB would spend the next three months, facing rigorous winter and the fierce resistance of the German forces up on the mountains and hills, the so called Bernhard and Gustav Lines, strong defenses made by the Axis to delay the advance of troops.

Monte Castelo

It was there where one of the great achievements of the Brazilian troops took place: Monte Castelo. In the end of November, several attempts were made to kick the Germans out of this hill, from where they could spot all movements of Allied troops.

The freshly created and debuting in the front 10th US Mountain Division, joined FEB in an 18Km front, having the task of clearing Monte Belvedere from the Germans atop of it. The days went by with head-on clashes with the well nested Germans, clearing off mine fields, “booby traps”, ambushes, machine gun nests, all this under a heavy barrage of grenades and mortar fire. It was not until the 21st of February, 1945, that finally the Germans were battered off Monte Castelo. The Brazilian troops paid a heavy toll for this victory, but still there was more to come.

Montese – A page of bravery and courage of the brazilian soldiers

On 5th of March, FEB entered Castelnuovo. During this period, the Offensive for Spring was being prepared by the High Staff of Gen. Crittenberger and the Brazilian High Command. This was a large scale operation (which would endure till the last days of the War), ranging from the Adriatic to the Tirrene, using every single Division of every Army taking part in the campaign. The actions would start with a frontal attack on the enemy lines, and the city of Montese was the target to the Brazilian troops, so as to remove what was left of the German artillery, still causing great damage to the Allies. The city was taken, but late at night, the Germans counter attacked and it took a high number of casualties to finish off with the fight, again, a tough and bloody page in the actions of FEB during the Italian Campaign.

German militaries of 148th Infantry Division of surrender to Brazilians soldiers on April 28, 1945 near the city of Fornovo. By that time it was commanded by General Otto Fretter-Pico and had some 9,000 soldiers. Despite the still strong manpower, and the fact that it had more than 100 mortars and cannons , the division was by this time very low on ammunition and supplies.

At this point, the Germans were trying to regroup after escaping through road 64, the only path down the Appenines. The progress of the troops was fast and in a few days, the city of Parma was taken. Later on, FEB entered Bologne without any resistance. In the end of April, the actions of pursuing the enemy became the main occupation of the Allied Forces. So it was that FEB entered Collechio, still under German artillery. After surrendering a large number of Germans, the Brazilian Forces were preparing to face fierce resistance at the river Taro, from what was left of the retreating German Forces , this time through route 62. The German troops were surrounded near Fornovo and forced to surrender. So that, the entire 148th Wehrmarcht Infantry Division, consisting altogether of more than 16 thousand(!) men, including the 80th Panzer division, several Italian divisions and more than a thousand vehicles(!), surrendered to the Brazilian Forces on 28th April.

The Brazilian cemetery in the Italian city of Pistoia

On 2nd May, Brazilian Forces entered the city of Turin, in the Northeast of Italy, meeting French Mountain troops in the frontier, while in the North, FEB was on the heels of German Forces still on the run. At this date, the astounding news that Hitler was dead put an end to the fights in Italy. All German troops finally surrendered to the Allies in the following hours.

WAR IS OVER!

During eight months of the Italian Campaign, the Brazilian Forces managed to make 20.573 Axis prisoners, being two generals, 892 officials and 19.679 privates. FEB had 443 KIA, being 13 officials. Summing up with the lives of civilians and military that were in the ships of the Brazilian Merchant Navy – sunk in the South Pacific in Brazilian waters by U boats, more losses in the Brazilian Navy and Air Force, the Second World War stole the lives of nearly 2.000 Brazilians.

The victory parade in Rio de Janeiro

The 443 soldiers buried in the FEB cemetery in Pistoia were later removed to the WW II mausoleum and monument built in Rio de Janeiro, in the beginning of the 60’s, where stands the eternal flame lit in the tomb of the Unknown Soldier.

THE BRAZILIAN AIR FORCE – FAB

The FAB had a group of pilots and land personel trainned in the United States, the 1º GAvCA (1st Fighter Group), sent to Italy and alocated in the 350th U.S. Army Air Force Fighter Group.

Aircrafts Republic P-47 Thunderbolt, belonging to the Brazilian Air Force who fought in the skies over Italy

The Brazilian pilots actually formed one of the 20 squadrons of the XXII Air Tactic Command, flying the updated P-47D. Their role was very important to the actions of all Allied forces in Italy and the Brazilian pilots were also very praised for their important air-to-ground operations. Many pilots were victims of heavy flack, some were downed , captured by Germans and taken to prisioner camps in Germany…

Through the Internet address – http://www.usmilitariaforum.com/forums/index.php?/topic/1049-brazil-in-ww2/page__hl__natal

O ÚLTIMO MILITAR AMERICANO EM NATAL

SARGENTO THOMAS N. BROWNING, O ÚNICO MILITAR AMERICANO ENTERRADO NO CEMITÉRIO DO ALECRIM 

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Sempre que vou ao Cemitério do Alecrim para visitar os túmulos de alguns parentes e, depois de uma certa idade, de alguns amigos, não deixo de dar uma passadinha para observar a única lápide de um militar norte americano que aqui esteve durante a Segunda Guerra Mundial e que permanece repousando em solo potiguar.

Vamos conhecer um pouco mais desta história.

Sem Deixar seus Mortos para Trás

Até o final da Segunda Guerra Mundial centenas de cemitérios temporários haviam sido criados pelas forças armadas dos Estados Unidos em campos de batalha e locais de apoio ao redor do mundo.

Um dos inúmeros cemitérios criados pelos americanos ao longo da guerra

Com o fim da guerra foi organizada uma grande operação para trazer aos Estados Unidos 233.181 americanos mortos, tudo sob a coordenação da American Battle Monuments Commission (ABMC), uma agência do governo americano criada em 1923 e destinada exclusivamente a tratar do repouso eterno dos guerreiros estadunidenses.

Grande parte dos cemitérios temporários foi desativada durante a operação de traslado dos corpos para os Estados Unidos, que se estendeu de 1945 a 1951. Às famílias que perderam filhos, irmãos e maridos no conflito foram respeitosamente ouvidos para instruir a ABMC onde queriam que os restos mortais de seus entes queridos ficassem enterrados. Muitas famílias acreditavam que seria mais apropriado para seus parentes descansarem junto aos seus companheiros de combate, perto dos campos de batalha onde eles haviam lutado e morrido. Assim 93.242 militares ficaram enterrados em alguns dos 24 cemitérios que os militares americanos decidiram manter permanentemente no exterior e que são até hoje mantidos pela ABMC.

Como foi encontrada a lápide do sargento Browning no cemitério do Alecrim

Essa situação também aconteceu em Natal, que chegou a ter um destes cemitérios temporários.

 “Operação Papa-defunto”

 A capital potiguar foi um grande ponto de apoio para milhares de militares norte-americanos que utilizavam o famoso “Trampolim para a vitória”, para seguir além do Oceano Atlântico, ou para voltar para seu lar.

Encontro dos presidentes Roosevelt e Vargas em Natal em 28 de janeiro de 1943

Devido à vinda de combatentes feridos de outras frentes de batalha e que expiravam em Natal, ou por ferimentos causados em combates contra submarinos inimigos em nossas costas, a queda de aeronaves, doenças e as mais diversas causas, estiveram enterrados no cemitério do Alecrim durante o período da guerra 146 militares estrangeiros.

Segundo consta no livro “História da Base Aérea de Natal”, de Fernando Hippólyto da Costa (Págs. 157 a 160), quase dois anos após o fim do conflito, no dia 10 de abril de 1947, um navio da marinha americana aportou em Natal, com uma equipe de especialistas destinados a trabalharem na remoção dos americanos aqui sepultados.

Não era raro na época da guerra em Natal a chegada de militares feridos em aviões especialmente adaptados para o transporte de enfermos, como o mostrado na foto. Muitos não resistiam a gravidade de seus ferimentos e foram enterrados no Cemitério do Alecrim

Segundo o autor, militar aposentado da Força Aérea Brasileira-FAB, esta operação contou com o apoio de aviões da FAB, que trouxeram de outras localidades brasileiras os corpos dos americanos ali enterrados. Para se ter uma ideia desta operação, o autor de  “História da Base Aérea de Natal” informa que foram trazidos corpos de americanos que estavam sepultados até na cidade pernambucana de Petrolina.

O embarque no porto de Natal dos corpos dos militares americanos em 1947

A movimentação chamou a atenção da população natalense, que passou a denominar jocosamente o trabalho como “Operação Papa-defunto”.

Mas um dos corpos não retornou para os Estados Unidos.

Versões Sobre o Sargento Browning

Já faz um tempo que não visito o local de descanso eterno deste militar americano. Mas em uma ocasião, acompanhado de outros amigos, conseguimos autorização da administração do Cemitério do Alecrim para que fosse retirado um pouco da terra que cobre o túmulo, deixando a mostra os textos gravados na lápide, que é idêntica às milhares existentes nos vários campos santos militares americanos.

Outra visão da lápide do sgt. Browning

A pedra tumular, já bem desgastada, é levemente arredondada na parte superior e nela encontramos uma cruz latina para os cristãos. Conforme se vê na inscrição inserida no mármore branco, ali repousa o sargento Thomas N. Browning, oriundo do estado de Ohio. Quando da sua morte ele era um jovem de apenas 22 anos, nascido em 25 de junho de 1922, um domingo e falecido coincidentemente em outro domingo, 18 de julho de 1943.

Através de sua pedra tumular, que o sargento mesmo estava em Natal lotado junto ao 22 AAF Weather Sq., também conhecido como 22 Expeditionary Weather Squadron. Esta era uma unidade de meteorologia e em Natal esta unidade especializada estava subordinada diretamente ao Air Transport Command – ATC, o setor da Força Aérea dos Estados Unidos destinado a transportar por aviões tudo que fosse necessário para abastecer as tropas americanas em combate em todo o planeta.

Existe uma ideia, tratada como algo muito positivo em Natal, que o sargento Browning tinha em nossa cidade uma desconhecida noiva e que estava para casar. Entretanto com a sua morte, a pedido de sua pretensa noiva e com a anuência de sua família em Ohio, ele ficou repousando eternamente no nosso mais antigo e tradicional campo santo de Natal.

O autor de “História da Base Aérea de Natal” comenta que procurou informações sobre esta pretensa noiva do americano junto à administração do Cemitério do Alecrim e a Igreja Batista de Natal, uma das mais antigas e respeitadas igrejas evangélicas em solo potiguar.

Teria o sargento Browning uma namorada natalense? Apesar da rigidez moral existente na ápoca, o contato das brasileiras com os militares estrangeiros era comum nas cidades que receberam tropas americanas

Segundo pude apurar, sem confirmação documental, a morte do sargento Browning teria sido provocada por uma doença e isso acabou criando versões sobre o falecimento do militar.

Para alguns teria sido alguma moléstia sexual, contraída em um dos vários cabarés que atendiam os americanos em Natal e região.

Já escutei uma certa pessoa me comentar que a família do jovem sargento era evangélica, de um segmento muito tradicionalista em relação as questões sexuais. Devido a sua morte ter ocorrido pela situação anteriormente comentada, a sua família teria ficado extremamente envergonhada e decidiram deixar o corpo do seu ente querido para trás. Tentavam evitar a vergonha perante os membros de sua comunidade religiosa.

Bem, pessoalmente eu nunca li os prontuários sobre a causa das mortes dos militares americanos enterrados no Cemitério do Alecrim e assim fico sem saber a causa mortis do sargento Browning. Mas acredito que esta versão é pura bobagem.

Uma Reportagem Reveladora

Através dos escritos deixados pelo respeitado jornalista e advogado macaibense, Edilson Cid Varela, que na época da guerra era correspondente da Agência Meridional de notícias em Natal, pudemos conhecer mais sobre o sargento Browning.

Jornal carioca Diário da Noite, com a reportagem de Edilson Varela

Em uma extensa reportagem publicada no jornal “Diário de Natal” e reproduzida no periódico carioca “Diário da Noite”, edição de quarta-feira, 31 de maio de 1945, entre outros assuntos, Edilson comenta que conheceu o sargento em 1943 e o chamava de Tom Browning. Informa que o mesmo chegou a Natal depois de passar dois meses em uma base aérea na Bahia.

O sargento era natural da cidade de Cincinnati e era tido como uma pessoa calma e tranquila. Da sua terra natal lembrava principalmente de uma irmã mais nova.

Solenidade em honra aos militares estrangeiros enterrados em Natal eram bem comuns, como mostrada nesta nota do Diário de natal, de 1944

Segundo o jornalista, Browning adorava o Brasil. Desejava permanecer no país após o fim da guerra. Para o jornalista o jovem americano tinha uma “alma de praia”, onde verdadeiramente adorava as calientes águas do litoral potiguar. Talvez o fato de vir de um estado localizado no centro oeste dos Estados Unidos, formado em sua maior parte por planícies e cuja praia mais próxima eram as geladas águas do Lago Erie, tenham criado este desejo no militar americano.

O estrangeiro estava extremamente empenhado em aprender português e era o próprio Edilson Varela quem lhe ministrava estas aulas. Browning fazia questão de aprender nosso idioma, mesmo depois de doze horas de trabalho em Parnamirim Field. Talvez estas aulas servissem para ele se comunicar com alguém da nossa região com maior facilidade e intimidade.

Outra parte da reportagem

Mas o interessante é que em nenhum momento na reportagem de Edilson Varela, existe algum comentário sobre uma pretensa noiva natalense do sargento Browning.

Um dia o militar americano deixou com o jornalista macaibense um livro que em português, que mandou vir do Rio de Janeiro para ajudar em suas aulas. Daí seguiu para seu turno de serviço em Parnamirim Fiel e simplesmente desapareceu.

Edilson conta que seis dias depois foi à base e passou a procurar o amigo nas mais de “900 alojamentos para oficiais e soldados” que existiam na área militar em 1943. Quando finalmente localizou o alojamento do sargento, houve o seguinte diálogo com um militar ali presente.

– Tom Browning está?

E lhe responderam:

– Esteve até ontem. Morreu.

Sem dar maiores detalhes sobre a causa da morte do americano que gostava de nossas praias.

A Amizade do Sargento e do seu Professor de Português

Quando o autor deste texto era mais jovem, morei muitos anos na Rua Hemetério Fernandes, no bairro do Tirol. Próximo a nossa casa, na Rua coronel Pedro Tavares, morava o professor Protásio Pinheiro de Melo, que jamais fez cara feia com as muitas perguntas de um garoto curioso sobre a época da Segunda Guerra em Natal.

O professor Protásio Melo junto a placa do SCBEU – Sociedade Cultural Brasil-Estados unidos – Fonte – http://juarez-chagas.blogspot.com.br

O professor Protásio era natalense, nascido em 3 de julho de 1914 e formado em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito de Recife. Chegou a ser Promotor Adjunto da comarca de Natal, mas abandonou a carreira jurídica para se dedicar ao ensino do idioma bretão. Com a eclosão da Segunda Guerra e a chegada das tropas americanas em Natal, se tornou o professor de português dos oficiais e praças estrangeiros.

O professor Protásio, falecido em 2006, foi autor do livro “Contribuição norte-americana a vida natalense” e também tratou da questão da morte do sargento Browning (Págs. 72 e 73).

Muitos militares americanos foram alunos do professor Protásio

Afirmou que a partida por via marítima dos corpos dos militares americanos enterrados em Natal ocorreu no dia 25 de abril de 1947 e tal como o jornalista Edilson, também deu aulas de português ao sargento Browning.

O professor Protásio comentou em seu trabalho literário que o túmulo de Browning foi construído no cemitério do Alecrim por seu intermédio, a pedido da família do falecido. Logo após a construção do túmulo, por solicitação do pai do sargento, o Comando da Base de Parnamirim publicou a seguinte nota:

“In memory of Sgt. Thomas N. Browning, Air Corps, born in Cincinnati, Ohio, June 15, 1921. Died July 18, 1943, in the service of his own country, in the services of Brazil and the Brazilian People, and the service of all who love liberty an freedom throughout the world. The memorial war erected by his own family and his friends in Natal.”

Igualmente como na reportagem publicada por Edilson Varela em 1945, em nenhum momento o professor Protásio em seu livro comenta sobre alguma noiva natalense do sargento americano, ou sobre a razão de sua morte.

É possível que o americano tivesse uma noiva brasileira, que pediu a família do seu amado para este ficar enterrado no solo potiguar? Quem sabe?

Fort Snelling National Cemetery, em Minnesota, Estados Unidos

Provavelmente através do contato junto a outros militares americanos, ou seja pela amizade angariada junto ao sargento Browning, o professor Protásio levou adiante a última homenagem a este militar. Com a total anuência da família do americano.

Mesmo sem o sargento Browning ter morrido em combate, derramando seu sangue em solo estrangeiro e tombando junto a seus companheiros de farda, algo fez com que a sua família da distante Ohio decidisse deixar seu parente em nossas terras.

Entre outras possíveis razões, em minha opinião, esta questão aponta para uma das melhores características existentes no povo da minha terra; a sua enorme facilidade de acolher e fazer amizades com aqueles que vêm de fora.

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RECIFE DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Hangar de manutenção em Recife. Salvo engano o monomotor da foto é um Grumman F6F Hellcat, caça típico dos porta-aviões americanos que patrulhavam o Atlântico Sul na caça de submarinos do eixo.

TEXTO – FRANCISCO MIRANDA – BLOG DO FRANCISCO MIRANDA
-http://chicomiranda.wordpress.com/2011/07/25/recife-e-a-segunda-guerra-mundial/

Em 1939 Recife sediava o III Congresso Eucarístico Nacional, que seria inaugurado no local o Parque 13 de maio. Neste local foram levantadas apressadamente arquibancadas e todo local foi preparado para o evento. Peregrinos de todo o país e do mundo chegavam para um dos maiores eventos religiosos da Igreja Católica do mundo.

Os rumores de guerra já batiam às portas da cidade e isso ficou mais evidente quando a embarcação britânica Amanzora, que trouxe à cidade os participantes do congresso, foi chamada as pressas para retornar à Inglaterra. E de fato, durante a própria abertura do congresso os alto-falantes comunicavam aos pernambucanos e a todos os peregrinos, a invasão da Polônia pela Alemanha.  Recife ainda não sabia, mas ela seria uma das cidades mais impactadas com o alvorecer dessa nova ordem mundial.

Recife, a Veneza Brasileira.

Ainda em 1941, os EUA iniciou a política de envio de observadores navais para vários portos brasileiros. O primeiro a chegar foi o capitão aposentado da US Navy W.A. Hodgman. Ele chegou ao Recife em 26 de fevereiro, sob as ordens do Escritório de Inteligência Naval. O observador foi instalado inicialmente em um escritório no consulado americano e posteriormente no terceiro andar do prédio do Banco de Londres, na Rua do Bom Jesus, próximo ao Porto do Recife, com isso ele poderia acompanhar as atividades portuárias.

Quadrimotor de patrulha naval e caça de submarinos Consolidated PB4Y-1 Liberator, variante naval do famoso bombardeiro B-24. Foto realizada em Ibura Field, outubro de 1943.

Recife era a terceira cidade do Brasil, com uma população estimada à época de 400 mil pessoas.  O porto, apesar do quebra-mar, era pequeno e estreito e necessitava de atracadores e rebocadores para atracar e desatracar. Armazéns estavam disponíveis com todo o tipo de loja. Instalações de abastecimento eram excelentes.

Hidroavião Catalina em Ibura Field

Com a declaração de guerra contra as potências do Eixo, e a cessão de bases no litoral brasileiro combinada com as operações de defesa do atlântico sul, Recife passa a ser uma cidade estratégica para as pretensões americanas, e com o apoio do então interventor do Estado Agamenon Magalhães, Recife terá a Sede da Quarta Frota Naval e será a base das operações marítimas com raio de atuação do Canal do Panamá até o extremo sul das Américas, além de um campo de pouso construído pelos americanos e chamado de Ibura Field, que atualmente é o Aeroporto Internacional dos Guararapes.

Torre de controle de Ibura Field

O governo do Estado fez enormes esforços para disponibilizar toda a infraestrutura para a acomodação da Quarta Frota. Foi disponibilizado um prédio inteiro para o Quartel-General além de outros prédios auxiliares no centro do Recife e alguns quilômetros de distância do Porto.

Militares americanos baseados em Recife.

Além disso, em conjunto com os Estado Unidos, foram construídos Hospitais de Campanha para serem utilizados como apoio de feridos no front africano, centros de treinamento de tropas, estruturação de defesas antiaéreas em toda a costa, alocação de unidades militares para atender a possível defesa em caso de invasão, também foi criado um centro de comunicação Aliada que tinha como principal objetivo estabelecer uma comunicação direta com a África, chamada Rádio Pina, que foi mantida em atividade pela Marinha Brasileira até 1992.

Marujo junto a um bombardeiro bimotor B-26.

Contudo as mudanças não foram meramente militares, houve um impacto profundo na sociedade pernambucana e, em especial em Recife. Primeiramente o impacto foi econômico, já que no auge de suas atividades a Quarta Frota mantinha cerca de 4000 homens no Estado, todos recebendo integralmente seus soldos e gastando, principalmente com os atrativos da vida nos trópicos. Passou a circular no mercado local dólares americanos, e isso impulsionou consideravelmente a comércio local e as atividades de apoio.

Descontração nas praias pernambucanas. Percebam as rodas do jipe com correntes, para passar nos atoleiros próximo as praias.

Outros aspectos interferiram na vida do recifense, que teve que passar por um racionamento de combustível e apresentou inflação de bens e serviços locais.

Arquitetura tradicional do centro de Recife chamando a atenção dos americanos

Segue abaixo alguns exemplos:

  • Atualmente o edifício que serviu de base para a Quarta Frota ainda está em funcionamento e é utilizado por alguns órgãos do governo do Estado, mas observa-se até os dias de hoje um grupo organizado de engraxates nas calçadas da av. Guararapes, e a origem do ofício nesse local remota na implantação do Quartel General da Quarta Frota, já que havia uma concentração de militares transitando nessa região com seus sapatos e coturnos, ou seja, uma demanda em potencial. Vários engraxates tinham ali sua fonte de renda. Passados décadas o local ainda é o melhor lugar da cidade para se lustrar os sapatos.
  • O Restaurante Leite é considerado o mais antigo do Recife e um dos mais requintados também. Já na década de 40 recebeu vários marinheiros e militares que, com seu soldo faziam a alegria dos garçons, já que as gorjetas eram em dólares.
  • O governo de Agamenon Magalhães cedeu outro edifício para a implantação do Grêmio Recreativo, onde aconteciam bailes dançantes, contudo esses bailes eram privados para os americanos e mulheres pernambucanas tinha acesso livre. Como não poderia, isso causava revolta entre os homens pernambucanos. Não foram os poucos os casos de brigas entre militares e os naturais da cidade.
  • Durante a guerra, o Porto do Recife foi um dos mais movimentados do país, e não por acaso, o bairro do Recife (uma ilha portuária),  tinha uma vida noturna agitada, oferecendo aos marinheiros todos os atrativos festivos das mulheres da noite. Com o fim da guerra a região entrou em declínio e passou por um período de abandono, sendo considerado por muitas décadas o baixo meretrício, o local era evitado pela maioria das pessoas. Há alguns anos, houve um esforço para recuperação do bairro do Recife e, atualmente, o bairro abriga um polo tecnológico e é uma das principais atrações turísticas do Estado.
  • Com o receio de bombardeios a cidade, foi instituída pelo governo um apagão em toda a região metropolitana do Recife; viaturas do exército realizavam rondas noturnas pela cidade para identificar moradores que desrespeitavam o apagão. Várias baterias antiaéreas foram estrategicamente posicionadas por toda a cidade na eminência de um ataque aéreo.
  • Helena Roosevelt, no período em que o presidente americano visitou Natal, participou em Recife da inauguração do Cassino Americano que permaneceu em funcionamento até a década de 90 do século passado.
  • O Encouraçado São Paulo ficou permanentemente estacionado no litoral pernambucano a fim de realizar a proteção marítima do Estado.
  • O 200º Hospital Estação foi construído e depois transformado no Hospital da Aeronáutica
  • O Ibura Field recebeu vários bombardeios B-52, B-29 e outras aeronaves de passagem para a Europa e a Itália, suas pistas ocupavam uma área maior do que atualmente ocupa o Aeroporto Internacional dos Guararapes, uma dessas pistas é atualmente a Rua Barão de Souza Leão, uma das principais vias de acesso entre Boa Viagem e o atual aeroporto.

Oficial americano junto a um Catalina

O estilo de vida americano foi se enraizando na vida do povo do Recife, que passou a adotar o “OK” e a usar camisetas de manga curta no lugar dos ternos que eram tão tradicionais até os anos 30.

Troféu de guerra.

Observando tudo isso, o que mais impressiona é que apesar das evidências o povo de Pernambuco sabe muito pouco sobre esse choque de cultura causado por uma guerra que, aparentemente, parecia tão distante, e que proporcionou um intercâmbio que deixou marcas visíveis até hoje.

VENDA DO LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI – A HISTÓRIA DE EMIL PETR”

LANÇADO NO ÚLTIMO DIA 31 DE OUTUBRO O LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI – A HISTÓRIA DE EMIL PETR” JÁ SE ENCONTRA À VENDA NAS LIVRARIAS NOBEL E POTYLIVROS E NAS LIVRARIAS SARAIVA E NOBRE DE NATAL. PODEM TAMBÉM SEREM ADQUIRIDOS COM PEDIDO ATRAVÉS DO E-MAIL:  contato@calculuscontab.com ou pelo telefone –84-3206-8396, AO PREÇO DE R$ 50,00 (CINQUENTA REAIS).

EM QUASE 300 PÁGINAS, EM MEIO A 250 FOTOS, ESTE LIVRO TRÁS A HISTÓRIA DE UMA PESSOA COMUM ENVOLVIDA EM GRANDES MUDANÇAS OCORRIDAS NA HISTÓRIA RECENTE DA HUMANIDADE, COMO OS EFEITOS DA GRADE DEPRESSÃO DE 1929 E PRINCIPALMENTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL.

AS FOTOS QUE SEGUEM MOSTRAM AS PÁGINAS DO CAPÍTULO EM QUE NARRAMOS A QUEDA DO AVIÃO B-24, AO QUAL O TENENTE EMIL ANTHONY PETR ERA OPERADOR DE RADAR. ESTE FATO OCORREU NO DIA 13 DE SETEMBRO DE 1944, SOBRE A CIDADE ALEMÃ DE ODERTAL, DURANTE O ATAQUE A UMA REFINARIA.

DURANTE NOSSAS PESQUISAS CONSEGUIMOS CONTATAR DOIS MEMBROS DO EXÉRCITO ALEMÃO QUE ESTAVAM EM UM DOS CANHÕES QUE AJUDARAM A DERRUBAR A B-24 DO TENENTE PETR. ELES ERAM JOVENS DE 15 E 16 ANOS E FORAM EXTREMAMENTE SOLÍCITOS EM AJUDAR NA PESQUISA DESTE TRABALHO.

O LIVRO POSSUÍ FORMATO A-4 E TRAZ MUITAS HISTÓRIAS DA VIDA DE EMIL PETR EM NATAL E SEUS TRABALHOS JUNTO AS COMUNIDADES AGRÍCOLAS DA NOSSA REGIÃO.

NESTE NOSSO QUARTO LIVRO TRAZEMOS O RESULTADO DE UMA PESQUISA QUE SE INICIOU EM 2009, CONTOU COM O APOIO DE PESSOAS E PESQUISADORES NO BRASIL, ESLOVÁQUIA, ALEMANHA E ESTADOS UNIDOS, A QUEM SÓ  TENHO AGRADECIMENTOS.

UM ABRAÇO A TODOS.

ROSTAND MEDEIROS

FOTOS DO LANÇAMENTO DO NOSSO LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”

JUNTOS O AUTOR E O BIOGRAFADO

PARA AQUELES QUE ACOMPANHAM O NOSSO BLOG QUERO TRAZER O REGISTRO DO LANÇAMENTO DO NOSSO ÚLTIMO LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”.

PESSOALMENTE SÓ POSSO COMENTAR QUE FOI UMA NOITE MARAVILHOSA E VERDADEIRAMENTE PERFEITA.

O TRADICIONAL IATE CLUBE DE NATAL ESTAVA BASTANTE FREQUENTADO, MOVIMENTADO E MUITO BEM DECORADO. MAS INEGAVELMENTE O MAIS IMPORTANTE FOI A PRESENÇA DE TANTAS PESSOAS IRMANADAS PARA CONHECER A HISTÓRIA DO NOSSO AMIGO EMIL.

O GRANDE EMIL ESTAVA MUITO FELIZ COM TODO O MOVIMENTO, QUE CONSOLIDOU O NOSSO TRABALHO INICIADO EM SETEMBRO DE 2009.

TIVE A OPORTUNIDADE DE AGRADECER AO ESCRITOR E EDITOR CARLOS FIALHO, QUE A FRENTE DOS “JOVENS ESCRIBAS” REALIZARAM UM ÓTIMO TRABALHO EDITORIAL E DE DIVULGAÇÃO.

TRABALHO CONCLUÍDO E MUITO FELIZ COM O RESULTADO

AS DEPENDÊNCIAS DO IATE CLUBE DE NATAL ESTIVERAM BEM FREQUENTADAS NA NOITE DA QUINTA-FEIRA, 31 DE OUTUBRO DE 2012

NA FOTO DO AMIGO RICARDO SÁVIO TRIGUEIRO DE MORAIS, TODA A BELEZA NOTURNA DA REGIÃO DO RIO POTENGI

ENTRE O GRANDE EMIL ANTHONY PETR E O AMIGO AUGUSTO MARANHÃO, UM INCENTIVADOR DO RESGATE DA HISTÓRIA POTIGUAR E QUE REALIZOU UM MARAVILHOSO TRABALHO DE DIVULGAÇÃO DO NOSSO LIVRO NO SEU PROGRAMA DE TELEVISÃO “CONVERSANDO COM AUGUSTO MARANHÃO”

O PÚBLICO PRESENTE

JUNTO AOS AMIGOS E FAMILIARES

OS SOBRINHOS DE EMIL VIERAM DE NEBRASKA, ESTADOS UNIDOS PARA PRESTIGIAR O EVENTO

A JORNALISTA MARGOT FERREIRA, DA INTERTV CABUGI, AFILIADA DA REDE GLOBO EM NATAL, ENTREVISTANDO O VETERANO EMIL

AGRADEÇO A TODOS AQUELES QUE ESTIVERAM PRESENTES NESTE LANÇAMENTO.

BIOGRAFIA DE VETERANO DA II GUERRA MUNDIAL SERÁ LANÇADA EM NATAL

Capa “Eu não sou herói, A História de Emil
Petr”, de Rostand Medeiros (Foto: Divulgação)

Vida de Emil A. Petr é contada por Rostand Medeiros em 294 páginas.
Livro relata infância, vida militar, prisão em campo nazista e missão no RN
                       

Ricardo Araújo – G1 RN

Fonte – http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2012/10/biografia-de-veterano-da-segunda-guerra-mundial-sera-lancada-em-natal.html

Ele é americano de nascença, mas adotou Natal como sua residência há 43 anos. Até aí, nada de diferente de muitos estrangeiros que mudam de país. O que faz Emil Anthony Petr diferente, é sua história de vida. E somente aos 90 anos de idade, ele decidiu contá-la ao pesquisador Rostand Medeiros, que a transformou em um livro de 294 páginas com pelo menos 250 fotografias, mapas, cartas e documentos oficiais do Exército e Força Aérea Americana, Alemã e Brasileira, intitulado “Eu não sou herói – A história de Emil Petr”.

Emil Petr é militar aposentado, filho de pais de origem tcheca e católicos. É natural do estado americano de Nebraska. “Emil era considerado americano de segundo escalão por não ser branco, anglo-saxão e protestante”, afirmou o autor da obra, Rostand Medeiros. Emil cresceu alheio à violência num vilarejo tranquilo do frio estado americano. Decidiu alistar-se na Força Aérea Americana ainda muito jovem, após os ataques chineses a Pearl Harbor, no estado americano do Hawai, e preferiu trabalhar numa oficina de carros ao invés de assumir uma posição na infantaria. “Ele não queria olhar no olho do inimigo e matá-lo”, detalhou Rostand Medeiros.

Emil Anthony Petr é veterano da II Guerra Mundial
(Foto: Cedida/Divulgação)

Entretanto, diante do seu talento e inteligência, os oficiais superiores o destacaram para estudar no Oficialato da Força Aérea e, em seguida, num curso específico de navegação aérea que o conduziu a uma especialização em operação com radares. Emil era um dos mais competentes navegadores aéreos americanos no ano de 1944 e tinha como função traçar a rota dos bombardeiros no espaço aéreo inimigo. Em uma das suas missões, porém, teve o avião atingido e parcialmente destruído. Ele e os demais tripulantes tiveram que pular da aeronave, antes que ela explodisse ou não tivesse mais condições de voar.

Emil caiu em cima de árvore e ao chegar ao solo, foi recepcionado por uma moça e um idoso, que era o prefeito da cidade de Modra, na Hungria. A moça o ofereceu abrigo. Ele, porém, decidiu seguir com o senhor que também iria ajudá-lo, mas não tiveram tempo. Emil acabou sendo preso por soldados nazistas e conduzido a um castelo que funcionava como campo de refugiados em Budapeste, também na Hungria. Lá, passou oito meses. Não foi morto pois dividia as celas com outros pilotos e navegadores, o que lhes dava certo diferenciamento dos demais presos. Conseguiu a liberdade, voltou aos Estados Unidos e ingressou no Papal Volunteers for Latin American, que em tradução livre quer dizer Voluntários Papais na América Latina.

Anos se passaram e Emil voltou ao Brasil como missionário católico. No Rio Grande do Norte, desenvolveu trabalhos com camponeses, crianças, adultos e idosos carentes. Em uma das missões, conheceu sua mulher, com quem dividiu a vida por mais de 30 anos. Não teve filhos e adotou Natal como sua cidade do coração. A história completa da vida de Emil, os segredos da guerra, o cotidiano num campo de refugiados, os relatos dos momentos mais tristes da maior guerra da história contemporânea, poderão ser lidos no quarto livro de Rostand Medeiros, “Eu não sou herói”.

Rostand Medeiros diz que o livro é um convite à
leitura envolvente, informativa e interessante
(Foto: Ricardo Araújo/G1)

Serviço

Lançamento do Livro “Eu não sou herói – A história de Emil Petr”, 294 páginas, Editora Jovens Escribas / Bons Costumes, R$ 50,00.

Local: Iate Clube de Natal, em Santos Reis, com entrada franca

Data: 31 de Outubro de 2012, às 19h

INFORMATIVO JOVENS ESCRIBAS – LANÇAMENTO DO LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”

Outubro se aproxima do seu crepúsculo, mas ainda estamos a todo vapor nas atividades literárias aqui em Natal. Nesta terça começa a FLIQ (Feira de Livros e Quadrinhos de Natal), na quinta teremos lançamento de mais um livro e, no último dia do mês, fechando com chave de ouro, o 6º lançamento do mês.  # OTTO GUERRA – TRAÇOS E REFLEXOS DE UMA VIDAUma das filhas do grande pensador e humanista Otto de Brito Guerra, Dona Zélia Maria Seabra de Moura, organizou e vai lançar nesta quinta (25.10) uma reunião de textos importantes sobre seu pai que, se vivo estivesse, haveria completado 100 anos no último mês de julho. O livro será lançado pelo selo “Bons Costumes”, divisão da Jovens Escribas para publicações por encomenda.

Lançamento de “Otto Guerra – Traços e reflexos de uma vida” de Zélia Maria Guerra Seabra. Local: UNI-RN. Data: 25 de outubro de 2012 (Quinta-feira)Hora: A partir das 19h

# EU NÃO SOU HERÓI – A HISTÓRIA DE EMIL PETR. Mais um belo registro que chega às prateleiras por obra do selo “Bons Costumes” é o livro “Eu não sou herói – A história de Emil Petr”. Trata-se da biografia do filho de tchecos que nasceu nos Estados Unidos, lutou na Segunda Guerra Mundial, foi capturados pelos alemães, sobreviveu, veio a Natal e tornou-se patriarca da família Vale. Uma grande história contada pelo pesquisador Rostand Medeiros a pedido da família. A estreia do livro será no derradeiro dia do mês de outubro, no Iate Clube de Natal.

Lançamento de “Eu não sou herói – A história de Emil Petr” de Rostand Medeiros.Local: Iate Clube de Natal. Data: 31 de outubro de 2012 (Quarta-feira)Hora: A partir das 19h

O MEU NOVO LIVRO – EU NÃO SOU HERÓI, A HISTÓRIA DE EMIL PETR

Na vida da gente é uma grande satisfação quando nosso planos se realizam.

E eu me sinto assim neste momento, quando se aproxima o lançamento do meu quarto livro.

Em 2009 eu fui um dos realizadores do livro “Os cavaleiros dos céus – A saga do vôo de Ferrarin e Del Prete”, que narra a história da primeira travessia sem escalas entre a Europa e America do Sul, realizada pelos pilotos italianos Arturo Ferrarin e Carlo Del Prete, em 1928. Emil, um grande leitor sobre aviação teve acesso a este trabalho e gostou do livro.

Um dia foi contatado por um familiar, que me contou que em Natal morava um veterano norte-americano da II Guerra Mundial, que estava me procurando através de seus familiares e desejava me conhecer para contar a sua história. No principio achei tudo meio estranho e um tanto fantasioso, mas nada era mentira.

Conheci uma figura humana incrível e iniciamos nosso trabalho.

Emil Anthony Petr é natural da cidade de Deweese, no estado de Nebraska. Católico, descendente de tchecos, nasceu em 1919 e aos 22 anos, em janeiro de 1942, Emil buscou um local de alistamento para se engajar lutar contra os nazifascistas, este filho de simples agricultores tinha certeza que “-Não queria lutar em trincheiras, mas no ar”.

Foi primeiramente designado para o 57º Grupo de Caça, na área de Boston. Quando estava para seguir com a sua unidade para o deserto do norte da África, ele conseguiu a aprovação para cursar a escola de formação de navegadores, em San Marco, no Texas. Em 1943, após conseguir a patente de segundo tenente, foi designado para atuar em bombardeiros B-24. Mas não era o fim de sua preparação. O tenente Petr seguiu para a base aérea de Langley, Virginia, onde se especializou na tarefa de bombardeio por radar.

Em abril de 1944 chegou a sua transferência para a 15ª Air Force, no sul da Itália, para atuar no esquadrão 139, do 454th Bomb Group, baseado no campo de San Giovanni, próximo a cidade de Cerignola.

Durante o trajeto para a Europa o tenente Emil esteve no Brasil, mas não em Natal. Seu trajeto passou pelas cidades de Belém e Fortaleza, onde guardou boas lembranças. “-Não era para ter conhecido Natal na época da guerra, mas foi para cá que optei por viver e me casar”.

No 454th Bomb Group havia uma seção específica de pessoas que trabalham com sistemas de radar. Quando Emil foi escolhido para uma missão de bombardeio, ele me disse que era extremamente focado em seu trabalho. Porque ele sabia que qualquer erro pode comprometer todo o grupo de aeronaves e suas tripulações.

De abril a setembro de 1944 o tenente Emil participou de 38 missões sobre a Europa ocupada. Em uma delas, ao atacarem a fábrica da Messerschmitt, em Bad Voslau, na Áustria. O bombardeamento desta estratégica unidade fabril rendeu ao 454th Bomb Group uma citação do presidente dos Estados Unidos e o tenente Emil estava lá.

Mas no dia 13 de setembro de 1944, quando na sua 39º missão, a de número 117 do 454th Bomb Group, cujo objetivo era uma refinaria na cidade alemã de Odertal, seu B-24 foi atingido pela artilharia antiaérea alemã. Ninguém da sua tripulação morreu, mas a maioria foi capturada, entre estes o tenente Emil.

Sobre a derrubada de sua aeronave, conseguimos contatar dois veteranos alemães que estavam nas baterias antiaéreas que protegiam a cidade de Odertal e trouxeram interessantes detalhes sobre aquele dia.

Jovens alemães pertencentes ao Luftgal 8, FLAK-Gruppe Oberschlesiem-West, FLAK-Untergruppe Odertal, responsáveis pela derrubada da B-24 do tenente Emil em 1944

Feito prisioneiro, Emil foi levado para o campo de prisioneiros Stag Luft III, em Sagan (atual Zagan, na Polônia) e o sofrimento foi grande.

Meses depois as tropas russas estavam avançando a partir do leste e começaram a se aproximar do campo. Segundo os livros relativos à Segunda Guerra Mundial Adolf Hitler mandou evacuar Stalag Luft III, pois além de não querer que estes aviadores aliados fossem libertados pelos russos, havia a intenção de utilizá-los como reféns.

A ficha do prisioneiro Emil Petr em Stalag Luft III

Em 31 de Janeiro os homens seguiram para o Stalag Luft VIIA, em Moosburg. Durante dois dias de viagem, os aviadores foram levados em vagões de transportar gado. As necessidades fisiológicas eram feitas ali mesmo, em pé e para dormir só escorados uns nos outros e a viagem durou dois dias. Moosburg era uma verdadeira pocilga, onde os alemães amontoaram mais de 140.000 prisioneiros aliados, entre estes alguns brasileiros.

O dia da libertação

Finalmente os prisioneiros foram libertados pelos soldados da 14ª Divisão Blindada, do 3º Exército da U.S. Army, comandados pelo general George Patton.

Para o veterano residente em Natal, a lição mais importante da guerra foi a “Falta de justificativas para a violência”, que no seu entendimento ainda não foi aprendida pela humanidade.

Depois de retornar aos Estados Unidos, Emil tentou a universidade de Lincoln, sem sucesso e foi trabalhar em uma empresa de construção da família. Mas este americano de origem eslava, de profunda devoção católica, decidiu trabalhar como um voluntário em obras assistenciais na América Latina, através de um programa criado pelo Papa João XVIII.

Dom Eugênio e Emil

O destino o trouxe a Natal em 1963, onde conheceu Dom Eugênio de Araújo Sales (na época Bispo da capital potiguar) e se incorporou no programa SAR – Serviço de Assistência Rural. Através deste trabalho manteve contatos e participou de ações em Recife junto com Dom Helder Câmara e teve oportunidade de estar ao lado da irmã Dulce, de Salvador.

Natal-1963

Emil me comentou que já tinha ouvido falar sobre Natal, principalmente durante o seu trajeto aéreo para combater na Europa. Mas na época de sua passagem, devido ao grande trânsito de aviões no famoso “Parnamirim Field”, o seu caminho para a Itália foi através de Fortaleza. Mas, para ele, a hora certa de estar em Natal foi em 1963, onde conheceu uma pessoa que mudou sua vida.

Emil e Célia

Emil teve oportunidade de conhecer o sertão potiguar, os aspectos ligados aos trabalhadores rurais nordestinos e veio a ser casar com a assistente social Célia Vale Xavier, assistente social com curso de especialização na Costa Rica e Colômbia, nascida em Caicó, que havia sido indicada pelo Monsenhor Walfredo Gurgel, seu antigo mestre, para trabalhar no SAR junto com Dom Eugênio, na elaboração do pioneiro projeto de educação radiofônica através da Emissora de Educação Rural, mais conhecida como Rádio Rural de Natal.

Ela e Emil Petr se uniram oficialmente em 1967 e passaram a morar no bairro de Petrópolis. Na capital potiguar Emil criou fortes laços de amizade no seio de nossa sociedade. Viajou a serviço do PAVLA pelo Brasil, conheceu do interior do Nordeste a floresta amazônica. Após o fim do PAVLA, o nativo de Nebraska trabalhou em Natal junto à escola de línguas SCBEU, a Emater, no INPE e prestou serviço junto a UFRN.

Em 1969, com o apoio de sua esposa Célia, comprou uma propriedade na cidade de São Gonçalo do Amarante, próxima a Natal, a qual denominou “Sítio Nebraska”. Neste local, junto com as comunidades rurais da região, desenvolveu a primeira experiência de agricultura sem agrotóxicos no Rio Grande do Norte. Mesmo com dificuldades ele conseguiu escoar a produção para restaurantes que trabalhavam com comida natural em Natal e junto a consumidores individuais.

O casal Emil Petr e Célia Vale não tiveram filhos. Eles adotaram Maria Isabel, a querida Mabel, que havia nascido com um a grave doença cerebral, mas isto não foi problema para o casal dedicar a esta criança muito amor e carinho durante 11 anos. Apesar dos esforços dos pais, Maria Isabel deixou este plano terreno em meio a muitas saudades.

Emil levando sua filha Mabel para ser consultada no navio hospital “Hope”

Homem de extrema sensibilidade e preocupação com a natureza, a preservação do meio ambiente, o uso sustentável da terra e o consumo correto de produtos agrícolas, decidiu junto com o professor Waldson Pinheiro, o Embaixador Nestor Lima, o Dr. Otto Guerra, o ex-governador Cortez Pereira e outras pessoas, criar uma entidade de preservação da natureza, a primeira do gênero oficialmente estabelecida no Rio Grande do Norte. Esta ONG é a conhecida ASPOAN – Associação Potiguar Amigos da Natureza, que tantos trabalhos realizou (e realiza) em prol do meio ambiente potiguar. Foi um momento que Emil considera fantástico, onde surgiram muitas ideias e projetos ligados a área ambiental, a maioria deles ações inéditas no Rio Grande do Norte.

Em meio a muitas atividades, Emil teve a tristeza de saber que sua amada Célia fora acometida do Mal de Azheimer. Durante seis anos Emil e a família de Dona Célia, que ele considera sua família no Brasil, buscaram dar o melhor para esta caicoense de fibra. Em 14 de julho de 2010, Célia Vale Petr seguiu para um plano superior em meio a muito carinho.

Durante a luta em prol da saúde de sua amada esposa, surgiu na mente de Emil o desejo de contar sua história de vida para as gerações futuras.

Desde o primeiro semestre de 2010 iniciamos a fase de entrevistas, daí seguimos para fazer contato com pessoas e entidades nos Estados Unidos e na Eslováquia. Depois partimos para a análise de suas cartas e de sua esposa, Célia Vale Petr. Outras fontes são seus apontamentos compilados em um diário, muitas fotos, além do livro da sua formatura como oficial navegador, o livro oficial do seu esquadrão (publicado em 1946), análise de material vindo do Arquivo Nacional dos Estados Unidos, da família Petr e da família Vale.

Chegamos a reta final deste nosso trabalho e o resultado é “Eu Não Sou Herói, A História de Emil Petr”.

Contamos com o empenho do editor e escritor Carlos Fialho e dos profissionais da Editora Jovens Escribas, que realizaram um trabalho magistral. O resultado é um livro com mais de 300 páginas e um vasto acervo fotográfico. Tudo em um belo formato, repleto de histórias interessantes.

O autor e seu biografado

No dia 31 de outubro, no Iate Clube de Natal, quarta-feira, a partir das 19:00 horas, estarei junto com Emil, seus familiares e amigos, autografando este novo trabalho.

Um forte abraço a todos.

CANGAÇO – MILLENARIAN REBELS: PROPHETS AND OUTLAWS

Translator’s Introduction

It is no surprise that the French group of revolutionary outlaws, Os Cangaceiros, would take an interest in millenarian revolt since their namesakes in Brazil fought side by side with millenarian rebels on more than one occasion. And such an interest is no mere whim. During the Middle Ages, revolt almost always expressed itself in millenarian language in the Western world, and such expressions continued, though increasingly less frequently, into modern times. Thus, those of us who are interested in understanding the ways in which the spirit of revolt develops in individuals and in larger groups of people could perhaps learn something from examining millenarianism in its various forms.

In Prophets and Outlaws of the Sertão, Georges Lapierre[1] tells the story of two movements of revolt in northeastern Brazil whose activities often intertwined. On the one hand, there were several millenarian movements involving dispossessed peasants, rural migrant workers, and urban poor. On the other hand, there were the cangaceiros, individuals whose acts of revenge against a very visible ruling class and its lackeys had driven them to live as outlaws and who joined together in bands called cangaços to wage their battle against a social order to which they were neither willing nor able to belong.

Map of the Empire of Brazil in the nineteenth century – http://blogdoestado.blogspot.com.br

For me, the most interesting aspect of this historical tale lies in the comparisons and contrasts that can be made between these two very different ways of rebelling that manifested themselves in Brazil as the 19th century moved into the 20th century.

Though Georges Lapierre’s account mentions several millenarian movements in Brazil during that period, he only goes into any detail about two of them: the one that gathered around Antonio Conselheiro (Antonio the Counselor)[2] and the one that gathered around Father Cicero. In my opinion, the former is far more interesting, because it was truly a movement of millenarian revolt, whereas Father Cicero’s movement, regardless of any apocalyptic or millenarian language it may have used, was essentially just a movement of social reform[3]. The very fact that its leader was able to maintain a possession in the church hierarchy and gain a significant in the state hierarchy shows that neither revolt nor the bringing of the millennium had any real significance in his activities. He was merely seeking to bring his concept of a christian social morality into the existing social order.

Conselheiro, on the other hand, had a true hatred of the existing social order, and firmly believed that its end was at hand. Being a true believer, he was convinced that god was about to rain his wrath down upon the ruling order and bring a holy kingdom of real equality to the earth, one with neither state nor property, where the entire world would be equally accessible to all. Such a vision was bound to attract many of the dispossessed. Conselheiro’s vision was apocalyptic, but also a vision of action. If the movement that gathered around him ended up forming a “holy city” (Canudos), a commune in which to begin the new way of living, it was also prepared to fight the ruling powers. That battle, however, took a form quite typical of a particular sort of millenarianism. It was a defense of the holy city that was based on trust in a supernatural intervention.

Cangaceiros – Ronald Guimarães – http://www.ronald.com.br/

The cangaceiros, on the other hand, were not religious. They were simply outlaws, driven to leave society behind after taking revenge on someone from the ruling class or one of its lackeys for some humiliation. Like the millenarian rebels, they were from the poor, dispossessed classes. But the path they chose for their revolt was different, reflecting a personal humiliation they pushed them to attack, rather than a more general humiliation. Lacking the faith of the millenarians, they built no utopian communal “cities”, choosing rather to roam the countryside, attacking the rich and raiding cities. When their raids on cities were successful, they often expressed a type of utopian vision as well, throwing huge drunken feasts with music and dancing, often giving away some of what they had stolen. But they sought no permanence and faded back into the countryside to wander.

I find the sympathy of the cangaceiros  for the millenarian movements of their time interesting because their way of life in their world seems to parallel that of the Free Spirit movement of the middle ages. The Free Spirits are often described as millenarians, but their millenarianism was distinctly different from that of Conselheiro, Thomas Münzer, the Münster millenarians and most other millenarian movements. The distinction lies in the fact that the Free Spirits did not see the millennium as something that was going to come soon, but as something that already existed within them. Their perspective was not apocalyptic — aiming toward a future end of the world — but rather based in the immediate present. This is why the Free Spirit, while still using religious language, actually attacked the foundations of religion: dependence on an external supernatural power, hope in a heavenly future, faith in an external source of salvation. Quite rightly, the Free Spirits declared themselves to be greater than god, and apparently lived as vagabond outlaws… much like the cangaceiros. Their perspective left no room for passivity, because they had chosen to be the creators of their own lives.

Drawing depicting Antonio Conselheiro and disseminated via newspapers and books in southern Brazil in the late nineteenth century – http://culturapauferrense.blogspot.com.br

The millenarians of Canudos and Münster, and the followers of Thomas Münzer certainly expressed a more active — and downright fierce — form of apocalyptism. They were ready to fight to the death for their future millenarian dream. But this willingness was based on the delusions of faith and hope — faith in a supernatural savior; hope in divine intervention. Thus, they are not so different from groups like the Branch Davidians in Texas — groups made up largely of the poor, waiting for the apocalypse and ready to defend themselves to the death if necessary. But the fact is that apocalyptism is far more often passive, precisely because it hopes in an external intervention. This is true whether or not it is religious in nature. We are currently living in a period in which apocalyptic thinking is rampant even among people with no religious belief. Whether it takes the form of paralyzing fears of massive plagues and disasters or idealized dreams of a collapse that will do away with the technological and bureaucratic horrors of the present, it doesn’t ever seem to lead to active revolt. The fears, when they manage to get past their paralysis, tend toward the desperate grasping at any action the might “give us more time”, and such desperation sees any sort of anarchist revolutionary and utopian practice — especially one that is live here and now — as a hindrance to this acceptance of any action that works — because such a practice rejects all litigation, all legislation, every form of working through the ruling order… And the apocalyptic hopes for a collapse have always tended to move people toward a mere survivalism, a “practice” that is nothing more than an accumulation of skills in the hopes of being the most fit to survive in the post-collapse world. In my opinion, a small and shabby vision.

Millenarian revolt is interesting mostly because when millenarian perspectives actually led to revolt, to one extent or another, those involved had begun to recognize that they themselves had to act to realize their own liberation. Its limits lie precisely in the continued reliance on a supernatural force to guarantee this. As long as this faith remained, millenarians tended to paint themselves into corners, creating small utopian settlements that they defended with courage and ferocity, but that ended up as their graveyards. But a few, like the Free Spirits, seem to have gotten beyond faith and hope, beyond dependence on a supernatural power to uphold them. And it is interesting that their practice becomes much more that of the outlaw who doesn’t settle down, but remains on the move, thecangaceiro, who may perhaps develop a revolutionary perspective, and thus learn to aim all the more clearly.

Prophets and Outlaws of the Sertão

Today in the sertão[4], there are still a few ephemeral groups gathered around beatos, rapidly being dispersed by the police. There are also a few isolated bandits, mere brigands dedicated above all to theft. On the other hand, the orders of hired killers called capangas continue to proliferate. They are in the service of the fazendeiro,[5] who has taken great care to prevent any vague desire to rebel among his day laborers, mainly through pure and simple murder. This private militia gets support for its task from a police force and an army whose current means — helicopters, napalm, machine guns, radios, special troops — make any sort of social movement impossible. The security of the state is now assured in this vast arid region of northeast Brazil, which was once the place where messianic movements of great breadth developed together with the epic deeds of the cangaceiros[6].

Typical house of a wealthy farmer in northeastern Brazil eighteenth century – https://tokdehistoria.wordpress.com

And yet, there in the northeast, there are still people who remember the cangaceiros, Antonio Silvino, Sinhô Pereira, Lampiao, Corisco, who they imagine as champions of a lost world; people who preserve a sort of nostalgia for the time of the Conselheiro — an era of happiness, abundance and freedom comparable to the legendary times of Charlemagne’s empire and other enchanted realms. There are still those who pass down the legend of Father Cicero who is supposed to return to guide people to perfect happiness. Further south, in the serrana region, they pass down the legend of the “sleeping” friar João Maria, departing to find refuge on the enchanted mountaintop of Tayó. “From time to time, new emissaries of Brother João Maria come to announce his return; the last attempt happened in 1954. But the authorities keep watch and always manage to disperse the small gatherings of the faithful. But the memory of Brother João Maria does not seem to be close to burning out, and the places where he sojourned are venerated by his followers.”[7]

Now law reigns in the sertão, but this wasn’t always the case.

“Let the faithful, then, abandon all their worldly possessions, anything that might defile them with the faintest trace of vanity. All fortunes stood on the brink of imminent catastrophe, and it was useless and foolhardy to endeavor to preserve them.”[8]

Around 1870, the popularity of Antonio Conselheiro, otherwise called “the Counselor” would grow little by little in the villages of the interior, in the province of Bahia.

Antônio Conselheiro was born in this house in the town of Quixeramobim in the state of Ceará – https://tokdehistoria.wordpress.com

His true name was Antonio Vicente Mendes Maciel. He was originally from the state of Ceará, where a dark and bloody rivalry opposed his family to the Araújo family, the most powerful property owners of the region.

He appeared there announcing the end of the world, a cosmic catastrophe followed by the last judgment. He was sent by God and promised the faithful salvation and the delights of a Holy City in which peace and brotherhood would reign. It was Christ who prophesied his coming when “at the ninth hour, as he was resting on the Mount of Olives, one of his apostles saith unto him: Lord! what signs wilt thou give us for the end of this time? And he replied: many signs, in the Moon, in the Sun, and in the Stars. There shall appear an angel sent by my loving Father, preaching sermons at the gates, making towns in the desert, building churches and chapels, and giving his counsel.”[9]

On mountains made of schist flakes sparkling with mica, on immense expanses covered with caatinga[10] — “it stretches out in front of him, for mile on mile, unchanging in its desolate aspect of leafless trees, of dried and twisted boughs, a turbulent maze of vegetation standing rigidly in space or spreading out sinuously along the ground, representing, as it would seem, the agonized struggles of a tortured writing flora.”[11] — , on the plain on which nature has fun playing with the most abrupt contrasts, frighteningly sterile, marvelously blooming, the sertão had found its prophet.

Thin, austere, ascetic, dressed in a monk’s robe and sandals, he went from village to village, distributing everything that was given to him to the poor. He was a beato[12]. Very soon he was called “Saint Anthony” or “Good Jesus” A rumor attributed miracles to him; he had saved a young girl bitten by a radical snake; mule drivers had spread the news. Little by little his prestige grew. When he came, everyone rushed to him to seek his counsel. He was accompanied in his peregrinations by a few faithful. Over the months, the group became more consistent.

With his followers, he repaired churches and built chapels. Wherever he passed, he preached forcefully against the outrages, extortions and injustices that infested the region, which was racked by political struggles transformed into vendettas, into insensitive and bloody quarrels

Modern design that portrays Antônio Conselheiro along with his followers – Author Pedro Marques – http://blogdopedromarques.blogspot.com.br

The Counselor’s influence had become impressive. In his harangues he spoke an apocalyptic language full of Latin quotations, a cryptic and inspired language that gave the impression that his message was from the beyond: “The end was surely coming and the great judge of all.”[13]

The prophet predicted strange things for the years to come, all announcing an imminent cosmic upheaval:

“In 1896, a thousand flocks shall run from the seacoast to the backlands; and then the backlands will turn into seacoast and the seacoast into backlands.

“In 1987, there will be much pasturage and few trails, one shepherd and one flock only.

“In 1898, there will be many hats and few heads.

“In 1899, the water shall turn to blood, and the planet will appear in the east, with the sun’s ray, the bough shall find itself on the earth, and the earth some place shall find itself in heaven.

“There shall be a great rain of stars, and that will be the end of the world. In 1900, the lights shall be put out. God says in the Gospel: I have a flock which is out of this sheepfold, and the flock must be united that there may be one shepherd and one flock only!”[14]

Only those who aided him and who followed him would be saved. He responded in this way to the deep aspirations of the poor to escape an underhanded fatality, a precarious and servile existence, oppression and desperation. His determination, his fieriness, his rage, his dynamic exhortations, had seduced them just as it had fascinated rebels, quilombolas (insurgent and escaped slaves living in hidden settlements called quilombos), unsubdued indians, all fugitives, mestizo or white, sought by village police.

Saint Sebastian had drawn his sword and when Conselheiro founded his first messianic community in 1873, in the area around Itapicurù in the province of Bahia, in many ways this recalled the cangaço[15] bands.

“There having arisen a misunderstanding between Antonio Conselheiro and his group, and the curate of Inhambupe, the former proceeded to draw up his forces as if for a pitched battle, and it is known that they were lying in wait for the curate, when he should go to a place known as Junco, in order that they might assassinate him. Those who pass that way are filled with fear at the sight of these miscreants equipped with clubs, daggers, hunting knives and blunderbusses; and woe to the one who is suspected of being hostile to Antonio Conselheiro”[16] — from a police report of the time.

The archbishop himself turned to the president of the province of Bahia, asking for reinforcements to contain “the individual Antonio Vicente Maciel, by preaching subversive doctrines who causes much harm to religion and to the state distracting people from carrying their obligations that they may follow him…”.[17]

Euclydes da Cunha – http://www.estadao.com.br

However, as the submissive university student, Euclydes da Cunha wrote with a certain objectivity, but in the offensive jargon of his masters: “He drew the people of the backlands after him, not because he dominated them, but because their aberrations (sic!) dominated him.”[18]

Of course, he announced Christ’s thousand year kingdom on earth after the end of the world, but around him, under his stimulus,jagunços[19], rebels, insurgents, organized themselves, occupied land, shared labor and goods, received gifts, not always voluntary.

The constituted order could not remain indifferent much longer to the expansion of a community that gave so little consideration to the idea of property, that so proudly ignored the foundations of authority, religion and the state, as the apostolic archbishop said. Therefore, in 1889, the advent of the Republic, this democracy of property owners, acted to speed up the conflict by making hostilities emerge. The millenarians considered the Republic precisely for what it meant: more state. It was mortal sin, the power of selfishness, of cupidity, the supreme heresy that indicated the ephemeral triumph of the antichrist.

“There are unlucky beings
Who don’t know how to do good
They degrade God’s law
And represent the jackal’s law

Protected by laws
You are so, people of nothing
We have God’s law
You have the jackal’s law”[20]

Conselheiro preached insurrection against the Republic and began to burn government decrees posted in the villages:

“In truth, I say unto you, when nation falls out with nation, Brazil with Brazil, England with England, Prussia with Prussia, then shall Dom Sabastião[21] with all his army arise from the waves of the sea.

King of Portugal Dom Sebastião I (1554-1578) – http://www.hirondino.com

“From the beginning of the world a spell was laid upon him and his army, and restitution shall be made in war.

“And when the spell was laid upon him, then did he stick his sword in the rock, up to the hilt, saying: Farewell, world!

“For a thousand and many, for two thousand, thou shalt not come.

“And on that day, when he and his army shall arise, then shall he with the edge of the sword free all from the yoke of this Republic.

“The end of this war shall take place in the Holy House of Rome, and the blood shalt flow even in the great assembly.”[22]

As the university student Euclydes da Cunha remarked with a valet’s conceit: “your jagunço is quite as inapt at understanding the republican form of government as he is the constitutional monarchy. Both to him are abstractions, beyond the reach of his intelligence. He is instinctively opposed to both of them… there was very little political significance to be found… such as might have lent itself to the messianic tendencies revealed. If the rebel attacked the established order, it was because he believed that the promised kingdom of bliss was near at hand.”[23]

Drawing done in the late nineteenth century, representing a Jagunço, fighter who followed Antônio Conselheiro – http://www.coceducacao.com.br

Up to now, the order established by monarchists or republicans has never led to the reign of delights for the poor, quite the contrary. Rather, we could witness with the Republic a clear-cut worsening of the fate reserved to those who do not possess anything. What the Conselheiro and his followers fight against was the progressive arrangement of a new order. They don’t rebel in the name of an old order, but for the idea they have of a human society. Their eye is not turned toward the past, but toward the future. They are carriers of a social project. Rising up against the constituted order, or the one that was beginning to be constituted, they rise up against the essence of a world that created private property, forced labor, the wage worker, police, money; they rise up against a social practice and its essence. For them the future is not a return to the past, but rather the end of a world, an overturning of society from top to bottom, a revolution for which the humanity that was there from the start finally returns as realized humanity.

The autonomy of the villages having been decreed, the local councils of the interior of Bahia had tacked up edicts meant to raise taxes on notice boards, traditional boards that took the place of the press.

When the news spread, Conselheiro was at Bom Conselho. The taxes enraged him, and he immediately organized a protest. On market day, the population assembled and set fire to the notice boards amid seditious shouts and firecracker explosions. After this auto-da-fé that the authorities could not prevent, he raised his voice and, wise and cool-headed as always, openly incited rebellion against the laws. Aware of the danger that threatened him and his own, he left the city and headed north on the road of Monte-Santo, toward a remote, abandoned region surrounded by steep mountains and insurmountable caatinga, a temporary refuge for bandits.

Photo of 1890, showing a beach in the city of Salvador, capital of Bahia state – http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1503629&page=5

The events had a certain echo in the capital, city of Salvador, from which a police force departed to stop the rebels, at the time, no more than two hundred people. The squad tracked them down to Massète, a bare, sterile place between Tucano and Cumbe. The thirty well-armed police attacked them violently, certain they’d be victorious in the first assault. But they were facing bold jagunços. The police were beaten and had to hastily get out of there on foot. The commander was the first to give the fine example.

After accomplishing this endeavor, the millenarians were back on the road, accompanying the prophet’s Hegira. No longer looking for populous places, they headed toward the desert. Passing through mountain chains, bare plateaus and sterile plains, they reached Canudos.

It was an old fazenda, a holding situated on the temporary Vaza-Barris river. By 1890, it was abandoned and was used as a resting place. It included about fifty huts made of clay rock and straw.

In 1893, when the apostle arrived, Canudos was in total decay. Everywhere there were abandoned shelters and empty cabins. And at the summit of the spur of Mount Favella, the old residence of the owner was sighted, without a roof and with the walls reduced to ruins.

The community occupied the wastelands, rapidly making them bear fruit. The village developed at an accelerated pace while the disciples coming from the most widespread places settled there in order to live. In the eyes of the inhabitants, it was a sacred place, surrounded by mountains, untarnished by the operations government. Canudos came to know a dizzying growth. Here is what one witness said: “Certain places in this district and others round about, as far away even as the state of Sergipe, became depopulated, so great was the influx of families to Canudos, the site selected by Antonio Conselheiro as the center of his operations. As a result, there was seen offered for sale at the fairs an extraordinary number of horses, cattle, goats, etc., as well as other things such as plots of ground, houses and the like, all to be had for next to nothing, the one burning desire being to sell and lay hold of a little money, and then go share it with the Counselor.”[24]

Canudos, the stronghold of Antônio Conselheiro. Photo of Flávio de Barros, 1897 – http://turma802prouni.blogspot.com.br

The land completely covered the hills, the absence of streets and plazas, apart from that of the church, and the great mass of hovels, made a single dwelling place out of it. The village was invisible at a certain distance and, surrounded by the windings of Vaza-Barris, was confused with the terrain itself.

From close-up, one caught sight of an extraordinary labyrinth of narrow passages that poorly divided the chaotic heap of huts from the clay roof.

The dwellings made of straw and stone were composed of three tiny parts: a small waiting room, a room used as a kitchen and dining room and a side alcove hidden by a low, narrow door. There was some furniture: a bench, two or three small stools, cedar chests, hammocks. And there were a few accessories: the bogo or borracha, a leather bag for carrying water; the aió, a bag for carrying game made from carúa[25] fibers. On the floor of the main room, there was a coarse prayer rug. Finally, there were old weapons: the large jacaré[26] knife with a broad sturdy blade, the parna-hyba knife of the look-outs with blades as long as swords, the three-meter goad with the iron point, the hollow club filled with lead, bows, guns — the musket of thin reed loaded with gravel, the larger musket loaded with buckshot, the heavy harquebus capable of shooting stones and horns, the blunderbuss flared like a bell.

Everything was here; the inhabitants of Canudos had no need for anything else.

“The wandering jagunços were here pitching their tents for the last time, on that miraculous heaven-bound pilgrimage of theirs.”[27]

But each of those cabins were at the same time a home and a fortified nook. Canudos was to become the Münster of the sertão and its inhabitants “terrible baptists capable of loading deadly daffodils with rosary beads”.

Canudos generously opened its pantries, filled with gifts and the fruit of common labor, to those in need. Social activity was not directed by anyone; it was self-organized. Only brandy had been prohibited by common agreement. Some were busy with cultivation or tended the flocks of goats, while others kept watch over the surrounding areas. Groups were formed to travel far carrying out expeditions. But all the activity seemed to converge toward the construction of a new church, drawing its meaning from this; this was the common work around which the endeavors were organized. This society, which camped in the desert, was devoted to a sacred mission, considering itself a community, a society that was religious in its essence that gave body to its spirit by building its church stone by stone. The new church was erected at the tip of the plaza in front of the old one. Its greater, massive walls recalled the great walls of fortresses. The rectangular body would have been transfigured by two very high towers, with the audacity of a rough Gothic structure. “The truth is, this admirable temple of the jagunços was possessed of that silent architectural eloquence of which Bossuet speaks.” [28]

A great amount of livestock arrived from Geremoabo, Bom Conselho and Simão Dias. Bands went out from Canudos, going to attack the surrounding territories and sometimes conquering cities. In Bom Conselho, one of these bands took possession of the place, placed it in a state of siege and sent the authorities away, starting with the justice of the peace. Such warlike expeditions alarmed the constituted powers.

The provincial government, and then the federal government, denounced the holy city. It gave an example that was a threat to the state, so much the more so as its notoriety grew. There was a risk that the experiment would spread. It became urgent to wipe the city off the map, to make it disappear in fire and blood, to extirpate it.

Four increasingly impotent expeditions were undertaken against Canudos between 1896 and 1897.

“The cangaceiros would make incursions to the south, the jagunços would make forays to the north, and they would confront each other without uniting forces, being separated by the steep barrier of Paulo Afonso. It was the insurrection in the Monte Santo district which united them; and the Canudos Campaign served to bring together, spontaneously, all these aberrant forces which were hidden away in the backlands.”[29]

Infamous bandits revealed themselves to be formidable strategists. The inhabitants of Canudos made the armies waver.

In October 1896, the first magistrate of Joazeiro telegraphed the governor of Bahia, solicited his intervention with the aim of taking measures to protect the population, so he said, from an attack by the jagunços of Antonio Conselheiro.

On November 4, the governor sent an armed force made up of one hundred soldiers and a doctor under the command of Lieutenant Manuel da Silva Pires Ferreira. On the 19th, they reached Uaúa, a small village on the Vaza-Barris river between Juazeiro and Canudos. At dawn on the 21st, the jagunços brutally attacked them, practically fighting with cold steel against soldiers armed with modern repeating rifles. The rebels lost one hundred and fifty men. The troops counted ten dead and sixteen wounded. The doctor went mad. The troops arranged to retreat to Juazeiro.

Monte Santo today. This Brazilian city of Bahia had strategic importance in the “War of Canudos”, served as
the basis for the Brazilian military in time of conflict. – http://www.filmesraros.com

On November 25, an armed force (five hundred forty-three soldiers, fourteen officers, three doctors) with two Krupp cannons and two machine guns, under the command of Commander Febrônio de Brito, left Bahia at the time of the Queimadas. It reached Monte Santo on December 29. On January 12, 1897, it left for Canudos, taking the Cambaio path. On the 18th and 19th, the first battles took place in sight of Canudos as the army crossed the gorge, little blunderbusses against repeating rifles and machine guns. The jagunços attacked suddenly, disappearing to reappear a bit further away. They left many dead on the ground, but inflicted a harsh and unexpected defeat on the army that had to beat a hasty retreat to Monte Santo.

When the government became aware of the disaster that happened during the crossing of the Cambaio, it understood the seriousness of the war in the sertões, all the more so because the fame of Canudos spread throughout the sertão as a consequence of this enterprise.

On February 13, 1897, Colonel Moreira César, well-known throughout the nation, commanded the first regular expedition that embarked from Rio heading for Bahia. On the eighth day, the expedition reached Queimadas with thirteen hundred men and all the necessary equipment. At Monte Santo, they skirted the mountain from the east to arrive at Angico and on the peak of Favela the afternoon of March 2.

The Brazilian army colonel Antônio Moreira César http://cariricangaco.blogspot.com.br

Sure of his task, Moreira César launched an assault against the village after a brief bombardment. It was a catastrophe for him and his men. Like a trap, like an immense spider web, like a fish net, the village closed around the army. Every path, every dead end, every turn, every house hid determined people armed with large knives, pikes and blunderbusses. The army was quickly caught in a tragic hand-to-hand battle. It was a disaster that quickly turned into a panic. The famous Colonel Moreira César was fatally wounded. Colonel Tamarindo, who had replaced him, was killed.

“In the meanwhile, the sertanejos were gathering up the spoils. Along the road and in nearby spots weapons and munitions lie strewn, together with pieces of uniforms, military capes and crimson striped trousers, which, standing out against the grey of the caatingas, would have made their wearers too conspicuous as they fled. From which it may be seen that the major portion of the troops not only had thrown away their weapons but had stripped themselves of their clothing as well.

“Thus it was that, midway between ‘Rosario’ and Canudos, the jagunços came to assemble a helter-skelter open-air arsenal; they now had enough and more than enough in the way of arms to satisfy their needs. The Moreira Cesar expedition appeared to have achieved this one objective: that of supplying the enemy with all this equipment, making him a present of all these modern weapons and munitions.

“The jagunços took the four Krupps back to the settlement, their front-line fighters now equipped with formidable Mannlichers and Comblains[30] in place of the ancient, slow-loading muskets. As for the uniforms, belts and military bonnets, anything that had touched the bodies of the cursed soldiery, they would have defiled the epidermis of these consecrated warriors, and so the latter disposed of them in a manner that was both cruel and gruesome…

Brazilian Army soldiers with their rifles model Comblain -http://www.francisco.paula.nom.br

“…the jagunços then collected all the corpses that were lying here and there, decapitated them, and burned the bodies; after which they lined the heads up along both sides of the highway, at regular intervals, with the faces turned toward the road., as if keeping guard. Above these, from the tallest shrubbery, they suspended the remains of the uniforms and equipment, the trousers and multicolored dolmans, the saddles, belts, red-striped kepis, the capes, blankets, canteens, and knapsacks.

“The barren, withered caatinga now blossomed forth with an extravagant-colored flora: the bright red of officers’ stripes, the pale blue of dolmans, set off by the brilliant gleam of shoulder straps and swaying stirrups.

The fight in the backlands of Bahia – http://www.saojoseonline.com.br

“There is one painful detail that must be added to complete this cruel picture: at one side of the road, impaled on a dried angico[31] bough, loomed the body of Colonel Tamarindo.

“It was a horrible sight. Like a terribly macabre manikin, the drooping corpse, arms and legs swaying in the wind as it hung from the flexible, bending branch, in these desert regions took on the appearance of some demoniac vision. It remained there for a long time

“And when, three months later, a fresh expeditionary force set out for Canudos, this was the scene that greeted their eyes: rows of skulls bleaching along the roadside, with the shreds of one-time uniforms stuck up on the tree branches round about, while over at one side — mute protagonist of a formidable drama — was the dangling specter of the old colonel.”[32]

While in the sertão the epic deeds of Canudos were sung in poems where the undertakings became legendary, in the capital the government was not able to figure it out: Canudos was an impoverished village, not even on the map, and yet it had managed to be a match for entire regiments, putting them in check. The state resorted to inventing tales of political conspiracies, but began to seriously worry. It feared that little known sertão from which men armed for revenge emerged from every province converging on Canudos to join the fight. The university student Euclydes da Cunha wrote about this: “the jagunço… could do only what he did do — that is, combat and combat in a terrible fashion, the nation which, having cast him off for three centuries almost, suddenly sought to raise him to our own state of enlightenment at the point of the bayonet, revealing to him the brilliancy of our civilization in the blinding flash of cannons.”[33]

The resolute men of the sertão had found the place for their struggle: a village of huts with the appearance of a citadel. The state was forced to face the mute and tenacious hostility of those who knew quite well what the nation demanded of them: submission and resignation. Being neither submissive nor resigned, they would not allow themselves to be dominated.

In social war, the principle of war that postulates the annihilation of the enemy knows its most complete application, its conclusion, if you will. What is at stake in wars between nations is complex. It is essentially political, as is the stake in wars of national liberation. It doesn’t necessarily require the annihilation of the enemy. Rather it aims to impose a political will on one’s adversary and to thus create through the tools of war the conditions for negotiating with him. In this case, war is the continuation of politics by other means, as Carl von Klauswitz noted. In the other case, it demands the total and definitive destruction of the enemy. What is at stake is social: the suppression or the maintenance of servitude. There is no middle course.

Note the newspaper “O Paiz”, in Rio de Janeiro, April 8, 1897, on the death of colonel Moreira César

For the insurgent, it is a matter of putting an end to his slavery and there is no compromise possible on such an essential matter. For the master, it is a matter of safeguarding his social position, his privileges, and his status. No consideration external to the war itself is thus able to impede and moderate its violence. It is war in the pure, original state; it is what it originally was, pure negativity.

In a dangerous situation like social war, errors due to hesitation, vacillation and kind-heartedness are precisely the worst of things. Every consideration external to the purpose of the war, the total defeat of the enemy, would be fatal.

Since the use of physical force in one’s interests does not, in fact, exclude the cooperation of intelligence, those who ruthlessly avail themselves of this force without backing away in the face of any bloodshed, any moral restriction will have an advantage over their enemy, if the latter does not act on the same basis.

Violence, or rather physical violence (since moral violence does not exist outside of the concept of the State and Law, whose violence is that of the victor that imposes its will) thus forms the means. The end is overthrowing the enemy.

Social war is absolute brutality that does not tolerate weakness. Ignoring this element because of the repugnance it inspires would be a waste of energy, not to mention a mistake. Showing indecision at a certain point in relation to the predetermined aim means leaving the initiative to the enemy, a mistake for which one will pay quite dearly.

There can be no negotiation. Peace is either the return to slavery or the end of slavery. Whichever it is, it is the destruction of one of two possibilities.

After the defeat of the forces under the command of Colonel Moreira César, the newspaper notes “GAZETTE NEWS”, in Rio de Janeiro, April 10, 1897, comments on the new expedition Brazilian military forces under the command of General Arthur Oscar

On April 5, 1897, General Arthur Oscar organized the forces for the fourth expedition: six brigades in two columns. Battalions were conscripted from throughout the land, for national unity, the sacred union against the internal enemy.

The two columns were supposed to converge on Canudos. The one commanded by Arthur Oscar would go by the Monte-Santo road, while the other, under the command of Savaget, would pass through Jeremoabo, coming together to launch the attack at the end of June. But as they neared Canudos, both encountered some difficulties. Savaget’s column was attacked twice between Cocorobó and Canudos. The losses were heavy, and the general was wounded. “As always, the sertanejos were taking the edge off victory by unaccountably rising up again from the havoc of a lost battle. Beaten, they did not permit themselves to be dislodged. Dislodged at all points, they found shelter elsewhere, at once conquered and menacing, fleeing and slaying as they fled in the manner of the Parthians[34].”[35]

Things got even more serious for General Arthur Oscar, who had reached the peak of Favela that overlooked the village. After a rapid victory to conquer the position, he found himself a prisoner, besieged by those he had just beaten. He had to request aid from the Savaget column. On July 1, the jagunços attacked the encampments, and some tried to reach the “Killer”, the siege cannon (a Witworth 32) that bombed Canudos. They didn’t manage to do this.

The army found itself in a critical situation. Cut off from its supplies, it could neither advance nor retreat. “At the same time the rifle fire all around made it plain to all that this was in truth a siege to which they were being subjected, even though the enemies’ lines in the form of numerous trenches were spread out laxly, in an undefined radius, over the slopes of the hill… The bold and unvarying tactics of the jagunços were nowhere more clearly revealed than in the resistance which he offered even while retreating, as he sought every means of shelter which the terrain afforded… On the one hand were men equipped for war by all the resources of modern industry, materially strong and brutal, as from the mouths of their cannons they hurled tons of steel on the rebels; and on the other hand, were these rude warriors who opposed to all this the masterly stratagems of the backwoodsman. The latter willingly gave their antagonists his meaningless victories, which served merely as a lure; but even as the ‘victor’, after having paved with lead the soil of the caatingas, was unfurling his banners and awakening the desert echoes with his drumbeats, they, not possessing these refinements of civilization, kept time to triumphal hymns with the whines of bullets from their shotguns.”[36]

Two weeks later, supplies managed to arrive and the troops launched an attack on the village. They were defeated with considerable losses. In the army and the government, there was dismay.

High command of the fourth and final expedition in Canudos. In the foreground, from left to right, the generals-Brigadier João Barbosa da Silva, commander of the first column, Artur Oscar de Guimarães Andrade, general-in-chief of the expedition, Carlos Eugênio de Andrade Guimarães, brother of Arthur Oscar and commander of the 2nd column, Major Salvador Pires de Carvalho Aragon, commander of the 5th Police in Bahia, and two officers of the 1st Cavalry regiment. Foto de Flávio de barros, 1897 – http://www.scielo.br

A new brigade, the Girard brigade, was hastily formed in Queimadas, consisting of one thousand forty-two soldiers and sixty-eight officers. It set off on August 3 to supply Arthur Oscar’s army with men and provisions. On the 15th it was attacked and lost ninety-one blockheads, for which it earned the mocking epithet, the nice brigade.

The government now understood that it was no longer a question of making an assault against a village, but of organizing a genuine military campaign of several weeks, if not several months, with the aim of completely surrounding it. It understood that the war would be long and hard and that it needed to supply itself with the necessary tools.

Marshall Bittencourt was put in charge of the campaign. Two supplementary brigades arrived from Bahia and formed a division. A regular convoy service for Monte-Santo was organized. The army no longer risked being cut off from its rear and could thus be installed in a trench war. The long strangulation of Canudos had begun.

On September 7, Calumby road was opened, allowing the siege to come together.

On September 22, Antonio Conselheiro died.

Body of Antônio Conselheiro. Photo of Flávio de Barros – http://blogdainsegurancapublica.blogspot.com.br

The fighting resumed more fiercely around Canudos. The inhabitants discovered the spirit of initiative. With an astonishing outflanking maneuver, the skirmishes reached all the enemy’s positions, striking the entire front line, trench by trench.

At a single stroke, they unexpectedly got past every point of the front. They were beaten and driven back. Then they launched themselves against the nearest trenches. Again beaten and pushed back, they directed themselves against those that followed and went on this way. Even though unsuccessful, their assaults were unremitting, forming an immense ring-around-the-rosy dance before the troops.

“Those who, only the day before, had looked with disdain upon this adversary burrowing in his mud huts, were now filled with astonishment, and as in the evil days of old, but still more intensely now, they felt the sudden strangling grip of fear. No more displays of foolhardy courage. An order was issued that the bugles should no longer be sounded, the only feasible call to arms being that which the foe himself so eloquently gave….

“In short, the situation had suddenly become unnatural….

“The battle was feverishly approaching a decisive climax, one that was to put an end to the conflict. Yet this stupendous show of resistance on the part of the enemy made cowards of the victors.”[37]

A Jagunço captured by soldiers of the Brazilian army. This and other warriors who defended Canudos, after being captured were summarily executed by beheading. Photo of Flávio de Barros – http://www.scielo.br

The troops tried to reinforce the encirclement penetrating step by step into the interior of the village, but they met with a fierce resistance that thwarted their advance. Furthermore, the jagunços fell back, but did not run away. They remained nearby, a few steps away, in the next room of the same house, separated from their enemies by a few centimeters of pressed earth. There wasn’t much space in the village. This caused those who wanted to preserve themselves and who put up an increasing resistance to the soldiers by crowding them to gather in the hovels. Though they gave up on some things, they reserved quite different surprises for the victors. The cunning of the sertanejo made itself felt. Even in their most tragic moment, they would never accept defeat. Far from being satisfied with resisting to the death, they would challenge the enemy by taking the offensive.

On the night of September 26, the jagunços violently attacked four times. On the 27th, eighteen times. The next day, they didn’t respond to morning and afternoon bombings, but attacked from six o’clock in the evening until five the next morning.

24th Infantry Battalion. Commanded by major Henrique José de Magalhães, this battalion was originally from Rio de Janeiro. Reached the combat zone on August 15 with 27 officers and 398 enlisted personnel. Participated in the assault on the citadel of Canudos on the first day of October manning the front trench, line the rear of the command and general hospital. Photo by Flávio de Barros after the end of fighting, against the backdrop of the ruins of the old church – http://www.scielo.br

On October 1, 1897, an intensive bombing of the last hotbed of resistance began. A decisively cleaned-up terrain was needed for the assault. The assault had to happen at in a single strike, at the charge, with only one concern, the ruins.

No projectile was wasted. The last bit of Canudos was inexorably turned inside out, house by house, from one end to the other. Everything was completely devastated by the heavy artillery fire. The last jagunços suffered the ceaseless bombardment in all its destructive violence.

But no one was seen fleeing; there wasn’t the least agitation.

And when the final strike was shot, the inexplicable quiet of the destroyed countryside could have made one think that it was deserted, as if the population had miraculously escaped during the night.

The attack began. The battalions took off from three points to converge at the new church. They didn’t get far. The jagunços followed their attackers step by step and suddenly came back to life in a surprising and victorious way like always.

Corpses in the ruins of Canudos. Photo of Flávio de Barros – http://www.scielo.br

All the pre-established tactical movements were changed, and instead of converging on the church, the brigades were stopped, fragmented and dispersed among the ruins. The sertanejos remained invisible. Not a single one appeared or tried to pass through the plaza.

This failure resembled a rout, since the attackers were stopped and found themselves facing unexpected resistance. They took shelter in the trenches and finally got out of the fix by limiting themselves to a merely defensive strategy. Then the jagunços came out of the smoking huts and unleashed an attack in their turn, swooping down on the soldiers.

There was an urgent need to expand the original attack. Ninety dynamite bombs were launched against those who remained in Canudos. The vibrations produced fissures that crisscrossed over the ground like seismic waves. Walls collapsed. Many roofs fell to pieces. A vast accumulation of black powder made the air unbreathable. It seemed as though everything had vanished. In fact, it was the complete dismantling of what was left of the “sacred city”.

The battalions waited for the cyclone of flames to die down before launching the final attack.

But it wasn’t to be. On the contrary, a sudden withdrawal took place. No one knows how, but from the flaming ruins, gunfire poured out, and the attackers ran for shelter on all sides, mostly withdrawing back behind their trenches.

Without trying to hide, jumping over fires and those roofs that remained standing, the last defenders of Canudos leapt out. They launched an assault of wild audacity, going to kill the enemy in their trenches. These enemies felt their lack. They lost courage. Unity of command and unity of action dissolved. Their losses were now heavy.

In the foreground, a typical house of the place. Photo Flávio de Barros – http://www.passeiweb.com

In the end, at about two o’clock in the afternoon, the soldiers fell back in defense, tasting defeat.

But the sertanejos’ situation had gotten worse, since they were blockaded in such a reduced space.

Nonetheless, at dawn on October 2, the weary “victors” saw the day emerging under a heavy burst of gunfire that seemed like a challenge.

In the course of the day, taking advantage of a truce, three hundred people asked to surrender, but much to the chagrin of the military authorities they were just exhausted women, very young or wounded children and sick old people, all those who could no longer hold a weapon. They were slaughtered the following night (“And words being what they are, what comment should we make on the fact that, from the morning of the third on, nothing more was to be seen of the able-bodied prisoners who had been rounded up the day before…”[38]).

To tell the truth, there were no prisoners. All the wounded jagunços who fell into the soldiers’ clutches were finished off a bit later with cold steel.

“There is no need of relating what happened on October 3 and 4. From day to day the struggle had been losing its military character, and it ended by degenerating completely…. One thing only they knew, and that was that the jagunços would not be able to hold out for many hours. Some soldiers had gone up to the edge of the enemy’s last stronghold and there had taken in the situation at a glance. It was incredible. In as quadrangle trench of a little more than a yard in depth, alongside the new church, a score of fighting men, weak from hunger and frightful to behold, were preparing themselves for a dreadful form of suicide… a dozen dying men, their fingers clenched on the trigger for one last time, were destined to fight an army.

Ruins of the Old Church of St. Anthony – http://osertanejosdecanudos.blogspot.com.br

“And fight they did, with the advantage relatively on their side still. At least they succeed in halting their adversaries. Any of the latter who came too near remained there to help fill that sinister trench with bloody mangled bodies…

“Let us bring this book to a close.

“Canudos did not surrender. The only case of its kind in history, it held out to the last man. Conquered inch by inch, in the literal meaning of the words, it fell on October 5, toward dusk — when its last defenders fell, dying, every man of them. There were only four of them left: an old man, two other full-grown men, and a child, facing a furiously raging army of five thousand soldiers…

“The settlement fell on the fifth. On the sixth they completed the work of destroying and dismantling the houses — 5,200 of them by careful count.”[39]

The few men, women and children prisoners – http://osertanejosdecanudos.blogspot.com.br

Once again the law of the Republic ruled over the sertão. Thus, the heroic epic of Canudos came to an end. An adventure full of humanity that perished in sound and fury. Canudos, the empire of Belo Monte, was not defeated; it vanished together with the last one killed. It was annihilated.

In those days, in the province of Ceara, a vast, religiously inspired social reform movement developed under the guidance of Father Cicero. This movement experienced a less tragic end, because Father Cicero knew how to navigate his way with authority among the political components of the region, with full respect for the state and property, a compromise before power that assured him not only impunity, but a position recognized and respected by all.

The young priest Cicero Romao Batista – http://osertanejo.blogspot.com.br

This movement was of a more priestly rather than blatantly messianic inspiration. The spirit of Catholicism in both its political and social sense animated the movement more than the spirit of millenarianism, which is purely social and has nothing to do with politics. It intended to rediscover the pattern of the primitive Church: devoting political means to a social mission.

Padre Cicero had exceptional prestige. He was the only Brazilian messiah to belong to the clergy. All the others were lay people who were carried into divine service by vocation, but never took holy orders. He was sent into the hamlet of Juazeiro in 1870, in the early days of his ministry, and traveled throughout the region preaching. After this period of Franciscan poverty, he started to animate social activity around Juazeiro with an ideal of peace according to which the interests of all were supposed to prevail over particular interests, the source of quarrels and conflicts. He had managed to convince small property owners and peasants to stop living on their land and instead move to the village, near to him. In the morning they went to work in the fields, and in the evening they came back.

A traffic of pilgrims began in Juazeiro. They came to ask the blessing and counsel of Padre Cicero.

Photo from the 1920s, showing the center of Juazeiro in the state of Ceará – http://www.cidadejua.com

In 1889, when the Republic was proclaimed, Padre Cicero reacted in his way by carrying out his first miracles, which consolidated his position and prestige. The republican state didn’t dare to provoke hostilities and tolerated this movement that criticized the bourgeois spirit without criticizing the state. Pilgrims became increasingly numerous. Many settled in the holy city of Juazeiro where they found protection with the “little father”. The Church was disturbed by this and tried to put an end to the turbulence which it considered dangerous. It ordered Padre Cicero not to say mass or preach anymore, but it could not force him to leave Juazeiro. It was afraid that his followers would mobilize to defend him, something that must be avoided at all costs.

Padre Cicero had allies among local political leaders. His prestige, his influence, the progressive electoral force he had available to him, pushed him to strengthen his growing political authority by getting himself elected as municipal prefect.

Here we see an elderly priest Cicero among its followers – http://www.terra.com.br

In 1914, the victory of enemies made his relations with the provincial government difficult. The “little father” then called his followers to holy war against the provincial government that represented the Antichrist. God wanted it to be overthrown so that perfect happiness without shadow could reign on earth. These incitements to struggle caused troops to be sent against the New Jerusalem. But unlike the Counselor, Father Cicero enjoyed important political support in the capital of Brazil; and besides, above all, this insurrection was limited to political goals and didn’t have the ambition of overthrowing the constituted order. The prophet’s followers, with federal complicity, triumphed over the forces deployed against them and placed the provincial capital under siege, putting the governor to flight. The victorious Padre Cicero officially became the vice-governor of the state of Ceara.

In the picture we see men who fought the forces of Father Cicero, against the troops of the governor of the state of Ceará in 1914 – http://pt.wikipedia.org

In a world shattered by the continuous warfare that raged among the great families and for which the poor unfailingly paid the price, Father Cicero could institute a more peaceful society, thus improving the tragic situation of those who had nothing. He was able to do so, because he spoke in the name of the highest authority, divine authority. In this way, he put himself above the fray, beyond the local quarrels, the only way to be heard by all. In a world increasingly dominated by selfish interests, only religion could unite, at least in appearance, what was separated in deed. In sermons, Father Cicero reproached the “small” and the “great”, because they did not live according to the divine laws of charity, mutual aid and the forgiveness of offenses. He was thus able to put an end, at least temporarily, to the hostilities between families, to blot out discord, to renew alliances, to become the arbitrator of disputes, the indisputable and undisputed master of the region, the “little father”.

His movement had a conscious function of social reform. The followers made donations to the messiah that served to form a common fund to provide for the needs of the sick, widows and orphans, to buy land, to finance enterprises (Juazeiro, a small hamlet in 1870, would become the second city of the province under the stimulus of the prophet, with 70,000 in habitants). But it also had a guardian ship function for the existing system: the ideal of fraternity and equality was rigorously understood as fraternity and equality in faith and before god.

When Canudos defended its freedom with arms in 1896–1897, some men left Juazeiro to go to the aid of the commune of Monte-Santo, but the entire city didn’t rise up. And yet, at that time, an insurrection in Juazeiro would have absolutely meant the greatest danger for the Republic, which furthermore was very careful not to challenge it. The state would have found itself forced to conduct a war on two fronts. Considering the tremendous difficulty that it encountered in getting the best of the rebels of Canudos, one could legitimately ask what it would have been able to do in the face of an insurrection of the entire northeast, a thing that would certainly have happened if the movement in Juazeiro had committed itself to that struggle.

In the final analysis, in a period disturbed by increasingly bitter rivalry between particular interests, Father Cicero brought social peace. This allowed the poor of the region, along with those who came from the coast, to breathe, to relax and to rediscover with him, if not the hope of a new life, at least that of a better life.

1934 – Funeral of Father Cícero – http://oberronet.blogspot.com.br

After his death in 1934, various messianic movements developed in the sertão. Most of them were immediately stopped by the action of the local authorities, unless they learned to follow the example of Father Cicero and come to terms with the politicians of the region. This was the case of Pedro Batista de Silva’s movement in Bahia. He succeeded in making the Santa Brígida precinct, where he established his messianic community and over which he ruled with uncontested authority, rise in the ranks of city hall.

This was not the case of the blessed Lourenço’s movement, which lasted from 1934 to 1938 and ended tragically.

In the image of the “warrior saint” Antonio Conselheiro, the blessed Lourenço founded a colony similar to Canudos in the plain of Araripe, also fully within the sertão. Here again, the poor who no longer wanted to submit to being slaves occupied the land, establishing a kind of primitive communism, a phalanstery. Everything produced was held in common. This scandalous practice that openly challenged the big property owners by violating or, worse, ignoring the laws of private property (sacred laws that established the social authority of the possessors) would rouse the almost immediate reaction of the united forces of the constituted order. The sertanejos took up arms, scythes against cannons as in Canudos, resisting to the death. They were all slaughtered after a fierce and relentless battle, but it was too unequal. After a short time, the law of the Republic again ruled over the sertão.

Virgulino Ferreira da Silva, the “Lampião”, the most important bandit of Brazil – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br/

In 1938, the blessed Lourenço’s movement ended in a bloodbath. It was the last revolutionary messianic movement. On July 28 of the same year, Lampião was killed with some compadres at Angico. His death would be the death-blow inflicted on cangaceirismo. The police would easily manage to get the better of the last scattered, unsettled little groups that lacked protection or complicity. The slaughter would be brutal.

The cangaceiro was the social bandit of the northeast of Brazil and the cangaço was his band. The cangaceiro avenged himself for a humiliation, an injustice, for the blackmail imposed by a “colonel” or the police, for the murder of a relative. He then decided to exclude himself from society and go into hiding by uniting with an already existing band, a band that would allow him to survive through organized theft and escape the police forces that were hunting for him.

An avenger more than a righter of wrongs, the cangaceiro embodied generalized rebellion against the whole social order.

Drawing a typical cangaceiro and his characteristic outfit – http://www.eunapolis.ifba.edu.br

The cangaceiro bands that traveled around the northeast at the end of the 19th and the beginning of the 20th century stood side by side with the millenarian movements. In both equally, we find the same contempt for property and thus for the law, the same taste for wealth, the same generosity, the same challenge launched against the state and its cops, the same fierce determination, the same fighting spirit, the same fury. The boundary between the two was faint when not non-existent, and the passage in either direction was easy. We know of famous bandits, seduced by the prophecies of the Conselheiro, who participated in the founding of Canudos or rushed to defend it, bringing their skills and experience. Lampião thought so highly of Father Cicero’s movement that he always avoided the province of Ceará in the course of the raids.

In both cases, the same people were involved.

“From a very early age,” the university student Euclydes da Cunha wrote, “the inhabitant of the sertão regarded life from his turbulent viewpoint and understood that he was destined for a struggle without respite that urgently demanded the convergence of all his energies… always ready for a conflict where he wouldn’t be victorious, but he wouldn’t be conquered.” It probably wasn’t the nature of the northeast that molded the fierce character of these people; but they were truly indomitable people who preferred death to slavery. They were always quick to defend their freedom, the idea they had of man, a certain vision of wealth, with the greatest vigor and boldness. They stood against the entire world; and from all sides, they were destined to a struggle without respite that urgently demanded the convergence of all their energies, to a war in which they would not allow themselves to be conquered.

Cangaceiros – http://www.grupoimagem.org.br

Millenarians or cangaceiros, they were cowhands, sharecroppers, mule drivers. They were part of the rural society that was continually threatened in its existence and substantially in its freedom. They had been produced by it. They not only found a real complicity in this society, but they also expressed its deepest aspirations.

All in all, very little differentiates the two groups. The millenarians were carriers of a positive social project, but it had a religious essence, while the cangaceiros were carriers of a purely negative social project that was not religious in its essence.

United around a prophet through faith in the imminent arrival of the Millennium, through the same aspiration for a new life, the Brazilian millenarians formed a spiritual community that intended to organize itself in expectation of the final event, preparing for it. This messianic community did not have the ambition of realizing the Millennium itself, but it did already oppose the spirit of the existing world in a radical way by recognizing itself in the community of a future world. It carried within itself a positive social project that essentially remained religious; it formed the idea of a society not yet realized and whose realization did not belong to it. It was the premonition of this new society.

http://www.1000dias.com

The cangaceiros recognized themselves in a simple idea, revenge, the realization of which touched them directly. They formed a warrior community whose social project (revenge is, indeed, a social project) was absolutely negative and for the most part completely personal. Each one had his revenge to carry out. It belonged to her and related to a given person or, more generally, a given family. And he intended to bring it to a good end, if he had not already done so. The entire constituted order was opposed to her revenge. By carrying it out, the cangaceiro challenged the entire society.

The cangaceiro did not criticize the society in which she lived, but the goal she pursued made him a rebel. The millenarians didn’t seek to avenge themselves or, more precisely, the hour of vengeance did not belong to them, since it was up to God or a supernatural being like king Dom Sebastião, but they criticized society. Thus, it was almost inevitable that they would meet, as they did, in fact, in Canudos. The state arranged to transform a spiritual community into a warrior community and an individual in search of revenge into a social bandit.

Members of the elite of a city in northeastern Brazil, during the visit of a high dignitary of the Catholic church. The most prominent members of this select group were known as “colonels” – https://tokdehistoria.wordpress.com

The insult that the cangaceiro had to erase came both from an individual and from the society that supported that individual, that was his accomplice. The offense didn’t come from an isolated individual, from one’s likes — in those days, settling such an insult would not have been a problem — but from a social authority. It could be an insult from a “colonel” or someone in his circle, which amounts to the same thing. The offense came from a fazendeiro who was invested with both a social authority as a large property holder and a political authority as a representative of the state in the region. The vengeance of the cangaceiro, in fact, was a social vengeance. Carrying it out didn’t just mean confronting an individual, but also the state that stood behind him.

The cangaceiro made his own justice toward and against the state, which always stood on the side of the one who offended him. His inalienable and universal right as a free individual came into conflict with the objective Right of the state, the substance of which is revealed precisely in forcing the individual to alienate her universal and immediate right to freedom.

“It is enough that the I as free being am alive in the flesh, because it is prohibited to degrade this living existence to the rank of pack animal. While I live, my mind (which is concept and also freedom) and body are not separate; this constitutes the existence of freedom, and it is in this that I experience it. It is a sophistic concept without idea that makes the distinction according to which the thing in itself, the mind — and even the idea of it — , is not struck when the body is abused and when the existence of the person is subjugated to another’s power.”[40]

Groups of officers who hunted the bandits were known as “Volantes”. These men used uniforms very similar clothes worn by bandits. The reason was the need to protect the vegetation typical of dry region of Northeast Brazil, very thorny and known as “Caatinga” – https://tokdehistoria.wordpress.com

By avenging himself, the sertanejo realized his idea that all human beings were equal in their humanity; he became effectively free, for himself and for others. For him, this passage of the idea into concreteness corresponded to the passage into clandestinity. He abandoned an abstract civil existence that suddenly appeared for what it was, a servile existence. Thus, he became a cangaceiro.

Freedom is a risk to take. Suffering an insult without reacting means submitting to the power of another, falling into slavery. This corresponds to a person’s social death, to which she can respond only with the master’s death.

Faced with an essentially human reaction, the academics of our times, like Josué de Castro[41], go so far as to even speak of a nutritional deficiency to explain the rebellion of the cangaceiros or the millenarians, and talk of flight when they should confront the state and the world. Who knows, maybe in referring to these academics, one could have spoken of a chronic deficiency of the most elementary intelligence of human practices.

The sertanejos possessed this intelligence, recognizing themselves in the cangaceiros and appreciating them as courageous human beings who preferred to put their lives at stake than to die as slaves. The fact is that from one moment to the next any sertanejo might have been forced to go into hiding for similar reasons. These people were on the verge of slavery. Their existence as free human beings ceaselessly threatened to collapse into submission, to fall or return into slavery. They were always ones who lived and reacted in haste.

In June 1927, Lampião attacks the town of Mossoró, in state of Rio Grande do Norte. After this attack took place this photo in the city of Limoeiro, in the state of Ceará. You can see some hostages – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

The cangaceiro showed through his actions that even the poor could become terrifying. Feared and admired, a cruel hero and a bandit with a big heart, he quickly became a mythical figure of the sertão.

In the cangaceiros’ heroic deeds, it is difficult to distinguish legend from reality. The testimonies, the depositions, the poetry, the stories and the news articles accumulated and contradicted each other. Reality itself, in which shameful self-interest, betrayal and complicity, boldness and deceit were mixed, was not only complex and contradictory, but already legendary. With the cangaceiros, reality had been pierced by an idea. It belonged to an epic poem.

In the 19th century, starting from Brazil’s independence, social banditry spread within the country, reaching its peak at the proclamation of the Republic. Then it took on the traits of modern cangaceirismo, which would reach its culmination in Lampião in the 1930s.

Antônio Silvino – https://tokdehistoria.wordpress.com

At the beginning of the 20th century, two figures stood out: Antonio Silvino and Sebastião (Sinhô) Pereira, with whom Virgulino Ferreira, the future Lampião, took his first steps. Legend has presented them to us as especially good and generous, in the style of social bandits like Robin Hood. Antonio Silvino was captured in 1914 and sentenced to thirty years in prison. He was released after twenty years. Sinhô Pereira withdrew into “public life”.

Virgulino (Lampião) was born in 1897 in a small village in the province of Pernambuco, where his father was a sharecropper on a small plot of land and also a mule driver. One day, a detachment of the police, whose commander was linked to a hostile family, slaughtered the old man and the mother.

Virgulino and his brothers burned the mourning clothes in the barnyard and swore that from that moment on they would no longer carry on mourning, but would rather carry the gun. The sisters were entrusted to the youngest of them while the others went into hiding. But finding themselves in an extremely precarious and uncertain situation, after a few victorious conflicts with the military police, they united with Sinhô Pereira’s cangaço.

In this photo we see sitting Sinhô Pereira, the first head of the Lampião. Beside him is his cousin Luiz Padre. These two famous outlaws fought many battles in the state of Pernambuco – http://cariricangaco.blogspot.com.br

One of Lampião’s first endeavors was the murder of “colonel” Gonzaga, director of the Belmonte police in the state of Pernambuco. The man was killed with his entire family, and even the goats and chickens in the barnyard were slaughtered. In the end, Lampião removed the wedding ring from the corpse, put it on his finger and didn’t take it off again until his final day.

When Sinhô Pereira retired in 1922 (this could happen when one could count on the implicit blessing of Father Cicero), Virgulino became the indisputable leader of the band. Though he went on to become the most celebrated of the cangaceiros, he would also be the last. Lampião wrote the final chapter of a history.

His nickname, Lampião (lamp, lantern), came to him from one of his early battles. In the course of a nocturnal ambush, he had taken to firing so quickly that it lit up the night.

For nearly twenty years, throughout the sertão, Lampião would wander from one province to another over an immense landscape, appearing in an unpredictable manner, scrambling his trails, always turning conflicts with the police to his own advantage.

In this photo we see the left Lampião and beside his brother Antônio – http://cariricangaco.blogspot.com.br

“Let’s leave civilians in peace. Against police and traitors: FIRE!”

The blows were frequently struck by small groups commanded by the best men, while the leader controlled everything. Sometimes the entire band took part in genuine war expeditions. Lampião studied routes, sought to discover where there were concentrations of money, followed the movements of the “flying squads”. He was considered a “modern” bandit and used strategy and tactics most skillfully.

The band stayed hidden for long periods in a safe place, a forest, an inaccessible mountain chain, a desert oasis or the fazenda of a friend. The people only moved in small groups to resupply ammunition, a very difficult enterprise, to deliver messages demanding money and to buy food and other things. They moved in a limited radius, just a dozen people with a guide, if need be; the round lasted a week at the longest. At times, if the situation became too hot, the band literally disappeared without leaving a trace, deliberately spreading news and signals that confused the trails and making the police and beaters go crazy. Then the cangaceiros rested and recovered from the fatigue of their latest endeavors, preparing the next ones with high spirits.[42]

Lampião and his band on horses. Note that one of the bandits uses a military bugle – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

Expeditions lasted several months and could cover several northeastern provinces. Lampião extorted money from the rich property owners, villages and sometimes cities of a certain significance. He presented himself with his band, receiving the money collected from the rich, merchants and property owners directly from the local authorities. In some cases, he visited the school while the men sat in the plaza of the church, then usually everything ended with a banquet followed by dancing. The feast started with great binges of overflowing glasses of a brandy called “a testarda” (“the stubborn woman”). Poetic challenges were launched where the best bards confronted each other, while encounters came together and dissolved… In the night, the troop took off singing their story to the tune of “Mulher Rendeira”.

Olé, mulher rendeira
Olé, mulher renda
Tu me ensina a fazer renda,
Eu te ensino a namorar!

Sometimes things went badly. For example, during the attack on Inharéma (sic) in Paraíba. The cangaceiros did not succeed in taking the center of the town. That time, mad with rage, they retreated, destroying, looting and burning everything that they found in their path.

“Upon returning to the state of Pernambuco at the end of 1925, Lampião occupied the city of Custódia, but in the most peaceful manner in the world. The bandits spent the day passing through the streets. Everyone paid for his purchases. All around the area sentries kept watch. Lampião extorted a few rich bastards, bought provisions, medicine and ammunition. The tailor made clothing for him, finishing it the same day, as promised, and was paid handsomely for it. Lampião sent a telegram to the state’s governor, telling of all the colors, but he didn’t pay for this on the pretext that the telegraph was a ‘public’ service. The police detachment, having disappeared at the first alarm, gave no signs of life.”

Typical city in northeastern Brazil during the first half of the twentieth century – http://caririnews2011.blogspot.com.br

At Carnaíba de Flores, he surrounded the city and delivered a threatening message: if the sum requested was not handed over, he would set fire to the village and slaughter everyone. The sum was considerable, but not excessive, and so the village notables immediately began to make a collection. But suddenly a very large, unexpected “flying squad” brigade appeared, and the cangaceiros, warned by their sentries, prudently withdrew. Afterwards, the band presented themselves again without warning, took the dialogue that had been interrupted a few months earlier back up and obtained satisfaction.

An episode that was well-known and widely talked about due to the rank of the victim was the attack against the fazenda of a very rich aristocrat, the baroness of Água Branca. Though he didn’t touch the jewelry the lady wore, Lampião plundered the rest, pins, rings, bracelets, necklaces, precious stones and other objects of gold, among which was a golden chain that he later gave to his partner Maria Bonita. She wore it until her death, after which it ended up in the pocket of some soldier or officer.

The Lampião partner, Maria Bonita. She died along the famous bandit in 1938 – http://memoriaesentimento.blogspot.com.br

Thus, Lampião unfailingly walked his road, devouring mile after mile of the sertão.[43]

In 1926, he met Father Cicero in the holy city of Juazeiro. Along with the title of captain, he received modern armaments and ammunition from the government. He was supposed to go fight the Prestes column (Luís Carlos Prestes would later become the secretary general of the Brazilian Communist Party) that had been formed following the failed coup d’etat of the democratic officers and that had undertaken a long march through Brazil. Lampião accepted the priest’s blessing, the title of captain and the arms, but took care not to attack the Prestes column, since he didn’t consider it his affair.

Photo of the leaders of the insurgent group known as “Prestes Column”. This group was led by the Brazilian Army captain Luís Carlos Prestes, who fought against the government structure that existed in Brazil in the latter half of the 1920s. http://rotadosolce.blogspot.com.br

In June 1927, Lampião set a course for an important city, Mossoró, which was even richer than the others, in the state of Rio Grande do Norte. He communicated that he demanded a high ransom. As his whole response, the prefect sent him a package containing one rifle shell. The “captain” was enraged. In one village, the cangaceiros threw a merchant onto the pavement, distributing his pieces of cloth to the poor. In others, they pulverized all that came within range. It was a technique of terror.

In the end, the cangaceiros divided into four groups and attacked the city. But Mossoró and its police expected them. Lampião underestimated the enemy and found himself at a disadvantage. Always a realist, he sounded the retreat and the one hundred fifty bandits fell back in perfect order. The loss was minor. The cangaceiros made neighboring cities pay dearly for the defeat. Lootings multiplied. But they didn’t linger in Rio Grande do Norte, which had a terrain that was hostile to them (extensive plains without mountains or forest). Furthermore, that adventure had at least brought them a large amount of loot. Therefore, Lampião coined a maxim: if there is more than one church in a city, it is best to leave it in peace.

During more than twenty years of struggle, Lampião made ​​news in several newspapers, like this 1926

During the return journey to the state of Pernambuco, his most violent conflict with the police occurred; ninety-six cangaceiros against more than two hundred fifty macacos. Lampião, sure of his chances, launched himself furiously into a struggle that to all appearances should have been fatal to him. The men were divided into three groups, and the battle ended with the defeat of the state troops who, despite their machine gun, left more than twenty dead on the ground and carried away about thirty wounded. The losses on the side of the cangaceiros were minimal. Sometimes an act identical to a thousand others becomes a legend, but a witness has reported that he saw it with his own eyes.

So one passes from one year into another, from one state into another, recalling an adventure, a name, an anecdote or even a mere gesture.[44]

Terrifying and magnificent with their leather hats shaped like half moons and decorated with a profusion of medals, silver and gold coins, collar buttons, jewels, rings, in a barbaric and prestigious luxury.

The bandolier of the rifle also overflowed with an infinity of buttons and medals. Pistols and revolvers had holsters of worked and decorated leather, like the belts. Even their saddlebags were richly embellished. The unfailing sharp dagger, about twenty-five to thirty inches long, that was the accessory of the true cangaceiro was slid into its inlaid sheath. They were the incarnation of the mythical warrior, the Avenger.

Lampião and Maria Bonita – http://onordeste.com

They arrived suddenly. They emerged from the desert, there where they were no longer expected, to vanish as if by magic into the endless expanse of the sertão. In the villages they passed through, they opened the doors of the prisons and the strongboxes of the rich. They seemed to possess the gift of ubiquity. Omnipresent, they escaped police forces as if by magic, the body impermeable to bullets, death and misfortune.

“He takes from the rich to give to the poor” — so it was said of the cangaceiro. In fact, the cangaceiros lived abundantly: always ready for battle, but dissipating the fruits of their robbery in feasts, richly decorated clothes, thousands of acts of generosity that they dispensed around themselves. With their behavior in the face of wealth, they were the exact opposite of the great local property owners. The wealth that the latter had accumulated, the cangaceiros distributed anew. The big landowners conceived of wealth only as private goods, which excluded others, impoverishing them. The cangaceiros, by consuming what they had taken, made everyone participants in the luxury.

Other bandits who participated in the band of Lampião – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

Whereas in the ancient “feudal system”, power came from conquest, now it is increasingly based on money. The cangaceiros represented the power that despises money. Expending their dough in purchases paid for without haggling, in banquets and in gifts was a question of honor for them.

If the state guaranteed the power of the “colonels” and the right to property, actually the right to exploit other people’s labor, the cangaceiros seemed to revive the tradition of the bandeirantes, whose great and tireless warrior caravans followed one another in the conquest of the northeast. “Far from the coast, where metropolitan decadence was found, the bandeirantes, profiting from extreme territories such as Pernambuco in Amazônia, seemed to belong to a different race due to their reckless courage and resistance to adversity.”[45]

While the “prestige” of the fazendeiro was based exclusively on exploitation, the cangaceiro rekindled the spirit of conquest. He had gained the money that he dispensed so generously by risking his life, robbing the rich and powerful who were loathed but feared by all.

In the 1930s, the state felt the necessity to reinforce its control over the entire northeast and to completely pacify that vast region far from central power. The reorganization of the police, the institution of checkpoints, the use of radio and telephone, the introduction of more efficient instruments, the development of roads and means of transportation; a vast apparatus was put into action to liquidate banditry. Repression intensified.

Not by chance, during the last years, Lampião remained hidden most of the time. The ranks had diminished. Ammunition had become increasingly dear and almost unfindable. Toward the end, only fifty-five men remained, and when any action was carried out, it almost always occurred in small groups.

Cangaceiro known as “Zeppelin” and his fighting material. In this type of fighting in northeastern Brazil, it was normal for the police to cut the heads of cangaceiros and photographing. This macabre practice was used to present to senior officers and other authorities the result of the fighting.

Specifically, a betrayal caused Lampião’s end.

On July 28, 1938, he was poisoned in Angico, in the state of Sergipe, with some men and his partner Maria Bonita. His “compadre” Corisco’s revenge was terrible. He massacred the entire family of the traitor, who was enrolled directly in the military police.

Corisco’s history was that of all his comrades: revenge and flight. He had been drafted into the army and then deserted. Also a victim of injustice and abuse, he was furthermore humiliated to the point of being trampled by a police deputy. He entered the cangaço. He quickly became the best cangaceiro after Lampião. He managed to find the police who had humiliated again, took the deputy by the feet, ran him through, and inflicted a number of cuts on him with the dagger, making him bleed slowly like a pig.

In 1938 ended the career of Lampião, his wife Maria Bonita and his band – http://www.fabiobelo.com.br

After Lampião’s death, Corisco continued to scour the countryside with his men for nearly two years. In March of 1940, in a small village of the caatinga of Bahia, surrounded together with his partner Dadá by the macacos (who also had a machine gun), he refused to surrender. He died almost an hour later.

That was the end.

The cangaceiro gave evidence in himself of the possibility of shaking off the yoke of oppression, which is neither invincible nor eternal. Judgment can always fall, unexpected, upon the rich and powerful. The cangaceiro only caused the pieces to be put back in play, also showing that the struggle is pitiless and that freedom must be conquered. The cangaceiro was energy directed toward a new form of life. All things considered, the cangaceiro was the revolution.

This epic poem has been sung at fairs and feasts where poems are improvised. This one tells of the Arrival of Lampião in Hell:

There was great damage
In hell that day.
All the money that Satan
Possessed was burned.
The registry of control and more than six hundred million cruzeiros
Of merchandise alone
Were burned.

Starting in 1940, the northeast territory was completely pacified. Order was maintained through terror. The northeast was under armed occupation, even if it wasn’t under ideological occupation.

It was not always this way. This omnipresence of the state generated the sleep of the Mind, a true nightmare for the poor. It prohibited any discussion about the world. The idea of the state was beyond any critique; the world had become a fatality.

The Brazilian messianic movements, on the other hand, had developed at a time when discussion was still possible. For nearly century in that distant region, the poor had debated about the world.

The anthropologist Lanternari

The historical or human dimension seem to be absent both in Vittorio Lanternari’s interpretation[46], which sees in them a reaction of oppressed people that “attempts to escape an oppressive situation that holds the entire society in subjection”, and in Pereira de Queiroz’s interpretation[47], that, contrarily, notes an aspiration to order in a society in which “a freedom that is much too great reigns, a freedom that degenerates into licentiousness.”

The historical conditions that controlled the development of these movements are comparable to those that we encountered at the end of the Middle Ages in the west: a social organization that has become archaic is decomposing while a new social order is progressively established. The world debates about the world: the mercantile spirit versus the feudal spirit. The poor participated in their own way in the debate. They didn’t want to hear about either one, especially not the mercantile spirit, of the world that will be. For them it wasn’t a question of choosing between the past and the future; they weren’t paid by the state like sociologists or historians. Much more simply, it’s a matter of implacably resisting the bourgeois spirit, not because this overturns their customs, but because it is completely opposed to the idea that they developed of a human society. This is an excellent reason! They really struggled against progress, progress in the world of capitalist thought.

Thus they initiated in practice a debate of ideas between their social project and the social project of capital; between the idea they have of a human social practice and money as social practice.

The millenarian movements of the medieval era were at the center of a historical mutation from feudal to mercantile society. This mutation was already completed almost everywhere in the world when the Brazilian movements appeared. It was as if they found themselves at the historical edge of the mutation, a situation that explains their purely messianic character. They were expecting a cosmic upheaval, the hour of god’s vengeance was supposed to arrive at any moment. For the most radical medieval millenarians, the hour had come to accomplish that upheaval; with god’s help, they participated actively in the earthly realization of the Millennium, whereas the Brazilian messianic movements could only prepare for it.

Typical housing in Northeast Brazil – http://www.infoescola.com

The millenarian insurrections of medieval Europe had to confront an old and new principle. They were immediately critical in the face of the Church and Money. The fact is that the Church was a historical tradition and Money was a historical novelty. The society of northeast Brazil was religious in essence, but the Church had few roots there. As to the bourgeoisie, they were nonexistent. The poor wouldn’t have entered into direct conflict with the Church or merchants. They would have risen up against a mentality that insinuated itself into society, transforming minds. When conflict broke out, it was immediately against the state.

The messianic movements developed in a region that still did not know modern conditions of exploitation; an arid, often desert-like region that didn’t interest either the big merchants or industrialists. The wageworker was practically unknown there. But this area was surrounded by the modern world and modern mentality. To the south, the capitalist point of view had been imposed since the beginning of the previous century with the great coffee plantations. This monoculture addressed itself solely to exportation; it was completely dependent on the laws of competition, from the international market and stock market speculation. It required a modern organization of work, an industrial discipline. It constituted this social control by itself. It was its essence, because it created the conditions of an absolute dependence on money in practice. To the east, the seacoast, which had been employed in mercantile exchange with the metropolis from the start, very quickly found itself in a process of modernization of this activity. The “senhores de engenho”, the masters of the primitive sugar refineries, could no longer bear foreign competition. Slavery itself, which cost much too much, had been abolished by the republic and replaced with a more rational form of exploitation, wage labor, that made the worker directly dependent on money. With the aid of foreign capital, new factories were built, leading to a growing demand for sugar cane. The masters launched themselves into the acquisition of land: a devouring eagerness, no problem of fertility, it was enough to plant more and more there. And where one could not plant, one raised livestock.

This is how the capitalist mentality penetrated bit by bit into the sertão, deeply disrupting customary relationship; it was necessary to make money, and as quickly as possible. Furthermore, the conditions of exploitation became draconian; many found themselves without land or work, in the darkest, most desperate misery. They fled in mass from the coast where it was impossible to survive, taking refuge in the interior. Since this disoriented population was not integrated in force into the system, they went to swell the ranks of those who followed the millenarian prophets. In the end the exchanges between the interior and the coast (leather for saddler-making or for packaging rolls of tobacco, oxen for sugar mills and plantations) that balanced social life in the sertão, was to be brutally compromised by capitalist industrialization. This rupture in the exchanges would have tragic consequences for small farmers, cowhands and sharecroppers; it would call the relationship that linked the cowhand or the sharecropper to the owners of the land back into question. All this was reflected in local disputes, exacerbating them.

It is still common in the Northeast of Brazil the use of animals for transportation – http://portaldoprofessor.mec.gov.br

It is necessary to understand the origins of the millenarian movements. They developed in a region of relative freedom, where neither the state nor the church was omnipresent. But this region suffered the repercussions of the capitalist offensive from within this process due to the force of circumstance. Little by little, the traditional “client” relationships were replaced with indifferent, impersonal relationships, money relationships. From that moment on, betrayal was in the air. Respect for giving one’s word was replaced with the value of money that respects no one’s word. Deprived of all dignity by the allurements of profit, the large property holders betrayed customary rights without scruples and did their best to make the existence of the poor abominable. There was now something rotten in the sertão.

Once the animal breeders, property owners, cowhands and sharecroppers generally led the same life. The family formed the basic cell of society, not the conjugal family, but a great family, an “extended family”. The ties were formed from a familial nucleus (brothers and sisters, cousins, godchildren) and from one’s clientele (bastard branches, sharecroppers and old slaves). But these lineages had a leader. Within the family group, all those who had the same preeminent position received the title of colonel, but there was also a “colonel of colonels”.

An unspoken contract of exchange of services existed that insured the cohesion of the group and reinforced the position of the colonel, who had the duty of helping relatives and his faithful men: transfer of land, respect for sharecropping contracts (the cowhand possessed a part of the herd just like the sharecropper had a part of the harvest, a part fixed by custom), loans, guarantees of judiciary defense… this entailed a moral obligation that put those involved at the colonel’s service. Repayment in money was rare if not nonexistent.

Political power always formed the biggest stake in the struggles that opposed clans to each other in the interior of Brazil. The colonel was born to command; he had inherited the land and derived his power from this. The state only reinforced him with its safeguards, with its legal aid. The colonel was determined to jealously defend his social position. He enjoyed absolute impunity. It was said that the activity of a colonel who was respected was envisaged by every page of the penal code. He protected and conserved his power and prestige, by maintaining genuine bands of armed men, into which the men that depended upon his jurisdiction were conscripted during times of conflict between families. He was the real authority of the region.

Long periods of drought affecting the economy of Northeast Brazil – http://vereadorgilsondejesus.blogspot.com.br

No limits were imposed on the colonel, except respect of his word and tradition; all were at the mercy of his will. Greed could make him a terrible man. Thus, treachery was the immediate danger; everything was in danger of falling into the most arbitrary abuse. This led to a susceptibility to edginess capable of provoking, at the least sign, a series of conflicts within and among the clans.[48]

Millenarians and cangaceiros rose up in a society where relationships were still personal, where solidarity still had a meaning, but where latent unrest existed due to the progressive disintegration of these relationships. They originated in a crumbling society, undermined a bit at a time by capitalist ideology that made traditional relationships fall away. This ideology would aggravate society, exacerbate touchiness, arouse appetites. The large property owners would get involved in an implacable competition that would lead to the elimination of the weakest and the increase of the power of the strongest.

Today the figure of Father Cicero is highly venerated in Juazeiro – http://www.eunapolis.ifba.edu.b

In general, Brazilian messiahs didn’t condemn the old organization so much as the eagerness for profit manifested more and more by the colonels, making them forget their obligations. Cowhands and sharecroppers fully suffered the consequences of this. They could historically situate the start of this degeneration of relationships and compare this new state of things to a not too distant past. The messianic movements expressed the desire moving toward solidarity at a time when all feelings of solidarity were tending to disappear.

Two directions could be perceived: taking tradition back up and reinforcing it with a higher principle, divine authority, the patronage of God — this is what Father Cicero’s movement did — ; or going beyond the old organization, which revealed itself to be unable to resist the capitalist mentality and the increase of selfishness, in order to again find the meaning of the original community.

They had recourse to religion as the objective spirit of community, in order to seal the pact of alliance. According to that spirit, catholic ritual consecrated the links that united them. Such rites constituted the solemn affirmation of the refusal of the old world that had become profane and the entry into a new world that only now presented a sacred character.

“Once the Holy City was founded, the messiah tried to identify it as much as possible with Holy Places. Particularly in the northeast, the landscape lends itself to surprising comparisons with that of Judea as it might be seen reproduced in the crude religious images on sale at the fairs of the sertão. Father Cicero had quite ably baptized the ruggedness of the terrain around Joazeiro with names drawn from the gospel: the Mount of Olives, the Garden of the Holy Sepulcher, Calvary. Decorated with small chapels and numerous crosses, these places attracted the curious, moved pilgrims and constituted new evidence of the holiness of the places.”[49]

These were not heretical movements in the true sense of the word, even though the church condemned them. They did not criticize the sacraments as the disciples of Amaury de Bêne, the Taborites or the Anabaptists had done in their times. They contented themselves with opposing authentic catholicism — their own — to the corrupted catholicism of the priests.

If religious sentiment was deeply rooted in society, the Church was not the citadel of thought that it had been in medieval times, and the efforts of some country curates to fight popular traditions were ridiculous. It did nothing but reinforce the feeling in the peasant that only the beatos, their messiahs, knew authentic catholicism.

Besides, it was rare to see the priests who chanced to live in those remote regions corresponding to the ideal the poor had of the christian life. The sertanejos criticized them especially for selling various rites. This is why they felt a strong resentment toward the official clergy who were accused of betraying their function in its most sacred aspect. The sermons of the messiahs reflected this opinion. Severino, one of Lourenço’s apostles, proclaimed: “God’s word is not sold at any price; God’s word is free.”

In the legends of the Iberian Peninsula, the Brazilian prophets always drew their inspiration from popular catholicism. Their way of life corresponded perfectly to the idea that peasants had about catholic saints. They were pilgrims, lived on handouts, distributed the gifts they received to the poor. The catholicism that is fed by legends, mysteries, superstition, familiarity and mysticism, was essentially millenarian.

“Time seems to have stopped for the uncouth population of the sertão. Having sidestepped the general movement of human development, it still breathes the moral atmosphere of the illuminated…”[50]

They expected God’s vengeance, but this expectation was dynamic. The poor started to organize themselves for concrete actions like the occupation of land and energetic defense of their conquests. It was an expectation that, far from preventing social activity, incited it. Canudos was the Tabor of the sertão where an intense activity reigned. The millenarians were animated by an enthusiasm that nothing could crush. They did not isolate themselves, and they were not isolated. They did not feel that they were the elect. They were sertanejosjagunços. The spirit of their activity was simply changed.

This spirit, which inspired the disciples of Lourenço for example, resembled that which had inspired the diggers’ colony on Saint George hill in London two to three centuries earlier: “He who works for another, for payment or to pay a penalty, does not carry out just work; but he who is resolved to work and eat together with everyone else, in this way making the earth a common treasury, gives Christ a hand in liberating creation from slavery and cleansing everything of the original curse.” (Winstanley)

Like pastor Lee of England in 1650 (“A hedgerow in a field is as necessary in its way as authority in the Church or the State”), the Brazilian state deluded itself. The occupation of land, even though for religious purposes, was in itself a challenge to authority. It was not the intention of the Brazilian millenarians to enter into open war with the state. They were waiting for God’s vengeance, but in their waiting challenged the state.

Northeast of Brazil, the land of the sun

But for them, this collective organization of work, this common activity, did not represent wealth. Perhaps the spirit was enriched by this experience, but it did not find its wealth in itself; it was formed from its beyond. The wealth that the messiahs promised to their faithful, an ever-recurring promise in their sermons, could not, in any case, be confused with prosperity and well-being, nor, above all, and this is the essential thing, could it be reduced to a limited common activity, however human it might be. It had to be the conclusion of social activity, the moment of infinite squandering, of the feast, and the moment hoped for was that of its universality.

An entire world stood opposed to its realization.

Chronology

1500

The Portuguese Pedro Alvares Cabral discovers Brazil

1530

Colonization advances towards the territory of the interior

1550

Beginning of the slave trade

1716

The colony becomes a viceroyalty

1817

Beginning of Sylvestre José dos Santos’ messianic movement

1822

Declaration of independence and proclamation of Empire

1835

João Ferreira’s messianic movement.

1871

Enactment of the law “of the free wind”, toward the abolition of slavery. Pilgrimages of the “Conselheiro” in the state of Bahia and of Father Cicero in the state of Ceara. Groups of cangaceiros multiply.

1888

Abolition of slavery throughout the country.

1889

Proclamation of the Republic. Father Cicero performs his first miracles. The Conselheiro preaches insurrection against the Republic.

1896–7

The Canudos campaign against Antonio Conselheiro. The cangaceiro Antonio Silvino begins to declare himself.

1913

Seditious movement of Father Cicero against the federal government.

1914

Arrest of cangaceiro leader Antonio Silvino

1920

Lampão joins Sinhô Pereira’s cangaço.

1922

Lampão is proclaimed gang leader.

1926

Lampão’s interview with Father Cicero.

1930

Getúlio Vargas’ presidency.

1934

Father Cicero’s death. Birth of Lourenço’s messianic movement.

1937

Getúlio Vargas’ dictatorship.

1938

Trap in Angico and death of Lampião. Lourenço’s movement slaughtered.

1940

Corisco dies, and with him cangaceirismo disappears.

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[1] On of the individuals involved in the French group, Os Cangaceiros.

[2] Having found an English translation of the book that Georges Lapierre makes frequent reference to with regard to the movement around Conselheiro (Os Sertões by Euclides da Cunha, translated as Rebellion in the Backlands), several other interesting facts come out. The movement was a tri-racial group, involving indigenous people, those of African descent, those of European descent and every possible mixture thereof. In addition, individuals from all parts of the under classes were included — thieves and prostitutes alongside former cowhands and “holy women”. A significant part of the message that drew people to Canudos was a liberation from work, which was seen as worthless activity and detrimental to the spiritual needs of the moment. In addition, despite Conselheiros own extreme asceticism and personal refusal of sexual intercourse, he not only turned a blind eye to what Cunha calls “free love”, but even promoted it by saying that in these lasts days, there was no time to worry about such trivial matters as marriage vows.

[3] On this level, I tend to see Lampião’s relationship to Father Cicero as perhaps less respectful than Georges Lapierre portrays it. When Father Cicero gave Lampião a title, arms and ammunition in 1926, of course, Lampião gladly took them, but for his own purposes. Rather than doing what the good padre wanted, he simply went on his way, living his outlaw life, an indication to me that he recognized the limits of the priest’s activities.

[4] The backlands, particularly the backlands of northeast Brazil centering in Bahia. Sertoes is simple the plural form of sertão.

[5] Wealthy owner of a fazenda, a cattle ranch.

[6] Social bandits of northeast Brazil.

[7] Pereira de Queiroz: Réforme et Révolution dans les Société traditionnelles

[8] Euclydes da Cunha: Rebellion in the Backlands, p. 135 (University of Chicago Press, Chicago, 1944).

[9] Ibid., p. 135, taken from notebooks found in Canudos

[10] Scrub-forest land.

[11] Cunha, op. cit., p. 30

[12] Blessed one, the implication is that he is perceived as a living saint.

[13] Cunha, op. cit., p.135

[14] Ibid., taken from notebooks found in Canudos.

[15] Literally a reference to the bundles of weapons carried by these outlaws, the term was also used to refer to their bands.

[16] Cunha, op. cit., p. 138

[17] Ibid,, p. 138

[18] Ibid., p. 140

[19] Literally, ruffian, but Cunha tended to use it to refer to all sertanejos. Apparently the people who followed Antonio Conselheiro to Canudos took the name upon themselves with pride.

[20] Poetry found in Canudos written on little bits of paper.

[21] D. Sebastião: King of Portugal (1557–1578), died in the course of an expedition against the Moors. The populace did not want to believe in his death. He became a legendary and messianic figure comparable to that of the Emperor of the last days: he would be returned from the isle of Mists, having organized an army to free Jerusalem.
We find this Portuguese legend from the end of the 16th century to again be quite popular in Brazil. It formed the nucleus of two important messianic movements that manifested in the province of Pernambuco in 1817 an 1835: that of Sylvestre José dos Santo and that of Joao Ferreira.

[22] Cunha, op. cit., p. 136

[23] Ibid., pp. 160, 162

[24] Ibid., pp.143–144

[25] A small palm.

[26] Jacare literally means alligator, a reference to the strength of this knife.

[27] Cunha, op. cit., p.149

[28] .Ibid., p.154

[29] Ibid., p. 178

[30] Types of repeating rifles.

[31] A gum-bearing tree.

[32] Cunha, op.cit., pp. 274–276

[33] Ibid., p. 280

[34] This is a reference to the ancient Parthians who would continue shooting arrows at their enemies even as the retreated from a lost battle. This is the source of the English term “parting shot”, originally “Parthian shot”. — Translator’s note.

[35] Cunha, op. cit., p. 325

[36] Ibid., p 235–236

[37] Ibid., p. 436–437

[38] Ibid., p. 475

[39] Ibid., p. 475. Euclydes da Cunha’s book ends with a slander typical of the time: “… they took [Antonio Conselheiro’s head] to the seaboard, where it was greeted by delirious multitudes with carnival joy. Let science here have the last word. Standing out in bold relief from all the significant circumvolutions were the essential outlines of crime and madness.” (p. 476)

[40] Hegel, Principles of the Philosophy of the Right

[41] Josué de Castro, Une Zone Explosive. Le Nord-est du Brésil

[42] Cangaceiros: Ballads Tragique. Illustrations by Jô Oliveira, text by Mario Fiotani

[43] Cangaceiros: Ballade Tragique

[44] Cangaceiros: Ballad Tragique

[45] Euclydes da Cunhu, Les Terres de Canudos

[46] Vittorio Laternari Les Mouvements Religieux des Peuples Opprimés

[47] Pereira de Queiroz, Réforme et Révolution dans les sociétés traditionelles

[48] Needless to say, today arbitrary power is total and guaranteed.

[49] Pereira de Queiroz

[50] Euclydes de Cunha

Source of informationhttp://theanarchistlibrary.org/library/os-cangaceiros-millenarian-rebels-prophets-and-outlaws

Information about the author of the blog “Tok de Historia” – In this link you can find the full article, including attachments. Due to size, there were placed here. I took the liberty of adding photographs and correct names in Portuguese.

ENCONTRO DO CORONEL E DO CANGACEIRO LAMPIÃO

AUTOR-Rostand Medeiros

Lampião e seu bando, depois de vários anos atuando nos sertões dos estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte, passaram a sofrer uma grande perseguição dos aparatos policiais destes estados.

Jornal recifense “A Província”, edição de sexta feira, 28 de agosto de 1928, 1ª página.

Ciente da perseguição que as volantes infligiam a seu debilitado grupo, Lampião precisava de repouso para repor as energias, recrutar novos homens e procurar novas áreas de atuação. Nesse sentido, em agosto de 1928, ele resolveu atravessar o grande Rio São Francisco e se internar nos sertões baianos.

Em um primeiro momento, buscando refúgio nas fazendas de novos amigos, Virgulino Ferreira da Silva, o nome real do “Rei do Cangaço”, encontrou nestas paragens a almejada paz para recompor suas forças.

Primeiramente a polícia da Bahia fez vista grossa em relação ao ilustre visitante. Lampião aproveitou para firmar contatos, compor alianças, ampliar sua rede de coiteiros que lhe dariam apoio e proteção.

Propalou que estava “em paz” no território baiano, utilizava a velha cantilena que “havia entrado no cangaço pelos sofrimentos sofridos pela sua família” e que se “houvesse condições”, ele largaria aquela vida em armas e buscaria ficar em paz.

Mesmo divulgando estas novas intenções, não deixou de coagir os fazendeiros baianos, pedindo para estes lhe “ajudar” no sustento do seu bando.

Lampião e seu equipamento – Fonte – http://www.joaodesousalima.com/2010/04/lampiao-rei-do-cangaco.html

E assim, ao seu modo, durante quase três meses, Lampião e seus cangaceiros viveram tranquilos junto ao povo do sertão da “Boa Terra”.

FOTO FAMOSA

Sua primeira aparição pública ocorreu na antiga vila do Cumbe, atual município de Euclides da Cunha, em um sábado, dia 15 de dezembro de 1928.

Ali não houve alterações. Mas o chefe não deixou de fazer uma arrecadação pecuniária com os abonados do lugar e chegou até mesmo a almoçar e beber cerveja com o delegado. A tranquilidade era tanta que deu até para alguns alfaiates do lugar confeccionar novos uniformes para seus homens.

Depois do Cumbe os cangaceiros seguiram para a cidade de Tucano, onde novamente nada de anormal ocorreu. Ali os bandoleiros das caatingas chamaram a atenção de todos, tratavam todos bem e foram bem acolhidos pelos moradores.

Mercado Público de Ribeira do Pombal na década de 1950.

Para Oleone Coelho Fontes, autor de “Lampião na Bahia” (4ª Edição), após a estada em Tucano, o chefe cangaceiro e seus homens, seguiram em direção nordeste, por cerca de 40 quilômetros, até a vila, atualmente município, de Ribeira de Pombal, já próximo a fronteira sergipana. Para este deslocamento consta que Lampião obrigou o padre de Tucano a ceder o seu carro e um motorista.

Segundo o pesquisador baiano, o chefe e mais sete cangaceiros chegaram ao lugarejo às seis da manhã do domingo, 16 de dezembro. Os moradores locais sabiam através da passagem de viajantes, que Lampião encontrava-se em Tucano e que certamente logo chegaria a Pombal.

O intendente local era Paulo Cardoso de Oliveira Brito, mais conhecido como Seu Cardoso, e foi ele quem recebeu Virgulino e seus homens.

Foi ofertado café a todos os bandoleiros e Lampião avisou que não queria brigar com os poucos policiais que estavam de serviço no lugarejo, comandados pelo cabo Esmeraldo. Com a boa hospitalidade oferecida, Lampião se sentiu a vontade e logo procurou saber se havia um fotógrafo no lugar.

A famosa foto de Lampião e seu bando, batida por Alcides Fraga em Ribeira do Pombal e divulgada na edição de quarta feira, 30 de janeiro de 1929, no jornal carioca “A Noite”. Coloquei a notícia na íntegra para que seja visto e analisado o cangaceiros ali nomeados.

Foi chamado Alcides Fraga, alfaiate e maestro da Filarmônica XV de outubro, que prontamente bateu uma chapa. Esta é uma das mais célebres fotografias do ciclo do cangaço, que inclusive circulou com destaque em jornais do Rio de Janeiro, em janeiro de 1929.
Por volta de oito horas da manhã o bando saiu da vila, acompanhados do cabo Esmeraldo, partindo em direção destino ao município de Bom Conselho, atual Cícero Dantas, 30 quilômetros em direção nordeste.

Bom Conselho, atual Cícero Dantas, na década de 1950.

A chegada dos cangaceiros ocorreu em um dia de feira, com o cabo baiano já rouco de tanto gritar: – Viva Lampião! – Viva o Capitão Virgulino!

Apesar deste detalhe, a única outra alteração praticada pelos cangaceiros, foi terem se apoderado dos fuzis dos quatro soldados da polícia baiana destacados no lugar.

Após saírem de Bom Conselho, ainda motorizados, o bando seguiu em direção mais ao norte, cerca de 40 quilômetros, para um pequeno aglomerado de casas denominado Sítio do Quinto.

A hora exata que os facínoras chegaram de caminhão a esta localidade não sabemos, mas lá onde procuraram a casa de José Hermenegildo.

Por volta da meia noite de 16 para 17 de dezembro de 1928, um pequeno automóvel modelo Ford, que transportava três homens, também chegou ao mesmo lugar.

AO ENCONTRO DO PERIGO

Enquanto Lampião e seus homens passavam por Pombal, Bom Conselho e chegavam a Sítio do Quinto, da cidade baiana de Jeremoabo, cerca de 50 quilômetros ao norte, partia um automóvel conduzindo três homens, entre estes estava um dos mais importantes coronéis do interior baiano.

Este era João Gonçalves de Sá, referência regional, prestigiado líder político e rico proprietário de muitas fazendas com grande extensão territorial, que englobava muitos dos municípios da região Nordeste da Bahia. Naquele dezembro de 1928 o coronel João Sá exercia os cargos de presidência da Intendência de Jeremoabo e, pela segunda vez, o mandato de deputado estadual pelo legislativo baiano.

Junto ao coronel João Sá seguia seu pai Jesuíno Martins de Sá e um dos secretários da Intendência de Jeremoabo, o jovem José da Costa Dórea. O destino de todos era Salvador, onde o trajeto naquele tempo exigia seguirem pelo território sergipano e depois todos continuariam o trajeto por via ferroviária, utilizando os trens da ferrovia conhecida como Leste Brasileira.

Segundo nos conta Oleone Coelho Fontes, no capítulo 5 do seu livro “Lampião na Bahia”, através de extenso relato descritivo feito por Dórea (e até hoje, aparentemente, inédito na sua íntegra), devido a um problema mecânico no automóvel, a viagem foi realizada a noite, tendo a saída ocorrido às seis horas.

Mesmo sabendo que o grupo de Lampião circulava pela região, o coronel Sá confiou que guiando durante grande parte da noite, seguindo pelas antigas estradas poeirentas da região, eles poderiam passar despercebidos pelo bando.

Ao realizarem uma parada para tomar café na fazenda Abobreira, o medo de um encontro com Lampião e seus cangaceiros se tornou mais real, pois o proprietário do lugar, José Saturnino de Carvalho Nilo, confirmou que eles estavam nas redondezas. Mesmo assim seguiram adiante, em direção ao lugarejo Sítio do Quinto.

Já na edição do dia 30 de dezembro de 1928 do jornal carioca “A Crítica” (cujo proprietário era o pernambucano Mário Rodrigues, pai do dramaturgo Nelson Rodrigues), na sua página 5, encontramos um relato inédito sobre o encontro do coronel João Sá com Lampião e seus homens.

Nas duas descrições desta aventura, consta que os viajantes de Jeremoabo, ao entrarem no pequeno arruado, viram diante de uma casa um veículo parado, com alguns homens ao seu redor.

A reportagem do jornal carioca informa que um deles estava com um candeeiro. O coronel João Sá imaginou que a casa onde o veículo e os homens estavam deveria oferecer algum tipo de apoio aos viajantes.

Após brecarem, os passageiros do Ford foram cercados por homens armados e intimados a informarem quem eram. Após isso o coronel João Sá descobriu que estava diante do cangaceiro Lampião. E como para confirmar, o homem armado aproximou o candeeiro de seu rosto, mostrando a característico defeito em seu olho.

MOMENTOS ENTRE O CORONEL E O CANGACEIRO

Em um primeiro momento o medo e o pavor com o que iria acontecer tomou conta dos viajantes, mas o chefe cangaceiro, prontamente lhes garantiu que nada de ruim lhe aconteceria.

Conduzidos por Lampião e seus homens, todos entraram na casa de José Hermenegildo e foram se acomodando em cima de sacos de algodão e de peles de animais, que na época era um produto mais fácil de encontrar no sertão e tinha mercado nas capitais.

O informante Dórea afirma que em certo momento Lampião chamou o coronel João Sá para uma conversa particular na parte de fora da casa, fato que o deixou assustado, imaginando que o chefe político de Jeremoabo seria fuzilado. Mas nada aconteceu.

Enquanto isso Dórea e Jesuíno Martins de Sá, então com 76 anos, entabulavam conversa com alguns cangaceiros, entre estes o irmão do chefe, Ezequiel, conhecido pela alcunha de Ponto Fino. Dórea afirmou que o coronel João Sá não transportava dinheiro vivo, apenas ordens bancárias, assim este lhe chamou fora da casa e lhe solicitou 200$000 réis para dar a Lampião. Este por sua vez deixou que os viajantes do Ford escrevessem cartas as suas famílias, que um portador levaria as missivas para Jeremoabo.

As duas versões apontam que em dado momento a tensão se desvaneceu e o clima ficou mais tranquilo.

Segundo o coronel João Sá observou, e assim ficou registrado no jornal carioca, os cabelos do chefe cangaceiro chegavam aos seus ombros, seu uniforme de mescla azul se mostrava já bastante gasto e Lampião trazia um semblante abatido.

Na sequência Lampião pediu a José Hermenegildo que colocasse três redes para acomodar a ele, ao coronel e a seu pai no mesmo quarto. Neste momento o líder político do Nordeste da Bahia pediu ao maior cangaceiro do Brasil que narrasse a epopeia de sua vida. Lampião descreveu as perseguições que sofreu ao longo da vida como bandoleiro das caatingas, mas que estava “a fim de descansar” no sertão baiano.

O coronel João Sá descreveu nas páginas de “A Crítica” que depois das narrativas feitas por Lampião, este foi dormir. Mesmo com a vida atribulada que levava, em meio a tantos combates e com tantas mortes nas costas, o coronel descreveu que o chefe cangaceiro dormiu um “sono profundo”. Mesmo estando em companhia de estranhos “adormeceu como um justo”. Logo todos os homens, “cavaleiros e salteadores”, como descreveu a reportagem, dormiram “confiantes e tranquilos”.

NO “TRANCO”

No capítulo 5 do livro de Oleone, o texto em que José da Costa Dórea conta este episódio sobre Lampião, este afirma que foi ele quem fez a solicitação para que o chefe cangaceiro narrasse a sua vida e que anotou tudo em um bloco escolar.

O livro de Oleone Coelho Fontes, “Lampião na Bahia”. Para mim esta é uma das obras mais inspiradoras e interessantes sobre o tema cangaço.

Segundo a opinião do autor de “Lampião na Bahia”, esta entrevista é seguramente a mais longa que o “Rei do Cangaço” fez em toda a sua vida e que seria parte integrante de um livro de Dórea intitulado “Vida e morte do cangaceiro Lampião”. Vale ressaltar que Oleone Coelho Fontes informou em seu livro possuir os originais deste material, mas que, salvo engano, até o momento continua inédito.

Nas páginas de “A Crítica”, nos primeiros albores da manhã, após o despertar, o coronel João Sá comenta a Lampião que na condição de deputado estadual teria de informar as autoridades sobre aquele encontro. Consta que Lampião não se alterou com as palavras do político baiano.

Quando o coronel deu na partida do seu automóvel, provavelmente devido ao frio noturno do sertão, a máquina não pegou. Na mesma hora, vários comandados de Lampião deram uma mãozinha ao coronel João Sá, empurrando o carro que pegou no “tranco” e estes seguiram viagem.

SIMPATIA OU NECESSIDADE?

Dali Lampião continuaria seu caminho pela Bahia e logo a sua lua de mel com os habitantes daquele estado estaria encerrada. O fato se deu com o combate ocorrido no lugar Curralinho, no dia 28 de dezembro de 1928, onde foram mortos o sargento José Joaquim de Miranda, apelidado “Bigode de Ouro” e os soldados Juvenal Olavo da Silva, e Francellino Gonçalves Filho. Depois destas primeiras mortes na Bahia, Lampião e seus homens, ainda no primeiro semestre de 1929, cobrariam um alto preço a polícia baiana. Logo veio o combate do Arraial de Abóbora, em Jaguarary, hoje povoado de Juazeiro, ocorrido no dia 7 de janeiro e que ocasionou a morte de dois soldados. Depois veio Novo Amparo, no dia 26 de fevereiro de 1929, com a morte de mais outros dois soldados. Ainda no primeiro semestre de 1929 temos o sangrento combate do Brejão da Caatinga, município de Campo Formoso, no dia 4 de junho, com a morte de um cabo e quatro soldados.

Quanto ao coronel Sá e sua família, segundo Oleone Coelho Fontes afirma em seu livro (Pág. 39), enquanto Lampião na Bahia jamais ocorreu nada com suas terras e seus protegidos. O pesquisador afirma que, fosse por simpatia, ou por necessidade de preservar seus bens, ou por ter vislumbrando vantagens outras nesta aliança com o grande cangaceiro, o coronel Sá se tornou um dos mais importantes protetores de Lampião na Bahia.

E tudo aparentemente começou naquele encontro divulgado até em jornais cariocas.

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UM MILAGRE DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

O “All American” resiste bravamente nos céus do Norte da África após choque com avião alemão: milagre (Foto: Cliff Cutforth)

Já se foram quase sete décadas após o fim da II Guerra Mundial (1939-1945), mas episódios incríveis ocorridos durante aqueles tristes anos continuam a ser revelados com o passar do tempo.

Um dos mais recentes é sobre a saga de um bombardeiro quadrimotor americano B-17 – conhecido também como “Fortaleza Voadora”, desenvolvido pela Boeing – que, mesmo atingido em cheio numa colisão aérea por um avião de guerra alemão sobre a região portuária de Túnis, capital da Tunísia, conseguiu a duras penas voar por duas horas e meia e aterrissar em uma base de emergência dos Aliados na Argélia sem que nenhum de seus dez tripulantes sequer se ferisse.

A carta enviada pelo navegador Harry C. Nuessle a autoridades militares americanas: juntamente à foto, ele pede ao “censor” que não a mostre à sua esposa caso haja alguma restrição a imagens fortes, e lhe solicita devolver a correspondência neste caso. Na parte inferior, a lista com os nomes de todos os tripulantes.

O caso gerou a fotografia que abre este post, uma das mais famosas entre as que registram a participação dos EUA na II Guerra, e que mostra a aeronave voando em frangalhos.

Pedaços de avião alemão

O choque aéreo ocorreu em 1º de fevereiro de 1943 nos céus da Tunísia,  no curso da ofensiva dos Aliados contra as forças do marechal-de-campo alemão Erwin Rommel atuando no Norte da África. Um avião alemão, cujo piloto provavelmente estava ferido, perdeu o controle e atingiu a fuselagem do B-17, apelidado All American e pilotado pelo tenente Kendrick R. Bragg, do 414º Esquadrão de Bombardeiros dos EUA. O avião alemão partiu-se em dois, e alguns de seus pedaços foram parar no B-17.

Estado da cauda após a aterrissagem do B-17

Naquele momento, justo após a colisão, o estabilizador esquerdo horizontal do avião se encontrava totalmente destruído, os dois motores direitos não funcionavam, litros de combustível vazavam, a fuselagem praticamente se cortara ao meio, os sistemas elétrico e de oxigênio se danificaram e, na parte de cima, havia um buraco de 5 metros de comprimento por 1,5 de largura.

Paraquedas improvisados

Sam T. Sarpolus, atirador posicionado na cauda, ficou preso porque a extremidade já não tinha mais uma ligação no solo com o resto da aeronave. Com a ajuda de outro atirador, Michael Zuk, ele utilizou partes do avião inimigo e dos paraquedas da tripulação para evitar que a cauda se desprendesse.

Mas, graças a um cabo que ainda funcionava e a cauda que ainda se inclinava, o All American continuou voando e bombardeando seus alvos alemães no Norte da África. Faltava, no entanto, conseguir retornar em direção à segurança da base aliada.

Aterrissagem

Milagrosamente, o B-17 voou, perdendo lentamente altitude, por quase 120 quilômetros até chegar à base na Argélia. No caminho, ainda foi atacado por outros dois aviões alemães, mas conseguiu responder abrindo fogo – com dois de seus atiradores mantendo a cabeça para fora do buraco, metralhadoras em punho – e escapar. Na parte final do trajeto, recebeu escolta de alguns P-51 aliados. Cliff Cutforth, tripulante de um destes aviões, tirou o famoso retrato que abre este texto.

Militares posam ao lado do que sobrou do “All American”

Havia ainda um último obstáculo: com cinco dos paraquedas utilizados improvisadamente para que o B-17 prosseguisse no ar, metade dos ocupantes não teria como saltar. Duas horas e meia após a “trombada” nos ares, o tenente Bragg conseguiu, assim, aterrissar o que sobrava do All American em uma base de emergência.

Inacreditavelmente, nenhum dos militares americanos estava ferido.

*A dica para este post veio do fiel leitor do blog José Carlos Bolognese, que sempre contribui com excelentes pautas.

FONTE –

O GUARDIÃO DA BARRA DO RIO POTENGI E DE NATAL

A FORTALEZA, OU O NOSSO FORTE, DOS REIS MAGOS É O MAIS ANTIGO BALUARTE DE DEFESA CONSTRUIDO NO RIO GRANDE DO NORTE E AGORA TRAGO ALGUMAS BELAS IMAGENS DO AMIGO CLÁUDIO ABDON.

FONTE – http://www.claudioabdon.com.br/template_permalink.asp?id=582

A BOA VIDA DOS MILITARES AMERICANOS EM NATAL DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNIDAL

O SITE DA REVISTA NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL DESTACOU A IMPORTANTE PARTICIPAÇÃO DE NATAL COMO BASE AMERICANA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL. CONFIRAM A MATÉRIA ABAIXO

Da Times Square, em Nova York, à praça Vermelha, em Moscou, multidões em êxtase comemoravam a data. Alvamar vestiu sua melhor roupa e escolheu bem as palavras, mas, na hora em que espiou do palco, teve um choque: a platéia, estranhamente, estava quase vazia. Os organizadores do evento, em pânico, saíram pelo bairro da Ribeira e recrutaram uma legião de transeuntes – mendigos, boêmios, prostitutas – para ocupar ao menos uma parte dos 600 lugares disponíveis. Alvamar enfim falou, mas um tom melancólico já tomara conta do teatro, das ruas, das pessoas. A cidade parecia estar de luto. Porque a guerra havia acabado.

 Assim foi a Segunda Guerra em Natal: um tempo de emoções intempestivas, de alegrias e tristezas fora de hora e de contexto. Entre 1942 e 1945, ali funcionou o principal quartel-general dos países aliados no hemisfério sul. Por sua localização, no extremo nordeste da América do Sul, a capital do Rio Grande do Norte é uma das cidades brasileiras mais próximas do continente africano – 3 horas de vôo em jatos de hoje. Por isso ela era uma “ponte” entre os Estados Unidos e a Europa, uma escala obrigatória para todos os vôos que seguiam rumo à África ou aos combates no Atlântico Sul.

Outras bases controladas por americanos seriam montadas no Brasil, do Amapá a Santa Catarina, mas nenhuma delas rivalizou em movimento e importância com o Campo de Parnamirim e a Base Naval de Hidroaviões, os dois núcleos militares de Natal durante a guerra. Em 1943, no auge dos conflitos no Atlântico, Parnamirim era o mais congestionado aeroporto do planeta, com até 800 pousos e decolagens num dia de pico. Natal era tão decisiva que ficou conhecida como a “encruzilhada do mundo”.

 A capital potiguar, contudo, jamais foi palco de qualquer combate. Os submarinos alemães não se aproximaram da cidade e nenhuma bomba inimiga foi lançada sobre suas belas praias ou ruas. Os únicos tiros ouvidos eram de treinamentos rotineiros dos americanos. A tensão da guerra estava no ar, o.k., mas os momentos mais assustadores foram, na prática, os exercícios de defesa civil, como os blecautes. Apesar da óbvia falta de estatísticas oficiais sobre o assunto, Natal foi, com certeza, o lugar de melhor qualidade de vida para um soldado na guerra. Os quase 50 mil natalenses da época, por sua vez, puderam descobrir um mundo de novidades. “As pessoas cantarolavam jazz nas ruas. A vida aqui era diferente, sofisticada, uma festa”, lembra-se Alvamar Furtado, hoje com 86 anos. Natal tornou-se a cidade mais badalada do Nordeste. Os cinemas militares, não raro, e sem que ninguém soubesse fora dali, recebiam convidados especialíssimos: os próprios astros de Hollywood. “Humprey Bogart voou de Marrocos para animar uma sessão de Casablanca no teatro aberto da base de hidroaviões. Os artistas eram comissionados para viajar pelos fronts do mundo todo. A presença deles servia para elevar o moral das tropas”, diz o historiador local José Melquíades, de 76 anos.

Bette Davis, lembra-se ele, também visitou Natal. E a orquestra de Glenn Miller tocou no Cine Rex. Para imaginar como foram aqueles anos loucos em Natal, é preciso observar a guerra como um momento de liberação, um evento protagonizado por uma legião de jovens reprimidos que nunca haviam saído de rincões rurais como Arkansas, Nevada ou Montana. De repente, no meio do horror de um conflito mundial, eles se descobriram num lugar amistoso, tropical, encantador. O mar, a luz, as relações pessoais, tudo era novo em suas vidas. Por vias tortas – a guerra –, eles foram encaminhados ao paraíso.

 Os branquelos gastavam seus dias de folga em banhos de mar nas praias de Areia Preta, Ponta Negra ou num outro trecho da orla, menor e mais reservado, que foi batizado Miami. Muitos pagaram um preço salgado pelo programa – terríveis queimaduras de sol –, mas pode-se dizer que eles inauguraram as belezas naturais que, décadas depois, iriam consagrar Natal: o mar verde, quente e calmo, as dunas mutantes, o vento perene. Os natalenses tinham o hábito de ir à praia apenas na “temporada de banhos”, as férias, entre dezembro e janeiro. Nos dias da guerra, eles descobriram que sua rotina poderia ser bem mais agradável.

Fonte – http://edilsonln.blogspot.com.br/2012/03/sexta-feira-23-de-marco-de-2012-mp.html?spref=fb

RUÍNAS DA VELHA RIBEIRA

A RIBEIRA É O MAIS TRADICIONAL BAIRRO DE NATAL. ALI MUITO DOS SEUS ANTIGOS PRÉDIOS SE ENCONTRAM EM ESTADO DE TOTAL ABANDONO. VEJA NAS FOTOS DO FOTÓGRAFO CLAÚDIO ABDON.

Fonte – http://www.claudioabdon.com.br/default.asp?

MISSA DO VAQUEIRO DE SERRITA, PERNAMBUCO – OS PRIMEIROS ANOS

Tradição, Religiosidade e Cultura Nordestina

AUTOR – ROSTAND MEDEIROS

A missa do vaqueiro, realizada no município de Serrita, a 536 km do Recife, surgiu em 1971 como uma homenagem ao vaqueiro Raimundo Jacó, sendo considerada atualmente uma das maiores e mais importantes festas do sertão nordestino.

Esse evento atrai anualmente cerca de 50 mil visitantes e é promovido pela Fundação João Câncio, em parceria com a Prefeitura Municipal de Serrita e a Associação de Vaqueiros de Pega de Boi na Caatinga do Alto Sertão de Pernambuco (Apega).

Vamos conhecer um pouco de sua história.

A Morte de Raimundo Jacó

Em 1954 Serrita, no Sertão do Araripe, próximo a cidade de Salgueiro, era bem maior em termos de área territorial e possuía uma população estimada em quase 23.000 habitantes. Mas em um Nordeste ainda prioritariamente agrário, na sede municipal daqueles tempos habitavam pouco menos de 700 pessoas[1].

Vaqueiro do Nordeste, 1941, Percy Lau – Fonte – http://www.desenhandoobrasil.com.br

Em meio à caatinga fechada daquela região, à vegetação cortante e espinhenta que caracteriza este ecossistema, o vaqueiro encourado Raimundo Jacó se destacava na sua lide.

Conhecido pela sua dedicação ao trabalho era muito estimado pela população local. Ficou afamado pela coragem ao capturar, ou “pegar”, o boi no meio do mato. Ele também era conhecido por saber no meio da caatinga fechada, onde descansava e bebia cada um dos animais que ele tomava conta.

De tão destemido, o vaqueiro tinha o apelido de “Raimundo Doido”. Era casado com Odília de Jesus e tinha como filhos Francisca e Vicente. Em Rancharia, atualmente distrito do município de Granito, era admirado pelo seu aboio afinado, daqueles vibrantes, cantado “com o dedo no ouvido” [2].

Sobre o vaqueiro Raimundo Jacó, os irmãos cantadores Pedro e João Bandeira de Caldas assim cantaram a sua fama;

“Não respeitava favela

Serra, facheiro, cipó

Sua calça era a perneira

Seu gibão o paletó

Fosse a cavalo ou a pé

Era uma coisa só” [3]

Raimundo Jacó trabalhava como vaqueiro para o fazendeiro José de Sá Barreto, conhecido como Seu “São” e Dona Tereza Teles, a Dona “Tetê”. Consta que ele cuidava do gado do patrão e José Miguel Lopes, seu colega de profissão, era o responsável pelo plantel da patroa.

No dia 8 de julho de 1954, ano seco, os dois vaqueiros saíram pelo sertão em busca de uma rês arisca que havia fugido e era famosa pelas suas astúcias.

Mas no fim do dia apenas Miguel retornou a sede da fazenda.

Contou que não havia encontrado Raimundo Jacó e logo a notícia se espalhou. Em pouco tempo várias pessoas rasgavam a caatinga na busca pelo afamado vaqueiro.

Dois dias após seu desaparecimento, o cadáver de Jacó foi encontrado junto a um pé de imbaúba, em um lugar conhecido como sítio Lajes. A pouca distância do corpo estava amarrado o garrote fugitivo, o seu cavalo e, guardando o cadáver dos urubus, estava o seu fiel cachorro.

No crânio do vaqueiro havia duas marcas de ferimentos e não muito distante do seu corpo, uma pedra com sangue. Todo o cenário apontava para um possível assassinato[4].

Consta que Raimundo Jacó foi sepultado no local onde fora morto. Afirma-se que o seu fiel cachorro acompanhou todo o enterro e que depois ficou no local, até morrer de sede e de fome, guardando o túmulo do seu amo.

O Nascimento de Um Mito

Logo, para a opinião pública e para a justiça local, Miguel Lopes surgiu como o mais provável suspeito da morte de Raimundo Jacó. Afirmavam que Miguel invejava o colega de profissão por suas habilidades como vaqueiro e que entre ambos havia uma rixa muito forte.

Para muitos o assassinato teria acontecido quando Miguel chegou às margens do açude do sítio Lajes e se deparou com Raimundo Jacó fumando tranquilamente um cigarrinho. Junto estava o seu cavalo, seu cachorro e a rês fugitiva, já devidamente amarrada. A cena deixou Miguel bastante alterado. Logo, motivado pela inveja, o ódio aflorou e de posse de uma pedra ele bateu fortemente na cabeça de Jacó.

Foi aberto um processo crime contra Miguel Lopes, que afirmava ser inocente e houve controvérsias e discussões em relação à morte de Jacó.

Clarisbalte Figueiredo Sampaio, o Promotor Público da cidade, desistiu do processo contra Miguel Lopes. No calhamaço de papeis que compunha a peça processual havia declarações de cinco testemunhas, que nem mesmo assistiram o episódio da morte do vaqueiro.

Logo o processo foi arquivado por falta de provas e a morte de Raimundo Jacó até hoje não foi esclarecida.

Ocorre que desde 1949 os Alencar e os Sampaios, as duas mais poderosas famílias da cidade de Exu, mantinham uma luta ferrenha entre seus membros. Estas famílias, como se diz na região oeste do Rio Grande do Norte, “se acabavam na bala”. Miguel era então ligado a um dos clãs e, para muitos na região, foi através desta ligação que ele não foi preso[5].

Vinte e dois anos depois da morte do vaqueiro, encontramos em um jornal pernambucano uma interessante e controversa declaração de Geraldo Teles, filho de Tereza Teles, a Dona “Tetê”, patroa de Raimundo Jacó e Miguel Lopes.

Ele afirmou que a morte de Jacó poderia ter sido acidental, pois este “sofria do coração e bebia muito” e afirmava que Miguel, que ainda estava vivo na época da reportagem, seria “incapaz de fazer mal a alguém”. Geraldo Teles levantou a hipótese que Jacó poderia ter tido um colapso. Após o ataque, consequentemente o vaqueiro teria caído do cavalo, batido a cabeça na pedra e falecido sem assistência médica[6].

Mas se da justiça não teve castigo, de uma parte da população da região o acusado da morte de Jacó só recebeu ódio e desprezo[7].

Como ocorre em muitos locais do Nordeste onde pessoas assassinadas em mortes trágicas eram enterradas, logo a cruz que marcava o túmulo de Raimundo Jacó passou a receber várias pessoas, principalmente vaqueiros. Estes, além de deixarem fitas e velas, rezavam e pediam ao falecido que intercedesse por alguma causa. 

Mas foi um primo legítimo do falecido, que empunhava uma sanfona e fazia sucesso no Rio de Janeiro, que imortalizaria para sempre a figura de Raimundo Jacó em uma inesquecível canção.

A Morte do Vaqueiro na Voz de Luiz Gonzaga

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu na fazenda Caiçara, em Exu, no dia 13 de dezembro de 1912, dia consagrado no catolicismo a Santa Luzia. Era filho de Januário José dos Santos e de Ana Batista de Jesus, mais conhecida como Santana. Além de agricultor seu pai era um afamado tocador de acordeon e igualmente conhecido por concertar este tipo de instrumento musical.

Luiz Gonzaga no início da carreira – Fonte – http://blogln.ning.com

Foi com Januário que Luiz Gonzaga aprendeu a tocar ainda criança e passou a se apresentar acompanhando seu pai.

Em meio a muito talento, grande capacidade musical, inúmeras peripécias, aventuras e sorte, em 1963 vamos encontrar Luiz Gonzaga como um consagrado músico e cantor, com seu sucesso alcançando todo o Brasil e tendo se tornado um verdadeiro ícone da música nordestina.

Apesar de 1963 não ser um dos períodos mais felizes na carreira de Luiz Gonzaga, devido à concorrência com as músicas modernas e os rock vindos do exterior, naquele ano o músico pernambucano lançou pela empresa fonográfica RCA, o Long Play, ou “LP”, intitulado “Pisa no Pilão – Festa do Milho”.

Este disco de vinil tinha um acervo musical mais apropriada para ser tocado em festas juninas, pois possuía músicas intituladas “Festa do Milho”, “Festa de São João” e “Pisa no Pilão”.

Mas a quarta faixa do lado “A” do LP trazia uma toada diferente. Nomeada “A Morte do Vaqueiro”, é uma música marcante e de longe a mais importante deste disco de Luiz Gonzaga.

Capa do LP onde foi primeiramente divulgado a música “A morte do vaqueiro” – Fonte – discotecapublica.blogspot.com.br

Nas páginas 229 e 230 do livro “A vida do viajante: A saga de Luiz Gonzaga”, da francesa Dominique Dreyfrus, a música foi composta em uma única tarde na casa de Nelson Barbalho, amigo de Gonzaga[8].

O famoso cantador do Sertão do Araripe queria homenagear seu primo, o vaqueiro Raimundo Jacó. Ele narrou a Nelson como foi o episódio da morte do parente e em pouco tempo a “A Morte do Vaqueiro” ficou pronta.

A música se tornou um marcante sucesso da carreira de Luiz Gonzaga, imortalizando a morte de Jacó e se tornando um dos motores que impulsionaria um dos mais importantes eventos do sertão nordestino – A Missa do Vaqueiro de Serrita.

Mas toda missa precisa de um padre!

Um Padre Antes de Tudo Autêntico

Mesmo hoje em dia, em meio a toda uma plêiade de padres cantores, que estão sempre na televisão e surgem na velocidade da internet, certamente chamaria a atenção de todos se fosse divulgado que um sacerdote nascido no sertão de Pernambuco valorizava tanto as tradições de sua terra ao ponto de utilizasse normalmente o gibão de couro, participasse de constantes vaquejadas e fosse conhecido como “Padre Vaqueiro”.

Padre João Câncio

Imagine isso então no final da década de 1960?

João Câncio dos Santos nasceu em Petrolina, Pernambuco, em 21 de outubro de 1936, era filho de Francisco Avelino dos Santos e de Laudemira Carvalho Sales e seguiu sua vocação sacerdotal logo cedo. Estudou no seminário do Crato, depois foi para Salvador e João Pessoa, onde se formou padre em 1965.

Sua primeira paróquia foi em Serrita, onde iniciava seu trabalho pastoral com a consciência de que a religião e a fé estão presentes em todas as pessoas. Segundo material produzido pela Fundação Padre João Câncio, o pároco não impôs a comunidade a sua oratória de seminário, mas buscou aproximar-se da comunidade, vivenciando e praticando seus hábitos, com o propósito de entendê-los melhor[9].

No livro “A vida do viajante: A saga de Luiz Gonzaga”, nas páginas 246 e 247, Dominique Dreyfrus informa que em uma vaquejada realizada em Exu, no verão de 1970, ano de forte seca, o padre conheceu Luiz Gonzaga e daí nasceu uma grande amizade.

O padre Câncio adorava a música “A Morte do Vaqueiro”, que escutava no toca fitas de sua Ford Rural, enquanto seguia para alguma obrigação sacerdotal no meio do sertão.

A autora francesa informou que em meio à seca de 1970, durante as celebrações que ocorriam nas frentes de emergência, que proporcionava aos trabalhadores rurais alguma renda (mínima) em meio à calamidade climática, alguém comentou que “existia missa para todo tipo de gente, mas não havia para vaqueiros”. Logo foi sugerido que uma missa dessas poderia ocorrer no local onde Raimundo Jacó foi assassinado.

1971-Primeiro ano da Missa do Vaqueiro de Serrita, Pernambuco

Como o padre Câncio era um vaqueiro, gostava da música e conhecia Luiz Gonzaga, estava pavimentado o caminho para a Missa do Vaqueiro de Serrita.

Entretanto, ao lermos o trabalho intitulado “Padres do interior II – Os padres da Paroquia de Nossa Senhora do Bom Concelho de Granito”, produzido pelo padre Francisco José P. Cavalcante e publicado na internet em 2010, afirma que a ideia da famosa Missa do Vaqueiro de Serrita tem relação direta com uma celebração pela vida do vaqueiro e havia sido criada primeiramente na Diocese de Petrolina, no ano de 1941.

Segundo o padre Cavalcante foi no dia 2 de agosto de 1941, com uma concentração na fazenda Lagoa Seca, que se realizou pela primeira vez o “Dia do Vaqueiro”, evento idealizado pelo padre Américo Soares.

Registros informam que os vaqueiros estavam neste evento com a indumentária de couro apropriada e entraram nesta cidade do interior de Pernambuco dispostos em filas de quatro em quatro. Depois se dirigiram para a igreja matriz de Nossa Senhora Rainha dos Anjos, onde houve palestra preparando os vaqueiros para o sacramento da penitência. No dia seguinte, pela manhã, os vaqueiros participaram de uma missa na Matriz, presidida por Dom Idílio José Soares. Após duas missas realizadas no mesmo dia, os vaqueiros se concentraram diante do Palácio Diocesano e em seguida partiram em passeata pela cidade.

No ano seguinte a festa se repetiu com cerca de 150 vaqueiros. A programação foi semelhante à apresentada acima, mas com a diferença que o pregador foi famoso e carismático frei Damião de Bozzano.

Celebrações de vaqueiros pelo interior do Nordeste não eram incomuns nas décadas de 1940 e 1950. Aqui vemos um encontro de vaqueiros nas ruas de Icó, Ceará – Fonte – http://www.icoenoticia.com

No livro de tombo da Paróquia de Nossa Senhora Rainha dos Anjos, de Petrolina, há uma anotação informando que em 1946 continuava a ser celebrada a Festa do Vaqueiro. Em 21 de julho de 1951 o evento passou a ser presidido pelo padre José de Castro, vigário cooperador de Petrolina. Apesar das dificuldades o padre José conseguiu reunir uns 200 vaqueiros naquele ano.

A ideia de celebrar a vida do Vaqueiro foi seguida em outras paróquias da Diocese, como foi o caso na cidade de Araripina, Pernambuco, onde os vaqueiros entravam na cidade tocando os seus búzios nos eventos celebrados pelo padre Gonçalo Pereira Lima[10].

1971 – A Primeira Missa

Os jornais pesquisados na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco não são muito pródigos em relatos sobre a primeira Missa do Vaqueiro realizada em Serrita.

1971 – Luiz Gonzaga na primeira celebração

Ao folhear as velhas páginas, posso entender que o evento estava restrito a ser uma comemoração religiosa que ocorria em uma pequena cidade sertaneja, localizada a mais de 550 quilômetros da capital pernambucana.

Segundo o padre Câncio a primeira missa contou com o apoio decisivo de Luiz Gonzaga, que patrocinou grande parte do evento. Vários vaqueiros (o número não é especificado) e cerca de “50 outras pessoas” atenderam ao chamamento do padre e do cantador e se fizeram presentes no sítio Lajes.

Os cavaleiros vieram a celebração montados em seus alazões, trajados a caráter e assistiram a missa montados. A comunhão foi celebrada não com hóstias tradicionais, mas com queijo de coalho e rapadura. A missa foi celebrada sobre um tablado de madeira e junto ao padre estavam os familiares de Raimundo Jacó.

Os poucos relatos que me forneceram sobre este primeiro evento mostram uma foto com o consagrado Luiz Gonzaga, de sanfona em punho, cantando o sermão da missa. A pesquisadora francesa Dominique Dreyfus informa em seu livro, página 248, que Gonzaga participou ativamente dos primeiros anos da Missa do vaqueiro de Serrita e apoiou financeiramente o evento até 1974.[11]

Os primeiros eventos foram caracterizados pela simplicidade

Não foi possível precisar a data, mas acredito ter sido no terceiro domingo de julho de 1971, 18 de julho, pois nos anos seguintes seria nesta data que normalmente o evento passaria a ocorrer.[12]

Mas percebemos através dos antigos periódicos que foi tudo muito simples, sem sofisticação, sem recursos eletrônicos, mas com muita fé e um positivo sentimento participativo de todos que ali estavam.[13]

Mas algo aconteceu!

A simplicidade do altar nos primeiros eventos

Não sabemos como se processou, mas em meio à missa simples e tradicional de 1971, com todos os vaqueiros encourados presentes, foram realizadas as tomadas cinematográficas para um documentário.

Intitulado “A Missa do Vaqueiro”, era um curta-metragem rodado em 16 m.m., colorido, com 25 minutos de duração e tinha a direção do baiano José Carlos Capinam e do carioca José Carlos Avellar.[14]

Repercussão no Sul do País

Em janeiro de 1972 vamos encontrar o padre João Câncio e os poetas e cantadores Pedro e João Bandeira reunidos na casa de Luiz Gonzaga, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Estavam na Cidade Maravilhosa para assistir a uma exibição do trabalho de Capinam e Avellar, mas concederam entrevistas para os periódicos locais O Jornal e Jornal do Brasil, onde o padre Câncio conseguiu chamar a atenção dos jornalistas cariocas tanto para o seu trabalho sacerdotal, como para a incipiente e diferenciada celebração religiosa na zona rural de Serrita[15].

Os jornalistas se impressionaram com a simplicidade e a inteligência do padre Câncio. Afirmaram que ele poderia tanto comentar sobre problemas do sertão, como sobre a “Crise de Bagladesh”[16].

Nos anos posteriores a Missa do Vaqueiro de Serrita se consolidou e foi notícia em inúmeros jornais do sul do país. Com a divulgação na mídia o evento cresceu em movimento e fluxo de pessoas, tornando-se uma dos mais importantes eventos do calendário turístico de Pernambuco.

Ao violão o poeta Bandeira, tendo ao seu lado o padre Câncio com seu chapéu de couro. Foto da edição de 12 de janeiro de 1972, do periódico carioca “O Jornal”

Se nos anos seguintes a celebração só cresceu, igualmente ocorreram criticas relativas a descaracterização da pequena e simples festa, da participação negativa das forças políticas regionais no evento.

Anos depois o padre Câncio decidiu deixar a batina, casou com Helena Câncio e veio a falecer no dia 10 de fevereiro de 1989. Não sei até quando o grande Luiz Gonzaga continuou a frequentar o evento. Mas indubitavelmente a Missa do Vaqueiro, mantendo ou não suas características iniciais, deve a estes dois homens, que tanto amavam o sertão, o seu sucesso.

 

NOTAS


[1] Sobre dados estatísticos de Serrita na década de 1950, ver “Enciclopédia dos Municípios Brasileiros”, 18º Volume, IBGE, 1958, págs. 279 a 281.

[2] Este costume de muitos vaqueiros aboiadores colocarem o dedo no ouvido ao começar a cantar provem da necessidade da transformação da voz do rapsodo, de “voz do peito” em “voz da cabeça”, e à necessidade de manter o equilíbrio em face da vertigem que a cantiga provoca. Ver http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=892

[3] Ver “O Jornal”, Rio de Janeiro, edição de quarta feira, 19 de janeiro de 1972, págs. 4 e 5. Pedro e João Bandeira de Caldas, salvo engano, são netos do afamado violeiro Manuel Galdino Bandeira e são naturais do Sítio Riacho da Bela Vista, município de São José de Piranhas, sertão da Paraíba. Mas a vida artística destes respeitados violeiros se desenvolveu na cidade do Crato, Ceará.

[4] Ver o “Diário de Pernambuco”, edição de domingo, 20 de julho de 1975, págs. 12 e 13 e a edição de terça feira, 27 de agosto de 1996, págs. 10 e 11, existentes na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. O “Jornal do Commércio”, de Recife, na sua edição de quarta feira, 16 de julho de 1976, pág. 10, aponta que o corpo de Jacó foi encontrado um dia após o seu assassinato.

[5] A cidade de Exu se encontra a cerca de 70 quilômetros de Serrita. O conflito entre as famílias Alencar e Sampaio marcou profundamente a região do Sertão do Araripe, principalmente na década de 1970. Esta briga entre famílias tradicionais só acabou quando o próprio Governo Federal chegou a intervir na cidade, em parceria com outras instituições de Pernambuco, inclusive a igreja católica.

[6] “Diário de Pernambuco”, edição de terça feira, 20 de julho de 1976, página 9. Ver a reportagem sobre a Missa do Vaqueiro.

[7] Na edição de domingo, 27 de agosto de 1996, do “Diário de Pernambuco”, de Recife, trás a informação que José Miguel Lopes, ainda vivo a época da reportagem, jamais participou da celebração famosa, vivendo  praticamente recluso no distrito de Rancharia.

[8] Segundo site http://www.onordeste.com, Nelson Barbalho nasceu no dia 2 de junho de 1918, na cidade de Caruaru, Pernambuco. Não chegou a concluir o curso secundário no Colégio Americano Batista do Recife, regressando à terra natal para trabalhar. Aposentou-se como fiscal do IAPAS, função que lhe permitiu conhecer quase todas as cidades do interior pernambucano, recolhendo, assim, farto material para seus livros. Jornalista, historiador, pesquisador, lexicógrafo, compositor musical (parceiro em diversas músicas com Luís Gonzaga – o Rei do Baião), Nelson Barbalho sempre foi um escritor, autor de quase uma centena de livros, entre os quais destacamos “Cronologia Pernambucana” (com vinte volumes publicados dos quase cinquenta que compõem a obra), perto de vinte livros sobre Caruaru (“Meu povinho de Caruaru”, “Major Sinval”, “Caruaru do meu tempo”, etc.) e outros trabalhos folclóricos como “Dicionário da Cachaça”, “Dicionário do Açúcar”, sem contar vários ensaios publicados em jornais e revistas especializadas, na qualidade de estudioso da história e costumes do povo do Nordeste. Faleceu na cidade do Recife, no dia 22 de outubro de 1993.

[9] Ver http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Padre+Jo%C3%A3o+C%C3%A2ncio

[10] Certas espécies de búzios marinhos possuem a capacidade de produzir sons fortes, que serviam para comunicação a distância e foram utilizados para esta prática em várias partes do mundo, por vários povos, através dos séculos. No sertão nordestino, de largas paragens, a utilização de búzios era uma forma de comunicação prática entre vaqueiros que tangiam gado no meio da caatinga. Vem daí o termo “buzar”, para tocar o instrumento.

[11] A foto comentada está na edição do periódico carioca “O Jornal”, de quarta feira, 19 de janeiro de 1972.

[12] Ver as páginas do periódico carioca “Jornal do Brasil”, edição de quinta feira, 1 de agosto de 1974, em reportagem realizada pela jornalista Leticia Lins, que seguiu para Serrita para realizar a cobertura da missa que acontecia pela terceira vez, onde temos informes do primeiro evento. Ainda sobre a primeira missa, ver o “Jornal do Commércio”, de Recife, edição de terça feira , 18 de julho de 1978.

[13] Em entrevista concedida pelo padre João Câncio e Luiz Gonzaga, ao periódico carioca “O Jornal”, de 19 de janeiro de 1972, afirma que a missa teve a participação de “cinco mil vaqueiros”, número que considero exagerado.

[14] No site http://cinemateca.gov.br temos detalhes deste documentário, mas com o título “A Morte do Vaqueiro”. José Carlos Capinam é poeta e compositor. Natural de Esplanada, Bahia, é considerado um dos grandes letristas de sua geração.  Poeta desde a adolescência mudou-se para Salvador aos 19 anos, onde iniciou o curso de direito, na Universidade Federal da Bahia, onde conheceu os estudantes Gilberto Gil e Caetano Veloso, respectivamente dos cursos de Administração e Filosofia. Capinam participou ativamente do movimento Tropicalista no fim da década de 1960. Uma de suas músicas mais famosas é uma homenagem ao guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara e intitulada “Soy loco por ti, América”, com parceria de Gilberto Gil. Também é compositor da música “Papel Marche”, junto com João Bosco, Em 2000 compôs a ópera Rei Brasil 500 Anos, ao lado de Fernando Cerqueira e Paulo Dourado, uma crítica as comemorações dos 500 anos de Descobrimento do Brasil. Além de letrista, poeta e escritor, Capinam é publicitário, jornalista e médico!  Ver http://www.salvadorcomh.com.br. Já o carioca  José Carlos Avellar é Jornalista de formação, trabalhou por mais de vinte anos como crítico de cinema do Jornal do Brasil. Atualmente é integrante do conselho editorial da revista Cinemais e da publicação virtual “El ojo que piensa”, da Universidade de Guadalajara (México). É consultor dos festivais internacionais de cinema de Berlim (desde 1980), de San Sebastián (desde 1993) e de Montreal (desde 1995). Desde 2006 é também curador (com Sérgio Sanz) do Festival de Gramado e já publicou vários livros de ensaios sobre cinema. Ver http://bancocultural.com.br/cinema/?p=71.

[15] Descobri que o documentário “Missa do Vaqueiro” foi premiado na Jornada Nordestina de Curta-metragem, sendo exibido no MAM – Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, no início de outubro de 1973. Ver o “Diário de Notícias”, Rio de Janeiro, edição de domingo, pág. 16, 30 de setembro de 1973.

[16] Bangladesh, antigo Paquistão Oriental, é um país asiático, superpopuloso, que fica entre a Índia e o Golfo de Bengala. Independente do Paquistão em 1971, enfrentou uma sangrenta guerra pela sua liberdade que durou nove meses, encerranda no dia 16 de dezembro de 1971. Bangladesh contou com o apoio da Índia, que se envolveu no conflito contra o Paquistão. Este conflito, devido ao alto número de mortos civis, as terríveis imagens de pessoas famintas em meio aos combates, chamou a atenção dos países ocidentais.

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