A IMPORTÂNCIA DO SÍTIO HISTÓRICO DA RAMPA PARA A AVIAÇÃO BRASILEIRA E SUA SITUAÇÃO ATUAL

O autor deste artigo no prédio histórico da Rampa em 2009 - Foto - Leonardo Dantas
O autor deste artigo no prédio histórico da Rampa em 2009 – Foto – Leonardo Dantas – CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR

Autor – Rostand Medeiros

Segundo apontam os principais estudos relativos à história da aviação no Brasil na primeira metade do século XX, a importância da cidade de Natal para o desenvolvimento desta atividade sempre esteve ligada a sua privilegiada localização geográfica.

Entre o final da década de 1920, até o primeiro semestre de 1942, em meio a uma cidade provinciana, com uma população que variou neste período entre 40.000 a 60.000 pessoas, importantes empresas aéreas chegaram a capital potiguar para desenvolveram suas atividades.

A provinciana Natal - Fonte - Coleção do autor
A provinciana Natal – Fonte – Coleção do autor

Estas eram de origem francesa, alemã, norte americana e italiana. Aqui construíram instalações diversas, vieram com seu pessoal técnico especializado e trouxeram um panorama de modernidade para a pequena capital nordestina. Estas ações tornaram a área de Natal um dos pontos de apoio mais importantes para o desenvolvimento da atividade aérea comercial no mundo.

Chegam os Norte-americanos

As empresas se dividiram basicamente entre dois locais; um no Campo de Parnamirim, afastado da cidade e exclusivo para aviões e o outro destinado às amerissagens dos hidroaviões, nas margens do estuário do rio que banha a cidade de Natal, o Potengi.

Neste rio, no setor situado entre as instalações do Porto de Natal e as proximidades da secular Fortaleza dos Reis Magos foi o local escolhido pelos alemães e norte-americanos para as instalações de suas respectivas estações aéreas.

Um cartaz informativo da Nyrba Lines - Fonte - Coleção do autor
Um cartaz informativo da Nyrba Lines – Fonte – Coleção do autor

A primeira aeronave americana de uma empresa aérea a chegar a Natal foi o hidroavião batizado “Washington”, em 5 de julho de 1929. Nos comandos estava o norte-americano Ralph O’Neill, veterano piloto de caça da Primeira Guerra Mundial e líder da empresa New York-Rio de Janeiro-Buenos Aires Lines, mais conhecida como Nyrba Lines. Em 13 de novembro de 1929, amerissava no rio Potengi o hidroavião “Baía”, da mesma empresa e durante mais três meses, vários outros hidroaviões da Nyrba Lines passam por Natal. Seus tripulantes estudavam as rotas aéreas, aspectos ligados à operação de apoio e um maior conhecimento da bacia do rio Potengi. No dia 25 de janeiro de 1930 a Nyrba Lines vai inaugurar oficialmente a sua rota Rio de Janeiro-Fortaleza, que tinha Natal como ponto de passagem.

Em pouco tempo, mais precisamente em 19 de agosto de 1930, a Nyrba é obrigada a se fundir com empresa Pan America Airways, a famosa Pan Am. Nesta época, segundo Paulo Pinheiro de Viveiros, autor do livro “História da aviação no Rio Grande do Norte” (págs. 31 a 38, 1ª Ed. 1974), os hidroaviões americanos permaneciam atracados em flutuadores estacionados à margem direita do rio Potengi, defronte ao local denominado Passo da Pátria. Era conhecido como “Estação Fluctuante da Panair”.

O homem sob o flutuador da aeronave é o mítico aviador norte-americano Charles Lindbergh, que juntamente com a sua esposa Anne Morow, amerissaram seu hidroavião monomotor Lookheed 8 Sirius no rio Potengi na tarde de 5 de dezembro de 1933, amarrando sua aeronave no flutuante da Panair
O homem ao lado da hélice do hidroavião é o mítico aviador norte-americano Charles Lindbergh, que juntamente com a sua esposa Anne Morow amerissaram seu hidroavião monomotor Lookheed 8 Sirius no rio Potengi na tarde de 5 de dezembro de 1933. na foto vemos sua aeronave sendo amarrada no flutuante da Panair. Eles realizaram um longo “raid” aéreo naquele ano.

Enquanto estas mudanças ocorriam com os norte-americanos, os alemães abrem a sua agência em Natal. Na 2ª página, da edição de quinta feira, 6 de fevereiro de 1930, do jornal natalense “A República”, na pequena nota intitulada “Movimento Aviatório”, existe a informação que um hidroavião da empresa área Syndicato Condor Ltda era esperado ás 15 horas daquele dia, inaugurando a linha aérea entre Natal e Porto Alegre. As instalações desta empresa, de origem e direção germânica, ficaram localizadas em uma área conhecida como praia da Limpa, na região onde atualmente se localiza as instalações do 17º GAC – Grupamento de Artilharia de Campanha.

Em 1934 a Pan Am decide criar uma subsidiária no Brasil, denominando-a Panair. Em Natal a empresa decide melhorar a sua estrutura de apoio onde é construída uma pequena estação de passageiros que desembarcavam dos hidroaviões através de um píer de concreto.

fdm1 (2)

O local foi edificado em um terreno cedido pela Marinha do Brasil, conforme podemos ver na foto da nota jornalística de um jornal de Natal em 1938.

A Tempestade se Aproxima

Logo os tambores de guerra passam a tocar mais alto na Europa e Ásia. O Brasil, nação de tradição pacífica em relação à convivência com outras nações, logo se vê diretamente envolvido na Segunda Guerra Mundial, o maior conflito bélico da história da humanidade.

Enquanto a guerra se expandia em várias partes do mundo, em Natal, a Panair apresentava sua estação de passageiros a margem do rio Potengi - Fonte - Coleção do autor
Enquanto a guerra se expandia em várias partes do mundo, em Natal, a Panair apresentava sua estação de passageiros a margem do rio Potengi – Fonte – Coleção do autor

Relatórios preliminares desenvolvidos pelas forças armadas dos Estados Unidos, antes mesmo da entrada deste país na guerra, corroboravam a importância geográfica de Natal. Informavam que a projeção do litoral nordeste do Brasil, o chamado Saliente Nordestino, onde Natal está localizado, era considerado um importante ponto estratégico militar.

Logo o Brasil e os Estados Unidos firmam acordos diplomáticos em relação ao momento turbulento. Inicialmente estes acordos focaram na defesa territorial do Saliente Nordestino, com a criação de unidades militares do Exército Brasileiro na região, criação de bases navais para a nossa Marinha de Guerra e o desenvolvimento de bases aéreas que seriam utilizadas pelos norte-americanos e pela recém-criada Força Aérea Brasileira, a FAB.

Hangar de nariz da base de Parnamirim, ou Parnamirim Fiel, durante a Segunda Guerra Mundial - Fonte - NARA
Hangar de nariz da base de Parnamirim, ou Parnamirim Fiel, durante a Segunda Guerra Mundial – Fonte – NARA, Washington D.C.

Um dos pontos fortes desta cooperação de defesa foi sem dúvida a Base Aérea de Parnamirim, em Natal. Além da defesa da área da capital potiguar, esta base foi essencial para o trânsito de milhares de aviões militares aliados, que seguiam dos Estados Unidos em direção a África, Europa e Extremo Oriente, transportando homens e todos os tipos de materiais essenciais para os aliados. O transporte por Parnamirim foi importante para a conquista do Norte da África e do Oriente Médio, além da invasão do sul da Europa. Daí surge à expressão que apontou a cidade de Natal como o “Trampolim da Vitória”.

A Base Militar no Rio Potengi e a presença Militar dos Estados Unidos no Brasil

A área da Panair a margem do rio Potengi não deixou de dar a sua contribuição para a defesa da nossa região, bem como dentro do espírito de cooperação entre brasileiros e norte-americanos.

Em 11 de dezembro de 1941, um mês e meio antes do Brasil decretar o rompimento das relações diplomáticas e ocorrer o reconhecimento do “Estado de Beligerância” e oito meses antes da declaração formal de guerra contra as potências do Eixo, chegam ao rio Potengi de seis hidroaviões militares PBY-5 Catalina, do esquadrão de patrulha marítima VP-52, da Marinha dos Estados Unidos (United States Navy-U.S. Navy). Já a área as margens do rio Potengi que pertencia aos alemães, passa a ser utilizada pelos americanos.

Foto da construção da nova estação de passageiros - Fonte - Tribuna do Norte
Foto da construção da nova estação de passageiros da Panair com seus arcos característicos – Fonte – Tribuna do Norte – http://tribunadonorte.com.br/news.php?not_id=245971

Neste período é construída a edificação com arcos e torre de controle que marcam este local histórico. Paralelo a esta situação são construídas rampas de acesso para a retirada dos hidroaviões da água e manutenção em terra. Por esta razão o lugar passou a ser conhecida pelos natalenses simplesmente como Rampa.

Um hidroavião  Martin PBM Mariner, da U.S. Navy, visto através dos arcos do prédio histórico da Rampa - Fonte - Tribuna do Norte
Um hidroavião Martin PBM Mariner, da U.S. Navy, visto através dos arcos do prédio histórico da Rampa – Fonte – Tribuna do Norte – http://tribunadonorte.com,br/news.php?not_id=245971

Além da base de Parnamirim e da área as margens do rio Potengi em Natal, dentro do processo de cessão de áreas militares no Brasil, os norte-americanos passaram a operar em 15 outros pontos do território brasileiro, em uma abrangência que ia do Amapá ao Rio Grande do Sul.

Para termos uma ideia da grandeza desta ação, o documento que apresentamos a seguir foi produzido em 14 de maio de 1944 e mostra a disposição das áreas de operações que a 4ª Frota (Fourth Fleet) da U.S. Navy possuía no Brasil.

Listas das bases da U.S. Navy no Brasil em 1944 - do Amapá ao Rio Grande do Sul.
Listas das bases da U.S. Navy no Brasil em 1944 – do Amapá ao Rio Grande do Sul.

É importante apontar que além da U.S. Navy, operava no nosso país a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Force-USAAF), com grande quantidade de homens e aviões, principalmente na função de transporte.

Nova Utilização 

Após o final da Segunda Guerra Mundial, diante dos progressos técnicos da aviação, do crescimento do fluxo de passageiros e das mudanças em relação à forma de utilização da aviação comercial, a necessidade de estações de hidroaviões como a existente as margens do rio Potengi decresceu vertiginosamente.

Nova estação da Panair, mas sem utilização após a guerra - Fonte - Tribuna do Norte
Nova estação da Panair, mas sem utilização após a guerra – Fonte – Tribuna do Norte – http://tribunadonorte.com.br/news.php?not_id=245971

Como havia sido anteriormente acordado entre o governo brasileiro e o norte-americano, as áreas militares utilizadas a margem do rio Potengi foram devolvidas aos brasileiros, fato que ocorreu em 1946.

O destino desta área militar foi uma parte entregue ao Exército Brasileiro (Que ali criou o aquartelamento atualmente denominado 17º GAC) e outra a FAB. Esta última Força ali implantou uma área de lazer para seus membros, que se tornou uma forte geradora de diversas atividades sociais, tanto para os militares, quanto ao povo natalense.

Um restaurante operou no prédio da Rampa - Fonte - Tribuna do Norte
Um restaurante operou no prédio da Rampa – Fonte – Tribuna do Norte

Com o passar do tempo, em parte devido às mudanças do eixo de expansão da cidade de Natal, bem como diante de diversas mudanças de caráter social, cultural e de comportamento da nossa sociedade, a área da Rampa foi gradativamente perdendo sua importância e sua utilização pública cessou.

Nos últimos anos o local ficou sob a responsabilidade da União Federal e em 2009 foi repassada para a responsabilidade do estado do Rio Grande do Norte, que tem planos de ali abrigar um museu ligado a história da aviação e da Segunda Guerra Mundial.

Esperança de Recuperação

Em 2 de junho de 2013, em mais uma visita relâmpago ao Rio Grande do Norte, a Presidente Dilma Rousseff assinou a ordem de serviço para a obra, que está orçada em R$ 7,2 milhões, com a conclusão do serviço prevista para 12 meses.

Visita do historiador e brasilianista Frank McCann a Rampa - Fonte - Coleção do autor
Visita do historiador e brasilianista Frank McCann a Rampa – Fonte – Coleção do autor

Segundo reportagem do periódico Novo Jornal, de 3 de junho de 2013, o histórico prédio da Rampa não passa por uma reforma há mais de dez anos. Levantamentos realizados pela equipe técnica da Secretária de Turismo mostra que a estrutura apresenta problemas. O piso cimentado não tem condições de uso, as vigas e pilares que compõem todos os prédios do complexo estão em estado de oxidação e o antigo cais tem de ser demolido e construído um novo. A expectativa dos órgãos de turismo é que “o futuro Museu da Rampa e o Memorial do Aviador, que fazem parte do complexo, resgatem do esquecimento o antigo reduto das tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial, transformando-se em atração turística”.

Na época da assinatura da ordem de serviço, antes do início das grandes manifestações que atualmente ocorrem no país, a expectativa era que a empresa responsável pela obra, a Ramalho Moreira Ltda, começasse os trabalhos já no dia 10 de junho corrente.

O autor deste artigo com o professor McCann na Rampa - Fonte - Coleção do autor
O autor deste artigo com o professor McCann na Rampa – Fonte – Coleção do autor

Na última sexta feira, 28 de junho de 2013, estive no local com o historiador norte-americano Frank McCann, professor da universidade de New Hampshire, um dos mais respeitados brasilianistas e profundo conhecedor da história do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. Infelizmente nada, nenhuma obra física havia sido iniciada. Bem, pode-se argumentar que “Construção no Brasil é assim mesmo”. Ou então que “Diante das manifestações tudo atrasou”. Melhor seria que já estivesse sendo feito algo.

FrankD (87)

Para Frank McCann, a visão atual da Rampa foi um impacto. Esse americano, cujas obras literárias são referência no estudo sobre as relações políticas entre o Brasil e os Estados Unidos, sobre o Exército Brasileiro, sobre a nossa participação na Segunda Guerra Mundial e que desenvolve pesquisas históricas em nosso país há mais 50 anos, é um absurdo que aquele local, com tamanha bagagem histórica para a aviação brasileira e mundial, esteja naquele estado.

Espero que em breve estas mudanças ocorram e que aquele local seja preservado.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

VISITA DO HISTORIADOR FRANK D. McCANN A NATAL

VISITANDO O PRÉDIO DA RAMPA
VISITANDO O PRÉDIO DA RAMPA

Amigos e amigas, Na última quinta feira eu tive o privilégio de receber em nossa cidade o historiador norte-americano Frank McCann, professor da universidade de New Hampshire, um dos mais respeitados brasilianistas e profundo conhecedor da história do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.

JUNTO COM O Cb GOMES NO ANTIGO HANGAR DE NARIZ DA USAAF
FRANK McCANN JUNTO COM O Cb GOMES NO ANTIGO HANGAR DE NARIZ DA USAAF NA BASE AÉREA DE NATAL

Este diálogo começou em fevereiro último, quando ele visitou um dos posts aqui nosso TOK DE HISTÓRIA e gostou do material (Veja o texto que ele leu e na parte dos comentários está o primeiro contato com Frank McCann – https://tokdehistoria.wordpress.com/2012/11/17/4341/).

FRANK FOTOGRAFADO JUNTO AO HANGAR DE NARIZ DA US NAVY
FRANK FOTOGRAFADO JUNTO AO HANGAR DE NARIZ DA US NAVY

Daí começou uma intensa troca de e-mails e ele apontou a sua intenção de vir a Natal e me coloquei a disposição. Esta viagem ao Brasil possui o principal objetivo de coletar dados para futuros trabalhos e rever Natal, o prédio da Rampa e a Base Aérea de Natal, que ele teve oportunidade de conhecer em 1965.

AQUI FRANK JUNTO A UM DOS CAÇAS DA NOSSA MARINHA DE GUERRA, QUE ESTÁ TEMPORARIAMENTE NA BASE AÉREA DE NATAL
AQUI FRANK JUNTO A UM DOS CAÇAS DA NOSSA MARINHA DE GUERRA, QUE ESTÁ TEMPORARIAMENTE NA BASE AÉREA DE NATAL

Esta foi uma visita muito positiva e extremamente proveitosa. Onde conheci uma pessoa muito simples, prática, sincera, aberta ao diálogo e participativa no quesito de dividir informações. Apesar do tempo curto, deu para levar o amigo Frank para uma típica casa de forró. Foi muito bom.

JUNTO A UM DOS AVIÕES HISTÓRICOS DA BANT
JUNTO A UM DOS AVIÕES HISTÓRICOS DA BANT

FRANK D. McCANN é Professor Emérito de História na Universidade de New Hampshire, onde ele é membro do corpo docente desde 1971. Recebeu sua educação em Niagara University (AB cum laude, 1960), Kent State University (MA, 1962), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Fulbright, 1965), e da Indiana University (Ph.D., 1967). Antes de ingressar na faculdade de Nova Hampshire, ele ensinou na Universidade de Wisconsin-River Falls (1966-1968), e, quando em serviço militar ativo, na Academia Militar dos EUA em West Point (1968-1970). Ele estava Visiting Research Fellow na Universidade de Princeton (1970-1971) e um “guest scholar” no Wilson Center, em Washington (1978).

NA ENTRADA DO SETOR DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA BASE AÉREA DE NATAL, JUNTO AO Cb. (SMU) RUI EDSON GOMES DE MELO, QUE COM EXTREMA COMPETÊNCIA E ATENÇÃO APRESENTOU ESTA GRANDE UNIDADE MILITAR DA FAB. DEIXO IGUALMENTE MEUS SINCEROS AGRADECIMENTOS AO 1º Sgt. (BFT) PAULO ALVES CORREIA PELO APOIO A ESTA VISITA
NA ENTRADA DO SETOR DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA BASE AÉREA DE NATAL, JUNTO AO Cb. (SMU) RUI EDSON GOMES DE MELO, QUE COM EXTREMA COMPETÊNCIA E ATENÇÃO APRESENTOU ESTA GRANDE UNIDADE MILITAR DA FAB. DEIXO IGUALMENTE MEUS SINCEROS AGRADECIMENTOS AO 1º Sgt. (BFT) PAULO ALVES CORREIA PELO APOIO A ESTA VISITA

Ele foi professor visitante na Universidade de Nova Iorque (1979-1980) e na Universidade do Novo México (1983), e Fulbright Professor na Universidade de Brasília (1976-1977) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (1991).  Em 1998 foi Professor Visitante no Programa de Especialização em Estudos de Fronteira, Universidade Federal de Roraima (Boa Vista).

FRANK CONCEDENDO UMA ENTREVISTA A REPÓRTER MARÍLIA ROCHA, DA TRIBUNA DO NORTE, NO PRÉDIO DA RAMPA
FRANK CONCEDENDO UMA ENTREVISTA A REPÓRTER MARÍLIA ROCHA, DA TRIBUNA DO NORTE, NO PRÉDIO DA RAMPA

As suas pesquisas tem-se centrado em política externa brasileira, sobre as relações com os Estados Unidos, a cultura brasileira, e sobre o exército brasileiro.  Isso resultou em quatro livros publicados: Aliança Brasil – Estados Unidos, 1937-1945 (Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1995); A Nação Armada: Ensaios sobre a História do Exército Brasileira (Recife: Editora Guararapes, 1982).  Ele e Michael L. Conniff editaram a obra Modern Brasil: Elites and Masses in Historical Perspective (Lincoln: University of Nebraska Press, 1989 e 1991); Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro, 1889-1937 (São Paulo: Companhia das Letras 2007 e co-Edição Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora 2009).

NO PRÉDIO HISTÓRICO DA RAMPA
NO PRÉDIO HISTÓRICO DA RAMPA

Além disso, ele tem escrito muitos artigos, ensaios, resenhas e comentários publicados. Ele detém o honra de Comendador da Ordem do Rio Branco e recebeu a Medalha do Pacificador do Exército Brasileiro.

Mais detalhes desta visita, veja matéria do jornal Tribuna do Norte deste sábado, 29/06/2013 – http://tribunadonorte.com.br/noticia/memoria-esquecida-e-abandonada/254270

E COMO NINGUÉM É DE FERRO E EU VALORIZO A MINHA CULTURA E AS MINHAS RAÍZES, NADA MELHOR QUE TERMINAR A VISITA EM UMA CASA DE FORRÓ. FRANK ME PEDIU E LEVOU MAIS DE 500 MÚSICAS (EM MP3) DE AUTÊNTICO FORRÓ, XOTE, BAIÃO, XAXADO, MÚSICA DE RABEQUEIROS, QUINTETO ARMORIAL E POR AÍ VAI!
E COMO NINGUÉM É DE FERRO E EU VALORIZO A MINHA CULTURA E AS MINHAS RAÍZES, NADA MELHOR QUE TERMINAR A VISITA EM UMA CASA DE FORRÓ. FRANK ME PEDIU E LEVOU MAIS DE 500 MÚSICAS (EM MP3) DE AUTÊNTICO FORRÓ, XOTE, BAIÃO, XAXADO, MÚSICA DE RABEQUEIROS, QUINTETO ARMORIAL E POR AÍ VAI!

AGRADECIMENTOS – NA BASE AÉREA DE NATAL NÃO POSSO DEIXAR DE AGRADECER AO Cb. (SMU) RUI EDSON GOMES DE MELO, QUE COM EXTREMA COMPETÊNCIA E ATENÇÃO APRESENTOU ESTA GRANDE UNIDADE MILITAR DA FAB. VAI MEUS AGRADECIMENTOS AO 1º Sgt (BFT) PAULO ALVES CORREIA, AO PESSOAL DO CECOMSAER (CENTRO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA AEREONÁUTICA) EM BRASÍLIA E ESPECIALMENTE AO Sub. Of. (BIMFA DE NATAL) JAIR PAULO PELAS ORIENTAÇÕES, APOIO E TORCIDA PARA QUE ESTA VISITA FOSSE POSITIVA. A TODOS O MEU MUITO OBRIGADO.

NOVO LIVRO DE JOÃO BARONE NA GLOBO NEWS

João Barone no programa Globo News Literatura.
João Barone no programa Globo News Literatura.

O novo livro do músico e pesquisador João Barone “1942-O Brasil e sua guerra quase desconhecida” foi esta semana um dos temas de uma interessante reportagem do programa Globo News Literatura.

Em seis minutos você pode conhecer mais sobre este livro e a pesquisa realizada. Para acessar é só clicar no link abaixo;

http://g1.globo.com/globo-news/literatura/videos/t/todos-os-videos/v/baterista-do-paralamas-do-sucesso-lanca-1942-o-brasil-e-sua-guerra-quase-desconhecida/2649309/

Durante a reportagem fiquei surpreso e ao mesmo tempo feliz, de ver que na escrivaninha do amigo João Barone está o nosso último livro “Eu não sou Herói-A história de Emil Petr”.

João Barone é mais conhecido pelo seu desempenho nas baquetas da banda Paralamas do Sucesso, mas há algum tempo vem trazendo para o grande público, através de seus documentários e livros, novas e interessantes informações sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Já tive a oportunidade expressar a João Barone minha opinião que ele é um dos maiores responsáveis pelos processos de popularização deste tema nos últimos anos aqui no Brasil. Esta popularização é extremamente necessária para que aqueles que lá foram não sejam esquecidos, ajuda a pesquisadores a ampliarem novos trabalhos sobre o tema e para que esta história não volte a se repetir.

Sei que novos trabalhos do João Barone estão chegando e com certeza com a marca da qualidade que lhe é peculiar.

1942-O Brasil e sua guerra quase desconhecida
1942-O Brasil e sua guerra quase desconhecida

ARTHUR, O HERÓI DA BRETANHA

487892_608480622501553_1258568449_n

No mundo real, o dono da lendária Excalibur não foi rei nem se reunia com seus cavaleiros em torno da távola redonda, mas organizou uma resistência sem precedentes contra os bárbaros que ameaçavam sua terra

Para a maioria dos europeus, o fim do mundo talvez nunca tenha estado tão próximo quanto lá pelo fim do século 5. A única ordem que a região havia conhecido por quase 500 anos – o poder de Roma – tinha virado pó depois de uma longa agonia e o futuro parecia pertencer aos bandos de bárbaros do norte e do leste, fundando reinos que brotavam e sumiam como cogumelos nas terras do antigo império. Mas havia um lugar em que a vida não estava sendo nada fácil para os invasores. Na ilha da Bretanha, os ex-súditos de Roma montaram a resistência mais bem-sucedida da Europa e detiveram a maré bárbara por décadas. Cada vez mais parece provável que um líder militar poderoso conduziu os bretões, um guerreiro que iria virar lenda: Arthur.

A figura que está emergindo das brumas do ano 500 muito provavelmente não era um soberano e com certeza jamais botou os pés num castelo. Mesmo assim, existem paralelos intrigantes entre o Arthur lendário e o do mundo real, que podem incluir detalhes como o local de nascimento, a morte nas mãos de um conterrâneo bretão e, segundo uma das teorias mais polêmicas, até batalhas travadas do outro lado do canal da Mancha, em pleno território da atual França.

c1BT10

Muito antes da carreira militar de Arthur, a Bretanha romana (que correspondia mais ou menos à Inglaterra, ao País de Gales e ao sul da Escócia de hoje) já andava em maus lençóis havia um bom tempo. Em parte, isso era culpa dos próprios soldados que deviam comandar a defesa da ilha: volta e meia a Bretanha exportava um general que almejava tonar-se imperador, como o famoso Magnus Maximus, que chegou perto de conseguir seu intento antes de ser derrotado no ano 388. Esses sujeitos arrastavam consigo os exércitos responsáveis por patrulhar a província, deixando-a cada vez mais vulnerável à sanha dos piratas bárbaros.

Esse problema era endêmico no império todo na época, mas, no caso da Bretanha, o incômodo era triplo. Do norte da Alemanha e do sul da Dinamarca vinham tribos germânicas, os anglos, saxões e jutos, falantes de dialetos ancestrais do inglês de hoje. Do nordeste da Escócia atacavam os escotos e os pictos, guerreiros violentos que lutavam de um jeito selvagem, quase nus, com o corpo coberto por tatuagens. Para completar a desgraça, havia os escotos da Irlanda, que também eram um povo celta como seus primos bretões e gauleses, mas tinham ficado de fora do domínio romano.

Muita gente costuma imaginar que, em dado momento, Roma acabou desistindo de manter a ilha dentro de seus domínios, já que tinha de se preocupar com a própria sobrevivência, e abandonou a Bretanha. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário: os bretões ficaram de saco cheio de serem deixados na mão por mais um general que queria virar imperador (um tal de Constantino III) e declararam independência. “A idéia de que a ilha ficou indefesa porque os romanos retiraram suas legiões não passa de um mito. As legiões foram embora porque Constantino as levou com ele para tentar conquistar o continente, sem sucesso, e a mudança seguinte no status da Bretanha foi ativa, e não passiva”, afirma o historiador britânico Geoffrey Ashe, autor de Kings and Queens of Early Britain (“Reis e Rainhas da Antiga Bretanha”, inédito no Brasil). O imperador legítimo, Honório, reconheceu a independência da região em 410, numa carta em que delegou às cidades bretãs a responsabilidade de se defenderem militarmente.

Hadrians-wall-Greenhead-Lough-Velela-pub-e1334082953226

Uma lança de duas pontas

Parecia ousadia demais dos bretões. E era mesmo. A estratégia de defesa que a Bretanha independente passou a adotar seguia os padrões dos romanos em seus anos finais de dominação: contratar mercenários bárbaros, normalmente germânicos, para fazer o trabalho sujo. Muitos deles eram saxões, parentes dos invasores, como mostra a presença de fivelas de cintos militares típicos desse povo em sítios arqueológicos da época.

Sujeitos ambiciosos e com alguma tradição de liderança aproveitaram o momento para ganhar poder. “Os aristocratas nativos tinham se romanizado, mas, quando a ligação com Roma foi cortada, as antigas tradições de nobreza retornam com força. Os bretões eram muito conservadores nesse sentido”, diz o historiador Christopher Snyder, da Universidade Marymount, nos Estados Unidos. Um desses homens, chamado Vortigern, parece ter conseguido se tornar superbus tyrannus (“governante supremo”, em latim) de boa parte da Bretanha por volta do ano 430.

Mas algo deu muito errado. Talvez os mercenários saxões não tenham sido pagos, ou talvez apenas tenham percebido que seria fácil tomar mais do que os bretões lhes haviam prometido. O fato é que o tiro saiu pela culatra, e os saxões se apossaram de terras por todo o leste da atual Inglaterra. Mais e mais levas deles vinham se juntar aos que já estavam na Bretanha, e os ataques de pictos e escotos voltaram com força total. Os bretões chegaram a pedir a ajuda de Roma, numa carta desesperada ao general Aetius: “A Aetius, três vezes cônsul, os lamentos dos bretões. Os bárbaros nos empurram para o mar; o mar nos empurra de volta para os bárbaros. Entre esses dois tipos de morte, somos ou afogados ou assassinados”, dizia a mensagem, datada de 446. Às voltas com os hunos de Átila batendo nos portões de Roma, Aetius não tinha como ajudar.

arthur

É uma tarefa ingrata reconstruir o que aconteceu nas décadas seguintes. Além dos restos arqueológicos (que dizem pouco sobre pessoas ou batalhas específicas), tudo o que temos são anais compilados por monges na Bretanha e na Gália, às vezes séculos depois dos eventos narrados, e o apocalíptico De Excidio et Conquestu Britanniae (Da Destruição e Conquista da Bretanha), do também religioso Gildas. Esse livro tem, pelo menos, a vantagem de ter sido escrito mais ou menos perto dos eventos narrados, lá pelo ano 530. A principal preocupação de Gildas era moralizante (o monge diz que os bretões andavam levando a pior por causa de seus pecados), mas, no meio de tanto sermão, há também informações preciosas.

Segundo o monge, os bretões finalmente conseguiram iniciar uma resistência, sob o comando de um certo Ambrosius Aurelianus. “Gildas o descreve como um vir modestus, ou seja, um homem decente, e afirma que seus pais usavam a púrpura, o que é uma indicação de que eles eram de uma família romana de origem nobre”, diz Christopher Snyder. A partir daí, a briga ficou indefinida, com vitórias de um lado e de outro, até que os bretões conseguiram um grande triunfo, num lugar chamado monte Badon (Gildas não deixou claro se foi Ambrosius quem conduziu os bretões nessa vitória). Dali por diante, os bretões teriam conseguido uma trégua de quase meio século. Textos compilados séculos mais tarde, provavelmente com base em antigos anais do século 5, não deixam dúvidas sobre quem teria sido o vencedor de Badon: seu nome era Arthur.

round table

Num dos raros momentos em que dá para comparar dados históricos com os da arqueologia, parece que ao menos o esquema básico dessa narrativa está correto: pesquisadores como John Hines, da Universidade de Cardiff, no País de Gales, verificaram que os cemitérios saxões (caracterizados pelas jóias e armas típicas dos mortos) avançam progressivamente para o oeste, sinalizando a expansão dos invasores, até pararem de repente por volta do ano 500. O avanço só recomeça meio século depois. Alguém ou algo deteve os saxões – resta saber se o fenômeno atende mesmo pelo nome de Arthur.

Curiosamente, outras pistas quase contemporâneas sobre o líder bretão são exatamente isso: nomes. Praticamente não há menção a pessoas chamadas “Arthur” na Bretanha antes de Badon, mas o nome, de repente, se torna um dos favoritos da nobreza nos dois séculos seguintes. “Há uma série de breves referências a reis e príncipes galeses e irlandeses chamados Arthur a partir do fim do século 6”, conta Kenneth Dark, historiador da Universidade de Reading, na Inglaterra. “Nenhum desses homens deve ser o Arthur histórico, mas o que eles mostram é que o nome se tornou popular entre as famílias reais, e que pode ter havido um Arthur famoso que inspirou o batismo deles”, afirma Dark. O poema épico “Y Gododdin”, provavelmente do século 6, cita Arthur como modelo de bravura em combate. Dali por diante, o guerreiro começa a ser chamado de rei e vira presença constante nas lendas galesas, até ser transformado na figura cavalheiresca e mágica que conhecemos (com Merlin, Guinevere e tudo o mais) pelo clérigo Geoffrey de Monmouth, num livro de 1136.

King-Arthur-manuscript-kn-006

Lendas, mitos e tradição

É nesse ponto que comparar a lenda com a história começa a se tornar um exercício útil. Diz a tradição, por exemplo, que Arthur teria nascido no castelo de Tintagel, na Cornualha (região sudoeste da Inglaterra). Acontece que escavações e análises feitas no final dos anos 90 nessa região mostraram que, de fato, Tintagel foi o lar de um nobre poderoso no fim do século 5. Havia ali um movimentado porto, que comerciava com a Gália (atual França), a Itália e o norte da África. Quem quer que habitasse o lugar podia pagar pelo luxo de beber vinho e usar azeite do Mediterrâneo, carregados em vasilhas de fina cerâmica. Mas a descoberta mais impressionante no local foi uma laje de pedra com uma espécie de assinatura de quem mandou construir o lugar: Artognou (pronuncia-se “Arthnou”). No mínimo, é uma coincidência das grandes.

A 100 quilômetros de Tintagel, escavações que se sucedem desde os anos 60 têm mostrado que a região de Cadbury, identificada com a lendária Camelot há séculos, realmente abrigou a maior praça forte da Bretanha nos séculos 5 e 6. Um colosso com muralhas de madeira e pedra que iam subindo, em círculos, as encostas de uma colina até terminar num portão, cercado por torres.

Tudo indica, então, que as áreas por onde Arthur andava ainda eram prósperas e bem guarnecidas militarmente. Mas será que ele as governava? Arthur deve ter sido um nobre bretão, mas as referências mais antigas às batalhas vencidas por ele, no manuscrito do século 6 conhecido como Historia Brittonum (“História dos Bretões”), de autoria desconhecida, o chamam de dux bellorum, “líder de batalhas”, e dizem que ele lutava ao lado dos reis bretões. Esse texto também mostra que a imagem de Arthur como um herói cristão é muito antiga: numa de suas vitórias, ele teria carregado uma imagem de Nossa Senhora. Em Badon, teria empunhado “a cruz de Nosso Senhor Jesus” (provavelmente uma referência a um amuleto muito comum na época: um pedaço de madeira supostamente retirado da cruz em que Cristo morreu). Ser um líder guerreiro, na época, significava trabalhar muito. Lutava-se um tipo de guerra altamente móvel e sobre qualquer terreno. “A maioria de suas tropas provavelmente era montada e lutava com espadas, lanças e dardos, aproximando-se do inimigo numa série de investidas, e não numa carga de cavalaria coordenada”, diz Leslie Alcock, arqueólogo da Universidade de Glasgow, na Escócia, e autor de Arthur’s Britain (“A Bretanha de Arthur”, sem versão em português).

Satellite

Até a idéia de que Arthur teria levado um exército para a Gália, por séculos considerada uma invenção de Geoffrey de Monmouth, tem sido reconsiderada. Para Geoffrey Ashe, registros sobre um chefe bretão chamado Riothamus, que levou 12 mil homens para ajudar os romanos contra os visigodos, poderiam, na verdade, se referir a Arthur. É que Riothamus aparenta ser não um nome, mas um título, significando “rei supremo”. No entanto, como a aventura de Riothamus data de 470 e ele desaparece logo depois, fica difícil reconciliá-lo com a vitória de Arthur em Badon (por volta do ano 490).

O fim de Arthur registrado por antigos textos galeses oferece mais uma conexão intrigante entre história e lenda. No mito, o rei teria sido traído por seu sobrinho, Mordred, conseguiu matá-lo em combate, mas recebeu um ferimento letal. Os anais registram “a contenda de Camlann, em que Arthur e Medraut [Mordred?] pereceram”. Nos dois séculos seguintes, os bretões seriam cada vez mais empurrados para o oeste, embora sempre lutassem para preservar sua identidade, ainda viva no País de Gales de hoje.

No fundo, os detalhes passíveis de recuperação são poucos para uma vida que inspirou tantas lendas. “Não acho que algum dia teremos mais informações seguras sobre o Arthur histórico além das que já conhecemos e, para falar a verdade, isso não me parece um problema”, diz Christopher Snyder. “Há uma mágica em torno do personagem que é parte de seu fascínio.” Considerando os ideais de cavalheirismo e resistência que essa mágica inspirou, não dá para dizer que Arthur não concordaria.

Cronologia da Grande Bretanha – Dos antigos celtas a Elizabeth I, dos romanos ao maior império sobre a Terra

2000 a.C.

Em várias etapas, povos pré-célticos de agricultores constroem o santuário e observatório astronômico de Stonehenge, um dos maiores monumentos da Europa pré-histórica

1000 a.C.

Começam a chegar às Ilhas Britânicas as tribos célticas, em duas levas distintas (uma se estabelece na Grã-Bretanha e a outra na Irlanda). Os celtas trazem conhecimentos avançados de metalurgia e guerreiam em carros puxados por cavalos

2482677_com_coursdephi

55 a.C.

Depois de lutar na Gália, o general romano Júlio César desembarca na Bretanha e consegue a submissão de alguns chefes, mas não chega a estabelecer um domínio romano efetivo na ilha

43

O imperador romano Cláudio retoma o projeto de César e ordena a invasão da Bretanha por um exército de 40 mil soldados. O sul da ilha torna-se província do Império e muitos chefes bretões aderem ao novo governo

60

Boadicéia, rainha dos icenos, inicia uma revolta contra os romanos, depois de ser chicoteada e ver suas filhas serem estupradas. A rebelião é sufocada

122

Começa a construção da Muralha de Adriano (sob orientação do imperador romano de mesmo nome). Com 120 quilômetros de extensão, ela ajuda a proteger a Bretanha dos ataques de caledônios e pictos, da Escócia

1540331_1fdaa912

383

O general espanhol Magnus Maximus, comandante das tropas romanas na Bretanha, é aclamado imperador por suas tropas e governa por cinco anos a parte ocidental do Império Romano

410

O imperador romano Honório reconhece o direito dos bretões à autodefesa e aconselha as cidades da ilha a se armarem contra os bárbaros. A soberania romana na região está encerrada

597

Uma missão enviada pelo papa Gregório Magno inicia a conversão do reino anglo-saxão de Kent ao cristianismo. Um a um, os reinos germânicos que iriam formar a Inglaterra se tornam católicos

871

Sobe ao trono o rei saxão Alfred, que começa a contra-atacar os invasores vikings e dá os primeiros passos para unificar o que se tornaria a Inglaterra

letters-20110web_1766732c

1066

Guilherme, o Conquistador, duque da Normandia (norte da França), invade a Inglaterra e mata o último rei saxão, Harold. Seus sucessores atacarão Gales

1215

O rei inglês João Sem Terra é forçado por seus barões a assinar a chamada Magna Carta, considerada o embrião das constituições do Ocidente por limitar os poderes do soberano

1283

Último reduto da antiga resistência bretã, o País de Gales é conquistado pelo rei inglês Eduardo I e se torna um feudo dos herdeiros da coroa, chamados então de príncipes de Gales

1532

O rei Henrique VIII rompe com o papa e nomeia a si mesmo chefe da Igreja , tornando a Inglaterra um país protestante, embora teologicamente muito próximo do catolicismo

1559

Elizabeth I, filha de Henrique VIII, sobe ao trono. Em seu reinado, os ingleses vencem a invasão da frota espanhola conhecida como Invencível Armada

Mito e história lado a lado – Os elementos da lenda que até podem ter uma base factual e os que são pura invenção

Pode até ser

Excalibur e o lago

Prestes a morrer, Arthur manda que joguem sua espada num lago. Esse era um costume comum entre os antigos soberanos celtas

Avalon

O melhor candidato para ser a ilha de Avalon é Glastonbury, que hoje fica em terra firme. Mas estudos mostram que no século 5, com as cheias, o local ficava ilhado

Espada na pedra

O mito de que o jovem Arthur retirou sua espada de uma pedra remonta à Idade do Bronze, quando elas eram forjadas em moldes de pedra

Tristão

Na lenda, ele é um dos cavaleiros. Uma lápide do século 6, encontrada na Cornualha, tem o nome Drustanus, a forma céltica original de Tristão.

wiki_space (1)

Não é de jeito nenhum

Castelo de Camelot

Os bretões do ano 500 usavam técnicas toscas de construção e até palácios e igrejas eram feitos de madeira. Camelot certamente não era um castelo

Lancelot e Guinevere

O amor entre a esposa do rei e seu melhor amigo é uma invenção medieval, criada pelo poeta francês Chrétien de Troyes, no século 12

Cavalaria

O Arthur histórico provavelmente lutou a cavalo, mas o conceito medieval das ordens de cavalaria só iria aparecer séculos mais tarde

Merlin

Os romanos perseguiram ferozmente os druidas (sacerdotes celtas), e nenhum deve ter sobrado nos séculos 5 e 6, ainda mais com tanto poder sobre um rei

Os outros “Arthurs” – Teorias sobre a verdadeira face de Arthur nunca faltaram. Conheça algumas das principais interpretações sobre o personagem

Guerreiro bretão

Para os defensores dessa tese, Arthur teria sido um bretão com poucas influências de Roma, e talvez nem pudesse ser considerado cristão. Seu principal campo de atuação teriam sido os reinos celtas do norte da Bretanha, no território da atual Escócia, e seus inimigos foram os invasores anglos do reino de Nortúmbria. Tudo indica, no entanto, que a cultura romana e principalmente o cristianismo já estavam bastante espalhados pela elite bretã da época, o que torna essa versão improvável

Último romano

Argumentando que Gildas não cita o nome de Arthur e que as referências ao personagem são todas muito tardias, alguns estudiosos preferem considerar Ambrosius Aurelianus como o melhor candidato a “Arthur histórico”. Nesse caso, o grande líder da resistência bretã seria descendente direto de uma família nobre romana e teria tentado manter as conexões da ilha com o antigo Império, ao mesmo tempo em que teria combatido o surgimento de heresias cristãs na Bretanha

Cavaleiro bárbaro

Essa tese é baseada na presença de um oficial da cavalaria romana, Lucius Artorius Castus, na Bretanha do século 2. Ele liderou um grupo de cavaleiros sármatas (bárbaros da Europa oriental) numa série de batalhas que parecem bater com as do Arthur lendário. Essa, aliás, é a versão escolhida pelo filme Rei Arthur – só que no filme a história se passa no século 5 mesmo, e Arthur é meio romano e meio bretão. Enfim, Hollywood adora um samba do bretão doido

Saiba mais

Livros

Arthur·s Britain, de Leslie Alcock, Penguin, 1990 – O autor traduz as partes relevantes dos textos antigos sobre o herói, como os livros de Gildas e Nennius, e proporciona um panorama completo de como era a Bretanha do século 5 ao 7. Há mapas, fotos e desenhos.

Kings and Queens of Early Britain, de Geoffrey Ashe, Methuen Publishing, 2000 – Detém-se sobre os personagens desse período nebuloso da história bretã e mostra como os erros romanos conduziram à independência.

The Age of Tyrants, de Christopher Snyder, Sutton Publishing, 1998 – Um completo e claro relato sobre a vida dos bretões no final da presença romana na ilha.

Site

http://www.mun.ca/mst/heroicage/ – Quem estiver interessado em acompanhar os estudos mais recentes sobre o mundo arturiano e temas correlatos pode acompanhar a revista científica eletrônica The Heroic Age, no endereço acima.

Autor – Reinaldo José Lopes

Fonte – http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/arthur-heroi-bretanha-433765.shtml?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_avhistoria&

O BRASIL ESTÁ REAGINDO

grupo-tomou-rampa-e-cupula-do-congresso-nacional

Incrível, o povo está nas ruas, está no teto do Congresso Nacional, está na Avenida Paulista, está nas ruas do Rio e em muitos lugares…

Se antes havia a quase certeza que partidos de extrema esquerda incitavam a baderna e desordem em relação ao aumento das passagens, agora percebemos que isso se tornou mais em um estopim.

A coisa toda é uma surpresa total, principalmente para o governo e ninguém consegue arriscar um entendimento do que está acontecendo por todo Brasil.

Dá para ver que ocorre uma insatisfação e uma irritação com muita coisa. É raiva dos gastos da Copa, é raiva da corrupção, é raiva de ladrão, de menor assassino que não vai preso e por aí vai. Parece que o tranquilo brasileiro acordou e quer fazer igual aos argentinos, que volta e meia vão para frente do palácio presidencial deles.

Chegamos a uma situação tal, que se a coisa não for por este caminho do protesto de rua (que para mim só vale se for pacífico e democrático), muito pouco vai mudar. Tomara que a galera que está no poder perceba isso, pois na década de 1960, eram eles que estavam nas ruas.

Já faz mais de 20 anos que o povo foi para as ruas por razões políticas, para erguer uma bandeira, por uma causa. Agora sua voz volta e parece que com força. É melhor que ver nosso povo indo apara as ruas apenas para encontros religiosos e carnaval fora de época.

Tal como no Oriente Médio, estamos vendo a força e a capacidade de mobilização das redes sociais, que estão revolucionando tudo e todos.

Mas certamente  não vai adiantar de nada ir agora para as ruas e nas próximas eleições fazer papel de gado e permanecer no curral eleitoral mugindo para o dono.

E o futuro está aí, mas não sei onde vamos. Vamos ver o que vai ocorrer. Tomara e peço a Deus que siga para o lado positivo!

Só sei que o momento é histórico e quero está lá…

Rostand Medeiros

manifestantes-protestaram-na-porta-da-assembleia-legislativa-do-rio

MINHA HOMENAGEM A RECIFE E OLINDA

Estas duas cidades são extremamente importantes na minha vida. Quem me conhece pessoalmente sabe da admiração que tenho por Pernambuco, seu povo e sua história, mas Recife e Olinda são especiais para mim.

Nada melhor do que trazer antigos postais e fotos destas duas maravilhosas cidades.

A ideia aqui não é fazer nenhuma postagem seguindo uma ordem cronológica rígida, ou utilizar esta iconografia para apontar algum fato específico, mas apenas homenagear estas cidades que escutam o baque solto do Maracatu.

Início do século XX, uma praça chamada Santos Dumont, onde os bancos sob as árvores frondosas eram mais importantes que o espaço dos automóveis. Não posso garantir que seja a atual praça Santos Dumont na Rua Couto Magalhães com a Rua Santos Dumont, perto do Estadio do Arruda.
Início do século XX, uma praça chamada Santos Dumont, onde os bancos sob as árvores frondosas eram mais importantes que o espaço dos automóveis. Não posso garantir que seja a atual Praça Santos Dumont na confluência das ruas Couto Magalhães com a Santos Dumont, perto do Estadio do Arruda.

A Praça da República. talvez hoje não seja tão movimentada como este cartão postal pintado a mão mostra, mas ainda mantém muito de sua beleza.
A Praça da República. talvez hoje não seja tão movimentada como este cartão postal pintado a mão mostra, mas ainda mantém muito de sua beleza.

Faculdade de Direito de Recife, onde muita gente do Nordeste buscava o conhecimento.
Faculdade de Direito de Recife, onde muita gente do Nordeste, muitos de Natal (entre estes Câmara Cascudo), buscavam o conhecimento.

A Estação Ferroviária Central de Pernambuco, ou apenas Estação Central do Recife, inaugurada em 1885 pela empresa inglesa Great Western, que na época tornou-se proprietária da E. F. Central de Pernambuco, que na época seguia para Jaboatão e depois foi sendo prolongada sucessivamente no sentido oeste do Estado.
A Estação Ferroviária Central de Pernambuco, ou apenas Estação Central do Recife, inaugurada em 1885 pela empresa inglesa Great Western, que na época tornou-se proprietária da E. F. Central de Pernambuco, que na época seguia para Jaboatão e depois foi sendo prolongada sucessivamente no sentido oeste do Estado.

Ponte Maurício de Nassau. Local extremamente histórico, esta ponte teve sua construção iniciada em 1640 pelo arquiteto Baltazar de Affonseca, por ordem do conde holandês Maurício de Nassau, feita em madeira, e inaugurada em 28 de fevereiro de 1644, sendo considerada a primeira ponte de grande porte do Brasil e a mais antiga da América Latina.
Ponte Maurício de Nassau. Local extremamente histórico, esta ponte teve sua construção iniciada em 1640 pelo arquiteto Baltazar de Affonseca, por ordem do conde holandês Maurício de Nassau, feita em madeira, e inaugurada em 28 de fevereiro de 1644, sendo considerada a primeira ponte de grande porte do Brasil e a mais antiga da América Latina.

Uma rua no centro de Recife, em um tempo onde carro não existia.
Uma rua no centro de Recife, em um tempo onde carro não existia. Essa não sei onde é.

Outra vista da faculdade de Direito
Outra vista da Faculdade de Direito, antiga Escola de Direito.

Cais 22 de Novembro, antigo Cais do Ramos ou do Colégio. Se não me engano hoje é o Cais da Regeneração.
Cais 22 de Novembro, antigo Cais do Ramos ou do Colégio. Se não me engano hoje é o Cais da Regeneração.

Casa de Banhos ficava no dique natural do Porto do Recife, onde atualmente se encontra o Parque das Esculturas de Francisco Brennand e o Farol do Recife. Foi construída em 1880 por Carlos José de Medeiros e no início do Século XX foi bastante frequentada pela sociedade recifense, que para ali se dirigia para tomar banho salgado em suas piscinas naturais. Era uma época onde o recato era muito intenso.
Casa de Banhos ficava no dique natural do Porto do Recife, onde atualmente se encontra o Parque das Esculturas de Francisco Brennand e o Farol do Recife. Foi construída em 1880 por Carlos José de Medeiros e no início do Século XX foi bastante frequentada pela sociedade recifense, que para ali se dirigia para tomar banho salgado em suas piscinas naturais. Era uma época onde o recato era muito intenso.

Olinda com sua bela paisagem, suas ladeiras, igrejas e seu casario.
Olinda com sua bela paisagem, suas ladeiras, igrejas e seu casario.

Ponte Buarque de Macedo, sobre o Rio Capibaribe, no centro do Recife. Liga os bairros do Recife e Santo Antônio, tendo sido inicialmente construída em madeira no ano de 1845.
Ponte Buarque de Macedo, sobre o Rio Capibaribe, no centro do Recife. Liga os bairros do Recife e Santo Antônio, tendo sido inicialmente construída em madeira no ano de 1845.

Rua do Sal.
Rua do Sol.

Rua da Aurora.
Rua da Aurora.

O belo Seminário de Olinda.
O belo Seminário de Olinda.

Como todo local deste nosso belo e desigual país, o passado de Recife e Olinda não tinha apenas belezas, mas também locais onde a vida era bem difícil. Sem identificação deste local.
Como todo local deste nosso belo e desigual país, o passado de Recife e Olinda não tinha apenas belezas, mas também locais onde a vida era bem difícil. Sem identificação deste local.

Início do século XX.
Início do século XX.

Recife e suas igrejas.
Recife e suas igrejas.

Edifícios dos banco River Plate e da Associação Comercial, no encontro das Avenidas Rio Branco e Marquês de Olinda.
Edifícios dos banco River Plate e da Associação Comercial, no encontro das Avenidas Rio Branco e Marquês de Olinda.

Uma enchente do Capibaribe, na Madalena.
Uma enchente do Capibaribe, na Madalena.

Carregamento de açúcar no porto do Recife.
Carregamento de açúcar no porto do Recife.

A Ponte 7 de setembro.
A Ponte 7 de setembro.

O Porto de Recife.
O Porto de Recife.

Uma outra vitra das docas de Recife, provavelmente entre a década de 1920 e 1930.
Uma outra vista das docas de Recife, provavelmente entre a década de 1920 e 1930.

Rua Duque de Caxias.
Rua Duque de Caxias.

Praça Arthur Oscar.
Praça Arthur Oscar.

Jangada que não existe mais.
Jangada que não existe mais.

Jangada e seus jangadeiros, atração da cidade na década de 1950.
Jangada e seus jangadeiros, atração da cidade na década de 1950.

Escultura do Barão do Rio Branco, obra do francês Felix Charpeutier, colocada ali em 1917, em bronze com uma altura de 2,5 metros e inaugurada sob um pedestal em pedra de 4,20 m, esculpido por Corbiniano Vilaça, em 19 de agosto do mesmo ano. Dando a obra uma altura de 7 metros. Foto da década de 1930.
Escultura do Barão do Rio Branco, obra do francês Felix Charpeutier, colocada ali em 1917, em bronze com uma altura de 2,5 metros e inaugurada sob um pedestal em pedra de 4,20 m, esculpido por Corbiniano Vilaça, em 19 de agosto do mesmo ano. Dando a obra uma altura de 7 metros. Foto da década de 1930.

Praça da Independência.
Praça da Independência.

O Grande Hotel.Parece que toda capital brasileira tinha o seu "Grande Hotel". Sei que existe o daqui de Natal e existe (ou existia?) um em Belém.
O Grande Hotel de Recife. Parece que toda capital brasileira tinha o seu “Grande Hotel”. Sei que existe o daqui de Natal e existe (ou existia?) um em Belém.

Sei que esta casa em formato de um navio ficava em Boa Viagem.
Sei que esta casa em formato de um navio ficava em Boa Viagem.

Praia do Pina e seus postes para os bondes elétricos.
Praia do Pina e seus postes para os bondes elétricos.

Praia de Boa Viagem na década de 1920.
Praia de Boa Viagem na década de 1920.

O Banco do Recife
O Banco do Recife

Avenida Alfredo Lisboa.
Avenida Alfredo Lisboa.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

O BANDIDO E O FRENTISTA

assalto
Todos ficam preocupados com o direito dos bandidos.

E os direitos de quem trabalha?

Autor – Luiz Felipe Pondé

Jornal FOLHA DE SP – 13/05

Fonte – http://avaranda.blogspot.com.br/2013/05/o-bandido-e-o-frentista-luiz-felipe.html

A população está entregue às traças, enquanto nos palácios, gente inteligentinha de todo tipo (com o mesmo caráter da aristocracia pré-revolucionária de Versailles) discursa sobre “direitos humanos dos bandidos”, toma vinho chileno, paga escola de esquerda da zona oeste de São Paulo que custa 3 mil reais mensais e vai para Nova York brincar de culta.

A inteligência ocidental está podre, mergulhada em seus delírios de reconstrução do mundo a partir de seus três gnomos Marx, Foucault e Bourdieu.

Nós, desta casta de ungidos, desprezamos o povo comum porque pensamos que o que eles pensam é coisa de gente ignorante.

Outro dia fui abordado por um frentista num posto perto da minha casa na zona oeste (perto daquela praça destruída aos domingos pelas bikes –“bicicletas” na língua de pobre). Ele disse: “O senhor não é aquele filósofo da televisão?”. E continuou: “Não pense que porque somos proletários, não entendemos o que o senhor fala na televisão”.

Quem advinha do que ele queria falar? Este posto sempre foi 24 horas e agora não é mais. Por quê? Disse ele que estavam todos, do dono aos funcionários, cansados de serem assaltados toda noite. Disse ele: “O ladrão vem na sua moto, para, põe a arma na nossa cara, rouba tudo, ameaça nos matar e vai embora. Nada acontece”.

assalto-450x2501
E mais: “E fica todo mundo preocupado com o direito dos bandidos. Onde ficam os direitos de quem trabalha todo dia?”.

Vou dizer uma blasfêmia, dirão alguns dos meus amigos da casta inteligentinha: se preocupar com direitos dos bandidos é apenas um modo chique de continuar se lixando para o “povo”, assim como os coronéis nordestinos sempre se lixaram, a diferença agora é que a indiferença para com o destino das pessoas comuns vem regada a vinho chileno e leituras de Foucault.

A “elite branca letrada” é completamente indiferente para com o destino desse frentista.

Ele pede para que a polícia “acabe com os bandidos para ele poder trabalhar e a mulher e filhos dele não serem mortos”. Ingênuo? Simplista? Talvez, mas nem por isso menos verdadeiro na sua demanda “por direitos”.

A verdade é que estamos mergulhados num blá-blá-blá pseudocientífico das razões que levam alguém a ser bandido, seja qual for a idade, e enquanto isso esse frentista se ferra.

O que terá acontecido, que de repente a elite letrada e pública ficou tão “sensível ao sofrimento social” e tão indiferente ao sofrimento desta “pequena gente honesta”? Até escuto alguns de nós dizer: “São uns mesquinhos que só pensam nas suas vidinhas”. Quem sabe alguns mais anacrônicos arriscariam: “Isso é resquício do pensamento pequeno burguês”.

A verdade é que nós estamos pouco nos lixando para o que essa gente que anda de metrô, trem e quatro ônibus sofre. Todo mundo muito “alegrinho” com a PEC das empregadas domésticas, mas entre elas e os bandidos a vítima social são os bandidos.

A pergunta que não quer calar é: por que em países islâmicos, por exemplo, com alto índice de pobreza, não existe criminalidade endêmica? Será que tem a ver com medo da terrível punição corânica?

Dirão os inteligentinhos que a causa da criminalidade é social. Hoje em dia, “causa social” serve para tudo, como um dia foram os astros e noutro a vontade dos deuses.

Não nego que existam componentes sociais de fome e sofrimento na causa do comportamento criminoso, mas ninguém mais leva em conta que a maioria que vira bandido porque não quer trabalhar todo dia como esse frentista.

Ser bandido é, antes de tudo, um problema de caráter. E esse frentista, pobre também, sabe disso muito bem, só quem não sabe é minha casta de inteligentinhos.

O que dirão os inteligentinhos quando esse contingente de verdadeiras vítimas sociais do crime começarem a se organizar e matar os bandidos a sua volta? Pedirão a alguma ONG europeia para proteger os bandidos dessa gente “mesquinha” que só pensa em sua casinha, seus filhinhos e seu dinheirinho?

Acusarão essa gente humilhada e assaltada de não ter “sensibilidade social”? Dirão que soltar bandidos na rua é “justa violência revolucionária”?

NO RIO GRANDE DO NORTE SE MATA MAIS QUE NA GUERRA ENTRE ISRAELENSES E PALESTINOS

ESTAMOS NO MEIO DA GUERRA CIVIL POTIGUAR?

SOMENTE EM 2012, 975 PESSOAS FORAM ASSASSINADAS NO RIO GRANDE DO NORTE. NO CONFLITO ENTRE ISRAELENSES E PALESTINOS, ENTRE 2010 E 2012, MORRERAM 478 PESSOAS. E SÃO ELES QUE ESTÃO EM GUERRA?

Na manhã da última sexta feira (17/5), estive na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Norte. Ali acompanhei a audiência pública intitulada “Copa Legal – O Rio Grande do Norte no Combate a Exploração Sexual”. Tive a oportunidade de presenciar os representantes do Estado, Município e especialistas que atuam na área de defesa discutir o aumento dos casos de violência e exploração sexual contra crianças e adolescentes. Debateram possíveis soluções para estas questões, diante da proximidade da Copa do Mundo de 2014 e da expectativa de serem recebidos muitos visitantes na nossa região.

Audiência Pública na Assembleia legislativa do Rio Grande do Norte. Imagem meramente ilustrativa, não corresponde ao texto.
Audiência Pública na Assembleia legislativa do Rio Grande do Norte. Imagem meramente ilustrativa, não corresponde ao texto.

A mesa do evento estava Márcia Maia (Deputada Estadual), Julia Arruda (Vereadora), Correia Junior (Delegado e Diretor de Polícia Civil da Grande Natal – DPGRAN), Leonardo Nagashima, (Promotor de Justiça e Coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias da Criança e do Adolescente – CAOP Infância e Juventude), Antônio Murilo (Padre e Presidente do Conselho Estadual da Criança e Adolescente – CONSEC), Ilzamar Silva Pereira (Secretária Municipal de Trabalho e Assistência Social –SEMTAS) e Marcos Dionísio (Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos).

Marcos Dionísio, Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos - Fonte - http://www.cartapotiguar.com.br/2012/12/11/propaganda-na-audiencia-sobre-seguranca-publica/
Marcos Dionísio, Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos – Fonte – http://www.cartapotiguar.com.br/2012/12/11/propaganda-na-audiencia-sobre-seguranca-publica/

E foi este último quem me lembrou em sua fala de uma estatística realmente complicada para o Rio Grande do Norte, ao comentar que em terras potiguares foram registrados 975 assassinatos no ano de 2012. Marcos Dionísio informou que até 10 de maio último já foram contabilizados no Rio Grande do Norte um total de 530 homicídios em 2013. O Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos acredita que este ano a conta deve fechar entre 1.300 a 1.500 homicídios.

Cruzando Informações

Estes números estarrecedores não são novidade. É até mesmo notícia velha. Mas confesso que ficaram na minha cabeça após o final da audiência pública. Ao chegar a minha casa comecei a fazer uma pesquisa na internet, relacionando os 975 assassinatos em 2012 com guerras e conflitos a nível mundial.

Bombardeio israelense em Gaza, em novembro de 2012 - Fonte - http://www.sbs.com.au/
Bombardeio israelense em Gaza, em novembro de 2012 – Fonte – http://www.sbs.com.au/

Descobri que o número de pessoas assassinadas no Rio Grande do Norte no ano passado, foi maior do que o número de mortos palestinos e israelenses nos últimos três anos.

Segundo o site http://www.ifamericansknew.org/stats/deaths.html http://www.ifamericansknew.org, entre 2010 e 2012, morreram em confrontos na região 478 pessoas, sendo 454 palestinos, e 24 israelenses.

Segundo a matéria existente neste site, os dados foram fornecidos pelo B’Tselem, o Centro Israelense para os Direitos Humanos nos Territórios Ocupados (Ver – http://www.btselem.org/), com a última atualização em 30 de abril de 2013. Os números citados incluem civis e combatentes mortos, a maioria na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Mas as estatísticas não incluem o número considerável de palestinos que morreram como resultado da incapacidade de socorro às vitimas devido ao fechamento da fronteira de Gaza, bloqueios em estradas israelenses, toques de recolher, etc.

Tropas israelenses - Fonte - news.nationalpost.com
Tropas israelenses – Fonte – news.nationalpost.com

Entretanto não podemos esquecer que as raízes do conflito Palestino/Israelense vêm desde 1947, após a criação do Estado de Israel. De lá, para cá, a sangria nesta parte do mundo sempre esteve presente na mídia, se prolongando em meio a um mar de dor, ódio e sangue, sem perspectiva de solução em curto prazo.

Já a nossa Guerra Civil Potiguar é coisa recente. É uma carnificina com tendência cada vez maior ao crescimento. Dados apontam que entre 2000 e 2010, o aumento da taxa de homicídios em terras potiguares foi de 154%, enquanto que o aumento populacional foi de apenas 14%.

Essa é a nossa guerra de todos os dias - Fonte - http://www.focoelho.com/
Essa é a nossa guerra de todos os dias – Fonte – http://www.focoelho.com/

Segundo a mancha criminal feita no mapa do Rio Grande do Norte pela Subcoordenadoria de Estatística, os maiores índices de homicídios estão registrados em 1º lugar em Natal, 2º Região Metropolitana, 3º em Mossoró, 4º na região de Pau dos Ferros e o 5º lugar ficou ocupado pela região do Seridó. Outro dado aponta que 92,3% das vítimas têm entre 20 e 30 anos de idade e já tiveram algum envolvimento com atividade ilícita, as mais comuns são, tráfico de drogas e assalto.

Somos Campeões de Violência

De maneira geral isso não é nenhuma grande novidade. Segundo cálculos do “Mapa da Violência 2012”, produzido pelo Instituto Sangari e divulgado em dezembro último, entre 1980 e 2010, o Brasil contabilizou 1,09 milhão de homicídios, com uma média anual de mortes violentas superior à de diversos conflitos armados internacionais. Para muito nosso país vive uma Guerra Civil não declarada.

Todos os dias nossos meios de comunicação repetem a violência nossa de todos os dias - Fonte - sgtpmglenio.blogspot.com
Todos os dias nossos meios de comunicação repetem a violência nossa de todos os dias – Fonte – sgtpmglenio.blogspot.com

Calculando a média anual de homicídios do país em 30 anos, Julio Jacobo Waisefisz, pesquisador do Sangari, chegou ao número de 36,3 mil mortos no ano – o que, em números absolutos, é superior à média anual de conflitos como o da Chechênia (25 mil), entre 1994 e 1996, e da guerra civil de Angola (1975-2002), com 20,3 mil mortos ao ano. A média também é superior as 13 mil mortes por ano registradas na Guerra do Iraque desde 2003 (a partir de números dos sites iCasualties.org e Iraq Body Count, que calculam as mortes civis e militares do conflito).

Agora uma coisa é você falar de pesquisas que abranjam todo o Brasil. E o Brasil é gigantesco. Outra coisa é uma estatística que aponta especificamente para a violência no Rio Grande do Norte, mostrando que além de sermos um lugar pequeno e pobre, aqui se torna cada vez mais sangrento.

Vale Mais a Pena Viver na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, ou em Natal?

Recentemente publiquei neste nosso espaço um artigo do amigo Flávio Rezende (Ver – https://tokdehistoria.wordpress.com/2013/05/07/um-planeta-em-evolucao-apesar-da-constante-exposicao-midiatica-da-violencia/), onde este respeitado jornalista aponta que o tema violência ocupa cerca de 30%, ou até mais, no conjunto do tempo televisivo ou do espaço nas páginas dos jornais. Flávio não nega em seu trabalho a realidade do momento vivido por todos, mas busca através de dados apontar que a violência atualmente existente não é tão grande como se propaga. Em sua opinião ocorre um desproporcional espaço concedido aos fatos negativos pela imprensa em geral. Consequentemente isto generaliza o medo.

Os policiais potiguares também são vítimas diretas desta nossa guerra - Fonte - http://blogitaunews.blogspot.com.br/2012/11/assalto-em-sao-tome-termina-com.html
Os policiais potiguares também são vítimas diretas desta nossa guerra. Policial morto em confronta na cidade de São Tomé-RN – Fonte – http://blogitaunews.blogspot.com.br/2012/11/assalto-em-sao-tome-termina-com.html

Concordo em grande parte com o que Flávio escreveu, tanto que publiquei seu artigo em meu blog. Mas confesso que viver e criar a minha filha em um lugar onde 975 pessoas foram assassinadas em 2012, me dá medo.

E não adianta dizer preconceituosamente que a nossa violência é exclusividade da Zona Norte de Natal, da Grande Natal, das periferias mais distantes, ou até da Região Oeste do estado. Recentemente o luxuoso bairro de Petrópolis, com suas clínicas conceituadas e butiques de grife, sofreu na mão de assaltantes. Logo alguém de família dita “tradicional”, de sobrenome com uma difícil pronúncia, vai levar um balaço e se juntar a legião de Joãos, Marias, Pedros, Josés que enchem as covas de paupérrimos e distantes cemitérios.

Fonte - http://www.cledsonmedeiros.com/
Fonte – http://www.cledsonmedeiros.com/

Nós potiguares sempre gostamos propagar que nossa terra é um “lugar tranquilo”, onde a “violência é limitada” e a nossa qualidade de vida é “ótima”. Agora só resta apenas perguntar se vale mais a pena viver na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, ou em Natal?

Fontes complementares – http://comentecomigo.blogspot.com.br/2013/03/numero-de-homicidios-no-rn-sobe-4176-em.html

http://www.potiguarnoticias.com.br/noticias/24471/marcia-maia-sugere-criacao-de-selo-e-cartilhas-para-combate-a-exploracao

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=10&id_noticia=201879

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

BRASILEIROS NA LEGIÃO ESTRANGEIRA FRANCESA-UM CASO ANTIGO

Legionários
Legionários durante a Primeira Guerra Mundial

O Brasil é um país que, externamente, demora a participar de conflitos e guerras com outros países. Talvez porque internamente, de vez em quando, sempre teve uma revoluçãozinha para “animar” esta terra tropical.

No passado, quando os brazucas mais beliciosos desejavam ação, aventura e sangue, o caminho mais claro era ir para a França, seus departamentos, ou seus territórios de ultramar e se alistar na Legião Estrangeira.

Antes de ser uma simples tropa de combate, a Legião Estrangeira Francesa é um verdadeiro ícone que evoca uma era onde o valor de um homem que participava de uma guerra, era bem diferente do atual. Isso tudo em meio a uma tropa formada por pessoas vindas de todas as partes do mundo.

Legionário de 2ª Classe do Batalhão C do 2° Regimento de Marcha em outubro de 1914 - Fonte - http://www.tropasdeelite.xpg.com.br/
Legionário de 2ª Classe do Batalhão C do 2° Regimento de Marcha em outubro de 1914 – Fonte – http://www.tropasdeelite.xpg.com.br/

Mesmo com as mudanças do mundo, até hoje esta tropa mantém junto a muitos brasileiros um simbolismo muito forte, principalmente entre aqueles que serviram as nossas forças armadas como conscritos.

E a instituição Legião Estrangeira Francesa faz questão de manter esta mistica ativa. A instituição mantém no seu site de alistamento, que possui versões em 15 idiomas diferentes, uma mensagem que é extremamente clara do que o voluntário vai encontrar na “Légion Étrangère” (Ver site em português –http://www.legion-recrute.com/pt/?SM=0);

“Quer romper com o seu passado, começar uma vida nova? A Legião Estrangeira lhe oferece uma oportunidade única. Sejam quais forem as suas origens, religião, nacionalidade, os seus diplomas e nível escolar, sua situação familiar ou profissional, a Legião estrangeira lhe oferece uma nova oportunidade para uma vida nova…”

Durante a Primeira Guerra Mundial, até aqui em Natal a imprensa divulgou matérias sobre alguns brasileiros que ingressaram nesta tropa francesa na luta contra os alemães e austríacos. Entre o que se informa no texto temos uma lista com a quantidade de pessoas que ingressaram na Legião Estrangeira e seus países de origem. O mais interessante é que haviam entre eles alemães e austríacos, que não sei se passaram para o outro lado da trincheira no meio da Primeira Guerra. Talvez estas pessoas de países inimigos tenham continuado nesta tropa multinacional, pois lá o militar não tinha mais um país de origem, mas apenas um país chamado “Légion Étrangère”.

I0004241-07PX=000000PY=000000 (1)

Ainda na época da Primeira Guerra Mundial eu encontrei outra reportagem que traz a informação de que um brasileiro, Raphael Borges da Rocha, havia sido ferido na perna, na famosa Primeira Batalha do Marne. Ele teve foi sorte, pois este confronto durou apenas sete dias e matou mais de 100.000 soldados alemães, franceses e ingleses. Um verdadeiro moedor de carne humana.

I0005056-07PX=000000PY=000000 (1)

Estas notícias são de quase cem anos atrás. Mas a mística continua. Seja por desejo de aventura, fugir de problemas, deixar para trás uma vida complicada, ou apenas pela grana, brasileiros continuam a entrar nesta famosa tropa.

Vejam esta reportagem recente do G1.

Na Legião Estrangeira, ex-soldados do Brasil combatem rebeldes no Mali

Doze brasileiros, integrantes de tropa da França, lutaram contra jihadistas.
Ex-militar de elite do Exército chegou de paraquedas a área do inimigo.

Tahiane Stochero – G1 – São Paulo

mali1

Estão voltando ao Brasil na primeira quinzena de maio, para passar as férias com a família, soldados brasileiros que integram a Legião Estrangeira e que, a serviço da França, participaram da Operação Serval, como foi denominada a intervenção militar francesa realizada em janeiro com apoio dos Estados Unidos para recuperar regiões dominadas por rebeldes islâmicos no Mali.

Pelo menos 12 brasileiros, a maioria ex-integrantes do Exército do Brasil, fazem parte da 2ª e da 3ª companhia do 2º Regimento Estrangeiro de Paraquedistas  (2º REP) da Legião Estrangeira, tropa que integra o Exército da França e é especializada em combate em áreas de montanha e combate anfíbio.

Alguns chegaram ao Mali em 28 de janeiro, participando da invasão a Timbuktu (Tombuctu ou Tombouctou, em francês), capital da região norte do país e que estava ocupada há nove meses pelo grupo jihadista Al-Qaeda do Magreb Islâmico.

A França iniciou em janeiro uma intervenção militar no Mali, que é ex-colônia francesa, para tentar impedir que grupos rebeldes islâmicos que controlam o norte do Mali assumam o controle de todo o país. O G1 questionou a Legião Estrangeira sobre a presença dos brasileiros nas operações, mas não recebeu retorno.

mali5

Após três meses de combate no Mali, eles retornaram à base da Legião em Calvi, na Córsega (França), em 20 de abril. “Antes, tiramos uma foto em frente a um helicóptero Tigre com a bandeira do Brasil na base militar de Tessalit (área retomada pela França do controle rebelde, no norte do Mali)”, disse o carioca Diego Gonzales, de 26 anos, legionário há 6 anos.

“Consegui com a Legião o que queria: ser paraquedista, ser atirador de precisão e ir para a guerra. A Legião nos dá a oportunidade de viver a vida diferente, ver o mundo de outra forma. Aprendi muito e consegui ganhar dinheiro e economizar, comprar uma casa em Minas Gerais”, explica ele.

Gonzales era soldado do 10° Batalhão de Infantaria do Exército, em Juiz de Fora (MG), quando decidiu largar o emprego e rumar para Aubagne (sul da França), onde o Ministério da Defesa faz o recrutamento e os candidatos selecionados fazem um treinamento preliminar de 15 semanas. “Por que eu fui para a Legião? Porque eu gosto do difícil e não me realizei aqui no Brasil. Queria mais perigo e vivenciar uma guerra real. Sou sem limites. Com certeza, valeu à pena”, diz.

Légion étrangère 1er REC - MALI, janeiro de 2013, A bordo do blindado ERC-90 Sagaie - Fonte - https://pt-br.facebook.com/LegiaoEstrangeiraFrancesa?ef=stream&hc_location=timeline&filter=1
Légion étrangère 1er REC – MALI, janeiro de 2013, A bordo do blindado ERC-90 Sagaie – Fonte – https://pt-br.facebook.com/LegiaoEstrangeiraFrancesa?ef=stream&hc_location=timeline&filter=1

Considerada um corpo de elite do Exército da França, a Legião é composta por homens estrangeiros, com idades entre 17 e 40 anos, que assinam um contrato de 10 meses de duração para combaterem em nome da França. Os salários variam entre R$ 3.145 e mais de R$ 11 mil mensais, dependendo das qualificações que possui e se está participando de uma operação no exterior.

“Estávamos em treinamento no Gabão quando tivemos que ir apoiar uma intervenção na República Centro Africana. Voltamos para o Gabão assim que a situação se estabilizou e faltavam apenas 22 horas para voltar para a França para um período de descanso, após 3 meses e meio direto em operações, quando nos mandaram para o Mali. Foi tudo muito corrido”, relembra.

mali3O legionário diz que, sob estresse e sendo alvo de tiros, não consegue perceber os riscos que está enfrentando. “Só me dou conta do que passei depois, quando a situação acalma. Quando você está atirando ou sendo alvo de tiros, entra na adrenalina. Na hora, acho até engraçado estar sob fogo”, relembra.

Gonzales, que é sniper (atirador de precisão), usou no Mali um fuzil Famas 5.56 mm e um rifle francês de 12,7mm antiaéreo, capaz de abater aviões e destruir carros blindados. A arma pesa 13,8 kg e atinge um alvo a até 2 mil metros.

“Em um dos momentos, quando os jihadistas estavam atirando contra nós, eu continuei andando e rindo, como se nada houvesse. O único momento em que lembro que senti medo e abaixei a cabeça, com preocupação, foi quando escutei dois tiros com um intervalo entre eles.  Achei que poderia ser um sniper (atirador). E neste dia eu não estava com meu rifle de precisão por burrice mesmo do meu chefe, que era inexperiente e deu a ordem para não levá-lo naquela missão”, diz o soldado.

Ele visitou a mãe na Bélgica e chega ao Brasil no início do mês para passar uns dias com a namorada, no Rio de Janeiro, rever avós, tios e primos em Minas Gerais.

Da cozinha do quartel à guerra

Após trabalhar por dois anos na cozinha da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (Espcex), em Campinas (SP), o soldado Pascoal (nome ficíticio), de 23 anos, ingressou na Legião também buscando viver experiências reais de combate.

Um legionário e suas medalhas - Fonte - https://pt-br.facebook.com/photo.php?fbid=645263275487431&set=a.452398308107263.118940.452396964774064&type=1&theater
Um legionário e suas medalhas – Fonte – https://pt-br.facebook.com/photo.php?fbid=645263275487431&set=a.452398308107263.118940.452396964774064&type=1&theater

Natural de uma cidade do interior de São Paulo (o nome não é divulgado para não identificar o soldado), ele trabalhava “lavando pratos” no Exército e ingressou na Legião Estrangeira “pela adrenalina de poder estar em uma guerra e também por dinheiro”.

O jovem chegou ao Mali em fevereiro, por terra, dias após a tomada de Tombuctu para atuar em Tessalit. “A minha primeira missão foi a que mais teve tiroteio. Mas me diz: qual jovem, que é soldado, não gostaria de participar de uma aventura como esta? A maioria dos jovens na minha idade procura isso que vivi. Perto da situação financeira que eu tinha no Brasil, não temos do que reclamar. Além de conhecermos muitos lugares pelo mundo”, disse Pascoal ao G1. “Não tínhamos o direito de prender rebelde. O governo local é que prendia. A nossa missão era de atirar e recuperar a área, porque havia muitos riscos. Houve baixas, inclusive perdemos alguns dos nossos”, afirma. Pascoal é infante da 3ª companhia do 2º REP – a primeira patente funcional na Legião –  e carrega um fuzil francês Famas de calibre 5.56 e uma bazuca de AT-4, arma usada contra tanques e prédios.

Assim como outros legionários que conversaram com a reportagem, ele pediu para não ser identificado para não expor a família e temendo alguma punição, devido às restrições de relatar operações.

Fonte - http://3rei.legion-etrangere.com/
Fonte – http://3rei.legion-etrangere.com/

“Eu falo para minha família que só faço a guarda do quartel, que não enfrento rebelde de verdade. Daí eles não ficam preocupados”, diz.

“Ração ruim, falta de banho, distância dos amigos e da família são coisas que enfrentamos e que é adaptável quando se está em combate. É o preço que pagamos para se engajar em área de combate. Se não gosta, desertar não dá. O Mali já é um deserto, já estamos no meio de um deserto. Então, se enfrenta”, brinca o infante.

Caindo de paraquedas no inimigo

Outro que realizou um sonho na guerra no Mali foi o ex-soldado do Exército Irineu (nome fictício), de 31 anos.

Com especialização de Comandos no Brasil, o curso que prepara tropas especializadas para as mais diversas situações, e tendo atuado em Goiânia (GO) na Brigada de Operações Especiais, a tropa de elite do Brasil, Irineu pertence à 2ª Companhia do 2º Regimento Estrangeiro de Paraquedistas e chegou a Tombuctu de paraquedas, realizando um salto em alta altitude, sem que as pessoas em terra consigam ver a aeronave, e chegando ao combate em meio ao território inimigo.

mali4Ele fez parte do grupo que tomou Tombuctu da Al-Qaeda.

“Tomamos a cidade em mais de 15 horas de combate após chegar a terra. E o melhor é que chegamos saltando. Um salto operacional não tem preço, é o sonho de todo combatente. Nos preparamos a vida inteira para isso”, diz Irineu, que está na Legião há 6 anos.

No grupo de Irineu havia também Juliano (nome fictício), que também é Comandos do Exército brasileiro e se juntou à Legião Estrangeira há 5 anos.

“Você vê as noticias da guerra e não sabe o que é a realidade. Fazer a barba numa lata de água, comer ração por semanas, isso já faz parte da nossa rotina. É coisa normal. O difícil é a distância da família, ficar dias sem ter acesso à internet, telefone, não saber o que pode acontecer no dia de amanhã”, diz ele, que também possui familiares e amigos em Goiânia.

Fonte – http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/05/na-legiao-estrangeira-ex-soldados-do-brasil-combatem-rebeldes-no-mali.html

P. S. – Para encerrar este material, eu só posso comentar que cada um é dono da sua vida e faz dela o que quer. Mas entrar na Legião Estrangeira não é uma brincadeira. Certamente se alguém quer ver ação, ali vai encontrar!

Não posso me esquecer que aqui em Natal eu conheci um cidadão, figura extremamente militarizada e aparentemente beliciosa, que após um frustração amorosa saiu alardeando para os quatro cantos desta terra que iria para a “Légion Étrangère” e esquecer a amada. Mas por ser mais falastrão do que possuir realmente a essência de um combatente, não foi para lugar algum. E a sua desilusão não foi nem por ter levado um belo “par de chifres”. Como um bom idiota, não aceitou o fim de um namoro e o fato que sua ex desejava ficar com alguém mais interessante.

C’est la vie, mon ami

Rostand Medeiros

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

OS JAPONESES E A EXPLORAÇÃO SEXUAL FORÇADA DURANTE A SEGUNDA GURRA MUNDIAL

Mulheres coreanas, obrigadas a se prostituirem para os militares japoneses, junto a um soldado Aliado após a libertação em 1945.
Mulheres coreanas obrigadas a se prostituirem para os militares japoneses, junto a um soldado Aliado após a libertação em 1945.

A VERGONHOSA AÇÃO DE OBRIGAR MILHARES DE MULHERES DE REGIÕES OCUPADAS A ATENDER SEXUALMENTE OS MILITARES JAPONESES 

Um dos pontos altos da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial ocorreu quando os soldados da nossa FEB cercaram e aprisionaram a 148º Divisão de Infantaria Alemã, inclusive o seu comandante, o general Otto Freter Pico e todo o seu oficialato.. Além de remanescentes da Divisão Bersalhieri Italiana e o seu comandante, o general Mario Carloni.

Passado um tempo depois da captura dos militares das forças nazifascistas, em meio ao fim das hostilidades, dizem que rolou uma peladinha entre brasileiros e alemães.

Militar alemão detido por brasileiros da FEB em 1945.
Militar alemão detido por brasileiros da FEB em 1945.

Não sei quem ganhou, ou quem perdeu, se o fato se deu com a anuência dos oficiais e nem mesmo possuo confirmação que isso tenha realmente ocorrido. Mas não duvido que a pelota rolou. Enfim somos loucos por bola, muito pouco belicistas e no final das contas a maioria dos brasileiros são avessos a guerras.

Mas a vida dos prisioneiros de guerra não era nada fácil para aqueles que caiam nas mãos das forças do Eixo, ou de militares de regimes totalitários (como os da extinta União Soviética).

Em relação a este tema, o que venho lendo sobre o maior conflito da história da humanidade me aponta que talvez os mais terríveis captores tenham sido os japoneses. É incrível a quantidade de horrores que os filhos do Império do Sol Nascente praticaram contra seus prisioneiros e isso marcou para sempre a história japonesa.

Soldado japonês praticando exercício de ataque com baioneta em um corpo de um chines.
Soldado japonês praticando exercício de ataque com baioneta em um corpo de um chines.

Me chama atenção estes fatos, quando lembro que este é o mesmo povo pelo qual a maioria dos brasileiros possui um enorme respeito. Admiramos a sua devoção pela honra, seu fervor pelas tradições e a capacidade que eles possuem para desenvolver a sua nação. Não podemos esquecer que uma parcela considerável de nossos compatriotas é descendente de pessoas que vieram deste milenar império.

SADISMO 

Recentemente li o livro “Invencível – Uma História Real de Coragem, Sobrevivência e Redenção”, de autoria da jornalista americana Laura Hillenbrand, que narra a vida de Louis Zamperini.

360x360_8539003430

Este era um filho de imigrantes italianos, nascido no estado de Nova York, que depois de uma infância irrequieta vai em 1936 integrar a equipe dos Estados Unidos que participou da Olimpíada de Berlim. Zamperini dá um show na disputa dos 5.000 metros, que lhe vale um chamado para receber os cumprimentos de Hitler. Durante a Segunda Guerra Mundial, sua última missão acaba em tragédia. O seu avião bombardeiro B-24 sofre uma pane e cai no mar, matando quase toda a tripulação. Louie e mais dois colegas sobrevivem. Sem água ou comida, ficam por quase um mês à deriva no oceano à beira da morte por inanição, até que são encontrados pelos japoneses e viram prisioneiros.

A partir deste ponto cada dia é de tortura, humilhação e sofrimento, fato este comum e normal para todos os prisioneiros Aliados nas mãos dos nipônicos. Mas o ex-corredor chega vivo ao final da guerra; a libertação só vem depois dos lançamentos das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki.

Soldados japoneses atirando em prisioneiros indiano da etnia Sikh, que estão sentados com os olhos vendados em um semi-círculo a cerca de 20 metros de distância. Fotografia encontrada entre os registros japoneses quando as tropas britânicas reocuparam Cingapura.
Soldados japoneses atirando em prisioneiros indianos da etnia Sikh, que estão sentados com os olhos vendados em um semi-círculo a cerca de 20 metros de distância. Fotografia realizada em 1942 e encontrada entre os registros japoneses quando as tropas britânicas reocuparam Cingapura em 1945.

Pois bem, em grande parte desta obra a autora trata de Zamperini como um cativo dos japoneses. Em meio ao relato do sofrimento do ex-atleta, ela trás muitas informações sobre o sistema de encarceramento militar japonês na época. Entre os dados aponta que do total de prisioneiros americanos capturados pelos alemães, apenas 1% morreram. Mas este número salta para 15% de mortos no caso dos americanos aprisionados pelos japoneses. E vale ressaltar que o número de prisioneiros americanos junto aos japoneses foi bem menor que o número de americanos capturados pelos alemães.

O livro de Laura Hillenbrand trás uma grande quantidade de detalhes sobre as surras, humilhações, a dor e as consequências destes episódios que Louis Zamperini passou.

Aitape, Nova Guiné. 24 de outubro de 1943. Fotografia encontrada no corpo de um soldado japonês mostrando o sargento Leonard G. Siffleet prestes a ser decapitado com uma espada por Yasuno Chikao. Chikao morreu antes do fim da guerra.
Aitape, Nova Guiné, 24 de outubro de 1943. Fotografia encontrada no corpo de um soldado japonês mostrando o sargento Leonard G. Siffleet prestes a ser decapitado por Yasuno Chikao. Chikao morreu antes do fim da guerra.

Com o fim da guerra uma grande quantidade de guardas e comandantes de campos de prisioneiros foi detida, muitos destes foram condenados a morte pelos seus abusos e alguns executados.

Mas logo as situações geopolíticas mudaram. A União Soviética e a China Comunista eram os grandes inimigos do Mundo Livre e capitalista. Na Coréia ocorria uma guerra fratricida e a posição geográfica do Japão, sua força de trabalho e a capacidade do seu povo, mostravam que o antigo inimigo era agora um aliado de primeira linha.

Logo as penas de morte foram alteradas para prisão perpetua e depois de um tempo estes sádicos eram soltos. Os ex-prisioneiros americanos, ingleses, holandeses, australianos e de outros países Aliados estavam longe, ninguém no Japão queria saber de suas dores e o mundo tinha mudado.

Prisioneiros australianos e holandeses extremamente desnutrido em Tarsau na Tailândia, 1943.
Prisioneiros australianos e holandeses extremamente desnutridos em Tarsau, Tailândia, 1943.

Mas incrível mesmo é que no livro de Laura Hillenbrand existe a informação que passado algum tempo, os japoneses começaram a erguer monumentos em honra dos antigos comandantes e guardas de campos de prisioneiros que foram executados. Muitos deles eram homenageados como “Heróis da pátria”, uma situação que na então Alemanha Ocidental seria impensável.

Mas em minha opinião, a pior situação perpetrada pelos japoneses foi a vergonhosa, triste e terrível prática de forçarem milhares de mulheres a se prostituirem a força e assim satisfazerem sexualmente seus militares durante a Segunda Guerra Mundial. 

COVARDIA 

Elas eram chamadas “mulheres de conforto”, “escravas militares do sexo”, “mulheres de conforto militar” e, em japonês, “jugun ianfu”.

Mulheres levadas na carroceria de um caminhão para um bordel oficial.
Mulheres levadas na carroceria de um caminhão para um bordel oficial.

Os puteiros oficiais em que elas eram estupradas, eram chamados eufemisticamente de “casas de conforto” e os primeiros foram criados em 1932, durante a batalha de Xangai. Após a Segunda Guerra Sino-Japonesa de 1937, estas casas foram instaladas geralmente em terras ocupadas. Estima-se que antes e durante a Segunda Guerra Mundial, entre 100.000 a 200.000 mulheres foram forçadas a oferecer serviços sexuais aos soldados japoneses e havia cerca de 2.000 destes locais verdadeiramente demoníacos.

Este programa foi aprovado pela Conferência Imperial, que era composta pelo imperador, representantes das Forças Armadas e os principais ministros. A conferência foi formada depois que o Japão invadiu a Manchúria em 1937.

Aproximadamente 80 a 90% das “mulheres de conforto” eram oriundas da China e da Coréia, mas também havia mulheres das Filipinas, da Indonésia e até mesmo holandeses oriundas de países que o Japão tinha invadido.

Em fevereiro de 1944 dez mulheres holandesas foram levadas à força de campos de prisioneiros em Java para se tornarem escravas sexuais. Eles foram sistematicamente espancadas e estupradas dia e noite.

Jan Ruff-O'Herne na época da guerra.
Jan Ruff-O’Herne na época da guerra.

Em 1990, Jan Ruff-O’Herne testemunhou na condição de vítima a um comitê de Representantes da Câmara dos Estados Unidos – “Muitas histórias foram contadas sobre os horrores, brutalidades, o sofrimento e a fome das mulheres holandesas em campos de prisioneiros japoneses. Mas uma história nunca foi contada, a história mais vergonhosa das piores violações dos direitos humanos cometidas pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial: A história das “mulheres de conforto” e como essas mulheres foram forçadas a prestar serviços sexuais para o Exército Imperial Japonês. No chamado “fraldário” eu era sistematicamente espancada e estuprada dia e noite. Mesmo o médico japonês me estuprava cada vez que visitava o bordel para examinar-nos no combate a doenças venéreas”.

Jan Ruff-O'Herne  na atualidade, junto a outras mulheres que sofreram, nas mãos dos japoneses, denunciando os crimes de guerra.
Jan Ruff-O’Herne na atualidade, junto a outras mulheres que sofreram nas mãos dos japoneses, denunciando os crimes de guerra.

Em sua primeira manhã no bordel, fotografias de Jan Ruff-O’Herne e de outras mulheres foram levadas e colocadas na varanda, utilizada como uma área de recepção para os japoneses escolherem com calma as suas escravas sexuais. Quem ficava grávida era forçada a abortar. Após algum tempo as meninas foram transferidas para um acampamento em Bogor, Java Ocidental, onde foram reunidas as suas famílias. Os militares japoneses alertaram as detidas que se alguém comentasse o que havia acontecido, elas e seus familiares seriam mortos. Vários meses depois, os O’Hernes foram transferidos para um acampamento na Batavia, que foi libertado em 15 de agosto de 1945.

Aproximadamente três quartos das mulheres de conforto morreram e a maioria das sobreviventes ficou com terríveis traumas sexuais ou permanentes marcas de doenças sexualmente transmissíveis.

Uma das mulheres utilizadas pelos japoneses junto a um oficial Aliado.
Uma das mulheres utilizadas pelos japoneses junto a um oficial Aliado.

Depois da guerra haviam rumores sobre esta forma de escravatura, mas somente em 1991 a situação veio a tona. Foi quando uma mulher sul-coreana chamada Kim Hak tornou-se a primeira pessoa a falar publicamente sobre a existência da prostituição forçada nas áreas ocupadas pelo Japão. Desde então o assunto tornou-se de conhecimento público, com outras sobreviventes relatando os fatos e exigindo justiça.

Muitas mulheres de conforto morreram sem ouvir um pedido de desculpas oficial do Governo do Japão, ou receber uma compensação por seu sofrimento.

CANALHICE 

Apesar das evidências irrefutáveis ​​de que o Japão desencadeou uma guerra agressiva através da Ásia e da região do Pacífico Ocidental entre 1937 e 1945, esta nunca foi francamente reconhecida pelo dominante Partido Liberal Democrático do Japão (LDP), que governou o país por quase 50 anos.

Chineses prestes a serem enterrados vivos por soldados japoneses.
Chineses prestes a serem enterrados vivos por soldados japoneses.

Após o fim da ocupação aliada, em 1952, os tradicionalistas japoneses reafirmaram seu controle sobre a educação. Em 1956 o Partido Democrático Liberal denunciou escolas que transmitiam a seus alunos a verdade sobre a guerra e os crimes praticados pelos japoneses. Pouco tempo depois as novas Forças de Defesa do Japão publicaram uma versão da história da Guerra do Pacífico, que exonerava totalmente o Japão militar imperial de qualquer culpa por eventuais crimes de guerra. Logo livros de história para crianças em idade escolar eram censurados para evitar que estas aprendessem a verdade sobre a agressão militar do Japão.

Às vezes, as falsificações e distorções da história em livros escolares japoneses tornaram-se suficientemente chocantes para produzir uma onda de protestos internacionais. Em 1985, por ocasião do quadragésimo aniversário da rendição do Japão em 1945, um novo livro de história foi lançado para as escolas, onde estava escrito que os exércitos do Japão entraram na China, Filipinas, Indochina Francesa, Península Malaia e Índias Orientais Holandesas, não como invasores, mas para “libertar” seus irmãos asiáticos da opressão colonial ocidental.

Sem comentários!
Sem comentários!

O debate sobre o conteúdo dos livros de história das escolas continua e os políticos japoneses só parecem recuar quando o nível de protesto dos vizinhos asiáticos e de liberais japoneses causa constrangimento para o país internacionalmente.

A SITUAÇÃO CONTINUA

Recentemente o atual prefeito da cidade japonesa de Osaka causou polêmica ao afirmar publicamente que o sistema que forçou milhares de mulheres de outros países a se prostituirem durante a Segunda Guerra Mundial foi “necessário”.

Hashimoto disse que escravas sexuais durante a Segunda Guerra foram necessárias (Foto: AFP)
Hashimoto disse que escravas sexuais durante
a Segunda Guerra foram necessárias (Foto: AFP)

Toru Hashimoto disse que as “mulheres de conforto” deram aos soldados japoneses uma “chance para relaxar”. O prefeito disse que naquelas circunstâncias “Em que balas voavam como chuva e vento e os soldados corriam o risco de perder suas vidas, para que eles descansassem, um esquema de mulheres de conforto era necessário. Qualquer um pode entender isso!”.

Os militares japoneses podiam entender, mas as mulheres que eram estupradas certamente que não!

Hashimoto é um dos fundadores do partido nacionalista japonês denominado “Restauração”, que tem poucos assentos no parlamento japonês e não faz parte do governo. Ele foi o governador mais jovem da história do Japão antes de se tornar prefeito de Osaka. No ano passado, ele já havia causado polêmica quando disse que o Japão precisava de uma “ditadura”

"Mulheres de Conforto"
“Mulheres de Conforto”

Hashimoto reconheceu que as mulheres eram forçadas a serem escravas sexuais contra sua vontade. Mas ele lembrou que o Japão não foi o único país a usar o sistema, apesar de ser “responsável por suas ações”. 

TENSÃO REGIONAL

A forma como o governo do Japão interpreta a participação do país na Segunda Guerra sempre foi fonte de tensão com os vizinhos e, após o pronunciamento de Hashimoto, uma autoridade sul-coreana expressou sua “profunda decepção”.

“Há um reconhecimento internacional de que a questão das mulheres de conforto remonta a casos de estupro cometidos pelo Japão durante seu passado imperial, em uma série de violações de direitos humanos”, disse um porta-voz do ministério das Relações Exteriores da Coréia do Sul à agência de notícias AFP.

O Exército Imperial Japonês na época de suas vitórias.
O Exército Imperial Japonês na época de suas vitórias.

Depois de muita pressão, em 1993 o Japão emitiu um pedido de desculpas pela “dor imensurável e o sofrimento causado às mulheres de conforto”. Dois anos depois o país também se desculpou por suas agressões durante a guerra.

Mas apesar destas iniciativas positivas, as cicatrizes ainda eram muito evidentes.

Em 2012 o governo coreano voltou a exigir que o Japão assuma plenamente sua responsabilidade na exploração das mulheres sul-coreanas durante a Segunda Guerra Mundial.

Na Coréia do Sul, no dia 15 de agosto de 2012 é celebrado o “Dia da Libertação”, que lembra o fim da colonização japonesa (1910-1945) e coincide com a derrota do Japão. Durante uma cerimônia em memória do fim da Segunda Guerra Mundial, o presidente sul-coreano Lee Myung-bak declarou que “A questão da mobilização das mulheres de conforto pelo exército imperial japonês vai além das simples relações entre a Coréia do Sul e o Japão. Trata-se de uma violação dos direitos das mulheres cometidos em tempos de guerra e incentivo o governo japonês a agir com responsabilidade neste tema”.

Exército japonês sendo derrotado.
Exército japonês sendo derrotado.

Ele continuou acrescentando que “O Japão é um vizinho próximo, um amigo com o qual compartilhamos valores fundamentais e um sócio importante com o qual devemos trabalhar pelo futuro. Mas temos que deixar claro que os obstáculos na história das relações entre Coréia do Sul e Japão dificultam a marcha comum em direção a um futuro melhor no nordeste da Ásia e os intercâmbios bilaterais”.

Em Taiwan, que também foi ocupado pelo Japão, ocorreram manifestações nas quais foram exigidas desculpas de Tóquio pela exploração sexual de mulheres durante a guerra.

Ainda em 2012 o primeiro-ministro nipônico Shinzo Abe fez uma nova declaração sobre a Segunda Guerra Mundial, onde anunciou que concorda com os seus antecessores e reafirma que o Japão “causou grandes danos e sofrimentos a muitos países”.

A prontidão como a Alemanha Ocidental do pós-guerra expressou seu remorso e tomou medidas para tentar resolver os erros dos nazistas, tem sido uma parte vital da evolução de uma Alemanha unida, democrática, confiável e respeitada em todo o mundo.

Rendição formal das forças japonesas no encouraçado USS Missouri.
Rendição formal das forças japonesas no encouraçado USS Missouri.

Até hoje a relutância do Japão de pós-guerra em fazer a mesma coisa resultou em uma situação exatamente oposta, manchado sua reputação na comunidade internacional.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

A BUSCA PELA TRIPULAÇÃO DA B-24 PERDIDA NA AMAZÔNIA

Um B-24 decolando, visão comum em Parnamirim Field
Um B-24 decolando, visão comum em Parnamirim Field

O RESGATE NA DÉCADA DE 1990 

Quando, finalmente, em janeiro de 1943, o presidente Roosevelt convenceu Getúlio Vargas a entrar na guerra, este firmou um contrato que cedia bases no nordeste e norte do país às forças americanas em troca de uma usina siderúrgica (CSN) de última geração a ser instalada em Volta Redonda, RJ. O que se seguiu foi uma intensa construção de bases operacionais em Belém, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador e Ilhéus com um afluxo imenso de militares americanos apoiando aeronaves que fariam a travessia do Atlântico rumo à África e à guerra no norte daquele continente.

Essa inusitada invasão de militares estrangeiros suscitou a criação de várias estórias relacionadas ao choque cultural de duas nações com costumes tão diferentes. Conta-se até que o termo forró nasceu dessa convivência forçada. Registrou-se que militares instalados em Pernambuco para construir a Base de Recife, promoviam bailes abertos ao público, ou seja, for all. Assim, o termo passaria a ser pronunciado “forró” pelos nordestinos. Nada comprovado, no entanto. Outra consequência quase natural de tantas aeronaves de guerra sobrevoando as regiões norte e nordeste, foram os acidentes aéreos.

Consolidated B-24 “Liberator” era o bombardeiro americano de maior produção que qualquer outro avião americano durante a Segunda Guerra Mundial, e foi usado pela maioria dos Aliados durante o conflito. Era um bombardeiro pesado desenhado especialmente para voos de longa distância, tinha capacidade de levar 5800 quilos de bombas e era guarnecido por dez tripulantes. Grande número dessas aeronaves compôs as esquadrilhas que faziam pousos no Brasil para depois atravessar o Atlântico. Assim, as 09:15 da manhã do dia 11 de abril de 1944 a aeronave B-24 “Liberator” número de série 42-95064 da USAAF solicitou ao centro de controle de Belém, informações sobre as condições meteorológicas. Foi a última comunicação que fez, nada mais se soube dela durante 51 anos.

Local da queda de uma aeronave na selva. Dependendo da situação geográfica do local, os destroços podem demorar anos, ou jamis serem encontrados
Local da queda de uma aeronave na selva. Dependendo da situação geográfica do local, os destroços podem demorar anos, ou jamis serem encontrados

Os Estados Unidos mantêm um órgão destinado a identificar restos mortais de seus soldados considerados desaparecidos em combate e procurar os possíveis parentes desses militares mortos. Esse órgão, Laboratório Central de Identificação do Exército  no Havaí (CILHI), já identificou milhares de soldados desaparecidos – especialmente do Vietnã – a partir mesmo de restos mortais diminutos, após um processo que envolve longas horas de análise científica e emprego da técnica de DNA. Pois, no ano de 1990, o CILHI recebeu informações que uma equipe de militares da FAB havia encontrado destroços de uma aeronave B-24 em uma área desabitada, isolada da floresta amazônica. Deslocou então 15 homens do exército para, juntamente com militares brasileiros, fazer a identificação da aeronave e, se possível, recolher restos mortais dos tripulantes.

Uma equipe da FAB ajudou os pesquisadores CILHI durante um esforço de recuperação de três semanas em uma área de densa floresta cerca de 50 milhas a nordeste do rio Amazonas próxima à cidade de Macapá, localizada cerca de 250 quilômetros a noroeste do destino do avião, Belém. Inicialmente os pesquisadores encontraram dois conjuntos de “dog tags” (plaquetas de identificação que os militares trazem penduradas no pescoço) e numerosos fragmentos de ossos no local.

Uma B-24 sobre a selva amazônica em direção a Belém e depois Natal
Uma B-24 sobre a selva amazônica em direção a Belém e depois Natal

Ficou patente, pelas condições dos fragmentos da aeronave, que todos os 10 tripulantes morreram na queda, não havia sinais que indicassem alguma possível sobrevivência. Duas semanas de escavação no local do acidente não acrescentou nada ao que já se tinha descoberto. Contudo, depois terem escavado vários metros de profundidade e estarem começando a perder a esperança, eles começaram a encontrar ossos, anéis e “dog tags” com nomes e as patentes escritas sobre eles.

Onde o avião caiu um investigador encontrou uma carteira, e outro teria encontrado várias notas de dólar de 1944, concluiu-se que o impacto de alta velocidade da queda significava que pouco restou da aeronave. E a maior parte dos destroços – espalhados por uma vasta área e em repouso por 51 anos – nunca serão recuperados. Depois de três semanas, a equipe recuperou os restos mortais de todos os 10 tripulantes e realizou um serviço cerimonial para a tripulação em Macapá, capital do Amapá e, em seguida, os restos foram levados para os EUA.

Em pouco tempo, mais tarde, os peritos forenses CILHI confirmaram que os restos mortais eram, de fato, da tripulação do “Liberator” 42-95064.

Túmulo dos aviadores mortos na amazônia
Túmulo dos aviadores mortos na amazônia

Os tripulantes foram identificados como sendo:

1 – Segundo tenente Edward I. Bares, piloto;

2 – Segundo tenente Robert W. Pearman, co-piloto;

3 – Segundo tenente Laurel C. Stevens, bombardeador;

4 – Primeiro tenente Floyd D. Kyte Jr., navegador;

5 – Sargento John Rocasey, artilheiro do nariz da aeronave;

6 – Sargento John E. Leitch, engenheiro de voo;

7 – Sargento. Michael Prasol, artilheiro de cauda;

8 – Sargento Herman Smith, artilheiro do ventre;

9 – Sargento Max C. McGilvrey, artilheiro da torre superior;

10 – Sargento Harry N. Furman, operador de rádio (substituto não registrado como tripulante efetivo).

O desconhecido Harry N. Furman não faz parte da tripulação original do avião, provavelmente substituiu o operador de rádio Sargento Abe Pastor, no vôo fatídico. O destino de Pastor é desconhecido. “É provável que o chefe da equipe de terra pode muito bem ter substituído um dos tripulantes, que teria ido por mar”, disse Kevin Welch, um veterano B-24. “Às vezes, algumas posições eram operadas por tripulantes não-membros”.

Os restos da tripulação foram enterrados no Cemitério Nacional de Arlington, Washington, no dia 20 de fevereiro de 1995. JAIR, Floripa, 04/05/12.

Dados sobre essa matéria podem ser encontrados nos saites:

http://www.arlingtoncemetery.net/ww2crew.htm

http://www.doug-and-dusty.id.au/production.htm

Autor – Jair C. Lopes

Fonte – http://jairclopes.blogspot.com.br/2012/05/b-24-cai-no-brasil.html

NATAL – 1977

A ladeira de acesso a Praia de Ponta Negra era assim
A ladeira de acesso a Praia de Ponta Negra era assim. O carro do cidadão já chegava direto na beira mar, sem asfalto, calçada, poste de iluminação, etc. Parece que o mar avançava bastante em 1977 e sem obstáculos. 

TRAGO AQUI  ALGUMAS INFORMAÇÕES SOBRE A NOSSA CIDADE NA DÉCADA DE 1970

A estrada de Ponta Negra só tinha uma via e Alagamar mostrava os cajueiros de uma antiga plantação. Mas a propaganda era interessante, 158 casas em um ano.
A estrada de Ponta Negra só tinha uma via e Alagamar mostrava os cajueiros de uma antiga plantação. Mas a propaganda era interessante, 158 casas em um ano. Era a PEC das habitações da década de 1970.

NATAL EM 1977 TINHA POUCO MAIS DE 400.000 HABITANTES

Nesse tempo não sei como era a situação salarial dos funcionários públicos, mas a festa aí deve ter sido bem especial e a Lucélia era uma gata!
Nesse tempo não sei como era a situação salarial dos funcionários públicos, mas a festa aí deve ter sido bem especial e a Lucélia era uma gata!

Essa campanha marcou época, mas era muito contestada no seu objetivo.
Essa campanha marcou época, mas era muito contestada no seu objetivo.

NESTE PERÍODO O TURISMO POTIGUAR ERA BASTANTE LIMITADO, MAS DAVA SEUS PRIMEIROS PASSOS. É DESSA ÉPOCA QUE MARCOS NEVES CONSTRUIU O PRIMEIRO “SELVAGEM” E ROBERTO LIRA REALIZAVA AS PRIMEIRAS VOLTAS EM GENIPABU.

Esta era uma das marcas registradas de Natal, "A capital Espacial do Brasil".
Esta era uma das marcas registradas de Natal, “A Capital Espacial do Brasil”.

O INTERESSANTE ERA QUE MUITOS DOS QUE AQUI HABITAVAM, ACHAVAM  A CIDADE MUITO ATRASADA, SEM ATRATIVOS, DISTANTE DE TUDO E DE TODOS. HOJE, A MAIORIA DAQUELES QUE VIVERAM ESTE PERÍODO, MORREM DE SAUDADES DESTA NATAL!

Uma parte do bairro de Ponta Negra, ou conjunto, já existia. mas a outra parte era só areia.
Uma parte do bairro de Ponta Negra, ou conjunto, já existia. mas a outra parte era só areia.

A expansão para outras áreas da cidade, que hoje possuí quase a mesma população que Natal tinha em 1977

A expansão para outras áreas da cidade, que hoje possuí quase a mesma população que Natal tinha em 1977

O PRINCIPAL RESTAURANTE ERA A CARNE ASSADA DO LIRA, O PRINCIPAL HOTEL ERA O REIS MAGOS E O MAIOR PERIGO EM RELAÇÃO A VIOLÊNCIA ERA O “LANCEIRO”

Se esta não era a principal festa da cidade, certamente era uma das mais importantes
Numa época onde a produção rural potiguar era mais intensa, se esta não era a principal festa, certamente era uma das mais importantes. E ainda ocorria em Eduardo Gomes!

E olha as atrações em 1977. Só gente boa e de qualidade!
E olha as atrações naquele 1977. Bem eclético

ESSA NATAL NÃO VOLTA MAIS. O INTERESSANTE AO LEMBRAR DESTA CIDADE QUE HOJE VIVE NA MEMÓRIA DE MUITOS, É SABER COMO FAZER COMO A NATAL QUE VIVEMOS ATUALMENTE POSSA TER ALGUMAS QUALIDADES DAQUELA CIDADE TÃO TRANQUILA?

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

UM PLANETA EM EVOLUÇÃO, APESAR DA CONSTANTE EXPOSIÇÃO MIDIÁTICA DA VIOLÊNCIA

A violência ocupa cada vez mais espaços na mídia
A violência ocupa cada vez mais espaços na mídia

Por Flávio Rezende*

Todos os dias, quase oito bilhões de seres em passagem material no planeta Terra, experimentam uma rotina radicalmente igual, existindo 24 horas de maneiras diferentes e em locais diversos, mas, cumprindo rigorosamente uma estadia isonômica por aqui em termos horários.

Levando em conta que a existência média está em torno de 70 anos atualmente, vivemos então 25.550 dias, o que dá 613.200 horas, um bocadão de tempo né? Pois então, perceba que a grande maioria vive esse tantão de tempo, sem presenciar ou sofrer algum tipo de violência mais significativo.

Peguemos como exemplo uma cidade como Natal, onde vivem uns 800 mil habitantes. Num dia qualquer essas 800 mil pessoas podem ser vistas indo para o trabalho, colégio, pegando ônibus, andando de carro, etc. A violência decorrente de assaltos, assassinatos, estupros, roubos e outros mais, podem chegar a atingir 0,12% da população, o que dá mil ocorrências, já considerando esse número fora da realidade.

Perceba que a criminalidade foi relativamente pequena diante da normalidade da vida dos demais habitantes, mas, se você for ligar uma TV ou ler algum impresso, perceberá no conjunto do tempo televisivo ou dos jornais, que o tema violência, ocupa cerca de 30% ou até mais, dissolvido em telejornais, filmes e em outros momentos, passando a falsa impressão que estamos vivendo num mundo bárbaro, num mundo sem jeito e que basta sair às ruas, para acontecer algo negativo.

Campanhas surgem tentando minimizar a grande exposição da violência na mídia
Campanhas surgem tentando minimizar a grande exposição da violência na mídia

Entenda bem que não estou negando a violência e os fatos reais que gravitam em torno da questão, apenas exponho aqui com dados, que eles não são tão grandes como estão falando, ocorrendo isso, pelo desproporcional espaço concedido aos fatos negativos pela imprensa em geral e, não vai aqui julgamento de valor sobre isso, pois sei que o próprio povo gosta de ver a desgraça alheia, até como forma de aliviar suas agruras pessoais e seus sofrimentos materiais e emocionais, sendo isto, prato cheio para outros artigos.

Apesar dos crimes, assaltos, atos terroristas, estupros e demais barbáries, o planeta Terra evolui. As leis são feitas no sentido da sociedade não aceitar mais a escravidão, a discriminação, atos de guerra absurdos, sendo que cada país, levando em conta questões religiosas, políticas ou culturais, decide com certas particularidades, como regular isso e aquilo.

Um olhar histórico e isento deixa bem claro que muitas coisas já foram bem piores. Que determinadas posturas violentas foram sendo lentamente modificadas e, até questões comportamentais relacionadas à sexualidade e ao livre pensamento, são respeitadas e amparadas por legislações mais humanistas.

A imprensa bem que podia dar mais espaço para documentários que mostrem os países e suas coisas boas, os campos, os lugares turísticos, a vida animal, as raças, as religiões, os rios, mares e a linda vegetação terráquea.

Tantas coisas boas para assistirmos e lermos em grandes veículos, as ações das pessoas do bem, belas imagens de gestos solidários, decisões políticas que incluíram milhões de pessoas em um universo de contentamento.

São tantos os acontecimentos fantásticos que nos remetem ao mundo mágico do coração sadio e feliz, que oro silenciosamente para que o véu da ignorância possa ser cada vez mais removido e, mergulhados na luz, possamos valorizar nosso lado pacífico, nosso comportamento adequado, deixando de lado cada vez mais esses seres momentaneamente desvirtuados e que, sem tanta publicidade sobre seus atos, mudem e, enfim, o paraíso, o planeta que evolui, possa chegar a tão esperada Era de Aquarius, onde o certo é que vai ter ibope e, o ser equivocado, será corrigido com amor, causando efeito prático e modificando a rota dos que ainda precisam de perdão e nova oportunidade de correção.

É escritor, jornalista e ativista social em Natal/RN (escritorflaviorezende@gmail.com)

NOVO LIVRO DO GRANDE JOÃO BARONE

A capa do novo livro de João Barone
A capa do novo livro de João Barone

João Barone, ou João Alberto Barone Reis e Silva é carioca, torcedor do Fluminense, nascido em 5 de agosto de 1962 e o consagrado baterista da banda Paralamas do Sucesso, junto com Bi Ribeiro e Herbert Vianna.

Além de grande músico, João Barone é um aficionado por assuntos da Segunda Guerra Mundial. Filho de um dos mais de 25 mil pracinhas que lutaram na Itália, afirma que as narrativas das experiências vividas pelo seu pai naquele conflito eram um assunto comum em sua casa. Com o passar do tempo Barone ampliou e aprofundou o conhecimento sobre o tema e agora está lançando o seu segundo livro sobre o maior conflito da história da humanidade. Intitulado 1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida, já tem lançamentos agendados nas seguintes datas e locais;

Porto Alegre: 9/5, Fnac Barra Shopping, às 19:39hrs;

Curitiba: 13/5, Saraiva Krystal Shopping, às 19:39hrs;

Recife, 16/5, Saraiva Riomar Shopping, às 19:39hrs;

Salvador: 20/5, Saraiva Salvador Shopping, às 19:39hrs;

Rio: 21/5, Livraria da Travessa Shopping Leblon, às 19:39hrs,

Além do lançamento de 1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida (Nova Fronteira, 288 páginas, R$ 35,90), João possui junto com seu irmão um núcleo de projetos onde estão produzindo um documentário intitulado O Caminho dos Heróis (o segundo que ele produz sobre o Brasil na guerra) e em breve vão realizar uma mini série sobre o assunto, que certamente terá extrema qualidade.

Em 1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida, João Barone revela e analisa a participação do Brasil no conflito que sangrou o mundo. Dirige sua pesquisa pelo passado do pai e do país para unir dados, curiosidades e histórias emocionantes de uma campanha incrível que muitas vezes o próprio brasileiro desconhece. Em um encontro que tivemos recentemente, o autor me comentou que este seu livro se destinava a apresentar interessantes informações para aqueles que não tem muito conhecimento sobre este assunto e ajudar a diminuir grande parte do desconhecimento existente sobre o tema.

0,,11880124-EX,00

Neste tocante o novo livro de Barone vem bem a calhar, pois a participação da Força Aérea e da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália, mesmo sendo forças de combate relativamente pequenas, possuí sua importância histórica, onde estes homens e mulheres representaram bem o nosso país, o único entre os Sul-Americanos a ter enviado tropas e lutado na Europa.

Entretanto as mudanças políticas ocorridas no Brasil, principalmente após 1964, fizeram com que muitos se desinteressassem pelo tema e até mesmo desprezassem aqueles que desejavam aprofundar estudos e pesquisas. No passado as pessoas que gostavam deste assunto eram facilmente taxados de belicistas, direitistas, adoradores da ditadura e por aí vai!

Eu moro na cidade Sul-Americana que teve a maior e mais efetiva participação neste conflito e anteriormente percebia claramente que aqui, afora alguns círculos específicos, não havia tanto interesse no debate mais aprofundado em relação ao tema e na produção de materiais informativos. Já no meio acadêmico local era normal uma maior carga de questionamentos por parte dos mestres e quando alunos desejavam seguir pesquisando e produzindo sobre este tema, era normal existir uma certa decepção nos rostos destes.

João ao lado de um caça P-47 da FAB que atuou na Itália
João ao lado de um caça P-47 da FAB que atuou na Itália

Felizmente nos últimos anos a visão sobre a pesquisa em relação a participação de nosso país na Segunda Guerra Mundial sofreu muitas mudanças. Foram lançados muitos livros, documentários, filmes e criados grupos de pesquisa que lutam pela preservação desta memória. Mesmo sendo questionável a qualidade de muito do que foi produzido, não podemos esquecer que foi bastante aprofundado o conhecimento do conflito humano, dos problemas, anseios e sofrimentos pelo que passaram aqueles mais de 25 mil brasileiros que estiveram na Itália. Através desta mudança se conheceu com maiores detalhes as sagas e dores dos que sofreram os ataques de submarinos nazifascistas, ou perderam parentes nos afundamentos dos navios brasileiros e o papel da Marinha do Brasil no conflito.

Sem dúvida que na história da minha cidade, a Segunda Guerra Mundial é o período no qual Natal sofreu suas maiores e mais acentuadas mudanças em sua demografia, no comportamento de sua gente, na sua cultural, em sua economia e em outras situações. E por aqui ainda existe muita coisa para se pesquisar.

Através dos materiais  sobre a Segunda Guerra Mundial que publiquei no nosso blog Tok de História, um dia recebi uma mensagem do João Barone e a partir daí iniciamos uma série de contatos, que culminou em um proveitoso encontro aqui em Natal, na última oportunidade que os Paralamas do Sucesso tocaram em nossa cidade.

João Barone o autor deste blog, após o último show dos Paralamas do Sucesso na capital potiguar
João Barone o autor deste blog, após o último show dos Paralamas do Sucesso na capital potiguar

Conheci uma pessoa muito simples, acessível e me espantou o quanto ele é extremamente conhecedor da história da participação brasileira neste conflito. Pelo devotamento que João Barone dedica ao estudo, atenção e zelo pela pesquisa deste assunto, certamente que seu novo livro 1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida será um sucesso e terá destaque na minha estante.

Rostand Medeiros

Natal, Rio Grande do Norte

O MILAGRE DO NATAL DE 1914

OS INUSITADOS ACONTECIMENTOS DA CONFRATERNIZAÇÃO NATALINA ENTRE INIMIGOS DURANTE A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

O milagre do Natal de 1914
O milagre do Natal de 1914

Tudo teve início quando foram assassinados em Sarajevo, na Sérvia, o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, o arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa Sofia. A ação foi realizada por um estudante, mas toda trama fora criada por um membro do governo sérvio. Em 28 de julho, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia. Grã-Bretanha, França e Rússia se aliaram aos sérvios; a Alemanha, aos austro-húngaros. Tinha início a Primeira Guerra Mundial, conhecida então como Grande Guerra.

Na sequência o mundo viu um ataque alemão inicial através da Bélgica em direção a França. Este avanço foi repelido no início de setembro de 1914, nos arredores de Paris pelas tropas francesas e britânicas, na chamada Primeira Batalha do Marne. Os aliados empurraram as forças alemãs para trás cerca de 50 km. Os germânicos seguem para o vale do Aisne, onde prepararam suas posições defensivas.

Um infogr´´afico pyublicado na primeira página do jornal recifense Diário de Pernambuco, explicando sobre a nova guerra na Europa
Um infográfico publicado na primeira página do jornal recifense Diário de Pernambuco, explicando sobre a nova guerra na Europa

As forças aliadas não foram capazes de avançar contra a linha alemã e a luta rapidamente degenerou em um impasse. Nenhum dos lados estava disposto a ceder terreno e ambos começaram a desenvolver sistemas fortificados de trincheiras. Isso significou o fim da guerra móvel no oeste.

Em novembro daquele ano existia desde o litoral do Mar do Norte, até a fronteira suíça, todo um grande complexo de trincheiras, ocupado em ambos os lados por milhares de soldados em posições defensivas.

O uso de trincheiras caracterizou a Primeira Guerra Mundial
O uso de trincheiras caracterizou a Primeira Guerra Mundial

A utilização de trincheiras não era nenhuma novidade em guerras. A novidade era a extensão, a dimensão destes sistemas de defesa, a quantidade de homens que as utilizavam e o uso massivo da artilharia e do fogo de metralhadoras.

Logo se percebeu que os soldados não tinham muito para onde ir. Cara a cara, a poucos metros um dos outros, agachados em suas trincheiras, os homens esperavam o momento oportuno para ir de granada de mão, matando aqueles do outro lado. Outras pessoas como eles. A compaixão tinha desaparecido da terra e deu lugar a uma hostilidade implacável.

Quando não era o combate a rotina era apenas ficar nas suas trincheiras esperando e observando as ações do inimigo, mas com cuidado, pois um franco atirador a espreita poderia matar qualquer um. De vez quando cada lado tentava um ataque, que normalmente era infrutífero e ainda ocasionava muitas mortes, principalmente aos atacantes.

Trincheira britânica em pleno momento do combate
Trincheira britânica em pleno momento do combate

Os homens estavam enfiados dentro de tuneis e buracos lamacentos, tiritando de frio, fedendo, com piolhos espalhados pelo corpo todo. O mau cheiro imperando devido às latrinas descobertas e os corpos em decomposição atraindo milhares de ratazanas. Eles comiam pessimamente e a higiene era sofrível. Afora tudo isso ainda havia a tensão de repente levar um tiro, ou uma granada de um canhão cair dentro de sua trincheira.

O entusiasmo inicial e o orgulho dos soldados de ambos os lados há muito havia se esvaído. Em dezembro o moral das tropas já despencara e logo o último mês de 1914 se aproximava do seu fim.

O Carisma da Época do Natal

Para a maioria dos soldados ingleses, franceses, belgas e alemães envolvidos no conflito e vindos das camadas sociais mais simples de suas nações, as razões deles estarem combatendo eram um tanto quanto distantes e difusas.

A espera em uma trincheira francesa
A espera em uma trincheira francesa

Muitos desejavam estar em suas casas, junto as suas famílias, aproveitando o Natal.

Consta que em praticamente toda a chamada Frente Ocidental, dos dois lados das trincheiras, próximo ao Natal chegaram para os soldados saudosos e tristes as tão esperadas cartas vindas de seus lares.

Em vários locais da Frente Ocidental, depois de dias de chuva e frio, a manhã de 24 de dezembro surgiu com um belo céu azul e o sol brilhante. Na véspera daquele Natal as trincheiras estavam mais animadas.

Então chegou a noite de 24 de dezembro. A artilharia ficou em silêncio e logo a coisa toda começou devagar, espontaneamente, em vários locais e discretamente.

O Milagre

Várias testemunhas concordam que, na maioria dos casos, foram os alemães que começaram por colocar velas em suas trincheiras e em árvores de Natal, em seguida iniciaram canções de Natal (Stille Nacht, Heilige Nacht), criando um efeito mágico no espaço aberto entre as duas trincheiras inimigas, a chamado de terra de ninguém.

Consta que em um dos locais, um cantor alemão declamou de forma magistral canções natalinas, sendo entusiasticamente aplaudido e seguido em sua canção por soldados de ambos os lados. Animados, muitos os soldados franceses subiram nos parapeitos de suas trincheiras aplaudindo. Logo pediram para o alemão bisar a música.

Essas músicas lembravam aos soldados de ambos os lados que este período tinha um forte sentido simbólico, onde todos preferiam estar em casa. Logo percebiam que eles não eram tão diferentes.

Soldados alemães do 134 Regimento da Saxônia e os soldados britânicos do Real Warwickshire Regiment se reúnem na terra de ninguém em 26 de dezembro de 1914
Soldados alemães do 134 Regimento da Saxônia e os soldados britânicos do Real Warwickshire Regiment se reúnem na terra de ninguém em 26 de dezembro de 1914

Os inimigos continuaram gritando saudações de Natal. Em seguida houve excursões discretas pela terra de ninguém. Após as saudações iniciais pequenos presentes foram trocados, tais como alimentos, tabaco, álcool, botões, chapéus e até guirlandas.

Milagrosamente durante o início das confraternizações, poucos soldados foram mortos por forças opostas. Os soldados britânicos e alemães descobriam ter mais em comum entre si que com seus superiores – instalados confortavelmente bem longe da frente de batalha. Já franceses e belgas eram menos afeitos a tomar parte no clima festivo. Seus países haviam sido invadidos (no caso da Bélgica, 90 por cento de seu território estava ocupado), para eles era mais difícil apertar a mão do inimigo.

Não há dúvida de que para estas confraternizações ocorrerem no Natal de 1914, as canções devem ter desempenhado um papel importante, como uma espécie de gatilho gerador do contato. Não devemos esquecer que o canto é um elemento essencial no processo de fusão de grupo. Todos eram homens que sofriam e estavam longe de suas famílias. A partir desse momento, a confraternização se tornou possível.

Enterros

A trégua permitiu também o recolhimento de corpos de soldados mortos, o que certamente deve ter melhorado e muito a respiração de todos. Serviços conjuntos de sepultamentos foram realizados.

Encontro para o enterramento nas trincheiras
Encontro para o enterramento nas trincheiras

No ótimo site http://militanciaviva.blogspot.com.br encontramos uma interessante narrativa relativa àqueles encontros tão inusitados. Na noite do dia 24, em Fleurbaix, na França, uma visão deixou os britânicos intrigados: iluminadas por velas, pequenas árvores de Natal enfeitavam as trincheiras inimigas. A surpresa aumentou quando um tenente alemão gritou em inglês perfeito: “Senhores, minha vida está em suas mãos. Estou caminhando na direção de vocês. Algum oficial poderia me encontrar no meio do caminho?” Silêncio. Seria uma armadilha? Ele prosseguiu: “Estou sozinho e desarmado. Trinta de seus homens estão mortos perto das nossas trincheiras. Gostaria de providenciar o enterro”. Dezenas de armas estavam apontadas para ele. Mas, antes que disparassem um sargento inglês, contrariando ordens, foi ao seu encontro. Após minutos de conversa, combinaram de se reunir no dia seguinte, às 9 horas da manhã.

No dia seguinte, 25 de dezembro, ao longo de toda a frente ocidental, soldados armados apenas com pás escalaram suas trincheiras e encontraram os inimigos no meio da terra de ninguém. Era hora de enterrar os companheiros, mostrar respeito por eles – ainda que a morte ali fosse um acontecimento banal.

O capelão escocês J. Esslemont Adams organizou um funeral coletivo para mais de 100 vítimas. Os corpos foram divididos por nacionalidade, mas a separação acabou aí: na hora de cavar, todos se ajudaram. O capelão abriu a cerimônia recitando o salmo 23. “O senhor é meu pastor, nada me faltará”, disse. Depois, um soldado alemão, ex-seminarista, repetiu tudo em seu idioma. No fim, acompanhado pelos soldados dos dois países, Adams rezou o pai-nosso. Outros enterros semelhantes foram realizados naquele dia, mas o de Fleurbaix foi o maior de todos.

Relatos de Dias Fantásticos

Mesmo com as restrições para o uso de câmeras nas trincheiras, logo alguém estava fotografando e estas fotos que sobreviveram até nossos dias são um documento pungente daqueles dias incríveis.

Soldados britânicos da  Northumberland Hussars , 7 ª Divisão e alemães reunidos em terra de ninguém durante a trégua não oficial
Soldados britânicos da Northumberland Hussars , 7 ª Divisão e alemães reunidos em terra de ninguém durante a trégua não oficial

Ao redor da cidade belga de Ypres, no início da manhã de 25 de dezembro, os britânicos ouviram cânticos de Natal vindo das posições inimigas e também das trincheiras francesas e, em seguida, descobriram que árvores de Natal haviam sido colocadas ao longo das trincheiras alemãs. Lentamente, colunas de soldados alemães surgiram a partir de suas trincheiras e avançaram desarmados e chamando os ingleses para vir e confraternizar.

O Capitão inglês Bruce Bairnsfather, que na vida civil era humorista e cartunista de sucesso, que servia no  Real Warwickshire Regiment, comentou que trocou suvenires com um capitão alemão e viu um dos seus comandados, barbeiro na vida civil, cortando o cabelo de um alemão, que docilmente se ajoelhou enquanto seu inimigo passava uma afiada tesoura a centímetros de sua jugular.

O incrível do fato é que a trégua informal propagou-se para outras áreas. Em muitos setores a tranquilidade só durou essa noite, mas em algumas áreas durou até o ano novo, e outras chegaram inclusive até o mês de fevereiro.

No dia 29 de dezembro de 1914, o jornal natalense A Republica publicou uma pequena nota sobre o fato
No dia 29 de dezembro de 1914, o jornal natalense A Republica publicou uma pequena nota sobre o fato

Alguns soldados relataram os acontecimentos em diários. Edward Hulse, um tenente inglês dos Scots Guards, com 25 anos de idade, escreveu no diário de guerra do seu batalhão: “Nós iniciamos conversações com os alemães, que estavam ansiosos para conseguir um armistício durante o Natal. Um batedor chamado F. Murker foi ao encontro de uma patrulha alemã e recebeu uma garrafa de uísque e alguns cigarros e uma mensagem foi enviada por ele, dizendo que se nós não atirássemos neles, eles não atirariam em nós”. Consequentemente, as armas daquele setor ficaram silenciosas àquela noite. Em diversas partes do front os soldados trocaram cartas para serem entregues a familiares e amigos que viviam em cidades e vilarejos que estavam em conflito.

Sem pensar em se matarem, dava até tempo para uma pelada.

Há muitas histórias de partidas de futebol entre as forças inimigas. Há cartas que confirmam que em Wulvergem, na Bélgica o jogo foi só pelo prazer da brincadeira, ninguém prestou atenção no resultado. Mas houve também partidas “sérias”, com direito a juiz e a troca de campo depois do intervalo. Numa delas, que se tornou lendária, os alemães derrotaram os britânicos por 3 a 2, a partida foi encerrada depois que a bola – esta de verdade, feita de couro – furou ao cair no arame farpado.

Outra nota trazendo detalhes do acontecimento publicado no Brasil, então um país neutro
Outra nota trazendo detalhes do acontecimento publicado no Brasil, então um país neutro

Nas áreas onde a confraternização não progrediu tanto, temos o relato de Alfred Anderson, um marceneiro escocês, que faleceu em 2005, com 109 anos, sendo considerado a última testemunha da Trégua do Natal de 1914. Eis o seu relato na manhã do dia 25 de dezembro;

“Lembro-me do silêncio, o som estranho de silêncio. Só os guardas estavam de plantão. Fomos todos para fora e fiquei escutando. E, claro, pensando nas pessoas em casa. Tudo o que eu tinha ouvido durante dois meses nas trincheiras era o assobio das bombas, zunido das balas, metralhadoras e vozes distantes dos alemães. Mas havia um silêncio enorme naquela manhã. Nós gritamos Feliz Natal, embora ninguém se sentisse alegre. O silêncio terminou no início da tarde e a matança começou de novo. Foi uma curta paz em uma guerra terrível.”

O episódio mais famoso destas confraternizações foi provavelmente os encontros ocorridos na área das trincheiras existentes na planície de Courcy, ao oeste da cidade francesa de Reims, com as tropas do Regimento de Infantaria 74 (francês) e do 7º de Caçadores (alemão).

Reações Oficiais e as Notícias da Trégua Chegam em Casa

Em Wijtschate, na Bélgica, uma pessoa em particular também ficou muito irritada com toda esta situação. Lutando ao lado dos alemães, o jovem cabo austríaco Adolf Hitler queixava-se do fato de seus companheiros cantarem com os britânicos, em vez de atirarem neles.

Uma trincheira alemã
Uma trincheira alemã

Ele não era o único. Dos quartéis-generais, os senhores da guerra mandaram ordens contra qualquer tipo de confraternização. Quem desrespeitasse se arriscava a ir à corte marcial. A ameaça fez os soldados voltarem para as trincheiras. Durante os dias seguintes, muitos ainda se recusavam a matar os adversários. Para manter as aparências, continuavam atirando, mas sempre longe do alvo. Na noite do dia 31, em La Boutillerie, na França, o fuzileiro britânico W.A. Quinton e mais dois homens transportavam sua metralhadora para um novo local, quando de repente ouviram disparos da trincheira alemã. Os três se jogaram no chão, até perceberem que os tiros eram para o alto: os alemães comemoravam a virada do ano.

As reações à trégua de Natal vieram de várias fontes. Os Governos aliados e o alto-comando militar reagiram com indignação (principalmente entre os franceses). O Comandante-em-chefe britânico, Sir John French, possivelmente tinha previsto a suspensão das hostilidades no Natal quando emitiu uma ordem antecipada alertando suas forças para um provável aumento da atividade alemã durante o Natal: ele, portanto, instruiu seus homens para redobrar o estado de alerta durante esta época.

Quase imediatamente à trégua, as mensagens enviadas chegaram para os familiares e amigos daqueles servindo no front através do método usual: cartas para casa. Estas cartas foram rapidamente utilizadas por jornais locais e nacionais, incluindo alguns na Alemanha.

No Daily Mirror
No Daily Mirror

Apesar da censura e posterior destruição de muitas das fotos tiradas durante o evento, algumas chegaram até Londres e foi estampado na primeira página de muitos jornais, incluindo o Daily Mirror, intitulado “Um grupo histórico: os soldados britânicos e alemães fotografados juntos” em 08 de janeiro de 1915.

Nas cartas para casa, os soldados na linha de frente foram praticamente unânimes em expressar seu espanto com os eventos do Natal de 1914.

O que chama atenção nas fotos destes encontros é a ausência do armamento e a descontração
O que chama atenção nas fotos destes encontros é a ausência do armamento e a descontração

Um jornal alemão reproduziu o sentimento de um cabo que enviou uma carta a sua família em Colônia: “Aquele foi um dia de paz na guerra; é uma pena que não tenha sido a paz definitiva”.
Já um jornal britânico transmitiu como o cabo John Ferguson viu a tréguas no seu setor: “Nós apertamos as mãos, desejando Feliz Natal e logo estávamos conversando como se nos conhecêssemos há vários anos. Nós estávamos em frente às suas cercas de arame e rodeados de alemães – “Fritz” e eu no centro, conversando e ele, ocasionalmente traduzindo para seus amigos o que eu estava dizendo. Nós permanecemos dentro do círculo como oradores de rua. Logo, a maioria da nossa companhia, ouvindo que eu e alguns outros havíamos ido, nos seguiu… Que visão – pequenos grupos de alemães e ingleses se estendendo por quase toda a extensão de nossa frente! Tarde da noite nós podíamos ouvir risadas e ver fósforos acesos, um alemão acendendo um cigarro para um escocês e vice-versa, trocando cigarros e souvenires. Quando eles não podiam falar a língua, eles tentavam se fazer entender através de gestos e todos pareciam se entender muito bem. Nós estávamos rindo e conversando com homens que só umas poucas horas antes estávamos tentando matar!”

Conclusão

Nos anos subsequentes os oficiais ordenaram bombardeios de artilharia na véspera da festividade para assegurar-se de que não houvesse mais tanto congraçamento no meio dos combates. Mesmo assim ainda aconteceram encontros amigáveis entre soldados, mas em uma escala muito menor que em 1914.

Nos anos seguintes a duração da Primeira Guerra Mundial, que só se encerrou em 1918, sempre próximo ao Natal, os comandantes aumentavam a ação da artilharia para evitar as confraternizações
Nos anos seguintes a duração da Primeira Guerra Mundial, que só se encerrou em 1918, os comandantes aumentavam a ação da artilharia sempre próximo do Natal para evitar as confraternizações

Este fato incrível, inclusive pouco comentado em livros e jornais norte-americanos, é incrível em muitos aspectos, principalmente quando analisamos a própria estrutura básica da existência do sistema militar.

Uma guerra não é uma brincadeira. Ali não existem mocinhos e bandidos como no cinema. Ali se estar para matar e morrer.

Foram mais de 16 milhões de mortes e 20 milhões de feridos durante a Primeira Guerra Mundial
Foram mais de 16 milhões de mortes e 20 milhões de feridos durante a Primeira Guerra Mundial

Uma das funções básicas das forças militares é ser capaz de usar a violência organizada contra os adversários, onde a chave para o seu desempenho positivo se baseia na obediência inquestionável as ordens emanadas dos oficiais, mesmo que muitos destes sejam completamente incompetentes.

Por causa da morte de outros seres humanos, as tarefas militares não são facilmente realizadas por muitas pessoas. Para preparar o elemento vindo do meio civil, estes são submetidos a um forte treinamento intensivo, doutrinação profunda e isolamento em um ambiente militar, tornando-o duro e preparado para matar.

Recente cerimônia para comemorar o Milagre do Natal de 1914, que no próximo ano completa seu centenário
Recente cerimônia para comemorar o Milagre do Natal de 1914, que no próximo ano completa seu centenário

Quando imaginamos toda a estrutura deste sistema no início do século XX, em meio a uma guerra ampla e tecnologicamente mortal, percebemos que a ocorrência daqueles episódios em 1914, foi um verdadeiro milagre.

Fonte – Parte das informações coletadas no site http://militanciaviva.blogspot.com.br

NATALENSE É AGREDIDO POR GRUPO NEONAZISTA EM NITERÓI, NO RIO DE JANEIRO – RAZÃO DO ATAQUE : SER NORDESTINO

Grupo que atacou o natalense detido e os artefatos nazistas
Grupo que atacou o natalense detido e os artefatos nazistas

Sete jovens neonazistas foram presos na manhã deste sábado (27) na Praça Araribóia, no Centro de Niterói, no Rio de Janeiro, após agressão ao natalense Cirley Santos, de 33 anos.

Morador de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, desde os cinco anos, Cirley Santos, 33, nasceu em Natal (RN) e teme retomar sua rotina após a agressão que sofreu no sábado (27), em frente à estação das Barcas, em Niterói. 

Ele levou um soco que quebrou seus óculos de sol e só não foi emboscado pelos outros seis integrantes do grupo que aguardavam em um carro porque as pessoas que passavam no local alertaram a Guarda Municipal, que conseguiu deter o grupo. Os guardas encontraram os dois agressores dentro de um carro Peugeot preto, próximo à praça. No veículo, estava o restante do grupo, totalizando cinco homens. 

Desempregado, Santos precisa voltar a procurar trabalho, mas teme sair sozinho. “Eu penso que tenho que mudar os lugares por onde passo, prestar mais atenção, não andar mais sozinho. Não sei se eles vão ficar presos por muito tempo, a maioria é da classe média”, disse o rapaz.

Não é a Primeira Agressão

Na delegacia, Cirley Santos contou que foi abordado pelos jovens quando atravessava a praça defronte a estação das Barcas. “Eles me apontaram e ele (Tiago Borges Pita, 28, suspeito da agressão) gritou ‘nordestino de merda’ e me deu um soco. Quem estava em volta viu os outros saírem do carro, mas eles chamaram a Guarda Municipal”, disse Santos.

Ele afirma já ter sido agredido por Pita há aproximadamente dois anos, em um bar de um posto de gasolina em São Gonçalo, onde tomava cerveja com amigos. Na ocasião, Santos vestia uma camiseta com uma bandeira da Jamaica.

“Ele [Pita] me chamou de ‘amante de negros’ e me deu um golpe com um pequeno canivete entre os dedos. Dessa vez também tinha gente em volta, e ele correu. Ele estava sozinho”, afirmou o rapaz, que não prestou queixa à polícia, mas diz não ter esquecido o rosto de Pita. “Só depois que vi que tinha um ferimento no braço, aí fui ao hospital.”

No Brasil fazer apologia ao nazismo e ao racismo é crime sem direito a fiança. Este enquadramento é dado pelo artigo n. 20, parágrafos 1 e 2, da Lei n. 7716 de 5/1/1989 (redação destes parágrafos atualizada pela lei n. 9459 de 15/5/1997
No Brasil fazer apologia ao nazismo e ao racismo é crime sem direito a fiança. Este enquadramento é dado pelo artigo n. 20, parágrafos 1 e 2, da Lei n. 7716 de 5/1/1989 (redação destes parágrafos atualizada pela lei n. 9459 de 15/5/1997

“Paraíba”

Para esquecer e espairecer, Santos foi no sábado à noite a uma festa nordestina que acontecia em seu bairro. Apesar de ter saído ainda pequeno de Natal, ele gosta de participar de festas e outras manifestações culturais nordestinas. Ele disse que já sentiu outras formas de preconceito devido ao lugar de onde veio e que também já viu amigos serem hostilizados.

“Já vi meus amigos serem chamados de paraíba. Não fico pensando muito nisso, não quero sentir raiva. A vida continua”, disse Santos.

Material nazista e iniciação

Pita está preso com os demais membros do grupo: Carlos Luís Bastos Neto, 33; Davi Ribeiro Moraes, 39; Caio Souza Prado, 23; Philipe Ferreira Ferro Lima, 21; e Jéssica Oliveira Charles Ribeiro, 26. Um adolescente de 15 anos também foi detido. Ele irá para um abrigo, e os demais para uma unidade do complexo penitenciário de Gericinó, em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro.

No carro, a polícia encontrou objetos para tortura, bandeiras com suásticas, blusas com símbolos nazistas, um taco de beisebol, botas com biqueiras de aço, livros sobre neonazismo e folhetos com propaganda nazista. A suspeita é de que o grupo iria para um churrasco de iniciação de um membro que aconteceria em Icaraí, bairro nobre de Niterói.

Eles foram encaminhados à 77ª DP (Icaraí), onde foram indiciados por formação de quadrilha, corrupção de menores e intolerância racial, religiosa, por cor ou etnia, prevista na lei 7.716. Pita também foi indiciado por lesão corporal dolosa (com intenção). 

313181_293770383974775_100000254488976_1171278_1597326300_n[1]

De acordo com a delegada-adjunta do distrito, Helen Sardemberg, o crime de intolerância não prevê pagamento de fiança, e eles serão soltos somente se conseguirem liberdade provisória por alguma ordem judicial.

A vítima reconheceu o grupo e a polícia vai investigar se os suspeitos estão envolvidos em outra agressão ao mesmo rapaz. A família de um dos presos enviou um advogado à delegacia, que disse ainda não ter condições de dar declarações sobre o flagrante.

P.S. – Isso tudo ainda ocorre com um rapaz que foi para esta cidade carioca com 5 anos de idade. No meu caso eu estaria lascado com meu sotaque carregado.

Fico preocupado de existir um grupo neonazista no Rio de Janeiro, terra que tanto admiro, onde tenho inúmeros amigos e que na nossa história foi o principal destino escolhido por milhares de potiguares na busca de dias melhores no sudeste do Brasil.

Em um caso revoltante como este, clamo que ocorra justiça, pois se não será muito difícil para o Rio receber Copa do Mundo e Olimpíadas. 

DOCUMENTO QUE REGISTRA EXTERMÍNIO DE ÍNDIOS É RESGATADO APÓS DÉCADAS DESAPARECIDO

20130419003538851868u

Relatório de mais de sete mil páginas que relatam massacres e torturas de índios no interior do país, dado como queimado num incêndio, é encontrado intacto 45 anos depois

Um dos documentos mais importantes produzidos pelo Estado brasileiro no último século, o chamado Relatório Figueiredo, que apurou matanças de tribos inteiras, torturas e toda sorte de crueldades praticadas contra indígenas no país – principalmente por latifundiários e funcionários do extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI) – ressurge quase intacto.

Supostamente eliminado em um incêndio no Ministério da Agricultura, ele foi encontrado recentemente no Museu do Índio, no Rio, com mais de sete mil páginas preservadas e contendo 29 dos 30 tomos originais.

Em uma das inúmeras passagens brutais do texto, a que o jornal Estado de Minas teve acesso e publicou na data em que se comemora o Dia do Índio, um instrumento de tortura apontado como o mais comum nos postos do SPI à época, chamado “tronco”, é descrito da seguinte maneira: “Consistia na trituração dos tornozelos das vítimas, colocadas entre duas estacas enterradas juntas em um ângulo agudo. As extremidades, ligadas por roldanas, eram aproximadas lenta e continuamente”.

Homens_Y_5

Entre denúncias se encontra relatos de caçadas humanas promovidas com metralhadoras e dinamites atiradas de aviões, inoculações propositais de varíola em povoados isolados e doações de açúcar misturado a estricnina, o texto redigido pelo então procurador Jader de Figueiredo Correia ressuscita incontáveis fantasmas.

A Pedido do Ministro e Notícia no Exterior

A investigação, feita em 1967, em plena ditadura, a pedido do então ministro do Interior, o general Afonso Augusto de Albuquerque Lima, tendo como base comissões parlamentares de inquérito de 1962 e 1963 e denúncias posteriores de deputados, foi o resultado de uma expedição que percorreu mais de 16 mil quilômetros, entrevistou dezenas de agentes do SPI e visitou mais de 130 postos indígenas.

Ministro Afonso de Albuquerque era cearense
Ministro Afonso de Albuquerque era cearense

Jader de Figueiredo e sua equipe constataram diversos crimes, propuseram a investigação de muitos mais que lhes foram relatados pelos índios, se chocaram com a crueldade e bestialidade de agentes públicos. Ao final, no entanto, o Brasil foi privado da possibilidade de fazer justiça nos anos seguintes. Albuquerque Lima chegou a recomendar a demissão de 33 pessoas do SPI e a suspensão de 17, mas, posteriormente, muitas delas foram inocentadas pela Justiça.

Os únicos registros do relatório disponíveis até hoje eram os presentes em reportagens publicadas na época de sua conclusão, quando houve uma entrevista coletiva no Ministério do Interior, em março de 1968, para detalhar o que havia sido constatado por Jader e sua equipe. A entrevista teve repercussão internacional, merecendo publicação inclusive em jornais como o New York Times. No entanto, tempos depois da entrevista, o que ocorreu não foi a continuação das investigações, mas a exoneração de funcionários que haviam participado do trabalho. Quem não foi demitido foi trocado de função, numa tentativa de esconder o acontecido. Em 13 de dezembro do mesmo ano o governo militar baixou o Ato Institucional nº 5, restringindo liberdades civis e tornando o regime autoritário mais rígido.

“Eu tinha certeza de que ele tinha sido queimado”

“O relatório é uma bomba atômica na história recente do país. Tinha muita gente importante envolvida. Essa é uma das melhores notícias que já recebi nos últimos 40 anos”, se emociona o advogado Jader de Figueiredo Correia Júnior, ao saber que o relatório produzido por seu pai, o procurador Jader de Figueiredo, em 1968, sobre violação de direitos humanos de indígenas, foi encontrado quase intacto, depois de mais de 40 anos desaparecido.

HISTÓRIA - Jáder Figueiredo Júnior (com a foto do pai): denúncias de violência contra os índios - Fonte - http://www.istoe.com.br/reportagens/294080_A+VERDADE+SOBRE+A+TORTURA+DOS+INDIOS
HISTÓRIA – Jáder Figueiredo Júnior (com a foto do pai): denúncias de violência contra os índios – Fonte – http://www.istoe.com.br

“Eu tinha certeza de que ele tinha sido queimado. Diziam na época que tinha sido proposital”, lembra o advogado, que reclama de o trabalho do pai ter sido escondido e ignorado na história do país, perpetrando as injustiças constatadas. “Era uma voz solitária na ditadura, contra o AI-5 e contra um regime que censurava a imprensa”, diz.

O vice-presidente do Tortura Nunca Mais de São Paulo e coordenador do projeto Armazém Memória, Marcelo Zelic, um dos principais atores na recuperação do material, concorda: “Jader de Figueiredo foi uma figura republicana superinteressante, apagada injustamente da história”.

Em 1977, uma comissão parlamentar de inquérito foi aberta na Câmara para investigar violações de direitos humanos dos índios. No ano anterior, o procurador que produziu o relatório morreu em acidente de ônibus, aos 53 anos. Perguntado se a morte do pai pode ter sido provocada por opositores, o filho considera: “Eu nunca tinha pensado nisso, eu tinha 14 anos incompletos na época. Pode ser. Meu pai morreu em um acidente que nunca foi esclarecido”.

mi_582694457277585 - Cópia

Jader Figueiredo Júnior relembra o transtorno que a divulgação do relatório trouxe à família e diz que seu pai chegou a ser ameaçado de morte. “Ele sofreu atentados, foi perseguido por pistoleiros durante a investigação. Nossa família vivia sob segurança da Polícia Federal”, relembra. Ele destaca que o pai não era uma pessoa vaidosa e não gostava de aparecer. “Ele se indignava de pensar que seu trabalho podia ficar no ‘dito pelo não dito’. Viu muita injustiça, muita crueldade. E morreu na esperança de seu trabalho aparecer de novo, de algum jeito. Onde ele estiver agora, estará feliz”, acredita o filho.

“Nos Estados Unidos foi um massacre, aqui foi genocídio”

Jader Júnior relata uma passagem que o pai costumava contar em casa, sobre uma índia que foi morta e cortada ao meio em público. Segundo ele, quando o procurador chegou à aldeia, encontrou a mulher amarrada entre duas estacas pelos pés, de cabeça para baixo, partida longitudinalmente ao meio por piques de facão.

“O brasileiro costuma assistir a filmes de Hollywood onde caubóis matam índios e acha bonito. O que o americano fez com os índios foi brincadeira em relação ao que foi feito aqui. Lá foi uma matança, aqui foi genocídio. Uma coisa nazista, hitlerista. E o brasileiro não tem consciência disso. Isso é uma coisa que o mundo precisa saber”, revolta-se o filho.

mi_582694457277585

A perplexidade do pai está indelével no relatório recuperado: “Os criminosos continuam impunes, tanto que o presidente dessa comissão viu um dos asseclas desse hediondo crime (assassínio de Cintas Largas, no Mato Grosso) sossegadamente vendendo picolé a crianças em uma esquina de Cuiabá (MT)”.

Catalogação

Marcelo Zelic expressou grande alegria pela descoberta do documento. “Eu o achei inteirinho”, exclama o pesquisador, que percebeu que os papeis ilegíveis eram o famoso Relatório Figueiredo, que ficou batizado com o nome do procurador.

Ele descreve que foi chamado ao Museu do Índio em agosto do ano passado para analisar documentação que estava em posse da entidade desde 2008 e havia sido catalogada em 2010. Das 62 páginas finais entregues ao ministro Albuquerque Lima pelo procurador Jader de Fiqueiredo, 15 estavam em estado precário de preservação. O ativista garante, porém, que os trabalhos desenvolvidos pelo Museu do Índio, Tortura Nunca Mais de São Paulo, Comissão Justiça e Paz de São Paulo, Konoinia Presença e Serviço, Associação Juízes para a Democracia e Armazém Memória, com apoio da deputada Luíza Erundina (PSB-SP), conseguiu recuperar todas elas, que estão sendo catalogadas.

20130421081326588303i

Dois dos questionamentos que o relatório pode suscitar são em relação à posse de terras – como a dos índios kadieus, em Mato Grosso – e a acusados de crimes não apurados. Em uma das páginas entregues a Albuquerque Lima, por exemplo, quatro nomes são citados como responsáveis por diversos crimes. São eles: Abílio Aristimunho, Acir Barros, Airton de França e Alan Kardec Martins Pedrosa.

Filho de procurador diz que pai é personagem esquecido da história

“Meu pai, hoje, é um personagem convenientemente esquecido da história, apesar de seu trabalho, na época, ter tido repercussão internacional”, declarou em entrevista a Agência Brasil no ano de 2012, o advogado Jader de Figueiredo Correia Junior ao falar sobre o pai.

“Meu pai foi ameaçado várias vezes. A Polícia Federal teve que garantir a segurança da minha família por todo o tempo que durou o trabalho dele. Policiais acompanhavam a mim e a minha mãe quando eu ia à escola. No caso da minha irmã, que é seis anos mais velha, os agentes permaneciam próximos à escola até o fim das aulas e a levavam de volta para casa. Por medo, minha mãe mantinha uma arma em casa”, conta Júnior, que tinha 5 anos na época.

No Brasil ainda existem tribos não contatadas, como a que mostra na foto. O que devemos fazer com eles? Matá-los? levar nossa fé? Nossos valores? Ou deixá-los em paz?
No Brasil ainda existem tribos não contatadas, como os da foto. O que devemos fazer com eles? Matá-los? Levar nossa fé? Nossos valores? Utilizá-los como atração turística? Ou  simplesmente deixá-los em paz?

“Lembro-me de algumas coisas que meu pai conversava em casa. Lembro-me de ele falar sobre a matança de índios, de cenas que ele descrevia. Era tudo muito brutal. Ele falava sobre o genocídio de aldeias inteiras. Meu pai contava ter chegado a aldeias e encontrado toda uma comunidade morta por envenenamento, pelo contato (com os não índios) ou por outros meios. Lembro de ele contar que em uma aldeia o grupo encontrou uma índia amarrada a duas árvores pelos pés, de cabeça para baixo e cortada a facão”, conta o advogado, garantindo que, por questão de segurança, seu pai não guardava cópias dos documentos em casa.

Uma das páginas do relatório recuperadas no Museu do Índio, assinada por Jader de Figueiredo Correia (Foto: Museu do Índio)
Uma das páginas do relatório recuperadas no
Museu do Índio, assinada por Jader Figueiredo
Correia (Foto: Museu do Índio) – Fonte – G1

Suplícios

O contexto desenvolvimentista da época e o ímpeto por um Brasil moderno encontravam entraves nas aldeias. O documento relata que índios eram tratados como animais e sem a menor compaixão. “É espantoso que existe na estrutura administrativa do país repartição que haja descido a tão baixos padrões de decência. E que haja funcionários públicos cuja bestialidade tenha atingido tais requintes de perversidade. Venderam-se crianças indefesas para servir aos instintos de indivíduos desumanos. Torturas contra crianças e adultos em monstruosos e lentos suplícios”, lamentava Figueiredo. Em outro trecho contundente, o relatório cita chacinas no Maranhão, em que “fazendeiros liquidaram toda uma nação”. Uma CPI chegou a ser instaurada em 1968, mas o país jamais julgou os algozes que ceifaram tribos inteiras e culturas milenares.

Fontes – http://www.istoe.com.br/reportagens/294080_A+VERDADE+SOBRE+A+TORTURA+DOS+INDIOS

http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2013/04/19/interna_politica,373440/documento-que-registra-exterminio-de-indios-e-resgatado-apos-decadas-desaparecido.shtml#.UXLaF7Vx4h0.facebook

P.S. – Como o leitor de uma revista comentou, certamente os fatos narrados neste relatório devem ter ocorrido. Muitos comentarão que o móvel destas denuncias não é desejo de justiça, mas sim instrumentalizar a miséria alheia para adquirir poder. Para outros remexer nestes papeis é trazer de volta velhos fantasmas que nada trazem de bom para o momento atual do Brasil.

Pessoalmente reconheço a gravidade do relatório, melhor seria se o governo tivesse encarado o problema de frente na época e buscado alguma solução. Mas a velha prática do Estado brasileiro de esconder a nossa documentação histórica embaixo do tapete é que gera a triste situação das gerações atuais terem de conhecer estes acontecimentos desta maneira.

CONHEÇA SASHA SIEMEL

Sasha Siemel e uma de suas vítimas
Sasha Siemel e uma de suas vítimas

TALVEZ ELE TENHA SIDO A PRIMEIRA PESSOA A GANHAR DINHEIRO COM TURISMO NAS SELVAS DO BRASIL, MAS DE UMA MANEIRA TOTALMENTE SANGUINÁRIA

 Autor – Rostand Medeiros

Existem algumas figuras que passam por este mundo de meu Deus e não deixam história nenhuma. Já outras deixam mais do que histórias, viram lendas. É o caso de Alexander “Sasha” Siemel, conhecido como o maior caçador de onças que já existiu e que ganhou muito dinheiro trazendo gringos abastados para matar estes animais na região do Pantanal.

Conta-se que ele caçou com sucesso nas selvas de Mato Grosso, mais de 300 destes que são considerados os maiores felinos do hemisfério ocidental e o terceiro em tamanho no mundo.

Sasha Siemel nasceu em Riga, capital da atual Letônia em 1899, quando o seu país ainda era parte do Império Russo. Migrou em 1907 para os Estados Unidos, onde permaneceu apenas dois anos. Depois seguiu para a Argentina, onde foi empregado em uma loja de impressão em Buenos Aires e no ano de 1914 ele chega ao Brasil.

A direita na foto vemos Sasha com uma zagaia na mão, junto com um cliente e o resultado do seu trabalho - Fonte - http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf
A direita na foto vemos Sasha com uma zagaia na mão, junto com um cliente, o resultado do seu trabalho e a tradicional pose de caçador – Fonte – http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

Não sei como aconteceu, mas Sasha trabalhou como armeiro e mecânico em campos de mineração de diamantes no Mato Grosso. Consta que na região pantaneira ele se encantou com a natureza viva e praticamente intocada. Ali conheceu um nativo que lhe ensinou a se tornar um caçador tradicional de onças, daqueles que mata o bicho armado apenas com a famosa zagaia, uma lança com dois metros de comprimento ou mais. Consta que foi no ano de 1925 que ele matou seu primeiro felino.

Logo as habilidades do caçador louro, de sotaque estrangeiro e olhos claros foi reconhecida no Pantanal. Siemel trabalhou contratado por fazendeiros na função de matar onças para proteger os rebanhos de gado. A informação que um europeu matava onças nas impenetráveis e misteriosas selvas brasileiras também chegaram aos ouvidos do chamado “mundo civilizado”.

Em 1931 foi lançado um livro intitulado “O Inferno Verde”, escrito por Julian Duguid, que juntamente com dois amigos aventureiros empregaram Siemel como guia em uma viagem pelo Pantanal no ano de 1929. Na obra são detalhados os acontecimentos e Siemel é apelidado como “Tiger Man”.

O caçador de onças estrangeiro, que não era besta de forma alguma, logo incentivou o maravilhado Duguid a realizar  várias palestras sobre a sua viagem em clubes de exploradores existentes em todo o mundo, preferencialmente levando o guia e caçador de onças junto.

Em uma época muito anterior aos fantásticos documentários do Discovery Channel, da National Geografic e do Animal Planet. Estas palestras faziam o público perder o folego e o caçador Sasha Siemel conseguiu obter novos e fascinados clientes para conhecer o nosso Pantanal.

Barco utilizado em uma das expedições - Fonte - http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf
Barco utilizado em uma das expedições – Fonte – http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

Em 1937, enquanto participava de uma palestra na Filadélfia, Siemel conheceu Edith Bray, uma jovem fotógrafa que mais tarde se juntou a ele no Pantanal. Três anos depois, com a idade de 47 anos, casou-se com Edith e os dois permaneceram no Pantanal enquanto nasciam seus filhos. Os Siemels viviam numa casa flutuante as margens do Rio Miranda, junto com seus cães de caça e outros bichos.

Sasha Siemel, Edith e seus filhos mudaram-se para o sudeste da Pensilvânia em 1947 e comparam uma propriedade rural que foi batizada de “Bom Retiro”, em português mesmo. Consta que neste mesmo ano foi editado e comercializado um filme chamado “The Jungle Family”, que rodou o mundo. Além de mostrar Sasha e sua família no “inferno verde” do nosso Pantanal, uma das cenas mostra Sasha armado apenas com uma zagaia, em luta de contra uma onça.

Sasha Siemel levava uma vida tranquila, onde se dividia entre palestras e caríssimas expedições à América do Sul. Ele falava seis línguas: letão, russo, alemão, inglês, espanhol e português.

Vai que de repente o cliente poderia se cansar de matar onças, poderia variar matando uma "cobrinha" como a que aparece na foto - Fonte - http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf
Vai que de repente o cliente poderia se cansar de matar onças, então era possível variar matando uma “cobrinha” como a que aparece na foto – Fonte – http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

Não se pode negar que Siemel era um homem de visão e sabia utilizar os holofotes em seu favor e a favor do seu negócio. Ele lançou quatro livros sobre suas aventuras, um deles em coautoria com a esposa. Participou de séries cinematográficas sobre as caçadas de onças pantaneiras, esteve atuando em um filme no ano de 1946 e montou em  Perkiomenville, Pensilvânia, um museu. Em um antigo moinho, Siemel mostrava aos visitantes sua coleção de troféus de caça, obras de arte, curiosidades, minerais, conchas, moedas, armas, utensílios indígenas, equipamentos utilizados na caça e captura de onças e muitos outros itens.

Outra situação verdadeiramente interessante era que durante as viagens pelo Pantanal, o arrojado Sasha poderia providenciar para que seus clientes tivessem a sua aventura filmada. Evidentemente que o pacote ficava bem mais caro.

O museu fechou em 1969, após a última viagem de Siemel ao Pantanal, no qual ele guiou um grupo de geólogos pela região. O aventureiro morreu em Montgomery County, Pensilvânia, em 1970, com a idade de 80 anos.

Fonte - www.outdoorlife.com
Fonte – http://www.outdoorlife.com

Provavelmente o letão Aleksandrs Ziemelis, este era o verdadeiro nome de Sasha, foi a primeira pessoa a ganhar grana, dólares, atuando turisticamente junto a exuberante natureza brasileira. Ele seria então o primeiro empreendedor do turismo aventureiro em terras Tupiniquins?

Realmente eu não sei.

Mas sei que evidentemente a sua forma de fazer turismo era manchada de muito sangue dos nossos mais nobres animais e, por mais gente boa que ele fosse, certamente os nativos que o ajudavam deviam receber a menor fatia do bolo.

Mesmo com a caça de onças proibida por lei federal desde 1967, esta forma de turismo ainda ocorre clandestinamente no Pantanal e isso se deve em grande parte a volta das onças.

Até o início da década de 1990 era preciso muita sorte e paciência de ermitão para ver uma onça na região. Mesmo nas áreas mais distantes, era necessário muito tempo para encontrar uma pegada do felino. Atualmente é muito fácil ver estes animais nas margens dos rios e inclusive o número de pessoas atacadas por onças voltou a subir. Outra ideia aponta que muitas áreas do Pantanal, anteriormente utilizadas para a criação de gado, tornaram-se inacessíveis e foram abandonadas. A ausência do homem teria permitido que as onças se multiplicassem.

Fonte - olhares.uol.com.br
Fonte – olhares.uol.com.br

Conhecida como onça-pintada, Jaguar ou Jaguará  (Panthera onca), é um animal do gênero Panthera, membro da família dos felinos, mamífero da ordem dos carnívoros. A onça é ágil, arisca, paciente, silenciosa, veloz e muito feroz. Sobe em árvores com facilidade e atravessa rios a nado, pois é excelente nadadora. Sabe agitar a sua cauda sobre a superfície dos rios para atrair os peixes, que ela pesca com uma patada. Possui hábitos diurnos ou noturnos, mais para caçar prefere a escuridão da noite. Satisfaz seu apetite alimentando-se com um cardápio variado que inclui antas, peixes, capivaras, jacarés, jiboias, serpentes, veados e outros mamíferos de pequeno porte.

Enquanto alguns dos grandes felinos atacam diretamente no pescoço, as onças, graças as suas mandíbulas poderosas, atacam principalmente nas cervicais. Esses felinos podem frequentemente matar mordendo diretamente o crânio, de um jeito um tanto incomum, sendo o único da sua espécie a realizar esta ação. Tem uma mordida excepcional e poderosa mesmo em relação aos outros grandes felinos, isso permite que ele fure a casca dura de uma tartaruga.

Sasha e um bom dia de caça - Fonte - eloir-mario.blogspot.com
Sasha e um ótimo dia de caça – Fonte – eloir-mario.blogspot.com

A gestação das onças fêmeas dura em média 95 a 110 dias e elas podem dar a luz a uma ninhada de até quatro filhotes. Os pequenos felinos nascem completamente cegos e passam a enxergar com duas semanas de vida. A fêmea da onça normalmente só cria dois filhotes, permanecendo junto a eles por até dois anos. Enquanto as fêmeas alcançam a maturidade sexual aos dois anos, os machos atingem a maturidade em torno dos três anos e pelas pesquisas em cativeiro as onças podem viver até 20 anos. Já o acasalamento ocorre em qualquer época do ano.

As onças são animais que se deslocam sempre com a cabeça baixa e as manchas do seu corpo são uma perfeita camuflagem. A coloração é a mesma tanto para os machos como para fêmeas, mais ocorrem variação de indivíduos. São de coloração amarelo avermelhadas, com manchas pretas meio redondas que se distribuem simetricamente pelo corpo.

Fisicamente esses felinos manchados se assemelham aos leopardos, embora a onça seja mais resistente e maior, além da sua cabeça ser proporcionalmente maior em relação ao corpo. Um exemplar adulto pode alcançar até 2,60 metros de comprimento, chegando a pesar em torno de 115 kg, embora em média os machos pesem 90 kg e as fêmeas 75 kg.

Fonte - lojaplus.blogspot.com
Fonte – lojaplus.blogspot.com

Infelizmente com o retorno do grande felino e o contato com os humanos e seus animais de criação, voltam os problemas. Pessoas tem sido mortas no Pantanal, no Paraná e onças tem atacado o gado em cidades do interior. Até nos vizinhos estados da Paraíba e do Ceará, problemas com felinos selvagens estão acontecendo. Em 2012, na cidade paraibana de Bonito de Santa Fé , algumas suçuaranas, uma parente menor da onça pintada, atacaram animais de criação. No Ceará notícias informam que em uma localidade a 337 km de Fortaleza, um agricultor foi atacado e quase morto por um destes animais.

Na Argentina eles tentam manter o número de onças pintadas e suçuaranas controlados através da prática da caça legalizada, fiscalizada e paga. Lá, para se matar uma onça pintada deve-se desembolsar mais de R$ 4.000,00 reais.

Talvez eu não seja a melhor pessoa para comentar sobre estes animais. Vale frisar que a única onça que vi na vida era um exemplar deste belo animal que ficava confinado em uma minuscula jaula na entrada da casa noturna “Royal Salute”, que ficava no subsolo do extinto Grande Hotel, na Praia do Meio, lá na metade da década de 1980. Por razões obvias, se estivesse no meio do mato e me deparasse com uma pintada faminta, preferia que ela estivesse mortinha da silva, ou então eu seria o almoço do felino.

Não sei se aqui no Brasil a caça controlada daria certo, mas algo deve ser feito para se evitar novas mortes de humanos e a extinção destes animais. Mas evidentemente nunca mais da forma como Sasha Siemel realizava.

Fontes-http://cefaprocaceres.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=575&Itemid=76

http://veja.abril.com.br/200900/p_096.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Sasha_Siemel

http://eloir-mario.blogspot.com.br/2011/08/um-pouco-de-sasha-siemel.html

http://www.animatronic.com.br/2007/sasha-siemel-o-cacador-de-oncas/

http://penn.museum/documents/publications/expedition/PDFs/51-3/from%20the%20archives.pdf

EKRANOPLANO: UM AVIÃO? UM BARCO? UMA ABERRAÇÃO?

Um ekranoplano na cidade de Makhachkala, no Daguestão, na Federação Russa.
Um ekranoplano na cidade de Makhachkala, no Daguestão, na Federação Russa.

Mas enfim o que é um?

À primeira vista parece um engenho saído do mundo da realidade virtual e dos videogames, misto de barco, avião e hovercraft, ou o resultado da imaginação delirante de algum artista gráfico. Não é um avião, não é um barco, nem é um veículo terrestre; também não é um hovercraft, apesar de apresentar certas semelhanças. 

O próprio nome é estranho: Ekranoplano é uma palavra composta a partir da expressão russa ecranniy que significa à letra “Efeito Solo” e refere-se a um veículo capaz de deslocar-se – e bem depressa – graças a esse efeito. Que espantosa máquina é esta, afinal, que parece saída de um filme de ficção científica ou de um moderno jogo de computador? 

ekranoplano_abandonado_02

Desde 1920, os primeiros pilotos começaram a perceber que, à medida que os aviões se aproximavam das pistas no pouso, os aviões tinham uma maior sustentação, este fenômeno é conhecido como “Efeito Solo”. Foi o matemático holandês Daniel Bernoulli quem estabeleceu a equação matemática que explica o principio que hoje tem o seu nome e apresentou os resultados em sua obra Hidrodinâmica (1738), sendo deste princípio que surge a ideia do Efeito Solo. 

Ao aprofundar suas observações os primeiros aviadores notaram que a utilização prática do Efeito Solo antevia a possibilidade de conceber um veículo que se deslocasse próximo ao chão, sem a necessidade de construir qualquer estrada ou via. Além de que o baixo atrito permitiria atingir grandes velocidades. A superfície de deslizamento ideal seria a água, uma vez que é completamente lisa e isenta de obstáculos. Físicos e curiosos construíram alguns protótipos com base nessa descoberta. Após o fim da Segunda Guerra Mundial esta a ideia praticamente abandonada. 

alekseiv_lun_01

Alexeev Rostislav Evgenievich era um engenheiro naval russo, que ao estudar o Efeito Solo, projetou uma máquina que usufruísse desse efeito e criou o ekranoplano, com a grande vantagem de ser veloz e poderoso em relação à capacidade de carga e alcance. Mas Rostislav percebeu que se o aparelho se elevasse demais, perderia sustentação e fatalmente cairia. 

Apesar disso, o governo soviético ficou impressionado com a ideia e até 1992 ela foi testada e recebeu apoio, inclusive com a construção de três exemplares. Os modelos construídos possuíam motores a jato, ou turboélice. Na maioria dos casos alguns modelos utilizaram os dois tipos de motores, e em grande quantidade. 

KM, o Monstro do Mar Cáspio
KM, o Monstro do Mar Cáspio

Um ekranoplano importante foi chamado o “Monstro do Mar Cáspio”. Designado como KM, tinha incríveis 100 metros de comprimento e 540 toneladas de peso máximo. Nada menos que 10 motores lhe davam a força necessária para ele se manter a uma altura de no máximo três metros de altura. Se subisse acima disso, poderia perder a sustentação e cair no mar. Voava em média a 30 cm de altura, enfrentando ondas de até cinco metros. Foi perdido em um acidente, onde se estatelou contra a água. Ao invés de descer o aparelho para ganhar sustentação, o piloto subiu, provavelmente pensando que estava em um avião comum. Tentaram resgatar o aparelho do fundo das águas, mas sua tonelagem impediu tal fato. 

Não podemos esquecer que se estava em plena Guerra Fria e, mesmo com o acidente, o governo soviético da altura viu com bons olhos o desenvolvimento de um veículo militar veloz com possibilidade de baixa de ser detectado pelo radar e com capacidade de despejar uma grande quantidade de soldados e equipamentos em alguma praia. O projeto, denominado KM, ficou concluído em 1966. Foi o primeiro e maior veículo de efeito de solo alguma vez construído. Os testes decorreram nas águas do Mar Cáspio sob o maior segredo. Das cem unidades previstas inicialmente, apenas foram construídas cerca de vinte deste aparelho. 

Orlyonok A-90
Orlyonok A-90

O A-90 Orlyonok foi desenvolvido na década de 60 e fez seu primeiro voo em 1972. Foi transferido para o Mar Cáspio, na Rússia, onde se acidentou em 1975. Seu projeto fez os russos conhecerem melhor o veículo, assim como provou que novos materiais de fabricação deveriam ser utilizados. Era um anfíbio, pois decolava da água e era equipado com duas rodas. Possuía apenas 58 metros de comprimento e pesava cerca de 140 toneladas. No entanto, dois reatores e um motor a hélice levavam-no a ultrapassar os 400 Km/hora a uma altitude de 5 a 10 metros. Estas características davam-lhe também a possibilidade de operar sobre terra, o que devia ser verdadeiramente impressionante! 

Outro modelo também ganhou destaque, pois era impulsionado por oito motores a jato, com quatro em cada lado. Por ser um projeto militar, tinha seis lançadores de mísseis em cima de sua fuselagem. Seu nome de batismo é Lun-Class, com designação MD-160. Informações sobre ele são difíceis, mas existem boatos que falam que seu serviço ativo terminou em 1999. 

09070802_blog.uncovering.org_ekranoplano

Os projetos foram congelados após a Guerra Fria e o fim da União das Republicas Socialistas Soviéticas- URSS.

Um dos modelos de ekranoplano se encontra colocado em uma grande rampa, as margens do mar Cáspio, na cidade de Makhachkala, no Daguestão, na Federação Russa.

32480715

Nota Final – Apesar de antigo, o Efeito Solo ficou muito conhecido nos carros de Formula 1. Em 1978 os projetistas da equipe LOTUS, cujo o chefe era o gênio inglês Colin Chapman, aplicaram o Princípio de Bernoulli na modelagem aerodinâmica dos carros de corrida. A ideia era criar uma zona de baixa pressão embaixo do veículo para cravá-lo no chão com o mínimo de arrasto.  Os aerofólios e laterais dos bólidos produziam uma menor velocidade do ar sobre a asa em relação à parte de baixo, o que provoca mais pressão em cima do que embaixo dela, deixando o carro grudado ao solo. O efeito aumentou consideravelmente a velocidade, ao mesmo tempo em que acrescentou uma gigantesca dose de perigo às corridas.

O mítico carro negro da LOTUS
O mítico carro negro da LOTUS

O Efeito Solo é neste momento mais abrangente do que possa imaginar: carros do dia a dia, discos, aviões (forma da asa), carburadores dos motores (onde a pressão do ar que passa através do corpo do carburador, diminui quando passa por um estrangulamento. Ao diminuir a pressão, a gasolina flui, se vaporiza e se mistura com a corrente de ar), até mesmo nos discos magnéticos que povoam os nossos computadores. Pois permite que as cabeças de gravação e leitura possam flutuar em cima da superfície do disco sem lhe tocar e sem o danificar. 

Fontes – http://obviousmag.org/archives/2009/07/ekranoplanos.html

http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=10855

http://canalpiloto.com.br/ekranoplano-uma-aberracao-ou-invencao/

DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER

DSCF5271

Entrevista com o Prof. Moacyr de Góes

P – O que foi, em poucas palavras, o movimento DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER?

M – Foi um Movimento de Educação Popular que, tendo nascido no âmbito dos Comitês Nacionalistas, quando das eleições de 1960 para Prefeitos de Natal (RN), veio a se desenvolver na Secretaria Municipal de Educação durante a administração Djalma Maranhão. A sua principal especificidade é justamente esta: um movimento popular que opera dentro de um aparelho de Estado. Daí a fase de 1960-64 ter significado um fortalecimento da Escola Pública Municipal em Natal. Inicialmente programado para ser uma campanha de erradicação do analfabetismo, DE PÉ NO CHÃO extrapolou de sua proposta inicial e se converteu numa política de cultura e educação popular na qual a sociedade organizada é o seu principal sujeito e os administradores da Secretaria Municipal de Educação são os seus “intelectuais orgânicos”, nas tarefas de planejamento, acompanhamento e avaliação dessa mesma política.

Djalma Maranhão
Djalma Maranhão

P – Qual a clientela atendida?

M – Crianças, jovens e adultos. Implantada, principalmente, na periferia da Cidade, onde não existiam escolas, a sua clientela básica foi constituída pelas classes sociais despossuídas. Isso não significou uma exclusão de outras classes sociais, considerando a abrangência da proposta e o envolvimento da sociedade, como um todo.

P – Qual era formação dos professores?

M – O corpo técnico da Secretaria Municipal de Educação era constituído de profissionais qualificados em Escola Normal e Universidade. Considerando a falta de professores, na época, DE PÉ NO CHÃO preparou os seus próprios recursos humanos que operaram nas salas de aula. Assim, através dos Cursos de Emergência (quatro meses de duração, cinco horas de aula por dia, inclusive aos sábados) foram qualificados 500 monitores entre 1960-63. Os professores diplomados por Escola Normal foram reciclados para desempenhar as funções de supervisores. Cada Supervisor era responsável pelo desempenho de 20 monitores. Semanalmente, o Supervisor se reunia com os seus monitores e com eles discutia o processo de trabalho verificado “in loco” pelo Supervisor, quando de suas visitas às classes. Quinzenalmente, os Supervisores se reuniam com a Direção da SME, para avaliação do trabalho. Assim, este acompanhamento muito próximo se transformou na chave da qualidade pedagógica.

Local das aulas
Local das aulas

Ainda para melhor qualificação docente foi criado um Centro de Formação de Professores (responsável pelos Cursos de Emergência e implementação da política educacional, inclusive de expansão para o interior do Rio Grande do Norte), um Ginásio Normal (de quatro anos) e um Colégio Pedagógico (de sete anos).

Para a Campanha DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE UMA PROFISSÃO, os monitores eram recrutados entre profissionais e artesãos que desempenhavam os respectivos ofícios.

P – Quais os principais resultados?

M – Em três anos, uma matrícula acumulada de cerca de 40.000 alunos (lembrar que Natal, á época, contava com uma população de 160.000 habitantes). 500 profissionais qualificados para a regência de classes. índices de aprovação de 60%, 74% e 85%, respectivamente, em 1961, 62 e 63. Custo-aluno médio anual de menos de dois dólares.

Djalma Maranhão visitando o local das aulas
Djalma Maranhão visitando o local das aulas

DE PÉ NO CHÃO, numa concepção de Terceiro Mundo, isto é, contando, apenas, com os recursos de uma Prefeitura do Nordeste, respondeu a quatro desafios básicos da escola brasileira:

A- Espaço físico, Respaldado pelo movimento social organizado -os Comitês Nacionalistas – a Prefeitura, na impossibilidade de construções de alvenaria, implantou uma rede de Acampamentos Escolares isto é, contruções de grandes galpões de palha de coqueiro. O movimento não confundiu Escola com Prédio Escolar. A Escola funcionou, mesmo sem prédio escolar.

B- Pessoal. Ao qualificar o seu próprio pessoal docente e intermediar o seu trabalho com a cooperação de quadros oriundos da Academia.

C- Material didático. A partir de 1963 a SME produziu o seu próprio material docente, com isso reduzindo a alienação e aproximando a sua política educacional da realidade nordestina.

D- Acompanhamento docente. A rede de intercomunicações permanente Monitor-Diretor de Acampamento-Supervisor-Equipe Técnica do Centro de Formação de Professores assegurou a qualidade pedagógica da política educacional.

P – Como terminou o movimento?

M – Foi destruído pelo Golpe de Estado de 1964, sob a acusação de que estava comunizando o Nordeste. Igual destino tiveram o Movimento de Cultura Popular do Recife (MCP), o Método Paulo Freire, o Centro Popular de Cultura da UNE (CPC). O Movimento de Educação de Base (MEB) sobreviveu, mas perdeu as características de Movimento de Educação Popular, sua matriz ideológica.

P – Como o Sr. avalia a atual situação do Brasil e que perspectiva vê a médio prazo?

M – Para responder à pergunta teríamos que organizar um Curso, não é? Mas, respondendo, apenas, pelo óbvio. A situação é de uma grave crise. Para ficar só na nossa área, é visível a proposta de sucateamento da educação pública. A educação virou “Marketing” político. Não há seriedade – e, conseqüentemente, credibilidade – para as propostas que estão nos jornais.

A médio prazo espero uma mobilização da sociedade civil, a sua auto-crítica pelo comportamento assumido a partir da Nova República (“Nova”, hein?) e uma retomada da discussão e encaminhamento das grandes questões nacionais.

Situação como encontrei os slides originais do Projeto de Pé no Chão Também se Aprende a Ler no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte. A maioria já mofados. Espero que esta situação tenha mudado
Situação como encontrei os slides originais do Projeto de Pé no Chão Também se Aprende a Ler no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte. A maioria já mofados. Espero que esta situação tenha mudado

Caixas onde estão (?) guardados estes slides no arquivo.
Caixas onde estão (?) guardados estes slides no arquivo.

R – O que falta para a educação brasileira “dar certo”?

M – Uma vontade política, realmente, responsável.

M – Uma vontade política, realmente, responsável.

P – Que saídas o Sr. vê para a Crise educacional brasileira?

M – Aqui seria outro Curso, não é? Mas, vamos ao óbvio:

1º – Aplicar em educação 5 a 6% do PIB. 

2º – Corrigir as distorções e impedir a malversação dos dinheiros públicos na aplicação desses recursos.

3º – Aplicar os recursos públicos nas redes públicas.

4º – Gerenciar corretamente a aplicação dos recursos públicos para cumprimento de um Plano de Educação, democraticamente discutido, definido, em suas linhas gerais no plano nacional e operacionalizado ao nível descentralizado de Estados e Municípios.

5º – Acompanhamento e controle social sobre as políticas estatais.

6º – Vergonha na cara.

Rio de Janeiro, 08 de Janeiro de 1992.

Prof. Moacyr de Góis
Prof. Moacyr de Góis

Dados Biográficos

Moacyr de Góes era natalense, nascido aos 15 de agosto de 1930, Na capital potiguar, foi professor do Colégio Atheneu, assim como da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Por três vezes assumiu Secretarias de Educação: Natal (1960-64), Rio de Janeiro (1987-88) e novamente Natal (1989). Da primeira vez, na administração do Prefeito Djalma Maranhão, implantou a política de erradicação do analfabetismo, aliando a escola pública ao movimento de educação e cultura popular De Pé no Chão Também se Aprende a Ler. Em 1964, foi preso pela Polícia Federal, onde ficou por dois meses. De lá, seguiu para o 16º Batalhão de Infantaria, onde também ficou detido.  Depois que foi solto, no mesmo ano, afastou-se das funções públicas e foi embora com toda a família para a capital carioca. Virou professor da Universidade Federal do Rio  de Janeiro, onde ajudou a criar a Extensão Universitária da UFRJ (1986-87). Resistiu à Ditadura participando dos Movimentos do magistério, coordenados pela Confederação dos Professores do Brasil e integrando-se à luta de organização de partidos democráticos. Na capital carioca voltou a ser secretário Municipal de Educação, na gestão de Saturnino Braga, em 1986. Ocupou a mesma pasta em Natal, na primeira gestão da então prefeita Wilma Maria. Divide com Luiz Antônio Cunha a autoria do Livro O Golpe na Educação (6ª edição, J. Zahar, Rio de Janeiro). Morreu em casa, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, em março de 2009. 

Fonte – Paidéia (Ribeirão Preto)  no.3 Ribeirão Preto Aug./ 1992,

Via – http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-863X1992000300002&script=sci_arttext

EXALTAÇÃO AO NORDESTE

DSC00098

Eita,Nordeste da peste,
Mesmo com toda sêca
Abandono e solidão,
Talvez pouca gente perceba

DSC00180

Que teu mapa aproximado
Tem forma de coração.
E se dizem que temos pobreza
E atribuem à natureza,

DSC00139

Contra isso,eu digo não.
Na verdade temos fartura
Do petróleo ao algodão.
Isso prova que temos riqueza

DSC00092

Embaixo e em cima do chão.
Procure por aí a fora
“Cabra” que acorda antes da aurora
E da enxada lança mão.

DSC00103

Procure mulher com dez filhos
Que quando a palma não alimenta
Bebem leite de jumenta
E nenhum dá pra ladrão

DSC00109

Procure por aí a fora
Quem melhor que a gente canta,
Quem melhor que a gente dança
Xote,xaxado e baião.

DSC00182

Procure no mundo uma cidade
Com a beleza e a claridade
Do luar do meu sertão.

Autor – Luiz Gonzaga de Moura

ESPETACULAR! DÊ UMA VOLTA NA TERRA A BORDO DA ESTAÇÃO ESPACIAL

Imagine-se na janelinha da Estação Espacial Internacional. É de noite. Lá em baixo as luzes das cidades brilham, enquanto as auroras polares, coloridas, parecem dançar na frente dos seus olhos. Não é um sonho. É uma viagem fantástica!

É só clicar e ampliar. É show!

Abaixo da nave, os oceanos negros emolduram nuvens brancas e cidades iluminadas por pontos laranja. Relâmpagos e tempestades severas desfilam juntos, denunciando a chuva que cai ou se aproxima. No horizonte, a fina camada da atmosfera brilha como ouro, enquanto as auroras em tons esverdeados dançam, excitadas pelas partículas solares.

As Sequências de filmagem são :

1. Norte-sul ao longo da costa ocidental da América do Norte e do Sul.
2. Norte-sul sobre a Flórida, Bahamas e outras ilhas do Caribe.
3. Sudeste da Ásia, aproximando-se do Mar das Filipinas
4. Europa Ocidental, da França através da Itália, Grécia, Turquia e Oriente Médio.
5. Aurora Austral, sobre o Oceano Índico, aproximando-se da Austrália
6. Aurora Austral, sobre o Oceano Índico.
7. Aurora Austral, local desconhecido no hemisfério sul.

Apesar de estarem bem abaixo da altitude da nave, em alguns momentos a Estação Espacial passa por dentro das auroras mais elevadas, revelando maravilhosos tons vermelhos e púrpuros. Na busca incessante pela luz, os painéis solares giram.

Estação Espacial ISS
Estação Espacial Internacional ISS

O vídeo foi feito a partir de milhares de fotos estáticas capturadas por uma das câmeras a bordo da Estação Espacial Internacional, ISS e mostra diversas cenas noturnas do nosso planeta, visto de 420 km de altitude.

A onda luminosa e sinistra vista ao final de cada sequência é apenas o início da viagem da nave pela parte clara da Terra, uma alvorada rápida e brilhante, vista pelos astronautas a cada 90 minutos a 28 mil km/h.

A música é “Freedom Fighters”, do compositor norueguês Thomas Jacob Bergersen e do americano Nick Phoenix.

ISS_insignia.svg

Fonte – http://www.apolo11.com

O MARCO NO MORRO DO NAVIO, EM PIUM, NÍSIA FLORESTA, RIO GRANDE DO NORTE

DSC00137

Autor – Rostand Medeiros

Uma situação que pessoalmente me deixa muito feliz é encontrar, trocar ideias e fazer amizade com pessoas que gostam de história. Mas esta situação se torna mais interessante é quando encontro pessoas interessadas em também proteger o nosso patrimônio histórico, tão vilipendiado e dilapidado que faz pena.

Bem, no último mês de março recebi um e-mail de um cidadão de nome Flávio Gameleira, um dentista, que curiosamente está terminando o curso de Gestão Ambiental. Em sua mensagem ele me trazia a notícia da existência de um estranho objeto de concreto, tombado no alto de uma duna no nosso litoral sul e que poderia ter haver com a Segunda Guerra Mundial.

Ele me enviou um link de um filme postado no You Tube em janeiro último e com pouco mais de um minuto de duração. Para evitar muita escrita, vejam o material clicando no link abaixo;

http://www.youtube.com/watch?v=q0KbAVM1Ln0

Então marcamos um encontro em minha casa, onde conheci Flávio e seu amigo Keber Kennedy e juntos trocamos ideias e teorias sobre aquele artefato.

Ligação com a Guerra

Flávio Gameleira me comentou que esteve no local com seus amigos Keber Kennedy e Március Vinícius no dia 4 de janeiro de 2013. Para chegar ao local ele contratou os serviços do Guia de Turismo chamado Marcelo.  Ele me revelou que havia um marco de concreto que havia sido fincado inicialmente no alto do morro e atualmente se encontrava cerca de 50 metros abaixo do local original. O Guia Marcelo lhe relatou que pessoas da região haviam informado que havia um ano gravado no marco: 1942 ou 1943.

No marco no Morro do Navio vemos Keber Kennedy (com a cãmera), Flávio Gameleira e Március Vivícius em janeiro de 2013
No marco no Morro do Navio vemos Keber Kennedy (com a cãmera), Flávio Gameleira e Március Vinícius em janeiro de 2013

Neste encontro Flávio me afirmou que ele e seus amigos tentaram desenterrar o marco, mas aquilo era uma tarefa muito pesada para ser realizada apenas com as mãos. Ele me comentou, e eu também achei o fato intrigante, saber que em um local de dificílimo acesso existia algo como aquilo e que a maioria das pessoas de nada saiba.

Para Flávio era importante saber quem, quando e porque foi colocado aquele marco naquele local , pois poderia se tratar de um patrimônio histórico.

Morro do Navio em abril de 2013, agora completamente desenterrado
Morro do Navio em abril de 2013, agora completamente desenterrado

O marco está na duna conhecida como Morro do Navio, ou Morro Vermelho, próximo a localidade de Pium, zona rural do município de Nísia Floresta a poucos quilômetros ao sul de Natal. Em meio a uma zona litorânea com ausência significativa de elevações naturais, este acidente geográfico se destaca na paisagem por possuir cerca de 350 metros de altitude. Ele é um pouco mais elevado que o famoso Morro do Careca, na Praia de Ponta Negra, este com uma altitude próxima de 340 metros.

Mas além da altitude o Morro do Navio é extremamente interessante para quem estuda a Segunda Guerra Mundial pela sua localização.

E como se encontrava em janeiro de 2013
E como se encontrava em janeiro de 2013

O morro fica exatamente entre o Aeroporto Internacional Augusto Severo/Base Aérea de Natal e o litoral. Evidentemente que durante a guerra muitos dos aviadores aliados que decolavam do movimentado Parnamirim Field tiveram oportunidade de ver este morro de suas aeronaves. Mas o Morro do Navio também é um ponto de localização muito visível para qualquer hidroavião que levantasse voo a partir da Lagoa do Bonfim.

Mas a questão era saber o porquê daquele objeto está ali no Morro do Navio?

Indicações

Para Flávio Gameleira uma das indicações estava no livro “Cartas da Praia”, do escritor potiguar Hélio Galvão.

Nesta obra o autor aponta que alguns morros mais altos na região de Tibau do Sul possuíam bases de concreto que eram utilizadas por geógrafos militares para comunicação com a utilização de espelhos, transmitindo sinais entre eles e chegando até a torre da igreja de São José de Mipibu.

Se este fato existiu realmente, este sistema de comunicação só poderia ser a conhecida heliografia e o dispositivo utilizado para enviar mensagens ópticas com a ajuda de luz solar era um heliógrafo.

A utilização da heliografia remonta à antiguidade, em que inúmeras culturas utilizavam a luz solar refletidas em materiais apropriados para enviar mensagens ou sinais através de distâncias consideráveis, além de inúmeras outras funções. Já o dispositivo de emissão de sinais consiste de um objeto brilhante montado sobre um suporte. Para usá-lo, o objeto pode ser girado ou fechado a fim de criar uma série de explosões de luz que podem ser lidas por um observador. Essas transmissões eram comumente feitas em código Morse, que utiliza uma série de transmissões longas e curtas para repassar informações.

Seria então o tal marco, quando se encontrava no alto do Morro do Navio, utilizado para a transmissão de informações através de um heliógrafo? Ou teria outra utilidade?

Em meio a estas conjecturas, na mesma semana que me encontrei com o Flávio, me encontro casualmente com o jornalista Luiz Gonzaga Cortez na mais importante casa da memória potiguar, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Neste momento me recordei que Gonzaga Cortez estava realizando uma pesquisa sobre antigos marcos de memória relativos a Segunda Guerra Mundial e decidi lhe relatar o fato.

Morro do Navio ou Morro Vermelho
Morro do Navio ou Morro Vermelho

Ele gostou da informação de Flávio e propôs realizarmos uma visita ao Morro do Navio.

Na hora confesso que fiquei muito surpreso, pois aqui em Natal é difícil as pessoas que trabalham com assuntos históricos realizarem pesquisas em conjunto. Além do mais sempre tive um extremo respeito pelo trabalho de Cortez. Lembro-me que ainda garoto, em 1985, por ocasião do cinquenta anos da Intentona Comunista, o jornal O Poti, edição dominical do periódico Diário de Natal, publicou uma série de reportagens assinadas por Cortez sobre este tema. Depois ele reuniu este material e publicou o livro ”A Revolta Comunista de 35 em Natal”, do qual fui ao lançamento e tenho uma edição autografada do autor.

DSC00114

No domingo (07/04/2013) seguimos para o morro. Junto com o autor deste artigo e Gonzaga Cortez, seguiram seu filho Cleando e seu neto. Flávio Gameleira foi contatado, convidado, mas não pode ir.

Visitando o Local

Ao chegarmos no local tivemos que deixar o carro a cerca de dois quilômetros de distância pela possibilidade do mesmo atolar na areia fofa. O problema é que chegamos tarde e nossa caminhada começou depois das onze da manhã, de um dia plenamente ensolarado e sem nenhuma nuvem no céu.

Neste ponto da trilha, a diferença no solo poderia indicar utilização de um trator para abrir este caminho em tempos passados?
Neste ponto da trilha, a diferença no solo poderia indicar utilização de um trator para abrir este caminho em tempos passados?

A trilha é larga, com muitas marcas de passagens de veículos tipo 4×4. Percebi que em alguns pontos parecia que aquele caminho havia sido aberto por um trator equipado com uma lâmina de terraplanagem.

Finalmente chegamos ao marco.

Primeiramente fomos surpreendidos diante do fato da peça em questão está totalmente desenterrada em relação ao vídeo realizado por Flávio Gameleira em janeiro último. Também vimos na área muitas e muitas marcas de pneus de veículos tracionados.

O marco totalmente desenterrado
O marco totalmente desenterrado

Mais interessante era que comparando com o vídeo, o marco parecia ter sido movido. Só não sabíamos para que e por quem?

Em relação ao marco propriamente dito, este possui um orifício na ponta, tem em torno de 1,50 m, sendo 40 centímetros só na base. Em uma de suas laterais encontram-se as inscrições  “1942”, “S.G.H.E.” e “45”.

Certamente aquele era um marco histórico relacionado com alguma missão militar realizada na década de 1940, provavelmente destinado a utilização na heliografia, ou com a área de levantamento geográfico e cartográfico do Serviço Geográfico do Exército.

Algumas marcas estranhas no marco
Algumas marcas estranhas no marco parecendo que ele havia sido amarrado por algum cabo e acabou deixando marcas de soltura no início da peça e na lateral

Como na área de pesquisa histórica ninguém faz nada sozinho, busquei ajuda de um historiador militar, possuidor de um enorme e sólido conhecimento nesta área e que não nega ajuda a quem lhe busca informações.

Na foto um marco geodésico impkantado na década de 1930, localizado na Trilha do Travessão, na Serra do Cipó, em Minas Gerais. Apontando que que o marco do Morro do navio deve ter possuído uma destas peças informativas de bronze, que se encaixavam no orifício que agora está vazio. isso mostra que o vandalismo contra este marco histórico é bem antigo
Na foto um marco geodésico localizado na Trilha do Travessão, na Serra do Cipó, em Minas Gerais. Apontando que o marco do Morro do Navio deve ter possuído uma destas peças informativas de bronze, que se encaixavam no orifício que agora está vazio. Isso mostra que o vandalismo contra este marco histórico é bem antigo – Fonte – http://www.clubedosaventureiros.com

Ao responder nossa consulta ele acredita que provavelmente este marco foi colocado há mais de 70 anos pelo Serviço Geográfico do Exército (SGEx). Em sua opinião este material está ligada a missão de um grupo de cartógrafos/topógrafos militares que realizou o levantamento de parte do litoral nordestino (de Pernambuco ao Ceará, incluindo o arquipélago de Fernando de Noronha), mediante a necessidade de operações de guerra que iriam se desenvolver naquela região.

Djalma Polly Coelho, que comandou o trabalho topográfico no litoral nordestino em 1941. Nasceu em 17 Outubro de 1892, em Curitiba, Paraná, sentou praça em 1911 e chegou a Aspirante Oficial em 1914. Chegou ao generalato em 1946. Foi Diretor do Serviço Geográfico Militar, posteriormente Serviço Geográfico do Exército e promoveu a criação do Curso de Topografia da Escola Técnica do Exército, hoje Instituto Militar de Engenharia. Foi Presidente da Comissão para a localização da nova Capital do Brasil (1946 a 1948) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Faleceu em 18 Out 1954 na cidade do Rio de Janeiro - Fonte - http://portal.dgp.eb.mil.br/
Djalma Polly Coelho – Fonte – http://portal.dgp.eb.mil.br/

Para cumprir tal missão foi organizado, em meados de 1941, o Destacamento Especial do Nordeste (DEN), chefiado pelo então Tenente Coronel Djalma Polly Coelho, contando com um número superior a trinta oficiais engenheiros e sargentos topógrafos.

O Serviço Geográfico mobilizou o curso de geodesia da Escola Técnica do Exército (atualmente Instituto Militar de Engenharia, IME), convocando seus oficiais e alunos, juntos com os da 1ª Divisão de Levantamento, para inclusão no Destacamento, assim como seis primeiros-tenentes da reserva e engenheiros civis possuidores do curso complementar da Escola de Engenheiros Geógrafos Militares.

Na foto vemos um C-47 Dakota em Parnamirim Field. Certamente este marco ajudou na construção desta grande base aérea
Na foto vemos em destaque um bimotor de transporte C-47 Dakota, em Parnamirim Field. Certamente este marco ajudou na construção desta grande base aérea

Entre estes levantamentos estava a da região onde seria construída a Base Aérea de Natal. O fato do marco estar num ponto dominante serve justamente para a realização deste tipo de trabalho com base no movimento dos astros.

DSC00144

Possivelmente a equipe que colocou o marco veio de Recife. Ainda segundo este nosso amigo historiador, é possível que na 3ª Divisão de Levantamento, com sede na capital pernambucana, ainda existam as coordenadas desse marco em algum documento antigo.

Protegidos Por Lei Federal…

Esses materiais são protegidos pelo DECRETO-LEI N° 243, DE 28 DE FEVEREIRO DE 1967, que fixa as diretrizes e bases da cartografia brasileira.

É interessante a leitura de um dos seus artigos:

CAPÍTULO VII

Dos Marcos, Pilares e Sinais Geodésicos

Art. 13 – Os marcos, pilares e sinais geodésicos são considerados obras públicas, podendo ser desapropriadas, como de utilidade pública, nas áreas adjacentes necessárias à sua proteção.

§ 1º – Os marcos, pilares e sinais conterão obrigatoriamente a indicação do órgão responsável pela sua implantação, seguida da advertência: “Protegido por lei” (Código Penal e demais leis civis de proteção aos bens do patrimônio público). .

§ 2° – Qualquer nova edificação, obra ou arborização, que, a critério do órgão cartográfico responsável, possa prejudicar a utilização de marco, pilar ou sinal geodésico, só poderá ser autorizada após prévia audiência desse órgão.

§ 3° – Quando não efetivada a desapropriação, o proprietário da terra será obrigatoriamente notificado, pelo órgão responsável, da materialização e sinalização do ponto geodésico, das obrigações que a lei estabelece para sua preservação e das restrições necessárias a assegurar sua utilização.

§ 4° – A notificação será averbada gratuitamente, no Registro de Imóveis competente, por iniciativa do órgão responsável.

Art. 14 – Os operadores de campo dos órgãos públicos e das empresas oficialmente autorizadas, quando no exercício de suas funções técnicas, atendidas as restrições atinentes ao direito de propriedade e a segurança nacional, têm livre acesso às propriedades públicas e particulares.

DSC00148
Ou seja, este tipo de material é protegido por LEI FEDERAL e isso implica em problemas com o Ministério Público Federal, através da Procuradoria da República no Rio Grande do Norte.

Bem, o objeto no alto do Morro do Navio aparenta ter sido um dos marcos iniciais de construção de uma das maiores bases aéreas fora dos Estados Unidos em toda a Segunda Guerra Mundial e a importância de Natal e Parnamirim Field foi tremenda para a vitória Aliada, onde seus símbolos deveriam ser motivo de preservação e proteção do Estado, ao abrigo da ação de pessoas despreparadas.

Na busca de maiores informações busquei um contato pela manhã sobre este objeto com o amigo Edgard Ramalho Dantas. Este é geólogo, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me comentou que a importância histórica da Base de Parnamirim não está apenas em saber detalhes de esquadrões, pilotos e aviões, mas está também nos marcos de fundação e de desenvolvimento da referida obra.

Neste ponto, o mais elevado do Morro do Navio, ficava este marco
Neste ponto, o mais elevado do Morro do Navio, ficava este marco. Ao fundo os edifícios de Natal e Parnamirim

Diante de toda esta situação, na condição de cidadãos preocupados com a questão, o autor deste artigo e o jornalista Luiz Gonzaga Cortez decidiram procurar o jornal Tribuna Do Norte, que acolheu a nossa informação e publicou a seguinte matéria.

Morro do Navio é alvo de degradação ambiental

Publicação: 10 de Abril de 2013 às 00:00

Localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) Bonfim-Guaraíra, o Morro do Navio, também conhecido como Morro Vermelho, nas dunas pertencentes ao município de Nísia Floresta, passa por um processo de degradação  por bugueiros e praticantes de rally. O gestor da APA Bonfim-Guaraíra do  Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do RN (Idema), Fábio de Vasconcelos Silva, confirmou que recebeu denúncia da situação na semana passada. Apesar de informar que a prática na área é proibida, o gestor da APA admitiu que não há um Plano de Manejo para a região.

Fábio de Vasconcelos Silva informou que o Conselho Gestor da APA Bonfim-Guaraíra vai se reunir no dia 16 de abril, às 9h, no auditório do Ecoposto da APA, em Nísia Floresta, para tratar do Plano de Manejo. De maneira provisória, vamos  identificar quais locais onde as trilhas podem ser feitas de maneira a minimizar ao máximo os impactos na área. Há locais que são mais sensíveis que outros, explicou.

A APA Bonfim-Guaraíra não possui um estudo que permita definir o Zoneamento Ecológico e Econômico, que regulamenta as áreas que podem ser utilizadas de maneira a minimizar os impactos no local. Por esse motivo, segundo Fábio de Vasconcelos Silva, qualquer atividade deve ser comunicada ao Idema e autorizada pelo órgão e pelo Conselho Gestor da APA.

DSC00133

As pessoas estão fazendo ralis de forma clandestina. Durante o monitoramento, me deparei com uma empresa de turismo que faz passeios de quadriciclos.  Esses passeios são ilegais, afirmou. Os organizadores de passeios turísticos e os praticantes de rally que forem surpreendidos pela Polícia Ambiental no local estarão sujeitos a sanções penais. Quem estiver fazendo passeios no local terá o carro apreendido, disse o gestor da APA.

A situação de degradação da Área de Proteção Ambiental também se confirma no relato de pesquisadores que foram ao local para identificar um marco de concreto que teria importância histórica. Ao averiguarem o objeto, que poderia ter servido de alicerce para a utilização de um equipamento militar do Exército Brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial, o jornalista e membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN (IHG-RN) Luiz Gonzaga Cortez, e o pesquisador e escritor Rostand Medeiros verificaram diversas marcas de pneus no Morro do Navio.

Morro pode ter marco histórico da II Guerra

A possibilidade de que o Morro do Navio seja um ponto que conserva a história do Rio Grande do Norte durante a Segunda Guerra Mundial reforça a importância da preservação da Área de Proteção Ambiental (APA) Bonfim-Guaraíra.

A Lagoa do Bonfim vista do alto do Morro do Navio
A Lagoa do Bonfim vista do alto do Morro do Navio

O marco tem 1,55 metros de altura e 47 centímetros de largura. Nele está gravado o número 1942, que segundo os pesquisadores  Rostand Medeiros  e Luiz Gonzaga Cortez poderia representar a data de instalação do equipamento. Também há no objeto a sigla SGHE.

De acordo com Rostand Medeiros, é possível que o marco tenha sido instalado por um grupo de cartógrafos e topógrafos que estariam fazendo o levantamento da região, provavelmente para a construção da Base de Natal (Parnamirim Field). O fato do marco estar num ponto dominante pode ter servido para este tipo de levantamento com base no movimento dos astros, explicou.

Outra possibilidade ventilada pelos pesquisadores é que o marco tenha servido de alicerce para a utilização de um heliógrafo, equipamento militar que pertenceria ao Exército Brasileiro, de uso manual, para fins de orientação e comunicação.

Acreditamos que esse marco também poderia ter servido de base para esse aparelho, que teria a função de enviar sinais com a luz do sol por código morse, evitando assim a interceptação das mensagens, disse Rostand Medeiros.

Conclusão 

Mas enfim, vale a pena tanto papel, tanta digitação por um pedaço velho de concreto e que está largado no alto de uma duna?

DSC00139

Com certeza, pois é um marco de nossa história.

Qualquer museu que trabalhe a memória de forma séria, gostaria de ter uma peça original que ajudou na construção de uma das maiores bases Aliadas fora dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas qualquer museu sério, ou qualquer entidade que trabalhe com o tema da memória de forma séria em terras potiguares, deve seguir todos os trâmites legais para possuir este material. O desejo de preservação da memória não deve jamais se sobrepor a ideia de realizar as ações de maneira correta.

Certamente na questão relativa a este marco, em minha opinião ele deve ir para um museu.

Mas com a devida anuência de pessoas ligadas ao Exército Brasileiro, o Ministério Público Federal e Estadual, certamente o IDEMA e IBAMA. Não podemos esquecer da participação dos agentes do meio turístico, além das entidades de preservação da memória como o Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Norte e as entidades de preservação da memória na cidade de Nísia Floresta, onde territorialmente o marco foi fincado a mais de setenta anos.

A união destes atores deve dar um destino correto a esta peça histórica.

P.S. – Quero agradecer a Flávio Gameleira, Keber Kennedy e Március Vinícius pela divulgação deste material, pois sem isso não saberíamos da existência deste marco histórico. Logicamente estendo estes agradecimentos a Luiz Gonzaga Cortez, ao seu filho e ao seu neto, por terem me convidado para visitar o local.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

MULHERES DE ASAS

WASP (4)

DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL AS MULHERES AMERICANAS QUE VOARAM NO WASP MOSTRARAM SEU VALOR, CORAGEM E DEDICAÇÃO. MAS TAMBÉM SOFRERAM TODA SORTE DE HUMILHAÇÕES POR SEREM APENAS MULHERES QUE QUERIAM VOAR

Autor – Rostand Medeiros

Fotos – Wikipedia

Em setembro de 1942, uma piloto norte-americana de 28 anos de idade chamada Nancy Harkness Love conseguiu convencer o ATC – Air Transport Command a deixá-la treinar outras mulheres já licenciadas como pilotos civis, em funções destinada a pilotos militares masculinos. Elas teriam a função de levar aviões para inúmeras bases aéreas, recém-saídos das várias fábricas então existentes em todo os Estados Unidos.

A princípio foram selecionadas 27 recrutas, as primeiras mulheres a pilotar aviões militares na terra do Tio Sam e logo elas faziam parte do Women’s Auxiliary Ferrying Squadron -WAFS. Em pouco tempo este esquadrão foi ampliado e se tornou o Women Airforce Service Pilots – WASP, uma organização não militar dentro de um grande esquema militar. Aquilo era na verdade um experimento.

WASP (6)

As meninas do WASP viveram e trabalharam em mais de 120 bases aéreas nos Estados Unidos. Elas usavam uniformes, seguiram códigos militares rigorosos e recebiam ordens como qualquer um que estava nas forças armadas americanas na época. Mas como sempre ocorre quando as mulheres adentram em uma nova área de trabalho, elas sofreram preconceitos severos.

Elas não usufruíam de um seguro de vida e de acidentes, não tinham maiores benefícios em caso de morte e não poderiam ser enterradas em um cemitério militar com as honras de praxe. Elas não podiam alcançar nenhum posto de significado fora de sua organização, nem podiam dar ordens aos homens. Havia uma lei federal que proibia as mulheres de pilotar aviões militares em situação de combate ou fora das fronteiras dos Estados Unidos. Mesmo assim elas foram adiante e 38 mulheres do WASP morreram em acidentes.

WASP (5)

No final elas tinham o que comemorar.

O que tinha começado como um “experimento” deu muito certo. Até o final da guerra o programa WASP treinou quase duas mil mulheres, das quais mais de 1.000 foram graduadas com sucesso e orgulhosamente ganharam suas “asas”, que ostentavam no seu uniforme. Elas transportaram quase 12.650 aeronaves militares, voaram mais de 60 milhões de quilômetros e realizaram outros inúmeros trabalhos de pilotagem.

Quando os Aliados ganharam o controle na Europa e os americanos voltaram para casa, o experimento foi encerrado. As mulheres receberam ordens de abandonar seus empregos como pilotos, para dar lugar aos homens que retornavam e logo ficou claro que era quase impossível para elas encontrar um emprego na aviação civil depois da guerra. Algumas poucas optaram por entrar para o exército e a grande maioria voltou para as suas vidas anteriores.

Ao pesquisar na Internet a vida destas aviadoras pioneiras percebi que muitas nunca mais voltaram a pilotar, mas para a maioria delas o período da Segunda Guerra Mundial foi onde tiveram alguns dos melhores dias de suas vidas. Cada uma destas histórias é verdadeiramente fascinante.

WASP (2)

Entre as que continuaram utilizando uniformes temos o caso de  Nancy Harkness Love, que depois da criação da Força Aérea dos Estados Unidos em 1948, se tornou tenente-coronel. Em maio de 1953 uma ex-piloto do WASP chamada Jackie Cochran, voando um poderoso caça a jato Canadair F-86 Sabre, se tornou a primeira mulher piloto a quebrar a barreira do som. Na década de 1960 a mesma Jackie Cochran se envolveu com o programa espacial Mercury, para desenvolver um projeto de treinamento para mulheres astronautas. Durante este trabalho pioneiro algumas mulheres ultrapassaram as realizações dos astronautas do sexo masculino. Mesmo assim a NASA decidiu cancelar este programa sem maiores explicações. Inclusive os famosos astronautas John Glenn e Scott Carpenter foram ao congresso americano e abertamente se colocaram contra a admissão de mulheres no programa espacial americano.

O papel das mulheres do WASP é quase sempre avaliado pelos historiadores normalmente como uma simples notinha de rodapé nos volumes sobre a Segunda Guerra Mundial. O mais incrível em relação a desativação deste programa foi a ordem do Pentágono, o ministério da defesa dos americanos, que ordenou o fechamento dos arquivos referentes ao trabalho destas mulheres e tornou estas informações como “classificadas”. Por mais de 30 anos, ninguém falava, escrevia, ou aprendeu algo sobre as mulheres do WASP e seu trabalho.

WASP (3)

Na década de 1950 algumas destas mulheres fizeram reivindicações para receberem as mesmas vantagens que os homens recebiam por ferimentos sofridos na guerra. Uma delas solicitou assistência por causa da surdez provocada pelo trabalho nos aviões, mas além de ter o beneficio negado, foi severamente repreendida por fazer o pedido, uma vez que ela não era considerada uma veterana.

Mas essa verdadeira infâmia realizada pelo governo americano contra estas valorosas mulheres não parou por aí. Em 1977 um anúncio feito pela Força Aérea dos Estados Unidos informava que 10 mulheres seriam licenciadas como as “primeiras” a voarem em aviões militares naquele país. Isso provocou um verdadeiro rebuliço nas meninas do WASP, agora distintas avós. Mas elas não desistiram e foram a luta.

Reuniram assinaturas para apoio a um projeto de lei para que concedesse as veteranas do WASP todos os benefícios que os veteranos de guerra do sexo masculino recebiam. O apoio veio de gente como William Randolph Hearst, então o grande magnata da imprensa americana e de outras pessoas bem colocadas na sociedade americana.

Finalmente em novembro de 1977 foi aprovado o projeto de lei que trazia justiça a situação daquelas mulheres. Elas agora eram veteranas.

Em 1 de julho de 2009, o presidente Obama concedeu a Medalha de Ouro do Congresso, a maior honraria civil dos Estados Unidos, para as mulheres que participaram do WASP. Estavam na cerimônia cerca de 175 veteranas ainda vivas e mais de 2.000 membros das famílias das pilotos já falecidas .

WASP (1)

No final de outubro de 2012 lancei o meu livro “Eu não sou herói-A história de Emil Petr”, que conta a história do veterano de guerra Emil Anthony Petr. Ele foi oficial navegador de radar da USAAF –United States Army Air Force, lotado em um bimotor quadrimotor B-24 que tinha a sua base no sul da Itália. Ainda no período de treinamento teve contato com algumas meninas da WASP, em uma engraçada história que reproduzi no capítulo 10, nas páginas 74 a 76.

“Sobre a condição natural de evacuação de resíduos líquidos e sólidos, que afeta a todos os seres humanos na face da Terra, Emil recordou um caso engraçado.

Como eles voavam para várias partes do país, em meio aos exercícios, não era anormal transportar algum militar em trânsito entre uma base aérea e outra. Em uma ocasião, durante um voo que tinha como destino a base aérea de Las Vegas, atualmente conhecida como base aérea de Nellis, para deleite da tripulação em que Emil estava provisoriamente engajado, deram carona a algumas moças da WASP – Women Airforce Service Pilots (Mulheres Pilotos a Serviço da Força Aérea). Esta era uma organização criada dentro da USAAF que utilizava apenas mulheres com a função prioritária de transportar aviões novos e usados, a partir de suas locais de fabricação ou entre as muitas bases aéreas existentes.

WASP (8)

Era a primeira vez que elas voavam em uma B-24 e estavam curiosas. Já a tripulação masculina se desdobrava para tornar a viagem mais agradável e tranquila para as garotas. Estavam todos animados, de riso aberto e tratavam as colegas com muito respeito.

Mas uma delas estava com uma aparência que transparecia preocupação. A jovem não falava muito, olhava dos lados, como procurando algo. Em solo ela não se mostrou uma pessoa arredia, nem antipática, isso apontava que alguma coisa estava errada. Logo se soube que ela estava “apertada”, precisando ir ao banheiro da aeronave. Quando lhe mostraram um dos canos, a sua face mudou de preocupação para a de terror.

Apesar de alguns tripulantes acharem que ela deveria ir para o local destinado a este fim, os oficiais, Emil entre eles, já arquitetavam tirar o artilheiro de ré do seu posto e a moça iria se resolver por lá mesmo. O rapaz que ocupava este local não gostou nem um pouco da sugestão.

WASP (7)

Para a sorte da jovem, nos momentos finais, chegou pelo intercomunicador a notícia que o piloto avistou Las Vegas, o destino das garotas. Emil conta que mal a B-24 parou, a pobre coitada desceu e desabou em uma carreira para o banheiro mais próximo, que aparentemente era masculino.

Mas na hora do desespero, vale tudo!”

Conforme podemos ver nestas fotos aqui apresentadas, a meninas do WASP não abriam mão de sua feminilidade e beleza. Junto com os uniformes e equipamentos de voo, seguiam o batom, material de maquiagem e coisas que deixam as mulheres, seres que se não existissem tornariam a vida dos homens um verdadeiro lixo, cada vez mais belas.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

HISTORIADOR ACHA PEGADAS DE GATO EM REGISTRO DE 1445

Um antigo hábito dos felinos
Um antigo hábito dos felinos – Emir O. Filipovic/Reprodução

BORRÕES DO FELINO ESTÃO EM DOCUMENTO MEDIEVAL

PERTENCENTE A ARQUIVO DA CROÁCIA

Para os donos de gatos a cena é muito familiar: Você está sentado, feliz por ter finalmente concluído algum trabalho feito em seu computador, daí, sem avisar, vem o gatinho da casa e começa a passear tranquilamente pelo teclado e seu trabalho acaba indo para o beleléu!

Mas a prática felina é muito, muito antiga!

Através do medievalista Emir O. Filipovic surge uma real evidência de que os gatos vêm realizando esta prática a mais seis séculos. O pesquisador descobriu que um gato da idade média passou com as patas cheias de tinta sobre o manuscrito pertencente ao arquivo público de Dubrovnik, na atual Croácia. As marcas ficaram eternizadas em uma página do volume 13 do documento chamado “Lettere e commissioni di Levante”.

Palacio Sponza - Dubrovnik - Croácia - onde fica o arquivo.
Palacio Sponza – Dubrovnik – Croácia – onde fica o arquivo.

O material é um registro de cartas de instruções que o antigo governo feudal de Dubrovnik remetia para seus comerciantes e enviados em todo o sudeste da Europa (Bósnia, Sérvia, Croácia, etc). De acordo com o pesquisador Filipovic, este material seria uma espécie de Registro Federal da época. Já as pegadas foram feitas em um documento datado de 11 de março de 1445. O que não quer dizer que ele tenha passado por ali exatamente naquele dia.

Mais do que apenas um lembrete bobo que os gatos nunca mudaram ao longo dos séculos, as pegadas no pergaminho a cintilar através do tempo serve para descrever um pouco da realidade dos animais de estimação da época.

Fonte - https://sorrisodegato.files.wordpress.com/2012/05/lyra-notebook-dormindo.png
Fonte – https://sorrisodegato.files.wordpress.com/2012/05/lyra-notebook-dormindo.png

Material realizado a partir de texto do jornalista Carlos Eduardo Entini, jornal O Estado de São Paulo – Fonte – http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,historiador-acha-pegadas-de-gato-em-registro-de-1445-,8911,0.htm

 

MINHA CIDADE SE CHAMA NATAL!

DSCF2010DSCF0967

DSCF1458

DSCF1963

DSCF0969

DSCF0959

DSCF1462

DSCF0975

DSCF0976

DSCF1967

DSCF0958

DSCF1961

DSCF0977

DSCF1459

SECA NO RIO GRANDE DO NORTE – QUE ESTAS FOTOS LOGO SE REPITAM

???????????????????????????????

O mundo anda meio nervoso!

É um filho e neto de ditador, que busca cantar de galo para mostrar quem manda na sua nação empobrecida, faminta e super armada.

E por falar em galo, de novo vem da velha China um novo vírus aviário, que possui a sigla H7N9 e ninguém sabe ao certo o que ele pode, ou não, fazer contra os seres humanos.

???????????????????????????????

Por mais antenados que nós estejamos, o que realmente nós importa são os problemas mais próximos.

Enfim a Península Coreana e a China estão do outro lado do mundo e se o pau cantar entre as duas Coreias (com os Estados Unidos no meio), ou esta nova gripe se propagar, a grande distância que temos destas nações nós faz ter certa tranquilidade. Embora isso possa ser um paliativo muito fraco.

???????????????????????????????

Por mais que tenhamos em nossas grandes cidades os já costumeiros problemas com a violência excessiva, com a falência do nosso sistema de saúde, a decadência da nossa educação, com a nossa caótica mobilidade urbana, não podemos esquecer que o interior do Nordeste está vivendo a pior seca registrada nós últimos cinquenta anos. Às vezes penso que muitas pessoas aqui em Natal não se deram conta disso.

Estive esta semana no interior do Rio Grande do Norte e vi muita coisa triste.

Tradicionalmente em nosso estado as chuvas mais significativas iniciam-se em janeiro de cada ano e podem estender-se até maio, dependendo das condições oceânicas e atmosféricas. As chuvas que caíram no Rio Grande do Norte neste ano de 2013 foram de baixíssimos volumes, com precipitações pluviométricas irregulares. As condições climatológicas até então apresentadas não oferecem condições para o plantio da safra de grãos de 2013 em terras potiguares.

???????????????????????????????

Após enfrentarem um 2012 seco, com chuvas irregulares e com a confirmação de que a tendência de precipitações no próximo trimestre ficará abaixo do normal, os agricultores do Rio Grande do Norte tentam encontrar mecanismos que garantam a sobrevivência durante este período de estiagem. Mas está difícil.

Só nas últimas semanas os governos a nível federal e estadual parecem ter despertado para uma maior preocupação com a problemática. Já muitas das prefeituras do interior do nosso estado não têm recursos para apoiar quase nada e a ajuda a quem necessita parece ser trabalhada de uma forma muito lenta.

???????????????????????????????

Só restam as populações rurais do nosso estado duas coisas; ou esperar resignados que os desígnios de Deus repitam as imagens que trago nesta mensagem, ou invadir as cidades para mostrar que a situação está muito difícil e chamar a atenção das pessoas e dos governantes. 

A AUTOPERAÇÃO DE UM MÉDICO RUSSO NA ANTÁRTICA

Leonid Rogozov atuando em seu próprio corpo.
Leonid Rogozov atuando em seu próprio corpo.

Em 29 de abril de 1961, No 4º mês do inverno, Um médico russo chamado Leonid Rogozov, com 27 anos estava lotado na estação Novolazarevskaya, uma base da extinta União Soviética na Antártica, onde viveu uma história realmente diferente e fez com que ele se tornasse famoso em todo mundo.

Em 1959, o graduado em medicina Rogozov foi imediatamente aceito para fazer a residência como cirurgião. No entanto, os seus estudos foram postergados por algum tempo devido à necessidade de realizar uma viagem à Antártica em setembro de 1960. Ele deveria assumir a função de médico da expedição soviética na estação polar Novolazarevskaya.

Em uma noite muito tempestuosa, sem maiores atrativos, Rogozov apresentou sintomas inquietantes: fraqueza, náuseas, febre e dor na região ilíaca direita. No dia seguinte, sua temperatura subiu ainda mais. Não tendo nenhuma possibilidade de chamar um avião e sendo o único médico na expedição composta por 13 pessoas, Leonid diagnosticou a si mesmo com apendicite aguda.

Uma inusitada intervenção que foi um sucesso, felizmente!
Uma inusitada intervenção que foi um sucesso, felizmente!

Naquele lugar perdido no continente austral, as condições meteorológicas adversas não permitiriam de forma alguma ele sair dali e não havia aviões em qualquer uma das estações estrangeiras nas proximidades para realizar a sua remoção.

Sem outro jeito o cirurgião realizou uma operação de remoção do apêndice nele mesmo.

Na noite de 30 de abril de 1961, o cirurgião foi auxiliado por um engenheiro mecânico e um meteorologista. Um entregavam a ele os instrumentos cirúrgicos necessários e outro segurava um pequeno espelho sobre sua barriga para que melhor enxergasse o processo cirúrgico.

O médico fez uma anestesia local com solução de novocaína seguida de uma incisão de 12 centímetros na região ilíaca direita com um bisturi. Entre a visão do espelho e o tato ele removeu o apêndice inflamado e injetou antibiótico na cavidade abdominal. Mas não foi nada fácil, 30 ou 40 minutos após o início da operação Leonid sentiu um incipiente desmaio com o formigamento e vertigem que percorreu todo seu corpo obrigando o cirurgião a fazer algumas pausas para descanso. No entanto, à meia-noite, depois de 1 hora e 45 minutos de operação, tudo terminou. Cinco dias depois a temperatura normalizou e dois dias depois os pontos foram retirados.

318825_370863116319598_1506926027_n

Em São Petersburgo, em um museu dedicado as atividades russas nos continentes Ártico e Antártico, há uma exposição dos instrumentos cirúrgicos usados por Leonid Rogozov naquela operação.

Fonte – http://ads.tt/4w0dxA

ÓCULOS RAY-BAN, REFERÊNCIA DE UMA ÉPOCA

Com seus inconfundíveis óculos Ray-Ban vemos o 2º tenente Charles R. Lambert, do 9th Photographic Reconnaissance Squadron, no cockpite do seu bimotor Lockheed F-5, na Índia, em 1944.
Com seus inconfundíveis óculos Ray-Ban vemos o 2º tenente Charles R. Lambert, do 9th Photographic Reconnaissance Squadron, no cockpite do seu bimotor Lockheed F-5, na Índia, em 1944.

Imagina-se que os óculos Ray-Ban foram criados durante a Segunda Guerra Mundial, pelo enorme sucesso  que este produto obteve junto aos aviadores. Na verdade os famosos Ray-Ban foram criados em 1936 pela empresa americana Bausch & Lomb, até hoje um dos principais fornecedores mundiais de produtos para a saúde ocular. Consta que a ideia da criação dos afamados óculos surgiu quando o tenente John A. Macready (um piloto de teste americano) voltou de um voo de balão e reclamou que o sol tinha danificado permanentemente seus olhos (ainda bem que este voo não foi em nosso Seridó em época de seca). Daí Macready entrou em contato com a Bausch & Lomb, explicando a situação e pedindo-lhes para criar óculos de sol que oferecem proteção e que tivessem um formato sofisticado.

Os técnicos da empresa criada em 1857 pelos alemães John Jacob Bausch e Lomb Henry, perceberam através da solicitação do piloto que deveriam criar um produto específico para a aviação. Como este setor do transporte estava em franco crescimento em todo o mundo, estava ali um interessante mercado.

Em 7 de maio de 1937, a Bausch & Lomb requereu a patente, e os óculos da marca “Aviador” (Aviator) foram disponibilizados para o público. O produto tinha armação de metal banhado com ouro, lentes verdes de vidro mineral para filtrar os raios infravermelhos e ultravioleta e o sucesso foi imediato. Pilotos da USAAF (United States Army Air Force) imediatamente adotaram os óculos de sol. 

O general Douglas MacArthur
O general Douglas MacArthur

O modelo “Aviador” da Ray-Ban tornou-se um estilo bem conhecido de óculos de sol. Um dos momentos mais marcantes deste produto durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu quando o famoso general americano Douglas MacArthur, ao realizar seu extremamente midiático desembarque na praia de Palo, na ilha de Leyte, Filipinas, em 20 de outubro de 1944, desceu de um barco de desembarque, andando ereto e confiante, molhando o seu uniforme e trazendo na cara os seus inconfundíveis Ray-Ban.

Douglas_MacArthur_lands_Leyte1

Depois da guerra a empresa desenvolveu vários novos modelos de óculos Ray-Ban, com constantes mudanças de cor, armações e lentes. Logo os modelos foram vistos nos rostos de estrelas de cinema, de TV e músicos.

A famosa marca de óculos de sol foi vendida em 1999 para o grupo italiano Luxottica e ainda continua em produção. Mesmo depois de setenta anos do seu lançamento os óculos Ray-Ban são um top em termos de  designer na indústria de óculos de sol.

A BUSCA PELO JESUS DA HISTÓRIA

jesus-mosaic

CRISTO FOI BATIZADO POR JOÃO BATISTA NO RIO JORDÃO, ESCOLHEU DOZE DISCÍPULOS,
PREGOU PELA GALILEIA DURANTE MENOS DE UM ANO E FOI CRUCIFICADO. MAS ESSAS POUCAS CERTEZAS SOBRE SUA VIDA SÓ TORNAM AINDA MAIS INSTIGANTE AQUILO QUE NÃO SE SABE – E PROVAVELMENTE NUNCA SE SABERÁ – SOBRE ELE

Isabela Boscov

A fé cristã se fortaleceu no decorrer dos últimos vinte séculos não por se constituir em um impecável museu de relíquias capazes de narrar de forma coerente e incontestável a história de Jesus. A fé cristã se enriqueceu da adversidade e construiu uma vigorosa verdade teológica apesar das falhas gritantes dos registros históricos sobre o homem que mandou o apóstolo Pedro construir a sua Igreja. Sua passagem terrestre, no entanto, deitou sobre o tempo histórico marcas muito tênue. Fora os Evangelhos, textos sagrados do cristianismo, a figura de Jesus aparece citada apenas de forma cifrada ou pouco clara em obras escritas dezenas de anos depois de sua morte. Por essa razão, as raras descobertas arqueológicas que iluminam o período histórico de Jesus na Palestina são recebidas com grande curiosidade pelos estudiosos. Há dois anos, foi encontrada uma urna funerária de pedra gravada com a inscrição em aramaico “Tiago, filho de José, irmão de Jesus”. Passada a excitação inicial com o que parecia ser a primeira prova não textual da existência física de Jesus, as dúvidas prevaleceram. O fato de a relíquia ter sido removida há muitos séculos da terra, só agora encontrada e não se poder precisar onde andou por tanto tempo contribuiu para que a descoberta não fosse considerada definitiva. O episódio, porém, encerra a lição de que a força da palavra de Jesus independe das provas históricas. Estas, por sua vez, continuarão a ser buscadas com afinco e precisão crescentes.

jesus-cristo1

O Natal é uma data cristã em que a tradição menos se harmoniza com a história. Jesus não nasceu no ano que dá início à sua era, mas sim algo como seis anos antes – culpa de uma confusão entre os calendários romano e cristão. O local de nascimento de Jesus também é fonte de questionamentos. Ignora-se por que seus pais, Maria e José, que moravam em Nazaré, estariam em Belém no momento do parto. A explicação tradicional, de que teriam retornado à cidade natal de José para um censo, esbarra na falta de registros de alguma grande convocação desse tipo nesses anos. Os romanos, que dominavam a região, faziam censos em seu império para recolher tributos – e a lógica sugere que eles registravam seus contribuintes nos locais em que trabalhavam e residiam. Os Evangelhos de Lucas e Mateus, com pequenas discrepâncias, fazem narração semelhante do nascimento. Até o século XVIII, não havia a preocupação de procurar fatos que comprovassem os Evangelhos. Isso mudou. Diz o teólogo espanhol Julián Carrón: “Desde o início, a Igreja Católica acreditou que os Evangelhos tivessem origem na figura histórica de Jesus, e sempre os considerou testemunhos de fatos acontecidos. Apesar disso, a partir do iluminismo alguns estudiosos começaram a achar que os Evangelhos não tinham valor histórico e que era preciso encontrar outro tipo de correspondência entre eles e os fatos”.

Leopold-KUPELWIESER-_1796-1_jpeg

Os especialistas discutem livremente a função de proselitismo dos Evangelhos. A própria narração do Natal é interpretada como sendo uma espécie de esforço de propaganda. Belém era a cidade do rei Davi, uma ótima maneira de reforçar, a posteriori, a afirmação de que Jesus era o Messias: ele seria, assim, descendente pela linha paterna de um dos fundadores do judaísmo, e teria nascido na mesma cidade que ele. A estrela de Belém, citada apenas por Mateus, é outro mistério. Nascer no leste, aparecer sobre Jerusalém e então virar-se para o sul, na direção de Belém, como descreve o evangelista, é um comportamento no mínimo estranho para uma estrela. O enigma astronômico há séculos intriga os cientistas. Uma primeira resposta foi aventada em 1604, pelo astrônomo alemão Johannes Kepler. Ao observar uma conjunção de Júpiter, Saturno e Marte, ele calculou que o fenômeno teria ocorrido também em 6 a.C. – o possível ano do nascimento de Jesus –, produzindo impressão semelhante àquela descrita por Mateus. Outros estudiosos acreditam que o evangelista ficou tão encantado com a passagem do cometa Halley, em 66 D.C., que o teria incluído em sua narrativa. E há os que acham que a estrela de Belém não passa de um símbolo, lendário do começo ao fim, da chegada de um rei. “Os astrônomos nunca vão encontrar a verdadeira estrela de Belém, porque ela é produto da nossa imaginação: é a luz que brilha sobre o Cristo criança”, diz A.N. Wilson, autor de Jesus: A Life. Atribui-se, ainda, à imaginação dos artistas (e ao euro centrismo) o aspecto físico com que Jesus passou à história. Os longos cabelos castanhos aloirados, os traços esculpidos e os olhos claros são incongruentes com o biótipo de um palestino do século I. O mais provável é que ele fosse moreno, com olhos escuros e cabelos crespos – bem diferente, portanto, não só do Jesus da iconografia, como da imagem impressa no Sudário que está exposto em Turim, na Itália.

cristo-crucificado-10

A busca pelo Jesus histórico – como de resto da maioria das investigações materiais da Antiguidade – produz mais dúvidas do que respostas. Nem a morte do Nazareno na cruz, uma das poucas certezas da história, deixa de suscitar interrogações. No mundo greco-romano, não havia desonra maior do que a morte sem sepultura. Um corpo exposto ao tempo, aos olhares de estranhos, às feras e às aves era um insulto público, e significava também a destruição da identidade – um fim sem epitáfio e, portanto sem posteridade, uma preocupação suprema da Antiguidade. Por isso, para acrescentar injúria à tortura, os romanos crucificavam os escravos desobedientes e os presos políticos. Mesmo após o condenado expirar, os soldados continuavam a montar guarda: baixar um morto da cruz era um privilégio que exigia súplica, influência ou propina, ou todas as três coisas. Não é de estranhar que, dentre os milhares de pessoas que se calcula terem sido crucificadas nos arredores de Jerusalém durante o domínio romano, um único esqueleto tenha sido encontrado – o de um judeu de seus 20 anos de idade chamado Yehohanan, filho de Hagkol, como consta da inscrição em seu ossuário.

cross

A análise da ossada de Yehohanan, localizada em 1968, revela que suas mãos não foram pregadas à cruz: provavelmente, seus braços foram amarrados à trave, enquanto seus pés foram dispostos lateralmente à viga e atravessados por trás, na altura do calcanhar, por um pino de ferro. Como o pino entortou, não foi possível despregar o pé direito de Yehohanan, e sua família teve de enterrá-lo com um pedaço da cruz preso ao osso. Na suposição de o jovem judeu preservado no ossuário servir de modelo para a morte de Jesus Cristo – e ele é o único de que se dispõe –, ele levanta duas questões relevantes. A primeira é que é, sim, possível que Jesus tenha ganhado uma sepultura, apesar de não ser esse o costume. A outra é que, se as mãos e os pés de Jesus não foram perfurados por cravos, as chagas com que ele é descrito nos Evangelhos e habitualmente representado não correspondem aos seus ferimentos reais. Essas são meras suposições, claro, e é quase certo que nunca será possível prová-las ou desaprová-las. Na tentativa de retraçar os passos de Jesus, historiadores e arqueólogos esbarram continuamente em dilemas semelhantes: as evidências concretas são ínfimas, e por isso mesmo nem se pode descartá-las, nem tomá-las como indícios seguros.

Tácito
Tácito

A procura por traços concretos da existência de Jesus é relativamente recente. Começou com os movimentos racionalistas da virada do século XVII para o XVIII, quando ganhou força a ideia de que qualquer dúvida ou mistério poderiam ser desfeitos pela ciência – e, no espírito da época, o objetivo era menos verificar a existência de Jesus e mais negá-la como um mito comparável a tantos outros presentes na Bíblia. Hoje, não há mais como pôr em disputa o fato de que Jesus existiu. Ele é citado, ainda que de passagem, por dois cronistas não cristãos do período, o judeu Josefo e o romano Tácito. As fontes mais aceitas sobre a trajetória de Jesus – os Evangelhos Sinópticos, de Mateus, Lucas e Marcos – são consistentes com o que se sabe sobre a Palestina do século I, de forma que a chance de ser fruto da imaginação de seus autores é desprezível. Muitas informações podem ser tiradas também das Cartas de Paulo (anteriores aos Evangelhos em sua forma escrita), o mais instruído dos discípulos, e de fontes não canônicas, especialmente do Evangelho de Tomé, cujo texto integral foi descoberto em 1945 e desde então vem sendo objeto de grande atenção. Ainda que os consensos sobre a trajetória de Jesus sejam frágeis, os historiadores acreditam ser fato que ele tenha sido batizado no Rio Jordão pelo profeta João Batista, que tenha escolhido doze apóstolos, que tenha pregado pela Galileia – talvez numa missão muito curta, de menos de um ano –, e que tenha sido crucificado, muito provavelmente durante uma Páscoa. Essas certezas, porém, só tornam ainda mais instigante aquilo que não se conhece sobre Jesus, e que vai do prosaico, como a sua aparência física, ao absolutamente cifrado – de que forma ele teria passado os anos de sua adolescência e juventude, sobre os quais nenhuma pista confiável sobreviveu.

Mar da Galileia
Mar da Galileia

Mesmo o local mais sagrado da religião a que Jesus deu origem, a Igreja do Santo Sepulcro – erigida sobre a caverna em que o corpo de Jesus teria sido colocado por José de Arimatéia –, não está a salvo de incertezas. A igreja foi consagrada em 335, a mando do imperador Constantino (que instaurou o cristianismo como religião oficial do Império Romano), quando uma tumba que se acredita ser a de Cristo foi descoberta sob um templo pagão. Se sua descrição e localização conferem com os Evangelhos e a crônica do período, não há, por outro lado, provas arqueológicas que confirmem ser essa a sepultura de Jesus. Muito mais tênue ainda é a ligação que se pretende estabelecer entre Jesus e a seita dos essênios, cujos célebres Manuscritos do Mar Morto foram encontrados no fim da década de 40. Praticantes de um judaísmo ascético e radical, os essênios pareciam ter, conforme os documentos que legaram, muito em comum com o pensamento de Jesus – daí a hipótese de que Cristo tenha passado a juventude com eles. A teoria tem muitos adeptos, e outros tantos detratores. Itzhak Magen e Yuval Peleg, dois arqueólogos israelenses ligados aos órgãos históricos de seu país, argumentaram que um exame mais detido das cavernas de Qumran, onde estavam os manuscritos, sugere que elas funcionavam não como um refúgio de ermitãos, mas talvez como olaria, e que os pergaminhos foram simplesmente levados da biblioteca do templo de Jerusalém para lá, para sua proteção. Não seria, portanto, um lugar de estudo onde um jovem fosse se iniciar.

Cavernas de Qumran
Cavernas de Qumran

São remotas as chances de que, algum dia, venham a surgir as evidências diretas que tanto se buscam sobre Jesus. A Palestina era uma província menor, que interessava ao Império Romano apenas na medida em que se situava entre o Egito e a Síria. Menos importância equivale a menos documentos e monumentos – a primeira dificuldade no caminho da arqueologia. O ossuário do sumo sacerdote judeu Caifás, que entregou Jesus ao governador romano Pôncio Pilatos e exigiu sua execução, é dado como genuíno. Mas só há poucas décadas se encontrou uma laje com a inscrição do nome de Pôncio Pilatos. Até autenticar-se esse fragmento de pedra, o nome do governador romano existia apenas na literatura. Escavar em Jerusalém e arredores é, além disso, uma proposição delicada. A cidade vive uma divisão conflituosa entre as três religiões para as quais é sagrada – o cristianismo, o judaísmo e o islamismo –, e expedir uma autorização é uma questão que exige sensatez política e diplomática. Em anos recentes, com o recrudescimento das hostilidades entre israelenses e palestinos, a situação se agravou: das quase cinqüenta grandes escavações em andamento em Israel, apenas quatro continuam em atividade. Não há como garantir a segurança das demais. Finalmente, a região é o paraíso dos caçadores de troféus, que retiram peças de seu contexto para vendê-las – e, assim, eliminam quase todo o seu valor científico –, e dos arqueólogos ambiciosos, que anunciam descobertas bombásticas antes que elas possam ser analisadas por seus pares. Em agosto deste ano, por exemplo, o arqueólogo britânico Shimon Gibson anunciou com grande alarde ter encontrado a suposta caverna de João Batista, localizada no que é hoje um pequeno kibutz. Há indícios de que seguidores de João, ao menos, tenham usado o local, que conta com o que se julga ser uma pia batismal por onde escorreriam o óleo e a água empregados na unção. Qualquer outra hipótese, porém – como a de que João ou mesmo Jesus tenham administrado batismos ali, conforme especula Gibson –, é prematura.

João Batista
João Batista

A fé, claro, não precisa de provas que a confirmem, ou não levaria o nome de fé. Não precisa, mas, de alguma forma, sempre as deseja. Os Evangelhos descrevem a relutância de Jesus em fazer milagres, mas deixam entrever sua visão de que, ocasionalmente, esses sinais eram necessários. Conta-se também como, após a Ressurreição, Cristo deixou que o incrédulo São Tomé tocasse suas chagas para comprovar que era ele mesmo, o Filho de Deus, quem estava ali. Desde que o cristianismo começou a se espalhar – e ele se alastrou como um rastilho de pólvora pela Palestina e logo também por todo o mundo romano em suas primeiras décadas –, começaram a surgir também as relíquias: fragmentos da Cruz Verdadeira (que, fossem todos eles autênticos, teria dimensões descomunais), ossos de santos, frascos de sangue e toda uma miríade de testemunhos físicos de que Cristo, seus apóstolos e mártires caminharam sobre a Terra, gerando um culto que poderia muito bem ser caracterizado como fetichismo ou superstição. Na Idade Média, a Igreja muitas vezes se valeu da venda de relíquias e de indulgências como fonte de renda – um comércio que, durante uma visita a Roma, horrorizou o padre Martinho Lutero e acabou servindo como um dos estopins para a Reforma Protestante. Hoje o Vaticano desencoraja esse tipo de apego, ou, quando muito, o tolera, e trata as descobertas de possíveis relíquias com o máximo de circunspecção. Mesmo assim, elas ainda pipocam.

Para os cientistas esta seria uma possibilidade da face aproximada de Jesus Cristo
Para os cientistas esta seria uma possibilidade da face aproximada de Jesus Cristo

Quando se pensa no homem que fundou a maior religião monoteísta do planeta, resistente a 2.000 anos de sismos políticos e sociais, ao crescimento de outras religiões e às cizânias em seu próprio interior, é natural imaginá-lo voltado para nós, transmitindo para as gerações vindouras sua mensagem. Esse Jesus, contudo, é o da teologia. De acordo com a historiadora Paula Fredriksen, professora de escritura da Universidade de Boston, para encontrar o Jesus histórico deve-se visualizá-lo de outra forma: de costas para nós, e voltado para os seus contemporâneos e conterrâneos. O problema imediato de Jesus era fazer-se entender por eles, e foi para pessoas como ele próprio que Cristo elaborou seu discurso, ou que os evangelistas escreveram seus relatos. É preciso, então, primeiro entender a Palestina do século I e, em seguida, contrapor a ela os relatos dos Evangelhos – um exercício que pode render frutos surpreendentes.

01516786700

Diz a máxima – quase sempre verdadeira – que quem escreve a história são os vencedores. Os Evangelhos, porém, são a mais notável exceção a essa regra. Tudo sugere que os relatos de Mateus, Lucas, Marcos e João começaram a ganhar forma na segunda metade do século I, quando o cristianismo ainda era um movimento marginal, que apenas começava a ensaiar o seu passo decisivo – o de transpor a esfera do judaísmo para conquistar os gentios e se alastrar pelo mundo romano. Os Evangelhos estão carregados de marcas dessa trajetória. Eles assinalam, por exemplo, a relutância do romano Pôncio Pilatos em aceitar as acusações do sacerdote judeu Caifás e condenar Jesus à morte. Nas menções a Pilatos que sobreviveram na crônica política da época, contudo, o governador é retratado como um oficial brutal, que se excedia no zelo com que executava prisioneiros a ponto de incomodar Roma. Esse é um dos pontos em que os estudiosos convergem: a maneira como os Evangelhos mitigam a culpa de Pilatos, transferindo-a quase toda para o clero judaico, é uma herança clara do momento que o cristianismo atravessava por volta dos anos 60 e 70, de tentar seduzir Roma e forjar laços com ela. Do ponto de vista de um historiador, portanto, até em suas omissões ou contradições os Evangelhos são um documento historiográfico riquíssimo, repleto de pistas sobre as intenções de Jesus e sobre as tensões políticas a que ele e seus seguidores estavam submetidos.  

Flavius Josefus
Flavius Josefus

Essa tática – a de estudar o que não é dito – é, segundo Paula Fredriksen, útil também no caso do historiador judeu Josefo. O mais ativo cronista da região no século I, Josefo forneceu descrições detalhadas dos acontecimentos políticos e sociais. Mas não menciona fome, impostos escorchantes, violações flagrantes da lei judaica (por parte de Herodes Antipas, rei da Galileia  ou dos oficiais romanos) nem forte presença de tropas do invasor. Não relata, enfim, turbulências além do normal. O retrato consensual que se tem da região no início do século I é o de uma terra cultivada, muito populosa – outro cronista diz que nunca se andava um dia inteiro sem atravessar uma vila, uma aldeia ou uma cidade –, e que usufruía uma convivência não exatamente harmoniosa, mas também não particularmente tensa, com o poder romano. A Galileia era já muito romanizada, mas eram os judeus, e não os romanos, que a governavam, frisa Paula Fredriksen. Ou seja, a julgar pelo que narra Josefo, é muito mais lógico que Jesus tenha feito mais oposição a preceitos judaicos do que à dominação romana – o contrário do que dizem, por exemplo, alguns teólogos ligados à Teologia da Libertação, que gostam de ver em Jesus um proto-socialista.

Palestina hoje
Palestina hoje

O irlandês radicado nos Estados Unidos John Dominic Crossan, professor de estudos bíblicos da Universidade DePaul de Chicago e talvez o mais influente estudioso da área, vai mais fundo nesse panorama da Palestina. Em O Jesus Histórico, Crossan se vale de numerosos trabalhos de colegas seus para reconstruir um retrato minucioso dessa sociedade. E duas características da Palestina – assim como de toda a bacia do Mediterrâneo – são fundamentais para entender Jesus, diz ele. A primeira delas é o código de honra e vergonha, que assegurava à força a lealdade no interior das comunidades. Nesse sistema, famílias e clãs se tornavam pequenos soberanos, com poder de vida e morte sobre seus membros – e ai de quem transgredisse suas regras. Outro traço muito típico do Mediterrâneo, aponta o historiador, é o costume do apadrinhamento: tudo nesse universo dependia de intercessão, de que se pedisse um favor e alguém o concedesse.

John Dominic Crossan
John Dominic Crossan

Para as pessoas humildes que viviam espremidas entre os sistemas de honra e apadrinhamento, imagina John Dominic Crossan, o desejo de escapar não devia ser pequeno. Mas como alguém pode se subtrair à sociedade? Os cínicos – e a palavra aqui são derivados do grego para “canino”, sem o sentido atual – filosofaram uma resposta a essa pergunta: segundo os partidários dessa espécie de contracultura da Antiguidade (que achavam que se devia “latir” contra as injustiças), a pobreza levava à liberdade, que por sua vez levava à realeza – a um homem que é senhor de si mesmo. Não se tratava apenas de teoria. Os cínicos tinham diretrizes práticas em relação à aparência (cabelo comprido, manto e pés descalços), alimentação (tirada de um alforje) e moradia (proporcionada por quem se dispusesse a dar abrigo ao rebelde itinerante). No tempo de Cristo, os cínicos eram figuras comuns, e facilmente reconhecíveis por suas vestimentas, seu cajado e suas atitudes. Não eram benquistos pelas autoridades romanas, claro, porque enchiam de ideias as classes menos favorecidas. De certa forma, Jesus se encaixaria no papel de um cínico, diz Crossan – exceto pelo fato de que ele foi bem além da proposta do movimento. Jesus não pregava a autossuficiência, como os cínicos, mas sim a mais absoluta comensalidade, sem distinções entre homens e mulheres, pobres e ricos, gentios ou judeus, poderosos ou párias. Isso não desagradaria só aos romanos. Enfureceria acima de tudo os adeptos da lei judaica, que nesse momento atravessava uma fase de sectarismo pronunciado. E, como arrisca Crossan, mais desmoralizante e subversivo do que combater uma regra é simplesmente ignorá-la.

Muito já se discutiu se Jesus estaria em continuidade com o judaísmo ou em oposição aos padrões sociais e religiosos de sua época. Mas o inglês Christopher Tuckett, professor de estudos do Novo Testamento na Universidade de Oxford, levanta um argumento forte a favor do Jesus radical: o ministério de Cristo se mostrou tão ofensivo para parte de seus contemporâneos que eles o levaram à morte pelo método mais cruel de execução já inventado. Sob essa luz, muito do que Jesus pregou ganha um novo sentido. Tome-se, por exemplo, sua condenação do divórcio. “Todo aquele que se divorciar de sua mulher e desposar outra comete adultério contra a primeira”, diz o Evangelho de Marcos. Ora, à primeira vista essa parece ser uma posição conservadora. Mas é preciso reparar que Jesus fala que um homem que toma uma segunda esposa é um adúltero. Na lei judaica, só os homens, e não as mulheres podiam pedir o divórcio. Nivelando o direito feminino ao masculino, Jesus desfere um golpe contra o androcentrismo, um dos pilares da tradição.  

São Marcos
São Marcos

Nesse cenário, até o sacramento do batismo adquire um sentido subversivo. Na época em que Cristo viveu, o único local em que um judeu podia oferecer sacrifícios para purificar-se era o Templo de Jerusalém – caro chegar até lá, caro custear a estada e caro comprar, à entrada do templo, os animais que seriam sacrificados. Na prática, isso equivalia a excluir da redenção, por critérios econômicos, uma parcela da população. O batismo seria, assim, um atalho barato e viável para o poder divino: bastava um banho para limpar-se dos pecados – e bastava esse gesto para minar o monopólio dos sacerdotes sobre a salvação.

crucifixion-400

Foi isso que o ministério de Jesus fez: solapar de forma sistemática a hierarquia. Quase todas as suas alusões ao Reino de Deus deixam transparecer essa preocupação. Um reino que é das crianças não seria, na Antiguidade, propriamente um reino dos inocentes – e sim daqueles sem poder nem direito de opinião ou escolha. Numa tradução mais correta do grego original, o reino dos pobres viraria o reino dos indigentes, dos indesejados. Nada fala mais alto, entretanto, que a decisão de Jesus de confiar ao seu apóstolo Pedro, e não ao seu irmão Tiago, os rumos de sua Igreja. Num ambiente regrado pelo apadrinhamento, seria natural que os familiares de Jesus se beneficiassem mais de seus dons, sua fama e seu poder crescente. Jesus, porém, preferiu quebrar a espinha aos usos e costumes de seu tempo. Seu reino, de certa forma, não estava no futuro: nesses termos, era já muito presente.

Cristo en Majestad, Fra Angelico

Por mais valioso que seja conhecê-la, a dimensão política de Jesus, entretanto, em nada ajuda a compreender a sua natureza essencial – a divina. É nesse ponto, em que fé e ciência colidem, que começam as questões verdadeiramente insolúveis. A Ressurreição é a passagem mais desafiadora dos Evangelhos para um historiador secular: ela é a chave para o reconhecimento da divindade de Jesus, mas a que menos possibilidade oferece de se encaixar numa perspectiva científica. Francis Watson, professor de exegese do Novo Testamento na Universidade de Aberdeen, na Escócia, argumenta que o problema de não ser possível provar os milagres e a ressurreição de Jesus – nem nunca ter sido possível provar fenômenos semelhantes – não é, em si só, prova em contrário de que tais fatos tenham sucedido. A questão levantada por Francis não é apenas técnica, ou um jogo de palavras. Qualquer tentativa de contar a história de Jesus pondo de lado a confissão de que ele é o Cristo – enfim, o filho de Deus e o próprio Deus – seria equivocada, diz o professor: separar Jesus, a figura histórica, de Cristo, a figura divina, significa desprezar exatamente o fator que confere a ele sua importância absoluta e insuperável. Não importa se se pensa que Jesus é o filho que integra a Santíssima Trindade, que era um profeta como qualquer outro de seu tempo ou que era meramente um lunático que se acreditava o Messias – Jesus será sempre definido como sendo o Cristo ou o não-Cristo. Será sempre definido, em suma, por uma indagação. Assim foi durante sua vida, na Galileia, quando seus próprios familiares duvidaram de sua origem divina, ou quando os aldeões que o viram expulsar os demônios do corpo de um homem o acusaram de ter esse poder por meio de Belzebu. E assim é hoje: quanto mais se tenta chegar ao Jesus “verdadeiro”, mais fé e história se entrelaçam. E mais o mistério se aprofunda. Mistério cuja chave Jesus mesmo produziu, ao afirmar: “Meu reino não é deste mundo”. 

SOU VAQUEIRO NORDESTINO POETA E NAMORADOR

270836_473469269336554_472822663_n

SOU VAQUEIRO PREPARADO
MONTO EM CAVALO LIGEIRO
E A FILHA DO FAZENDEIRO
SÓ QUER VIVER DO MEU LADO
FAÇO VERSO IMPROVISADO
MESMO SEM SER CANTADOR
E TRAGO COM MUITO AMOR
O MEU SONHO DE MENINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR
.

SER POETA, SER VAQUEIRO
É TER DO CAMPO A IMAGEM
SER O ESPÍRITO SELVAGEM
QUE PERCORRE O TABOLEIRO
MINHA ROUPA TRAZ O CHEIRO
DA CLOROFILA E DA FLOR
FAÇO SEXO POR AMOR
COM A DONA DO MEU DESTINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR. 

vaqueiropegaboi3

NAMORO AS FLORES DO MATO,
A FACE DA LUA PÁLIDA,
CAMPEIO NA TARDE CÁLIDA,
NAS VEREDAS DO REGATO
VEJO DE DEUS O RETRATO
NA HORA DO SOL SE POR,
SOU DO REBANHO O PASTOR
SOM DE VIOLA É MEU HINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR.

SOU DA MULHER GUARDIÃO
DA VIOLA UM FÃ ETERNO
SOU UM BOÊMIO MODERNO
DO SONETO E DA CANÇÃO
SOU A PURA INSPIRAÇÃO
PRA O MAIS DOCE CANTADOR
CANTANDO EU SOU SONHADOR
PRA GADO SOU TANGERINO
SOU VAQUEIRO NORDESTINO
POETA E NAMORADOR.

Poeta – Onildo barbosa

pega05

EM BUSCA DO SERTÃO NORDESTINO!

Quando você acha que não pode nada por muitas coisas, quando muitos problemas surgem, muitas situações que parecem sem solução, o melhor para botar a cabeça no lugar é busca a natureza do nosso sertão nordestino.

Isso foi em Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, onde fui visitar sítios arqueológicos e grutas em granito no alto de belas serras. Foi show de bola, mas eu só faltei botar os bofes prá fora! Mas também, com 4.5 de quilometragem no motor, mais de 100 quilos na carroceria, eu quase tive uma turica, um passamento. Mas não desisti não! O negócio de andar no sertão é devagar e sempre, respeitar a hora do sol a pino (procurar uma sombra) e curtir a natureza. A comida foi a boa e velha rapadura, uma paçoquinha, muita água e, já que ninguém é de ferro, um bom café Santa Clara, que esquentamos no meio do mato. O melhor mesmo são as companhias, as conversas, a contemplação. Isso aí rolou em um sábado. Saímos de Natal na sexta, fizemos a trip no sábado e depois voltamos para casa no domingão. Melhor que assistir Faustão e o hômi do Baú….

Até onde sei, não existe na maioria das cidades do interior do Nordeste algo preparado e/ou programado para atender o turismo. Exceção as que possuem atrativos que estão sendo trabalhados e são bem comentados. Normalmente realizo estas viagens com amigos, pessoas simples, cujo objetivo principal é fotografar e visitar locais diferenciados, de preferência com conotação histórica. Praticamente todas as cidade do nosso sertão possuem algum meio de hospedagem, mas muito são precários. Não faltam pessoas dispostas a guiar e o custo é muito baixo. Normalmente buscamos áreas serranas, que dão um trabalho danado para subir, mas lá em cima a vista é fenomenal. Vale o esforço. Umas pessoas já me criticaram dizendo que isso é “programa de índio”, então UGA! UGA! Forte abraço….

A REPERCUSSÃO DOS ATAQUES DO CANGACEIRO SINHÔ PEREIRA A PARAÍBA E A INFORMAÇÃO SE LAMPIÃO ESTEVE EM TERRAS POTIGUARES EM 1922

 “NOTÍCIA RUIM CHEGA LIGEIRO!”

Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922
Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922

No dia 25 de dezembro de 1921, na pequena vila de Luís Gomes, o cabo Francisco Rodrigues Martins e o soldado Luis Antonio de Oliveira, foram assassinados por um grupo de cangaceiros quando realizavam uma diligência policial. Nesta época, o jornal natalense A Republica era extremamente econômico no seu noticiário quando o assunto era a ação de cangaceiros em terras potiguares e não publica uma só linha detalhando este episódio.

Vamos ter conhecimento deste fato já na edição de 20 de janeiro de 1922, onde está estampada a publicação do Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922, que informa terem as viúvas dos policiais mortos recebido “uma pensão correspondente à metade da etapa que os mesmo ganhavam, considerando que os militares foram assassinados por cangaceiros”.

De qual bando pertenciam estes bandidos? Quantos eram? Quem era o chefe? Infelizmente não sabemos, mas sabemos que o ataque aconteceu. Podemos deduzir que a não vinculação da notícia pelo principal jornal potiguar da época teria mais a ver com um desejo de evitar o pânico entre a população rural potiguar?

E este medo tinha fundamento?

Conforme descreve o então governador potiguar Antônio José de Mello e Souza, na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1921, parece que sim!

Devido a forte de seca dos anos de 1918 a 1920, aliado a uma acentuada baixa de produção do algodão e dos baixos valores alcançados por esta matéria-prima no mercado internacional, o Rio Grande do Norte se encontrava em uma precária situação financeira. Esta situação gerava reflexos principalmente nas ações de segurança e ordem pública, onde o governo mantinha a força pública com um efetivo bem abaixo de suas necessidades e material obsoleto para o combate ao banditismo.

A ERA DE 22 COMEÇA COM MUITA CHUVA E CANGACEIRO

Neste ínterim, a vida passou a sorrir de uma forma mais alegre para o sertanejo potiguar, pois tinha início uma promissora estação chuvosa, sendo noticiadas fortes chuvas em todo Estado (A Republica ed. 29/02/1922).

Por outro lado, o meio político estava agitado, pois a dia 1 de março ocorria em todo país a eleição para Presidência da República, onde Arthur Bernardes disputava com Nilo Peçanha, em um sufrágio muito pouco democrático, quem governaria o país pelos próximos quatro anos. É informado que o futuro presidente já assumiria a partir do dia 15 do mesmo mês de março (Mensagem, RN 1922, pág. 4).

Em meio a todo positivo noticiário sobre as chuvas e as eleições presidenciais, um dia é publicado uma pequena nota que mostrava que nem tudo corria as mil maravilhas no sertão paraibano, próximo a fronteira potiguar e a fonte da pequena nota era uma importante liderança política e empresarial potiguar.

Informe de Simplício Cascudo sobre ataque de cangaceiros na Paraíba e publicado em Natal
Informe de Simplício Cascudo sobre ataque de cangaceiros na Paraíba e publicado em Natal

O coronel Francisco Cascudo, pai do folclorista Câmara Cascudo, apresentou a redação de A República um telegrama remetido no dia 3 de março, emitido pelo seu parente Simplício Cascudo, então residente na cidade paraibana de Sousa, dando conta que um grande grupo de cangaceiros estava percorrendo as zonas rurais das cidades de Pombal, Brejo do Cruz, Catolé do Rocha e São Bento, na Paraíba e propriedades na área próxima a Vila de Alexandria, já no Rio Grande do Norte (mas sem trazer maiores detalhes). Informava Simplício Cascudo que as propriedades São Braz, Santa Umbellina e Brejo das Freiras foram “visitadas” pelos cangaceiros, sendo assaltados as pessoas de “José Olympio, filho de Antonio Fernandes, Adolpho Maia, Valdevino Lobo, proprietário da estância Dois Riachos, e Mestre Ignácio”. Informa o missivista que a cidade de São Bento estava “arrasada” com os acontecimentos, tendo os saques nas propriedades próximas sidos superiores a 200 contos de réis. Comentava que no dia 2 os cangaceiros se encontravam no lugar “Catolé”, próximo a Cajazeiras, estando a cidade receosa de ser atacada. Simplício Cascudo finalizava a nota informando que até o momento as garantias solicitadas ao governador da Paraíba, Sólon de Lucena, ainda não estavam presentes (A Republica ed. 07/03/1922).

Ora, diante de notícia fornecida por pessoa tão grada da sociedade potiguar, os grandes produtores rurais do Rio Grande do Norte, principalmente aqueles que tinham seus bens mais próximos à fronteira paraibana, ficam extremamente apreensivos com o que poderia ocorrer.

Logo seus piores pesadelos pareciam se concretizar…

Nota sobre o ataque a Jericó, Paraíba
Nota sobre o ataque a Jericó, Paraíba

Telegramas vindos da vila paraibana de Jericó, retransmitidos por postos telegráficos potiguares, fazem chegar a Natal a informação que em 5 de março de 1922, o celebre chefe cangaceiro Sinhô Pereira, com a ajuda do cangaceiro Liberato Alencar, acompanhados de um bando com um número estimado (pelos jornais da época) de 35 a 60 cangaceiros, ataca com sucesso toda aquela região. Desde a zona oeste do Rio Grande do Norte, até o Seridó, a notícia correu célere. Uma das notas de um dos jornais potiguares que noticiaram o fato assim apresentou a questão informando que “Notícia ruim chega ligeiro!”. Na antiga Jericó eles cometeram atrocidades e causaram inúmeros prejuízos aos moradores da localidade. Os cangaceiros foram finalmente rechaçados por um grupo de corajosos habitantes do lugar, destacando-se o nome de Antônio Felipe, João Bento, soldado João Ferreira e João Belarmino.

PÂNICO ENTRE A ELITE RURAL POTIGUAR

Os acontecimentos são publicados em grandes manchetes na edição de 8 de março de A República. A partir de então o pânico se generaliza de uma forma contundente entre os políticos e os fazendeiros que tinham interesses na fronteira do rio Grande do Norte com a Paraíba.

Um típico cangaceiro nordestino na década de 1920
Um típico cangaceiro nordestino na década de 1920

Em Natal começam a chover na mesa do governador Mello e Souza telegramas solicitando urgentemente o envio de efetivos da força pública potiguar para a defesa das cidades e vilas localizadas em praticamente toda a fronteira com a Paraíba. Os aflitos telegramas vinham desde a cidade de Luís Gomes, quase na divisa com o Ceará, à Nova Cruz, próximo ao litoral, todos informando existirem boatos de ataques eminentes e simultâneos de cangaceiros.

Nas amareladas folhas do velho jornal A Republica, existente na hemeroteca do Instituto Histórico do Estado do Rio Grande do Norte e no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte, é tal a quantidade de telegramas enviados ao governo, que aqueles que não possuem um maior conhecimento da história do cangaço nesta época, ao ler as alarmantes missivas reproduzidas, parece que a ação dos cangaceiros havia crescido numa proporção assustadora e o número de bandos havia aumentado por dez.

No geral as mensagens seguem quase um mesmo padrão. Comentam sobre a existência de “informações”, ou “boatos”, transmitidos por pessoas “vindas da Paraíba” da “existência de grupos de cangaceiros nas proximidades” e a possível “eminência de um ataque”.

OS JORNAIS REPERCUTEM A SITUAÇÃO

A imprensa dos dois Estados tratava a situação de modo alarmante e exagerado.

Possível combate próximo a cidade de potiguar de Santa Cruz. Jamais foi confirmado
Possível combate próximo a cidade de potiguar de Santa Cruz. Jamais foi confirmado

Na edição de 12 de março do jornal paraibano “A União”, existe a informação que havia ocorrido um violento combate nas proximidades da cidade potiguar de Santa Cruz, no qual teriam morrido 6 cangaceiros. Já o natalense A República chega a comentar na sua edição de 21 de março que, “se abstivera de divulgar as movimentações da tropa, por um princípio das táticas militares; Não fornecer indicações ao inimigo”. Como fosse o caso dos cangaceiros terem condição de ler jornais continuamente no meio da caatinga!

DSC03157

Esta mesma edição de A República informa que em Caicó houve pânico com a notícia da aproximação de cangaceiros na fronteira desta cidade com a Paraíba, ficando a situação mais calma por haver deslocamento de forte contingente policial em direção à localidade de Jardim de Piranhas. Outro jornal natalense denominado A Notícia, informa que até mesmo ocorreu “fuzilamento de oficiais de nossa Força Pública e rapto de crianças”.

Até as repartições dos Correios e Telégrafos entraram na ideia de pânico generalizado. Houve o caso de um telegrafista enviar pedidos de ajuda ao Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro.

Os cangaceiros atrapalharam a coleta de materiais da cidade Martins para a exposição do centenário
Os cangaceiros atrapalharam a coleta de materiais da cidade Martins para a exposição do centenário

Até jornais do Rio de Janeiro noticiaram aqueles acontecimentos aparentemente através de notícias recebidas de informes telegráficos e um destes informes mostra uma interessante situação; no primeiro semestre de 1922 estava acontecendo em todo o Brasil os preparativos para as grandes festas do centenário da nossa independência e no Rio Grande do Norte estes preparativos estavam a toda. Cabia a cada estado brasileiro organizar e enviar para a Capital Federal, na época o Rio de Janeiro, uma coleção de produtos naturais típicos. No Rio Grande do Norte o responsável por tal trabalho era o Dr. João Vicente, que a época destes alarmes estava no município serrano de Martins. Na edição do periódico carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922, foi noticiado que o Dr. João “não podia trabalhar devido a ação dos cangaceiros e que o pessoal da serra estava pronto a reagir”.

MAS HOUVE ATAQUE?

Mesmo com todo exagero, o governador Antônio José de Mello e Souza, juntamente com o então chefe de polícia Sebastião Fernandes não perdem tempo na reação e tratam o assunto como uma verdadeira “situação de guerra”.

O chefe de polícia potiguar a época da crise
O chefe de polícia potiguar a época da crise

Convocam por decreto emergencial 100 praças para a força pública, promovem 2 sargentos a oficiais, despacham um grupo de policiais para seguir de navio até a cidade de Areia Branca, para depois seguirem a cavalo para fronteira. Com a ajuda do então IFOCS – Instituto Federal de Obras Contra as Secas (futuro DNOCS) mais de 100 militares serão enviados de caminhão ao interior. São feitas solicitações aos serviços de correios e telégrafos para a isenção de taxas para que os oficiais pudessem emitir telegramas da “frente de batalha”.

Na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1922, o governador Mello e Souza informa que recebeu que durante esta “crise”, mais de 100 despachos telegráficos vindos do interior. O próprio governador, tido como homem calmo e comedido, chegou ao ponto de reclamar que “até a cortesia sertaneja havia sido deixada de lado” naquelas solicitações de ajuda.

Apesar do estado limitadop desta fotografia, ela mostra oficiais da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, se preparando para seguir para o sertão para combater os cangaceiros que desejavam invadir o estado em 1922
Apesar do estado limitado desta fotografia, ela mostra oficiais da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, se preparando para seguir para o sertão e combater os cangaceiros que desejavam invadir o estado em 1922

Foram enviados policiais em tal quantidade que em Natal o efetivo policial foi classificado como “mínimo”, apenas para o essencial para a proteção do quartel da força pública e do presídio (Mensagem, RN, 1922, páginas 31 a 35).

Seja por conta das ações policiais praticadas pelos governos da Paraíba e da ação preventiva da polícia potiguar, ou por terem conseguido o que desejavam, o bando de Sinhô Pereira toma novamente o rumo do Ceará. Com a saída dos cangaceiros, pouco a pouco a situação volta a se normalizar. No dia 29 de março chega a Natal o Chefe de Polícia da Paraíba, Demócrito de Almeida, que vinha agradecer a ação da polícia potiguar e, juntamente com Mello e Souza e Sebastião Fernandes, acertarem as bases para ações de patrulhamento da fronteira (A Republica, pág. 1, Ed. 01/04/1922).

Nas edições do jornal “A Republica” e na própria Mensagem ao Legislativo de 1922, podem-se ler as respostas às críticas feitas a ação do governador Mello e Souza na proteção das fronteiras. Estas críticas comentavam principalmente sobre os gastos excessivos realizados pelo executivo estadual no deslocamento de tropas, em meio a grave crise financeira vivida pelo Tesouro do Estado.

Existem insinuações que a mobilização serviu para uma grande intimidação da classe política que se encontrava na oposição, devido a proximidade da eleição federal, além de mostrar quem estava no poder e quem mandava na Força Pública.

Mas enfim, os cangaceiros de Sinhô Pereira estiveram, ou não estiveram no Rio Grande do Norte em 1922?

Consta na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1922, que o governador Mello e Souza informou que estes cangaceiros ao seguirem em direção ao vizinho Ceará, teriam então realizado a única e verdadeiramente comprovada penetração em território potiguar. Foi quando realizaram um pequeno saque em Luís Gomes e passando nas imediações da Vila de Alexandria, sem, contudo esta localidade ser efetivamente atacada (Mensagem, RN, 1922, pág. 34).

Jornal carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922
Jornal carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922

Conforme podemos ver na reprodução da nota publicada na edição do periódico carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922, parece que estes cangaceiros estiveram no Rio Grande do Norte, mas não existem registros de saques em Patu, Alexandria e que a nossa polícia perseguiu a horda de meliantes até o Ceará.

UMA QUASE CONCLUSÃO…

Ao observamos estes episódios, é de se perguntar de onde vinha tamanho receio, ou medo, que as classes produtoras rurais potiguares tinham em relação aos cangaceiros? Até mesmo porque a marcante invasão do bando de Lampião ao Rio Grande do Norte só iria ocorrer cinco anos depois de todo a aquele pânico de 1922.

Sinhô Pereira (sentado) e seu primo Luiz Padre, dois grandes cangaceiros
Sinhô Pereira (sentado) e seu primo Luiz Padre, dois grandes cangaceiros

É certo que os produtores rurais estavam saindo de uma seca pesada e uma ação de cangaceiros em nada ajudaria a nossa já combalida economia rural. Mas não havia registro de grandes ações destes bandidos no Rio Grande do Norte desde a prisão do celebre Antônio Silvino em 1914.

No meu entendimento toda aquela movimentação foi na verdade uma combinação de receio das elites rurais com a chegada dos cangaceiros, acompanhado de exagerados equívocos de informações, tudo isso transmitido para a capital potiguar através de uma bem organizada linha de comunicação telegráfica, que encheu a mesa do governador de pedidos de ajuda contra bandidos que simplesmente não apareceram.

Tudo isso associado a uma tradicional posição destas mesmas elites rurais potiguares; a de não terem uma associação muito estreita com cangaceiros, fossem eles potiguares, ou principalmente de outros estados.

Os donos do poder do sertão potiguar, como até hoje acontece, jamais deixaram de ter uma parceria estreita com hordas de sanguinários pistoleiros, de gente execrável que mata exclusivamente por dinheiro. Que a soldo dos poderosos resolviam (e ainda resolvem) certos tipos de problemas. Mas a figura do cangaceiro, talvez pelo seu aspecto único de possuir determinado nível de autonomia em meio a estas elites, jamais teve dos coronéis do sertão potiguar muita guarida.

E ONDE ENTRA LAMPIÃO NESTA HISTÓRIA?

Ao realizar esta simples pesquisa, me veio o seguinte questionamento; e então o grande cangaceiro Lampião esteve no Rio Grande do Norte antes do ataque de Mossoró? Teria o Rei do Cangaço pisado solo potiguar antes de 1927? Teria ele atacado uma fazenda nos limites do nosso estado com a Paraíba e passado perto da Vila de Alexandria?

Sei que Lampião entrou no bando de Sinhô Pereira em 1921, mas daí a afirmar que ele e seus irmãos Antônio e Levino participaram destas ações, é complicado. Tem gente por aí que conhece muito mais desta história do que eu e pode responder.

Notícia do Diário de Pernambuco, edição de 17 de março de 1922, mostrando a presença de Sinhô Pereira e seus cangaceiros na Fazenda Feijão, Belmonte, Pernambuco. Logo ele deixaria o cangaço
Notícia do Diário de Pernambuco, edição de 17 de março de 1922, mostrando a presença de Sinhô Pereira e seus cangaceiros na Fazenda Feijão, Belmonte, Pernambuco. Logo ele deixaria o cangaço

Mas sei que nos primeiros dias de junho de 1922, no sítio Feijão, zona rural do município pernambucano de Belmonte, próximo a fronteira do Ceará, Sinhô Pereira informou aos membros do seu bando, que em breve iria entregar o comando a Lampião, então o seu melhor cangaceiro. Apesar de ter menos de 27 anos de idade, Sinhô alegou problemas de saúde para a sua decisão e que seguia um apelo do mítico Padre Cícero Romão Batista, da cidade de Juazeiro, Ceará, que havia lhe pedido para deixar esta vida bandida e ir embora para fora do Nordeste. A incursão de Sinhô Pereira e outros cangaceiros pelo interior da Paraíba teria tão somente o ensejo de arrecadar numerário para este chefe bandoleiro sair do sertão e só voltar em 1971, já idoso.

Lampião e seu irmão Antônio em Juazeiro, Ceará
Lampião e seu irmão Antônio em Juazeiro, Ceará

Vinte e dois dias depois de receber a notícia que a passagem de comando está próxima, Lampião efetivamente já é chefe de grupo. Neste momento começa a imprimir sua horrenda marca pelo Nordeste e vai se tornar o maior cangaceiro do Brasil.

Mas esta é outra história….

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

CHÁVEZ MORREU, E AGORA?

Hugo-Chavez

Brena Queiroz – Estudante de Jornalismo – UFRN

Fonte – http://serjornalinda.wordpress.com/2013/03/05/chavez-morreu-e-agora/

Se eu hoje não fosse uma estudante do curso de comunicação, eu deixaria esse assunto pra lá… Mas como hoje sei que é preciso ter opinião pra tudo (o que é meio infeliz de vez em quando),  dei uma estudadinha em Hugo Chávez e vim nesse post falar da trajetória desse ditador que divide opiniões, além de expressar minha opinião no final, me baseando no que li.

Hugo subiu ao poder em 1988 (assumindo em 99) e mudou as diretrizes governamentais na Venezuela, impondo um governo de esquerda e nada liberal.  O que ele chamou de Revolução Bolivariana foi interpretado por “socialismo do século XXI”, que mantinha uma relação  nada amigável com as nações desenvolvidas, principalmente com os Estados Unidos. Chávez era contra o capitalismo e polemizou em suas desavenças. Ele se inspirava, principalmente, no líder cubano Fidel Castro e sua ideologia tinha  como objetivo “unir a democracia participativa com um partido civil-militar de esquerda”. Bem inteligente.

Uma de duas primeiras medidas ditatoriais foi a criação de uma lei que permitia ao presidente governar o país por um ano e criasse decretos sem intervenção da Assembleia. Huguinho usou e abusou do seu poder e criou, logo de cara decretos radicais e nacionalistas que deixaram a sociedade venezuelana bolada. Outra mudança na Constituição foi a possibilidade dele poder ser reeleito, além do aumento do mandato, que antes era de 5, para 6 lindos anos de puro amor.

Teve gente que tentou mudar isso. Em uma tentativa de golpe de Estado, Chávez foi sequestrado por aproximadamente dois dias. Quando foi solto, voltou mais “bonzinho” ainda e intensificou a força da sua ditadura, o que fez com que a insatisfação aumentasse e que greves surgissem com o intuito de interromper seu mandato. O que não deu certo. Em 2002, pelo menos 15 pessoas morreram nos embates entre as frentes políticas. Uma nova tentativa de Golpe de Estado foi feita, também fracassada. Foi até anunciado que Chávez, no momento preso, renunciaria o cargo. Mas no outro dia a mensagem foi desmentida e ele voltou para assumir o comando. (Posso até ter me enrolado, mas o importante é saber que o governo do camarada foi cheio de idas e vindas nada agradáveis).

20126121855318734_20

Em 2003, fez-se uma consulta popular sobre sua permanência no poder e mais de 50% concordou que o Hugo administrasse a Venezuela até o fim do mandato. As eleições chegaram e Huguinho foi reeleito.  [O incrível é analisar o grau de insatisfação e perceber que o cara foi reeleito. Era estranho até eu achar isso nas internets da vida http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=b7o780KbHWM e ler que o adversário Manuel Rosales foi processado por enriquecimento ilícito].

O seu terceiro mandato, 2007, foi mais tranquilo porquê não havia oposição no Congresso. Chávez conseguiu ampliar seus poderes e seus decretos até que uma reforma (sobre esses poderes) na Constituição  foi proposta e submetida ao veredicto da população. Os venezuelanos se posicionaram contra e Chávez foi pra frente da TV anunciar que acatava a decisão da galera.  Por falar em veículos de comunicação, devo dizer que Huguinho não foi nada gentil com a imprensa. É só lembrar da ditadura no Brasil e pensar em algo semelhante. “O governo expandiu drasticamente sua capacidade de controlar o conteúdo das transmissões e da cobertura de notícias no país. Ele (Chávez) ampliou e reforçou as multas por discursos que “ofendam” funcionários do governo, proibindo a transmissão de mensagens que “gerem ansiedade no público” e permitindo a suspensão arbitrária de canais de TV, emissoras de rádio e websites”. Massa.

Para terminar essa aula de história, é válido lembrar que em 2009 a “Venê” passou por uma crise energética onde Chavinho propôs que a população tomasse menos banho para economizar água e energia (imagina isso no Brasil?!) e que ano passado, saudoso 2012, o falecido – que já estava com câncer há pelo menos 1 ano e meio – ganhou as eleições “mais acirradas dos últimos tempos”. Todos sabem que ele não conseguiu tomar posse por já estar debilitado, e que ele morreu com 58 anos devido ao câncer (óbvio) e a umas complicações das cirurgias. Enfim. Para quem não sabia nada de Chávez, esse texto deve ter ajudado. Mas vamos lá!

17set2012---presidente-venezuelano-e-candidato-a-reeleicao-hugo-chavez-cumprimenta-eleitores-durante-comicio-realizado-em-caracas-as-eleicoes-no-pais-estao-marcadas-para-7-de-outubro-1347931153507_1920x1080

O que vou falar de Chávez quando me perguntarem sobre isso tudo?

Primeiro vou agradecer por não ter nascido na Venezuela. Segundo tenho que dizer que procurei pela internet “elogios ao governo de Hugo Chávez” e só encontrei  que ele foi importante nas negociações de paz entre o governo colombiano e as Farc (ajudou a mediar a libertação de seis reféns).  Em terceiro, vou dizer que não sou venezuelana pra falar com convicção sobre, mas que percebi que, se Hugo tinha algum propósito bom por trás disso tudo, eu não consegui reconhecer e ele não soube fazer da maneira que era pra fazer. Sou contra a ditadura, principalmente quando se fala da falta da liberdade de expressão (qual a graça de ser jornalista nesses lugares?). Acho que esse estilo de governo se torna ultrapassado quando começa a desandar a relação da sociedade dentro de seu próprio território. A Venezuela pode ter ganhado pontos bons com esses anos, mas também perdeu muitos. E, mesmo com a morte do ditador, fala-se que o país não mudará muito. E essa é a parte que vou custar a entender. Parte da população reclama por anos e quando tem a oportunidade de virar o jogo, ainda ficam nessa? Agora o que se tem a fazer é esperar pelo sucessor e torcer para que a Venê cresça e recupere o que se perdeu.

E é nessas horas que  a gente agradece pelo Brasil-sil-sil que temos. Oh pátria amada, idolatrada, salve salve! s2

AS BELEZAS SUBTERRÂNEAS DE JANDAÍRA – POSSIBILIDADES DE CRIAÇÃO DE UM ROTEIRO TURÍSTICO QUE UNE MAR E SERTÃO

543799_405697489520996_1805232504_n

 Um Roteiro Que Une Mar e Sertão, Sertão e Mar!

Autor – Rostand Medeiros

Fotos – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais

Recentemente, a convite do amigo Ricardo Sávio, estivemos revendo as cavernas e a grande área de afloramento de calcário localizado ao norte da área urbana de Jandaíra. Conheço esta região desde 1987 ou 1988 e vale a pena cada retorno para vivenciar esta natureza sertaneja!

Jandaíra, município localizado na Região do Mato Grande, Rio Grande do Norte, está a cerca de 117 quilômetros da capital potiguar, sendo atravessado pela BR 304, rodovia que liga Natal a regiões de grande e tradicional atratividade turística, tanto a nível regional como nacional, como é o caso da bela praia de Galinhos.

312410_405697459520999_974467773_n

O município de Jandaíra apresenta diversas áreas com ocorrência de cavidades naturais, sendo que sua caracterização geológica constitui-se pela Formação Jandaíra, Grupo Apodi, correspondendo a uma sequência carbonática que mergulha suavemente em direção à costa atlântica. Essa gênese carbonática, favorece a ocorrência de cavernas, dolinas e ravinas em vários pontos do município, servindo como áreas de pousio e reprodução de aves, répteis e mamíferos, típicos da Caatinga e importantes agentes polinizadores e difusores de sementes deste Bioma.

Afloramento de calcário de Jandaíra
Afloramento de calcário de Jandaíra

Contudo, Jandaíra não tem utilizado este fator como elemento de desenvolvimento, principalmente pela falta de atrações e infraestrutura que possam despertar o interesse de visitação turística, tanto para entretenimento, como também para turismo escolar, científico ou de aventura.

Mas tem muito que mostrar, como vemos nas imagens do grande afloramento de calcário aqui apresentadas pelas lentes do amigo e fotógrafo Ricardo Sávio.

397974_405697516187660_1663115817_n

Temos neste local a interessante e crua beleza típica da caatinga, em uma área de fácil acesso, a pouco mais de um quilômetro do município de Jandaíra.

Sem dúvida este local poderá ser uma ótima opção para complementar o turismo que atualmente se destina, com extremo sucesso, para a região de Galinhos.

Para quem não conhece a geografia potiguar, pode parecer um tanto estranho à ideia de levar turistas para uma parada destinada a conhecer a caatinga, cavernas e depois levá-los para um dos melhores pontos do nosso litoral.

601046_405697416187670_1934238429_n

Mas ao mesmo tempo, já pensaram que contraste interessante!

Não podemos esquecer que é no Rio Grande do Norte, o estado nordestino onde proporcionalmente a caatinga possui a maior cobertura em termos territoriais, que este Bioma praticamente alcança a beira mar!

Em todo o Brasil isso só acontece aqui!

74688_405697386187673_2052116731_n

A caatinga, com todos os seus aspectos característicos, é única no mundo e só em terras potiguares poderíamos imaginar um roteiro que unisse mar e sertão, sertão e mar!

Evidentemente que um tipo de roteiro como este tem (e deve) ser minuciosamente elaborado. A caatinga tem suas belezas, mas igualmente possui características que se não forem bem analisadas, podem não ser tão confortáveis aos visitantes.

Já em relação às cavernas, estas então é que necessitam de um cuidado extremo. Pois são ambientes frágeis, algumas delas com uma fauna extremamente delicada e rara, que não suportariam uma visitação desordenada.

Detalhes que mostram que o sertão já foi mar
Detalhes que mostram que o sertão de jandaíra já foi mar

Em relação aos visitantes tem de ser realizado todo um trabalho informativo, de preparação em relação ao ambiente a ser visitado, utilizando elementos da educação ambiental, além de cuidados com o bem estar dos turistas e outros aspectos importantes.

Como comentamos anteriormente, as cavernas do município de Jandaíra têm atraído, de maneira informal e desordenada visitantes do próprio município, de municípios vizinhos e até mesmo de Natal, curiosos por conhecer a mística das cavernas, impregnados no imaginário popular.  Além disso, há ainda a utilização das cavernas como áreas de diversão, por parte de parcela da comunidade local, promovendo piqueniques e momentos de lazer em seu entorno.

598835_405697079521037_117874707_n

A área de afloramento de calcário de Jandaíra, aqui apresentada nas fotos de Ricardo Sávio, compreende grande parte das cavidades naturais existentes no município, estando estas ameaçadas pela mineração clandestina e desmatamento indiscriminado. 

A atividade turística pode oferecer uma alternativa a estas atividades degradadoras, implicando em impactos positivos sobre o meio ambiente, ao mesmo tempo em que oferece meios para melhorar as condições de vida da população local.

556564_405697196187692_362880407_n

Como no caso dos jovens Hyurann Oliveira e Jan Pierre Martins, que estiveram conosco nesta visita. Estes jovens moram em Jandaíra, amam as cavernas do seu lugar e eles amanhã poderiam, ou não, sobreviverem da atividade turística em sua própria região!

601321_405697319521013_2123964561_n

Durante a nossa visita, o amigo e jornalista Everton Santos, ficou verdadeiramente encantado com o que viu e, junto com Ricardo, debatemos bastante sobre a utilização positiva desta área de cavernas.

Percebemos que a ausência um planejamento tecnicamente embasado, orientado para utilização turística e de uma infraestrutura capaz de receber os visitantes, tem feito com que esse patrimônio natural esteja submetido à ação de degradação, visto a quantidade de lixo presente na área, à presença de resíduos orgânicos humanos (fezes e urina) e a depredação do patrimônio espeleológico, que varia desde a pichação das paredes e a retirada criminosa de espeleotemas (cortinas, estalactites, estalagmites etc.), mostrando a necessidade de algo que regulamente e regule a interação entre aproveitamento turístico e conservação dos recursos naturais, fazendo surgir um novo arranjo produtivo local, com bases sustentáveis.

Nada impede que se possa estudar com seriedade este processo e analisar a viabilidade de sua execução.

Final do trabalho e vamos voltar...
Da esquerda para direita Hyurann, Jan, Rostand, nosso grande Joaquim, Everton e Ricardo. Final do trabalho e comn certeza vamos voltar…

Mapa da região de Jandaíra e sua proximidade a Galinhos e o mar
Mapa da região de Jandaíra e sua proximidade a Galinhos e o mar

A PRIMEIRA FOTO DE UM SER HUMANO

O primeiro ser humano fotografado
O primeiro ser humano fotografado

Robert Cornelius era um jovem estudante de química e metalurgia. Quando concluiu seus estudos foi trabalhar com a família, por volta de 1831. Especializou-se em revestimento de prata e polimento de metal.

Por ostentar a fama de ser um grande químico, foi procurado por Saxton para fazer uma placa para seu daguerreotipo, e então surge seu interesse pela fotografia. Tanto, que largou o trabalho com seu pai para se dedicar ao aprimoramento de técnicas fotográficas.

A foto acima é considerada a primeira tirada de um ser humano, um autorretrato ao lado da loja de sua família em 1839. A imagem com os braços cruzados e os cabelos desgrenhados eram algo de pura rebeldia para a época.

QUANDO AS PEDRAS CAÍRAM DO CÉU NO RIO GRANDE DO NORTE

Casos de Quedas de Corpos Celestes no Rio Grande do Norte

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

O Rio Grande do Norte, desde que a sua história passou a ser registrada através de documentação escrita, guarda poucos informes de fatos naturais que, de tão incomuns, marcaram o momento em que ocorreram, fazendo com que os homens do passado registrassem para a posteridade estes acontecimentos insólitos.

Um dos fenômenos naturais incomuns que mais chamavam a atenção dos antigos habitantes das terras potiguares eram os tremores de terra. Comuns até os dias atuais, estes acontecimentos geológicos ocorrem principalmente na região da antiga Baixa Verde, atual município de João Câmara. Desde o final do século XVIII, antigos cronistas já registraram a impressão que os tremores deixaram junto aos antigos habitantes. Quem está na faixa dos 30 anos de idade, certamente deve se lembrar do terremoto ocorrido em 1986, que abalou a região, alcançando a magnitude de 5.3 na escala Ritcher e que marcou profundamente a história potiguar e chama a atenção dos geólogos.

Se ocasionalmente os potiguares sentem o solo tremer, muito mais raros são os registros de bólidos vindos do céu, de meteoros despencando com estrondo na nossa região. Entretanto, estes fenômenos já ocorreram.

Uma chuva de meteoritos em Macau

Nos anais do VIII Simpósio de Geologia do Nordeste, realizado em 1977, em Campina Grande, Paraíba, encontramos o resumo de uma pesquisa realizada pelos geólogos brasileiros Celso de Barros Gomes, da USP (Universidade de São Paulo), W. S. Crurvello, do Museu Nacional do Rio de Janeiro acompanhado dos cientistas norte-americanos K. Kiel, da Universidade do Novo México e E. Jarosewich, do Instituto Smithsonian, de Washington, que estiveram na região de Macau e Açu, em busca de restos de um meteorito, que caiu do céu no dia 11 de novembro de 1836.

A queda deste bólido ocorreu ás cinco da tarde, nas imediações da foz do rio Açu, em uma área territorial que então pertencia ao município de Macau. Segundo os relatos da época devido ao impacto no solo, morreram algumas vacas e a queda do objeto celeste foi acompanhada de um forte clarão e ribombos. Aparentemente o meteorito se fragmentou em vários pedaços, alguns maiores e outros tocaram o chão no formato de uma chuva de pequenas pedras. Fontes pesquisadas por estes cientistas relataram que o clarão produzido pela queda deste meteoro foi visto por uma embarcação que se encontrava a 324 milhas náuticas, ou cerca de 600 quilômetros de distância, da costa potiguar. Consta que os tripulantes relataram a passagem do objeto seguindo em direção a costa, que não era visível aos tripulantes a esta distância.

Durante as pesquisas de campo, foram encontrados restos do meteorito, que foi recolhido e transportado para o sul do país, onde análises detalhadas apontaram a existência principalmente de ferro-níquel na sua composição.

O resumo deste trabalho científico não informa de qual fonte histórica provinham estes dados, mas aparentemente este é o primeiro relato conhecido, descrevendo a queda de meteoritos no Rio Grande do Norte.

Um juiz informa a queda de um meteorito em Açu

Dezenove anos depois, coincidentemente a mesma região anteriormente atingida seria o local da queda de outro meteorito.

Na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, volume XIV, de 1916, encontra-se a transcrição de um documento datado de 28 de agosto de 1855, produzido pelo então juiz de direito de Açu, João Valentim Dantas Pinagé, que informa ao então Presidente da Província, Antônio Bernardo dos Passos, que ele estava enviando a capital da província algumas amostras de um meteorito que havia caído na região de Açu. Informava o magistrado que as amostras apresentadas pesavam juntas “duas arroubas”, equivalente a 30 quilos, e sua queda havia deixado o povo da região assombrado com o fato que aquelas rochas “pudessem vir do céu”.

Aldeões e agricultores indianos posam em 2019 ao lado de uma cratera de meteorito 
(AFP / Getty Images)Fonte – https://www.independent.co.uk/news/science/india-meteorite-bihar-nasa-farmers-mahadeva-a9020716.html

O juiz informava que o objeto foi visto desde as “praias”, provavelmente entre as áreas territoriais dos atuais municípios litorâneos de Guamaré, Macau e Porto do Mangue, e por outros locais da Comarca de Açu. Durante a sua queda, o meteorito foi visto vindo da direção nordeste, seguindo em descendente na direção sudoeste e sendo testemunhado por várias pessoas na região.

Infelizmente o juiz Pinagé não informou exatamente a data do ocorrido, nem o local exato do impacto, mas indica que recebeu as amostras que remetia para Natal “quatro dias depois da passagem do meteoro”.

Tarcísio Medeiros, em seu ótimo livro “Aspectos geopolíticos e antropológicos da história do Rio Grande do Norte”, comenta sobre este fato.

Um “corisco” assombra Santana do Matos

Quarenta e dois anos depois, no dia 8 de abril de 1897, a primeira página do jornal “A Republica”, estampava uma nota intitulada “Aerólito”, onde uma “pessoa de fé, ultimamente chegada do sertão”, informava que no dia 21 de março, um domingo, pelas cinco e meia da tarde, foi visto por diversas pessoas, tanto na área urbana e na zona rural da pequena Santana do Matos, um objeto incandescente, em formato de um ”globo brilhante caindo do céu”.

“A Republica”, 8 de abril de 1897.

As testemunhas comentaram que durante a queda o objeto se mostrava extremamente luminoso e soltava fagulhas. No impacto, segundo o informante, o estrondo foi ouvido a uma distância de oito léguas, equivalente a cinquenta quilômetros. O fenômeno natural chamou a atenção de todos, tendo um grupo de pessoas se deslocado ao ponto onde ocorreu à queda.

Segundo a nota, o impacto se deu na região da “serra de São João”, a sudeste da sede do município de Santana do Matos, onde as pessoas do lugar informaram que um grande “bálsamo”, provavelmente alguma árvore frondosa, fora reduzida a “estilhaços”, mas nenhuma parte do “aerólito” foi encontrado.

A não existência de uma cratera de impacto, que houvesse deixado uma marca mais permanente no solo da região, deixa a entender que o bólido poderia ser classificado como um meteorito de pequenas dimensões. Provavelmente durante a queda, com o atrito junto à atmosfera terrestre, esta rocha foi perdendo massa, criando fagulhas e ao tocar o solo teve força suficiente apenas para destruir esta possível árvore frondosa. O que de toda maneira causou um tremendo espanto aos habitantes da região.

No final do século XIX, ainda era comum a utilização por parte da imprensa do termo aerólito, em detrimento a meteoro ou meteorito. Para o homem simples do campo, e a nota registra isto, a pedra caída do céu era tão somente um “corisco”.

Extremamente econômico na discrição, o relato não cita fontes, nome do informante e outras informações mais apuradas. Mas tudo indica que o local da queda seja localizado no município de Jucurutu, próximo a fronteira com Santana do Matos, na área da fazenda conhecida como “São João”, ou “Saco de São João”, onde existe uma serra homônima.

Um corpo celeste ilumina a noite de Caraúbas

Passados seis anos da queda deste meteorito, o Rio Grande do Norte, foi novamente “visitado” por outra rocha vinda do céu. Na edição do jornal “A Republica”, de 23 de outubro de 1903, o correspondente baseado na cidade de Caraúbas, remeteu uma série de notícias referentes ao município. Entre estas constam informes da seca que assolava a região e sobre o benemérito trabalho do senhor Benevenuto Simões, em perfurar poços na busca do precioso líquido. Em meio a notas políticas, sobre casamentos e de viagens de membros da elite local ao Rio de Janeiro, uma pequena nota, novamente intitulada “Aerólito”, informava ter sido “nossa vila espectadora de um lindo drama”.

“A Republica”, 23 de outubro de 1903.

Por volta das nove horas da noite do dia 30 de setembro, uma quarta-feira, foi visto um brilhante meteorito que percorreu todo o firmamento, deixando um rastro luminoso em sua queda e produzindo uma forte iluminação sobre a pequena cidade. O bólido foi visto vindo da direção sudoeste, seguindo descendentemente na direção oeste, e que após cinco minutos produziu um forte estrondo.

Devido à diferença de tempo entre a visualização do meteorito e o estrondo produzido pelo impacto, partindo do princípio que o correspondente calculou corretamente o tempo, este bólido caiu em uma área distante da sede municipal e a nota do jornal não especifica o ponto exato da queda.

Mesmo sendo um fenômeno raro, chama a atenção à economia de informações do correspondente, onde é mais provável que o mesmo não tenha sido testemunha direta dos fatos, anotando informações prestadas por terceiro, mas nada mais sobre este fato foi comentado.

Os meteoritos

Os meteoritos são classificados de fragmento de um meteoroide que resistiu ao impacto com a atmosfera e alcançou a superfície da Terra ou de outro planeta antes de se consumir. Eles podem ter desde poucos quilos e dimensões mínimas a serem pesadas pedras voadoras de várias toneladas. Quase todos os meteoritos são fragmentos procedentes dos asteroides ou cometas. Podem ter em suas composições minérios como ferro-níquel, silicatos ou ferro metálico. Os meteoritos têm geralmente uma superfície irregular e uma camada exterior carbonizada, fundida. Todos os dias a terra é bombardeada por uma chuva de pedras vindas do espaço, a maioria são inofensivos micrometeoritos. Acredita-se que por ano, caiam sobre a terra seis toneladas de rochas.

Os maiores meteoros, quando se chocam com a Terra, sempre deixam suas marcas, criando crateras profundas.

Acredita-se que o maior meteorito que atingiu a atmosfera da terra, mas sem comprovação definitiva, ocorreu no dia 30 de junho de 1908, na bacia do rio Podkamennaya Tunguska, a 64 quilômetros ao norte de Vanavar, na Sibéria, Rússia. Acreditam os cientistas que um meteorito de 30 metros de comprimento, explodiu a 10 quilômetros de altitude, tendo produzido uma onde de choque sentida a mais de 1.000 quilômetros de distância. O maior meteorito conhecido, que se chocou contra a superfície terrestre, foi encontrado em Hoba West, próximo a Grootfontein, na Namíbia, África, com 59 toneladas.

Estima-se que ao longo de 600 milhões de anos, o planeta Terra tenha sido atingido em mais de duas mil ocasiões por asteroides de grande peso. A maior cratera do mundo, comprovadamente criada pela queda de um meteorito, é chamada Coon Butte, ou Cratera Barringer, localizada próximo à cidade de Winslon, Arizona, nos Estados Unidos.

Pedra de Bendegó

Em 1784, no sertão da Bahia, próximo a região de Canudos, caiu próximo a uma serra, um meteorito de 5.360 quilos, conhecida como Pedra de Bendegó. Este corpo celeste, com muito sacrifício, foi transportado em 1888 para o Rio de Janeiro e encontra-se até hoje exposto no Museu Nacional. Contudo, cientistas descobriram que o maior meteorito que já tocou o solo brasileiro, ocorreu na divisa entre Goiás e Mato Grosso, é conhecido como “Domo de Araguainha”, deixou uma marca na forma de uma cratera de 40 quilômetros e este impacto ocorreu à cerca de 350 milhões de anos.

Os impactos ocorridos no Rio Grande do Norte e aqui relatados, certamente não foram os únicos casos de impacto destes corpos celestes em solo potiguar, que apesar de possuir uma superfície territorial pequena, não está isento de receber novas “visitas celestes”.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

O ALEMÃO QUE NÃO FEZ A SAUDAÇÃO NAZISTA – QUANTOS DE NÓS TERÍAMOS A MESMA CORAGEM?

No destaque vemos  August Landmesser sem realizar a saudação nazista, em uma solenidade onde o próprio Hitler estava presente
No destaque vemos August Landmesser sem realizar a saudação nazista, em uma solenidade onde o próprio Hitler estava presente

Autor – Rostand Medeiros

Hamburgo, Alemanha Nazista, 1936, uma multidão de pessoas se reuniu em um estaleiro para assistir ao lançamento do navio-escola da marinha SSS Horst Wessel, em que o próprio Adolf Hitler estava presente. Enquanto centenas levantavam obedientemente seus braços em uníssono na saudação nazista, um homem na parte de trás da multidão ficou com os braços cruzados sobre o peito e apertando os olhos para quem estava fazendo a saudação.

Esta figura era desconhecida até 1991, quando a sua famosa foto foi publicada em 22 de março, no jornal alemão “Die Zeit”. Logo uma de suas filhas o identificou como sendo August Landmesser, um trabalhador do estaleiro Blohm + Voss, da cidade de Hamburgo.

August Landmesser
August Landmesser

Landmesser, nascido em 24 de maio de 1910,  foi inclusive membro de carteirinha do Partido Nazista, onde entrou em 1931 na esperança de conseguir um emprego, mas tinha uma razão muito pessoal para não fazer mais a infame saudação. No verão de 1935, de acordo com o “Nürnberger Gesetze” (“Leis de Neuremberg”), o Estado nazista proibia Landmesser, como um não judeu, a se casar com Irma Eckler, a sua amada companheira.

Consta que a condição de judia de Irma não era totalmente correta. Seu pai, Arthur Eckler, nasceu da união de uma mãe judia e um pai não judeu. Com a morte de seu pai, seu padrasto conseguiu convencer Irma, sua mãe e suas irmãs a se converterem ao protestantismo e serem batizadas. Mas para o regime de Hitler a jovem Irma era uma judia.

Irma Eckler
Irma Eckler

Independente disso o casal seguiu adiante na sua luta para continuarem unidos. Em 29 de outubro de 1935 nasceu a primeira filha, chamada Ingrid. Em 1937 a família tentou fugir para a Dinamarca, mas Landmesser foi preso e se tornou conhecido que Irma estava grávida.

Landmesser então foi acusado pelas leis nazistas de “desonrar a raça”. Ele argumentou que não sabia se Irma era totalmente judia e foi absolvido por falta de provas em 27 de maio de 1938. Mas com o aviso de que uma reincidência resultaria em uma pena de prisão de vários anos.

Mesmo com o perigo a espreita, Landmesser e Irma continuaram seu relacionamento publicamente e esta atitude foi fatal.

No dia 15 de julho de 1938 ele foi novamente preso por ter se apaixonado e condenado há dois anos e meio em regime fechado. Entre as peças de acusação estava a foto que se tornaria famosa. Landmesser cumpriu a pena no campo de concentração de Börgermoor, onde os presos foram usados ​​para o trabalho forçado em fábricas de armamento e estaleiros.

Já Irma foi detida pela Gestapo e colocada na prisão de Fuhlsbüttel, em Hamburgo, onde ela deu à luz uma segunda filha, Irene. De lá ela foi enviada para o campo de concentração de Oranienburg, depois para o campo de Lichtenburg e em seguida campo de concentração das mulheres de Ravensbrück.

Ficha de Irma
Ficha de Irma

Suas filhas foram inicialmente levadas para o orfanato da cidade de Hamburgo. Ingrid mais tarde foi autorizada a viver com uma avó e Irene foi adotada por outra família. Algumas cartas de Irma Eckler chegaram até suas filhas em janeiro de 1942. Acredita-se que Irma foi levada para o chamado Centro de Eutanásia de Bernburg em fevereiro de 1942, onde ela foi morta na câmara de gás junto com outras 14 mil pessoas.

Landmesser foi libertado em 1941 e viveu como capataz de uma fábrica. Mas em fevereiro de 1944 ele foi convocado para servir no batalhão penal Bewaehrungsbattalion 999 (uma unidade do exército alemão formada por ex-criminosos). Foi declarado desaparecido em ação e supostamente morto durante combates ocorridos na Croácia, em 17 de outubro de 1944.

Landmesser, Irma e suas filhas
Landmesser, Irma e suas filhas

Irene Eckler publicou em 1996 o livro “Die Vormundschaftsakte 1935-1958:einer Familie Verfolgung wegen Rassenschande”, onde conta a história da destruição de sua família pelas leis racistas da Alemanha nazista. Publicado em alemão e em inglês, obteve grande sucesso na Alemanha e em outro países da Europa.

A autora buscou familiares da sua mãe que tivessem sobrevivido a guerra para descobrir o máximo que pudesse acerca do seu passado e esteve nos tribunais locais em busca de documentos. O livro inclui uma grande quantidade de fotos de materiais originais, como cartas de sua mãe e documentos de instituições estatais.

Quando eu olho para a fotografia de August Landmesser, eu vejo um homem que se recusou a realizar um nefasto gesto coletivo e, assim, optou por não ficar em silêncio e viver junto de quem amava.

August Landmesser em momentos mais aprazíveis
August Landmesser em momentos mais aprazíveis

Tenho certeza de que no meio da multidão naquele dia, havia muitos mais que desejariam não realizar aquela saudação infame, mas não tiveram a coragem de repetir o mesmo gesto de Landmesser. Quase oitenta anos depois é fácil ser crítico de todos aqueles que são vistos saudando. Mas isso é uma reação simples.

Mais instrutivo é olhar no espelho e se perguntar: “Qual tipo de sacrifício eu realmente faria por quem eu amo?”.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

ELES DESONRARAM A FARDA DA FEB

Adão Damasceno Paz e Luís Bernardo de Morais, assassinaram e estruparam envergando o uniforme da FEB
Adão Damasceno Paz e Luís Bernardo de Morais, assassinaram e estruparam envergando o uniforme da FEB

A HISTÓRIA DE DOIS PRACINHAS QUE QUASE FORAM PARA O

PELOTÃO DE FUZILAMENTO POR HOMICÍDIO E ESTUPRO

Autor – Rostand Medeiros

Na atualidade, passados mais de sete não décadas do fim da Segunda Guerra Mundial, a visão que a maioria do povo brasileiro possui da FEB – Força Expedicionária Brasileira, e de sua ação nos campos da Itália é muito positiva.

Primeira e até hoje única força de combate latino-americana a lutar de maneira efetiva , abrangente e com grande número de militares em solo europeu. A ação da FEB está registrada em inúmeros livros de memória, documentários e filmes que enaltecem a participação de simples brasileiros, a maioria deles saídos dos campos de um país ainda prioritariamente agrário, para combater no maior conflito da história da humanidade.

FEB1

Aqueles que lá estiveram merecem ter por parte dos familiares, amigos, das autoridades e de todos os brasileiros o amparo, apoio e atenção pelo que fizeram nos campos de combate.

Mas nem todos cumpriram com o seu dever.

SEGUINDO PARA A GUERRA

Em 1942, em meio aos vários afundamentos ocasionados pela ação de submarinos alemães e italianos e a mortes de muitos brasileiros, o sentimento provocado por estas tragédias fez com que o povo apoiasse sem contestação a ida de nossas tropas para lutar contra os nazifascistas.

Manchete comum na época da guerra e que revoltava o povo brasileiro
Manchete comum na época da guerra e que revoltava o povo brasileiro

Homens e mulheres de várias partes do país foram convocados e aceitaram o compromisso de envergar o uniforme das nossas forças armadas para ombrear-se com outras nações aliadas pelo fim do conflito.

Muitos jovens, que anteriormente sequer conheciam algo além da vila mais próxima da fazendinha em que viviam com seus familiares, que utilizavam a enxada como instrumento de trabalho e o chapéu de palha para se protegerem do sol, foram deslocados para outras terras, onde existiam outros sotaques e outros pensamentos. Lá vislumbraram novos horizontes, receberam o fuzil para realizar o seu novo ofício e colocaram o capacete de aço na cabeça.

Essa situação, extremamente comum dentro das fileiras da FEB, se repetiu com Adão Damasceno Paz e Luís Bernardo de Morais, ambos agricultores e oriundos respectivamente da regiões rurais das cidades gaúchas de Santiago e São Borja.

O presidente Vargas visita soldados brasileiros no navio transporte que os levou a Itália
O presidente Vargas visita soldados brasileiros no navio transporte que os levou a Itália

Eles seguiram para o Rio de Janeiro, então capital do país, onde iniciaram um forte e pesado treinamento, aguardando o momento de embarcarem para além mar. Nos momentos de folga os dois rapazes seguiam a conhecer as belezas e o mundo novo que existia na cidade maravilhosa.

Em 2 de julho de 1944, Adão e Luís estavam dentro de um enorme navio como membros do primeiro escalão da FEB e junto a eles estavam milhares de pracinhas vindos de todas as partes do país.

PROTEÇÃO DO GENERAL MASCARENHAS DE MORAIS

Não sei se os dois agricultores se conheceram ainda no seu estado de origem, apesar das suas cidades serem muito próximas, ou no campo de treinamento no Rio, ou ainda no navio transporte que os levou a Itália. Mas na pátria de Dante Alighieri, aonde chegaram a Nápoles no dia 16 de julho de 1944, consta nas informações apuradas que os dois homens foram designados para uma função na FEB que muitos consideravam de extrema honra e importância. Eles ficaram lotados no Pelotão de Defesa do Quartel General, compondo a guarda pessoal do comandante da 1ª Divisão de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira, o general João Batista Mascarenhas de Morais.

Juntos na Itália os generais Mark Clark (esq.) e Mascarenhas de Morais (dir.)
Juntos na Itália os generais Mark Clark (esq.) e Mascarenhas de Morais (dir.)

Segundo a narrativa dos dois ex-militares, que se encontra na edição da “Revista da Semana”, de 16 de julho de 1949, trabalhar na proteção do general Mascarenhas de Morais não era tarefa fácil, pois o comandante estava sempre em deslocamento por toda área de atuação das FEB no norte da Itália.

A todo o momento aconteciam deslocamentos do general, onde durante quatro meses, nas próprias palavras de Luís Bernardo de Morais, os dois rapazes protegeram o general Mascarenhas em suas viagens a linha de frente. Para eles era muito fatigante, pois “o general não parava”.

O general Mascarenhas de Morais recebendo frutas de uma camponesa italiana
O general Mascarenhas de Morais recebendo frutas de uma camponesa italiana

A reportagem de 1949 não comenta nada disso, mas devido à atividade a qual Adão e Luís estavam designados, acredito que eles não entraram efetivamente em combate contra as forças nazifascistas.

Até porque ao general Mascarenhas cabia à função de comandar sua tropa, recebendo ordens do general norte-americano Mark Clark, então comandante do 5º Exército, força militar aliada a qual a nossa FEB estava subordinada na Itália. Não cabia ao general comandante da Força Expedicionária Brasileira se expor desnecessariamente as balas inimigas, ou arriscar uma desastrosa captura e criar sérios entreveros a participação brasileira naquele cenário.

A VERSÃO DOS CRIMINOSOS PARA A IMPRENSA 

Em meio a estas andanças, em um dia de folga, segundo eles “Lá pelos lados de Porretta”. Informaram também que passaram dos limites no consumo de álcool, que era franco e facilmente encontrado. Alterados pela bebida, os dois rapazes se sentiram estimulados a procurarem mulheres e saciarem suas vontades sexuais.

Capa da Revista da Semana onde está a reportagem sobre o caso - Fonte - BN
Capa da Revista da Semana onde está a reportagem sobre o caso – Fonte – BN

Na reportagem da “Revista da Semana”, Adão e Luís comentam que a miséria na Itália era intensa e a fome grassava impiedosamente entre os seus habitantes. Premidas pela necessidade, segundo os dois pracinhas, as moças italianas davam preferência aos soldados norte-americanos, mais ricos e com mais comida.

Afirmaram que havia uma casa onde eles sabiam que havia “jovens italianas” que saiam com soldados da U.S. Army. Alterados e encorajados pela bebida, os dois brasileiros foram em busca das jovens, desejosos de receberem os mesmos favores que eram dispensados aos estadunidenses.

Tropas americanas junto a população civil italiana durante a Segunda Guerra
Tropas americanas junto a população civil italiana durante a Segunda Guerra

Na matéria os dois soldados pareceram ficar particularmente irritados com a atitude dos soldados gringos, que passavam acintosamente na frente dos militares brasileiros, levando mais de uma destas mulheres. Percebe-se que eles tinham uma certa inveja dos americanos.

A reportagem não diz o número exato de mulheres que estavam no local, mas informa que os dois soldados brasileiros entraram na casa a noite, armados de submetralhadoras.

Surpresas, as italianas não tiveram como reagir e durante meia hora os brasileiros praticaram várias sevícias contra elas.

Enquanto um montava numa das vítimas o outro ficava de guarda. Nisso Luís ouviu um barulho, saiu para ver o que ocorria e percebeu o vulto de um homem que se aproximava. Em meio gritaria que se formou, ele apagou as luzes do recinto e metralhou a estranha figura.

Os dois soldados brasileiros fugiram pela praça principal deste lugarejo próximo a cidade de Porreta e correram por mais de meia hora, até terem a certeza que não eram perseguidos.

Aqui vemos Luís, Adão e o jornalista Hélio Fernandes
Aqui vemos Luís, Adão e o jornalista Hélio Fernandes

Ao repórter da “Revista da Semana”, Hélio Fernandes, Adão e Luís afirmaram que logo o comentário do ocorrido no lugarejo italiano foi intenso. Em pouco tempo o pessoal do pelotão da Polícia do Exército incorporada a FEB, comandado pelo 1º tenente José Sabino Maciel Monteiro, estavam recebendo informações sobre a situação e os dois militares foram capturados.

A VERSÃO DA JUSTIÇA MILITAR 

A reportagem da “Revista da Semana” é muito falha em termos de detalhes, além de extremamente tendenciosa, que pudesse esclarecer mais sobre este assunto. Mas no trabalho de conclusão de curso realizado em 2003, pela historiadora Carolina Mendes Pereira, da Universidade Federal do Paraná, e intitulado “Delitos sexuais cometidos pelos soldados brasileiros em campanha na Itália durante a Segunda Guerra Mundial: do estupro e homicídio ao indulto” (ver http://www.historia.ufpr.br/monografias/2002/carolina_mendes_pereira.pdf) e no próprio  Boletim do Exército nº 13, de 31 de março de 1945 (páginas 948 a 953), nos excertos do Parecer n. 8 da Procuradoria Geral (transcritos no blog http://froilamoliveira.blogspot.com.br/2011/10/condenado-morte.html), encontramos informações bem mais detalhadas sobre o caso.

Adão em sua cela
Adão em sua cela

Os dois brasileiros confessaram, segundo o Boletim do Exército, “friamente e com abundância de detalhes” que o fato ocorreu na pequena aldeia medieval de Madognana, distante quase quatro quilômetros da comuna de Granaglione, província da Bolonha, na região italiana da Emilia-Romagna, nordeste daquele país e não muito distante da cidade de Porretta-Termi.

Segundo o trabalho de Carolina Mendes Pereira, os soldados avistaram a vítima, a menor Giovanna Margelli, com 15 anos de idade, por volta das 16 horas, enquanto esta passeava pela rua acompanhada da jovem Vittoria Mendola. Os pracinhas brasileiros seguiram as duas garotas até a casa em que Giovanna estava hospedada e onde ambas haviam entrado.

Quadro típico de uma localidade italiana da região próxima a Magdonana, onde ocorreram os crimes
Quadro típico de uma localidade italiana da região próxima a Magdonana, onde ocorreram os crimes

Inicialmente a dupla se limitou a agradar as pessoas que ali estavam, oferecendo um pedaço de chocolate e dirigiram algumas poucas palavras. De forma vil e dissimulada declararam que não tivessem medo “pois os brasileiros eram bons”, fizeram mais alguns comentários e se retiraram, afirmando que iriam entrar em serviço.

“QUERIA PEGAR A MULHER”

Ao Boletim do Exército informaram que logo após o jantar muniram-se de metralhadoras portáteis e dirigiram-se a casa onde já haviam estado à tarde, em procura de uma mulher, que segundo informaram lhes “tinha feito cara feia”.

Luís acompanhando as notícias na cadeia
Luís acompanhando as notícias sobre as praias cariocas

Na noite de inverno rigoroso os soldados entraram na casa de número 231, às 20h30 de 9 de janeiro de 1945, “movidos por intuitos que não deveriam ser de natureza nobre”, pois seguiram para o seu intento utilizando o chamado “passa montanha”, gorro com abertura apenas nos olhos.

Neste segundo momento naquela casa, os moradores convidaram-nos a entrar e a aquecer-se junto ao fogo, talvez esperançosos de receber alguma migalha que lhes mitigasse a fome. Encontraram na residência Giovana, a prima Tonina, de 23 anos, o filho de Tonina, Ferdinando, de 3, os primos Stefano, de 20, e Giuseppe, de 14, e a avó doente, Maria Rita.

A seguir Adão Damasceno disse a Luís Bernardo que era melhor apagar a luz de uma lamparina a querosene dizendo “Vamos apagar a luz de uma vez para pegar a mulher no escuro”, esta era Giovanna Margelli. Consta no Boletim do Exército que Luís repetiu a ordem de apagar a luz para Stefano, mas o rapaz não entendeu. O soldado da FEB então deu uma rajada de metralhadora que destruiu a lamparina e todas as pessoas, menos Giovanna, fugiram atemorizadas. Adão conduziu a jovem para o quarto e passou a saciar os seus “instintos carnais”.

Adão com um companheiro de cadeia
Adão com um companheiro de cadeia

Para facilitar a conclusão deste crime covarde, Luís ficou de guarda em uma porta onde ficava de olho no movimento fora do recinto.

Certamente alertado pelos disparos e pelo terror transmitido por quem conseguiu fugir, Leornado Vivarelli, de 57 anos, tio da jovem que estava sendo estuprada, veio em seu auxílio completamente desarmado. Ao ser visto pelo soldado brasileiro este não pestanejou e disparou uma rajada de balas que atingiu o idoso no pescoço e no ouvido. Após o assassinato Luís gritou: “Apressa-te (Adão) que já matei um homem”.

Stefano sustentou outra versão. Afirmou que ouviu o soldado gritar: “Andare via (vá embora)!”. “Após uns segundos, ouvi a descarga de metralhadora. Depois, o silêncio.

No depoimento os soldados disseram que, à exceção de Giovanna, todos “fugiram”. O jovem Giuseppe deu outra versão. Relatou que foi trancado no banheiro por Luiz Bernardo e depois empurrado a um quarto, onde foi obrigado a pular da janela. O soldado ainda teria disparado, sem acertá-lo. Todos relataram que Adão agarrou Giovanna. Ela pediu socorro a Stefano, que alegou nada ter feito por estar desarmado.

Em meio a confusão os soldados inverteram os papéis. Adão foi fazer sentinela. Luiz Bernardo seguiu para o quarto, onde passou meia hora com Giovanna. Depois, disse a Adão que a havia violentado. Mas admitiu em depoimento, versão confirmada pela jovem, que estava embriagado e não conseguiu praticar o ato. Mentiu por “amor-próprio”, ressaltou o auditor do inquérito – uma junta médica da FEB confirmou, sete dias depois, a violência praticada por Adão. Aos médicos, Giovanna disse que foi “tomada pelo terror”.

Após isso os soldados voltaram para o acampamento de sua unidade. Na saída de Madognana, Luiz Bernardo deixou cair um cachecol e uma lanterna e Stefano os achou.

s-l1600 (6)
Soldados norte-americanos da 34º Divisão de Infantaria, conhecida como “Divisão Red Bull”, junto a uma jovem italiana.

Já no dia seguinte o irmão de Leonardo Vivarelli vai ao encontro de oficiais da FEB e apresenta uma queixa dos crimes praticados. Ele entregou no Quartel-General da 1.ª Divisão de Infantaria Expedicionária, em Porreta Terme, cidade cercada por montanhas controladas pelo exército nazista, os materiais encontrados por Stefano. Detidos, os acusados confessaram tudo e eles são prontamente presos pela Polícia do Exército.

Embora ressalte a embriaguez, forma de evidenciar o desrespeito às normas militares, o processo destaca que o crime ocorreu logo após o jantar, não deixando claro quando e quanto tomaram de vinho.

Ouvido no inquérito como testemunha, o cabo Renan Alves Pinheiro disse que, na tarde do dia do crime, os dois soldados na verdade perseguiram Giovanna pelo vilarejo. Perguntados se podiam justificar sua inocência, Adão e Luiz Alberto ficaram em silêncio. O advogado deles, 2.º tenente Bento Costa Lima Leite de Albuquerque, chegou a afirmar que não houve crime doloso pois Giovanna não teria reagido.

Os dois soldados foram celeremente julgados pela justiça militar brasileira, que na época possuía o Conselho Supremo de Justiça com sede em Nápoles. O auditor do inquérito, tenente-coronel Eugênio Carvalho do Nascimento, condenou os dois à morte por matar um homem para garantir violência carnal. Consta que os dois envolvidos possuíam históricos que registravam prisões por embriaguez e saídas sem autorização do quartel.

Na reportagem publicada no jornal paulistano O Estado de São Paulo, edição de domingo, 25 de agosto de 2012, comemorativa aos 70 anos da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o repórter Capixaba,  Leonencio Nossa, atualmente trabalhando na sucursal de Brasília do jornal O Estado de São Paulo, informa que uma dezena de estupros foram praticados por pracinhas na Itália. Mas apenas o caso de Adão e Luiz Bernardo foi julgado devido aos assassinatos. O jornalista não aponta detalhes.

O Gen. Morais (centro) junto a oficiais aliados - Fonte - FGV-CPDOC
O Gen. Morais (centro) junto a oficiais aliados – Fonte – FGV-CPDOC

Desde o dia 6 de novembro de 1944, quase quatro meses após a chegada da FEB na Itália, o Quartel-General do general Mascarenhas estava na pequena cidade de Porretta-Termi. Deste ponto o bravo general comandou o primeiro dos cinco ataques que iriam tomar Monte Castelo dos alemães, fato ocorrido somente em 21 de fevereiro de 1945. Como estes dois homens faziam parte da guarda do general Mascarenhas de Morais, imagino o quanto deve ter sido difícil para o comando da FEB, em meio aos inúmeros problemas relativos aos combates de Monte Castelo, saber que dois membros da sua guarda pessoal estavam envolvidos em homicídio e estrupo.

PENA CAPITAL

Segundo o trabalho da historiadora Carolina Mendes Pereira, no caso dos soldados Adão e Luís, o crime de estupro por eles cometidos estava descrito nos artigos 192 e 312 do Código Penal Militar vigente em 1944, isto é, código das normas aplicadas aos crimes cometidos na guerra.

Os artigos acima mencionados apontam que:

Art. 192. Constranger mulher a conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça: Pena – reclusão, de três a oito anos.

Art. 312. Praticar qualquer dos crimes de violência carnal previstos nos arts . 192 e 193, em lugar de efetivas operações militar: Pena – reclusão, de quatro a doze anos.

Parágrafo único. Se da violência resulta:

Lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão, de oito a vinte anos;

Morte: Pena – morte, grau máximo; reclusão de quinze anos, grau mínimo.

A historiadora aponta que no caso da execução da pena capital em crimes militares ocorridos em tempo de guerra, a pena seria realizada através do fuzilamento do culpado. Se ela é imposta em zona de operações de guerra, pode ser imediatamente executada, quando exija o interesse da ordem e da disciplina militar.

Artilheiros da FEB na Itália. Todos os soldados brasileiros estavam sujeitos a rígidos códigos militares
Artilheiros da FEB na Itália. Todos os soldados brasileiros estavam sujeitos a rígidos códigos militares

Carolina Pereira mostra que um total de 66 sentenças foram proferidas contra militares brasileiros da FEB, sendo que metade foi lavrada na Itália e outra metade no Rio de Janeiro. Das 33 condenações conhecidas na Itália, duas foram proferidas em Pisa, 14 em Pistóia, sete em Pavana, duas em Vignola e oito em Alessandria. A primeira destas condenações ocorreu em Pisa, em 2 de outubro de 1944.

Já em relação ao caso aqui comentado, a historiadora aponta que pela justiça militar, Adão e Luís deveriam ter sido sumariamente fuzilados na própria frente de combate.

Pelotão de fuzilamento americano, executando um colaboracionista dos alemães
Pelotão de fuzilamento americano, executando um colaboracionista dos alemães

Na análise dos documentos do processo, percebe-se no texto de um dos votos dos membros do Conselho Supremo de Justiça Militar, que a execução da pena de morte destes dois elementos na frente de combate era aceita. Vemos isso claramente no Diário de Justiça, Ano XX, março de 1945 – Sentença de Pena de Morte em tempo de Guerra, apelação nº 21, da 2º auditoria militar da 1º D. I., cujo relator, o general Boanerges Lopes de Souza, assim se pronunciou em 6 de março de 1945:

“Votando, como voto, pela confirmação da sentença, defendo a honra do Exército e a própria civilização brasileira. Não fossem os embaraços opostos pela moderna legislação, estou certo de que o comandante das forças brasileiras na Itália teria, com grande proveito para a boa ordem de suas tropas, feito fuzilar, sem quaisquer delongas, esses criminosos.”

SOFRIMENTO DAS MULHERES NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

O hediondo crime de estrupo durante a Segunda Guerra Mundial foi quase um lugar comum em todas as frentes de combate, praticado por todos os envolvidos no conflito e pouco apresentado nos filmes de guerra estrelados por John Wayne e companhia.

Nas guerras as mulheres civis normalmente se tornam alvos fáceis para diversas práticas de violências
Nas guerras as mulheres civis normalmente se tornam alvos fáceis para diversas práticas de violências – Fonte – AP Photo

Segundo o site progettolineagotica.blogspot.com (http://progettolineagotica.blogspot.com.br/2009/06/stupro-di-guerra-lonu-scopre-una-nuova.html ), entre 1943 e 1945 as normalmente belas mulheres italianas foram duramente atacadas em seu país.

Na região onde existia o setor de defesa alemão denominado “Linha Gótica”, em seis meses do ano de 1944, em particular em torno Marzabotto, bem como nos Apeninos, Ligúria e Piemonte, foram registrados 262 casos de estupro realizados pelos chamados de “Mongóis”, os desertores soviéticos de origem asiática, que passaram a servir no exército alemão.

Mas as italianas, tal qual a mulher atacada pelos brasileiros Luís e Adão, sofreram igualmente nas mãos de tropas aliadas. Segundo este site, entre 15 e 17 de maio de 1944, os soldados coloniais franceses que chegaram à cidade de Esperia, antiga sede da 71º Divisão de Infantaria da Wehrmacht (Exército Alemão), protagonizou o estupro contra muitas mulheres que chocou os comandantes aliados.

Está mais do que marcado no imaginário popular como os russos tyrataram as alemãs em 1945. Mas muitos apontam que eles apenas repetiam o que as tropas de Hitler haviam protagonizado com as russas
Está mais do que marcado no imaginário popular como os russos trataram as alemãs em 1945. Mas muitos apontam que eles apenas repetiam o que as tropas de Hitler haviam protagonizado com as mulheres russas

Até mesmo nas forças armadas norte-americanas houve inúmeros destes casos. A maioria das ocorrências de pena de morte envolvendo tropas americanas durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu devido a estupros ou assassinatos contra mulheres, a maioria delas alemães.

De acordo com documentos no Arquivo Nacional daquele país, só no teatro de guerra europeu, o exército dos Estados Unidos executaram 70 dos seus próprios soldados à morte, a maioria pela forca. O número total de soldados americanos executados em todas as frentes de combate durante aquele conflito foi de 141 militares.

Corpo do soldado americano Eddie Slovik sendo retirado após seu fuzilamento
Corpo do soldado americano Eddie Slovik sendo retirado após seu fuzilamento. Sua condenação foi por deserção

Para os americanos a desonra envolvida nestes casos era uma coisa era tão séria, que aqueles que foram executados estão enterrados fora de seus vários cemitérios militares. As autoridades militares se recusaram a dar a estes criminosos o privilégio de serem enterrados ao lado dos que caíram em combate.

Um caso típico envolve o estupro de uma mulher italiana na Sicília. Quatro membros de uma unidade de soldados negros que havia desembarcado na invasão daquela ilha italiana em 9 de Julho de 1943,  entraram uma tarde na pequena aldeia de Marretta, perto da cidade de Gela. Lá David White, Armstead White, Harvey L. Stroud, e Willie A. Pitman, estupraram e surraram seriamente uma mulher italiana diante de seus familiares. Mais tarde todos os quatro foram julgados e condenados por estupro. Em pouco mais de um mês todos quatro militares foram sumariamente executados por enforcamento.

DE VOLTA AO BRASIL

Mas voltando ao caso dos brasileiros Adão e Luís. Consta que estes foram enviados para uma prisão em Roma, destinada a receber os sentenciados a morte pelas forças aliadas e ali aguardaram o destino.

O ex-pracinha Luís, diante da imagem de sua santa padroeira, Nossa Senhora das Graças
O ex-pracinha Luís, diante da imagem de sua santa padroeira, Nossa Senhora das Graças

Segundo os dois condenados, teria sido um “Cardeal”, do qual não é citado o nome, que conseguiu transformar a pena dos dois brasileiros em 30 anos de prisão. Não encontrei nada que corroborasse esta afirmação da entrevista feita pelo jornalista Hélio Fernandes, mas é certo que eles não morreram diante de um pelotão de fuzilamento.

I0026986-07(02468x03516) (1)
Relação dos militares sentenciados da FEB, trazidos no navio Pedro I
Relação dos militares sentenciados da FEB, trazidos no navio Pedro I

Em julho de 1945 os dois foram então embarcados no navio brasileiro Pedro I, junto com outros 900 pracinhas. Durante a travessia oceânica eles ficaram sob a guarda da Polícia do Exército, que além dos soldados Adão e Luís custodiavam outros 54 condenados. Constavam da lista um segundo tenente dentista, um suboficial, um sargento, três cabos e os outros eram soldados (ver a relação completa acima, retirada do jornal carioca “Correio da Manhã”, pág. 9, edição de quarta feira, 25 de julho de 1945).

Segundo a historiadora Carolina Pereira, em 3 de dezembro de 1945, o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto 20.082, que concedeu indulto a todos os integrantes da FEB que cometeram crimes durante a Segunda Guerra Mundial, excluindo os crimes de natureza gravíssima ou infamante, como os praticados por Adão e Luís.

Já no Rio de Janeiro os dois passaram a cumprir os 30 anos de pena na então conhecida Penitenciária Central do Distrito Federal, antiga Casa de Correção, que em 1957 seria batizada como Penitenciária Lemos de Brito.

aat (8) - Cópia

Segundo a reportagem Adão e Luís tinham bom comportamento, eram respeitados pelos companheiros de cadeia e não criavam problemas para o Diretor Castro Pinto. Como mostra de boa conduta naquele recinto penitenciário, ambos possuíam um distintivo no formato de estrela que envergavam no peito

Em 1949 eles aguardavam um indulto presidencial, que havia sido positivamente recomendado pelo Conselho Penitenciário do Distrito Federal . Mais tarde o processo de indulto restituiu a liberdade aos ex-pracinhas.

Após deixar qualquer prisão, após o cumprimento de qualquer pena imposta, o antigo sentenciado está livre para conviver novamente com a sociedade. Mas no caso destes homens, aparentemente o fardo foi muito grande.

Segundo a reportagem de Leonencio Nossa, os dois ex-soldados da FEB morreram na década de 1990. Consta que Adão vivia solitário, andava em dificuldades. Anos depois da guerra, foi acusado de furto. Na audiência, o juiz perguntou se já havia sido processado. “Fui condenado à morte.” O juiz se assustou: “Que história é essa? Brasil não tem pena de morte”.

CONCLUSÃO

A historiadora Carolina Pereira aponta que a guerra não produz só heróis. Os conflitos constroem e desmascaram monstros, embalam pesadelos, dão visibilidade à parte mais vil e desumana do ser humano.

As guerras não são apenas constituídas de batalhas, mas, também, de incessantes horas de espera e vigília dos atores, direta ou indiretamente, no front, remete à possibilidade da existência de um convívio social.

Adão junto a São Jorge
Adão junto a São Jorge

Os combatentes interagem não só dentro do próprio corpo do exército, mas também com a população local onde estão alojados. Pode-se dizer que nestes cenários são travadas outras batalhas em que tais populações recebem o rebatimento das condições físicas e emocionais dos militares. Para a historiadora a população civil também é vítima do estado de guerra.

Joel Silveira na FEB
Joel Silveira na FEB

O falecido jornalista Joel Silveira, correspondente de guerra brasileiro na Itália, deixou registrado em um recente documentário produzido pelo repórter Geneton Moraes Neto, que na retaguarda as brutalidades podem ser piores do que na frente de combate. E realmente ele tinha razão. Naqueles dias em solo italiano o ato sexual era mercadoria de troca, pois a miséria e a devastação causada pela guerra fizeram com que a população local trocasse o corpo por comida e proteção.

Sabemos que todas as instituições militares em combate estão sujeitas a possuírem em suas fileiras, por mais que existam ótimos critérios de seleção, as chamadas “maçãs podres” e no caso da FEB não foi diferente. Mas percebemos, ao remeter-se a realidade enfrentada pelos soldados brasileiros em solo italiano, que a incidência de crimes de violência sexual no meio de nossa tropa pode ser considerada pequena.

brasil-segunda-guerra

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

A PINTURA E A VIDA DE VAN GOGH

download (2)

Autor –  Almandrade

Ai, ai, as pinturas mais belas são as que sonhamos deitados na cama, fumando um cachimbo, mas nunca pintamos.” 

Vincent Van Gogh

Uma vida curta e conturbada para uma longa biografia de mais de mil páginas, Van Gogh, filho de pastor, depois de fracassar em tudo que tentou fazer, decidiu ser pintor. Um pintor também “fracassado”, ou melhor incompreendido pelo seu tempo, cuja obra imensa e invejável que construiu em sua rápida existência penosa e turbulenta, vem inquietando e provocando as gerações posteriores. O livro escrito por Steven Naifeh e Gregory White Smith, é uma das biografias mais extensas e completas de um artista que se tornou um mito da arte moderna. Do nascimento do pintor à sua morte aos trinta e sete anos, os autores vasculharam a vida de um navegante solitário, remando sempre contra a correnteza.

A biografia de um artista não explica, nem justifica sua obra, mas elas se comunicam, diria o filósofo francês Merleau-Ponty. Em se tratando de Van Gogh e sua vida difícil, com episódios trágicos, é possível ver uma relação estreita entre sua obra e o modo como viveu. Mesmo com todas as dificuldades não desistiu da ilusão de ser pintor. Desde a infância com um olhar desconfiado sobre o mundo, crises de raivas, caminhadas solitárias por lugares distantes, quem sabe para distanciar-se de tudo e de todos. Criado num ambiente religioso, protegido dos excessos do pecado, privado de emoção e cor, criou um mundo colorido e emotivo como meio de transgressão.

images (2)

Uma vida que colecionava infelicidades, zombarias e desafetos, buscava encontrar na arte o que não via na vida. Talvez o mais deprimido dos artistas, mas com uma produtividade incansável, como se estivesse sublimando na tela a infância não vivida e as emoções reprimidas. Ariscou a vida no trabalho da pintura, produziu como um louco mas sem perder a razão, indispensável ao ofício de pintor, “dedico-me a minhas telas com toda a minha mente”, escreveu para o irmão Theo. Acrescentou ao mundo a verdade da pintura.

images (3)

Tinha um único amigo, confidente, incentivador e responsável pelo seu sustento, com quem se correspondia e também tinha atritos, o irmão mais novo, Theo. Sem negar a rivalidade familiar, Theo era o filho que deu certo, tinha profissão, ajudava no sustento da família, tinha uma vida correta dentro do esperado nos padrões da classe média. Van Gogh era o contrário, com sua pintura ridicularizada pelos seus contemporâneos, desprovidos de informações para compreendê-las, sem aceitação no mercado. Quanta aflição. Somente mais de cinco anos depois de sua morte é que veio a ser reconhecido e celebrado.

images (1)

Queria pintar o que via, mas via o que pintava. Uma pintura de uma força irresistível, cor firme, céu agitado, uma forma particular de ver as coisas e a paisagem. Vida e obra se misturavam, o temperamento rebelde do artista, diagnosticado com várias enfermidades, – entre elas esquizofrenia, – desentendimentos, crises existenciais, a amizade tumultuada com Paul Gauguin, amputação da orelha, até a morte trágica, reavaliada no livro. Os autores descartam a hipótese, mais conhecida, de suicídio do pintor. Com um inventário de provas, acreditam em assassinato acidental. Com base em laudos médicos, que informam que a arma do crime foi disparada de certa distância do corpo, declaração do próprio artista que achava o suicídio “uma covardia moral” etc. Um crime misterioso, sem testemunha e sem o local exato do disparo, que até a arma desapareceu, mas não tão misterioso quanto a sua arte.

download (3)

Suicídio ou assassinato? Longe de mim de tomar partido, não sou advogado nem perito criminal. As condições precárias em que viveu numa sociedade hostil contribuíram, sem dúvida, para o final brutal, por um ferimento de bala na parte superior do abdômen. Mas de uma coisa ninguém duvida, da fascinação e da certeza de sua pintura que muito acrescentou à história da arte. Uma obra inquestionável que ultrapassa os acidentes da vida. Quantos artistas na história viveram à margem do sistema social, com uma vida pouco digna e construíram uma obra que sensibiliza gerações.

O livro faz uma revelação importante, a meu ver, para o meio de arte, hoje em dia, recheado de qualquer coisa e sintomas culturais. Os autores mostram um Van Gogh com uma sólida formação cultural, leitor e frequentador de museus, reflexivo, que planejava suas telas antes de realizá-las e as pintava na mais plena lucidez. “Chamam um pintor de louco se vê as coisas com olhos diferentes dos deles,” dizia nas suas correspondências para Theo. Sua pintura não era obra do acaso ou da loucura, cada gesto, cor e pincelada eram a manifestação de um pensamento.

imagesA problemática e a ambígua relação entre arte e loucura vem à tona. Um artista que passou temporadas internado num abismo moderno chamado hospício, nos últimos anos de sua vida, onde a liberdade humana é restrita, nos deixou uma experiência artística longe do estado de loucura. Através da arte Van Gogh escorregou da psicose, a sua pintura, se nasceu na angústia pessoal, a realidade foi transformada a partir da vontade consciente de um sujeito.

É quase impossível a compreensão da vida humana sem a presença da arte, a irracionalidade está presente na estrutura interna da obra de arte, nos adverte o filosofo alemão Heidegger. Até mesmo a pintura de uma visualidade racional, como a de um Mondrian, não deixa de ser um fenômeno irracional. A suposta loucura na arte de Van Gohg é perfeitamente reconhecida e apreendida em nosso mundo racional.

download (1)

Se contemplamos nas suas telas paisagens, retratos, campos de trigo, girassóis, corvos, é um problema nosso. Ele fez apenas pintura e por isso nos inquieta até hoje e vai inquietar muitas gerações enquanto a arte existir. Se os autores dedicaram dez anos para escrever esta biografia é porque o seu personagem se entregou ao mundo para transformá-lo em pintura. Lembrei-me de Paul Valery. Van Gogh sabia o que estava pintando e para isso ele precisava não só de telas, tintas e pincéis; precisava também da razão e da imaginação.

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

—————————————————-

Livro – VAN GOGH – A VIDA

Steven Naifeh e Gregory White Smith

Trad: Denise Bottmann

São Paulo: Companhia das Letras, 2012

VENDETA AMERICANA – A GUERRA ENTRE AS FAMÍLIAS HATFIELD E McCOY

O clã Hatfield pronto para a guerra, até as crianças pegavam em armas
O clã Hatfield pronto para a guerra, até as crianças pegavam em armas

UMA ANTIGA LUTA DE FAMÍLIAS NOS ESTADOS UNIDOS, COMO OS AMERICANOS FATURAM COM ISSO E O QUE A CIDADE DE MOSSORÓ TEM A VER COM ESTA HISTÓRIA

Autor – Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

No Brasil é comum associar as fratricidas brigas de entre clãs familiares como sendo uma prática basicamente entre nordestinos. Lerdo engano, pois brigas entre famílias, daquelas que deixaram (e que infelizmente ainda deixam) a terra bem encharcada de sangue não é uma exclusividade nordestina de forma alguma. Outros podem imaginar que este tipo de conflito é coisa típica dos povos latinos, que possuem sangue quente. Valendo isso tanto para os europeus do sul, como para seus descendentes que vivem abaixo da linha do equador, aqui pelas Américas.

Esse é outro engano. As brigas de famílias ocorreram (e ainda ocorrem) em várias partes do mundo. Basta inserir no contexto a fraca atuação do poder judiciário, um naco de corrupção, associada a questões de honra, luta por terras, exploração de recursos naturais, ampliação de poder político e inúmeros outros fatores que as mortes logo ocorrem.

Randolph "Randall" or "Ole Ran'l" McCoy, chefe do clã McCoy na Luta
Randolph “Randall” or “Ole Ran’l” McCoy, chefe do clã McCoy na Luta

Nos Estados Unidos, na última metade do século XIX, a luta entre os clãs Hatfield e McCoy entrou para o imaginário desta nação. Até hoje, a simples menção de seus nomes desperta visões de uma briga de família sem lei e totalmente inflexível. Para os americanos, os nomes Hatfield e McCoy evocam cenas de armas em punho, parentes que teimam em defender os membros de seus grupos familiares, inflamando ressentimentos amargos que abrangem gerações.

A rivalidade entrou para o folclore americano como figura de metonímia para qualquer luta amarga entre partidos rivais e um símbolo para as questões de honra de família, a justiça e vingança. A luta até hoje é relembrada em várias formas de entretenimento, incluindo livros, músicas e filmes de Hollywood. Recentemente uma série televisiva trouxe novamente o tema para as telinhas.

Mas afinal quem eram os Hatfields e McCoys? Qual foi a origem desse conflito cruel? E o que ficou disso?

Quem eram, onde viviam, o que faziam…

É aceito por grande parte dos pesquisadores nos Estados Unidos que esta briga durou de 1863 a 1891, envolvendo a família Hatfield, do estado da West Virginia, e os McCoy, do Kentucky. Todos habitavam as respectivas fronteiras de seus estados, separados pelo Rios Tug e Big Sandy. Os Hatfields de West Virginia habitavam o Condado de Logan e eram liderados por William Anderson Hatfield, conhecido como “Devil Anse”, enquanto os McCoys vivam no Condado de Pike County, no Kentucky e estavam sob a liderança de Randolph McCoy.

Área geográfica onde ocorreu o conflito
Área geográfica onde ocorreu o conflito

Os pesquisadores americanos apontam que os Hatfields eram mais ricos do que os McCoys e possuíam fortes ligações com os meios políticos. Apesar de não possuir uma condição financeira tão próspera, Randolph McCoy tinha uma boa propriedade e gado. Para outros pesquisadores os dois clãs familiares eram na verdade concorrentes na indústria madeireira, que também contribuiu para o seu desgosto mútuo. Como consequência da briga, diz-se que ambas as famílias perderam muito de sua riqueza, mas durante a luta e muito antes, as famílias foram bem sucedidas e eram considerados membros respeitáveis em suas comunidades.

Os Hatfield trabalhavam principalmente com a extração de madeira, mas eles empregavam muitos membros da família McCoy em seus negócios. Consta que neste conflito a lealdade familiar foi muitas vezes determinada não apenas pelo sangue, mas pelo emprego e pela proximidade entre as pessoas. Pois membros das duas famílias em luta já se misturavam através de casamentos antes da briga se iniciar.

devil-anse-hatfield-2
William Anderson Hatfield, conhecido como “Devil Anse”

O Fator Guerra Civil

Os McCoy eram descendentes de irlandeses e os Hatfields são originários da Inglaterra e durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) a maioria dos membros destes clãs familiares lutaram pela Confederação, ou seja, pelos estados do sul, liderados pelo general Robert E. Lee. Eram aquelas tropas que aparecem nos filmes de Hollywood com um desbotado uniforme cinza e foram os derrotados neste terrível conflito entre irmãos de uma mesma nação.

Porta retrato com um soldado Confederado
Porta retrato com um soldado Confederado

Dizem que toda família tem sempre um dos seus membros que dá na cabeça a ideia de ser diferente. Isso aconteceu com Asa Harmon McCoy, que não sei o porquê decidiu servir nas tropas da União, os exércitos dos estados do norte, comandados pelo general Ulysses S. Grant, que usavam uniformes azuis e foram os vencedores.

O fim da Guerra Civil não significou uma paz imediata e muitos ressentimentos pairavam no ar.

Muitos ex-soldados Confederados que não foram feitos prisioneiros, passaram a perseguir qualquer um ex-soldado da União que estivessem de uniforme azul, de preferência em menor número e desarmados.

Muitos ex-soldados eram viajantes, que ao passar nas terras do sul eram caçados impiedosamente e a violência era real. Na região de fronteira entre West Virginia e Kentucky, um grupo de ex-soldados sulistas, que se autodenominavam “Logan Wildcats”, praticavam esses atos de covardia gratuita contra antigos membros da União e os ânimos se acirraram com posteriores investigações realizadas pelas autoridades.

Asa Harmon McCoy
Asa Harmon McCoy

Asa Harmon McCoy havia sido dispensado do exército nortista por causa de uma perna quebrada. Ele voltou para sua casa e logo recebeu um aviso que poderia esperar uma visita dos Wildcats. Assustado, Harmon se escondeu em uma caverna e alimentos eram levados até ele pelos seus familiares. Mas os Wildcats descobriram o seu esconderijo e o mataram em 7 de janeiro de 1865.

De início recaiu sobre William Hatfield a suspeita de participação neste crime, mas depois foi confirmado que ele estava doente em sua casa. Acreditava-se amplamente que o seu tio Jim Vance, um membro dos Wildcats, estava entre os que mataram Harmon. O interessante é que Jim Vance sequer participou da Guerra Civil como soldado Confederado.

Eventualmente o caso foi deixado de lado e nenhum suspeito foi levado a julgamento.

Um Porco Participa da Briga

Embora alguns pesquisadores do conflito tenham a ideia que a morte de Asa tenha iniciado a famosa briga, a maioria dos historiadores aponta este incidente como um evento independente. Tanto que depois da morte de Harmon, o clã McCoy não retaliou.

Acreditasse que isso ocorreu por que parte da família McCoy não aceitava o fato de Asa Harmon McCoy haver servido na União e que esta decisão fatalmente lhe trouxe consequências.

As relações entre as duas famílias começou a azedar de verdade 13 anos depois e tudo teve início com uma questão aparentemente pequena: a disputa de um porco.

Floyd Hatfield já na velhice
Floyd Hatfield já na velhice

Randolph McCoy acusou Floyd Hatfield, um primo de William Hatfield, de roubar um de seus porcos, uma mercadoria valiosa em uma região pobre. Os Hatfields alegavam que o animal lhes pertencia por se encontrar em suas terras. Já os McCoys opuseram, dizendo que as certas marcas existentes nas orelhas do gordo quadrupede eram tradicionalmente feitas por eles.

Esta questão tão besta e ridícula acabou em um julgamento. Este ocorreu em território McCoy, mas foi presidida por um primo de William Hatfield, o Juiz de Paz Anderson Hatfield. É chamado para depor como testemunha Bill Staton, um parente dos McCoy, mas casado com uma Hatfield. Para complicar o meio de campo, Staton testemunhou em favor Floyd Hatfield e os McCoys ficaram furiosos quando este foi absolvido das acusações que pesavam contra ele.

Dois anos depois, mais precisamente em junho de 1880, Staton foi violentamente morto em uma briga com Sam e Paris McCoy, sobrinhos de Randolph. Eles foram julgados pelo assassinato, mas foram absolvidos por razões de autodefesa.

Muitos apontam que este infame julgamento fez com as duas aguerridas famílias, que há muito tempo interagiam, vivam e trabalhavam juntas, estavam definitivamente seguindo para o caminho das armas.

Um Toque de Romance Trágico

Em uma história que mistura tantas emoções, não poderia faltar uma pitada de romance do tipo Romeu e Julieta.

Roseanna McCoy. Na recente série televisa sobre este conflito ela é apresentada como sendo loira
Roseanna McCoy. Na recente série televisa sobre este conflito ela é apresentada como sendo loira.

Poucos meses depois do assassinato de Bill Staton, em um encontro local para a realização de uma eleição, Johnse Hatfield, o filho de 18 anos de idade de William Hatfield, começou um romance com Roseanna McCoy, filha de Randolph.

De acordo com relatos, Johnse e Roseanna desapareceram por horas durante a eleição. Supostamente temendo represálias de sua família por estar entre os Hatfields, Roseanna permaneceu na residência desses por um período de tempo, atraindo a ira dos McCoys. Quando Roseanna ouviu rumores de que alguns membros da sua família tinham planos de lhe pegar a força na casa dos Hatfields, ela voltou sozinha, mas estava grávida de Johnse.

Seu pai estava tão chateado que se recusou a olhar, ou até mesmo falar com ela. Roseana foi morar com sua tia Betty McCoy. Como Johnse Hatfield continuou a visitar Roseana na casa de sua tia, aumentou a ira de sua família contra ela.

Johnse Hatfield
Johnse Hatfield

Logo este idílio de amor iria ter outros desdobramentos.

Quando o casal tentou retomar seu relacionamento, Johnse Hatfield foi preso pelos filhos de Randolph McCoy. Quando Roseanna soube que seu amado estava cativo de seus irmãos, ela seguiu de cavalo, a meia-noite, desesperada para alertar William Hatfield do fato. Este imediatamente organizou uma equipe de resgate com seus parentes. Estes cercaram o local onde os irmãos McCoy estavam e resgataram Johnse de volta para West Virginia.

Apesar de Roseanna fazer este grande favor a Johnse Hatfield, outro ato visto como uma nova traição por parte de sua família, em maio de 1881 ele a abandonou gravida e se juntou com Nancy McCoy, prima de Roseanna.

Consta que o bebê morreu com tenra idade e as atribulações ocasionadas pelas decisões de Roseanna, lhe ocasionaram um ataque cardíaco que a matou em 1889, quando tinha entre 29 ou 30 anos de idade.

Sangue no Dia da Eleição

Para muitos pesquisadores, tudo o que havia acontecido entre as famílias não significou nada diante do verdadeiro ponto de viragem desta disputa; a morte de Ellison Hatfield.

Ellison Hatfield como soldado Confederado
Ellison Hatfield como soldado Confederado

De acordo com a maioria dos registros históricos, o fato ocorreu em outro dia de eleição local, em agosto de 1882. Três dos filhos de Randolph McCoy, Tolbert, Pharmer e Bud iniciaram uma violenta briga com dois irmãos de William Hatfield. A luta logo se tornou um caos, com um os McCoy esfaqueando Ellison Hatfield 26 vezes e depois o baleando pelas costas.

A história real aponta que os irmãos McCoy foram inicialmente presos e estavam sendo levados para Pikeville, onde seriam julgados. William Hatfield organizou um grande grupo de seguidores e interceptou os policiais antes de chegarem Pikeville. Os McCoy foram levados à força para West Virginia com a intenção de aguardar o que aconteceria com o convalescente Ellison Hatfield.

Luta entre Ellison Hatfield  e os irmãos McCoy no dia da eleição
Luta entre Ellison Hatfield e os irmãos McCoy no dia da eleição

Quando este morreu, o destino dos rapazes ficou definitivamente selado.

Apesar de uma tentativa infrutífera de Sarah McCoy, a mãe dos garotos, em apelar pela vida dos filhos, chegando até mesmo a se ajoelhar diante de William Hatfield, os membros desta família amarraram os três McCoys em algumas árvores e os fuzilaram com mais de 50 tiros.

Descendentes de William Hatfield, convenientemente apontam em sites que seu antepassado comandou esta execução sumária porque ele não confiava no sistema judicial e temia que eles fossem libertados sem punição pela morte de seu irmão. Fico imaginando se essa moda pega aqui no Brasil!

Sarah McCoy clama pela vida de seus filhos. Sem sucesso
Sarah McCoy clama pela vida de seus filhos. Sem sucesso

Bom, embora os Hatfields estivessem satisfeitos com a vingança, a lei pensava de forma contrária. Logo 20 homens da família foram acusados de assassinato, incluindo William Hatfield e seus filhos.

Apesar das acusações, os Hatfields iludiram as autoridades, deixando os McCoys fervendo de raiva e indignação pelo clã rival estar livre. A questão aqui reside no fato de cada um dos 50 estados da terra do Tio Sam possuir legislação própria e os Hatfields estarem utilizando de variados artifícios jurídicos para escapar. Situação que conhecemos bem na justiça do paraíso verde e amarelo!

Neste meio tempo Perry Cline, um advogado que era casado com Martha McCoy, a viúva de Asa Harmon, abraçou a causa para a prisão dos Hatfields. Anos antes Cline havia perdido uma ação judicial contra William Hatfield, na questão da posse milhares de hectares de terra e muitos historiadores acreditam que esta foi a maneira deste advogado buscar sua própria vingança.

Fuzilamento dos irmãos McCoys
Fuzilamento dos irmãos McCoys

Usando suas conexões políticas, Cline teve as acusações contra os Hatfields revistas e logo eram anunciadas recompensas para a prisão destes.

A Luta Se Torna Conhecida do Grande Público

Para completar o desmantelo, a mídia americana “descobriu” aquela guerra nos cafundós dos Estados Unidos e o grande público começou a receber informações sobre a disputa em 1887.

Nota sobre a luta em um jornal americano
Nota sobre a luta em um jornal americano

Os jornais da época apontam os Hatfields como  violentos caipiras do sertão, que percorriam as montanhas e sempre agiam com violência. A cobertura sensacionalista plantou a semente para a rivalidade crescer na imaginação do americano comum. O que tinha sido uma história local foi se tornando uma lenda nacional.

Os Hatfields podem, ou não, ter prestado atenção a essas histórias, mas certamente prestaram muita atenção à recompensa por suas cabeças.

Em um esforço para acabar com todo aquele conflito de uma vez por todas, um grupo dos Hatfields e seus apoiadores criaram um plano para atacar diretamente Randolph McCoy e sua família.

Ataque contra a família McCoy
Ataque contra a família McCoy

Liderada por Cap, filho de William Hatfield, aliado a Jim Vance, este grupo atacou impiedosamente a casa dos McCoys no dia de Ano Novo em 1888 e atearam fogo no lugar. Randolph fugiu escapando para a floresta. O caos estourou de verdade quando Sarah McCoy e seus filhos correram para fora do seu lar. Seu filho Calvin e sua filha Alifair foram mortos após saírem da casa e Sarah foi gravemente espancada pelos Hatfields, tendo o crânio esmagado.

Poucos dias depois do que ficou conhecido como “Massacre do Ano Novo”, o caçador de recompensas Frank Phillips perseguiu Jim Vance e Cap Hatfield, matando Vance.

o caçador de recompensas Frank Phillips
o caçador de recompensas Frank Phillips

Para os descendentes de William Hatfield, este cruel ataque a casa McCoy nem foi planejado e nem perpetrado pelo chefe do clã, embora a recente minissérie mostre o contrário. Seus descendentes afirmam que na verdade ele não sabia nada sobre isso, até que o ataque aconteceu. Dizem que se ele soubesse da forma como o ataque foi realizado não teria concordado. O chefe do clã sabia que um desfecho daqueles seria o mesmo que chover o fogo do inferno sobre a sua própria casa. Mas muitos pesquisadores não acreditam nesta versão.

A Luta Cresce

Com a divulgação do massacre na casa dos McCoys, a vida dos Hatfields se tornou bem complicada.

Até 1891 a disputa acabou com a vida de uma dúzia de membros das duas famílias e pelo menos 10 pessoas ficaram feridas, tornando-se notícia de primeira página em todo o país. O conflito obrigou os governadores do Kentucky e de West Virginia a intervirem para evitar mais derramamento de sangue e manter a ordem.

Os Hatfields prontos para a luta
Os Hatfields prontos para a luta

Descendentes da família Hatfield afirmam que a Guarda Nacional foi mobilizada para controlar a briga e que o conflito foi muito mais perturbador do que o que foi retratado na recente minissérie.

Existem até mesmo nomes para as suas batalhas, como se fosse uma guerra real. Houve tiroteios nas montanhas, com os McCoys e mercenários pagos por eles utilizando explosivos na tentativa de matar os Hatfields, enquanto estes atiravam de um penhasco. Era o tipo de violência que nunca se esperaria ver fora de uma guerra real.

Em 1888, Wall Hatfield e outros oito homens foram presos por um bando de mercenários liderados pelo caçador de recompensas Frank Phillips, que trouxe todos para o Kentucky para serem julgados pelo assassinato da família McCoy durante o “Massacre do Ano Novo”.

Outra nota de jornal sobre a luta
Outra nota de jornal sobre a luta

Tal como ocorre no Brasil, quando alguém faz algo de errado e tem dinheiro para pagar advogados, os membros da família Hatfield apelaram para uma série de tribunais em busca de liberdade e para serem julgados os méritos legais do caso.

Eventualmente a questão foi encaminhada a Suprema Corte dos Estados Unidos, que decidiu que os Hatfields deveriam ser mantidos sob custódia até o julgamento final.

Este começou em 1889, e no final sete dos Hatfields e seus simpatizantes foram condenados à prisão perpétua e Ellison “Cotton top” Mounts foi condenado à morte.

Aspecto do enforcamento de Ellison Mounts
Aspecto do enforcamento de Ellison Mounts

Em 18 de fevereiro de 1890 Mounts foi enforcado em uma área onde atualmente se encontra as salas de aulas da Universidade Pikeville. Trabalhadores construíram uma cerca em torno da forca para esconder a execução dos olhares curiosos, pois nesta época as execuções públicas já não eram mais permitidas no Kentucky. Mesmo assim milhares de espectadores foram presenciar o evento.

Ellison Mounts era conhecido por ser deficiente mental e muitos viram sua condenação como um bode expiatório, apesar de ele ter confessado sua culpa. Relatórios afirmam que suas últimas palavras foram: “Eles me fizeram fazer isso! Os Hatfields me fizeram fazer isso!”.

Já o galanteador Johnse Hatfield se escondeu, mas foi preso cerca de dez anos depois. Ele foi condenado e sentenciado à prisão perpétua, mas foi posteriormente perdoado depois que salvou a vida do vice-governador de Kentucky. O fato ocorreu quando este visitava a prisão e um detento tentou matar o político com uma faca caseira.

Sempre namorador, consta que Johnse casou várias vezes após a sua libertação.

Fim da Contenda

As duas famílias pareciam concordar que após a condenação de sete Hatfields, a prisão perpétua e a execução Mounts por enforcamento, a disputa chegou ao fim.

A família Hatfield após o fim da luta
A família Hatfield após o fim da luta

Em uma primeira análise este conflito mostra duas famílias divididas através de uma linha geográfica, firmemente dedicados a seus respectivos clãs, que não pensavam duas vezes em utilizar armas para se matarem, sem um segundo de hesitação na defesa dos seus membros.

Entretanto chama atenção como durante o conflito, muitas vezes estas famílias se voltariam para a lei vigente na época, para os tribunais e para aqueles que exerciam o poder, no objetivo de atingir seus adversários.

Eles não tinham nenhum problema em apresentar uns contra os outros várias acusações criminais, onde seus nomes constam em vários processos judiciais. Estiveram tão presente nos tribunais, a ponto de suas pendências baterem as portas da instância máxima da justiça nos Estados Unidos e nesta contenda envolveram os governadores de seus respectivos estados.

Ao final desta briga de 30 anos, menos de 20 pessoas perderam a vida diretamente na disputa. Número que podemos considerar pífio se comparada a algumas lutas familiares brasileiras que ocorreram na nossa história.

Com o fim do conflito ambos os chefes dos clãs em disputa recuaram para uma relativa obscuridade.

Randolph McCoy na velhice
Uma das poucas fotos com Randolph McCoy, aqui na velhice

Randolph McCoy tornou-se um homem amargo com a idade, assombrado pelas mortes de seus cinco filhos, terminando seus dias trabalhando como um simples operador de balsa em Pikeville. Consta que falava para quem quisesse ouvir sobre seus sofrimentos nas mãos do Hatfields. Ele morreu em um incêndio caseiro em 28 de março de 1914, com a idade de 88. Ele e Sarah McCoy estão enterrados no Cemitério Dils, em Pikeville.

O chefe do clã Hatfield, que não tinha problemas em se deixar fotografar
O chefe do clã Hatfield, que não tinha problemas em se deixar fotografar

Já William Hatfield, que há muito tempo havia proclamado seu ceticismo sobre a religião, decidiu ser batizado pela primeira vez aos 73 anos. Ele viveu mais de três décadas após o fim do conflito e saboreou sua celebridade crescente. Apareceu em muitas entrevistas, se deixou fotografar várias vezes com sua família (onde a maioria aparecia armada) e deu algumas entrevistas que ajudaram a popularizar essa luta.

Túmulo de William Hatfield na década de 1940
Túmulo de William Hatfield na década de 1940

Antes mesmo de sua morte, talvez para mostrar força e prestígio, William Hatfield encomendou para ser colocado sobre seu mausoléu uma estátua sua em tamanho natural, feita em mármore de Carrara italiano.

E assim foi feito.

O Que Ficou e o Que se Ganha Disso… 

Mas como bem sabemos que por aqui tudo acaba em samba e nos Estados Unidos tudo acaba em grana, os americanos deram um jeito para faturar em cima do velho conflito.

Frankie McCoy e Shirley Hatfield, que trabalharam juntas durante a Segunda Guerra Mundial
Frankie McCoy e Shirley Hatfield, que trabalharam juntas durante a Segunda Guerra Mundial

Durante décadas as histórias de lutas entre os clãs Hatfield e McCoy circularam no imaginário popular americano e algumas vezes nas páginas dos jornais e revistas.

Em maio de 1944, uma edição da revista Life entrevistou os descendentes dos Hatfields e dos McCoys, quase 50 anos depois da violência que abalou aquela região entre o Kentucky e West Virginia. O artigo foi feito para mostrar como as duas famílias famosas viviam juntas e em paz. Foi entrevistado um bom número de descendentes sobre a rivalidade e as relações entre as duas famílias. Entre as fotografias estão a de duas mulheres jovens, Shirley Hatfield e Frankie McCoy, que trabalhavam juntas em uma fábrica que produzia uniformes militares. Era para simbolizar o efeito unificador do esforço de guerra americano no auge da Segunda Guerra Mundial.

Em 1979, as famílias foram reunidas para gravação de um programa televisivo popular na época, em que eles batalharam por um prêmio em dinheiro e um porco foi mantido no palco durante os jogos. No final deram um jeitinho, bem tipicamente brasileiro, para a disputa terminar em empate. Fico imaginando se daria certo algumas famílias brasileiras, que se envolveram em contendas bem sérias, participando de algum tipo de “game show” no Programa do Faustão ou em Silvio Santos?

Imagem atual da região do Rio Tug
Imagem atual da região do Rio Tug

Devido à popularidade da disputa no imaginário americano, não são poucos os turistas que viajam para a região a cada ano para visitar as áreas e relíquias históricas que se mantêm desde os dias da disputa.

Em 1999 um grande projeto conhecido como a “Restauração Histórica da Área  Hatfield e McCoy” ​​foi concluído. Este foi financiado com verba federal e resultou em várias melhorias na área onde ocorreu o conflito. Uma comissão de historiadores locais passou meses pesquisando várias fontes de informações para saber mais sobre a história factual dos acontecimentos em torno da disputa. Esta pesquisa foi compilada em um CD, que é vendido aos turistas, onde proporciona um passeio de carro autoguiado aos locais restaurados. O CD inclui mapas e imagens.

Descendentes das famílias Hatfield McCoy no marco histórico sobre a luta
Descendentes das famílias Hatfield McCoy no marco histórico sobre a luta

Bisnetos e tetranetos dos envolvidos organizaram em 2000 uma grande reunião com membros das duas famílias. Mais de 5.000 pessoas participaram do evento que atingiu a atenção nacional e recebeu grande destaque da mídia. Desde então o evento é realizado anualmente em junho, em um fim de semana de três dias, e inclui uma maratona e meia maratona, além de um passeio de quadriciclo. Há também um cabo-de-guerra em um afluente do Rio Tug, perto do qual as famílias rivais viveram. Ocorrem igualmente encenações das lutas mais famosas, entretenimento ao vivo, passeios ao marco histórico Hatfield-McCoy, concurso de culinária, artes, artesanato e dança. O festival atrai milhares de turistas e normalmente conta com mais de 300 corredores participando das provas.

Trilha Hatfield-McCoy
Trilha Hatfield-McCoy

Em 2002 foi criado na região uma trilha para veículos fora de estrada com 500 milhas (800 km) de extensão e denominada Trilha Hatfield-McCoy. Para percorrer o trajeto os turistas motorizados pagam uma taxa e recebem várias maneiras de apoio e informações.

Em 14 de junho de 2003, em Pikeville, Kentucky, os descendentes dos McCoys e Hatfields firmaram uma trégua oficial. Afirmaram a imprensa que queriam mostrar que se aquelas duas famílias poderiam chegar a um acordo, outros também poderiam. Assinado por mais de 60 descendentes durante o Hatfield-McCoy Festival, a trégua foi apresentado como uma proclamação de paz. Os Governadores de Kentucky e West Virginia estiveram presentes ao evento e assinaram proclamações conjuntas, declarando o dia 14 de junho como o “Dia da Reconciliação Hatfield – McCoy”.

Logicamente isso foi notícia em todo o país!

Local do show que utiliza a antiga rixa como atração principal
Local do show que utiliza a antiga rixa como atração principal

Em 2011 foi inaugurado o “Hatfields e McCoys Dinner Show”, em Pigeon Force, Tennessee, próximo à entrada do Smoky Mountains Great Park National, uma área de grande fluxo turístico. A casa atua com shows folclóricos, mostrando teatralmente as lutas e oferecendo jantares típicos aos turistas.

Espetáculo "Chuva de Balas", em Mossoró, Rio Grande do Norte
Espetáculo “Chuva de Balas”, em Mossoró, Rio Grande do Norte

Antes desses negócios serem vistos como algo do tipo “Ganhando dinheiro com a desgraça alheia”, serve mais como uma lição do que se pode aproveitar dos eventos históricos para alavancar o turismo de uma região.

Como muito bem faz a cidade potiguar de Mossoró, com seu belo e interessante espetáculo “Chuva de Balas”, que encena o ataque de Lampião a esta cidade, fato ocorrido em junho de 1927.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de

comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor

TELEJORNAL BOM DIA RN EXIBE SÉRIE ESPECIAL SOBRE A SEGUNDA GUERRA – DESTAQUE PARA O LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”

Capa - Cópia

A INTERTV CABUGI, AFILIADA DA TV GLOBO EM NATAL, ESTÁ EXIBINDO UMA SÉRIE DE REPORTAGENS SOBRE NATAL DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, EM UM DOS TRECHOS ESTÁ DESTACADO A NOTÍCIA DO LANÇAMENTO DO NOSSO LIVRO LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”.

MAIS DETALHES SOBRE ESTE LIVRO VEJA – 

https://tokdehistoria.wordpress.com/2012/10/13/o-meu-novo-livro-nunca-fui-heroi-a-vida-de-emil-petr/

https://tokdehistoria.wordpress.com/2012/11/02/fotos-do-lancamento-do-nosso-livro-eu-nao-sou-heroi-a-historia-de-emil-petr/

Emil Petr sendo entrevistado pela jornalista Margot Ferreira
Emil Petr sendo entrevistado pela jornalista Margot Ferreira

ACHEI A REPORTAGEM MUITO BOA, UM ÓTIMO TRABALHO PROFISSIONAL DA JORNALISTA MARGOT FERREIRA, QUE MOSTROU MUITOS ASPECTOS INTERESSANTES SOBRE ESTE ASSUNTO.

NOSSO AMIGO EMIL FICOU MUITO FELIZ COM O TRABALHO REALIZADO PELA INTERTV CABUGI.

DPP_0106

AQUELES QUE DESEJAREM ADQUIRIR ESTE LIVRO, O VALOR É DE R$ 50,00, ATRAVÉS DO SITE –  http://jovensescribas.com.br/

O VETERANO DE GUERRA QUE FICOU COM QUASE MEIO QUILO DE ESTILHAÇOS NO CORPO… POR 68 ANOS!

Choque: a família de  Brown disse que sabia de havia estilhaços em sua perna, mas eles ficaram surpresos ao ver com quantos fragmentos o ex-soldado tinha vivido com por quase 70 anos
Choque: a família de Brown disse que sabia de havia estilhaços em sua perna, mas eles ficaram surpresos ao ver com quantos fragmentos o ex-soldado tinha vivido com por quase 70 anos

Fonte – Jornal Daily Mail, Inglaterra – http://www.dailymail.co.uk/news/article-2219472/Ronald-Brown-War-veteran-walked-shrapnel-embedded-thigh–68-years.html#ixzz2GmvTk0CN

Durante a Segunda Guerra Mundial, o inglês Ronald Brown foi um soldado do Regimento East Yorkshire. Em 1944 ele foi atingido pela explosão de uma mina na França.

Recentemente o veterano faleceu aos 94 anos e seu corpo foi entregue para cremação, como era o seu desejo. Após o serviço executado pela funerária veio à surpresa. A família do ex-soldado ficou completamente estarrecida com a massa de fragmentos de metal afiado encontrados após a cremação. Quase 450 gramas de estilhaços ficaram permanentemente na perna de Brown por mais de 68 anos.

Sua filha Jane Madden, de 55 anos, da cidade de Exeter, Sudoeste da Inglaterra, comentou aos jornalistas que “-É incrível, porque ele nunca se queixou de dores”. Para ela “-Isso só mostra o quão corajoso ele era”.

O metal encontrado no corpo de Ronald Brown, veio quando uma explosão o atingiu na Segunda Guerra Mundial
O metal encontrado no corpo de Ronald Brown, veio quando uma explosão o atingiu durante a Segunda Guerra Mundial

Os parentes contaram aos repórteres do jornal britânico Daily Mail como Brown, que sempre realizava caminhadas diárias, nunca reclamou de dores e raramente falava de suas experiências no período da guerra. Quando os netos lhes pediam para sentar no seu colo, Brown sempre lhes pedia para evitar a perna esquerda. Só após a sua morte a família descobriu o porque.

Brown era natural da cidade de Kingston upon Hull, nordeste da Inglaterra e juntou-se ao Regimento de East Yorkshire em 1939. O então jovem de 21 anos de idade serviu na área da intendência desta unidade militar durante todo o conflito. Entre suas aventuras na guerra, seus familiares informaram que ele foi evacuado de Dunquerque (França), em seguida passou a lutar em El Alamein (Norte da África) e depois foi ajudar a libertar a Sicília, na Itália.

Em junho de 1944, após o desembarque aliado do Dia D, ele está novamente na França. Durante o avanço do seu regimento, uma mina explodiu próximo a sua perna esquerda, que foi salpicada com quentes estilhaços de metal. Ferido, Brown foi forçado a engatinhar por duas milhas para um setor mais seguro. Por causa das condições médicas no campo de batalha, acharam melhor deixar os estilhaços no seu corpo.

Vemos a direita a Sra. Jane Madden e a esquerda Holly Madden, filha e neta de Brown, orgulhosas ao olhar para as fotografias do veterano durante a Segunda Guerra Mundial
Vemos a direita a Sra. Jane Madden e a esquerda Holly Madden, filha e neta de Brown, orgulhosas ao reverem as velhas fotografias do veterano durante a Segunda Guerra Mundial

Após a guerra Brown passou a viver e trabalhar em Exeter, onde ao longo da vida comentou poucos detalhes do incidente ocorrido na França a seus dois filhos. Dizia apenas que a explosão o deixou com um “joelho ruim”.

A sua filha Jane Madden informou aos jornalistas que seu pai além dos estilhaços recebidos na França, informou que em outro momento da guerra havia sido atingido por uma bala na perna. Então quando a família recebeu as cinzas, perguntaram se a bala tinha sido encontrada e receberam do pessoal do crematório um saco cheio de metais.

A jovem Holly Madden, de 25 anos, um dos cinco netos de Brown, disse que nem com os membros mais novos da família ele falou muito sobre a guerra, “-Nós sempre pensamos que seu problema era devido a uma bala no joelho, mas quando os diretores da funerária nos deram este saco de estilhaços ficamos chocados com o quanto havia”.

Ronald Brown (centro) é visto aqui na África do Sul, junto com um colega de farda e um e um tradicional guerreiro Zulu
Ronald Brown (centro) é visto aqui na África do Sul, junto com um colega de farda e um e um tradicional guerreiro Zulu

Ela complementa que “-Os pedaços de metal apenas mostrar o quão horrível é a guerra”. Para Holly ela acha que estes metais são uma memória que simboliza tudo o que seu avô fez e como ele sofreu. Para ela é incrível que ele andasse normalmente com todos estes estilhaços na perna e por tanto tempo.

Holly disse que seu avô manteve um diário de suas experiências de guerra, onde descreveu que dos 900 membros originais do seu regimento no início do conflito, apenas 29 voltaram para casa no final de tudo.

Jane Madden está doando este material para o antigo regimento de Brown, ou para o conceituado Imperial War Museum. Para ela o sentimento que fica na família é que “-Ele tinha uma vida boa e fez um monte de coisas com seu tempo. Estamos todos muito orgulhosos dele”.

JERÔNIMO ROSADO – O PARAIBANO QUE MUDOU MOSSORÓ

Jerônimo Rosado
Jerônimo Rosado

Jerônimo Ribeiro Rosado, o dono da farmácia que levava seu nome, nasceu em Pombal-PB, aos 8 de dezembro de 1861, era filho de Jerônimo Ribeiro Rosado e Vicência Maria da Conceição Rosado. Formou-se em Farmácia no Rio de Janeiro, onde atuava como fiscal da iluminação pública. Voltou ao seu Estado natal em 1889, quando abriu a primeira botica em Catolé do Rocha e desposou Maria Rosado Maia, a Sinhazinha.

Na página de anúncios do periódico natalense A Republica, de, 21 de março de 1901, vemos uma propaganda da farmácia que Jerônimo Rosado possuía em Mossoró
Na página de anúncios do periódico natalense A Republica, de, 21 de março de 1901, vemos uma propaganda da farmácia que Jerônimo Rosado possuía em Mossoró

O casal teve três filhos: Jerônimo Rosado Filho, médico, farmacêutico e poeta, morto aos 30 anos; Laurentino Rosado Maia, que morreu 15 dias depois do nascimento, e Tércio Rosado Maia, farmacêutico, odontólogo, advogado, poeta, pioneiro do cooperativismo brasileiro, comerciante de livros usados, professor universitário.

Sinhazinha partiu em 1892, pouco depois do último parto, vítima de tuberculose. No leito de morte, conforme relata mestre Luís da Câmara Cascudo, pediu “que o marido a fizesse sepultar no Catolé do Rocha, na terra onde nascera”. E casasse com sua irmã Isaura, para que seus filhos não tivessem madrasta.

Nesta mota do jornal carioca Gazeta de Notícias, de 19 de janeiro de 1887, vemos o jovem Jerônimo como estudante no Rio de Janeiro
Nesta mota do jornal carioca Gazeta de Notícias, de 19 de janeiro de 1887, vemos o jovem Jerônimo como estudante no Rio de Janeiro

Reivindicações atendidas: o corpo de Maria Amélia foi sepultado o viúvo, de 32, casou-se com a cunhada, de 17 anos, em 1893. A noiva se mudou para Mossoró, onde o marido residia e para onde transferiu os negócios em 1890, a convite do médico e líder político Francisco Pinheiro de Almeida Castro, patrocinador da drogaria.

Em Mossoró, a principal cidade do interior potiguar, Jerônimo abriu sua farmácia e, em 40 anos, gerou 21 filhos. Foi uma figura central na construção histórica e política do chamado eufemisticamente como “País de Mossoró”.

Do segundo enlace advieram 18 rebentos, nem todos chamados “Jerônimo” e nem todos numerados. Diferentemente do que reza a lenda, nem todos receberam nomes franceses. Do terceiro até o décimo, a inspiração para os nomes era o latim. A partir do 11º, e só com a exceção do 12º filho, todos levaram nomes inspirados nos numerais franceses. Foram ao todo 12 homens e nove mulheres. A maioria recebendo Jerônimo ou Isaura como primeiro nome.

Izaura Rosado (com z)

Laurentino Rosado Maia (homônimo do segundo)

Isaura Sexta Rosado de Sá

Jerônima Rosado, que tem como apelido o nome de “Sétima”

Maria Rosado Maia, que tem como apelido “Oitava”

Isauro Rosado Maia, que tem por apelido “Nono”

Vicência Rosado Maia, que como apelido o nome de “Décima”

Laurentina Rosado, que tem como apelido o nome de “Onzième”

Laurentino Rosado Maia, que tem como apelido “Duodécimo”

Isaura Rosado, que tem como apelido o nome de “Trezième”

Isaura Rosado, que tem como apelido o nome de “Quatorzième”

Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido o nome de “Quinzième”

Isaura Rosado Maia, que tem como apelido o nome de “Seize”

Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido “Dix-sept”

Jerônimo Dix-huit Rosado Maia

Jerônimo Rosado Maia, que tem como apelido o nome “Dix-neuf”

Jerônimo Vingt Rosado Maia

Jerônimo Vingt-un Rosado Maia.

Entre outras notícias publicadas pelo jornal carioca Gazeta de Notícias, de 3 de novembro de 1925, vemos o relato da morte de um dos filhos de Jerônimo Rosado
Entre outras notícias publicadas pelo jornal carioca Gazeta de Notícias, de 3 de novembro de 1925, vemos o relato da morte de um dos filhos de Jerônimo Rosado

Numeração

Ninguém sabe ao certo o que levou o patriarca a numerar os filhos. Talvez influência dos tratados farmacêuticos da época, todos escritos nas duas línguas, ou algum tipo extremo de obsessão pela ordem. O que se sabe é que o velho Jerônimo Rosado era fanático pela educação dos filhos e dos netos. Tão fanático que, certa vez, quando um de seus netos decidiu que não iria mais estudar, ele não pensou duas vezes. Mandou fazer uma engraxateira para o menino, deu-lhe um macacão de engraxate e ordenou que começasse a trabalhar. Sugeriu, até, que ele nem precisava sair de casa, já que a família era grande e ali mesmo ele teria uma boa clientela. Logo, logo o menino voltou para a escola.

O velho Rosado ensinou os filhos, ainda, a serem solidários. Se houvesse apenas uma fruta para comer, ela era dividida igualmente entre todos. Estimulava as crianças a conversar com estranhos, levando-as consigo, sempre, a encontros ou jantares. Não fazia distinção de sexo: meninos e meninas deviam acompanhar o pai. Tratava todos da mesma maneira. Queria vê-los trabalhando e estudando. Em razão disso, fundou a primeira escola exclusivamente feminina de Mossoró: o Externato Mossoroense.

Tese

Em sua tese de doutorado sobre a família Rosado, o professor José Lacerda Alves Felipe defende a ideia de que essa forma de educar adotada por Jerônimo Rosado tinha como objetivo formar o núcleo de uma oligarquia. Nela, cada filho teria uma função econômica. Felipe trata Jerônimo Rosado como o “herói civilizador” de Mossoró. Uma espécie de grande criador, de instituições sociais, elementos culturais, mitos. O objetivo não declarado era sempre, ele diz, conquistar o poder político.

I0038975-07(02123x03406)

I0039044-07(02120x03406)

I0039044-07(02120x03406) - Cópia

Cada vez que um filho se aproximava da maturidade, o velho Rosado o chamava para uma conversa em particular, em que tentava convencê-lo a entrar para a política. Os Rosado desmentem isso. Alguns mossoroenses afirmam, contudo, que essa foi uma das revelações feitas por Dix-Huit em seu leito de morte. Verdade ou mito? O que se sabe é que, apenas 18 anos depois da morte do patriarca, um Rosado abraçou, de fato, a carreira política. Em 1948, Dix-Sept Rosado Maia, em uma campanha na qual pela primeira vez se usaram trios elétricos, foi eleito prefeito de Mossoró.

 O Mito Rosado

Dix-Sept governou a cidade durante quatro anos. Tornou-se, depois, governador do estado, mas morreu, em um acidente aéreo, seis meses depois da posse. Virou um mito. No País de Mossoró, há uma estátua de Dix-Sept, em bronze e tamanho real, na principal praça da cidade. Sob ela, podemos ler: “Nele se conjugaram idealismo e ação, espírito público e solidariedade humana, capacidade de resistência e destino de comando […]”. Logo abaixo, em letras enormes, a assinatura: “Homenagem do povo”. A estátua foi construída pelo irmão Vingt, que, em 1954, o sucedeu na prefeitura de Mossoró.

O 17º filho foi, de fato, a raiz política dos Rosado. Irmãos, sobrinhos e netos o sucederam como prefeitos da cidade, vereadores, deputados e até senadores. Entre eles, destacam-se Dix-Huit e Vingt Rosado. Depois de algum tempo, os dois irmãos romperam. Diz-se em Mossoró que a briga entre eles não passou de uma jogada política para conservar, em definitivo, os Rosado no poder. Desde então, Rosado é oposição de Rosado. Não importa o vencedor: a família sempre leva. O sobrenome Rosado batiza, hoje, muitas ruas, praças e até estabelecimentos comerciais de Mossoró.

Nota do jornal carioca Gazeta de Notícias, 1 de julho de 1922, mostrando a atuação política de Jerônimo Rosado
Nota do jornal carioca Gazeta de Notícias, 1 de julho de 1922, mostrando a atuação política de Jerônimo Rosado

A cultura, porém, ficou nas mãos do 21º, Vingt-un, a quem coube realizar os sonhos educacionais do pai. Desde cedo, ele se empenhou para contar a história de Mossoró, registrar tudo que levasse o nome de sua terra natal e gerar e publicar a produção intelectual dos mossoroenses. Foi por isso que nos anos 1960 ele idealizou e fundou a Escola Superior de Agronomia de Mossoró (ESAM), onde organizou encontros e seminários e fez amizade com grandes intelectuais. Vingt-un Rosado foi uma espécie benigna de fanático.

A biografia completa do pombalense Jeronimo Rosado foi escrita pelo historiador Luiz da Câmara Cascudo, no livro “Jerônimo Rosado: uma ação brasileira na província de Mossoró(1861-1930)”.

Fontes de texto – http://www.itaucultural.org.br/rumos/webreportagem/osrosados.htm

http://clemildo-brunet.blogspot.com.br/2011/06/jeronimo-ribeiro-rosado.html

Fonte de fotos – Autor do Blog Tok de História

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

O SAL NO RIO GRANDE DO NORTE

Fonte http://naesquinadobrasil.blogspot.com.br/
Fonte http://naesquinadobrasil.blogspot.com.br/

O sal foi um dos primeiros produtos a ser explorado comercialmente no Rio Grande do Norte. A exploração normal e extensiva das salinas de Mossoró, litoral de Areia Branca, Açu e Macau data de 1802. Mas o conhecimento de jazidas espontâneas na região já era conhecida desde o início da colonização.

A primeira referência que se tem sobre sal no Rio Grande do Norte, encontra-se registrado no documento que Jerônimo d’Albuquerque escreveu a seus filhos Antônio e Matias em 20 de agosto de 1605, onde fala de salinas formadas espontaneamente a aproximadamente 40 léguas ao norte, o que corresponde hoje as salinas de Macau. Desse fato, voltamos a ter notícias quando consultamos o “Alto de repartição das terras” feito em Natal em fevereiro de 1614, onde está escrito que Jerônimo de Albuquerque dera aos filhos Antônio e Matias, em 20 de agosto de 1605, umas salinas que estariam a quarenta léguas para o norte (aproximadamente 240 km), mas que nunca foram cultivadas nem feitas benfeitorias.

Salinas na década de 1920
Salinas na década de 1920

Em 1627, frei Vicente do Salvador registrou a colonização Norte-rio-grandense. Notou que “as salinas onde naturalmente se coalha o sal em tanta quantidade que se podem carregar grandes embarcações”.

Outro registro que encontramos nos velhos livros de história fala que em janeiro de 1644, alguns Tapuias, de volta do Outeiro da Cruz (Maranhão), onde tinham estado em combate, entraram nas salinas de Mossoró e degolaram alguns trabalhadores que ali se encontravam.

Em 1808 os salineiros da região foram beneficiados, quando o rei de Portugal, D. João VI, impossibilitado de receber carregamentos de sal de Portugal, assinou a carta régia que liberava de quaisquer imposições a extração do sal favorecendo, sobremaneira, o comércio interno.

Tradicional catavento para extração de sal na década de 1920
Tradicional catavento para extração de sal na década de 1920

Em 1844/45, setenta e oito barcos carregaram em Macau 59.895 alqueires de sal. No entanto, embora o sal extraído no Rio Grande do Norte fosse superior pela sua qualidade intrínseca, perdia essa qualidade pela rudeza como era produzido, de modo que nos anos seguintes perdia mercado para o sal europeu que era mais barato e melhor preparado. Um dos fatores que onerava o preço do sal produzido no Rio Grande do Norte era a dificuldade no transporte por causa do assoreamento das barras dos rios Mossoró e Açu.

Em 1886 é criado um imposto protecionista para tributar o sal estrangeiro. Dessa forma, o sal produzido no Rio Grande do Norte passa a ser competitivo, e isso impulsiona decisivamente o desenvolvimento da nossa indústria salineira.

No período de 1941/45, houve uma retração na extração do sal, motivada pela diminuição da navegação de cabotagem durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar disso, o sal continuou sendo o principal produto comercializado por Mossoró e região, sofrendo oscilações que não comprometeram o mercado de forma mais acentuada.

Os municípios do Rio Grande do Norte produtores de sal são os seguintes: Galinhos, Guamaré, Macau, Areia Branca, Grossos e Mossoró.

Barco tradicional utilizado no transporte de sal
Barco tradicional utilizado no transporte de sal

Depois de toda essa explicação, o leitor poderia perguntar: como Mossoró está entre os municípios produtores de sal se não fica no litoral? Para responder a essa pergunta, temos que dá outras explicações: o clima predominante em Mossoró é semiárido quente, com temperatura oscilando entre 24o e 35o centígrados, temperatura essa que dura a maior parte do ano. O ar apresenta baixo teor de umidade, elevada evaporação, apresentando uma média de 2.850mm. As precipitações ocorrem ao redor de 450 mm anuais e a evaporação líquida é de 2.400, sendo que a intensidade de irradiação solar varia entre 120 e 320 horas/mês, com ventos que apresentam velocidade média entre 3,8 e 4,4 m/s. Junto a isso temos ainda um solo impermeável, o que assegura condições ideais para a cristalização e colheita do sal, com um grau de pureza que atin ge até 98 Baumé (Graus de Baumé é uma escala hidrométrica criada pelo farmacêutico francês Antoine Baumé em 1768 para medição de densidade de líquidos.).

Local de extração de sal
Local de extração de sal

E onde estão localizadas as salinas? Poderia perguntar ainda o atencioso leitor. As salinas de Mossoró estão localizadas na várzea estuarina dos rios Mossoró e do Carmo. Essa várzea é inundada, ora pelas águas do mar, ora pelas águas das enchentes dos rios, que quando cessam as chuvas formam salinas naturais, onde o relevo é plano e baixo, estreitando-se para o litoral, onde a água do mar chega a alcançar até 35 Km do litoral. Essa série de fenômenos naturais é que faz com que Mossoró possa figurar entre os municípios produtores de sal do Rio Grande do Norte.

Fonte do texto – http://salnautico.com.br/historia.php

Fotos – Coleção do proprietário do Blog Tok de História

NATAL – INÍCIO DO SÉCULO XX – QUANDO O LIXO DOMINOU A NOSSA CIDADE

Lixo no bairro do Alecrim, Natal, 2012
Lixo no bairro do Alecrim, Natal, 2012

OS ATUAIS PROBLEMAS COM O LIXO EM NATAL É UMA HISTÓRIA BEM ANTIGA E QUE SE REPETE

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Segundo o artigo “Resíduos do Progresso: urbanização, modernidade e limpeza pública em Natal na Primeira República”, de Francisco Carlos Oliveira de Sousa, Mestre em Ciências Sociais, apresentado no XXV Simpósio Nacional de História, ocorrido em Fortaleza, no ano de 2009, o tema da higiene nos centros urbanos, reconhecido como de extrema importância para a saúde pública, foi muito debatido na passagem dos séculos XIX para o XX em nosso país.

Segundo Francisco Carlos, a temática da higienização urbana em Natal ganhou projeção entre os segmentos instruídos da nossa sociedade. Resolver este problema era um desafio significativo e, sem uma intervenção drástica nessa área dos serviços urbanos, afirmavam, o saneamento e o aformoseamento da cidade estariam comprometidos.

nat ontem086

O artigo apresentado em Fortaleza afirma que, ainda em 1886, a Inspetoria de Saúde Pública, sob o comando do Dr. Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, apontava dois fatores cruciais para os problemas sanitários existentes em Natal: a má alimentação e o precário asseio da população, sendo a cidade caracterizada como uma imensa “esterqueira a céu aberto”.

Estávamos às vésperas da Proclamação da República e novos temas emergiam na agenda governamental. A higiene corporal, e também a urbana, começou a despertar maiores interesses.

Após a Proclamação da República em 1889, Pedro Velho seria o primeiro governador republicano do Rio Grande do Norte, onde, sob a sua liderança, formou-se a oligarquia dos Maranhão, cujo domínio político no Estado perdurou por mais de duas décadas.

Logo, o tema da coleta de lixo voltou com razoável frequência às mensagens dos governadores do Rio Grande do Norte encaminhadas ao Congresso Legislativo (antiga denominação das atuais Assembleias Legislativas).

Já não era mais possível negligenciar os desafios impostos pela necessária reformulação dos serviços de limpeza urbana em Natal. Contudo, segundo Francisco Carlos, a dimensão do problema ainda não fora mensurada em sua plenitude.

Como o então governador Adolfo Affonso da Silva Gordo viu a higiene no centro de Natal
Como o então governador Adolfo Affonso da Silva Gordo viu a higiene no centro de Natal

Em 1890, o presidente estadual, Adolfo Affonso da Silva Gordo, criticou o próprio centro da cidade de Natal, que nesta época tinha em torno de 15.000 habitantes, ao classificá-lo como uma das áreas mais carentes em higiene da capital. Apontava o governador que as áreas adjacentes, ou periféricas, eram mais salubres que o centro.

Os Primeiros Passos em Busca de uma Solução

No periódico “Rio Grande do Norte”, edição de quinta-feira, 8 de janeiro de 1891, o “Conselho de Intendência da Cidade do Natal” tornava público que a municipalidade desejava contratar, “com quem maiores vantagens oferecer”, algum empreendedor para desenvolver na nossa cidade o serviço de limpeza pública. Acreditamos ser este o primeiro contrato do gênero a ser formulado em Natal.

“Rio Grande do Norte”, edição de quinta feira, 8 de janeiro de 1891
“Rio Grande do Norte”, edição de quinta feira, 8 de janeiro de 1891

As solicitações existentes neste contrato mostram aspectos do que era a capital potiguar na época; para recolher todo o lixo de Natal, deveriam haver apenas três carroças de duas rodas, com um grande caixão de madeira e puxadas por animais. Duas das carroças ficariam na Cidade Alta e outra na Ribeira, apontando a densidade populacional dos dois únicos bairros da cidade. Os serviços deveriam ser diários, ter início sempre às seis e meia da manhã e foi solicitado ao contratante uma caução de 200$000 réis para participar da possível concorrência. Também estava designado a quem aceitasse este contrato a obrigação de varrer as ruas e praças, serviço que deveria ser sempre realizado à noite.

Mas talvez a mais importante cláusula existente era a necessidade do contratante incinerar os restos a cada 15 dias, que ficariam em um depósito a ser designado.

Parece que este contrato de coleta de lixo e limpeza urbana possuía muitas exigências que inviabilizavam a sua execução, pois não encontrei registros de que alguém tenha apresentado alguma proposta.

Novas Posturas em Meio a uma Situação Lastimável

Paralelo à publicação de interessados no contrato de limpeza pública, a fim de combater essa situação sanitária, percebemos que os republicanos que assumiram o poder buscaram criar toda uma mudança de postura da sociedade natalense da época. Documentos apontam que a falta de conhecimento da população em relação às questões sanitárias ajudava na ampliação de toda a problemática.

Quadro desolador de Natal, na opinião do  Dr. Manoel Segundo Wanderley
Quadro desolador de Natal, na opinião do Dr. Manoel Segundo Wanderley

Na mensagem governamental encaminhada ao Congresso Legislativo potiguar em 1896 (Anexo 6, página 2), o então Inspetor de Higiene Interino e Médico Adjunto do Hospital da Caridade, o Dr. Manoel Segundo Wanderley, traz um quadro verdadeiramente desolador da situação de higiene em Natal.

Ele denunciou que “a maioria dos quintais é feita de latrina e as cloacas abertas na superfície do solo, adicionados a uma certa dose de ignorância condenável e incorrigível indolência de grande parte da população”.

Utilizando como referência o livro do Professor Itamar de Souza “Nova história de Natal”, em sua 2ª edição (2008), nas páginas 79 a 81, vemos que na edição de segunda feira, 26 de janeiro de 1891, do jornal “a República”, foi publicado um documento denominado “Código de Posturas Municipais”. Em 10 Artigos os governantes da época apontavam para os habitantes de Natal as suas obrigações e penalidades em relação à maneira como eles teriam que trabalhar o lixo, a limpeza pública e sobre a cobrança dos impostos devidos a este setor.

nat ontem037

Nos seus primeiros artigos constava a implantação de uma taxa de 500 réis para as pessoas que ocupassem casas na área do município de Natal. Consta que este dinheiro era destinado a pagar o “asseio urbano”. Na Ribeira e na Cidade Alta deveria haver um cobrador para cada bairro, aplicando multas por infrações que chegavam a até 10$000 réis. Os dirigentes municipais entendiam que através das multas, poderiam disciplinar a população de Natal e assim extinguir antigas e reprováveis práticas.

Não deixa de chamar atenção neste “Código de Posturas Municipais” o artigo 4º, onde se lê;

“Organizado os serviços de limpeza ficarão todos obrigados a mandarem varrer diariamente as suas casas e quintais e depositar o lixo em uma vasilha a porta, pela manhã”.

Bem, o que hoje pode parecer o básico, naquele limiar do século XX tinha que ser colocado em documento e publicado em jornal, mesmo que grande parte da população de Natal fosse completamente analfabeta.

Serviço sem Qualidade

Os republicanos que assumiram a administração potiguar passaram a demonstrar crescente interesse pela questão da limpeza pública, em especial na capital do Estado.

Como a tentativa de fechar um contrato de coleta de lixo em  janeiro de 1891 não surtiu nenhum efeito, segundo o professor Itamar de Souza, em agosto de 1892 foi aberta outra concorrência pública para o serviço de coleta de lixo e limpeza da cidade.

Entre as novidades deste novo contrato estavam a de colocar nas carroças a placa “Limpeza Pública”, a obrigatoriedade das carroças de coleta percorrer as ruas da cidade três vezes por semana, arborizar praças e recolher animais mortos.

Mas tal como no contrato de 1891, este novo documento trazia a importante cláusula para que o contratante incinerasse os restos a cada 15 dias, que ficariam em um depósito a ser designado. A íntegra das regras deste novo contrato está publicada na edição de sábado, 27 de agosto de 1892 do jornal “A República”, página 4.

Os problemas do lixo em Natal em 1895
Os problemas do lixo em Natal em 1895

Três anos depois o contratante do serviço era o Sr. José Domingues de Oliveira. Mas os serviços de coleta eram de baixa qualidade, gerando inúmeras críticas em relação a atrasos no recolhimento, onde os restos permaneciam dias nas caçadas (Ver Itamar de Souza, “Nova história de Natal”, 2ª edição, 2008, págs. 79 a 81).

Mas não era apenas o atraso na coleta que marcaria negativamente o contrato firmado entre a municipalidade de Natal e o Sr. José Domingues de Oliveira.

O Rio Potengi e Nossas Praias Viram Depósito de Lixo

Naquele início do século XX, tal como nos dias atuais, um dos graves problemas relacionados era o destino dos resíduos.

Como vimos anteriormente, apesar dos contratos de coleta do lixo apresentarem cláusulas que obrigavam os pretendentes que desejavam assumir este serviço a montarem um incinerador de lixo, nada foi feito.

Em uma época onde a preocupação com o meio ambiente era bem limitada, o empreendedor que assumiu os serviços de coleta de lixo e limpeza pública, decidiu resolver esta parte do seu trabalho da forma mais simples e barata possível; jogar tudo que recolhia no rio Potengi, ou nas nossas praias.

Porto de Natal
Porto de Natal

Mas a abominável solução não deu certo!

Certamente em razão das marés no estuário do Potengi, os restos acabaram chegando ao ancoradouro do nosso porto. Segundo o professor Itamar, através de um texto publicado no jornal “A República”, em 10 de setembro de 1897, o então comandante da Capitania dos Portos de Natal, o capitão tenente José Lobato Thomaz de Castro, publicou uma advertência onde afirmava que era proibido por lei depositar ao longo da praia “lixo, monturo e resíduos diversos”. O oficial naval apontava que estes dejetos estavam provocando “graves prejuízos para a conservação do ancoradouro desta capital”.

Desejo de Mudanças

Natal entra no século XX. Mas os velhos problemas persistiam

Segundo o artigo “Resíduos do Progresso: urbanização, modernidade e limpeza pública em Natal na Primeira República”,  do Mestre em Ciências Sociais, Francisco Carlos Oliveira de Sousa, durante o primeiro mandato o governador potiguar Alberto Frederico de Albuquerque Maranhão, em sua mensagem de 1900, anunciou várias medidas higiênicas.

nat ontem148

Anunciou que o Governo do Estado passaria a colaborar com o serviço de limpeza urbana da capital, que era alvo de constantes reclamações da sociedade, de modo a garantir a regular higienização dos logradouros públicos e domicílios. Justificava essa medida pela insuficiência dos recursos da Intendência Municipal para o desempenho satisfatório desse serviço.

Quatro anos depois, o relatório da Inspetoria de Higiene Pública apresentado ao governador, registrou o desalento em relação aos resultados obtidos pela parceria. Entre as observações apontadas constava que “sem um serviço regular de limpeza pública, sem esgotos, sem calçamento, sem arborização adequada, latrinas à superfície do solo, nossa capital será constante presa dos assaltos morbígeros”.

Para o cientista social Francisco Carlos, a ineficiência persistiu indiscutível e desafiou os novos governantes e seus ideais de modernidade.

A Cidade Muda

Nesta época a população natalense habitava basicamente os atuais bairros da Ribeira e Cidade Alta. As Rocas e o Alecrim eram bairros em formação e o que hoje são os supervalorizados bairros de Petrópolis e Tirol, se transformava no terceiro bairro de Natal; a Cidade Nova.

Apesar de toda esta simplicidade é indubitável que Natal passava um processo de transição, que alteraria os aspectos sociais, do comportamento de sua população e seus aspectos físicos. O novo bairro de Cidade Nova, onde antes existiam apenas as granjas dos mais abonados, era fruto de um plano de urbanização.

Naqueles primeiros anos do século XX, algumas “modernidades” estavam acontecendo na nossa cidade; desde 1904 já existia iluminação com gás acetileno na Cidade Alta, (com hora para ser apagada). Dois anos depois a novidade chegou à Ribeira. Logo teve inicio o transporte de pessoas em bondes puxados por animais, em um trecho que ligava apenas a Cidade Alta à Ribeira.

PraçaAS9

Com o natural crescimento da população e também influenciadas pelas ações higienistas ocorridas na época no Rio de Janeiro, então a Capital Federal, foram drenadas e saneadas as áreas alagadiças na Ribeira e no Baldo, onde foram construídos a Praça Augusto Severo e o chamado balneário do Baldo.

A necessária urgência na tomada de decisões levou o governador a anunciar medidas mais consistentes. O governo propunha uma novidade técnica: a tão sonhada implantação de um sistema de incineração em larga escala do lixo urbano, que os empreendedores privados não conseguiram realizar.

nat ontem040

Mas os recursos eram escassos. O próprio governador comunicara que no último ano nenhuma obra fora construída em Natal com verbas oriundas do governo do Estado, em virtude da forçosa economia pecuniária. Em síntese, o sonho da cidade moderna estava longe e as melhorias indispensáveis exigiam somas consideráveis.

Logo um fato interessante mostraria como o problema do lixo era amplo naquela tranquila Natal.

Insinuações de Facilitações

Em 1908 a nossa cidade tinha aspetos extremamente provincianos e uma população que ficava em torno de 20.000 habitantes (tamanho equivalente atualmente às cidades potiguares de Monte Alegre, Parelhas e Caraúbas).

Na primeira página do periódico “Diário de Natal”, edição de quinta feira, 9 de janeiro, o editor Elias Souto relembrava que na época em que o lixo era recolhido mediante contrato, este “adormecia” em montões, apodrecendo  nas portas das casas dos natalenses e trazendo vários problemas. Mas naquele 1908, a crítica do editor do “Diário de Natal” estava na forma que os novos contratos de coleta estavam sendo realizados.

Joaquim Manoel Teixeira de Moura
Joaquim Manoel Teixeira de Moura

Souto insinua que o “felizardo” ganhador deste novo contrato, desta “rendosa empresa”, não seria outro senão o filho do então Presidente da Intendência de Natal, cargo exercido na época por Joaquim Manoel Teixeira de Moura, chamado popularmente de “Quincas Moura”.

Acusava Souto que o novo contratante era um “filhote melhor apadrinhado”,

Para melhor entendimento, naquele tempo cada município potiguar era administrado por um Conselho Municipal de Intendência, que possuíam normalmente sete membros. Mas na capital haviam nove membros. Tais conselhos de intendência eram responsáveis, com exclusividade, pelo poder executivo municipal, separando este poder do legislativo, que continua a cargo das câmaras municipais. Assim o Presidente do Conselho de Intendência possuía  a mesma equivalência ao atual cargo de Prefeito.

Insubordinação com o Lixo do Quartel? 

Nesta época o jornal de Elias Souto mantinha uma incrível batalha política contra a oligarquia Maranhão, em debates homéricos entre o seu periódico e o jornal governista “A República”, com uma intensa troca de acusações e de insinuações de malversação da utilização do dinheiro público. Praticamente todos os dias Elias Souto criticava a atuação (ou a falta dela) do governo em todas as áreas. Um dia era contra a falta de apoio aos flagelados da seca, no outro era contra o contrato de fornecimento de carne verde a Intendência e sempre a problemática do lixo era recorrente.

“Diário de Natal”, edição de quinta feira, 9 de janeiro de 1908
“Diário de Natal”, edição de quinta feira, 9 de janeiro de 1908

Ainda na edição do “Diário de Natal” de 9 de janeiro de 1908, Souto acusou que a troca do contratante para a coleta do lixo estava deixando com que a carroça da limpeza passasse diante das casas dos natalenses “de mês em mês” e o lixo “cresce, domina e impera nesta cidade progressista”.

Militares do 2º Batalhão de Caçadores
Militares do 2º Batalhão de Caçadores

Para exemplificar o grave problema que denunciava no seu jornal, Souto afirmou que diante da inatividade da Intendência em tomar alguma providência em relação ao recolhimento do lixo, os militares do único quartel do Exército Brasileiro existente na cidade tomaram uma atitude radical; simplesmente jogaram todo seu lixo no terreno diante do quartel.

Nesta época esse quartel ficava no centro de nossa cidade, onde hoje está localizada a Escola Estadual Winston Churchill. O terreno defronte ao antigo quartel é onde fica atualmente o SESC do centro de Natal, na Rua coronel José Bezerra, pertinho da sede da OAB-RN.

A pretensa insubordinação no 2º Batalhão de Caçadores no “Diário de Natal”, edição de quinta feira, 9 de janeiro
A pretensa insubordinação no 2º Batalhão de Caçadores no “Diário de Natal”, edição de quinta feira, 9 de janeiro

Mas voltando na 1908. Nas páginas de seu jornal Elias Souto despejava mais lenha na fogueira, aconselhando os proprietários de residências e lojas comerciais a tomarem a mesma atitude dos militares. Enfim, se a representação oficial do Exército Brasileiro em Natal, na época uma das principais e mais atuantes forças políticas do país, havia tomado tal posicionamento, porque o cidadão comum não faria o mesmo?

Um Militar de Fibra

O então comandante do 2º Batalhão de Caçadores era um militar veterano de muitas batalhas e com fibra suficiente para fazer o que Elias Souto comentou em seu jornal. Este era o tenente coronel Febrônio de Brito.

Quando chegou a Natal, em 27 de agosto de 1906, teve publicado pela imprensa local o seu currículo. Este era baiano, nascido em 25 de junho de 1851, aos 14 anos marchou para participar da Guerra do Paraguai e voltou promovido a alferes. No posto de major vai comandar a segunda expedição do Exército Brasileiro ao arraial de Canudos, no interior da Bahia, em 19 de janeiro de 1897.

Tenente coronel Febrônio de Brito, comandante do 2º Batalhão de Caçadores em Natal, 1908
Tenente coronel Febrônio de Brito, comandante do 2º Batalhão de Caçadores em Natal, 1908

Neste combate, apesar de contar com 543 praças, 14 oficiais combatentes, 3 médicos, dois canhões Krupp de 7,5 polegadas e duas metralhadoras Nordenfelt, esta expedição não alcançou seus objetivos. Mas repeliu com pesadas baixas os homens que seguiam a figura de Antônio Conselheiro. O violento combate ocorreu às margens de uma lagoa, que mudou de cor pelo sangue perdido pelos combatentes. A força militar se viu obrigada a retirar, cansada, com sede e com fome, tendo sofrido mais de 70 baixas, dez deles mortos. Não foi possível determinar o número de conselheiristas mortos, mas seguramente em número muito superior. Segundo o relato do comandante da força, seriam mais de 600 mortos. Apesar do apelido de “Fujão” que ganhou, Febrônio de Brito  conseguiu pelo menos organizar uma retirada correta de sua tropa. Situação que o comandante da próxima expedição a Canudos, o coronel Moreira César, não conseguiu e pagou com a sua vida e centenas de seus comandados.

Podemos ver pelo passado do tenente coronel Febrônio de Brito que, se realmente ele estava revoltado com a carência dos serviços públicos na cidade, ele não teria nenhum problema em fazer o que Elias Souto propagou em seu jornal.

Quartel do 2º Batalhão de Caçadores em Natal
Quartel do 2º Batalhão de Caçadores em Natal

Infelizmente, por não haver material histórico que confrontasse as afirmações de Elias Souto, não tive como apurar se as afirmações deste batalhador jornalista de oposição eram verídicas, falsas ou simplesmente exageradas. Pesquisei nos restos do jornal “A República” existente no nosso Instituto Histórico, mas os exemplares deste período estão bastante deteriorados.

E os Problemas Continuaram,,,

Para o cientista social Francisco Carlos, para alguns os atores da época, as soluções em relação às problemáticas do recolhimento do lixo em Natal só começaram a ser resolvidas em 1912.

Alberto Maranhão tomando posse. Ao fundo, no alto da colina, o quartel das forças federais em Natal, no início do século XX
Alberto Maranhão tomando posse. Ao fundo, no alto da colina, o quartel das forças federais em Natal, no início do século XX

Foi quando o governador Alberto Maranhão, no início do seu segundo mandato, solicitou ao Congresso Legislativo a responsabilidade integral pelos serviços de limpeza urbana da capital. Logo inaugurou no dia 1 de setembro o forno de incineração de lixo. Para Maranhão, a técnica da incineração dos resíduos era a mais apropriada para vencer os desafios da limpeza urbana e a sua inauguração foi saudada como um marco para a higienização de Natal.

Francisco Carlos, em seu trabalho aponta que, mesmo com a implantação deste incinerador, a questão da salubridade urbana estava longe de uma solução satisfatória.

Em 1924, o então governador José Augusto Bezerra de Medeiros apresentou a sua primeira mensagem governamental ao Congresso Legislativo, onde informava que havia criado a Comissão de Saneamento de Natal. Era uma outra investida do Poder Público no sentido da modernização da cidade.

Para o autor de “Resíduos do Progresso: urbanização, modernidade e limpeza pública em Natal na Primeira República”, nesse conturbado cenário, a questão do lixo urbano em Natal continuava a ser um desafio para os gestores locais.

nat ontem262

O forno de incineração, cuja menção reaparece nos documentos oficiais de 1927, ainda era citado como indispensável para a resolução do problema da limpeza pública. Depois de 15 anos de sua inauguração, o velho incinerador já não suportava a demanda proveniente das ruas e logo estava prestes a passar por mais uma reforma.

No ocaso da chamada República Velha, os desafios impostos aos gestores persistiam e ganharam vulto com o crescimento da cidade.

E Continuam até Hoje.

Bem, acho que tirando a pretensa insubordinação militar de Febrônio de Brito e narrada por Elias Souto, tudo que está nestas velhas histórias ocorridas em nossa querida cidade no final do século XIX, e na primeira metade do século passado, se repetiram agora em pleno século XXI.

Nós estamos vivendo no século em que nossos bisavós e avós imaginavam que tudo seria moderno, prático, funcional e perfeito. Mas infelizmente vemos que a última gestão municipal repetiu a mesma falta de planejamento público diante do crescimento urbano, a mesma má utilização de verbas públicas, ocorreram às mesmas insinuações de favorecimentos em contratos de coleta de lixo, a mesma falta de gerenciamento adequado e até poluição ambiental.

1_1lixo8

O que fica destas velhas lições do passado.

Que aparentemente em Natal a problemática do recolhimento do lixo e sua destinação nunca foi realmente trabalhada a sério pelos nossos governantes. O lixo e suas consequências, como afirma o dito popular, nunca foi “atacado de frente”.

Com o crescimento da cidade, este problema se torna cada vez maior, preocupante e recorrente. Basta o descaso e a descontinuidade dos trabalhos de recolhimento, conforme vimos agora com Micarla de Souza, para a situação se tornar rapidamente um verdadeiro caos.

Aí se repete a máxima; quem não conhece os erros de sua história, tornam a repeti-los.

Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

TURISMO NO RIO GRANDE DO NORTE

image025

NA TERRA DO “JÁ TEVE” E DO “JÁ FOI”, O TURISMO OBTEVE UM GRANDE SUCESSO ECONÔMICO. MAS LOGO VEIO A  QUEDA. MUITOS ESPERAM QUE A COPA DO MUNDO DE 2014 AJUDE O TURISMO DO RN A VOLTAR AO SEU PASSADO DE GLÓRIA. SERÁ QUE ISSO VAI ACONTECER?  

Autor – Rostand Medeiros

O turismo no Rio Grande do Norte se tornou uma das principais atividades econômicas do estado. Esta atividade já possuiu um dos principais papeis no processo de desenvolvimento do estado, ocupando o posto de segunda fonte de renda estadual (Receita estimada de US$ 216.131.752 em 2002, segundo dados da SETUR-RN) e de maior empregador da iniciativa própria.

Em apenas cinco anos o número de visitantes que estiveram o Rio Grande do Norte praticamente dobrou – saiu de 1.423.886 em 2002, para 2.096.322 em 2007. Além disso, os atrativos se mostraram extremamente interessantes para os turistas. Dados indicavam que 91% dos turistas entrevistados desejavam retornar para uma nova visita.

image013

De 5 voos internacionais em 2003, o RN passou a receber 23 voos internacionais em 2005, sendo 5 regulares, operados pela TAP. Em 2002 o turismo gerava 80 mil empregos diretos. Em 2005 a atividade foi responsável por mais de 120 mil empregos diretos e 600 indiretos, em todo o estado. E nesse mesmo ano, a participação do turismo na economia potiguar excedeu o petróleo, o camarão, o melão e a castanha de caju, juntos e fez crescer a atividade imobiliária no estado, que passou a se voltar muito para o mercado internacional.

O Rio Grande do Norte passou a ser referência nacional em turismo internacional, com a maior quantidade de voos charters, conforme dados da própria EMBRATUR. Outra coisa importantíssima foi a implantação da política de Interiorização do Turismo. Isso acarretou a criação em 2005 de dois importantes polos turísticos: o Polo Turístico Costa Branca e o Polo Turístico do Seridó. Este último já roteirizado, em parceria com o SEBRAE, e o primeiro com o projeto de roteirização sendo executado em 2006. O próprio Polo Turístico Costa das Dunas, do qual faz parte Natal, Pipa e Touros, foi institucionalizado em 2005.

image016

Mas o Rio Grande do Norte, que já foi o segundo destino turístico mais procurado em 2006 no Nordeste, caiu para a quarta posição em 2010.

Com efeito, mesmo registrando rentabilidade, o turismo no Rio Grande do Norte vem em queda vertiginosa, principalmente no critério da chegada de visitantes estrangeiros. Se em 2010 foram 46 mil, o número está aquém dos anos anteriores. Em 2007, foram 255 mil, contra 299 mil do ano anterior e quase 350 mil em 2005.

Em termos de porcentagem  entre 2006 e 2010, o turismo internacional recuou 60,4% no Estado. Levantamento da OMT cita que o Rio Grande do Norte recebeu 46 mil turistas estrangeiros em 2010 – ano mais recente da pesquisa, enquanto aplicou R$ 30 milhões nesta área.

Em Pernambuco e Ceará, concorrentes diretos do Rio Grande do Norte, a redução não ultrapassou 16%. De acordo com dados do Ministério do Turismo, o Rio Grande do Norte recebeu  117,6 mil turistas estrangeiros em 2006. O Ceará, um dos principais concorrentes dentro do Nordeste, recebeu 108 mil.Um fluxo 8,1% menor que o do Rio Grande do Norte. Em 2010, a situação se inverteu. Enquanto o Rio Grande do Norte recebeu 46 mil turistas estrangeiros, para o Ceará seguiram 94,7 mil – mais que o dobro.

Apesar de estados como o Ceará não terem tido o pico que o Rio Grande do Norte teve recentemente, outras unidades da federação continuaram investindo na promoção internacional, inclusive na Argentina e na Europa, através de diversas parcerias.

image017

Estudiosos e pesquisadores apontam que um destino turístico,por alguma razão perde seu mercado, a reconquista é sempre mais difícil. O ideal seria manter constantes ações promocionais, independente do cenário macroeconômico. Com a queda dos recursos investidos na divulgação dos atrativos turísticos, levando em consideração o cenário de crise internacional, a tendência é criar um grande hiato até a retomada do fluxo turístico nos mesmos patamares vivenciados anteriormente.

Apesar do recuo, o Rio Grande do Norte ainda é o estado brasileiro onde o turismo tem maior participação na economia formal. De acordo com estudo realizado pelo IPEA, a participação é de 4,4% – a maior do Brasil. O índice coloca o Rio Grande do Norte na frente de estados como São Paulo e Rio de Janeiro, maiores portas de entrada de turistas estrangeiros.

A Copa do Mundo da FIFA de 2014 no Brasil e a escolha de Natal como uma das cidades sede deste evento mundial podem alterar esta situação. Entre os efeitos positivos do mundial de seleções no turismo potiguar está o de praticamente dobrar o fluxo de turistas internacionais durante o evento.

image018

A capital potiguar receberá quatro jogos da Copa do Mundo, que acontecerão no novo estádio Arena das Dunas, com capacidade de receber 43 mil expectadores e com entrega prevista para dezembro de 2013.

Segundo um estudo da Fundação Getúlio Vargas, encomendado pelo Ministério do Turismo, apontam que cerca de 600 mil turistas virão ao Brasil no mês da Copa do Mundo. Eles realizarão cerca de 2 milhões de viagens na cidades sedes. No Rio Grande do Norte, esse segmento deverá ter 84.979 visitas – um dos menores entre as 12 cidades-sede do Mundial, mas representará um incremento de 82,4% no fluxo de estrangeiros na capital potiguar.

Já os números do Estudo Programa SEBRAE 2014: Mapa de Oportunidades para as Micro e Pequenas Empresas nas cidades-sede, encomendado pelo SEBRAE Nacional à Fundação Getúlio Vargas (FGV), 22,7% das 356 oportunidades de negócios geradas pela Copa em Natal, grande parte se destinará para o setor do comércio/serviços.

Especialistas apontam que na a copa de 2014 deixará três grandes legados para as cidades sedes: 1) Visibilidade mundial – O Brasil está na mídia mundial desde o final da Copa da África e permanecerá na mídia até 2018; 2) Obras de mobilidade urbana e infraestrutura que serão realizadas nas 12 cidades sedes; 3) Uma melhor qualificação e capacitação da mão-de-obra.

image020

Dentre as várias áreas relativas a comércio e serviços, o turismo, quando associado a toda uma  cadeia (cultura, artesanato, gastronomia), tem posição de destaque. É o primeiro lugar no ranking, com mais de 30% das oportunidades.

Dado o volume de estrangeiros que os estudos mostram que virão para Natal em 2014, um aspecto extremamente importante aponta para a questão da preparação das cidades-sede para receberem estes visitantes, corrigindo suas deficiências de infraestrutura e transmitindo uma imagem positiva. Estas melhor preparação garante o retorno dos turistas estrangeiros após a Copa.

A questão da capacitação dos profissionais da área turística para o período da Copa do Mundo de 2014, e após, está entre as prioridades dos setores do governo federal que atuam na área do turismo.

Entre os resultados já obtidos, destaca-se o programa de capacitação viabilizado através de parceria do Governo do Estado com o Ministério do Turismo no valor de R$ 440 mil.

A primeira fase prevê capacitação de 900 pessoas, entre bombeiros e policiais civis e militares. Na segunda fase o projeto deverá capacitar 400 taxistas e permissionários que trabalham na Grande Natal. Esta capacitação consiste em aulas de inglês básico, novas tecnologias e noções sobre a história do RN e seus principais pontos turísticos.

image026

Outra questão relativa ao turismo potiguar e a Copa do Mundo de 2014 é sobre os novos hotéis na área da Via Costeira.

Projetada parcialmente durante o governo de Cortez Pereira, com base numa ideia bem mais antiga, da época de Juvenal Lamartine, a Via Costeira teve seu projeto final definido por Tarcísio Maia, foi iniciada por Lavoisier Maia e concluída por José Agripino. O primeiro empreendimento hoteleiro ali instalado foi o Natal Mar Hotel, em dezembro de 1984.

Os atuais 28 mil leitos conseguem suprir a demanda de turistas que visitam a cidade, porém o advento da Copa do Mundo de 2014 aponta a necessidade de novas unidades hoteleiras. A última inauguração de hotel na Via Costeira foi em 2006 com o hotel do grupo catalão SERHS.

Segundo empresários locais existe a necessidade de acelerar a ampliação do número de leitos para a Copa do Mundo de 2014. Eles acreditam que efetivando a conclusão dos 11 empreendimentos planejados para a área e atualmente parados, Natal vai ganhar mais 7 mil leitos e dessa forma, atingir a marca de 33 mil; exigência da FIFA para as cidades-sede do evento. Estes novos leitos vão gerar cerca de 3.800 empregos indiretos, com a garantia de ter todas as obras concluídas em até 30 meses, a tempo para atender a demanda da Copa de 2014.

Pesquisas realizadas pela Secretaria Estadual de Turismo calculam que o consumo médio diário feito pelos visitantes (cerca de R$ 150) multiplicado ainda pelo número médio de diárias (sete dias) projeta um aporte de R$ 2,8 bilhões na economia potiguar e a arrecadação de aproximadamente R$ 425 milhões em tributos.

image012

Entretanto os investimentos na Via Costeira estão sujeitos a instabilidades jurídicas em decorrência de questões ligadas a área de preservação do meio ambiente.

A Via Costeira foi definida como sendo uma Área de Proteção Permanente (APP) em um relatório técnico coordenado pela Advocacia Geral da União (AGU) em 2010, onde a área não poderia receber novas construções. É o que defendem IBAMA, Ministério Público Federal e Estadual, além da Superintendência do Patrimônio da União (SPU/RN).

O IBAMA argumenta que as construções ajudam a degradar o meio ambiente no local, visto que a Via Costeira fica numa região de Dunas e as novas edificações poderiam gerar sérios problemas ambientais. Já o Governo do Estado, prefeitura e entidades do setor turístico acreditam que por ter sido projetada para atender o desenvolvimento do turismo, a área pode sim receber novas construções.

O que o trade turístico espera é que o episódio envolvendo a paralisação da construção do hotel da BRA não aconteça novamente.

Esta obra teve início em 2005, mas no ano seguinte teve um dos andares embargados por ter ultrapassado a altura máxima permitida pelo pano Diretor à época (15 metros a partir do solo).

image022

Em 2007, a Procuradoria da República enviou uma petição a Justiça Federal, exigindo a demolição do pavimento irregular. No mesmo ano a BRA recorreu. Em 2008, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região emitiu liminar afirmando que o hotel não deveria ser derrubado. Apenas em 2012 um acordo começou a ser definido junto ao IBAMA, que se mostrava contra a liberação da construção. Os proprietários do empreendimento prevêem que no primeiro semestre de 2013 será reinício a obra, cuja conclusão está prevista para 2015.

Em recente entrevista (Novo Jornal, 15/12/2012), o empresário hoteleiro e ex-secretário estadual de turismo Ramzi Elali, têm a esperança que o diálogo em torno do caso do hotel da BRA influenciasse na análise das demais áreas não edificadas da Via Costeira. Para este empresário já deveria existir uma regra clara para a utilização da área em prol do mercado turístico e da própria população de Natal. Ramzi comentou que o importante é que “se utilize do bom senso e a compreensão para se recuperar a área, colocar ponto final e começar a desenvolver o turismo no estado”.

Uma notícia alvissareira para o turismo potiguar está no convênio que a EMBRATUR firmou convênio com o Governo do Rio Grande do Norte para intensificar a promoção dos nossos atrativos turísticos nos Países Baixos. A intenção é captar voos diretos entre Amsterdam e Natal.

Existe um voo direto semanal entre Amsterdam e Natal, em operação desde 2003, comporta 180 passageiros, porém a frequência é dividida com Fortaleza. Na atualidade a única rota aérea vinda do exterior, utilizando Natal como destino é a que parte de Lisboa, sendo operacionalizada pela empresa aérea portuguesa TAP.

image004

A verba destinada pela EMBRATUR é de R$ 527 mil. As ações previstas são viagens de familiarização dos operadores de turismo com a nossa região, a vinda de jornalistas especializados desta área (as chamadas “press trips”), a produção de material promocional, campanhas publicitárias e pesquisas qualitativas.

A Holanda está entre os 20 primeiros países emissores de turistas para o Brasil. No ano passado, 72.162 holandeses estiveram aqui, dos quais 37% deles o lazer. Eles geralmente permanecem em torno de 19 dias e cada turista holandês gasta, em média, 81 dólares por dia no Brasil.

Mas se por um lado ações são planejadas para melhorar o turismo no Rio Grande do Norte, por outro existem problemas relacionados com a cobrança do ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, sobre o preço dos combustíveis de aviação. Este custo representa entre 40 a 45 % no preço final das passagens aéreas e nos últimos três anos o aumento médio deste insumo foi quase de 60%.

Foto postada no blog www.canindesoares.com

No aeroporto de Guarulhos (SP), o mais movimentado do Brasil, as companhias aéreas pagam R$ 2,65 pelo litro do querosene de aviação para voos nacionais e R4 1,98 o litro para voos internacionais. Isso cria uma situação inusitada; se um turista compara pela empresa área TAM uma passagem de São Paulo para Recife, vai desembolsar R$ 1.470,70. Mas se o mesmo turista desejar comprar pela mesma empresa uma passagem ligando São Paulo a Buenos Aires (Argentina), vai pagar R$ 1.171,46.

Este turista terá então uma economia de R$ 299,24, adquirindo uma passagem aérea para o exterior.

Desta maneira, será que voltaremos a ter aquele turismo tão ativo e pulsante, do qual participei como Guia de turismo?

IL BRASILE IN GUERRA

feb-V-Army

Fino al 1939 indeciso tra Washington e Berlino, il regime brasiliano si schierò ufficialmente a fianco degli Alleati con la dichiarazione di guerra a Germania e Italia dell’agosto 1942. Le ragioni che indussero a premere per il successivo invio di un corpo di spedizione in Italia furono di ordine internazionale e interno: rafforzare la propria posizione in Sudamerica e avviare uno sviluppo democratico del paese. Sbarcato in Italia nel luglio 1944, il contingente brasiliano ebbe il suo battesimo del fuoco nell’autunno successivo, in Garfagnana. E il 25 aprile 1945 i suoi uomini sfilarono con i partigiani per le vie di Milano.

Rivoluzione del 1930 in Brasile
Rivoluzione del 1930 in Brasile

Nel 1930 il Brasile nel 1930 visse una Rivoluzione che portò al potere, con l’appoggio dei militari, il presidente Getulio Vargas. Il governo del “padre dei poveri”, come spesso era definito Vargas, non fu subito ben accetto ma in breve riuscì, con varie riforme economiche, a creare nel paese una certa atmosfera di benessere. Il presidente realizzò un’ideologia di Stato, il nazionalismo populista, che ebbe grande ripercussione nella vita politica del Brasile.

Nel 1937, ricorrendo al pretesto di una falsa cospirazione comunista, Vargas compì l’atto finale del suo disegno dittatoriale e decretò, sempre con l’aiuto dei militari, l’abolizione della Costituzione del 1934 e decise che ne venisse preparata un’altra, ispirata a quella della Polonia, che all’epoca era retta da un regime autoritario.

Quando la Germania aggredì la Polonia, scatenando la reazione di Francia e Inghilterra, il Brasile dichiarò, il 6 settembre 1939, la propria neutralità proseguendo l’ambigua linea politica dettata dal presidente Vargas. In politica internazionale, già da alcuni anni, il Brasile si era avvicinato agli Stati Uniti d’America vivendo così gli stessi timori per i segnali premonitori della futura guerra mondiale.

Fu così che, il 27 novembre 1936, il presidente statunitense Roosevelt fu invitato ad un banchetto nel Palazzo Itamaraty (residenza presidenziale brasiliana a Rio de Janeiro), e in tale cerimonia il presidente brasiliano pronunciò un discorso definendo gli Stati Uniti la «grande nazione americana tradizionalmente amica del Brasile». L’incontro tra i due presidenti precedette di pochi giorni la prima Conferenza Interamericana di Buenos Aires, fortemente voluta dagli Stati Uniti in proseguimento della politica dettata dal presidente Monroe nel 1823 (lo slogan che caratterizzò tale dottrina politica fu: “L’America agli americani”). Nella capitale argentina i delegati brasiliani prepararono, appoggiati dai rappresentanti statunitensi, un progetto di patto interamericano che cercava «…di difendere il Continente contro la tendenza espansionistica degli altri popoli…» e i tentativi di «… intromissione di qualche potenza extra-continentale in un paese americano».

Getúlio Dornelles Vargas
Getúlio Dornelles Vargas

La proposta brasiliana, in caso di aggressione esterna, prevedeva il ricorso alle armi e all’arbitraggio di Washington; questa eventualità però non fu accettata dall’Argentina che propose alla Commissione un nuovo progetto, appoggiato però, in fase di votazione, solo da sei paesi contro gli otto firmatari della mozione brasiliana. Finalmente il 19 dicembre 1936 fu stipulato un atto finale che trovò, tuttavia, i paesi firmatari ancora divisi. Per capire l’atteggiamento ostile dell’Argentina bisogna ricordare che in Sudamerica, da alcuni anni, si era scatenata una lotta politica tra i due paesi più forti, appunto Brasile e Argentina, per ricoprire il ruolo di paese leader dell’America Latina.

Mentre in politica estera il Brasile giocava il ruolo di paese libertario, nelle vicende politiche interne il governo Vargas cercò di eliminare definitivamente gli unici oppositori all’Estado Novo: i comunisti. La situazione mondiale aveva visto l’affermarsi di Stati totalitari europei che elaborarono ed attuarono, dopo il 1936, una forte politica estera anticomunista (Patti Anticomintern). In questa ottica l’11 dicembre 1937 l’Ambasciatore tedesco a Rio de Janeiro,Karl Ritter, incontrò segretamente Francisco Campos, numero due del governo sudamericano. Durante la riunione, in realtà voluta dai brasiliani, si discusse la possibilità del Brasile di entrare nel Patto Anticomintern e l’opportunità di inviare in Germania alcuni ufficiali dell’Esercito brasiliano per seguire un corso di lotta anticomunista. I militari brasiliani sarebbero stati ospiti del Bureau Anticomintern di Berlino dove lo stesso Heinrich Himmler, capo della Gestapo, avrebbe insegnato loro le migliori tecniche di “controllo politico” del paese.

Gruppo Integralista Camicie Verdi
Gruppo Integralista Camicie Verdi

Nel 1937 gli Stati Uniti inaugurarono una politica di avvicinamento e controllo degli stati sudamericani. In Brasile, però, esistevano contrastanti spinte interne originate dalle numerose minoranze d’origine italiana e tedesca, in aperto conflitto con i gruppi democratici altrettanto forti. E fu proprio ad opera di gruppi integralisti il tentativo insurrezionale delle “Camicie Verdi”, avvenuto l’11 maggio 1938 a Rio de Janeiro. Le “Camicie Verdi”, versione brasiliana delle “Camicie Nere” italiane e delle “Camicie Brune” tedesche, avevano avuto fino allora una grande influenza, costituendo un movimento di destra che Vargas utilizzò per rafforzare il potere.

Il governo di Vargas, suo malgrado, fu spinto all’azione contro i membri tedeschi dei Circoli Nazisti, dalle maldestre scelte adottate proprio dall’Ambasciatore nazista a Rio de Janeiro. Infatti, il rappresentante tedesco non riuscì ad aprire un dialogo con i leaders brasiliani, ma cercò comunque di spingere il paese sudamericano nella sfera politica, militare ed economica di Berlino. Le relazioni tra Brasile e Germania si stavano rapidamente deteriorando e la crisi si aggravò, quando il Ministro degli Esteri brasiliano Oswaldo Aranha (esponente dei circoli democratici), ritirò, nell’ottobre 1938, la qualifica di “persona grata” a Karl Ritter, provocando la reazione tedesca. Infine, al termine del 1938, il governo di Vargas promulgò speciali leggi contro tutte le organizzazioni fasciste e nazionalsocialiste e ottenne dalle autorità italiane il ten. Fournier, uno dei capi della rivolta delle “Camicie Verdi”, che si era rifugiato nell’Ambasciata italiana di Rio de Janeiro. L’inettitudine dell’Ambasciatore tedesco giocò a favore degli Stati Uniti che continuarono così la loro politica di buon vicinato con il Brasile e gli altri Stati sudamericani. E quando il governo tedesco nel novembre 1938 inviò a Rio copia del Patto Anticomintern, Aranha (filo-statunitense) aveva già sostituito Campos (filo-tedesco) e la politica estera brasiliana era ormai indirizzata verso Washington.

Graf Spee
Corazzata Tascabile tedesca Admiral Graf Spee

Ma Vargas non aveva ancora definitivamente fatto una chiara scelta di campo. Tanto che nei primi mesi del 1939 furono ripresi e rafforzati accordi commerciali con Germania e Italia. E Washington dovette lavorare molto per raggiungere l’accordo del 3 ottobre 1939 quando fu approvata la “Dichiarazione di Panama”, che sanciva la volontà dei paesi firmatari di «…mantenere la pace nel continente americano e di favorire il suo ristabilimento in tutto il mondo». Inoltre, l’accordo affermava l’inviolabilità delle acque territoriali delle repubbliche americane, con un’estensione da trecento a mille miglia di distanza dalla costa. Ma, nonostante le assicurazioni dei paesi belligeranti, il 13 dicembre 1939, avvenne a largo della costa uruguayana lo scontro tra la corazzata tascabile tedesca Admiral Graf Spee e tre incrociatori britannici. La nave tedesca, inflitti e ricevuti danni, fu costretta a rifugiarsi nel porto di Montevideo creando una grave crisi diplomatica. Gli Stati Uniti, appoggiati dal Brasile e dall’Argentina, spinsero il governo uruguayano a ordinare la partenza della Graf Spee, che si autoaffondò nei pressi delle foci del Rio de La Plata.

Come già ricordato, allo scoppio della seconda guerra mondiale, il Brasile si collocò in una posizione di assoluta neutralità. Il 3 settembre 1939 il governo promulgò un decreto legge circa le Regole generali di neutralità, che vietava a navi o aerei dei paesi belligeranti di entrare nel paese e «…compiere atti ostili». L’accesso alle acque territoriali brasiliane era consentito solo in casi di emergenza e solo per 24 ore. Trascorso questo periodo le navi e gli equipaggi sarebbero satati internati fino alla fine del conflitto.

L’anno successivo, con la caduta della Francia e con la dimostrazione della crescente forza militare nazifascista, il presidente statunitense, Roosevelt, riuscì a far approvare da tutti gli Stati americani una nuova linea di principio, che si concretizzò in un altro vertice interamericano, svoltosi a La Avana nel luglio del 1940. In tale assemblea si affermò, dietro pressioni del governo di Washington, che qualunque atto di ostilità compiuto ai danni di uno Stato del nuovo continente sarebbe stato in avvenire considerato «…come un atto di aggressione contro gli Stati firmatari della dichiarazione». Tale clausola sarebbe dovuta scattare il 7 dicembre 1941, giorno in cui la flotta giapponese effettuò l’attacco a Pearl Harbor, ma in realtà non fu proprio così, tanto è vero che subito dopo l’aggressione giapponese agli USA, nessun paese firmatario della Dichiarazione scese in campo e, come vedremo, solo il Brasile espresse solidarietà a Washington con un atto ufficiale.

Góis Monteiro
Góis Monteiro – Fonte – FGV-CPDOC

Ritornando alle vicende del 1939 è opportuno ricordare che i rapporti tra il Brasile e gli Stati Uniti erano, in tale periodo, ancora vaghi ed incerti. Nella seconda metà di quell’anno avvenne, tra l’altro, uno scambio di lettere tra i Capi di Stato Maggiore brasiliano (generale Pedro Aurèlio de Gòis Monteiro) e statunitense (generale George C. Marshall). In tale circostanza l’ufficiale brasiliano rimproverava agli Stati Uniti, sia pure in termini accuratamente diplomatici, l’assoluta insufficienza nell’aiuto di forniture militari e ricattava velatamente Washington con l’incapacità brasiliana di difendere, in tali condizioni, il nordest del continente sudamericano, in altre parole la zona più vitale dal punto di vista militare. Il generale Marshall, rispondendo, insistette sul problema delle basi aeree USA nel nordest brasiliano, considerate una necessità strategica di primo piano e su quello delle materie prime brasiliane indispensabili allo sforzo bellico, rimanendo tuttavia nel vago circa le forniture. Nonostante questo i rapporti tra i due paesi migliorarono notevolmente in seguito, soprattutto dopo il messaggio dal presidente Roosevelt al presidente Vargas in data 10 luglio 1941, nel quale era chiaramente messa in evidenza la situazione mondiale con i pericoli connessi, e venivano elencate tutte le possibili ipotesi di difesa dell’emisfero occidentale e più in particolare quelle che concernevano direttamente il Brasile e ne coinvolgevano l’azione. Nell’attenta analisi si poneva in risalto il pericolo dell’espansionismo tedesco e della possibilità di conquista nazista dell’Islanda a nord e delle Isole Capo Verde a sud, e da cui poi con la «…tipica Blitzkrieg … attaccare l’emisfero occidentale».

Il punto di arrivo, in questa fase delle trattative, fu rappresentato dalla firma (24 luglio 1941) dell’accordo per la costituzione di una delegazione mista Brasile-Stati Uniti composta da ufficiali di Stato Maggiore. Il primo incontro di questo consesso si svolse a Rio dove l’incrociatore statunitense Nashville portò in terra brasiliana il colonnello James Chaney e il tenente colonnello Lehman Miller che visitarono il paese «… ricevendo impressioni del nostro progresso e della preparazione della nostra difesa».

Mercantili brasiliano Siqueira Campos
Mercantile brasiliano Siqueira Campos

Sul piano diplomatico, nella metà del 1940, si creò invece una rottura con l’Inghilterra che, nonostante acquistasse molti prodotti brasiliani, attuava uno stretto blocco navale che provocò vivaci proteste del governo sudamericano. L’11 ottobre il mercantile brasiliano Siqueira Campos fu bloccato a Lisbona dalle autorità britanniche perché stava per trasportare in Brasile un carico di armi proveniente dalle industrie Krupp di Essen. Il 27 novembre 1940 il mercantile brasiliano Buarque fu fermato da navi da guerra inglesi in acque territoriali brasiliane e fu confiscato il carico definito di origine sospetta. Solo dopo lunghi accertamenti si stabilì l’origine argentina dei prodotti che consistevano in 32 casse di cotone e 38 di profumo. Il 1° dicembre fu la volta della nave Itapè dalla quale i militari inglesi prelevarono 22 passeggeri di origine tedesca. Il governo brasiliano tenne un fermo atteggiamento di condanna che fu seguito dall’intensificarsi della propaganda favorevole all’Asse dopo le vittorie tedesche in Europa, e tutto ciò indusse molti ad interpretare come manifestazione di solidarietà con i paesi totalitari il discorso – in più di un punto riecheggiante luoghi comuni della retorica mussoliniana – tenuto da Vargas l’11 giugno.

Inoltre Vargas per convincere gli Stati Uniti ad accelerare le operazioni di versamento dei prestiti per lo sviluppo industriale del paese, nel maggio 1940 «… provvedeva ad informare Washington che la Krupp era disposta a costruire a Volta Redonda la prima industria siderurgica». Subito dopo gli Stati Uniti, temendo che il Brasile cadesse nell’orbita della Germania, offrirono 20 milioni di dollari nel settembre 1940, che salirono a 45 l’anno successivo al momento dell’installazione degli impianti a Volta Redonda. Sempre nel 1940 il governo di Rio espropriò compagnie ferroviarie belghe, francesi e inglesi e si preparò a riprendere il pagamento dei debiti esteri. Nonostante la firma del trattato per un prestito di 100 milioni di dollari, che avrebbe dovuto facilitare la vendita di armi degli Stati Uniti al Brasile con la clausola del “Lend-Lease” (1 ottobre), non ebbe fino a dicembre conseguenze tangibili e rimase in sostanza lettera morta in qualche cassetto a Rio de Janeiro.

1942 - Natal, in Brasile, il principale punto di interesse strategico degli Stati Uniti in America del Sud - Time Life
1942 – Natal, in Brasile, il principale punto di interesse strategico degli Stati Uniti in America del Sud – Time Life

In ogni modo, nonostante gli alti e bassi nei rapporti tra Washington e Rio de Janeiro, la prima reazione diplomatica brasiliana all’attacco giapponese alla base navale statunitense di Pearl Harbor fu di un certo valore. La mattina dell’8 dicembre, infatti, il presidente Vargas convocò una riunione improvvisa, al termine della quale il governo brasiliano decise di esprimere totale solidarietà agli Stati Uniti, immediatamente comunicata al presidente Roosevelt. In base agli accordi già stabiliti fu immediatamente concesso al governo di Washington il permesso di inviare al più presto nelle basi di Bèlem, Natal e Recife dei reparti di marines, che furono fatti passare, agli occhi dei non addetti ai lavori, per “personale tecnico”. Nello stesso periodo cominciarono ad arrivare in Brasile quantità, seppur non abbondanti, di armi statunitensi e fu ampliato l’accordo del 1° ottobre, fino a raggiungere sei mesi più tardi la cifra di circa 200 milioni di dollari. Tale accordo, firmato nel marzo 1942, oltre alla concessione delle basi navali del nordest, in dettaglio stabiliva che il Brasile ricevesse «… armamenti moderni per 200 milioni di dollari, la concessione della Itabira Iron Company, già inglese, e un prestito di 14 milioni di dollari dell’Eximbank per lo sfruttamento minerario. Nasceva così la Companhia Vale do Rio Doce, dalla quale USA e Gran Bretagna si impegnavano ad acquistare 750.000 tonnellate di ferro».

In sudamerica però alcuni paesi come Argentina e Cile mantennero saldi i loro buoni rapporti con i paesi dell’Asse e neppure la dichiarazione di guerra della Germania e dell’Italia agli Stati Uniti, avvenuta subito dopo i primi atti bellici del Giappone, valse ad indurre i firmatari delle dichiarazioni di solidarietà (espresse soprattutto all’Avana) ad entrare in azione unitariamente contro il Tripartito.

Oswaldo Aranha
Oswaldo Aranha

Solo il Brasile aveva fatto la sua scelta di campo tanto che il 28 gennaio 1942 Aranha annunciò a sorpresa che il Brasile aveva deciso di rompere le relazioni politiche con i paesi dell’Asse. La risposta di Hitler e Mussolini non si fece attendere e venne intensificata la guerra sottomarina tedesca e italiana nelle acque brasiliane, che già aveva provocato affondamenti di navi mercantili nazionali. Il Brasile in seguito ruppe le relazioni diplomatiche con la Romania (marzo) e l’Ungheria (maggio). Nel novembre, a seguito di un’incursione della polizia “collaborazionista” nella sede dell’Ambasciata brasiliana a Vichy, furono sospese le relazioni anche con la Francia di Petain.

Nei primi mesi del 1942 gli attacchi dei sottomarini tedeschi ed italiani nei pressi delle coste brasiliane provocarono l’affondamento di molte navi. Il 14 febbraio fu affondata la prima nave brasiliana, la Cabedelo , con la morte di 54 marinai. Seguirono altri 24 affondamenti nel 1942, 8 nel 1943 e 1 nel 1944, per un totale di 36 navi e quasi 1000 morti. Il periodo più nero della storia della Marina mercantile brasiliana fu l’agosto del 1942. Tra il 15 e il 19 i siluri italo-tedeschi colarono a picco ben 6 navi tra le quali la Baependi, la Anibal Benevolo e la Araraquara. A questo proposito è importante ricordare che il 28 luglio, ad opera di un sottomarino tedesco, era già colata a picco la nave Piave che aveva a bordo alcuni marinai italo-brasiliani tra cui il motorista Ernesto Rocco. In Brasile, dopo i primi affondamenti di navi nazionali, l’opinione pubblica si scagliò contro la polizia politica dell’Estado Novo, diretta da Filinto Mùller, accusata di non fare niente contro la rete di spie filo naziste presenti nel Paese. In effetti, per il governo il problema della “Quinta-Colonna” diventò scottante. Le spie trasmettevano i movimenti delle navi e il caso più famoso fu quello di un certo Nils Cristennsen, che trasmise ai sottomarini nazisti la rotta della Queen Marycarica di soldati statunitensi diretti in Africa. Scoperto ed arrestato, Cristennsen, fu condannato a trenta anni di prigione con l’accusa di criminale di guerra. Contemporaneamente furono smantellate le compagnie aeree Condor (tedesca) e LATI (italiana) considerate centri di operazioni spionistiche.

Anche l’attività diplomatica si fece intensa e il 23 maggio 1942 venne firmato tra gli Stati Uniti ed il Brasile un trattato segreto politico-militare, la cui principale conseguenza fu la creazione di due commissioni tecnico-militari miste.

Aereo compagnia LATI - Questo tipo di aeromobile effettuati voli tra Roma e Rio de Janeiro - http://www.spmodelismo.com.br/howto/ac/lati.php
Aereo compagnia LATI – Questo tipo di aeromobile effettuati voli tra Roma e Rio de Janeiro – http://www.spmodelismo.com.br/howto/ac/lati.php

In Brasile, i militari che, sul piano della politica interna, favorivano un regime duro sulla falsa riga dei regimi nazifascisti europei e che in precedenza si erano opposti ad una stretta collaborazione con gli Stati Uniti, erano in apparenza sconfitti. Così subito dopo Pearl Harbor e dopo la decisione del governo di Rio di schierarsi con gli Stati Uniti, i due esponenti dell’ala nazionalista, Gaspar Dutra e Goes Monteiro, proposero le dimissioni dai loro incarichi governativi. Vargas fu però costretto a non accettare per non indebolire i vertici delle Forze Armate e rilanciò ancora una volta la necessità di appoggio dell’Esercito all’Estado Novo. Per questo nei differenti articoli del trattato segreto, stipulato tra il Brasile e gli Stati Uniti il 23 maggio 1942, si poneva la base per la prossima futura collaborazione bellica che non si riduceva soltanto alla presenza di truppe straniere in Brasile, ma che prevedeva anche l’intervento statunitense in caso d’attacco al Brasile da parte di un altro paese americano. Infine si accennava alla futura partecipazione diretta del Brasile ad operazioni all’estero, che configurava l’origine della Forza di Spedizione Brasiliana e quindi una valorizzazione dell’Esercito stesso e dei suoi quadri.

A seguito di questi nuovi passi il 31 agosto 1942, con il Decreto n° 10.358, fu dichiarato lo stato di guerra al termine di una riunione alla quale avevano partecipato tutti i ministri del governo Vargas. Il Brasile era in guerra contro la Germania e l’Italia.
Intanto, a livello internazionale, il 5 settembre 1942, il presidente statunitense Roosevelt aveva approvato l’operazione “Torch” e l’8 novembre avvenne lo sbarco angloamericano nel Nord Africa. In breve si ridussero gli attacchi da parte dei sommergibili dell’asse e Rio dovette mutare la sua posizione e chiese di poter partecipare attivamente al conflitto.

La prima proposta di Roosevelt fu quella di usare le truppe brasiliane nella difesa delle Azzorre portoghesi, per permettere alle truppe di Salazar di essere impiegate più utilmente in Portogallo. Così il 15 marzo il ministro della guerra, generale Gaspar Dutra, decretava, autorizzato da Vargas, la creazione di un Corpo di spedizione «…da inviare in Europa e composto da 100 mila uomini».

Il simbolo della Forza di Spedizione Brasiliana
Il simbolo della Forza di Spedizione Brasiliana

Le ragioni che indussero il Brasile a premere per l’impresa militare d’oltreoceano erano numerose e di tipo diverso. Dal punto di vista della politica internazionale si trattava, per il grande stato populista sudamericano, di sostenere la propria posizione di fronte ai futuri negoziati di pace e di rafforzare e riaffermare il proprio prestigio politico, diplomatico e militare nell’America Latina.

Ma i motivi di carattere interno prevalsero nettamente in quest’atteggiamento. I cambiamenti nella posizione internazionale del Brasile, che erano stati relativamente lenti ad evolvere fino ad un punto di integrale inserimento nello schieramento alleato, furono determinati da uno sviluppo socio-politico, che avrebbe avuto poi vaste conseguenze nel futuro del paese. Per questo motivo il governo di Vargas, una vera e propria dittatura, si trovò di fronte ad enormi cambiamenti sociali e non poteva fare a meno di prenderne atto. Paradossalmente anche lo stesso P.C.B. (Partito Comunista Brasiliano) era dell’idea che la creazione della FEB avrebbe rafforzato, in un certo senso, la marcia verso la restaurazione della democrazia brasiliana; infatti, secondo i comunisti, la FEB andando a combattere in Europa contro le dittature fasciste dell’Asse, avrebbe scosso il paese. Fu così che i maggiori partiti di opposizione iniziarono una politica di “appoggio condizionato” a Vargas, seguendo la politica del capo dell’opposizione Prestes che, privilegiando lo scontro con il nemico nazifascista, sapeva perfettamente che la contraddizione di combattere le dittature all’estero, mantenendone una all’interno, sarebbe prima o poi venuta a galla.

Sul piano militare alcuni ufficiali dell’Esercito brasiliano partirono nel 1943 per gli Stati Uniti dove seguirono, presso le scuole militari di Fort Knox, Fort Benning e Fort Leavenworth, corsi speciali di scuola di guerra. Ma il problema più grave che dovette affrontare l’esercito brasiliano fu quello della formazione dell’intera gerarchia militare. Infatti a partire dagli anni ’20 il processo di modernizzazione dell’Esercito brasiliano era stato operato da una missione militare francese guidata dal generale Maurice Gamelin.

Oltre a questo aspetto cresceva anche l’opposizione alla creazione di un corpo di spedizione brasiliano in Europa. Dwight Eisenhower, comandante in capo delle forze alleate nell’Africa del Nord, e Mark Clark, comandante della 5ª armata degli Stati Uniti, erano profondamente convinti dell’inutilità di inviare truppe impreparate ad affrontare una guerra che non conoscevano. In ogni caso, le presunte obiezioni alla partecipazione del Brasile alla guerra in Europa, scomparirono improvvisamente quando il fronte italiano perse sette divisioni alleate, trasferite all’Operazione “Anvil” (sbarco nella Francia del Sud).

In ogni caso Rio il 9 agosto 1943 decise di formare la 1ª Divisione di Fanteria (1ª D.I.E.), disponendo che essa sarebbe stata composta da tre reggimenti, da quattro gruppi di artiglieria, da un battaglione del genio militare, da un reggimento motorizzato e infine dai vari servizi.

A capo di questa unità fu scelto il generale João Baptista Mascarenhas de Moraes.

João Baptista Mascarenhas de Moraes
João Baptista Mascarenhas de Moraes

L’Esercito brasiliano aveva dottrine di impiego di scuola francese ed era dotato di armi di fabbricazione tedesca, italiana e francese, per cui il problema di farlo combattere a fianco di unità statunitensi presentava diversi aspetti complessi e non poche difficoltà materiali (uno tra tutti il problema del rifornimento munizioni). La fanteria era armata con fucili “Mauser” e mitragliatrici “Hotchkiss”, mentre l’artiglieria possedeva cannoni “Schneider” trasportati a dorso di muli. Per quanto riguarda le unità motorizzate, assenti nell’esercito brasiliano, il governo aveva commissionato 175 carri armati di vario tipo alla “Fiat-Ansaldo” italiana. Occorreva quindi rivedere fin dall’inizio la formazione e l’addestramento dei quadri militari, trasferendo una differente maniera di pensare, per vari aspetti abbastanza innaturale, a ufficiali che dovevano dimenticare tutto il loro precedente addestramento, sovrapponendovi una nuova concezione dei rapporti militari, della tattica e della strategia. Tuttavia, in un modo o nell’altro, bisognava raggiungere questo nuovo addestramento, più psicologico che tecnico, e, quindi, sostituire West Point a Saint Cyr. Nello stesso momento si cercava di preparare un corpo di spedizione secondo i disegni adottati dal potente alleato nordamericano che forniva anche le armi. Tutto, quindi, dovette cambiare e dovette essere, in qualche occasione, improvvisato, poiché i brasiliani non avevano esperienza di spedizioni oltreoceano, non conoscevano il paese e il clima in cui avrebbero dovuto combattere e non avevano nemmeno un significativo patrimonio militare.

Isolata l’Argentina, gli Stati Uniti proseguirono il progetto di costituzione di un Corpo di Spedizione brasiliano, ma fin dai primi incontri si crearono forti attriti tra i comandanti sudamericani e i pari grado nordamericani. In questo periodo ebbero origine le diatribe tra brasiliani e americani che ebbero a manifestarsi in seguito e di cui abbiamo ampie testimonianze nelle memorie del comandante Mascarenhas de Moraes e del Capo di Stato Maggiore De Lima Brayner. Certamente il corpo di spedizione brasiliano non fu considerato dai comandanti statunitensi con grande attenzione, salvo che in qualche episodio, e tutto ciò dette a molti l’impressione che, fin dal principio, lo si reputasse più come “carne da cannone” che come unità militare alleata da considerarsi alla pari.

Intanto, mentre in Brasile si discuteva circa la partecipazione di un contingente sudamericano alla Campagna europea, altri paesi latino americani cercarono di scendere sul campo di battaglia a fianco dell’alleato nordamericano. Il governo del Messico, tra il novembre 1942 e il febbraio 1943, cercò di convincere il governo di Washington ad accettare un proprio corpo di spedizione. Lo “State Department” accettò l’aiuto del partner messicano, ma il “War Department” respinse la richiesta elencando le difficoltà nell’equipaggiare, addestrare e trasportare le truppe.

Trasporto veicoli dell'esercito brasiliano nel 1941 -http://viaturasbrasil.blogspot.com.br/2012/06/chevrolet-1941-exercito-brasileiro.html
Trasporto veicoli dell’esercito brasiliano nel 1941 -http://viaturasbrasil.blogspot.com.br/2012/06/chevrolet-1941-exercito-brasileiro.html

Ma se da una parte si rifiutavano “aiuti”, dall’altra Washington premeva con maggior convinzione su Rio de Janeiro. Venne dunque firmato un nuovo accordo per armare, addestrare e poi far combattere tre divisioni brasiliane, ma la diffidenza tra le parti crebbe e alla fine ne fu preparata una sola in maniera confusa tanto che il contingente brasiliano ricevette i fucili “Garand” e “Springfield”, le mitragliatrici “Thompson” e “Browning” e tutte le armi d’accompagnamento solo al suo arrivo in Italia. Così in Brasile i militari si preparono solo “fisicamente” con estenuanti marce e lunghe e laboriose parate.

La carenza di preparazione ed organizzazione delle unità d’appoggio della FEB non riguardava solo l’armamento: mancavano, infatti, stenografi, chimici, elettricisti, radio-operatori, conducenti di autocarri e trattori, operatori di compressori d’aria e meccanici. Inoltre l’esercito brasiliano disponeva di un solo tipo di uniforme che non era adatta ad affrontare l’inverno italiano. Nacque così il problema di chiedere agli americani anche le divise, a proposito delle quali esistono varie testimonianze su un fatto tragicomico avvenuto subito dopo lo sbarco della FEB a Napoli. Le originali uniformi brasiliane erano di colore molto simile a quello delle divise delle truppe tedesche impiegate in Africa così quando i militari sudamericani si trovarono a passare tra la gente, senza armi, furono scambiati per prigionieri di guerra.

Per avere una idea dell’immensità del materiale che sarebbe servito alla FEB per prepararsi alla guerra, citiamo alcuni dati pubblicati al rientro dei brasiliani in patria; la FEB durante gli otto mesi trascorsi in prima linea con l’impiego di 15.000 uomini sul fronte e 10.000 nei servizi, utilizzò: 11.741 fucili, 1.156 pistole, 500 mitragliatrici, 144 mortai, 585 lanciafiamme, 66 cannoni e ancora 736 telefoni, 42 telegrafi e ben 592 stazioni radio, tutto materiale americano che ricevette solo in Italia.

Un altro problema nell’Esercito brasiliano, che si accentuò durante il conflitto, fu la presenza tra i comandanti di mediocri ufficiali, quasi tutti provenienti dalle classi medie e abituati a trattare i loro soldati come uomini socialmente inferiori. Tutti questi ragazzi, usciti dalle Accademie militari di Resende (Stato di Rio de Janeiro) e Realengo (Distretto Federale), erano motivati più da interessi personali che da un sentimento patriottico. Basti pensare che mentre un generale brasiliano guadagnava 250 $ al mese e un capitano 105 $, un soldato percepiva una paga mensile di 11.40 $. Inoltre nel mondo civile un lavoratore medio guadagnava 14.40 $ al mese e il costo della vita nel 1942 era calcolato in 11 $ mensili.

Un soldato tipico dell'esercito brasiliano nel 1940 - http://www.quata.com.br/claudomiro_fausto_de_lima.htm
Un soldato tipico dell’esercito brasiliano nel 1940 – http://www.quata.com.br/claudomiro_fausto_de_lima.htm

Nel frattempo, in novanta giorni, fu completata la mobilitazione generale dei primi 20.000 soldati brasiliani provenienti da ogni regione del paese, senza alcun criterio di scelta.

Dopo che tutte le unità furono giunte nell’area di raccolta di Rio de Janeiro iniziarono in vari campi i primi addestramenti. Purtroppo i soldati trovarono, invece di efficienti campi di addestramento, delle aree improvvisate con baracche malmesse, costruite senza il minimo riguardo alle comuni norme igieniche e soprattutto senza percorsi di guerra e armi. Anche gli ufficiali che accolsero i soldati non erano all’altezza della situazione. Degli 870 ufficiali molti erano cadetti, appena usciti dalle Accademie, spesso molto più giovani dei soldati che avrebbero dovuto comandare, e ben 302 ufficiali erano riservisti. Fu così che in prima linea si trovarono medici, ingegneri, insegnanti che non avevano alcuna capacità militare, a fianco di giovani ufficiali senza alcuna esperienza di comando.

I primi giorni del neocostituito Corpo di Spedizione trascorsero nel riparare gli “alloggi”, nel costruire i percorsi di guerra e nella immancabile visita medica. E’ giusto premettere che precedentemente nelle Regioni Militari alcune Commissioni mediche avevano esaminato 107.609 richiamati scartandone ben 23.236. Soltanto la sezione medica dentista fece, durante i lunghi mesi di guerra, 16.015 visite, 10.399 trattamenti, 9.071 estrazioni e ben 8.329 otturazioni. La lista dei malati non si fermò alle patologie dentali; molti furono i casi di ricoveri per tubercolosi, sifilide, imbecillità, ernia, daltonismo, parassitosi, problemi circolatori e respiratori, e, incredibilmente, anche due malati di lebbra. Altri avvenimenti che suscitarono scalpore furono la scoperta, durante il viaggio in nave, di un soldato affetto da epilessia grave e di un ufficiale colpito già da alcuni anni da una epatite cronica.

Per terminare questa grave pagina, non possiamo dimenticare che al momento della selezione generale i richiamati non furono sottoposti al test psicologico. Le autorità militari brasiliane avevano, infatti, istituito un gruppo di medici che stava lavorando alla preparazione dei test e che, ironia della sorte, furono pronti per la selezione, mai avvenuta, degli uomini della 2ª Divisione. Purtroppo anche questa mancanza fu pagata in Italia essendo poi risultati 433 i casi di ricoveri per disturbi mentali.
Era logico che in un panorama così nebuloso non ci fosse un grande entusiasmo nella FEB e per la FEB.

Gli uomini stavano svolgendo due cicli di preparazione, studiati dal generale Mascarenhas, che avrebbero dovuto addestrare la 1ª D.I.E. alle tecniche e alle tattiche militari moderne. Al termine dei cicli operativi, il 31 marzo 1944, i soldati brasiliani sfilarono per le strade di Rio de Janeiro in un’imponente parata militare.

Vargas comunicò a Washington che tutto era pronto ma gli statunitensi, impegnati nella preparazione dell’Operazione “Overlord”, presero tempo, e ciò causò tra i generali brasiliani il timore di un calo d’interesse da parte degli Stati Uniti nel progetto. Il problema risiedeva nell’assenza nella Marina mercantile brasiliana di grandi piroscafi idonei al trasporto di truppe e nel contemporaneo impegno delle Marine alleate nell’organizzazione dello sbarco in Normandia. A giugno finalmente l’ufficiale di collegamento a Washington, Leitào de Carvalho, riuscì ad ottenere una nave statunitense e immediatamente informò Rio di tenersi pronti.

Nave della Marina degli Stati Uniti USS Gen. W. A. Mann, che ha trasportato le truppe brasiliane in Italia nel 1944 – http://www.navsource.org/archives/09/22/22112.htm

Fu così che, nella notte tra il 29 ed il 30 giugno un primo scaglione, al comando del generale Zenobio da Costa, raggiunse il porto di Rio, Cais do Porto, dove ad attenderli era ancorato il piroscafo statunitense General William a. Mann di 36.000 t.

Le operazioni di imbarco dei militari brasiliani si svolsero velocemente, ma a creare polemiche e scompiglio ci si misero i militari statunitensi, che, contravvenendo agli ordini brasiliani, se ne stavano in città a festeggiare la partenza. Tutta questa fretta e segretezza trovò spiegazione, secondo McCann, nel fatto che gli ufficiali brasiliani svolsero le operazioni di imbarco anche “…per evitare possibili diserzioni ed evasioni” 71.

La particolarità stava nel fatto che i comandi non temevano solo fughe di soldati, ma defezioni di ufficiali; infatti un plotone del 6° Reggimento di Fanteria, durante i mesi di addestramento, aveva cambiato ben 8 comandanti, e tutti avevano chiesto di essere trasferiti fuori dalla FEB, tanto che 5 delle 9 compagnie del 6° Reggimento avevano subito un “turn-over”.

Alle 06.30 di domenica 2 luglio 1944 il General Mann salpò l’ancora con 5.075 uomini a bordo dei quali 304 ufficiali, scortato dai cacciatorpediniere brasiliani Marcilio Dias e Mariz e Barros, e dallo statunitense Greenhalgh.

Durante la navigazione la cosa che provocò più disagi fu l’alimentazione americana; infatti il rancio era composto da scatolette di carne, di fagioli, da gallette e altri generi sconosciuti, nel sapore e nel confezionamento, a molti brasiliani. Inoltre, durante il primo giorno di navigazione, il rancio fu distribuito con ben sei ore di ritardo e al termine gli americani scoprirono che i cambusieri sudamericani avevano servito ben 14.000 razioni a fronte di solo 5.000 uomini imbarcati.

Al 1° convoglio ne seguirono altri 3. Il secondo convoglio salpò da Rio de Janeiro il 22 settembre trasportando il 1° e 3° Gruppo Tattico per complessivi 10.304 uomini dei quali 653 ufficiali. I trasporti truppe utilizzati furono nuovamente il General Mann (sotto il comando del Generale Cordeiro De Farias) e il General Meigs (sotto il comando del generale Olimpio Falconieri Da Cunha) e la scorta fu costituita dall’incrociatore brasiliano Rio Grande do Sul, dall’incrociatore statunitense Memphis e dai cacciatorpediniere americani Trumpter e Cannon. Dopo aver raggiunto Gibilterra al convoglio si aggiunsero navi da guerra britanniche. Tutte le unità raggiunsero poi il porto di Napoli il 6 ottobre.

Soldati brasiliani nel loro cammino verso la guerra in Europa - http://www.portalfeb.com.br/longa-jornada-com-a-feb-na-italia-capitulo-8
Soldati brasiliani nel loro cammino verso la guerra in Europa – http://www.portalfeb.com.br/longa-jornada-com-a-feb-na-italia-capitulo-8

Il terzo convoglio partì invece da Rio il 25 novembre con il trasporto truppe USS General Meigs (sotto il comando del colonnello Mario Travassos) con un totale di 4.682 uomini di cui 277 ufficiali. Il General Meigs fu scortato dall’incrociatore americano Omaha, dall’incrociatore brasiliano Rio Grande do Sul e dal cacciatorpediniere brasiliano Marcilio Dias. Giunti nel nordest del Brasile in prossimità della base di Belem, le navi scorta brasiliane furono sostituite dall’incrociatore Bahia e dal cacciatorpediniere Mariz e Barros. Tale convoglio, nuovamente rinforzato a Gibilterra da unità della marina britannica, giunse a Napoli il 7 dicembre.

Infine il 9 febbraio 1945 fu imbarcato sul trasporto dell’USS General Meigs (comandato dal tenente colonnello Ibà Jobim Meirelles) l’ultimo contingente della FEB, composto da 5.082 uomini di cui 247 ufficiali. Scortato dai cacciatorpediniere brasiliani Mariz e Barros e americano Greenhalgh e dall’incrociatore statunitense Marblehead, giunse a Napoli il 22 febbraio77.

Pertanto furono inviati in Italia 25.334 uomini dei quali, è importante ricordare, 111 raggiunsero l’Italia con gli aerei della FAB. Il trasporto aereo, che seguì la rotta Rio-Natal-Dakar-Napoli, fu necessario per la presenza di 67 infermiere che potevano, in nave, creare alcuni problemi di ordine e disciplina.

Generale Mark Wayne Clark
Generale Mark Wayne Clark

La FEB (Forza di Spedizione Brasiliana) in Italia fu aggregata al IV Corpo d’Armata (del generale Willys Crittenberger) della 5ª Armata (del generale Mark Clark). La 5ª e l’8ª facevano parte del XV Gruppo d’Armate comandato dal maresciallo Alexander.
Il primo scaglione delle truppe brasiliane sbarcò il 16 luglio nel porto di Napoli e fu subito trasferito con autocarri in una vicina area destinata alla prima fase dell’addestramento. In realtà, nei piani alleati, il punto d’arrivo della FEB avrebbe dovuto essere l’Africa, dove già esistevano campi di addestramento utilizzati dalle truppe inglesi e americane; il mutare della situazione militare fece cambiare i piani e quando i sudamericani sbarcarono in Italia nel campo base loro destinato non trovarono altro che alberi da frutta.
Oltre a mancare la dotazione del campo non giunse neppure l’armamento così come l’equipaggiamento. Non rimase che riproporre nuovamente un programma di addestramento fisico. A rallentare la preparazione anche un lungo litigio tra i comandi. Gli americani infatti inviarono 5.000 fucili “Springfield” M-1903, ma il comandante della FEB, Mascarenhas de Moraes, avendo capito che le sue truppe avrebbero ricevuto dagli americani i nuovi fucili semiautomatici “Garand” M-1 rifiutò i M-1903 ormai superati. Trascorsero così altre due settimane di paralisi.

Lentamente poi ogni reparto iniziò a ricevere il necessario per iniziare l’addestramento, ma prima ancora di preparare un buon programma il contingente fu trasferito a Tarquinia dove gli istruttori statunitensi, affrontando anche il problema della differenza di lingua, iniziarono il lavoro.

Il 18 agosto cominciò un nuovo trasferimento nei pressi di Vada (Livorno) e l’indomani arrivò, proveniente dalla 5ª Armata, il reparto istruttori: ufficiali e uomini di truppa di divisioni americane sperimentate in combattimento. Per completare con le prove sul campo il periodo stabilito di 3 settimane. Troppo poco, come vedremo per dire di aver formato sufficientemente il contingente.

Il giorno successivo all’arrivo dei brasiliani a Vada, 19 agosto, la FEB ricevette la visita del Primo ministro inglese Winston Churchill.
Durante i giorni di Vada si procedette a formare anche il corpo autisti del Corpo di Spedizione, che mancava totalmente di esperienza di guida. Così per tutto il periodo di guerra si ebbero incidenti di ogni tipo, e perdite di mezzi per banali uscite di strada (anche lontano dalla linea del fronte). E alla fine della guerra su un totale di 457 caduti della FEB furono ben 24 i morti per incidente d’auto (7 per incidenti da arma da fuoco, 4 per annegamento, 3 per omicidio, 1 per suicidio).

Finalmente poi a fine agosto dalla P.B.S. (Peninsular Base Section) giunsero a Vada i camion carichi di materiali: fucili, mitragliatrici, radio, elmetti, uniformi, borracce, ecc. A quel punto molti credettero di aver preparato i brasiliani alla guerra ma già dai primi giorni di settembre apparvero subito evidenti le carenze nell’addestramento della FEB. La 5ª armata aveva però bisogno di uomini per l’operazione Olive e il 9 settembre fu deciso di sostituire gli elementi della 1ª Divisione corazzata USA del generale Vernon Prichard con la FEB. Il I gruppo d’artiglieria della FEB, al comando del colonnello Da Camino, avrebbe sostituito il 434° battaglione statunitense. I brasiliani avrebbero preso contatto con i tedeschi dopo Vecchiano (Pisa) risalendo poi le coste delle Alpi Apuane in direzione di Massarosa e Camaiore.

I primi reparti brasiliani furono inseriti nella 45ª Task Force americana che era una formazione assai eterogenea, composta da americani bianchi (598° battaglione di artiglieria da campo USA), americani di origine giapponese (il 100° battaglione fanteria nippo-americano del 442° gruppo da combattimento), americani neri (370° reggimento di fanteria della 92ª Divisione USA “Buffalo”), britannici (un reparto di contraerea) e i brasiliani del 6° R.I.

Il 18 settembre il primo plotone della 1ª compagnia del genio, al comando del tenente Paulo Nunes Leal, raggiunse la cittadina di Camaiore e fu accolto dalla formazione partigiana “Garosi”. Il rapporto con i partigiani italiani fu prezioso per i sudamericani durante tutto il periodo bellico. Questi ricercarono la collaborazione degli italiani e spesso li usarono per le pattuglie o sortite ma dopo la guerra la memorialista lentamente ha cercato di seppellire questa vicenda.

Aggregato alla FEB si trovava come ufficiale di collegamento il colonnello N.S. Mathewson, che ha lasciato una importante “Storia operativa della 1° B.E.F. (Brazilian Expedicionary Force)” nella quale viene tracciata – tra luci e ombre – la vicenda della FEB in Italia.
In quei giorni si registrò anche la prima vittima brasiliana. Il caduto apparteneva alla 9ª compagnia del II/6° ed era soprannominato Mussolini per la sua somiglianza con il dittatore italiano. Morì ucciso nottetempo dalla sventagliata di una mitragliatrice manovrata troppo precipitosamente da un suo compagno. Si chiamava Antenor Chirlanda ed era originario di San Paolo.

Nel frattempo le unità brasiliane proseguivano nella loro progressione raggiungendo le pendici versiliesi delle Apuane sotto il Monte Prana. Il 28 settembre l’unità brasiliana ricevette l’ordine di spostarsi nel settore della Valle del Serchio con il compito di raggiungere Castelnuovo di Garfagnana. Durante la notte tra il 29 ed il 30 settembre gli uomini del magg. Nobrega (III/6°) raggiunsero la zona di Pescaglia-Borgo a Mozzano e sostituirono gli effettivi di colore del III/370° (92ª divisione USA). Dopo alcuni giorni di spostamenti finalmente il 2 ottobre, sotto una pioggia che cadeva da oltre 24 ore, il distaccamento brasiliano concluse il suo nuovo schieramento, sistemando il I/6° e il III/6° lungo la Valle del Serchio e il II/6° in copertura nella zona montagnosa ad occidente del fiume.

I tedeschi in quel settore avevano già raggiunto e armato una linea di difesa che lasceranno sono nell’aprile del 1945 e per alcuni giorni si creò tra Borgo a Mozzano e Castelnuovo di Garfagnana una fascia terra di nessuno all’interno della quale solo i partigiani scesi dalle montagne avevano un parziale controllo. Il comando brasiliano infatti fermò ogni tipo di azione rimanendo immobile sulle posizioni di partenza. Il caso più eclatante si compì a Barga – a pochi chilometri da Borgo a Mozzano – che fu abbandonata dai tedeschi il 4 ottobre e raggiunta dai brasiliani solo sette giorni dopo. Nel settore avversario dal 19 ottobre, era giunta in Garfagnana la divisione alpina “Monterosa” della Repubblica Sociale Italiana. L’unità al comando del gen. Mario Carloni, era rinforzata dal II battaglione del 6° reggimento della divisione di fanteria di Marina “San Marco” (meglio conosciuto come battaglione “Uccelli” dal nome del suo comandante) e dal 285° reggimento della 148ª divisione tedesca.

Il 21 ottobre i brasiliani avanzarono nel settore dell’Aosta che da poche ore si trovava in prima linea riuscendo a superare la linea. Ma il successo – seppur parziale – non venne colto e unità tedesche della 232ª divisione tedesca e le riserve dell’Aosta e del battaglione Brescia in poche ore ristabilirono la difesa passando al contrattacco.

Il fronte poi si arrestò e la FEB ricevette l’ordine di spostarsi nella zona di Porretta Terme.

In questa prima fase si ebbero 13 morti, 151 feriti ed infortunati e 29 dispersi.

Dopo il brusco fallimento dell’Operazione “Olive”, che avrebbe dovuto portare allo sfondamento del fronte italiano, nuovi scenari andavano maturando in seno ai comandi militari angloamericani e ben presto la posizione dei brasiliani come combattenti alleati cambiò radicalmente. Il gen. Clark alla Conferenza della Futa il 31 ottobre 1944 decise di gettare nella mischia nuove unità: la 1ª DIE e la 92ª Divisione USA, sostituendo la 88ª Divisione USA del magg. gen. Kendall, che aveva sostenuto l’attacco e che da 2 mesi viveva in prima linea.

Fu così che nei primi giorni di novembre il generale Mascarenhas de Moraes trasferì il comando generale della FEB dalla base di Pisa a quella di Pistoia, mentre il P.C. (Posto Comando) Avanzato fu spostato dal piccolo centro della Valle del Serchio, Borgo a Mozzano, a Porretta Terme.

Il 5 novembre tutte le unità della FEB si erano schierate nel nuovo settore e al termine degli spostamenti il nuovo dispositivo del IV Corpo d’Armata si presentava eterogeneo: a sinistra della valle del Reno si trovava la 6ª Divisione Blindata sudafricana del magg. gen. Poole, al centro la FEB del gen. Mascarenhas e a destra della valle del Reno si trovava la 45ª Task Force del gen. Rutledge, rinforzata dalla 1ª Divisione Blindata USA. I tedeschi difendevano il settore centrale con il XIV Corpo Panzer, composto da 5 divisioni, che dipendeva dalla 10ª Armata. Nel settore specifico difeso dai brasiliani si trovava la 232ª Divisione di fanteria del gen. Eckard von Gablenz.

Il nuovo fronte si presentò come un settore maggiormente impegnativo, rispetto al terreno della valle del Serchio e alla veloce azione svolta dai brasiliani durante i primi giorni di guerra in settembre. L’artiglieria germanica, da posizioni dominanti, era in grado di battere la zona occupata dalle truppe brasiliane con precisione e continuità e l’attività delle pattuglie era sempre vivace.

Gli uomini della FEB rimasero fino al 15 novembre praticamente inattivi per gli inconsistenti attacchi del nemico, poi il 16 la 2ª e la 3ª compagnia del 6° reggimento occuparono quota 670, meglio conosciuta come Torre di Nerone.

Si trattava di un’azione legata all’operazione denominata “Preliminary” che doveva portare alla conquista di Monte Castello, un’impervia collina alta 887 metri posta tra la congiunzione della divisione brasiliana e la Task Force.

La presa di Monte Castello avrebbe permesso alle unità alleate di poter sferrare un attacco al Monte Belvedere – quota 1200 – che rappresentava la chiave dell’intero settore. Fu così che nella notte tra il 28 ed il 29 novembre il I/1° (magg. Uzeda), il III/11° (magg.Candido) e il III/6° (magg. Nobrega) con l’appoggio dell’artiglieria, sotto il diretto comando del gen. Cordeiro de Faria, iniziarono la manovra verso l’obiettivo. Fin dalle prime ore però fu chiaro che l’intento sarebbe fallito. Le unità giunsero al contatto con i tedeschi in maniera disgregata e in poche ore persero 190 tra morti, feriti e dispersi. Fu un vero disastro tecnico e tattico e mentre i comandanti sudamericani cercavano di studiare un’operazione d’attacco che potesse garantire una pronta rivincita, i tedeschi operarono tra il 30 novembre e il 2 dicembre profonde penetrazioni nelle linee brasiliane. Le unità sudamericane che avevano attaccato il 29 novembre avevano il morale molto basso per le alte perdite subite furono rimpiazzate da reparti freschi tra il primo ed il 3 dicembre. Ma era chiaro che la FEB non era pronta alla guerra. In questa fase il col. Mathewson, parlò nel suo diario di “situazione critica” per il Corpo di Spedizione brasiliano che nel mese di novembre aveva perso ben 340 uomini (48 morti, 289 feriti e 3 dispersi).

Solo a partire dal 5 dicembre la linea difensiva fu pienamente ristabilita e tornò ad una certa normalità.

Ma lo smacco di Monte Castello bruciava e il 12 dicembre i brasiliani tornarono all’attacco della collina.

Per la seconda azione brasiliana contro Monte Castello fu affidato il comando delle operazioni al gen. Zenobio da Costa, il “conquistatore” di Camaiore. Il piano prevedeva l’avanzata coordinata del II/1° e del III/1°, in direzione di Casa Guanella e Quota 887, mentre un distaccamento misto di uomini del 6° reggimento al comando del col. Nelson de Mello avrebbe creato una azione diversiva sul fianco destro. Per l’occasione tutti i gruppi d’artiglieria furono preparati e rinforzati dai pezzi del 68° battaglione da campo USA.

L’ora X era stata stabilita alle 06.00 della mattina del 12 dicembre, ma le pesanti condizioni del terreno aggravarono notevolmente il compito degli attaccanti, e ben presto il II/1° del magg. Syseno non poté mantenere i tempi di marcia, mentre il III/1° del magg. Franklin avanzò sotto un fitto fuoco di mitragliatrici e, constatata l’impossibilità di procedere, ripiegò, lasciando senza copertura il II/1° e nei duri scontri successivi la 7ª e la 9ª compagnia subirono ingenti perdite.

La regione di Monte Castello oggi - http://www.portalfeb.com.br/nos-passos-da-feb
La regione di Monte Castello oggi – http://www.portalfeb.com.br/nos-passos-da-feb

Nel tardo pomeriggio il gen. Zenobio da Costa ordinò un ripiegamento generale sulle posizioni di partenza.

I brasiliani subirono 250 perdite (tra questi ben 49 morti) e l’ordine perentorio da parte degli americani di rinforzare le posizioni e lasciar passare l’inverno. E le polemiche e i litigi aumentarono tra statunitensi, sudamericani e in seno ai comandi stessi del corpo di spedizione. Lo stesso Vargas richiamò in patria il capo di stato maggiore De Lima Brayner, mentre la stampa diffondeva notizie sulla disfatta.

Gennaio 1945 fu dunque il mese della completa riorganizzazione militare e psicologica dei reparti della FEB.

L’arrivo poi nel settore della 10ª divisione USA rappresentò per i brasiliani la possibilità di un futuro riscatto dalla sconfitta di Monte Castello, essendo questa una grande unità specializzata nei terreni di montagna.

L’8 febbraio a Lucca il generale Crittenberger presentò l’operzione “Encore” che prevedeva lo sfondamento della Linea Gotica nel settore del IV Corpo d’armata, dove la linea era chiamata “Gengis Khan”. Monte Belvedere rimaneva la quota più importante del settore con Monte Castello a fare da cerniera sul punto cardine. Il 19 febbraio fu sferrato l’attacco che – seppur tra mille difficoltà – condusse i brasiliani a conquistare la vetta. Non mancarono le polemiche perché per dimostrare di aver raggiunto la piena maturità militare i comandi della FEB avevano preteso di prendere da soli Monte Castello. Certo che l’avanzata americana aveva giocato un ruolo fondamentale nello scardinamento della linea difensiva. In Brasile la conquista venne festeggiata e ancora oggi rappresenta un vanto militare di tutto rispetto.

Raggiunti gli obiettivi prefissati, l’azione offensiva delle unità del IV Corpo d’armata del gen. Crittenberger si fermò. Monte Belvedere e Monte Castello furono occupati e difesi dai contrattacchi tedeschi, che per alcuni giorni cercarono di riconquistare le posizioni perse.

Il 4 marzo i brasiliani occuparono l’abitato di Castelnuovo dopo sanguinosi scontri e tra questi un combattimento all’arma bianca che vide soccombere i sudamericani con piccole e veloci unità tedesche.

Nel mese di marzo gli alti comandi alleati studiarono un nuovo piano d’attacco per scardinare definitivamente le linee tedesche. Nella nuova strategia Alexander e Clark accantonarono l’ipotesi di raggiungere Bologna e concertarono con il comandante dell’8ª Armata, gen. McCreery, l’apertura di un varco lungo la strada di Argenta. Le istruzioni prevedevano un primo attacco dell’8ª Armata e, il giorno 14, la spallata degli americani della 5ª Armata.

Simbolo della 5 ª Armata
Simbolo della 5 ª Armata

Lo schieramento alleato del XV Gruppo d’Armate al comando del gen. Clark era composto da 20 divisioni e 10 brigate così disposte sulla linea: il settore occidentale tirrenico era stato affidato ai neri della 92ª divisione di fanteria “Buffalo” (sotto il diretto controllo del comando della 5ª Armata); tra la valle del Serchio e la statale 64 furono disposte la 1ª divisione brasiliana, la 10ª divisione da montagna USA e la 1ª divisione corazzata USA (tutte unità del IV Corpo d’Armata del gen. Crittenberger). Al centro dello scacchiere trovarono posto la 6ª divisione corazzata sudafricana, la 88ª, 91ª, 34ª, e 85ª divisioni di fanteria USA (del II Corpo d’Armata del gen. Keyes). Nel settore orientale difeso dalle unità dell’8ª Armata del gen. McCreery si trovavano: al centro, in corrispondenza del fiume Santerno, la 1ª divisione di fanteria britannica, la 6ª divisione corazzata britannica, la 8ª divisione indiana e la 1ª divisione corazzata canadese (tutte unità del XIII Corpo d’Armata del gen. Kirkman). In prossimità di Imola furono disposte le unità del X Corpo d’Armata britannico del gen. Hawksworth; sulla direttrice della Via Emilia la 3ª e la 5ª divisioni di fanteria polacche (del II Corpo d’Armata polacco del gen. Anders). Infine nel settore di Ravenna furono disposte la 2ª divisione di fanteria neozelandese, la 78ª divisione di fanteria britannica, la 56ª divisione di fanteria britannica (unità del V Corpo d’Armata del gen. Keightley), insieme con i Gruppi di combattimento italiani “Legnano”, “Cremona”, “Friuli” e “Folgore” e alcune brigate britanniche, indiane, polacche e una composta da ebrei.

I brasiliani ricevettero il compito di prendere la cittadina di Montese e poi salire fino a Zocca.

I tedeschi e i repubblichini aveva disposte sul campo il Gruppo d’Armate Liguria, nel settore tirrenico, al comando del gen. Graziani (tra alcune unità tedesche troviamo le divisioni della R.S.I. “Monterosa”, “San Marco”, “Italia” e “Littorio”), al centro la 14ª Armata del gen. Lemelsen e a difesa del settore adriatico la 10ª Armata del gen. Herr.

Il 14 aprile alle ore 09.45 tutto il settore centrale della Linea Gotica si mosse in avanti dopo un intenso fuoco delle artiglierie e gli attacchi a volo radente degli aerei alleati. I primi reparti ad avanzare furono i reggimenti della 10ª divisione da montagna che occuparono in poche ore le posizioni di Castel d’Aiano. I secondi a partire dalle linee furono gli uomini della 1ª divisione corazzata che presero Susano e Vergato. Alle ore 10.15 si mossero gli uomini della 1ª divisione di fanteria brasiliana che, nelle prime ore di avanzata, incontrò una debole resistenza nemica. Ma prima di sera lungo il settore tutte le unità della FEB avevano preso contatto con il nemico subendo in alcuni casi dure perdite.

La distruzione avvenuta nel Montese
La distruzione avvenuta nel Montese

Solo durante la notte tra il 18 e il 19 aprile, i reparti della 114ª divisione tedesca, che difendeva il settore attaccato dalla FEB, ricevettero l’ordine di ritirata fino al fiume Panaro. Montese fu occupato lamentando 34 morti, 382 feriti e 10 dispersi, per un totale di 426 uomini fuori combattimento.

I tedeschi, dopo aver abbandonato le posizioni di Montese, si ritirarono nell’area di Zocca e, da quella nuova posizione, continuarono a bombardare le linee brasiliane. Tutto il settore centrale del fronte si fermò per una necessaria riorganizzazione ma già il 20 aprile tutte le unità del settore centrale della Linea Gotica erano nuovamente in movimento e le unità esploranti del cap. Plinio Pitalunga del Corpo di Spedizione Brasiliano ricevettero l’ordine di conquistare le posizioni a nord di Zocca.

Ormai il fronte era crollato, ma mentre le unità americano correvano verso la Pianura Padana i brasiliani si ritrovarono senza mezzi. A quel punto il comando brasiliano decise di costituire una unità celere per chiudere la valle del Panaro e bloccare la via delle unità nemiche in ritirata dalla Garfagnana.

Il gruppo celere costituito prese il nome dal suo comandante e divenne “Grupamento Coronel Nelson de Mello” e fu composto dal II/6° e dal II/1° fanteria, da una compagnia di obici del 6°, da quattro plotoni di carri armati americani del 894° battaglione e da unità di sanità, trasmissioni e genio.

Il 25 aprile il comando della 1ª divisione brasiliana fu trasferito da Vignola a Montecchio Emilia e tutte le unità del corpo affluirono in pianura. Dal 26 al 30 aprile brasiliani, tedeschi, repubblichini e naturalmente partigiani si misurarono in un duro scontro distinto in tre fasi: la prima, avvenuta tra il 26 ed il 27 aprile, è ricordata come combattimento di Collecchio; la seconda, svoltasi il 28 aprile, è nota come combattimento di Fornovo. La terza, avvenuta tra il 29 ed il 30 aprile, rappresenta l’apice della partecipazione brasiliana in Italia, ed è passata a memoria come la giornata della resa del nemico. Si consegnarono infatti nelle mani dei brasiliani 13.579 prigioni e tra questi alle 18.30 del 29, insieme alla truppa, giunse il gen. Carloni con tutto il suo Stato Maggiore, mentre alle 18.00 del 30 aprile arrivò infine, con gli ultimi uomini della sua divisione, anche il generale tedesco Fretter Pico.

Il generale Otto Fretter-Pico , comandante della 148. Infanterie-Division tedesca
Il generale Otto Fretter-Pico , comandante della 148. Infanterie-Division tedesca

Il 30 aprile la FEB ricevette l’ordine di occupare una zona nei pressi di Alessandria e lì attendere nuovi ordini.

Unità brasiliane sfilarono a Milano assieme ai partigiani lombardi, il Combat Command B della 1ª divisione blindata USA, il II/135 reggimento della 34ª divisione USA, la compagnia A del 1° battaglione di carri della 1ª divisione blindata USA, un plotone del reggimento speciale della Raggruppamento “Legnano”, una batteria d’artiglieria del 7° gruppo dell’artiglieria inglese, una sezione del 26° reggimento d’artiglieria contraerea inglese, due plotoni della compagnia A del 751° battaglione carri da combattimento USA.

Il 4 luglio 1945 la FEB ricevette l’ordine di spostarsi nei pressi di Napoli per iniziare le operazioni preliminari di imbarco per il rimpatrio. Il presidente Vargas temendo l’arrivo di un eroe di guerra e di 25.000 soldati ben armati e ben addestrati decise di “seppellire” la memoria e i febiani. Il gen. Mascarenhas de Moraes fu rimpatriato in aereo e una volta giunto a Rio de Janeiro fu accompagnato nella sua residenza privata dallo stesso Ministro della Guerra gen. Dutra. Pochi giorni dopo, il 23 luglio, il generale fu inviato in Perù per una missione diplomatica che lo tenne lontano dal paese. Nel frattempo le partenze dei soldati, come citato, iniziarono dal porto di Napoli il 6 luglio e si conclusero il 19 settembre. Ma poche ore prima del ritorno a casa i comandi brasiliani fecero stampare in fretta e furia dalla tipografia milanese A. Macchi & C., migliaia di congedi che furono rilasciati ai soldati durante il viaggio. Al loro arrivo il Ministro della Guerra ordinò che entro 8 giorni dallo sbarco le divise, i distintivi con il Cobra e lo stemma della 5ª Armata dovevano scomparire per sempre dal Brasile.

Un Aereo brasiliano P-47 in Italia - http://voandoemsonhosuomini.blogspot.com.br/2010/11/p-47d-thunderbolt.html
Un caccia-bombardieri P-47 brasiliano in Italia – voandoemsonhosuomini.blogspot.com.br

Dal febbraio 1945 la FEB aveva ricevuto anche l’appoggio del gruppo aereo brasiliano – F.A.B. (Força Aérea Brasileira) – dotato di  caccia-bombardieri P-47 ceduti dagli Stati Uniti.

La decisione di inviare in Europa un gruppo d’aviazione brasiliano risale alla fine del 1943 e fu presa insieme a quella di impegnarsi con il Corpo di Spedizione terrestre. In linea generale fu deciso di costituire un gruppo da caccia-bombardieri e, al servizio dell’artiglieria divisionale, una squadriglia per il collegamento e l’osservazione.

In Brasile da alcuni anni il presidente Vargas stava lavorando per rendere efficiente l’aeronautica delle forze armate; il primo passo fu la creazione, il 20 gennaio 1941, del Ministero dell’Aviazione e, subito dopo, l’unificazione dell’Aviazione dell’Esercito con quella della Marina. A partire dal 1942 giunsero in Brasile alcune squadriglie aeree dell’USAAF, che operarono nelle basi di Natal e Recife con il compito di difesa aerea dei convogli alleati che attraversavano l’Atlantico. In quel periodo esperti piloti americani prepararono una squadriglia di aviatori brasiliani che si distinse in azioni di difesa marittima. L’azione più importante compiuta dai brasiliani durante i pattugliamenti sull’oceano fu l’affondamento di un U-Boot tedesco, avvenuto il 12 agosto 1943. Il cap. Santos Polycarpo, a bordo di un “A-28-A” e il cap. Coutinho Marques, ai comandi del PBY “Catalina” 14, intercettarono l’U-199, comandato dal cap. Hans Werner Kraus e, dopo averlo mitragliato, lo affondarono con tre siluri.

Un idrovolante Consolidated PBY Catalina utilizzato dai brasiliani per proteggere le proprie coste
Un idrovolante Consolidated PBY Catalina utilizzato dai brasiliani per proteggere le proprie coste

Il 18 dicembre 1943 fu istituito il 1° Gruppo da Caccia e a comandarlo fu chiamato il magg. Nero Moura. L’addestramento del primo gruppo di piloti iniziò il 3 gennaio 1944 negli Stati Uniti. Nel marzo, dopo una pratica individuale di 60 ore sui caccia “Curtiss P-40”, i primi piloti addestrati raggiunsero i 350 uomini mobilitati per la creazione del Gruppo nella base aerea di Agua Dulce, a Panama. Nel campo del paese centroamericano tutti i piloti iniziarono un duro addestramento, che fu poi completato nella base dell’USAAF a Suffolk, presso New York. Alla fine i brasiliani furono dotati dei citati caccia-bombardieri “Republic P-47 Thunderbolt” di fabbricazione statunitense.

Terminato l’addestramento il gruppo con aerei e materiali fu imbarcato il 19 settembre 1944 sul trasporto francese Colombie nel porto di New York. Il 9 ottobre la nave giunse a Livorno e il 1° Gruppo da Caccia brasiliano fu destinato al campo di aviazione di Tarquinia. In quei giorni la FAB fu inquadrata nel 350° reggimento aereo da combattimento (Fighter Regiment), della 62ª aerobrigata da caccia Usa. A sua volta la 62ª brigata faceva parte del XXII Comando Aereo Tattico di supporto alle azioni terrestri della 5ª armata. Il 4 dicembre, in relazioni agli sviluppi del conflitto, l’intero 350° reggimento fu spostato nella base di Pisa, a ridosso del fronte.

Durante i primi giorni di guerra, come era consuetudine nelle squadriglie americane, la FAB scelse il suo emblema e il motto da combattimento. Come stemma fu preferito un agguerrito struzzo che volando tra le nuvole sparava fucilate; mentre come motto i piloti optarono per il grido “Senta a Pua!” (Senti la Punta!).

Simbolo usato in aerei brasiliani in Italia durante la Seconda Guerra Mondiale.
Simbolo usato in aerei brasiliani in Italia durante la Seconda Guerra Mondiale.

La FAB dal comandante magg. gen. B.J. Chidlaw, del XXII Comando aereo tattico, ricevette l’ordine di seguire tre principali linee d’azione:

a) appoggio diretto alle forze terrestri, con la regolazione del fuoco dell’artiglieria;

b) isolamento del campo di battaglia, con l’interruzione sistematica delle vie di comunicazione che collegavano il fronte nemico con la valle del Po e il resto del territorio occupato fino al passo del Brennero;

c) distruzione degli impianti militari e industriali dell’Italia settentrionali265.

Purtroppo la FAB pagò un alto tributo di sangue. Durante l’inverno perirono in seguito di incidenti di volo 3 piloti. Il 23 dicembre il ten. Motta Paes, colpito dalla contraerea a nord di Ostiglia (Verona), dopo essersi lanciato con il paracadute fu catturato dai tedeschi.

Tenente aviatore Ismael da Motta Paes, catturato dai tedeschi e lebertado dopo la fine della guerra - http://www.abra-pc.com.br/mito19.html
Tenente aviatore Ismael da Motta Paes, catturato dai tedeschi e lebertado dopo la fine della guerra – http://www.abra-pc.com.br/mito19.html

Il 2 gennaio, nei pressi di Alessandria, il ten. Medeiros lanciatosi dall’aereo in fiamme atterrò sui fili elettrici dell’alta tensione e morì fulminato. Il 4 febbraio il cap. Miranda e il ten. Danilo Moura saltarono dai loro aerei in fiamme dopo essere stati colpiti dalla contraerea; il cap. Miranda con un braccio spezzato fu nascosto da un gruppo di partigiani nei pressi di Padova. Mentre il ten. Moura aiutato da diversi gruppi partigiani, dopo 24 giorni e 260 km di cammino, raggiunse i compagni a Pisa. Anche il cap. Kopp, abbattuto a Parma, fu salvato dai partigiani della zona. Altri 4 piloti invece furono catturati dai tedeschi e inviati nei campi di prigionia; il ten. Paes finì nel campo di Stettino, in Prussia, e ivi liberato dai Sovietici dopo 4 mesi di prigionia. Dei 48 piloti brasiliani impiegati totalmente in combattimento, 6 erano ufficiali del Q.G. e ufficiali di collegamento statunitensi, 3 furono vittime di incidenti, 5 caddero durante operazioni belliche, 8 si lanciarono con il paracadute e finirono o in prigionia o nascosti dai partigiani, infine 5 piloti furono allontanati dal volo e rimpatriati per esaurimento fisico e psichico.

Dalle statistiche formulate nel dopoguerra risulta che furono accreditate ai piloti brasiliani il 28% dei ponti e il 15% dei veicoli tedeschi distrutti, nonché l’85% dei depositi munizioni e il 36% dei depositi combustibile colpiti. In 192 giorni operativi la FAB effettuò ben 2.995 sortite ed uscite offensive, durante le quali lanciò 4.442 bombe di vario genere che colpirono 4.454 obiettivi.

Ovviamente dati propagandistici, gonfiati da qualche solerte burocrate, che comunque non nascondono il buon comportamento dei piloti.

Due P-47 brasiliana, al momento del decollo
Due P-47 brasiliana, al momento del decollo

Per completare il richiamo all’attività della Força Aérea Brasileira sul fronte italiano, è necessario far cenno anche all’attività della squadriglia per il collegamento e l’osservazione. Tale unità lavorò al servizio dell’artiglieria divisionale e giunse in Italia nell’ottobre 1944 assieme al 3° scaglione della FEB. Il 10 ottobre con il mezzo da sbarco “LC-1- 116” i piloti e gli avieri della squadriglia furono trasportati a Livorno, e, in seguito, con alcuni camion a Pisa. Nell’aeroporto toscano il reparto di collegamento ricevette 9 aerei del tipo Piper Cub, con motore da 65 cavalli, equipaggiati solo con una radio e senza alcun tipo di armamento. Nello stesso periodo si aggregò alla squadriglia il magg. J.W. Buyers, ufficiale di collegamento USA, che svolse un magnifico lavoro di addestramento e preparazione dei piloti brasiliani. La Squadriglia di collegamento e osservazione effettuò 1.654 ore di volo, 682 missioni e più di 400 correzioni del tiro dell’artiglieria. Ogni pilota eseguì tra le 95 e le 70 missioni.

Da parte sua il personale terrestre della FAB (Força Aérea Brasileira) fece rientro in Brasile via mare con il primo scaglione che partì da Napoli il 6 luglio. I piloti invece furono selezionati e 20 di essi furono scelti per essere inviati nella base statunitense di San Antonio in Texas, dove ricevettero 20 nuovi P-47 Republic “Thunderbolt”. Poi tutta la nuova squadriglia si spostò nella base aerea brasiliana di “Campo dos Afonsos” presso Rio de Janeiro, dove stabilì la sede operativa.

In conclusione, il bilancio delle operazioni oltre oceano della Forza di Spedizione brasiliana può essere riassunto in pochi dati statistici. Furono presenti in Italia 25.334 uomini, che giunsero nella penisola in 5 scaglioni. Inoltre giunsero in Italia 111 persone, tra le quali il gruppo di infermiere, per via aerea. 15.069 uomini presero parte ai combattimenti, con il seguente bilancio di perdite: 457 morti, dei quali 13 ufficiali e 444 uomini di truppa. Inoltre persero la vita 8 piloti del gruppo aereo della FAB (Força Aerea Brasileira). I feriti da arma da fuoco in azioni di guerra furono 1.577, mentre quelli feriti per incidenti in zona di guerra furono 487; infine gli infortunati lontani dalla linea del fronte furono 658. Il deposito personale, a fronte di 3.179 uomini messi fuori combattimento, fornì alle unità di prima linea 3.379 rimpiazzi.

Il giudizio complessivo dell’operato dei soldati brasiliani in Italia può essere tutto sommato considerato positivo. I sudamericani riuscirono a superare difficoltà che avrebbero costretto anche gli stessi americani a tragiche battute a vuoto e chiaro è il riferimento alla crisi che colpì la FEB dopo la sanguinosa sconfitta di Monte Castello avvenuta nel mese di dicembre.

Truppe brasiliane nella parata per la vittoria a Rio de Janeiro nel 1945
Truppe brasiliane nella parata per la vittoria a Rio de Janeiro nel 1945

Il Brasile pagò enormemente la sua scelta di partecipare al conflitto. Estromesso dalle trattative per i risarcimenti di guerra dovette pagare interamente il prestito di guerra che gli Stati Uniti avevano accordato a Vargas nel 1942. L’ultima rata dei 361 milioni di dollari giunti in Sudamerica fu pagata il 1° luglio 1954. Il totale dei danni, delle spese, dei prestiti da restituire e degli interessi da pagare sommava a 12 bilioni di cruzeiros (2 milioni di sterline o 2 milioni di marchi, del 1945), e tale perdita non fu mai più pareggiata.

Certamente l’amarezza per il torto subito dagli ex-alleati non alimentò tentativi di facili ritorsioni verso i vecchi nemici. Il governo di Rio de Janeiro, che aveva confiscato all’inizio della guerra tutti i beni dei paesi e dei cittadini tedeschi, italiani e giapponesi, superò ogni rancore e restituì tutti i beni sequestrati ai legittimi proprietari. Con questo gesto terminarono tutte le vicende aperte con l’inizio della seconda guerra mondiale ed il Brasile, che aveva vinto la guerra, finì per pagare un conto fin troppo elevato.

AUTORE – ANDREA GIANNASI

http://www.storiain.net/arret/num131/artic3.asp

http://www.storiain.net/arret/num132/artic5.asp

About the Blog author Tokdehistória

Rostand Medeiros was born in Natal, Rio Grande do Norte. He is a 45 years old writer, researcher and expert in producing biographical works. Also does researches in history of aviation, participation of Brazil in World War II and in regionalist aspects of Northeast Brazil.
His member of Genealogy Institute of Rio Grande do Norte – IGRN and SBEC – Brazilian Society for the Study of Cangaço.
In 2009, he was co-author of “Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete” (in free translation, “The Knights of the Sky: The Saga of Ferrarin and Del Prete Flight”), a book that tells a story from 1928, of the first nonstop flight between Europe and Latin America. This book was supported by the Italian Embassy in Brazil, Brazilian Air Force (FAB) and Potiguar University (UNP).
In 2010, Rostand was a consultant of SEBRAE – Brazil’s Micro and Small Business Support Service, participating of the project “Território do Apodi – nas pegadas de Lampião” (in free translation, “Apodi Territory – In the footsteps of Lampião”), which deals with historical and cultural aspects of rural areas in Northeast Brazil.
In 2011, Rostand Medeiros launched the book “João Rufino – Um Visionário de Fé” (“João Rufino – A visionary of Faith”), a biography of the founder of industrial group Santa Clara / 3 Corações, a large coffee roasting company in Latin America. The book shows how a simple man, with a lot of hard work, was able to develop, in Rio Grande do Norte state, a large industry that currently has seven units and 6,000 employees in Brazil.
Also in 2011, he wrote, with other authors, a book of short stories entitled “Travessa da Alfândega” (in free translation, “Customs Cross Street”).
In 2012, Medeiros produced the following books: “Fernando Leitão de Moraes – Da Serra dos Canaviais à Cidade do Sol” (“Fernando Leitão de Moraes – From Sugarcane Mountains to Sun City”) and “Eu Não Sou Herói – A História de Emil Petr” (“I’m not a hero – The Story of Emil Petr”). This latest book is a biography of Emil Anthony Petr, a farmer who was born in Nebraska, United States. During World War II, he was an aviator in a B-24 bombing and became a prisoner of the Germans. This work shows the relationship of Emil with Brazilian people, whose with he decided to live from 1963, when he started to work for Catholic Church.
He also published articles in “Tribuna do Norte”, newspaper of the city of Natal, and in “Preá”, cultural magazine published by Rio Grande do Norte State Government.
He founded SEPARN – Society for Research and Environmental, Historical and Cultural Development of Rio Grande do Norte.
Currently, is working as a Parliamentary Assistant in Rio Grande do Norte Legislative Assembly and develops other books.
Rostand Medeiros is married, has a nine years old daughter and lives in Natal, Rio Grande do Norte, Brazil.

Phones: 0051 84 9904-3153 (TIM) / 0051 84 9140-6202 (CLARO) / 0051 84 8724-9692 (Oi)
E-mail: rostandmedeiros@gmail.com
Blog: https://tokdehistoria.wordpress.com/

MOUVEMENTS MESSIANIQUES ET BANDITISME SOCIAL DANS LE NORDESTE BRÉSILIEN

neifngjebgjkw

LES HOMMES RÉSOLUS DU SERTÃO AVAIENT TROUVE LE LIEU DE LEUR COMBAT : CE VILLAGE DEMASURES A L’ASPECT D’UNE CITADELLE. L’ÉTAT SE TROUVAIT CONFRONTE A L’HOSTILITE SOURDE ET TENACE DE TOUS CEUX QUI SAVAIENT FORT BIEN CE QUE LA NATION EXIGEAIT D’EUX : LA SOUMISSION ET LA RESIGNATION. ILS N’ÉTAIENT NI SOUMIS, NI RÉSIGNÉS. ILS NE SE LAISSERAIENT PAS VAINCRE.

Aujourd’hui, dans le sertao, restent quelques groupes éphémères rassemblés autour des beatos, vite dispersés par la police ; quelques bandits isolés, de simples brigands, qui se consacrent surtout au vol. Par contre, les hommes de main aux ordres du capanga ont continué à proliférer ; ils sont au service du fazendeiro qui entend bien interdire toute velléité de révolte chez ses journaliers, la plupart du temps par l’assassinat pur et simple. Cette milice privée est soutenue dans sa tâche de maintenir l’ordre par une police et une armée dont les moyens actuels, hélicoptères, napalm, mitraillettes, radio, troupes spéciales, rendent impossible toute espèce de mouvement social. La sécurité de l’État est désormais assurée dans cette vaste région aride au nord-est du Brésil qui fut, un temps, le lieu où se sont développés des mouvements messianiques de grande ampleur conjointement à l’épopée des cangaceiros.

nordeste

Pourtant, là-bas, dans le Nordeste, il y a des gens qui se souviennent encore des cangaceiros, d’Antonio Silvino, de Sinhô, de Lampião, de Corisco, qui en rêvent comme à des paladins d’un monde perdu ; des gens qui gardent une sorte de nostalgie du temps de conselheiro, comme d’une ère de bonheur, d’abondance et de liberté qui s’incorpore aux temps légendaires de l’Empire de Charlemagne et d’autres royaumes enchantés ; qui colportent la légende du père Cicero, celui-ci devant revenir en apportant l’âge du bonheur parfait ; ou, plus au Sud, dans la zona serrana, celle du moine « endormi » Joâo Maria qui est parti se réfugier en haut de la montagne enchantée du Tayô :

«De temps en temps, de nouveaux émissaires du Moine João Maria viennent annoncer son retour ; la dernière tentative date de 1954. Mais les autorités veillent et réussissent toujours à disperser les petits rassemblements de fidèles. Le souvenir du Moine João Maria ne semble pas près de s’éteindre cependant, et les endroits où il séjourna sont vénérés par ses adeptes.1 »La loi règne désormais dans le sertao, il n’en fut pas toujours ainsi. Que les fidèles abandonnent tous leurs biens, tout ce qui les salirait de la plus légère trace de vanité. Les fortunes étant à la merci d’une catastrophe imminente, ce serait une témérité inutile de les conserver. »

Vers 1870, la popularité d’Antonio Conselheiro, autrement dit le «Conseiller », grandit peu à peu dans les bourgs et les villages de l’intérieur, dans la province de Bahia.

Antônio Conselheiro dépeint par la presse à l'époque de la Guerre de Canudos
Antônio Conselheiro dépeint par la presse à l’époque de la Guerre de Canudos

Son vrai nom, Antonio Vicente Mendes Maciel ; il était originaire de l’état de Ceará où une sombre et sanglante rivalité opposait sa famille à celle des Araujo, les plus puissants propriétaires de la région.

Il passait, annonçant la fin du monde, une catastrophe cosmique suivie du jugement dernier. Il était l’envoyé de Dieu et promettait aux fidèles le salut et les délices d’une Ville Sainte où régneraient la paix et la fraternité. C’était le Christ qui avait prophétisé sa venue quand : «la neuvième heure, alors qu’il se reposait sur le mont des Oliviers, un de ses apôtres demandant : Seigneur ! pour la fin de cet âge, quels signes nous laissez-nous ?

Il répondit : Beaucoup de signes dans la Lune, dans le Soleil et dans les Étoiles. On verra apparaître un Ange envoyé par mon tendre père, prêchant devant les portes, peuplant les déserts, faisant des églises et des petites chapelles, donnant des conseils. »

Le sertão, aux montagnes aux lames de schistes étincelants de mica, aux immenses étendues couvertes de caatinga : «elle s’étend sur des lieues et des lieues, immuable : arbres sans feuilles aux branches tordues, desséchées, qui s’entortillent et s’enchevêtrent, pointant toutes droites vers l’espace ou s’étirant sinueuses sur le sol, comme l’immense gesticulation d’une flore à l’agonie2 », aux plaines où la nature se complaît au jeu des antithèses les plus abruptes, elles sont affreusement stériles, elles sont merveilleusement florissantes, venait de trouver son prophète.

Représentation publiés dans les journaux dans le sud du Brésil, montrant Antônio Conselheiro et sa lutte contre le Brésilien République
Représentation publiés dans les journaux dans le sud du Brésil, montrant Antônio Conselheiro et sa lutte contre le Brésilien République

Maigre, austère, ascétique, habillé de bure, chaussé de sandales, il allait de hameaux en hameaux, distribuant aux pauvres tout ce qu’on lui donnait ; c’était un beato. Il fut bientôt appelé « Saint Antoine » ou «Bon Jésus » ; la rumeur lui attribuait des miracles : il avait sauvé une fillette mordue par un serpent à sonnettes ; lesmuletiers colportaient la nouvelle. Peu à peu, son prestige grandissait. Quand il arrivait, on se précipitait vers lui pour lui demander des conseils. Des fidèles l’accompagnèrent dans ses pérégrinations. Demois enmois, le groupe s’amplifiait.

Avec ses adeptes, il réparait les églises, édifiait des chapelles ; partout où il passait, il prêchait avec force contre les abus, les exactions, les injustices qui infestaient la région déchirée par les luttes politiques qui se transformaient en vendetta, en querelles sourdes et sanglantes.

L’influence du Conselheiro devenait formidable, il parlait dans ses harangues un langage apocalyptique émaillé de citations latines, un langage sibyllin, inspiré, qui donnait l’impression que son message venait de l’au-delà : «Le Jugement Dernier inflexible s’approchait ».

Le prophète prédisait des choses étranges pour les années à venir, toutes annonçaient un bouleversement cosmique imminent : «En 1896, on verra des troupeaux, mille, courir de la plage au sertao, alors le sertão se changera en plage et la plage en sertão.

Image actuelle de la région intérieure de l'Etat de Bahia. Un paysage presque égale à l'époque de la Guerre de Canudos - Source - http://jonildogloria.blogspot.com.br
Image actuelle de la région intérieure de l’Etat de Bahia. Un paysage presque égale à l’époque de la Guerre de Canudos – Source – http://jonildogloria.blogspot.com.br

En 1897, il y aura beaucoup à paître et peu à naître, et un seul pasteur et un seul troupeau.

En 1898, il y aura beaucoup de chapeaux et peu de têtes.

En 1899, les eaux deviendront du sang et l’on verra la planète apparaître à l’orient, là où se trouve le rayon du soleil ; il rencontrera la Terre et la Terre se rencontrera avec lui, sur un point quelconque du ciel. Il pleuvra une grande pluie d’étoiles et ce sera la fin du monde.

En 1900, s’éteindront les lumières, Dieu a dit dans son évangile : J’ai un troupeau qui se promène hors de cet enclos et qu’il faut ramener, parce qu’il y a un seul pasteur et un seul troupeau. »3

Seuls ceux qui l’aidaient et le suivaient allaient être sauvés. Il répondait ainsi aux aspirations profondes des pauvres d’échapper à la fatalité sournoise, à une existence précaire ou servile, à l’écrasement et au désespoir. Sa détermination, sa fougue, ses colères, ses exhortations énergiques, les avaient séduits comme elles avaient séduit les rebelles, les quilombolas, les esclaves noirs insurgés et en fuite, les indiens insoumis, tous ceux, métis ou blancs, recherchés par la police des petites villes.

Itapicurû, État de Bahia, cinquante ans après la Guerre de Canudos - Source - http://historiavivasuzybrilho.blogspot.com.br/
Itapicurû, État de Bahia, cinquante ans après la Guerre de Canudos – Source – http://historiavivasuzybrilho.blogspot.com.br/

Saint Sébastien avait tiré son épée et, quand Conselheiro fonda sa première communauté messianique en 1873, près de Itapicurû, dans la province de Bahia, celle-ci rappelait par bien des côtés les bandes du cangaço.

«Comme il y a eu mésentente entre le groupe d’Antonio Conselheiro et le curé d’Inhambupe, ce village se trouve en état de siège et il paraît qu’on attend la venue du vicaire au lieu dit Junco pour l’assassiner. Les passants sont apeurés devant des bandits armés de gourdins, de couteaux, de coutelas et de carabines ; malheur à celui qui est soupçonné d’être l’adversaire du saint homme. » dit un rapport de police de l’époque.L’archevêque, lui-même, en appela au président de la province de Bahia demandant du renfort pour contenir «l’individu Antonio Vicente Mendes Maciel qui, prêchant des doctrines subversives, fait beaucoup demal à la religion et à l’État et, entraînant le peuple derrière lui, l’empêche de remplir ses obligations… » Pourtant, comme l’écrit l’universitaire soumis Euclydes da Cunha avec une certaine objectivité, mais dans le jargon injurieux de ses maîtres, «s’il entraînait le peuple sertanejo, ce n’est pas parce qu’il le dominait, mais bien parce que les aberrations (sic !) de ce peuple le dominait, lui. »

Il annonçait, certes, le règne du Christ sur la terre pour mille ans après la fin du monde mais, autour de lui, sous son impulsion, les jagunços, les rebelles, les insurgés, s’organisaient, occupaient des terres, répartissaient le travail et les biens, recevaient des dons, qui pouvaient être un peu forcés parfois. L’ordre constitué ne pouvait rester plus longtemps indifférent à l’extension d’une communauté qui faisait si bon marché de l’idée de propriété, qui ignorait avec tant de superbe le fondement de l’autorité, de la religion et de l’État comme dit l’apostolique archevêque. Aussi l’avènement de la République, cette démocratie des possédants, en 1889, allait-il précipiter le conflit et ouvrir au grand jour les hostilités. La république était prise par les millénaristes exactement pour ce qu’elle signifiait : plus d’État. Elle était le péché mortel, le pouvoir de l’égoïsme, de la cupidité, l’hérésie suprême indiquant le triomphe éphémère de l’antéchrist.

«Ce sont des êtres malheureux 

Ne sachant pas faire le bien

Ils abattent la loi de Dieu.

Ils représentent la loi du chien.

Garantis par la loi

Vous l’êtes, gens de rien

Nous avons la loi de Dieu

Vous avez la loi du chien. »4

Conselheiro prêcha l’insurrection contre la République et commença à mettre le feu aux décrets gouvernementaux affichés dans les villages : «En vérité, je vous le dis, pendant que les nations se querellent avec les nations, le Brésil avec le Brésil, l’Angleterre avec l’Angleterre, la Prusse avec la Prusse, D. Sebastião émergera des ondes de la mer avec toute son armée. Depuis le commencement du monde, il subit un enchantement avec toute son armée et il l’a remise en guerre.5

Et quand il fut enchanté il enfonça son épée jusqu’à la garde dans la pierre et il dit : “ Adieu monde, tu arriveras peut-être jusqu’à mille et quelque, mais pas jusqu’à deux mille”. Ce jour-là, quand il sortira avec son armée, il les passera tous au fil de l’épée, tous ceux qui ont un rôle dans la République. La fin de la guerre aura lieu dans la Maison Sainte de Rome et le sang montera jusqu’à la Haute Assemblée. »

Euclydes da Cunha
Euclydes da Cunha

Comme le constate, avec la suffisance du valet, l’universitaire Euclydes da Cunha, «le jagunço est aussi inapte à comprendre la forme républicaine que la forme constitutionnelle de la monarchie. Toutes deux sont pour lui des abstractions inaccessibles. Et instinctivement il est l’adversaire de l’une et de l’autre… Il est impossible de prêter une signification politique quelconque aux tendances messianiques qui y sont exposées… le révolté attaquait l’ordre établi parce qu’il croyait imminente la venue du règne des délices. »

L’ordre établi par les monarchistes ou par les républicains n’a jamais abouti, jusqu’à présent, au règne des délices chez les pauvres, loin s’en faut. Nous assisterions d’ailleurs plutôt, avec la République, à une aggravation très nette du sort réservé à ceux qui n’ont rien. C’est cela que combattent Conselheiro et ses partisans, la mise en place progressive d’un ordre nouveau.

Ils ne se révoltent pas au nom d’un ordre ancien, mais pour l’idée qu’ils se font d’une société humaine. Ils n’ont pas le regard tourné vers le passé, mais vers le futur, ils sont porteurs d’un projet social. En s’insurgeant contre l’ordre établi, ou quis’établit, ils s’insurgent contre l’esprit d’un monde, celui qui a créé la propriété privée, le travail forcé, le salariat, la police, l’argent ; ils s’insurgent contre une pratique sociale et son esprit.

L’avenir n’est pas pour eux un retour au passé mais un coup du monde, un bouleversement de fond en comble de la société, une révolution où ce qui était au commencement, l’humanité, reviendra à la fin comme humanité accomplie.

L’autonomie des communes ayant été décrétée, les Conseils des localités de l’intérieur de Bahia avaient affiché sur les tableaux, planches traditionnelles qui remplaçaient la presse, les édits destinés au recouvrement des impôts.

Un combattant typique qui se sont battus au nom de Antônio Conselheiro
Un combattant typique qui se sont battus au nom de Antônio Conselheiro

Quand cette nouvelle fut connue, Conselheiro se trouvait à Bom Conselho ; les impôts l’irritèrent et il prépara aussitôt une protestation. Le jour du marché il réunit le peuple et, au milieu des cris séditieux et du crépitement des pétards, il fît brûler les planches sur la place. Après cet autodafé que les autorités ne purent empêcher, il éleva la voix et, toujours de bon conseil, il prêcha ouvertement la rébellion contre les lois.

Conscient du danger qui le menaçait lui et les siens, il quitta la ville et se dirigea vers le Nord par la route de Monte-Santo. Vers une zone écartée, abandonnée, entourée de montagnes abruptes et de caatinga infranchissable, refuge éphémère de bandits.

L’événement avait eu une répercussion dans la capitale d’où une force de police partit pour prendre les rebelles dont le groupe n’excédait pas alors 200 hommes.

La troupe les trouva à Massète, lieu découvert et stérile entre Tucano et Cumbe. Les trente policiers, bien armés, les attaquèrent impétueusement, certains qu’à la première décharge ils seraient victorieux.Mais ils avaient devant eux des jagunços téméraires ; ils furent battus et durent prendre précipitamment la fuite ; le commandant fut le premier à en donner l’exemple.

Après avoir accompli cet exploit, les millénaristes, reprenant leur marche, accompagnèrent l’hégire du prophète. Ils ne recherchaient plus les endroits peuplés comme avant ; ils allaient vers le désert. Traversant des chaînes de montagnes, des plateaux dénudés, des plaines stériles, ils arrivèrent à Canudos.

C’était une ancienne fazenda, un domaine situé sur le fleuve temporaire Vasa-Barris. En 1890, étant abandonné, il servait de halte et comprenait une cinquantaine de masures faites de pisé. En 1893, quand l’apôtre y vint, Canudos était en pleine décadence : partout des hangars abandonnés, des cabanes vides ; et, sur le haut d’un contrefort du mont de la Favella, on voyait, sans toit, réduite aux murs extérieurs en ruines, l’ancienne demeure du propriétaire.

Dessin représentant le Canudos village à l'époque de la guerre
Dessin représentant le Canudos village à l’époque de la guerre

La communauté occupa les terres incultes qu’elle fit fructifier rapidement. Le village se développa à un rythme accéléré, les adeptes provenant des endroits les plus divers venaient s’y installer. C’était aux yeux des habitants un lieu sacré, entouré de montagnes, où l’action maudite du gouvernement ne pénétrait pas. Canudos allait connaître un accroissement vertigineux. Voici ce que nous dit un témoin : «Quelques-unes des localités de cette commune et des communes avoisinantes, jusqu’à l’État de Sergipe n’ont plus d’habitants tellement est grand le nombre de familles qui rejoignent l’endroit choisi par Antonio Conselheiro. Cela fait peine à voir sur les marchés cette grande quantité de bétail, chevaux, boeufs, chèvres, sans parler de terrains, des maisons, des objets, mis en vente pour une bagatelle.

Ce à quoi l’on aspire, c’est d’obtenir de l’argent pour aller le partager avec le Saint apôtre. » Le hameau couvrit entièrement les collines, l’absence des rues, des places, à part celle de l’église, le grand entassement des masures, en faisaient une demeure unique. Le village était invisible à une certaine distance, encerclé par une sinuosité du Vasa-Barris, il se confondait avec le sol lui-même. Vu de près, il y avait un terrible dédale de passages étroits séparant mal le mélange chaotique des masures au toit d’argile. Les habitations faites de pisé se composaient de trois compartiments minuscules : un vestibule exigu, une pièce qui servait de cuisine et de salle à manger et une alcôve latérale dissimulée par une porte étroite et basse. Quelques meubles : un banc, deux ou trois petits escabeaux, des caisses de cèdres, des hamacs; quelques accessoires : le bogo ou borracha, seau en cuir pour le transport de l’eau, yaiô, carnassière en fibre de carûa (petit palmier). Au fond de la pièce principale un oratoire rustique.

Des armes enfin, d’un modèle ancien : le coutelas jacaré à la lame robuste et large, la parnahyba des guetteurs longue comme une épée, l’aiguillon à la pointe de fer, de trois mètres, le gourdin creux qu’on remplit de plomb, les arcs, les fusils : la canardière au canon effilé que l’on charge de grenaille, le mousqueton nourri de gros plomb, la lourde arquebuse capable de lancer des pierres ou des cornes, le tromblon évasé comme une cloche.

Arme commune des avocats de Canudos, les tromblon, actuellement utilisés pour les représentations culturelles - Source - http://pombalgincana.blogspot.com.br
Arme commune des avocats de Canudos, les tromblon, actuellement utilisés pour les représentations culturelles – Source – http://pombalgincana.blogspot.com.br

C’est tout, les habitants de Canudos n’avaient nul besoin d’autre chose. «Les jagunços errants y installaient leurs tentes une ultime fois sur la route d’un pèlerinage miraculeux vers le ciel. » Mais chacune de ces cabanes était en même temps un foyer et un réduit fortifié. Canudos allait être laMunster du sertao et ses habitants «des Baptistes terribles capables de charger des tromblons homicides avec les grains des rosaires. » Canudos ouvrait généreusement aux démunis ses celliers remplis par les dons et par le produit du travail commun. L’activité sociale n’y était pas dirigée, elle s’organisait. Seul l’eau de vie y avait été prohibée et ceci d’un commun consentement. Les uns s’occupaient de la culture ou bien soignaient les troupeaux de chèvres pendant que d’autres surveillaient les alentours ; des groupes se formaient pour aller au loin mener quelques expéditions.

Mais toute cette activité semblait converger vers la construction d’une nouvelle église, y puiser son sens ; c’était l’oeuvre commune autour de laquelle s’organisaient les initiatives. Cette société campée dans le désert s’était donnée une mission sacrée dans laquelle elle se saisissait comme communauté ; cette société était religieuse dans son essence, en élevant pierre par pierre son église, elle donnait corps à son esprit.

La nouvelle église s’élevait à l’extrémité de la place en face de l’ancienne. Ses murs principaux et épais rappelaient les murailles des fortifications ; cette masse rectangulaire allait être transfigurée par deux tours très hautes, ayant l’audace d’un gothique fruste. «L’admirable cathédrale des jagunços avait l’éloquence silencieuse des édifices dont nous parle Bossuet. »

De grandes quantités de bétail arrivaient de Geremoabo, de Bom Conselho et de Simão Dias ; de Canudos partaient des bandes qui allaient attaquer les domaines des environs et, parfois, conquéraient des villes. À Bom Conselho, l’une d’elle, après avoir pris possession du lieu, le mit en état de siège, dispersa les autorités, en commençant par le juge de Paix. Ces expéditions d’hommes belliqueux alarmèrent les pouvoirs constitués.

Uniforme de l'armée brésilienne en 1890 - Source - http://bicentenario.aman.ensino.eb.br
Uniforme de l’armée brésilienne en 1890 – http://bicentenario.aman.ensino.eb.br

La ville sainte fut dénoncée au gouvernement provincial puis au gouvernement fédéral. L’exemple qu’elle constituait présentait une menace grave pour l’État, d’autant que sa notoriété allait grandissant. Cette expérience risquait de s’étendre. Il devenait urgent de rayer à jamais cette ville de la carte, de la faire disparaître par le feu et le sang, de l’extirper. Quatre expéditions militaires de plus en plus importantes furent engagées contre Canudos entre 1896 et 1897.

«Les cangaceiros et les jagunços dans leurs expéditions, les premiers vers le Sud, les seconds vers le Nord, se rencontraient sans s’unir, séparés par le val en pente de Paulo Affonso. L’insurrection de la commune de Monte-Santoallait les réunir.6

La guerre de Canudos naquit de la convergence spontanée de toutes les forces déréglées perdues dans les sertoes. » Des bandits fameux vont se révéler de terribles stratèges. Les habitants de Canudos vont faire vaciller des armées. Octobre 1896, le premier magistrat de Joazeiro télégraphie au gouverneur de Bahia : il sollicite son intervention dans le but de prendre des mesures pour protéger la population, disait-on, d’une attaque de la part des jagunços d’Antonio Conselheiro.

La ville de Uauá dans les années 1950, avec une vue de la Place Saint-Jean-Baptiste
La ville de Uauâ dans les années 1950, avec une vue de la Place Saint-Jean-Baptiste

Le 4 novembre, le gouverneur envoie une force armée composée de 100 soldats et d’un médecin, sous le commandement du lieutenant Manuel da Silva Pires Ferreira. Le 19, elle arrive à Uaûa, petit village sur le rio Vasa-Barris entre Joazeiro et Canudos. Le 21, elle est brutalement attaquée à l’aube par les jagunços ; ceux-ci se battent pratiquement à l’arme blanche contre des soldats armés de fusils modernes à répétition. Ils perdent 150 hommes, la troupe a 10 morts et 16 blessés. Le médecin devient fou. La retraite sur Joazeiro est ordonnée.

Le 25 novembre, une force armée (543 soldats, 14 officiers, 3 médecins), avec deux canons Krupp et deux mitrailleuses, part de Bahia pour Queimadas. Elle est sous les ordres du commandant Frebônio de Brito. Elle arrive à Monte-Santo le 29 décembre. Le 12 janvier 1897, elle part pour Canudos en empruntant la route du Cambaio ; le 18 et 19, dans la traversée de la serra et en vue de Canudos, ont lieu les premiers combats, tromblons contre comblains (fusils à répétition) et mitrailleuses ; les jagunços attaquent soudainement, disparaissent pour ressurgir plus loin ; ils laissent beaucoup de morts sur le terrain mais infligent une dure et surprenante défaite à l’armée qui doit battre précipitamment en retraite sur Monte-Santo. En apprenant l’étendue du désastre dans la traversée du Cambaio, le gouvernement comprit la gravité de la guerre aux sertões, d’autant qu’à la suite de cet exploit la notoriété de Canudos s’étendait dans tout le sertão.

Le colonel Antônio Moreira César
Le colonel Antônio Moreira César

Le 3 février 1897, le colonel Moreira César, de renommée nationale, commande la première expédition régulière qui embarque à Rio pour Bahia. Le 8, l’expédition arrive à Queimadas avec 1300 hommes et tout l’équipement nécessaire. De Monte-Santo, elle contourne la montagne par l’Est pour arriver à Angico et au sommet de la Favella l’après-midi du 2 mars.

Sûr de son fait, Moreira César lance l’assaut contre le village après un bombardement sommaire ; c’est la catastrophe pour lui et ses hommes ; le village, comme un piège, comme une immense toile d’araignée, comme une nasse, se referme sur l’armée; chaque ruelle, chaque impasse, chaque détour, chaque maison, cachent des hommes déterminés, armés de coutelas, de piques, de tromblons ; l’armée s’enferre dans un corps à corps tragique ; c’est un désastre qui tourne bientôt à la panique. Le fameux colonel Moreira César est mortellement blessé, le colonel Tamarindo qui le remplace est tué. «Dans les environs, de tous les côtés, les sertanejos trouvèrent des armes et des munitions, même des uniformes, tuniques et culottes à bandes rouges dont la couleur vive aurait trahi leurs possesseurs et qui étaient incompatibles avec la fuite ; de sorte que la plupart des soldats ne s’étaient pas seulement désarmés devant l’ennemi, ils s’étaient aussi déshabillés. C’est pourquoi, dans la région qui va de Rosario à Canudos, il y avait à l’air libre un arsenal en désordre, où les jagunços purent largement se ravitailler. L’expédition semblait n’avoir eu qu’un seul objectif : remettre gratuitement aux adversaires tout un armement moderne avec ses munitions.

Fusil utilisé par l'armée brésilienne dans la guerre, le modèle M1873 Comblain - Source - http://www.militaryrifles.com
Fusil utilisé par l’armée brésilienne dans la guerre, le modèle M1873 Comblain – Source – http://www.militaryrifles.com

Les Comblains terribles remplacèrent dans les mains des lutteurs de première ligne les vieux fusils au chargement minutieux et lent ; quant aux uniformes, ceinturons et bonnets, c’est-à-dire tout ce qui avait touché les corps maudits des soldats, ils ne pouvaient les porter, leur épiderme de combattants sacrés en aurait été souillé ; ils s’en servirent pour un divertissement cruellement lugubre… Ils réunirent les cadavres épars des adversaires, les décapitèrent et brûlèrent les corps. Puis, sur les deux côté de la route, régulièrement espacées, se faisant vis-à-vis, se regardant, ils alignèrent les têtes. Au-dessus, en bordure, sur les arbustes les plus hauts, ils pendirent les pièces d’équipement, pantalons et tuniques multicolores, selles, ceinturons, képis aux raies rouges, manteaux, capes, gourdes et musettes.

La caatinga desséchée et nue fut brusquement couverte d’une floraison extravagante aux couleurs vives, allant du rouge violent des galons au bleu déteint des étoffes et se joignant au scintillement de l’acier des éperons et des étriers. Un détail douloureux complétait cette mise en scène macabre.

Au détour d’un chemin se détachait le corps du colonel Tamarindo, empalé, dressé sur un rameau sec d’angico. C’était stupéfiant. Épouvantail lugubre, le cadavre informe, bras et jambes pendantes, oscillant au gré du vent, sur la branche flexible et courbée, apparaissait dans la solitude comme une vision démoniaque.

Il séjourna là très longtemps.

Quand trois mois plus tard une nouvelle expédition partit pour Canudos, elle vit encore cette mise en scène, ces têtes de morts blanchissantes sur les bords des chemins entourées de vieux oripeaux, et à côté, protagoniste muet d’un drame formidable, le spectre du vieux commandant. » Alors que dans le sertao l’épopée de Canudos est chantée dans des poèmes où les exploits deviennent des légendes, dans la capitale le gouvernement ne comprend plus : Canudos était une misérable bourgade que les cartes ignoraient et voilà qu’elle tient tête et met en échec des régiments. L’État invente des complots politiques mais il commence à s’inquiéter sérieusement.

Cadre qui utilise la technique de la peinture typique du nord-est du Brésil, connue sous le nom "Xilogravura" qui met en scène la Guerre de Canudos
Cadre qui utilise la technique de la peinture typique du nord-est du Brésil, connue sous le nom “Xilogravura” qui met en scène la Guerre de Canudos

Il redoute ce sertão mal connu d’où surgissent des hommes armés de leur vengeance qui, de toutes les provinces, convergent vers Canudos, pour en découdre. L’universitaire Euclydes da Cunha écrit à ce sujet : «Le jagunço ne pouvait faire que ce qu’il a fait, battre, battre tenacement le principe d’une nationalité qui, après l’avoir rejeté pendant près de trois siècles, prétendait l’emmener vers les merveilles de notre époque, encadré par des baïonnettes et luimontrer la beauté de la civilisation à la lueur des explosions d’obus. » Les hommes résolus du sertao avaient trouvé le lieu de leur combat : ce village de masures à l’aspect d’une citadelle. L’État se trouvait confronté à l’hostilité sourde et tenace de tous ceux qui savaient fort bien ce que la nation exigeait d’eux : la soumission et la résignation. Ils n’étaient ni soumis, ni résignés. Ils ne se laisseraient pas vaincre.

C’est dans la guerre sociale que le principe de la guerre, qui veut l’anéantissement définitif de l’adversaire, connaît son application la plus complète, sa conclusion, si l’on peut dire. L’enjeu des guerres entre nations est complexe, il est essentiellement  politique, comme l’est, d’ailleurs, celui des guerres de libération nationale ; cet enjeu n’exige pas nécessairement l’anéantissement de l’ennemi, au contraire sa fin est d’imposer une volonté politique à son adversaire et donc de se donner les conditions, par les moyens de la guerre, de traiter avec lui. Ici la guerre est la continuation de la politique par d’autres moyens, comme le note Carl von Clausewitz ; là elle exige l’écrasement complet et définitif de l’ennemi ; l’enjeu est social : suppression ou maintien de l’esclavage, et il n’est pas possible de faire les choses à moitié.

Soldats de l'armée brésilienne pendant la guerre
Soldats de l’armée brésilienne pendant la guerre

Pour l’insurgé, il s’agit de mettre fin à son esclavage et il n’y a aucun compromis possible sur une question aussi essentielle. Pour le maître, il s’agit de sauvegarder sa position sociale, sa qualité de maître, son état. Aucune considération extérieure à la guerre elle-même ne vient donc freiner et modérer sa violence, c’est la guerre à l’état pur, originelle ; celle qui fut au commencement, la négativité pure.

Dans une affaire aussi dangereuse que la guerre sociale, les erreurs dues aux hésitations, aux atermoiements, à la bonté d’âme, sont précisément la pire des choses. Toutes considérations extérieures à la finalité même de la guerre, la déroute totale de l’ennemi, sont la pire des choses. Comme l’usage de la force physique dans son intégralité n’exclut nullement la coopération de l’intelligence, celui qui use sans pitié de cette force et ne recule devant aucune effusion de sang, aucune restriction morale, prendra l’avantage sur son ennemi, si celui-ci n’agit pas de même.

La violence, c’est-à-dire la violence physique (car il n’existe pas de violence morale, en dehors des concepts de l’État et de la Loi, et cette violence est celle du vainqueur qui impose sa volonté) est donc le moyen est d’abattre l’adversaire.

Soldats de l'armée brésilienne du 38e bataillon d'infanterie pendant la Guerre de Canudos
Soldats de l’armée brésilienne du 38e bataillon d’infanterie pendant la Guerre de Canudos

La guerre sociale est la brutalité absolue qui ne tolère aucune faiblesse. Ignorer cet élément de brutalité à cause de la répugnance qu’il inspire est un gaspillage de force, pour ne pas dire une erreur ; montrer à un moment donné de l’irrésolution quant à la fin recherchée, c’est laisser l’initiative à l’ennemi, une faute qui se paie très cher.

Il ne peut y avoir de négociations, la paix est soit le retour à l’esclavage, soit la fin de l’esclavage ; quoiqu’il en soit, l’anéantissement d’un des partis.

Le 5 avril 1897, le général Arthur Oscar organise les forces de la quatrième expédition : 6 brigades en 2 colonnes. Des bataillons sont levés dans tout le pays, c’est l’union nationale, l’union sacrée, contre l’ennemi intérieur.

L'artillerie de l'armée de terre brésilienne pendant la Guerre de Canudos
L’artillerie de l’armée de terre brésilienne pendant la Guerre de Canudos

La première et la deuxième colonne doivent converger sur Canudos, l’une commandée par Arthur Oscar, par la route de Monte-Santo, l’autre sous les ordres de Savaget, par la route de Geremoabo, pour attaquer toutes deux ensemble fin juin. Mais aux abords de Canudos, elles rencontrent, l’une et l’autre, des difficultés. La colonne Savaget est attaquée deux fois entre Cocorobô et Canudos, les pertes sont sévères et le général est blessé : «Comme toujours les sertanejos en surgissant à l’improviste parmi le désordre, sur le lieu d’un combat qu’ils avaient perdu, troublaient le succès. Battus, ils ne se laissaient pas écraser. Délogés de toutes parts ils s’accrochaient partout ; vaincus et menaçants tout à la fois, ils fuyaient et tuaient à la façon des Parthes. » Les choses étaient encore plus sérieuses pour le général Arthur Oscar qui avait atteint le sommet de la Favella qui surplombe le village ; après une rapide victoire pour la place, il se trouvait prisonnier, assiégé par ceux qu’il venait de vaincre. Il dut appeler la colonne Savaget à son secours. Le 1er juillet les jagunços attaquent le campement, certains vont s’efforcer de parvenir jusqu’à la «Tueuse », ce canon de siège (unWithworth 32), qui bombarde Canudos. Ils n’y arriveront pas.

L’armée se trouve dans une situation critique ; coupée de son ravitaillement, elle ne peut ni avancer, ni reculer : «C’était indéniablement un siège en règle, bien qu’il fût déguisé par le peu de densité des tranchées, dont le tracé lâche et compliqué couvrait la montagne… La tactique invariable des jagunços consistait à résister en reculant, en tenant ferme derrière tous les accidents protecteurs du terrain, tactique terrifiante.

Canudos en 1897
Canudos en 1897

L’attaquant c’était l’homme matériellement fort et brutal, outillé par les ressources guerrières de l’industrie moderne, versant, par la bouche des canons, des tonnes d’acier sur le rebelle qui lui opposait un réseau magistral de ruses inextricables.

Les jagunços laissaient volontiers à leurs adversaires la jouissance de victoires inutiles,mais quand ceux-ci, après avoir pavé de projectiles la terre broussailleuse, déployaient leurs drapeaux et remplissaient la calme atmosphère avec la sonnerie de leurs clairons, ils se vengeaient des hymnes de triomphe en envoyant avec leurs tromblons une bruyante pluie de balles. » Deux semaines plus tard le ravitaillement finit par arriver et les troupes sont lancées à l’assaut du village ; c’est un échec et les pertes sont importantes. Dans l’armée, au gouvernement, c’est la consternation.

En hâte on forme à Queimadas une nouvelle brigade, la brigade Girard, 1042 hommes et 68 officiers, elle part le 3 août pour renforcer en soldats et en vivres l’armée d’Arthur Oscar. Elle est attaquée le 15 et perd 91 boeufs, ce qui lui vaudra, par dérision, le nom de brigade gracieuse. Dans le gouvernement on a compris qu’il ne s’agit plus de prendre d’assaut un village, mais d’organiser une véritable campagne militaire de plusieurs semaines sinon de plusieurs mois afin de l’encercler complètement ; on a compris que la guerre sera longue et difficile et qu’il s’agit de s’en donner les moyens. Le maréchal Bittencourt se met à la tête de cette campagne.

c2e15c11685145b4b0ea6cd4476fafd7472

Deux brigades supplémentaires arrivent de Bahia et forment une division ; un service régulier de convois vers Monte-Santo est organisé ; l’armée ne risque plus de se trouver coupée de ses arrières et peut donc s’installer dans une guerre de retranchements.

Le long étranglement de Canudos est commencé.

Le 7 septembre on ouvre la route de Calumby qui permettra de consolider le siège. Le 22, meurt Antonio Conselheiro. Les combats reprennent de plus belle aux abords de Canudos. Les habitants retrouvent l’initiative ; dans unmouvement tournant et étourdissant, les escarmouches atteignent toutes les positions de l’ennemi, touchent, tranchée par tranchée, toute la ligne du front.

Le corps d'Antônio Conselheiro retiré de son tombeau par les militaires pour se faire photographier
Le corps d’Antônio Conselheiro retiré de son tombeau par les militaires pour se faire photographier

«Tout à coup, ils surgissaient inopinément sur un point quelconque du front. On les battait, on les repoussait ; ils se jetaient alors sur les tranchées les plus proches ; on recommençait à les battre et à les repousser, ils revenaient contre les suivantes et continuaient ainsi sans succès, leurs assauts ininterrompus qui formaient devant les troupes comme une ronde immense.

Ceux des soldats qui, la veille, dédaignaient un adversaire caché dans les masures, étaient stupéfiés. Comme dans les mauvais jours passés, mais avec plus d’intensité encore, cette stupéfaction les jugulait.

Les défis imprudents cessèrent. Finies les fanfaronnades visant à provoquer l’ennemi. Les clairons reçurent à nouveau l’ordre de faire silence ; il n’y avait qu’une sonnerie possible, l’alarme, et celle-là, l’ennemi, éloquemment, se chargeait de la donner… La situation devint tout à coup insupportable…

Femmes, enfants et vieillards capturés par l'armée brésilienne
Femmes, enfants et vieillards capturés par l’armée brésilienne

La lutte arrivait fébrilement aux combats décisifs qui allaient amener la conclusion de la campagne. Mais son paroxysme stupéfiant terrorisait les vainqueurs. » Les troupes tentent de resserrer l’encerclement en pénétrant pas à pas à l’intérieur de la bourgade mais ils se heurtent à une résistance farouche qui limite leur avancée. De plus les jagunços reculent mais ne fuient pas. Ils restent à côté, à deux pas, dans la pièce contiguë de la même maison, séparés de leur ennemi par quelques centimètres de pisé. Le peu d’espace du lieu a amassé dans les maisons ceux qui veulent les conserver et qui, les remplissant, opposent aux soldats une résistance croissante.

S’ils cèdent sur l’un ou l’autre point, ils réservent aux vainqueurs bien des surprises. La ruse du sertanejo se fait toujours sentir ;même dans lesmoments les plus tragiques pour lui, il ne l’avouera jamais vaincu. Loin de se contenter de résister jusqu’à la mort, il défie l’ennemi et passe à l’offensive.

Le 26, pendant la nuit, les jagunços attaquent violemment quatre fois ; le 27, dix-huit fois ; le lendemain ils ne répondent pas au bombardement du matin et de l’après-midi, mais leur fusillade dure depuis 6 heures du soir jusqu’à 5 heures du matin.

Commandants militaires brésiliens
Commandants militaires brésiliens

Le premier octobre 1897, le bombardement intensif du dernier carré de résistance commença. Il fallait un sol franchement nettoyé pour l’assaut ; cet assaut devait s’exécuter d’un seul coup, au pas de charge, avec une seule gêne, les ruines. Aucun projectile n’était perdu, retournant inflexiblement d’un bout à l’autre, maison par maison, le dernier morceau de Canudos. Tout fut entièrement dévasté par les tirs des batteries. Les derniers j a g u n ç o s subissaient dans toute sa violence destructrice ce bombardement impitoyable.

Cependant on ne remarqua aucune silhouette en fuite, pas la moindre agitation.

Et quand le dernier coup fut tiré, l’inexplicable quiétude du village anéanti aurait fait supposer qu’il était désert, comme si durant la nuit la population avait fui miraculeusement.

L’assaut commença ; les bataillons partirent de trois points pour converger vers l’église nouvelle. Ils n’allèrent pas loin : le jagunço suivant pas à pas l’agresseur, se réveillait comme toujours à l’improviste d’une façon surprenante et glorieuse.

L'un des défenseurs de la ville de Canudos, capturé par des soldats de l'armée brésilienne
L’un des défenseurs de la ville de Canudos, capturé par des soldats de l’armée brésilienne

Tous les mouvements tactiques préétablis s’en trouvèrent modifiés, au lieu de converger sur l’église, les brigades s’arrêtaient, sa fractionnaient et se perdaient dans les ruines. Les sertanejos restèrent invisibles ; pas un seul n’apparut et ne chercha à traverser la place. Cet insuccès ressemblait absolument à une défaite, car les assaillants s’arrêtèrent, trouvant devant eux une résistance sur laquelle ils ne comptaient pas ; ils s’abritèrent dans les tranchées et finalement s’en tinrent à la franche défensive ; alors les jagunços, débordant des masures fumantes, attaquèrent à leur tour et tombèrent sur eux. Il fallait d’urgence agrandir le plan primitif de l’attaque ; on lança alors sur ce qui restait de Canudos 90 bombes de dynamite : «le tremblement produisait des fissures qui se croisaient sur le sol comme des courbes sismiques, les murs s’abattirent, de nombreux toits volèrent en éclats ; un énorme cumulus de poussière noircissante rendit l’air irrespirable. Tout avait disparu semblait-il. En fait, c’était le complet démantèlement de ce qui restait du village sacré. » Les bataillons attendaient que le cyclone de flammes se fut calmé pour se lancer dans le dernier des derniers assauts.

Mais ils ne l’exécutèrent pas ; au contraire un soudain recul eut lieu. Des décharges sortirent, on ne sait comment, des ruines embrasées et les assaillants se mirent à couvert dans tous les coins et se retirèrent, pour la plupart derrière leurs tranchées.

Ne cherchant pas à se cacher, sautant sur les brasiers ou les chaumes encore debout, se dressaient les derniers défenseurs de Canudos. Ils se lançaient dans des assauts d’une folle témérité ; ils venaient tuer leurs ennemis dans leurs propres tranchées.

L'église du village de Canudos après la fin de la guerre
L’église du village de Canudos après la fin de la guerre

Ceux-ci se sentaient faiblir. Ils perdirent courage. L’unité de commandement et l’unité d’action disparurent ; leurs pertes furent particulièrement lourdes. Finalement, vers 2 heures de l’après-midi, les soldats se replièrent sur la défensive avec le goût de la défaite. Cependant la situation des sertanejos avait empiré, ils se trouvaient coincés dans un réduit des plus minuscules.

Mais à l’aube du 2 octobre, les « triomphateurs » fatigués virent poindre le matin sous une fusillade nourrie qui ressemblait à un défi. Dans la journée, profitant d’une trêve, 300 personnes demandèrent à se rendre ; mais au grand dépit des autorités militaires, ce n’étaient que des femmes harassées, des enfants en bas âge ou blessés, des vieillards infirmes, tous ceux qui ne pouvaient plus porter une arme. Ils furent massacrés la nuit suivante («…et de quelle façon, n’ayant que la voix humaine si faible et si fragile, commenterions-nous ce fait singulier de ne plus avoir vu, dès le matin du 3, les prisonniers valides recueillis la veille. »).

Il n’y eut pas à proprement parler de prisonniers, tous les jagunços blessés qui tombaient entre les pattes des soldats étaient achevés un peu plus tard à l’arme blanche. «Le 3 et le 4, il ne se passa rien qui méritât d’être raconté. La lutte perdait de jour en jour son caractère militaire et finit par dégénérer entièrement… On savait seulement que la résistance des jagunços ne pourrait durer que quelques heures. Les soldats, s’étant approchés du dernier réduit fortifié, avaient compris la situation des adversaires. Elle était invraisemblable : à côté de la nouvelle église vingt rebelles affamés, déchirés, effrayants à voir, se tenaient dans un fossé quadrangulaire n’ayant pas beaucoup plus d’un mètre de profondeur… Ils concentraient ce qui leur restait de vie sur la dernière contraction des doigts manoeuvrant la gâchette du fusil. Ces moribonds combattaient contre une armée et, jusque là, avec un certain avantage.

guerra-de-canudos-flavio-de-barros6

Tout au moins, ils obligèrent leurs ennemis à s’arrêter. Ceux d’entre eux qui s’approchèrent de trop près, y restèrent, augmentant le nombre de corps dans la tranchée sinistre… Fermons ce livre. Canudos ne s’est pas rendu. Exemple unique dans toute l’histoire, il résista jusqu’à épuisement complet.

Conquis, pas à pas, dans l’exacte signification du terme, il tomba le 5 à la fin de l’après-midi, quand tombèrent ses derniers défenseurs quimoururent tous ; ils n’étaient plus que quatre : un vieillard, deux adultes et un enfant, devant lesquels rugissaient rageusement cinq mille soldats…

Canudos tomba le 5. Le 6, on finit de détruire le village en abattant ses dernières maisons : 5200 soigneusement comptées7. » La loi de la République règne à nouveau sur le sertao ; ainsi prit fin l’épopée héroïque de Canudos ; une aventure pleine d’humanité qui périt dans le bruit et la fureur. Canudos, l’empire de Belo-Monte, ne fut pas vaincu, disparu avec le dernier coup de feu et a été détruit.

Ala même époque, dans la province de Ceará, se développait un vaste mouvement de réforme sociale d’inspiration religieuse sous la houlette du père Cicero. Ce mouvement connut une fin moins tragique parce que le père Cicero sut louvoyer avec autorité parmi les composantes politiques de la région dans le respect de l’État et de la propriété ; cette compromission à l’égard du pouvoir et donc des riches lui assura non seulement l’impunité mais aussi une position reconnue et respectée par tous.

Père Cícero Romão Batista
Père Cícero Romão Batista

Cemouvement était plutôt d’esprit sacerdotal que d’esprit franchement messianique. C’était plutôt l’esprit du catholicisme, dans son sens politique et social, qui l’animait que celui du millénarisme qui, lui, est purement social et n’a rien à voir avec l’esprit politique. Il s’agissait de retrouver le dessein de l’Église primitive : se donner les moyens politiques d’une mission sociale. Le père Cicero dont le prestige devint exceptionnel fut le seul messie brésilien à appartenir au clergé, tous les autres étaient des laïcs amenés au service divin par vocation, mais qui n’entrèrent jamais dans les ordres. Envoyé comme curé dans le hameau de Joazeiro en 1870, il parcourut les alentours en prêchant pendant les premiers temps de son ministère. Après cette période de pauvreté toute franciscaine, il commença à animer l’activité sociale autour de Joazeiro selon l’idéal de paix où l’intérêt de tous devait prévaloir sur les intérêts particuliers sources de turbulences et de conflits. Il avait réussi à convaincre petits propriétaires et paysans à ne plus habiter sur leurs terres mais dans le village, auprès de lui : ils partaient le matin travailler sur leurs champs et revenaient le soir.

Joazeiro devint une ville où les pèlerins ne cessaient d’arriver pour demander la bénédiction du père Cicero et des conseils.

En 1889, à la proclamation de la République, le père Cicero réagit à sa manière en réalisant ses premiers miracles, ce qui conforta sa position et son prestige. L’État républicain n’osa pas déclencher les hostilités et supporta ce mouvement qui critiquait l’esprit bourgeois sans critiquer l’État. Les pèlerins devinrent de plus en plus nombreux, beaucoup s’établirent dans la ville sainte de Joazeiro où ils trouvaient protection auprès du « parrain ». L’Église s’en émut et essaya de mettre fin à des agissements qu’elle considérait comme dangereux. Elle condamna le père Cicero à ne plus dire la messe et à ne plus prêcher, mais elle ne peut le contraindre à abandonner Joazeiro ; elle eut peur qu’il ne mobilisât ses adeptes pour le défendre, ce qu’il fallait éviter à tout prix.

La ville de Joazeiro dans les années 1920
La ville de Joazeiro dans les années 1920 – http://oberronet.blogspot.com.br

Le père Cicero comptait des alliés parmi les chefs politiques locaux. Son prestige, son influence, la force électorale croissante dont il disposait, l’incitèrent à confirmer son autorité politique grandissante en se faisant élire préfet municipal. En 1914, la victoire de ses adversaires rendit les rapports entre lui et le gouvernement provincial critiques. Le « parrain» exhorta alors ses adeptes à la guerre sainte contre le gouvernement provincial qui représentait l’Antéchrist, Dieu voulait qu’il fût renversé pour que le bonheur parfait et sans ombrage pût s’installer sur terre. Ces incitations à la lutte eurent pour résultat l’envoi des troupes contre la Nouvelle Jérusalem. Mais à la différence du Conselheiro, le père Cicero avait des appuis politiques importants jusque dans la capitale du Brésil ; et puis, surtout, ce soulèvement était limité à des fins politiques, il n’avait pas pour ambition de bouleverser l’ordre établi. Les adeptes du prophète, avec des complicités fédérales, triomphèrent des forces engagées contre eux et assiégèrent la capitale provinciale dont le gouverneur s’enfuit. Le père Cicero, vainqueur, devint officiellement vice-gouverneur de l’État de Ceará.

Dans un monde perturbé par les guerres continuelles que se livraient entre-elles les grandes familles et dont les pauvres faisaient immanquablement les frais, le père Cicero put instaurer une société plus paisible, et améliorer ainsi la situation dramatique des plus démunis. Il a pu le faire parce qu’il parlait au nom de l’autorité la plus élevée, l’autorité divine. Il se plaçait, ainsi, au-dessus de la mêlée, en dehors des querelles locales, seul moyen pour être écouté de tous.

Atualmente existe um grandioso monumento a mémória do Padre Cicero na cidade de Joazeiro, no estado do Ceará
Il existe actuellement un grand monument à la mémoire du Père Cicéron dans la ville de Joazeiro, dans l’État de Ceará.

Dans unmonde de plus en plus dominé par les intér êts égoïstes, la religion, seule, pouvait unir, du moins en apparence, ce qui se trouvait séparé de fait. Dans les sermons du père Cicero, on trouve des remontrances contre « petits » et « grands » parce qu’ils ne vivent pas selon les lois divines de la charité, de l’entraide, du pardon des offenses. Il put ainsi mettre fin, du moins provisoirement, à l’hostilité entre familles, gommer les dissensions, renouer des alliances, être enfin l’arbitre des querelles, le maître incontestable et incontesté de la région, le « parrain ».

Son mouvement eut une fonction consciente de réforme sociale : les adeptes faisaient au messie des dons volontaires qui servaient à former une caisse commune pour subvenir aux besoins des invalides, des veuves, des orphelins, pour acheter des terres, pour financer des entreprises (Joazeiro, simple hameau en 1870, allait devenir, sous l’impulsion du prophète, la deuxième ville de la province avec 70 000 habitants) ; mais il eut aussi une fonction de sauvegarde du système existant ; l’idéal de fraternité et d’égalité fut strictement compris comme fraternité et égalité dans la foi et devant Dieu. Les cangaceiros se reconnaissaient autour d’une idée simple, la vengeance, dont la réalisation leur appartenait. Ils formaient une communauté guerrière dont le projet social (la vengeance est bien évidemment un projet social) était absolument négatif et, la plupart du temps, tout à fait personnel : chacun avait sa vengeance à satisfaire ; elle lui était propre et elle concernait une personne, ou plus généralement une famille, précise. Cette vengeance, il comptait lamener à bien s’il ne l’avait pas déjà assouvie.

Cangaceiro
Cangaceiro

Tout l’ordre établi s’opposait à cette vengeance, en la réalisant, le cangaceiro défiait la société toute entière.

Le cangaceiro ne critiquait pas la société dans laquelle il vivait mais il se vengeait et cela faisait de lui un rebelle. Le millénariste ne cherchait pas à se venger, ou, plus exactement, l’heure de la vengeance ne lui appartenait pas, elle devait venir de Dieu ou d’un être surnaturel comme le roi D. Sebastião, mais il critiquait la société. Ils devaient donc presque nécessairement se rencontrer comme ils se sont rencontrés effectivement à Canudos ; l’État se chargeant de faire d’une communauté spirituelle une communauté guerrière et d’un individu qui se venge, un bandit social.

L’affront que le cangaceiro doit laver est à la fois le fait d’une personne singulière et celui de la société qui se trouve derrière cette personne particulière et qui la soutient, qui est de connivence avec elle.

L’offense ne vient pas d’un individu isolé, d’un semblable, le règlement de ce genre d’affront ne posant pas de problèmes à cette époque, mais d’une autorité sociale ; c’est celle d’un « colonel » ou, ce qui revient au même, d’une personne de son entourage ; l’offense vient d’un fazendeiro qui est investi à la fois d’une autorité sociale comme grand propriétaire et d’une autorité politique comme représentant de l’État dans la région.

Dessin stylisé d'un groupe de Cangaceiros - Source - http://www.erepublik.com
Dessin stylisé d’un groupe de Cangaceiros – Source – http://www.erepublik.com

La vengeance du cangaceiro devient, de fait, une vengeance sociale. L’assouvir, ce n’est plus simplement devoir affronter un individu, mais c’est aussi devoir affronter l’État qui est derrière celui-ci.

Le cangaceiro se fait justice envers et contre l’État, qui est du côté de l’offenseur. Son droit inaliénable et universel en tant qu’individu libre entre en conflit avec le droit objectif de l’État quasi immédiate de toutes les forces conjuguées de l’ordre établi. Les sertanejos empoignèrent les armes, faux contre canons comme à Canudos, et résistèrent jusqu’à la mort. Tous furent massacrés après un combat acharné et farouche, mais par trop inégal. Depuis quelque temps déjà la loi de la République régnait sur le sertão.

1938 : Le mouvement du beato Lourenço s’achève dans un bain de sang ; ce sera le dernier mouvement messianique révolutionnaire ; le 28 juillet de la même année, Lampião est tué avec quelques compadres à Angico ; sa mort sera le coup de grâce donné au cangaceirismo ; la police a facilement raison des derniers petits groupes dispersés, indécis, sans protection ni complicité.

Le bandit le plus célèbre du Brésil, Virgulino Ferreira da Silva, le timide Lampião
Le bandit le plus célèbre du Brésil, Virgulino Ferreira da Silva, le timide Lampião

Le massacre est brutal.

Le cangaceiro fut le bandit social du nord-est et le cangaço sa bande. Le cangaceiro se venge d’une humiliation, d’une injustice, l’exaction d’un « colonel » ou de la police, le meurtre d’un parent. Il décide alors de s’exclure de la société et prend le maquis où il rejoint une bande déjà constituée.

Cette bande lui permettra de survivre par le vol organisé et d’échapper aux forces de police qui le pourchassent. Vengeur plus que redresseur de torts, le cangaceiro incarne la rébellion généralisée contre tout l’ordre social. Les bandes de cangaceiros qui, à la fin du XIXe siècle et au début du XXe siècle, parcouraient le Nordeste, côtoyaient les mouvements millénaristes. Nous trouvons chez les uns comme chez les autres le même mépris de la propriété et donc des lois, le même goût de la richesse, la même générosité, le même défi lancé à l’État et à ses sbires, la même résolution farouche, la même combativité, la même fureur. La frontière entre les deux est ténue sinon inexistante et le passage est aisé dans un sens comme dans l’autre. Nous avons vu des bandits fameux, séduits par les prophéties du Conselheiro, participer à la fondation de Canudos ou accourir pour la défendre, y apporter leur expérience et leur savoir-faire ; Lampiao eut une telle considération pour le mouvement du père Cicero qu’il évita toujours soigneusement la province de Ceara au cours de ses raids. C’étaient les mêmes hommes.

cangaco-19

«L’habitant du sertao, nous dit l’universitaire Euclydes da Cunha, a de bonne heure envisagé la vie par son côté tourmenté et compris qu’il était destiné à un combat sans trêve qui exigeait impérieusement la convergence de toutes ses énergies… toujours prêt pour un combat où il ne vaincra pas mais où il ne se laissera pas vaincre. » Je ne pense pas que la nature du Nordeste ait façonné le caractère indomptable de ces hommes ; mais c’étaient bien des hommes indomptables. Ils préféraient la mort à l’esclavage. Ils furent toujours prêts à défendre avec la plus grande vigueur, la plus grande témérité, leur liberté, une certaine idée qu’ils se faisaient de l’Homme, une certaine idée de la richesse. Ils eurent un monde contre eux ; de part et d’autre, ils étaient destinés à un combat sans trêve qui exigeait impérieusement la convergence de toutes leurs énergies, à une guerre où ils ne se laisseraient pas vaincre.

Millénaristes ou cangaceiros, ils avaient été bouviers, métayers, muletiers, ils avaient appartenu à cette partie de la société rurale continuellement menacée dans son existence et plus essentiellement dans sa liberté ; ils en étaient issus ; non seulement ils trouvaient au sein de cette société une réelle complicité mais aussi ils en représentaient les aspirations les plus profondes.

corisco_1

Finalement ce qui les différenciait se réduisait à peu de chose : les uns étaient porteurs d’un projet social positif mais d’essence religieuse quand les autres étaient porteurs d’un projet social purement négatif mais non religieux dans son essence.

Unis autour d’un prophète par la croyance à la venue imminente du Millénium, dans la même aspiration à une vie nouvelle, les millénaristes brésiliens formaient une communauté spirituelle qui s’organisait dans l’attente de l’événement final, qui s’y préparait. Cette communauté messianique n’avait pas l’ambition de réaliser elle-même le Millénium mais déjà elle rompait radicalement avec l’esprit du monde existant pour se reconnaître dans l’esprit d’un monde à venir. Elle contenait un projet social positif tout en restant essentiellement religieuse ; elle était la pensée d’une société non encore réalisée et dont la réalisation ne lui appartenait pas ; elle en était la prémonition. Les cangaceiros se reconnaissaient autour d’une idée simple, la vengeance, dont la réalisation leur appartenait. Ils formaient une communauté guerrière dont le projet social (la vengeance est bien évidemment un projet social) était absolument négatif et, la plupart du temps, tout à fait personnel : chacun avait sa vengeance à satisfaire ; elle lui était propre et elle concernait une personne, ou plus généralement une famille, précise. Cette vengeance, il comptait lamener à bien s’il ne l’avait pas déjà assouvie.

Tout l’ordre établi s’opposait à cette vengeance, en la réalisant, le cangaceiro défiait la société toute entière.

Le cangaceiro ne critiquait pas la société dans laquelle il vivait mais il se vengeait et cela faisait de lui un rebelle. Le millénariste ne cherchait pas à se venger, ou, plus exactement, l’heure de la vengeance ne lui appartenait pas, elle devait venir de Dieu ou d’un être surnaturel comme le roi D. Sebastião, mais il critiquait la société. Ils devaient donc presque nécessairement se rencontrer comme ils se sont rencontrés effectivement à Canudos ; l’État se chargeant de faire d’une communauté spirituelle une communauté guerrière et d’un individu qui se venge, un bandit social.

Un groupe de policiers qui ont chassé les cangaceiros dans le Nordeste brésilien. Ces groupes étaient connus comme "Volantes" - Source - http://diariodonordeste.globo.com
Un groupe de policiers qui ont chassé les cangaceiros dans le Nordeste brésilien. Ces groupes étaient connus comme “Volantes” – Source – http://diariodonordeste.globo.com

L’affront que le cangaceiro doit laver est à la fois le fait d’une personne singulière et celui de la société qui se trouve derrière cette personne particulière et qui la soutient, qui est de connivence avec elle.

L’offense ne vient pas d’un individu isolé, d’un semblable, le règlement de ce genre d’affront ne posant pas de problèmes à cette époque, mais d’une autorité sociale ; c’est celle d’un « colonel » ou, ce qui revient au même, d’une personne de son entourage ; l’offense vient d’un fazendeiro qui est investi à la fois d’une autorité sociale comme grand propriétaire et d’une autorité politique comme représentant de l’État dans la région.

La vengeance du cangaceiro devient, de fait, une vengeance sociale. L’assouvir, ce n’est plus simplement devoir affronter un individu, mais c’est aussi devoir affronter l’État qui est derrière celui-ci.

Le cangaceiro se fait justice envers et contre l’État, qui est du côté de l’offenseur. Son droit inaliénable et universel en tant qu’individu libre entre en conflit avec le droit objectif de l’État dont l’objet apparaît précisément dans l’affaire : contraindre l’individu à aliéner son droit universel et immédiat à la liberté. «Il suffit que le moi comme libre soit vivant dans mon corps, pour qu’il soit interdit de dégrader cette existence vivante au rang de bête de somme. Tant que je vis, mon âme (qui est concept et même liberté) et mon corps ne sont pas séparés ; celui-ci est l’existence de la liberté et c’est en lui que j’éprouve. C’est donc un entendement sans idée, sophistique, qui peut faire cette distinction selon laquelle la chose en soi, l’âme n’est pas atteinte ni l’idée quand le corps est maltraité et quand l’existence de la personne est soumise à la puissance d’un autre. »8

Lampião
Lampião

En se vengeant, le sertanejo réalise son idée qui veut que tous les hommes soient égaux en humanité ; il devient effectivement libre, pour lui et pour les autres. Ce passage de l’idée dans l’effectivité correspond, pour lui, au passage dans la clandestinité : il abandonne une existence civile abstraite, qui apparaît du coup pour ce qu’elle est réellement, une existence servile ; il devient cangaceiro. La liberté est un risque à courir. Subir un affront sans réagir, c’est se soumettre à la puissance d’un autre, tomber dans l’esclavage ; ce qui correspond à la mort sociale d’un homme à laquelle il ne peut répondre que par la mort du maître.

Quand il s’agit d’une réaction essentiellement humaine, les universitaires de notre temps, comme Josué de Castro, vont jusqu’à parler de carence alimentaire pour expliquer la révolte des cangaceiros ou des millénaristes, ils parlent de fuite quand ils affrontent l’État et un monde. C’est plutôt à leur égard qu’il conviendrait de parler de carence chronique de l’intelligence la plus élémentaire des pratiques humaines.9

Cette intelligence les sertanejos l’avaient qui se reconnaissaient dans les cangaceiros et les louaient comme des hommes courageux qui risquaient leur vie plutôt que de mourir esclaves.

C’est qu’ils pouvaient, eux aussi, d’un moment à l’autre, devoir prendre le maquis pour exactement les mêmes raisons. Ces hommes côtoyaient l’esclavage, leur existence d’hommes libres était sans cesse menacée de basculer dans la soumission, de tomber ou de retomber dans l’esclavage. Ils étaient sur le quivive et réagissaient vite.

Ici, nous voyons un cangaceiro mort et les hommes qui l'ont battu au combat
Ici, nous voyons un cangaceiro mort et les hommes qui l’ont battu au combat

Le cangaceiro démontre par tous ses actes que les pauvres, eux aussi, peuvent devenir terribles. Craint et admiré, héros cruel et bandit au grand coeur, il devient vite une figuremythique du sertão.

Il est difficile dans la geste des cangaceiros de faire la part entre la légende et la réalité : les témoignages, dépositions, poèmes,  récits, chroniques, s’ajoutent et se contredisent ; c’est que la réalité elle-même où se mêlent intérêts inavouables, trahison et complicité, exploits et fourberies, est non seulement complexe et contradictoire, mais déjà légendaire. Avec les cangaceiros, la réalité est traversée d’une idée, c’est le propre de l’épopée.

Au XIXe siècle, à partir de l’indépendance, le banditisme social prend de l’ampleur au Brésil pour atteindre son apogée à la proclamation de la République ; il prend alors les traits du cangaceirismo moderne qui culminera avec Lampião dans les années trente. Au début du siècle deux figures se détachent : Antonio Silvino et Sebastião (Sinhô) Pereira, chez qui Virgulino Ferreira, le futur Lampião, fera ses premières armes. La légende nous les présente comme particulièrement bons et généreux, dans le style des bandits sociaux à la Robin des bois. Antonio Silvino, capturé en 1914 et condamné à trente ans de prison, fut libéré après vingt ans. Sinhô Pereira se retira dans « la vie publique ».

Antônio Silvino
Antônio Silvino

Virgulino (Lampião) était né dans un petit village de la province de Pernambouc en 1897 où son père était à la fois métayer d’une petite terre et muletier. Un jour, un détachement de la police dont le commandant était lié à une famille ennemie massacra le vieux et la mère en l’absence des enfants.

Virgulino et ses frères brûlèrent leurs habits de deuil sur l’aire et firent le serment que désormais ils ne porteraient plus le deuil mais le fusil. Ils confièrent les soeurs au plus jeune d’entre-eux et prirent lemaquis. Mais c’était une situation trop précaire et incertaine, après quelques accrochages victorieux avec la police militaire ils devinrent membres du cangaço de Sinhô Pereira.

Un des premiers exploits de Lampiao fut le meurtre du « colonel » Gonzaga, sous-délégué de police à Belmonte, état de Pernambouc. L’homme fut tué avec tous les siens et même les chèvres et les poules furent massacrés sur l’aire. Pour finir, Lampião ôta son alliance au cadavre, se la passa au doigt et elle ne le quitta plus jusqu’à son dernier jour.

Reportage sur la mort du colonel Gonzaga - Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, Octobre 21, 1922
Reportage sur la mort du colonel Gonzaga – Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, Octobre 21, 1922

Quand en 1922, Sinhô Pereira se retira (cela se produisait quelquefois quand on pouvait compter sur la bénédiction complice du père Cicero), Virgulino devint le chef indiscuté de la bande.

S’il allait être le plus célèbre des cangaceiros, il allait être aussi le dernier. Lampiao écrivit le dernier chapitre d’une histoire. Son surnom, Lampiao (lampion, lanterne) lui serait venu d’un de ses premiers combats : au cours d’une embuscade nocturne, il tirait si vite qu’il illuminait la nuit. Pendant près de vingt ans, à travers tout le sertao, Lampiao allait se déplacer d’une province à l’autre sur une scène immense, apparaissant de façon imprévisible, brouillant ses traces, se tirant toujours à son avantage de ses rencontres avec la police. «Les civils, on les laisse tranquilles. Contre la police et les traîtres : FEU! »

Les coups se faisaient souvent par petits groupes commandés par les meilleurs hommes, mais le chef supervisait tout ; parfois toute la bande participait à de véritables expéditions guerrières.

Lampião étudiait les parcours, cherchait où l’argent était concentré, suivait les déplacements des « volants ». Il s’y prenait en bandit « moderne » et usait de la stratégie et de la tactique avec la plus grande habilité.

A partir de 1930, les femmes ont fait partie du groupe de cangaceiros
A partir de 1930, les femmes ont fait partie du groupe de cangaceiros

La bande restait cachée pendant de longues périodes en un lieu sûr, un bois, un massif inaccessible, une source dans le désert ou la fazenda d’un ami. Les hommes ne circulaient alors que par petits groupes pour se réapprovisionner en munitions, entreprise d’ailleurs fort difficile, pour porter des messages réclamant de l’argent et pour acheter de la nourriture et différents articles. Ils se déplaçaient dans un rayon limité, juste une douzaine d’hommes avec un guide si besoin était ; la virée durait tout au plus une semaine. Parfois si la situation était trop chaude, la bande disparaissait littéralement sans laisser de traces, répandant délibérément des rumeurs et des signes qui brouillaient toutes les pistes et rendaient fous policiers et rabatteurs.

Moyennant quoi, les cangaceiros prenaient du repos et se remettaient des fatigues de leurs dernières équipées, tout en se préparant, dans la bonne humeur, pour les prochaines10.

Les expéditions duraient plusieurs mois et pouvaient couvrir plusieurs provinces du Nordeste. Lampião rançonnait les riches propriétaires, les bourgs et parfois même les villes d’une certaine importance. Il se présentait avec sa bande, recevait l’argent collecté auprès des riches, commerçants ou propriétaires, de la main même des autorités locales ; quelquefois il visitait l’école pendant que les hommes étaient assis sur la place de l’église, puis tout se terminait en général par un banquet suivi d’un bal ; la fête s’inaugurait par l’absorption de larges rasades de cette eau-de-vie qu’on appelait « l’entêtée » ; des défis poétiques étaient lancés où s’affrontaient les meilleurs chanteurs, des rencontres se nouaient et se dénouaient… Dans la nuit, la troupe s’éloignait en chantant son histoire sur l’air de « Mulher Rendeira ».

Maria Bonita, la femme du bandit Lampião
Maria Bonita, la femme du bandit Lampião

«Ole, mulher rendeira

Ole, mulher renda

Tu me ensina a fazer renda,

Eu te ensino a namorar ! »

Parfois cela se passait très mal.

Lors de l’attaque d’Inharéma dans le Paraíba par exemple ; les cangaceiros ne réussirent pas à prendre le centre de la petite ville. Cette fois, fous de rage, ils se retirèrent en détruisant et en pillant, incendiant tout sur leur passage.

«De retour dans l’état de Pernambouc à la fin de 1925, Lampião occupa la ville de Custodia, mais cette fois le plus pacifiquement du monde. Les bandits passèrent leur journée à se promener dans les rues. Chacun paya pour ses achats. Tout autour de la localité veillaient les sentinelles. Lampiao rançonna quelques richards, acheta des vivres, des médicaments et des munitions. Il se fit faire un costume que le tailleur lui termina le jour même, comme promis, et qui fut payé en bonne et due forme. Il expédia un télégramme au gouverneur de l’État et lui en dit de toutes les couleurs, mais il ne paya pas sous prétexte que le télégraphe était un service “ public ”. Le détachement de police qui avait disparu à la première alerte, ne donna pas signe de vie. »

À Carnaíba de Flores, il cerna la ville et fit parvenir un billet menaçant : si on ne lui donnait pas la somme exigée, il mettrait le feu au village et massacrerait tout le monde ; la somme était considérable mais pas excessive, si bien que les notables entamèrent aussitôt une collecte. Mais soudain, une brigade « volante » assez fournie se présenta à l’improviste, et les cangaceiros alertés par leurs sentinelles décrochèrent prudemment.

La grande maison de la baronne Água Branca
La grande maison de la baronne Água Branca

Finalement la bande se présenta de nouveau sans crier gare, elle reprit le dialogue interrompu pendant quelques mois et obtint satisfaction. Un episode celebre et amplement commente, vu le rang de la victime, fut l’attaque contre la fazenda d’une richissime aristocrate, la baronne d’Água Branca. Le bandit ne toucha pas aux bijoux que la dame portait sur elle, mais il fit main basse sur le reste, broches, bagues, bracelets, colliers, pierres precieuses et objets en or, entre autres une longue chaine qu’il devait offrir plus tard a Maria Bonita sa compagne. Celle-ci la portera jusqu’a lamort avant qu’elle n’echoue dans la poche grande ouverte d’un soldat ou de quelque officier. Ainsi, invariablement, Lampiao suivait son chemin, devorant des kilometres et des kilometres de sertão.

En 1926, Lampião rencontra le pere Cicero dans la ville sainte de Joazeiro. Avec le titre de Capitaine, il y recut du gouvernement un armement moderne et des munitions. Il devait aller combattre la colonne Prestes (Luis Carlos Prestes deviendra plus tard secretaire general du Parti Communiste bresilien) qui s’etait formee a la suite du coup d’Etat manque d’officiers democrates et qui avait entrepris une longue marche a travers le Bresil. Lampiao accepta la benediction du pere, le titre de capitaine, les armes, mais se garda bien d’attaquer la colonne Prestes, ce n’etait pas son affaire.

1927 - Groupe Lampião après l'attaque de la ville de Mossoró
1927 – Groupe Lampião après l’attaque de la ville de Mossoró

En juin 1927, Lampiao mit le cap sur une ville importante, plus riche que les autres, Mossoró, dans l’etat de Rio Grande do Norte. Il fit savoir qu’il exigeait une grosse rancon. En guise de reponse le prefet lui envoya un paquet contenant une cartouche de fusil. Le ≪ capitaine ≫ se facha. Dans un village les cangaceiros jeterent a la rue les pieces d’etoffe d’un grossiste et les distribuerent aux pauvres. Dans d’autres, ils pulveriserent tout ce qui leur tombait sous la main. C’etait la technique de la terreur.

Enfin les cangaceiros, divises en quatre groupes, attaquerent la ville. Mais Mossoró et sa police les attendaient. Lampião avait sous-estime son adversaire et se trouva bel et bien en position de desavantage. Toujours realiste, Lampiao siffla la retraite et les 150 bandits se retirerent dans un ordre parfait. Les pertes etaient negligeables. Les cangaceiros firent cherement payer leur echec aux villes voisines. Les saccages se multiplierent.

Mais ils ne s’attarderent pas dans le Rio Grande do Norte ou le terrain leur était hostile (plaines étendues, pas de montagnes, de bois). Du reste, cette aventure avait quand même rapporté un gros butin. Lampiao inventa alors une maxime : «plus d’une église dans une ville, mieux vaut la laisser tranquille ».

Lampião à côté de la photographe libanaise Benjamin Abraão
Lampião à côté de la photographe libanaise Benjamin Abraão

Lors de son retour dans l’état de Pernambouc, eut lieu son plus violent combat contre la police : quatre vingt seize cangaceiros contre plus de deux cent cinquante macacos. Lampiao, sûr de ses chances, se lança avec fureur dans un combat qui selon toutes les apparences aurait dû lui être funeste. Les hommes furent divisés en trois groupes et l’affrontement se termina par la défaite des troupes de l’État qui, malgré leur mitrailleuse, abandonnèrent plus de vingt morts sur le terrain et emportèrent une trentaine de blessés. Du côté des cangaceiros les pertes furent dérisoires.

Parfois est entré dans la légende un fait identique à mille autres, mais un témoin l’a rapporté qui l’a vu, de ses yeux vu.On saute ainsi d’une année à l’autre, d’un état à l’autre, rappelant une aventure, un nom, une anecdote oumême un simple geste.

Terribles et magnifiques avec leurs chapeaux de cuir en forme de croissant ornés d’une profusion de médailles, monnaies d’or ou d’argent, boutons de col, bijoux, bagues, dans un luxe barbare et prestigieux.

2006_1026lampiao0045

La bandoulière du fusil aussi foisonnait d’une infinité de boutons et de médailles. Pistolets et revolvers avaient des étuis de cuir travaillé et décoré, comme les ceintures. Leurs besaces elles-mêmes étaient richement brodées. Dans sa gaine ouvragée était glissé l’inévitable poignard effilé, de soixante cinq à soixante quinze centimètres, attribut du vrai cangaceiro.

Ils étaient l’incarnation du guerrier mythique, du Vengeur.

Ils survenaient. Ils surgissaient du désert là où on ne les attendait plus pour disparaître comme par enchantement dans l’étendue infinie du sertao. Ils ouvraient la porte des prisons, et le coffre des riches, dans les bourgs qu’ils traversaient. Ils semblaient avoir le don d’ubiquité. Omniprésents, ils échappaient comme par magie aux forces de police, le corps fermé aux balles, à la mort et au malheur.

«Il prend aux riches pour donner aux pauvres » dit-on du cangaceiro. En fait, les cangaceiros vivaient luxueusement : toujours sur le pied de guerre, mais dépensant le fruit de leur rapine en fêtes, en habits richement ornés, en mille largesses qu’ils dispersaient autour d’eux. Dans leur comportement envers les richesses, ils étaient exactement à l’opposé des gros propriétaires locaux : la richesse que ceux-ci avaient amassée entre leurs mains, les cangaceiros la dispersaient à nouveau.

Le cangaceiro Jararaca arrêtés après l'attaque de la ville de Mossoro dans l'état de Rio Grande do Norte
Le cangaceiro Jararaca arrêtés après l’attaque de la ville de Mossoro dans l’état de Rio Grande do Norte

Les latifundiaires ne pouvaient concevoir la richesse que comme bien privé, qui excluait les autres et faisait leur misère ; les cangaceiros, en dépensant ce qu’ils avaient pris, associaient tout le monde à ce luxe.

Alors que dans le « système féodal » ancien le pouvoir venait de la conquête, il allait désormais se fonder de plus en plus sur l’argent. Les cangaceiros, c’est le pouvoir qui dédaigne l’argent ; ils se faisaient un point d’honneur de dépenser leur fric en achats payés sans marchander, en banquets et en dons.

Alors que l’État garantissait le pouvoir des « colonels », le droit à la propriété, en fait, le droit d’exploiter le travail d’autrui, les angaceiros semblaient renouer avec la tradition des bandeirantes dont les grandes caravanes guerrières, infatigables, se suivaient à la conquête du Nordeste : «Loin du littoral où l’on trouvait la décadence de la métropole, ces bandeirantes, tirant profit des territoires extrêmes de Pernambuco à l’Amazone, semblaient être d’une autre race à cause de leur intrépidité téméraire et de leur résistance au revers. »11

Lampião-e-maria-bonita

Quand le « prestige » du fazendeiro n’était plus fondé que sur l’exploitation, le cangaceiro renouait avec l’esprit de conquête. L’argent qu’il dispensait avec largesse, il l’avait gagné en risquant sa vie, en dépouillant les riches et les puissants détestés mais redoutés de tous. Dans les années trente, l’État sentit la nécessité de renforcer son contrôle sur tout le Nordeste et de pacifier entièrement cette vaste région éloignée du pouvoir central : réorganisation de la police, établissement de postes de contrôle, utilisation de la radio et du téléphone, introduction d’un armement plus efficace, développement des routes et desmoyens de transport ; un vaste dispositif se mit en place pour liquider le banditisme.

La répression s’intensifiait.

De fait pendant les dernières années, Lampião resta planqué la plupart du temps ; les rangs s’étaient resserrés, les munitions de plus en plus chères et presque introuvables.

Vers la fin ils n’étaient plus que cinquante cinq hommes et, s’ils faisaient encore quelques opérations, c’était presque toujours par groupes. Ce fut une trahison qui causa expressément la perte de Lampião.

Le 28 juillet 1938, il fut empoisonné à Angico dans l’état de Sergipe, avec quelques-uns de ses hommes et sa compagne Maria Bonita. La vengeance de Corisco, son « compadre » fut terrible, il massacra toute la famille du traître qui, lui, s’était engagé illico dans la police militaire.L’histoire de Corisco fut celle de tous ses compagnons : vendetta, fuite. Il s’enrôla dans l’armée puis déserta. Encore victime des injustices et des abus, il fut de plus humilié jusqu’à être piétiné par un délégué de police.

En 1938, peu de temps après la mort de Lampião, Maria Bonita et d'autres camarades, leurs têtes ont été coupées et exposées de la ville de Piranhas dans l'état d'Alagoas
En 1938, peu de temps après la mort de Lampião, Maria Bonita et d’autres camarades, leurs têtes ont été coupées et exposées de la ville de Piranhas dans l’état d’Alagoas

Il entra dans le cangaço. Il devint rapidement le meilleur cangaceiro après Lampiao. Il réussit à retrouver le délégué qui l’avait humilié, il prit l’homme par les pieds, le transperça et le taillada avec son poignard, le saignant lentement comme un porc. Après la mort de Lampiao, Corisco continua à battre la campagne avec ses hommes pendant près de deux ans. En mars 1940, encerclé avec Dada, sa femme, dans un petit village de la caatinga de Bahia par les macacos (ils avaient même une mitrailleuse), il refusa de se rendre.

Le chef des cangaceiro Corisco
Le chef des cangaceiro Corisco

Il mourut quelques heures plus tard. Ce fut la fin. Le cangaceiro porte en lui le témoignage qu’il est possible de secouer le joug de l’oppression ; que celle-ci n’est pas invincible ni éternelle. Le châtiment peut toujours tomber, inattendu, sur les épaules des riches et des puissants. Le cangaceiro remet alors les choses à l’endroit. Il prouve aussi que la lutte est sans merci et que la liberté doit se conquérir. Le cangaceiro, c’est l’énergie tendue vers une forme de vie nouvelle. Finalement, le cangaceiro, c’est la révolution.

Cette épopée fut chantée dans les foires et les fêtes où s’improvisaient des poèmes comme celui qui raconte l’arrivée de Lampiao en Enfer :

«Il y eut grand préjudice

En Enfer, en ce jour.

On brûla tout l’argent

Que possédait Satan.

On brûla le registre de contrôle

Et plus de six cent mille cruzeiros

Seulement en marchandises. »

À partir de 1940, les territoires du Nordeste sont totalement pacifiés ; l’ordre s’y maintient par la terreur ; le Nordeste est sous occupation armée s’il n’est pas encore sous occupation idéologique ; il n’en fut pas toujours ainsi.

Cette omniprésence de l’État signifie le sommeil de l’Esprit, un vrai cauchemar pour les pauvres ; elle interdit tout débat sur le monde ; la pensée de l’État est hors de toute critique, le mondeest devenu une fatalité. Les mouvements messianiques brésiliens se sont développés à un moment où le débat était encore possible. Pendant près d’un siècle, les pauvres ont débattu du monde dans cette région lointaine.

La dimension historique ou la dimension humaine est absente soit de l’interprétation de Vittorio Lanternari12 qui y voit une réaction du peuple opprimé qui «tente d’échapper à une situation étouffante qui tient assujettie toute la société», soit de celle de Pereira de Queiroz qui y décèle au contraire une aspiration à l’ordre dans une société où «règne une trop grande liberté qui dégénère en licence. » Les conditions historiques qui ont présidé au développement de ces mouvements sont comparables à celles que nous avons rencontrées à la fin du Moyen-Âge en Occident : une organisation sociale devenue archaïque se décompose alors que s’instaure progressivement un ordre nouveau. Le monde débat du monde: esprit marchand contre esprit féodal ; les pauvres à leur manière participent au débat qui ne veulent ni de l’un ni de l’autre et surtout pas de l’esprit marchand, du monde qui advient.13

Pour eux il ne s’agit pas de faire un choix entre le passé et l’avenir, ils ne sont pas, comme les sociologues ou les historiens, payés par l’État ; il s’agit beaucoup plus simplement de refuser farouchement l’esprit bourgeois ; non parce que celuici dérange leurs habitudes mais parce qu’il s’oppose en tout point à l’idée qu’ils se font d’une société humaine. Voilà bien une excellente raison ! Ils luttent effectivement contre le progrès, le progrès dans le monde de la pensée capitaliste.

C’est bien un débat d’idées, qu’ils engagent ainsi pratiquement, entre leur projet social et le projet social du capital ; entre l’idée qu’ils ont d’une pratique sociale humaine et l’argent comme pratique sociale.

Les mouvements millénaristes de l’époque médiévale se trouvaient au coeur d’une mutation historique, de la société féodale à la société marchande. Cette mutation est accomplie presque partout dans le monde quand apparaissent les mouvements brésiliens ; ceux-ci se trouvent comme à la périphérie historique de cette mutation. Cette situation explique leur caractère purement messianique : ils sont dans l’attente d’un bouleversement cosmique, l’heure de la vengeance de Dieu allait venir d’un moment à l’autre ; alors que pour les millénaristes médiévaux les plus radicaux, l’heure était venue d’accomplir ce bouleversement ; ils participaient activement, avec l’aide de Dieu, à la réalisation terrestre du Millénium quand les mouvements messianiques brésiliens ne pouvaient que s’y préparer.

Les insurrections millénaristes de l’Europe médiévale eurent à s’affronter aussitôt au principe ancien et au principe nouveau. Elles furent immédiatement critiques vis-à-vis de l’Église et vis-à-vis de l’Argent ; c’est que l’Église y avait une tradition historique et l’Argent une nouveauté historique. La société du Nordeste était d’essence religieuse mais l’Église y était peu implantée, quant à la bourgeoisie, elle y était inexistante. Les pauvres ne vont pas entrer directement en conflit avec l’Église ou avec les marchands, ils vont s’insurger contre un état d’esprit qui s’insinue dans la société, transforme les mentalités. Quand le conflit éclatera, ce sera tout de suite avec l’État.

Les mouvements messianiques se sont développés dans une région qui ne connaissait pas encore les conditions modernes d’exploitation ; cette région aride, souvent désertique, n’intéressait pas les grands marchands ni les industriels ; le salariat y était pratiquement inconnu.Mais cette zone était cernée par le monde moderne, par l’esprit moderne : au Sud, le point de vue capitaliste s’était imposé depuis la fin du siècle dernier avec les grandes plantations de café ; cette monoculture tournée uniquement vers l’exportation, totalement dépendante des lois de la concurrence, du marché international et des spéculations boursières, exigeait une organisation toute moderne du travail, une discipline industrielle. Elle était en soi ce contrôle social, elle en était l’esprit puisqu’elle créait pratiquement les conditions d’une dépendance absolue à l’argent. À l’est, le littoral avait été dès le début engagé dans un échangemarchand avec la métropole ; depuis quelque temps, il se trouvait pris dans un processus de modernisation de cette activité. Les senhores de engenho, les patrons des sucreries rudimentaires, ne pouvaient plus soutenir la concurrence étrangère ; l’esclavage lui-même revenait trop cher, il fut aboli par la République, on lui substitua une exploitation plus rationnelle : le travail salarié, quimettait directement le travailleur sous la dépendance de l’argent.

Avec l’aide de capitaux étrangers de nouvelles fabriques furent installées, ce qui entraîna une demande accrue de canne à sucre ; les patrons se lancèrent dans l’achat de terres : une fringale dévorante, pas question d’engrais pourvu qu’on plante toujours plus avant ; et là où on ne peut pas planter, on élève du bétail.

C’est ainsi que l’esprit capitaliste pénétra peu à peu dans le sertão, ouleversant en profondeur les rapports coutumiers. Il s’agissait de faire de l’argent et le plus vite possible. En outre les conditions d’exploitation devenant draconiennes, beaucoup de gens se retrouvèrent sans terre et sans travail, dans une misère la plus noire et la plus désespérée ; en masse ils fuirent la côte où il leur était impossible de survivre pour s’enfoncer à l’intérieur.

Cette population désorientée, qui n’était pas intégrée au système traditionnel en vigueur, alla grossir les rangs de ceux qui suivaient les prophètes millénaristes. Enfin les échanges entre l’intérieur et le littoral (cuir pour les harnais ou qui servait à emballer les rouleaux de tabac, boeufs pour les moulins à sucre et les plantations) qui équilibraient la vie sociale dans le sertão, allaient se trouver brutalement compromis par l’industrialisation capitaliste. Cette rupture dans les échanges allait avoir des conséquences tragiques pour les petits paysans, bouviers et métayers et allait remettre en question le rapport qui liait le vacher ou le métayer au propriétaire de la terre. Tout ceci se reflétait dans les querelles locales et les envenimait. C’est dans ce processus qu’il faut comprendre la genèse des mouvements millénaristes : ils se sont développés dans une région de relative liberté où ni l’État, ni l’Église n’étaient omniprésents mais qui subit, à son corps défendant, les contrecoups de l’offensive capitaliste. Peu à peu, des rapports indifférents, impersonnels, des rapports d’argent, vont se substituer aux rapports traditionnels de type « clientèle ». À partir de ce moment, la trahison est dans l’air : au respect de la parole donnée, va se substituer l’argent qui ne respecte aucune parole. L’appât du gain leur enlevant toute dignité, les gros propriétaires vont trahir allègrement les droits coutumiers et s’appliquer à rendre l’existence des pauvres abominable. Il y avait quelque chose de pourri dans le sertão.

Autrefois, éleveurs, propriétaires, bouviers et métayers menaient en général la même vie rude. La famille constituait la cellule de base de cette société, non pas la famille conjugale mais une grande famille, une « famille étendue » : la parentele était formée d’une famille noyau (frères, cousins, filleuls) et de sa clientèle (branches bâtardes,métayers, anciens esclaves). Ces lignées avaient toujours un chef à l’intérieur du groupe familial, tous ceux qui avaient la même position prééminente recevaient la dénomination de colonel, mais il y avait un «colonel des colonels ».

Il existait un contrat tacite d’échange de service qui assurait la cohésion du groupe et renforçait la position du colonel ; celuici se devait d’aider ses parents et ses hommes liges : cession de terres, respect des contrats de métayage (le bouvier avait une part du troupeau comme le métayer avait une part de la récolte, celle-ci était fixée par la coutume), prêts, garantie de défense judiciaire…, ce qui entraînait une obligation morale qui attachait l’intéressé au service du colonel. Les rétributions en argent étaient rares sinon inexistantes.

Le pouvoir politique fut toujours le grand enjeu des luttes opposant les clans les uns aux autres à l’intérieur du Brésil. Le colonel était né pour commander, il avait hérité de la terre et c’était d’elle qu’il détenait son pouvoir, l’État ne faisait que le confirmer en lui apportant sa garantie, sa caution juridique. Le colonel était décidé à défendre jalousement sa position sociale. Il jouissait d’une impunité absolue. On disait que l’activité d’un colonel qui se respectait était prévue à toutes les pages du code pénal. Il protégeait et maintenait son pouvoir et son prestige en entretenant de véritables bandes d’hommes armés, dans lesquelles s’enrôlaient, dans les périodes de conflits entre grandes familles, tous les hommes relevant de sa juridiction. Il représentait la véritable autorité de la région.

Aucune limite sinon le respect de la parole, la tradition, n’était imposée au colonel : tous étaient à la merci de son arbitraire. La convoitise allait faire de lui un homme redoutable. La trahison représentait donc le danger immédiat : tout risquait de basculer alors dans l’arbitraire le plus total, d’où cette susceptibilité à fleur de peau qui, à la moindre alerte, déclenchait des conflits en chaîne à l’intérieur des clans et entre les clans (inutile de dire qu’aujourd’hui l’arbitraire est total et garanti).

Millénaristes et cangaceiros ont surgi dans une société où les rapports étaient encore personnels, où la solidarité jouait encore, mais où existait une inquiétude latente due à la désagrégation progressive de ces rapports. Ils ont pris naissance dans une société désagrégée, minée peu à peu par l’esprit capitaliste, qui rendait caducs les rapports traditionnels. Cet esprit allait durcir la société, exacerber les susceptibilités, exciter les appétits.

Les gros propriétaires allaient se livrer à une impitoyable concurrence aboutissant à l’élimination des plus faibles et à l’accroissement de la puissance des plus forts.

Les messies brésiliens ne condamnaient pas, en général, l’organisation ancienne, mais l’âpreté au gain que manifestaient de plus en plus les colonels et qui entraînait l’oubli de leurs obligations. Bouviers et métayers en subissaient de plein fouet les conséquences ; cette dégénérescence des rapports, ils pouvaient en situer historiquement le début, ils pouvaient comparer ce nouvel état de chose avec un passé pas très lointain.

Les mouvements messianiques exprimaient le désir de réorganiser la société dans le sens de la solidarité au moment où tout sentiment de solidarité tendait à disparaître.

Deux directions étaient envisageables : ou renouer avec la tradition et la  renforcer d’un principe supérieur, l’autorité divine, le parrainage de Dieu, ce que fit le mouvement du père Cicero ; ou dépasser l’organisation ancienne, qui se révélait incapable de résister à l’esprit capitaliste et à l’exacerbation des égoïsmes, pour retrouver le sens de la communauté originelle.

Ils ont eu recours à la religion, comme esprit objectif de la communauté, pour sceller le pacte d’alliance. Le rituel catholique consacrait, selon l’esprit, les liens qui les unissaient. Ces rites étaient l’affirmation solennelle du rejet du vieux monde devenu profane et l’entrée dans un monde nouveau qui, lui, présentait seul maintenant un caractère sacré.

«Une fois la Ville Sainte fondée, lesmessies tentaient de l’identifier le plus possible avec les Lieux Saints. Dans le Nordeste, surtout, le paysage aride se prêtait à des rapprochements surprenants avec celui de la Judée, tel qu’on pouvait le voir reproduit sur les grossières images religieuses en vente dans les foires du sertao. Père Cicero, très habile, avait baptisé de dénominations prises dans l’Évangile les accidents de terrain autour de Joazeiro : le Mont des Oliviers, le Jardin du Saint Sépulcre, le Calvaire. Agrémentés de petites chapelles et de multiples croix, ils attiraient les pèlerins curieux et émus, et constituaient une nouvelle preuve de la sainteté des lieux. »14 Ce ne furent pas des mouvements hérétiques à proprement parler bien que l’Église les condamnât. Ils ne critiquèrent pas les sacrements comme le firent en leur temps les disciples d’Amaury de Bêne, les Taborites, ou les anabaptistes de Munster.

Ils se contentèrent d’opposer le vrai catholicisme qui était le leur au catholicisme dévoyé des prêtres.

Si le sentiment religieux était profondément enraciné dans la société, l’Église n’était pas cette citadelle de la pensée qu’elle fut à l’époque médiévale, et les efforts des quelques curés de campagne pour combattre les traditions populaires étaient dérisoires. Ils ne faisaient que renforcer chez les paysans le sentiment que seuls leurs beatos, leursmessies, connaissaient le vrai catholicisme. Il était d’ailleurs rare de voir les prêtres qui, par hasard, vivaient dans ces régions reculées, correspondre à l’idéal que se faisaient les pauvres de la vie chrétienne. Les sertanejos leur reprochaient surtout de vendre les différents rites ; ils en gardaient un vif ressentiment à l’égard du clergé officiel accusé de trahir sa fonction dans son aspect le plus sacré. Les prêches des messies reflétaient ces opinions ; Severino, un des apôtres de Lourenço, proclamait : «La parole de Dieu n’est pas à vendre, à aucun prix ; la parole de Dieu est gratuite. »Les prophètes brésiliens ont toujours puisé leur inspiration dans le catholicisme populaire, dans les légendes de la péninsule ibérique : leur façon de vivre correspondait parfaitement à l’idée que se faisaient les paysans des saints catholiques : c’étaient des pèlerins, vivant d’aumônes, distribuant aux pauvres les dons qu’ils recevaient. Ce catholicisme nourri de légendes, de mystères, de superstitions, de familiarité et de mysticisme, était d’essence millénariste. «Le temps paraît s’être immobilisé chez la population rustique du sertao. Ayant évité le mouvement général de l’évolution humaine, elle respire encore l’atmosphère morale des illuminés… »15 Ils attendaient la vengeance de Dieu, mais cette attente était dynamique, elle invitait les pauvres à s’organiser en vue d’actions concrètes comme l’occupation des terres, et à défendre énergiquement leurs conquêtes. C’était une attente qui, loin de contrarier l’activité sociale, l’incitait. Canudos était la Tabor du sertao où régnait une intense activité. Les millénaristes étaient animés d’un enthousiasme que rien ne pouvait briser. Ils ne s’isolaient pas et ils n’étaient pas isolés, ils n’avaient pas le sentiment d’être des élus, c’étaient des sertanejos, des jagunços ; simplement l’esprit de leur activité avait changé.

Cet esprit qui inspirait les disciples de Lourenço, par exemple, était le même que celui qui avait inspiré, deux à trois siècles auparavant, la colonie des Bêcheux de la colline Saint-Georges de Londres : «Celui qui travaille pour un autre soit à gages, soit pour payer redevance, n’accomplit pas un juste travail ; mais celui qui est résolu à travailler et à manger avec tous les autres, faisant ainsi de la terre un commun trésor, celui-là donne la main au Christ pour libérer la création de la servitude et laver toute chose de la malédiction originelle.» (Winstanley) À l’instar du pasteur Lee de l’Angleterre de 1650 («Une haie dans un champ est aussi nécessaire à sa façon que l’autorité dans l’Église ou l’État. »), l’État brésilien ne s’y trompa pas : cette occupation des terres, même à une fin religieuse, constituait en soi un défi à l’autorité. L’intention des millénaristes brésiliens n’était pas d’entrer en guerre ouverte contre l’État, ils attendaient que s’accomplît la vengeance divine mais, en attendant, ils le défiaient.

Pour eux, cependant, cette organisation collective du travail, cette activité commune, n’était pas la richesse. L’esprit de cette expérience était, sans doute, riche, mais cette expérience ne trouvait pas sa richesse en elle-même ; elle était son au-delà.

La richesse que promettaient les messies à leurs fidèles, cette promesse revenait toujours comme un leitmotiv dans leurs prêches, ne pouvait en aucun cas se confondre avec la prospérité et le bien-être, ni surtout, et c’est là l’essentiel, se réduire à une activité commune restreinte, aussi humaine fût-elle;

elle devait être l’aboutissement de toute l’activité sociale ; le moment de la dépense infinie, de la fête, et cet instant espéré était celui de son universalité.

Un monde s’opposait à sa réalisation.

GEORGES LAPIERRE

 GLOSSAIRE

–Bandeirantes : pionniers portugais de l’époque

coloniale.

–Beato : bienheureux, laïc voué au service de Dieu

(il reçoit le nom de « moine » plus au Sud).

–Caatinga : vaste étendue de broussailles

enchevêtrées difficilement pénétrables.

–Cangaceiro : bandit d’honneur, son nom

viendrait du fait qu’il portait son fusil sur les deux

épaules à la manière d’un joug (canga : joug).

Le cangaço est sa bande.

–Capanga : tueur à gage.

–Colonel : nom donné au Brésil aux chefs politiques

locaux. Pendant l’époque coloniale et l’Empire,

la Garde Nationale remplaçait l’armée ; les

planteurs puissants y achetaient des grades élevés ;

l’appellation de « colonel » s’est étendue petit à

petit à tous les individus puissants, indépendamment

de leur appartenance à la Garde

Nationale.

–Fazendeiro : propriétaire éleveur, la fazenda est

un domaine souvent considérable.

–Jagunço : bouvier, le gaucho du Nordeste.

–Quilombola : esclave noir insurgé ; à Palmarès ils

furent 30 000 à tenir tête à l’armée.

–Sertao : (serton) vaste région semi-désertique du

nord-est du Brésil

–Sertanejo : habitant du sertao.

CHRONOLOGIE

1500 – Le portugais Pedro Alvares Cabrai

“découvre” le Brésil.

1530 – Avancée de la colonisation vers les terres

de l’intérieur.

1550 – Début de la traite des esclaves.

1716 – La colonie devient une vice-royauté.

1817 – Début du mouvement messianique de

Sylvestre José dos Santos.

1822 – Déclaration de l’indépendance.

Proclamation de l’Empire.

1835 –Mouvement messianique de Joao Ferreira.

1871 – Vote de la loi dite « du ventre libre »,

acheminement vers l’abolition de l’esclavage.

Périgrinations du «Conselheiro » dans l’état de

Bahia, du père Cicero dans le Ceara.

Les groupes de cangaceiros se multiplient.

1888 –Abolition de l’esclavage dans tout le pays.

1889 – Proclamation de la République.

Le père Cicero accomplit ses premiers miracles.

Le Conselheiro prêche l’insurrection contre la

République.

1896 /97 – Campagne de Canudos contre Antonio

Conselheiro. Le cangaceiro Antonio Silvino

commence à s’affirmer.

1913 – Mouvement séditieux du père Cicero

contre le gouvernement fédéral.

1914 – Arrestation du chef cangaceiro Antonio

Silvino.

1920 – Lampião entre dans le cangaço de Sinhô

Pereira.

1922 – Lampiao est proclamé chef de bande.

1926 –Entrevue de Lampiao avec le père Cicero.

1930 – Présidence de Getûlio Vargas.

1934 – Mort du père Cicero. Naissance du

mouvement messianique de Lourenço.

1937 – Dictature de Getûlio Vargas.

1938 – Piège d’Angico et mort de Lampiao.

Le mouvement de Lourenço est massacré.

1940 – Corisco meurt, avec lui disparaît le

cangaceirismo.

 

RÉFÉRENCES

 

1– Pereira de Queiroz : Réforme et Révolution dans les Sociétés

traditionnelles.

2–Euclydes da Cunha : Os Sertoes,

traduction française : Les terres de Canudos (1947)

3–Cahiers trouvés à Canudos.

4–Poèmes retrouvés à Canudos, écrits sur de petits morceaux de papier.

5–D. Sebastiao : Roi du Portugal (1557-1578) ; il meurt au cours d’une

expédition contre lesMaures. Le peuple ne voulut pas croire à sa mort ;

il devint une figure légendaire et messianique comparable à celle de

l’Empereur des derniers jours : il reviendrait de l’île des Brumes et organiserait

une armée pour libérer Jérusalem. Nous retrouvons cette légende

portugaise de la fin du XVIè siècle encore très populaire au

Brésil ; elle fut au coeur de deux mouvements messianiques d’importance

qui eurent lieu dans la province de Pernambuco en 1817 et en

1835 : celui de Sylvestre José dos Santos et celui de Joao Ferreira.

6–Il s’agit bien évidemment de Canudos.

Euclydes da Cunha : Os Sertoes, l’auteur fait un récit très détaillé des

différentes expéditions militaires menées contre Canudos, il fut présent

au cours de la dernière ; nous nous inspirerons de son témoignage et

nous le citerons souvent.

7–Le livre d’Euclydes da Cunha se termine par une calomnie bien dans

le ton de l’époque : «On apporta le crâne (du Conselheiro) sur le littoral,

où la foule fêtait la victoire, dans une joie délirante. La science devait

dire le dernier mot : dans le relief des circonvolutions

caractéristiques du cerveau, il y avait les lignes essentielles du crime

et de la folie. »

8–Hegel : Principes de la Philosophie du Droit.

9–Josué de Castro: Une Zone explosive, Le nord-est du Brésil.

10 – Cangaceiros : Ballade Tragique

texte : Mario Fiorani, illustration : Jô Oliveira

11– Euclydes da Cunha : Les Terres de Canudos.

12–Vittorio Lanternari : Les Mouvements Religieux des Peuples

opprimés.

13– Pereira de Queiroz : Réforme et Révolution dans les Sociétés

traditionnelles.

14– Pereira de Queiroz

15– Euclydes da Cunha

A HISTÓRIA DA AVIAÇÃO NO RIO GRANDE DO NORTE – CONTADA POR TARCÍSIO MEDEIROS

Mapa mostrando a proximidade da região Nordeste do Brasil com a África e a Europa – Fonte – Coleção do autor

A situação geográfica do Rio Grande do Norte no saliente Sul-americano ficou mais em evidência perante o mundo no período de 1922-1937, em decorrência do desenvolvimento aviatório ocorrido logo após o término da 1ª Grande Guerra. De 1920, sobretudo, á busca de pontos estratégicos para encurtar distâncias entre os Continentes, em razão da precária estrutura e potência dos motores dos aviões de então, constituía a preocupação dos países líderes na exploração das rotas aéreas comerciais.

Antiga nau portuguesa – Fonte – Coleção do autor

O litoral do Estado, que fora ponto de convergência das naus do movimento de expansão marítima do passado, vai ser o ponto de reunião das novas naus do espaço para o salto sobre o atlântico Sul, meta de todos os grandes vôos entre Europa, África e América.

E que inexplicável coincidência do destino! A terra de Augusto Severo, pioneiro da aviação, marcaria, mais uma vez, a sua presença no momento consagrador de sua evolução, testemunhando rasgos de audácia, coragem, sacrifícios, fracassos, daqueles que buscavam a glória em luta com o tempo. Os fenômenos meteorológicos e os das correntes marítimas existentes no corredor Atlântico entre Natal e Dakar foram descritos desde o ano de 1860 por Robert-Avé-Lallemant como perigosos na área do litoral potiguar, provocadores de situações difíceis e capazes de atrair as suas costas embarcações desconhecedoras dessas particularidades.

O médico e explorador alemão Robert Christian Barthold Avé-Lallemant – Fonte – http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Christian_Av%C3%A9-Lallemant

Também do outro lado, a começar do Cabo Bojador para o sul, abrangendo o cotovelo africano, existe o chamado “Mar da Escuridão” dos antigos navegantes. Paul Herrman (A Conquista do Mundo) descreve a região como consequência da água do mar que, lançada sobre recifes e bancos de areia por quilômetros de oceano, de forma violenta, agitada pelos ventos, provoca uma cortina de vapor que escurece tudo, até grande altitude. A região, por tal, passou a ser conhecida como “Pot-au-Noir” para qualquer espécie de navegação, sobretudo aérea ao tempo das primeiras travessias, quando os aviões não tinham condições para atravessá-la. Aí seria o túmulo de muitos aviadores e o de Mermoz, em 1936. Esse obstáculo originou a que as tentativas iniciais do vôo transatlântico partissem da costa africana em demanda de Natal, porque em sentido contrário os ventos soprando, ainda, rijos contra o nariz do avião, consumindo, pelo esforço, mais combustível, complicava a conclusão do “raid”.

Natal, uma cidade que cresceu sobre asas – Fonte – Coleção do autor

Por isso, Natal acolheu muitos desses aviadores vindos da África, ou em vôos percorrendo as Américas. Poucos ficaram para o retorno, apenas franceses e alemães em competição para exploração do correio aéreo internacional. Os franceses, inicialmente, mantiveram o serviço percorrendo o caminho de volta por meio do “Aviso Postal”, pequeno navio rápido, tripulado por senegaleses brancos e negros, até Mermoz conseguir realizar a façanha direta com o “Arc-em-Ciel”. Os alemães da Syndikat kondor, reabastecendo os seus aviões no meio do Atlântico com o navio catapulta “Deustchland”, depois o “Westfalen”, finalmente com o dirigível “Graf Zepellin” e os aviões da Lufhansa “Dornier-Wal”, dois motores, de 1.500HP, também, diretamente.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral partindo de Lisboa em direção ao Brasil Natal, uma cidade que cresceu sobre asas – Fonte – Coleção do autor

A travessia das 1.890 milhas entre a África e o Brasil (Natal) foi iniciada em 1922 pelos portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho, que executaram o trajeto com muitas dificuldades entre Lisboa e Rio de Janeiro, em etapas, arrebentando aviões até Fernando de Noronha. Daí rumaram para Recife, passando sobre Natal. Como outrora as caravelas de Cabral, agora eles percorriam roteiro semelhante, porém com as novas “Caravelas dos Ares”. Depois, outros seus patrícios repetiram o feito, com mais sucesso. Nesse ano de 1922, já o estuário do Potengi abrigava os primeiros hidroaviões que começavam a percorrer as Américas.

Na foto vemos o norte americano Walter Hilton e o cearense Euclides Pinto Martins, que possuía forte ligação com o Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção do autor

Assim, no dia 21 de Dezembro, amerissava o Sampaio Correia-II, tripulado pelo brasileiro Euclides Pinto Martins e o norte americano Walter Hilton, num “raid” Nova York-Rio de Janeiro, percorrendo 5.587 milhas. Pelas 14 horas, “a libellula de aço”, no dizer de “A República”, tocava as águas do rio, atracando no Cais Tavares de Lyra debaixo de aclamação popular e homenagens prestadas pelas autoridades do Estado. No dia imediato, rumava para o sul. O percurso anterior tinha sido feito de Aracati (Ceará) para Natal.

Hidroavião espanhol “Plus Ultra” e sua tripulação – Fonte – Coleção do autor

Somente de 1926 em diante, o movimento aviatório é intensivo em Natal. Alvoroçada ficou a cidade, desde o mês de fevereiro, porque estava no roteiro dos aviões “Plus Ultra” comandando por Ramon Franco e Ruiz de Alda y Duran, pretendendo a travessia Espanha-Buenos Aires, e do “Buenos Aires” comandando por Bernado Duggan acompanhado de Olivieri e Ernesto Campanelli, italianos, no intuito do “raid” Nova York – Buenos Aires. O primeiro, depois de partir de Dakar e haver percorrido 2.950 Ks, caiu em Fernando de Noronha. Reparado, seguiu para Recife- Rio de Janeiro- Buenos Aires.

Hidroavião “Buenos Ayres”, que apenas sobrevoou Natal em 1926 e aterrissaram na Barra de Cunhaú – Fonte – Coleção do autor

O segundo, iniciando viagem em maio, após vários acidentes no trajeto Havana-Pará, chegou ao litoral do estado no dia 11 de julho, pousando sem maiores consequências na Baía de Cunhaú. Socorrido com o necessário, partiu, depois, para Cabedelo, Paraíba.

Hidroavião “Santa Maria” – Fonte – Coleção do autor

No ano de 1927, em 24 de fevereiro, chega o “Santa Maria” de propriedade do Marquês de Pinedo, tendo como companheiros o cavaleiro Carlo Del Prete, Capitão de aeronáutica, e Victale Zachetti, “motorista”, todos italianos. “A República abria notícias:” Natal é o primeiro porto brasileiro em que pisa o marquês De Pinedo. Há três dias a alma da cidade vibra de emoção para saudar o grande aviador italiano. O coração do povo queria aplaudir o feito do famoso conquistador dos ares que hoje é considerado uma das verdadeiras glórias da aviação universal “”. De Pinedo, partira de Elmas, em 13 de fevereiro, chegando a Vila Cisneiros (Colônia do Rio do Ouro), 14 do mesmo mês, pelas 16 horas. Largou para Bolama, na Guiné portuguesa, aonde chegou no dia 15 as 7.30. Depois seguiu para Dakar a 17, decolando daí na noite do dia 18 para Porto Praia, local em que amerrissou no dia 19, pelas 9,30.

O italiano De Pinedo – Fonte – Coleção do autor

Somente no dia 22, levantou voo para Natal. Em Fernando de Noronha, como outros, faltando gasolina, teve de fazer um pouso de emergência. Foi reconhecido pelo Cruzador “Barroso”, no qual se hospedou. No dia 24 de fevereiro, pelas 7 horas decolava para Natal, chegando ás 9,30.

Como os anteriores, recebeu grandes manifestações. Desfilou em carro aberto pelas ruas da cidade, com as autoridades. A Assembléia Estadual, pelas 12 horas, ofereceu um almoço de 40 talheres. No seu discurso de agradecimento, De Pinedo foi profético: “Natal será a mais extraordinária estação da aviação mundial”. Carlo Del Prete e Victale Zachetti não desceram a terra, tendo permanecido todo o tempo a bordo do avião, procedendo á limpeza interna do aparelho, no qual foram ajudados por dois marinheiros da Capitania dos Portos. “A Rotisserie Natal” forneceu-lhes almoço a bordo por conta do governo do Estado. Carlo Del Prete voltaria a Natal, em 5 de julho de 1928, em companhia de Arturo Ferrarin, quando bateriam o “recorde” na travessia Roma – Natal (Praia de Touros). Partiram pelas 15:30, rumando para Recife.

O hidroavião português “Argos” – Fonte – Coleção do autor

O “Argos”, sob a direção do Major Sarmento de Beires, e tendo como auxiliares de navegação Jorge de Castilho e Manuel Gouveia, foi um dos aviões mais festejados que tocaram em Natal, por serem seus tripulantes portugueses. Tendo decolado de Bolama às 17 horas do dia 12 de março de 1927, amerrissou 150 quilômetros adiante. Recomeçou o voo para também pousar em Fernando de Noronha, no dia 18 de março pelas 10:15 às 12:55, contudo, do mesmo dia, estava em Natal, saudando a população em nota distribuída á imprensa: “A tripulação do avião” Argos “saúda o povo brasileiro que tão intensamente sabe vibrar sob a impressão resultante de qualquer tentativa levada a feito por homens dessa raça única e que pertencem os povos brasileiros e portugueses. Que o nosso esforço possa contribuir para o estreitamento da união luso-brasileira, tal é a nossa aspiração”.

Depois, Sarmento de Beires autografou um álbum de Sérgio Severo, filho de Augusto Severo, com a significativa mensagem: “Se não tivesse havido toda essa coorte de sacrifícios, entre os quais Severo fulge com cintilação imorredoura, as asas humanas não poderiam hoje singrar no espaço com segurança que nos permitiu atravessar o Atlântico numa noite inteira de voo . Pelas 16 horas, um após outro, suavemente, baixaram no Potente, amarrando em boias frente á pedra do Rosário.

Hidroavião norte-americano Loening OA-1A, da conhecida “Esquadrilha Dargue”, que estiveram em Natal em 1927 – Fonte – http://earlyaviators.com/eloenin2.htm

Comandante: Major Herbert A. Dargue, natural de Brooklin, Nova York. Sub-comandante, Capitão Artur B. Mac Doniel, de Santo Antônio, Texas, 1.o Tenente, Bernad S. Thompsom de Begdad, Flórida 1.o Tenente, Charles Mac Robson, de Columbus Ohio. 1.o Tenente, Luiz Fairchind, de Bellingham, Washington. A esquadrilha tinha feito o trajeto: Santo Antônio (Texas), Tambicu, Vera Cruz e Santa Cruz, no México; Guatemala, S. Salvador, Honduras, Costa Rica, Nicarágua, Panamá, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, passando pelo Rio Grande do Sul, Florianópolis, Santos, Rio, Bahia, Recife e Natal. Segui para o norte até completar o percurso nos Estados Unidos. Ao sair dos Estados Unidos, era composta de cinco aviões. Na Argentina houve um desastre, quando perdeu dois: o “New York e o Detroit”, que se chocaram no aeroporto de Palomar.

A capital potiguar parou para receber os brasileiros do “Jahú”- Fonte – Coleção do autor

Fins de abril, maio, junho de 1927, foram dias movimentadíssimos em Natal e para o mundo, por acontecimentos inusitados, envolvendo a avião da época. Ao mesmo tempo, em regiões diferentes, era programados vários vôos transoceânicos, abrindo “manchetes” nos jornais de todos os países.

O “Jahú”, tendo a frente o piloto Ribeiro de Barros- Fonte – Coleção do autor

Para a travessia do Atlântico Sul, interessando o brasil particularmente, estava o avião brasileiro “Jahu”, tripulado e de propriedade de João Ribeiro de Barros, paulista de 26 anos; com os companheiros João Negrão, de 26 anos; Vasco Cinquini, filho de italianos, porém brasileiro de nascimento, com 27 anos, mecânico do campo dos Afonsos e o Capitão Newtom Braga, com 42 anos. O raid seria Gênova-Dakar – Natal até Rio de Janeiro.

Preparado para o mesmo salto, de Rue (França) -Dakar-Natal, também desde abril, estava pronto o Marquês de Saint-Roman, com o “Paris-Amérique-Latine”. Pretendendo a travessia do Atlântico Norte, Europa – América do Norte, os franceses Nungesse e Coli tinham preparado o “Pássaro Azul”, e de New York para Paris, Charles Lindbergh, o “Saint-Louis, estando em jogo um prêmio no valor de 25.000 dólares. Da Inglaterra, os Tenentes Carr e Gilman preparavam o vôo Inglaterra-Índia. Da Espanha, chegavam notícias da circunavegação do globo pretendia por Ruiz Alba e Padelo Roda.

Outra imagem do “Jahú”- Fonte – Coleção do autor

Como se nota, estava-se presenciando um momento histórico da aviação: A conquista do espaço intercontinental contra o tempo numa provação de coragem humana e valorização de suas máquinas. O “O Jahu” depois de fazer o percurso Gênova – Dakar sem acidentes, pelas 3,45 do dia 29 de abril, largava de Porto Praia para Natal. Estações de rádio mais variadas, montadas por todo o brasil e, especialmente em Fernando de Noronha, espalhavam notícias constantes da travessia, esperando-se que batesse o feito anterior do “Argos”, então festivamente acolhido no Rio de Janeiro, e que chegasse primeiro a Natal do que de Saint-Roman.

Durante à tarde do mesmo dia, silenciaram as comunicações. O povo dormia nas calçadas dos jornais de várias cidades, aguardando notícias. Somente no dia seguinte, soube-se que o “Jahu”, pelas 17:30, caíra a 100 milhas de Fernando de Noronha, por Ter rompido uma hélice de um dos motores. O navio “Belvedére”, que passava no local, radiografou a triste nota, e que o “Angel Losi”, mais próximo do sinistro, estava rebocando o “Jahu” para a ilha nada tendo acontecido aos tripulantes. O jornal “Á Pátria”, que então era editado no Rio de Janeiro, achou de dar a notícia do acidente como motivado pela imperícia dos tripulantes do “Jahu”, fato que não ocorrera com o “Argos”. O povo que sofria apreensivo com o possível fracasso do avião brasileiro, rompeu num protesto violento contra o jornal, quebrando tudo, morrendo gente na confusão.

O “Jahú”, um hidroavião Savoia-Marchetti S.55, o último de seu modelo no mundo, atualmente se encontra no Museu de aviação da TAM, em São Carlos, São Paulo – Fonte – http://www.trekearth.com

No dia 5 de maio, Ribeiro de Barros ainda aguardava a nova hélice em Fernando de Noronha, quando a imprensa anunciou a largada de Dakar para Natal do “Paris-Amérique-Latine” de Saint-Roman. Então, o suspense foi martirizante. Recife, 5 – “De Dakar informa que o” Paris-Amérique-Latine “passou alto, pelas 12 horas, sobre os rochedos de S. Pedro e São Paulo” – Expectativa.

Recife, 6 – “Depois das 18 horas de ontem, nenhuma notícia positiva veio mais sobre o” Paris-Amérique-Latine “. As estações de rádio de Olinda e Fernando de Noronha têm estado em comunicação com os navios que cruzam o Atlântico, não conseguindo nenhuma informação do aparelho. O cabo francês também não recebeu notícia alguma. Parece que Saint-Roman anda fora de rota comum de navegação”. Consternação geral.

Natal esperou um nobre francês que viria pelo ar e que jamis chegou- Fonte – Coleção do autor

Depois, de todo o mundo, chegavam pedidos de informações sobre o paradeiro do “louco sublime”, como fora apelidado o simpático marquês. Organizaram-se buscas e mais buscas por todo o litoral brasileiro. Navios de vários países vasculharam o Atlântico Sul, e nada. Os mais desencontrados boatos davam Saint-Roman nas praias do Recife, Fortaleza, Maranhão até ás margens do São Francisco; ou que os destroços tinham batido no litoral de Massachusetts  Estados Unidos. Tão somente em 29 de junho, os restos do avião de Saint-Roman eram identificados no litoral brasileiro, entre o Maranhão e Pará. Mas um herói para a galeria da França, cujo drama emocionou as nações, especialmente o Rio Grande do Norte, que o esperou sempre. Enquanto isto, no dia 10 de maio, chegavam informações de Paris de que o drama de Saint-Roman não abatera o ânimo dos tripulantes do “Pássaro Azul”. No dia anterior, tinham partido para o “raid”. Paris-Nova-York. Idêntico destino estava reservado para eles: Desapareceram também nas águas frias do Atlântico Norte. A 14 de maio, finalmente, Natal aguardava a chegada do “Jahú”, que, recuperado, partira de Fernando de Noronha, ás 9,10.

Como um jornal pernambucano estampou a chegada do “Jahú” a Natal – Fonte – Coleção do autor

Multidão. Toda a cidade estava ás margens do Potengi. Navios, embarcações de todos os tipos, engalanados em arcos de bandeiras multicores. Pelas 13 horas, o ronco dos motores cresce á medida que a silhueta vermelha avulta no horizonte, vinda do mar. Quando numa curva sobrevoou Natal, o delírio foi indescritível: Palmas, gritos. Baixando após a ponte de Igapó, na altura da Pedra do Rosário, suavemente, uma, duas vezes, toca as águas do Potengi e depois desliza até ás proximidades do Cais Tavares de Lyra, onde atracou numa bóia.

O desembarque desses homens em terra foi um pandemônio. Ninguém conteve a multidão. Arrebatados, percorreram ruas de Natal nos ombros do povo. Depois, manifestações oficiais e particulares intermináveis. Durante dias, estafaram-se em um nunca acabar de festas, os solteiros arrebatando os corações das moças da terra… De tal modo que a poesia de cordel do tempo cantou… De forma irreverente. Pretendia Ribeiro de Barros deixar Natal depois do dia 20 para tanto distribuiu á imprensa uma nota: “Quando de perto sentimos a grandeza da alma, o civismo e a hospitalidade desse povo, embora de passagem, só temos um pensamento: Ficar. Só um compromisso do dever elevado e os reclamos de outros brasileiros podem ser uma força capaz de nos fazer partir, levando no coração um sentimento que nem a palavra saudada traduz”. a) Ribeiro de Barros – Newton Braga – João Negrão – Vasco Cinquini. A 24, pretendeu decolar. Tentativas e mais tentativas, e o “Jahu” teimava em ficar. E ficou até junho, revisando os motores.

Charles Lindbergh – Fonte – Coleção do autor

No mesmo dia 24 de maio, os jornais de todo o mundo saudavam um novo herói: Charles Lindgergh, o “ás” que realizou, sem etapas, diretamente, a travessia Nova York – Paris, fazendo jus ao prêmio “Orteig” de 25.000 dólares. A recepção do aeródromo de Bourget foi uma coisa nunca vista em Paris, quando Lindbergh aterrissou já á noite. Os cordões de isolamento foram rompidos e o povo carregou o aviador nos braços, também. Cansado, arrebentado, dormiu 14 horas seguidas, depois. Só mais não fez, porque foi acordado pela multidão que reclamava sua presença na sacada do hotel. Tarde de 3 de junho de 1927, o “Argos” voltava a Natal em sua viagem de regresso á pátria. O “Jahu” continuava em reparos. Domingo 5, pelas 7:30, com a presença dos tripulantes do “Argos”, autoridades e povo, o “Jahu”, finalmente, decolava rapidamente em demanda do Recife, aonde chegou pelas 9,30 do mesmo dia.

No dia seguinte o “Argos” seguiu para o Pará. Lá sofreria um acidente, danificando-se. Toda a equipagem, porém, safou-se para chegar em Lisboa, via Marítima.

Paul Vachet, terceiro a partir da esquerda, pousou com seu avião na praia da Redinha. Aqui o vemos em Buenos Aires – Fonte – http://sterlingnumismatic.blogspot.com.br

No mês de julho de 1927, continuava Natal em constantes surpresas ao receber aviadores inesperados. Em 18, é a vez de um Breguet da Latecoère. Companhia francesa de aviação, em busca de fixar-se na cidade, a fim de tentar o salto á África, e com isso conseguir o privilégio de um convênio com o governo para fazer o transporte do correio internacional, de vez que aos alemães haviam conseguido o mesmo no sul do país. Esse avião, que era um biplano terrestre, ou um aeroplano, somente podia aterrar em campo apropriado que não existia ainda na cidade. Partindo de Alagoas, chegou a Natal nessa data, aterrissando na Praia da Redinha, por não encontrar local melhor. Era comandado por Paul Vachet, acompanhado de Dely e Fayard.

Paul Vachet em um dos seus voos – Fonte – http://www.ladepeche.fr

O “Diário de Natal”, em duas edições de março de 1966, sob o título “Primeiro Avião em Natal”, publicou a tradução em trechos esparsos do livro desse aviador, então Coronel da Aviação francesa, já setuagenário, em que diz: “O voo foi efetuado a 17 de julho de 1927(e não 18) de 1927: esta é, portanto, a data da descoberta de Natal, do ponto de vista aeronáutico, de Natal que jamais recebera um avião e devia ser nossa cabeça de linha transatlântica para a América do Sul até o armistício de 1945. Evidentemente, por tudo que foi dito anteriormente, a afirmativa do velho Coronel, data vênia, constitui uma lastimável inverdade, justificável, apenas, para que lhe seja atribuído o mérito do pioneirismo da missão. Antes dele, pelos dramas heroicos de que fora testemunha da história, Natal já estava nas manchetes dos jornais de todas as nações, fazendo justiça àquela afirmativa de De Pinedo: “a mais extraordinária estação da aviação mundial”. E foi por isso que ele veio para cá.

Campo de Parnamirim na década de 1930 – Fonte – http://embuscadenovoscaminhos.blogspot.com.br

Paul Vachet, não resta dúvida, foi quem primeiro trouxe a Natal um aeroplano, o qual, por falta daquelas condições, aterrou na Redinha, e para atender os interesses de sua Companhia, por indicação do então Capitão Luiz Tavares Guerreiro conheceu o local no qual ergueria “PARNAMIRIM”. O terreno de propriedade da família Machado foi-lhe doado em seu próprio nome, mais tarde sendo lavrada a escritura para a Latecoère, que, sendo Companhia francesa sem personalidade jurídica reconhecida no Brasil, não poderia Ter recebido, naquele tempo, a doação.

Juvenal Lamartine – Fonte – http://encantosdoserido.blogspot.com.br

“Parnamirim”, a partir de então, tornou-se o Aeroporto Internacional maior da América do Sul, famoso em todo o mundo, especialmente por ocasião da Segunda Grande Guerra. A glória de sua fundação deve-se a Paul Vachet e a Latecoère. Prevendo o futuro do Estado que iria governar, Juvenal Lamartine, desde 21 de maio de 1927, apresentou na Câmara Federal, posteriormente aprovado e sancionado, o projeto de lei autorizado o poder Executivo criar no Porto de Natal um AVIÓDROMO que de acordo com a navegação aérea, teria oficinas para reparos, depósitos de material e combustível.

Avião Francês Laté-25 – Fonte – http://www.airwar.ru

Concretizando os trabalhos iniciados por Paul Vachet, Dely e Fayard, “Parnamirim” com pistas de grama e barro, estava em condições de receber os aviões da Latecoère. Assim, no dia 14 de outubro de 1927, aterrissava o “Nungesser-et-Coli”, com Costes e Le Brix, concluindo o pulo ATLÂNTICO de São Luís do Senegal a Natal. EM 20 de novembro do mesmo ano, o Laté-25 iniciava a linha regular, com Pivot, Pichad e Gaffe.

Logotipo da Condor – Fonte – Coleção do autor

No ano de 1928, os alemães que haviam fundado uma sociedade denominada “Syndikat Kondor”, desde 1.o de dezembro de 1927, estendem suas linhas na rota Porto Alegre – Rio de Janeiro- Natal. Em 14 de junho desse ano, amerissava no “Potengi”, um “Junkers” trimotor.

Festividade em Natal para os aviadores italianos Ferrarin e Del Prete. Da esquerda para direita vemos o Cônsul italiano em Recife, Arturo Ferrarin, Juvenal Lamartine, Carlo del Prete e a cientista Berta Lutz

Também os italianos entram na competição atlântica. A 5 de julho de 1928, Arturo Ferrarin e Carlo Del Prete, com um avião Savóia-64, conseguem bater o “Recorde” de distância Roma-Natal, caindo, porém, na Praia de Touros. Recebidos com carinho e entusiasmo pelos natalenses, a Itália reconhecida, oferecida, quando da chegada de Ítalo Balbo em 6 de janeiro de 1931, a Coluna Capitolina a fim de perpetuar a façanha inusitada, e por muitos anos insuperável, dos seus dois filhos heróis.

Ainda em 1928,29 de dezembro, pelo Dr. Juvenal Lamartine, Presidente, Dr. Dioclécio Duarte, Vice-Presidente, Dr. Adauto Câmara, 1.o Secretário, era fundado o “Aero Club” do Rio Grande do Norte, no bairro do Tirol, com o seu pequeno campo de pouso ao lado do poente da sede social. Participaram das festividades, numa revoada de Parnamirim a Natal, um “Blue-Bird”, pilotado pelo Diretor-Técnico, Comandante Djalma Petit, trazendo a bordo o Sr. Fernando Pedroza, e um aparelho da Générale Aéropostale (C. G. A.), pilotado por Depecker, conduzido o Sr. J. Pinon e dois mecânicos. Na ocasião, foi batizado o primeiro aeroplano do “Club”, com o nome de Natal.

De gravata borboleta vemos o piloto Djalma Fontes Cordovil Petit, oficial da Aviação Naval e diretor do Aero Clube do Rio Grande do Norte, tendo a sua esquerda o governador Lamartine

A partir de 1929, quando, possuindo o campo de “Parnamirim” e o estuário do Potengi, com meios de pouso para aeroplanos e hidroaviões, Natal passou a ser a capital do Brasil mais em evidência, eixo das rotas aéreas, sobretudo internacionais, é possível, como resumo dos fatos principais, fixar em EFEMÉRIDES, os seguintes:

Avião Bellanca CH-200, igual ao que os aviadores peruanos Carlos Martínez de Pinillos e Carlos Zegarra Lanfranco estiveram em Natal – Fonte – http://zonamisterio.site90.com

Em 8 de janeiro de 1929 – pretendendo fazer o circuito das Américas, passa o “Peru”, um Wright de 220 HP, de nacionalidade peruana, pilotado por Martinez e Zagarrra, que declararam, em a “República” de 9 do mesmo mês: “Natal confirma, dia a dia, o prognóstico de quantos asseveraram para si um posto de merecido destaque na América, como centro aviatório de interesse nacional e internacional”. Em 16, decolava com destino a São Luís do Maranhão.

Avião Breguet XIX GR, batizado como “Jesús del Gran Poder” em exposição no Museu del Aire de Cuatro Vientos, em Madrid, Espanha – Fonte – http://www.lasegundaguerra.com

Em 22 de janeiro de 1929 – Os primeiros campos de pouso são inaugurados no interior do Estado: _ (Ararinha) e Mossoró. Logo no dia 27, o de Ceará-Mirim. Em 28 de março – passa sobre Natal o avião Jesus Del Grand Poder, vindo da costa da África para aquatisar em Salvador, Bahia. Pretendia bater o recorde de distância e permanência no ar, de posse de Ferrarin e Del Prete. Em 9 de abril o aviador Chernu, partindo de Parnamirim, bate o “recorde” Natal – Rio de Janeiro, em 6 dias e 10 horas de voo, com escalas.

Hidroavião Consolidated Commodore da empresa New York, Rio & Buenos Aires Line (NYRBA) – Fonte – http://www.edcoatescollection.com

Em 5 de julho o hidroavião “Washington” amerrissa no Potengi, iniciando a linha Nova York – Rio- Buenos Aires, tripulação: Ralph A. O’Neill, acompanhado da esposa; M.M. Cloukey, piloto; H. Lelis, engenheiro; e miss Jane, secretária. Tinha a aeronave ainda capacidade para mais oito passageiros. No dia 6 demandou Recife. Em 7 de setembro – “A República” transcreve a reportagem traduzida do “The Sportman Pilot”, assinada por Miss Desbriere Irwin, de passagem por Natal para estudar as condições de instalação da “Pan-American Aiways”, na qual declarou: Natal é o ponto de escala das linhas comerciais e possui um clima agradável. Por sua posição geográfica foi escolhido como “Pivot” da linha aérea francesa. Tenho certeza que, futuramente, se tornará um dos grandes aeroportos internacionais do mundo “”. Em 13 de novembro O “Bahia”, pertencente á “Nyrba Line”, da rota Nova York – Rio – Buenos Aires, amerrissou no Potengi e depois decolou para Parnamirim onde aterrissou demonstrando ser um avião anfíbio já em uso. No dia 14, o “Tampa” da mesma Companhia, passou com destino ao norte. Foram demonstrações da nova técnica de fabricação da indústria aeronáutica norte-americana, caminhando para vencer a competição com os franceses e alemães. Em 20 de novembro A companhia Générale Aéropostale publica anúncio nos jornais advertindo á compra de passagens do tráfego regular entre Natal – Buenos Aires, até 11 horas das quintas-feiras.

Local da queda do avião que tinha como tripulantes o uruguaio Tydeo Larre Borges e o francês Leon Chale , na zona rural do município de Santo Antônio – Fonte – http://www.pilotoviejo.com

Em 6 de dezembro o “Aero Club” abre a matrícula para a sua escola de voo  sob a direção do Comandante Djalma Petit seu diretor técnico. Em 16 de dezembro de 1929 Cai em “Maracajá”, município de S. Antônio, distante de Nova Cruz quatro léguas, o biplano do aviadores Chelle e Larre Borges, que tentava o “raid” Sevilha-Buenos Aires. De Natal, seguiram para o local do sinistro, o Dr. Joaquim Inácio com uma ambulância e medicamentos, acompanhados pelo Sr. Ramade, Chefe do Aeroporto da CGA (Compagnie General Aeropostale), mecânico Chaulet. No avião do Aero Club, também partiram para o local do acidente, Djalma Petit e André Depecker. O aparelho ficou completamente destruído, sendo os destroços removidos para Natal, bem como o mais ferido Chelle. No dia 21 de dezembro, voltavam á pátria pelo Laté da linha regular.)

Em 10 de janeiro de 1930 o estuário do Potengi recebe o avião da “Pan -American Aiways” trazendo o sr. e sra. Georg Rihl e W. M. Cullbertson, 1.o piloto, Barnett Boyd, 2.o piloto e W. W. Ihma, radiotelegrafista, que iniciava o tráfego dessa Companhia com transportes de passageiros. Pelas 15:15, seguiu para Recife.

Jean Mermoz – Fonte – http://www.contre-info.com

Em 11 de janeiro Jean Mermoz começa a sua carreira de grande “ás” na América do Sul. Notícias de Buenos Aires afirmavam haver, no dia anterior (10), pilotando um Laté-28, n.o 926, com motor Hispano – Suíço de 500 C. V., em companhia do mecânico Colenot e como passageiro o banqueiro Macel-Bouilloux-Lafont, com a velocidade média de 228 quilômetros por hora, conseguido bater o “recorde” em 11 horas e 8 minutos do rio a Buenos Aires. Natal passava a conhecer o nome do homem famoso, que faria dela sua própria cidade.

Hidroavião de fabricação alemã, modelo Dornier Do J “Wal”, utilizado pela Condor – Fonte – mhttp://www.influindo.com.br

Em 22 de janeiro – O “Guanabara” hidroavião da “Sindicato Condor”, com sete passageiros, começou o tráfego costeiro e estabeleceu em Natal sua Agência, tendo como representantes Gurgel, Luck e companhia. Em 20 de fevereiro – Anúncio da vinda do “Conde Zeppelin” pela primeira vez no Brasil na rota Angola-Natal – Rio. Conforme notícia da imprensa, Natal tinha sido escolhida a cidade brasileira como base de suas futuras travessias. Por falta de meios do governo local para construir a torre de atracação, transferiu o local para Recife. Em 26 de fevereiro- “A República”- “Os que viajaram na Condor “. Dia 21, pelo Pirajá, de Natal para Recife: Simplício Cristino e Plínio Saraiva. De Recife para Natal: Luiz Pimentel Ribeiro e Jorge Kyrillus.

Em 16 de março (Domingo)- Pelas 15:30 o primeiro “Show aéreo” com Djalma Petit, pilotando o Natal-I, levando o acrobata Charles Cester, que passou pelas asas do aeroplano, ficou de cabeça para baixo, fez trapézio e L’enlévement du drapeau, ou seja, suspenso em trapézio, colocado abaixo das rodas do avião, de cabeça para baixo, arrancou, de passagem, uma bandeira suspensa do solo entre dois postes. Em 1.o de maio-Inaugura a Companhia Aeronáutica Brasileira a sua rota Recife – Natal, interligando-se com os aviões da Laté para transporte de malas postais á Europa.

Hidroavião Latécoère 28-3, pintado de vermelho, com o qual Mermoz e seus companheiros conseguiram atravessar o Atlântico – Fonte – http://jn.passieux.free.fr

Em 13 de maio de 1930 – Jean Mermoz faz sua primeira travessia de São Luís do Senegal para Natal pela “Cia. Générale Aéropostale” num Laté-28 com flutuadores. Tendo partido ás 8,55 (hora brasileira), chegou ás 18,20 depois de percorrer 3.100 quilômetros. A partir de então, ficou em Natal para tentar o percurso em sentido contrário, ainda não tentado por outros.

Em 20 de maio-Parte de Servilha com destino ao Brasil, o “Graf Zeppelin”. Dia 21, sobrevoava as Canárias e São Luís do Senegal. Dia 22 esperado em Natal, em vão. No dia 23, pelas 18:30, amarrava em Recife (Jiquiá). Partiria, depois, para o trajeto Recife-Nova York, sob o comando do Dr. Hugo Eckner.

Queda do avião do Aeroclube do Rio Grande do Norte que vitimou Edgar Dantas – Fonte – Coleção do autor

Em 23 de maio de 1930 – O primeiro desastre fatal na Escola de Voo do “Aero Club”. Falece no sinistro do “Natal-I”, Edgar Dantas, pertencente á tradicional família potiguar. Consternação geral na cidade.

Dirigível alemão “Graf Zeppelin” sobre a igreja Bom Jesus, no bairro da Ribeira – Fonte – http://aldeiapoti.blogspot.com.br/

Em 28 de maio de 1930 – Desamarrou de Recife com destino á Havana, pelas 11 horas, o “Graf Zeppelin”. Pelas 14 horas, sobrevoa Natal sob aclamação popular na praça “Augusto Severo”, sobre a qual deixou cair uma coroa de flores artificiais com os dizeres: “Homenagem da Alemanha ao Brasil na pessoa do seu grande filho Augusto Severo”. No momento era comboiado pelo Laté-25, n.o 616, pilotado por Velle e Dupont.

Em 8 de julho de 1930 – Pelas 16,30 após diversas tentativas na Lagoa do Bonfim (município de Nísia Floresta), próxima a Natal, decolou o grande hidroavião “Laté-28”, tripulado por Jean Mermoz, Gimié e Dabray, para a travessia Natal – São Luís do Senegal. A tentativa não foi completada, porque o avião caiu pelas 10,30 do dia 9, á altura de Dakar, no terrível “Pot-au-Noir”, em pleno mar. Sendo socorrido, voltou a Natal.

Aviadora norte-americana Laura Ingalls Houghtaling, a primeira grande aviadora a passar por Natal – Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Laura_Ingalls_(aviator)

Em 8 de abril de 1934 – Aviadora Laura Ingalls- Prosseguindo seu “raid” sensacional através do Continente, passa em Natal, aterrando em Parnamirim, a aviadora Laura Ingalls, que foi recebida pelos senhores Etienne Duthuron, gerente da Air France e R. H. Dacuart, gerente da Standard Oil, demorando-se apenas o tempo indispensável á retribuição dos cumprimentos, havendo externado seu entusiasmo pela terra brasileira: Aterrissou em Parnamirim, pela curiosidade de conhecer o campo, do qual se falava muito nas rodas aviatórias dos Estados Unidos, tendo verificado que, realmente, pelas condições naturais de que o mesmo dispõe, é dos melhores do mundo. Uma hora, após o “AWAY” (andorinha americana), levantou vôo para Fortaleza.

O jovem espanhol Juan Ignácio Pombo e seu pequeno avião British Klemm Eagle 2, batizado como “Santander” – Fonte – http://cabeceras.eldiariomontanes.es

Em 22 de maio de 1935 – Pilotando o pequeno avião de turismo “Kienim”, pelas 15:10, em Parnamirim, aterra Juan Ignácio Pombo, concluindo a travessia Balhurst-Natal, no “raid” Espanha-México. Tinha, então, 21 anos e desde os 16 foi aviador mais moço de Espanha, sendo filho de aviador civil de sua pátria. O avião possuía um motor de 130HP, media 12 metros e 7 cm de comprimento, e peso de 1.350 quilos. Partiu no dia 26, pelas 8 horas, sendo obrigado a descer em Camocim (CE), á falta de gasolina. Ao aterrissar  capotou quebrando uma hélice e o trem de aterragem. Depois dos reparos, com material enviado de Natal, prosseguiu viagem.

A bela aviadora neozelandesa Jean Batten – Fonte – http://www.ianmackersey.com

Em 13 de novembro de 1935 – AVIADORA JEAN BATTEN- Parnamirim recebe, pelas 16:40, a aviadora Jean Batten, natural de Nova Zelândia que levantara voo de Lympne, na Inglaterra, ás 6,20 do dia 11; de Dakar, ás 3 horas do dia 12 (hora G.M.T.), tendo feito a viagem com o tempo favorável, chegou, porém estafada, e logo se recolheu á residência do Sr. William Scolchbrook, em Petrópolis  de quem foi hóspede nesta capital. A destemida aviadora fez percurso sozinha, sem rádio, sem pára-quedas, nem colete salva-vidas, tampouco canoa, em um aeroplano tipo “Percival-Grull”, de fabricação inglesa, monomotor de 200 cavalos, com condições para vôos a longa distância. No dia seguinte, partiu para o Rio de Janeiro.

Em 13 de novembro – Ainda nesse dia, o “Graf Zepelim”, procedente de Balhurst, pelas 19:20, sobrevoa a praia da Limpa em Natal, deixando cair às malas postais procedentes da Europa. Um hidroavião da Sindicato Condor tomando-as, rapidamente decolou para o sul levando as mesmas para distribuição. Esse método passou a ser adotado, todas as vezes que o grande dirigível veio ao Brasil, inclusive quando foi substituído pelo “Hindemburg”.

Um grande avião do seu tempo, o francês Latécoère 521, batizado “Lieutenant de Vaisseau Paris” – Fonte – http://jn.passieux.free.fr

Em 14 de dezembro de 1935 – “LIEUTENANT DE VAISSEAU PARIS”. Voou sobre Natal, indo aquatizar na hidrobase da” Air France “em frente ao Réfoles, o gigantesco hidroavião “Lieutenant de Vasseau Paris”, o mais potente aparelho desse tipo até hoje construído no mundo. A poderosa aeronave de seis (6) motores de 900 cavalos de força, o que lhe dá maior capacidade que o “DOX”, o qual apenas o supera em proporções e peso, tendo aquela a tonelagem de 40.000 quilos. A sua tripulação era composta de oficiais da Marinha e do Exército da França, devendo ir de Natal direto á Ilha de Martinica, possessão francesa nas Antilhas, onde assistiria ás festas patrióticas que ali seriam realizadas. Comandante, Capitão-tenente Bonnot; capitão-de-corveta Jozan,1.o piloto;1.o brigadeiro Castellari, 2.o piloto; 1.o brigadeiro Morvan, mecânico; Emont, radiotelegrafista, e mecânicos civis, Dessendi e Durutty.

Em 9 de janeiro de 1936 – A “Air France”, sucessora da Laté, faz realizar importante melhoramento no seu serviço aéreo, no Brasil. A Companhia que possui a mais extensa rede do mundo, ligando os quatros Continentes, estabeleceu no seu serviço de ligação entre Natal e Dakar, e vise e versa, cada semana, além dos hidroaviões transatlânticos “Santos Dumunt”, “Croix du Sud” e o quadrimotor “Centaure”, acaba de incorporar á sua frota o “Ville de Rio de Janeiro”, “Ville de Buenos Aires” e “ville de Santiago”.Todos esses aparelhos são munidos de quatro motores e já deram prova de sua eficiência com a perfeita regularidade com que asseguram seu serviço bimensal inteiramente aéreo durante o ano de 1935. A partir de então, os pequenos navios “Avisos Postais”, que faziam a travessia Natal-Dakar, começam a desaparecer do nosso porto. Não tinham mais utilidade. Como herança funesta, tinham deixado o “anofelis-gambiae”, ainda sendo combatido em nossos sertões.

Em 15 de janeiro – Naufragou no ancoradouro de Pensacola, Estados Unidos, o hidroavião “Lieutenant de Vaisseau Paris”, não havendo perda de vidas. No dia 16, estava sendo içado.

O aviador cubano Antonio Menéndez Peláez – Fonte – http://asociacioneltrichorio.blogspot.com.br

Em 17 de janeiro de 1936 – “Raid” Cuba – Servilha- Em Natal, o aviador Menendez Pelaéz. Tendo partido de Cuba e, após fazer escalas em Trinidad, nas Guianas, em Belém, São Luís e Fortaleza, chegou a esta capital o avião “4 de setembro”, pertencente á Marinha de Guerra Cubana, e pilotado pelo Capitão Antônio Mendez. O aviador cubano destinava-se a Sevilha, na Espanha. A partida realizou-se três dias depois, quando foram concluídos os trabalhos de revisão dos motores de 550 HP WASP. Foi abastecido com 2.000 litros de gasolina.

O grande dirigivel “Hindenburg”, que sobrevoou Natal – Fonte – http://lingeriehistorica.blogspot.com.br

Em 20 de julho -Procedente de Dakar, chegou pelas 23,35 horas o hidroavião transatlântico “Ville de Santiago”, sob o comando do piloto Guerrero. Com essa viagem completou a “Air France” a centésima travessia direta do Atlântico Sul. Em 29 de agosto – Pela primeira vez, passa em Natal, pelas 19:12, o grande dirigível alemão Hindemburg, sob o comando do Capitão Pruss, em sua Sexta viagem ao Brasil. Após evoluir sobre o aeroporto da Condor (Praia da Limpa), deixou cair às malas postais e seguiu para o Rio de Janeiro. Trazidas as malas do correio para o hangar da Condor, estas foram transportadas para o “Anhangá”, que levantou voo com destino ao sul. Enquanto esteve em atividade, esse dirigível, todas as vezes que veio ao nosso país, passou sempre por Natal, para essa finalidade.

Aviadora inglesa Amy Mollinson – Fonte – http://www.dieselpunks.org

Em 20 de outubro- AVIADOR AMY MOLLISON- Notícias de Paris dizem que, ao levantar voo o avião da famosa aviadora Amy Mollison, caiu ao solo deixando-a gravemente ferida. Restabelecida, Amy Mollison, em data posterior, esteve em Natal, depois da travessia do Atlântico Sul.

Em 10 de dezembro – A Condor-Lufhansa comemorava a 200 travessia aérea do Atlântico Sul, no serviço de transporte do correio internacional. Entretanto, é preciso fazer-se ressalva de que iniciara com escalas, fazendo baldeação das malas postais em plano Atlântico, com os seus navios catapultas.

Hidroavião Latécoère 300, batizado como “Croix du Sud” – Fonte – http://www.lesmanantsduroi.com

Em 11 de dezembro de 1936 – O DESAPARECIMENTO DE MERMOZ – Os jornais de Natal, abriram manchetes para anunciar. “Vem sendo infrutíferas todas as pesquisas no Atlântico, através da rota seguida pelo hidroavião da Air France, a fim de se encontrar Mermoz e seu “Croix du Sud”. As últimas esperanças se vão desvanecendo e no espírito de todos os que admiravam em Mermoz o esplendor de uma bela e gloriosa mocidade, já se firmou a implacável certeza do seu desaparecimento. Assim, aprofunda-se no sorvedouro ignorado um dos heróis mais queridos da aviação francesa. Jean Mermoz, 35 anos, brevetado em plena adolescência e possuidor de um grande e brilhante tirocínio….” “Esse homem que a França hoje lamenta, o Brasil também se solidariza, particularmente, nesta dor, pois centenas de vezes os céus foram cruzados por ele, nos seus vôos de incansável bandeirante do espaço. Natal bem conhecia Mermoz, pois aqui era um dos seus ninhos preferidos. Teve ele um fim digno de sua vida. Morreu como um grande pássaro, acompanhado o colapso do aparelho que dominava e dirigia. Morte de Condor, precipitado do azul, Banhado na ofuscante luz oceânica e aos estertores de uma tragédia para sempre ignorada.

Jena Mermoz desapareceu no “Pot-au-Noir”, quando, mais uma vez, retornava da África para Natal. Pelas 10,40 em rápida mensagem, disse que o motor da direita estava falhando. Depois, silêncio.

Antoine de Saint-Exupéry em Toulouse, França, 1933 – Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Antoine_de_Saint-Exup%C3%A9ry

Antoine de Saint ‘Exupéry, seu antigo aluno e companheiro, pelo que lhe contou Mermoz na primeira vez que atravessou, descreve o “Pot-au-Noir”: “Trombas marinhas elevavam-se ali, acumuladas, imóveis, na aparência da escura e baixa da tempestade; mas através dos rasgões da abóbada, feixes de luz caminham e a lua cheia brilhava, entre os pilares, nas lajes frias do mar. E Mermoz seguiu sua rota através daquelas ruínas desabitadas, obliquamente, pelos canais de luz, contornando os pilares gigantes onde bramia a ascensão do marchando quatro horas, ao longo da esteira da lua, para a saída do tempo. E o espetáculo era tão esmagador que Mermoz, uma vez transposto o “Pot-au-Noir”, percebeu que não tivera medo”. Agora, Mermoz que havia decifrado as areias, as montanhas, à noite e o mar; que havia soçobrado mais de uma vez nas areias, nas montanhas, na noite, no mar, voltando sempre para partir outra vez, traído pelo encantamento do “pot-au-Noir, enfrentando a morte como enfrentou a vida, com arrojos, caiu, e, pela primeira vez não voltou mais. Ficou no seio das ondas do Atlântico, velho palco de suas epopeias.

A aviadora francesa Maryse Bastié- Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Maryse_Basti%C3%A9

Em 30 de dezembro de 1936 – A AVIADORA MARYSE BASTIÉ – A aviadora francesa sem abater-se a tragédia de Mermoz e seus companheiros, concluiu o “raid” Paris-Dakar-Natal, em apenas 12 horas e 7 minutos, tripulando, solitária, um “Caudron-Simon”, do Ministério do Ar da França, sob prefixo “Fenxo”, sem rádio, com um só motor de 220 C.V. – A partida de Mlle. Bastié de Dakar verificou-se ás 4,23 (hora brasileira), tendo chegado ao campo de Parnamirim, ás 16,30. Era a Segunda vez que Natal hospedava a destemida aviadora francesa, detentora de vários “recordes” femininos entre os quais avultam o de permanência no ar, com a duração de 30 horas, e o assinalado nesta travessia atlântica.

Amélia Earhart em 1936- Fonte – http://www.archives.gov

Em 7 de junho de 1937 – Procedente de Fortaleza, chegou a Natal, pilotando o seu monoplano “Lockhead-Electra”, miss Amélia Earhart que realizava um voo em redor do mundo. Pouco antes das 9 horas, a arrojada aviadora norte-americana descia no campo de Parnamirim, sendo ali cumprimentada pelas autoridades e jornalistas. Em seguida viajou de automóvel para esta capital, onde permaneceu durante o resto do dia, recebendo as homenagens da colônia britânica.

“Ontem, pela madrugada, ás 3,13 minutos (hora local), miss Amélia Earhart reiniciou o seu voo  para cobrir uma das maiores etapas dessa audaciosa tentativa, a travessia do Atlântico Sul. Segundo informações telegráficas, a destemida aviadora havia alcançado Dakar, ontem mesmo, ás 16,15 (hora local), estabelecendo, assim, na travessia o tempo de 13 horas e 2 minutos. Acompanhava miss Earhart o seu piloto ajudante, capitão Fred Noonan”, informava “A República , de 8 junho de 1937. O monoplano de Amélia Earhart tinha capacidade para 4.800 litros de gasolina, dos quais 1.600 nos tanques das asas e 3.200 nos da fuselagem, podendo alcançar cerca de 9.000 metros de altitude.

Amélia no cockpit do bimotor Lockheed Model 10 Electra – Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Amelia_Earhart

Amélia Earhart, nascida em Atchison-Kansas, em 24 de julho de 1898, morreu no mês seguinte (julho) ao desse “raid”, desse ano, sobre o pacífico, em condições misteriosas, dizem a serviço da espionagem americana, sobre ilhas próximas ao Japão. Professora em Massachusetts abandonou o magistério, em 1927, sendo a primeira mulher a participar de um voo solitário sobre o atlântico, em 1932. Repetiu a façanha sobre o pacífico, 1935, voando do Havaí á Califórnia. Escreveu as obras “20 Hs. e 40 minutos” 1928, “Último Voo , publicado posteriormente por seu marido George Palmer Putman.

A partir de 1938, em face do constante aperfeiçoamento das estruturas e potência dos aviões, bem como dos novos meios de comunicações, a travessia direta do Atlântico Sul, em ambos os sentidos deixou de constituir atrativo para constantes aventuras. A rotina tornou-se evidente ante o desbravamento da rota suicida até então, pois a região “Pot-au-Noir” já não constituía um risco ante aviões tipos usados por Marise Bastié e Amélia Earhart, que podiam alcançar até 9.000 metros de altura, transpondo-se sem dificuldades. Por outro lado, o “Rádio Farol de Natal”, instalado desde 1936, na Praia da Limpa, frente ao Atlântico, emitindo de meia em meia hora, em ondas médias, o seu prefixo P.X.N., permitiu orientação segura por intermédio do “radiogoniômetro” do momento em que a aeronave ou navio partisse do litoral africano.

Grande base aérea de Parnamirim Field – Fonte – http://moraisvinna.blogspot.com.br

Todavia, Natal não perdeu a sua importância estratégica como cabeça de linha transatlântica para a América do Sul, uma das esquinas do mundo. Confirmaria, mais uma vez, o seu determinismo geográfico necessário á segurança das Américas, logo mais por ocasião da Segunda Grande Guerra, quando, no dizer de Paul Vachet – “ia transformar-se numa das maiores importantes bases aéreas do mundo, de onde se lançaram, aos milhares para África, Europa e Oriente, os bombardeios americanos e aliados”, e Parnamirim passou a ser conhecido como o “Trampolim da Vitória”. Por tudo isto, Natal foi e continua sendo: “Ninho de Ases de todas as Bandeiras”.

Este texto foi transcrito do livro de Tarcísio Medeiros, “Aspectos Geopolíticos e Antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, capítulo 17, páginas 160 a 186, lançado em Natal no ano de 1973, pela Imprensa Universitária.