A REDESCOBERTA DA GRUTA DOS TAPUIAS

Uma Aventura que Começou com uma Notícia

Publicada há Mais de Noventa Anos

Autor – Rostand Medeiros – Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Folheando a coleção de jornais antigos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me deparei com uma rara notícia, de bastante interesse para a espeleologia e a arqueologia potiguar.

Jornal “Diário de Natal”, edição de 7 de abril de 1928.

Na primeira página, da edição de 19 de abril de 1928, do antigo jornal potiguar “Diário de Natal”, encontra-se um artigo intitulado “A Gruta dos Tapuias”, onde um articulista que se intitulada apenas “Dapraia”, escrevia da cidade costeira de Touros no dia 7 de abril de 1928 e narrava a visita que havia realizado a uma gruta, na zona rural de Santana do Matos, que ele afirmava ter sido um dos últimos abrigos utilizados pelos indígenas que habitaram nosso sertão.

Uma descrição rara

Seu artigo, bem escrito e repleto de detalhes, mostra que no final do século XVIII, os portugueses dominavam praticamente toda a região. Nas vizinhanças de um arraial denominado São Miguel, próximo a Vila de Santana dos Matos, viviam refugiados em uma gruta, no alto de uma serra, um dos últimos grupos de índios que viviam em liberdade, aos quais o autor do texto de 1928 denominou “Tapuias”.

O narrador informomou que a gruta estava situada a três quilômetros da estrada que dava acesso a Serra de Santana, consistindo de um abrigo de granito, com duas fendas verticais, onde em seu interior poderia se abrigar um grupo de até vinte pessoas, que ficariam satisfatoriamente protegidas dos raios do sol e da chuva. O local onde se localizava o abrigo estava em um ponto que proporcionava uma excelente visão da região, sendo um ótimo ponto estratégico.

Ainda segundo “Dapraia”, sem fornecer quem, ou de onde conseguiu as informações, os indígenas que habitavam a gruta no alto da serra sobreviviam através do comércio que mantinham com um mestiço (que em uma parte mais adiante do texto, é tratado como “negro”), que procedia da várzea do rio Açu em direção a região do Brejo Paraibano. Na passagem deste almocreve, os índios trocavam carnes, couros e peles de diversos animais que eles caçavam, por fumo, cachaça, pequenos espelhos, alguma louçania e outras quinquilharias. O acordo mantido entre estes ditos Tapuias e o negociante era o sigilo absoluto, para evitar a prisão e morte destes indígenas.

Um dia, sem uma razão aparente, o negociante denuncia a existência do grupo e os habitantes da região realizaram uma expedição que culmina no total extermínio do grupo. Ainda segundo o articulista “Hoje ninguém conhece aquele rochedo escalvado e nu, e pesado e negro, como a traição que simboliza quase lendário, a não ser algum caçador que se vá abrigar dos raios inclementes do sol, ou algum turista ousado que, como eu, fui reviver uma página do passado, em momentos deliciosos, no augusto silêncio das grutas abandonadas”.

O autor deste antigo artigo não comenta qual a origem do grupo sitiado, nem maiores informações.

O homem que procura pinturas rupestres

Diante de tão interessante e controverso relato, como praticante da espeleologia há mais de vinte anos no Rio Grande do Norte, não poderia deixar de tentar chegar a este lugar e conferir se a Gruta dos Tapuias existia ou era um logro deste antigo articulista.

A caminho de Santana dos Matos.

Observando mapas atuais, percebi que realmente existe ao sul de Santana do Matos, uma estrada que sobe a Serra de Santana e a partir de outros caminhos, é possível chegar a região do Brejo Paraibano. Esta era uma boa indicação, pois sabia que muitas das atuais estradas vicinais existentes pelo interior do sertão nordestino, são as mesmas estradas que eram utilizadas no passado. Seria a estrada no mapa, a mesma do antigo jornal?

Reuni-me ao companheiro da SEPARN – Sociedade para Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental Cultural e Histórico do Rio Grande do Norte, Jeová Costa França e seguimos para a região de Santana do Matos, cidade a qual não conhecia. A única referência que possuía eram algumas notícias vinculadas na imprensa, que comentavam sobre um cidadão que “descobria pinturas rupestres” no meio do sertão e trabalhava com os pesquisadores da arqueologia da UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, de Mossoró.

Já na zona rural do município de Santana dos Matos, fomos informados que próximo ao lugarejo conhecido como Residência, na propriedade denominada Cruzeiro, morava um senhor conhecido como “Antônio de Mariquinha” e seu filho Gilson, que poderiam informar algo sobre esta gruta.

Igreja Matriz de Santana dos Matos, dedicada a Nossa Senhora Santana.

Da Residência a propriedade Cruzeiro, à distância percorrida gira em torno de quatro quilômetros, em estrada carroçável de boa qualidade. Fomos bem recepcionados pela família do Sr. Antônio, onde conhecemos o seu filho, Gilson Luis da Silva, considerado o maior conhecedor dos sítios arqueológicos existentes na região.

Gilson nos contou que trabalhava na agricultura, ajudando a família na labuta do dia a dia, quando conheceu o professor da UERN Valdecir dos Santos Junior, mestre em arqueologia e diretor do Núcleo de Arqueologia desta universidade. A partir daí criaram uma parceria e o trabalho entre eles se iniciou no ano de 2002. Até o final de 2007, como fruto deste trabalho, foram cadastrados 82 sítios arqueológicos existentes na região junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A maioria destes locais possui registros rupestres na forma de pinturas da denominada Tradição Agreste, sendo todos na região rural de Santana dos Matos, apontando para uma concentração muito grande destes sítios com vestígios arqueológicos neste município. Para efeito de comparação, os municípios vizinhos de Cerro-Corá e Angicos, possuíam nesta época respectivamente 16 e 18 sítios arqueológicos cadastrados.

As informações sobre a gruta

Buscamos mostrar a Gilson e sua família as informações que possuíamos sobre a Gruta dos Tapuias. Mas para nossa decepção e surpresa, Gilson não conhecia o local, nem sequer tinha ouvido falar desta gruta, mas sabia de uma pessoa em Santana dos Matos que poderia nos ajudar.

Seguimos em direção à cidade, que fica a 30 quilômetros da propriedade Cruzeiro. Onde Gilson buscou um amigo por nome de Pedro das Virgens, funcionário da prefeitura local, que gostava de “dar umas caçadas” na região e conhecia muita coisa. Encontramos um senhor na faixa de cinquenta anos, tranquilo, com um largo sorriso no rosto e que indicou, para nossa alegria, que a informação da gruta era verídica. Descrevendo o antigo relato ao nosso informante, este confirmou que as informações do desconhecido articulista “Dapraia”, escritas há noventa anos, só poderiam ter sido feitas por alguém que esteve no local. O que nosso antigo escritor chamou de “arraial”, é na verdade a fazenda São Miguel, onde em suas terras está situada a gruta, sendo esta uma das maiores propriedades da região.

A pedra circular, no centro da foto e no alto da serra, é o bloco de granito onde está a Gruta dos Tapuias.

Seguimos o caminho indicado, onde deixamos nosso carro à beira da estrada de terra batida, no inicio da “Ladeira da Coãn” que sobe a Serra de Santana. Com uma altitude máxima de 840 metros, o visual da imponente serra é espetacular.

Gilson comentou que a partir desta ladeira, os antigos viajantes poderiam escolher entre três estradas para alcançar a região do Seridó potiguar e depois a Paraíba, eram as estradas do Cabugizinho, Fervedeira e Jaú, muito utilizadas por almocreves e comboieiros no passado, que usavam tração animal para o transporte de mercadorias.
Observando a região com a ajuda de binóculos, confirmamos que “Dapraia” realmente visitou o local, pois calculamos a distância da estrada a da região da gruta, em torno de três a quatro quilômetros. Transportávamos oito litros de água e uma rapadura e iniciamos o caminho para a gruta quase as onze da manhã.

As Surpresas do Caminho

A trilha existente segue primeiramente em declive, depois vai beirando um riacho que estava completamente seco na ocasião. É uma região de caatinga fechada, onde se deve andar com cuidado e atenção. Muitos mandacarus, facheiros, com seus pontiagudos espinhos, estão às margens da picada.

Caminho para a gruta.

Em certo ponto da caminhada, nos deparamos com uma grande parede de pedra, com mais ou menos sete metros de altura, e quase dois metros de espessura. Gilson comentou que a estrutura fazia parte de uma antiga barragem privada, da qual não sabia o nome, construída em 1941 e destruída durante as enchentes de 1958. Exploramos o local e fiquei imaginando o trabalho que foi construir esta obra, utilizando braços humanos e tração animal.

Restos da antiga barragem.

Seguimos a caminhada agora em aclive, devagar, em meio a um caminho de pedras soltas, que compõem o leito seco do rio que abastecia a antiga barragem. Ao meio-dia o calor era insuportável, mas a ideia de conhecer este estranho lugar animava o grupo. Durante esta parte do caminho, contemplamos muitos lajedos de pedras, que na época do inverno se transformam em corredeiras. Mais um declive para aliviar e depois mais um aclive para penalizar e o altímetro do GPS marcando uma altitude de 430 metros.

O Ponto a ser alcançado no alto da serra. Local da gruta.

Em dado momento paramos para descansar e já contemplávamos a pedra onde se encontra a Gruta dos Tapuias. Iniciamos a ultima parte da nossa subida. Próximo ao final, a vegetação da área já não era tão fechada, mostrando que existe retirada de madeira no local. Com a vegetação mais rala, o sol cobrava um preço alto pela nossa aventura. Agora era só ascensão, de vez em quando parávamos um pouco, seguindo devagar, mas sempre progredindo. Conforme subíamos tínhamos uma bela visão da região.

A Gruta dos Tapuias

Finalmente o grupo chegou ao grande bloco de granito que compõem a Gruta dos Tapuias, sendo esta rocha uma estrutura que possui em torno de 20 metros de altura e uns 3.500 m² de área. Como descreve “Dapraia”, duas fendas servem de entrada, onde uma pequena escalada coloca a pessoa dentro de uma parte da gruta.

Pedra dos Tapuias

Como ponto de observação, quem está neste local, não perde nada do que ocorre na região, em nenhuma das direções.

Durante nossa exploração, infelizmente não foi encontrado nenhum registro de pinturas rupestres, ou de material lítico, ossos ou de outros vestígios que indicassem ter sido o local utilizado em tempos passados e que ali ocorreu uma grande atrocidade. Existe um local onde o solo é composto de sedimentos e uma escavação poderia, ou não, comprovar se o abrigo foi utilizado pelo grupo descrito no antigo artigo. Neste local, a leitura do altímetro do GPS confirmou 743 metros de altitude.

Fendas de acesso a gruta.

Espeleologicamente a Gruta dos Tapuias é um abrigo formado pelo deslocamento, ou desgaste, de grandes rochas graníticas, que ao longo de milhões de anos, se acomodaram de tal forma, que foram criados naturalmente pequenos abrigos, sendo esta a característica normal da formação de cavernas graníticas nesta região.

Vista da parte externa, a partir da entrada da Gruta dos Tapuias.

Ficamos explorando tranquilamente o local e o silêncio no alto da serra foi quebrado pela presença de um bando de macacos-prego, que ruidosamente chamava nossa atenção por ocupar seu território.

Após um tempo para descanso, iniciamos o retorno. Durante o trajeto, tal era o nosso desgaste, que todo nosso estoque de água acabou tornando mais penosa à caminhada e só alcançamos o nosso veículo às cinco e meia da tarde.

Através da leitura de obras como as produzidas por Olavo Medeiros, Fátima Martins Lopes e outros, percebi que não seria impossível, no final do século XVIII, um pequeno grupo de indígenas dos Tarairiú continuar a sua luta pela sobrevivência em um local como a Gruta dos Tapuios. Estes indígenas poderiam ser das tribos Genipapo, dos Paiacu, dos Panacu-Açu, Caratiú, Ariú, ou os aguerridos Janduís, os Canindés, os Coremas, Panatis ou dos Pegas, que furtivamente buscavam manter um modo de vida fadado à extinção, em uma terra ocupada por brancos europeus, seus descendentes mestiços, seus gados e suas lavouras. Li também que estes mesmos brancos não precisariam de muito estímulo, nem teriam maiores problemas de consciência, para massacrar um grupo errante de indígenas e manter as suas posses.

Mesmo comprovando que o articulista “Dapraia” havia estado no local, pois as suas descrições são extremamente fiéis ao local visitado, não concluímos se a história sobre o abrigo indígena era real, ou uma fantasia de um aventureiro em um momento idílico ocorrido há noventa anos. Infelizmente não consegui descobrir a identidade do autor do artigo, se habitava realmente em Touros e o porquê da sua visita a Gruta dos Tapuia.

Fim da aventura.

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O CARNAVAL ESTÁ CHEGANDO

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Relembrando o Lança Perfume

Consta que foi no início do século XX que a empresa Rhodia da Argentina começou a fabricar um desodorante aromatizado, composto quimicamente por éter, clorofórmio, cloreto de etila e uma essência perfumada. Essa mistura era colocada em tubos de latão sob forte pressão e quando entrava em contato com o ar, evaporava rapidamente.

No Brasil a ideia de quem importou este produto para o carnaval, era repetir nos salões da elite o que acontecia nas ruas, quando os foliões mais humildes jogavam águas perfumadas uns nos outros. Rapidamente aceito nas festas de carnaval de todo o país, servia para aromatizar as batalhas de confete, os corsos e os bailes carnavalescos. Nos nobres salões de momo, o lança perfume serviu para aproximar as pessoas, onde alguém lançava a substância em outra pessoa, dando a sensação fria e perfumada. Isso se tornou um símbolo do carnaval, principalmente o carioca e ninguém pensava em inalar o produto.

Nos carnavais que se seguiram o lança perfume virou uma praga de norte a sul do Brasil. Nos salões eram travadas verdadeiras batalhas de esguichos, sem distinção de sexo e sem maiores consequências graves. O produto era vendido em lojas de brinquedos, ou em bazares de produtos carnavalescos, onde era encontrado junto com mascaras e serpentinas.

Mas com o tempo o pessoal começou a inalar e a situação começou a virar um problema.

Como os jornais viam um típico usuário de lança perfume.

Após algumas mortes por inalação excessiva, associada à embriaguez, ou casos de pessoas que morreram em quedas devido ao estado de alteração produzido pelo lança perfume, o polêmico jornalista carioca Flavio Cavalcanti inicia uma campanha pela proibição do produto. Flavio se tornou conhecido pela sua maneira de falar agressivamente na extinta TV Tupi e de tirar e colocar os óculos constantemente. Sua campanha moralizadora é bem aceita pelo não menos polêmico Jânio Quadros, que em 1961 era o presidente do Brasil. Logo um decreto acabou proibindo a importação do produto para o Brasil.

O lança perfume é considerado uma droga, onde o seu uso ou porte pode levar à prisão por posse ou tráfico. Apesar de não causar dependência física, não significa que deixe causar problemas. Depois de absorvidos pela mucosa pulmonar, suas substâncias são levadas para o sistema nervoso central, fígado, rins, medula óssea e cérebro, causando neste último o bloqueio da transmissão nervosa. Quando inalado acelera a frequência cardíaca, podendo o coração chegar até 180 batimentos por minuto. Tem capacidade de destruição de células do cérebro, pode levar o usuário a ter desmaios ou em caso extremos até à morte através de parada cardíaca.

Fonte-Livro “100 anos de propaganda”, pág. 35, Abril Cultural.

LUÍS DA CÂMARA CASCUDO E OS QUIRÓPTEROS

Autor – Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Quem nasce no Rio Grande do Norte, gosta de ler livros interessantes, de aprender sobre fatos, pessoas e coisas que valham a pena serem conhecidos, dificilmente vai deixar de ler alguma referência, algum livro, ou mesmo episódios da vida de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).

Luís da Câmara Cascudo

Felizmente para este leitor, ele estará diante de toda uma plêiade de obras que vão dos estudos folclóricos, as pesquisas históricas, antropológicas, etnológicas, sociológicas e de outras áreas do conhecimento.

Este grande pesquisador das manifestações culturais brasileiras deixou um extenso material cujo conjunto é considerável em quantidade e qualidade, onde mais de trinta dos seus livros são listados como essenciais ou no mínimo importantes para muitas áreas da pesquisa.

Mesmo tendo passado toda sua vida na provinciana Natal, distante dos grandes centros culturais do país, Cascudo obteve reconhecimento nacional, internacional e sua obra ainda não foi superada.

Romance de Costumes

Como leitor contumaz do “Mestre Cascudo”, como ele é conhecido pelos potiguares, na sua vasta produção li poucas referências às cavernas, a espeleologia e seus assuntos correlatos. Até então tinha lido somente pequenos apontamentos sobre lendas envolvendo cavernas, a utilização de nomes ligados a espeleologia na toponímia de pontos geográficos pelo Brasil afora e outras referências. Imaginava que para Cascudo, a espeleologia e o universo de assuntos que rodeiam esta área do conhecimento eram limitados. Talvez um assunto que não tenha despertado o seu interesse?

Foi então que um amigo me apresentou um livro que o próprio autor definia como um “romance de costumes”, o único escrito por ele. Este livro é “Canto de Muro”.

A primeira edição em 1959.

Confesso que depois de ler “Geografia dos Mitos Brasileiros”, “História da Cidade do Natal”, “Dicionário do Folclore Brasileiro”, “Viajando o Sertão”, “Vaqueiros e Cantadores” e outras maravilhas do universo de Cascudo, aos quais tenho como referências obrigatórias em minhas pesquisas, eu não me animei em conhecer este “Canto de Muro”. Imaginava esta obra como sendo uma viagem literária do pesquisador, por uma área das letras “nunca d’antes navegada”.

Comecei a folhear o livro, onde os personagens que se apresentavam a minha frente eram um escorpião chamado “Títius”, ou a aranha “Licosa”, ou ainda a lagartixa “Vênia” e outros. Após o exame inicial, fiquei com vontade de devolver na mesma hora o objeto oferecido.

Mas como este amigo havia tido a gentileza de me emprestar seu livro, me entregando com um largo sorriso de satisfação no rosto, tive vergonha de devolvê-lo.

Em todo caso imaginei ir para casa aproveitar o “Canto de Muro” para contar algumas “historinhas de animais” para minha filha Tainá quando ela tinha apenas sete anos de idade e entretê-la na hora de dormir.

Ao folhear mais calmamente o romance de Cascudo, imaginando a “historinha” mais interessante para contar, quem verdadeiramente foi ficando no “Canto do Muro” fui eu.

O livro é verdadeiramente maravilhoso.

Cascudo fez um “romance de costumes”, mas de animais.

E que animais são estes? A maioria são justamente as espécies menos enaltecidas pelo homem. São aquelas que vivem literalmente no “Canto de Muro”. Passeiam por suas páginas aranhas, besouros, ratos, baratas, cobras, escorpiões e outros que vivem escondidos nos quintais das casas velhas, entre troncos decaídos, buracos, ripas, tijolos quebrados e em outros locais que são rejeito e entulho da desenvolvida humanidade.

O autor age unicamente como um narrador, em meio a uma primorosa escrita, aonde vai trazendo de forma romanceada, os aspectos naturais destes animais. Os capítulos se seguem como se fossem uma descrição feita em uma caderneta de campo de um pesquisador atento e minucioso. Cascudo comentou que desde cedo fora seduzido pela história natural, que foi se aprimorando quando captou, e anotou os episódios da vida dos protagonistas do livro. Ele realizou estas anotações, principalmente nos jardins e quintais da casa paterna, a chamada “Vila Cascudo”.

Com o passar do tempo, o homem crescia, mudanças surgiram em sua vida, seus caminhos literários se expandiam, mas nunca deixou de observar e anotar, desinteressadamente, o comportamento de alguns animais.

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“Quiró”

Para minha satisfação, entre os animais observados e descritos por Cascudo, está o mais representativo membro da fauna cavernícola, os morcegos.

No terceiro capítulo vamos encontrar “O Mundo de Quiró”, onde o autor inicia com a citação de certo “Sr. Hemenegildo”, proprietário de um pomar em Natal, que resoluto questionava;

“- Faça-me o favor de dizer: para que Nosso Senhor fez o morcego?

Logo após o escritor mostra uma das características mais conhecidas dos quirópteros, a forma como descansam;

“Quiró está com as unhas dos pés fincadas numa saliência da parede, voltado para ela, e com a cabeça para baixo, dormindo. Não sei de outro vivente que durma desta maneira. Dorme todo o dia e detesta a luz e mesmo as cores garridas e atraentes.”

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Vai descrevendo de forma clara e simples o único mamífero voador, comparando-o a outros animais e de como utilizava suas características naturais.

Em meio a deliciosas informações biológicas, que certamente podem fazer muitos cientistas desta área torcerem o nariz, Cascudo afirmou que suas observações sobre os morcegos foram feitas em expedições noturnas no centro de Natal, nos bancos da tradicional Praça Sete de Setembro, defronte ao antigo Palácio do Governo.

Cascudo não estava escrevendo um chato, monótono e, como muitos realizam, inútil texto acadêmico. Suas informações fluem de uma maneira tranquila  fazendo com que o leitor, de forma fácil, conheça sobre o peculiar mundo destes animais.

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Como de praxe em suas obras não faltam citações explicativas de figuras históricas, como a do naturalista e escritor francês, George Louis Buffon, que tinha o título de conde de Leclerc (1707 – 1788), que afirmava serem os quirópteros “mais um capricho que uma obra regular do Criador”.

Lembrava o jesuíta e naturalista italiano, Lazzaro Spallanzani (1729 – 1799), aquele que em 1756 cegou quatro morcegos, colocou todos em um quarto escuro, com uma teia de fios verticais embebidos em forte visgo, para assim prender os pequenos animais ao menor esbarrão e, mesmo sem compreender, percebeu que os morcegos conseguiam se desviar dos finos obstáculos.

Ou uma citação do também naturalista francês, Georges Cuvier (1769 – 1832), que descreveu aspectos da gênese destes mamíferos e em 1797 batizou a família dos morcegos com o termo “quiróptero”.

Afirmava que o mamífero estava em terras brasileiras desde o início dos tempos, mas comentava com certa decepção que estes animais não tinham mito, ou lenda na memória popular no Brasil, servindo “apenas para fantasias de carnaval”.

Cascudo não procurou desfazer a triste lenda que afirmava “serem os morcegos, uma evolução dos roedores mortos”. Mostrava inclusive as ligações que havia entre os termos “morcego” e “rato” nos idiomas inglês, alemão e francês. Mas não fechou a questão da falsa evolução voadora dos roedores e deixava o tema em aberto.

Outra faceta dos quirópteros que o autor comentou, foi em relação ao sentido de orientação destes animais. Apontando que milhares de anos antes, estes já possuíam um radar.

Cascudo, a Cobaia dos “Morcegos-Vampiro”

Entre as espécies deste mamífero, a que mais chamou a atenção do folclorista foram os membros da família dos morcegos-vampiro (Desmodus rotundos). Cascudo buscou detalhar a forma como estes estranhos animais agiam em busca do seu alimento. Lembrou que foi o cronista português Gabriel Soares de Sousa, em seu “Tratado Descritivo do Brasil em 1587”, o primeiro estudioso a analisar a ação dos morcegos-vampiro.

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Cascudo chega a afirmar que em algumas ocasiões, em locais onde proliferavam estes mamíferos, o famoso folclorista chegou a dormir despido da cintura para cima, na intenção de se transformar em cobaia. Seu desejo era conhecer os mecanismos do analgésico que estes animais utilizam para manter a vítima adormecida enquanto retiravam sangue.

Devido à tez bastante clara da sua pele e sua compleição forte, o pesquisador era um alvo fácil para estes quirópteros. Mas afirmava decepcionado que nunca foi mordido. Ele não podia então “dar seu depoimento pessoal sobre a ação destes mamíferos”.

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Contudo informa que em uma ocasião viu um destes animais “saborear” o sangue de um jumento “Catolé” e este nem dar atenção ao banquete que faziam nele. Relembrou que no antigo Brasil colonial, os homens do campo atribuíam ao “Saci-Pererê”, a responsabilidade pelas sangrias nos pescoços e dorsos dos diversos tipos de alimárias que eram utilizados nas antigas fazendas.

Para quem gosta da espeleologia e não tem medo de quirópteros, o terceiro capítulo de “Canto de Muro” é uma ótima pedida de leitura.

Luis da Câmara Cascudo, nas últimas páginas, confessa que esta obra parecerá estranha aos que haviam lido seus trabalhos anteriores. Ele não pensava em publicá-lo, se assim o fizesse seria com um pseudônimo. O amigo e editor José Olympio aceitou as condições, mas a família e outros amigos convenceram-no a assinar o “Canto de Muro”.

Lançado em 1959, quando o autor tinha então setenta e três anos foi um sucesso e uma surpresa para a intelectualidade brasileira. Este livro teve mais três edições, todas acolhidas de forma positiva por parte do grande público, principalmente aqueles que não se entregam ao cotidiano, que com olhos atentos sempre focalizam as coisas naturalmente interessantes. Mesmos as pequenas.

P.S. – Desde 1990 que participo de grupos dedicados ao conhecimento e preservação de cavidades naturais no Rio Grande do Norte, visitando estes ambientes na Região Oeste do estado e vendo muitos morcegos. Na foto abaixo estou na Gruta Três Lagos, no município de Felipe Guerra.

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O RICO MANUEL MACHADO E A SUA VIÚVA

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

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Amélia Duarte Machado, a viúva Machado.

No início do século XX, o comerciante Manuel Machado, nascido em Portugal era o homem mais rico de Natal. Consta que sua prosperidade econômica vinha principalmente do seu comércio.

Pela propaganda que vemos mais adiante, dá para ver que ele trabalhava com importação e exportação de uma grande gama de produtos, muitos de primeira necessidade, e ainda tinha uma participação em negócios marítimos.

Logicamente que apenas esta propaganda não explica o poder econômico deste comerciante. Aparentemente são os investimentos em terras, onde ele tinha muita visão na hora das aquisições, que fez aumentar seus rendimentos. Era casado com a natalense Amélia Duarte Machado, que lhe proporcionou uma longa união, mas que não deixou filhos.

Manuel Machado faleceu na metade da década de 1930 e começa uma interessante história envolvendo a sua mulher, que passa a ser conhecida apenas como a Viúva Machado.

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Ela se torna muito rica, que vive de uma polpuda renda deixada pelo espólio do marido. Mas que ao invés de abrir seu suntuoso palacete (construído em 1910) para a provinciana sociedade natalense, localizado próximo a Igreja do Rosário, ela se fecha em sua residência. Consta que ela recebia poucas visitas, saia muito pouco de casa (até porque tinha uma igreja na porta) e ainda sofria de uma estranha doença, onde se comentavam que suas orelhas eram muito grandes.

Daí as pessoas de Natal associavam este estranho fato ao de não ter filhos, dela ser viúva e diziam que isto tudo seria um “castigo divino”. Outros comentavam que a Viúva Machado teria realizado um “pacto com o cão” para ficar rica e agora pagava pelos seus erros com esta doença.

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Em meio à ignorância reinante, as pessoas tolas e invejosas perceberam que a Viúva Machado, talvez para compensar a ausência de filhos naturais, adorava conviver com crianças dos poucos amigos e dos seus parentes.  Não demorou muito e se espalhou na cidade ela comia o fígado (ou o “fígo”) de crianças. Consta que Amélia teria sido até mesmo agredida verbalmente e sido alvo de chacota publicamente.

Muitas mães de Natal, ao longo de muitos anos, aproveitaram a deixa para espalhar o terror entre seus rebentos, dizendo que se eles não se aquietassem, “a Viúva Machado vinha comer seu fígado, para evitar que suas orelhas crescessem”. A coitada da viúva passou a ser conhecida como “papafigo” e isso só aumentou seu isolamento. Amélia Duarte Machado faleceu no início da década de 1960.

Se é verdade essa história das alterações em suas orelhas, provavelmente ela sofria de uma rara doença denominada Síndrome de Treacher Collins. Esta nada mais é que um distúrbio genético que gera defeitos no crânio e nas características faciais do seu portador. Descrita em 1900 pelo cirurgião inglês Edward Treacher Collins, esta doença afeta o tamanho e o formato das orelhas, pálpebras, maças do rosto, maxilar inferior e superior. A Síndrome de Treacher Collins pode ser grave em alguns casos e a maioria dos que são afetados não possuem problemas mentais.

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Pessoalmente acredito que além de sua rara doença, Amélia Duarte Machado padeceu de duas enfermidades típicas existentes entre a sociedade de Natal; a inveja e a eterna mania de dar conta da vida alheia.

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O ÁS DA AVIAÇÃO ALEMÃ NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL QUE TRABALHOU EM NATAL

Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

A história da aviação em Natal, no período anterior a Segunda Guerra Mundial, é emocionante e inigualável. Entretanto, pouco destes fatos históricos são conhecidos do público em geral. Poucos são os livros que contam as aventuras dos aviadores durante as décadas de 1920 e 1930, quando eles cruzavam os céus em suas precárias máquinas aéreas, viajando através do Atlântico Sul quase sem equipamentos e chegando a nossa provinciana capital.

Ao realizar uma pesquisa no Arquivo Público do Rio Grande do Norte, acabei me deparando com um extenso arquivo contendo fichas de pedido de vistos, para passaportes de vários pilotos estrangeiros que vinham trabalhar em Natal. Pesquisando em outros centros de informações, descobri que um destes pilotos viria a se tornar um dos principais ases da aviação de caça noturna alemã na Segunda Guerra Mundial, superaria a derrota da Alemanha e terminaria sua carreira como general da nova Força Aérea Alemã, na então Alemanha Ocidental.

Um dos aviões Dornier DO-26 sendo posicionado no Rio Potengi. Ao fundo a Praia da Redinha.

Os alemães chegam a Natal

Esta história tem início com a chegada da aviação comercial alemã no Brasil em 1926, quando foram iniciados estudos técnicos para implantação de linhas aéreas. Neste mesmo ano, um hidroavião Dornier Wall, chegava ao Rio de Janeiro, realizando o primeiro vôo comercial no país. Diferentemente dos franceses, os alemães pouco deram atenção à região Nordeste no início de suas operações, tanto que a empresa Sindikat Condor, estabeleceu em 1927 linhas aéreas entre Porto Alegre e o Rio de Janeiro e outras rotas para o interior do estado gaúcho, com serviços de transportes de passageiros e cargas.

Apenas em 1930, conduzido pelo diretor Fritz Hammer, o hidroavião “Guanabara” chegava a Natal. Este alemão vinha com a missão de instalar uma base de hidroaviões na cidade. O então governador Juvenal Lamartine apoiou incondicionalmente o projeto, isentou de taxas a empresa e cedeu uma área para a instalação de uma base próxima à foz do rio Potengi, na conhecida Praia da Limpa (Montagem). Em fevereiro de 1930 é inaugurada a linha entre Natal e Porto Alegre e em Março deste mesmo ano tem início os planejamentos para uma ligação entre a América do Sul e a Europa.

Em 3 de fevereiro de 1934, a Deutsche Lufthansa implanta o primeiro serviço aéreo transoceânico do Mundo, onde em dois dias e meio uma carta viajava entre Berlin e o Rio de Janeiro, sendo este um avanço espantoso para a época. O defeito deste sistema estava no fato das aeronaves vindas da Europa necessitarem amerissarem no meio do Oceano Atlântico, para depois ser içada por um navio-catapulta, abastecida e depois catapultada em direção a Natal. Algum tempo depois este sistema foi desativado com a entrada de novos aviões com maior raio de alcance.

A atuação dos alemães crescia fortemente na região, chegando a ponto de, em 1936, estarem transportando quase 16.000 pessoas. Sobre este dado é importante lembrar que a capacidade de muitas aeronaves neste período, não era superior a 20 passageiros.

Horário da Condor em Natal.

Condor tinha vôos semanais para Rio e Buenos Aires

Em Natal os vôos da Condor eram semanais, com o fechamento da mala postal às dezoito horas da quarta-feira e a partida na quinta, sempre às cinco da manhã. A empresa prometia que o passageiro estaria no Rio de Janeiro em um dia. Para Buenos Aires se chegava em dois dias. Já o serviço transatlântico era uma operação conjunta Condor-Lufthansa, com saídas ás dezoito horas da quinta-feira e chegada em quatro dias a Europa, com escalas em Bathust (na atual Gâmbia), Las Palmas (Ilhas Canárias), Sevilha, Barcelona (Espanha) e Frankfurt (Alemanha). Muitas vezes os horários e dias de partida mudavam, onde a propaganda nos jornais locais sempre solicitava aos interessados, entrar em contato com o agente das empresas na cidade, que em 1935, tinha esta função exercida pela firma Filgueira & Cia, que ficava na Rua Quintino Bocaiuva, próximo à igreja do Rosário.

Em 1939, os alemães implantaram o avião que provou ser o mais confortável, o mais silencioso e o mais caro do mundo na sua época, o quadrimotor Focker Wulf 200. Transportava quatro tripulantes, vinte e oito passageiros e era considerado um fantástico salto de qualidade em termos de viagens aéreas. Para efeito de comparação seria como Natal, nos dias de hoje, fosse rota normal para o novo super-avião Airbus A-380.

O piloto Ernst Wilhelm Modrow.

Alemães se mantinham à distância

Em 2 de janeiro de 1939, o piloto Ernst Wilhelm Modrow, de 30 anos, natural de Stettin (atualmente Szczecin, na Polônia), recebia a sua autorização de viagem para Natal. Provavelmente este não era o primeiro pedido de ingresso de Modrow em Natal, pois desde 1930 ele já trabalhava na América do Sul, primeiramente na empresa aérea colombiana SCADTA, uma empresa de aviação com controle alemão, e a partir de 1937, como responsável pelas rotas turísticas da Lufthansa.

Neste período, a aviação se profissionalizava cada vez mais. Em Natal o movimento de aviões seguindo para o sul do país, ou em direção a Europa, fazia parte do dia a dia, bem como a presença de pilotos e equipes de apoio na cidade. Muitos deles aproveitavam as benesses da cidade, principalmente às praias de águas quentes.

Ficha de entrada no Brasil do futuro ás alemão.

Lendo os jornais da época, percebe-se que os aviadores alemães, talvez pela sua própria natureza mais comedida, não interagiam tão fortemente com a população. Diferentemente dos franceses e italianos, os germânicos ficavam alojados na sua base na Praia da Limpa, mais distantes da convivência direta com a cidade.

Em relação à Modrow, poucas foram às informações sobre a estada deste piloto em Natal. Era apenas mais um dos muitos aviadores estrangeiros de passagem pela cidade. Seu trabalho na América do Sul durou até agosto de 1939.

A partir de setembro, com a eclosão da guerra, Modrow é convocado para a Força Aérea Alemã (Luftwaffe). Segue primeiramente para a frente norueguesa, servindo em um esquadrão de transporte, o KGr. Z.B.V. 108, que utilizava o hidroavião Dornier DO-26. Primeiramente efetuou missões de reconhecimento e de abastecimento de tropas na região de Narvik. Em maio de 1940 seu avião havia amerissado para descarregar equipamentos no fiorde Rombakken, quando foi atacado por caças Spitfire, da Força Aérea Britânica (RAF), e destruído. Mesmo ferido, Modrow foi o único sobrevivente da tripulação.

O hidroavião Blohm & Voss Bv 222

Após sua recuperação, passa um período como instrutor de vôo, seguindo ao encontro de sua unidade, que em 1942 se encontrava sediada na Itália. A ele é destinado o grande hidroavião de seis motores Blohm & Voss Bv 222, um dos maiores aviões de transporte da Segunda Guerra Mundial. Tinha a missão de realizar vôos para a África do Norte, no abastecimento das tropas alemãs do Afrika Korps e retirada de feridos. Modrow concretiza mais de 100 missões de transporte, sendo esta quantidade de missões considerada um verdadeiro prodígio, pois devido a suas dimensões e baixa velocidade, o BV 222 era considerado um alvo fácil para os caças aliados.

Devido as suas habilidades, em 1943 é transferido para um grupo de caça noturna, que tinha a função de destruir bombardeiros ingleses que atacavam diretamente o coração da Alemanha. É designado para o II Grupo do esquadrão NJG 1, baseado em bases na França ocupada.

Símbolo do NJG 1.

Em uma noite de março de 1944, Modrow faria sua primeira vítima sobre a localidade de Venlo, Holanda, provavelmente um caça noturno bimotor do tipo “Mosquito”. Sua segunda vítima é um bombardeiro quadrimotor britânico “Halifax”, seguido por outro bombardeiro quadrimotor do tipo “Lancaster”, também britânico.

Um caçador de Aviões aliados, nos céus noturnos da Europa

O Hauptmann (capitão) Modrow.

O caça de Modrow era um Heinkel HE 219, uma das melhores aeronaves na categoria de caças noturnos já fabricados. No chão a sua aparência não era das melhores, pois a aeronave fora construída com um grande e desajeitado trem de pouso, um conjunto de antenas na parte dianteira e a cabine para piloto e operador de radar bem à frente da aeronave.

Mas esta aparência era enganadora, no ar este avião era quase imbatível. Possuía um moderno sistema de radar frontal FuG 212C-1 “Lichtenstein”, que servia para a localização dos lentos bombardeiros noturnos aliados. Para derrubá-los, o HE 219 utilizava um revolucionário e inovador modelo de canhões duplos conhecido como “Schräge Musik”, tradução para “Jazz Music”, numa alusão ao ritmo acelerado das bandas de swing norte-americanas.

Heinkel HE 219

Era uma arma impressionante, cujo diferencial estava no fato dela disparar para o alto. Tratava-se de dois canhões de calibre 30 milímetros, instalados na parte traseira da fuselagem, possuindo uma inclinação de 65 graus e disparavam contra a parte baixa e desprotegida dos bombardeiros ingleses.

A ação de caça ocorria normalmente da seguinte maneira; um piloto de caça noturno alemão voava sozinho na noite, sempre apoiado por radares em terra que tinham a função de localizar um bombardeiro. Após marcarem o alvo, transmitiam para o operador de radar do avião atacante a posição da vítima. O piloto do avião caçador seguia para área de ataque, localizava visualmente o alvo, posicionava-se atrás e abaixo de sua presa, passava exatamente sob a “barriga” da desprotegida aeronave, abria fogo e o alvo normalmente era destruído.

Modrow vai desenvolvendo sua capacidade de caçador de forma notável, tanto que em junho de 1944, em duas noites distintas, derruba sete bombardeiros quadrimotores, sendo condecorado com a Ritterkreuz (Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro). Os combates prosseguiram nos meses seguintes e ele novamente obteria grande sucesso na noite de 23 para 24 de setembro de 1944, derrubando quatro quadrimotores ingleses, próximo a Düsseldorf, Alemanha. De suas 34 vitórias confirmadas, 33 foram durante o ano de 1944. Em janeiro de 1945 ele seria condecorado com a Deutsches Kreuz (Cruz Germânica), uma das mais elevadas honrarias da Força Aérea Alemã na Segunda Guerra.

Deutsches Kreuz (Cruz Germânica).

Na noite de 1 de fevereiro de 1945, seu avião HE-219 teve problemas, Modrow e o seu auxiliar, Alfred Staffa, utilizaram o novo sistema de assento ejetável, sendo uma das primeiras tripulações a usar esta nova invenção. Este ás alemão abateria sua última vítima na noite de 5 para 6 de janeiro de 1945, vindo a se render para os aliados ocidentais quando da assinatura do Armistício, em maio daquele ano.

Ao ás Modrow foi creditado 34 vitórias, em 259 missões, incluindo 109 missões como piloto de caça noturno. Na década de 1950, com a reconstrução das Forças Armadas Alemãs, Modrow juntou-se à Bundesluftwaffe, a nova Força Aérea Alemã, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1964, quando passou para a reserva no posto de tenente-coronel.

Com relação a sua aeronave de caça, atualmente existe apenas um exemplar do HE 219 sobrevivente em todo o mundo e encontra-se no famoso Museu Smithsonian, em Washington, capital dos Estados Unidos.

Ernst-Wilhelm Modrow faleceu de causas naturais na cidade portuária de Kiel (Alemanha) aos 82 anos de idade, em 10 de setembro de 1990.

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1922 – O POEMA DE PALMYRA WANDERLEY AOS AVIADORES

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Verso de Palmyra Wanderley sobre o aviador,18-06-1928-1

AVIADOR

Por ocasião da viagem aérea de Sacadura e Coutinho, de Portugal ao Brasil.

Alonga o voo. A imensidão recorta.

Domina assim o espaço, o Azul domina,

Já que o seio da terra não comporta,

O grandioso ideal que te fascina.

Sonha! Teu próprio sonho te transporta.

Acima de ti mesmo – Asas empinam!

Es quase um Deus! Ser homem pouco importa.

Se a conquista do céu, faz-se divina.

Ser como as águias. Voa nas alturas.

Transpõem o etéreo, as siderais planuras,

Da Via Láctea a célica mansão.

Sobe ainda mais, num frêmito inaudito.

-Percorre as cordilheiras do infinito.

Heroico bandeirante da amplidão.

Palmyra Wanderley

Em 1922 o mundo voltou seus olhos para dois oficiais da marinha portuguesa, que tentavam em um frágil aeroplano monomotor e anfíbio, cruzar pela primeira vez a parte sul do grande Oceano Atlântico. Estes dois homens eram Carlos Viegas Gago Coutinho e Artur Sacadura Freire Cabral.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

O voo teve início no dia 30 de março, em Lisboa, e só se encerrou, depois de muitas peripécias e problemas, em 17 de junho em 1922, no Rio de Janeiro. Apesar de toda esta quantidade de tempo para realizar um voo, que atualmente um moderno jato de passageiros realiza em oito ou nove horas, os dois portugueses são merecedores de todos os méritos.

Natal, que na época tinha pouco mais de trinta mil e seiscentos habitantes, sonhava em ver o hidroavião Fairey F III-D Mk2 pousando tranquilamente nas águas calmas do Rio Potengi e assim ter a oportunidade de conhecer o que era uma máquina “mais pesada que o ar”. Os jornais da época mostram toda uma expectativa que se criava na cidade, conforme a empreitada aérea avançava através do Oceano Atlântico. Mas depois da perda do aparelho nas proximidades do Arquipélago de São Pedro e São Paulo e da reposição por parte do governo português de um novo Fairey para completar a jornada, os natalense imaginavam que, após a passagem por Fernando de Noronha, os dois aviadores lusos sobrevoariam a capital potiguar. Mas tal fato não ocorreu.

Reprodução em Lisboa do hidroavião utilizado pelos portugueses. Fonte-Wikipédia

Fosse pelo atraso da viagem ou pelo desconhecimento das condições que Natal oferecia como ponto de apoio, Gago Coutinho e Sacadura Cabral seguiram para a capital pernambucana, onde tiveram uma recepção apoteótica. Finalmente em 17 de junho de 1922 chegaram ao Rio de Janeiro, onde a consagração foi total.

Para a capital do Rio Grande do Norte sobrou os belos versos da poetisa Palmira Wanderley, publicado no jornal “A Republica”, no dia 16 de junho, um dia antes da chegada dos portugueses ao Rio.

Jornal “A Republica”, 16 de junho de 1922.

A natalense Palmira Guimarães Wanderley nasceu no dia 6 de agosto de 1894, no seio de uma família de intelectuais. Mesmo vivendo em uma sociedade provinciana e extremamente elitizada, ela possuía um pensamento aberto e um maravilhoso talento para a poesia. É considerada uma precursora do jornalismo feminino no Rio Grande do Norte, pois aos vinte anos criou, junto com sua prima Carolina Wanderley, a Carola, e outras “senhorinhas”, uma revista denominada “Via-Láctea”. Esta foi a primeira publicação periódica dirigida ao público feminino potiguar e se tornou um ótimo espaço para a difusão da produção cultural feminina local.

Palmira colaborou em diversos jornais e revistas. Seu primeiro livro, “Esmeralda”, foi publicado em 1918. Em 1929 foi a vez de “Roseira Brava”, obra que lhe valeu menção honrosa no Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, além de uma ampla repercussão nos meios literários do país. Ela ainda contribuiu na realização da opereta “Festa das Cores” e foi membro da Academia de Letras do Rio Grande do Norte, onde ocupou a cadeira nº 20.

Em seus poemas exalta Natal, seus acontecimentos, suas formas, sua fauna, flora e tipos da terra, sendo considerada como a “poetisa oficial” da cidade do Natal.

Palmirazhg
A poetisa Palmira Wanderley

Esta mulher, uma das maiores referências da cultura potiguar, faleceu no dia 18 de novembro de 1978, em Natal e segundo seus biógrafos, pobre e solitária.

Apesar que, afora o falecido Nevaldo Rocha, quem é realmente rico nesta terra cheia de gente que come cuscuz e arrota caviar?

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A DESCONHECIDA DE “PARNAMIRIM FIELD”

Quadrimotor C-87 abastecendo.

Autor – Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Atualmente os recursos existentes nas nossas máquinas ligadas a informática são maravilhosos. Quando utilizamos estes produtos para escanearmos fotos antigas, sejam a partir de originais, ou inseridas em livros, muitas vezes descobrimos situações interessantes. Na foto principal deste artigo vemos um destes casos que chamam atenção.

Publicada no Brasil originalmente na página 129 do livro “Trampolim para a Vitória” (Ed. Universitária, 1993), de autoria do professor Clyde Smith Junior, a imagem mostra o abastecimento de um quadrimotor norte americano Consolidated C-87, “Liberator Express”, no campo de Parnamirim, em maio de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial.

Vemos um trabalhador (provavelmente brasileiro e sem nenhum material de proteção) com um compressor, retirando o combustível de um dos mais de trinta tambores de gasolina de alta octanagem mostrados. No alto da asa da aeronave temos quatro indivíduos (pelas roupas utilizadas devem provavelmente ser dois americanos e dois brasileiros) trabalhando no enchimento dos enormes tanques do C-87. Mas o que realmente chama à atenção na imagem é a existência de dois personagens no canto direito da foto.

A desconhecida e o “gringo”.

Nela vemos um homem alto, branco, de botas, bermudas, chapéu estilo “tropical” e sem camisas. Esta pessoa observa tranquilamente o serviço na aeronave e provavelmente deveria ser um dos inúmeros “yankes” que viveram, ou passaram, pela base de apoio de Parnamirim. Ao seu lado se encontra uma mulher de baixa estatura, negra, descalça, aparentando ser jovem, com um pano enrolado na cabeça, que calmamente observa o serviço, posicionada ao lado do provável estadunidense. O detalhe é que todos dois estão sobre os tambores e, pelo menos na foto, ninguém mais está em cima destes objetos.

A pergunta é bem simples; o que esta mulher fazia neste lugar?

Parnamirim Field
A grande base de Parnamirim Field durante a Segunda Guerra Mundial.

Pois afinal de contas havia uma guerra acontecendo e poderíamos imaginar que a segurança em “Parnamirim Field”, como os americanos chamavam o antigo “Campo dos Franceses”, seria extrema e jamais poderia ocorrer este tipo de situação. Seria esta mulher então uma “amiga” dos americanos, que realizava serviços para os “gringos” e assim havia sido “convidada” para ver aquela faina?

Não sabemos, mas temos o conhecimento que a relação das tropas americanas na região de Natal, fossem os que trabalhavam de forma fixa, ou os que apenas estavam em trânsito, era muito próxima da população local, principalmente a de baixa renda. Sabe-se que muitas pessoas realizavam inúmeros tipos de serviços para os estrangeiros. Lavagens e concertos de roupas, câmbio, limpeza de barracas, reparos em alojamentos e compra de objetos eram alguns dos serviços realizados.

Consolidated C-87 “Liberator Express”. Fonte-Wikipédia.

O número de americanos e de trabalhadores brasileiros que construíram o aeroporto, segundo Antonio Barroso Pontes (in Cangaceirismo do Nordeste, Ed. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 2ª Edição. 1973, pág. 75), seria superior a mais de “quarenta mil”. Sendo este número correto, não é de admirar que muitas pessoas passassem a viver nas proximidades do complexo militar. Normalmente viviam em casas de taipas, construídas sem nenhum planejamento e com sérios problemas de higiene. Muitas destas pessoas chegaram a região de Parnamirim vindas da zona do semiárido potiguar, fugindo da grande seca ocorrida em 1942.

Mesmo sabendo destas relações, criadas em grande parte pela necessidade dos americanos por serviços e dos brasileiros por dinheiro, chama atenção a “proximidade” entre os dois personagens existentes na foto.

Já a aeronave mostrada era um transporte criado a partir do consagrado bombardeiro B-24. O “Liberator Express” foi produzido com a intenção de ser um avião de transporte de passageiros VIP, ou um cargueiro aéreo pesado. Possuía maior alcance e melhor desempenho em altitudes do que o tradicional bimotor C-47, este derivado do clássico Douglas DC-3. Não possuía armamentos, podia transportar até 25 pessoas, ou uma carga superior a 10.000 libras. Muitos destes passaram por Natal a caminho da África, Oriente Médio, índia, China e outros locais onde tropas americanas operavam.

Decolagem de um C-87. Fonte-Wikipédia.

QUANDO LAMPIÃO QUASE FOI ANIQUILADO

O COMBATE NA LAGOA DO VIEIRA

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Nos primeiros meses do ano de 1924, o chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o temido Lampião, mantinha junto com seu bando uma intensa atividade de pilhagens, assaltos e ataque aos seus inimigos na região fronteiriça entre os estados de Pernambuco e da Paraíba. Neste setor não eram incomuns as notícias dos cangaceiros nas cidades de Princesa (PB), Triunfo e São José de Belmonte (PE). São deste período dois grandes ataques do bando de Lampião contra o ex-companheiro de cangaço, Clementino Furtado, ou o famoso “Clementino Quelé”.

Lampião

Segundo o livro “Pernambuco no tempo do cangaço, Volume I”, de Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho (Recife,2002), em sua página 328, informa que segundo o Boletim Geral nº 05, da Polícia Militar de Pernambuco, as primeiras horas da manhã de seis de janeiro e 1924, dia dedicado aos Santos Reis, o chefe cangaceiro atacou um sítio próximo a vila de Santa Cruz, atual cidade de Santa Cruz da Baixa Verde, a apenas seis quilômetros de Triunfo, acompanhado de um grupo de cangaceiros calculado em sessenta homens.

Durante seis horas de nutrido tiroteio, Clementino Quelé suportou juntamente com outros membros de sua família, uma terrível provação. Mesmo tão próximo a cidade de Triunfo, somente as onze daquela manhã foi que o sargento Higino Belarmino, ordenou o deslocamento de sua tropa para salvar os sitiantes. Diante do fogo dos policiais, Lampião ordenou a retirada. Na casa ficaram três mortos, sendo um deles irmão de Quelé, e um ferido.

Não satisfeito pelo fato de ter conseguido matar o ex-companheiro de bando, o chefe Lampião retorna cinco dias depois a casa de Quelé, com igual número de cangaceiros, e reinicia o ataque. Aparentemente desta vez a tropa veio em socorro dos sitiantes mais rapidamente. Entretanto, como na ocorrência anterior novamente Quelé perdeu outros parentes e amigos.

Diante da situação, Clementino Quelé o homem que suportou is ataques de Lampião, cruzou a fronteira e seguiu para a cidade de Princesa, onde através da influência do “dono” do lugar, o coronel José Pereira, sentou praça na polícia paraibana. Ele recebeu a patente de sargento e tratou logo de montar uma força volante para caçar seu maior inimigo e o seu bando.

Diante da repercussão destes combates, as forças policiais dos dois estados aumentam a pressão contra os cangaceiros. Pelos próximos dois meses circulam notícias da presença do bando na proximidade da vila de Nazaré e informações de um assalto ao sítio São Domingos. (Ferraz, op. cit. Págs. 331 e 332).

Theophanes Ferraz Torres, o notório oficial da polícia pernambucana

Entre os oficiais da polícia pernambucana que desejavam capturar, ou abater, Lampião estava o major Theophanes Torres Ferraz. Aos 30 anos de idade, este militar era considerado uma verdadeira lenda no seio da corporação em que atuava. Ferraz havia se notabilizado pela prisão do famoso cangaceiro Antônio Silvino, em novembro de 1914, após o tiroteio ocorrido no sítio Lagoa da Laje, na zona rural do atual município pernambucano de Vertentes. Há algum tempo ele estava baseado na cidade de Vila Bela, atual Serra Talhada, atuando no desbaratamento de grupos cangaceiros.

Considerado atuante, enérgico e determinado, o nome do major Ferraz é visto costumeiramente nas páginas dos antigos jornais conservados na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. Estes periódicos estampavam principalmente seus telegramas destinados a Eurico Souza Leão, então Chefe de Polícia de Pernambuco, cargo atualmente equivalente ao de Secretário de Segurança. Nestes relatos o major Ferraz dava conta da atuação da força policial no interior.

Em março de 1924, a frente de uma tropa de vinte e cinco policiais, o major Ferraz seguiu de Vila Bela para várias localidades da região do Pajeú pernambucano. Consta que uma das missões do major Ferraz era arregimentar o maior número de homens para formar uma grande volante destinada a combater os cangaceiros que assolavam a região.

Um dos locais para onde a tropa seguiu foi a Serra do Catolé, distante cerca de 30 quilômetros de São José de Belmonte. Este elevado maciço granítico, que possui altitudes que ultrapassam os mil metros, está fincada na região onde as fronteiras dos estados de Pernambuco, Ceará e Paraíba se encontram, tendo seu nome originado a partir da existência de uma grande quantidade de pequenas palmeiras conhecidas como coqueiro catolé. A força policial chegou à região da serra no dia 23 de março.

Na capa do jornal recifense “A Notícia”, de 26 de março de 1924,com a narrativa do combate da Lagoa do Vieira feito pelo major Ferraz.

Segundo João Gomes de Lira, ex-oficial da Polícia Militar de Pernambuco, antigo perseguidor de Lampião na década de 1930 e autor do livro “Memórias de um soldado de Volante” (Recife,1990), informa na página 129 que ao passarem pela  serra, os policiais souberam que três cangaceiros montados em alimárias haviam seguido em direção a região da fronteira da Paraíba. Provavelmente o major Ferraz recebeu a informação que entre os membros daquele pequeno grupo de bandidos estava Lampião e partiu para a perseguição.

Antônio Amaury Correa de Araújo e Vera Ferreira, autores do livro “De Virgulino a Lampião” (São Paulo,1999), na página 96, informam que o chefe cangaceiro seguia com os companheiros que tinham a alcunha de Moitinha e Juriti. Para estes autores os celerados seguiram para a região da Lagoa do Vieira, na intenção de receberem uma encomenda feita a um coiteiro da região.

Durante a nossa visita a região (dezembro de 2008) a área apontada como sendo a Lagoa Vieira estava praticamente seca-Foto Alex Gomes

Por volta das dez horas da manhã os policiais vinham cautelosos ante a aproximação dos cangaceiros. Segundo Lira (op. cit. Pág. 129), o major Ferraz determinou que habitantes da região que buscassem o rastro dos fora das lei. Nesta movimentação os policiais ouviram a aproximação de alimárias, viram os três homens montados e o tiroteio começou.

Logo o animal que transportava o chefe cangaceiro caiu varado de balas e um destes disparos igualmente atingiu o calcanhar direito de Virgulino. O cavaleiro caiu ao solo, onde na seqüência a sua montaria tombou sobre seu pé ferido e Lampião ficou momentaneamente preso. Se não fosse a ação destemida de Moitinha e Juriti, provavelmente aquele seria o dia derradeiro do “Rei do Cangaço”.

Próximo a Lagoa Vieira se encontra a famosa Pedra do Reino, palco de trágicos acontecimentos em 1838

Teria sido o próprio major Ferraz quem atingiu o chefe cangaceiro. De alguma forma Lampião se livra do peso do animal morto e mesmo ferido consegue reagir a altura da situação. Logo, segundo a nota publicada no jornal “A Noticia” ele e seus companheiros fogem em direção a uma serra, que o oficial pernambucano declara ser a “Serra da Catinga”, existente nas proximidades.

Foto-Alex Gomes

Segundo as pessoas que atualmente habitam a isolada região da Lagoa do Vieira, o local deste combate é demarcado pela existência de uma árvore do tipo “pau-ferro”, em uma parte mais baixa do terreno, próximo as margens desta lagoa. Em relação aos detalhes deste acontecimento, os atuais moradores não transmitiram muitas informações, mas foram categóricos em apontar o local do combate, através de relatos passados pelos mais velhos.

O abundante rastro de sangue mostra o caminho para onde a tropa deve seguir. Ainda segundo a nota publicada no jornal recifense, a cerca de uma légua de distância, ou seja, seis quilômetros, na altura de um lugar chamado “Barro”, outros cangaceiros vieram em socorro do chefe e montaram o ponto de disparos. Logo a tropa é violentamente atacada em uma emboscada.

Neste ponto a tropa do major Theophanes Ferraz se encontra em desvantagem, o tiroteio cresce e logo claros são abertos no lado dos militares. Em pouco tempo três policiais são feridos, sendo dois com gravidade.

As estradas da região próxima a Lagoa do Vieira são péssimas, mantendo a região ainda bastante isolada.

Em sua nota na imprensa pernambucana, o major Ferraz informa que diante da situação dos dois feridos, os praças Manoel Amaro de Souza, que havia sido atingido no olho direito e de Manoel Gomes de Sá, baleado no braço esquerdo e na coxa direita, ele decidiu se retirar do combate para buscar um local apropriado para aplicar os primeiros tratamentos, além de conseguir a remoção dos mesmos para Belmonte e Vila Bela. Ainda segundo o oficial, os homens atingidos gravemente foram transportados nas costas dos seus companheiros de farda até uma propriedade denominada Montevidéu. O soldado João Demetrio de Souza, o terceiro ferido, este sem gravidade, consegue seguir por seus próprios meios.

Nas imediações desta árvore, neste mesmo antigo caminho de barro, segundo os moradores da região, foi o local onde se deu este combate do dia 23 de março de 1924.

Da parte dos cangaceiros, o ferimento no pé de Lampião preocupa. O cangaceiro paraibano Cícero Costa de Lacerda propõem conduzir o chefe para o alto a Serra das Panelas, que ficava nas proximidades.

Vendo seu ferimento melhorar Lampião Imaginava que, juntamente com seus cangaceiros, todos estavam bem protegidos no alto da grande serra, mas logo ele teria um encontro com um dos seus mais terríveis inimigos, Clementino Quelé.

Na altitude de mil metros da Serra do Catolé, a esquerda o Ceará e a direita a Paraíba. A partir da esquerda para a direita a equipe participante, Alex Gomes, Solón Almeida Netto (Fotógrafos), os nossos guias na região Luiz Severino dos Santos (Morador do Sítio Catolé, no alto da serra e neto do cangaceiro Luís Padre, primo do mítico chefe cangaceiro Sinhô Pereira), Antônio Antas (Grande amigo e verdadeira biblioteca ambulante sobre o cangaço na região, de Manaíra-PB) e o autor deste artigo.

ASAS ALEMÃS SOBRE O RIO POTENGI

Hidroavião Dornier DO-26, batizado “Seefalk” (Falcão do Mar), da empresa aérea alemã Lufthansa, pousado na margem do Rio Potengi, na chamada Paraia da Limpa.

A Presença Germânica Em Natal Antes da Segunda Guerra Mundial

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Publicado originalmente no jornal TRIBUNA DO NORTE.

A importância de Natal como ponto estratégico para a aviação mundial já foi apontada de diversas formas, principalmente no período da Segunda Guerra Mundial. Entretanto no período anterior ao conflito, mas especificamente sobre a atuação da aviação comercial alemã na nossa cidade, a sua base e os motivos da sua implantação e desativação, são fatos hoje pouco conhecidos.

Durante a segunda metade da década de vinte do século passado, se desenrolava uma forte disputa comercial entre estrangeiros pelo Mundo afora. Competia-se por vantagens no novo e promissor negócio do transporte do correio aéreo e de passageiros. No Rio Grande do Norte, inicialmente os primeiros atores envolvidos foram franceses e alemães, sendo seguidos pelos norte-americanos e italianos.

Os franceses iniciaram suas atividades em 1927, com um serviço de transporte de cartas e encomendas que ligava a França e a Argentina. Nesta operação, aviões partiam de Paris em direção a Dacar, capital da então colônia francesa do Senegal, na costa africana. Os malotes com correspondências, eram então embarcados em navios pequenos e bastante velozes, conhecidos como os “Avisos Rápidos”, que atravessavam o oceano até Natal. Daqui, outros aviões transportavam o correio aéreo até Buenos Aires. Antes deste novo  serviço, uma carta transportada em linhas de navegação normais, poderia demorar até trinta dias entre a França e a Argentina. Com a mala postal aérea francesa, este tempo caiu para no máximo 8 dias.

Os Alemães em Natal e a sua “Rampa

Já os alemães, através da empresa “Sindicato Condor”, que desde janeiro de 1927 operava no Brasil, logo perceberam o enorme potencial que Natal possui como ponto estratégico para a aviação comercial. Em setembro de 1928 eles realizam visitas a cidade, planejando a instalação de uma “hidro-base” na região, mas somente em janeiro de 1930, com irrestrito apoio do então governador Juvenal Lamartine de Faria, esta base de operações e uma linha aérea que transportava cargas e alguns poucos passageiros, passou a funcionar com regularidade semanal. O local escolhido pelos alemães para construírem suas instalações era conhecido como “Praia da Limpa”, as margens do rio Potengi. Ali foram erguidos dois grandes hangares, com rampa de acesso para hidroaviões, alojamento para tripulantes, sala de leitura, e uma estação de rádio. Os hidroaviões eram trazidos para os hangares através de uma rampa, onde uma espécie de carroça puxada por um cabo era colocada no rio, sendo esta colocada embaixo da aeronave, então através de um sistema de trilhos a aeronave era puxada para fora do rio. Este sistema de retirada e acesso de aeronaves, através de uma rampa as margens do Potengi, precede a famosa “Rampa americana”, que seria construída algum tempo depois ao lado da base alemã. Os jornais da época apontam que a população de Natal, passou a denominar o local como “Base da Condor” ou “Base da Limpa”.

Já em relação às cargas vindas da Europa, primeiramente os alemães desenvolveram uma operação trabalhosa e perigosa; um hidroavião saia de Natal em direção a Fernando de Noronha, amerissava ao largo da ilha, encontrando-se com um navio de passageiros e cargas, de forma arriscada eram passadas mercadorias e malotes em meio às ondas. O hidroavião então decolava para Natal, reabastecia e seguia em direção ao sul do país. Durante algum tempo esta operação continuou, mas na noite de 11 de setembro de 1931, um destes hidroaviões do “Sindicato Condor”, batizado como “Olinda”, após retornar de Fernando de Noronha, sofre uma pane na tentativa de decolagem para Recife e explode na margem esquerda do rio Potengi, ocasionando a morte de todos os três tripulantes. Percebendo os riscos e as desvantagens desta operação, os alemães decidem desenvolver novos meios para que a ligação aérea entre a Alemanha e os países sul-americanos fossem mais segura, prática e rentável.

Em 1933, com uma concepção audaciosa para a época, a empresa alemã “Lufthansa”, que controlava administrativamente o “Sindicato Condor”, decide utilizar dois “navios-catapulta”, como ponto de apoio e reabastecimento de hidroaviões. Chamados “Schwabenland” e “Westfalen”, estas naves se revezavam em uma posição no meio do Oceano Atlântico, entre a costa africana e o Brasil, onde a idéia básica seria receber um hidroavião vindo da Europa, para que suas malas postais fossem repassadas para um outro aparelho, que seria catapultado para Natal e depois esta carga seguiria em outras aeronaves em direção sul. O hidroavião que havia chegado da Europa, era então reabastecido e catapultado para o Velho Continente com as cartas vindas do sul.

O Incremento do Transporte Aéreo Alemão

Este revolucionário serviço é inaugurado no dia 3 de fevereiro de 1934, quando uma aeronave decolou de Stuttgart, no norte da Alemanha, para a Espanha, transportando 100.000 cartas. Um outro aparelho transportou as malas postais em direção à cidade africana de Bathurst, na então colônia britânica da Gâmbia e finalmente um dos hidroaviões seguiu por 1.500 km até o “Westfalen”. No dia 7 de fevereiro a tripulação deste navio catapultou com sucesso um hidroavião modelo “Dornier Wal”, batizado “Taifun”. Este aparelho possuía dois motores, montados sobre asas altas, tinha 23,20 metros de envergadura, 18,20 metros de comprimento, raio de alcance de 2.000 mil quilômetros e desenvolvia uma média de 225 km/h. A tripulação alemã era formada pelo comandante Joachim Blankenburg, co-piloto Walter Blume, mecânico de vôo Otto Gruschwitz e o rádio-operador Guenther Fechner. Após um cansativo voo o arquipélago de Fernando de Noronha é sobrevoado e o comandante Blankenburg amerissa na baía da ilha.

Hidroavião alemão pousado no Rio Potengi, em uma área onde atualmente se encontra o quartel do 17º GAC, do Exército Brasileiro.

Neste local um segundo hidroavião da empresa aguarda o “Taifun”. Algum tempo depois os dois aparelhos decolam em direção ao território potiguar. Segundo os jornais da época, eram duas horas da tarde em Natal, quando os dois hidroaviões sobrevoaram o rio Potengi. Autoridades potiguares e um grande número de populares aguardavam na praia da Limpa a chegada do vôo histórico, mas para surpresa de todos, o racionalismo técnico dos alemães, entrou em ação; dez minutos após o pouso, antes mesmo de serem iniciadas as diversas homenagens previstas, as malas postais foram prontamente passadas para um hidroavião modelo Junkers trimotor, batizado como “Tietê”, que rapidamente seguiu em direção ao sul do país. Se para os natalenses a chegada das aeronaves era quase uma festa, para os alemães tudo não passava de negócios.

Mesmo depois de voarem quatorze horas sobre o oceano, a tripulação que havia decolado do “Westfalen”, participou do evento, onde foi coberta de atenções pelo povo de Natal e tratados como heróis. Autoridades visitaram o “Taifun”, foram erguidos brindes pela realização do vôo e a banda da Polícia Militar tocava para os presentes.

A Influência Alemã na Cidade

Com o passar do tempo, à chegada e a partida de hidroaviões alemães no rio Potengi, se tornou mera rotina. Todas as sextas-feiras havia aeronaves amerissando ou decolando no tranquilo rio que banha a capital potiguar. Em meio ao crescimento do movimento aviatório em Natal, aumenta o número de germânicos vivendo na pequena urbe de 35.000 habitantes. O expoente mais importante desta comunidade, além de ser um dos alemães que há mais tempo viviam em Natal, era o empresário Ernest Walter Lück.

Base alemã em Natal.

Nascido em 1883, na cidade de Gevelsberg, estado da Westfalia,  Alemanha, Lück chegou a Natal em 1911, em companhia de um amigo chamado Richard Bürgers, vinham com a intenção de trabalhar em uma firma inglesa que efetuava perfurações no interior do Rio Grande do Norte. Ao desembarcarem descobriram que a firma havia falido, mesmo assim permaneceram na região. Em 1922 Lück e um outro sócio fundaram a empresa “Gurgel, Lück & Cia. Ltda”, com a intenção de importarem produtos alemães e exportarem matérias-primas potiguares para aquele país. Logo os horizontes se ampliaram e a empresa tornou-se representante de linhas de navegação alemã, bem como das empresas aéreas “Lufthansa” e do “Sindicato Condor”. O empresário Lück foi designado cônsul alemão na cidade e coube a ele a ligação entre empresas e o governo da Alemanha, junto às autoridades potiguares.

A comunidade germânica cresce. Logo uma “Escola Alemã” foi fundada sob os cuidados do professor Alonso Meyer. Funcionando na antiga “rua do Norte”, esta escola informava através dos jornais, que oferecia o curso primário completo e o curso de língua alemã, sempre com “Disciplina, ordem e respeito garantidos”. Na ocasião da chegada do hidroavião “Taifun”, o hino alemão entoado pelas crianças desta escola, emocionou a experiente tripulação do comandante Blankenburg.

A partir de 1933, a nova ideologia nazista implantada com a ascensão de Adolf Hitler ao governo alemão, chega à colônia germânica no Rio Grande do Norte. Segundo a edição do jornal “A Republica”, de 25 de abril de 1934, quatro dias antes, em uma festa ocorrida pela dupla comemoração do aniversário de Hitler e da morte de Tiradentes, na chácara pertencente a Richard Bürgers, esteve presente a totalidade da colônia alemã em Natal. Entre estes o Sr. Lück e o diretor da base da Condor, Sr. Neulle. Este último era veterano da Primeira Guerra Mundial e estava na festa com suas medalhas de combate e o traje tradicional nazista. O ponto alto ocorreu às vinte horas, quando após serem entoados os hinos alemão e brasileiro, os participantes postaram-se solenemente diante de um rádio de ondas curtas, para através da emissora de rádio oficial da Alemanha, escutarem um discurso proferido por Joseph Goebbles, o todo poderoso ministro da propaganda do governo de Hitler. Este discurso era destinado especificamente às comunidades alemãs existentes na América do Sul. A importância dessa festa pode ser medida pelo fato de estarem presentes altos membros do governo e da sociedade potiguar da época, entre estes o chefe do executivo estadual, o Interventor Mario Câmara.

Apesar de toda esta movimentação cívica, de forma geral, o comportamento dos membros da colônia alemã em Natal, era extremamente discreto.

O fim da “Base da Condor”

A operação aérea da base alemã em Natal continuou ativa e rotineira até o início da Segunda Guerra Mundial. Foram efetuadas quase 500 travessias utilizando os “navios catapulta” como ponto de apoio entre a Europa e a América do Sul. Grandes pilotos germânicos trabalharam nesta travessia e estiveram na capital potiguar, como Richard Heinrich Schimacher, que por possuir muita experiência nas travessias oceânicas, entre 1938 e 1939 é convocado para participar da grande expedição cientifica alemã a Antártica. Em um “Dornier-Wal” batizado como “Borea”, este aviador realizou diversos voos pioneiros, no praticamente inexplorado continente gelado. Outro piloto foi Ernst-Wilhelm Modrow, que durante a guerra se tornou um às da aviação de caça noturna da “Luftwaffe” (Força Aérea Alemã), onde abateu 34 aviões aliados.

Hidroaviões da marinha dos Estados Unidos baseados no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial

Com o crescimento do conflito, o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães e a entrada oficial do Brasil na guerra, a “Base da Condor” e a comunidade alemã na cidade foram igualmente afetados pela conflagração. O local foi primeiramente ocupado por forças navais norte-americanas.

Segundo o jornalista Roberto Sander, autor do livro “O Brasil na mira de Hitler”, após a chegada das forças norte-americanas a Natal, Ernst Walter Lück, Richard Bürger e um outro alemão de nome Hans Weberlig, foram formalmente acusados e presos pelo FBI, como agentes de espionagem alemães.

Com o fim do conflito, a Marinha Norte-americana entregou grande parte das antigas instalações aéreas ao Exército Brasileiro. Atualmente a área é ocupada pelas instalações do Iate Clube de Natal e pelo 17º Grupamento de Artilharia de Campanha e quase nada mais resta da antiga base alemã na velha praia da Limpa.

* Como em relação à pesquisa histórica nada é realizado sem a fraternal ajuda de outras pessoas, o autor deste artigo gentilmente agradece ao pesquisador Luiz G. M. Bezerra pela seção de fotos e informações.

MAIO DE 1921 – A SUÁSTICA NAS PÁGINAS DO JORNAL POTIGUAR “A REPUBLICA”

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Suástica em propaganda de gasolina

A interessante fotografia que ilustra este artigo mostra um anúncio de meia página, que se encontra no jornal natalense “A Republica”, edição de 20 de maio de 1921, onde a empresa “The Anglo Mexican Petroleum Company Limited”, que negociava produtos derivados de petróleo, anunciava através do seu representante no Rio Grande do Norte, a poderosa empresa potiguar “Wharton, Pedrosa e Comp.”, a venda do “Kerosene” da marca “Aurora” e sua gasolina da marca “Energina”, respectivamente com as cruzes vermelha e azul, para identificá-los e diferenciá-los para o publico consumidor.

A questão era que esta cruz, com suas cores distintas para distinguir os dois produtos, era uma suástica.

Seria então esta empresa uma organização empresarial ligada aos nazistas?

Entretanto a história desta empresa, sua chegada ao Brasil, não apontam nenhuma relação com a ideologia nacional-socialista.

A Comercialização de Produtos Derivados do Petróleo

Em janeiro de 1912, a primeira multinacional do petróleo a se instalar no Brasil foi a “Standart Oil Company of Brazil”, nome original da atual “Esso Brasileira do Petróleo”. Sua instalação ocorreu a partir de um ato assinado pelo então presidente da república, marechal Hermes da Fonseca. No ano seguinte a “Shell”, sob o nome “The Anglo Mexican Petroleum Products Company Limited”, foi autorizada pelo Decreto 10.168, assinado pelo mesmo presidente Hermes, a comercializar produtos derivados de petróleo.

No dia 5 de maio de 1914, a “The Anglo Mexican Petroleum Products Company Limited” inaugura o primeiro depósito de óleo combustível do Brasil, no bairro da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. A empresa começou a distribuir seus produtos através dos lombos de burros, estes poderiam ser desde óleos combustíveis industriais, o “Kerosene Aurora”, lubrificantes, óleo diesel e a Gasolina “Energina”.

Nesta época a comercialização destes produtos era feitas em latas e tambores. Podiam ser vendidos em qualquer local, desde armazéns, onde se misturavam a cereais e outras mercadorias do gênero. Nesse período, a população brasileira era em torno de 22 milhões de habitantes, a frota nacional de veículos não superava os 2.400 veículos, todos importados. O país crescia e com ele o consumo de derivados de petróleo, obrigando o surgimento dos primeiros grandes depósitos deste tipo de produto, para serem vendidos a granel.

Somente em 1922 foram inauguradas as primeiras bombas de gasolina em ruas e garagens de capitais e cidades do interior, e também ao longo de rodovias.

Buscando maiores informações sobre este anúncio encontrei um artigo do jornalista pernambucano Ronildo Maia Leite, intitulado “Até a cachorrinha da praia sabia da revolução” e publicado no site da Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco. Neste artigo o autor trata sobre a ascensão e queda do governador Estácio Coimbra a deflagração da Revolução de 1930 neste estado e a tensa situação mundial existente nesta época. Em um determinado ponto do texto, o jornalista Romildo aponta como um dos exemplos do avanço da ideologia nazista em Pernambuco, que a partir de julho de 1930, os jornais deste estado começaram a estampar anúncios da multinacional “The Anglo-Mexican Petroleum Company Limited”, onde esta empresa vendia “o óleo lubrificante Swastica e a gasolina Energina, ambos com a Suástica, a logomarca de Hitler”.

Aparentemente a propaganda dos produtos da empresa “The Anglo-Mexican Petroleum Company Limited”, utilizando uma suástica como símbolo, continuou muito tempo depois de 1921.

A Suástica

Mas afinal, de onde vem a suástica? Sua origem poderia explicar a sua utilização por esta empresa em uma propaganda, em um jornal potiguar, em 1921?

Segundo o pesquisador Elísio Gomes Filho, em um interessante artigo sobre este símbolo, aponta que a suástica ou cruz gamada, como também é conhecida, é um dos símbolos mais difundidos e antigos existentes no mundo. Qualquer que seja sua complexidade simbólica, a suástica, por seu próprio grafismo, indica manifestamente um movimento de rotação em torno do centro, imóvel, que pode ser o ego ou o pólo. É, portanto, símbolo de ação, de manifestação, de ciclo e de perpétua regeneração.

A suástica já foram encontradas em povos e culturas extremamente distintas na sua formação e localização; índios Hopi da América do Norte, Astecas da América Central, Celtas, Budistas, Gregos, Hindus, Malteses, Islâmicos etc. Os símbolos a que chamamos suástica são muitas vezes bastante distintos. Vários desenhos de suásticas usam figuras com três linhas. Outras chamadas suásticas consistem de cruzes com linhas curvas. Os símbolos islâmicos e malteses parecem mais hélices do que suásticas. A chamada suástica celta dificilmente se assemelha a uma, mas seria uma forma secundária, como tais são outras.

Na China, a suástica é o sinal do número dez mil, quer é a totalidade dos seres e da manifestação. É também a forma primitiva do caráter “fang”, que indica as quatro direções do espaço. Também poderia ter uma relação com a disposição dos números do “Lochu”, que, em qualquer caso, evoca o movimento do giro cíclico. Na Índia, considerando-se sua acepção espiritual, a suástica às vezes simplesmente substitui a roda na iconografia hindu, por exemplo, como emblema dos “nagas”. Mas é também o emblema de “Ganeça”, divindade do conhecimento e, às vezes, manifestação do princípio supremo.

Vários tipos de suásticas

Já os maçons obedecem estritamente o simbolismo cosmográfico, considerando o centro da suástica como a estrela polar e as quatro gamas que a constituem como as quatro posições cardeais da Ursa Maior.

Há ainda formas secundárias da suástica, como a forma com os braços curvos, utilizada no País Basco, que evoca com especial nitidez a figura de espiral dupla. Como também a da suástica clavígera, cujas hastes constituem-se de uma chave.

A Utilização pelos Nazistas

No caso da utilização da suástica como símbolo da ideologia nazifascista, segundo o pesquisador Elísio, no livro escrito por Adolf Hitler, “Mein Kampf”, ele explica que por volta de 1920, a liderança do então pequeno Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães via crescer cada vez mais o número de militantes de suas fileiras, mas ainda não havia uma bandeira ou um símbolo para os seus partidários. Em uma edição espanhola de 1937 do livro “Mein Kampf”, no capítulo VII, páginas 260 e 261, Hitler comentou sobre a questão de “nossa bandeira”, sobre o seu aspecto e de como o assunto preocupava os nazistas. Escreve Hitler que de todos os lados se recebiam “sugestões bem intencionadas”, porém “carentes de valor prático”. De sua parte, Hitler, pronunciou a favor da conservação das antigas cores da bandeira imperial alemã, em parte por seu efeito estético e que, melhor que qualquer outra combinação, harmonizava com seu “próprio modo de sentir”. Ele mesmo, depois de inumeráveis ensaios logrou definir uma forma definitiva, ou seja: sobre um fundo vermelho, um disco branco e no centro, a cruz gamada em negro.

Suásticas nas Olimpíadas de 1936, em Berlim.

Os nazistas empunharam pela primeira vez sua bandeira, com a suástica inclusa, no verão de 1920, as margens do lago Tegernsee, um pitoresco local rodeado de montanhas, a 50 quilômetros ao sul de Munique, onde vários chefes do partido possuíam casas de descanso.

Tal símbolo passa a ser utilizado como emblema do partido nazista e em 1935, é utilizado oficialmente como símbolo oficial do próprio estado alemão.

Provavelmente a utilização da suástica, na propaganda da “The Anglo-Mexican Petroleum Company Limited”, no jornal “A Republica” , em maio de 1921, não seguia uma orientação de apoio às idéias nazistas, podendo ser uma utilização por tudo que este símbolo representava antes da Segunda Guerra Mundial.

Creio que dificilmente a empresa que vendia estes produtos, que com o passar dos anos, passou a ser conhecida como “Shell”, utilizaria novamente este símbolo em suas peças publicitárias.

Abastecedoras de gasolina na esquina das ruas Floriano Peixoto com São Paulo, em Fortaleza, no ano de 1935. Fonte-Livro “AH Fortaleza!-1880-195o” pág. 48, 1995. Na bomba do fundo, ampliando a foto é possível ver uma suástica.

1931 – A TRAGÉDIA DO HIDROAVIÃO “OLINDA” NO RIO POTENGI

Rostand Medeiros – Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Na noite de sexta-feira, 11 de setembro de 1931, por volta das 19:30 de uma noite quente e tranquila, os moradores de Natal escutaram o já tradicional ronco sincronizado de dois possantes motores BMW, de um dos hidroaviões Dornier Wal. Para os natalenses familiarizados com o movimento aeronáutico na região do cais do porto, dos bairros da Ribeira e das Rocas, aquele “aerobote” era conhecido como “Olinda”. Estava chegando de Fernando de Noronha com malotes de cartas e encomendas vindas da Europa, que foram transferidas de um navio ao largo da ilha e pertencia a empresa aérea que a pouco mais de um ano e meio chegara à cidade; o Sindicato Condor.

Lentamente o hidroavião sobrevoou a vila de Igapó, começou a perder altitude, deixou para trás a ponte ferroviária, as poucas casas e granjas das “Quintas”, fez uma curva à esquerda sobre o bairro do Alecrim, onde os trabalhadores da tradicional feira preparavam suas barracas e mercadorias para as atividades do dia seguinte.

Hidroavião Dornier Wal

Utilizando as luzes dos faróis da barra do rio, da cidade e outras marcações, o pássaro de metal tranquilamente amerissou no calmo rio Potengi. Seguiu passando ao lado do Passo da Pátria, da gare da estação ferroviária, do cais da Tavares de Lira, do cais do porto e foi até a praia da Montagem.

Para os tripulantes e operadores do Sindicato Condor em Natal, a maioria de origem alemã, o cronograma para esta operação seguia corretamente. Sua tripulação teria um tempo para descansar, se alimentar e seguir viajando por mais vinte e quatro até o Rio de Janeiro.

Os Alemães Chegam a Natal

Desde 1922 os natalenses estavam acostumados a terem sobre suas cabeças, aeronaves de todos os tipos e de todas as partes do Mundo. O fato de Natal receber aqueles homens e suas modernas máquinas, mesmo sendo a capital de um pequeno e modesto estado brasileiro, localizado na região mais pobre do país, era um tremendo motivo de orgulho para a sua população.

Aviadores italianos, franceses, alemães, norte-americanos, portugueses e outros, estavam sempre utilizando o então distante Campo de Parnamirim, ou as tranquilas águas do rio Potengi, como pontos de paradas de suas aeronaves. Fossem realizando os propalados “raids”, batendo recordes, ou trabalhando no transporte de malas postais e uns de poucos passageiros, a capital potiguar tornava-se rapidamente uma referência no meio aeronáutico.

Já as operações do Sindicato Condor na cidade tiveram início em janeiro de 1930, quando um outro avião Dornier Wal, batizado como “Guanabara”, amerissou no Rio Potengi. Entre os tripulantes estava o alemão Fritz Hammer, diretor geral da empresa e a razão de sua vinda a Natal era um encontro com o então governador Juvenal Lamartine de Faria.

Lamartine era um ferrenho defensor e incentivador da utilização da capital potiguar como ponto estratégico para aviação comercial. Ele não media esforços para apoiar estes empreendimentos, chegando inclusive a conceder a cessão de terrenos públicos e isenções de impostos para as empresas que desejassem se estabelecer no Rio Grande do Norte. Os resultados deste encontro foram, além de um passeio aéreo com o governador, a decisão da instalação da empresa na praia da Montagem, onde atualmente se localizam as instalações do 17º Grupamento de Artilharia de Campanha (17° GAC).

Em fevereiro, buscando uma aproximação com a população de Natal, conquistar clientes e ajudar a dissipar o medo que o povo da cidade tinha em relação à nova máquina aérea, o Sindicato Condor promoveu diversos vôos panorâmicos sobre a capital e o litoral. Foram convidados personalidades locais e todos aqueles que se dispusessem a pagar a quantia de 50$000 (cinqüenta mil réis). Para muitos natalenses foi à primeira oportunidade de pôr os pés em um aeroplano e voar sobre sua bela cidade.

O Transporte das Malas Postais

Pelos próximos meses o “Sindicato Condor” vai viabilizar a operação de entregar e receber uma certa quantidade de malotes, a partir do navio alemão Cap. Arcona, ao largo da ilha de Fernando de Noronha. A parte operacional desta ação consistia na saída de um hidroavião Dornier Val de Natal, que seguia quase três horas sobre o oceano e amerissava entre cinco ou dez milhas ao largo da “Pérola do Atlântico”. Como era impossível ao grande navio Cap Arcona, que possuía 206 metros de comprimento e 28.000 toneladas, fundear nas pequenas baías da ilha, a tripulação do hidroavião ficava obrigado a descer entre as ondas e a corrente marítima que passa pela ilha, levar o hidroavião o mais próximo do costado do navio, onde uma baleeira se aproximava da aeronave e era efetuada a transferência dos malotes. Para os padrões atuais da aeronáutica, esta operação se mostra estranha. Mas em 1930, quando a aviação comercial era ainda uma atividade pioneira, era perfeitamente normal e aceita pelas tripulações.

Navio Cap Arcona

Foi retornando de uma destas operações que os tripulantes do “Olinda” trouxeram seu hidroavião para Natal em 11 de setembro de 1931.

O Desastre

Por volta das 23:45, o piloto e diretor-técnico do “Sindicato Condor”, Max Christian Sauer, o co-piloto Rudolf Karwat, o rádio-telegrafista Franz Noether e o mecânico Paul Hein, todos alemães, embarcaram no hidroavião e acionaram seus motores. Refizeram o mesmo trecho do Rio Potengi que utilizaram para a chegada, deram um pouco mais de potência nos motores para efetuar um giro no avião e deixarem a máquina apontando em direção a barra do Rio Potengi. Utilizando os faróis de auxílio à navegação como referência, Max Christiansen despejou toda a potência que os motores BMW-VI, de 1.380 hp, podia dispor. Montados sobre as grandes asas do hidroavião, um adiante do outro e alimentados por 2.000 litros de combustível de alta octanagem, os dois motores roncaram alto para toda cidade ouvir. Logo suas grandes hélices produziram um torvelinho d’água que formou uma pequena nuvem ao redor da aeronave e ela começou a se deslocar. Ao alcançarem certa velocidade o piloto puxou o manche, o Dornier começou lentamente a subir e logo estaria sobrevoando a Fortaleza dos Reis Magos.

Navio Comandante Jaceguay

Durante sua corrida, o “Olinda” passa ao lado do pequeno cargueiro “Comandante Jaceguay”, da empresa Loyde Brasileiro e estava ancorado no porto desde o dia anterior. Neste navio, mais precisamente na escada de bordo, estava o proprietário de um escaler chamado “Minerva”, o Mestre Manoel Ciríaco, que observou a passagem do aeroplano. Provavelmente Ciríaco era um dos proprietários de pequenos barcos que realizavam o transbordo de cargas e passageiros entre o cais e os navios ancorados no rio Potengi e se encontrava no navio do Loyde, talvez finalizando algum transporte, quando acompanhou a tentativa do hidroavião decolar.

A edição de domingo, 13 de setembro, do jornal “A Republica”, apresenta com grande destaque os fatos que envolveram a tragédia do hidroavião “Olinda”. O jornal aponta que devido ao mal funcionamento de uma vela em um dos motores, o piloto não conseguiu força suficiente dos motores, a aeronave não alcançou a ascensão desejada e ao sobrevoar o Canto do Mangue, local de atracação de barcos de pescadores as margens do rio Potengi, o piloto decidiu fazer uma curva à esquerda. Max Christian queria levar o “Olinda” para o mesmo ponto de onde partiram e tentar uma nova arremetida.

O piloto alemão busca pousar no rio, mas provavelmente devido ao falhamento de agum motor, ou desconhecimento dos obstáculos que havia na área sem iluminação, desorientação espacial, ou outras causas, o Dornier Val, com seus 2.000 litros de combustível choca-se violentamente contra uma antiga barcaça utilizada para o transporte de areia e explode.

O Socorro Prestado e uma Estranha Situação

O impacto ocorreu na outra margem do rio, defronte a administração do Porto de Natal. Os que foram entrevistados pelo jornal nada comentam sobre alguma explosão, mas narram sobre a bola de fogo que se criou após o choque.

Mestre Manoel Ciríaco, junto com os tripulantes Luis Jacaré e Chico Velho, embarcam rapidamente no “Minerva” e são os primeiros a chegar ao local da tragédia. Na barcaça abandonada, que o jornal chama de “areieiro”, Ciríaco encontra o mecânico Paul Hein, ferido e desacordado. Próximo à barcaça, ainda dentro do que restou da cabina do “Olinda”, os brasileiros avistam os restos mortais do piloto, do co-piloto e do radiotelegrafista.

Barcos tradicionais do Rio Potengi.

Neste momento encosta uma lancha com vários passageiros, entre eles o alemão radicado há muitos anos em Natal e agente do Sindicato Condor na cidade, o Sr. Luck. Mestre Ciríaco e seus ajudantes transferem o mecânico ferido para outra lancha e este é transportado para o cais do porto. Para a surpresa do barqueiro, ao invés dos membros do Sindicato Condor buscarem resgatar os corpos dos seus companheiros, estes então passam a recolher as encomendas, envelopes e malas postais que flutuavam no rio.

Porque o agente da empresa, ao retornar a área do sinistro, se dedicou ao recolhimento do material que o avião transportava e não dos corpos dos seus companheiros? Estaríamos diante da fria lógica germânica que, diante do fato consumado, após a prestação de assistência ao ferido, mais importante era o recolhimento do material? Ou o que haveria neste material que flutuava no rio que era tão importante?

H.M.S. Dauntless

Ao observamos os jornais da época, um fato chama a atenção; no dia 27 de agosto chegou ao porto da cidade, procedente das Antilhas, o cruzador ligeiro Inglês H. M. S. Dauntless. Este fato não muito comum em Natal, foi noticiado pelos jornais da época como sendo “uma tranquila visita de cortesia de 400 oficiais e marinheiros da marinha de Sua Majestade”, onde não faltaram inúmeras recepções que movimentaram a urbe, com um baile a bordo do cruzador e outras festividades. Ocorreu até mesmo um movimentado jogo de futebol entre a equipe do navio e o time do América Futebol Clube, que venceu os marinheiros ingleses pelo placar de 4×2.

O certo é que o cruzador inglês H. M. S. Dauntless não era nenhum navio desprezível, ou que não chamasse atenção. Era uma moderna nave de combate da classe “D” de cruzadores ligeiros ingleses, estava em serviço ativo desde 1918, possuía o código D-45 e pertencia na época a Divisão Sul Americana da frota inglesa. Desenvolvia quase 30 nós de velocidade, com um armamento que incluía torpedos de 533 m.m., seis canhões de 152 m.m., canhões antiaéreo, seu peso era de 5.000 toneladas e tinha quase 150 metros de comprimento. Esta nave chegou a participar de toda a Segunda Guerra Mundial, combatendo os japoneses na região da Batavia e Singapura, além de participar dos combates anti-submarinos alemães no Atlântico.

Em 1931, apesar da Alemanha ainda não viver sob o domínio do Terceiro Reich, haviam se passado apenas treze anos do fim da Primeira Guerra Mundial, onde a Inglaterra era vista pelos alemães como um potencial inimigo, sendo normal aos agentes e representantes alemães pelo mundo afora, informar as movimentações e detalhes sobre as belonaves de guerra dos países considerados inimigos em suas viagens.

Haveria então nas malas postais transportadas pelo “Olinda” alguma informação interessante sobre o cruzador H. M. S. Dauntless sendo enviada para a Embaixada Alemã no Rio de Janeiro?

Por esta razão o representante local da empresa, assustado com a iminência da descoberta de tais informações, deixou de lado o resgate dos corpos dos tripulantes do “Olinda”?

Ou seria apenas coincidência?

Não sabemos, mas vale ressaltar que devido à falta de atenção do Sr. Luck em não resgatar os corpos, estes se perdem na noite, são deslocados pela maré, sendo encontrados, segundo o jornal “A República”, a partir das 10:00 da manhã de domingo, 13 de setembro. Eles estavam espalhados em vários pontos do rio e já em adiantado estado de putrefação.

Ainda no domingo, com grande acompanhamento por parte da população local, autoridades e membros da colônia alemã, os três alemães mortos foram rapidamente enterrados no cemitério do Alecrim.

O Aeroplano e os Tripulantes

O hidroavião Dornier Wal envolvido no sinistro era uma aeronave relativamente nova. Realizou seu primeiro vôo em 14 de março de 1929, sendo primeiramente registrado na Alemanha como D-1488 “Hamburg”, foi vendido ao Sindicato Condor, registrado posteriormente como P-BALA, foi batizado pelo Sindicato Condor como “Olinda” e recebeu como último registro o indicativo PP-CAL. Podia transportar uma tripulação de quatro pessoas, tinha vinte e três metros de comprimento, cinco metros e meio de altura e alcançava uma velocidade máxima de 250 km.

Quanto à tripulação, o piloto Max Christian Sauer e o co-piloto Rudolf Karwat tinha trinta e quatro anos na ocasião do desastre. Já o rádio-telegrafista Franz Noether faleceu aos 42 anos.

Sobre o rádio-telegrafista Noether, o site http://www.darc.de, informa que ele foi um dos pioneiros do radioamadorismo alemão, onde participou ativamente de grupos de radioamadores na cidade industrial alemã de Kassel, no estado de Hassen, centro do país. Havia entrado no Sindicato Condor em 1929, onde em meio as suas viagens, montava sua estação, realizava inúmeras experiências de transmissões, aperfeiçoando seus conhecimentos radiofônicos. Sempre procurava informar aos seus companheiros na Alemanha através de relatórios que eram publicados em revistas especializadas. Uma delas, a “Funkbastler”, em uma edição de 1931, traz o epitáfio de Franz Noether, informando do seu empenho em prol do radioamadorismo e noticiando a sua morte em Natal.

Já em relação ao mecânico Paul Hein, infelizmente não encontrei nenhuma informação sobre o seu destino após o acidente.

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NO NATAL DE 1923, A CAPITAL CONHECEU FABIÃO DAS QUEIMADAS

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Em 13 de dezembro de 1923, o jornalista e advogado Manoel Dantas, com o pseudônimo de “Braz Contente”, publicou no jornal “A Republica”, na sua seção intitulada “Coisas da Terra”, onde noticiou que “estava sendo organizada uma grande quermesse, que ocorreria na noite de natal e teria lugar nos jardins do Palácio do Governo. Esta era uma iniciativa de senhoras da sociedade local, que buscavam ajudar o Instituto de Proteção e Assistência a Infância a construir o Hospital das Crianças”.

O edifício estava sendo edificado na avenida Deodoro, idéia do médico Manoel Varela Santiago Sobrinho para atender às camadas mais carentes da população. Por esta época, eram altíssimos os índices de mortalidade infantil na capital, devido às precárias condições de higiene e do atendimento à saúde pública. Estes problemas incomodaram uma parte da sociedade local, que se disponibilizou a ajudar.

A liderança de Palmyra Wanderley

À frente desta iniciativa se destacou a figura da poetisa Palmyra Wanderley, que em 1923 era uma das mais conceituadas intelectuais da terra, possuía uma cultura elevada, vinha de uma família de intelectuais, sendo assídua colaboradora em jornais e revistas, tanto potiguares como de outros estados.

A poetisa Palmyra Wanderley

Junto com a liderança de Palmyra, mais de 50 mulheres se engajaram nesta obra. Não deixa de ser interessante que, em meio a uma cidade onde predominava a família patriarcal e o machismo, se observa esta participação feminina. Foi publicada uma lista com os nomes das participantes, onde se percebe que a grande maioria destas mulheres faziam parte da elite natalense. Um grupo delas chegou inclusive a sair pela Natal de 25.000 habitantes, para vender as entradas da quermesse, pelo preço módico de 2$000 réis.

Dr. Varela Santiago

Como atração principal, Palmyra decidiu não colocar algum artista declamando poesias clássicas, ou algum instrumentista tocando alguma peça européia, ou ainda artistas vindo de outras capitais. Sua decisão foi por um artista potiguar, já com uma certa idade, um poeta que declamava seus versos junto com uma rabeca, além de tudo negro e ex-escravo. Estamos falando de “Fabião das Queimadas”.

A Atração principal

Fabião Hermenegildo Ferreira da Rocha nasceu escravo, em 1850, na fazenda Queimadas, do coronel José Ferreira da Rocha, no atual município de Lagoa de Velhos (RN). Começou a cantar durante os trabalhos na roça. Tornou-se tocador de rabeca, tendo adquirido seu instrumento aos 15 anos, com o apoio do seu dono, que permitia e incentivava que ele cantasse nas casas dos mais abastados da região e nas feiras. Conseguiu angariar algum dinheiro que, aos 28 anos, possibilitou comprar a sua alforria. Era analfabeto, mas criava versos, como o “Romance do boi da mão de pau”, com 48 estrofes. Suas composições apresentam traços dos romances herdados da idade média.

A tranquila Natal da década de 1920

Em 1923, Fabião das Queimadas já era conhecido e respeitado no estado, onde no início do período republicano manteve ligações com políticos da terra, emprestando seus talentos ao criar versos que serviam, ora para enaltecer os amigos poderosos, ora para denegrir seus adversários. Já suas apresentações em Natal, aparentemente eram raras ou restritas a residências de particulares que gostavam da prosa sertaneja.

A Capacidade de Fabião das Queimadas

“A Republica”, de 19 de dezembro, em novo texto assinado por “Jacinto da Purificação”, trouxe uma extensa reportagem sobre o cantador, onde buscavam apresentá-lo a cidade. Foi comentado como no passado Fabião havia conquistado sua liberdade, “que a fama de Fabião corria mundo”, mas ressaltou “que o seu estrelato alcançava aquele mundo que não ultrapassava as fronteiras da nossa terra”.

Em 1923, a expectativa de vida dos mais pobres no Brasil mal chegava aos 60 anos. Fabião, então, com sessenta e dois anos, era considerado com “ótima lucidez, perfeita memória e bom timbre de voz”. Afirmou-se que era “verdadeiramente um desses milagres para os quais a ciência não encontra explicação”. Informaram que “aquilo que Fabião chama de sua obra”, certamente daria um volume com mais de 300 páginas. Algumas destas obras haviam sido criadas pelo cantador 55 anos antes, em 1868. Para recitá-los ou cantá-los, junto com sua inseparável rabeca, ele utilizava apenas sua privilegiada memória.

Uma passagem interessante comentava que certa ocasião, um amigo mais chegado lhe perguntou como ele criava e guardava seus versos. Na sua simplicidade, o cantador disse que “quando eu quero tirar uma obra, me deito na rede de papo prá riba, magino, magino e quando acabo de maginar, está maginado pru resto da vida”.

Chamou atenção do autor do texto como Fabião era um sertanejo dotado de uma imensa bondade, pois lembrava saudosamente do seu antigo senhor, José Ferreira. Em uma passagem, o autor conta uma história onde Fabião rebate uma crítica feita ao seu antigo amo, por não tê-lo mandado à escola quando jovem, ao que o cantador comentou; “meu senhor foi sempre homem de muito tino e ele bem sabia que se me tivesse mandado ler e escrever, quem o vendia era eu”.

O final do texto de “Jacinto da Purificação”, deixa transparecer um certo receio de fracasso ante a apresentação do poeta, que estava “descolado do seu meio”. Colocava entretanto que, “qualquer que seja a sorte da prova que se vai suceder, Fabião para nós será sempre o velho genial”.

A festa

A festa começou às dezoito horas do dia 24 de dezembro, uma segunda-feira. Um dos paraninfos era o então governador Antonio José de Souza, que estava presente.

Movimentação na Praça André de Albuquerque

Desde cedo começou a afluir uma grande multidão, calculada em torno de 4.000 pessoas. Com um caráter estritamente familiar, a festa mudou o quadro da principal praça da cidade, uma área que normalmente, após as oito da noite ficava deserta. Neste dia estava “exuberantemente iluminada e cheia de vida”. O Doutor Varela Santiago, sempre acompanhado de Palmyra Wanderley e de outras organizadoras, seguiam entre as barracas, agradecendo a participação de todos.

Várias barracas estavam pela praça, todas com nomes bíblicos como ”Betesda”, “Carfanaum”, “Jericó” e, apesar do caráter religioso das festividades, o local mais freqüentado foi à barraca chamada “Poço do Jacó”, por vender bebidas geladas, principalmente cerveja.

Em locais distintos tocavam as bandas marciais da Polícia Militar e da guarnição do quartel federal, o 29º Batalhão de Caçadores.

Havia várias atividades atléticas, como um torneio de “queda de braço” e um concorrido torneio de bilhar, onde se destacaram os jovens José Wanderley e Francisco Lopes, tendo este último sido o vencedor.

Em um palco armado foram se apresentando os seresteiros, cantores e tocadores da cidade, todos amadores. Uma delas foi a “senhorinha” Edith Pegado, que chamou a atenção de todos por cantar uma cantiga “roceira” chamada “Sá Zabê do Pará”.

Mas a atração principal era “Fabião das Queimadas”. Ao subir no palco com sua inseparável rabeca, o trovador foi entusiástica e longamente aplaudido e desenvolveu uma apresentação que foi classificada pela “A Republica” como “magnífica”, composta de “repentes” e “louvoures”, que fizeram o deleite do público natalense naquela noite.

Uma coluna publicada cinco anos depois, por ocasião da morte de Fabião, mostra a repercussão que esta festa teve. Um articulista que assinava simplesmente “R.S.” escreveu que “Ainda estamos bem lembrados daquela noite em que promovendo-se nesta capital uma festa, Fabião das Queimadas improvisava chistosos versos, magníficos na sua rudeza e simplicidade”. O articulista recordava alguns destes versos, que foram dirigidos aos espectadores mais ilustres, como o governador Antonio de Souza, Henrique Castriciano, Varela Santiago, Palmyra Wanderley e Eloy de Souza. A este último, devido a sua herança negra, Fabião soltou uma quadra que terminava assim; “Se o sinhô num fosse rico, era de nossa famía”.

O simbolismo deste evento

Nos outros dias, poucas notas são divulgadas pela imprensa sobre a quermesse, fazendo esta festa cair logo no esquecimento. Contudo, ao observarmos os detalhes existentes na elaboração e desenrolar desta iniciativa, vemos que as mulheres potiguares, sob o comando de Palmyra Wanderley, conseguiram muito mais do que a nobre causa de angariar fundos para o hospital do Dr. Varela Santiago. Com uma só ação, Palmyra e as outras mulheres, muitas certamente sem nem ao menos perceber o que estavam fazendo, atingiam em cheio aspectos negativos que permeavam a sociedade potiguar da sua época.

Nota no jornal “A Republca”, de 28 de dezembro de 1923, sobre o evento

Quem busca conhecer com maior profundidade o pensamento da sociedade potiguar do final da década de 10 e início dos anos 20 do século passado, encontra fortes traços de preconceito contra a mulher, machismo, racismo e a pouca referência sobre as camadas populares e suas manifestações tradicionais. Evidente que não seria esta quermesse de Natal de 1923 que mudaria uma sociedade com arraigados e antigos valores, mas iniciativas como esta ajudavam a criar mudanças.

Para Fabião, ao tocar na capital, não fez nada diferente do que estava acostumado a fazer nas casas e nas feiras dos povoados do sertão, e nem poderia ser de outra forma. Fabião cantou a sua idéia de Mundo, as coisas da sua terra, da sua gente, trazendo para Natal, através dos seus versos, o que ele conhecia do sertão e assim se perpetuando na nossa memória.

Fabião das Queimadas morreu em 1928, aos sessenta e oito anos, de tétano, em uma pequena fazendola de sua propriedade, chamada “Riacho Fundo”, próximo a Serra da Arara e ao Rio Potengi, na atual cidade de Barcelona (RN).

*Texto originalmente publicado no jornal Tribuna do Norte, em 31 de dezembro de 2007.

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ANÚNCIO DE UM CAVALO PERDIDO EM ASSU NO ANO DE 1878

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Ninguém discute o quanto é ruim e complicado o roubo de algum bem, principalmente de algum veículo. Chegar em um estacionamento e não encontrar seu carro e sua moto é complicado, situação que a cada dia se torna mais comum.

No longínquo ano de 1878, quando veículos automotores ainda não circulavam no Rio Grande do Norte, era a perda, ou o roubo, de um cavalo, um burro ou de um jumento, que tirava o sono dos potiguares.

Na notícia que segue, com a indicação do jornal, vemos o desespero do Sr. Luís José Soares de Macedo, de Açu, em busca do seu cavalo que tinha “de 4 para 5 eras”, ou seja seu animal tinha de 4 a 5 anos de vida. No anúncio, em destaque, aparece a marca ferrada do animal, a única forma de provar que o animal pertencia ao Sr. Luís Macedo.

Não podemos que em 1878 ocorria uma das mais terríveis secas já presenciadas no nordeste brasileiro. Iniciada em 1877 e encerrada em 1879, esta seca desarranjou totalmente a economia das províncias nordestinas. Provavelmente o Sr. Luís Macedo pode ter sido vítima de roubo.

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O “CARRINHO” DE CAICÓ

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Dizem que os potiguares dão um valor enorme a veículos, de todos os tipos e modelos. Afirma-se que com a saída dos militares norte americanos de Parnamirim Field, eles deixaram muitos carros de primeira qualidade e isto criou o gosto do pessoal local por automóveis de ponta.

Se for verdade, ou não, só pesquisando.

Mas podemos ver nas páginas do jornal O Seridoense, de 1924, que no interior do Rio Grande do Norte a comercialização de veículos é bastante antiga.

Vemos o anúncio do agente, não da concessionária, da marca FORD em Caicó. O dito agente era o Sr. Renato Celso Dantas, comerciante e fazendeiro, que se não me engano, era filho do proprietário do sítio Penedo, o coronel Celso Dantas, casado com a Sra. Ana Philomena de Brito Guerra.

Reparem que as indicações, as vantagens do veículo modelo “Voiturette” (carrinho em francês) apontam para coisas que hoje já nem são mais utilizadas em veículos de menor porte. Um exemplo é o “pneu balão”, ou seja, com câmara de ar, que davam uma melhora na suspensão, sendo esta uma situação extremamente positiva naquelas estradas poeirentas e cheias de pedras do Seridó.

Eram outros tempos.

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AS GRUTAS DA FAZENDA COLÔNIA

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Uma viagem de pesquisa sobre a vida do cangaceiro Antonio Silvino, o grande bandoleiro das caatingas.

O cangaceiro Antônio Silvino

Para quem gosta da história da região Nordeste, um convite destes é tentador e seguimos para o sertão de Pernambuco, mais precisamente na região do Pajeú, área de onde surgiram os maiores expoentes do movimento de banditismo rural, que ficaria conhecido como cangaço.

A primeira parte da nossa pesquisa buscava conhecer o local de nascimento de Manoel Batista Moraes, este o nome verdadeiro de Antonio Silvino, procurando assim conhecer suas origens e entender a sua trajetória. A informação que possuía era que o cangaceiro havia nascido em uma fazenda chamada Colônia, que estaria na zona rural da cidade pernambucana de Afogados da Ingazeira. A partir desta cidade soubemos que a fazenda Colônia se localizava próxima a um distrito chamado Ibitiranga, já em território do município de Carnaíba, ainda em Pernambuco, a apenas quatro quilômetros da fronteira com o município paraibano de Tavares.

A história do cangaceiro Antônio Silvino se inicia quando seu pai, o fazendeiro Pedro Batista Rufino de Almeida, conhecido como “Batistão”, é assassinado por Desidério José Ramos e membros de sua família, em 3 de janeiro de 1897. Meses depois, escandalosamente os assassinos de “Batistão” são absolvidos em um júri controlado por famílias poderosas que apoiavam os Ramos. A família de Antonio Silvino impetra uma apelação, os acusados são recambiados para a Casa de Detenção, em Recife. Quando os assassinos do fazendeiro são novamente trazidos escoltados para a região, para enfrentarem um novo júri, o policial que comandava o grupo facilitou a fuga de todos. Revoltado o jovem Manoel Batista de Moraes, então com 23 anos, e outro irmão, buscam fazer justiça com as próprias mãos. Eles entram no bando de cangaceiros de um parente conhecido como Silvino Aires para conseguir sua vingança.

Fazenda Colônia. Foto-Alex Gomes

Um ano depois Silvino Aires é preso e Manoel Batista assume o bando, passando a ser conhecido como Antônio Silvino. Antônio em homenagem ao santo de devoção, o mesmo da capela da fazenda Colônia e Silvino em homenagem ao parente que o adotou nas hostes cangaceiras e de quem herdou o bando em 1898, iniciando sua vida de estripulias.

Seguimos em nossa busca a vida deste homem por estradas de terra em bom estado, até Ibitiranga, onde logo encontramos uma pessoa que se colocou a disposição para nos mostrar o caminho até a fazenda Colônia. Conforme nos aproximávamos do local, já avistávamos três grandes serras de granito, uma delas chamada de Serra da Colônia.

Cobertas com farta vegetação, juntas formavam uma espécie de “ferradura”, onde na base desta se encontra a fazenda. Logo percebemos que só havia uma entrada e uma saída daquele local e observamos que quem estivesse no alto daquelas elevações teria total condição de monitorar a chegada de estranhos.

Em meio a uma paisagem muito bonita fomos seguindo e vendo surgir algumas habitações que a distância já se apresentava imponentes.

Para nossa surpresa, pensávamos encontrar uma fazenda acanhada, simples, sem maiores demonstrações de riqueza. Encontramos na verdade quatro antigas e bem preservadas edificações, que claramente nós mostrava que a origem de Manuel Batista Moraes, não era tão singela ou humilde como imaginávamos.

Na entrada da fazenda, recebendo os visitantes, tínhamos uma casa onde ainda existe uma imponente moenda puxada a bois, em madeira maciça, ainda com plena capacidade de funcionamento. A fazenda Colônia era então uma área de grande produção de cana-de-açúcar e criação de gado.

Ao lado da moenda, com grossas paredes e uma bela arquitetura colonial que impressionam a vasta casa grande. Próximo tem o que se chama no Nordeste da “casa do vaqueiro”, ou a casa do capataz, que diferente de muitas que existem por aí, esta era grande, bem construída e confortável. Acima de todas, construída no plano mais elevado do largo pátio gramado, está a simples, mas imponente capela de Santo Antonio, onde a imagem do santo, trazida de Portugal em fins do século XIX, sendo até hoje venerada por muitas pessoas na região no dia do santo padroeiro.

Jornal de época informando uma ação de Antônio Silvino

Recebidos de forma tranqüila pelos moradores do lugar, fomos levados a conhecer a igreja, a casa grande e os outros locais. Nesta visita, travamos um animado diálogo com um dos trabalhadores da fazenda, que nos comentou que os mais velhos narravam às peripécias deste cangaceiro. Daí surgiu à história que nas encostas de uma das serras existe uma gruta que foi inúmeras vezes utilizadas por Antônio Silvino e seu bando como esconderijo. O vaqueiro que nos comentou este fato falou que quem conhecia bem poderia narrar muito bem esta história eram os “irmãos Braz”, que moravam no lugar, mas não se encontravam no momento.

A informação inédita em relação à história de Silvino logo despertou o interesse de conhecer o local, mas como a pesquisa que realizava era sobre um tema específico, que não envolvia nada no sentido espeleológico, associado à falta de material para subir a serra, além do tempo exíguo, mostravam que não existiam condições de conhecer o local naquele momento.

Prometi ao pessoal do local retornar em momento oportuno, subir a serra e visitar esta cavidade que guardava lembranças da história deste cangaceiro.

Voltando a Fazenda Colônia

Nos primeiros momentos como chefe de bando, Antonio Silvino ainda tentou matar os assassinos de seu pai, buscando esta vingança inicialmente nas zonas rurais das cidades pernambucanas de Afogados da Ingazeira e Flores. Consta que nesta época, quando perseguido tenazmente pela polícia, o bando misteriosamente desaparecia de circulação, para desespero das autoridades. Uma das hipóteses dos esconderijos utilizados nestes períodos de inatividade poderia ser a caverna comentada na Serra da Colônia.

Retornando a Natal, algum tempo depois, transmiti aos companheiros da SEP-Sociedade Espeleológica Potiguar e da SEPARN-Sociedade para Pesquisas e Desenvolvimento Ambiental, Cultural e Histórico do Rio Grande do Norte, sobre as indicações deste local e a intenção de retornar para conhece as grutas. A minha ideia foi acolhida de forma positiva por todos.

Mas outros projetos e viagens tinham prioridade. Além do que as entidades espeleológicas do Rio Grande do Norte, sem vínculos governamentais, possuem fortes limitações orçamentárias. Diferentemente dos órgãos governamentais de “proteção” das cavernas, que possuem forte aporte de dinheiro da nação, para gastar em extensas diárias de viagem, produzindo pouco, ou quase nada, de prático para a preservação destes ambientes, que ainda se associam a empresas de exploração mineral, deixando este pessoal agir da forma que quiserem. Mas isto é outra história.

Igreja de Santo Antônio. Foto-Alex Gomes

Finalmente em dezembro de 2008, acompanhado de Sólon Almeida e Alex Gomes, seguimos em direção a Pernambuco, equipados e motivados para conhecer estes locais e trazer estas informações para os leitores da revista eletrônica “Lajedos” (www.lajedos.com.br).

Na fazenda Colônia o grupo foi recebido pelos afamados irmãos Antônio e Damião Braz de Araújo, aqueles que conheciam maiores detalhes sobre a utilização da gruta pelo bando de Antônio Silvino. Nascidos neste local, eles nunca se afastaram muito tempo da região. Seu Antônio comenta que desde criança ouviu muitas histórias sobre o chefe cangaceiro através de um velho vaqueiro da fazenda, que se dizia contemporâneo de Antônio Silvino, conhecido como João Adriano.

De saída os irmãos Braz informaram que não existia apenas uma gruta para visitarmos, mas quatro cavidades que João Adriano contava terem sido utilizadas pelo bando. Elas são a Gruta dos Morcegos, considerada a maior delas e a Gruta da Pedra Rajada, estando localizadas na serra que os mapas apontam como Serra da Colônia, mas é conhecida na região como Serra da Lagoa. As outras duas cavidades estão na Serra do Lava Pés, onde são conhecidas como Furna do Caboclo e Furna da Laje do Mamão. Todas localizadas dentro da área que compõem as terras da fazenda Colônia.

O altar da velha igreja.

Percebemos que dentro do nosso planejamento não havia condições de conhecer todos os locais comentados. Decidimos então visitar as Grutas dos Morcegos e a da Pedra Rajada, as mais próximas. Ainda na sede da fazenda, os irmãos Braz nos mostram ao longe os pontos onde existem duas grandes concentrações de blocos de granito, não muito distantes um do outro, são estes os nossos objetivos.

Encontrando a Gruta do Morcego

Iniciamos a subida da serra no pior horário possível; ao meio dia, com sol a pino. Para compensar a conversa rola solta, segundo seu Damião Braz, após a morte de “Batistão” e a entrada de Antônio Silvino no cangaço, a fazenda Colônia é adquirida pelo “coronel” Luís de Góis e sua mulher, conhecida como Dona Sinhá, para quem seu pai vem trabalhar na década de 1930 e a sua família passou a viver neste local desde então. Até hoje a fazenda Colônia pertence à mesma família, sendo seu atual proprietário o senhor Zeti Góis.

Ele nos conta que após a morte de Luís de Góis, quem assume a fazenda é a Dona Sinhá. Mulher altiva, valente, politicamente bem relacionada e sua voz era lei no seu feudo. Costumava proteger pessoas perseguidas por políticos e policiais da região. Era nota corrente que se uma pessoa estivesse dentro de suas terras, sob sua proteção, nenhum policial entrava em sua propriedade e ela era regiamente obedecida.

Antônio Braz diante da Gruta do Morcego. Foto-Alex Gomes.

Em meio às histórias, a caminhada prossegue por um terreno que primeiramente se mostra bem acentuada, com a trilha da serra bem marcada. Depois o trecho melhora, tornando-se de fácil locomoção. Durante o trajeto encontramos grande quantidade das interessantes “barrigudas de espinho” (Chorisia crispifolora), árvores de grande porte e atualmente rara em grande parte do Rio Grande do Norte. Possui como característica principal a parte média do tronco bem espinhoso e dilatado, dcomo caracteristica m lhe contou muitas histo como Joda Colonia,daí seu nome característico.

A subida segue até um ponto onde grandes blocos graníticos estão encobertos por cerrada vegetação típica da região. A união destes blocos rolados pelas intempéries forma a Gruta dos Morcegos. A entrada é uma fenda diagonal, onde temos que entrar “se entortando” segundo seu Damião. O local é amplo, arejado, com uma saída pela lateral esquerda, agora coberta por vegetação, mas que no passado servia como rota de fuga para outros locais da Serra da Lagoa. Apesar da toponímia, não vimos um único morcego, mesmo existindo na área uma grande quantidade de árvores frutíferas.

Os irmãos Braz comentam que ao longo dos anos várias pessoas que caçavam naquelas serras, encontraram objetos na Gruta do Morcego. Foram, talheres, estribos, estojos de munição deflagrados e moedas. Entre estes objetos eles nos mostraram pedaços de talheres e estribos, além de três modas de bronze do período colonial, onde em uma delas se lê claramente o ano de “1781”. Estas moedas não são tão raras de serem encontradas no Nordeste, mas a sua descoberta pode apontar para uma série de possibilidades, até mesmo a utilização mais antiga deste abrigo como possível esconderijo de bandoleiros.

Gruta do Morcego. Foto-Solón Almeida

No Abrigo da Pedra da Rajada

Sem querer especular mais sobre estes achados, saímos da Gruta dos Morcegos em direção ao alto da Serra da Lagoa, onde o GPS apontava uma altitude de 814 metros. Nossos guias nos mostraram um poço de água bastante cristalina, segundo eles o local até hoje é utilizado, sendo bastante antigo. O informante de seu Antônio Braz, o falecido João Adriano, comentou que os cangaceiros de Antônio Silvino se abasteciam desta água e neste dia nós igualmente utilizamos a limpa e boa água do poço.

Alto da Serra. Foto-Alex Gomes.

Próximo ao poço existe uma capa de sedimentos, formado por uma areia fina, que os agricultores locais aproveitam para plantar cereais para a sua subsistência. Estamos nas proximidades do ponto culminante da serra, onde é possível divisar toda a região, até mesmo a cidade de Afogados da Ingazeira, a quase vinte quilômetros de distância. A visão é maravilhosa, mostrando que a idéia que tínhamos ao chegarmos à fazenda era correta. Bastaria Antônio Silvino colocar um homem vigilante neste ponto e seria possível visualizar muitos quilômetros da área ao redor e saber quem estaria chegando.

Entrada da Gruta da Pedra Rajada. Foto-Solón Almeida

A partir do poço, seguimos a conhecer a Gruta da Pedra Rajada. Antes tivemos oportunidade de passar por um imenso lajedo de rocha granítica, onde existe um reservatório natural de água, conhecido na região como “tanque”, ou “piscina”, ou ainda “lagoa”, por esta razão eles chamam aqueles montes de “Serra da Lagoa”, onde a água acumulada serve para enfrentar os difíceis períodos de secas.

A caminhada para a próxima cavidade é bem mais difícil, pois mesmo o caminho sendo em declive, não existe uma trilha aberta e uma grande quantidade de árvores e cipós dificultam o acesso. Se o local foi realmente utilizado pelos cangaceiros, pela quantidade de vegetação dificultando a locomoção, é fácil deduzir que desde a época de Antônio Silvino, poucos se atreveram a chegar ao local.

Seu Antônio Braz comenta que esta gruta era um ponto que os cangaceiros utilizavam de forma temporária, esporádica, até mesmo pelas suas características. No local vemos dois grandes blocos graníticos rolados, que criam um pequeno abrigo, bem protegido, onde um pequeno grupo de homens poderia se acomodar com o intuito de buscar um esconderijo de difícil acesso a pretensos perseguidores.

Moedas e outros materiais encontrados na Gruta do Morcego. Foto Solón Almeida

Há muitos anos um caçador, amigo dos nossos guias, encontrou neste local uma alavanca de remuniciamento do famoso rifle “Winchester”, já bem enferrujada. Conhecido no Brasil como “Papo-Amarelo”, este modelo de arma era a mais utilizada pelos cangaceiros do bando de Antônio Silvino. Não tivemos oportunidade de ver esta peça, pois a mesma atualmente se encontra na casa do proprietário da fazenda Colônia, em Recife.

Conclusão da Visita

Fomos encerrar nossa caminhada às quatro da tarde, onde percorremos, segundo o GPS, três quilômetros entre subidas e descidas.

Analisando nossa visita podemos observar que estes abrigos, sob muitos aspectos, lembram os mesmos locais, bem como o mesmo modo de utilização, que fez com que o cangaceiro potiguar Jesuíno Brilhante buscasse esconderijos em cavidades localizadas na Serra do Cajueiro, na cidade de Patu, no Rio Grande do Norte.

Mesmo sabendo que as razões, período, motivações para a entrada e permanência no cangaço por parte de Jesuíno Brilhante é distinta de Antônio Silvino, vemos muitos pontos em comum na utilização destes locais.

Igualmente como o bando de Antônio Silvino, Jesuíno usava pelo menos três grutas, em áreas de altitude, com ótimos pontos de observação, interligadas por trilhas, com acesso a locais com água, que poderiam garantir a permanência do grupo nestes pontos por um tempo mais largo. Mas Jesuíno Brilhante atuou principalmente na década de 1870, quando a quantidade de estadas e caminhos eram mais limitados, tornando sua mobilidade restrita, ficando sua área de atuação centralizada na região da fronteira entre a Paraíba e o seu estado de origem. Conseqüentemente a utilização destas grutas por parte do grupo de Jesuíno Brilhante como esconderijos era mais freqüente.

Pelas informações dos moradores da fazenda Colônia, aparentemente Antônio Silvino utilizou estes locais como esconderijos secundários, alternativos a sede da fazenda de sua família.

Nota sobre o tiroteio que resultou na captura de Antônio Silvino

Depois de 1898, provavelmente com o incremento das perseguições, a existência de novos caminhos fará o bando seguir novos horizontes. Logo estará atuando principalmente na região da zona canavieira de Pernambuco, Paraíba e no Rio Grande do Norte, aonde chega próximo da zona litorânea.

Segundo informações dos moradores da fazenda Colônia, após algum tempo, Antônio Silvino deixou a região e nunca mais voltou à antiga propriedade do seu pai.

Ele continua como chefe cangaceiro até o dia 27 de novembro de 1914, quando foi ferido no lugar denominado Lagoa da Laje, então pertencente ao município pernambucano de Taquaritinga do Norte, sendo detido pela volante do Alferes Teófanes Ferraz Torres. Depois de 18 anos de cangaço, Antônio Silvino é preso, julgado e condenado a trinta e nove anos de prisão, a serem cumpridos na Casa de Detenção de Recife.

Nota sobre a prisão do famoso cangaceiro.

Durante seu tempo de reclusão foi considerado um prisioneiro calmo, uma liderança entre os apenados, que realizava trabalhos artesanais para sustentar os estudos dos filhos, onde nenhum deles seguiu seus passos no cangaço e um deles chegou a ser um membro respeitado dos quadros da Marinha do Brasil. Durante esta época, muitos estudiosos estiveram junto ao antigo chefe, entrevistando-o sobre suas andanças, entre estes o potiguar Câmara Cascudo. Somente foi libertado em fevereiro de 1937, depois de 23 anos de cárcere.

Morreu pobre, em 1944, em uma casa simples na cidade paraibana de Campina Grande.

A sua atuação no cangaço foi considerada, mais tranqüila, com menor grau de violência, sendo lembrado por muitos cantadores de viola, por repentistas e escritores como um “injustiçado”. Apesar disto, nunca conseguiu vingar a morte do seu pai.

Sem ter a mesma fama do famoso Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião”, Antônio Silvino é uma das figuras basilares do imaginário criado em torno do cangaço e da história nordestina. Sua vida é hoje tema de variadas teses acadêmicas de sociólogos, antropólogos e historiadores, até mesmo fora do Brasil.

Lembranças que os Medeiros da Rajada têm de Antônio Silvino

Quando criança eu escutei várias vezes a minha avó paterna, Benícia Jacob de Medeiros, narrar que na época em que ela e o meu avô Joaquim Paulino de Medeiros, conhecido como Jaco, moravam em Campina Grande, teve oportunidade de ver o idoso Antônio Silvino. Ela nunca falou com ele, mas me disse que ele era alto, não andava de cabeça baixa como se estivesse se escondendo, pelo contrário, andava empertigado, ereto e todos sabiam quem ele era. Recordou também que o velho cangaceiro tinha sempre um semblante fechado, uma cara dura, sem sorrisos e sem muita conversa.

Sofrimento para visitar as grutas esconderijo.

Mas não era a primeira vez que pessoas da minha família tinham contato com Antônio Silvino. Na nossa história oral ficou guardado o episódio que em uma das passagens do cangaceiro e seu bando por Acari, ele esteve na casa que servia de sede da fazenda Rajada, que pertencia ao meu bisavô, o fazendeiro e coronel da guarda nacional, Joaquim Paulino de Medeiros, conhecido como Coronel Quincó, ou Quincó da Rajada. Consta que Silvino não fez nenhuma alteração, deixou o bando afastado da casa, chegou tranquilo e pediu certa quantia em dinheiro, pois afirmou que “o governo não o deixava trabalhar”. O coronel o recebeu sem afrontas e lhe deu o que podia que a memória da família não guardou o valor.

Esta história está na nossa família a gerações e só posso afirmar sua veracidade dentro dos aspectos complicados que giram em torno da questão da tradição oral. Entretanto em uma ocasião ocorreu uma situação bem irônica sobre este encontro.

Certo pesquisador do tema do cangaço, ao realizar uma pesquisa sobre este cangaceiro pernambucano, soube desta história através da minha pessoa. O ilustre detetive da história procurou saber detalhes, como foi, como não foi, onde aconteceu, etc. Se mostrou educado, mas me disse com bastante segurança, que “esta história só tinha valor se fosse acompanhada de documentos comprobatórios”.

Aí eu ri por dentro e pensei o quanto tolo era aquele pesquisador.

Fiquei imaginando se ele pensava que por acaso meu bisavô se sentou em um tamborete no alpendre da fazenda Rajada, com ninguém menos que Antônio Silvino, que pacientemente esperou o velho fazendeiro preparar um documento de três laudas e depois este pediu ao cangaceiro para sapecar a sua assinatura nas três folhas que comprovavam o gasto do dinheiro dado?

O que eu achei mais engraçado é que certamente muito do que ele conseguiu em sua pesquisa foi através de história oral e quase com certeza sem documentos.

Mas assim é a humanidade.

O autor deste artigo junto a cruzes de “morte matada”. Foto-Alex Gomes
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O PRIMEIRO VOO COMERCIAL TRANSOCEÂNICO EM NATAL

Rostand Medeiros – Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Quem nos dias de hoje observa a chegada de aviões de carreira da Europa no nosso Aeroporto de São Gonçalo, em um serviço regular, seguro e tranquilo, talvez não saibam que há quase90 anos, no dia 7 de fevereiro de 1934, chegava a Natal um hidroavião da empresa aérea alemã “Lufthansa”, inaugurando a primeira rota aérea transatlântica regular e comercial implantada no mundo.

A nossa cidade já conhecia desde fins de 1927 as vantagens oferecidas pelo transporte aéreo, quando os franceses da empresa C.G.A. – Compagnie Générale Aéropostale”, antiga “Lignes Latécoère”, inauguraram um serviço de transporte de cartas e encomendas, ligando Natal a Buenos  Aires, na Argentina. Com o avanço dos meios aéreos, em 12 de maio de 1930 os intrépidos franceses do hidroavião “Late 28”, comandados por Jean Mermoz, realizaram a primeira travessia comercial da Europa para as Américas. Entretanto a rota inaugurada por Mermoz não era regular e devido a diversos problemas, o serviço se tornou esporádico.

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Já os alemães da empresa “Sindicato Condor”, que desde janeiro de 1927 operavam no Brasil, passam a utilizar Natal desde fevereiro de 1930, com a inauguração de uma base de operações de hidroaviões e de uma linha aérea que transportava cargas e passageiros entre Natal e Porto Alegre. Esta base ficava na chamada praia da Limpa, área onde atualmente se localiza o quartel do 17º GAC.

Já para as encomendas enviadas para a Europa, os alemães deslocavam um hidroavião de Natal a Fernando de Noronha, que amerissava ao largo da ilha, encontrando-se com um navio de passageiros e cargas, onde em uma arriscada operação em meio às ondas, eram passadas mercadorias e malotes. Com o passar do tempo, os alemães perceberam as desvantagens desta operação e decidiram criar uma rota aérea que fosse contínua, semanal, ligando a Alemanha aos países sul-americanos.

Com uma concepção audaciosa para a época, a empresa “Lufthansa”, que controlava administrativamente o “Sindicato Condor”, encomenda a um estaleiro a construção de dois navios destinados a servirem de pontos de apoio no meio do oceano. Chamados “Schwabenland” e “Westfalen” eram dotados de potentes guindastes de içamento e fortes catapultas para lançar hidroaviões. Eles se revezariam em uma posição no meio do Oceano Atlântico, entre a África e o Brasil, onde a ideia básica seria receber um hidroavião vindo da Europa, para que suas malas postais fossem repassadas para outro hidroavião, que seria catapultado para Natal e depois esta carga seguiria em outras aeronaves em direção sul.

Na madrugada do dia 3 de fevereiro de 1934, um sábado, decolava da gelada Stuttgart, no norte da Alemanha, um hidroavião transportando 100.000 cartas, este seguiu até Sevilha na Espanha. Nesta cidade outro aparelho transportou as malas postais em direção à cidade africana de Bathurst, na então colônia britânica da Gâmbia. Depois as encomendas seguiram para o meio do oceano.

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Ao raiar do dia 7 de fevereiro, o “Westfalen”, em meio a um mar calmo, um céu com poucas nuvens, catapultou com sucesso um hidroavião modelo “Dornier Wal”, batizado “Taifun”, que transportava no seu interior as cartas e encomendas saídas quatro dias antes da Alemanha. Tendo nos controles o comandante Joachim Blankenburg, o co-piloto Walter Blume, o mecânico de voo Otto Gruschwitz e o rádio-operador Guenther Fechner. Este aparelho tinha 23,20 metros de envergadura das asas, 18,20 metros de comprimento, raio de alcance de 2.000 mil quilômetros e desenvolvia uma média de 225 km/h. Após 11 horas de voo, o conhecido “Dedo de Deus”, o ponto culminante do arquipélago de Fernando de Noronha, foi avistado. Enquanto o comandante Blankenburg sobrevoava a “Esmeralda do Atlântico”, um segundo hidroavião batizado como “Monsun”, decolava da baía da ilha, seguindo ao encontro do primeiro avião que cruzava o Atlântico Sul, com o intuito de acompanhá-o até o território brasileiro.

Em Natal, pôr volta das duas horas da tarde, os dois hidroaviões sobrevoam o rio Potengi, logo após o “Taifun” amerissa no tranqüilo rio. Um grande número de autoridades e populares aguardavam na praia da Limpa a chegada do voo histórico, mas para surpresa de todos, dez minutos após o pouso, antes mesmo de serem iniciadas as homenagens previstas, o racionalismo técnico dos alemães entrou em ação e as malas postais foram prontamente passadas para um outro hidroavião e seguiram para o sul do país.

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Depois de voarem quatorze horas sobre o oceano, a tripulação que havia decolado do “Westfalen” foi coberta de atenções pelo povo de Natal e tratados como heróis. Alunos da então “Escola Alemã”, que se localizava na Ribeira e era destinada a filhos de alemães que viviam na cidade, entoaram os hinos nacionais dos dois países, autoridades visitaram o “Taifun”, foram erguidos brindes pela realização do voo e a banda da Polícia Militar tocava para os presentes. As malas postais prosseguiram para Porto Alegre, Rio Grande, Montevidéu e Buenos Aires, aonde chegaram à noite do dia 9 de fevereiro, sendo logo iniciado o voo de retorno.

Esta operação aérea continuou regularmente ativa até 1939, sendo encerrada com o início da Segunda Guerra Mundial.

Embora bastante comentado na imprensa da América do Sul e da Europa, sendo destacado nas primeiras páginas dos principais jornais argentinos, este histórico voo logo foi esquecido.

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A VIDA DO DOUTOR BARATA EM NATAL

Jornal natalense “A República”, de 17 de abril de 1898, contando a vida do Dr. Barata na capital potiguar.

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

A conhecida Rua Doutor Barata está localizada no tradicional bairro da Ribeira, nas proximidades do cais do porto, sendo um ponto de concentração de lojas especializadas em diversas atividades e antigo setor da boemia natalense.

Mas, quem foi à figura do famoso “Doutor Barata”?

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Quadro de Cipriano Barata retratado por Domingos Sequeira encontra-se no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa – Fonte – http://osheroisdobrasil.com.br/contexto-historico/as-cortes-portuguesas/attachment/cipriano-barata/

Cipriano José Barata de Almeida nasceu em 26 de setembro de 1762, na cidade de Salvador, era filho de família ilustre, mas desprovida de recursos, onde tiveram de lutar muito para mandar o jovem estudar em Portugal. Lecionava cirurgia na Universidade de Coimbra, quando chega à notícia prematura da morte do seu pai, tendo Barata de retornar a Bahia apenas com o título ou carta de cirurgião.

Na Bahia, se casou com a senhora Anna, tendo iniciado sua carreira no campo, onde desde cedo passa a se dedicar à causa da independência do Brasil do julgo português.

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Natal antiga.

Segundo Câmara Cascudo, Cipriano Barata meteu-se em várias conspirações libertárias, tendo por muito pouco escapado da forca. Entre estas revoltas estava a Conjuração Baiana, movimento ocorrido em Salvador em 1798, motivado pela opressão colonial, pela influência ideológica do iluminismo, pela independência dos Estados Unidos e a maçonaria, organização a qual já era filiado[1]. Os conjurados pregavam o fim do absolutismo, a implantação da República e a abertura dos portos brasileiros. Muitos foram presos, quatro são executados, outros degredados ou absolvidos entre estes estavam Barata.

Junto a Côrte

Homem de oratória firme e extremamente popular acabou por conquistar o cargo de Deputado, para atuar em Portugal, junto as Côrtes Gerais de Lisboa, pelos interesses da então Província da Bahia.

O Doutor Barata foi empossado em dezembro de 1821, em meio a uma assembleia hostil aos anseios do Brasil. Nesta arena ele seguia o mesmo pensamento revolucionário, realizando inflamados discursos, convulsionando o auditório, onde sempre gerava protestos dos assistentes portugueses e fazia com que ele vivesse em constantes conflitos junto aos membros da casa.

Em Lisboa, para marcar sua posição contrária ao julgo português, Barata faz questão de se apresentar as Côrtes com roupas feitas exclusivamente de algodão brasileiro, usava chapéu de couro, ou de palha de carnaúba, sapatos de couro de bezerro e uma chamativa bengala de jucá[2].

Em um dos seus inflamados discursos, no meio de toda algazarra, eleva a voz e pronuncia; “quando fala um Deputado Brasileiro por sua pátria, se cala toda a canalha europeia”, criando um clima que geram inúmeras ameaças a integridade física dos representantes brasileiros.

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Cipriano Barata

Como a situação se tornou insustentável, o Doutor Barata e seis outros deputados brasileiros fugiram de Lisboa para Falmouth, Inglaterra, em 6 de outubro de 1822. Entre os fugitivos estava o padre Diogo Antônio Feijó. Nesta cidade inglesa decidem publicar um manifesto para explicar a fuga, mas são surpreendidos pela notícia da independência do Brasil e decidem retornar ao país.

O grupo chega a dezembro deste mesmo ano, tendo desembarcado o Doutor Barata em Salvador, onde foi efusivamente recebido. Ele segue depois para Recife, onde passa a trabalhar como jornalista junto ao jornal “Gazeta Pernambucana”, logo funda o periódico “Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco”, adotando uma posição fortemente oposicionista ao Imperador Dom Pedro I, reivindicando melhorias sociais para o povo.

Em 1823, José Bonifácio ordena sua prisão, com transferência imediata para a Fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. É emitida pelo Governo Geral uma ordem de devassa de suas atividades em Pernambuco, mas a mesma não é cumprida por coincidir com a eclosão, em 2 de julho de 1824, do movimento revolucionário conhecido como Confederação do Equador. Sufocada a revolta, em outubro deste ano é realizada a devassa.

O prisioneiro

Inicialmente o Doutor Barata sofre muito na prisão, onde o deixa longo período sem permissão para cortar a barba e cabelo. Como represália, nunca mais irá cortar sua vasta cabeleira. Segundo o capitão Francisco Leitão, mesmo preso, o Doutor Barata tinha permissão de imprimir um jornal de formato pequeno, mas repleto de duras palavras contra Pedro I, que sabendo da sua publicação, manda avisá-lo que “suas letras poderiam levá-lo a morte”. Barata respondeu em número posterior do jornal com o seguinte verso;

De soberbos rochedos rodeado,

Onde bramem mil ondas furiosas,

Dos males nunca gemo assombrado,

Nem me assusta as páreas pesarosas,

Ainda mesmo nos pulsos arrochados,

Desprezando desgraças sanguinolentas,

Mordo os ferros, e altivo ranjo os dentes,

Desafio os tiranos mais potentes.

Segundo a professora potiguar Isabel Gondim, a maçonaria e a sua família o proviam de fundos na prisão, onde ele recebia este dinheiro através do padre José Custódio Dias, então responsável no Rio de Janeiro pela educação do jovem potiguar Urbano Egídio da Silva Costa Gondim de Albuquerque, futuro pai da professora Isabel Gondim. Através do padre, o jovem Urbano conheceu o Doutor Barata, fazem amizade e Urbano passou a ter permissão de frequentar aulas com este lutador pela liberdade.

Professora Isabel Gondim

Barata só sairia da prisão em 1830, onde segue pra a Bahia, sendo recebido como herói e verdadeiro mártir. Funda um novo periódico denominado Sentinela da Liberdade na Guarita do Quartel-General de Pirajá, que passa a trabalhar com uma linha editorial fortemente crítica ao governo, onde se confronta com os moderados de Salvador. Como ocorrera em Pernambuco sete anos antes, o Doutor Barata é preso em agosto de 1831. Fica primeiramente detido na Fortaleza de São Marcelo, depois segue para o Forte de São Pedro, onde publica clandestinamente seu jornal, agora intitulado “Sentinela da Liberdade na Guarita do Forte de São Pedro na Bahia de Todos os Santos”.

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Forte de São Pedro, Salvador, Bahia – Fonte – http://fortalezas.org/?ct=fortaleza&id_fortaleza=83

Para vergar um homem com tal força de vontade, o governo decide enviá-lo para o Forte de Villegagnon, no Rio de Janeiro, onde é trancafiado na ala mais segura. É julgado, condenado e só será libertado em 1833.

O agora septuagenário Doutor Barata retorna a Bahia, mas é tratado com indiferença. Em verdade a política mudara, era agora hierárquica, disciplinada e voltada para a construção do país, sendo o Doutor Barata um o típico revolucionário da fase inicial da Revolução Francesa. Era o elemento tumultuoso vital no inicio de uma revolta e que se tornaria inútil quando da consolidação do processo revolucionário.

Segue ele para Pernambuco, onde em Recife ainda encontra prestígio junto à comunidade, que o elege suplente de Deputado Provincial. Entre 16 de agosto de 1834 e 2 de agosto de 1835, publica sua última Sentinela, na qual fazia propaganda do Federalismo. Como era costume da política na época, muitas vezes o povo de Pernambuco envia para o então Regente Feijó, uma lista tríplice com nomes para comporem o Senado Imperial, mas nunca o nome do Doutor Barata foi escolhido.

O exílio em Natal

Depois de tantas lutas, prisões e decepções, o Doutor Barata se encontrava velho, pobre e doente, sofrendo de diabetes.

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Será o seu amigo e ex-aluno da Fortaleza de Santa Cruz, o potiguar Urbano Gondim de Albuquerque, professor de geometria do Ateneu Riograndense, quem dará apoio para a vinda do Doutor Barata a Natal. Primeiramente dando amparo ao seu filho Horácio, então com 15 anos, e finalmente apoiando a chegada do antigo deputado, sua mulher Anna, e suas filhas Iria, Veridiana e Laura, uma delas já viúva e com dois filhos pequenos[3].

Duas situações distintas concorreram para a mudança da família; o fato da filha Laura ter a promessa de trabalho em um externato como professora de português (situação que não se concretizou) e o então Presidente da Província, Manoel Ribeiro da Silva Lisboa, e o Chefe de Polícia e Juiz de Direito, Joaquim Alves de Almeida Freitas, serem baianos e conhecerem a vida do Doutor Barata.

Para alguns autores o Doutor Barata chega à provinciana Natal em fins de 1836, para outros no início de 1837, passando a chamar a atenção na cidade pela sua rica história na luta pela independência, pela figura magra, de olhos claros, andar agitado, ar desabusado, uma notória neurastenia e sua comprida cabeleira branca, sempre com uma trança que caia pelas costas. Na cidade, não foi muito dedicado a sua profissão de cirurgião, recebendo apoio da família para sobreviver.

Sua primeira casa ficava na então Rua Grande, atualmente Praça André de Albuquerque, depois se fixou na rua que leva seu nome. Câmara Cascudo comenta que sua primeira residência possuía o piso mais baixo em relação ao nível da rua, para quem fosse procurá-lo, ele simplesmente dizia “desça!”.

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A pequena Natal.

Prestou um concurso para professor de francês do Ateneu em 8 de janeiro de 1837, sendo aceito no outro dia[4]. Trabalhou por algum tempo e ainda acompanhou muito pesaroso o velório do seu amigo baiano, o Presidente Silva Lisboa.

Segundo relato da professora Isabel Gondim, o Doutor Barata teria instalado a primeira loja maçônica do Rio Grande do Norte, onde foi “particularmente comissionado, visto o alto grau a que estava investido naquela sociedade”.

Segundo reportagem do jornal “A Republica”, de 21 de março de 1926, em matéria alusiva aos 90 anos da loja maçônica “21 de Março”, a primeira loja inaugurada no Rio Grande do Norte foi a “Sigilo Natalense”. Na reportagem consta que “contribuíram para o seu estabelecimento os maçons Basílio Quaresma Torreão, Capitão Antônio José de Moura, tenente da armada Jesuíno Lamego Costa,  major Joaquim Ferreira Nobre Peliuca, comendador Rafael Arcanjo Galvão, padre Pedro José de Queiroz e Sá, Joaquim José de Lima e Silva e muitos outros”. Como a data exata da chegada do Doutor Barata a Natal não é conhecida, provavelmente ele não participou da inauguração da “Sigilo Natalense”, pois sem dúvida seu nome constaria da lista dos notáveis que participaram de sua primeira seção oficial.

Acredito que o velho maçom Cipriano Barata, deve ter participado dos quadros da primeira loja maçônica do Estado, onde certamente recebeu extensivo apoio dos seus irmãos na sua chegada a Natal[5].

O fim

Entretanto, logo o diabetes começou a cobrar seu preço, provocando-lhe uma morte lenta e dolorosa. Cascudo comenta que ele delirava realizando discursos, como se ainda estivesse nas Côrtes de Lisboa. Veio a falecer na noite de 7 de junho de 1838.

Ainda segundo Câmara Cascudo, vestiram-no de casaca e o enterraram com toda honra na soleira da Igreja do Senhor Bom Jesus, na Ribeira. O tempo apagou os letreiros do seu túmulo, perdendo-se a localização de seu túmulo e se não fosse nome de rua, o Doutor Barata seria totalmente esquecido.

No relato do capitão Francisco leitão, ele comenta que após a morte do Doutor Barata, circulou pela cidade um folheto que narrava sua vida e tinha uma conclusão que muito desagradou aos natalenses da época; “No Rio Grande do Norte, a Província menos notável do Império, na pequena capital dessa Província, terminou este milcíades brasileiro sua penosa existência; morreu virtuoso, mas não premiado pelos homens. Assim como o grande Pompeu, perseguido da inveja foi honrar com o seu cadáver os adustos areais do Egito, assim também o Probo, o Magnânimo, o Ínclito Barata, foi honrar com suas cinzas, as miseráveis plagas natalenses”[6].

NOTAS


[1] Não existem informações no material coletado sobre a loja maçônica a qual o Doutor Barata iniciou sua participação nesta fraternidade.

[2] Aparentemente, segundo os modelos existentes na época, o seu chapéu de couro era idêntico aos usados pelos antigos vaqueiros e cangaceiros do sertão, sendo a peça da sua indumentária que mais chamava a atenção dos portugueses.

[3] Segundo a professora Isabel Gondim, sem entrar em maiores detalhes, informa que o filho Horacio “irá se tornar um jovem avesso às letras, dado a estroinices e que dará muitos desgostos a seus pais”.

[4] Na “Mensagem do Vice-Presidente da Província, lida na abertura da Assembleia Legislativa, no dia 7 de setembro de 1838”, na página 40, dá conta que após a morte do Doutor Barata, assume o cargo de professor de francês do Ateneu, o padre João Carlos de Souza Caldas.

[5] Em 1876, sob a direção do padre Bartolomeu da Rocha Fagundes, as lojas maçônicas “Sigilo Natalense” e “Fortaleza e União”, se uniram para formar a loja “21 de março”, onde ficou decidido que a data de sua fundação retroagiria a 1836, sendo a loja “21 de março” a mais antiga instituição maçônica do Rio Grande do Norte.

[6] Para a realização deste artigo, utilizou-se reportagens do jornal “A Republica” do ano de 1898. Em 15 de abril deste ano, a então professora aposentada e única mulher que era membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Isabel Urbana Carneiro de Albuquerque Gondim, reproduz em uma extensa matéria, as lembranças do seu pai Urbano sobre a amizade com o Doutor Barata. No dia 17 de abril deste mesmo ano, o mesmo jornal reproduzia uma carta do já idoso capitão Francisco Leitão de Almeida, residente em Macaíba, que narrava suas experiências como aluno do Doutor Barata no Ateneu. Ainda no dia 20 de abril, da então vila de Touros, escreve para “A Republica” o senhor Francisco Antunes da Costa, para comentar que seu pai, o falecido major João Antônio da Costa, fora amigo do Doutor Barata, mas que “não tinha nada a informar, devido a clareza do artigo da professora Isabel Gondim”. Foi igualmente utilizado o livro “Natureza e História do Rio Grande do Norte, Primeiro Tomo (1501-1889)”, de João Alves de Melo, 1950, Imprensa Oficial, Natal, Rio Grande do Norte, onde nas páginas 361 a 363, o autor reproduz uma detalhada Acta Diurna de Luís da Câmara Cascudo sobre a trajetória política do Doutor Barata.

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