PROGRAMA ROTA DO CANGAÇO, CAMINHOS DA REPORTAGEM, TV BRASIL – AQUI CONVIDO A TODOS A ASSISTIREM UM INTERESSANTE TRABALHO QUE TIVE A HONRA DE PARTICIPAR. PERCORRI COM MARAVILHOSOS AMIGOS OS CAMINHOS DO SERTÃO NOS RASTROS DOS CANGACEIROS.
MAIS DE 50 MINUTOS DE CENAS INTERESSANTES, PARA AQUELES QUE DESEJAM CONHECER O ESTRANHO MUNDO DOS CANGACEIROS.
PARA ASSISTIR É SÓ CLICAR QUE VOCÊ VAI A PÁGINA DO PROGRAMA CAMINHOS DA REPORTAGEM, DAÍ É SÓ DESCER A BARRA DE ROLAGEM LATERAL, QUE VOCÊ VAI VER UM QUADRO COM UMA SETA. DAÍ É SÓ CLICAR E CURTIR O PROGRAMA…
PARABÉNS A TODA EQUIPE DA TV BRASIL QUE ESTIVERAM CONOSCO NO SERTÃO PERNAMBUCANO, OS AMIGOS CARINA DOURADO, OSVALDO SANTOS E ALEXANDRE SOUZA. SÃO ELES PROFISSIONAIS COMPETENTES, PESSOAS SIMPLES, DE FINO TRATO, QUE EXPANDEM EXTREMA ALEGRIA E UM FORTE SENTIDO DE PARCERIA. FOI BOM ESTAR NA ESTRADA COM VOCÊS E O RESULTADO DE NOSSA UNIÃO FOI MUITO POSITIVO. EVIDENTEMENTE QUE ESTENDO MEUS MAIS SINCEROS AGRADECIMENTOS AOS AMIGOS ALEXANDRE MORAIS, GRANDE POETA DA BELA CIDADE DE AFOGADOS DA INGAZEIRA E AO NOBRE BATALHADOR ALVARO SEVERO, UMA PESSOA DE MUITA VISÃO. COM CERTEZA VAMOS NOS ENCONTRAR NESTE NOSSO SERTÃO. QUERO DEIXAR MEUS ESPECIAIS AGRADECIMENTOS AO MEU GRANDE AMIGO, PARCEIRÃO NA BUSCA DA HISTÓRIA, O NOBRE ANDRÉ VASCONCELOS, A QUEM SOU ETERNAMENTE GRATO PELO ENORME APOIO QUANDO ESTOU NO PAJEÚ QUERIDO.
Anúncio jornalistico sobre a peça “Lampião”, de Raquel de Queiroz, com o ator Othon Bastos. Estes atores trabalharam na montagem desta peça realizada no Rio de Janeiro.
Rachel de Queiroz (1910-2003) nasceu em Fortaleza – CE e desde cedo conheceu as agruras da seca (com destaque para a grande seca de 1915, a qual inspirou sua obra “O quinze”). O sertão lhe era familiar, seus habitantes e seus costumes eram uma constante na obra de Rachel. Ela teve intensa atuação política, foi membro do Partido Comunista Brasileiro e chegou a ser presa em 1937 por suas ideias de esquerda. Foi também a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1977 e uma das mais importantes romancistas do movimento regionalista de 1930, iniciado com a publicação de “A Bagaceira” de José Américo de Almeida em 1928.
A peça Lampião marca a estreia de Rachel no teatro, é também um exercício de jornalismo, pois Rachel baseou sua criação artística em uma pesquisa investigativa acerca da vida da personagem, seus costumes, suas façanhas, seus companheiros. Apesar de ser fiel à história verídica, a peça não se resume a um relato histórico da vida de Lampião, preso a uma fria narrativa dos fatos, mas é repleta de ação e emoção.
A transição momentânea de Queiroz da literatura para o teatro deu-se num contexto de carência de bons escritores das artes cênicas. A busca por talentos em outras áreas da criação artística tinha a intenção de fomentar o crescimento do teatro do Brasil na época. Uma prática um tanto criticada, pois ao creditar a um romancista uma produção teatral, há o grande risco de perder-se a noção de cenografia. Sobre essa questão, Décio de Almeida Prado (2001, p.93) afirma:
A maneira à primeira vista mais fácil de remediar a pobreza do nosso teatro será a de trazer alguns escritores para o teatro. […] Com isso teríamos o sangue generoso do romance e da nossa mais alta poesia aquecendo as veias algo atrofiadas do teatro […] a fórmula é tão falsa quanto atraente: não adianta a qualidade literária, desacompanhada de um mínimo de qualidades teatrais.
Lampião estreou em 1954 nos teatros Municipal do Rio de Janeiro e Leopoldo Fróes em São Paulo. Apesar das críticas, recebeu o prêmio Saci pela montagem paulista, concedido pelo jornal O Estado de São Paulo. Com cenários de Aldemir Martins (que ainda não estavam totalmente prontos no dia da estreia) e atuação de Sérgio Cardoso como Lampião, contando ainda com participações de Jorge Chaia, Vicente Silvestre e Carlos Zara, a peça foi uma aventura de banditismo, lutas e muita ação.
A cearense Rachel de Queiroz
A trama da peça decorre em meio ao apogeu do cangaço, movimento surgido no Nordeste brasileiro, no início do séc. XX. O cangaceiro era, normalmente, classificado como “bandido”, pois os assim chamados “bandos” seguiam suas próprias normas, ignorando as leis estabelecidas pelo Estado. Parte dessa marginalização do cangaceiro deu-se porque este era um empecilho aos desmandos dos grandes fazendeiros, ou “coronéis” da época, que exerciam grande influência junto ao governo. Na verdade, os primeiros bandos do cangaço eram forças armadas montadas por um “coronel”, para exercer o poder, que se libertaram do jugo do seu mandante.
O sertão de Queiroz, seus encantos e críticas
A autora de Lampião recria em sua obra um ambiente já muito explorado pela literatura da época. O sertão nordestino foi cenário de muitas obras da segunda fase do modernismo brasileiro, também conhecido como período do “Regionalismo”, ou “Romance regionalista de 1930”. Os autores dessa fase uniram a análise sociológica à psicológica, buscando a verossimilhança da narração com a determinação do tempo e do espaço. Por relacionar a linguagem narrativa à realidade, foram chamados de “neorrealistas”.
Queiroz, em particular, retrata o sertão à sua própria maneira, verídica e cativante. Os diálogos de Lampião são sempre arrebatadores, “não há ninguém, no teatro brasileiro, que dialogue melhor do que Rachel de Queiroz” (PRADO, 2001, p. 94), isso porque ela exprime toda a variedade de sintaxe e riqueza de vocabulário presentes na fala das personagens.
Esta cena da peça remete a prisão de dois representantes comerciais no interior de Pernambuco. Este momento é baseado em um fato real que ocorreu em 1926, quando o bando de Lampião sequestrou dois representantes, de duas grandes empresas. Este sequestro culminou indiretamente no combate da Serra Grande, na zona rural de Serra Talhada. Este foi o maior combate da história do cangaço.
Por outro lado, as paisagens de caatinga não são facilmente adaptadas ao palco, as cenas de corridas, lutas e perseguições geralmente perdiam seu teor magnífico quando encenadas, eram reduzidas em seu potencial espetacular pelos limites do tablado.
Dentre as críticas recebidas por Lampião, está a de que há certa falha quanto à manutenção da unidade espaço-temporal na peça. A trama se desenvolve sem preparação e sem continuidade, formando um conjunto de atos pouco articulados entre si. O drama simplesmente acontece, fatos seguem-se uns aos outros sem que haja conexão plausível entre eles.
Em Lampião, Rachel busca mostrar as personagens características da região do interior nordestino, seus loucos, fanáticos religiosos e bandidos. A questão do fanatismo religioso é mais aparente em A Beata Maria do Egito (QUEIROZ, 1958), montada no Teatro Serrador, no Rio de Janeiro, tendo no papel-título a atriz Glauce Rocha. A autora mostra a devoção popular aos líderes religiosos da época como Padre Cícero e Antônio Conselheiro. Na trama, em 1914, a beata Maria do Egito, recém-chegada à delegacia de uma pequena cidade do Ceará, recruta populares para se juntarem à rebelião que Padre Cícero lidera em Juazeiro.
O retrato artístico de um cangaceiro
A trama de Lampião transcorre basicamente no sertão Nordestino, é difícil especificar uma região, pois o bando de cangaceiros é nômade e vive em acampamentos no meio da caatinga. Sabe-se, porém, que Lampião realizou suas pilhagens majoritariamente nos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Alagoas.
Cangaceiro Sabino, interpretado pelo ator Edgar Ribeiro, despoja um inimigo morto.
Virgulino Ferreira da Silva, ou Lampião, nasceu em 1898 no Vale do Pajeú, em Pernambuco. Seu nome remete à palavra “vírgula”, parada, talvez uma profecia de que o sertão iria parar de admiração, indignação e medo por seus atos. Lampião teve uma infância comum a todas as crianças de sua classe social, aprendeu a ler e escrever, mas logo foi trabalhar ajudando seu pai, carregando água, enchiqueirando bodes, dando comida e água aos animais. Mais tarde passou aos trabalhos de gente grande: cultivava algodão, milho, feijão de corda, cuidava da criação de gado. Posteriormente tornou-se vaqueiro e feirante.
Lampião viveu num período instável, de transições de séculos (do XIX para o XX), de amadurecimento da implantação da república, das transformações ocorridas no plano estético da arte com o advento das vanguardas europeias e, posteriormente, do modernismo brasileiro.
Sua entrada para o cangaço foi quase inevitável, depois de ter o pai assassinado por questões de briga familiar com seu vizinho José Saturnino, Virgulino e seus irmãos Antônio, Ezequiel e Livino Ferreira entraram para o bando de Sebastião Pereira, também conhecido como Sinhô Pereira. Em entrevista a Otacílio Macêdo para O Ceará, transcrita no Diário oficial, Recife, 1995, p. 9, Lampião disse:
Chamo-me Virgulino Ferreira da Silva […] Meu pai, por ser constantemente perseguido pela família Nogueira e em especial por Zé Saturnino, nossos vizinhos, resolveu retirar-se para o município de Águas Brancas, no estado de Alagoas. Nem por isso cessou a perseguição. Em Águas Brancas, foi meu pai, José Ferreira, barbaramente assassinado pelos Nogueira e Saturnino, no ano de 1917. Não confiando na ação da justiça pública, por que os assassinos contavam com a escandalosa proteção dos grandes, resolvi fazer justiça por minha conta própria […]
Grupo de cangaceiros jogando cartas. Uma atividade bem comum nos momentos de descanso dos verdadeiros cangaceiros.
O banditismo foi a forma que os irmãos Ferreira encontraram para exercer sua vingança, “procuraram no bacamarte as leis que decidissem a questão por falta de outras” (BARROSO, 1930, p. 93-94). Em 1922 o comando do bando de sinhô Pereira foi dado a Lampião, então com 24 anos. Doravante, o bando do famigerado cangaceiro só cresceria e atemorizaria as regiões por onde passava. Neste ponto dá-se o início da peça de Rachel de Queiroz.
Na única cena do primeiro quadro são apresentados alguns dos personagens principais, a ação transcorre na casa de Maria Déa e seu esposo, o sapateiro Lauro, em ponta de arruado, à margem do rio São Francisco. Logo nos primeiros momentos Maria conta a seu esposo que o bando de Lampião se aproxima da cidade, deixando-o atemorizado, pois, além do medo normal que essa notícia causaria a qualquer pessoa, Lauro era um tanto covarde, o que causava muito desprezo e até náuseas em Maria.
Insatisfeita com seu casamento e a despeito de ter que cuidar de seus dois filhos, Maria Déa manda um recado a Lampião, dizendo que viesse buscá-la se assim quisesse, para viajar o sertão e entrar para a vida do cangaço junto com ele. Eis que Lampião recebe o recado e chega à porta da casa, juntamente com seu bando, para levar Maria Déa, conforme a vontade da mesma. O bando de cangaceiros é então composto basicamente por Sabino, Antônio Ferreira (irmão de Lampião), Ponto-Fino (Ezequiel, também irmão de Lampião), Moderno (cunhado de Lampião), Corisco (ou Diabo-Louro), Volta Seca, Pai-Velho, Zé Baiano, Azulão, Pernambuco e Arvoredo. Apesar das súplicas de Lauro, Maria Déa ganha o mundo com Lampião e seu bando. Num ato de aparente misericórdia, o chefe dos cangaceiros resolve poupar a vida do pobre sapateiro.
Lampião (a esq.) vem buscar a jovem Maria Déa, interpretada pela atriz Ana Maria (do TEB-Teatro do Estudante do Brasil), ante o desespero do seu marido, o sapateiro Lauro. Na vida real o marido de Maria Déa, que seria conhecida como Maria Bonita, era José Miguel da Silva, sapateiro e conhecido como Zé Neném.
O segundo quadro é composto por duas cenas, a primeira dá-se num acampamento na caatinga, um local não muito bem definido, debaixo de um grande Juazeiro. Dois viajantes são interpelados por Corisco, que desconfia que eles possam ser espiões delatores. À chegada de Lampião ao local, segue-se um diálogo no qual o cangaceiro designa os dois viajantes, o capangeueiro (negociador de diamantes) e o agente de seguros, para levar um recado ao interventor de Recife, uma carta de paz. Antônio Ferreira, Pernambuco, Arvoredo e Azulão os acompanharão até a residência de seu Juventino, em Barreiros, de onde seguirão viagem para Recife. Lampião pretendia cessar as hostilidades com os, por ele chamados, “macacos do governo”, trata então de propor um acordo: ele governaria o sertão a seu modo e o interventor governaria a Zona da Mata e o Litoral. Na segunda cena deste quadro o mesmo acampamento é o cenário, algumas horas mais tarde. Lampião e Maria Bonita dialogam, ela mostra-se consciente dos riscos desse modo de vida, cita exemplos de Pedra Bonita e Canudos, casos em que o governo superou a resistência e repreendeu as revoltas populares. Lampião, por sua vez, acha essas comparações infelizes, diz que seu padrinho, padre Cícero, o protege e que tem o corpo fechado para mau-olhado. Ele revela o motivo de ter deixado o ex-marido de Maria e seus filhos vivos: para que tenha em quem “desabafar” quando não puder mais aguentar as pressões da vida no cangaço, da paixão por sua mulher, do medo de uma traição. Chegam ao local Azulão, Arvoredo e Pernambuco, contam que em casa de seu Juventino, Antônio Ferreira foi mortalmente baleado acidentalmente. Lampião parece acreditar na história, porém manda os homens deixarem o bando e as armas e sumirem no mundo. Mas assim que eles viram as costas, desarmados, o chefe dos cangaceiros ordena que abram fogo contra os três homens que ele julga responsáveis pela morte de seu irmão.
Representação do casamento de Lampião e Maria Bonita na caatinga, com o seu marido lhe suplicando que retorne ao lar. Da forma como a cena é retratada, nada disso ocorreu. Mas enfim é teatro!
O terceiro quadro possui apenas uma cena, o cenário é o mesmo, mas foi aperfeiçoado na tentativa de fazê-lo mais aconchegante. Volta-Seca foi fazer compra na cidade mais próxima e encontra um jornal no qual saiu a repercussão da carta enviada por Lampião para oferecer paz. Na primeira página, a foto do cangaceiro, uma matéria sobre a audácia dele em achar que pode tratar o interventor de potência a potência e a promessa do governo de represália a esse “insulto”. Sabino questiona a tentativa de paz de seu líder, diz que com o governo não tem acordo, que o chefe está esmorecendo, perdendo o vigor e a liderança. Lampião vê em Sabino uma ameaça, acusa-o de subverter seu irmão, Ezequiel, e, sem hesitar, fuzila-o com três balas à queima-roupa.
Ainda no mesmo cenário de acampamento, porém desmantelado, desenrola-se a primeira cena do quarto quadro, os cangaceiros e Maria Bonita aparecem em cena feridos e exaustos. O cerco do governo estreita-se sobre o rei do cangaço, e ele sente as consequências de querer ser um “estado dentro de um estado”. Desgastados, os três últimos homens de Lampião, Ponto-Fino, Pai-Velho e Moderno procuram água e mantimentos, já escassos. Ponto-Fino vai à busca de lenha, Moderno de água. Após um breve intervalo ouve-se um tiro, Lampião e Pai-Velho correm para averiguar a origem do disparo. Chega Ponto-Fino ao local em que Maria Bonita tinha ficado sozinha. Ele passa a assediá-la, oferecendo-lhe uma hipotética vida de calmaria na cidade de Juazeiro, proclamando que será o chefe do bando e ela será sua mulher. Maria Bonita fica indignada com tais pensamentos de seu cunhado, repreende-o. Chegam Pai-Velho e Lampião, este com uma fúria nos olhos, censura o irmão por ter atirado, justificando que o Sargento Calu está em sua caça e o tiro seria um chamariz. Ponto-Fino, ou Ezequiel, desafia o irmão, acusando-o de ter mandado matar Antônio Ferreira e questionando a morte de seu outro irmão, Livino, que não aparece na história a não ser por esta citação. Lampião, irado com a ousadia de Ezequiel, desafia-o para uma luta de faca. Segue-se a luta, da qual Lampião sai vencedor. Ponto-Fino fica muito ferido, mas não morre de imediato. Na segunda cena, mesmo cenário, cai a noite, Moderno monta sentinela, na qual é substituído pelo próprio Lampião. Em conversa com Maria, ele tenta justificar o ataque ao irmão, culpando a insolência de Ezequiel. Ela diz que pressente que o castigo está próximo, que o sangue dos inocentes reclama a vingança. Chega ao local Corisco com um pequeno bando de jovens cangaceiros, para se juntar ao Capitão Virgulino e ajudá-lo na sua retirada à grota dos Angicos.
Dez anos depois da montagem carioca da peça “Lampião”, o ator Othon Bastos voltaria a interpretar um famoso cangaceiro. Desta vez seria no cinema, atuando como Corisco, no antológico filme “Deus e o diabo na terra do sol”, dirigido pelo baiano Gláuber Rocha.
No quinto e último quadro o cenário é a Grota dos Angicos, segundo o próprio capitão, o lugar mais seguro de que ele dispunha. Lampião e Maria Bonita dialogam aos primeiros sinais da luz do dia. A mulher ambiciona deixar a vida de banditismo, ir para um lugar longínquo onde jamais se tenha ouvido falar em Lampião, este, por sua vez, afirma que seria como um atestado de covardia, coisa que ele não possuía. De repente, se ouve tiros, o refúgio derradeiro de Lampião é descoberto, ele foi traído. Ele e Maria Bonita são metralhados à morte, juntamente com os outros cabras que ainda dormiam. O fim da história de Lampião coincidiu com a decadência do cangaço. A entrada para a história, infelizmente, contou com a exposição de partes de seu corpo e dos homens de seu bando em praça pública. “As famílias dos cangaceiros do bando de Lampião, após uma longa batalha jurídica, puderam dar um enterro digno a seus parentes, vítimas da sociedade da época” (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 1969).
Lampião por Queiroz
A obra Lampião assemelha-se a um quadro expressionista da figura de Lampião. Em vez de imprimir, de fora para dentro, no texto a imagem que tinha do cangaceiro, Rachel exprimiu, com suas palavras, o sentimento que lhe despertava a história de vida do homem Virgulino. Porém, há algo a ser criticado na peça, a escassez de tempo que é dado ao público para que participe emocionalmente da ação. Prado (2001, p.94) afirma que:
De repente um cangaceiro qualquer, mal delineado psicologicamente, desconhecido da plateia, vem ao primeiro plano, revolta-se e Lampião o mata, antes que tivéssemos tempo de tomar pé no assunto […] de participar emocionalmente da revolta e do crime.
Mas isso não tira o mérito da grande Jornalista, cronista, romancista e dramaturga que foi Rachel de Queiroz, nem de sua peça Lampião. O estilo da autora é inconfundível. O Lampião de Queiroz em muito se assemelha ao imperador do sertão que se conhece hoje. Apesar de seus atos violentos, tinha também um lado humano e generoso. Ao Diário Oficial, 1995, p.9, Lampião revelou:
Tenho cometido violências e depredações vingando-me dos que me perseguem e em represália a inimigos. Costumo, porém, respeitar as famílias, por mais humildes que sejam, e quando sucede algum do meu grupo desrespeitar uma mulher, castigo severamente.
Ao mesmo tempo em que roubava e matava, dava também aos pobres, chegou a distribuir mais de um conto de réis com o povo do Juazeiro. Era desconfiado, pois tinha medo de traição por parte dos seus. “Lampião suspeitava de todos os alimentos que lhe entregavam e fazia com que fossem experimentados […] examinava com cuidado as garrafas” (GRUNSPAN-JASMIN, 2006). Católico e devoto a padre Cícero. Lampião certa vez disse (Diário Oficial, 1995, p. 9):
Sempre respeitei e continuo a respeitar o estado do Ceará, porque aqui não tenho inimigos, nunca me fizeram mal, e além disso é o estado do padre Cícero. Como deve saber, tenho a maior veneração por esse santo sacerdote, porque é o protetor dos humildes e infelizes
O homem Virgulino ou capitão Lampião não poderia se queixar da falta de menções ao seu nome, muitos foram os contos, livros, as músicas e cordéis que contaram sua história. “Era brabo, Virgulino Lampião, mas era, pra quê negar, das fibras do coração, o mais perfeito retrato, das caatingas do sertão” (Literatura de Cordel). O rei dos cangaceiros é mais uma vez retratado nessa brilhante obra de Queiroz, dessa vez com a fibra e a força características dos sertanejos.
Contando a história da Fazenda Colônia, onde nasceu o cangaceiro Antônio Silvino
NO PRÓXIMO DIA 5 DE SETEMBRO, PELA TV BRASIL, ÁS 10 HORAS DA NOITE, VAI SER TRANSMITIDO UM PROGRAMA ESPECÍFICO SOBRE O TEMA CANGAÇO, AO QUAL TIVE O GRANDE HONRA E PRIVILÉGIO DE PARTICIPAR.
O PROGRAMA CAMINHOS DA REPORTAGEM É BEM INTERESSANTE, SÃO JORNALISTAS QUE VIAJAM PELO PAÍS E PELO MUNDO ATRÁS DE GRANDES HISTÓRIAS, TRAZENDO AO TELESPECTADOR UMA VISÃO DIFERENTE, INSTIGANTE E COMPLEXA DE CADA UM DOS ASSUNTOS ESCOLHIDOS. OS JORNALISTAS A QUEM TIVE A OPORTUNIDADE DE CONHECER E QUE TIVE OPORTUNIDADE DE ACOMPANHAR POR ESTES CAMINHOS DO CANGAÇO FORAM A CARINA DOURADO, OSVALDO SANTOS E ALEXANDRE SOUZA.
AGORA TRAGO UMA SEGUNDA MOSTRA DE FOTOS DESTA AÇÃO MARAVILHOSA, COM FOTOS CEDIDAS PELOS AMIGOS OSVALDO SANTOS E ALEXANDRE SOUZA.
Este é o grande amigo Braz de Buíque, da Serra da Colônia. Uma grande figura. Neste dia ele estava seguindo montado para uma missa de vaqueiros na vizinha Paraíba e deu um ótimo depoimentoUma panorâmica da região da Fazenda Colônia. Um ótimo local para um filme de época. É só esconder o poste que está um visual original e bem característico das fazendas do passado do Nordeste.Esta é a Casa Grande das Almas, propriedade que está situada na área rural de Triunfo (PE), na divisa dos estados de Pernambuco com a Paraíba. Sobre este local podemos comentar que é que parte da casa está em Pernambuco, do outro lado é a Paraíba. Dizem que Lampião, era amigo dos proprietários e gostava de jogar cartas neste local. Afirma-se que quando perseguido na região abrigava-se nas Almas, daí,quando a polícia de pernambuco chegava ali, o rei do cangaço passava para o lado paraibano da casa , onde a policia pernambucana não podia atuar, e quando era perseguido pelos paraibanos, fazia o contrário.Osvaldo filmando as AlmasNa bela cidade serrana de Triunfo. O grande prédio antigo na foto é o cine teatro Guarany, cujo administrador é nosso amigo André Vasconcelos. Outra grande figura.Aqui a Carina, Osvaldo estão juntos ao grupo de Xaxado de Triunfo e a nossa amiga Diana, grande batalhadora pela cultura de sua região. Diana é uma grande incentivadora da participação dos jovens de sua cidade neste grupo de Xaxado, a dança dos cangaceiros.Pelos caminhos do sertão, junto aos amigos André Vasconcelos e Carina Dourado. Só não sei o que a Carina estava procurando!Na Fazenda Barreiros, de propriedade do amigo Alvaro Severo, na zona rural de Serra Talhada, próximo da Serra Grande, onde ocorreu um dos mais importantes e maior combate da história do cangaçoPelos caminhos da Serra Grande, tendo a frente o Seu Luiz, sertanejo de grande coração, que conhece tudo da fauna e flora da caatinga. Estando com ele o turista não passa fome nesta regiãoSeu Luiz mostrando os segredos da flora do sertão, úteis a sobrevivência em uma região secaPanorâmica da Serra Grande. Quase sete horas de caminhada, entre subidas e descidas.Outro visual da serraOutra parada para conhecer a flora da caatingaDeu para aprender bastanteNo alto da serra, junto com nosso animal de estimação, o pequinês que a tudo escutava. Era um microfone na mão do Fred, outro grande companheiro de viagem.O amigo Alvaro Severo, que desenvolve um maravilhoso projeto de aproveitamento ecoturístico na região, com intensa participação do pessoal do local, comentado sobre a grande luta no alto da serraToda a galera reunida no alto da serraBem, depois da Serra Grande eu voltei para casa, mas a galera da TV Brasil seguiu viagem. Estiveram na cidade baiana de Paulo Afonso, onde nosso amigo João de Souza Lima, grande pesquisador do cangaço, autor de livros, apresentou a região aos jornalistas. João é uma grande figura, a quem tenho extremo respeito pela pessoa e seu trabalho. João mostra a cruz que marca o local da morte de Antônio Curvina. Para saber mais, assista o programa dia 5 de setembro, na TV Brasil, ás 10 da noiteOsvaldo em frente a casa de Maria Bonita, que foi fielmente restaurada e hoje é local de visitaçãoOs amigos Osvaldo e Alexandre Souza entrevistando Seu Coquinho. Ele contou ótimas histórias sobre Lampião e seu bando Ele reside no povoado Brejo do Burgo, BahiaLocal próximo da casa onde Lampião costumava fazer seus bailesNo próximo dia 5 de setembro, ás 10 da noite, na TV Brasil, vamos ver o resultado deste trabalho. Um abração a todos
Desde que comecei a ler livros, a me interessar pelas envolventes histórias dos cangaceiros nordestinos, uma passagem em particular me chama muito atenção. Foram as circunstancias envolvendo um intenso tiroteio entre um antigo cangaceiro do bando de Lampião, conhecido como Meia-Noite, que enfrentou praticamente sozinho, durante mais de cinco horas de fogo cerrado, um grupamento policial que chegou a ter mais de oitenta homens.
Ocorrido em uma data incerta, mas que se situa em algum dia da segunda quinzena de agosto, ou início de setembro de 1924, este desigual combate se desenrolou em uma propriedade rural chamada Tataíra, em meio às serras do então município paraibano de Princesa, na fronteira com Pernambuco.
O que chama atenção neste caso, além do imenso volume de fogo, foi a capacidade de resistência deste cangaceiro que, mesmo acuado em uma pequena casa rural, ferido, ainda conseguiu em um primeiro momento fugir e só foi morto alguns dias depois, através de um emboscada perpetrada por dois homens, um dos quais lhe ajudava no seu restabelecimento.
Ao ler estes fatos, no começo pensei ser mais uma das muitas fantasias que pululam os inúmeros livros escritos sobre o cangaço. Pensava que no caso da história ser verdadeira, certamente esta casa deveria ter sido derrubada há muitos anos e que, após mais de oitenta anos, não haveria ninguém que pudesse narrar algo deste incrível episódio.
Não sabia o quanto estava enganado.
AS ORIGENS DO CONFLITO
Segundo a literatura relativa ao assunto, o tiroteio no sítio Tataíra tem origem em 27 de julho de 1924, quando um forte grupo de cangaceiros atacou com sucesso a cidade paraibana de Sousa, uma das mais importantes daquele estado.
Chico Pereira
As raízes deste ataque surgem a partir do desejo de vingança de um fazendeiro que vivia a alguns quilômetros de Sousa, em uma propriedade denominada Jacu, no então distrito de Nazareth, atual município de Nazarezinho. O nome deste homem sedento de retaliação era Francisco Pereira Dantas, conhecido como Chico Pereira.
Seu pai, o afamado coronel João Pereira, foi assassinado em meio a disputas políticas. O comentário na região fora que os mandantes seriam pessoas importantes de Sousa, dentre estes prováveis articuladores constava o nome de nome Otávio Mariz.
O clima na cidade estava pesado, na iminência de ocorrerem novas ações violentas, logo este membro da influente família Mariz se envolve em uma briga na feira da cidade, onde chicoteou severamente uma pessoa ligada a Chico Pereira.
Em sua fazenda, ao saber do ocorrido, Chico Pereira se exalta. Ele teria então enviado um portador para dialogar diretamente com o famoso chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, solicitando seu apoio para a realização de um decisivo ataque contra os seus inimigos em Sousa. Após ouvir o portador vindo de Sousa, Lampião teria dado o aval para que dois dos seus irmãos, Antônio e Levino Ferreira, além de certa quantidade de cangaceiros, seguissem para o Jacu, unissem forças com o grupo de homens em armas mantidos por Chico Pereira e atacassem a cidade.
O coronel José Pereira, no destaque de gravata.
Por esta época Lampião convalescia de um forte ferimento, ocasionado inicialmente em um combate no lugar conhecido como Lagoa do Vieira, na zona rural do atual município pernambucano de São José de Belmonte. O mais importante cangaceiro brasileiro se recuperava na área da propriedade denominada Saco dos Caçulas, na zona rural da cidade de Princesa, na fronteira da Paraíba com Pernambuco. Esta propriedade pertencia a Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes de José Pereira de Lima, líder político e verdadeiro “dono” de Princesa.
Segundo relatos coletados na região, Marcolino Diniz, através da anuência de seu parente José Pereira, aparentemente firmou um acordo tácito com Lampião. O chefe cangaceiro estava protegido por estes homens poderosos na região da fazenda Saco dos Caçulas, em contrapartida os seus cangaceiros não deveriam criar problemas em suas áreas de interesse.
Rodrigues de Carvalho, autor do livro “Serrote Preto” (Rio de Janeiro,1974), afirma na sua página 273 que Sousa ficava distante “35 léguas” de Princesa, equivalente a 210 quilômetros. Provavelmente Lampião imaginou que o ataque a esta cidade não traria problemas junto aos seus protetores e assim ficaria mantido o pretenso acordo.
Entre os homens que Lampião cedeu a Chico Pereira estava a “fina flor” do cangaceirismo da época. Homens como Sabino, José Cachoeira, Lua Branca e um homem negro alto e forte, conhecido como Meia-Noite.
O cangaceiro Meia-Noite
Segundo o escritor Érico de Ameida, no livro “Lampeão-Sua História” (págs. 63 a 68), publicado em 1926, o cangaceiro Meia-Noite se chamava Antonio Augusto Feitosa, teria em 1924 a idade de 22 anos, sendo originário da região de Olho D’Água do Casado, próximo a Paulo Afonso, Alagoas e possuía a fama de ser extremamente valente.
Diante de uma horda composta de um número de cangaceiros que superava os oitenta homens, todos dispostos e bem armados, o assalto a Sousa foi um sucesso para o bando.
Foto do bando de Lampião nos primeiros anos da década de 1920.
O saque foi tão desenfreado e até mesmo os aliados de Chico Pereira sofreram nas mãos dos cangaceiros. Casas comerciais, residências e qualquer local onde houvesse algo de valor foram “visitados”. A situação chegou a um ponto tal que durante o ataque, Chico Pereira deixou a função de chefe cangaceiro para buscar controlar as feras que ele mesmo incentivou a atacar a cidade. João Gomes de Lira, que foi oficial da Polícia do Estado de Pernambuco, antigo perseguidor de Lampião e autor o livro “Lampião-Memórias de um soldado de volante” (Recife,1990), afirma na sua página 143 que Chico Pereira foi “Quem muito defendeu Sousa de Piores desatinos”.
Até hoje perdura o desconforto em relação a esta página negra da história desta cidade. Em nossas pesquisas na região, em contato com filhos daqueles que vivenciaram os fatos, sem dúvida alguma é facilmente perceptível o desconforto destas pessoas em tecer algum comentário sobre este assunto.
Enquanto o grupo de atacantes retornava para Princesa, a repercussão do fato se espalhava pela Paraíba e pelo Nordeste.
Logo após saber dos estragos em Sousa, Lampião percebeu que enfrentaria a polícia paraibana e que dificilmente Marcolino Diniz e José Pereira continuariam lhe dando a mesma proteção e apoio de outrora.
Marcolino Diniz e seus cabras
Justamente nesta hora, em que o horizonte se mostrava repleto de nuvens negras, ocorreu no seio do bando de Lampião a saída de um dos seus mais destemidos membros.
Após retornarem para junto do chefe, durante um pernoite em uma fazenda denominada “Bruscas”, pertencente à família Lacerda, o intrépido Meia-Noite percebeu que algum companheiro havia lhe surrupiado a quantia de nove contos de réis, tão “arduamente” conseguida como “fruto do seu labor”.
Logo se iniciava uma discussão. Sem medo de nada o cangaceiro enganado pelos companheiros, apontou o dedo diretamente para os irmãos de Lampião, estes por sua vez afirmavam inocência. O clima esquenta, Meia-Noite logo se coloca pronto para o que viesse a ocorrer, empunhando seu fuzil Mauser. Lampião em pessoa intervêm no conflito, mas naturalmente se põem a favor dos irmãos e a situação quase chega a um desfecho trágico.
Lampião tinha enorme respeito pelo cangaceiro Meia-Noite
Sabendo o tipo de homem que Meia-Noite era, a quem ele conhecia já de alguns anos, Lampião decide então pagar os nove contos ao terrível cangaceiro.
Após a entrega do erário, Lampião impôs uma condição, que seu companheiro teria de entregar as suas armas para outros membros do bando. Meia-Noite percebeu que estando ele desarmado, fatalmente seria novamente roubado e morto. O valente negro não se fez de rogado, colocou uma bala na câmara de seu fuzil, apontou a arma para Lampião e “convidou” o chefe e quem mais lhe acompanhava a vir lhe tomar seu armamento.
Segundo relatos conseguidos por Rodrigues de Carvalho (Op. Cit. Págs. 274 e 275), junto ao fazendeiro Zuza Rodrigues, que anteriormente ouviu a história através do cangaceiro Lua Branca, que estava presente a cena, nesta hora todos ficaram quietos, admirados ante a valentia do negro, que mantinha o fuzil apontado diretamente para Lampião. O chefe sempre admirava os valentes e, apesar de consternado ante a afronta, baixou a guarda. Além do mais não havia muito que fazer, pois se Meia-Noite atirasse, Lampião sabia que dali o seu destemido cangaceiro não sairia vivo, mas provavelmente ele, Lampião, também não.
O cangaceiro negro é então expulso do bando e foi embora pelas estradas do sertão.
Região da Serra do Pau Ferrado – Foto – Rostand Medeiros
Meia-Noite segue para a região da fazenda Saco dos Caçulas, através das veredas existentes na grande serra do Pau Ferrado, outro local de esconderijos dos cangaceiros na região.
Teria sido melhor para Meia-Noite sair da região, pois a perseguição policial crescia ainda influenciada pela repercussão do assalto a Sousa. Volantes policiais paraibanas, acrescidas de homens armados do séquito do coronel José Pereira, estavam alertas e prontas para caçarem sem piedade Lampião e seus cangaceiros.
Mas o que movia Meia-Noite a retornar a esta área perigosa, nada tinha haver com dinheiro, armas e brigas. Ele desejava estar próximo de sua amante, de nome Zulmira.
A REGIÃO DE PRINCESA E SUAS HISTÓRIAS
Antes de prosseguir neste relato tenho que comentar que a partir de 2006, ao buscar subsídios para uma pesquisa que realizo relativa a ação do cangaceiro Chico Pereira, conheci a interessante cidade de Princesa Isabel, a antiga Princesa e a sua região. A 23 quilômetros desta cidade, em Manaíra, conheci e fiz amizade com uma verdadeira biblioteca viva em relação a estes acontecimentos e se chama Antônio Antas Dias.
O amigo Antônio Antas, apontando os caminhos da história da Tataíra – Foto – Rostand Medeiros
Na sua juventude conviveu e conheceu na intimidade Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes do “dono” de Princesa, José Pereira. Além de Marcolino, Antonio Antas conviveu igualmente com Luiz Nunes de Souza, que ficou conhecido como o mítico cangaceiro “Luís do Triângulo”, de Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso” e de outro conhecido como “Tocha”. Todos estes homens de extrema valentia e de total confiança de José Pereira e Marcolino Diniz.
Altivo, tranqüilo, prestativo, através de Antonio Antas passei a conhecer aspectos interessantes da região, onde já estive em quatro ocasiões.
Em uma delas perguntei ao amigo Antonio sobre o combate da Tataíra. Para minha surpresa ele afirmou que a história da valentia de Meia-Noite era muito conhecida na região, que a casa ainda estava de pé, servindo de moradia até hoje, que aparentemente não tinha sido drasticamente reformada e, o mais importante, havia pessoas, filhos daqueles que vivenciaram os fatos, que poderiam transmitir de forma correta, aquilo que seus pais e parentes relataram do tiroteio de 1924.
Parti junto com Antonio Antas para visitar o local e buscar junto aos filhos das testemunhas, pessoas que atualmente se situam na faixa dos sessenta a oitenta anos, ainda lúcidos, a memória deste acontecimento. Estas pessoas, mesmo não sendo testemunhas diretas, ouviram as narrativas deste acontecimento em um ambiente mais tranquilo, anterior a massificação do rádio e da televisão, mais propício para que a lembrança dos fatos ocorridos pudesse ser mais rica em detalhes.
O resultado foi muito animador.
A TRANQUILIDADE NO SACO DOS CAÇULAS
Segundo o agricultor Anastácio de Souza de Moraes, de 69 anos a época de minha entrevista (2008), morador do sítio Bandeira, vizinho a Tataíra, me narrou que seu pai Manuel Moraes, assistiu de sua casa, onde até hoje Anastácio reside, todo o conflito ocorrido em setembro de 1924. Anastácio é calmo tranqüilo, calejado nas lides do campo, comentou que para as pessoas da região o apelido Meia-Noite não tinha origem apenas no fato dele ser negro, mas porque o valente cangaceiro possuía o hábito de circular na região sempre à noite.
Casa Grande dos Patos – Foto – Rostand Medeiros
Segundo o nosso entrevistado, nos dias em que Meia-Noite circulou por aquele setor, ainda junto a Lampião e seu bando, os cangaceiros consideravam aquele local o seu melhor refúgio. Percebemos isto ao circular na estrada de barro que liga a cidade de São José de Princesa e a fronteira de Pernambuco, pois em nenhum momento é possível visualizar, mesmo estando em altitude, à atual comunidade do Saco dos Caçulas, ou as casas da propriedade Tataíra.
São elevações se sobrepondo a elevações, criando no meio delas uma área quase que fechada, um verdadeiro “saco”.
Além do apoio de Marcolino Diniz, outra razão positiva para a região do Saco dos Caçulas ser considerado um ótimo esconderijo era a existência de um afamado armeiro e ferreiro chamado Zé Andre. Este sempre calibrava as armas, ajeitava uma agulha, um gatilho, trocava uma mola, uma coronha. Anastácio e Antonio Antas o conheceram atuando e são unânimes em afirmar que Andre era um verdadeiro artista.
É conhecido na região que muitas vezes Lampião saiu de seus esconderijos, acompanhado dos seus homens de maior confiança, como seus irmãos e Luís Pedro do Retiro, para jogar cartas com Marcolino Diniz, no casarão da fazenda Patos de Irerê. A tônica desta jogatina era de apostas com altas somas de dinheiro.
Os cangaceiros não ficavam fixos em uma casa, estavam sempre passando de um refúgio para outro. A casa que eles mais gostavam, segundo relatos do pai de Anastácio, era uma velha vivenda situada no sítio Pedra, cujo proprietário era conhecido como “Domingos da Pedra” e muito ligado a Marcolino Diniz. Neste refúgio era comum a presença de um sanfoneiro chamado Joaquim Preto, que vinha do sítio Covão, onde bailes eram freqüentemente realizados e o agricultor Manoel Moraes, pai do nosso entrevistado, frequentou muitas destas festas com outras pessoas da região.
Para ele sempre existiu muito respeito por parte dos cangaceiros em relação à população local, sendo provável que foi em um destes bailes que o afamado Meia-Noite conheceu Zulmira.
Igreja de Patos do Irerê – Foto – Rostand Medeiros
Sobre esta sertaneja, ela era natural da área da fazenda Saco dos Caçulas, onde morava com a sua família. Segundo Anastácio, os pais da jovem se posicionaram contrários ao relacionamento. Mas quem iria contra Meia-Noite? Logo ela fugiu com o seu cangaceiro.
A REGIÃO SE TORNA PERIGOSA
Mas depois do ataque a Sousa tudo mudou.
Lampião foi avisado a deixar a região do Saco dos Caçulas, logo ele e seus homens passaram a ser tenazmente acossados pela polícia e homens contratados por José Pereira.
Diante da nova situação e do seu retorno a região, Meia-Noite passou a circular com muito cuidado. Ele nunca dormia no mesmo local, seguia para vários esconderijos diferentes, levando a amada a reboque. Consta que Meia-Noite era visto circulando abertamente com um fuzil Mauser, pistola e punhal. Já Zulmira transportava um rifle modelo Winchester.
Manuel Moraes informou a seu filho que pela proteção e o silêncio do povo da região, Meia-Noite desembolsava certas quantias em dinheiro que satisfaziam aqueles que lhe acoitavam e deixavam outros se roendo de inveja. Para o pai de Anastácio, foi na ocasião em que o valente cangaceiro se encontrava homiziado em uma das casas do sítio Tataíra, que pertencia a um fazendeiro conhecido como Tibúrcio Barreto, que provavelmente algum proprietário vizinho se dirigiu a Princesa e delatou ao coronel José Pereira, onde Meia-Noite se encontrava.
A antiga Princesa, atual Princesa Isabel
Segundo Rodrigues de Carvalho (Op. Cit. Pág. 280), o coronel ordena a um dos seus homens de confiança, Manoel Virgulino, que fosse a Tataíra com doze homens, com a ordem de “-Trazer o negro de qualquer maneira, na corda ou no pau”. Esta ordem significava ou trazê-lo amarrado vivo, ou amarrado morto em uma vara e transportado por dois homens.
Às nove da noite Manoel Virgulino segue de Princesa junto com seu grupo. Demoram quatro horas em marcha discreta e ininterrupta. Anastácio Moraes informou que o grupo de captura passou por várias casas perguntando sobre o cangaceiro, logo chegavam à casa do ferreiro e armeiro Zé André. Este acordou com a movimentação ao redor de sua residência e homens batendo a sua porta. Ao abrir Zé Andre se assustou com os homens armados, que lhe perguntaram de forma ríspida se na sua casa Meia-Noite estava homiziado, ou se sabia onde ele estava. Ele negou conhecer o paradeiro do cangaceiro, eles aceitaram a informação e seguiram em direção as casas do sítio Tataíra.
Zé Andre não foi molestado, igualmente não teve dúvidas em relação ao que iria ocorrer e tratou de abandonar sua pequena vivenda em busca de refúgio na casa de parentes.
Casa do sítio Tataíra, onde ocorreu o feroz tiroteio. Na época a casa tinha uma divisão – Foto – Rostand Medeiros
Rodrigues de Carvalho (Op. Cit. Pág. 280) informa que realmente a volante bateu de casa em casa, recebendo sempre respostas negativas e que o grupo já estava desanimando com o resultado e prontos para retornarem a Princesa.
Em uma das últimas tentativas, o grupo encontrou duas casas lado a lado no sítio Tataíra, com uma grande palmeira na parte frontal. Não eram casas muito grandes, possuíam telhados típicos do sertão, em forma de “V” invertido, tipo conhecido como “Duas Águas”. Suas paredes eram bem rígidas, feitas com maciços e grandes tijolos a aparente. Perceberam que uma das casas era para moradia e a outra servia como local e transformação de mandioca em farinha, pois possuía uma chaminé no alto e apenas uma porta e uma janela na parte frontal. As casas estavam situadas em uma pequena elevação, onde os atacantes ficavam em desvantagem, pois quem estava no seu interior tinha o campo de tiro completamente aberto e facilitado.
O grupo passou a interpelar os que ali habitavam. Não tiveram uma resposta rápida, mas ouviram barulhos e aguardaram. Logo uma voz de mulher se apresenta. Os membros da volante pedem para entrar e a voz feminina afirma ser uma mulher idosa, que está sozinha e que não iria abrir. Os homens de José Pereira voltaram à carga, batendo com mais força a porta. A voz feminina pergunta “-Se são homens do coronel?”, diante da afirmativa Meia-Noite deixa de lado o disfarce e abre fogo em meio a toda uma série de impropérios, palavrões e baixarias.
Lateral da casa do sítio Tataíra – Foto – Rostand Medeiros
Manoel Virgulino interpela o cangaceiro para que ele se entregue, pois eles vão pega-lo “-Vivo ou morto”. O cangaceiro, segundo Anastácio, respondeu “-Nem morto nem vivo e quem entrar leva tiro”.
Tem início aquele que é considerado um dos mais intensos, desiguais, longo e ferozes combates ocorridos no período do cangaço.
O INCRÍVEL “FOGO” DA TATAÍRA
Os membros do grupo atacante perceberam que estavam diante de um combatente destemido e preparado. Era tal a quantidade de disparos que saiam do interior da casa que ficava difícil acreditar que apenas uma arma era disparada por vez. Tanto as narrativas dos moradores da região, quanto à literatura existente, são taxativos em afirmar que Zulmira não atirou, mas municiava as armas do companheiro.
O esperto Meia-Noite tinha certeza que os homens de José Pereira desconheciam a sua saída do bando de Lampião e passou a admoestar os atacantes com a certeza que seus companheiros lhe atacariam pela retaguarda. Não é difícil imaginar que diante da possibilidade do seu grupo ser assim atacado, Manoel Virgulino tenha dividido o grupo atacante e esta atitude ajudou a prolongar o cerco.
Outra vista da casa – Foto – Rostand Medeiros
O combate se prolongava, a madrugada estava findando e os atacantes certamente sabiam que com o eco do tiroteio se expandindo pelas serras, logo outros companheiros das volantes estariam chegando.
Em dado momento, Meia-Noite pede garantia de vida para sua companheira. Para a sertaneja Zulmira aquela zoada, aquela tensão era demais. Os homens de Manoel Virgulino informam que ela estava garantida, que nada de mal ocorreria à jovem e que, se Meia-Noite quisesse, ele também estava garantido para seguir para sua cela em Princesa. Valentão e ousado, ir para cadeia era a máxima das desonras para Meia-Noite e a sua resposta foi outra série de impropérios e mais chumbo.
Mas diante da situação da jovem e das palavras dos seus inimigos que diziam que ele era covarde por manter a mulher na casa, houve uma trégua e Zulmira deixou a casa de farinha com alguns poucos pertences. Após a saída da sua amada, Meia-Noite despeja fogo e novos insultos contra seus inimigos.
Tenente Manuel Benício
Já são quatro horas de troca de tiros quando ecoa na serra o toque de uma corneta. Segundo Érico de Almeida (Op. Cit.Pág.66) era a volante do tenente Manuel Benício, acrescida do pessoal de Clementino Quelé e Francisco Oliveira, que estavam aquartelados no alto da serra do Pau Ferrado. Já Rodrigues de Carvalho (Op. Cit.Pág.284) informa que este grupo se encontrava em um sítio denominado Baixio, a 15 quilômetros da Tataíra e próximo a fazenda Patos, cujo proprietário era Marcolino Diniz. O autor narra as inúmeras dificuldades do grupo de policiais para alcançar a região do conflito e neste aspecto ele estava correto.
Visitando a região, esplendorosa em sua beleza serrana, não foi difícil de perceber o enorme grau de dificuldade que os policiais enfrentaram para chegar a Tataíra. Segundo o mapa em escala de 1:100.000, produzido pela SUDENE, a altitude onde se localiza o sítio Baixio é de quase 900 metros, o grupo então desceu em torno de 400 a 450 metros, para o vale onde se situa o antigo casarão da fazenda Patos e tornar a subir a uma cota superior a 800 metros, seguindo para a casa onde se encontrava o terrível e valente cangaceiro, isto tudo em uma época em que a cobertura vegetal era bem mais cerrada.
Entrevistado apontando onde a polícia estava. A casa da Tataíra está nas costas do fotógrafo – Foto – Rostand Medeiros
Certamente nesta hora o cangaceiro Meia-Noite deve ter se imaginado perdido, pois sabia que aquela corneta significava a chegada de uma Força Policial, que segundo Érico de Almeida (Op. Cit.Pág.67) chegava a 84 homens. Para a população local o número de combatentes contra o solitário Meia-Noite fica em torno de 100 a 120 homens. Independente do número exato, a desproporção era enorme e logo uma sinfonia de disparos ecoava pelas serras.
Mesmo assim, nem com a chegada dos reforços policiais, o valente alagoano refreou seu ímpeto, continuando a dizer todos os palavrões que conhecia e mandando bala. Logo dois membros da polícia foram feridos.
Manuel Moraes informou a seu filho que depois do “fogo”, os policiais comentaram na região que “-O negro tanto atirava, como dizia baixarias, recitava versos e até cantava”. Provavelmente Meia-Noite, sozinho dentro da casa, cantava, dizia palavrões e recitava versos populares, para aguentar o cansaço, a tensão e ter forças para continuar a luta.
A noite se encerrava. Dentro da casa de farinha Meia-Noite via as munições do fuzil, da pistola e do rifle escassearem rapidamente. Só tinha duas saídas; ou se entregar, ou sair para o “campo da honra” e lutar até a morte. No final das contas Meia-Noite sabia que iria morrer de qualquer jeito.
Outra área onde se posicionou as tropas policiais – Foto – Rostand Medeiros
Os atacantes atiravam incessantemente, quando Meia-Noite gritou que iria sair. Certamente um frêmito de vitória correu no meio da tropa e possivelmente alguns até devem ter comemorado antecipadamente. Ele ainda alertou que a polícia preparasse as armas “-Que ele iria sair”. Durante cerca de dez a quinze minutos o silêncio imperou no campo de luta. Os atacantes imaginaram que o cangaceiro estaria morto ou ferido.
Existem duas versões para o que ocorreu a seguir: Rodrigues de Carvalho (Op. Cit.Págs.286 e 287) afirma que os atacantes, já perturbados com o silêncio prolongado, achando que Meia-Noite estava ferido ou morto, entraram no recinto e descobriram que ele havia sumido, havia desaparecido. O autor afirma que a quantidade tiros era tão grande, que a fumaça produzida pelas armas foi “capaz de anular a visibilidade”, que o cangaceiro aproveitou este momento e fugiu, deixando um rastro de sangue.
Já as pessoas da região, como Anastácio, Antonio Antas e outros, são categóricos em afirmar que Meia-Noite, após anunciar que ia sair, deu um tempo e então atirou um objeto com certo volume diante da casa de farinha. Quem estava de arma pronta meteu bala no que se projetou para fora da casa. Para uns, o que Meia-Noite jogou foi uma mala, para outros um caçuá e para outros um saco.
Região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros
Depois dos inúmeros disparos no objeto, o ágil alagoano de 22 anos aproveitou enquanto o grupo de atacantes se municiava e partiu para fora da casa em desabalada carreira. O comentário na região foi que ele saiu atirando, gritando, colocando nova munição na câmara do seu fuzil, atirando novamente, pulando no meio dos soldados e descendo o aclive onde se situa a casa da Tataíra. Manuel Moraes informou ao seu filho que dois soldados, vendo a figura de Meia-Noite se aproximando, abandonaram o posto onde estavam e fugiram.
Mesmo conseguindo furar o cerco inicial, o grupo de atacantes não era pequeno. Mesmo com a visibilidade limitada pela pouca luz, com seu alvo correndo, um policial mais atento fez pontaria com seu fuzil e abriu fogo. O tiro atingiu uma das pernas do cangaceiro. Ele caiu, mas logo se levantou, pulou uma cerca, caiu de novo e continuou a fuga em meio a outros tiros.
Não encontrei na região ninguém para corroborar a afirmação de Rodrigues de Carvalho, mas todos são unânimes em comentar, sempre com uma ponta de espanto, a segunda versão da escapada de Meia-Noite.
Para as pessoas da região o sucesso inicial da fuga de Meia-Noite, se deveu a ele espertamente aproveitar o lusco fusco da manhã, àquela hora onde a visibilidade ainda não é plena. Houve igualmente um excesso de confiança dos atacantes em relação a sua superioridade numérica, fazendo com que ficassem desatentos. Outra possível causa pode estar no fato que o grupo de Manoel Virgulino, como as tropas de Benicio, Quelé e Oliveira, já estavam muito cansadas. Uns pelo cerco prolongado e os outros pelo sobe e desce de serras elevadas.
O certo é que mesmo em grande vantagem numérica, a tropa não se movimentou para caçar o fugitivo, mesmo ele estando ferido.
BUSCA DE UM ABRIGO
Rodrigues de Carvalho (Op. Cit.Págs.286 e 287) afirma que depois de baleado, em meio à fuga desesperada pelas serras, Meia-Noite teria quebrado um braço ao pular uma cerca. Após isso ele se encontrou com um agricultor, a quem lhe entregou uma pequena soma de dinheiro para ser entregue a Zulmira.
Já Anastácio Moraes afirma que foi um amigo de sua família que realmente se encontrou com o fugitivo. Ele se chamava Olegário Bezerra, era conhecido do cangaceiro, sendo proprietário de um pequeno sítio no lugar Bandeira, considerado uma pessoa humilde e honrado. Diante da situação vexatória, Meia-Noite entregou a Olegário grande parte do dinheiro que transportava e disse “-Olegário, pegue esse dinheiro aí. Se voltar eu pego novamente e se não voltar é seu”, fugindo em seguida.
Zulmira em um primeiro momento foi transportada para Princesa, onde ficou presa.
Na seqüência, segundo a versão oficial, apresentada por Érico de Almeida (Op. Cit.Pág.67) e Rodrigues de Carvalho (Op. Cit.Pág.288), Meia-Noite caminhou cerca de doze quilômetros até a casa de um agricultor, que aparentemente lhe dispensou todo cuidado e apoio. O benfeitor avisou ao ferido que iria buscar uma pessoa de confiança, que trabalhava com ervas e que iria preparar alguma coisa para cuidar do ferido. Mas ao invés desta buscar ajuda, ele foi atrás do Inspetor de Quarteirão da povoação de Patos, o valente Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso”. Este teria então vindo à casa do agricultor, acompanhando de mais quatro homens, dado voz de prisão a Meia-Noite, que resistiu e depois fora trucidado.
Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso” e sua esposa. Foto provavelmente da década de 1950 – Foto – Aldo Lopes
Para Anastácio e Antonio Antas a história foi “-Mais ou menos assim”. Eles me aconselharam então a procurar falar com uma fonte mais categorizada e que foi muito próxima de Manoel “Ronco Grosso” Lopes, o seu próprio filho.
Morando próximo da comunidade do Saco dos Caçulas, encontrei um homem que se chama Manoel Lopes Filho. Este tem com mais de 1,80 de altura, magro, mas ágil de corpo, cara de poucos amigos, de bigode, com uma aparência onde não se percebe sua idade acima de 70 anos.
Em um primeiro momento me olhou de uma maneira que me pareceu estar desconfiado. Sua voz é de barítono, grave e forte, da mesma forma que seu pai. Conforme conversávamos e ele percebeu que eu tinha certo conhecimento dos fatos, foi relaxando e ficando mais a vontade. Minha sorte foi me encontrar na companhia de Antônio Antas, seu amigo de longa data, pois Lopes Filho me confessou depois que não gosta de falar sobre o pai a pessoas estranhas.
Mesmo estando em um local calmo, na “rua” de um vilarejo que não possui nem 500 habitantes, ele me disse que era melhor irmos para um bar mais afastado da pequena comunidade, onde poderíamos conversar mais a vontade, sem a presença de pessoas indiscretas. Ao chegarmos a um barzinho que mais parecia um depósito, sentamos em uma mesa simples de madeira, com tamboretes velhos. Lopes Filho prontamente procurou ficar de costas para a parede e de frente para a porta.
Manoel Lopes Filho e Antônio Antas – Foto – Rostand Medeiros
Ele adiantou que em várias ocasiões seu pai lhe narrou diversos acontecimentos, diálogos que manteve com Lampião e outros cangaceiros. Não negou de forma alguma que “Ronco Grosso” foi homem de extrema confiança de José Pereira, onde seu pai realizava “-O que fosse necessário” para o chefe. Sobre Meia-Noite, Lopes Filho comentou que seu pai o considerava o cangaceiro mais valente e perigoso de todo o bando de Lampião.
Outra vista da região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros
No dia do tiroteio “Ronco Grosso” estava realizando tarefas na sua propriedade, logo soube do ocorrido na Tataíra e ficou alerta. Seu filho afirma que o velho Manuel Lopes não sabia da caçada a Meia-Noite ordenada por José Pereira e continuou sua lide normalmente. Nesse meio tempo o cangaceiro alagoano ferido chegou à casa do agricultor Zé Sabino, e este ajudou a levar Meia-Noite ao sitio de Manuel Lopes que era relativamente próximo.
O valente combatente trazia um pano amarrado à perna para estancar o sangue, além do braço machucado. Manuel Lopes, no dizer do seu filho, era um “raizeiro”, logo começou a cuidar do ferimento em um barraco que existia nas proximidades. Fez logo uma mistura de farinha, mastruz e pimenta malagueta para o ferimento na perna, que já estava ficando preto e entalou o braço de Meia-Noite. Gradativamente, com a aplicação dos remédios naturais, o cangaceiro foi melhorando.
O FIM DE UM VALENTE
Logo Manuel Lopes toma conhecimento que a volante de Manuel Benício estava nas proximidades rondando atrás do fugitivo. Sem saber que seu patrão estava interessado na eliminação do cangaceiro, Manuel Lopes levou Meia-Noite para uma pequena gruta existente nas proximidades e localizada no alto de um serrote. Segundo Lopes Filho, coube a um amigo de seu pai chamado João Bezerra, então um jovem de 18 anos, levar duas vezes por dia alimentação e água. Em 2008, mesmo debilitado, João Bezerra estava vivo com 102 anos.
Foto – Rostand Medeiros
Manuel Benicio soube através de outras pessoas que Manuel Lopes estava dando apoio a Meia-Noite, seguiu para sua propriedade com a intenção de cercá-la e tentar capturar o fugitivo. Antes de chegar a casa do homem de confiança de José Pereira, encontraram João Bezerra transportando uma bolsa com alimentos e uma cabaça d’água. Começaram a “arrochar” o jovem e ele “abriu o bico”, sobre o que estava fazendo. Entre seguir para o esconderijo onde estava Meia-Noite e pegar informações com Manuel Lopes sobre o que estava ocorrendo, Benício optou pela segunda alternativa.
Lopes Filho informa que “Ronco Grosso” ao saber da aproximação da volante, deixou a sua casa e seguiu em direção a Princesa para dialogar com José Pereira e saber o que significava aquilo. Para o filho de Manuel Lopes, se havia uma classe de pessoas a quem seu pai mais desprezava, de todas as maneiras, eram os policiais.
Em Princesa, no casarão de José Pereira, o chefe lhe informou de toda situação. Com relação à polícia, José Pereira foi enfático e disse que “Ronco Grosso” não se preocupasse que eles não lhe perturbariam. Mas em relação ao caso envolvendo Meia-Noite, José Pereira foi categórico “-Ele tinha que trazer as duas orelhas do cangaceiro e ponto final”.
Manoel Lopes nada tinha contra o cangaceiro alagoano, até o admirava pela valentia e coragem. Mas desobedecer a uma ordem direta de José Pereira, principalmente em um caso como este, era o mesmo que praticar o suicídio. Sem outro jeito ele busca o apoio de outro homem, conhecido como “Tocha”, tido como valente e disposto.
Foto – Rostand Medeiros
Cerca de cinco dias depois do “Fogo da Tataíra”, já à noite, os dois homens se encarregaram de levar a comida e a água do cangaceiro. Ao chegaram à gruta, o arisco Meia-Noite estranhou a ausência de João Bezerra. Estranhou mais ainda a presença daqueles dois homens armados e conhecendo quem eles eram ficou muito desconfiado. “Ronco Grosso” e “Tocha” prontamente acalmaram o valente Meia-Noite. Comentaram que estavam juntos para se protegerem da polícia, mas o fugitivo não baixou a guarda, levou uma bala a câmara do fuzil e ficou a espreita.
Os dois matadores se preparavam para sair, ou assim diziam, quando perceberam uma distração de Meia-Noite, sacaram suas armas e abriram fogo. Este ainda ensejou um salto com uma pistola na mão, mas novas descargas o abateram.
Sem muita cerimônia eles enterraram o cangaceiro na parte externa dos grandes blocos graníticos que formam a pequena cavidade natural, mas antes cortam as orelhas como prova. Antonio Antas disse que escutou muitas vezes Manuel Lopes comentar que foi “Tocha” que havia realizado a primeira deflagração. Este por sua vez afirmava taxativamente que fora “Ronco Grosso” quem efetuara o primeiro disparo.
Em relação à “prestação de contas” a José Pereira, não apenas Lopes Filho, Antonio Antas, como outras pessoas na região afirmaram que na tarde posterior a morte de Meia-Noite, os dois matadores foram ao casarão do chefe político de Princesa. Este estava em uma reunião com “pessoas gradas” da sociedade local, todos sentados na sala principal da casa, entre estes algumas senhoras. Os dois homens valentes, mas simples nos gestos e no vestir, ficaram aguardando mais reservadamente o chefe com um pacote nas mãos. José Pereira manda que eles se aproximem e pergunta animadamente, diante de todos, o que eles desejam. Eles ficaram calados, um tanto acabrunhados. O dono da casa, imaginando ser o silêncio daqueles homens rudes resultado da timidez por se encontrarem diante dos doutores do lugar e de suas senhoras, incentiva novamente para que eles falem, mesmo diante de todos.
A partir daí “Ronco Grosso” não se faz de rogado, abre o pacote retira um pano ensanguentado, que vai desenrolando e apresenta a todos as orelhas de Meia-Noite.
O espanto é geral, o embaraço de José Pereira é evidente. Mas eles cumpriram a risca aquilo que foi mandado conclusão.
CONCLUSÃO
Após a saída de Lampião de Princesa, ele ainda circulou pela região por alguns anos. Em 1929 seguiu para a Bahia e pouco retornou a Paraíba.
Provavelmente, até o fim de sua vida na Grota de Angico em 1938, Lampião devotou um enorme ódio a José Pereira. Para alguns, parte deste ódio estava ligado a morte de Meia-Noite, a quem o chefe cangaceiro sempre tratou com enorme respeito.
Foto – Rostand Medeiros
Existe uma versão na qual a razão da morte de Meia-Noite envolvia uma raiva que José Pereira teve deste cangaceiro, por ele ter feito uma piada, ou observações baixas e indecorosas, sobre a esposa do líder política de Princesa.
Entretanto, o próprio Lopes Filho considera esta versão falsa, ou criada para encobrir as verdadeiras intenções do político José Pereira.
Para ele o desejo do “dono” de Princesa com a eliminação de Meia-Noite, bem como a expulsão de Lampião da região, era afastar esta gente, para evitar que seus adversários na capital paraibana o tacharem de ser um reles “coiteiro de cangaceiros”. Outra situação que o entrevistado aponta, com razão, é o fato de Meia-Noite ser um arquivo vivo e sua pretensa eliminação ser efetuada para evitar problemas futuros.
Já em relação a uma versão propagada por muitos pesquisadores do cangaço, na qual José Pereira e Marcolino Diniz se compactuaram com Lampião, lhe dando proteção e apoio, em troca de dividirem o apurado conseguido em roubos, assaltos e outras ações por parte de Lampião, servindo como uma espécie de “banco”. Com a consequente expulsão de Lampião da região, José Pereira e Marcolino ficaram com todo o dinheiro.
Lopes Filho já havia ouvido sobre esta versão, mas de seu pai, que lhe contou muita coisa sobre aquela época, ele nunca ouviu nada em relação a esta situação.
Ao longo dos anos a região de Princesa presenciou outros acontecimentos ligados o cangaço. Mas o fato histórico mais importante ocorrido nesta cidade em todo século XX ficou conhecido como a Revolta, Sedição ou Guerra de Princesa.
Este foi um curto, mas intenso conflito ocorrido no sertão paraibano, ocasionada basicamente por divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e política do interior do estado, encabeçados principalmente por José Pereira.
Durante cerca de quatro meses, com o apoio do Governo Federal e dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, respectivamente Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria, José Pereira sustentou um sangrento conflito contra as forças públicas estaduais comandadas João Pessoa e pelo seu Chefe de Polícia, José Américo de Almeida.
Foto – Rostand Medeiros
Além das pessoas ligadas diretamente por vários laços a José Pereira, inúmeros ex-cangaceiros e desertores da polícia paraibana, formavam suas tropas. Marcolino Diniz, Manuel “Ronco Grosso” Lopes, “Tocha”, “Luiz do Triangulo” foram figuras de liderança e destaque dos combates. As narrativas conseguidas na região sobre a participação destes homens neste conflito dariam para escrever no mínimo três artigos como este.
Com a morte de João Pessoa em Recife, a deflagração da Revolução de 30, com a chegada ao poder de Getulio Vargas, a maré muda de lado e o conflito se encerra. Logo tropas do Exército ocupam Princesa e José Pereira foge e fica incomunicável durante anos. Anos depois chegou a ocupar uma cadeira no legislativo estadual paraibano.
Não deixa de ser interessante observar como estes fatos ainda se mantêm ativos na memória da população do lugar, mesmo entre os mais jovens. Mas fora desta região este conflito é praticamente desconhecido.
Sobre os participantes do caso Meia-Noite, sua amada Zulmira, razão do seu retorno para uma região tão perigosa, onde veio a morrer, foi em pouco tempo liberada da prisão e voltou para o convívio de sua família no Saco dos Caçulas. Logo, devido ao volume de sua barriga, ficou claro que a mesma estava grávida. Não sabemos exatamente o que ocorreu com a jovem, a sua relação com a família, com a gente do seu lugar e nem o nome do seu filho. Poucos descendentes de seus familiares ainda vivem na região e apenas apuramos que após o nascimento do seu filho, ela se mudou para Campina Grande, onde casou, teve outros filhos e já é falecida.
Marcolino Pereira Diniz não soube expandir as inúmeras riquezas recebidas como herança do seu pai, o coronel Marçal e morreu na pobreza. Antes disso teve seu amor pela sua amada esposa, conhecida como “Xandu”, imortalizado na música “Xanduzinha” e interpretada pelo inigualável Luiz Gonzaga.
Manuel Lopes, o “Ronco Grosso” viveu inúmeras situações de perigo e atribulações. Mas Lopes Filho e Antonio Antas afirmam que ele proliferou, teve vários filhos, os viu crescer, assistiu o nascimento de vários netos e morreu na tranquilidade de sua velhice.
Sobre “Tocha” sabemos que o mesmo seguiu para o sul do país, falecendo idoso na cidade paulista de Cubatão.
Segundo Anastácio Moraes e Antonio Antas, a única pessoa que realmente ganhou alguma coisa nesta história toda foi o humilde e honrado agricultor Olegário Bezerra, que seguiu a risca o que Meia-Noite lhe pediu.
Aproveitando o conhecimento dos mais experientes, junto com um doce de leita do sertão paraibano, na tranquila hospitalidade do nosso povo
Dedicatória – Dedico este trabalho a André Vasconcelos, a quem tive oportunidade de convidar para participar do recente trabalho que realizamos junto ao pessoal da TV Brasil e que em 5 de setembro de 2013 estará na telinha. Desejo a ele igualmente um ótimo trabalho com a TV FUTURA. Parabéns.
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Junto a Seu Né, o antigo cangaceiro Candeeiro, em outubro de 1999
Rostand Medeiros
Morreu nesta quarta-feira o último cangaceiro do bando de Lampião, Manoel Dantas Loiola, de 97 anos, mais conhecido como Candeeiro. Ele faleceu na madrugada de hoje no Hospital Memorial de Arcoverde onde estava internado desde a semana passada, após sofrer um derrame.
Na semana passada, quando me encontrava no Sertão do Pajeú, na boa companhia dos amigos André Vasconcelos, de Triunfo, o poeta Alexandre Morais, de Afogado da Ingazeira e Álvaro Severo, de Serra Talhada, soubemos que ele estava bastante doente e fiz minha oração como cristão, desejando a sua melhora. Quando soube da notícia, na mesma hora me lembrei do encontro que tive com o cangaceiro Candeeiro.
Manoel Dantas Loiola, o Seu Né, o antigo cangaceiro Candeeiro e sua esposa, Dona Linda, na tranquilidade do seu lar
Foi no dia 23 de outubro de 1999, há quase quatorze anos, quando discretamente comecei a sair por este sertão afora em busca de sua história, de sua gente, de sua cultura e de sua gênese.
Naquele dia, em um distrito da cidade pernambucana de Buíque, eu conheci na verdade “Seu Né”. Foi através do depoimento de Manoel Dantas Loiola, o Seu Né, o antigo cangaceiro Candeeiro, que comecei a compreender que o entendimento do tema cangaço jamais se resume na tola pergunta “-Foram os cangaceiros heróis, ou bandidos?”, que muitos insistem em fazer e eu tolamente também me fazia.
Lembro-me quando chegamos ao seu comércio e ele me olhou de um jeito inquisitivo, até mesmo duro. Mas depois de um primeiro contato, percebi estar diante de uma pessoa muito tranquila e discreta. Não quis conversar sobre o cangaço na sua casa comercial, mas em sua residência, onde fomos magistralmente bem recebidos por ele e sua esposa, Dona Linda.
Com ele fiz a minha primeira entrevista com alguém envolvido em um fato histórico da minha região. A conversa fluiu franca e aberta e o rolo de fita K7 parecia pouco para tanto papo.
Muito bem recebido pelo antigo membro do bando de Lampião
Em um dado momento do nosso diálogo, sem maiores pretensões, sapequei a seguinte questão “-Mas Seu Né, o Senhor se considerava um bandido?”.
Nessa hora percebi que tinha passado uma linha meio complicada das memórias daquele homem. Deu para ver que sua mulher ficou nitidamente tensa. Primeiramente ele me olhou primeiramente de um jeito inquisitivo e depois relaxou. Vai ver que percebeu que a minha pergunta não tinha malícia. Mas foi a segurança de sua resposta, sem nenhuma grosseria, que eu jamais esqueci…
“-Eu nunca fui bandido, fui cangaceiro!”.
Aquela resposta criou em mim um desejo enorme de entender porque aquele homem tinha aquele pensamento, tinha aquela identidade. Desse dia em diante eu compreendi que, não apenas a história do cangaço, mas praticamente muitos aspectos ligados a história do Nordeste do Brasil é bem mais complexa do que podemos imaginar. E você só obtém respostas se cair em campo, elas não caem do céu e na vida real o “CRTL-C & CRTL-V” é uma piada.
As palavras de candeeiro conseguiram abrir em mim uma dimensão que não percebia. Até então a ideia que tinha era que os cangaceiros eram tão somente marginais, foras da lei. Para corroborar esta minha ideia, bastava olhar uma das antigas fotos dos grupos de cangaceiros e ver alguns crimes saltavam aos olhos; ali estava bem caracterizado o bando, ou formação de quadrilha e o uso de armas restritas as Forças Federais (como não sou da área de Direito posso errar na informação do crime).
Pois bem, depois de ouvir a firme diretiva do ex-cangaceiro Candeeiro, comecei a perceber que ali havia uma forte ideia de identidade. De uma identidade própria, estranha, exclusiva e dela o Seu Né, pelo menos naquela fase de sua vida, muito se orgulhava. Talvez seu orgulho fosse o mesmo que um militar sente de sua farda, de sua patente e de suas medalhas. Comecei a ver que se os tais “Guerreiros do Sol” eram só bandidos, porque a roupa tão marcante? A mesma roupa que alcançaria uma inigualável e única característica.
Segundo os jornais afirmam o Seu Manoel Loiola ingressou no bando de Lampião em 1937, mas afirmava que foi por acidente. Trabalhava em uma fazenda em Alagoas quando um grupo de homens ligados ao famoso bandido chegou ao local. Pouco tempo depois, a propriedade ficou cercada por uma volante e ele preferiu seguir com os bandidos para não ser morto.
Ele me comentou que entre o momento que entrou no cangaço, até a morte de Lampião, aqueles foram momentos inesquecíveis de sua vida.
Os jornais comentam que Candeeiro afirmou que nos quase dois anos que ficou no bando tinha a função de entregar as cartas escritas por Lampião, exigindo dinheiro de grandes fazendeiros e comerciantes. Sempre retornava com o pedido atendido. Estava na Grota do Angico, quando da morte de Lampião e Maria Bonita e figurou entre os que conseguiram escapar. No dia do ataque, já estava acordado e se preparava para urinar quando começou o tiroteio. Candeeiro recebeu um balaço no braço, que deixou uma cicatriz e por esta razão sempre andava de camisa de manga longa. Mesmo ferido no braço direito, conseguiu escapar do cerco. Dias depois, com a promessa de não ser morto, entregou-se em Jeremoabo, na Bahia, com o braço na tipoia. Com ele estavam outros 16 cangaceiros e cumpriu dois anos na prisão.
Por este sertão afora em busca de sua história, de sua gente, de sua cultura e de sua gênese
Aquele encontro em outubro de 1999 foi extremamente estimulante para que eu continuasse saindo por aí, ao longo destes anos percorrendo os caminhos empoeirados atrás da história da minha região. Lembro-me que depois daquele encontro eu já estive em locais como Canudos, locais da passagem da Coluna Prestes, combate do Rio Formoso, Juazeiro do Padim Cícero, Pau da Colher, Caldeirão, os fanáticos da Serra do João do Vale, Missa do Vaqueiro, palmilhando o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, o cangaço e a guerra na região de Princesa, as fortalezas do nosso litoral nordestino e até o tema da Segunda Guerra Mundial, que é tão importante na história da minha amada cidade Natal.
Nessa ideia de conhecer a história da minha região, da qual tenho enorme orgulho de ser natural, o meu desejo é sempre buscar algo mais. E tudo começou com Seu Né.
Requiescant in pace cangaceiro…
P.S. – Bem, sei que alguns poucos daqueles que pesquisam sobre este tema podem até considerar ridículo tantas linhas para falar de um único encontro com este cangaceiro, que não era uma pessoa de ponta dentro do processo estratégico do bando de Lampião e por alguém que não esteve com tantos protagonistas que vararam as caatingas de chapéu de couro de aba quebrada e arma na mão. Tudo bem, mas pelo menos eu consegui extrair do contato com este ser humano algo que se tornou não apenas uma notinha de rodapé em algum trabalho inútil.
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Diante da centenária capela da Fazenda Colônia, onde nasceu o cangaceiro Antônio Silvino. Da esq. para a dir. Carina Dourado, André Vasconcelos, Osvaldo Alves, o autor deste blog e Alexandre Souza
Na última semana tive oportunidade de percorrer o nosso sertão nordestino para estar junto com o pessoal da TV BRASIL, de Brasília, fazendo parte do programa “CAMINHOS DA REPORTAGEM” sobre o Cangaço e Lampião.
A Equipe era composta pela repórter brasiliense Carina Dourado, o cinegrafista goiano Osvaldo Alves e o auxiliar técnico carioca Alexandre Souza e o motorista Fred Silva, este do Ceará. Todos pessoas maravilhosas, ótimos companheiros de jornada e unidos na busca da informação. Foi uma honra estar com eles.
As cangaceiras do grupo folclórico de xaxado de Triunfo
No sertão pernambucano estivemos juntos em Triunfo, Afogados da Ingazeira e em uma fazenda em Carnaíba e outra em Serra Talhada. Todos locais incríveis, alguns sendo revisitados e outros sendo descobertos.
Mas especialmente em Serra Talhada ficamos hospedados na Fazenda Barreiros, onde passamos ótimos momentos junto com o proprietário, o fotojornalista Álvaro Severo, uma grande figura que produz cultura no nosso sertão e com muitas ideias fantásticas.
Cangaço – História e cultura nordestina
Nesta propriedade seguimos para a Serra Grande, palco do maior combate da história do cangaço no Brasil, onde Lampião, segundo algumas fontes, contava com 85 homens no seu bando e venceu várias volantes que totalizavam 300 policiais. Foram 900 metros de altitude (Mais elevada que a Serra de Martins) que tivemos de encarar e assim compreender o que ocorreu neste local em novembro de 1926. A Fazenda Barreiros está localizada a 38 km de Serra Talhada, possui 1.200 hectares, dos quais 800 são área de preservação permanente. Na grutas da Serra Grande, esconderijo de cangaceiros armas e utensílios tem sido encontradas ao longo dos anos pelo pessoal da fazenda e agora pertencem a coleção privada do Álvaro Severo (Autorizado pelo Exército). Ali já acharam até uma máquina de costura que os cangaceiros utilizavam para consertar seus uniformes. O Álvaro trabalha duro para criar um museu e uma pousada rústica para que os visitantes compreendam o que é o sertão, sua gente e sua história.
Foram 1.400 km de estrada, ida e volta do Pajeú, queimando trecho, comendo onde dava, andando em estrada esburacada, subindo serra, quebrando mato, deixando a família em Natal a pé e na casa de parentes. Mas descobrir estes locais, é igual a propaganda do Mastercard,…Não tem preço!
Início da minha viagem, passando por Santa Cruz-RN e a grande estátua da padroeira da cidadeEm Soledade-PB, buscando o caminhoFazendas centenárias do sertãoEm Taperoá-PB, a lembrança da obra do grande Mestre Ariano SuassunaFinalmente em Triunfo-PE e seu maravilhoso e diferente friozinho sertanejoJuntos André e Carina transmitindo para os telespectadores as histórias da “Casa das Almas” de Triunfo. Dizem que a fronteira da Paraíba e de Pernambuco passa no meio desta casa e que na época do cangaço Lampião podia ficar em um dos lados da fronteira dentro da casa que a polícia não o perturbava. Será?Filmado em Triunfo o grupo de xaxado organizado pela amiga e pesquisadora triunfense Diana PontesEm Afogados da Ingazeira, na praça principal, junto com o jovem poeta Alexandre Morais, que criou especialmente para o programa um maravilhoso poema sobre Antônio SilvinoA caminho da Fazenda Colônia, onde nasceu Antônio SilvinoCasa Grande da Fazenda Colônia, onde nasceu Manoel Baptista de Morais, futuro “Rifle de Ouro”, cangaceiro Antônio SilvinoReencontrando o amigo Braz de Buíque, grande vaqueiro, afamado na sua ribeira e homem simples por naturezaCentenária moenda de cana da Fazenda ColôniaProcurando transmitir o que aprendi.A Fazenda Colônia é um local que parou no tempo e daria um ótimo local para filmagens de épocaA noite na Fazenda Barreiros, zona rural de Serra Talhada. A galera animada para a Serra GrandeO Alexandre, carioca da Tijuca, deleitando a todos com o puro chorinho em pleno sertãoArmas de fogo, munições e armas brancas encontradas em grutas que serviram de abrigo aos cangaceiros na Serra GrandeSerra Grande, local do maior combate do cangaçoTípico café sertanejo…..Degustando um maravilhoso queijo, ao lado do amigo Álvaro Severo, proprietário da Fazenda Bezerros.André e os carros de bois típicos do PajeúInstruções para encarar a subida com o guia localPelas mesmas trilhas dos cangaceirosA caminhoNo meio da mataComo se diz – “Rapadura é doce, mas não é mole não!”Não foi fácil....Mas no final tranquilos e realizados com o esforço.Carina e seu achado…O retorno…No final junto com as crianças do Pajeú
Um grande agradecimento ao amigo André Vasconcelos pelo apoio e atenção no sertão do Pajeú. Já duas vezes que viajo com André e a nossa convivência e trabalho foram enormemente positivos. Eu fui contatado pelo pessoal da TV Brasil por conta do nosso blog TOK DE HISTÓRIA e os textos que aqui se encontra sobre o cangaço e eu fiz questão de contatar o André e colocá-lo na produção. Ele teve um ótimo espaço no programa apresentando a sua cidade (a famosa “Casa das Almas” e uma residência que nunca foi mostrada na imprensa e serviu para Lampião se recuperar do tiro no pé em 1924). Trabalhamos juntos e foi muito bom, ele é uma grande figura e, se Deus quiser, vamos repetir a dose em breve!
O grande André, extremo conhecedor do tema cangaço na região e um ótimo violeiro. Sem sua ajuda a gente não conseguiria
Foi em dezembro de 2010 que criei o TOK DE HISTÓRIA, com a ideia de ter um espaço na internet para escrever sobre coisas que gosto, sempre buscando democratizar a informação histórica. Nunca ganhei um centavo com este trabalho, mas o que ganhei em informações, conhecimento e principalmente amigos, já perdi as contas.
Recentemente tive a oportunidade de seguir viagem através da Microrregião do Curimataú Ocidental, no Estado da Paraíba, onde passei pelo município de Cuité. Com uma população que atualmente supera os 26.000 habitantes Cuité tem muita história, tendo sido fundado a 245 anos, onde sempre possuiu uma ligação muito forte e intensa com o Seridó Potiguar.
Não tinha intenção de parar, mas, ao tomar o caminho que segue para a cidade de Campina Grande, me deparei com uma interessante edificação pintada de verde, que me lembrou a fachada de um cinema antigo. No alto do frontão da entrada estava escrito na vertical “Cuité Clube”, em um padrão de letras típicos da década de 1930. Ao lado da porta principal vi uma placa igual as existentes em obras inauguradas por políticos, onde estava escrito “Museu do Homem do Curimataú”. Aquilo me chamou atenção e, como estava com o dia livre, decidi conhecer o local.
Salão principal
Fui muito bem recepcionado por José André Santos, que além de trabalhar no local se dedica a poesia. Ele me contou que o Museu foi inaugurado em 11 de março de 2010 e ali funcionou um clube social que marcou época na cidade. Infelizmente este se encontrava abandonado, depois que os sócios fundadores faleceram e os seus herdeiros não continuaram com o clube. Foi então que a Universidade Federal de Campina Grande-UFCG decidiu recuperar o imóvel. Depois da recuperação foi feita a pesquisa e busca de objetos para a sua composição. Consta que o Museu do Homem do Curimataú é um órgão ligado ao Centro de Educação e Saúde da UFCG e é fruto de um projeto aprovado pelo IPHAN, disponibilizando um acervo material que retrata e preserva a memória da região.
Material do Boi de Reis de Manoel Birico. Hoje esta manifestação folclórica não é mais executada em Cuitá, mas vale pela preservação dos materiais utilizados
O acervo ocupa grande parte do salão principal do antigo Cuité Clube, com biombos dividindo as peças apresentadas através de áreas temáticas distintas. André me comentou que o Museu é focado principalmente na preservação da memória dos hábitos e fazeres do povo de Cuité. Ali os estudantes realizam muitas aulas de campo voltadas ao resgate das origens com uma verdadeira volta ao passado e uma reflexão da atualidade. Para André o Museu se tornou um ponto de cultura, com apresentação de palestras, cantorias de violas, apresentações de outros ritmos musicais.
Um “chincho”, ou engenho, de fazer queijos
Em meio ao deleite de conhecer peças que eram utilizadas nas antigas fazendas da região, perguntei a André sobre o ocorrência de fatos ligados ao fenômeno do cangaço em Cuité. Ele me respondeu que neste aspecto, para sorte dos antigos moradores da cidade, o cangaço não foi muito ativo em sua região. Informou que na década de 1940 o ex-cangaceiro Antônio Silvino passou pela cidade e se encontrou com o poeta popular Zé de Luzia, este ainda vivo e lúcido, que poderia narrar detalhes deste encontro. Entretanto André me comentou que sabia da história de um parente que se tornou cangaceiro.
Artigos de caça. A arma de fogo de percussão é a famosa Lazarina, o arco é um Bodoque. Já a pele na extrema esquerda da foto é de um gato maracajá e a longa pele estirada na parede, com 2,73 metros, é de uma jiboia morta no Sítio Alegre, zona rural de Cuité, na década de 1940.
André, que também é trombonista e vocalista de uma orquestra criada no Museu, é sobrinho neto de Joaquim Taveira, que era natural da cidade paraibana de Araruna, tendo nascido em terras pertencentes a José Gomes Maranhão e Maria Júlia Maranhão, que depois passaram a serem administradas pelo filho Benjamim Gomes Maranhão, mais conhecido como ”Beja Maranhão”. Este último é o pai de José Maranhão, ex-governador da Paraíba.
O primeiro rádio da cidade de Cuité. André me comentou que a chegada deste aparelho movimentou de tal maneira a região, que pessoas pagavam para escutar o serviço em português da rádio BBC de Londres
Dando uma passada rápida em antigos documentos da região de Araruna, consta que em 1920 José Gomes Maranhão era proprietário do Sítio Baixio, ou Baixios, mas não tivemos como comprovar se Joaquim Taveira nasceu neste local.
Mas voltando ao relato de André, ele comentou que a memória de sua família aponta que Taveira entrou no cangaço apenas pelo desejo de se aventurar, de sair pelo mundo vestido e armado como um cangaceiro. Infelizmente sua família perdeu todo o contato com Joaquim Taveira durante este tempo e nada soube de suas aventuras e desventuras no cangaço, nem onde esteve, nem com quem andou ou combateu e ninguém sabia o seu destino.
Mas na década de 1950, uma irmã de Joaquim, avó de André, chamada Veneranda Taveira, mais conhecida como Neranda, casualmente se encontrou com o desaparecido irmão em uma feira. Sobre a cidade onde ficava localizada esta feira, Neranda fez questão de se calar para preservar o irmão. Em meio a alegria do reencontro, Joaquim informou que no cangaço era conhecido pelo apelido de “Jurubeba” e que esteve principalmente nos sertões da Bahia, onde afirmou que fez parte do bando de Ângelo Roque.
Ângelo Roque na década de 1970. Homem livre e exemplar funcionário público em Salvador
Este era Ângelo Roque da Costa, conhecido como Anjo Roque, ou Labareda. Nasceu em 1910 no lugar Jatobá, depois pertencente ao município de Tacaratu, em Pernambuco. Consta que entrou para o cangaço após matar um soldado de polícia que se meteu a conquistador com uma irmã sua. Entrou para o cangaço em 1928, quando ocorreu seu primeiro encontro com Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Tinha bando próprio, mas frequentemente reunia seu grupo ao do grande chefe cangaceiro, era considerado valente e foi figura importante dentro da história do cangaceirismo. Se entregou a polícia quase dois anos após a morte de Lampião e passou algum tempo na cadeia em Salvador. Ao sair passou a trabalhar como um pacato funcionário público do Conselho Penitenciário, graças ao apoio do advogado, escritor e pesquisador Estácio Lima.
Notícia do jornal carioca A Noite, reproduzida na imprensa potiguar, apontando a detenção de Ângelo Roque e seus bando, em abril de 1940
Se realmente Joaquim Taveira fez parte do bando de Ângelo Roque, certamente deixou a vida de cangaceiro antes de abril de 1940, pois não estava entre os cangaceiros que se entregaram as autoridades policiais baianas. Além do chefe Ângelo Roque foram detidas quatro mulheres que estavam no grupo, bem como Benício Alves dos Santos, o cangaceiro Saracura, Manoel Raimundo da Silva, o Jandaia, Antônio Pedro da Silva, Patativa e o cangaceiro conhecido pela alcunha de Deus Te Guie, cujo nome verdadeiro era Domingos Gregório.
André e a moeda que teria estado presa ao chapéu de couro do cangaceiro “Jurubeba”
Em relação ao encontro de Joaquim Taveira e a sua irmã Neranda, este não quis entrar em detalhes de sua vida. Mas lhe entregou três objetos desta época; uma pequena arma branca, um breviário de Santo Antônio de Lisboa, presente do próprio Ângelo Roque e uma moeda vazada, que o pretenso cangaceiro “Jurubeba” utilizava no seu chapéu. Estes objetos foram doados pelo próprio André e se encontram em exposição no Museu do Homem do Curimataú.
André comentou que a narrativa sobre a história deste cangaceiro é parte da tradição oral de seus familiares. Que durante muitos anos eles tinham vergonha e medo de narrar esta situação. Para André, mesmo que não existam meios de confirmação da informações aqui narradas, agora os tempos são outros e ele narra esta tradição oral com desenvoltura e tranquilidade. Não tenho certeza, mas talvez isso ocorra devido a existência deste museu.
Saí do Museu do Homem do Curimataú com a convicção que a existência de outros museus em cidades nordestinas é algo extremamente importante para que as novas gerações conheçam mais sobre o seu passado e com isso elevem a auto estima de serem naturais de seus locais. Entretanto estes possíveis museus não podem ser apenas um local de guarda de objetos antigos, de “coisas velhas”. Eles devem existir com a perspectiva de se tornarem locais de desenvolvimento e manutenção da cultura local e de troca de informações históricas.
Seguindo pelas estradas
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Em um dia de agosto de 2006, uma sexta feira, na cidade pernambucana de Santa Cruz da Baixa Verde, em Pernambuco, tivemos a oportunidade de conhecer um homem, nascido em 1912, que pela sua lucidez e saúde, foi como encontrar um verdadeiro tesouro da história oral do cangaço.
Clementino José Furtado, o Clementino Quelé.
Seu nome era Antônio Ramos Moura, sua residência uma casa ampla no sitio Conceição e o assunto foi os dois ataques perpetrados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e seus cangaceiros, contra a casa do seu antigo parceiro, Clementino José Furtado, o Clementino Quelé, que após estes embates se tornou um dos mais esforçados perseguidores do “Rei do Cangaço”.
Antônio Ramos Moura, então com doze anos, foi testemunha destes episódios e detalhou vários aspectos de sua vida na época e rememorou inúmeros fatos.
A Santa Cruz
O atual município de Santa Cruz da Baixa Verde está localizado na região do Sertão do Alto Pajeú, na fronteira com a Paraíba. Fica distante 455 quilômetros de Recife, possui um agradável clima serrano e a cidade se caracteriza por concentrar na atualidade a maior quantidade de engenhos de rapadura de Pernambuco. Já as origens do local são oriundas do antigo “sítio Brocotó” e a atual denominação tem origem na ação de um missionário nordestino que possui uma história extraordinária.
Nascido em 5 de agosto de 1806, na Vila de Sobral, Ceará, José Antônio Pereira Ibiapina teve uma origem confortável. Mas devido a participação do seu pai Francisco Miguel Pereira na insurgência conhecida como Confederação do Equador, este foi fuzilado em 1825, e o irmão Alexandre seguiu preso para a ilha de Fernando de Noronha, onde morreu pouco tempo depois. Ibiapina teve que assumir e manter financeiramente a família.
Algum tempo depois ingressou no Curso de Direito do Recife, concluindo em 1832. No ano seguinte exerce o cargo de professor substituto de Direito Natural na Faculdade de Olinda. Depois foi eleito Deputado Geral e nomeado, em dezembro, Juiz de Direito da Comarca de Campo Maior, no Ceará. Concluídos os trabalhos legislativos, em 1837, Ibiapina voltou para o Recife e resolve exercer a advocacia. No entanto, ele passa a trabalhar efetivamente na profissão no estado da Paraíba. Em 1840 volta ao Recife e continua sua luta junto aos tribunais.
A partir de 1850 Ibiapina resolve abandonar seus trabalhos forenses e inicia um período dedicado à meditação e exercícios de piedade. Após três anos de meditação e reflexão, Ibiapina decide-se pelo sacerdócio. Nesse sentido, em 12 de julho de 1853, aos 47 anos de idade, ele se torna o Padre Ibiapina. Logo após sua ordenação, o Bispo Dom João da Purificação o nomeia Vigário Geral e Provedor do Bispado, além de professor de Eloquência do Seminário de Olinda.
Mas contrariando seus superiores, opta pela vida missionária. Padre Ibiapina começou então seu trabalho missionário pelo interior do Nordeste. Em diversas vilas construiu casas de caridade, destinadas a moças pobres. Em cada lugar ele pregava, orientava, promovia reconciliações, construía açudes, igrejas, cemitérios, cacimbas e cruzeiros. Um destes cruzeiros foi erguido no sítio Brocotó e ficou conhecido como Santa Cruz, sendo esta a denominação na época do cangaço.
Região serrana de Santa Cruz da Baixa Verde, Pernambuco.
Com o passar do tempo, pelo fato da pequena urbe está no alto da Serra da Baixa Verde, o lugar passou a denominar-se Santa Cruz da Baixa Verde e pertencia administrativamente à bela cidade serrana de Triunfo.
Careta
O pai do nosso entrevistado chamava-se Miguel Moura, tinha uma pequena bodega, além de trabalhar como tropeiro, ou almocreve. Tinha uma tropa de animais e fazia a linha entre as cidades de Triunfo, Serra Talhada e Arcoverde, na época denominada Rio Branco, trazendo e levando cereais. Antônio Ramos comentou que seu pai viajava para vários locais, transportando rapaduras. Inclusive o Rio Grande do Norte foi um dos seus destinos, onde esteve em Mossoró para comprar sal e também em Caicó.
O autor e o memorioso Antônio Ramos Moura.
Para nosso entrevistado Clementino Quelé, era chefe de sua família, tinha como irmãos Pedro, Quintino, Antônio, José e Manuel (nezinho), todos considerados homens dispostos, valentes e que “gostavam da espingarda”. Antônio Ramos comenta que na sua infância tinha um enorme respeito por aquele homem. Pouco falou com ele, mas obteve muitas informações sobre Quelé através de seu sogro Joaquim de Fonte, sobrinho do chefe da família Furtado.
Clementino é descrito como um homem forte, de tez acentuadamente branca, que realmente ficava com a pele vermelha quando tinha raiva e esta teria sido a razão de Lampião apelidá-lo pejorativamente como “Tamanduá Vermelho”.
praça principal da atual Santa Cruz da Baixa Verde, com a estátua do Padre Ibiapina em destaque.
Já para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do Sol”, 2004, págs. 220 a 225), Quelé era natural da ribeira do Navio, onde seguiu jovem para Alagoas, afastando-se de Pernambuco por questões de disputa familiar. No retorno a sua família vem para Triunfo, no sítio Santa Luzia. O antigo membro de volante João Gomes de Lira (in “Lampião-Memórias de um soldado de volante”, 1990, págs. 123 e 124) comenta ser a Santa Luzia a morada do bravo pernambucano.
Fachada da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em santa Cruz da Baixa Verde.
Para Antônio Ramos, na época das grandes “brigadas” de Quelé contra Lampião, ele morava no sítio Conceição.
Independente desta questão consta para nosso entrevistado que Quelé e seus irmãos eram analfabetos “-De tudo”. Do tipo que “-Não assinavam nem o A” e nem faziam “-Garrancho” do nome. Dizia Quelé ao tio de Antônio Ramos que ele era “careta”, outra denominação para seu analfabetismo. Pois quando olhava para qualquer texto escrito, franzia a testa, mostrava o rosto carregado, com uma careta, por não saber ler.
Mas se Quelé e seus irmãos não sabiam ler, sabiam atirar e muito bem.
De Homem da Lei a Cangaceiro
Para Mello (op. cit.), o bravo Quelé alcançou o posto de subdelegado do seu lugar e impunha a ordem, mas igualmente angariava inimigos. O autor informa que em uma diligência Quelé matou dois ladrões de cavalo, respondeu processo e foi destituído do cargo. Em seu lugar assumiu seu irmão Pedro José Furtado, ou Pedro Quelé.
Em 1922, para livrar o valente chefe da família Furtado do processo, o líder político Aprígio Higino D’Assunção solicita deste e de seus irmãos votos na próxima campanha eleitoral em Triunfo. Diante da recusa de Quelé em apoiá-lo, Aprígio ordena que uma força policial com um oficial e quatorze praças saíssem à caça do valente.
Na tranquilidade do alpendre de sua casa, o sertanejo Antônio Ramos contou que um dia, certo morador do lugar chamado Tomé Guerra, antigo amigo de Quelé, arranjou uma encrenca com o mesmo e entendeu de matá-lo. Tomé chamou outro morador do lugar, também “chegado na espingarda”, de nome Cícero Fonseca. Estes, juntos com um grupo de policiais, colocaram uma tocaia contra Clementino ás cinco da manhã, “-Para pegá-lo com as mãos”.
O “major” Aprígio Higino D’Assunção, que por três ocasiões foi prefeito em Triunfo e dono de cartório. Foto reproduzida a partir do livro “Triumpho, a corte do sertão”, de Duana Rodrigues Lopes, pág. 234.
Quelé ao perceber o ardil, pulou desviando dos tiros e respondeu ao fogo, atingindo certeiramente a cabeça de Cícero Fonseca, tendo o mesmo caído mortalmente ferido em um barreiro. Os outros membros da emboscada “botaram” em Quelé, que conseguiu fugir para sua casa. Clementino teria escapado através de um local onde havia um curral que pertencia a um cidadão conhecido como Sebastião Pedreiro e por uma área onde existia certa quantidade de cactos do tipo palma, utilizados como comida para o gado.
Aprígio Higino e parentes. Para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello ele foi o pivô que levou Clementino Quelé a entrar no cangaço. Foto reproduzida a partir do livro “Triumpho, a corte do sertão”, de Diana Rodrigues Lopes, pág. 373.
Mello (op. cit.) aponta que um “certo Tomé de Souza Guerra”, do sítio Santana e outros homens engrossaram a força policial que perseguia Quelé. Mas Cícero Fonseca era um companheiro de Quelé, onde os dois bebiam na bodega de Sebastião Pedreiro, quando a polícia cercou o lugar e deu voz de prisão. Na versão do respeitado pesquisador, que conseguiu suas informações através do relato de Miguel Feitosa, o antigo cangaceiro Medalha, o pobre Cícero ao colocar o pé para fora da bodega foi crivado de balas.
Vendo que a força policial e os paisanos não vinham para prendê-lo, mas para exterminá-lo, Quelé solicita aos gritos o apoio de amigos das proximidades, estes atenderam ao chamado e a balaceira foi grande. Diante da resistência inesperada a força policial e os paisanos batem em retirada.
Independente de qual a versão correta, todos são unânimes em afirmar que a partir deste confronto os perseguidores passam a “apertar” Quelé, sendo esta a verdadeira razão para ele e seus irmãos entrarem no cangaço junto a Lampião.
A Briga de Quelé com o Cangaceiro Meia Noite
O comerciante e almocreve Miguel Moura nutria uma boa relação com Clementino, a quem chamava de “primo”. Este comentou com seu filho que a razão de sua saída do bando de Lampião foi uma briga com o valente cangaceiro “Meia Noite”.
Este era alagoano, do lugar Olho D’água, atual Olho D’água do Casado, próximo a cidade de Piranhas. Seu nome verdadeiro era Antônio Augusto Correia e pelo fato de possuir a pele negra, recebeu a famosa alcunha. Para o genitor de Antônio Ramos, o negro Meia Noite foi o mais valente de todos os homens que andaram com Lampião, do tipo de gente que “-Dava medo só de olhar”.Segundo Mello (op. cit.), a razão da briga entre Quelé e Meia Noite foram dois irmãos cangaceiros chamados José e Terto Barbosa. Este último havia assassinado no Ceará o irmão de um chefe cangaceiro, tendo se refugiado com seu mano na serra do Catolé, a cerca de 30 quilômetros da cidade pernambucana de Belmonte, próximo às fronteiras do Ceará e da Paraíba.
A região montanhosa de Santa Cruz da Baixa Verde, a partir da estrada que liga esta a cidade ao vizinho município de Manaíra, já na Paraíba.
Em uma ocasião que os cangaceiros de Lampião e Quelé se encontravam na fazenda Abóbora, pertencente ao tradicional coiteiro Marçal Diniz, chegou uma mensagem de José e Terto para seus tios Neco e Chico Barbosa, igualmente cangaceiros do bando de Lampião. O que os dois sobrinhos solicitavam aos tios era uma maneira de salvarem a pele.
Neco e Chico sabendo que o chefe cangaceiro cearense, conhecido como “Casa Velha”, cujo irmão foi morto por Terto, era amigo de Lampião, acharam por bem pedir a Clementino Quelé que recebesse os dois sobrinhos. O chefe dos Furtados, junto com seus irmãos, se sobressaía cada vez mais no cangaço e não pôs obstáculo à entrada dos dois rapazes no seu grupo.
Quando Meia Noite soube da história se colocou totalmente contrário, pois foi amigo do homem morto por Terto Barbosa e disse que se ele viesse para o bando iria atirar nele. O resumo da ópera foi que após Quelé tomar conhecimento da alteração de Meia Noite, este se coloca ao lado de Terto. Quelé corajosamente disfere uma saraivada de impropérios contra Lampião, Meia-Noite e os outros cangaceiros. Segundo Mello (op. cit), Clementino teria dito textualmente “-Que juntassem tudo que ele brigava do mesmo jeito”.
O chefe dos Furtados percebeu que após este fato, ficar ao lado de Lampião e seu bando seria o mesmo que praticar um suicídio, pois o mais famoso cangaceiro do Brasil era conhecido pelo seu rancor.
A região de Santa Cruz da Baixa Verde, a partir da PE-365, que liga Triunfo a Serra Talhada.
Já nosso informante Antônio Ramos transmitiu uma versão diferenciada. Na ocasião destes episódios, o chefe dos Furtados estava junto com Lampião e seu bando em um esconderijo próximo a povoação de Patos, já na Paraíba, onde o problema ocorreu no momento em os tios de Terto trouxeram uma carta dos sobrinhos para Quelé e lhe contaram o problema. Quelé então teria solicitado que alguém lesse a dita mensagem em voz alta. Nisto o cangaceiro Meia Noite ouviu sobre o conteúdo da missiva e desconfiou que Quelé fosse colocar aqueles indivíduos como integrantes do bando.
Vista da Serra do Catolé, em Belmonte, Pernambuco.
Segundo o entrevistado, Meia Noite conhecia os “Barbosas”, contra quem já havia brigado, era inimigo dos mesmos, principalmente de Terto. O negro alagoano ficou cismado que Quelé, ao colocar aquela turma de valentes no bando, seria um meio para Terto, dos “Barbosas da Serra do Catolé”, dar fim a sua vida.
Quelé ao saber do fato negou. Disse a Meia Noite que “-Gostava de homem valente”, que os “Barbosas” eram pessoas que ele tinha “-Para onde botar”. Meia Noite comentou que sendo Terto seu inimigo, se por acaso ele trouxesse os “Barbosas” para perto do bando, “-Sabia que ia ser uma desgraça, que nóis briguemo e ficou para quando nóis se encontrar, a bala cortar”. Antônio Ramos narrou que Quelé ponderou, afirmando que “-Quando o homem é valente, que pede uma proteção, eu gosto de amparar”.
A discussão entre estes guerreiros foi gradativamente aumentando de tom, crescendo na ferocidade, até que os dois valentes partiram para a luta corporal. Lampião chamou seus homens rapidamente dizendo “-Acode, acode, se não estes homens se matam” e conseguiram apartar a briga. Para o entrevistado Lampião disse a Quelé “-Que deixasse o negro Meia Noite com ele, pois parecia que ele tinha saído do inferno” e pediu a Clementino e seus irmãos para irem para o sítio Conceição.
Antônio Ramos relata que depois da discussão, Quelé aparentemente não se satisfez com o posicionamento de Lampião e reclamou. No entendimento do chefe dos Furtados, Lampião “-Teria dado mais valor a um negro do que a ele”. Sentindo-se rebaixado no seu racismo tardio, Quelé abandonou a vida do cangaço e ficou marcado por Virgulino.Outra informação ouvida por Antônio Ramos dá conta que no momento em que Clementino Quelé e seus parentes saíram da região dos Patos e do bando de Lampião, um dos seus parentes, filho de certa “Luzia Lalau” e um tal de Ricardo, pessoas de Santa Cruz, ficaram no bando de Lampião.
Os tiroteios de Lampião contra Quelé
Seja através de uma, ou de outra versão, o certo é que tempos depois desta desavença no seio do bando, o chefe Lampião, apoiado pelo fazendeiro Marcolino Diniz, filho do coronel Marçal, vem para Santa Cruz com o objetivo de matar Clementino e seus irmãos. Este encontro ocorreu no dia 5 de janeiro de 1924, um sábado.
Segundo informações coletadas em Santa Cruz da Baixa Verde, esta casa reformada teria sido a fortaleza de Clementino Quelé. Entretanto este dado ficou inconclusivo devido a divergências em relações a outras informações que foram apuradas na região.
Antônio Ramos informa que era um “-Meninote de doze anos”, que a sua casa antiga era próxima a sua atual morada e seu pai possuía uma bodega pequena, mas bem surtida.
Era ainda de madrugada, quase amanhecendo, quando o jovem Antônio Ramos acordou com o barulho de muitas vozes de homens no oitão da sua casa. Era um grupo numeroso de cangaceiros. O garoto notou que todos vinham alegres, animados, equipados, armados e com muita munição. Muitos deles estavam embalados por aguardente e segundo suas próprias palavras, os cangaceiros pareciam estar “-Com fogo saindo pelas orelhas”.Eles pediram tudo que seu pai tivesse de comida no estabelecimento, além de mais cachaça. Este prontamente passou a servir o bando, especialmente Lampião. Os homens armados não fizeram nada com seu pai ou sua família nesta ocasião.
Antônio assistiu Lampião comendo uma rapadura com queijo e comentando alegremente com a rapaziada sobre a futura luta. Ele se apresentava animado, doido para brigar. Neste momento pronunciou uma frase que Antônio Ramos jamais esqueceu.
“-Da família de Quelé, hoje só se salva quem avoa”.
O Rei do cangaço ainda afirmou que “
– Hoje eu vou beber o sangue de todo mundo”.
Nesta ocasião, durante o nosso encontro, o nonagenário entrevistado alterou-se, ficando visivelmente emocionado. Ele recordou que se tremeu todo, no momento que escutou estas frases do famoso bandoleiro. Comentou veementemente que viu Lampião falar exatamente da forma anteriormente descrita e narrou este fato agarrando fortemente o braço do autor, tal a emoção.
Outra imagem da casa onde pretensamente ocorreu a batalha.
Ele descreveu Lampião como sendo moreno, alto, rosto comprido, cego de um olho, não usava óculos naquele dia e que mesmo assim enxergava bem. Pouco tempo depois o bando saiu da bodega.
A desproporção da luta que se avizinhava era enorme, pois Quelé tinha junto com ele apenas outros cinco companheiros para lhe ajudar. Para Antônio Ramos os cangaceiros seriam em torno de “-Uns cinquenta homens”. Já Carvalho (op. cit.) afirma que seriam quarenta e cinco.O pesquisador Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho (in “Pernambuco no tempo do Cangaço-Volume I”, 2002, págs. 328 a 330) reproduz o “Boletim Geral nº 05”, emitido pela polícia pernambucana no dia 7 de janeiro de 1924, onde consta que o número de cangaceiros era de sessenta homens.
Mas para os familiares de Antônio Ramos, naquele momento o que importava era buscar de alguma maneira se proteger dentro de casa diante do que iria acontecer e em pouco tempo “-A bala comeu”. Ele e seus familiares ficaram escutando o tiroteio, mas não lembra a duração, só comentou que “-Demorou muito”.
Falou que “-Quando deu fé”, chegou a sua casa um rapaz da família de Quelé com cerca de 16 anos, dizendo que estava dentro de um partido de mandioca quando os cabras chegaram e comentou que “-A bala tava cortando tudo”. Narrou que o rapazinho tinha escutado os gritos dos cangaceiros prometerem: “-Derrubar a casa” e o pessoal da casa avisando aos gritos para os atacantes que
“- Se derrubar e entrar um, nóis mata na faca”.
A testemunha da batalha de 5 de janeiro de 1924 afirmou que este rapaz avisou que iria a Triunfo buscar uma volante. Nesta cidade o delegado era o tenente Malta e havia uma volante comandada pelo sargento Higino José Belarmino.
Edição do jornal recifense “A Notícia”, de 14 de janeiro de 1924, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, informando erroneamente sobre a ação da polícia, durante o segundo ataque de Lampião contra Quelé.
O jovem disse que seguiria através de um caminho alternativo, evitando a vereda que levava normalmente para esta cidade, pois com certeza os cangaceiros deviam ter “-Botado uma emboscada aculá na frente”. O jovem deixou a casa de Ramos, seguindo em direção a serra dos Nogueiras, saindo no lugar chamado Gameleira e de lá para Triunfo.
Entretanto, para nosso entrevistado, a polícia ficou “insonando”. No seu linguajar típico, onde Antônio Ramos utilizava expressões difíceis de serem ouvidas atualmente no sertão nordestino, ele quis dizer que os homens da lei ficaram enrolando e só foram chegar a Santa Cruz por volta das 11 horas da manhã.
Esta volante levou várias horas para percorrer os seis quilômetros entre as duas localidades. Provavelmente para os policiais, a ocorrência em Santa Cruz era um problema entre bandidos e quanto mais deles se matassem entre si, melhor. Mas diante da resistência feroz realizada por Clementino e seus companheiros, a polícia se deslocou para evitar a pecha de conivência e covardia.
Apesar da evidente falta de vontade dos policiais de irem a lutar, ficamos imaginando o conflito dentro da própria volante, entre aqueles que queriam ir e dos que não queriam, pois certamente nem todos eram covardes e honravam a farda que vestiam.
Enquanto isso a família de Quelé, literalmente “comia chumbo” e o tiroteio não dava mostras de diminuir. A casa sofria diante da quantidade de tiros, em mais de seis horas de batalha ininterruptas. Antônio Ramos e seus familiares, até por razões bastante óbvias, não viram nada da refrega, apenas escutaram assustados a troca de disparos.
Nosso entrevistado comentou que nesta época morava na sua casa um primo chamado Augusto e foi este quem primeiro ouviu um tiro de fuzil. Esta arma possuía um som característico e bem diferente dos rifles Winchester, de calibre 44, ainda bastante utilizados pelos cangaceiros e pelo pessoal de Quelé. O som lhe chamou a atenção e mostrava que a polícia estava chegando, vindo pelo caminho que seguia para a pequena Santa Cruz, que nessa época era um simples arruado “-Com no máximo quatro casas”.
Aparentemente a Força Policial começou a atirar com seus fuzis muito antes de chegar ao local do confronto, esperando que assim os cangaceiros debandassem. Mas segundo o nosso informante, foi nesse momento que o tiroteio ficou ainda mais forte, “-Com a fumaça cobrindo tudo” e as balas “-Zunindo por riba de casa”, o que deixou os membros da sua família extremamente assustados. Podemos deduzir através de suas informações que, de alguma maneira, a sua casa ficou entre o fogo cruzado.
O aposentado coronel Higino José Belarmino, em foto de Josenildo Tenório, de 1973. Reprodução feita a partir da página 50 do livro “Lampião, o cangaceiro e o outro”, de Fernando Portela e Claudio Bojunga, edição 1982.
Segundo Ferraz (op. cit.), no “Boletim Geral nº 05” encontramos a informação que o tiroteio morreu o irmão Pedro Quelé e Alexandre Cruz, ficando ferido Deposiano Alves Feitosa. Antônio Ramos narra que seu pai considerava Pedro Quelé como um homem valente. Na região ficou conhecido o fato que quando acabou a sua munição, este pediu garantias para sair, mas ao colocar a cabeça para fora da janela, foi impiedosamente morto.
Depois de toda uma batalha tenaz onde não tivera êxito, Virgulino Ferreira da Silva não refreou sua vontade de acabar com o atrevido Clementino Quelé.Ferraz (op. cit.) mostra que no “Boletim Geral nº 07”, da polícia pernambucana, emitido no dia 9 de janeiro de 1924, reproduz um bilhete do tenente Malta informando “Acha-se grupo de Lampião proximidade de Santa Cruz”. O militar ainda comentou na missiva que contava com “89 praças” para defender Triunfo e região.
Mesmo com esta força nas proximidades, seis dias depois, no dia 11 de janeiro, uma sexta-feira, Lampião e seus homens voltaram para aplicar uma segunda dose de chumbo em Quelé e seus companheiros.
Santa Cruz da Baixa Verde em 1951, durante uma visita de Frei Damião.
Antônio Ramos recordou muito bem que em relação a este combate, percebeu que o sol já vinha saindo quando o tiroteio teve início e novamente a história se repetiu. De um lado os cangaceiros sedentos de sangue e do outro um pequeno grupo de homens se defendendo como podiam.
Segundo Lira (op. cit.), Lampião despejava todo tipo de impropérios e palavrões conhecidos contra o destemido Quelé e seu pessoal. Mas os sitiados respondiam, cantavam e assim irritavam o chefe dos cangaceiros.
Mesmo com uma força policial numerosa em Triunfo, novamente os agentes de segurança do Estado levaram outras seis longas horas para chegarem a Santa Cruz, repetindo-se o que ocorreu no domingo anterior. De toda maneira Clementino só conseguiu se safar pela chegada do destacamento policial baseado em Triunfo. Para Antônio Ramos, consta que Quelé tinha um parente de nome José, apelidado “José Caixa de Fósforo”, que parece ter estado nos dois tiroteios.
Apesar do antigo cangaceiro de Lampião sair vivo nestes combates, a família Furtado foi praticamente exterminada. Segundo Mello (op. cit.), tanto neste, como em combates futuros, morreram três irmãos, dois genros e um sobrinho. Além destes seis parentes, segundo o pesquisador, mais cinco amigos do valente Quelé pagaram com a vida e inúmeros outras pessoas ligadas a Clementino ficaram feridos.
Casa antiga da região de Santa Cruz da Baixa Verde.
Em relação aos confrontos de janeiro de 1924, Antônio Ramos contou que uma das casas que foi palco dos dramas ainda existia e que na época era considerado um sítio afastado da então vila. Tentamos localizar o local. Chegamos a fotografar uma residência antiga, mas reformada. Entretanto houve divergências com outros informantes, que comentaram ter sido as casas da família de Quelé derrubadas há muito tempo.
Independente da residência correta onde aconteceram os tiroteios, fomos informados por pessoas da região, nascidas anos após os episódios, que seus parentes mais velhos narravam que quando estes seguiam para capinar nas proximidades das antigas vivendas, a coisa mais comum era encontrar capsulas deflagrada de rifles e fuzis.
O Vingador do Sertão
Depois dos tiroteios, Quelé ficou meio perdido pela região, sendo protegido por Higino Berlarmino. Para Antônio Ramos, foi o coronel José Pereira, o chefe político da vizinha cidade paraibana de Princesa, que deu o apoio decisivo para Quelé se tornar um implacável caçador de Lampião.
Sentado vemos Marcolino Diniz e seus comandados durante a Guerra de Princesa.
Após o grande assalto de cangaceiros ocorrido na cidade de Sousa, em 27 de julho de 1924, Pereira exigiu que seu parente Marcolino Diniz não desse mais apoio a Lampião e o expulsasse da região dos Patos. Por indicação de alguém que Antônio Ramos não recorda, foi sugerido ao “dono” de Princesa o nome de Quelé, para que este servisse no comando de uma volante em perseguição a Lampião. A solicitação foi feita ao então governador paraibano João Suassuna e Clementino Furtado passa a ser conhecido como o Sargento Quelé. (Sobre um episódio envolvendo o Sargento Quelé na Guerra de Princesa ver – https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/07/a-batalha-do-casarao-dos-patos/)
Sua volante, a famosa “Coluna Pente Fino”, ficou marcada na história do cangaço pela selvageria como combatia os cangaceiros e infligia o terror aos coiteiros. Muitos parentes fizeram parte do grupo. Se não faltam relatos de valentia do seu pessoal, infelizmente não faltam informações que inúmeros inocentes sofreram nas mãos dos homens de Quelé, além de inúmeros atos de pura rapinagem.
De toda maneira o “investimento” do governo da Paraíba em Quelé não foi em vão. Três anos e meio depois dos combates em Santa Cruz, no dia 14 de junho de 1927, ele e seus homens serão a primeira força policial a adentrar em Mossoró, após a fracassada tentativa de Lampião para conquistar a maior cidade do interior potiguar. Nesta ocasião consta que no currículo de combates de Quelé contra o Rei do cangaço, estavam listados vinte e um tiroteios.
Para Antônio Ramos, mesmo com toda coragem e capacidade para caçar cangaceiros, foi o analfabetismo de Quelé que deixou que ele permanecesse nas fileiras da polícia da Paraíba apenas com a graduação de sargento.
Provável túmulo do Sargento Clementino Quelé, na cidade da Prata, Paraíba.
As histórias das lutas entre Clementino Quelé e Lampião se tornariam verdadeiras lendas no imaginário dos nordestinos. Aparentemente um destes que se encantou com as lutas de Quelé foi Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”. Em parceria com José Marcolino, o sanfoneiro de Exu compôs a música “No Piancó”, onde em um trecho diz;
“Lá viveu o Clementino / Que brigou com Lampião.”
Não posso garantir que o Clementino descrito na música do grande artista pernambucano, seja o mesmo homem que perseguiu implacavelmente Lampião.
Mas houve outro?
A morte do pai de Antônio Ramos
Um dia, em 1926, segundo o entrevistado, o terrível chefe bandoleiro Sabino, acompanhados dos cangaceiros Juriti, Ricardo e outros, vieram de um lugar próximo chamado Lagoa do Almeida, da família dos Marianos e seguiram para a casa do senhor Manuel da Cruz. Este era um fazendeiro, tendo sido comentado aos cangaceiros ser um homem que possuía muito dinheiro Como este não foi encontrado, os cangaceiros continuaram seguindo em direção a pequena povoação de Santa Cruz.
Sabino fotografado montado em 1927, na cidade cearense de Limoeiro do Norte, logo após o fracassado ataque a Mossoró.
No caminho passaram adiante da casa de Miguel Moura. Como um dos cangaceiros era afilhado de batismo da mãe do entrevistado, por força do parentesco, pediu a Sabino, Juriti e Ricardo, que fossem na casa do sítio Conceição, ver se “arranjavam alguma coisa” com sua madrinha, que ele ficaria de fora.
A chegarem ao pequeno comércio, Sabino e os outros entram e passam a torturar Miguel Moura a ponta do punhal, para o mesmo dar conta do dinheiro que conseguia com o transporte nos burros. Na casa do pai do entrevistado se encontrava uma empregada da vizinha Isabel Correia, conhecida como Zabê e esta senhora foi a vivenda do entrevistado para moer milho. Os cangaceiros quiseram lhe arrebatar uma aliança, mas ela conseguiu tirar a joia do dedo e colocou-a na boca. Os cangaceiros exigiram o objeto de valor e a mesma recusou-se a entregar. Os bandidos passam a ação, tentando forçar a mulher a entregar a aliança e começa uma luta. A empregada lutou tão bravamente que teria quebrado o nariz do seu atacante. O próprio Sabino mandou soltá-la, tendo dito que “-Esta é uma desgraça que nem o diabo pode”. A mulher foi embora correndo com a aliança.Na casa da vizinha Zabê, que possuía certa quantidade de ouro, eles chegaram e arrastaram o que puderam, mandando inclusive a mulher tirar os brincos ou “-Cortariam com o pedaço da orelha”. O marido da mesma, Manuel Correia, foi chegando a casa e os cangaceiros o renderam com pistolas, que colocaram no pescoço do mesmo.
Para o pai do entrevistado a sorte não foi tão boa. Disseram que ele era rico, mas Miguel Moura comentou que gastava muito na propriedade. Daí Sabino ordenou que em oito dias ele conseguisse um conto de réis, sob pena de morrer.
O pai do entrevistado sofria do coração e diante de toda a tensão provocada pelas ameaças, veio a ter um ataque cardíaco. Sem assistência médica, que era muito difícil na época, morreu nove dias depois da “visita” dos cangaceiros.
Depois destes fatos, o nosso entrevistado e a família foram para Triunfo, onde perderam a roça e tiveram muitos prejuízos. Seguiram depois ao Juazeiro, para uma entrevista com o Padre Cícero, que os aconselhou a não voltar logo para casa.
Este fato foi testemunhado pela irmã de Antônio Ramos, criança a época, que se encontrava brincando defronte a casa no momento da passagem dos cangaceiros, tendo ela visto e escutado tudo.
Se para alguns, Sabino é apontado como “revolucionário”, para Antônio Ramos, ele é tão somente um arrogante bandido, cruel ladrão e frio assassino.
Me foi informado que esta antiga edificação amarela teria sido a casa comercial da família Campos em Triunfo, atacada por Sabino em 1926.
No dia 7 de julho de 1926, Sabino e seu grupo foram a Triunfo para assaltar a cidade. O bando fez muita bagunça, atacando a loja de tecidos de Antônio de Campos, o maior comerciante da cidade. Os cangaceiros levaram até um machado para furar o cofre, mas não conseguiram, passando a tocar fogo n estabelecimento. Segundo Ramos, na ocasião se encontravam na cidade dois soldados, de nome José Sabiá e José Piauí, que foram atacados pelo bando. O inusitado foi que Sabiá morreu com apenas um tiro e o Piauí, mesmo levando sete tiros, escapou com vida.
Início da extensa reportagem divulgada no jornal recifense “A Província”, edição do dia 10 de julho de 1926, dando conta do ataque de Sabino a Triunfo.
Para Lira (op. cit. pág.401) Sabino e seus homens entraram na cidade serrana quando se encontravam apenas quatro militares para protegê-la e corrobora a afirmação de Antônio Ramos quando escreve que “o soldado que foi morto tinha o apelido de Sabiá”.
A última vez que Antônio Ramos viu Lampião e seu bando
Depois que o nosso informante e sua família voltaram à antiga casa do sítio Conceição, eles procuraram seguir a vida. Mesmo diante da situação, o jovem Antônio Ramos não deixou de estudar. Em um dia de 1927, estava ele por volta das onze da manhã em uma escola nas proximidades de Triunfo, junto com um professor nascido na cidade de Floresta, quando chegou um grupo de cavalarianos armados e equipados. A princípio o mestre pensou que fossem policiais, mas o entrevistado comentou com segurança que “-Aquele ali é Lampião, eu conheço”. Segundo ele eram em torno de “-130 cangaceiros”, todos equipados, com chapéu de couro quebrado, cheio de medalhas, fuzis, cada um levando dois bornais e cartucheiras. Antônio Ramos ficou se perguntando como eles lutavam com tanto equipamento.
Antônio Ramos
Entre os cangaceiros, nosso entrevistado conhecia um deles. Chamava-se Isaías Vieira, e era de um lugar conhecido como Xique-Xique. Havia sido ladrão de bodes, que após ser preso apanhou muito e havia entrado no cangaço por vingança.
Nesta ocasião todos os cangaceiros estavam a cavalo, pegando animais descansados e deixando os que estavam viajando. Comentou que apenas às seis da noite, uma volante da polícia de Alagoas passou na região seguindo o bando. Este grupo era comandado por um militar conhecido como “tenente Arlindo”. A ocasião desta visita foi próximo ao mesmo período em que ocorreu o ataque a Mossoró.
Cruz em Santa Cruz da Baixa Verde, que mostra um local onde alguém morreu de “morte matada”.
A bibliografia mostra o quanto aparentemente nosso informante estava certo, mesmo com algumas pequenas alterações. O Pesquisador José Alves Sobrinho, da cidade de Serra Talhada, em Pernambuco (in “Lampião e Zé Saturnino-16 anos de luta”, 2006, pág. 112), comenta que na mesma época que Lampião seguia para Mossoró, passou na zona rural de Vila Bela, a antiga denominação do município de Serra Talhada, na fazenda Barreiras, de propriedade de Martins Venâncio Nogueira, conhecido como Martins da Barreira. Segundo o autor, o proprietário da fazenda Barreira conversou longamente com Lampião naquele dia e afirmou que junto ao chefe estavam “118 cangaceiros”.
Segundo Lira (op. cit pág. 379.) comenta que em fins do mês abril de 1927, este grande grupo de cangaceiros estava sendo realmente sendo seguido por uma força volante comandada pelo militar Arlindo Rocha, que salvo engano seria da polícia pernambucana e possuía a patente de sargento.
Antônio Ramos informou que nunca leu um livro sobre cangaço, que conta por que sabe e viu. Os fatos envolvendo Lampião e o cangaço era informação corrente na região. Tudo era narrado de boca em boca, nas feiras, nas ruas. Detalhes sobre a intriga dos Ferreiras com os Saturninos de Vila Bela, a história do chocalho, as brigadas e tudo mais que levou Lampião a entrar no cangaço, era muito repetido. Apenas em uma ocasião Antônio Ramos viu uma revista com a foto das cabeças cortadas em Piranhas, Alagoas, após o ataque que deu cabo de Lampião e acha que era ele mesmo.
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No dia 25 de dezembro de 1921, na pequena vila de Luís Gomes, o cabo Francisco Rodrigues Martins e o soldado Luis Antonio de Oliveira, foram assassinados por um grupo de cangaceiros quando realizavam uma diligência policial. Nesta época, o jornal natalense A Republica era extremamente econômico no seu noticiário quando o assunto era a ação de cangaceiros em terras potiguares e não publica uma só linha detalhando este episódio.
Vamos ter conhecimento deste fato já na edição de 20 de janeiro de 1922, onde está estampada a publicação do Decreto nº. 160, de 7 de janeiro de 1922, que informa terem as viúvas dos policiais mortos recebido “uma pensão correspondente à metade da etapa que os mesmo ganhavam, considerando que os militares foram assassinados por cangaceiros”.
De qual bando pertenciam estes bandidos? Quantos eram? Quem era o chefe? Infelizmente não sabemos, mas sabemos que o ataque aconteceu. Podemos deduzir que a não vinculação da notícia pelo principal jornal potiguar da época teria mais a ver com um desejo de evitar o pânico entre a população rural potiguar?
E este medo tinha fundamento?
Conforme descreve o então governador potiguar Antônio José de Mello e Souza, na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1921, parece que sim!
Devido a forte de seca dos anos de 1918 a 1920, aliado a uma acentuada baixa de produção do algodão e dos baixos valores alcançados por esta matéria-prima no mercado internacional, o Rio Grande do Norte se encontrava em uma precária situação financeira. Esta situação gerava reflexos principalmente nas ações de segurança e ordem pública, onde o governo mantinha a força pública com um efetivo bem abaixo de suas necessidades e material obsoleto para o combate ao banditismo.
A ERA DE 22 COMEÇA COM MUITA CHUVA E CANGACEIRO
Neste ínterim, a vida passou a sorrir de uma forma mais alegre para o sertanejo potiguar, pois tinha início uma promissora estação chuvosa, sendo noticiadas fortes chuvas em todo Estado (A Republica ed. 29/02/1922).
Por outro lado, o meio político estava agitado, pois a dia 1 de março ocorria em todo país a eleição para Presidência da República, onde Arthur Bernardes disputava com Nilo Peçanha, em um sufrágio muito pouco democrático, quem governaria o país pelos próximos quatro anos. É informado que o futuro presidente já assumiria a partir do dia 15 do mesmo mês de março (Mensagem, RN 1922, pág. 4).
Em meio a todo positivo noticiário sobre as chuvas e as eleições presidenciais, um dia é publicado uma pequena nota que mostrava que nem tudo corria as mil maravilhas no sertão paraibano, próximo a fronteira potiguar e a fonte da pequena nota era uma importante liderança política e empresarial potiguar.
Informe de Simplício Cascudo sobre ataque de cangaceiros na Paraíba e publicado em Natal
O coronel Francisco Cascudo, pai do folclorista Câmara Cascudo, apresentou a redação de A República um telegrama remetido no dia 3 de março, emitido pelo seu parente Simplício Cascudo, então residente na cidade paraibana de Sousa, dando conta que um grande grupo de cangaceiros estava percorrendo as zonas rurais das cidades de Pombal, Brejo do Cruz, Catolé do Rocha e São Bento, na Paraíba e propriedades na área próxima a Vila de Alexandria, já no Rio Grande do Norte (mas sem trazer maiores detalhes). Informava Simplício Cascudo que as propriedades São Braz, Santa Umbellina e Brejo das Freiras foram “visitadas” pelos cangaceiros, sendo assaltados as pessoas de “José Olympio, filho de Antonio Fernandes, Adolpho Maia, Valdevino Lobo, proprietário da estância Dois Riachos, e Mestre Ignácio”. Informa o missivista que a cidade de São Bento estava “arrasada” com os acontecimentos, tendo os saques nas propriedades próximas sidos superiores a 200 contos de réis. Comentava que no dia 2 os cangaceiros se encontravam no lugar “Catolé”, próximo a Cajazeiras, estando a cidade receosa de ser atacada. Simplício Cascudo finalizava a nota informando que até o momento as garantias solicitadas ao governador da Paraíba, Sólon de Lucena, ainda não estavam presentes (A Republica ed. 07/03/1922).
Ora, diante de notícia fornecida por pessoa tão grada da sociedade potiguar, os grandes produtores rurais do Rio Grande do Norte, principalmente aqueles que tinham seus bens mais próximos à fronteira paraibana, ficam extremamente apreensivos com o que poderia ocorrer.
Logo seus piores pesadelos pareciam se concretizar…
Nota sobre o ataque a Jericó, Paraíba
Telegramas vindos da vila paraibana de Jericó, retransmitidos por postos telegráficos potiguares, fazem chegar a Natal a informação que em 5 de março de 1922, o celebre chefe cangaceiro Sinhô Pereira, com a ajuda do cangaceiro Liberato Alencar, acompanhados de um bando com um número estimado (pelos jornais da época) de 35 a 60 cangaceiros, ataca com sucesso toda aquela região. Desde a zona oeste do Rio Grande do Norte, até o Seridó, a notícia correu célere. Uma das notas de um dos jornais potiguares que noticiaram o fato assim apresentou a questão informando que “Notícia ruim chega ligeiro!”. Na antiga Jericó eles cometeram atrocidades e causaram inúmeros prejuízos aos moradores da localidade. Os cangaceiros foram finalmente rechaçados por um grupo de corajosos habitantes do lugar, destacando-se o nome de Antônio Felipe, João Bento, soldado João Ferreira e João Belarmino.
PÂNICO ENTRE A ELITE RURAL POTIGUAR
Os acontecimentos são publicados em grandes manchetes na edição de 8 de março de A República. A partir de então o pânico se generaliza de uma forma contundente entre os políticos e os fazendeiros que tinham interesses na fronteira do rio Grande do Norte com a Paraíba.
Um típico cangaceiro nordestino na década de 1920
Em Natal começam a chover na mesa do governador Mello e Souza telegramas solicitando urgentemente o envio de efetivos da força pública potiguar para a defesa das cidades e vilas localizadas em praticamente toda a fronteira com a Paraíba. Os aflitos telegramas vinham desde a cidade de Luís Gomes, quase na divisa com o Ceará, à Nova Cruz, próximo ao litoral, todos informando existirem boatos de ataques eminentes e simultâneos de cangaceiros.
Nas amareladas folhas do velho jornal A Republica, existente na hemeroteca do Instituto Histórico do Estado do Rio Grande do Norte e no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte, é tal a quantidade de telegramas enviados ao governo, que aqueles que não possuem um maior conhecimento da história do cangaço nesta época, ao ler as alarmantes missivas reproduzidas, parece que a ação dos cangaceiros havia crescido numa proporção assustadora e o número de bandos havia aumentado por dez.
No geral as mensagens seguem quase um mesmo padrão. Comentam sobre a existência de “informações”, ou “boatos”, transmitidos por pessoas “vindas da Paraíba” da “existência de grupos de cangaceiros nas proximidades” e a possível “eminência de um ataque”.
OS JORNAIS REPERCUTEM A SITUAÇÃO
A imprensa dos dois Estados tratava a situação de modo alarmante e exagerado.
Possível combate próximo a cidade de potiguar de Santa Cruz. Jamais foi confirmado
Na edição de 12 de março do jornal paraibano “A União”, existe a informação que havia ocorrido um violento combate nas proximidades da cidade potiguar de Santa Cruz, no qual teriam morrido 6 cangaceiros. Já o natalense A República chega a comentar na sua edição de 21 de março que, “se abstivera de divulgar as movimentações da tropa, por um princípio das táticas militares; Não fornecer indicações ao inimigo”. Como fosse o caso dos cangaceiros terem condição de ler jornais continuamente no meio da caatinga!
Esta mesma edição de A República informa que em Caicó houve pânico com a notícia da aproximação de cangaceiros na fronteira desta cidade com a Paraíba, ficando a situação mais calma por haver deslocamento de forte contingente policial em direção à localidade de Jardim de Piranhas. Outro jornal natalense denominado A Notícia, informa que até mesmo ocorreu “fuzilamento de oficiais de nossa Força Pública e rapto de crianças”.
Até as repartições dos Correios e Telégrafos entraram na ideia de pânico generalizado. Houve o caso de um telegrafista enviar pedidos de ajuda ao Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro.
Os cangaceiros atrapalharam a coleta de materiais da cidade Martins para a exposição do centenário
Até jornais do Rio de Janeiro noticiaram aqueles acontecimentos aparentemente através de notícias recebidas de informes telegráficos e um destes informes mostra uma interessante situação; no primeiro semestre de 1922 estava acontecendo em todo o Brasil os preparativos para as grandes festas do centenário da nossa independência e no Rio Grande do Norte estes preparativos estavam a toda. Cabia a cada estado brasileiro organizar e enviar para a Capital Federal, na época o Rio de Janeiro, uma coleção de produtos naturais típicos. No Rio Grande do Norte o responsável por tal trabalho era o Dr. João Vicente, que a época destes alarmes estava no município serrano de Martins. Na edição do periódico carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922, foi noticiado que o Dr. João “não podia trabalhar devido a ação dos cangaceiros e que o pessoal da serra estava pronto a reagir”.
MAS HOUVE ATAQUE?
Mesmo com todo exagero, o governador Antônio José de Mello e Souza, juntamente com o então chefe de polícia Sebastião Fernandes não perdem tempo na reação e tratam o assunto como uma verdadeira “situação de guerra”.
O chefe de polícia potiguar a época da crise
Convocam por decreto emergencial 100 praças para a força pública, promovem 2 sargentos a oficiais, despacham um grupo de policiais para seguir de navio até a cidade de Areia Branca, para depois seguirem a cavalo para fronteira. Com a ajuda do então IFOCS – Instituto Federal de Obras Contra as Secas (futuro DNOCS) mais de 100 militares serão enviados de caminhão ao interior. São feitas solicitações aos serviços de correios e telégrafos para a isenção de taxas para que os oficiais pudessem emitir telegramas da “frente de batalha”.
Na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1922, o governador Mello e Souza informa que recebeu que durante esta “crise”, mais de 100 despachos telegráficos vindos do interior. O próprio governador, tido como homem calmo e comedido, chegou ao ponto de reclamar que “até a cortesia sertaneja havia sido deixada de lado” naquelas solicitações de ajuda.
Apesar do estado limitado desta fotografia, ela mostra oficiais da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, se preparando para seguir para o sertão e combater os cangaceiros que desejavam invadir o estado em 1922
Foram enviados policiais em tal quantidade que em Natal o efetivo policial foi classificado como “mínimo”, apenas para o essencial para a proteção do quartel da força pública e do presídio (Mensagem, RN, 1922, páginas 31 a 35).
Seja por conta das ações policiais praticadas pelos governos da Paraíba e da ação preventiva da polícia potiguar, ou por terem conseguido o que desejavam, o bando de Sinhô Pereira toma novamente o rumo do Ceará. Com a saída dos cangaceiros, pouco a pouco a situação volta a se normalizar. No dia 29 de março chega a Natal o Chefe de Polícia da Paraíba, Demócrito de Almeida, que vinha agradecer a ação da polícia potiguar e, juntamente com Mello e Souza e Sebastião Fernandes, acertarem as bases para ações de patrulhamento da fronteira (A Republica, pág. 1, Ed. 01/04/1922).
Nas edições do jornal “A Republica” e na própria Mensagem ao Legislativo de 1922, podem-se ler as respostas às críticas feitas a ação do governador Mello e Souza na proteção das fronteiras. Estas críticas comentavam principalmente sobre os gastos excessivos realizados pelo executivo estadual no deslocamento de tropas, em meio a grave crise financeira vivida pelo Tesouro do Estado.
Existem insinuações que a mobilização serviu para uma grande intimidação da classe política que se encontrava na oposição, devido a proximidade da eleição federal, além de mostrar quem estava no poder e quem mandava na Força Pública.
Mas enfim, os cangaceiros de Sinhô Pereira estiveram, ou não estiveram no Rio Grande do Norte em 1922?
Consta na sua Mensagem ao Poder Legislativo de 1922, que o governador Mello e Souza informou que estes cangaceiros ao seguirem em direção ao vizinho Ceará, teriam então realizado a única e verdadeiramente comprovada penetração em território potiguar. Foi quando realizaram um pequeno saque em Luís Gomes e passando nas imediações da Vila de Alexandria, sem, contudo esta localidade ser efetivamente atacada (Mensagem, RN, 1922, pág. 34).
Jornal carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922
Conforme podemos ver na reprodução da nota publicada na edição do periódico carioca A Noite, pág. 4, de 6 de março de 1922, parece que estes cangaceiros estiveram no Rio Grande do Norte, mas não existem registros de saques em Patu, Alexandria e que a nossa polícia perseguiu a horda de meliantes até o Ceará.
UMA QUASE CONCLUSÃO…
Ao observamos estes episódios, é de se perguntar de onde vinha tamanho receio, ou medo, que as classes produtoras rurais potiguares tinham em relação aos cangaceiros? Até mesmo porque a marcante invasão do bando de Lampião ao Rio Grande do Norte só iria ocorrer cinco anos depois de todo a aquele pânico de 1922.
Sinhô Pereira (sentado) e seu primo Luiz Padre, dois grandes cangaceiros
É certo que os produtores rurais estavam saindo de uma seca pesada e uma ação de cangaceiros em nada ajudaria a nossa já combalida economia rural. Mas não havia registro de grandes ações destes bandidos no Rio Grande do Norte desde a prisão do celebre Antônio Silvino em 1914.
No meu entendimento toda aquela movimentação foi na verdade uma combinação de receio das elites rurais com a chegada dos cangaceiros, acompanhado de exagerados equívocos de informações, tudo isso transmitido para a capital potiguar através de uma bem organizada linha de comunicação telegráfica, que encheu a mesa do governador de pedidos de ajuda contra bandidos que simplesmente não apareceram.
Tudo isso associado a uma tradicional posição destas mesmas elites rurais potiguares; a de não terem uma associação muito estreita com cangaceiros, fossem eles potiguares, ou principalmente de outros estados.
Os donos do poder do sertão potiguar, como até hoje acontece, jamais deixaram de ter uma parceria estreita com hordas de sanguinários pistoleiros, de gente execrável que mata exclusivamente por dinheiro. Que a soldo dos poderosos resolviam (e ainda resolvem) certos tipos de problemas. Mas a figura do cangaceiro, talvez pelo seu aspecto único de possuir determinado nível de autonomia em meio a estas elites, jamais teve dos coronéis do sertão potiguar muita guarida.
E ONDE ENTRA LAMPIÃO NESTA HISTÓRIA?
Ao realizar esta simples pesquisa, me veio o seguinte questionamento; e então o grande cangaceiro Lampião esteve no Rio Grande do Norte antes do ataque de Mossoró? Teria o Rei do Cangaço pisado solo potiguar antes de 1927? Teria ele atacado uma fazenda nos limites do nosso estado com a Paraíba e passado perto da Vila de Alexandria?
Sei que Lampião entrou no bando de Sinhô Pereira em 1921, mas daí a afirmar que ele e seus irmãos Antônio e Levino participaram destas ações, é complicado. Tem gente por aí que conhece muito mais desta história do que eu e pode responder.
Notícia do Diário de Pernambuco, edição de 17 de março de 1922, mostrando a presença de Sinhô Pereira e seus cangaceiros na Fazenda Feijão, Belmonte, Pernambuco. Logo ele deixaria o cangaço
Mas sei que nos primeiros dias de junho de 1922, no sítio Feijão, zona rural do município pernambucano de Belmonte, próximo a fronteira do Ceará, Sinhô Pereira informou aos membros do seu bando, que em breve iria entregar o comando a Lampião, então o seu melhor cangaceiro. Apesar de ter menos de 27 anos de idade, Sinhô alegou problemas de saúde para a sua decisão e que seguia um apelo do mítico Padre Cícero Romão Batista, da cidade de Juazeiro, Ceará, que havia lhe pedido para deixar esta vida bandida e ir embora para fora do Nordeste. A incursão de Sinhô Pereira e outros cangaceiros pelo interior da Paraíba teria tão somente o ensejo de arrecadar numerário para este chefe bandoleiro sair do sertão e só voltar em 1971, já idoso.
Lampião e seu irmão Antônio em Juazeiro, Ceará
Vinte e dois dias depois de receber a notícia que a passagem de comando está próxima, Lampião efetivamente já é chefe de grupo. Neste momento começa a imprimir sua horrenda marca pelo Nordeste e vai se tornar o maior cangaceiro do Brasil.
Mas esta é outra história….
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LES HOMMES RÉSOLUS DU SERTÃO AVAIENT TROUVE LE LIEU DE LEUR COMBAT : CE VILLAGE DEMASURES A L’ASPECT D’UNE CITADELLE. L’ÉTAT SE TROUVAIT CONFRONTE A L’HOSTILITE SOURDE ET TENACE DE TOUS CEUX QUI SAVAIENT FORT BIEN CE QUE LA NATION EXIGEAIT D’EUX : LA SOUMISSION ET LA RESIGNATION. ILS N’ÉTAIENT NI SOUMIS, NI RÉSIGNÉS. ILS NE SE LAISSERAIENT PAS VAINCRE.
Aujourd’hui, dans le sertao, restent quelques groupes éphémères rassemblés autour des beatos, vite dispersés par la police ; quelques bandits isolés, de simples brigands, qui se consacrent surtout au vol. Par contre, les hommes de main aux ordres du capanga ont continué à proliférer ; ils sont au service du fazendeiro qui entend bien interdire toute velléité de révolte chez ses journaliers, la plupart du temps par l’assassinat pur et simple. Cette milice privée est soutenue dans sa tâche de maintenir l’ordre par une police et une armée dont les moyens actuels, hélicoptères, napalm, mitraillettes, radio, troupes spéciales, rendent impossible toute espèce de mouvement social. La sécurité de l’État est désormais assurée dans cette vaste région aride au nord-est du Brésil qui fut, un temps, le lieu où se sont développés des mouvements messianiques de grande ampleur conjointement à l’épopée des cangaceiros.
Pourtant, là-bas, dans le Nordeste, il y a des gens qui se souviennent encore des cangaceiros, d’Antonio Silvino, de Sinhô, de Lampião, de Corisco, qui en rêvent comme à des paladins d’un monde perdu ; des gens qui gardent une sorte de nostalgie du temps de conselheiro, comme d’une ère de bonheur, d’abondance et de liberté qui s’incorpore aux temps légendaires de l’Empire de Charlemagne et d’autres royaumes enchantés ; qui colportent la légende du père Cicero, celui-ci devant revenir en apportant l’âge du bonheur parfait ; ou, plus au Sud, dans la zona serrana, celle du moine « endormi » Joâo Maria qui est parti se réfugier en haut de la montagne enchantée du Tayô :
«De temps en temps, de nouveaux émissaires du Moine João Maria viennent annoncer son retour ; la dernière tentative date de 1954. Mais les autorités veillent et réussissent toujours à disperser les petits rassemblements de fidèles. Le souvenir du Moine João Maria ne semble pas près de s’éteindre cependant, et les endroits où il séjourna sont vénérés par ses adeptes.1 »La loi règne désormais dans le sertao, il n’en fut pas toujours ainsi. Que les fidèles abandonnent tous leurs biens, tout ce qui les salirait de la plus légère trace de vanité. Les fortunes étant à la merci d’une catastrophe imminente, ce serait une témérité inutile de les conserver. »
Vers 1870, la popularité d’Antonio Conselheiro, autrement dit le «Conseiller », grandit peu à peu dans les bourgs et les villages de l’intérieur, dans la province de Bahia.
Antônio Conselheiro dépeint par la presse à l’époque de la Guerre de Canudos
Son vrai nom, Antonio Vicente Mendes Maciel ; il était originaire de l’état de Ceará où une sombre et sanglante rivalité opposait sa famille à celle des Araujo, les plus puissants propriétaires de la région.
Il passait, annonçant la fin du monde, une catastrophe cosmique suivie du jugement dernier. Il était l’envoyé de Dieu et promettait aux fidèles le salut et les délices d’une Ville Sainte où régneraient la paix et la fraternité. C’était le Christ qui avait prophétisé sa venue quand : «la neuvième heure, alors qu’il se reposait sur le mont des Oliviers, un de ses apôtres demandant : Seigneur ! pour la fin de cet âge, quels signes nous laissez-nous ?
Il répondit : Beaucoup de signes dans la Lune, dans le Soleil et dans les Étoiles. On verra apparaître un Ange envoyé par mon tendre père, prêchant devant les portes, peuplant les déserts, faisant des églises et des petites chapelles, donnant des conseils. »
Le sertão, aux montagnes aux lames de schistes étincelants de mica, aux immenses étendues couvertes de caatinga : «elle s’étend sur des lieues et des lieues, immuable : arbres sans feuilles aux branches tordues, desséchées, qui s’entortillent et s’enchevêtrent, pointant toutes droites vers l’espace ou s’étirant sinueuses sur le sol, comme l’immense gesticulation d’une flore à l’agonie2 », aux plaines où la nature se complaît au jeu des antithèses les plus abruptes, elles sont affreusement stériles, elles sont merveilleusement florissantes, venait de trouver son prophète.
Représentation publiés dans les journaux dans le sud du Brésil, montrant Antônio Conselheiro et sa lutte contre le Brésilien République
Maigre, austère, ascétique, habillé de bure, chaussé de sandales, il allait de hameaux en hameaux, distribuant aux pauvres tout ce qu’on lui donnait ; c’était un beato. Il fut bientôt appelé « Saint Antoine » ou «Bon Jésus » ; la rumeur lui attribuait des miracles : il avait sauvé une fillette mordue par un serpent à sonnettes ; lesmuletiers colportaient la nouvelle. Peu à peu, son prestige grandissait. Quand il arrivait, on se précipitait vers lui pour lui demander des conseils. Des fidèles l’accompagnèrent dans ses pérégrinations. Demois enmois, le groupe s’amplifiait.
Avec ses adeptes, il réparait les églises, édifiait des chapelles ; partout où il passait, il prêchait avec force contre les abus, les exactions, les injustices qui infestaient la région déchirée par les luttes politiques qui se transformaient en vendetta, en querelles sourdes et sanglantes.
L’influence du Conselheiro devenait formidable, il parlait dans ses harangues un langage apocalyptique émaillé de citations latines, un langage sibyllin, inspiré, qui donnait l’impression que son message venait de l’au-delà : «Le Jugement Dernier inflexible s’approchait ».
Le prophète prédisait des choses étranges pour les années à venir, toutes annonçaient un bouleversement cosmique imminent : «En 1896, on verra des troupeaux, mille, courir de la plage au sertao, alors le sertão se changera en plage et la plage en sertão.
Image actuelle de la région intérieure de l’Etat de Bahia. Un paysage presque égale à l’époque de la Guerre de Canudos – Source – http://jonildogloria.blogspot.com.br
En 1897, il y aura beaucoup à paître et peu à naître, et un seul pasteur et un seul troupeau.
En 1898, il y aura beaucoup de chapeaux et peu de têtes.
En 1899, les eaux deviendront du sang et l’on verra la planète apparaître à l’orient, là où se trouve le rayon du soleil ; il rencontrera la Terre et la Terre se rencontrera avec lui, sur un point quelconque du ciel. Il pleuvra une grande pluie d’étoiles et ce sera la fin du monde.
En 1900, s’éteindront les lumières, Dieu a dit dans son évangile : J’ai un troupeau qui se promène hors de cet enclos et qu’il faut ramener, parce qu’il y a un seul pasteur et un seul troupeau. »3
Seuls ceux qui l’aidaient et le suivaient allaient être sauvés. Il répondait ainsi aux aspirations profondes des pauvres d’échapper à la fatalité sournoise, à une existence précaire ou servile, à l’écrasement et au désespoir. Sa détermination, sa fougue, ses colères, ses exhortations énergiques, les avaient séduits comme elles avaient séduit les rebelles, les quilombolas, les esclaves noirs insurgés et en fuite, les indiens insoumis, tous ceux, métis ou blancs, recherchés par la police des petites villes.
Saint Sébastien avait tiré son épée et, quand Conselheiro fonda sa première communauté messianique en 1873, près de Itapicurû, dans la province de Bahia, celle-ci rappelait par bien des côtés les bandes du cangaço.
«Comme il y a eu mésentente entre le groupe d’Antonio Conselheiro et le curé d’Inhambupe, ce village se trouve en état de siège et il paraît qu’on attend la venue du vicaire au lieu dit Junco pour l’assassiner. Les passants sont apeurés devant des bandits armés de gourdins, de couteaux, de coutelas et de carabines ; malheur à celui qui est soupçonné d’être l’adversaire du saint homme. » dit un rapport de police de l’époque.L’archevêque, lui-même, en appela au président de la province de Bahia demandant du renfort pour contenir «l’individu Antonio Vicente Mendes Maciel qui, prêchant des doctrines subversives, fait beaucoup demal à la religion et à l’État et, entraînant le peuple derrière lui, l’empêche de remplir ses obligations… » Pourtant, comme l’écrit l’universitaire soumis Euclydes da Cunha avec une certaine objectivité, mais dans le jargon injurieux de ses maîtres, «s’il entraînait le peuple sertanejo, ce n’est pas parce qu’il le dominait, mais bien parce que les aberrations (sic !) de ce peuple le dominait, lui. »
Il annonçait, certes, le règne du Christ sur la terre pour mille ans après la fin du monde mais, autour de lui, sous son impulsion, les jagunços, les rebelles, les insurgés, s’organisaient, occupaient des terres, répartissaient le travail et les biens, recevaient des dons, qui pouvaient être un peu forcés parfois. L’ordre constitué ne pouvait rester plus longtemps indifférent à l’extension d’une communauté qui faisait si bon marché de l’idée de propriété, qui ignorait avec tant de superbe le fondement de l’autorité, de la religion et de l’État comme dit l’apostolique archevêque. Aussi l’avènement de la République, cette démocratie des possédants, en 1889, allait-il précipiter le conflit et ouvrir au grand jour les hostilités. La république était prise par les millénaristes exactement pour ce qu’elle signifiait : plus d’État. Elle était le péché mortel, le pouvoir de l’égoïsme, de la cupidité, l’hérésie suprême indiquant le triomphe éphémère de l’antéchrist.
«Ce sont des êtres malheureux
Ne sachant pas faire le bien
Ils abattent la loi de Dieu.
Ils représentent la loi du chien.
Garantis par la loi
Vous l’êtes, gens de rien
Nous avons la loi de Dieu
Vous avez la loi du chien. »4
Conselheiro prêcha l’insurrection contre la République et commença à mettre le feu aux décrets gouvernementaux affichés dans les villages : «En vérité, je vous le dis, pendant que les nations se querellent avec les nations, le Brésil avec le Brésil, l’Angleterre avec l’Angleterre, la Prusse avec la Prusse, D. Sebastião émergera des ondes de la mer avec toute son armée. Depuis le commencement du monde, il subit un enchantement avec toute son armée et il l’a remise en guerre.5
Et quand il fut enchanté il enfonça son épée jusqu’à la garde dans la pierre et il dit : “ Adieu monde, tu arriveras peut-être jusqu’à mille et quelque, mais pas jusqu’à deux mille”. Ce jour-là, quand il sortira avec son armée, il les passera tous au fil de l’épée, tous ceux qui ont un rôle dans la République. La fin de la guerre aura lieu dans la Maison Sainte de Rome et le sang montera jusqu’à la Haute Assemblée. »
Euclydes da Cunha
Comme le constate, avec la suffisance du valet, l’universitaire Euclydes da Cunha, «le jagunço est aussi inapte à comprendre la forme républicaine que la forme constitutionnelle de la monarchie. Toutes deux sont pour lui des abstractions inaccessibles. Et instinctivement il est l’adversaire de l’une et de l’autre… Il est impossible de prêter une signification politique quelconque aux tendances messianiques qui y sont exposées… le révolté attaquait l’ordre établi parce qu’il croyait imminente la venue du règne des délices. »
L’ordre établi par les monarchistes ou par les républicains n’a jamais abouti, jusqu’à présent, au règne des délices chez les pauvres, loin s’en faut. Nous assisterions d’ailleurs plutôt, avec la République, à une aggravation très nette du sort réservé à ceux qui n’ont rien. C’est cela que combattent Conselheiro et ses partisans, la mise en place progressive d’un ordre nouveau.
Ils ne se révoltent pas au nom d’un ordre ancien, mais pour l’idée qu’ils se font d’une société humaine. Ils n’ont pas le regard tourné vers le passé, mais vers le futur, ils sont porteurs d’un projet social. En s’insurgeant contre l’ordre établi, ou quis’établit, ils s’insurgent contre l’esprit d’un monde, celui qui a créé la propriété privée, le travail forcé, le salariat, la police, l’argent ; ils s’insurgent contre une pratique sociale et son esprit.
L’avenir n’est pas pour eux un retour au passé mais un coup du monde, un bouleversement de fond en comble de la société, une révolution où ce qui était au commencement, l’humanité, reviendra à la fin comme humanité accomplie.
L’autonomie des communes ayant été décrétée, les Conseils des localités de l’intérieur de Bahia avaient affiché sur les tableaux, planches traditionnelles qui remplaçaient la presse, les édits destinés au recouvrement des impôts.
Un combattant typique qui se sont battus au nom de Antônio Conselheiro
Quand cette nouvelle fut connue, Conselheiro se trouvait à Bom Conselho ; les impôts l’irritèrent et il prépara aussitôt une protestation. Le jour du marché il réunit le peuple et, au milieu des cris séditieux et du crépitement des pétards, il fît brûler les planches sur la place. Après cet autodafé que les autorités ne purent empêcher, il éleva la voix et, toujours de bon conseil, il prêcha ouvertement la rébellion contre les lois.
Conscient du danger qui le menaçait lui et les siens, il quitta la ville et se dirigea vers le Nord par la route de Monte-Santo. Vers une zone écartée, abandonnée, entourée de montagnes abruptes et de caatinga infranchissable, refuge éphémère de bandits.
L’événement avait eu une répercussion dans la capitale d’où une force de police partit pour prendre les rebelles dont le groupe n’excédait pas alors 200 hommes.
La troupe les trouva à Massète, lieu découvert et stérile entre Tucano et Cumbe. Les trente policiers, bien armés, les attaquèrent impétueusement, certains qu’à la première décharge ils seraient victorieux.Mais ils avaient devant eux des jagunços téméraires ; ils furent battus et durent prendre précipitamment la fuite ; le commandant fut le premier à en donner l’exemple.
Après avoir accompli cet exploit, les millénaristes, reprenant leur marche, accompagnèrent l’hégire du prophète. Ils ne recherchaient plus les endroits peuplés comme avant ; ils allaient vers le désert. Traversant des chaînes de montagnes, des plateaux dénudés, des plaines stériles, ils arrivèrent à Canudos.
C’était une ancienne fazenda, un domaine situé sur le fleuve temporaire Vasa-Barris. En 1890, étant abandonné, il servait de halte et comprenait une cinquantaine de masures faites de pisé. En 1893, quand l’apôtre y vint, Canudos était en pleine décadence : partout des hangars abandonnés, des cabanes vides ; et, sur le haut d’un contrefort du mont de la Favella, on voyait, sans toit, réduite aux murs extérieurs en ruines, l’ancienne demeure du propriétaire.
Dessin représentant le Canudos village à l’époque de la guerre
La communauté occupa les terres incultes qu’elle fit fructifier rapidement. Le village se développa à un rythme accéléré, les adeptes provenant des endroits les plus divers venaient s’y installer. C’était aux yeux des habitants un lieu sacré, entouré de montagnes, où l’action maudite du gouvernement ne pénétrait pas. Canudos allait connaître un accroissement vertigineux. Voici ce que nous dit un témoin : «Quelques-unes des localités de cette commune et des communes avoisinantes, jusqu’à l’État de Sergipe n’ont plus d’habitants tellement est grand le nombre de familles qui rejoignent l’endroit choisi par Antonio Conselheiro. Cela fait peine à voir sur les marchés cette grande quantité de bétail, chevaux, boeufs, chèvres, sans parler de terrains, des maisons, des objets, mis en vente pour une bagatelle.
Ce à quoi l’on aspire, c’est d’obtenir de l’argent pour aller le partager avec le Saint apôtre. » Le hameau couvrit entièrement les collines, l’absence des rues, des places, à part celle de l’église, le grand entassement des masures, en faisaient une demeure unique. Le village était invisible à une certaine distance, encerclé par une sinuosité du Vasa-Barris, il se confondait avec le sol lui-même. Vu de près, il y avait un terrible dédale de passages étroits séparant mal le mélange chaotique des masures au toit d’argile. Les habitations faites de pisé se composaient de trois compartiments minuscules : un vestibule exigu, une pièce qui servait de cuisine et de salle à manger et une alcôve latérale dissimulée par une porte étroite et basse. Quelques meubles : un banc, deux ou trois petits escabeaux, des caisses de cèdres, des hamacs; quelques accessoires : le bogo ou borracha, seau en cuir pour le transport de l’eau, yaiô, carnassière en fibre de carûa (petit palmier). Au fond de la pièce principale un oratoire rustique.
Des armes enfin, d’un modèle ancien : le coutelas jacaré à la lame robuste et large, la parnahyba des guetteurs longue comme une épée, l’aiguillon à la pointe de fer, de trois mètres, le gourdin creux qu’on remplit de plomb, les arcs, les fusils : la canardière au canon effilé que l’on charge de grenaille, le mousqueton nourri de gros plomb, la lourde arquebuse capable de lancer des pierres ou des cornes, le tromblon évasé comme une cloche.
Arme commune des avocats de Canudos, les tromblon, actuellement utilisés pour les représentations culturelles – Source – http://pombalgincana.blogspot.com.br
C’est tout, les habitants de Canudos n’avaient nul besoin d’autre chose. «Les jagunços errants y installaient leurs tentes une ultime fois sur la route d’un pèlerinage miraculeux vers le ciel. » Mais chacune de ces cabanes était en même temps un foyer et un réduit fortifié. Canudos allait être laMunster du sertao et ses habitants «des Baptistes terribles capables de charger des tromblons homicides avec les grains des rosaires. » Canudos ouvrait généreusement aux démunis ses celliers remplis par les dons et par le produit du travail commun. L’activité sociale n’y était pas dirigée, elle s’organisait. Seul l’eau de vie y avait été prohibée et ceci d’un commun consentement. Les uns s’occupaient de la culture ou bien soignaient les troupeaux de chèvres pendant que d’autres surveillaient les alentours ; des groupes se formaient pour aller au loin mener quelques expéditions.
Mais toute cette activité semblait converger vers la construction d’une nouvelle église, y puiser son sens ; c’était l’oeuvre commune autour de laquelle s’organisaient les initiatives. Cette société campée dans le désert s’était donnée une mission sacrée dans laquelle elle se saisissait comme communauté ; cette société était religieuse dans son essence, en élevant pierre par pierre son église, elle donnait corps à son esprit.
La nouvelle église s’élevait à l’extrémité de la place en face de l’ancienne. Ses murs principaux et épais rappelaient les murailles des fortifications ; cette masse rectangulaire allait être transfigurée par deux tours très hautes, ayant l’audace d’un gothique fruste. «L’admirable cathédrale des jagunços avait l’éloquence silencieuse des édifices dont nous parle Bossuet. »
De grandes quantités de bétail arrivaient de Geremoabo, de Bom Conselho et de Simão Dias ; de Canudos partaient des bandes qui allaient attaquer les domaines des environs et, parfois, conquéraient des villes. À Bom Conselho, l’une d’elle, après avoir pris possession du lieu, le mit en état de siège, dispersa les autorités, en commençant par le juge de Paix. Ces expéditions d’hommes belliqueux alarmèrent les pouvoirs constitués.
La ville sainte fut dénoncée au gouvernement provincial puis au gouvernement fédéral. L’exemple qu’elle constituait présentait une menace grave pour l’État, d’autant que sa notoriété allait grandissant. Cette expérience risquait de s’étendre. Il devenait urgent de rayer à jamais cette ville de la carte, de la faire disparaître par le feu et le sang, de l’extirper. Quatre expéditions militaires de plus en plus importantes furent engagées contre Canudos entre 1896 et 1897.
«Les cangaceiros et les jagunços dans leurs expéditions, les premiers vers le Sud, les seconds vers le Nord, se rencontraient sans s’unir, séparés par le val en pente de Paulo Affonso. L’insurrection de la commune de Monte-Santoallait les réunir.6
La guerre de Canudos naquit de la convergence spontanée de toutes les forces déréglées perdues dans les sertoes. » Des bandits fameux vont se révéler de terribles stratèges. Les habitants de Canudos vont faire vaciller des armées. Octobre 1896, le premier magistrat de Joazeiro télégraphie au gouverneur de Bahia : il sollicite son intervention dans le but de prendre des mesures pour protéger la population, disait-on, d’une attaque de la part des jagunços d’Antonio Conselheiro.
La ville de Uauâ dans les années 1950, avec une vue de la Place Saint-Jean-Baptiste
Le 4 novembre, le gouverneur envoie une force armée composée de 100 soldats et d’un médecin, sous le commandement du lieutenant Manuel da Silva Pires Ferreira. Le 19, elle arrive à Uaûa, petit village sur le rio Vasa-Barris entre Joazeiro et Canudos. Le 21, elle est brutalement attaquée à l’aube par les jagunços ; ceux-ci se battent pratiquement à l’arme blanche contre des soldats armés de fusils modernes à répétition. Ils perdent 150 hommes, la troupe a 10 morts et 16 blessés. Le médecin devient fou. La retraite sur Joazeiro est ordonnée.
Le 25 novembre, une force armée (543 soldats, 14 officiers, 3 médecins), avec deux canons Krupp et deux mitrailleuses, part de Bahia pour Queimadas. Elle est sous les ordres du commandant Frebônio de Brito. Elle arrive à Monte-Santo le 29 décembre. Le 12 janvier 1897, elle part pour Canudos en empruntant la route du Cambaio ; le 18 et 19, dans la traversée de la serra et en vue de Canudos, ont lieu les premiers combats, tromblons contre comblains (fusils à répétition) et mitrailleuses ; les jagunços attaquent soudainement, disparaissent pour ressurgir plus loin ; ils laissent beaucoup de morts sur le terrain mais infligent une dure et surprenante défaite à l’armée qui doit battre précipitamment en retraite sur Monte-Santo. En apprenant l’étendue du désastre dans la traversée du Cambaio, le gouvernement comprit la gravité de la guerre aux sertões, d’autant qu’à la suite de cet exploit la notoriété de Canudos s’étendait dans tout le sertão.
Le colonel Antônio Moreira César
Le 3 février 1897, le colonel Moreira César, de renommée nationale, commande la première expédition régulière qui embarque à Rio pour Bahia. Le 8, l’expédition arrive à Queimadas avec 1300 hommes et tout l’équipement nécessaire. De Monte-Santo, elle contourne la montagne par l’Est pour arriver à Angico et au sommet de la Favella l’après-midi du 2 mars.
Sûr de son fait, Moreira César lance l’assaut contre le village après un bombardement sommaire ; c’est la catastrophe pour lui et ses hommes ; le village, comme un piège, comme une immense toile d’araignée, comme une nasse, se referme sur l’armée; chaque ruelle, chaque impasse, chaque détour, chaque maison, cachent des hommes déterminés, armés de coutelas, de piques, de tromblons ; l’armée s’enferre dans un corps à corps tragique ; c’est un désastre qui tourne bientôt à la panique. Le fameux colonel Moreira César est mortellement blessé, le colonel Tamarindo qui le remplace est tué. «Dans les environs, de tous les côtés, les sertanejos trouvèrent des armes et des munitions, même des uniformes, tuniques et culottes à bandes rouges dont la couleur vive aurait trahi leurs possesseurs et qui étaient incompatibles avec la fuite ; de sorte que la plupart des soldats ne s’étaient pas seulement désarmés devant l’ennemi, ils s’étaient aussi déshabillés. C’est pourquoi, dans la région qui va de Rosario à Canudos, il y avait à l’air libre un arsenal en désordre, où les jagunços purent largement se ravitailler. L’expédition semblait n’avoir eu qu’un seul objectif : remettre gratuitement aux adversaires tout un armement moderne avec ses munitions.
Fusil utilisé par l’armée brésilienne dans la guerre, le modèle M1873 Comblain – Source – http://www.militaryrifles.com
Les Comblains terribles remplacèrent dans les mains des lutteurs de première ligne les vieux fusils au chargement minutieux et lent ; quant aux uniformes, ceinturons et bonnets, c’est-à-dire tout ce qui avait touché les corps maudits des soldats, ils ne pouvaient les porter, leur épiderme de combattants sacrés en aurait été souillé ; ils s’en servirent pour un divertissement cruellement lugubre… Ils réunirent les cadavres épars des adversaires, les décapitèrent et brûlèrent les corps. Puis, sur les deux côté de la route, régulièrement espacées, se faisant vis-à-vis, se regardant, ils alignèrent les têtes. Au-dessus, en bordure, sur les arbustes les plus hauts, ils pendirent les pièces d’équipement, pantalons et tuniques multicolores, selles, ceinturons, képis aux raies rouges, manteaux, capes, gourdes et musettes.
La caatinga desséchée et nue fut brusquement couverte d’une floraison extravagante aux couleurs vives, allant du rouge violent des galons au bleu déteint des étoffes et se joignant au scintillement de l’acier des éperons et des étriers. Un détail douloureux complétait cette mise en scène macabre.
Au détour d’un chemin se détachait le corps du colonel Tamarindo, empalé, dressé sur un rameau sec d’angico. C’était stupéfiant. Épouvantail lugubre, le cadavre informe, bras et jambes pendantes, oscillant au gré du vent, sur la branche flexible et courbée, apparaissait dans la solitude comme une vision démoniaque.
Il séjourna là très longtemps.
Quand trois mois plus tard une nouvelle expédition partit pour Canudos, elle vit encore cette mise en scène, ces têtes de morts blanchissantes sur les bords des chemins entourées de vieux oripeaux, et à côté, protagoniste muet d’un drame formidable, le spectre du vieux commandant. » Alors que dans le sertao l’épopée de Canudos est chantée dans des poèmes où les exploits deviennent des légendes, dans la capitale le gouvernement ne comprend plus : Canudos était une misérable bourgade que les cartes ignoraient et voilà qu’elle tient tête et met en échec des régiments. L’État invente des complots politiques mais il commence à s’inquiéter sérieusement.
Cadre qui utilise la technique de la peinture typique du nord-est du Brésil, connue sous le nom “Xilogravura” qui met en scène la Guerre de Canudos
Il redoute ce sertão mal connu d’où surgissent des hommes armés de leur vengeance qui, de toutes les provinces, convergent vers Canudos, pour en découdre. L’universitaire Euclydes da Cunha écrit à ce sujet : «Le jagunço ne pouvait faire que ce qu’il a fait, battre, battre tenacement le principe d’une nationalité qui, après l’avoir rejeté pendant près de trois siècles, prétendait l’emmener vers les merveilles de notre époque, encadré par des baïonnettes et luimontrer la beauté de la civilisation à la lueur des explosions d’obus. » Les hommes résolus du sertao avaient trouvé le lieu de leur combat : ce village de masures à l’aspect d’une citadelle. L’État se trouvait confronté à l’hostilité sourde et tenace de tous ceux qui savaient fort bien ce que la nation exigeait d’eux : la soumission et la résignation. Ils n’étaient ni soumis, ni résignés. Ils ne se laisseraient pas vaincre.
C’est dans la guerre sociale que le principe de la guerre, qui veut l’anéantissement définitif de l’adversaire, connaît son application la plus complète, sa conclusion, si l’on peut dire. L’enjeu des guerres entre nations est complexe, il est essentiellement politique, comme l’est, d’ailleurs, celui des guerres de libération nationale ; cet enjeu n’exige pas nécessairement l’anéantissement de l’ennemi, au contraire sa fin est d’imposer une volonté politique à son adversaire et donc de se donner les conditions, par les moyens de la guerre, de traiter avec lui. Ici la guerre est la continuation de la politique par d’autres moyens, comme le note Carl von Clausewitz ; là elle exige l’écrasement complet et définitif de l’ennemi ; l’enjeu est social : suppression ou maintien de l’esclavage, et il n’est pas possible de faire les choses à moitié.
Soldats de l’armée brésilienne pendant la guerre
Pour l’insurgé, il s’agit de mettre fin à son esclavage et il n’y a aucun compromis possible sur une question aussi essentielle. Pour le maître, il s’agit de sauvegarder sa position sociale, sa qualité de maître, son état. Aucune considération extérieure à la guerre elle-même ne vient donc freiner et modérer sa violence, c’est la guerre à l’état pur, originelle ; celle qui fut au commencement, la négativité pure.
Dans une affaire aussi dangereuse que la guerre sociale, les erreurs dues aux hésitations, aux atermoiements, à la bonté d’âme, sont précisément la pire des choses. Toutes considérations extérieures à la finalité même de la guerre, la déroute totale de l’ennemi, sont la pire des choses. Comme l’usage de la force physique dans son intégralité n’exclut nullement la coopération de l’intelligence, celui qui use sans pitié de cette force et ne recule devant aucune effusion de sang, aucune restriction morale, prendra l’avantage sur son ennemi, si celui-ci n’agit pas de même.
La violence, c’est-à-dire la violence physique (car il n’existe pas de violence morale, en dehors des concepts de l’État et de la Loi, et cette violence est celle du vainqueur qui impose sa volonté) est donc le moyen est d’abattre l’adversaire.
Soldats de l’armée brésilienne du 38e bataillon d’infanterie pendant la Guerre de Canudos
La guerre sociale est la brutalité absolue qui ne tolère aucune faiblesse. Ignorer cet élément de brutalité à cause de la répugnance qu’il inspire est un gaspillage de force, pour ne pas dire une erreur ; montrer à un moment donné de l’irrésolution quant à la fin recherchée, c’est laisser l’initiative à l’ennemi, une faute qui se paie très cher.
Il ne peut y avoir de négociations, la paix est soit le retour à l’esclavage, soit la fin de l’esclavage ; quoiqu’il en soit, l’anéantissement d’un des partis.
Le 5 avril 1897, le général Arthur Oscar organise les forces de la quatrième expédition : 6 brigades en 2 colonnes. Des bataillons sont levés dans tout le pays, c’est l’union nationale, l’union sacrée, contre l’ennemi intérieur.
L’artillerie de l’armée de terre brésilienne pendant la Guerre de Canudos
La première et la deuxième colonne doivent converger sur Canudos, l’une commandée par Arthur Oscar, par la route de Monte-Santo, l’autre sous les ordres de Savaget, par la route de Geremoabo, pour attaquer toutes deux ensemble fin juin. Mais aux abords de Canudos, elles rencontrent, l’une et l’autre, des difficultés. La colonne Savaget est attaquée deux fois entre Cocorobô et Canudos, les pertes sont sévères et le général est blessé : «Comme toujours les sertanejos en surgissant à l’improviste parmi le désordre, sur le lieu d’un combat qu’ils avaient perdu, troublaient le succès. Battus, ils ne se laissaient pas écraser. Délogés de toutes parts ils s’accrochaient partout ; vaincus et menaçants tout à la fois, ils fuyaient et tuaient à la façon des Parthes. » Les choses étaient encore plus sérieuses pour le général Arthur Oscar qui avait atteint le sommet de la Favella qui surplombe le village ; après une rapide victoire pour la place, il se trouvait prisonnier, assiégé par ceux qu’il venait de vaincre. Il dut appeler la colonne Savaget à son secours. Le 1er juillet les jagunços attaquent le campement, certains vont s’efforcer de parvenir jusqu’à la «Tueuse », ce canon de siège (unWithworth 32), qui bombarde Canudos. Ils n’y arriveront pas.
L’armée se trouve dans une situation critique ; coupée de son ravitaillement, elle ne peut ni avancer, ni reculer : «C’était indéniablement un siège en règle, bien qu’il fût déguisé par le peu de densité des tranchées, dont le tracé lâche et compliqué couvrait la montagne… La tactique invariable des jagunços consistait à résister en reculant, en tenant ferme derrière tous les accidents protecteurs du terrain, tactique terrifiante.
Canudos en 1897
L’attaquant c’était l’homme matériellement fort et brutal, outillé par les ressources guerrières de l’industrie moderne, versant, par la bouche des canons, des tonnes d’acier sur le rebelle qui lui opposait un réseau magistral de ruses inextricables.
Les jagunços laissaient volontiers à leurs adversaires la jouissance de victoires inutiles,mais quand ceux-ci, après avoir pavé de projectiles la terre broussailleuse, déployaient leurs drapeaux et remplissaient la calme atmosphère avec la sonnerie de leurs clairons, ils se vengeaient des hymnes de triomphe en envoyant avec leurs tromblons une bruyante pluie de balles. » Deux semaines plus tard le ravitaillement finit par arriver et les troupes sont lancées à l’assaut du village ; c’est un échec et les pertes sont importantes. Dans l’armée, au gouvernement, c’est la consternation.
En hâte on forme à Queimadas une nouvelle brigade, la brigade Girard, 1042 hommes et 68 officiers, elle part le 3 août pour renforcer en soldats et en vivres l’armée d’Arthur Oscar. Elle est attaquée le 15 et perd 91 boeufs, ce qui lui vaudra, par dérision, le nom de brigade gracieuse. Dans le gouvernement on a compris qu’il ne s’agit plus de prendre d’assaut un village, mais d’organiser une véritable campagne militaire de plusieurs semaines sinon de plusieurs mois afin de l’encercler complètement ; on a compris que la guerre sera longue et difficile et qu’il s’agit de s’en donner les moyens. Le maréchal Bittencourt se met à la tête de cette campagne.
Deux brigades supplémentaires arrivent de Bahia et forment une division ; un service régulier de convois vers Monte-Santo est organisé ; l’armée ne risque plus de se trouver coupée de ses arrières et peut donc s’installer dans une guerre de retranchements.
Le long étranglement de Canudos est commencé.
Le 7 septembre on ouvre la route de Calumby qui permettra de consolider le siège. Le 22, meurt Antonio Conselheiro. Les combats reprennent de plus belle aux abords de Canudos. Les habitants retrouvent l’initiative ; dans unmouvement tournant et étourdissant, les escarmouches atteignent toutes les positions de l’ennemi, touchent, tranchée par tranchée, toute la ligne du front.
Le corps d’Antônio Conselheiro retiré de son tombeau par les militaires pour se faire photographier
«Tout à coup, ils surgissaient inopinément sur un point quelconque du front. On les battait, on les repoussait ; ils se jetaient alors sur les tranchées les plus proches ; on recommençait à les battre et à les repousser, ils revenaient contre les suivantes et continuaient ainsi sans succès, leurs assauts ininterrompus qui formaient devant les troupes comme une ronde immense.
Ceux des soldats qui, la veille, dédaignaient un adversaire caché dans les masures, étaient stupéfiés. Comme dans les mauvais jours passés, mais avec plus d’intensité encore, cette stupéfaction les jugulait.
Les défis imprudents cessèrent. Finies les fanfaronnades visant à provoquer l’ennemi. Les clairons reçurent à nouveau l’ordre de faire silence ; il n’y avait qu’une sonnerie possible, l’alarme, et celle-là, l’ennemi, éloquemment, se chargeait de la donner… La situation devint tout à coup insupportable…
Femmes, enfants et vieillards capturés par l’armée brésilienne
La lutte arrivait fébrilement aux combats décisifs qui allaient amener la conclusion de la campagne. Mais son paroxysme stupéfiant terrorisait les vainqueurs. » Les troupes tentent de resserrer l’encerclement en pénétrant pas à pas à l’intérieur de la bourgade mais ils se heurtent à une résistance farouche qui limite leur avancée. De plus les jagunços reculent mais ne fuient pas. Ils restent à côté, à deux pas, dans la pièce contiguë de la même maison, séparés de leur ennemi par quelques centimètres de pisé. Le peu d’espace du lieu a amassé dans les maisons ceux qui veulent les conserver et qui, les remplissant, opposent aux soldats une résistance croissante.
S’ils cèdent sur l’un ou l’autre point, ils réservent aux vainqueurs bien des surprises. La ruse du sertanejo se fait toujours sentir ;même dans lesmoments les plus tragiques pour lui, il ne l’avouera jamais vaincu. Loin de se contenter de résister jusqu’à la mort, il défie l’ennemi et passe à l’offensive.
Le 26, pendant la nuit, les jagunços attaquent violemment quatre fois ; le 27, dix-huit fois ; le lendemain ils ne répondent pas au bombardement du matin et de l’après-midi, mais leur fusillade dure depuis 6 heures du soir jusqu’à 5 heures du matin.
Commandants militaires brésiliens
Le premier octobre 1897, le bombardement intensif du dernier carré de résistance commença. Il fallait un sol franchement nettoyé pour l’assaut ; cet assaut devait s’exécuter d’un seul coup, au pas de charge, avec une seule gêne, les ruines. Aucun projectile n’était perdu, retournant inflexiblement d’un bout à l’autre, maison par maison, le dernier morceau de Canudos. Tout fut entièrement dévasté par les tirs des batteries. Les derniers j a g u n ç o s subissaient dans toute sa violence destructrice ce bombardement impitoyable.
Cependant on ne remarqua aucune silhouette en fuite, pas la moindre agitation.
Et quand le dernier coup fut tiré, l’inexplicable quiétude du village anéanti aurait fait supposer qu’il était désert, comme si durant la nuit la population avait fui miraculeusement.
L’assaut commença ; les bataillons partirent de trois points pour converger vers l’église nouvelle. Ils n’allèrent pas loin : le jagunço suivant pas à pas l’agresseur, se réveillait comme toujours à l’improviste d’une façon surprenante et glorieuse.
L’un des défenseurs de la ville de Canudos, capturé par des soldats de l’armée brésilienne
Tous les mouvements tactiques préétablis s’en trouvèrent modifiés, au lieu de converger sur l’église, les brigades s’arrêtaient, sa fractionnaient et se perdaient dans les ruines. Les sertanejos restèrent invisibles ; pas un seul n’apparut et ne chercha à traverser la place. Cet insuccès ressemblait absolument à une défaite, car les assaillants s’arrêtèrent, trouvant devant eux une résistance sur laquelle ils ne comptaient pas ; ils s’abritèrent dans les tranchées et finalement s’en tinrent à la franche défensive ; alors les jagunços, débordant des masures fumantes, attaquèrent à leur tour et tombèrent sur eux. Il fallait d’urgence agrandir le plan primitif de l’attaque ; on lança alors sur ce qui restait de Canudos 90 bombes de dynamite : «le tremblement produisait des fissures qui se croisaient sur le sol comme des courbes sismiques, les murs s’abattirent, de nombreux toits volèrent en éclats ; un énorme cumulus de poussière noircissante rendit l’air irrespirable. Tout avait disparu semblait-il. En fait, c’était le complet démantèlement de ce qui restait du village sacré. » Les bataillons attendaient que le cyclone de flammes se fut calmé pour se lancer dans le dernier des derniers assauts.
Mais ils ne l’exécutèrent pas ; au contraire un soudain recul eut lieu. Des décharges sortirent, on ne sait comment, des ruines embrasées et les assaillants se mirent à couvert dans tous les coins et se retirèrent, pour la plupart derrière leurs tranchées.
Ne cherchant pas à se cacher, sautant sur les brasiers ou les chaumes encore debout, se dressaient les derniers défenseurs de Canudos. Ils se lançaient dans des assauts d’une folle témérité ; ils venaient tuer leurs ennemis dans leurs propres tranchées.
L’église du village de Canudos après la fin de la guerre
Ceux-ci se sentaient faiblir. Ils perdirent courage. L’unité de commandement et l’unité d’action disparurent ; leurs pertes furent particulièrement lourdes. Finalement, vers 2 heures de l’après-midi, les soldats se replièrent sur la défensive avec le goût de la défaite. Cependant la situation des sertanejos avait empiré, ils se trouvaient coincés dans un réduit des plus minuscules.
Mais à l’aube du 2 octobre, les « triomphateurs » fatigués virent poindre le matin sous une fusillade nourrie qui ressemblait à un défi. Dans la journée, profitant d’une trêve, 300 personnes demandèrent à se rendre ; mais au grand dépit des autorités militaires, ce n’étaient que des femmes harassées, des enfants en bas âge ou blessés, des vieillards infirmes, tous ceux qui ne pouvaient plus porter une arme. Ils furent massacrés la nuit suivante («…et de quelle façon, n’ayant que la voix humaine si faible et si fragile, commenterions-nous ce fait singulier de ne plus avoir vu, dès le matin du 3, les prisonniers valides recueillis la veille. »).
Il n’y eut pas à proprement parler de prisonniers, tous les jagunços blessés qui tombaient entre les pattes des soldats étaient achevés un peu plus tard à l’arme blanche. «Le 3 et le 4, il ne se passa rien qui méritât d’être raconté. La lutte perdait de jour en jour son caractère militaire et finit par dégénérer entièrement… On savait seulement que la résistance des jagunços ne pourrait durer que quelques heures. Les soldats, s’étant approchés du dernier réduit fortifié, avaient compris la situation des adversaires. Elle était invraisemblable : à côté de la nouvelle église vingt rebelles affamés, déchirés, effrayants à voir, se tenaient dans un fossé quadrangulaire n’ayant pas beaucoup plus d’un mètre de profondeur… Ils concentraient ce qui leur restait de vie sur la dernière contraction des doigts manoeuvrant la gâchette du fusil. Ces moribonds combattaient contre une armée et, jusque là, avec un certain avantage.
Tout au moins, ils obligèrent leurs ennemis à s’arrêter. Ceux d’entre eux qui s’approchèrent de trop près, y restèrent, augmentant le nombre de corps dans la tranchée sinistre… Fermons ce livre. Canudos ne s’est pas rendu. Exemple unique dans toute l’histoire, il résista jusqu’à épuisement complet.
Conquis, pas à pas, dans l’exacte signification du terme, il tomba le 5 à la fin de l’après-midi, quand tombèrent ses derniers défenseurs quimoururent tous ; ils n’étaient plus que quatre : un vieillard, deux adultes et un enfant, devant lesquels rugissaient rageusement cinq mille soldats…
Canudos tomba le 5. Le 6, on finit de détruire le village en abattant ses dernières maisons : 5200 soigneusement comptées7. » La loi de la République règne à nouveau sur le sertao ; ainsi prit fin l’épopée héroïque de Canudos ; une aventure pleine d’humanité qui périt dans le bruit et la fureur. Canudos, l’empire de Belo-Monte, ne fut pas vaincu, disparu avec le dernier coup de feu et a été détruit.
Ala même époque, dans la province de Ceará, se développait un vaste mouvement de réforme sociale d’inspiration religieuse sous la houlette du père Cicero. Ce mouvement connut une fin moins tragique parce que le père Cicero sut louvoyer avec autorité parmi les composantes politiques de la région dans le respect de l’État et de la propriété ; cette compromission à l’égard du pouvoir et donc des riches lui assura non seulement l’impunité mais aussi une position reconnue et respectée par tous.
Père Cícero Romão Batista
Cemouvement était plutôt d’esprit sacerdotal que d’esprit franchement messianique. C’était plutôt l’esprit du catholicisme, dans son sens politique et social, qui l’animait que celui du millénarisme qui, lui, est purement social et n’a rien à voir avec l’esprit politique. Il s’agissait de retrouver le dessein de l’Église primitive : se donner les moyens politiques d’une mission sociale. Le père Cicero dont le prestige devint exceptionnel fut le seul messie brésilien à appartenir au clergé, tous les autres étaient des laïcs amenés au service divin par vocation, mais qui n’entrèrent jamais dans les ordres. Envoyé comme curé dans le hameau de Joazeiro en 1870, il parcourut les alentours en prêchant pendant les premiers temps de son ministère. Après cette période de pauvreté toute franciscaine, il commença à animer l’activité sociale autour de Joazeiro selon l’idéal de paix où l’intérêt de tous devait prévaloir sur les intérêts particuliers sources de turbulences et de conflits. Il avait réussi à convaincre petits propriétaires et paysans à ne plus habiter sur leurs terres mais dans le village, auprès de lui : ils partaient le matin travailler sur leurs champs et revenaient le soir.
Joazeiro devint une ville où les pèlerins ne cessaient d’arriver pour demander la bénédiction du père Cicero et des conseils.
En 1889, à la proclamation de la République, le père Cicero réagit à sa manière en réalisant ses premiers miracles, ce qui conforta sa position et son prestige. L’État républicain n’osa pas déclencher les hostilités et supporta ce mouvement qui critiquait l’esprit bourgeois sans critiquer l’État. Les pèlerins devinrent de plus en plus nombreux, beaucoup s’établirent dans la ville sainte de Joazeiro où ils trouvaient protection auprès du « parrain ». L’Église s’en émut et essaya de mettre fin à des agissements qu’elle considérait comme dangereux. Elle condamna le père Cicero à ne plus dire la messe et à ne plus prêcher, mais elle ne peut le contraindre à abandonner Joazeiro ; elle eut peur qu’il ne mobilisât ses adeptes pour le défendre, ce qu’il fallait éviter à tout prix.
Le père Cicero comptait des alliés parmi les chefs politiques locaux. Son prestige, son influence, la force électorale croissante dont il disposait, l’incitèrent à confirmer son autorité politique grandissante en se faisant élire préfet municipal. En 1914, la victoire de ses adversaires rendit les rapports entre lui et le gouvernement provincial critiques. Le « parrain» exhorta alors ses adeptes à la guerre sainte contre le gouvernement provincial qui représentait l’Antéchrist, Dieu voulait qu’il fût renversé pour que le bonheur parfait et sans ombrage pût s’installer sur terre. Ces incitations à la lutte eurent pour résultat l’envoi des troupes contre la Nouvelle Jérusalem. Mais à la différence du Conselheiro, le père Cicero avait des appuis politiques importants jusque dans la capitale du Brésil ; et puis, surtout, ce soulèvement était limité à des fins politiques, il n’avait pas pour ambition de bouleverser l’ordre établi. Les adeptes du prophète, avec des complicités fédérales, triomphèrent des forces engagées contre eux et assiégèrent la capitale provinciale dont le gouverneur s’enfuit. Le père Cicero, vainqueur, devint officiellement vice-gouverneur de l’État de Ceará.
Dans un monde perturbé par les guerres continuelles que se livraient entre-elles les grandes familles et dont les pauvres faisaient immanquablement les frais, le père Cicero put instaurer une société plus paisible, et améliorer ainsi la situation dramatique des plus démunis. Il a pu le faire parce qu’il parlait au nom de l’autorité la plus élevée, l’autorité divine. Il se plaçait, ainsi, au-dessus de la mêlée, en dehors des querelles locales, seul moyen pour être écouté de tous.
Il existe actuellement un grand monument à la mémoire du Père Cicéron dans la ville de Joazeiro, dans l’État de Ceará.
Dans unmonde de plus en plus dominé par les intér êts égoïstes, la religion, seule, pouvait unir, du moins en apparence, ce qui se trouvait séparé de fait. Dans les sermons du père Cicero, on trouve des remontrances contre « petits » et « grands » parce qu’ils ne vivent pas selon les lois divines de la charité, de l’entraide, du pardon des offenses. Il put ainsi mettre fin, du moins provisoirement, à l’hostilité entre familles, gommer les dissensions, renouer des alliances, être enfin l’arbitre des querelles, le maître incontestable et incontesté de la région, le « parrain ».
Son mouvement eut une fonction consciente de réforme sociale : les adeptes faisaient au messie des dons volontaires qui servaient à former une caisse commune pour subvenir aux besoins des invalides, des veuves, des orphelins, pour acheter des terres, pour financer des entreprises (Joazeiro, simple hameau en 1870, allait devenir, sous l’impulsion du prophète, la deuxième ville de la province avec 70 000 habitants) ; mais il eut aussi une fonction de sauvegarde du système existant ; l’idéal de fraternité et d’égalité fut strictement compris comme fraternité et égalité dans la foi et devant Dieu. Les cangaceiros se reconnaissaient autour d’une idée simple, la vengeance, dont la réalisation leur appartenait. Ils formaient une communauté guerrière dont le projet social (la vengeance est bien évidemment un projet social) était absolument négatif et, la plupart du temps, tout à fait personnel : chacun avait sa vengeance à satisfaire ; elle lui était propre et elle concernait une personne, ou plus généralement une famille, précise. Cette vengeance, il comptait lamener à bien s’il ne l’avait pas déjà assouvie.
Cangaceiro
Tout l’ordre établi s’opposait à cette vengeance, en la réalisant, le cangaceiro défiait la société toute entière.
Le cangaceiro ne critiquait pas la société dans laquelle il vivait mais il se vengeait et cela faisait de lui un rebelle. Le millénariste ne cherchait pas à se venger, ou, plus exactement, l’heure de la vengeance ne lui appartenait pas, elle devait venir de Dieu ou d’un être surnaturel comme le roi D. Sebastião, mais il critiquait la société. Ils devaient donc presque nécessairement se rencontrer comme ils se sont rencontrés effectivement à Canudos ; l’État se chargeant de faire d’une communauté spirituelle une communauté guerrière et d’un individu qui se venge, un bandit social.
L’affront que le cangaceiro doit laver est à la fois le fait d’une personne singulière et celui de la société qui se trouve derrière cette personne particulière et qui la soutient, qui est de connivence avec elle.
L’offense ne vient pas d’un individu isolé, d’un semblable, le règlement de ce genre d’affront ne posant pas de problèmes à cette époque, mais d’une autorité sociale ; c’est celle d’un « colonel » ou, ce qui revient au même, d’une personne de son entourage ; l’offense vient d’un fazendeiro qui est investi à la fois d’une autorité sociale comme grand propriétaire et d’une autorité politique comme représentant de l’État dans la région.
La vengeance du cangaceiro devient, de fait, une vengeance sociale. L’assouvir, ce n’est plus simplement devoir affronter un individu, mais c’est aussi devoir affronter l’État qui est derrière celui-ci.
Le cangaceiro se fait justice envers et contre l’État, qui est du côté de l’offenseur. Son droit inaliénable et universel en tant qu’individu libre entre en conflit avec le droit objectif de l’État quasi immédiate de toutes les forces conjuguées de l’ordre établi. Les sertanejos empoignèrent les armes, faux contre canons comme à Canudos, et résistèrent jusqu’à la mort. Tous furent massacrés après un combat acharné et farouche, mais par trop inégal. Depuis quelque temps déjà la loi de la République régnait sur le sertão.
1938 : Le mouvement du beato Lourenço s’achève dans un bain de sang ; ce sera le dernier mouvement messianique révolutionnaire ; le 28 juillet de la même année, Lampião est tué avec quelques compadres à Angico ; sa mort sera le coup de grâce donné au cangaceirismo ; la police a facilement raison des derniers petits groupes dispersés, indécis, sans protection ni complicité.
Le bandit le plus célèbre du Brésil, Virgulino Ferreira da Silva, le timide Lampião
Le massacre est brutal.
Le cangaceiro fut le bandit social du nord-est et le cangaço sa bande. Le cangaceiro se venge d’une humiliation, d’une injustice, l’exaction d’un « colonel » ou de la police, le meurtre d’un parent. Il décide alors de s’exclure de la société et prend le maquis où il rejoint une bande déjà constituée.
Cette bande lui permettra de survivre par le vol organisé et d’échapper aux forces de police qui le pourchassent. Vengeur plus que redresseur de torts, le cangaceiro incarne la rébellion généralisée contre tout l’ordre social. Les bandes de cangaceiros qui, à la fin du XIXe siècle et au début du XXe siècle, parcouraient le Nordeste, côtoyaient les mouvements millénaristes. Nous trouvons chez les uns comme chez les autres le même mépris de la propriété et donc des lois, le même goût de la richesse, la même générosité, le même défi lancé à l’État et à ses sbires, la même résolution farouche, la même combativité, la même fureur. La frontière entre les deux est ténue sinon inexistante et le passage est aisé dans un sens comme dans l’autre. Nous avons vu des bandits fameux, séduits par les prophéties du Conselheiro, participer à la fondation de Canudos ou accourir pour la défendre, y apporter leur expérience et leur savoir-faire ; Lampiao eut une telle considération pour le mouvement du père Cicero qu’il évita toujours soigneusement la province de Ceara au cours de ses raids. C’étaient les mêmes hommes.
«L’habitant du sertao, nous dit l’universitaire Euclydes da Cunha, a de bonne heure envisagé la vie par son côté tourmenté et compris qu’il était destiné à un combat sans trêve qui exigeait impérieusement la convergence de toutes ses énergies… toujours prêt pour un combat où il ne vaincra pas mais où il ne se laissera pas vaincre. » Je ne pense pas que la nature du Nordeste ait façonné le caractère indomptable de ces hommes ; mais c’étaient bien des hommes indomptables. Ils préféraient la mort à l’esclavage. Ils furent toujours prêts à défendre avec la plus grande vigueur, la plus grande témérité, leur liberté, une certaine idée qu’ils se faisaient de l’Homme, une certaine idée de la richesse. Ils eurent un monde contre eux ; de part et d’autre, ils étaient destinés à un combat sans trêve qui exigeait impérieusement la convergence de toutes leurs énergies, à une guerre où ils ne se laisseraient pas vaincre.
Millénaristes ou cangaceiros, ils avaient été bouviers, métayers, muletiers, ils avaient appartenu à cette partie de la société rurale continuellement menacée dans son existence et plus essentiellement dans sa liberté ; ils en étaient issus ; non seulement ils trouvaient au sein de cette société une réelle complicité mais aussi ils en représentaient les aspirations les plus profondes.
Finalement ce qui les différenciait se réduisait à peu de chose : les uns étaient porteurs d’un projet social positif mais d’essence religieuse quand les autres étaient porteurs d’un projet social purement négatif mais non religieux dans son essence.
Unis autour d’un prophète par la croyance à la venue imminente du Millénium, dans la même aspiration à une vie nouvelle, les millénaristes brésiliens formaient une communauté spirituelle qui s’organisait dans l’attente de l’événement final, qui s’y préparait. Cette communauté messianique n’avait pas l’ambition de réaliser elle-même le Millénium mais déjà elle rompait radicalement avec l’esprit du monde existant pour se reconnaître dans l’esprit d’un monde à venir. Elle contenait un projet social positif tout en restant essentiellement religieuse ; elle était la pensée d’une société non encore réalisée et dont la réalisation ne lui appartenait pas ; elle en était la prémonition. Les cangaceiros se reconnaissaient autour d’une idée simple, la vengeance, dont la réalisation leur appartenait. Ils formaient une communauté guerrière dont le projet social (la vengeance est bien évidemment un projet social) était absolument négatif et, la plupart du temps, tout à fait personnel : chacun avait sa vengeance à satisfaire ; elle lui était propre et elle concernait une personne, ou plus généralement une famille, précise. Cette vengeance, il comptait lamener à bien s’il ne l’avait pas déjà assouvie.
Tout l’ordre établi s’opposait à cette vengeance, en la réalisant, le cangaceiro défiait la société toute entière.
Le cangaceiro ne critiquait pas la société dans laquelle il vivait mais il se vengeait et cela faisait de lui un rebelle. Le millénariste ne cherchait pas à se venger, ou, plus exactement, l’heure de la vengeance ne lui appartenait pas, elle devait venir de Dieu ou d’un être surnaturel comme le roi D. Sebastião, mais il critiquait la société. Ils devaient donc presque nécessairement se rencontrer comme ils se sont rencontrés effectivement à Canudos ; l’État se chargeant de faire d’une communauté spirituelle une communauté guerrière et d’un individu qui se venge, un bandit social.
Un groupe de policiers qui ont chassé les cangaceiros dans le Nordeste brésilien. Ces groupes étaient connus comme “Volantes” – Source – http://diariodonordeste.globo.com
L’affront que le cangaceiro doit laver est à la fois le fait d’une personne singulière et celui de la société qui se trouve derrière cette personne particulière et qui la soutient, qui est de connivence avec elle.
L’offense ne vient pas d’un individu isolé, d’un semblable, le règlement de ce genre d’affront ne posant pas de problèmes à cette époque, mais d’une autorité sociale ; c’est celle d’un « colonel » ou, ce qui revient au même, d’une personne de son entourage ; l’offense vient d’un fazendeiro qui est investi à la fois d’une autorité sociale comme grand propriétaire et d’une autorité politique comme représentant de l’État dans la région.
La vengeance du cangaceiro devient, de fait, une vengeance sociale. L’assouvir, ce n’est plus simplement devoir affronter un individu, mais c’est aussi devoir affronter l’État qui est derrière celui-ci.
Le cangaceiro se fait justice envers et contre l’État, qui est du côté de l’offenseur. Son droit inaliénable et universel en tant qu’individu libre entre en conflit avec le droit objectif de l’État dont l’objet apparaît précisément dans l’affaire : contraindre l’individu à aliéner son droit universel et immédiat à la liberté. «Il suffit que le moi comme libre soit vivant dans mon corps, pour qu’il soit interdit de dégrader cette existence vivante au rang de bête de somme. Tant que je vis, mon âme (qui est concept et même liberté) et mon corps ne sont pas séparés ; celui-ci est l’existence de la liberté et c’est en lui que j’éprouve. C’est donc un entendement sans idée, sophistique, qui peut faire cette distinction selon laquelle la chose en soi, l’âme n’est pas atteinte ni l’idée quand le corps est maltraité et quand l’existence de la personne est soumise à la puissance d’un autre. »8
Lampião
En se vengeant, le sertanejo réalise son idée qui veut que tous les hommes soient égaux en humanité ; il devient effectivement libre, pour lui et pour les autres. Ce passage de l’idée dans l’effectivité correspond, pour lui, au passage dans la clandestinité : il abandonne une existence civile abstraite, qui apparaît du coup pour ce qu’elle est réellement, une existence servile ; il devient cangaceiro. La liberté est un risque à courir. Subir un affront sans réagir, c’est se soumettre à la puissance d’un autre, tomber dans l’esclavage ; ce qui correspond à la mort sociale d’un homme à laquelle il ne peut répondre que par la mort du maître.
Quand il s’agit d’une réaction essentiellement humaine, les universitaires de notre temps, comme Josué de Castro, vont jusqu’à parler de carence alimentaire pour expliquer la révolte des cangaceiros ou des millénaristes, ils parlent de fuite quand ils affrontent l’État et un monde. C’est plutôt à leur égard qu’il conviendrait de parler de carence chronique de l’intelligence la plus élémentaire des pratiques humaines.9
Cette intelligence les sertanejos l’avaient qui se reconnaissaient dans les cangaceiros et les louaient comme des hommes courageux qui risquaient leur vie plutôt que de mourir esclaves.
C’est qu’ils pouvaient, eux aussi, d’un moment à l’autre, devoir prendre le maquis pour exactement les mêmes raisons. Ces hommes côtoyaient l’esclavage, leur existence d’hommes libres était sans cesse menacée de basculer dans la soumission, de tomber ou de retomber dans l’esclavage. Ils étaient sur le quivive et réagissaient vite.
Ici, nous voyons un cangaceiro mort et les hommes qui l’ont battu au combat
Le cangaceiro démontre par tous ses actes que les pauvres, eux aussi, peuvent devenir terribles. Craint et admiré, héros cruel et bandit au grand coeur, il devient vite une figuremythique du sertão.
Il est difficile dans la geste des cangaceiros de faire la part entre la légende et la réalité : les témoignages, dépositions, poèmes, récits, chroniques, s’ajoutent et se contredisent ; c’est que la réalité elle-même où se mêlent intérêts inavouables, trahison et complicité, exploits et fourberies, est non seulement complexe et contradictoire, mais déjà légendaire. Avec les cangaceiros, la réalité est traversée d’une idée, c’est le propre de l’épopée.
Au XIXe siècle, à partir de l’indépendance, le banditisme social prend de l’ampleur au Brésil pour atteindre son apogée à la proclamation de la République ; il prend alors les traits du cangaceirismo moderne qui culminera avec Lampião dans les années trente. Au début du siècle deux figures se détachent : Antonio Silvino et Sebastião (Sinhô) Pereira, chez qui Virgulino Ferreira, le futur Lampião, fera ses premières armes. La légende nous les présente comme particulièrement bons et généreux, dans le style des bandits sociaux à la Robin des bois. Antonio Silvino, capturé en 1914 et condamné à trente ans de prison, fut libéré après vingt ans. Sinhô Pereira se retira dans « la vie publique ».
Antônio Silvino
Virgulino (Lampião) était né dans un petit village de la province de Pernambouc en 1897 où son père était à la fois métayer d’une petite terre et muletier. Un jour, un détachement de la police dont le commandant était lié à une famille ennemie massacra le vieux et la mère en l’absence des enfants.
Virgulino et ses frères brûlèrent leurs habits de deuil sur l’aire et firent le serment que désormais ils ne porteraient plus le deuil mais le fusil. Ils confièrent les soeurs au plus jeune d’entre-eux et prirent lemaquis. Mais c’était une situation trop précaire et incertaine, après quelques accrochages victorieux avec la police militaire ils devinrent membres du cangaço de Sinhô Pereira.
Un des premiers exploits de Lampiao fut le meurtre du « colonel » Gonzaga, sous-délégué de police à Belmonte, état de Pernambouc. L’homme fut tué avec tous les siens et même les chèvres et les poules furent massacrés sur l’aire. Pour finir, Lampião ôta son alliance au cadavre, se la passa au doigt et elle ne le quitta plus jusqu’à son dernier jour.
Reportage sur la mort du colonel Gonzaga – Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, Octobre 21, 1922
Quand en 1922, Sinhô Pereira se retira (cela se produisait quelquefois quand on pouvait compter sur la bénédiction complice du père Cicero), Virgulino devint le chef indiscuté de la bande.
S’il allait être le plus célèbre des cangaceiros, il allait être aussi le dernier. Lampiao écrivit le dernier chapitre d’une histoire. Son surnom, Lampiao (lampion, lanterne) lui serait venu d’un de ses premiers combats : au cours d’une embuscade nocturne, il tirait si vite qu’il illuminait la nuit. Pendant près de vingt ans, à travers tout le sertao, Lampiao allait se déplacer d’une province à l’autre sur une scène immense, apparaissant de façon imprévisible, brouillant ses traces, se tirant toujours à son avantage de ses rencontres avec la police. «Les civils, on les laisse tranquilles. Contre la police et les traîtres : FEU! »
Les coups se faisaient souvent par petits groupes commandés par les meilleurs hommes, mais le chef supervisait tout ; parfois toute la bande participait à de véritables expéditions guerrières.
Lampião étudiait les parcours, cherchait où l’argent était concentré, suivait les déplacements des « volants ». Il s’y prenait en bandit « moderne » et usait de la stratégie et de la tactique avec la plus grande habilité.
A partir de 1930, les femmes ont fait partie du groupe de cangaceiros
La bande restait cachée pendant de longues périodes en un lieu sûr, un bois, un massif inaccessible, une source dans le désert ou la fazenda d’un ami. Les hommes ne circulaient alors que par petits groupes pour se réapprovisionner en munitions, entreprise d’ailleurs fort difficile, pour porter des messages réclamant de l’argent et pour acheter de la nourriture et différents articles. Ils se déplaçaient dans un rayon limité, juste une douzaine d’hommes avec un guide si besoin était ; la virée durait tout au plus une semaine. Parfois si la situation était trop chaude, la bande disparaissait littéralement sans laisser de traces, répandant délibérément des rumeurs et des signes qui brouillaient toutes les pistes et rendaient fous policiers et rabatteurs.
Moyennant quoi, les cangaceiros prenaient du repos et se remettaient des fatigues de leurs dernières équipées, tout en se préparant, dans la bonne humeur, pour les prochaines10.
Les expéditions duraient plusieurs mois et pouvaient couvrir plusieurs provinces du Nordeste. Lampião rançonnait les riches propriétaires, les bourgs et parfois même les villes d’une certaine importance. Il se présentait avec sa bande, recevait l’argent collecté auprès des riches, commerçants ou propriétaires, de la main même des autorités locales ; quelquefois il visitait l’école pendant que les hommes étaient assis sur la place de l’église, puis tout se terminait en général par un banquet suivi d’un bal ; la fête s’inaugurait par l’absorption de larges rasades de cette eau-de-vie qu’on appelait « l’entêtée » ; des défis poétiques étaient lancés où s’affrontaient les meilleurs chanteurs, des rencontres se nouaient et se dénouaient… Dans la nuit, la troupe s’éloignait en chantant son histoire sur l’air de « Mulher Rendeira ».
Maria Bonita, la femme du bandit Lampião
«Ole, mulher rendeira
Ole, mulher renda
Tu me ensina a fazer renda,
Eu te ensino a namorar ! »
Parfois cela se passait très mal.
Lors de l’attaque d’Inharéma dans le Paraíba par exemple ; les cangaceiros ne réussirent pas à prendre le centre de la petite ville. Cette fois, fous de rage, ils se retirèrent en détruisant et en pillant, incendiant tout sur leur passage.
«De retour dans l’état de Pernambouc à la fin de 1925, Lampião occupa la ville de Custodia, mais cette fois le plus pacifiquement du monde. Les bandits passèrent leur journée à se promener dans les rues. Chacun paya pour ses achats. Tout autour de la localité veillaient les sentinelles. Lampiao rançonna quelques richards, acheta des vivres, des médicaments et des munitions. Il se fit faire un costume que le tailleur lui termina le jour même, comme promis, et qui fut payé en bonne et due forme. Il expédia un télégramme au gouverneur de l’État et lui en dit de toutes les couleurs, mais il ne paya pas sous prétexte que le télégraphe était un service “ public ”. Le détachement de police qui avait disparu à la première alerte, ne donna pas signe de vie. »
À Carnaíba de Flores, il cerna la ville et fit parvenir un billet menaçant : si on ne lui donnait pas la somme exigée, il mettrait le feu au village et massacrerait tout le monde ; la somme était considérable mais pas excessive, si bien que les notables entamèrent aussitôt une collecte. Mais soudain, une brigade « volante » assez fournie se présenta à l’improviste, et les cangaceiros alertés par leurs sentinelles décrochèrent prudemment.
La grande maison de la baronne Água Branca
Finalement la bande se présenta de nouveau sans crier gare, elle reprit le dialogue interrompu pendant quelques mois et obtint satisfaction. Un episode celebre et amplement commente, vu le rang de la victime, fut l’attaque contre la fazenda d’une richissime aristocrate, la baronne d’Água Branca. Le bandit ne toucha pas aux bijoux que la dame portait sur elle, mais il fit main basse sur le reste, broches, bagues, bracelets, colliers, pierres precieuses et objets en or, entre autres une longue chaine qu’il devait offrir plus tard a Maria Bonita sa compagne. Celle-ci la portera jusqu’a lamort avant qu’elle n’echoue dans la poche grande ouverte d’un soldat ou de quelque officier. Ainsi, invariablement, Lampiao suivait son chemin, devorant des kilometres et des kilometres de sertão.
En 1926, Lampião rencontra le pere Cicero dans la ville sainte de Joazeiro. Avec le titre de Capitaine, il y recut du gouvernement un armement moderne et des munitions. Il devait aller combattre la colonne Prestes (Luis Carlos Prestes deviendra plus tard secretaire general du Parti Communiste bresilien) qui s’etait formee a la suite du coup d’Etat manque d’officiers democrates et qui avait entrepris une longue marche a travers le Bresil. Lampiao accepta la benediction du pere, le titre de capitaine, les armes, mais se garda bien d’attaquer la colonne Prestes, ce n’etait pas son affaire.
1927 – Groupe Lampião après l’attaque de la ville de Mossoró
En juin 1927, Lampiao mit le cap sur une ville importante, plus riche que les autres, Mossoró, dans l’etat de Rio Grande do Norte. Il fit savoir qu’il exigeait une grosse rancon. En guise de reponse le prefet lui envoya un paquet contenant une cartouche de fusil. Le ≪ capitaine ≫ se facha. Dans un village les cangaceiros jeterent a la rue les pieces d’etoffe d’un grossiste et les distribuerent aux pauvres. Dans d’autres, ils pulveriserent tout ce qui leur tombait sous la main. C’etait la technique de la terreur.
Enfin les cangaceiros, divises en quatre groupes, attaquerent la ville. Mais Mossoró et sa police les attendaient. Lampião avait sous-estime son adversaire et se trouva bel et bien en position de desavantage. Toujours realiste, Lampiao siffla la retraite et les 150 bandits se retirerent dans un ordre parfait. Les pertes etaient negligeables. Les cangaceiros firent cherement payer leur echec aux villes voisines. Les saccages se multiplierent.
Mais ils ne s’attarderent pas dans le Rio Grande do Norte ou le terrain leur était hostile (plaines étendues, pas de montagnes, de bois). Du reste, cette aventure avait quand même rapporté un gros butin. Lampiao inventa alors une maxime : «plus d’une église dans une ville, mieux vaut la laisser tranquille ».
Lampião à côté de la photographe libanaise Benjamin Abraão
Lors de son retour dans l’état de Pernambouc, eut lieu son plus violent combat contre la police : quatre vingt seize cangaceiros contre plus de deux cent cinquante macacos. Lampiao, sûr de ses chances, se lança avec fureur dans un combat qui selon toutes les apparences aurait dû lui être funeste. Les hommes furent divisés en trois groupes et l’affrontement se termina par la défaite des troupes de l’État qui, malgré leur mitrailleuse, abandonnèrent plus de vingt morts sur le terrain et emportèrent une trentaine de blessés. Du côté des cangaceiros les pertes furent dérisoires.
Parfois est entré dans la légende un fait identique à mille autres, mais un témoin l’a rapporté qui l’a vu, de ses yeux vu.On saute ainsi d’une année à l’autre, d’un état à l’autre, rappelant une aventure, un nom, une anecdote oumême un simple geste.
Terribles et magnifiques avec leurs chapeaux de cuir en forme de croissant ornés d’une profusion de médailles, monnaies d’or ou d’argent, boutons de col, bijoux, bagues, dans un luxe barbare et prestigieux.
La bandoulière du fusil aussi foisonnait d’une infinité de boutons et de médailles. Pistolets et revolvers avaient des étuis de cuir travaillé et décoré, comme les ceintures. Leurs besaces elles-mêmes étaient richement brodées. Dans sa gaine ouvragée était glissé l’inévitable poignard effilé, de soixante cinq à soixante quinze centimètres, attribut du vrai cangaceiro.
Ils étaient l’incarnation du guerrier mythique, du Vengeur.
Ils survenaient. Ils surgissaient du désert là où on ne les attendait plus pour disparaître comme par enchantement dans l’étendue infinie du sertao. Ils ouvraient la porte des prisons, et le coffre des riches, dans les bourgs qu’ils traversaient. Ils semblaient avoir le don d’ubiquité. Omniprésents, ils échappaient comme par magie aux forces de police, le corps fermé aux balles, à la mort et au malheur.
«Il prend aux riches pour donner aux pauvres » dit-on du cangaceiro. En fait, les cangaceiros vivaient luxueusement : toujours sur le pied de guerre, mais dépensant le fruit de leur rapine en fêtes, en habits richement ornés, en mille largesses qu’ils dispersaient autour d’eux. Dans leur comportement envers les richesses, ils étaient exactement à l’opposé des gros propriétaires locaux : la richesse que ceux-ci avaient amassée entre leurs mains, les cangaceiros la dispersaient à nouveau.
Le cangaceiro Jararaca arrêtés après l’attaque de la ville de Mossoro dans l’état de Rio Grande do Norte
Les latifundiaires ne pouvaient concevoir la richesse que comme bien privé, qui excluait les autres et faisait leur misère ; les cangaceiros, en dépensant ce qu’ils avaient pris, associaient tout le monde à ce luxe.
Alors que dans le « système féodal » ancien le pouvoir venait de la conquête, il allait désormais se fonder de plus en plus sur l’argent. Les cangaceiros, c’est le pouvoir qui dédaigne l’argent ; ils se faisaient un point d’honneur de dépenser leur fric en achats payés sans marchander, en banquets et en dons.
Alors que l’État garantissait le pouvoir des « colonels », le droit à la propriété, en fait, le droit d’exploiter le travail d’autrui, les angaceiros semblaient renouer avec la tradition des bandeirantes dont les grandes caravanes guerrières, infatigables, se suivaient à la conquête du Nordeste : «Loin du littoral où l’on trouvait la décadence de la métropole, ces bandeirantes, tirant profit des territoires extrêmes de Pernambuco à l’Amazone, semblaient être d’une autre race à cause de leur intrépidité téméraire et de leur résistance au revers. »11
Quand le « prestige » du fazendeiro n’était plus fondé que sur l’exploitation, le cangaceiro renouait avec l’esprit de conquête. L’argent qu’il dispensait avec largesse, il l’avait gagné en risquant sa vie, en dépouillant les riches et les puissants détestés mais redoutés de tous. Dans les années trente, l’État sentit la nécessité de renforcer son contrôle sur tout le Nordeste et de pacifier entièrement cette vaste région éloignée du pouvoir central : réorganisation de la police, établissement de postes de contrôle, utilisation de la radio et du téléphone, introduction d’un armement plus efficace, développement des routes et desmoyens de transport ; un vaste dispositif se mit en place pour liquider le banditisme.
La répression s’intensifiait.
De fait pendant les dernières années, Lampião resta planqué la plupart du temps ; les rangs s’étaient resserrés, les munitions de plus en plus chères et presque introuvables.
Vers la fin ils n’étaient plus que cinquante cinq hommes et, s’ils faisaient encore quelques opérations, c’était presque toujours par groupes. Ce fut une trahison qui causa expressément la perte de Lampião.
Le 28 juillet 1938, il fut empoisonné à Angico dans l’état de Sergipe, avec quelques-uns de ses hommes et sa compagne Maria Bonita. La vengeance de Corisco, son « compadre » fut terrible, il massacra toute la famille du traître qui, lui, s’était engagé illico dans la police militaire.L’histoire de Corisco fut celle de tous ses compagnons : vendetta, fuite. Il s’enrôla dans l’armée puis déserta. Encore victime des injustices et des abus, il fut de plus humilié jusqu’à être piétiné par un délégué de police.
En 1938, peu de temps après la mort de Lampião, Maria Bonita et d’autres camarades, leurs têtes ont été coupées et exposées de la ville de Piranhas dans l’état d’Alagoas
Il entra dans le cangaço. Il devint rapidement le meilleur cangaceiro après Lampiao. Il réussit à retrouver le délégué qui l’avait humilié, il prit l’homme par les pieds, le transperça et le taillada avec son poignard, le saignant lentement comme un porc. Après la mort de Lampiao, Corisco continua à battre la campagne avec ses hommes pendant près de deux ans. En mars 1940, encerclé avec Dada, sa femme, dans un petit village de la caatinga de Bahia par les macacos (ils avaient même une mitrailleuse), il refusa de se rendre.
Le chef des cangaceiro Corisco
Il mourut quelques heures plus tard. Ce fut la fin. Le cangaceiro porte en lui le témoignage qu’il est possible de secouer le joug de l’oppression ; que celle-ci n’est pas invincible ni éternelle. Le châtiment peut toujours tomber, inattendu, sur les épaules des riches et des puissants. Le cangaceiro remet alors les choses à l’endroit. Il prouve aussi que la lutte est sans merci et que la liberté doit se conquérir. Le cangaceiro, c’est l’énergie tendue vers une forme de vie nouvelle. Finalement, le cangaceiro, c’est la révolution.
Cette épopée fut chantée dans les foires et les fêtes où s’improvisaient des poèmes comme celui qui raconte l’arrivée de Lampiao en Enfer :
«Il y eut grand préjudice
En Enfer, en ce jour.
On brûla tout l’argent
Que possédait Satan.
On brûla le registre de contrôle
Et plus de six cent mille cruzeiros
Seulement en marchandises. »
À partir de 1940, les territoires du Nordeste sont totalement pacifiés ; l’ordre s’y maintient par la terreur ; le Nordeste est sous occupation armée s’il n’est pas encore sous occupation idéologique ; il n’en fut pas toujours ainsi.
Cette omniprésence de l’État signifie le sommeil de l’Esprit, un vrai cauchemar pour les pauvres ; elle interdit tout débat sur le monde ; la pensée de l’État est hors de toute critique, le mondeest devenu une fatalité. Les mouvements messianiques brésiliens se sont développés à un moment où le débat était encore possible. Pendant près d’un siècle, les pauvres ont débattu du monde dans cette région lointaine.
La dimension historique ou la dimension humaine est absente soit de l’interprétation de Vittorio Lanternari12 qui y voit une réaction du peuple opprimé qui «tente d’échapper à une situation étouffante qui tient assujettie toute la société», soit de celle de Pereira de Queiroz qui y décèle au contraire une aspiration à l’ordre dans une société où «règne une trop grande liberté qui dégénère en licence. » Les conditions historiques qui ont présidé au développement de ces mouvements sont comparables à celles que nous avons rencontrées à la fin du Moyen-Âge en Occident : une organisation sociale devenue archaïque se décompose alors que s’instaure progressivement un ordre nouveau. Le monde débat du monde: esprit marchand contre esprit féodal ; les pauvres à leur manière participent au débat qui ne veulent ni de l’un ni de l’autre et surtout pas de l’esprit marchand, du monde qui advient.13
Pour eux il ne s’agit pas de faire un choix entre le passé et l’avenir, ils ne sont pas, comme les sociologues ou les historiens, payés par l’État ; il s’agit beaucoup plus simplement de refuser farouchement l’esprit bourgeois ; non parce que celuici dérange leurs habitudes mais parce qu’il s’oppose en tout point à l’idée qu’ils se font d’une société humaine. Voilà bien une excellente raison ! Ils luttent effectivement contre le progrès, le progrès dans le monde de la pensée capitaliste.
C’est bien un débat d’idées, qu’ils engagent ainsi pratiquement, entre leur projet social et le projet social du capital ; entre l’idée qu’ils ont d’une pratique sociale humaine et l’argent comme pratique sociale.
Les mouvements millénaristes de l’époque médiévale se trouvaient au coeur d’une mutation historique, de la société féodale à la société marchande. Cette mutation est accomplie presque partout dans le monde quand apparaissent les mouvements brésiliens ; ceux-ci se trouvent comme à la périphérie historique de cette mutation. Cette situation explique leur caractère purement messianique : ils sont dans l’attente d’un bouleversement cosmique, l’heure de la vengeance de Dieu allait venir d’un moment à l’autre ; alors que pour les millénaristes médiévaux les plus radicaux, l’heure était venue d’accomplir ce bouleversement ; ils participaient activement, avec l’aide de Dieu, à la réalisation terrestre du Millénium quand les mouvements messianiques brésiliens ne pouvaient que s’y préparer.
Les insurrections millénaristes de l’Europe médiévale eurent à s’affronter aussitôt au principe ancien et au principe nouveau. Elles furent immédiatement critiques vis-à-vis de l’Église et vis-à-vis de l’Argent ; c’est que l’Église y avait une tradition historique et l’Argent une nouveauté historique. La société du Nordeste était d’essence religieuse mais l’Église y était peu implantée, quant à la bourgeoisie, elle y était inexistante. Les pauvres ne vont pas entrer directement en conflit avec l’Église ou avec les marchands, ils vont s’insurger contre un état d’esprit qui s’insinue dans la société, transforme les mentalités. Quand le conflit éclatera, ce sera tout de suite avec l’État.
Les mouvements messianiques se sont développés dans une région qui ne connaissait pas encore les conditions modernes d’exploitation ; cette région aride, souvent désertique, n’intéressait pas les grands marchands ni les industriels ; le salariat y était pratiquement inconnu.Mais cette zone était cernée par le monde moderne, par l’esprit moderne : au Sud, le point de vue capitaliste s’était imposé depuis la fin du siècle dernier avec les grandes plantations de café ; cette monoculture tournée uniquement vers l’exportation, totalement dépendante des lois de la concurrence, du marché international et des spéculations boursières, exigeait une organisation toute moderne du travail, une discipline industrielle. Elle était en soi ce contrôle social, elle en était l’esprit puisqu’elle créait pratiquement les conditions d’une dépendance absolue à l’argent. À l’est, le littoral avait été dès le début engagé dans un échangemarchand avec la métropole ; depuis quelque temps, il se trouvait pris dans un processus de modernisation de cette activité. Les senhores de engenho, les patrons des sucreries rudimentaires, ne pouvaient plus soutenir la concurrence étrangère ; l’esclavage lui-même revenait trop cher, il fut aboli par la République, on lui substitua une exploitation plus rationnelle : le travail salarié, quimettait directement le travailleur sous la dépendance de l’argent.
Avec l’aide de capitaux étrangers de nouvelles fabriques furent installées, ce qui entraîna une demande accrue de canne à sucre ; les patrons se lancèrent dans l’achat de terres : une fringale dévorante, pas question d’engrais pourvu qu’on plante toujours plus avant ; et là où on ne peut pas planter, on élève du bétail.
C’est ainsi que l’esprit capitaliste pénétra peu à peu dans le sertão, ouleversant en profondeur les rapports coutumiers. Il s’agissait de faire de l’argent et le plus vite possible. En outre les conditions d’exploitation devenant draconiennes, beaucoup de gens se retrouvèrent sans terre et sans travail, dans une misère la plus noire et la plus désespérée ; en masse ils fuirent la côte où il leur était impossible de survivre pour s’enfoncer à l’intérieur.
Cette population désorientée, qui n’était pas intégrée au système traditionnel en vigueur, alla grossir les rangs de ceux qui suivaient les prophètes millénaristes. Enfin les échanges entre l’intérieur et le littoral (cuir pour les harnais ou qui servait à emballer les rouleaux de tabac, boeufs pour les moulins à sucre et les plantations) qui équilibraient la vie sociale dans le sertão, allaient se trouver brutalement compromis par l’industrialisation capitaliste. Cette rupture dans les échanges allait avoir des conséquences tragiques pour les petits paysans, bouviers et métayers et allait remettre en question le rapport qui liait le vacher ou le métayer au propriétaire de la terre. Tout ceci se reflétait dans les querelles locales et les envenimait. C’est dans ce processus qu’il faut comprendre la genèse des mouvements millénaristes : ils se sont développés dans une région de relative liberté où ni l’État, ni l’Église n’étaient omniprésents mais qui subit, à son corps défendant, les contrecoups de l’offensive capitaliste. Peu à peu, des rapports indifférents, impersonnels, des rapports d’argent, vont se substituer aux rapports traditionnels de type « clientèle ». À partir de ce moment, la trahison est dans l’air : au respect de la parole donnée, va se substituer l’argent qui ne respecte aucune parole. L’appât du gain leur enlevant toute dignité, les gros propriétaires vont trahir allègrement les droits coutumiers et s’appliquer à rendre l’existence des pauvres abominable. Il y avait quelque chose de pourri dans le sertão.
Autrefois, éleveurs, propriétaires, bouviers et métayers menaient en général la même vie rude. La famille constituait la cellule de base de cette société, non pas la famille conjugale mais une grande famille, une « famille étendue » : la parentele était formée d’une famille noyau (frères, cousins, filleuls) et de sa clientèle (branches bâtardes,métayers, anciens esclaves). Ces lignées avaient toujours un chef à l’intérieur du groupe familial, tous ceux qui avaient la même position prééminente recevaient la dénomination de colonel, mais il y avait un «colonel des colonels ».
Il existait un contrat tacite d’échange de service qui assurait la cohésion du groupe et renforçait la position du colonel ; celuici se devait d’aider ses parents et ses hommes liges : cession de terres, respect des contrats de métayage (le bouvier avait une part du troupeau comme le métayer avait une part de la récolte, celle-ci était fixée par la coutume), prêts, garantie de défense judiciaire…, ce qui entraînait une obligation morale qui attachait l’intéressé au service du colonel. Les rétributions en argent étaient rares sinon inexistantes.
Le pouvoir politique fut toujours le grand enjeu des luttes opposant les clans les uns aux autres à l’intérieur du Brésil. Le colonel était né pour commander, il avait hérité de la terre et c’était d’elle qu’il détenait son pouvoir, l’État ne faisait que le confirmer en lui apportant sa garantie, sa caution juridique. Le colonel était décidé à défendre jalousement sa position sociale. Il jouissait d’une impunité absolue. On disait que l’activité d’un colonel qui se respectait était prévue à toutes les pages du code pénal. Il protégeait et maintenait son pouvoir et son prestige en entretenant de véritables bandes d’hommes armés, dans lesquelles s’enrôlaient, dans les périodes de conflits entre grandes familles, tous les hommes relevant de sa juridiction. Il représentait la véritable autorité de la région.
Aucune limite sinon le respect de la parole, la tradition, n’était imposée au colonel : tous étaient à la merci de son arbitraire. La convoitise allait faire de lui un homme redoutable. La trahison représentait donc le danger immédiat : tout risquait de basculer alors dans l’arbitraire le plus total, d’où cette susceptibilité à fleur de peau qui, à la moindre alerte, déclenchait des conflits en chaîne à l’intérieur des clans et entre les clans (inutile de dire qu’aujourd’hui l’arbitraire est total et garanti).
Millénaristes et cangaceiros ont surgi dans une société où les rapports étaient encore personnels, où la solidarité jouait encore, mais où existait une inquiétude latente due à la désagrégation progressive de ces rapports. Ils ont pris naissance dans une société désagrégée, minée peu à peu par l’esprit capitaliste, qui rendait caducs les rapports traditionnels. Cet esprit allait durcir la société, exacerber les susceptibilités, exciter les appétits.
Les gros propriétaires allaient se livrer à une impitoyable concurrence aboutissant à l’élimination des plus faibles et à l’accroissement de la puissance des plus forts.
Les messies brésiliens ne condamnaient pas, en général, l’organisation ancienne, mais l’âpreté au gain que manifestaient de plus en plus les colonels et qui entraînait l’oubli de leurs obligations. Bouviers et métayers en subissaient de plein fouet les conséquences ; cette dégénérescence des rapports, ils pouvaient en situer historiquement le début, ils pouvaient comparer ce nouvel état de chose avec un passé pas très lointain.
Les mouvements messianiques exprimaient le désir de réorganiser la société dans le sens de la solidarité au moment où tout sentiment de solidarité tendait à disparaître.
Deux directions étaient envisageables : ou renouer avec la tradition et la renforcer d’un principe supérieur, l’autorité divine, le parrainage de Dieu, ce que fit le mouvement du père Cicero ; ou dépasser l’organisation ancienne, qui se révélait incapable de résister à l’esprit capitaliste et à l’exacerbation des égoïsmes, pour retrouver le sens de la communauté originelle.
Ils ont eu recours à la religion, comme esprit objectif de la communauté, pour sceller le pacte d’alliance. Le rituel catholique consacrait, selon l’esprit, les liens qui les unissaient. Ces rites étaient l’affirmation solennelle du rejet du vieux monde devenu profane et l’entrée dans un monde nouveau qui, lui, présentait seul maintenant un caractère sacré.
«Une fois la Ville Sainte fondée, lesmessies tentaient de l’identifier le plus possible avec les Lieux Saints. Dans le Nordeste, surtout, le paysage aride se prêtait à des rapprochements surprenants avec celui de la Judée, tel qu’on pouvait le voir reproduit sur les grossières images religieuses en vente dans les foires du sertao. Père Cicero, très habile, avait baptisé de dénominations prises dans l’Évangile les accidents de terrain autour de Joazeiro : le Mont des Oliviers, le Jardin du Saint Sépulcre, le Calvaire. Agrémentés de petites chapelles et de multiples croix, ils attiraient les pèlerins curieux et émus, et constituaient une nouvelle preuve de la sainteté des lieux. »14 Ce ne furent pas des mouvements hérétiques à proprement parler bien que l’Église les condamnât. Ils ne critiquèrent pas les sacrements comme le firent en leur temps les disciples d’Amaury de Bêne, les Taborites, ou les anabaptistes de Munster.
Ils se contentèrent d’opposer le vrai catholicisme qui était le leur au catholicisme dévoyé des prêtres.
Si le sentiment religieux était profondément enraciné dans la société, l’Église n’était pas cette citadelle de la pensée qu’elle fut à l’époque médiévale, et les efforts des quelques curés de campagne pour combattre les traditions populaires étaient dérisoires. Ils ne faisaient que renforcer chez les paysans le sentiment que seuls leurs beatos, leursmessies, connaissaient le vrai catholicisme. Il était d’ailleurs rare de voir les prêtres qui, par hasard, vivaient dans ces régions reculées, correspondre à l’idéal que se faisaient les pauvres de la vie chrétienne. Les sertanejos leur reprochaient surtout de vendre les différents rites ; ils en gardaient un vif ressentiment à l’égard du clergé officiel accusé de trahir sa fonction dans son aspect le plus sacré. Les prêches des messies reflétaient ces opinions ; Severino, un des apôtres de Lourenço, proclamait : «La parole de Dieu n’est pas à vendre, à aucun prix ; la parole de Dieu est gratuite. »Les prophètes brésiliens ont toujours puisé leur inspiration dans le catholicisme populaire, dans les légendes de la péninsule ibérique : leur façon de vivre correspondait parfaitement à l’idée que se faisaient les paysans des saints catholiques : c’étaient des pèlerins, vivant d’aumônes, distribuant aux pauvres les dons qu’ils recevaient. Ce catholicisme nourri de légendes, de mystères, de superstitions, de familiarité et de mysticisme, était d’essence millénariste. «Le temps paraît s’être immobilisé chez la population rustique du sertao. Ayant évité le mouvement général de l’évolution humaine, elle respire encore l’atmosphère morale des illuminés… »15 Ils attendaient la vengeance de Dieu, mais cette attente était dynamique, elle invitait les pauvres à s’organiser en vue d’actions concrètes comme l’occupation des terres, et à défendre énergiquement leurs conquêtes. C’était une attente qui, loin de contrarier l’activité sociale, l’incitait. Canudos était la Tabor du sertao où régnait une intense activité. Les millénaristes étaient animés d’un enthousiasme que rien ne pouvait briser. Ils ne s’isolaient pas et ils n’étaient pas isolés, ils n’avaient pas le sentiment d’être des élus, c’étaient des sertanejos, des jagunços ; simplement l’esprit de leur activité avait changé.
Cet esprit qui inspirait les disciples de Lourenço, par exemple, était le même que celui qui avait inspiré, deux à trois siècles auparavant, la colonie des Bêcheux de la colline Saint-Georges de Londres : «Celui qui travaille pour un autre soit à gages, soit pour payer redevance, n’accomplit pas un juste travail ; mais celui qui est résolu à travailler et à manger avec tous les autres, faisant ainsi de la terre un commun trésor, celui-là donne la main au Christ pour libérer la création de la servitude et laver toute chose de la malédiction originelle.» (Winstanley) À l’instar du pasteur Lee de l’Angleterre de 1650 («Une haie dans un champ est aussi nécessaire à sa façon que l’autorité dans l’Église ou l’État. »), l’État brésilien ne s’y trompa pas : cette occupation des terres, même à une fin religieuse, constituait en soi un défi à l’autorité. L’intention des millénaristes brésiliens n’était pas d’entrer en guerre ouverte contre l’État, ils attendaient que s’accomplît la vengeance divine mais, en attendant, ils le défiaient.
Pour eux, cependant, cette organisation collective du travail, cette activité commune, n’était pas la richesse. L’esprit de cette expérience était, sans doute, riche, mais cette expérience ne trouvait pas sa richesse en elle-même ; elle était son au-delà.
La richesse que promettaient les messies à leurs fidèles, cette promesse revenait toujours comme un leitmotiv dans leurs prêches, ne pouvait en aucun cas se confondre avec la prospérité et le bien-être, ni surtout, et c’est là l’essentiel, se réduire à une activité commune restreinte, aussi humaine fût-elle;
elle devait être l’aboutissement de toute l’activité sociale ; le moment de la dépense infinie, de la fête, et cet instant espéré était celui de son universalité.
Un monde s’opposait à sa réalisation.
GEORGES LAPIERRE
GLOSSAIRE
–Bandeirantes : pionniers portugais de l’époque
coloniale.
–Beato : bienheureux, laïc voué au service de Dieu
(il reçoit le nom de « moine » plus au Sud).
–Caatinga : vaste étendue de broussailles
enchevêtrées difficilement pénétrables.
–Cangaceiro : bandit d’honneur, son nom
viendrait du fait qu’il portait son fusil sur les deux
épaules à la manière d’un joug (canga : joug).
Le cangaço est sa bande.
–Capanga : tueur à gage.
–Colonel : nom donné au Brésil aux chefs politiques
locaux. Pendant l’époque coloniale et l’Empire,
la Garde Nationale remplaçait l’armée ; les
planteurs puissants y achetaient des grades élevés ;
l’appellation de « colonel » s’est étendue petit à
petit à tous les individus puissants, indépendamment
de leur appartenance à la Garde
Nationale.
–Fazendeiro : propriétaire éleveur, la fazenda est
un domaine souvent considérable.
–Jagunço : bouvier, le gaucho du Nordeste.
–Quilombola : esclave noir insurgé ; à Palmarès ils
furent 30 000 à tenir tête à l’armée.
–Sertao : (serton) vaste région semi-désertique du
nord-est du Brésil
–Sertanejo : habitant du sertao.
CHRONOLOGIE
1500 – Le portugais Pedro Alvares Cabrai
“découvre” le Brésil.
1530 – Avancée de la colonisation vers les terres
de l’intérieur.
1550 – Début de la traite des esclaves.
1716 – La colonie devient une vice-royauté.
1817 – Début du mouvement messianique de
Sylvestre José dos Santos.
1822 – Déclaration de l’indépendance.
Proclamation de l’Empire.
1835 –Mouvement messianique de Joao Ferreira.
1871 – Vote de la loi dite « du ventre libre »,
acheminement vers l’abolition de l’esclavage.
Périgrinations du «Conselheiro » dans l’état de
Bahia, du père Cicero dans le Ceara.
Les groupes de cangaceiros se multiplient.
1888 –Abolition de l’esclavage dans tout le pays.
1889 – Proclamation de la République.
Le père Cicero accomplit ses premiers miracles.
Le Conselheiro prêche l’insurrection contre la
République.
1896 /97 – Campagne de Canudos contre Antonio
Conselheiro. Le cangaceiro Antonio Silvino
commence à s’affirmer.
1913 – Mouvement séditieux du père Cicero
contre le gouvernement fédéral.
1914 – Arrestation du chef cangaceiro Antonio
Silvino.
1920 – Lampião entre dans le cangaço de Sinhô
Pereira.
1922 – Lampiao est proclamé chef de bande.
1926 –Entrevue de Lampiao avec le père Cicero.
1930 – Présidence de Getûlio Vargas.
1934 – Mort du père Cicero. Naissance du
mouvement messianique de Lourenço.
1937 – Dictature de Getûlio Vargas.
1938 – Piège d’Angico et mort de Lampiao.
Le mouvement de Lourenço est massacré.
1940 – Corisco meurt, avec lui disparaît le
cangaceirismo.
RÉFÉRENCES
1– Pereira de Queiroz : Réforme et Révolution dans les Sociétés
traditionnelles.
2–Euclydes da Cunha : Os Sertoes,
traduction française : Les terres de Canudos (1947)
3–Cahiers trouvés à Canudos.
4–Poèmes retrouvés à Canudos, écrits sur de petits morceaux de papier.
5–D. Sebastiao : Roi du Portugal (1557-1578) ; il meurt au cours d’une
expédition contre lesMaures. Le peuple ne voulut pas croire à sa mort ;
il devint une figure légendaire et messianique comparable à celle de
l’Empereur des derniers jours : il reviendrait de l’île des Brumes et organiserait
une armée pour libérer Jérusalem. Nous retrouvons cette légende
portugaise de la fin du XVIè siècle encore très populaire au
Brésil ; elle fut au coeur de deux mouvements messianiques d’importance
qui eurent lieu dans la province de Pernambuco en 1817 et en
1835 : celui de Sylvestre José dos Santos et celui de Joao Ferreira.
6–Il s’agit bien évidemment de Canudos.
Euclydes da Cunha : Os Sertoes, l’auteur fait un récit très détaillé des
différentes expéditions militaires menées contre Canudos, il fut présent
au cours de la dernière ; nous nous inspirerons de son témoignage et
nous le citerons souvent.
7–Le livre d’Euclydes da Cunha se termine par une calomnie bien dans
le ton de l’époque : «On apporta le crâne (du Conselheiro) sur le littoral,
où la foule fêtait la victoire, dans une joie délirante. La science devait
dire le dernier mot : dans le relief des circonvolutions
caractéristiques du cerveau, il y avait les lignes essentielles du crime
et de la folie. »
8–Hegel : Principes de la Philosophie du Droit.
9–Josué de Castro: Une Zone explosive, Le nord-est du Brésil.
10 – Cangaceiros : Ballade Tragique
texte : Mario Fiorani, illustration : Jô Oliveira
11– Euclydes da Cunha : Les Terres de Canudos.
12–Vittorio Lanternari : Les Mouvements Religieux des Peuples
opprimés.
13– Pereira de Queiroz : Réforme et Révolution dans les Sociétés
It is no surprise that the French group of revolutionary outlaws, Os Cangaceiros, would take an interest in millenarian revolt since their namesakes in Brazil fought side by side with millenarian rebels on more than one occasion. And such an interest is no mere whim. During the Middle Ages, revolt almost always expressed itself in millenarian language in the Western world, and such expressions continued, though increasingly less frequently, into modern times. Thus, those of us who are interested in understanding the ways in which the spirit of revolt develops in individuals and in larger groups of people could perhaps learn something from examining millenarianism in its various forms.
In Prophets and Outlaws of the Sertão, Georges Lapierre[1] tells the story of two movements of revolt in northeastern Brazil whose activities often intertwined. On the one hand, there were several millenarian movements involving dispossessed peasants, rural migrant workers, and urban poor. On the other hand, there were the cangaceiros, individuals whose acts of revenge against a very visible ruling class and its lackeys had driven them to live as outlaws and who joined together in bands called cangaços to wage their battle against a social order to which they were neither willing nor able to belong.
For me, the most interesting aspect of this historical tale lies in the comparisons and contrasts that can be made between these two very different ways of rebelling that manifested themselves in Brazil as the 19th century moved into the 20th century.
Though Georges Lapierre’s account mentions several millenarian movements in Brazil during that period, he only goes into any detail about two of them: the one that gathered around Antonio Conselheiro (Antonio the Counselor)[2] and the one that gathered around Father Cicero. In my opinion, the former is far more interesting, because it was truly a movement of millenarian revolt, whereas Father Cicero’s movement, regardless of any apocalyptic or millenarian language it may have used, was essentially just a movement of social reform[3]. The very fact that its leader was able to maintain a possession in the church hierarchy and gain a significant in the state hierarchy shows that neither revolt nor the bringing of the millennium had any real significance in his activities. He was merely seeking to bring his concept of a christian social morality into the existing social order.
Conselheiro, on the other hand, had a true hatred of the existing social order, and firmly believed that its end was at hand. Being a true believer, he was convinced that god was about to rain his wrath down upon the ruling order and bring a holy kingdom of real equality to the earth, one with neither state nor property, where the entire world would be equally accessible to all. Such a vision was bound to attract many of the dispossessed. Conselheiro’s vision was apocalyptic, but also a vision of action. If the movement that gathered around him ended up forming a “holy city” (Canudos), a commune in which to begin the new way of living, it was also prepared to fight the ruling powers. That battle, however, took a form quite typical of a particular sort of millenarianism. It was a defense of the holy city that was based on trust in a supernatural intervention.
The cangaceiros, on the other hand, were not religious. They were simply outlaws, driven to leave society behind after taking revenge on someone from the ruling class or one of its lackeys for some humiliation. Like the millenarian rebels, they were from the poor, dispossessed classes. But the path they chose for their revolt was different, reflecting a personal humiliation they pushed them to attack, rather than a more general humiliation. Lacking the faith of the millenarians, they built no utopian communal “cities”, choosing rather to roam the countryside, attacking the rich and raiding cities. When their raids on cities were successful, they often expressed a type of utopian vision as well, throwing huge drunken feasts with music and dancing, often giving away some of what they had stolen. But they sought no permanence and faded back into the countryside to wander.
I find the sympathy of the cangaceiros for the millenarian movements of their time interesting because their way of life in their world seems to parallel that of the Free Spirit movement of the middle ages. The Free Spirits are often described as millenarians, but their millenarianism was distinctly different from that of Conselheiro, Thomas Münzer, the Münster millenarians and most other millenarian movements. The distinction lies in the fact that the Free Spirits did not see the millennium as something that was going to come soon, but as something that already existed within them. Their perspective was not apocalyptic — aiming toward a future end of the world — but rather based in the immediate present. This is why the Free Spirit, while still using religious language, actually attacked the foundations of religion: dependence on an external supernatural power, hope in a heavenly future, faith in an external source of salvation. Quite rightly, the Free Spirits declared themselves to be greater than god, and apparently lived as vagabond outlaws… much like the cangaceiros. Their perspective left no room for passivity, because they had chosen to be the creators of their own lives.
Drawing depicting Antonio Conselheiro and disseminated via newspapers and books in southern Brazil in the late nineteenth century – http://culturapauferrense.blogspot.com.br
The millenarians of Canudos and Münster, and the followers of Thomas Münzer certainly expressed a more active — and downright fierce — form of apocalyptism. They were ready to fight to the death for their future millenarian dream. But this willingness was based on the delusions of faith and hope — faith in a supernatural savior; hope in divine intervention. Thus, they are not so different from groups like the Branch Davidians in Texas — groups made up largely of the poor, waiting for the apocalypse and ready to defend themselves to the death if necessary. But the fact is that apocalyptism is far more often passive, precisely because it hopes in an external intervention. This is true whether or not it is religious in nature. We are currently living in a period in which apocalyptic thinking is rampant even among people with no religious belief. Whether it takes the form of paralyzing fears of massive plagues and disasters or idealized dreams of a collapse that will do away with the technological and bureaucratic horrors of the present, it doesn’t ever seem to lead to active revolt. The fears, when they manage to get past their paralysis, tend toward the desperate grasping at any action the might “give us more time”, and such desperation sees any sort of anarchist revolutionary and utopian practice — especially one that is live here and now — as a hindrance to this acceptance of any action that works — because such a practice rejects all litigation, all legislation, every form of working through the ruling order… And the apocalyptic hopes for a collapse have always tended to move people toward a mere survivalism, a “practice” that is nothing more than an accumulation of skills in the hopes of being the most fit to survive in the post-collapse world. In my opinion, a small and shabby vision.
Millenarian revolt is interesting mostly because when millenarian perspectives actually led to revolt, to one extent or another, those involved had begun to recognize that they themselves had to act to realize their own liberation. Its limits lie precisely in the continued reliance on a supernatural force to guarantee this. As long as this faith remained, millenarians tended to paint themselves into corners, creating small utopian settlements that they defended with courage and ferocity, but that ended up as their graveyards. But a few, like the Free Spirits, seem to have gotten beyond faith and hope, beyond dependence on a supernatural power to uphold them. And it is interesting that their practice becomes much more that of the outlaw who doesn’t settle down, but remains on the move, thecangaceiro, who may perhaps develop a revolutionary perspective, and thus learn to aim all the more clearly.
Prophets and Outlaws of the Sertão
Today in the sertão[4], there are still a few ephemeral groups gathered around beatos, rapidly being dispersed by the police. There are also a few isolated bandits, mere brigands dedicated above all to theft. On the other hand, the orders of hired killers called capangas continue to proliferate. They are in the service of the fazendeiro,[5] who has taken great care to prevent any vague desire to rebel among his day laborers, mainly through pure and simple murder. This private militia gets support for its task from a police force and an army whose current means — helicopters, napalm, machine guns, radios, special troops — make any sort of social movement impossible. The security of the state is now assured in this vast arid region of northeast Brazil, which was once the place where messianic movements of great breadth developed together with the epic deeds of the cangaceiros[6].
And yet, there in the northeast, there are still people who remember the cangaceiros, Antonio Silvino, Sinhô Pereira, Lampiao, Corisco, who they imagine as champions of a lost world; people who preserve a sort of nostalgia for the time of the Conselheiro — an era of happiness, abundance and freedom comparable to the legendary times of Charlemagne’s empire and other enchanted realms. There are still those who pass down the legend of Father Cicero who is supposed to return to guide people to perfect happiness. Further south, in the serrana region, they pass down the legend of the “sleeping” friar João Maria, departing to find refuge on the enchanted mountaintop of Tayó. “From time to time, new emissaries of Brother João Maria come to announce his return; the last attempt happened in 1954. But the authorities keep watch and always manage to disperse the small gatherings of the faithful. But the memory of Brother João Maria does not seem to be close to burning out, and the places where he sojourned are venerated by his followers.”[7]
Now law reigns in the sertão, but this wasn’t always the case.
“Let the faithful, then, abandon all their worldly possessions, anything that might defile them with the faintest trace of vanity. All fortunes stood on the brink of imminent catastrophe, and it was useless and foolhardy to endeavor to preserve them.”[8]
Around 1870, the popularity of Antonio Conselheiro, otherwise called “the Counselor” would grow little by little in the villages of the interior, in the province of Bahia.
His true name was Antonio Vicente Mendes Maciel. He was originally from the state of Ceará, where a dark and bloody rivalry opposed his family to the Araújo family, the most powerful property owners of the region.
He appeared there announcing the end of the world, a cosmic catastrophe followed by the last judgment. He was sent by God and promised the faithful salvation and the delights of a Holy City in which peace and brotherhood would reign. It was Christ who prophesied his coming when “at the ninth hour, as he was resting on the Mount of Olives, one of his apostles saith unto him: Lord! what signs wilt thou give us for the end of this time? And he replied: many signs, in the Moon, in the Sun, and in the Stars. There shall appear an angel sent by my loving Father, preaching sermons at the gates, making towns in the desert, building churches and chapels, and giving his counsel.”[9]
On mountains made of schist flakes sparkling with mica, on immense expanses covered with caatinga[10] — “it stretches out in front of him, for mile on mile, unchanging in its desolate aspect of leafless trees, of dried and twisted boughs, a turbulent maze of vegetation standing rigidly in space or spreading out sinuously along the ground, representing, as it would seem, the agonized struggles of a tortured writing flora.”[11] — , on the plain on which nature has fun playing with the most abrupt contrasts, frighteningly sterile, marvelously blooming, the sertão had found its prophet.
Thin, austere, ascetic, dressed in a monk’s robe and sandals, he went from village to village, distributing everything that was given to him to the poor. He was a beato[12]. Very soon he was called “Saint Anthony” or “Good Jesus” A rumor attributed miracles to him; he had saved a young girl bitten by a radical snake; mule drivers had spread the news. Little by little his prestige grew. When he came, everyone rushed to him to seek his counsel. He was accompanied in his peregrinations by a few faithful. Over the months, the group became more consistent.
With his followers, he repaired churches and built chapels. Wherever he passed, he preached forcefully against the outrages, extortions and injustices that infested the region, which was racked by political struggles transformed into vendettas, into insensitive and bloody quarrels
The Counselor’s influence had become impressive. In his harangues he spoke an apocalyptic language full of Latin quotations, a cryptic and inspired language that gave the impression that his message was from the beyond: “The end was surely coming and the great judge of all.”[13]
The prophet predicted strange things for the years to come, all announcing an imminent cosmic upheaval:
“In 1896, a thousand flocks shall run from the seacoast to the backlands; and then the backlands will turn into seacoast and the seacoast into backlands.
“In 1987, there will be much pasturage and few trails, one shepherd and one flock only.
“In 1898, there will be many hats and few heads.
“In 1899, the water shall turn to blood, and the planet will appear in the east, with the sun’s ray, the bough shall find itself on the earth, and the earth some place shall find itself in heaven.
“There shall be a great rain of stars, and that will be the end of the world. In 1900, the lights shall be put out. God says in the Gospel: I have a flock which is out of this sheepfold, and the flock must be united that there may be one shepherd and one flock only!”[14]
Only those who aided him and who followed him would be saved. He responded in this way to the deep aspirations of the poor to escape an underhanded fatality, a precarious and servile existence, oppression and desperation. His determination, his fieriness, his rage, his dynamic exhortations, had seduced them just as it had fascinated rebels, quilombolas (insurgent and escaped slaves living in hidden settlements called quilombos), unsubdued indians, all fugitives, mestizo or white, sought by village police.
Saint Sebastian had drawn his sword and when Conselheiro founded his first messianic community in 1873, in the area around Itapicurù in the province of Bahia, in many ways this recalled the cangaço[15] bands.
“There having arisen a misunderstanding between Antonio Conselheiro and his group, and the curate of Inhambupe, the former proceeded to draw up his forces as if for a pitched battle, and it is known that they were lying in wait for the curate, when he should go to a place known as Junco, in order that they might assassinate him. Those who pass that way are filled with fear at the sight of these miscreants equipped with clubs, daggers, hunting knives and blunderbusses; and woe to the one who is suspected of being hostile to Antonio Conselheiro”[16] — from a police report of the time.
The archbishop himself turned to the president of the province of Bahia, asking for reinforcements to contain “the individual Antonio Vicente Maciel, by preaching subversive doctrines who causes much harm to religion and to the state distracting people from carrying their obligations that they may follow him…”.[17]
However, as the submissive university student, Euclydes da Cunha wrote with a certain objectivity, but in the offensive jargon of his masters: “He drew the people of the backlands after him, not because he dominated them, but because their aberrations (sic!) dominated him.”[18]
Of course, he announced Christ’s thousand year kingdom on earth after the end of the world, but around him, under his stimulus,jagunços[19], rebels, insurgents, organized themselves, occupied land, shared labor and goods, received gifts, not always voluntary.
The constituted order could not remain indifferent much longer to the expansion of a community that gave so little consideration to the idea of property, that so proudly ignored the foundations of authority, religion and the state, as the apostolic archbishop said. Therefore, in 1889, the advent of the Republic, this democracy of property owners, acted to speed up the conflict by making hostilities emerge. The millenarians considered the Republic precisely for what it meant: more state. It was mortal sin, the power of selfishness, of cupidity, the supreme heresy that indicated the ephemeral triumph of the antichrist.
“There are unlucky beings Who don’t know how to do good They degrade God’s law And represent the jackal’s law
Protected by laws You are so, people of nothing We have God’s law You have the jackal’s law”[20]
Conselheiro preached insurrection against the Republic and began to burn government decrees posted in the villages:
“In truth, I say unto you, when nation falls out with nation, Brazil with Brazil, England with England, Prussia with Prussia, then shall Dom Sabastião[21] with all his army arise from the waves of the sea.
“From the beginning of the world a spell was laid upon him and his army, and restitution shall be made in war.
“And when the spell was laid upon him, then did he stick his sword in the rock, up to the hilt, saying: Farewell, world!
“For a thousand and many, for two thousand, thou shalt not come.
“And on that day, when he and his army shall arise, then shall he with the edge of the sword free all from the yoke of this Republic.
“The end of this war shall take place in the Holy House of Rome, and the blood shalt flow even in the great assembly.”[22]
As the university student Euclydes da Cunha remarked with a valet’s conceit: “your jagunço is quite as inapt at understanding the republican form of government as he is the constitutional monarchy. Both to him are abstractions, beyond the reach of his intelligence. He is instinctively opposed to both of them… there was very little political significance to be found… such as might have lent itself to the messianic tendencies revealed. If the rebel attacked the established order, it was because he believed that the promised kingdom of bliss was near at hand.”[23]
Drawing done in the late nineteenth century, representing a Jagunço, fighter who followed Antônio Conselheiro – http://www.coceducacao.com.br
Up to now, the order established by monarchists or republicans has never led to the reign of delights for the poor, quite the contrary. Rather, we could witness with the Republic a clear-cut worsening of the fate reserved to those who do not possess anything. What the Conselheiro and his followers fight against was the progressive arrangement of a new order. They don’t rebel in the name of an old order, but for the idea they have of a human society. Their eye is not turned toward the past, but toward the future. They are carriers of a social project. Rising up against the constituted order, or the one that was beginning to be constituted, they rise up against the essence of a world that created private property, forced labor, the wage worker, police, money; they rise up against a social practice and its essence. For them the future is not a return to the past, but rather the end of a world, an overturning of society from top to bottom, a revolution for which the humanity that was there from the start finally returns as realized humanity.
The autonomy of the villages having been decreed, the local councils of the interior of Bahia had tacked up edicts meant to raise taxes on notice boards, traditional boards that took the place of the press.
When the news spread, Conselheiro was at Bom Conselho. The taxes enraged him, and he immediately organized a protest. On market day, the population assembled and set fire to the notice boards amid seditious shouts and firecracker explosions. After this auto-da-fé that the authorities could not prevent, he raised his voice and, wise and cool-headed as always, openly incited rebellion against the laws. Aware of the danger that threatened him and his own, he left the city and headed north on the road of Monte-Santo, toward a remote, abandoned region surrounded by steep mountains and insurmountable caatinga, a temporary refuge for bandits.
The events had a certain echo in the capital, city of Salvador, from which a police force departed to stop the rebels, at the time, no more than two hundred people. The squad tracked them down to Massète, a bare, sterile place between Tucano and Cumbe. The thirty well-armed police attacked them violently, certain they’d be victorious in the first assault. But they were facing bold jagunços. The police were beaten and had to hastily get out of there on foot. The commander was the first to give the fine example.
After accomplishing this endeavor, the millenarians were back on the road, accompanying the prophet’s Hegira. No longer looking for populous places, they headed toward the desert. Passing through mountain chains, bare plateaus and sterile plains, they reached Canudos.
It was an old fazenda, a holding situated on the temporary Vaza-Barris river. By 1890, it was abandoned and was used as a resting place. It included about fifty huts made of clay rock and straw.
In 1893, when the apostle arrived, Canudos was in total decay. Everywhere there were abandoned shelters and empty cabins. And at the summit of the spur of Mount Favella, the old residence of the owner was sighted, without a roof and with the walls reduced to ruins.
The community occupied the wastelands, rapidly making them bear fruit. The village developed at an accelerated pace while the disciples coming from the most widespread places settled there in order to live. In the eyes of the inhabitants, it was a sacred place, surrounded by mountains, untarnished by the operations government. Canudos came to know a dizzying growth. Here is what one witness said: “Certain places in this district and others round about, as far away even as the state of Sergipe, became depopulated, so great was the influx of families to Canudos, the site selected by Antonio Conselheiro as the center of his operations. As a result, there was seen offered for sale at the fairs an extraordinary number of horses, cattle, goats, etc., as well as other things such as plots of ground, houses and the like, all to be had for next to nothing, the one burning desire being to sell and lay hold of a little money, and then go share it with the Counselor.”[24]
The land completely covered the hills, the absence of streets and plazas, apart from that of the church, and the great mass of hovels, made a single dwelling place out of it. The village was invisible at a certain distance and, surrounded by the windings of Vaza-Barris, was confused with the terrain itself.
From close-up, one caught sight of an extraordinary labyrinth of narrow passages that poorly divided the chaotic heap of huts from the clay roof.
The dwellings made of straw and stone were composed of three tiny parts: a small waiting room, a room used as a kitchen and dining room and a side alcove hidden by a low, narrow door. There was some furniture: a bench, two or three small stools, cedar chests, hammocks. And there were a few accessories: the bogo or borracha, a leather bag for carrying water; the aió, a bag for carrying game made from carúa[25] fibers. On the floor of the main room, there was a coarse prayer rug. Finally, there were old weapons: the large jacaré[26] knife with a broad sturdy blade, the parna-hyba knife of the look-outs with blades as long as swords, the three-meter goad with the iron point, the hollow club filled with lead, bows, guns — the musket of thin reed loaded with gravel, the larger musket loaded with buckshot, the heavy harquebus capable of shooting stones and horns, the blunderbuss flared like a bell.
Everything was here; the inhabitants of Canudos had no need for anything else.
“The wandering jagunços were here pitching their tents for the last time, on that miraculous heaven-bound pilgrimage of theirs.”[27]
But each of those cabins were at the same time a home and a fortified nook. Canudos was to become the Münster of the sertão and its inhabitants “terrible baptists capable of loading deadly daffodils with rosary beads”.
Canudos generously opened its pantries, filled with gifts and the fruit of common labor, to those in need. Social activity was not directed by anyone; it was self-organized. Only brandy had been prohibited by common agreement. Some were busy with cultivation or tended the flocks of goats, while others kept watch over the surrounding areas. Groups were formed to travel far carrying out expeditions. But all the activity seemed to converge toward the construction of a new church, drawing its meaning from this; this was the common work around which the endeavors were organized. This society, which camped in the desert, was devoted to a sacred mission, considering itself a community, a society that was religious in its essence that gave body to its spirit by building its church stone by stone. The new church was erected at the tip of the plaza in front of the old one. Its greater, massive walls recalled the great walls of fortresses. The rectangular body would have been transfigured by two very high towers, with the audacity of a rough Gothic structure. “The truth is, this admirable temple of the jagunços was possessed of that silent architectural eloquence of which Bossuet speaks.” [28]
A great amount of livestock arrived from Geremoabo, Bom Conselho and Simão Dias. Bands went out from Canudos, going to attack the surrounding territories and sometimes conquering cities. In Bom Conselho, one of these bands took possession of the place, placed it in a state of siege and sent the authorities away, starting with the justice of the peace. Such warlike expeditions alarmed the constituted powers.
The provincial government, and then the federal government, denounced the holy city. It gave an example that was a threat to the state, so much the more so as its notoriety grew. There was a risk that the experiment would spread. It became urgent to wipe the city off the map, to make it disappear in fire and blood, to extirpate it.
Four increasingly impotent expeditions were undertaken against Canudos between 1896 and 1897.
“The cangaceiros would make incursions to the south, the jagunços would make forays to the north, and they would confront each other without uniting forces, being separated by the steep barrier of Paulo Afonso. It was the insurrection in the Monte Santo district which united them; and the Canudos Campaign served to bring together, spontaneously, all these aberrant forces which were hidden away in the backlands.”[29]
Infamous bandits revealed themselves to be formidable strategists. The inhabitants of Canudos made the armies waver.
In October 1896, the first magistrate of Joazeiro telegraphed the governor of Bahia, solicited his intervention with the aim of taking measures to protect the population, so he said, from an attack by the jagunços of Antonio Conselheiro.
On November 4, the governor sent an armed force made up of one hundred soldiers and a doctor under the command of Lieutenant Manuel da Silva Pires Ferreira. On the 19th, they reached Uaúa, a small village on the Vaza-Barris river between Juazeiro and Canudos. At dawn on the 21st, the jagunços brutally attacked them, practically fighting with cold steel against soldiers armed with modern repeating rifles. The rebels lost one hundred and fifty men. The troops counted ten dead and sixteen wounded. The doctor went mad. The troops arranged to retreat to Juazeiro.
Monte Santo today. This Brazilian city of Bahia had strategic importance in the “War of Canudos”, served as the basis for the Brazilian military in time of conflict. – http://www.filmesraros.com
On November 25, an armed force (five hundred forty-three soldiers, fourteen officers, three doctors) with two Krupp cannons and two machine guns, under the command of Commander Febrônio de Brito, left Bahia at the time of the Queimadas. It reached Monte Santo on December 29. On January 12, 1897, it left for Canudos, taking the Cambaio path. On the 18th and 19th, the first battles took place in sight of Canudos as the army crossed the gorge, little blunderbusses against repeating rifles and machine guns. The jagunços attacked suddenly, disappearing to reappear a bit further away. They left many dead on the ground, but inflicted a harsh and unexpected defeat on the army that had to beat a hasty retreat to Monte Santo.
When the government became aware of the disaster that happened during the crossing of the Cambaio, it understood the seriousness of the war in the sertões, all the more so because the fame of Canudos spread throughout the sertão as a consequence of this enterprise.
On February 13, 1897, Colonel Moreira César, well-known throughout the nation, commanded the first regular expedition that embarked from Rio heading for Bahia. On the eighth day, the expedition reached Queimadas with thirteen hundred men and all the necessary equipment. At Monte Santo, they skirted the mountain from the east to arrive at Angico and on the peak of Favela the afternoon of March 2.
Sure of his task, Moreira César launched an assault against the village after a brief bombardment. It was a catastrophe for him and his men. Like a trap, like an immense spider web, like a fish net, the village closed around the army. Every path, every dead end, every turn, every house hid determined people armed with large knives, pikes and blunderbusses. The army was quickly caught in a tragic hand-to-hand battle. It was a disaster that quickly turned into a panic. The famous Colonel Moreira César was fatally wounded. Colonel Tamarindo, who had replaced him, was killed.
“In the meanwhile, the sertanejos were gathering up the spoils. Along the road and in nearby spots weapons and munitions lie strewn, together with pieces of uniforms, military capes and crimson striped trousers, which, standing out against the grey of the caatingas, would have made their wearers too conspicuous as they fled. From which it may be seen that the major portion of the troops not only had thrown away their weapons but had stripped themselves of their clothing as well.
“Thus it was that, midway between ‘Rosario’ and Canudos, the jagunços came to assemble a helter-skelter open-air arsenal; they now had enough and more than enough in the way of arms to satisfy their needs. The Moreira Cesar expedition appeared to have achieved this one objective: that of supplying the enemy with all this equipment, making him a present of all these modern weapons and munitions.
“The jagunços took the four Krupps back to the settlement, their front-line fighters now equipped with formidable Mannlichers and Comblains[30] in place of the ancient, slow-loading muskets. As for the uniforms, belts and military bonnets, anything that had touched the bodies of the cursed soldiery, they would have defiled the epidermis of these consecrated warriors, and so the latter disposed of them in a manner that was both cruel and gruesome…
Brazilian Army soldiers with their rifles model Comblain -http://www.francisco.paula.nom.br
“…the jagunços then collected all the corpses that were lying here and there, decapitated them, and burned the bodies; after which they lined the heads up along both sides of the highway, at regular intervals, with the faces turned toward the road., as if keeping guard. Above these, from the tallest shrubbery, they suspended the remains of the uniforms and equipment, the trousers and multicolored dolmans, the saddles, belts, red-striped kepis, the capes, blankets, canteens, and knapsacks.
“The barren, withered caatinga now blossomed forth with an extravagant-colored flora: the bright red of officers’ stripes, the pale blue of dolmans, set off by the brilliant gleam of shoulder straps and swaying stirrups.
“There is one painful detail that must be added to complete this cruel picture: at one side of the road, impaled on a dried angico[31] bough, loomed the body of Colonel Tamarindo.
“It was a horrible sight. Like a terribly macabre manikin, the drooping corpse, arms and legs swaying in the wind as it hung from the flexible, bending branch, in these desert regions took on the appearance of some demoniac vision. It remained there for a long time
“And when, three months later, a fresh expeditionary force set out for Canudos, this was the scene that greeted their eyes: rows of skulls bleaching along the roadside, with the shreds of one-time uniforms stuck up on the tree branches round about, while over at one side — mute protagonist of a formidable drama — was the dangling specter of the old colonel.”[32]
While in the sertão the epic deeds of Canudos were sung in poems where the undertakings became legendary, in the capital the government was not able to figure it out: Canudos was an impoverished village, not even on the map, and yet it had managed to be a match for entire regiments, putting them in check. The state resorted to inventing tales of political conspiracies, but began to seriously worry. It feared that little known sertão from which men armed for revenge emerged from every province converging on Canudos to join the fight. The university student Euclydes da Cunha wrote about this: “the jagunço… could do only what he did do — that is, combat and combat in a terrible fashion, the nation which, having cast him off for three centuries almost, suddenly sought to raise him to our own state of enlightenment at the point of the bayonet, revealing to him the brilliancy of our civilization in the blinding flash of cannons.”[33]
The resolute men of the sertão had found the place for their struggle: a village of huts with the appearance of a citadel. The state was forced to face the mute and tenacious hostility of those who knew quite well what the nation demanded of them: submission and resignation. Being neither submissive nor resigned, they would not allow themselves to be dominated.
In social war, the principle of war that postulates the annihilation of the enemy knows its most complete application, its conclusion, if you will. What is at stake in wars between nations is complex. It is essentially political, as is the stake in wars of national liberation. It doesn’t necessarily require the annihilation of the enemy. Rather it aims to impose a political will on one’s adversary and to thus create through the tools of war the conditions for negotiating with him. In this case, war is the continuation of politics by other means, as Carl von Klauswitz noted. In the other case, it demands the total and definitive destruction of the enemy. What is at stake is social: the suppression or the maintenance of servitude. There is no middle course.
Note the newspaper “O Paiz”, in Rio de Janeiro, April 8, 1897, on the death of colonel Moreira César
For the insurgent, it is a matter of putting an end to his slavery and there is no compromise possible on such an essential matter. For the master, it is a matter of safeguarding his social position, his privileges, and his status. No consideration external to the war itself is thus able to impede and moderate its violence. It is war in the pure, original state; it is what it originally was, pure negativity.
In a dangerous situation like social war, errors due to hesitation, vacillation and kind-heartedness are precisely the worst of things. Every consideration external to the purpose of the war, the total defeat of the enemy, would be fatal.
Since the use of physical force in one’s interests does not, in fact, exclude the cooperation of intelligence, those who ruthlessly avail themselves of this force without backing away in the face of any bloodshed, any moral restriction will have an advantage over their enemy, if the latter does not act on the same basis.
Violence, or rather physical violence (since moral violence does not exist outside of the concept of the State and Law, whose violence is that of the victor that imposes its will) thus forms the means. The end is overthrowing the enemy.
Social war is absolute brutality that does not tolerate weakness. Ignoring this element because of the repugnance it inspires would be a waste of energy, not to mention a mistake. Showing indecision at a certain point in relation to the predetermined aim means leaving the initiative to the enemy, a mistake for which one will pay quite dearly.
There can be no negotiation. Peace is either the return to slavery or the end of slavery. Whichever it is, it is the destruction of one of two possibilities.
After the defeat of the forces under the command of Colonel Moreira César, the newspaper notes “GAZETTE NEWS”, in Rio de Janeiro, April 10, 1897, comments on the new expedition Brazilian military forces under the command of General Arthur Oscar
On April 5, 1897, General Arthur Oscar organized the forces for the fourth expedition: six brigades in two columns. Battalions were conscripted from throughout the land, for national unity, the sacred union against the internal enemy.
The two columns were supposed to converge on Canudos. The one commanded by Arthur Oscar would go by the Monte-Santo road, while the other, under the command of Savaget, would pass through Jeremoabo, coming together to launch the attack at the end of June. But as they neared Canudos, both encountered some difficulties. Savaget’s column was attacked twice between Cocorobó and Canudos. The losses were heavy, and the general was wounded. “As always, the sertanejos were taking the edge off victory by unaccountably rising up again from the havoc of a lost battle. Beaten, they did not permit themselves to be dislodged. Dislodged at all points, they found shelter elsewhere, at once conquered and menacing, fleeing and slaying as they fled in the manner of the Parthians[34].”[35]
Things got even more serious for General Arthur Oscar, who had reached the peak of Favela that overlooked the village. After a rapid victory to conquer the position, he found himself a prisoner, besieged by those he had just beaten. He had to request aid from the Savaget column. On July 1, the jagunços attacked the encampments, and some tried to reach the “Killer”, the siege cannon (a Witworth 32) that bombed Canudos. They didn’t manage to do this.
The army found itself in a critical situation. Cut off from its supplies, it could neither advance nor retreat. “At the same time the rifle fire all around made it plain to all that this was in truth a siege to which they were being subjected, even though the enemies’ lines in the form of numerous trenches were spread out laxly, in an undefined radius, over the slopes of the hill… The bold and unvarying tactics of the jagunços were nowhere more clearly revealed than in the resistance which he offered even while retreating, as he sought every means of shelter which the terrain afforded… On the one hand were men equipped for war by all the resources of modern industry, materially strong and brutal, as from the mouths of their cannons they hurled tons of steel on the rebels; and on the other hand, were these rude warriors who opposed to all this the masterly stratagems of the backwoodsman. The latter willingly gave their antagonists his meaningless victories, which served merely as a lure; but even as the ‘victor’, after having paved with lead the soil of the caatingas, was unfurling his banners and awakening the desert echoes with his drumbeats, they, not possessing these refinements of civilization, kept time to triumphal hymns with the whines of bullets from their shotguns.”[36]
Two weeks later, supplies managed to arrive and the troops launched an attack on the village. They were defeated with considerable losses. In the army and the government, there was dismay.
High command of the fourth and final expedition in Canudos. In the foreground, from left to right, the generals-Brigadier João Barbosa da Silva, commander of the first column, Artur Oscar de Guimarães Andrade, general-in-chief of the expedition, Carlos Eugênio de Andrade Guimarães, brother of Arthur Oscar and commander of the 2nd column, Major Salvador Pires de Carvalho Aragon, commander of the 5th Police in Bahia, and two officers of the 1st Cavalry regiment. Foto de Flávio de barros, 1897 – http://www.scielo.br
A new brigade, the Girard brigade, was hastily formed in Queimadas, consisting of one thousand forty-two soldiers and sixty-eight officers. It set off on August 3 to supply Arthur Oscar’s army with men and provisions. On the 15th it was attacked and lost ninety-one blockheads, for which it earned the mocking epithet, the nice brigade.
The government now understood that it was no longer a question of making an assault against a village, but of organizing a genuine military campaign of several weeks, if not several months, with the aim of completely surrounding it. It understood that the war would be long and hard and that it needed to supply itself with the necessary tools.
Marshall Bittencourt was put in charge of the campaign. Two supplementary brigades arrived from Bahia and formed a division. A regular convoy service for Monte-Santo was organized. The army no longer risked being cut off from its rear and could thus be installed in a trench war. The long strangulation of Canudos had begun.
On September 7, Calumby road was opened, allowing the siege to come together.
The fighting resumed more fiercely around Canudos. The inhabitants discovered the spirit of initiative. With an astonishing outflanking maneuver, the skirmishes reached all the enemy’s positions, striking the entire front line, trench by trench.
At a single stroke, they unexpectedly got past every point of the front. They were beaten and driven back. Then they launched themselves against the nearest trenches. Again beaten and pushed back, they directed themselves against those that followed and went on this way. Even though unsuccessful, their assaults were unremitting, forming an immense ring-around-the-rosy dance before the troops.
“Those who, only the day before, had looked with disdain upon this adversary burrowing in his mud huts, were now filled with astonishment, and as in the evil days of old, but still more intensely now, they felt the sudden strangling grip of fear. No more displays of foolhardy courage. An order was issued that the bugles should no longer be sounded, the only feasible call to arms being that which the foe himself so eloquently gave….
“In short, the situation had suddenly become unnatural….
“The battle was feverishly approaching a decisive climax, one that was to put an end to the conflict. Yet this stupendous show of resistance on the part of the enemy made cowards of the victors.”[37]
A Jagunço captured by soldiers of the Brazilian army. This and other warriors who defended Canudos, after being captured were summarily executed by beheading. Photo of Flávio de Barros – http://www.scielo.br
The troops tried to reinforce the encirclement penetrating step by step into the interior of the village, but they met with a fierce resistance that thwarted their advance. Furthermore, the jagunços fell back, but did not run away. They remained nearby, a few steps away, in the next room of the same house, separated from their enemies by a few centimeters of pressed earth. There wasn’t much space in the village. This caused those who wanted to preserve themselves and who put up an increasing resistance to the soldiers by crowding them to gather in the hovels. Though they gave up on some things, they reserved quite different surprises for the victors. The cunning of the sertanejo made itself felt. Even in their most tragic moment, they would never accept defeat. Far from being satisfied with resisting to the death, they would challenge the enemy by taking the offensive.
On the night of September 26, the jagunços violently attacked four times. On the 27th, eighteen times. The next day, they didn’t respond to morning and afternoon bombings, but attacked from six o’clock in the evening until five the next morning.
24th Infantry Battalion. Commanded by major Henrique José de Magalhães, this battalion was originally from Rio de Janeiro. Reached the combat zone on August 15 with 27 officers and 398 enlisted personnel. Participated in the assault on the citadel of Canudos on the first day of October manning the front trench, line the rear of the command and general hospital. Photo by Flávio de Barros after the end of fighting, against the backdrop of the ruins of the old church – http://www.scielo.br
On October 1, 1897, an intensive bombing of the last hotbed of resistance began. A decisively cleaned-up terrain was needed for the assault. The assault had to happen at in a single strike, at the charge, with only one concern, the ruins.
No projectile was wasted. The last bit of Canudos was inexorably turned inside out, house by house, from one end to the other. Everything was completely devastated by the heavy artillery fire. The last jagunços suffered the ceaseless bombardment in all its destructive violence.
But no one was seen fleeing; there wasn’t the least agitation.
And when the final strike was shot, the inexplicable quiet of the destroyed countryside could have made one think that it was deserted, as if the population had miraculously escaped during the night.
The attack began. The battalions took off from three points to converge at the new church. They didn’t get far. The jagunços followed their attackers step by step and suddenly came back to life in a surprising and victorious way like always.
Corpses in the ruins of Canudos. Photo of Flávio de Barros – http://www.scielo.br
All the pre-established tactical movements were changed, and instead of converging on the church, the brigades were stopped, fragmented and dispersed among the ruins. The sertanejos remained invisible. Not a single one appeared or tried to pass through the plaza.
This failure resembled a rout, since the attackers were stopped and found themselves facing unexpected resistance. They took shelter in the trenches and finally got out of the fix by limiting themselves to a merely defensive strategy. Then the jagunços came out of the smoking huts and unleashed an attack in their turn, swooping down on the soldiers.
There was an urgent need to expand the original attack. Ninety dynamite bombs were launched against those who remained in Canudos. The vibrations produced fissures that crisscrossed over the ground like seismic waves. Walls collapsed. Many roofs fell to pieces. A vast accumulation of black powder made the air unbreathable. It seemed as though everything had vanished. In fact, it was the complete dismantling of what was left of the “sacred city”.
The battalions waited for the cyclone of flames to die down before launching the final attack.
But it wasn’t to be. On the contrary, a sudden withdrawal took place. No one knows how, but from the flaming ruins, gunfire poured out, and the attackers ran for shelter on all sides, mostly withdrawing back behind their trenches.
Without trying to hide, jumping over fires and those roofs that remained standing, the last defenders of Canudos leapt out. They launched an assault of wild audacity, going to kill the enemy in their trenches. These enemies felt their lack. They lost courage. Unity of command and unity of action dissolved. Their losses were now heavy.
In the foreground, a typical house of the place. Photo Flávio de Barros – http://www.passeiweb.com
In the end, at about two o’clock in the afternoon, the soldiers fell back in defense, tasting defeat.
But the sertanejos’ situation had gotten worse, since they were blockaded in such a reduced space.
Nonetheless, at dawn on October 2, the weary “victors” saw the day emerging under a heavy burst of gunfire that seemed like a challenge.
In the course of the day, taking advantage of a truce, three hundred people asked to surrender, but much to the chagrin of the military authorities they were just exhausted women, very young or wounded children and sick old people, all those who could no longer hold a weapon. They were slaughtered the following night (“And words being what they are, what comment should we make on the fact that, from the morning of the third on, nothing more was to be seen of the able-bodied prisoners who had been rounded up the day before…”[38]).
To tell the truth, there were no prisoners. All the wounded jagunços who fell into the soldiers’ clutches were finished off a bit later with cold steel.
“There is no need of relating what happened on October 3 and 4. From day to day the struggle had been losing its military character, and it ended by degenerating completely…. One thing only they knew, and that was that the jagunços would not be able to hold out for many hours. Some soldiers had gone up to the edge of the enemy’s last stronghold and there had taken in the situation at a glance. It was incredible. In as quadrangle trench of a little more than a yard in depth, alongside the new church, a score of fighting men, weak from hunger and frightful to behold, were preparing themselves for a dreadful form of suicide… a dozen dying men, their fingers clenched on the trigger for one last time, were destined to fight an army.
“And fight they did, with the advantage relatively on their side still. At least they succeed in halting their adversaries. Any of the latter who came too near remained there to help fill that sinister trench with bloody mangled bodies…
“Let us bring this book to a close.
“Canudos did not surrender. The only case of its kind in history, it held out to the last man. Conquered inch by inch, in the literal meaning of the words, it fell on October 5, toward dusk — when its last defenders fell, dying, every man of them. There were only four of them left: an old man, two other full-grown men, and a child, facing a furiously raging army of five thousand soldiers…
“The settlement fell on the fifth. On the sixth they completed the work of destroying and dismantling the houses — 5,200 of them by careful count.”[39]
Once again the law of the Republic ruled over the sertão. Thus, the heroic epic of Canudos came to an end. An adventure full of humanity that perished in sound and fury. Canudos, the empire of Belo Monte, was not defeated; it vanished together with the last one killed. It was annihilated.
In those days, in the province of Ceara, a vast, religiously inspired social reform movement developed under the guidance of Father Cicero. This movement experienced a less tragic end, because Father Cicero knew how to navigate his way with authority among the political components of the region, with full respect for the state and property, a compromise before power that assured him not only impunity, but a position recognized and respected by all.
This movement was of a more priestly rather than blatantly messianic inspiration. The spirit of Catholicism in both its political and social sense animated the movement more than the spirit of millenarianism, which is purely social and has nothing to do with politics. It intended to rediscover the pattern of the primitive Church: devoting political means to a social mission.
Padre Cicero had exceptional prestige. He was the only Brazilian messiah to belong to the clergy. All the others were lay people who were carried into divine service by vocation, but never took holy orders. He was sent into the hamlet of Juazeiro in 1870, in the early days of his ministry, and traveled throughout the region preaching. After this period of Franciscan poverty, he started to animate social activity around Juazeiro with an ideal of peace according to which the interests of all were supposed to prevail over particular interests, the source of quarrels and conflicts. He had managed to convince small property owners and peasants to stop living on their land and instead move to the village, near to him. In the morning they went to work in the fields, and in the evening they came back.
A traffic of pilgrims began in Juazeiro. They came to ask the blessing and counsel of Padre Cicero.
Photo from the 1920s, showing the center of Juazeiro in the state of Ceará – http://www.cidadejua.com
In 1889, when the Republic was proclaimed, Padre Cicero reacted in his way by carrying out his first miracles, which consolidated his position and prestige. The republican state didn’t dare to provoke hostilities and tolerated this movement that criticized the bourgeois spirit without criticizing the state. Pilgrims became increasingly numerous. Many settled in the holy city of Juazeiro where they found protection with the “little father”. The Church was disturbed by this and tried to put an end to the turbulence which it considered dangerous. It ordered Padre Cicero not to say mass or preach anymore, but it could not force him to leave Juazeiro. It was afraid that his followers would mobilize to defend him, something that must be avoided at all costs.
Padre Cicero had allies among local political leaders. His prestige, his influence, the progressive electoral force he had available to him, pushed him to strengthen his growing political authority by getting himself elected as municipal prefect.
In 1914, the victory of enemies made his relations with the provincial government difficult. The “little father” then called his followers to holy war against the provincial government that represented the Antichrist. God wanted it to be overthrown so that perfect happiness without shadow could reign on earth. These incitements to struggle caused troops to be sent against the New Jerusalem. But unlike the Counselor, Father Cicero enjoyed important political support in the capital of Brazil; and besides, above all, this insurrection was limited to political goals and didn’t have the ambition of overthrowing the constituted order. The prophet’s followers, with federal complicity, triumphed over the forces deployed against them and placed the provincial capital under siege, putting the governor to flight. The victorious Padre Cicero officially became the vice-governor of the state of Ceara.
In the picture we see men who fought the forces of Father Cicero, against the troops of the governor of the state of Ceará in 1914 – http://pt.wikipedia.org
In a world shattered by the continuous warfare that raged among the great families and for which the poor unfailingly paid the price, Father Cicero could institute a more peaceful society, thus improving the tragic situation of those who had nothing. He was able to do so, because he spoke in the name of the highest authority, divine authority. In this way, he put himself above the fray, beyond the local quarrels, the only way to be heard by all. In a world increasingly dominated by selfish interests, only religion could unite, at least in appearance, what was separated in deed. In sermons, Father Cicero reproached the “small” and the “great”, because they did not live according to the divine laws of charity, mutual aid and the forgiveness of offenses. He was thus able to put an end, at least temporarily, to the hostilities between families, to blot out discord, to renew alliances, to become the arbitrator of disputes, the indisputable and undisputed master of the region, the “little father”.
His movement had a conscious function of social reform. The followers made donations to the messiah that served to form a common fund to provide for the needs of the sick, widows and orphans, to buy land, to finance enterprises (Juazeiro, a small hamlet in 1870, would become the second city of the province under the stimulus of the prophet, with 70,000 in habitants). But it also had a guardian ship function for the existing system: the ideal of fraternity and equality was rigorously understood as fraternity and equality in faith and before god.
When Canudos defended its freedom with arms in 1896–1897, some men left Juazeiro to go to the aid of the commune of Monte-Santo, but the entire city didn’t rise up. And yet, at that time, an insurrection in Juazeiro would have absolutely meant the greatest danger for the Republic, which furthermore was very careful not to challenge it. The state would have found itself forced to conduct a war on two fronts. Considering the tremendous difficulty that it encountered in getting the best of the rebels of Canudos, one could legitimately ask what it would have been able to do in the face of an insurrection of the entire northeast, a thing that would certainly have happened if the movement in Juazeiro had committed itself to that struggle.
In the final analysis, in a period disturbed by increasingly bitter rivalry between particular interests, Father Cicero brought social peace. This allowed the poor of the region, along with those who came from the coast, to breathe, to relax and to rediscover with him, if not the hope of a new life, at least that of a better life.
After his death in 1934, various messianic movements developed in the sertão. Most of them were immediately stopped by the action of the local authorities, unless they learned to follow the example of Father Cicero and come to terms with the politicians of the region. This was the case of Pedro Batista de Silva’s movement in Bahia. He succeeded in making the Santa Brígida precinct, where he established his messianic community and over which he ruled with uncontested authority, rise in the ranks of city hall.
This was not the case of the blessed Lourenço’s movement, which lasted from 1934 to 1938 and ended tragically.
In the image of the “warrior saint” Antonio Conselheiro, the blessed Lourenço founded a colony similar to Canudos in the plain of Araripe, also fully within the sertão. Here again, the poor who no longer wanted to submit to being slaves occupied the land, establishing a kind of primitive communism, a phalanstery. Everything produced was held in common. This scandalous practice that openly challenged the big property owners by violating or, worse, ignoring the laws of private property (sacred laws that established the social authority of the possessors) would rouse the almost immediate reaction of the united forces of the constituted order. The sertanejos took up arms, scythes against cannons as in Canudos, resisting to the death. They were all slaughtered after a fierce and relentless battle, but it was too unequal. After a short time, the law of the Republic again ruled over the sertão.
In 1938, the blessed Lourenço’s movement ended in a bloodbath. It was the last revolutionary messianic movement. On July 28 of the same year, Lampião was killed with some compadres at Angico. His death would be the death-blow inflicted on cangaceirismo. The police would easily manage to get the better of the last scattered, unsettled little groups that lacked protection or complicity. The slaughter would be brutal.
The cangaceiro was the social bandit of the northeast of Brazil and the cangaço was his band. The cangaceiro avenged himself for a humiliation, an injustice, for the blackmail imposed by a “colonel” or the police, for the murder of a relative. He then decided to exclude himself from society and go into hiding by uniting with an already existing band, a band that would allow him to survive through organized theft and escape the police forces that were hunting for him.
An avenger more than a righter of wrongs, the cangaceiro embodied generalized rebellion against the whole social order.
The cangaceiro bands that traveled around the northeast at the end of the 19th and the beginning of the 20th century stood side by side with the millenarian movements. In both equally, we find the same contempt for property and thus for the law, the same taste for wealth, the same generosity, the same challenge launched against the state and its cops, the same fierce determination, the same fighting spirit, the same fury. The boundary between the two was faint when not non-existent, and the passage in either direction was easy. We know of famous bandits, seduced by the prophecies of the Conselheiro, who participated in the founding of Canudos or rushed to defend it, bringing their skills and experience. Lampião thought so highly of Father Cicero’s movement that he always avoided the province of Ceará in the course of the raids.
In both cases, the same people were involved.
“From a very early age,” the university student Euclydes da Cunha wrote, “the inhabitant of the sertão regarded life from his turbulent viewpoint and understood that he was destined for a struggle without respite that urgently demanded the convergence of all his energies… always ready for a conflict where he wouldn’t be victorious, but he wouldn’t be conquered.” It probably wasn’t the nature of the northeast that molded the fierce character of these people; but they were truly indomitable people who preferred death to slavery. They were always quick to defend their freedom, the idea they had of man, a certain vision of wealth, with the greatest vigor and boldness. They stood against the entire world; and from all sides, they were destined to a struggle without respite that urgently demanded the convergence of all their energies, to a war in which they would not allow themselves to be conquered.
Millenarians or cangaceiros, they were cowhands, sharecroppers, mule drivers. They were part of the rural society that was continually threatened in its existence and substantially in its freedom. They had been produced by it. They not only found a real complicity in this society, but they also expressed its deepest aspirations.
All in all, very little differentiates the two groups. The millenarians were carriers of a positive social project, but it had a religious essence, while the cangaceiros were carriers of a purely negative social project that was not religious in its essence.
United around a prophet through faith in the imminent arrival of the Millennium, through the same aspiration for a new life, the Brazilian millenarians formed a spiritual community that intended to organize itself in expectation of the final event, preparing for it. This messianic community did not have the ambition of realizing the Millennium itself, but it did already oppose the spirit of the existing world in a radical way by recognizing itself in the community of a future world. It carried within itself a positive social project that essentially remained religious; it formed the idea of a society not yet realized and whose realization did not belong to it. It was the premonitionof this new society.
The cangaceiros recognized themselves in a simple idea, revenge, the realization of which touched them directly. They formed a warrior community whose social project (revenge is, indeed, a social project) was absolutely negative and for the most part completely personal. Each one had his revenge to carry out. It belonged to her and related to a given person or, more generally, a given family. And he intended to bring it to a good end, if he had not already done so. The entire constituted order was opposed to her revenge. By carrying it out, the cangaceiro challenged the entire society.
The cangaceiro did not criticize the society in which she lived, but the goal she pursued made him a rebel. The millenarians didn’t seek to avenge themselves or, more precisely, the hour of vengeance did not belong to them, since it was up to God or a supernatural being like king Dom Sebastião, but they criticized society. Thus, it was almost inevitable that they would meet, as they did, in fact, in Canudos. The state arranged to transform a spiritual community into a warrior community and an individual in search of revenge into a social bandit.
Members of the elite of a city in northeastern Brazil, during the visit of a high dignitary of the Catholic church. The most prominent members of this select group were known as “colonels” – https://tokdehistoria.wordpress.com
The insult that the cangaceiro had to erase came both from an individual and from the society that supported that individual, that was his accomplice. The offense didn’t come from an isolated individual, from one’s likes — in those days, settling such an insult would not have been a problem — but from a social authority. It could be an insult from a “colonel” or someone in his circle, which amounts to the same thing. The offense came from a fazendeiro who was invested with both a social authority as a large property holder and a political authority as a representative of the state in the region. The vengeance of the cangaceiro, in fact, was a social vengeance. Carrying it out didn’t just mean confronting an individual, but also the state that stood behind him.
The cangaceiro made his own justice toward and against the state, which always stood on the side of the one who offended him. His inalienable and universal right as a free individual came into conflict with the objective Right of the state, the substance of which is revealed precisely in forcing the individual to alienate her universal and immediate right to freedom.
“It is enough that the I as free being am alive in the flesh, because it is prohibited to degrade this living existence to the rank of pack animal. While I live, my mind (which is concept and also freedom) and body are not separate; this constitutes the existence of freedom, and it is in this that I experience it. It is a sophistic concept without idea that makes the distinction according to which the thing in itself, the mind — and even the idea of it — , is not struck when the body is abused and when the existence of the person is subjugated to another’s power.”[40]
Groups of officers who hunted the bandits were known as “Volantes”. These men used uniforms very similar clothes worn by bandits. The reason was the need to protect the vegetation typical of dry region of Northeast Brazil, very thorny and known as “Caatinga” – https://tokdehistoria.wordpress.com
By avenging himself, the sertanejo realized his idea that all human beings were equal in their humanity; he became effectively free, for himself and for others. For him, this passage of the idea into concreteness corresponded to the passage into clandestinity. He abandoned an abstract civil existence that suddenly appeared for what it was, a servile existence. Thus, he became a cangaceiro.
Freedom is a risk to take. Suffering an insult without reacting means submitting to the power of another, falling into slavery. This corresponds to a person’s social death, to which she can respond only with the master’s death.
Faced with an essentially human reaction, the academics of our times, like Josué de Castro[41], go so far as to even speak of a nutritional deficiency to explain the rebellion of the cangaceiros or the millenarians, and talk of flight when they should confront the state and the world. Who knows, maybe in referring to these academics, one could have spoken of a chronic deficiency of the most elementary intelligence of human practices.
The sertanejos possessed this intelligence, recognizing themselves in the cangaceiros and appreciating them as courageous human beings who preferred to put their lives at stake than to die as slaves. The fact is that from one moment to the next any sertanejo might have been forced to go into hiding for similar reasons. These people were on the verge of slavery. Their existence as free human beings ceaselessly threatened to collapse into submission, to fall or return into slavery. They were always ones who lived and reacted in haste.
In June 1927, Lampião attacks the town of Mossoró, in state of Rio Grande do Norte. After this attack took place this photo in the city of Limoeiro, in the state of Ceará. You can see some hostages – http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br
The cangaceiro showed through his actions that even the poor could become terrifying. Feared and admired, a cruel hero and a bandit with a big heart, he quickly became a mythical figure of the sertão.
In the cangaceiros’ heroic deeds, it is difficult to distinguish legend from reality. The testimonies, the depositions, the poetry, the stories and the news articles accumulated and contradicted each other. Reality itself, in which shameful self-interest, betrayal and complicity, boldness and deceit were mixed, was not only complex and contradictory, but already legendary. With the cangaceiros, reality had been pierced by an idea. It belonged to an epic poem.
In the 19th century, starting from Brazil’s independence, social banditry spread within the country, reaching its peak at the proclamation of the Republic. Then it took on the traits of modern cangaceirismo, which would reach its culmination in Lampião in the 1930s.
At the beginning of the 20th century, two figures stood out: Antonio Silvino and Sebastião (Sinhô) Pereira, with whom Virgulino Ferreira, the future Lampião, took his first steps. Legend has presented them to us as especially good and generous, in the style of social bandits like Robin Hood. Antonio Silvino was captured in 1914 and sentenced to thirty years in prison. He was released after twenty years. Sinhô Pereira withdrew into “public life”.
Virgulino (Lampião) was born in 1897 in a small village in the province of Pernambuco, where his father was a sharecropper on a small plot of land and also a mule driver. One day, a detachment of the police, whose commander was linked to a hostile family, slaughtered the old man and the mother.
Virgulino and his brothers burned the mourning clothes in the barnyard and swore that from that moment on they would no longer carry on mourning, but would rather carry the gun. The sisters were entrusted to the youngest of them while the others went into hiding. But finding themselves in an extremely precarious and uncertain situation, after a few victorious conflicts with the military police, they united with Sinhô Pereira’s cangaço.
In this photo we see sitting Sinhô Pereira, the first head of the Lampião. Beside him is his cousin Luiz Padre. These two famous outlaws fought many battles in the state of Pernambuco – http://cariricangaco.blogspot.com.br
One of Lampião’s first endeavors was the murder of “colonel” Gonzaga, director of the Belmonte police in the state of Pernambuco. The man was killed with his entire family, and even the goats and chickens in the barnyard were slaughtered. In the end, Lampião removed the wedding ring from the corpse, put it on his finger and didn’t take it off again until his final day.
When Sinhô Pereira retired in 1922 (this could happen when one could count on the implicit blessing of Father Cicero), Virgulino became the indisputable leader of the band. Though he went on to become the most celebrated of the cangaceiros, he would also be the last. Lampião wrote the final chapter of a history.
His nickname, Lampião (lamp, lantern), came to him from one of his early battles. In the course of a nocturnal ambush, he had taken to firing so quickly that it lit up the night.
For nearly twenty years, throughout the sertão, Lampião would wander from one province to another over an immense landscape, appearing in an unpredictable manner, scrambling his trails, always turning conflicts with the police to his own advantage.
“Let’s leave civilians in peace. Against police and traitors: FIRE!”
The blows were frequently struck by small groups commanded by the best men, while the leader controlled everything. Sometimes the entire band took part in genuine war expeditions. Lampião studied routes, sought to discover where there were concentrations of money, followed the movements of the “flying squads”. He was considered a “modern” bandit and used strategy and tactics most skillfully.
The band stayed hidden for long periods in a safe place, a forest, an inaccessible mountain chain, a desert oasis or the fazenda of a friend. The people only moved in small groups to resupply ammunition, a very difficult enterprise, to deliver messages demanding money and to buy food and other things. They moved in a limited radius, just a dozen people with a guide, if need be; the round lasted a week at the longest. At times, if the situation became too hot, the band literally disappeared without leaving a trace, deliberately spreading news and signals that confused the trails and making the police and beaters go crazy. Then the cangaceiros rested and recovered from the fatigue of their latest endeavors, preparing the next ones with high spirits.[42]
Expeditions lasted several months and could cover several northeastern provinces. Lampião extorted money from the rich property owners, villages and sometimes cities of a certain significance. He presented himself with his band, receiving the money collected from the rich, merchants and property owners directly from the local authorities. In some cases, he visited the school while the men sat in the plaza of the church, then usually everything ended with a banquet followed by dancing. The feast started with great binges of overflowing glasses of a brandy called “a testarda” (“the stubborn woman”). Poetic challenges were launched where the best bards confronted each other, while encounters came together and dissolved… In the night, the troop took off singing their story to the tune of “Mulher Rendeira”.
Olé, mulher rendeira Olé, mulher renda Tu me ensina a fazer renda, Eu te ensino a namorar!
Sometimes things went badly. For example, during the attack on Inharéma (sic) in Paraíba. The cangaceiros did not succeed in taking the center of the town. That time, mad with rage, they retreated, destroying, looting and burning everything that they found in their path.
“Upon returning to the state of Pernambuco at the end of 1925, Lampião occupied the city of Custódia, but in the most peaceful manner in the world. The bandits spent the day passing through the streets. Everyone paid for his purchases. All around the area sentries kept watch. Lampião extorted a few rich bastards, bought provisions, medicine and ammunition. The tailor made clothing for him, finishing it the same day, as promised, and was paid handsomely for it. Lampião sent a telegram to the state’s governor, telling of all the colors, but he didn’t pay for this on the pretext that the telegraph was a ‘public’ service. The police detachment, having disappeared at the first alarm, gave no signs of life.”
At Carnaíba de Flores, he surrounded the city and delivered a threatening message: if the sum requested was not handed over, he would set fire to the village and slaughter everyone. The sum was considerable, but not excessive, and so the village notables immediately began to make a collection. But suddenly a very large, unexpected “flying squad” brigade appeared, and the cangaceiros, warned by their sentries, prudently withdrew. Afterwards, the band presented themselves again without warning, took the dialogue that had been interrupted a few months earlier back up and obtained satisfaction.
An episode that was well-known and widely talked about due to the rank of the victim was the attack against the fazenda of a very rich aristocrat, the baroness of Água Branca. Though he didn’t touch the jewelry the lady wore, Lampião plundered the rest, pins, rings, bracelets, necklaces, precious stones and other objects of gold, among which was a golden chain that he later gave to his partner Maria Bonita. She wore it until her death, after which it ended up in the pocket of some soldier or officer.
Thus, Lampião unfailingly walked his road, devouring mile after mile of the sertão.[43]
In 1926, he met Father Cicero in the holy city of Juazeiro. Along with the title of captain, he received modern armaments and ammunition from the government. He was supposed to go fight the Prestes column (Luís Carlos Prestes would later become the secretary general of the Brazilian Communist Party) that had been formed following the failed coup d’etat of the democratic officers and that had undertaken a long march through Brazil. Lampião accepted the priest’s blessing, the title of captain and the arms, but took care not to attack the Prestes column, since he didn’t consider it his affair.
Photo of the leaders of the insurgent group known as “Prestes Column”. This group was led by the Brazilian Army captain Luís Carlos Prestes, who fought against the government structure that existed in Brazil in the latter half of the 1920s. http://rotadosolce.blogspot.com.br
In June 1927, Lampião set a course for an important city, Mossoró, which was even richer than the others, in the state of Rio Grande do Norte. He communicated that he demanded a high ransom. As his whole response, the prefect sent him a package containing one rifle shell. The “captain” was enraged. In one village, the cangaceiros threw a merchant onto the pavement, distributing his pieces of cloth to the poor. In others, they pulverized all that came within range. It was a technique of terror.
In the end, the cangaceiros divided into four groups and attacked the city. But Mossoró and its police expected them. Lampião underestimated the enemy and found himself at a disadvantage. Always a realist, he sounded the retreat and the one hundred fifty bandits fell back in perfect order. The loss was minor. The cangaceiros made neighboring cities pay dearly for the defeat. Lootings multiplied. But they didn’t linger in Rio Grande do Norte, which had a terrain that was hostile to them (extensive plains without mountains or forest). Furthermore, that adventure had at least brought them a large amount of loot. Therefore, Lampião coined a maxim: if there is more than one church in a city, it is best to leave it in peace.
During more than twenty years of struggle, Lampião made news in several newspapers, like this 1926
During the return journey to the state of Pernambuco, his most violent conflict with the police occurred; ninety-six cangaceiros against more than two hundred fifty macacos. Lampião, sure of his chances, launched himself furiously into a struggle that to all appearances should have been fatal to him. The men were divided into three groups, and the battle ended with the defeat of the state troops who, despite their machine gun, left more than twenty dead on the ground and carried away about thirty wounded. The losses on the side of the cangaceiros were minimal. Sometimes an act identical to a thousand others becomes a legend, but a witness has reported that he saw it with his own eyes.
So one passes from one year into another, from one state into another, recalling an adventure, a name, an anecdote or even a mere gesture.[44]
Terrifying and magnificent with their leather hats shaped like half moons and decorated with a profusion of medals, silver and gold coins, collar buttons, jewels, rings, in a barbaric and prestigious luxury.
The bandolier of the rifle also overflowed with an infinity of buttons and medals. Pistols and revolvers had holsters of worked and decorated leather, like the belts. Even their saddlebags were richly embellished. The unfailing sharp dagger, about twenty-five to thirty inches long, that was the accessory of the true cangaceiro was slid into its inlaid sheath. They were the incarnation of the mythical warrior, the Avenger.
They arrived suddenly. They emerged from the desert, there where they were no longer expected, to vanish as if by magic into the endless expanse of the sertão. In the villages they passed through, they opened the doors of the prisons and the strongboxes of the rich. They seemed to possess the gift of ubiquity. Omnipresent, they escaped police forces as if by magic, the body impermeable to bullets, death and misfortune.
“He takes from the rich to give to the poor” — so it was said of the cangaceiro. In fact, the cangaceiros lived abundantly: always ready for battle, but dissipating the fruits of their robbery in feasts, richly decorated clothes, thousands of acts of generosity that they dispensed around themselves. With their behavior in the face of wealth, they were the exact opposite of the great local property owners. The wealth that the latter had accumulated, the cangaceiros distributed anew. The big landowners conceived of wealth only as private goods, which excluded others, impoverishing them. The cangaceiros, by consuming what they had taken, made everyone participants in the luxury.
Whereas in the ancient “feudal system”, power came from conquest, now it is increasingly based on money. The cangaceiros represented the power that despises money. Expending their dough in purchases paid for without haggling, in banquets and in gifts was a question of honor for them.
If the state guaranteed the power of the “colonels” and the right to property, actually the right to exploit other people’s labor, the cangaceiros seemed to revive the tradition of the bandeirantes, whose great and tireless warrior caravans followed one another in the conquest of the northeast. “Far from the coast, where metropolitan decadence was found, the bandeirantes, profiting from extreme territories such as Pernambuco in Amazônia, seemed to belong to a different race due to their reckless courage and resistance to adversity.”[45]
While the “prestige” of the fazendeiro was based exclusively on exploitation, the cangaceiro rekindled the spirit of conquest. He had gained the money that he dispensed so generously by risking his life, robbing the rich and powerful who were loathed but feared by all.
In the 1930s, the state felt the necessity to reinforce its control over the entire northeast and to completely pacify that vast region far from central power. The reorganization of the police, the institution of checkpoints, the use of radio and telephone, the introduction of more efficient instruments, the development of roads and means of transportation; a vast apparatus was put into action to liquidate banditry. Repression intensified.
Not by chance, during the last years, Lampião remained hidden most of the time. The ranks had diminished. Ammunition had become increasingly dear and almost unfindable. Toward the end, only fifty-five men remained, and when any action was carried out, it almost always occurred in small groups.
Cangaceiro known as “Zeppelin” and his fighting material. In this type of fighting in northeastern Brazil, it was normal for the police to cut the heads of cangaceiros and photographing. This macabre practice was used to present to senior officers and other authorities the result of the fighting.
Specifically, a betrayal caused Lampião’s end.
On July 28, 1938, he was poisoned in Angico, in the state of Sergipe, with some men and his partner Maria Bonita. His “compadre” Corisco’s revenge was terrible. He massacred the entire family of the traitor, who was enrolled directly in the military police.
Corisco’s history was that of all his comrades: revenge and flight. He had been drafted into the army and then deserted. Also a victim of injustice and abuse, he was furthermore humiliated to the point of being trampled by a police deputy. He entered the cangaço. He quickly became the best cangaceiro after Lampião. He managed to find the police who had humiliated again, took the deputy by the feet, ran him through, and inflicted a number of cuts on him with the dagger, making him bleed slowly like a pig.
After Lampião’s death, Corisco continued to scour the countryside with his men for nearly two years. In March of 1940, in a small village of the caatinga of Bahia, surrounded together with his partner Dadá by the macacos (who also had a machine gun), he refused to surrender. He died almost an hour later.
That was the end.
The cangaceiro gave evidence in himself of the possibility of shaking off the yoke of oppression, which is neither invincible nor eternal. Judgment can always fall, unexpected, upon the rich and powerful. The cangaceiro only caused the pieces to be put back in play, also showing that the struggle is pitiless and that freedom must be conquered. The cangaceiro was energy directed toward a new form of life. All things considered, the cangaceiro was the revolution.
This epic poem has been sung at fairs and feasts where poems are improvised. This one tells of the Arrival of Lampião in Hell:
There was great damage In hell that day. All the money that Satan Possessed was burned. The registry of control and more than six hundred million cruzeiros Of merchandise alone Were burned.
Starting in 1940, the northeast territory was completely pacified. Order was maintained through terror. The northeast was under armed occupation, even if it wasn’t under ideological occupation.
It was not always this way. This omnipresence of the state generated the sleep of the Mind, a true nightmare for the poor. It prohibited any discussion about the world. The idea of the state was beyond any critique; the world had become a fatality.
The Brazilian messianic movements, on the other hand, had developed at a time when discussion was still possible. For nearly century in that distant region, the poor had debated about the world.
The anthropologist Lanternari
The historical or human dimension seem to be absent both in Vittorio Lanternari’s interpretation[46], which sees in them a reaction of oppressed people that “attempts to escape an oppressive situation that holds the entire society in subjection”, and in Pereira de Queiroz’s interpretation[47], that, contrarily, notes an aspiration to order in a society in which “a freedom that is much too great reigns, a freedom that degenerates into licentiousness.”
The historical conditions that controlled the development of these movements are comparable to those that we encountered at the end of the Middle Ages in the west: a social organization that has become archaic is decomposing while a new social order is progressively established. The world debates about the world: the mercantile spirit versus the feudal spirit. The poor participated in their own way in the debate. They didn’t want to hear about either one, especially not the mercantile spirit, of the world that will be. For them it wasn’t a question of choosing between the past and the future; they weren’t paid by the state like sociologists or historians. Much more simply, it’s a matter of implacably resisting the bourgeois spirit, not because this overturns their customs, but because it is completely opposed to the idea that they developed of a human society. This is an excellent reason! They really struggled against progress, progress in the world of capitalist thought.
Thus they initiated in practice a debate of ideas between their social project and the social project of capital; between the idea they have of a human social practice and money as social practice.
The millenarian movements of the medieval era were at the center of a historical mutation from feudal to mercantile society. This mutation was already completed almost everywhere in the world when the Brazilian movements appeared. It was as if they found themselves at the historical edge of the mutation, a situation that explains their purely messianic character. They were expecting a cosmic upheaval, the hour of god’s vengeance was supposed to arrive at any moment. For the most radical medieval millenarians, the hour had come to accomplish that upheaval; with god’s help, they participated actively in the earthly realization of the Millennium, whereas the Brazilian messianic movements could only prepare for it.
The millenarian insurrections of medieval Europe had to confront an old and new principle. They were immediately critical in the face of the Church and Money. The fact is that the Church was a historical tradition and Money was a historical novelty. The society of northeast Brazil was religious in essence, but the Church had few roots there. As to the bourgeoisie, they were nonexistent. The poor wouldn’t have entered into direct conflict with the Church or merchants. They would have risen up against a mentality that insinuated itself into society, transforming minds. When conflict broke out, it was immediately against the state.
The messianic movements developed in a region that still did not know modern conditions of exploitation; an arid, often desert-like region that didn’t interest either the big merchants or industrialists. The wageworker was practically unknown there. But this area was surrounded by the modern world and modern mentality. To the south, the capitalist point of view had been imposed since the beginning of the previous century with the great coffee plantations. This monoculture addressed itself solely to exportation; it was completely dependent on the laws of competition, from the international market and stock market speculation. It required a modern organization of work, an industrial discipline. It constituted this social control by itself. It was its essence, because it created the conditions of an absolute dependence on money in practice. To the east, the seacoast, which had been employed in mercantile exchange with the metropolis from the start, very quickly found itself in a process of modernization of this activity. The “senhores de engenho”, the masters of the primitive sugar refineries, could no longer bear foreign competition. Slavery itself, which cost much too much, had been abolished by the republic and replaced with a more rational form of exploitation, wage labor, that made the worker directly dependent on money. With the aid of foreign capital, new factories were built, leading to a growing demand for sugar cane. The masters launched themselves into the acquisition of land: a devouring eagerness, no problem of fertility, it was enough to plant more and more there. And where one could not plant, one raised livestock.
This is how the capitalist mentality penetrated bit by bit into the sertão, deeply disrupting customary relationship; it was necessary to make money, and as quickly as possible. Furthermore, the conditions of exploitation became draconian; many found themselves without land or work, in the darkest, most desperate misery. They fled in mass from the coast where it was impossible to survive, taking refuge in the interior. Since this disoriented population was not integrated in force into the system, they went to swell the ranks of those who followed the millenarian prophets. In the end the exchanges between the interior and the coast (leather for saddler-making or for packaging rolls of tobacco, oxen for sugar mills and plantations) that balanced social life in the sertão, was to be brutally compromised by capitalist industrialization. This rupture in the exchanges would have tragic consequences for small farmers, cowhands and sharecroppers; it would call the relationship that linked the cowhand or the sharecropper to the owners of the land back into question. All this was reflected in local disputes, exacerbating them.
It is necessary to understand the origins of the millenarian movements. They developed in a region of relative freedom, where neither the state nor the church was omnipresent. But this region suffered the repercussions of the capitalist offensive from within this process due to the force of circumstance. Little by little, the traditional “client” relationships were replaced with indifferent, impersonal relationships, money relationships. From that moment on, betrayal was in the air. Respect for giving one’s word was replaced with the value of money that respects no one’s word. Deprived of all dignity by the allurements of profit, the large property holders betrayed customary rights without scruples and did their best to make the existence of the poor abominable. There was now something rotten in the sertão.
Once the animal breeders, property owners, cowhands and sharecroppers generally led the same life. The family formed the basic cell of society, not the conjugal family, but a great family, an “extended family”. The ties were formed from a familial nucleus (brothers and sisters, cousins, godchildren) and from one’s clientele (bastard branches, sharecroppers and old slaves). But these lineages had a leader. Within the family group, all those who had the same preeminent position received the title of colonel, but there was also a “colonel of colonels”.
An unspoken contract of exchange of services existed that insured the cohesion of the group and reinforced the position of the colonel, who had the duty of helping relatives and his faithful men: transfer of land, respect for sharecropping contracts (the cowhand possessed a part of the herd just like the sharecropper had a part of the harvest, a part fixed by custom), loans, guarantees of judiciary defense… this entailed a moral obligation that put those involved at the colonel’s service. Repayment in money was rare if not nonexistent.
Political power always formed the biggest stake in the struggles that opposed clans to each other in the interior of Brazil. The colonel was born to command; he had inherited the land and derived his power from this. The state only reinforced him with its safeguards, with its legal aid. The colonel was determined to jealously defend his social position. He enjoyed absolute impunity. It was said that the activity of a colonel who was respected was envisaged by every page of the penal code. He protected and conserved his power and prestige, by maintaining genuine bands of armed men, into which the men that depended upon his jurisdiction were conscripted during times of conflict between families. He was the real authority of the region.
No limits were imposed on the colonel, except respect of his word and tradition; all were at the mercy of his will. Greed could make him a terrible man. Thus, treachery was the immediate danger; everything was in danger of falling into the most arbitrary abuse. This led to a susceptibility to edginess capable of provoking, at the least sign, a series of conflicts within and among the clans.[48]
Millenarians and cangaceiros rose up in a society where relationships were still personal, where solidarity still had a meaning, but where latent unrest existed due to the progressive disintegration of these relationships. They originated in a crumbling society, undermined a bit at a time by capitalist ideology that made traditional relationships fall away. This ideology would aggravate society, exacerbate touchiness, arouse appetites. The large property owners would get involved in an implacable competition that would lead to the elimination of the weakest and the increase of the power of the strongest.
In general, Brazilian messiahs didn’t condemn the old organization so much as the eagerness for profit manifested more and more by the colonels, making them forget their obligations. Cowhands and sharecroppers fully suffered the consequences of this. They could historically situate the start of this degeneration of relationships and compare this new state of things to a not too distant past. The messianic movements expressed the desire moving toward solidarity at a time when all feelings of solidarity were tending to disappear.
Two directions could be perceived: taking tradition back up and reinforcing it with a higher principle, divine authority, the patronage of God — this is what Father Cicero’s movement did — ; or going beyond the old organization, which revealed itself to be unable to resist the capitalist mentality and the increase of selfishness, in order to again find the meaning of the original community.
They had recourse to religion as the objective spirit of community, in order to seal the pact of alliance. According to that spirit, catholic ritual consecrated the links that united them. Such rites constituted the solemn affirmation of the refusal of the old world that had become profane and the entry into a new world that only now presented a sacred character.
“Once the Holy City was founded, the messiah tried to identify it as much as possible with Holy Places. Particularly in the northeast, the landscape lends itself to surprising comparisons with that of Judea as it might be seen reproduced in the crude religious images on sale at the fairs of the sertão. Father Cicero had quite ably baptized the ruggedness of the terrain around Joazeiro with names drawn from the gospel: the Mount of Olives, the Garden of the Holy Sepulcher, Calvary. Decorated with small chapels and numerous crosses, these places attracted the curious, moved pilgrims and constituted new evidence of the holiness of the places.”[49]
These were not heretical movements in the true sense of the word, even though the church condemned them. They did not criticize the sacraments as the disciples of Amaury de Bêne, the Taborites or the Anabaptists had done in their times. They contented themselves with opposing authentic catholicism — their own — to the corrupted catholicism of the priests.
If religious sentiment was deeply rooted in society, the Church was not the citadel of thought that it had been in medieval times, and the efforts of some country curates to fight popular traditions were ridiculous. It did nothing but reinforce the feeling in the peasant that only the beatos, their messiahs, knew authentic catholicism.
Besides, it was rare to see the priests who chanced to live in those remote regions corresponding to the ideal the poor had of the christian life. The sertanejos criticized them especially for selling various rites. This is why they felt a strong resentment toward the official clergy who were accused of betraying their function in its most sacred aspect. The sermons of the messiahs reflected this opinion. Severino, one of Lourenço’s apostles, proclaimed: “God’s word is not sold at any price; God’s word is free.”
In the legends of the Iberian Peninsula, the Brazilian prophets always drew their inspiration from popular catholicism. Their way of life corresponded perfectly to the idea that peasants had about catholic saints. They were pilgrims, lived on handouts, distributed the gifts they received to the poor. The catholicism that is fed by legends, mysteries, superstition, familiarity and mysticism, was essentially millenarian.
“Time seems to have stopped for the uncouth population of the sertão. Having sidestepped the general movement of human development, it still breathes the moral atmosphere of the illuminated…”[50]
They expected God’s vengeance, but this expectation was dynamic. The poor started to organize themselves for concrete actions like the occupation of land and energetic defense of their conquests. It was an expectation that, far from preventing social activity, incited it. Canudos was the Tabor of the sertão where an intense activity reigned. The millenarians were animated by an enthusiasm that nothing could crush. They did not isolate themselves, and they were not isolated. They did not feel that they were the elect. They were sertanejos, jagunços. The spirit of their activity was simply changed.
This spirit, which inspired the disciples of Lourenço for example, resembled that which had inspired the diggers’ colony on Saint George hill in London two to three centuries earlier: “He who works for another, for payment or to pay a penalty, does not carry out just work; but he who is resolved to work and eat together with everyone else, in this way making the earth a common treasury, gives Christ a hand in liberating creation from slavery and cleansing everything of the original curse.” (Winstanley)
Like pastor Lee of England in 1650 (“A hedgerow in a field is as necessary in its way as authority in the Church or the State”), the Brazilian state deluded itself. The occupation of land, even though for religious purposes, was in itself a challenge to authority. It was not the intention of the Brazilian millenarians to enter into open war with the state. They were waiting for God’s vengeance, but in their waiting challenged the state.
Northeast of Brazil, the land of the sun
But for them, this collective organization of work, this common activity, did not represent wealth. Perhaps the spirit was enriched by this experience, but it did not find its wealth in itself; it was formed from its beyond. The wealth that the messiahs promised to their faithful, an ever-recurring promise in their sermons, could not, in any case, be confused with prosperity and well-being, nor, above all, and this is the essential thing, could it be reduced to a limited common activity, however human it might be. It had to be the conclusion of social activity, the moment of infinite squandering, of the feast, and the moment hoped for was that of its universality.
An entire world stood opposed to its realization.
Chronology
1500
The Portuguese Pedro Alvares Cabral discovers Brazil
1530
Colonization advances towards the territory of the interior
1550
Beginning of the slave trade
1716
The colony becomes a viceroyalty
1817
Beginning of Sylvestre José dos Santos’ messianic movement
1822
Declaration of independence and proclamation of Empire
1835
João Ferreira’s messianic movement.
1871
Enactment of the law “of the free wind”, toward the abolition of slavery. Pilgrimages of the “Conselheiro” in the state of Bahia and of Father Cicero in the state of Ceara. Groups of cangaceiros multiply.
1888
Abolition of slavery throughout the country.
1889
Proclamation of the Republic. Father Cicero performs his first miracles. The Conselheiro preaches insurrection against the Republic.
1896–7
The Canudos campaign against Antonio Conselheiro. The cangaceiro Antonio Silvino begins to declare himself.
1913
Seditious movement of Father Cicero against the federal government.
1914
Arrest of cangaceiro leader Antonio Silvino
1920
Lampão joins Sinhô Pereira’s cangaço.
1922
Lampão is proclaimed gang leader.
1926
Lampão’s interview with Father Cicero.
1930
Getúlio Vargas’ presidency.
1934
Father Cicero’s death. Birth of Lourenço’s messianic movement.
1937
Getúlio Vargas’ dictatorship.
1938
Trap in Angico and death of Lampião. Lourenço’s movement slaughtered.
1940
Corisco dies, and with him cangaceirismo disappears.
[1] On of the individuals involved in the French group, Os Cangaceiros.
[2] Having found an English translation of the book that Georges Lapierre makes frequent reference to with regard to the movement around Conselheiro (Os Sertões by Euclides da Cunha, translated as Rebellion in the Backlands), several other interesting facts come out. The movement was a tri-racial group, involving indigenous people, those of African descent, those of European descent and every possible mixture thereof. In addition, individuals from all parts of the under classes were included — thieves and prostitutes alongside former cowhands and “holy women”. A significant part of the message that drew people to Canudos was a liberation from work, which was seen as worthless activity and detrimental to the spiritual needs of the moment. In addition, despite Conselheiros own extreme asceticism and personal refusal of sexual intercourse, he not only turned a blind eye to what Cunha calls “free love”, but even promoted it by saying that in these lasts days, there was no time to worry about such trivial matters as marriage vows.
[3] On this level, I tend to see Lampião’s relationship to Father Cicero as perhaps less respectful than Georges Lapierre portrays it. When Father Cicero gave Lampião a title, arms and ammunition in 1926, of course, Lampião gladly took them, but for his own purposes. Rather than doing what the good padre wanted, he simply went on his way, living his outlaw life, an indication to me that he recognized the limits of the priest’s activities.
[4] The backlands, particularly the backlands of northeast Brazil centering in Bahia. Sertoes is simple the plural form of sertão.
[19] Literally, ruffian, but Cunha tended to use it to refer to all sertanejos. Apparently the people who followed Antonio Conselheiro to Canudos took the name upon themselves with pride.
[20] Poetry found in Canudos written on little bits of paper.
[21] D. Sebastião: King of Portugal (1557–1578), died in the course of an expedition against the Moors. The populace did not want to believe in his death. He became a legendary and messianic figure comparable to that of the Emperor of the last days: he would be returned from the isle of Mists, having organized an army to free Jerusalem.
We find this Portuguese legend from the end of the 16th century to again be quite popular in Brazil. It formed the nucleus of two important messianic movements that manifested in the province of Pernambuco in 1817 an 1835: that of Sylvestre José dos Santo and that of Joao Ferreira.
[34] This is a reference to the ancient Parthians who would continue shooting arrows at their enemies even as the retreated from a lost battle. This is the source of the English term “parting shot”, originally “Parthian shot”. — Translator’s note.
[39]Ibid., p. 475. Euclydes da Cunha’s book ends with a slander typical of the time: “… they took [Antonio Conselheiro’s head] to the seaboard, where it was greeted by delirious multitudes with carnival joy. Let science here have the last word. Standing out in bold relief from all the significant circumvolutions were the essential outlines of crime and madness.” (p. 476)
[40] Hegel, Principles of the Philosophy of the Right
[41] Josué de Castro, Une Zone Explosive. Le Nord-est du Brésil
[42]Cangaceiros: Ballads Tragique. Illustrations by Jô Oliveira, text by Mario Fiotani
Information about the author of the blog “Tok de Historia” – In this link you can find the full article, including attachments. Due to size, there were placed here. I took the liberty of adding photographs and correct names in Portuguese.
Lampião e seu bando, depois de vários anos atuando nos sertões dos estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte, passaram a sofrer uma grande perseguição dos aparatos policiais destes estados.
Jornal recifense “A Província”, edição de sexta feira, 28 de agosto de 1928, 1ª página.
Ciente da perseguição que as volantes infligiam a seu debilitado grupo, Lampião precisava de repouso para repor as energias, recrutar novos homens e procurar novas áreas de atuação. Nesse sentido, em agosto de 1928, ele resolveu atravessar o grande Rio São Francisco e se internar nos sertões baianos.
Em um primeiro momento, buscando refúgio nas fazendas de novos amigos, Virgulino Ferreira da Silva, o nome real do “Rei do Cangaço”, encontrou nestas paragens a almejada paz para recompor suas forças.
Primeiramente a polícia da Bahia fez vista grossa em relação ao ilustre visitante. Lampião aproveitou para firmar contatos, compor alianças, ampliar sua rede de coiteiros que lhe dariam apoio e proteção.
Propalou que estava “em paz” no território baiano, utilizava a velha cantilena que “havia entrado no cangaço pelos sofrimentos sofridos pela sua família” e que se “houvesse condições”, ele largaria aquela vida em armas e buscaria ficar em paz.
Mesmo divulgando estas novas intenções, não deixou de coagir os fazendeiros baianos, pedindo para estes lhe “ajudar” no sustento do seu bando.
E assim, ao seu modo, durante quase três meses, Lampião e seus cangaceiros viveram tranquilos junto ao povo do sertão da “Boa Terra”.
FOTO FAMOSA
Sua primeira aparição pública ocorreu na antiga vila do Cumbe, atual município de Euclides da Cunha, em um sábado, dia 15 de dezembro de 1928.
Ali não houve alterações. Mas o chefe não deixou de fazer uma arrecadação pecuniária com os abonados do lugar e chegou até mesmo a almoçar e beber cerveja com o delegado. A tranquilidade era tanta que deu até para alguns alfaiates do lugar confeccionar novos uniformes para seus homens.
Depois do Cumbe os cangaceiros seguiram para a cidade de Tucano, onde novamente nada de anormal ocorreu. Ali os bandoleiros das caatingas chamaram a atenção de todos, tratavam todos bem e foram bem acolhidos pelos moradores.
Mercado Público de Ribeira do Pombal na década de 1950.
Para Oleone Coelho Fontes, autor de “Lampião na Bahia” (4ª Edição), após a estada em Tucano, o chefe cangaceiro e seus homens, seguiram em direção nordeste, por cerca de 40 quilômetros, até a vila, atualmente município, de Ribeira de Pombal, já próximo a fronteira sergipana. Para este deslocamento consta que Lampião obrigou o padre de Tucano a ceder o seu carro e um motorista.
Segundo o pesquisador baiano, o chefe e mais sete cangaceiros chegaram ao lugarejo às seis da manhã do domingo, 16 de dezembro. Os moradores locais sabiam através da passagem de viajantes, que Lampião encontrava-se em Tucano e que certamente logo chegaria a Pombal.
O intendente local era Paulo Cardoso de Oliveira Brito, mais conhecido como Seu Cardoso, e foi ele quem recebeu Virgulino e seus homens.
Foi ofertado café a todos os bandoleiros e Lampião avisou que não queria brigar com os poucos policiais que estavam de serviço no lugarejo, comandados pelo cabo Esmeraldo. Com a boa hospitalidade oferecida, Lampião se sentiu a vontade e logo procurou saber se havia um fotógrafo no lugar.
A famosa foto de Lampião e seu bando, batida por Alcides Fraga em Ribeira do Pombal e divulgada na edição de quarta feira, 30 de janeiro de 1929, no jornal carioca “A Noite”. Coloquei a notícia na íntegra para que seja visto e analisado o cangaceiros ali nomeados.
Foi chamado Alcides Fraga, alfaiate e maestro da Filarmônica XV de outubro, que prontamente bateu uma chapa. Esta é uma das mais célebres fotografias do ciclo do cangaço, que inclusive circulou com destaque em jornais do Rio de Janeiro, em janeiro de 1929.
Por volta de oito horas da manhã o bando saiu da vila, acompanhados do cabo Esmeraldo, partindo em direção destino ao município de Bom Conselho, atual Cícero Dantas, 30 quilômetros em direção nordeste.
Bom Conselho, atual Cícero Dantas, na década de 1950.
A chegada dos cangaceiros ocorreu em um dia de feira, com o cabo baiano já rouco de tanto gritar: – Viva Lampião! – Viva o Capitão Virgulino!
Apesar deste detalhe, a única outra alteração praticada pelos cangaceiros, foi terem se apoderado dos fuzis dos quatro soldados da polícia baiana destacados no lugar.
Após saírem de Bom Conselho, ainda motorizados, o bando seguiu em direção mais ao norte, cerca de 40 quilômetros, para um pequeno aglomerado de casas denominado Sítio do Quinto.
A hora exata que os facínoras chegaram de caminhão a esta localidade não sabemos, mas lá onde procuraram a casa de José Hermenegildo.
Por volta da meia noite de 16 para 17 de dezembro de 1928, um pequeno automóvel modelo Ford, que transportava três homens, também chegou ao mesmo lugar.
AO ENCONTRO DO PERIGO
Enquanto Lampião e seus homens passavam por Pombal, Bom Conselho e chegavam a Sítio do Quinto, da cidade baiana de Jeremoabo, cerca de 50 quilômetros ao norte, partia um automóvel conduzindo três homens, entre estes estava um dos mais importantes coronéis do interior baiano.
Este era João Gonçalves de Sá, referência regional, prestigiado líder político e rico proprietário de muitas fazendas com grande extensão territorial, que englobava muitos dos municípios da região Nordeste da Bahia. Naquele dezembro de 1928 o coronel João Sá exercia os cargos de presidência da Intendência de Jeremoabo e, pela segunda vez, o mandato de deputado estadual pelo legislativo baiano.
Junto ao coronel João Sá seguia seu pai Jesuíno Martins de Sá e um dos secretários da Intendência de Jeremoabo, o jovem José da Costa Dórea. O destino de todos era Salvador, onde o trajeto naquele tempo exigia seguirem pelo território sergipano e depois todos continuariam o trajeto por via ferroviária, utilizando os trens da ferrovia conhecida como Leste Brasileira.
Segundo nos conta Oleone Coelho Fontes, no capítulo 5 do seu livro “Lampião na Bahia”, através de extenso relato descritivo feito por Dórea (e até hoje, aparentemente, inédito na sua íntegra), devido a um problema mecânico no automóvel, a viagem foi realizada a noite, tendo a saída ocorrido às seis horas.
Mesmo sabendo que o grupo de Lampião circulava pela região, o coronel Sá confiou que guiando durante grande parte da noite, seguindo pelas antigas estradas poeirentas da região, eles poderiam passar despercebidos pelo bando.
Ao realizarem uma parada para tomar café na fazenda Abobreira, o medo de um encontro com Lampião e seus cangaceiros se tornou mais real, pois o proprietário do lugar, José Saturnino de Carvalho Nilo, confirmou que eles estavam nas redondezas. Mesmo assim seguiram adiante, em direção ao lugarejo Sítio do Quinto.
Já na edição do dia 30 de dezembro de 1928 do jornal carioca “A Crítica” (cujo proprietário era o pernambucano Mário Rodrigues, pai do dramaturgo Nelson Rodrigues), na sua página 5, encontramos um relato inédito sobre o encontro do coronel João Sá com Lampião e seus homens.
Nas duas descrições desta aventura, consta que os viajantes de Jeremoabo, ao entrarem no pequeno arruado, viram diante de uma casa um veículo parado, com alguns homens ao seu redor.
A reportagem do jornal carioca informa que um deles estava com um candeeiro. O coronel João Sá imaginou que a casa onde o veículo e os homens estavam deveria oferecer algum tipo de apoio aos viajantes.
Após brecarem, os passageiros do Ford foram cercados por homens armados e intimados a informarem quem eram. Após isso o coronel João Sá descobriu que estava diante do cangaceiro Lampião. E como para confirmar, o homem armado aproximou o candeeiro de seu rosto, mostrando a característico defeito em seu olho.
MOMENTOS ENTRE O CORONEL E O CANGACEIRO
Em um primeiro momento o medo e o pavor com o que iria acontecer tomou conta dos viajantes, mas o chefe cangaceiro, prontamente lhes garantiu que nada de ruim lhe aconteceria.
Conduzidos por Lampião e seus homens, todos entraram na casa de José Hermenegildo e foram se acomodando em cima de sacos de algodão e de peles de animais, que na época era um produto mais fácil de encontrar no sertão e tinha mercado nas capitais.
O informante Dórea afirma que em certo momento Lampião chamou o coronel João Sá para uma conversa particular na parte de fora da casa, fato que o deixou assustado, imaginando que o chefe político de Jeremoabo seria fuzilado. Mas nada aconteceu.
Enquanto isso Dórea e Jesuíno Martins de Sá, então com 76 anos, entabulavam conversa com alguns cangaceiros, entre estes o irmão do chefe, Ezequiel, conhecido pela alcunha de Ponto Fino. Dórea afirmou que o coronel João Sá não transportava dinheiro vivo, apenas ordens bancárias, assim este lhe chamou fora da casa e lhe solicitou 200$000 réis para dar a Lampião. Este por sua vez deixou que os viajantes do Ford escrevessem cartas as suas famílias, que um portador levaria as missivas para Jeremoabo.
As duas versões apontam que em dado momento a tensão se desvaneceu e o clima ficou mais tranquilo.
Segundo o coronel João Sá observou, e assim ficou registrado no jornal carioca, os cabelos do chefe cangaceiro chegavam aos seus ombros, seu uniforme de mescla azul se mostrava já bastante gasto e Lampião trazia um semblante abatido.
Na sequência Lampião pediu a José Hermenegildo que colocasse três redes para acomodar a ele, ao coronel e a seu pai no mesmo quarto. Neste momento o líder político do Nordeste da Bahia pediu ao maior cangaceiro do Brasil que narrasse a epopeia de sua vida. Lampião descreveu as perseguições que sofreu ao longo da vida como bandoleiro das caatingas, mas que estava “a fim de descansar” no sertão baiano.
O coronel João Sá descreveu nas páginas de “A Crítica” que depois das narrativas feitas por Lampião, este foi dormir. Mesmo com a vida atribulada que levava, em meio a tantos combates e com tantas mortes nas costas, o coronel descreveu que o chefe cangaceiro dormiu um “sono profundo”. Mesmo estando em companhia de estranhos “adormeceu como um justo”. Logo todos os homens, “cavaleiros e salteadores”, como descreveu a reportagem, dormiram “confiantes e tranquilos”.
NO “TRANCO”
No capítulo 5 do livro de Oleone, o texto em que José da Costa Dórea conta este episódio sobre Lampião, este afirma que foi ele quem fez a solicitação para que o chefe cangaceiro narrasse a sua vida e que anotou tudo em um bloco escolar.
O livro de Oleone Coelho Fontes, “Lampião na Bahia”. Para mim esta é uma das obras mais inspiradoras e interessantes sobre o tema cangaço.
Segundo a opinião do autor de “Lampião na Bahia”, esta entrevista é seguramente a mais longa que o “Rei do Cangaço” fez em toda a sua vida e que seria parte integrante de um livro de Dórea intitulado “Vida e morte do cangaceiro Lampião”. Vale ressaltar que Oleone Coelho Fontes informou em seu livro possuir os originais deste material, mas que, salvo engano, até o momento continua inédito.
Nas páginas de “A Crítica”, nos primeiros albores da manhã, após o despertar, o coronel João Sá comenta a Lampião que na condição de deputado estadual teria de informar as autoridades sobre aquele encontro. Consta que Lampião não se alterou com as palavras do político baiano.
Quando o coronel deu na partida do seu automóvel, provavelmente devido ao frio noturno do sertão, a máquina não pegou. Na mesma hora, vários comandados de Lampião deram uma mãozinha ao coronel João Sá, empurrando o carro que pegou no “tranco” e estes seguiram viagem.
SIMPATIA OU NECESSIDADE?
Dali Lampião continuaria seu caminho pela Bahia e logo a sua lua de mel com os habitantes daquele estado estaria encerrada. O fato se deu com o combate ocorrido no lugar Curralinho, no dia 28 de dezembro de 1928, onde foram mortos o sargento José Joaquim de Miranda, apelidado “Bigode de Ouro” e os soldados Juvenal Olavo da Silva, e Francellino Gonçalves Filho. Depois destas primeiras mortes na Bahia, Lampião e seus homens, ainda no primeiro semestre de 1929, cobrariam um alto preço a polícia baiana. Logo veio o combate do Arraial de Abóbora, em Jaguarary, hoje povoado de Juazeiro, ocorrido no dia 7 de janeiro e que ocasionou a morte de dois soldados. Depois veio Novo Amparo, no dia 26 de fevereiro de 1929, com a morte de mais outros dois soldados. Ainda no primeiro semestre de 1929 temos o sangrento combate do Brejão da Caatinga, município de Campo Formoso, no dia 4 de junho, com a morte de um cabo e quatro soldados.
Quanto ao coronel Sá e sua família, segundo Oleone Coelho Fontes afirma em seu livro (Pág. 39), enquanto Lampião na Bahia jamais ocorreu nada com suas terras e seus protegidos. O pesquisador afirma que, fosse por simpatia, ou por necessidade de preservar seus bens, ou por ter vislumbrando vantagens outras nesta aliança com o grande cangaceiro, o coronel Sá se tornou um dos mais importantes protetores de Lampião na Bahia.
E tudo aparentemente começou naquele encontro divulgado até em jornais cariocas.
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With the admission of women in 1930, cangaceiros became more tolerant and less nomadic, avoiding sanguinary combat and adopting new means like intimidation to obtain resources.
Carlos Jatobá
The cangaço was a Brazilian phenomenon of social-banditry until the 1940s. Lampião was Brazil’s most famous cangaceiro ever. Volantes were a tactical and itinerant police force that combated the banditry led by, among others, the famous Lieutenant Bezerra.
A notice—perhaps stranger or uncommon to the inhabitants of the Capital, still sorrowful for the murder of great writer and journalist Euclides da Cunha in the previous day—was published on the front page of the newspaper Gazeta de Notícias from Rio de Janeiro (formerlyBrazil’s Capital), in August 16, 1909:
“Aracaju, State of Sergipe – The important city of Propriá, the judicial district headquarters of the same name, was invaded yesterday suddenly by a large group of rural bandits (cangaceiros) that occupy the northern region of this state, which they chose for robberies and depredations.
The local residents of the working city panicked and the police responded to alarms and took steps to resist the invasion, collecting all of the resources at hand, and capturing the cangaceirosthat had resisted, stopping disputed combat. Some policemen were wounded and one cangaceiro died.
Fortunately order was reestablished and people were satisfied with the measures to repress the invasion taken by the police. For this reason, the government of the State is preparing a new force to go in persecution of the cangaceiros.”
The Cangaço
Cangaço, or rural banditry, was a phenomenon of the first four decades of the 20th century in rural areas (sertão) of Brazil. According to Billy Chandler, it happened as a result of an underdeveloped agricultural society. Chandler also remarks in The Bandit King: Lampião of Brazil that “banditry always sparked the interest of the people. In truth, the allure of these outlaws and their legend —without talking about banditry—were universal. The male, or occasionally the female, outlaw as a nomadic bandit is apparently exempt of any societal restriction and that awakes a fiber of our imagination, mainly those ranked more remote in time or space. In this way, English people gravitate towards the facts of Robin Hood and his gang; Americans tell the adventures of Jesse James; Mexicans talk about Pancho Villa; and Brazilians recount stories of Lampião.” (1981: 15).
The Cangaço cycle or as many, like Eric Hobsbawn (a British writer), calls it: “cycle of social banditry”, occurred in the state Bahia and continued to Ceará state, in the vast northeastern hinterland and affected all rural populations. This phenomenon lasted for about seven decades (1870-1940).
In 1938, two years after the death of Lampião (Virgolino Ferreira da Silva), it reached its height and continued until 1940 when Lampião’s successor and deputy, Corisco (Christino Gomes da Silva), died. Other cangaceiros—who were just as famous—that preceded them included Jesuino Brilhante, Adolfo Meia-Noite, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e Luiz Padre. There are also precursors to cangaço or “acting-cangaceiros” (prior to 1870), such as Cabeleira and Lucas da Feira, in addition to others less researched and for whom little historical documentation is available.
Antônio Silvino
Historian Vassalo Filho describes cangaço as the life or criminal activity of groups of nomadic bandits in northeastern sertões of Brazil. Cangaço is derived from the word yoke (canga), a wooden piece linking oxen to a carriage or a plough. Cangaceiros wore equipment across their chests, which resembles the yoke of an ox, and, therefore, represented submission to a head, chief, leader or lord.
Daily newspaper Folha de São Paulo says that the word cangaceiro has origins in the time of Brazilian slavery when fugitive blacks were captured and tortured in an instrument known as a yoke. From that point on, mainly in northern Brazil, people who were displaced from society and rebelled were called a cangaceiro.
Cangaceiro typical of northeastern Brazil in the first half of the twentieth century
On the other hand, real cangaceiros were isolated nomadic groups that acted independently and practiced assaults and thievery on roads and trails, extortion, servitude (empreitadas de morte), property invasion in villages and cities pillaging, destroying, and kidnapping people to collect ransom, “selling” protection against attacks of other groups and collecting “commissions” for business transactions made on behalf of the people. These activities sustained their lifestyle.
According to Vera Ferreira and Antonio Amaury, “there were at least two types of cangaceiros. The well known nomadic cangaceiros traveled in groups of generally permanent members and those referred to as tame cangaceiros were people who lived on farms and were protected by land owners. The tame cangaceiros were used to meet the group’s defense objectives and to attack the enemies. They performed the dirty work in exchange for a lair.” (1999: 24)
The cangaceiros operated in the sertões of seven northeastern states: Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte and Ceará. They generated fear because of their actions and groups—varying in size from five to 100 members—when they congregated to carry out a plan. The provincial region of these states almost stopped functioning because of unreliable commercial transactions, and excessive reduction in interstate trade of merchandise, jobs and other activity between the diverse locations.
Cangaceiros’ operational tactics were characterized by the following: ambushes, the element of surprise, cutting communication lines and simulating animals of the region. The gang originally acted in an unmeasured and impious savagery. With the ingression of woman in 1930, the group became more tolerant and less nomadic, adopting a more hygienic and more harmonious behavior by avoiding sanguinary combat and adopting new means to obtain resources such as letters and tickets and directed intimidation. In this respect, Sila states that “Cangaço women did not shoot in or engage in guerilla warfare. We received a Mauser [shot gun] and a dagger, because when they were attacked we had to defend them. For precaution, we learned to shoot.” (1995: 33).
Picky Lampião
The cangaceirismo was consolidated as a bigger power in the sertões under the legendary figure of Lampião, who began to appreciate sophisticated goods such as good Scottish whisky, French perfume, jewels, armaments, binoculars, etc. In 1936, the Arab peddler Benjamin Abrahão documented the day-to-day activity of cangaço and “the cangaço aristocracy,” becoming a marketing tool for Lampião and his friends. Abrahão used photographic and film machines to record moments of leisure, dance, combat tactics, affection and tenderness, photos for the family, and created a customized card with the photo of the head cangaço used to ensure safe conduits and make “friendly” requests for pecuniary resources.
The chief bandit Lampião and his wife Maria Bonita
Lampião, between shoot outs, promoted parties. which were animated by a concertina of eight basses (sanfona de oito-baixos) and clog-dancing called xaxado and at times he was filmed in his feudal lands —under apparent impunity—guaranteed by the lack of enforcement by police, and the policy of “peaceful coexistence” when dealing with the agricultural elites.
Such elites were represented by the icon, the colonel, a typical figurehead in recalcitrant anachronism of the agricultural sector at the time. The term originates in the Imperial National Guard, instituted in 1831, that recruited among the “elites of the local power” who were later ranked as colonel, major or captain, depending on prestige or politicians that sponsored them. This process of initiation was dissolved soon after the promulgation of the Brazilian Republic in 1889. The term “coronelism,” meaning “despotism or tyranny”, stems from this process.
Lieutenant João Bezerra
However, national recognition of the state of things became detrimental to central power, the presidency of the Republic, forcing it to take similar attitudes with all affected states to create a more favorable environment to police force (volantes) activity. Better trained and equipped volantes (some even carried machine guns) brought the cangaço to an end under the command of Lieutenant João Bezerra, who was a meticulously prepared agent who undertook the raid in Angico, state of Sergipe, on July 28, 1938.
The Volantes
Volantes (police forces), commonly referred to as “Volantes Forces”, “Volantes Squadrons” or “Volantes Lines,” appeared in 1920. They served society as military police and rapid response forces. Until 1940, as part of the Public Forces (currently known as Military Police), they were used in the rural, feudal regions in northeastern Brazil—a perfect theater of operations for hordes of bandits called cangaceiros.
Cangaceiro prisoner being shown between police officers
Lima observed “the Northeast was, and continues to be, a difficult region, that did and does not receive engineering, medical, and the law efforts… (…) The climate of the bandits’ empire is rough, which is exactly why it continues to defy the system and inertia of our government.” (1965: 3)
To distinguish them from the paramilitary forces, which erroneously had the same denomination in some regions, is due justice. However, in developing historical accounts of the forces we find only a partial and not very enlightening clarification.
Group of police officers who fought the cangaceiros. Those in the photo became famous for its ability to fight, being known as “Nazarenos”.
Knowingly, Carmen Ferraz notes, “there are authors that, motivated by their own political and ideological convictions, try to deny merit to any of the volantes forces or its activities and consider them unjustifiable when they are not frivolously accused or transformed into scapegoats in the events.” (1990: 43)
Throughout history, it was the volantes that were presented poorly in caricatures, which many times confused them with “private” military services, without considering the supposed subordinate actions they were assigned. Optato Gueiros wrote, “In the days of the ancient politics, cangaceiros were confused with policemen. The head politicians were more powerful than medieval barons… “(1953: 167)
Cangaceiro dead in northeastern Brazil, even with their costumes, especially his long dagger.
According to Euclides da Cunha, “the farmer of the sertões lived on the coast, far from his plentiful land that sometimes he never saw. Like the opulent, large-estate owners of the colony, parasitically, they used the income from the lands without fixed limits. The cattle ranchers submissively served them. There they stayed (…) anonymous—being born, living and dying on the same plot of land—lost in the fields and mocambos (shacks); faithfully taking care of the flocks that did not belong to them their entire life (…) They are self-sacrificing people giving themselves to the servitude without question.” The questions remain: Is this a propitious environment to proliferate cangaceirismo? Is this the heart of social banditry?
Cangaço continues to awake wild passions. Popular songbooks and literature are uninhibited from creating stories about cangaço. Carlézio Medeiros tells us in his fictional work that in spite of being an old and dying cangaceiro under imminent attack, “many cried and asked friends and leaders to stay until the last moment when they died. The destiny of a cangaceiro was to die fighting in a hail of bullets or daggers of the macacos (monkeys) of the government and not to run away as a caga nas calças qualquer (some pantshitter) because of danger.” (1971: 262)
According to Paulo Britto (Lieutenant Bezerra’s son), a closer look at the subject allows a “glimpse at northeastern Brazilian history. It is necessary to clarify the different roles focusing on the aspects of a multi-faceted phenomenon: cangaceirismo. (…) The complexity of its characteristics: originality, values, codes, behaviors, attitudes, strategies, plans, the economic situation and social politics of the time. It was also a phenomenon that frightened the cities of the region, marked by fear, panic, terror and violence.” (2000: 11)
A typical city in northeastern Brazil, in the first half of the twentieth century. This city is called Sumé and is in the state of Paraíba.
On the other hand, Manoel Bezerra e Silva said that the sertanejo (inhabitant of the sertão) living in the sub-Saharan-like northeastern region “are thought of as bad because they are from an area where the climate causes people to impulsively lose good judgment. However, they are good, hospitable and endowed with sincerity. Those who do not know the sertão would think that the word is already synonymous with harshness of spirit, although in the middle of all that backwardness and obscurantism is the impersonated goodness characterized by a sertanejo’s ways. The man of the hinterland, in addition to being naïve, is pleasant. It would be impossible to describe the anxiety these people felt when they became cowardly overwhelmed as victims of the cangaço. They suffered because of the outlaws in the region and the pressure of the police that referred to them as coiteiro [people who give refuge, shelter or asylum to the outlaws].” (1978: 9).
After the death of the bandit Lampião, his wife Maria Bonita and seven other companions in the Grota Angico in 1938, their equipment and their severed heads were displayed in the town of Piranhas in the state of Alagoas.
References (Sources and Recommended Reading)
Chandler, Billy J. Lampião: O Rei dos Cangaceiros.(The bandit king, Lampião of Brazil. Texas A&M Univ. Press. trad. Sarita Linhares Barsted) Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
Folha de São Paulo. Folha Ilustrada. Bandos adotavam táticas de guerrilha no Nordeste. São Paulo: FSP, 18 de março de 1997.
Ferreira, Vera & Amaury, Antonio. De Virgolino a Lampião. São Paulo: Idéia Visual, 1999.
Sila (Ilda Ribeiro de Souza). Sila: Memórias de Guerra e Paz. Recife: UFRPE, 1995.
Ferraz, Carmen. Considerações [sobre as Volantes]. in Ferraz, Marilourdes. Cadernos Sertanejos: Subsídios para a História do Vale do Pajeú. Recife: Liceu, 1995.
Gueiros, Optato. Lampeão: Memórias de um Oficial ex-comandante de Forças Volantes. Recife: do Autor, 1953.
Cunha, Euclides da. Os Sertões. Rio de janeiro: s/e, 1933. apud Moura, Clóvis. Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964. p. 139
Medeiros, Carlézio. Terra, Pão e Cangaço. Recife: Codevap, 1971.
Britto, Paulo. O Cangaço e as Volantes: Lampião e Tenente Bezerra. Recife: Do Autor, 2000.
Bezerra e Silva, Manoel. Lampião e suas façanhas. Maceió: Sergasa, 1978.
– Carlos Jatobá is a Brazilian freelance writer and Web designer/Web master. He lives in Recife, state of Pernambuco. You can access http://www.cangacoevolantes.hpg.com.brto learn more about this topic. You can also reach him at carjat@hotmail.com
– This piece was edited and translated by Jamie Sundquist, a freelance writer, proofreader and translator living in Chicago. In addition to writing forBrazzil, the author has published articles in Brazilianist, Wine & Spirit International, Just-Drinks.com and maintains a website about the wine, beer and spirit industry in South America at http://www.jswrites.com
Warning – The photographs contained in this text are not part of the original and are merely illustrative.
About the Blog author Tokdehistória
Rostand Medeiros was born in Natal, Rio Grande do Norte. He is a 45 years old writer, researcher and expert in producing biographical works. Also does researches in history of aviation, participation of Brazil in World War II and in regionalist aspects of Northeast Brazil.
His member of Genealogy Institute of Rio Grande do Norte – IGRN and SBEC – Brazilian Society for the Study of Cangaço.
In 2009, he was co-author of “Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete” (in free translation, “The Knights of the Sky: The Saga of Ferrarin and Del Prete Flight”), a book that tells a story from 1928, of the first nonstop flight between Europe and Latin America. This book was supported by the Italian Embassy in Brazil, Brazilian Air Force (FAB) and Potiguar University (UNP).
In 2010, Rostand was a consultant of SEBRAE – Brazil’s Micro and Small Business Support Service, participating of the project “Território do Apodi – nas pegadas de Lampião” (in free translation, “Apodi Territory – In the footsteps of Lampião”), which deals with historical and cultural aspects of rural areas in Northeast Brazil.
In 2011, Rostand Medeiros launched the book “João Rufino – Um Visionário de Fé” (“João Rufino – A visionary of Faith”), a biography of the founder of industrial group Santa Clara / 3 Corações, a large coffee roasting company in Latin America. The book shows how a simple man, with a lot of hard work, was able to develop, in Rio Grande do Norte state, a large industry that currently has seven units and 6,000 employees in Brazil.
Also in 2011, he wrote, with other authors, a book of short stories entitled “Travessa da Alfândega” (in free translation, “Customs Cross Street”).
In 2012, Medeiros produced the following books: “Fernando Leitão de Moraes – Da Serra dos Canaviais à Cidade do Sol” (“Fernando Leitão de Moraes – From Sugarcane Mountains to Sun City”) and “Eu Não Sou Herói – A História de Emil Petr” (“I’m not a hero – The Story of Emil Petr”). This latest book is a biography of Emil Anthony Petr, a farmer who was born in Nebraska, United States. During World War II, he was an aviator in a B-24 bombing and became a prisoner of the Germans. This work shows the relationship of Emil with Brazilian people, whose with he decided to live from 1963, when he started to work for Catholic Church.
He also published articles in “Tribuna do Norte”, newspaper of the city of Natal, and in “Preá”, cultural magazine published by Rio Grande do Norte State Government.
He founded SEPARN – Society for Research and Environmental, Historical and Cultural Development of Rio Grande do Norte.
Currently, is working as a Parliamentary Assistant in Rio Grande do Norte Legislative Assembly and develops other books.
Rostand Medeiros is married, has a nine years old daughter and lives in Natal, Rio Grande do Norte, Brazil.
Estamos na semana do Dia Internacional da Mulher. Uma data muito positiva para glorificar aquelas as quais os homens devem muito. Pois sem elas, para começo de conversa, nem sequer veríamos a luz do nosso caliente sol nordestino.
Em minha opinião, pela força, garra, capacidade e muitos outros adjetivos positivos, todo dia é dia das mulheres.
Sobre mulheres, mais especificamente sobre mulheres nordestinas, acredito que para o imaginário da grande maioria dos habitantes da nossa região, quando por aqui desejamos facilmente visualizar a figura de uma mulher batalhadora, lutadora, normalmente projetamos em nossas mentes a imagem das cangaceiras.
Evidentemente que não foram as cangaceiras as únicas mulheres de luta de nossa região. Nem vale a pena caracterizá-las apenas como companheiras de fora-da-lei que seguiam armados pelos sertões nordestinos, com suas roupas características, suas armas, sua valentia, seus cabelos grandes, suas apragatas. Igualmente em relação à entrada das mulheres no cangaço não podemos dizer que elas desejavam tão somente a busca de uma certa liberdade.
Os pesquisadores do assunto enumeram vários motivos que levaram as mulheres a se tornarem cangaceiras. Mas certamente em termos de liberdade, as cangaceiras estavam muito mais avançadas que a grande maioria das mulheres que viviam naquele Nordeste extremamente machista.
E entre estas mulheres de cangaceiros, a figura maior é indubitavelmente Maria Gomes de Oliveira, a Maria do Capitão Lampião, Maria Déia, ou Santinha, mas que ficou conhecida em todo o mundo como Maria Bonita.
A NARRATIVA DE ZÉ FELIPE
Sobre esta mulher sabemos que se chamava Maria Gomes de Oliveira, que nasceu no dia 8 de março de 1911, na fazenda Malhada do Caiçara, no Estado da Bahia e seus familiares chamavam-na de Maria Déia. Já seus pais eram os fazendeiros Maria Joaquina da Conceição e José Gomes de Oliveira.
Muito já foi escrito, muito já foi analisado e muito já foi comentado sobre ela. Mas não custa nada trazer para o público do nosso blog “Tok de História” duas antigas reportagens jornalísticas realizadas com familiares da famosa cangaceira.
O Jornal, Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1958
Vinte anos após a morte de Lampião e Maria Bonita na Grota do Angico, o repórter A. C. Rangel e o fotógrafo Rubens Boccia seguiram para o sertão a serviço do periódico carioca “O Jornal”. Este era autodenominado o “órgão líder dos Diários Associados”, sendo o primeiro veículo jornalístico adquirido pelo poderoso Assis Chateaubriand e se tornou o embrião do que viria a ser a empresa jornalística Diários Associados. O objetivo dois profissionais da imprensa era realizar uma entrevista com o pai de Maria Bonita, José Gomes de Oliveira, mais conhecido como Zé Felipe. [1]
Na edição de domingo, 7 de setembro de 1958, o periódico carioca estampava a manchete “Maria Bonita era tão má quanto Lampião” e informava sobre a entrevista junto ao pai da famosa cangaceira.
Para o jornalista Rangel, o seu entrevistado estava “na casa dos setenta”, mas mostrava-se forte e lúcido. O homem do jornal ficou surpreso ao descobri que Maria Bonita havia habitado cinco anos debaixo do mesmo teto com outro homem, o sapateiro José Miguel da Silva, apelidado Zé de Neném (ou “Zé de Nenê”).
O pai de Maria Bonita nada narrou sobre a esterilidade do sapateiro e nem sobre o primeiro marido da sua filha, mas comentou que ficou arruinado com a união de Maria e o “Rei do Cangaço”. Ele afirmou ao jornalista que em consequência daquela união passou oito anos andando pelo norte do país, verdadeiramente como um “cão escorraçado e sem sossego”.
Zé Felipe comentou que após Maria decidir seguir os passos de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, nas poucas vezes que pode estar frente a frente com a sua filha, buscou convencê-la a deixar aquela vida. Atitude bastante razoável para um pai diante daquela situação. Comentou que Lampião vivia como um “alucinado” e que não parava em parte alguma. Mas como bem sabemos, ele não conseguiu convencer a filha.
Grande parte da entrevista procura mostrar Maria Bonita como uma mulher muito valente, até mesmo violenta, que encarava Lampião sem medo.
O jornalista Rangel informa que Zé Felipe lhe narrou que em uma ocasião em meio a uma caminhada forte, com a polícia seguindo nos calcanhares, Maria Bonita foi ficando cada vez mais para trás, pois trazia embalada uma criança sua, com pouco tempo de nascida. Sem explicar como, a reportagem informa que a cangaceira com seu filhinho pegou um cavalo e conseguiu chegar próximo ao bando. Como a criança chorava muito, Lampião se exasperou e, para evitar que o bando fosse encontrado pela polícia, quis “sangrar” com um punhal seu próprio filho. Mas Maria saltou de punhal na mão e encarou o chefe cangaceiro frente a frente e este desistiu de sua ação. Noutra ocasião Zé Felipe narrou ao jornalista Rangel que Maria tinha ficado raivosa com o companheiro e chegou a quebrar-lhe uma cabaça d’água na cabeça. [2]
Em outra parte da narrativa, o velho Zé Felipe narrou uma desobediência de sua filha perante Lampião.
Sem dizer a data, afirmou que em uma ocasião o bando chegou a um lugar denominado Girau do Ponciano após haver praticado saques. Por alguma razão que Zé Felipe não detalhou, Maria passou a pegar várias peças de pano, de várias cores, jogando-as para cima e depois pisando no pano. Daí media até o alto da sua cabeça e depois mandava cortar aquele pedaço e entregava aos mais pobres do lugarejo dizendo “-Quem tá noiva prá casar ganha uma peça”. O pai da cangaceira afirmou que apenas ela podia fazer aquele tipo de coisa e que Lampião estava zangado com ela na ocasião por alguma “Ruga” (Rusga), mas não comentou a razão. [3]
Zé Felipe aos periodistas comentou que até aquela data não conseguia compreender o desejo irascível de Maria seguir atrás de Lampião. Mas quem pode explicar as razões do amor?
É sempre interessante ler antigas reportagens ligadas aos participantes do cangaço, com informações transmitidas por seus próprios parentes, por aqueles que conviveram com a figura pesquisada debaixo do mesmo teto. Mas interessante ainda é quando estas opiniões foram relatadas a jornalistas anos depois do fim do cangaço, quando muito da apreensão de se falar sobre os personagens deste assunto havia desparecido. Mas esta matéria de 1958 se mostrou bastante limitada, pouco detalhista e tendenciosa ao sensacionalismo. Mostrando uma extrema limitação do jornalista, que a nosso ver perdeu uma grande oportunidade de conhecer mais detalhes da vida da companheira de Lampião através do relato do seu próprio pai.
UM POLÍTICO DESCOBRE A IRMÃ DE MARIA BONITA
Publicada no periódico soteropolitano “Diário de Notícias”, edição de domingo, 4 de novembro de 1970, trinta e dois anos depois da morte do mais famoso casal de bandoleiros do país, trás a assinatura do jornalista Renato Riella e fotos de Aristides Baptista e a principal entrevistada foi a Senhora Amália Oliveira, a irmã de Maria Bonita. [4]
Naquele ano de políticas ditadas pelos militares que dominavam Brasília e a euforia do tricampeonato de futebol, o jornalista Riella tratou a irmã da cangaceira respeitosamente como Dona Amália. Já no começo do relato esta senhora informou que Maria tinha era “Muito medo de Lampião antes de conhecê-lo”. Mas completou afirmando que ela era “Uma mulher comum, com sentimentos bastante humanos”.
Diário de Notícias, Salvador, ed. 4 de novembro de 1970
O jornalista Renato Riella encontrou Dona Amália hospedada em Salvador, na casa de um cidadão por nome de José Augusto, então candidato a deputado estadual. Ela havia chegado a esta casa quando, em um dia de 1970, este aspirante a um cargo político visitou um pequeno povoado denominado Riacho, na região próxima a cidade de Paulo Afonso, Bahia, em plena campanha eleitoral. [5]
Nesta localidade o candidato foi lanchar em um bar e soube que ali morava um cidadão que tinha graves problemas de saúde e que necessitava de ajuda e José Augusto foi então visitar esta pessoa. Nesta casa ele conheceu Dona Amália e descobriu que seu marido se chamava Manuel Silva e era a pessoa que precisava de apoio. Em meio a conversa, o candidato soube que aquela senhora era irmã de Maria Bonita. [6]
Depois de conhecer a situação o casal seguiu para a residência do candidato na capital baiana. No momento em que era feita a reportagem, José Augusto ainda não havia conseguido vaga na rede hospitalar para Manuel Silva. Imaginava-se que ele estava acometido de reumatismo, mas descobriu-se que era câncer no pulmão, em avançado grau. [7]
Diário de Notícias, Salvador, ed. 4 de novembro de 1970
Ao ler a reportagem e ver as fotos que trazem Dona Amália, aparentemente ela estava bastante tranquila quando respondeu aos questionamentos do jornalista Renato Riella. Logo o repórter descobre que o marido de Dona Amália era irmão do sapateiro José Miguel da Silva, o Zé de Neném, ex-marido da famosa cangaceira.
A SEPARAÇÃO DE MARIA BONITA
Ela informou que era alguns anos mais jovem que Maria Bonita, mas que havia sido criada junto a ela. Já em relação a razão da separação do casal, Dona Amália em nenhum momento fez algum comentário sobre a provável infertilidade do seu cunhado. Mas narrou ao jornalista Riella uma interessante história.
Um dia Maria encontrou no bolso da calça do esposo um pente de pedra. Um pente de pentear cabelo de mulher. Sabendo que o marido tinha o hábito de realizar “aventuras” fora do leito matrimonial, ao inquiri-lo sobre a existência daquele objeto o diálogo azedou, logo se transformou em bate boca e culminou em uma agressão física. Segundo a irmã de Maria Bonita, Zé de Neném feriu sua esposa três vezes no braço, com um canivete do tipo “corneta”. [8]
Segundo Dona Amália o diálogo que levou a agressão, textualmente reproduzido na reportagem, se desenrolou desta maneira;
– Onde achou este pente? Perguntou Maria.
– Não lhe interessa.
– Não me interessa por quê? Retrucou a esposa.
– Porque não. Foi a resposta dura de Zé de Neném.
Diante da violência vergonhosa, Maria seguiu para a casa dos seus pais no Sítio Malhada da Caiçara. Zé Felipe ao saber do ocorrido teria sentenciado “-Daqui a dois dias você esquece tudo”.
Segundo a versão transmitida por Dona Amália, a sua irmã Maria não esqueceu e passados oito dias do entrevero conjugal estourou a notícia:
-Lampião vem aí!
Dona Amália comentou que todos ficaram com medo, inclusive Maria. A irmã mais nova da “Rainha do Cangaço” informou ao repórter que estava gripada e tossindo muito. Maria avisou que ela deveria parar de tossir “-Por que ele (Lampião) pode lhe matar”.
Dona Amália, irmã de Maria Bonita – Diário de Notícias, Salvador, ed. 4 de novembro de 1970
Ela afirma que Lampião e seus homens ficaram em um local próximo a propriedade da família e que seu pai matou um bode para alimentar os cangaceiros. As moças do lugar, diante do acontecimento anormal, resolveram fazer uma visita ao local. Dona Amália afirma que Maria primeiramente tinha bastante medo de se aproximar dos cangaceiros, mas acabou seguindo para o coito. Lá conheceu o chefe do bando, sendo por ele bem tratada. Aos poucos, segundo sua irmã mais nova, foi se aproximando do grande cangaceiro.
Lendo a versão transmitida por Dona Amália, é fácil deduzir que certamente Maria estava bastante magoada com a agressão realizada por seu marido. Consequentemente a ideia (e depois a decisão) de abandonar o esposo foi uma reação natural de defesa. Neste sentido, baseado no relato da reportagem, é possível conceber que a aproximação com Lampião poderia ter sido iniciada tanto pela admiração natural que a vida de cangaceiro exercia nas sertanejas, como por uma ideia de ter um homem que a protegesse?
Independente desta questão, logo após este encontro Dona Amália afirma que receberam a notícia que a polícia logo viria “visitar” a casa de Zé Felipe, para saber da sua relação com Lampião. Em pouco tempo todos estavam arrumando seus pertences, inclusive Maria. Seguiram em direção ao estado de Alagoas e transportavam poucas coisas, alguns membros da família praticamente saíram apenas com a roupa do corpo.
Quando o grupo familiar chegou à casa de uma das avós das meninas, no lugarejo Rio do Sal, a jovem Maria Déia decidiu ficar nesta casa. [9]
Oito dias depois a família tomou conhecimento que ela estava acompanhando Lampião.
ÚLTIMO ENCONTRO
Dona Amália recordou em 1970 o último encontro que teve com a irmã famosa.
O fato se deu no lugar Salobro e nesta ocasião Dona Amália encontrou sua irmã “muito alegre”. O seu relato aponta que Maria Déia estava realmente muito bem com a sua nova vida.
Ela conta que a irmã chegou até mesmo a fazer uma brincadeira “até certo ponto infantil”. Ela colocava dentro de uma rede vários objetos tipo pentes anéis e outras joias. Daí quem saltasse mais alto sobre a rede ganhava os prêmios. Dona Amália afirmou que não ganhou nada, mas que uma moça do lugarejo ficou com vários dos regalos. Ela lembrou que sua irmã mais velha lhe falou que estava gostando da vida ao lado de Lampião e revelou uma grande admiração por ele. Mas também lhe disse que não queria ninguém de sua família naquela vida.
Com o passar do tempo Dona Amália só tomava conhecimento da vida da irmã através da narrativa de pessoas vindas de fora. E foi desta forma que ela soube da morte de Maria Déia em 1938.
Ao ler o trabalho do jornalista Renato Riella percebi que este se apresenta com uma narrativa muito mais detalhista e aberta, mostrando que esta entrevista foi muito bem conduzida, trazendo alguns fatos sobre a vida da mulher de Lampião.
Infelizmente esta reportagem de 1970 não informou maiores detalhes do destino de Dona Amália e seu esposo. Já o pesquisador e escritor da cidade de Paulo Afonso, João de Sousa Lima, em seu ótimo livro “A trajetória guerreira de Maria Bonita, a Rainha do cangaço”, 1ª ed., 2005, na página 90, informa que Amália nasceu em 10 de julho de 1916, era conhecida na família como Dondon. O autor informa que ela e seus seis filhos seguiram para a cidade de Osasco, no estado de São Paulo, aonde veio a falecer no dia 12 de maio de 1996, em decorrência de um infarto.
[2] Existem algumas obras sobre o tema cangaço que apontam situações parecidas como as narradas pelo pai de Maria Bonita nesta matéria. Mas no caso da criança, por mais bruto que fosse Lampião quanto bandoleiro, havia uma relação muito positiva entre ele e Maria Bonita e não acredito que ele chegasse a este tipo de atitude em relação ao seu próprio filho.
[3] Existe um município no sul do estado de Alagoas denominado Girau do Ponciano, a vinte e seis quilômetros da cidade de Arapiraca. Segundo o pesquisador Kiko Monteiro, em artigo publicado neste blog “Tok de História”, um comerciante deste local de nome Eloy Mauricio, tive os seus armazéns saqueados pelo bando de lampião em abril de 1938, três meses antes da morte de Maria Bonita e seu companheiro. Teria sido nesta ocasião e neste local que se deu o fato narrado por Zé Felipe aos jornalistas em 1958? Infelizmente não conseguiu confirmação. (Ver – https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/08/06/canhoba-em-sergipe-e-rota-do-cangaco-os-carvalhos-lampiao-e-o-estado-menor/). Já sobre o pai de Maria Bonita, segundo o pesquisador e escritor João de Sousa Lima, no seu livro “A trajetória guerreira de Maria Bonita, a Rainha do cangaço”, na pág. 87 temos a informação que Zé Felipe faleceu em 5 de março de 1965, sete anos após a entrevista aos jornalistas de “O Jornal”.
[4] João de Sousa Lima, no seu livro “A trajetória guerreira de Maria Bonita, a Rainha do cangaço”, na pág. 90 informa que o nome desta irmã de Maria Bonita seria Amália Oliveira Silva e Amália Gomes de Oliveira seria provavelmente seu nome de solteira. Sobre o jornalista Renato Riella ver – http://riella.blog-se.com.br
[6] Sobre o candidato a deputado estadual José Augusto informo que nada encontrei. A Assembleia Legislativa do Estado da Bahia possui em seu site na internet uma interessante página com pequenas biografias dos vários deputados que atuam e atuaram na casa. Mas não encontrei nenhuma referência a algum político com este nome. É certo que em 1970 houve um pleito onde os eleitores dos estados da federação escolheram diretamente seus candidatos ao senado, a câmara federal, para as assembleias legislativas, prefeituras e câmara de vereadores. (Ver – http://www.al.ba.gov.br/v2/deputados.cfm / http://www.tse.jus.br/eleicoes/cronologia-das-eleicoes)
[7] João de Sousa Lima, livro “A trajetória guerreira de Maria Bonita, a Rainha do cangaço”, na pág. 90 confirma que Dona Amália havia casado com Manuel Oliveira Silva.
[8] Este canivete “Corneta”, comentado na reportagem pela Dona Amália seria o que atualmente é conhecido popularmente como canivete de “Eletricista”. Também era conhecido antigamente como “Pica Fumo”. Já o nome como esta peça de cutelaria era conhecido naquela época vem da tradicional fábrica Indústria e Comércio Corneta S.A., implantada a mais de 70 anos no Brasil por imigrantes alemães na cidade de São Paulo. Ver – http://www.corneta.com.br/
[9] João de Sousa Lima, livro “A trajetória guerreira de Maria Bonita, a Rainha do cangaço”, na pág. 30 informa que esta avó era a materna e se chamava Ana Maria. O autor aponta que Maria Déia decidiu ficar neste local para cuidar da saúde da avó e teria sido dali que ela seguiu definitivamente com Lampião.
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Para não deixar pistas e dificultar as perseguições policiais, os cangaceiros utilizavam diversas técnicas ao fugir dos macacos (como chamavam as volantes policiais), como:
– andar com alpercatas “peludas” ou forradas com estopa, para não deixar rastros; – inverter a posição do salto das alpercatas, colocando-o na parte do bico, para esconder a direção tomada pelo bando; – pisar nos mesmos locais dos que lhe precediam no caminho, fazendo parecer o andar de um só homem; – apagar rastros com galhos folhudos, amarrados aos rabos dos animais de coice; – varrer o chão com vassoura de galhos folhudos, travalho feito por cangaceiro caminhando atrás do bando; – andar de costas na saída das “bebidas”, em terra molhada; – marginar caminhos, andando no chão duro ou sobre pedras, para evitar rastros; – utilizar a técnica do “pulo”, com os cangaceiros pulando fora da fila, restando apenas um no caminho, que ia apagando os rastros; – embaralhar os rastros, para deixar várias e diferentes pistas da caminhada; – percorrer trchos de riacho, dentro da água corrente; – nos pousos enterravam os restos de comida, para não atrair urubus; – à noite, não era feito “fogo”, para não alertar as volantes; – guardavam silêncio nas longas caminhadas (andavam até 50 km por dia); não tossiam, procuravam evitar choros de crianças recém nascidas; – usar sandálias do mesmo formato tanto na frente como atrás, isso deixava rastro sem orientação; – às vezes, deixavam rastros claros de sua orientação para fazer com que volantes caíssem em emboscadas; – dividir os cangaceiros em pequenos grupos para que seguissem direções diferentes desnorteando os policiais; – deixar manchas de sangue em pedras e folhagens e depois seguir rumo contrário aos vestígios deixados.
Lampião sobreviveu por quase vinte anos lutando e fugindo pelo sertão nordestino, mas uma falha sua e do seu bando, por vezes, fazia com que as volantes os encontrassem: o cheiro forte de perfume que exalavam por onde passavam. Os cangaceiros tinham o hábito de passar perfumes para esconder o mau cheiro de dias caminhando e sem tomar banho.
Foto obtida a partir do exemplar do jornal "A Gazeta", edição de sábado, 6 de janeiro de 1962, São Paulo-SP - Fonte - Coleção do autor
A peça aqui apresentada foi realizada pelo grande mestre ceramista Vitalino Pereira dos Santos (1909 – 1963), mais conhecido popularmente como Mestre Vitalino.
Filho de humildes lavradores, Vitalino passou a desenvolver a partir dos 6 anos de idade a modelagem de bonecos de barro de pequenos animais para servirem como seus brinquedos. Utilizava como matéria prima as sobras do barro usado por sua mãe na produção de utensílios domésticos como panelas, recipientes e pratos, que eram vendidos na feira de Caruaru.
Com o tempo passou a representar o meio em que vivia, o modo de vida do nordestino que vivia no interior de Pernambuco e as suas manifestações folclóricas. Este tipo de retratação é conhecida como arte figurativa.
Certamente o jovem Vitalino ouviu muitas histórias de acontecimentos relativos a passagens dos bandos pela sua região, principalmente as ligadas a figura de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
Não sei se vivendo próximo a Caruaru, ouve alguma oportunidade de Vitalino ficar frente a frente de algum grupo cangaceiro, ou se teve oportunidade de conhecer o “Rei do Cangaço”. Mas como Lampião adorava ser fotografado, certamente Vitalino teve oportunidade de visualizar a sinistra figura e criar um boneco deste cangaceiro através de sua peculiar arte, como o apresentado aqui nesta foto.
Não sei maiores detalhes da peça apresentada na primeira foto do artigo, nem onde a mesma se encontra, mas percebo que ela é bem distinta de outras peças do Mestre Vitalino que retratam o cangaceiro Lampião.
Mas Vitalino não era apenas ceramista, na década de 1920, a banda Zabumba Vitalino, da qual é o tocador de pífano principal.
Depois muda-se para o povoado Alto do Moura, para ficar mais próximo ao centro de Caruaru. Ele mesmo ensinava as técnicas aos seus amigos “bonequeiros”, como se auto denominavam. Mostrava como escolher o barro, socar, peneirar, secar , queimar no fogo à lenha e a como modelar .
Oferecendo seu trabalho na feira de Caruaru, sua atividade como ceramista permanece desconhecida do grande público até 1947, quando o desenhista e educador Augusto Rodrigues (1913 – 1993) organiza no Rio de Janeiro a 1ª Exposição de Cerâmica Pernambucana, com diversas obras suas. Segue-se uma série de eventos que contribuem para torná-lo conhecido nacionalmente e são publicadas diversas reportagens sobre o artista, como a editada pelo Jornal de Letras em 1953, com textos de José Condé, e na Revista Esso, em 1959.
Em 1955, integra a exposição Arte Primitiva e Moderna Brasileiras, em Neuchatel, Suíça. O Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais e a Prefeitura de Caruaru editam o livroVitalino, com texto do antropólogo René Ribeiro e fotografias de Marcel Gautherot (1910-1996) e Cecil Ayres. Nessa época, conhece Abelardo Rodrigues, arquiteto e colecionador, que forma um significativo acervo de peças do artista, mais tarde doadas para o Museu de Arte Popular, atual Museu do Barro de Caruaru.
Mestre Vitalino, em 1960, realiza viagem ao Rio de Janeiro e participa da Noite de Caruaru, organizada por intelectuais como os irmãos João Condé e José Condé, ocasião em que suas peças são leiloadas em benefício da construção do Museu de Arte Popular de Caruaru. Participa de programas de televisão e exibições musicais, comparece a eventos e recebe diversas homenagens, como Medalha Sílvio Romero. Nessa ocasião, a Rádio MEC realiza a gravação de seis músicas da banda de Vitalino, lançadas em disco pela Companhia de Defesa do Folclore Brasileiro na década de 1970. Em 1961, atendendo a pedido da Prefeitura de Caruaru, doa cerca de 250 peças ao Museu de Arte Popular, inaugurado nesse ano.
Lampião de Mestre Vitalino, exposta no Museu de História e Artes do Estado do Rio de Janeiro - Fonte - http://www.hak.com.br
Sua obra principal compreende mais de cem peças de diversos tamanhos feitas de massapé, extraído do rio Ipojuca, que se encontram nos principais museus do país. Destacam-se Casa de Farinha, Zabumba, Lampião e Vaquejada. Assina, a partir de 1949, peças marcadas com o carimbo VPS.
Em 1971, é inaugurada no Alto do Moura, no local onde o artista residiu, a Casa Museu Mestre Vitalino. No espaço, administrado pela família, estão expostas suas principais obras, além de objetos de uso pessoal, ferramentas de trabalho e o rústico forno a lenha em que fazia suas queimas.
Algumas de suas peças estão expostas no Museu de Arte Popular de Caruaru, Casa Museu Mestre Vitalino, no Alto do Moura, na casa onde viveu, no acervo do Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife e até no Museu do Louvre, em Paris.
Quem visita a bela cidade pernambucana de Triunfo se encanta com seu intenso frio que ocorre em algumas épocas do ano, a hospitalidade do seu povo, as belezas do lugar e muitas outras atrações.
O antigo Cine Teatro Guarany, exemplo do belo casario histórico de Triunfo – Foto – Rostand Medeiros
Certamente que o clima diferenciado, bem distinto do que estamos acostumados a encontrar pelo interior do Nordeste, é o que mais me marcou nas várias visitas que realizo na região, desde 1999.
Enfim, para quem mora em Natal, não é todo dia que dá para sentir temperaturas que variam de 10 a 19 graus.
Em Triunfo, Sertão do Pajeú, é possível realizar por preços bem razoáveis, ótimos passeios em camionetes, conhecendo as belezas naturais e históricas que existem na região.
Encoberta pela névoa vemos a sombra da torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, em Triunfo – Foto – Rostand Medeiros
A muito que desejava conhecer o Pico do Papagaio, ponto culminante da região e de todo estado de Pernambuco. Se na cidade o frio já era muito bom, a visita ao Pico do Papagaio foi uma experiência muito mais “gelada” e gratificante.
Belos Visuais e Muita História
O trajeto até o local é feito por estradas simples, mas bem conservadas.
Dá para ter até mesmo uma recordação em relação ao Seridó Potiguar, nas extensas e antigas cercas de pedras. Estas são muito parecidas as existentes nas zonas rurais de Caicó, Acari, Jardim e outras cidades seridoenses. A diferença proporcionada pelo clima é que enquanto no Seridó as cercas quase sempre se encontram desprovida de vegetação, em Triunfo estas pedras alinhadas, normalmente estão sempre cobertas por muito verde.
Cercas de pedra, tal como no Seridó Potiguar – Foto – Rostand Medeiros
Outra coisa interessante é a existência de plantações de café. Foi muito comum durante o trajeto ver grandes quantidades deste produto secando em pátios de cimento, diante das casas da região.
Em certo ponto fui tomado de completa surpresa, com a informação transmitida pelo nosso Guia de Turismo, o Sr. Antônio, que de um mirante apontou para os contrafortes da Serra do Pau Ferrado e da região do Saco dos Caçulas, antigos esconderijos de Lampião e seus homens. Além destes, o Sr. Antônio apontou o antigo “Casarão dos Patos”, que pertencia a Marcolino Diniz, filho do coronel Marçal, dois grandes coiteiros de Lampião na região e palco de sérios combates na época da Guerra de Princesa, ocorrida em 1930. Chamou-me atenção que, apesar da altitude, a distância relativa em quilômetros era um tanto curta, mostrando que não seria difícil o deslocamento entre aqueles locais e a região do Pico do Papagaio.
A distância se vê o contorno da Serra do Pau Ferrado, em território paraibano. Ao pé desta serra estão as propriedades Patos e Saco dos Caçulas, importantes coitos de Lampião – Foto – Rostand Medeiros
Seguimos com o Sr. Antônio na direção do ponto culminante do pico, na valente e vetusta D-20 azul, a diesel, cabine dupla.
Um Belo e Diferente Nordeste
A área onde se encontra o Pico do Papagaio é caracterizada a distância pela existência de várias antenas de comunicação e uma estátua de um tradicional Careta de Triunfo.
Caretas do carnaval de Triunfo – Foto Cristina barbosa-Fonte – httpne10.uol.com.br.jpg
Os chamados Caretas são os principais personagens do Carnaval de Triunfo e uma marca registrada desta bela cidade. Eles ganham as ruas da cidade nesta época de festejos com fantasias compostas por belos e extremamente característicos traços desta manifestação cultural. Os Caretas se fantasiam com máscaras feitas de papel, grude e amido de mandioca, além de chapéu de palha quebrado na testa, tal como os cangaceiros. Trazem um relho, ou chicote, e uma tabuleta onde são escritas frases satíricas, como as existentes nos para-choques de caminhão.
Segundo alguns estudiosos, a origem da festividade não faz parte do período carnavalesco, mas do ciclo natalino e teria se iniciado por uma proibição. Durante uma apresentação, dois triunfenses que representavam os personagens “Mateus”, de um reisado que ocorria na cidade, se embriagaram e foram proibidos de participar da manifestação. Inconformados, eles vagaram fantasiados pelo município, fazendo barulho com um chocalho e inaugurando a brincadeira dos Caretas.
Em meio a névoa, com o relho na mão, vemos a estátua do Careta do Pico do Papagaio – Foto – Rostand Medeiros
Ao chegarmos ao cume do pico, encontramos uma pequena área de estacionamento. Existem algumas edificações já bem desgastadas pelas chuvas e umidade, mas a paisagem é estonteante. Estamos cercados de serras, muito verde, nuvens e, evidentemente muito frio. Segundo o nosso Guia de Turismo, o Sr. Antônio, o Pico do Papagaio é o segundo ponto culminante do Nordeste, com 1.260 metros. Perde apenas para uma elevação com 1.860 metros, na Chapada Diamantina, Bahia e fica acima do Pico do Jabre, localizado no município de Maturéia, na Paraíba, este último com 1.197 metros de altitude.
Independente de quem é maior no quesito altitude, no dia em que estive neste local o frio era de rachar os ossos. Ventava muito e certamente a temperatura estava entre 10 e 13 graus, segundo informação do nosso Guia. Mesmo protegido, para um cidadão que cresceu aproveitando as tépidas águas existentes na Praia de Búzios, ao sul de Natal, o frio já estava me incomodando.
Aspecto da região do Pico do Papagaio no dia da nossa visita – Foto – Rostand Medeiros
Memórias dos Cangaceiros no Alto da Serra
O Sr. Antônio então chamou para conhecer a pequena loja de artesanato do lugar. Confesso que fiquei surpreso, pois não vi nenhuma placa indicativa.
A lojinha está situada em uma casa bem simples, mas interiormente possui muito calor, além da riqueza e diversidade do artesanato local. Este local de apoio foi criado pela associação UNAM-Unidade Agrícola Microondas.
Loja de artesanato no alto do pico – Foto – Rostand Medeiros
Fomos recebidos por três senhoras, muito prestativas e atenciosas, que prontamente ofereceram um quente e gostoso café orgânico, das plantações dos sítios das proximidades.
Bem, como eu gosto de café e de conversar, além de estar em uma região onde o cangaço proliferou, não dava para deixar de perguntar se alguém tinha ouvido falar sobre a passagem de cangaceiros por aquelas terras altas. Todas as três senhoras responderam que “sim”!
Delas, a que tinha mais informações foi Dona Terezinha, de 67 anos, nascida e criada naquele alto de serra, mais precisamente no Sítio Fortaleza. Ela comentou que Antônio José, seu pai, viu em algumas ocasiões a passagem do “Rei do Cangaço” e seus “Cabras“ pela região, onde recebiam apoio de sua família.
“-Ele era mocinho, mas recordava muito a passagem dos cangaceiros”. Comentou Dona Terezinha.
Ela afirma que o esconderijo, ou coito, mais utilizado era no Sítio Espirito Santo. A área servia com local de passagem, onde os cangaceiros sabiam que não teriam maiores problemas.
Segundo seu pai, os cangaceiros tratavam a todos com extrema cortesia. Normalmente pediam comida aos moradores da região e solicitavam descrição em relação à presença deles na área.
A Época da Passagem dos Cangaceiros
Para ela os cangaceiros passaram pela região do Pico do Papagaio nas “eras de 20”, antes da “Questão de Princesa”.
O coronel José Pereira, com o chapéu na mão direita, durante a Guerra de Princesa
Seguramente Dona Terezinha estava apontando a passagem de Lampião pela região nos primeiros anos da década de 1920, quando Lampião deixou de frequentar a área, devido a bem sucedida invasão a cidade paraibana de Sousa.
Este ataque foi realizado na madrugada de 27 de julho de 1924, pelos homens de Lampião (que estava ausente devido a um ferimento), na companhia do cangaceiro paraibano Chico Pereira, que tinha questões a serem resolvidas com a influente família Mariz.
O assalto a Sousa, a “Mossoró que deu certo”, teve uma enorme repercussão nos meios políticos da época. Onde ficou difícil para o coronel Marçal, seu filho Marcolino e o coronel José Pereira Lima, o líder político da cidade paraibana de Princesa, atual Princesa Isabel, manter o apoio a Lampião e seus homens.
Coronel José Pereira de Lima
O coronel José Pereira possuía laços de parentesco com Marçal Florentino e seu filho. Consta que ele apoiou a proteção que seus parentes forneciam a Lampião e seus homens, talvez por ter algum tipo de vantagem. Mas diante do que aconteceu em Sousa, José Pereira, que era deputado estadual na Paraíba, solicitou aos parentes que mandassem Lampião seguir para outras regiões.
Já a “Questão de Princesa”, foi a famosa guerra ocorrida no sertão paraibano, que teve início em fevereiro de 1930, onde grupos de jagunços, ex-cangaceiros, desertores da polícia paraibana, sob o comando do coronel José Pereira, se defrontaram contra forças legalistas do governador João Pessoa. Foi um acontecimento que marcou e transformou a vida nacional, considerado por muitos historiadores, o ponto inicial da Revolução de 1930.
João Pessoa, governador paraibano em 1930
A situação foi tão radical que José Pereira resolveu proclamar independência da sua cidade em relação ao Estado da Paraíba, sendo subordinado diretamente ao Governo Federal. O Território Livre de Princesa ganhou projeção nacional e internacional. Tinha suas próprias leis, hino, bandeira, jornal, ministros e até exército.
O conflito se encerra após a morte de João Pessoa e a ocupação da região de Princesa em 11 de agosto de 1930, por tropas do exército brasileiro.
Fortes Ligações
Mas voltando a passagem dos cangaceiros pela região do Pico do Papagaio, Dona Terezinha afirma que nunca houve combates entre os cangaceiros e policiais, pois a polícia não chegava até ali.
Indagado do porque desta situação, ela me comentou que era devido ao respeito e força política do coronel Marçal, parente de sua família.
Marcolino Diniz
Aí perguntei seu nome completo. Ela se chama Terezinha Florentino de Souza Barbosa, seu pai era Antônio José Florentino.
Belas paisagens da região – Foto – Rostand Medeiros
É provável que a informação de Dona Terezinha esteja correta e, a pedido do parente abastardo, os Florentinos que viviam no Pico do Papagaio forneciram apoio a Lampião e seus cangaceiros naqueles anos conturbados. Vale ressaltar que Lampião jamais molestou ninguém da região. Além do mais, a região do Pico do Papagaio está situada geograficamente entre a cidade Triunfo e a atual Princesa Isabel, mais próximo desta última.
Lampião “O Rei do Cangaço”
Dona Terezinha comentou que a relação era tão positiva, que um membro de sua família, conhecido como Roldão Florentino, um dia decidiu seguir Lampião e nunca mais deu notícia.
Influência
É fato mais que conhecido que Marçal e seu filho Marcolino forneciam proteção a Lampião em várias de suas propriedades. Desde a Fazenda Abóboras, próximo a Serra Talhada, como no Casarão dos Patos, mais próximo de Princesa.
Temperatura matutina em Triunfo – Foto – Rostand Medeiros
Mas além de cederem suas propriedades para os cangaceiros, Marçal e Marcolino parecem ter utilizado de sua influência para conseguir este apoio junto aos seus parentes na região do Pico do Papagaio. Certamente com o conhecimento do coronel José Pereira.
Para os Florentinos que viviam nas elevações não havia muito que fazer. Negar um pedido a alguém da família que era rico e influente, era uma descortesia. Mas seria verdadeiro sacrilégio, além de um risco a saúde, negar este pedido quando o beneficiário era o próprio Lampião.
No ponto mais alto do Pico do Papagaio – Foto – Rostand Medeiros
Certamente que havia o compromisso tácito de Lampião para não atacar as propriedades e os interesses de Marçal e Marcolino. Mas existe a dúvida se estes fazendeiros não repartiam com o maior bandido que pisou em solo brasileiro, os lucros das diversas ações de rapinagem que ele praticou com seus homens nos sertões pernambucano, alagoano, paraibano e cearense.
Aspecto de uma casa típica da região serrana de Triunfo – Foto – Rostand Medeiros
Existem informações que o coronel José Pereira guardava grandes somas de dinheiro do cangaceiro Lampião, tudo fruto de produto de roubo. Quando Lampião foi “convidado” a deixar esta região de fronteira entre Pernambuco e a Paraíba, José Pereira “esqueceu” de devolver a grana de Lampião e este jamais perdoou o poderoso fazendeiro e político.
Eu acredito que Triunfo é um dos poucos locais que se pesquisa sobre o cangaço com roupa contra o frio
Se isso é verdade, ou não, eu não sei e nem os protagonistas deixaram em algum cartório documentos sobre estes fatos registrados em três vias. Mas o que fica patente diante das informações prestadas por Dona Terezinha, é que a influência destes poderosos em favor de Lampião chegava até o ponto culminante da região.
Quando se pensa em pesquisa sobre o tema cangaço, normalmente o campo de busca de um garimpeiro da história seria uma hemeroteca, ou a documentação governamental de algum arquivo público, ou os arquivos dos institutos históricos existentes nos estados onde ocorreu este fenômeno de banditismo rural. Sem esquecer das pesquisas de campo e o que ficou da tradição oral.
Existem vários caminhos, mas um dos mais interessantes e que eu acreditava serem menos propensos a existir algo relativo ao cangaço, seriam as páginas da revista Fon-Fon. E realmente existem interessantes referências sobre cangaceiros nesta revista de variedades.
Dando um chute bem largo na história, seria mais ou menos como se hoje fosse realizado um debate sobre a problemática dos assaltos a bancos nas grandes cidades brasileiras, utilizando para isso as páginas da revista “Caras”.
Um Marco na Imprensa Brasileira
Durante o século XIX, em praticamente todo o Mundo as revistas ricamente ilustradas tornaram-se moda. Os causos, curiosidades e outros assuntos relacionados a modernidade, como moda nos bailes, automóveis, aviação, eram matérias para estas revistas.
Seguindo a tendência é criada a revista Fon-Fon no Rio de Janeiro em 13 de abril de 1907. Em relação ao nome “Fon-Fon”, é uma simples onomatopeia do som produzido pelas buzinas dos carros da época.
O foco da revista tinha um olhar irônico em relação ao dia a dia e aos fatos do Brasil considerado moderno. O enfoque dado às imagens era outra de suas principais características. Até mesmo gênios de nossa pintura, como Di Cavalcante, foi um de seus colaboradores. Em suas páginas foram celebrizados ilustradores como Nair de Tefé, J. Carlos, Raul Pederneiras e K. Lixto.
Eram mostradas as últimas novidades da moda em Paris, que na época já era o maior centro de elegância do mundo em matéria de modas femininas e infantis.
Além de moda a revista tratava de estilos e das rápidas mudanças que ocorriam na sociedade brasileira. Mas é inegável que o maior enfoque, era em relação à vida social carioca. Para a pesquisadora Fabiana Macena, a revista Fon-Fon se torna um importante documento para auxiliar o entendimento das táticas e relações comportamentais dos atores sociais da época.[1]
É neste interessante periódico que vamos encontra dois artigos sobre o cangaço.
Cangaço na Fon-Fon
No exemplar que circulou em 14 de abril de 1928, um sábado, na seção “Commentarios da Semana”, temos um texto que se inicia desta maneira;
Fon-Fon, 14 de abril de 1928
“O Ceará está na ordem do dia da imprensa carioca e quiçá da do Mundo. Infelizmente não pelo brilho da inteligência inegável de seus prosadores e poetas, nem pela excelência de sua administração e nem por outros motivos auspiciosos, mas pela miséria de sua politicalha e pela selvageria de seus crimes.”
O autor destas letras comenta que através de inúmeras notícias vindas daquele estado, este se encontrava “fora da ordem e da lei”. Um dos principais fatores apontados para a uma pretensa crise política e social era a questão do cangaço.
No texto encontramos uma forte crítica na maneira como as forças de segurança cearenses estavam levando adiante a luta contra os cangaceiros.
É comentada uma notícia publicada no jornal “O Povo”, de Fortaleza, edição de 15 de março, informando o saque realizado por policiais no povoado de Girau.
Esta povoação se desenvolveu a partir da fundação de uma estação ferroviária em 1907, localizada a alguns quilômetros da cidade de Senador Pompeu, fazendo parte da chamada Linha Sul e pertencente à Rede de Viação Cearense[2].
No artigo não encontramos maiores detalhes deste episódio. Mas ele deixa claro para a população carioca, o principal público da Fon-Fon, que diante da brutalidade, do saque e dos roubos praticados por membros das forças de segurança, era natural que sertanejo cearense sentisse uma certa inclinação a favor dos bandidos e fazendo com que alguns fornecessem proteção aos cangaceiros.
Para o articulista, a forma de combater o cangaço era equivocada. Enquanto os soldados simplesmente aguardavam a chegada dos meliantes, estes eram rápidos em seus deslocamentos. Bem montados em alimárias, percorriam grandes distâncias em pouco tempo e realizavam suas ações de forma inesperada.
O autor informa que os militares envolvidos nas operações contra os cangaceiros ganhavam vencimentos tão miseravelmente baixos, que o saque oficial, a arrecadação dos chamados “tributos de campanha”, era uma consequência para se evitar a fome. Além do mais ficava difícil acreditar que estes soldados combatessem seriamente os cangaceiros recebendo apenas 3.000 réis por dia[3].
Na edição de 5 de maio de 1928 da Fon-Fon, encontramos o subtítulo “O Penhomeno do Banditismo”, igualmente publicado na seção “Commentarios da Semana”, onde o autor afirma que o cangaceiro do Nordeste seria um herói abortado. Para o articulista este cangaceiro do sertão, possuidor de enorme energia natural, sem direcionamento, se perde na pobreza e no atraso que vivia a região.
Aspecto de um grupo de policiais volantes de combate a cangaceiros. Foto meramente ilustrativa
Apontava que para vencer o cangaço não seriam necessários os tiros e as baionetas dos militares. Mas teria que ser dado trabalho organizado pelo governo junto aos sertanejos, principalmente na construção de açudes, na abertura de estradas e sem esquecer-se de trazer educação para esta gente tão sofrida. Estas seriam armas muito mais poderosas para acabar com o cangaceirismo.
O autor não tinha nenhuma dúvida em apontar o grande culpado dos problemas relacionados ao cangaceirismo no interior do Ceará; o governo estadual.
A Luta Contra o Cangaço no Ceará, na Visão do Governo Estadual
Nesta época estava a frente do executivo cearense o desembargador José Moreira da Rocha, tendo realizado um dos governos mais polêmicos da história do Ceará. Ele dirigiu o estado entre 1924 a 1928, seguindo uma linha conservadora. Foi acusado entre outras coisas de ser autoritário, praticar o nepotismo e desviar verbas públicas.
Na área de repressão ao cangaço, a atuação das forças de segurança durante o governo Rocha tiveram seu grande ápice em 1927, durante a perseguição ao bando de Lampião, após este ter invadido o território potiguar e ter realizado o frustrado ataque contra a cidade de Mossoró.
Na sua mensagem a Assembleia Legislativa do Ceará, enviada em 19 de maio de 1928, Rocha enalteceu a dura perseguição ao bando, comentando de forma positiva os combates da Serra da Micaela, no município de Jaguaribe e na área do município de Aurora.
Serra da Micaela em foto atual - Fonte - http://www.flickr.com - Foto de Ranulfo Alexandre
Na Mensagem, os atos de bravura e os nomes dos militares mortos foram enaltecidos. O 2º sargento José Antônio do Nascimento e o 3º sargento Eurico Rocha foram promovidos a 2º tenente. Também por ato de bravura, Antônio Pereira do Nascimento foi confirmado no posto de 2º tenente. Este militar recebeu ferimentos no combate contra os cangaceiros ocorrido no lugar “Vaca Morta”.
Além das promoções a Mensagem informava que no mesmo combate na “Vaca Morta”, tombaram os cabos de esquadra Raymundo José Augusto e Manoel da Silva Britto, além dos soldados José Felix do Monte e Aprígio José da Silva.
Outro ponto muito enaltecido pela Mensagem do governador Rocha, diz respeito à fuga do grupo do cangaceiro Massilon para o Piauí e o desmantelamento do bando do cangaceiro João Marcelino.[4]
Jornal "Diário de Natal", 16 de janeiro de 1928
Este último chefe cangaceiro e parte dos seus homens, aliados de Lampião na invasão ao Rio Grande do Norte, foram na verdade friamente fuzilados pelo sargento José Antônio e seus soldados, no dia 5 de janeiro de 1928, próximo ao Sítio Alto do Leitão. Esta propriedade fica nas imediações da velha estrada que liga as cidades de Barbalha ao Crato. Consta que no local os cangaceiros foram obrigados a cavarem suas próprias sepulturas e depois fuzilados sem piedade.
Os Problemas na Ação Policial Contra os Cangaceiros
Apesar de todo o sacrifício dos militares e do clima ufanista transmitido pela Mensagem do governador Rocha, muito distante das críticas publicadas na Fon-Fon, outra fonte já apontava os problemas das forças de segurança cearenses nestes episódios.
E era o relato transmitido por um oficial da polícia potiguar.
"Diário de Natal" 24 de agosto de 1927
Nos dias 24 e 25 de agosto de 1927, foi reproduzida no jornal “Diário de Natal” uma entrevista concedida pelo tenente Joaquim Teixeira de Moura ao jornal mossoroense “Correio do Povo”. Este militar, junto com os tenentes Laurentino de Moraes e Sólon de Andrade, a frente de 100 homens da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, estiveram perseguindo Lampião e seus cangaceiros em território cearense.
Esta tropa ficou sob o comando do major Moysés Leite de Figueiredo, da polícia cearense. Além das forças potiguares e cearenses, estava sob o comando do major uma volante paraibana comandada pelo tenente Costa e pelo sargento Clementino Quelé. Moura afirmou que mais de 300 policiais estavam atuando contra os cangaceiros.
Na entrevista o oficial potiguar comenta o desenrolar das ações, narra a morte dos policiais cearenses e o ferimento do 2º tenente Pereira. A partir de certo ponto da entrevista, Moura não poupou o major Moysés de fortes críticas.
Ele inicia afirmando que Moysés não andava fardado, que depois de um determinado combate não deixou que os policiais potiguares realizassem buscas na região onde estavam os cangaceiros. Moura colocou o major Moysés no rol dos covardes, afirmando que o mesmo ficava a certa distância da linha de tiro e que em determinada hora transferiu o comando a um tenente chamado Firmo.
Um fato grave entre as declarações de Moura foi que o major Moysés era cunhado do chefe político Isaias Arruda, da fazenda Ipueira, município de Aurora. Este é considerado um dos maiores, ou o maior, coiteiro de Lampião no Ceará.
Mas a pior acusação do tenente Moura contra o major Moysés foi que o oficial cearense teria articulado junto ao governador Rocha para encerrar a perseguição, justamente no momento que as forças policiais preparavam-se para atacar Lampião em uma propriedade de Arruda.
Esta situação causou uma tremenda revolta em grande parte dos oficiais militares presentes, segundo as declarações de Moura.
Não sabemos se nas linhas do autor do artigo da Fon-Fon, quando comenta sobre a “miséria de sua politicalha” existente no Ceará, tinha alguma relação com as declarações de Moura.[5]
Mudanças
No dia 24 de outubro de 1927, enfermo, o governador Rocha pediu licença à Assembleia Legislativa para se afastar do executivo cearense. Esta permissão lhe foi concedida em 19 de maio de 1928. Rocha então seguiu para Recife, deixando que Eduardo Henrique Girão, então presidente da Assembleia Legislativa, assumisse o governo cearense[6].
Não sei se estas reportagens da Fon-Fon tiveram repercussões na Capital Federal, ou se tiveram maior eco no Ceará, ou se serviram de combustível para a Assembleia Legislativa do Ceará em conceder o afastamento de Rocha do seu cargo.
Mas o certo é que o novo governador do Ceará, José Carlos de Matos Peixoto, empossado em 12 de julho de 1928, já no seu primeiro ano na nova função, realizou uma grande mudança no aparato de segurança cearense. Criou a Secretaria de Polícia e Segurança Pública, desencadeou reformas na Polícia Militar e foram realizadas novas incursões contra o cangaceirismo no estado. Para o comando da Polícia Militar foram empossados os capitães do Exército Edgard Facó e Rodolpho Augusto Jourdan[7].
Um Grande Conhecedor do Cangaço
Lendo os inúmeros exemplares da revista Fon-Fon (colocados a disposição do público pela Biblioteca Nacional, já digitalizados, através do link http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/fonfon/fonfon_anos.htm), vemos que fatos ligados a região Nordeste são pouco vistos em suas páginas. Enfim era uma área do Brasil distante da então Capital Federal, pobre e cheia de problemas. Então é de se estranhar que o tema cangaço seja inserido em páginas tão pouco destinadas a tratar deste assunto.
Apesar dos artigos aqui analisados não trazerem o nome do autor, não temos dúvida em apontar que estas referências ao cangaço foram publicadas na revista através da ação do advogado e jornalista cearense Gustavo Dodt Barroso.[8]
Este nasceu na capital alencarina em dezembro de 1888. Foi advogado, professor, político, contista, folclorista, cronista, ensaísta e romancista. Depois se mudou para o Rio de janeiro. Na literatura, usando o pseudônimo de João do Norte, lançou com apenas vinte e três anos o livro “Terra de sol”, um ensaio sobre a natureza e os costumes do sertão cearense.
Em 1916 ele entra para os quadros da revista Fon-Fon em 1928 vamos encontrá-lo na função de Redator-Chefe.
Nesta época Barroso já havia escrito o livro “Heróis e bandidos-Os cangaceiros do Nordeste” (Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1917). Em 1930 publicaria “Almas de lama e aço – Lampião e outros cangaceiros” (São Paulo: Ed. Melhoramentos, 1930), mostrando que ele conhecia e analisava o assunto com profundidade.
Para o folclorista pernambucano Mário Souto Maior, Gustavo Barroso soube estudar as causas do cangaço, a sua ambiência, a sua época, com uma penetração sociológica pouco comum àquele tempo.
Para Souto este escritor nordestino soube analisar o homem e o meio para, a seu modo, embora um tanto ou quanto controverso, apontar as principais causas que originaram e alimentaram, por mais de cinco décadas, o flagelo do cangaço no chamado polígono das secas[9].
Estes dois artigos na revista Fon-Fon não são os únicos que tratam do tema cangaço neste periódico. Existem outras referências, que acredito terem sido igualmente realizadas por Gustavo Barroso. Isso mostra de certa maneira, o quanto este assunto já possuía penetração na imprensa da Capital Federal, que só cresceu ao longo dos anos posteriores.
Aponta também sobre a existência de novas fontes documentais de informações sobre o cangaço e como a pesquisa do assunto pode ser mais ampla.
Para finalizar; Joaquim Teixeira de Moura foi extremamente duro em suas críticas ao major Moysés, mas se o assunto é covardia, pior foi o caso da morte do cangaceiro Chico Pereira, em Currais Novos, em outubro de 1928. Neste dia Chico Pereira foi friamente trucidado pelo tenente Moura e a escolta que deveria transportá-lo a Acari. Foi uma grande mácula em uma carreira onde não faltaram atos de extrema valentia e mostras de capacidade.
[1] MACENA, Fabiana. “Madames, mademoiselles, melindrosas: representações femininas na revista
Fon-Fon (1920-1930)”. Viçosa, UFV. Revista de História Contemporânea, nº2, mai. a out. 2008.
[2] Girau é o atual município de Piquet Carneiro, localizado a 332 quilômetros de distância de Fortaleza.
[3] Para efeito comparativo, 2.000 réis era o preço de uma entrada para uma poltrona no Cine-Theatro Carlos Gomes em Natal. Ver jornal “A Republica”, 4 de novembro de 1928, pág. 4.
[4] Ver “Mensagem enviada a Assembleia Legislativa do Ceará, pelo Desembargados José Moreira da Rocha, Presidente do Estado, 1928”, páginas 48 a 52.
[5] Para quem desejar conhecer esta reportagem na íntegra, a mesma se encontra na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do norte, situado a Rua da Conceição, 662, Centro, Natal.
[7] Ver “Mensagem apresentada pelo Presidente do Estado do Ceará a Assembleia Legislativa e lida na abertura da 1ª seção ordinária da decima legislatura”, 1929, Ed. Tipografia Gadelha, Ceará, págs. 12 a 15.
[8] A obra e a verdadeira prestação de serviços de Barroso a cultura brasileira são enormes. Barroso escreveu em vários jornais e revistas de Fortaleza e do Rio de Janeiro inúmeros artigos, crônicas e contos, além de desenhos e caricaturas. Publicou mais de cento e vinte e oito livros, com trabalhos que abrangem desde história, folclore, ficção, biografias, memórias, política, arqueologia, museologia, economia, crítica e ensaio, além de dicionário e poesia. Além de João do Norte, utilizou os pseudônimos Nautilus, Jotanne e Cláudio França. Foi deputado federal pelo seu estado natal e exerceu inúmeros cargos públicos, tendo atuado como diretor do Museu Histórico Nacional. Torna-se membro da Academia Brasileira de Letras com apenas 35 anos de idade. Nesta instituição exerceu vários cargos, culminando com o de presidente, com mandatos em 1932, 1933, 1949 e 1950. Em 1941 foi designado, juntamente com Afrânio Peixoto e Manuel Bandeira, para coordenar os estudos e pesquisas relativos ao folclore brasileiro. Além da A.B.L. foi membro de várias outras academias e sociedades científicas. Entre estas a Academia Portuguesa da História; a das Ciências de Lisboa; a Royal Society of Literature de Londres; a Academia de Belas Artes de Portugal; a Sociedade dos Arqueólogos de Lisboa; o Instituto de Coimbra; a Sociedade Numismática da Bélgica, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e de vários estados brasileiros; e das Sociedades de Geografia de Lisboa, do Rio de Janeiro e de Lima. Gustavo Barroso faleceu no Rio de Janeiro em 3 de dezembro de 1959. (Ver – http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/gustavobarroso.html).
O poeta Renato Caldas nasceu na cidade de Assú no dia 8 de outubro de 1902, sendo considerado o maior representante da poesia matuta no Rio Grande do Norte.
Ficou conhecido como o “poeta das melodias selvagens”, por seus versos apresentarem de maneira simple e espontânea, para alguns até mesmo rude, mas sempre original, aspectos do amor, da simplicidade da vida do homem do campo, da natureza sertaneja e da beleza feminina.
Homem expansivo, o poeta Renato Caldas era um grande boêmio e um apreciador das cantigas populares.
A sua obra mais conhecida é o livro de poesias “Fulô do Mato”.
Em 1987, este jornalista entrevistou longamente o poeta para o Caderno de Domingo, suplemento que então se publicava no jornal natalense “Tribuna do Norte”. Neste trabalho Jorge encontrou o velho homem de letras já “bastante alquebrado pela doença e pela velhice”, mas ainda memorioso, lúcido e frequentando um bar em Assú.
O jornalista comenta que em 1993, pouco tempo depois da morte de Caldas, o então prefeito de Assú, Lourinaldo Soares desejava construir um memorial em honra do poeta. Coube a Franklin Jorge a tarefa de organizar e classificar os papéis de Renato Caldas.
Infelizmente em sua busca, ele encontrou algumas poucas cartas e fotos. Segundo o jornalista “Não havia nenhum livro, nenhum manuscrito; nada, enfim, que justificasse a criação de um memorial. Da sua copiosa produção, dispersa ao longo dos anos, não restara nada”.
É uma pena que nada tenha sido encontrado. Li “Fulô do Mato” e considero uma obra verdadeiramente maravilhosa.
Renato Caldas Fonte – recantodasletras.com
Fui à busca de algum material sobre este poeta nos meus arquivos e encontrei duas interessantes reportagens sobre apresentações realizadas por Caldas.
Em 1937, no dia 7 de agosto, um sábado, o jornal “A Republica” trazia na sua terceira página o anúncio “O sertão na cidade – O que será o recital de Renato Caldas”. Neste jornal o poeta era apresentado como “magnífico intérprete da poesia matuta”.
A apresentação de “O sertão na cidade” aconteceria às oito e meia da noite, no então Teatro Carlos Gomes, atual Alberto Maranhão, no bairro da Ribeira. Para aqueles que se fizessem presentes, o jornal anunciava que a apresentação traria “tudo que o sertão tem de beijo, através dos versos esplêndidos de Renato Caldas”, que era designado pelo jornal como sendo um “folklorista”.
O poeta é apresentado de forma solene e exuberante. Mostrando que parecia estar em uma fase muito positiva de sua carreira e com uma enorme aceitação por parte da sociedade natalense.
Naquela noite de sábado, antes de Renato Caldas começar a declamar seus versos, subiu ao palco do Carlos Gomes o também poeta Genar Wanderley, que logo se tornaria radialista e seria conhecido como o “Cacique do Rádio Potiguar”. Genar fez uma apresentação sobre a vida de Caldas e enalteceu a sua poesia.
Também se apresentou o músico e cantor Santos Lemos, ou Santos Lins (Devido ao estado do jornal não foi possível ter uma certeza deste nome). O jornal informava que este era o “Cantor que todos conhecem”.
Sobre o recital de Renato Caldas propriamente dito, encontramos basicamente a informação que ele foi realizado com “muita expressão” e que o poeta aproveitou e contou “várias anedotas”.
Vemos que o relato da apresentação, publicado em 10 de agosto, foi uma nota extremamente curta e econômica nas informações. Se compararmos com a nota que informava sobre o mesmo espetáculo, percebemos uma nítida diferença.
Devido à qualidade da poesia de Renato Caldas, acho difícil que o público presente ao Carlos Gomes não tenha gostado do que viu e ouviu. O que talvez justificasse uma nota informativa tão limitada.
Não sei se o poeta de Assú, talvez ao contar suas piadas, tenha se excedido perante os rigores da sociedade natalense da época. Não podemos esquecer que era 1937, o ano da implantação do Estado Novo, onde os ideais apregoados pela ditadura Vargas em relação a moral, os bons costumes e o civismo eram extremamente rígidos.
Apesar de não havermos conseguido maiores informações sobre o desenrolar deste evento, vamos encontrar informações de outro espetáculo de Renato Caldas. Mas desta vez seu palco foi em Aracaju, Sergipe.
Quase um ano depois do evento em Natal, no dia 22 de julho de 1938, uma Sexta-Feira, Caldas fazia uma apresentação na Biblioteca Pública de Aracaju.
Na primeira página do periódico “O Nordeste”, de 23 de julho, temos a manchete “Folklorista Renato Caldas”. A nota trás a informação que na Biblioteca Pública, localizada próximo ao palácio do governo, no centro da cidade, o potiguar realizou duas apresentações.
Para a plateia local ele veio como “Um verdadeiro caipira”, provocando no público “Desopitantes gargalhadas”. O jornal afirmou que Caldas soube trazer a alma do matuto ao som de sua viola e dos seus versos.
O poeta José Maria Fontes (1908-1994), precursor do Modernismo em Sergipe, foi quem realizou a apresentação do vate de Assú ao público presente.
Renato Caldas vinha se apresentando em outras capitais nordestinas, pois o poeta Fontes comentou que o mesmo não era um “Neófito”, que já tinha “Seu nome aureolado pelas plateias dos estados nordestinos”. Sobre esta informação, Segundo Fernando Caldas, blogueiro nascido em Assú (http://blogdofernandocaldas.blogspot.com/2007/10/sobre-o-poeta-de-ful-do-mato.html), informa que o autor de “Fulô do Mato” realizou viagens pelo Nordeste, onde se apresentava em palcos de cinemas, teatros e outros locais improvisados, declamando suas poesias irreverentes, amorosas, cantando emboladas e modinhas que também sabia produzir a seu modo.
Estas reportagens mostram que Renato Caldas conseguiu seu espaço fora do Rio Grande do Norte, mostrando a qualidade dos versos que o consagraram. Não sei se devido ao seu espírito irreverente, sua boêmia, sua inquietude, ele não tenha alcançado um espaço mais amplo e merecedor da qualidade do seu trabalho.
Renato Caldas faleceu em 26 de outubro de 1991.
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O episódio acima citado, ocorrido no dia 10 de junho de 1927, na então Vila Vitória, atual Município de Marcelino Vieira/RN, precisamente no lugar denominado Caiçara dos Tomáz, está muito bem relatado por Carlos Rostand França de Medeiros, no blog Lampião Aceso e pelo Sargento Gama no blog Toxina.
Mas ainda tem muita novidade sobre tal ocorrência.
Rostand Medeiros recebendo a medalha junto com descendentes dos participantes do combate.
Em razão de o soldado José Monteiro de Matos ter sido cruelmente assassinado pelo bando do célebre cangaceiro Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, naquele fatídico dia, o Governador Juvenal Lamartine autorizou a construção de um túmulo em sua memória, conforme lei que segue abaixo.
Embora deva ser considerado como um dos seus maiores heróis, pouca coisa a PM tem feito para enaltecê-lo.
Diante disto, estou concluindo um projeto para que seja criada a Medalha de Bravura da PM-RN, cuja denominação será CRUZ DE BRAVURA SOLDADO MATOS.
Conforme tratado na 1ª parte, em 1928 o governador Juvenal Lamartine autorizou a construção de um monumento em memória do destemido soldado José Monteiro de Matos.
Placa do antigo monumento. Repare a data errada (16-06-1927). Foto do autor – março/2007
Com a construção do açude de Marcelino Vieira, cuja lâmina d’água encobriu o local onde ocorreu o grande confronto travado com o bando de Lampião o monumento teve que ser relocado. Acreditamos que isto ocorreu no governo de Dinarte Mariz. Possivelmente tenha sido mandado fazer uma outra placa de bronze com os dizeres necessários. E erraram exatamente a data do episódio. A placa permaneceu exibindo a data 16 DE JUNHO DE 1927 por muitos anos até que, no inicio de 2007, por iniciativa deste pesquisador e apoio do prefeito Francisco Iramar o equivoco foi sanado.
No dia 10 de junho de 2007, no transcurso dos “Oitenta Anos do Grande Fogo da Caiçara” o monumento foi mais uma vez relocado, assunto que será tratado mais adiante.
De acordo com os autos do histórico processo crime movido contra Virgolino Ferreira e seu bando na Comarca de Pau dos Ferros, sentenciado no ano 2002, pelo MM Juiz de Direito João Afonso Morais Pordeus, o cadáver do soldado da PM-RN José Monteiro de Matos fora examinado no dia 11 de junho de 1927, na povoação de Victória, atual Município de Marcelino Vieira/RN, cujo lado pericial, manuscrito, compõe o caderno processual.
Antigo monumento ao soldado Matos. Foto do autor – março/2007
Como sou um ferrenho defensor de que o bravo soldado Matos é um verdadeiro herói e mártir da nossa querida corporação achei por bem publicar as peças atinentes à referida perícia. Tal documento é um dos diversos embasamentos do anteprojeto de decreto que estamos elaborando, com vistas a ser instituída a medalha de bravura da PM-RN e me foi generosamente cedido em forma de cópia pelo colega Epitácio de Andrade Filho, capitão médico e cangaceirólogo.
No dia 10 de junho de 2007 comemoramos solenemente o transcurso dos 80 anos do primeiro confronto travado entre o bando de Lampião e a polícia em solo potiguar, cujo evento ficou conhecido como O Grande Fogo da Caiçara, ocorrido no atual Município de Marcelino Vieira. Lá padeceu o destemido soldado José Monteiro de Matos, jovem policial que ainda não havia completado 40 dias de serviço.
A fim de bem marcar tão significativo acontecimento, elaborei e apresentei ao Dr. Iramar de Oliveira, respectivo prefeito municipal, uma proposta de Medalha Comemorativa, o que foi plenamente aceito e aprovado.
Medalha Fogo da Caiçara
Contando com a importante colaboração do sargento PM Francisco das Chagas Alves, meu colega de corregedoria, a arte da referida medalha ficou assim definida:
I – Insígnia: formada por um escudo redondo, dourado, medindo 40mm de diâmetro, tendo ao centro um octógono encravado num circulo, carregado pela representação da Serra do Panatis. Em contra-chefe, duas setas horizontais apontando em sentidos opostos e, logo acima, à destra, duas garruchas em santor, e à sinistra um chapéu de cangaceiro, encimados pela representação do monumento erigido em memória do Soldado José Monteiro de Matos. Circundando a bordadura da medalha, as inscrições PMMV, acima, e COMEMORATIVA DOS 80 ANOS DO FOGO DA CAIÇARA, abaixo, e entre estas dois ramos de folhas de carvalho. No reverso, a inscrição “10 de junho de 2007 – 80 anos”.
II – Fita: confeccionada em gorgorão de seda chama lotada, com listras nas cores verde, azul, amarela, branca, azul e verde, medindo 35m de largura por 45mm de comprimento útil.
III – Barreta: confeccionada com o mesmo tecido e cores da fita, medindo 10mm de altura por 35mm de largura.
IV – Diploma: confeccionado em papel apergaminhado, de acordo com o modelo em apenso.
Simbologia
A simbologia da Medalha é a seguinte:
I – Octógono: Representa o algarismo “8”; II – Círculo: lembra o algarismo “0”, de 80 anos. III – Serra do Panatís; Simboliza o Município de Marcelino Vieira; IV – Monumento tipo cruzeiro: evoca o Soldado José Monteiro de Matos, morto durante o Fogo da Caiçara; V – Chapéu de cangaceiro: significa o fenômeno social que assolou os sertões nordestinos, sobretudo na década de 1920. VI – Garruchas cruzadas (em santor): representa a força legal que combateu aos cangaceiros no povoado Caiçara, da qual fazia parte o bravo Soldado José Monteiro de Matos; VII – Cores azul, amarela e verde: predominantes da bandeira de Marcelino Vieira; VIII – Setas em sentidos opostos: indicam que houve combate entre as duas facções; IX – Folhas de carvalho: simbolizam força, coragem e intrepidez;
Foi muito interessante e proveitoso o engajamento de diversas pessoas e Órgãos durante aquele movimentado mês de junho do ano 2007, quando foram realizados alguns eventos que marcaram o transcurso dos 80 anos da investida de Virgolino Ferreira em terras norte-rio-grandenses.
Descerramento do memorial do cangaço
Em Marcelino Vieira, onde ocorreu verdadeiramente o 1º confronto de Lampião com a polícia potiguar, houve durante toda a tarde daquele 10 de junho inúmeras comemorações. A prefeitura municipal mandou erigir uma espécie de memorial do cangaço e eu tive a satisfação de descerrar a respectiva placa, em companhia do então prefeito municipal, o meu amigo Francisco Iramar.
A entrega solene da medalha acima descrita ocorreu na tarde daquele 10-junho-2007, ao lado do monumento erigido em memória do soldado José Monteiro de Matos, com a presença de diversas autoridades , convidados e pessoas do povo.
2º Sgt PM Francisco das Chagas Alves e Ten Cel Angelo
Cerca de 30 personalidades foram agraciadas, dentre autoridades, pesquisadores, militares estaduais e parentes de policiais que participaram do combate.
No dia 10 de junho de 2007, em significativa solenidade, o Dr. Francisco Iramar de Oliveira, prefeito de Marcelino Vieira concedeu a cerca de 30 pessoas a Medalha Comemorativa dos 80 Anos do Grande Fogo da Caiçara.
O evento marcou os oitenta anos da passagem do bando de Lampião pelo lugar.
Naquele distante 10 de junho de 1927, Lampião e seus cabras travaram ferrenho combate com uma fração de tropa da PM, resultando mortos o soldado José Monteiro de Matos e o cangaceiro Azulão.
As pessoas agraciadas foram indicadas em face de suas valiosas e destacadas contribuições para com o resgate da história do Município de Marcelino Vieira.
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QUANDO UMA CONCEITUADA PERFUMARIA CARIOCA OFERECEU MUITO DINHEIRO PELO FIM DO “REI DO CANGAÇO”
Autor – Rostand Medeiros
Um oferecimento para corajosos
Quem lê e se debruça sobre o tema cangaço, certamente já teve oportunidade de visualizar um famoso anúncio onde o governo do estado da Bahia oferecia 50 contos de réis pela captura de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também conhecido como “O Rei do Cangaço”.
Mas aquele anúncio de captura não foi o único. Em 1932 houve outro, que oferecia o mesmo valor, cuja iniciativa partiu de uma perfumaria que tinha sede na carioquíssima Praça Tiradentes, em pleno centro do Rio de Janeiro, então Capital Federal.
Muito dinheiro
Creio que quem primeiro comentou sobre este interessante fato foi o pesquisador e escritor baiano Oleone Coelho Fontes, no seu livro “Lampião na Bahia”. Nas páginas 198 a 207 (4ª edição) desta interessante obra, o autor lista inúmeros casos de pessoas, alguns destes antigos militares, que através de jornais cariocas informavam que estavam a disposição de seguirem para o longínquo sertão, na intenção de capturar, ou matar, o mais temido bandido brasileiro. Percebemos que estas pessoas procuravam muito mais a promoção midiática, do que tentar realmente resolver o caso Lampião.
Lampião e seus homens nos seus primeiros passos na Bahia, em foto de Alcides Fraga
Entre outras iniciativas de captura apontadas por Oleone, se encontrava uma feita por uma empresa, a Perfumaria Lopes. Esta conceituada casa comercial, inaugurada no início da década de 1920, informava através de um anúncio publicado na imprensa carioca (reproduzido no jornal soteropolitano “A Tarde”, edição de 12 de junho de 1931), que oferecia 50 contos de réis pela captura do famoso cangaceiro.
A empresa anunciava que o prêmio poderia ser conquistado por qualquer pessoa, civil ou militar, desde que provasse ter alcançado seu êxito através da apresentação de documentação autenticada por autoridade competente (Ver Fontes, O. C. Pág. 207, nota nº 272).
O jornal em que a nota foi publicada em Natal
Aparentemente a Perfumaria Lopes gostou da iniciativa, pois no ano seguinte, na mesma época, renovava a publicação do anúncio de 50 contos pela captura do “Rei do Cangaço”. Consegui encontrar este anúncio na edição de 13 de junho de 1932, do jornal natalense “A Republica”.
Mas enfim, isso era a sério? Ou seria apenas uma ação de marketing?
No meu entendimento, toda esta movimentação era puramente uma ação de propaganda. Não sei o que o operoso proprietário da empresa pensava sobre Lampião e suas ações, mas morando no distante Rio de Janeiro, certamente ele deve ter percebido que dificilmente alguém da sua região ganharia a premiação.
Mas se aparecesse um cidadão queimado do sol nordestino, trazendo a cabeça de Lampião em uma lata de querosene da marca “Jacaré”, em meio a uma grande quantidade de cal virgem para não apodrecer tão rápido, certamente o proprietário desta conceituada casa lhe pagaria, pois dinheiro não lhe faltava.
Fonte – Revista Careta, número 935, 22 de maio de 1926
A perfumaria Lopes pertencia ao Comendador José Gomes Lopes, que também era proprietário da Fábrica de Cosméticos Beija-Flor, era um imigrante português que enriqueceu no Rio de Janeiro. A sede principal da Perfumaria Lopes S. A. se situava na Praça Tiradentes, em um grande ponto comercial que ia do número 34 ao 38 e ainda possuía uma filial na Rua Uruguaiana, igualmente no Rio de Janeiro.
Mas havia sucursais por todo o Brasil e seu produtos tinham refino e qualidade.
Nas memórias de José Bento Faria Ferraz, que foi secretário particular do escritor Mário de Andrade por 11 anos, lembra que um dos mais importantes intelectuais da cultura brasileira era um homem “muito refinado”, mas tinha sérios apertos financeiros. “Apesar de sua pobreza”, como dizia José Bento, o escritor sempre solicitava que o colaborador fosse a Perfumaria Lopes, situada à Rua José Bonifácio, para comprar uma loção “para passar na careca”.
O Comendador Lopes tinha uma visão muito positiva em relação à propaganda. Vamos encontrar a sua casa comercial como o primeiro anunciante da famosa Rádio Nacional, transmitidas em ondas médias, enquanto o tradicional “Leite de Colônia” patrocinava em ondas curtas. A perfumaria foi também um dos patrocinadores do igualmente famoso “Repórter Esso”.
Fonte – paniscumovum.blogspot.com
Não encontrei mais nenhuma informação sobre esta iniciativa e o destino dos 50 contos de réis. Não tenho certeza, mas tudo indica que o sargento Bezerra, o homem que comandou os policiais que exterminaram Lampião em 1938, não foi ao Rio solicitar o prêmio.
Mas a simples existência deste tipo de anúncio em jornais de grande circulação da Capital Federal mostra o quanto a figura de Lampião era conhecido nacionalmente. Mas foi também esta fama, principalmente após a divulgação do famoso filme do libanês Benjamim Abrahão, que indubitavelmente chamou a atenção das autoridades federais do período do Estado Novo.
Os poderosos do Rio passaram a cobrar uma ação mais efetiva das autoridades estaduais nordestinas e para concretizar a derrocada deste cangaceiro. E assim foi feito.
O já conhecido anúncio de recompensa por Lampião, pretensamente oferecido pelo governo baiano.
Em Natal, a Perfumaria Lopes era representada pela firma César Comércio e Representações Ltda. Empresa criada pelo empresário Júlio César de Andrade em 07 de Março de 1932, com sede na travessa México, 85, no tradicional bairro da Ribeira.
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Artur Carvalho é da cidade de Floresta, sertão de Pernambuco. Recentemente o amigo Artur trouxe dois interessantes materiais históricos sobre o tema, que trago para os amigos que prestigiam o nosso “Tok de História”.
Carta de Lampião ao dono da Tabuleiro Comprido.
O primeiro material é uma das famosas cartas escritas por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, a um fazendeiro de nome Cantidiano Valgueiro dos Santos Barros, dono da propriedade Tabuleiro Comprido, conforme podemos ver na foto que segue, extraída da página 192, do livro “Relação dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”, de 1925.
Na carta, escrita na peculiar maneira de Lampião se expressar, ele pede a Cantidiano dois contos de réis, de forma extorsiva, a fim de serem evitados “prejuízos”.
Segundo Artur Carvalho, que utilizou os conhecimentos profissionais de um especialista em paleografia , a “tradução” é a seguinte;
“Ilmo. Sr Cantidiano Valgueiro,
Eu (ou “le”) faço esta para “vc” mandar-me dois “conto dereis”, isto sem falta, não tem menos, para “vc” saber se assinar em telegrama contra mim como “vc” se assinou em um com “Gome” jurubeba. Eu ví e ainda hoje tenho ele. Sem mais, resposte logo para “envitar” muito prejuízo. Sem mais assunto.
Cap. Virgulino ferreira Lampião. [sic]”
Na carta encontramos o nome do policial Gomes Jurubeba, grande inimigo de Lampião e certamente ligado a Cantidiano Valgueiro. Provavelmente esta ligação possa explicar o segundo regalo enviado pelo amigo Artur Carvalho.
Esta é uma interessante e rara foto, provavelmente da década de 1930, onde vemos três homens membros de um grupo de volantes, equipados e armados para combaterem os cangaceiros de Lampião e de outros bandos, em meio as caatingas nordestinas.
Os três soldados volantes
O grupo é formado (Da esquerda para a direita) por Geronso Calaça e Natanael Valgueiro, ambos da cidade de Floresta, e por Luiz Capuxu, de Serra Talhada.
Na imagem Natanael e Capuxu portam fuzis Mauser, mas pelas munições, na qual todos carregam em profusão, acredito que o Geronso também deveria ter este tipo de armamento. Além disso, trazem cantis, bolsas, apetrechos para dormirem no mato, punhais e outros materiais.
Podemos ver que portam armas de fogo curtas, sempre no lado esquerdo de seus cintos. Geronso e Natanael estão com o que aparentam ser duas pistolas F.N., modelo 1910, em calibre 7,65mm (.32 AUTO). Com Capuxu é possível ver um volumoso cabo de um revólver, mas sem maiores detalhes só podemos especular que era provavelmente algum modelo em calibre 32 ou 38.
Pistolas F.N., modelo 1910, em calibres 7,65 mm (.32 AUTO) e 9 mm Browning Curto (.380 ACP). Em versões “presentation”, com placas de cabo em madre-pérola, e a oxidada em negro com placas de cabo em ebonite preto Fonte – http://armasonline.org/armas-on-line/as-pistolas-browning/
Sobre as andanças de Natanael e os seus companheiros, sobre suas lutas contra cangaceiros não sei de nada.
Segundo Artur, Natanael era sobrinho e genro de Cantidiano Valgueiro, casado com sua filha Dona Zelfa Valgueiro Barros. Diante das ameaças feitas pelo “Rei do Cangaço” a seu parente, entrou em uma volante para dar combate aos cangaceiros.
Não sei se Lampião chegou a cometer algum tipo de crime contra seu parente, ou contra a propriedade Tabuleiro Comprido, mas o fato dele estar em uma volante pode apontar que esta hipótse é bastante plaussível.
Independente do que ocorreu nesta época, mais interessante foi a bela atitude que Natanael tomou em relação a sua amada Tabuleiro Comprido vários anos após o fim do cangaço.
Segundo uma matéria assinada por Josélia Menezes, em 1 de Abril de 2003, temos a interessante história.
“A história de vida e as atitudes do fazendeiro pernambucano Natanael Valgueiro Barros, 89 anos, nunca foram pautadas pelo conformismo e pelo convencional. Ainda garoto, nos anos 30, entrou nas chamadas Forças Volantes, que combatiam o Cangaço. Acabado os horrores dos combates, ele era um homem mudado, um pacifista. Desde então, em meio à luta contra a seca para salvar os rebanhos de gado, bode e ovelha, no semiárido, onde está sua fazenda, Tabuleiro Comprido, município de Floresta, ele encampou outra batalha solitária e pioneira: proteger as espécies ameaçadas da caatinga, especialmente emas. Caça e desmatamento soava como heresia aos seus ouvidos. Acabou virando o primeiro ambientalista daquelas paragens. Há 34 anos ele já cercava a fazenda, palco de confrontos sangrentos da Coluna Prestes, de olho na preservação.
Passado o tempo e reduzidas as emas a umas poucas unidades pela ação de caçadores e espertalhões, seu Valgueiro acaba de ter uma vitória significativa. O Ibama decretou recentemente a criação da primeira Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) no Vale do São Francisco em Pernambuco, com área de 285 ha, nas terras de seu Valgueiro.
O trabalho pioneiro realizado por ele sempre teve o apoio da família e foi justamente as três filhas e a nora que, diante de seu estado de saúde precário, encamparam sua luta pela criação da reserva. A ideia surgiu num momento de desespero, quando os registros do Incra apontavam a fazenda como improdutiva, passível de reforma agrária, apesar da tradicional criação de gado, ovelha e bode, dentro da filosofia de desenvolvimento sustentável, um conceito concebido só recentemente, mas já praticado na área. “Todo um longo trabalho de respeito ao meio ambiente era distorcido e em vez de premiação, éramos punidos”, observa a filha Adália. A ameaça de desapropriação chamou a atenção do grupo ambiental SOS Caatinga, que já vinha exercendo campanhas protecionistas na região, idealizador da criação da RPPN. A parceria estava formada. O grupo iniciou uma campanha de denúncia da situação junto a órgãos federais, como o Incra e Ibama, e as entidades ambientais Fundação Biodiversitas (MG) e Aspan (PE). “Os assentamentos do Incra em área de caatinga não têm muita preocupação ambiental. Seria um desastre socioambiental criar mais um justo nesta área”, observa Cláudio Novaes, membro do SOS Caatinga. Deu efeito. Relatório do escritório do Ibama em Salgueiro desaconselhou a desapropriação e comprovou o excelente estado de conservação da área, grande biodiversidade e beleza cênica.
Lampião o “Rei do Cangaço”
SOS Caatinga, Fundação Biodiversitas (MG) e Aspan (PE) formaram uma parceria para evitar um desastre ambiental e formar uma das mais importantes RPPN na área do rio São Francisco.
Através do SOS Caatinga, a família entrou com pedido de criação da reserva. “O apoio do representante federal do programa de RPPN em Pernambuco, Luiz Guilherme Façanha, foi decisivo porque ele nos orientou e estimulou o tempo todo”, revela Adália Valgueiro. O Ibama através da Portaria nº 177/02, de 31/12/2002 aprovou a criação da reserva, que leva o nome “Cantidiano Valgueiro de Carvalho Barros”, único filho homem do “seu” Valgueiro, morto há 3 anos. O órgão declarou a área como “de interesse público e em caráter de perpetuidade”.
O documento faz referência clara às agressões que a propriedade vem recebendo por parte dos caçadores. “As condutas e atividades lesivas à área reconhecida sujeitarão os infratores a sanções administrativas cabíveis, sem prejuízo de responsabilidade civil e penal”. A área preservada acaba de ser registrada no cartório de registro de imóveis. Também já se encontra em andamento a primeira pesquisa científica no local, sobre beija-flores, realizada pela mestranda em Biologia, Fabrícia Leal, pela UFPE.
A reserva de “seu” Valgueiro é a segunda em área de caatinga em Pernambuco. A primeira, chamada “Maurício Dantas”, fica no município de Betânia, criado há quatro anos pelo funcionário público Fábio Dantas, que também homenageou o filho morto em acidente.”
Apesar do texto anterior conter erros relativos a história da passagem da Coluna Prestes pela região, temos que dar os parabéns a Natanael (Seja neste ou em um plano superior) e a sua família pela notável ação com a criação da Reserva Particular do Patrimônio Natural Cantidio Valgueiro, na Ecoregião denominada “Depressão Sertaneja Setentrional”.
Segundo indicações do ICMBIO, a RPPN da Fazenda Taboleiro Comprido é na área da foto. No canto esquerdo o Rio Pajeú e a estrada mostrada é a PE-390. Fonte – http://www.earth.google.com/intl/pt/
Aparentemente o filho de Natanael tinha o mesmo nome do sogro e tio do seu pai e era dentista segundo eu apurei.
A preservação deste local deixa para as futuras gerações, um pedaço da caatinga próxima ao Rio Pajeú que foi autênticamente pisado tanto pela Coluna Prestes, como pelo bando de Lampião e seus perseguidores.
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A HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE LUTOU MAIS DE VINTE VEZES
CONTRA LAMPIÃO E A SUA BUSCA PELA PAZ
Autor – Rostand Medeiros
Nas ocasiões em que viajei pelo sertão do Nordeste em busca de conhecer mais sobre o cangaço, sempre esbarrava em muitas histórias de violentas lutas, valentia, covardia, honra, ódio, dor, sangue e algumas figuras que pareciam saídas de contos medievais, de verdadeiras gestas épicas.
Clementino José Furtado, o Clementino Quelé
Um destes personagens é o pernambucano Clementino José Furtado, mais conhecido como Clementino Quelé.
Este sertanejo foi cangaceiro, andou ao lado de Lampião, se desentendeu com ele, foi perseguido, perdeu quase toda a família na luta contra este grande chefe cangaceiro e se tornou policial, onde ficou conhecido como um dos mais esforçados perseguidores do “Rei do Cangaço”.
Lampião
Afirmava ter travado mais de vinte confrontos contra Lampião e seu bando. Depois participou de uma guerra no meio do sertão e finalmente procurou a paz no Cariri Paraibano, em uma cidade chamada Prata, próximo a cidade de Monteiro e da fronteira com Pernambuco.
Um Lugar Tranquilo
A origem do nome se deve a uma fonte de água descoberta por uma moradora, cujas águas eram extremamente límpidas e saborosas. Logo o local ficou conhecido na região como “Poço da Água de Prata” e ficava próximo a um riacho com a mesma denominação.
Prata, Paraíba
Neste local fui extremamente bem recebido e tive uma daquelas maravilhosas oportunidades de encontrar pessoas com tantos anos de vida e muita lucidez, que puderam narrar muitos episódios interessantes sobre Clementino Quelé.
Zoroastro Bezerra da Silva nasceu na Prata, no dia 14 de junho de 1916 e Pedro Elias da Silva, este último mais conhecido como “Seu Pedrosa” veio ao mundo no dia 16 de julho de 1917, em uma localidade pernambucana conhecida como “Beira” e nos conta que sua família se mudou para a Prata ainda na década de 1920.
Pedro Elias da Silva
Seu Pedrosa, que gosta muito de história, narra que o arruado do Riacho da Prata, ou simplesmente Prata, era um lugarejo que crescia como ponto de passagem e parada de tropeiros que seguiam da Paraíba em direção a Recife, e de comerciantes pernambucanos, principalmente das cidades de Flores, Afogados da Ingazeira e São José do Egito, que seguiam em direção ao comércio da cidade paraibana de Campina Grande.
Entre os anos de 1905 e 1906, teve início uma feira semanal e o número de habitantes começou a crescer.
Entrada a partir da BR-412
Lendo o pesquisador Pedro Nunes Filho, autor do livro “Guerreiro Togado – Fatos Históricos de Monteiro” (Ed. Universitária, UFPE, 1997, pág. 62), a Prata fazia parte do território de Alagoa do Monteiro, atualmente apenas Monteiro, que no início do século XX era o município com maior extensão territorial da Paraíba. A Prata era então, junto com as localidades de São Sebastião do Umbuzeiro, São Thomé, Camalaú, São João do Tigre e Boi Velho, um dos distritos daquela importante cidade fronteiriça com Pernambuco.
O local era tranquilo, mas a região onde se localiza esta comunidade sentiu o peso das espingardas na primeira década do século XX.
“A Guerra do Dotô Santa Cruz”
Nas proximidades da Prata existe uma propriedade denominada Areal. Em 1911 estas terras pertenciam ao advogado Augusto de Santa Cruz Oliveira, cuja família tinha forte influência política na região.
Augusto de Santa Cruz Oliveira Fonte-Livro “Guerreiro Togado”
Pessoa importante, rica e conhecida por todos, ocasionalmente o “Dotô” Santa Cruz se fazia presente na pequena feira da Prata, que ocorria sempre as quarta feira.
Pedro Nunes Filho em seu trabalho (op. cit.) informa que durante o mandato do governador João Lopes Machado (1908 – 1912) este buscou diminuir a força política da família Santa Cruz em Alagoa do Monteiro através de vários ardis.
Casa grande da Fazenda Areal Fonte-http://asleyravel.blogspot.com
Valente e voluntarioso, um verdadeiro líder, Augusto Santa Cruz reagiu a esta perda de espaço político através do uso da força. Ele protagonizou uma série de episódios violentos entre os anos de 1910 a 1912, onde não faltaram perseguições, espancamentos, invasões de vilas, tiroteios e mortes. Pronunciado, decidiu cercar Alagoa do Monteiro em maio de 1911, tendo sob o seu comando 130 homens armados, que destruiram a cadeia pública, libertaram os presos e ele deixou seus “cabras” saquearem lojas e bens dos desafetos.
Ao final da invasão, que teve forte repercussão em todo o Nordeste, o advogado Santa Cruz, para muitos apenas um “Cangaceiro Togado”, tomou várias pessoas em Monteiro como reféns e preparou-se para a reação do governo. Poucos depois, tropas da polícia paraibana e pernambucana atacaram a propriedade Areal e obrigaram Santa Cruz e seus homens a fugirem.
Alagoa do Monteiro, início do século XX. Fonte- Livro “Guerreiro Togado”
O resumo da ópera foi que Santa Cruz uniu forças a outro líder do interior paraibano, Franklin Dantas, da cidade de Teixeira, que igualmente se sentia perseguido pelo governador Machado.
Com esta união os dois chefes juntam mais de 300 homens em armas e partem para a invasão de várias localidades, entre elas a cidade de Patos, causando enormes transtornos e estragos. Depois seguiram em direção ao Ceará. Mas conforme avançam para o estado vizinho, os líderes desta coluna perceberam que não possuíam muito apoio de outras lideranças e viram que a sua “guerra” não teria nenhuma possibilidade de alterar a situação política. Tempos depois Santa Cruz fugiu para Pernambuco. Processado em Alagoa do Monteiro, foi julgado a revelia e absolvido.
Homens de Augusto Santa Cruz Fonte-Livro “Guerreiro Togado”
Ocorre que entre os homens de Augusto Santa Cruz estavam muitos dos seus empregados, fugitivos da justiça, antigos cangaceiros, amigos, parentes e várias destas pessoas viviam na pequena localidade da Prata.
Passado este momento difícil, que Seu Pedrosa chama “-Da época de 12”, a Prata vai crescendo devagar, mas tranquila.
Ele comentou que naquela época, na história do lugar não existiam maiores registros de envolvimento e confrontos entre seus habitantes e cangaceiros. Mas logo uma pessoa que havia sido muito ligada a Lampião chegaria ao lugar.
O “Tamanduá Vermelho”
Clementino Quelé é descrito como um homem forte, tido como baixo, com certa obesidade, de tez branca, que quando ficava agitado, a sua pele assumia um tom avermelhado. Daí o apelido “Tamanduá Vermelho”, dado pelo próprio Lampião.
Para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do Sol”, 2004, págs. 220 a 225), Quelé era natural da Ribeira do Navio, onde seguiu jovem para Alagoas, afastando-se de Pernambuco por questões de disputa familiar. No retorno a sua família segue para a região da bela cidade de Triunfo, no sítio Conceição.
Esta seria a possível casa onde Quelé e seus familiares travaram dois grandes tiroteios contra Lampião e seu bando. Santa Cruz da Baixa Verde, Pernambuco
Clementino Quelé era o chefe de sua família, tinha como irmãos Pedro, Quintino, Antônio, José e Manuel (Nezinho), todos considerados homens dispostos e valentes.
Envolvido em problemas políticos, que ocasionam perseguições a si e a membros do seu clã, Quelé e parte de seus familiares se juntam ao bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e passam a praticar a rapinagem pelos sertões.
Logo desavenças vão surgir e estas vão gerar uma forte inimizade com o famoso chefe cangaceiro. Como consequência, no início de 1924, Quelé e seus familiares sofrem dois grandes ataques do bando de Lampião no sítio Conceição, onde muitos são mortos.
Edição do jornal recifense “A Notícia”, de 14 de janeiro de 1924, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, informando erroneamente sobre a ação da polícia, durante o segundo ataque de Lampião contra Quelé
Em busca de vingança, Clementino Quelé entra na polícia paraibana, onde recebe as divisas de sargento, apesar do analfabetismo. Contra Lampião valia mais a pena uma pessoa “alfabetizada” no cano da espingarda.
O sargento Quelé era a valentia em pessoa e extremamente calejado nas lutas do sertão. Logo monta uma volante que se tornou conhecida como “Coluna Pente Fino” e que também ficou famosa na história do cangaço pela selvageria como combatia os inimigos e infligia o terror aos que apoiavam os bandos de cangaceiros. Muitos dos seus parentes fizeram parte do grupo.
Se não faltam relatos de valentia do seu pessoal, infelizmente não faltam informações que inúmeros inocentes sofreram nas mãos dos homens de Quelé, além de vários atos de pura rapinagem.
Caminhos do sertão
De toda maneira o “investimento” do governo da Paraíba em Quelé não foi em vão. Três anos e meio depois dos combates no sítio Conceição, no dia 14 de junho de 1927, ele e seus homens eram a primeira força policial a adentrar em Mossoró, após a fracassada tentativa de Lampião para conquistar a maior cidade do interior potiguar.
Durante a chamada Revolta ou Sedição de Princesa, na Paraíba, Clementino Quelé esteve lutando ao lado das tropas do governador João Pessoa, contra os homens do chefe político de Princesa, o coronel José Pereira. Foram sérios combates, com muitas mortes e atos de verdadeira selvageria.
Para seu Zoroastro, cujo pai era o barbeiro da cidade, consta que em Alagoa do Monteiro, onde o famoso guerreiro nordestino estava destacado, ele conheceu uma mulher com quem passou a ter um relacionamento e Quelé passou a permanecer mais tempo no Cariri Paraibano.
Seu Pedrosa informa que o ano da chegada do sargento Clementino Quelé a Prata foi em 1933 e ela teria acontecido devido um crime que ocorreu na região no ano anterior. Este problema foi uma invasão de propriedade, seguido do roubo de ração para o gado. O proprietário deu parte e foi aberto um inquérito. Tempos depois o sargento Quelé chegou ao pequeno distrito com outros militares e trazendo ordens do juiz de Monteiro para conduzir os invasores para a prisão.
Matriz de Nossa Senhora do Rosário, Prata, Paraíba
Apesar de chegar ao lugarejo para cumprir a lei, Seu Pedrosa informa que o sargento Quelé foi muito bem recebido pelo fazendeiro Ananiano Ramos Galvão, líder político do lugar. O sargento soube que a Prata estava crescendo e que havia uma pequena delegacia, mas não havia alguém com a sua patente para comandar o diminuto destacamento de dois soldados, um deles conhecido como “Mané Soldado”.
Logo a cidade soube que um novo sargento fora para lá designado e quando eles receberam a notícia de quem era o indicado, a comunidade se alvoroçou, pois o nome do sargento Clementino Quelé imprimia medo e terror em todo o sertão.
O sargento era sempre lembrado entre os habitantes locais pela forma violenta como sua volante agia, as inúmeras mortes cometidas por ele e seus homens, os vários combates contra Lampião e outras histórias que acompanhavam o “Tamanduá Vermelho” para onde ele seguia.
Evidentemente que a comunidade tinha medo do que aquele homem, que a nada temia, poderia passar a fazer contra eles devido a sua posição.
E afinal, porque este militar iria deixar um posto em Alagoa do Monteiro, uma cidade maior, para trabalhar em um lugarejo diminuto e pobre?
Além do mais na Prata os problemas que o valente Quelé iria enfrentar estavam bem longe da guerrilha que era o cangaço e das batalhas que ocorreram na Guerra de Princesa. No lugarejo o que mais perturbava a ordem eram as brigas de família, bebedeiras, pequenos roubos e coisas consideradas leves.
Seu Pedrosa informa que em pouco tempo o sargento Clementino Quelé chegou com seus “teréns” na carroceria de um caminhão, acompanhado de sua mulher chamada Alice e seus filhos. Em meio ao espanto geral ele alugou uma casinha e assumiu a função de delegado.
Um Bravo Que Desejava Ficar em Paz
Logo todo o sertão do Cariri Paraibano comentava que na Prata estava morando o sargento Quelé. O mesmo que era cantado em verso e prosa como “O valente que mais vezes brigou com Lampião”.
Não obstante a desconfiança inicial, além do fato de Quelé ser caladão e taciturno, a vida continuou. Mas o povo da Prata mantinha “Um olho no peixe e outro no gato” em relação ao novo delegado.
Até porque, na visão de Seu Pedrosa, sua figura como policial era um tanto aparatosa e ostensiva, para uma cidade onde os cachaceiros eram o maior problema. Nas horas em que estava de serviço, segundo as palavras do nosso entrevistado;
“-Quelé estava sempre com sua farda Kaki, quepe policial, um punhal atravessado no cós da calça, um vistoso e grande “Parabellum” pendurado na cartucheira e um rifle na mão.
Logo todos perceberam que apesar de sua sisudez, seu jeito fechado e caladão, seu comportamento junto aos moradores da Prata era extremamente tranquilo e suas atitudes controladas.
Para os entrevistados Quelé era muito “sabido”, pois buscava sempre “ajeitar” as situações com a conversa. Quando havia algum problema, alguma questão, ele utilizava de sua autoridade como policial e resolvia as querelas entre as pessoas da comunidade de forma equilibrada. Além da autoridade do uniforme, evidentemente havia o respeito pelo seu passado de lutas contra Lampião.
Gradativamente ele foi sendo bem aceito.
Não praticava o extermínio frio de bandidos, mas era conhecido pela moral e honestidade, além de ser considerado muito justo na sua atitude como policial, em uma forma de agir bem diferente dos tempos do cangaço. Os entrevistado afirmaram que durante o tempo em que lá esteve, não existe informações que Quelé recebia propina, tanto que morreu pobre.
Mas também não aceitava o furto e o roubo de animais de forma alguma. Se algum ladrão sem vergonha caísse na sua mão com estes crimes, segundo Seu Pedrosa;
“-Se fosse pro lado do furto de coisas e bichos, ele não dava cobertura e a peia (surra) era grande”.
Casa de Clementino Quelé na Prata
Sem ter muito problemas policiais para resolver, Clementino Quelé foi comprou uma pequena gleba de terra. Trabalhava nas horas vagas como agricultor e vendia sua pequena produção de milho e feijão na feira semanal. Era considerado um homem muito esforçado. Esta propriedade era perto do antigo sítio de Manoel Lindoso, a quem Seu Pedrosa considera o fundador da localidade.
Consta que para dar um “corretivo” nos presos, normalmente pinguços que enchiam a cara de cachaça nos bares, Quelé os levava para a sua terrinha, entregava uma enxada e mandava os detidos brocarem o terreno. Mas ficava ali do lado com o “Parabellum” no cinto.
O sargento não era visto com uma garrafa de pinga na sua frente e não andava bêbado pelas ruas.
Logo todos na Prata perceberam que o velho combatente queria ficar em paz no seu lugar. Paz para estar ao lado de sua Alice e de seus filhos.
Consta que Quelé havia sido casado com uma Senhora conhecida como “Toinha” e desta união nasceu uma filha e um filho chamado Zacarias. Depois, em Alagoa do Monteiro, ele se uniu a Alice e vieram mais três filhas.
Novo Encontro com Cangaceiros e Quem Era Lampião para Quelé
Naquele tempo Quelé, em algumas ocasiões e por ordem do Poder Judiciário, saiu da cidade para atuar em funções policiais. Mas em 1936 o sargento foi convocado para perseguir um grupo de cangaceiros que atacou a região próxima a Monteiro.
Jornal natalense “A Republica”, 23 de maio de 1936
Os nossos entrevistados não esquecem o desassombro e o impacto que causou no lugarejo a passagem deste bando que era comandado pelo chefe alcunhado “Moderno”, cujo nome real era Virgínio Fortunato da Silva. Este havia sido cunhado de Lampião, andava com ele a anos e era pessoa de sua extrema confiança.
Apesar de todo este medo e apreensão, os cangaceiros não passaram pela Prata e não consta que Quelé tenha novamente mantido algum combate contra Virgínio.
Fui informado que o assalto do bando de Virgínio foi extremamente rentável, mas que após a região do atual município de Camalaú, ponto máximo alcançado pelo grupo de cangaceiros em 1936, havia interessantes e ricas propriedades, principalmente nas proximidades da atual cidade paraibana de Barra de São Miguel. As testemunhas acreditam que este cangaceiro não seguiu adiante na sua rapinagem, justamente porque Virgínio sabia que ali perto se encontrava “um velho conhecido”.
Se isso é verdade eu não pude apurar e somente uma pesquisa específica para checar a veracidade desta informação.
Seu Pedrosa comenta que não tinha maior aproximação com Quelé, mas nunca deixou de ficar por perto quando o velho combatente conversava com os amigos da cidade sobre seu passado de lutas.
Fim de Lampião
Uma situação interessante foi no dia 28 de julho de 1938, quando Lampião e seu bando foram massacrados na Grota do Angico, várias pessoas da pequena urbe vieram até o sargento Quelé para narrar o acontecido. O espanto foi a sua quase total ausência de emoção. Apenas balançou a cabeça e nada falou.
Mas Seu Pedrosa comentou que nas palestras que ouviu de Quelé, escutou uma ocasião em que ele descreveu Lampião como sendo “-Um valente”. Para quem conheceu o sargento, este demonstrava um enorme ódio do “Rei do Cangaço”, mas também muito respeito.
Uma coisa que chamou atenção dos entrevistados foi que Clementino Quelé nunca negou que esteve lado a lado com Lampião no seu bando e que, devido às desavenças com este chefe cangaceiro, pagou um preço muito alto com a morte de vários familiares.
Sobre os familiares sobreviventes, soube que para a Prata vieram viver dois irmãos de Quelé, mas em circunstâncias bem diferenciadas do sargento que protegia a localidade.
Havia um deles, de nome José, mas conhecido como Zé Quelé, que era soldado da polícia paraibana e servia para os lados da região de Mãe D’Água, onde praticou um crime de morte. Ele busca então apoio no irmão Clementino, que não nega ajuda. Zé Quelé ficou homiziado nas proximidades, mas não vinha a feira, algumas vezes dormia nos matos e logo toda a cidade da Prata sabia daquela situação. Mas ninguém o denunciou.
Evidentemente que havia medo nesta conta, mas também houve um acordo tácito entre a comunidade e o delegado Clementino. Além disso ele era Clementino Quelé e não valia a pena uma inimizade com este homem.
Já o outro irmão era conhecido como Nezinho, também policial, mas tido como pistoleiro. Entretanto não criou nenhum problema na Prata.
Respeito
Um fato interessante ocorreu quando Quelé já estava aposentado. Então veio para ser o delegado na pequena localidade um sargento jovem e cheio de disposição. Este vendo Clementino Quelé andar ostensivamente armado, começou a comentar entre as pessoas que;
“-Aquele sargento véio não é mais da Força. Vou desarmar ele”.
Quando Quelé soube não fez nada. Apenas disse;
“-Tô esperando”.
Aparentemente o novo sargento foi mais bem informado quem era o idoso e já um tanto gordo ex-policial. Foi aconselhado que o melhor que tinha a fazer era deixar aquele homem em paz. Quelé nunca foi desarmado por ninguém.
Uma das facetas do valente sargento era sempre receber os chefes municipais e os políticos da região, tanto os de prestígio estadual e até mesmo pessoas de forte presença no cenário político nacional da época.
Nestas ocasiões, mesmo com pouca instrução, o velho perseguidor de Lampião sempre se apresentava bem uniformizado, sendo reconhecido por muitos destes homens do poder, que igualmente o tratavam com deferência.
Inácio Mariano e Walfrido Siqueira, homens fortes de São José do Egito e Jacinto Dantas, do lugar Ouro Velho, eram todos seus amigos e o visitavam quando estavam de passagem pela Prata.
João Agripino de Vasconcelos Maia Filho, de Catolé do Rocha, que foi deputado federal, senador e governador paraibano, quando ainda um jovem politico, fez questão de parar na Prata para conversar com o velho combatente.
José Américo de Almeida Fonte-http://www.onordeste.com
Em 1951, depois de haver realizado um comício em Sumé, o então candidato ao governo paraibano, José Américo de Almeida, veio a Prata em campanha eleitoral. Não era nenhuma surpresa a presença de políticos em campanha pela pequena cidade para pedir votos. Mas surpresa mesmo para muita gente foi quando o grande político e formidável homem de letras paraibano, autor de “A Bagaceira”, pediu para se encontrar com o sargento Clementino Quelé.
Os mais jovens não sabiam, mas José Américo havia sido um dos comandantes das forças legalistas do governador João Pessoa contra as tropas do coronel José Pereira, da cidade de Princesa, e o sargento Quelé foi um dos seus comandados. Houve um encontro de velhos conhecidos, cercado de alegria e abraços.
Paz no Fim da Vida
Uma coisa animava Clementino Quelé, visitar o coronel Manuel Benício, antigo caçador de cangaceiros e oficial da Polícia Militar da Paraíba. Segundo Seu Pedrosa, o coronel Benício morava em Pombal e ocasionalmente estes sertanejos afeitos as armas se encontravam nesta cidade para rememorar e conversar.
Outro local onde Quelé ocasionalmente visitava, era a região de Triunfo e Santa Cruz da Baixa Verde, em Pernambuco. Ali ele viveu momentos de muita tensão, mas não deixava de visitar amigos e parentes.
Conforme os anos foram passando o velho combatente ficou mais a vontade na cidade, frequentava bastante a igreja de Nossa Senhora do Rosário, passou a ser mais falante, mais tranquilo, mais alegre. Não tinha nenhum problema de narrar, como assim fez com várias pessoas, sobre suas andanças no cangaço, a entrada na polícia, a perseguição a cangaceiros e tinha um extremo orgulho em dizer que combateu Lampião em mais de 20 ocasiões distintas. Seu Zoroastro comentou que perdeu as contas em que o velho sargento vinha à casa de seu pai e narrava os episódios do passado. Quelé só não gostava de comentar sobre a “Guerra de Princesa”.
O problema é que suas histórias, para os ouvidos incautos, eram tão mirabolantes, tão incríveis, tão fantásticas, que muitos comentavam, principalmente os mais jovens, que o sargento Clementino Quelé era “mentiroso”. Já os mais velhos, que tinham escutado muito cantador de feira declamar em verso e prosa as peripécias daquele homem e diziam a moçada que tomassem cuidado, pois aquelas histórias eram totalmente reais. Tanto assim que ninguém nunca chegou na frente de Quelé para perguntar se o que ele falava era verdade ou não.
Uma situação que ele gostava de comentar e que tinha muito orgulho, foi o fato do seu filho Zacarias ter se tornado um alfaiate renomado na cidade e suas filhas não lhe darem problemas. Falava que sua família “-Podia ser pobre, mas eram pessoas de bem e não se meteram em questões”.
Possível túmulo de Quelé
Clementino Furtado, segundo Seu Pedrosa, faleceu em 1955, ainda lúcido. Até o fim nunca deixou de andar com uma arma na cintura e tem certeza que ele morreu em paz.
Para as pessoas com quem conversei, ele era um homem normal, não deixava transparecer as perturbadoras experiências que viveu. Na opinião dos velhos moradores da Prata, que na época eram jovens, admiravam o antigo caçador de cangaceiros e ficavam extasiados com a memória das velhas lutas daquele valente, o grande fator de sua mudança foi a mulher Alice, verdadeiro porto de paz e tranquilidade em sua vida.
No dia do seu falecimento a cidade parou. Veio gente de toda a região e várias autoridades foram ao velório. Para nossos entrevistados todos sentiram a sua morte.
Seu filho Zacarias, suas filhas e o irmão Nezinho foram com o tempo para Campina Grande. Já Zé Quelé, apesar do seu problema com a justiça, nunca foi preso e ficou mesmo pela Prata.
Aqui o amigo Ary Prata, professor e escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri Paraibano. Um agradecimento especial pelo apoio na sua simpática cidade
Tentei encontrar seu atestado de óbito, ou alguma informação da data de seu falecimento no cemitério local, mas nada consegui.
As pessoas da região me apontaram um túmulo recentemente pintado, mas sem nenhuma indicação que ali seria o local de seu repouso eterno. Fotografei o local, mas sem uma comprovação eficiente, afora a palavra das pessoas desta simpática cidade.
Mas ocorre uma situação interessante.
Fiquei intrigado, pois sabia não haver mais familiares de Quelé na Prata, então quem conservava seu tumulo?
Comentaram-me que pelo respeito a sua pessoa, a sua história tão marcada pelas inúmeras lutas e pelos bons serviços que o velho combatente realizou na cidade, seu antigo túmulo é conservado pela comunidade.
MAIS UMA VEZ AGRADEÇO AO AMIGO ARY PRATA E AO ADVOGADO ANTÔNIO ELIAS DA SILVA, MAIS CONHECIDO COMO “TÔTA”. MEMBROS DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO CARIRI PARAIBANO . MUITO OBRIGADO PELO APOIO E ATENÇÃO.
A SAGA DO LIBANÊS BENJAMIM ABRAHÃO PARA FILMAR O REI DO CANGAÇO
E A REPERCUSSÃO NAS PÁGINAS DO “DIÁRIO DE PERNAMBUCO”
Autor – Rostand Medeiros
Nesta clássica foto vemos Benjamin Abrahão, o armado Lampião e a sua Maria Bonita ostentando uma profusão de correntes de ouro. Este instantâneo foi conseguido em uma das visitas de Abrahão ao “Rei do Cangaço”. Foto do acervo da AbaFilm, reproduzida a partir do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, página 42, 1ª edição.
No início da vida bandida de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso cangaceiro Lampião, as suas ações, os seus feitos de armas, eram basicamente conhecidos pelos sertanejos através dos cantadores, dos emboladores, das conversas dos mascates nos dias de feira.
Estes meios de divulgação tradicionais, mesmo de forma lenta, ajudaram cada vez mais a criar na população do sertão o temor e, igualmente, contribuíram na propagação do mito ao redor da figura verdadeira.
Durante certo tempo muitos sertanejos não tiveram ideia da aparência e de outros aspectos ligados à figura de Lampião. Logo surgiu na imprensa uma boa quantidade de fotografias do chefe cangaceiro e este fazia questão de se deixar reproduzir diante das câmeras. Ele não tinha a aversão que o grande cangaceiro Antônio Silvino, preso em 1914, nutria pelas lentes fotográficas. Pelo contrário, gostava tanto que até cartões com a sua foto estampada foram um dia produzidos.
Na proporção em que cresciam as suas ações e a fama do seu bando nos sertões nordestinos, a sua figura ultrapassava limites regionais e as pessoas de todas as partes passaram a ouvir falar no conhecido “Rei do Cangaço”. Mas para o público dos grandes centros terem a oportunidade de visualizarem a figura de Lampião e seu bando, em uma película cinematográfica, no interior de uma confortável sala de projeção, era algo mais complicado.
Desde que o cinema chegou ao Brasil, em 8 de julho de 1896, com a inauguração de um “omniographo” na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, o seu desenvolvimento era cada vez mais intenso. Novas salas de exibição eram inauguradas pelo país afora, onde o público consumidor desejava através das imagens, tanto o entretenimento, quanto o conhecimento dos aspectos do imenso país.
Para uma pessoa de iniciativa e coragem, a ideia de filmar Lampião e seu bando poderia gerar muita fama e dinheiro.
Somente através da iniciativa de um emigrante libanês, foi possível imagens do famoso cangaceiro e do seu bando, sendo este o único registro cinematográfico desta controversa figura.
UM HOMEM SEM FRONTEIRAS
Benjamin Abrahão em fotografia realizada em um estúdio fotográfico pernambucano. A partir do livro “Lampião o mito”, autoria de Roberto Tapioca, 9ª edição, página 50.
Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 313 a 317), seu nome completo era Benjamin Abrahão Calil Botto, sendo originário do Líbano. Sua terra natal era Zahle, uma cidade situada na parte central deste país, no chamado Vale do Bekaa, próxima a cadeia de montanhas do Monte Líbano, em uma área extremamente fértil para agricultura e onde até hoje predomina uma população cristã.
Para alguns estudiosos ele teria vindo para o Brasil em 1910 e para outros ele aqui chegou em 1915. A razão de sua saída seria a ideia de buscar novas paragens para progredir na vida e deixar uma região então dominada pelo Império Turco Otomano desde 1517. Outra teoria aponta que a vinda de Abrahão seria uma fuga da convocação do exército que ocupava sua terra, para combater na Primeira Guerra Mundial.
Nesta época a nação libanesa ainda não havia sido oficialmente criada e os imigrantes que deixavam esta região e se dirigiam para o Brasil, eram normalmente conhecidos como “Turcos” ou “Sírios”. Apenas em 1926 foi oficialmente criada à República do Líbano, por interesses dos franceses.
Foto atual da cidade de Zahle, Líbano. Com uma população em torno de 100.000 habitantes, é a terceira maior cidade deste país, sendo bastante conhecida pela qualidade do vinho aí produzido. Coleção do autor.
Quis o destino que Benjamin Abrahão viesse para Recife, onde conseguiu um emprego de vendedor. Depois, impulsionado pelo espirito aventureiro e senso de oportunidade, foi até a cidade de Juazeiro, no interior do Ceará, onde conheceu o mítico e venerado líder religioso Padre Cícero Romão Batista.
Após os primeiros contatos com o homem considerado santo pelos romeiros que afluíam de todos os lugares do Nordeste, o libanês passou a ser conhecido na cidade como jornalista, secretário particular, fotógrafo e acompanhante do “Padim Ciço”. Existe a versão que o libanês de fala enrolada conquistou o coração do severo clérigo quando mentiu descaradamente ao afirmar ter nascido em Belém, a cidade natal de Jesus Cristo.
Para estas duas interessantes figuras este encontro foi extremamente positivo. Para o eterno cura dos desvalidos do Cariri, a figura de um secretário estrangeiro, nascido na terra de Jesus, certamente trazia respeitabilidade junto a elite local e chamava a atenção dos milhares de romeiros que vinham atrás de suas bênçãos. Já Benjamim sabia que o Padre Cícero era um líder prestigiado, sendo um porto seguro em um país desconhecido, em meio a uma Juazeiro em franco crescimento.
Era bem melhor o calor de Juazeiro, do que vestir um uniforme turco e levar um tiro dos ingleses na península de Gallipoli.
Tudo indica que o imigrante se deu muito bem nas terras do “Padim Ciço” e se entrosou perfeitamente com a sociedade local. Segundo o jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936, ao apresentar o “Sírio” Abrahão, o periódico informava que o imigrante teria fundado um jornal chamado “O Cariri”.
O libanês esperto se encontrava em Juazeiro, quando no dia 4 de março de 1926 chega à urbe sagrada o famoso cangaceiro Lampião e todo o seu séquito. O bandoleiro das caatingas vem a “cidade santa” para se juntar aos membros de uma força militar denominada “Batalhão Patriótico”, com a intenção de combater uma coluna de revoltosos comandados por Luís Carlos Prestes, Isidoro Dias Lopes, Siqueira Campos e outros oficiais rebelados do Exército Brasileiro contra o governo de Arthur Bernardes, então Presidente da República.
Lampião recebe uniformes, armas novas, se encontra com Padre Cícero, concede entrevistas e se deixa fotografar. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), a figura que coordena o assédio ao “Rei do Cangaço” não é outro se não o próprio Benjamim Abrahão. Afirma o pesquisador que a partir deste encontro surgiu uma amizade entre o libanês e o cangaceiro, bem como o germe da ideia de ser realizada uma película mostrando a vida de Lampião.
Assim o jornal recifense “A Província”, edição de 3 de junho de 1926, analisou a exibição do filme “Joaseiro do Padre Cícero”, ocorrida no dia anterior, no prestigiado Cinema São José. Coleção do autor.
Apesar do autor de “Guerreiros do sol” haver entrevistado Lauro Cabral de Oliveira, uma das pessoas que esteve com Lampião naquela ocasião para realizar entrevistas e fotografá-lo, que teve seu acesso ao cangaceiro garantido por Abrahão, acreditamos que a ideia surgiu na cabeça do libanês algum tempo antes.
Em 1925 foi produzido “Joaseiro do Padre Cícero”, um filme que buscava contar a vida e o trabalho do Padre Cícero Romão Batista. Rodado em película de 35 milímetros, a um custo de 40 contos de réis, esta obra tinha o objetivo de criar uma propaganda positiva em relação à ação política e social do padre, além de mostrar o desenvolvimento da cidade de Juazeiro. Nesta época o Padre Cícero sofria na imprensa dos grandes centros do Brasil uma feroz enxurrada de críticas e comentários negativos sobre a sua figura, a sua trajetória política e a mistificação que se criava em torno de sua pessoa.
A direção do filme coube ao cearense Adhemar Bezerra de Albuquerque e sua primeira exibição ocorreu no mesmo ano de sua produção. O local escolhido foi o Cinema Moderno, em Fortaleza, um empreendimento que foi inaugurado em 1921 e ficava na Praça do Ferreira.
Fachada do Cinema Moderno, em Fortaleza. A partir do livro “Ah, Fortaleza!”, vários autores, 1ª edição, página 143.
Depois de seu lançamento, a película foi apresentada em várias capitais brasileiras, chamando a atenção da crítica e do público. Certamente um dos que se impressionou com o sucesso da obra foi Benjamim Abrahão.
Provavelmente o diretor Adhemar Bezerra de Albuquerque, seguramente um dos principais pioneiros e expoentes do cinema cearense, que produziu muitos documentários em35 milímetros, deve ter criado laços de amizade com o libanês durante a produção deste filme e certamente o imigrante participou de alguma maneira da concretização desta produção.
A BUSCA POR LAMPIÃO
Ao longo dos anos o libanês continuou com o seu trabalho ao lado do Padre Cícero, mas em julho de 1934, aos 90 anos o seu patrão e protetor faleceu. É provável que sem maiores perspectivas ressurja na cabeça do libanês a ideia de mostrar ao mundo o cangaceiro Lampião, entrevistá-lo e conseguir assim se tornar o primeiro homem a filmar o “Grande Rei do Sertão”.
Relato de seus encontros com o bando de Lampião no jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936. Coleção do autor.
No ano seguinte Abrahão busca na capital cearense um empreendedor que o ajude nesta empreitada. Este apoio surge na pessoa do velho conhecido Ademar Albuquerque, agora proprietário da empresa Aba-Film, que tinha apenas um ano de funcionamento. Ademar percebe que o libanês é suficientemente arrojado (ou maluco) para procurar Lampião no “Oco do Mundo” e se ele não morresse tentando, a distribuição deste documentário poderia render um bom dinheiro.
Percebemos que não é de hoje que a figura de Lampião alavanca negócios.
O proprietário da Aba-Film lhe cedeu uma câmera, que segundo Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), seria de 35 milímetros, da marca Ica. Rolos de filmagem da empresa Gevaert-Belgium, um tripé e uma câmera fotográfica desenvolvida pela empresa alemã de produtos óticos Carl Zeiss, até hoje uma conceituada marca no meio fotográfico.
Benjamim estava munido com máquinas de conhecida qualidade e portabilidade, que certamente lhe trariam um ótimo resultado visual.
Evidentemente que o imigrante libanês não seria tão louco a ponto de comentar quem o ajudou nesta empreitada. Mas seria praticamente impossível ele chegar próximo a Lampião sem a ajuda dos grandes coronéis do interior de Pernambuco. Ele teria buscado o apoio de Audálio Tenório de Albuquerque, então o todo poderoso comandante da cidade de Águas Belas e de outros coronéis da região próxima ao rio São Francisco. Esta hipótese se baseia na informação transmitida por Frederico Pernambucano de Mello, que nos seus últimos anos da vida de Lampião, teria sido o coronel Audálio Tenório uma pessoa com forte aproximação com este chefe cangaceiro. (Mello, op. cit., pág. 325).
De toda maneira Benjamim Abrahão conseguiu seu intento. No jornal Diário de Pernambuco, nas edições de 27 de dezembro de 1936 e 12 de janeiro de 1937, Abrahão relatou detalhes dos seus encontros com Lampião e seu bando.
Segundo o relato de Abrahão a jornal Diário de Pernambuco, os dois primeiros cangaceiros que ele encontrou foram Mergulhão (dir.) e Juriti (sentado a esq.). Coleção do autor.
Em narrativa franca e aberta, o libanês demonstra ao seu entrevistador, com certo orgulho, que a sua empreitada havia durado mais de um ano, precisamente 18 meses. Informava que havia passado pelos estados da Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia. Ele entrou no sertão com uma roupa de “brim azulão” e suas máquinas a tiracolo. Afirmou que passou “fome e sede”, mas trouxe “um punhado de notas suficiente para seu livro de impressões”. Aparentemente estas impressões estariam contidas em seus diários.
O contato inicial de Abrahão com o bando de Lampião, segundo suas afirmações para o Diário de Pernambuco, foi num dia bastante quente e os primeiros com quem ele esteve foram os cangaceiros Mergulhão e Juriti.
Mas o encontro teve certa tensão, pois os dois guerreiros das caatingas chegaram totalmente equipados. Ao visualizarem o estranho apontaram seus fuzis e gritaram “-Não se mexa cabra. Vai morrer” e colocaram balas nas agulhas de suas armas. Foi um momento “angustioso” para o documentarista, mas logo o ambiente serenou. Abrahão afirmou ao jornalista que lhe entrevistava que “se impressionou”, pois os dois cangaceiros já sabiam quem ele era e qual era seu objetivo.
É provável que nada disso tenha ocorrido. O Mais lógico foi que Abrahão deve ter sido guiado por uma pessoa de confiança dos coronéis da região, onde os cangaceiros já tinham conhecimento de sua chegada e que tudo estava previamente acertado.
Tanto é que sobre estes primeiros momentos junto a estes cangaceiros, Abrahão chega ao ponto de transmitir uma opinião jocosa sobre um dos seus acompanhantes armados. Este era Juriti, que ele considerou “-Um sujeito de boa aparência, tem os cabelos bons, é metido à almofadinha e gosta de luxar”.
Afirmou que teve de caminhar três quilômetros com os dois homens armados. Eles primeiramente entraram em entendimento com uma sentinela posicionado em local estratégico. Daí Mergulhão se embrenhou nos matos e desapareceu.
Voltou algum tempo depois afirmando que Lampião queria vê-lo.
AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE UM ESTRANHO MUNDO
Quando chegou ao local onde estava o bando, após passarem por uma área de caatinga bastante fechada, todos os cangaceiros estavam de pé, menos Lampião que se encontrava encostado em um tronco, lhe observando com olhos que o libanês classificou como “indagadores”. Era hora do almoço e todos comiam carne de bode com farofa.
O capitão Virgulino veio até ele, lhe ofereceu comida e um copo com conhaque, demonstrando boas maneiras no tratamento ao estranho de fala enrolada. Lampião afirmou “-Não sei como você veio bater aqui com vida, bicho véio. Só mesmo obra de Mergulhão que é muito camarada”. Abrahão não informou ao jornalista o que achou da tirada do chefe cangaceiro.
Logo se dispôs a montar o tripé com uma das suas máquinas para dar início à seção de captação de imagens.
Nisto Lampião gritou “-Para, para”.
Ele queria ver de perto o maquinário. Queria se certificar que daquele mecanismo estranho não poderia sair uma bala. Satisfeito nas suas dúvidas, o chefe liberou o libanês para trabalhar tranquilamente.
Ele continuou captando imagens, mas em pouco tempo Lampião mandou parar a seção afirmando “-Basta. O resto fica para outra vez”.
Abrahão retrucou com Lampião, afirmando que tinha lutado muito por este momento e que queria continuar. Ao que o chefe responde taxativamente “-Quem anda comigo tem de ter paciência”.
Insatisfeito com a resposta, o imigrante voltou à carga “-E onde poderia (Lampião) ser encontrado na próxima vez?”.
“-Sou homem que não tem pouso certo. Hoje estou aqui, amanhã posso estar na Bahia, em Sergipe ou Pernambuco.”
Seja pelo fato de Abrahão ter se sentido a vontade com o “Rei do Cangaço”, ou porque era uma figura completamente maluca, mais uma vez ele continuou retrucando com Lampião. Para sua sorte este nada falou.
Depois, segundo sua narrativa, levaria quatro meses para ocorrer um segundo encontro com o bando. Por sorte este momento foi muito mais duradouro, calmo e positivo. Segundo Abrahão o local do esconderijo ficava “do outro lado do São Francisco”, a “36 léguas”. Ele só não disse de onde.
Afirmou que era um domingo, sendo este “um grande dia, pois ninguém trabalhava e se reza de manhã e no começo da noite”.
Para o imigrante os cangaceiros são muito religiosos e sobre o momento da oração ele fez interessantes observações. Um dos membros do grupo colocou um quadro do Sagrado Coração de Jesus em um tronco de arvore e Lampião, com um livro de orações, comanda a ladainha. Todos estão ajoelhados, contritos, alguns com rosários, ouvindo atentamente o chefe declamar em voz alta a prédica de um velho “adoremos”, que todos repetiam em coro.
Para o observador Abrahão “as mulheres, neste dia, vestem-se melhor, enfeitam-se mesmo”. Para ele é como se elas fossem a uma missa em alguma paróquia. O imigrante apontava que aquelas mulheres, mesmo vivendo escondidas no meio do mato, em meio às correrias e violências, pareciam querer manter de alguma maneira os mesmos hábitos da vida “civil”.
Durante o almoço todos os cangaceiros comem em grupos, uns em pé e outros sentados. Lampião, talvez por precaução, degusta a alimentação no meio de todos. Abrahão repetiu varias vezes ao repórter o quanto Lampião era desconfiado, sempre planejando mudanças de seus esconderijos.
FILMANDO OUTROS GUPOS DE CANGACEIROS E PRESENCIANDO O COMBATE DE PIRANHAS
Abrahão afirma textualmente que filmou e fotografou os grupos dos chefes Corisco, Luís Pedro, Português, Zé Sereno, Mané Moreno, Pancada, Canário e Gato. Praticamente ele teve a oportunidade de filmar todo o movimento de cangaceiros que gravitavam ao redor de Lampião. Apenas os instantâneos chegaram até os nossos dias.
Em relação ao chefe cangaceiro Gato, Abrahão afirma que estava no combate ocorrido em Piranhas, dois meses antes da entrevista ao Diário de Pernambuco e que viu este cangaceiro ferido.
Segundo a sua narrativa, ele se encontrava a cerca de meia légua (três quilômetros) de Piranhas, atravessando o Rio São Francisco, quando se deu o tiroteio e logo seguiu em direção à refrega. Afirmou que “era uma oportunidade que não poderia deixar passar”.
O primeiro combate entre os cangaceiros e os policiais ocorreu a cerca de 4 ou 5 léguas de distância da cidade, “no meio da caatinga bruta”.
A tropa volante era comandada pelo tenente João Bezerra e neste combate foi ferida e capturada a companheira de Gato, conhecida como Inacinha. Este buscou apoio de Corisco e de outros cangaceiros que circulavam na região, para invadirem a cidade de Piranhas e tentaram resgatar a cangaceira ferida. Era por volta meio dia quando um grupo de 26 cangaceiros tentou realizar o ataque, mas a cidade recebeu seus “visitantes” com forte fuzilaria.
Os cangaceiros Gato e Inacinha, fotografados por Abrahão. Acervo AbaFilm, Fortaleza. Reproduzida a partir do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, página 90, 1ª edição.
No momento em que Abrahão encontrou os cangaceiros estes já se retiravam de Piranhas. Afirma que viu o chefe Gato ainda ferido, deitado em um “sofá”. Comenta (certamente com exagero) que quando tentou entrar na cidade os defensores lhe tomaram como um cangaceiro e mandaram bala.
Segundo o pesquisador paraibano Bismarck Martins de Oliveira (in “O cangaceirismo no Nordeste”, 2ª
edição, págs. 228 e 229) o nome verdadeiro do cangaceiro Gato era Josias Vieira e era natural de Santana do Ipanema, Alagoas. Ele teria entrado no cangaço em 1922, tendo participado de inúmeras ações importantes ao lado de Lampião, era tido como um cangaceiro de extrema violência e periculosidade acentuada. Fez parte do bando de Corisco, mas depois decidiu montar seu próprio grupo. Já o pesquisador baiano Oleone Coelho Pontes (in “Lampião na Bahia”, 4 edição, pág. 329) informa que o combate se deu no dia 28 de outubro de 1936, que Gato chamou Corisco para tentaram entrar na cidade, mas a intenção era sequestrar a mulher de João Bezerra, Cira Britto Bezerra, filha do prefeito da cidade, a fim de vingar-se da captura da sua companheira.
Quanto à questão do “sofá”, realmente imaginava que naquele lugar, naquele tempo, naquelas condições de combate, um cangaceiro ferido seria normalmente transportado em uma rede. Mas como eles ainda combateram no perímetro da cidade de Piranhas e eu não tenho muito conhecimento sobre o mobiliário do sertão nordestino da década de 30 do século passado, deixo a questão em aberto.
SENHORA DE BARAÇO E CUTELO DOS SERTÕES NORDESTINOS
Em relação à companheira de Lampião, de quem Abrahão em nenhum momento da reportagem declamou o nome com o qual ela seria imortalizada, ele praticamente se restringe a informar que a mesma, por razão de uma promessa, não trabalhava entre o sábado e a segunda feira. Mas Abrahão não diz qual seria este “trabalho” e a chamava de “Maria Oliveira”, ou “Maria do Capitão”.
Mas aparentemente são os jornalistas da redação do Diário de Pernambuco que se impressionam com a morena baiana.
Maria Bonita e os cachorros do bando de Lampião na primeira página do “Diário de Pernambuco”, edição de 17 de fevereiro de 1936. Para Abrahão ela não trabalhava entre os sábados e as segundas feiras. Coleção do autor.
Na edição do dia 17 de fevereiro de 1937, uma quarta-feira, como sempre na primeira página e com amplo destaque, a jovem sertaneja aparece sentada ao lado de dois cachorros que pertenciam a Lampião, um dos quais se chamava “Ligeiro”, em uma pose que foi classificada como “cinematográfica de uma Greta Garbo”. Dizia que ela era a única pessoa com “ascendência moral sobre Lampião” e que chamava a atenção até mesmo pela simplicidade.
Para os jornalistas Abrahão descreveu que a companheira de Virgulino estava “com os cabelos alisados a banha cheirosa, meias de algodão, sapatos tresé e seu vestido azul claro de linho”. Estando correta a descrição do imigrante libanês sobre a vestimenta de “Maria do Capitão”, no meio daquela caatinga cheias de espinhos, esta fina indumentária servia apenas para rezar e bater fotografias.
Chama atenção a descrição da utilidade das mulheres do bando nos combates. Abrahão informou que elas “Abrem nas caatingas cerradas os caminhos que possam fugir os cangaceiros, ante a eminencia de se verem cercados”.
Se a pose de “Maria do Capitão” na foto era simples, como o leitor deste artigo pode observar, a manchete chamava bastante atenção.
Os jornalistas passaram a comparar a companheira de Lampião com a francesa Jeanne-Antoinette Poisson, a Marquesa de Pompadour, ou como ficou mais conhecida Madame de Pompadour. Esta foi uma burguesa, nascida em Paris em 1721, que usou a sedução para conquistar um lugar entre os mais nobres e se tornar a principal amante do rei da França daquela época, Luís XV. Mas além de ser bela, sedutora e encantadora, era extremamente inteligente e se tornou decisiva na política francesa. Logo através de sua influência, conseguia audiências a embaixadores, tomava decisões sobre todas as questões ligadas à concessão de favores, de forma tão absoluta quanto qualquer monarca.
A comparação entre a cortesã francesa e a cangaceira brasileira surgiu provavelmente após Abrahão comentar e ser publicado que “os asseclas de Lampião lhe rendem as mais servis homenagens, tudo fazendo para não cair no desagrado dessa Madame Pompadour do cangaço, senhora de baraço e cutelo dos sertões nordestinos”.
Não pudemos comprovar com exatidão, mas certamente esta é a uma das primeiras grandes reportagens sobre uma jovem sertaneja chamada Maria Gomes de Oliveira. Baiana nascida em 1901, no sítio Malhada da Caiçara, que um dia encantou o “Rei dos Cangaceiros” e seria conhecida em toda parte como Maria Bonita.
A VOLTA A “CIVILIZAÇÃO” E O SANGRENTO
FIM DE ABRAHÃO
Abrahão volta ao Recife e novas matérias são publicadas no Diário de Pernambuco, sempre com muito destaque e na primeira página. Elas informavam detalhes do encontro de Abrahão com os cangaceiros e que a sociedade pernambucana em breve teria a oportunidade de assistir nos cinemas da capital o “film” sobre Lampião.
Benjamim Abrahão aproveitava sua notoriedade.
Sobre o tamanho do rolo de filme e sua duração, não conseguimos apurar corretamente, pois o tamanho foi crescendo e diminuindo. Dependia do lugar, provavelmente do gosto dos editores, ou através de informações equivocadas de Benjamim Abrahão. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 339), em dezembro de 1936 o libanês teria entregue a Ademar Albuquerque cerca de “quinhentos metros de filme”, mas em abril do ano seguinte os jornais cearenses noticiavam que havia “mais de mil metros”. Em Recife a película esticou mais ainda. No Diário de Pernambuco, na edição de 12 de fevereiro de 1937, Abrahão afirmava que o filme tinha “2.000 metros”, que seria exibido no Rio de Janeiro e anunciava que além do filme, seria publicado um livro “com a maior e mais completa reportagem sobre Lampião”.
Relato de seus encontros com o bando de Lampião no jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 12 de fevereiro de 1937. Coleção do autor.
Mas foi a mesma atenção dispensada pela imprensa que gradativamente foi lhe criando problemas. Os jornais mostravam com destaque a façanha de um simples imigrante libanês, que havia conseguido encontrar Lampião, filmá-lo tranquilamente com o seu bando, enquanto que as forças de segurança nunca davam cabo dos cangaceiros.
No Rio de Janeiro, então capital do país, a revista “O Cruzeiro”, um dos principais veículos da imprensa brasileira da época, estampou no exemplar de 6 de março de 1937 uma manchete com cinco fotos do bando. De forma crítica afirmava que “onde os policiais falharam, Abrahão havia triunfado”.
No dia 2 de julho de 1938, no mesmo Cinema Moderno que apresentou a película sobre o padre Cícero, ocorreu à única exibição conhecida do filme de Benjamin Abrahão. A fita cinematográfica foi assistida por autoridades que se revoltaram diante do destaque dado a Lampião e seus acompanhantes. Logo os membros do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o órgão de censura do chamado Estado Novo, como ficou conhecida a ditadura comandada por Getúlio Vargas e implantada no ano anterior, apreenderam o filme.
Benjamin Abrahão tentou reverter, sem sucesso, a situação. Ele fica em uma posição difícil e parte para o interior em busca de apoio.
Em 9 de maio de 1938, na então vila de Pau Ferro (atual município pernambucano de Itaíba), a cerca de 45 quilômetros de Águas Belas, Abrahão foi morto com 42 facadas por um homem que seria deficiente físico e que trabalhava como sapateiro. A razão foi uma vingança ocorrida pelo fato do libanês ter mantido relações com a mulher deste sapateiro.
Entretanto, segundo as edições do Diário de Pernambuco de 10 e 19 de maio de 1938, ao comentar sobre a morte de Benjamin Abrahão, trazem algumas informações interessantes.
Foi divulgado que o inquérito realizado pelo delegado do 2º Distrito Policial de Águas Belas, concluiu que o assassino do imigrante libanês se chamava José Rodrigues Lins, conhecido como Zé de Ritinha ou Zé de Rita e que teria sido ajudado por uma mulher chamada Alayde Rodrigues de Siqueira. Mas as reportagens não especificavam maiores detalhes do ocorrido e nem o grau de participação desta mulher.
Para muitos pesquisadores a verdadeira razão da morte de Abrahão teria sido as insistentes cobranças que ele fazia aos coronéis da região, sobre uma pretensa ajuda financeira prometida para a realização do filme. Aparentemente, diante das recursas, ele possivelmente teria feito algum tipo de ameaça e encontrou a morte.
Certamente que em meio a um momento político onde o poder do Estado Novo estava muito forte e centralizado, onde as velhas lideranças do sertão já não possuíam a mesma desenvoltura nos círculos do poder, onde a desconfiança e o temor de perda de prestígio e de força política eram evidentes, a figura de um imigrante que sabia de muita coisa, impertinentemente exigindo dinheiro, deveria ser uma fonte de preocupação.
Seja qual for a verdadeira razão, percebemos que faltou a Benjamin Abrahão, mesmo depois de estar vivendo a cerca de vinte anos no Nordeste, uma maior percepção em relação as suas atitudes e o que elas poderiam gerar.
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Desde que comecei a ler temas relacionados ao ciclo do cangaço, a sua figura maior, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e a história do Nordeste no início do século XX, um local em especial me chamava atenção pelas repetidas referências existentes em inúmeros livros. Comento sobre uma antiga propriedade denominada Abóbora, localizada na zona rural do município de Serra Talhada, próximo a fronteira com a Paraíba e não muito distante das cidades pernambucanas de Santa Cruz da Baixa Verde e Triunfo.
A cidade de Triunfo a Noite
Vamos conhecer um pouco de sua história e da visita que realizei a este local.
Uma Rica Propriedade
Quem segue pela sinuosa rodovia estadual PE-365, que liga as cidades de Serra Talhada a Triunfo, antes de subir em direção a povoação de Jatiúca e as sedes dos municípios de Santa Cruz da Baixa Verde e Triunfo, percebe que está em um vale cercado de altas serras, que dão uma beleza singular a região. Atrás de uma destas elevações se encontra a Fazenda Abóbora.
Até hoje esta fazenda chama atenção pelas suas dimensões. Segundo relatos na região, suas terras fazem parte das áreas territoriais de três municípios pernambucanos. Aparentemente no passado a área era muito maior. Ali eram criados grandes quantidades de cabeças de gado, havia vastas plantações de algodão, engenho de rapadura e se produziam muitas outras coisas que geravam recursos. No lugar existem dois riachos, denominados Abóbora e da Lage, que abastecem de forma positiva a gleba. [1]
Com tais dimensões, circulação de riquezas, no passado o lugar era ponto de parada de muitos que faziam negócios na região e transportavam mercadorias em lombo de animais, os antigos almocreves. No lugar estes transportadores do passado eram recebidos pelo “coroné” Marçal Florentino Diniz, que junto com irmão Manoel, dividiam o mando na propriedade.
Documento que aponta os proprietários da Fazenda Abóbora na década de 1920
Informações apontam que Virgulino Ferreira da Silva, quando ainda trabalhava como almocreve, realizou junto com seu pai e os irmãos vários transportes de mercadorias entre as regiões de Vila Bela (sua cidade natal, atual Serra Talhada) e Triunfo.[2]
Sentado vemos Marcolino Diniz e seus "cabras"
Certamente em alguma ocasião, o jovem almocreve teve a oportunidade de conhecer a fazenda do “coroné” Marçal e de seu irmão Manoel. Além destes o almocreve da família Ferreira conheceu o impetuoso filho do fazendeiro Marçal, Marcolino Pereira Diniz.[3]
Uma ótima Relação
Chefe de bando inteligente e perspicaz, Lampião buscava antes do confronto, o apoio e as parcerias com os antigos proprietários rurais e assim agiu junto aos donos da Fazenda Abóbora.
Lampião
Após assumir a chefia efetiva de seu bando, depois da partida do seu antigo chefe, o mítico cangaceiro Sinhô Pereira, Lampião frequentou em várias ocasiões as terras da Abóbora, onde o respeito do chefe e dos seus cangaceiros pelo lugar estava em primeiro lugar.
Rodrigues de Carvalho, autor do livro “Serrote Preto” (1974), informa nas páginas 252 a 254 que ocorreu uma intensa e positiva relação de amizade entre Lampião e a família Diniz principalmente com o “jovem e pretensioso doutor” Marcolino Diniz, que chegou há cursar durante algum tempo a Faculdade de Direito em Recife, mas não concluiu.[4]
Esta relação ambígua de amizade entre estes ricos membros da elite agrária da região e o facínora Lampião foi posta a prova em duas ocasiões.
Antiga Cadeia Pública de Triunfo, em breve um novo centro cultural
A primeira no dia 30 de dezembro de 1923, quando Marcolino Diniz é preso pelo assassinato do juiz de Direito Ulisses Wanderley em um clube de Triunfo. Marçal solicita apoio de Lampião para tirar Marcolino da cadeia, se necessário a força. Juntos vão acompanhados de um grupo que gira em torno de 80 a 100 cangaceiros armados. Não Houve reação dos carcereiros.
A segunda ocorreu no mês de março do ano seguinte. Após o episódio do ferimento do pé de Lampião na Lagoa Vieira e o posterior ataque policial na Serra das Panelas, onde o ferimento de Lampião voltou a abrir e quase gangrenar, é a família Diniz que parte em socorro do cangaceiro. Marçal e Marcolino cederam apoio logístico para a sua proteção, transporte, medicamentos e plena recuperação com o acompanhamento dos médicos José Lúcio Cordeiro de Lima, de Triunfo e Severino Diniz, da cidade paraibana de Princesa. Sem este decisivo apoio, certamente seria o fim do “Rei do Cangaço”.[5]
Lagoa Vieira-Foto-Alex Gomes
Foi igualmente na propriedade Abóbora que Lampião conheceu Sabino Gomes de Gois, também conhecido como “Sabino das Abóboras”.[6]
Frederico Pernambucano de Mello, autor do livro “Guerreiros do Sol-Violência e banditismo no Nordeste do Brasil” (2004), nas páginas 243 a 246, informa que Sabino efetivamente nasceu na Fazenda Abóbora, sendo filho da união não oficial entre Marçal e uma cozinheira da propriedade. Consta que ele trabalhou primeiramente como tangedor de gado, o que certamente lhe valeu um bom conhecimento geográfico da região.
Sabino
Valente, Sabino foi designado comissário (uma espécie de representante da lei) na região da propriedade Abóbora, certamente com a anuência e apoio do pai. Organizava bailes e em um destes envolveu-se em um conflito, tendo de seguir para o município paraibano de Princesa. [7]
Depois, entre 1921 e 1922, acompanhou seu meio irmão Marcolino para Cajazeiras, no extremo oeste da Paraíba. Marcolino Diniz desfrutava nesta cidade de muito prestígio. Era presidente de clube social, dono de casa comercial, de jornal e tinha franca convivência com a elite local. Sabino por sua vez era guarda costas de Marcolino e andava ostensivamente armado. Nesta época Sabino passou a realizar nas horas vagas, com um pequeno grupo de homens, pilhagens nas propriedades da região.
Outra imagem de Lampião
O autor de “Guerreiros do Sol” informa que teria sido Sabino que coordenou a vinda do debilitado Lampião para ser tratado pelos médicos José Lúcio Cordeiro de Lima e Severino Diniz. A amizade entre o “Rei do Cangaço” e o filho bastardo de Maçal Diniz, nascida na Fazenda Abóbora, teria então se consolidado a ponto deste último se juntar a Lampião e seu bando, em uma posição de destaque, no famoso ataque de cinco dias ao Rio Grande do Norte, ocorrido em junho de 1927.
Outros Episódios do Ciclo do Cangaço na Fazenda Abóbora
Pelos muitos autores que se debruçaram sobre o tema cangaço e pelos relatos da região está mais que provado a franca convivência entre os membros da família Diniz e os cangaceiros no seu verdadeiro feudo na Abóbora.
Oficiais de forças volantes que perseguiram Lampião e outros cangaceiros ao longo da história
Mas no meio desta história, onde estava o aparato de segurança do estado?
Segundo informações colhidas pelo autor deste artigo, que esteve na região em várias ocasiões, a polícia frequentava a Fazenda Abóbora, mas o poder dos Diniz era tal, que os homens da lei tinham que avisar com antecedência que iriam lá.
Daí, no caso de cangaceiros estarem acoitados na grande gleba, estes eram informados por Marçal, Marcolino ou alguém de confiança, e seguiam tranquilamente para coitos nas Serras Comprida, da Pintada, ou da Bernarda, ou nas propriedades denominadas Xiquexique, Pau Branco, Areias do pelo Sinal e outras.
Essa verdadeira promiscuidade praticamente só vai ter um fim diante da extrema repercussão do ataque dos cangaceiros a cidade de Sousa, na Paraíba. Ocorrido na noite de 27 de julho de 1924, o fato logo ganha destaque nas páginas de vários jornais e assusta as autoridades nas capitais da Paraíba e de Pernambuco. Em pouco tempo os líderes sertanejos são instados a negarem a proteção dada aos bandos de cangaceiros. [8]
Theophanes Ferraz Torres
Tanto assim que três dias após o assalto a Sousa, ao meio dia, uma força volante sob o comando do major Theophanes Ferraz Torres, trava um combate contra um grupo de cangaceiros comandados por Sabino, que foge sem dar prosseguimento à luta. Certamente Sabino tentava chegar ao seu conhecido “lar” e teve esta desagradável surpresa. [9]
Ao longo do mês de agosto de 1924 vários combates serão travados na região. Tiroteios nos lugares Areias do Pelo Sinal, Serra do Pau Ferrado, Tataíra e outros vão marcar a história de luta contra os cangaceiros. Não havia propriedade que não pudesse ser adentrada e varejada pela polícia.
Mas não seria o fim da presença de cangaceiros no local.
"Diário de Pernambuco", 4 de agosto de 1926
Em uma pequena nota existente na página quatro do jornal “Diário de Pernambuco”, edição de quarta feira, 4 de agosto de 1926, encontramos a informação que por volta das três horas da tarde do dia 30 de julho, na área da Fazenda Abóbora, foram mortos pela polícia pernambucana e paisanos, depois de demorado tiroteio, os cangaceiros Juriti e Vicente da Penha.
Juriti era erroneamente apontado pelo jornal como sendo o comandante de um ataque ocorrido no dia 7 daquele mesmo mês, a uma casa comercial em Triunfo. No caso o comandante da ação foi Sabino.
O “Coito” do Coronel José Pereira
Com o declínio da ação de cangaceiros na região de Triunfo, discretamente a Fazenda Abóbora deixa de ser local de combates, mas não deixaria de servir como um ótimo esconderijo.
O Coronel José Pereira
Em 1930, eclodiu um grave conflito armado na vizinha Paraíba, mais precisamente no município de Princesa.
Entre as origens deste sério problema, estavam as divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e política do interior do estado.
João Pessoa
João Pessoa discordava da forma como este grupo político, que o elegera, conduzia a política paraibana. Entre estes poderosos era valorizado o grande latifúndio de terras do interior, possuidores de grandes riquezas baseadas no cultivo de algodão e na pecuária.
Casarão de onde José Pereira comandava suas forças no conflito de Princesa
Estes fazendeiros, como vimos no exemplo de Marçal Diniz, atuavam através de uma estrutura política arcaica, que se valia entre outras coisas do mandonismo, da utilização de grupos de jagunços armados, da conivência com cangaceiros e outras ações as quais o novo governo não concordava.
Um dos pontos mais fortes da discórdia era cobrança de taxas de exportação do algodão. Os ditos coronéis paraibanos exportavam a produção desta malvácia pelo porto do Recife, causando perdas tributárias para o estado da Paraíba. O governador estabelece diversos postos de fiscalização nas fronteiras do Estado. Por esse motivo os coronéis do interior passaram a apelidar João Pessoa de “João Cancela”.
José Pereira (em destaque) e seu estado maior durante a chamada Guerra de Princesa
O fazendeiro e líder político José Pereira Lima, mais conhecido como “Coronel Zé Pereira”, da cidade de Princesa, era o mais poderoso entre todas as lideranças do latifúndio na sua região. Para muitos ele é descrito como verdadeiro imperador do oeste da Paraíba, na área da fronteira com o estado de Pernambuco. Zé Pereira contava com o apoio dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, respectivamente Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria.
Diante do impasse com o governador João Pessoa, Pereira declarou Princesa “Território Livre”, separando-o do estado da Paraíba, tornando-o absolutamente autônomo.
A reação do governo estadual foi pesada e uma verdadeira guerra começou. Princesa se tornou uma fortaleza inexpugnável, resistindo palmo a palmo ao assédio das milícias leais ao governador João Pessoa. O exército particular do Coronel José Pereira era estimado em mais de 1.800 combatentes, onde diversos lutadores eram egressos das hostes do cangaço e muitos eram desertores da própria polícia paraibana.
A força do governador João Pessoa possuia cerca de 890 homens, organizados em colunas volantes. Essas colunas eram chefiadas pelo coronel comandante da Polícia Militar da Paraíba, Elísio Sobreira, pelo Delegado Geral do Estado, o Dr. Severino Procópio e José Américo de Almeida (Secretário de Interior e Justiça).
Marçal Florentino Diniz e Marcolino, ligados por parentesco com José Pereira, se juntam a luta na região. Houve muitos episódios sangrentos na conhecida Guerra ou Sedição de Princesa.
João Pessoa assassinado. Estopim da Revolução de 30
Após a morte do governador João Pessoa, ocorrida em Recife, houve a consequente eclosão da Revolução de 30 e o conflito em Princesa acabou. Durante os quatro meses e vinte e oito dias que durou sua resistência, Princesa não foi conquistada pela polícia paraibana. Após a eclosão da Revolução, as tropas do Exército Brasileiro, de forma tranquila, ocuparam a cidade.
Para muitos pesquisadores José Pereira Lima organizou de tal maneira a defesa dos seus domínios, que provocou baixas estrondosas à força pública paraibana.
Diante da derrota, José Pereira e muitos dos que lutaram com ele fugiram da região. A família Diniz se retraiu diante do novo sistema governamental imposto e a fortuna de Marçal e Marcolino ficou seriamente comprometida.
O tempo dos caudilhos do sertão estava chegando ao fim, pelo menos naquele formato utilizado por Marçal Diniz e José Pereira.
José Pereira deixa Princesa no dia 5 de outubro de 1930 e fica escondido em propriedades de pessoas amigas, em diversas localidades existentes em outros estados. Segundo o Sr. Antônio Antas, depois de percorrer vários locais, segundo lhe informou o próprio Marcolino Diniz, José Pereira passou muito tempo escondido na Fazenda Abóbora, até que em 1934 o novo regime lhe concedeu anistia e ele decidiu permanecer em território pernambucano.
Antônio Antas, conviveu quando jovem com Marcolino Diniz, seu parente. Este é um grande amigo que tenho na região e memória viva da história local
Mas segundo o Sr. Antônio Antas, a situação na Fazenda Abóbora não foi fácil. Um ano depois da anistia, por ordens de Agamenon Magalhães, então Interventor Federal em Pernambuco, a polícia estadual cerca a Fazenda Abóbora. José Pereira escapa, volta a Princesa e recebe garantias dos líderes estaduais paraibanos.
Visitando a Fazenda Abóbora
Em recente ocasião estive na cidade de Triunfo, onde mantive contato com Lucivaldo Ferreira e André Vasconcelos. Há tempos que mantemos parcerias entre o nosso blog “Tok de História” e o ótimo blog que eles comandam, chamado “Boom! Triunfo”.
A principal igreja católica de Triunfo e a névoa da época de inverno na serra
Tive oportunidade de travar contato com ambos, onde pude entregar-lhes meu último livro “João Rufino-Um Visionário de Fé” e conversar muito sobre cangaço. Os dois são verdadeiramente apaixonados por Triunfo, sua história, sua cultura e lutam para que isso seja divulgado entre os mais jovens.
Lucivaldo é professor de artes da Escola Nova Geração Triunfense, atua como produtor cultural independente. Ele concilia o trabalho de Regente da Filarmônica Isaias Lima, com o de cantor, compositor, arranjador, vocalista da Banda Templários e participante da Orquestra Maestro Madureira.
O autor deste artigo e André Vasconcelos
Já André é bacharel em hotelaria, já foi secretário de cultura de sua cidade, é funcionário do SESC-Serviço Social do Comércio, trabalhando no belo hotel que esta entidade mantem na cidade serrana e é um grande pesquisador do tema cangaço. Acredito que tudo que diz respeito ao cangaço em Triunfo e região, se ele não souber, chega perto.
Com extrema boa vontade, ambos se colocaram a disposição para apresentar as características e fatos históricos de Triunfo, de uma forma tranquila e aberta.
Nas nossas andanças me chamou a atenção como às pessoas na região são extremamente tranquilas e comunicativas, sempre buscando ajudar. Percebi que na busca de informações, é difícil alguém que não tenha algum fato em sua história familiar, relacionado a episódios relativos ao cangaço.
Na busca da Fazenda Abóbora, com a Serra Grande ao fundo. Mais de 900 metros de altitude.
Em um dos dias em que lá estive, busquei alugar uma moto 125 e fui com André desbravar os difíceis, longos e enlameados caminhos até a Fazenda Abóbora. Devido às chuvas, o trajeto foi bem complicado e quase caímos em algumas ocasiões. Mas o legal foi que André não perdeu a animação.
Durante o trajeto foi bonito ver a distância a famosa Serra Talhada. Neste caso não era a cidade, mas a elevação com mais de 800 metros de altitude que nomeia o lugar.
A Serra Talhada
A sede da Fazenda Abóbora fica praticamente escondida pelos contrafortes da chamada Serra Grande e seus mais de 900 metros de altitude. Já a passagem dos Riachos Abóbora e da Lage foi uma verdadeira aventura, pois ambos estavam com água corrente e, devido a ser final da tarde, não dava para ver a profundidade. Mas o negócio era encarar e seguir em frente. Graças a Deus deu certo.
Percebe-se com clareza no trajeto o quanto a região ainda é isolada. Existem serras cercando todos os quadrantes da propriedade, o que de certa maneira deixa a área bastante intocada. Tudo é muito bonito em termos naturais e paisagísticos.
Aspecto da região
Em meio a tantas situações interessantes, em um ponto mais alto, avistamos a casa grande da fazenda Abóbora. À primeira vista, à distância, confesso que fiquei até um pouco decepcionado. Achei que era “história demais, para casa de menos”. Mas não era bem assim.
Sede da Fazenda Abóbora
Devido à distância e as condições da estrada, chegamos praticamente à noite. Era estranho tentar imprimir velocidade na 125, em meio a uma estrada terrível, desconhecida, cheia de curvas, altos e baixos e o medo de não conseguir as fotos devido a falta de iluminação natural. Ainda bem que André foi um passageiro bem tranquilo na moto. Mas deu certo.
Na casa os proprietários não se encontravam, mas os moradores foram extremamente solícitos em nos receber e abriram as portas do local.
Oratório de São Sebastião
O interessante é que a residência está mantida praticamente na sua forma original. Com exceção do pequeno pátio, do murinho, portal e escadarias localizados na parte frontal, eles afirmaram que o resto da casa é todo original e a intenção dos donos é mantê-la como está. Ao redor existem antigas casas de moradores, a grande maioria desocupadas, mostrando que a quantidade de trabalhadores que havia no local já foi bem maior.
A antiga e preservada cozinha
Fizemos muitas fotos, mas por questão de respeito aos proprietários, apresentamos apenas o interessante oratório com a figura de São Benedito e a original cozinha com seu fogão a lenha.
Os caseiros do local informaram que vivem há anos no lugar e tiveram oportunidade de ouvir através dos moradores mais velhos, a maioria já falecidos, inúmeras histórias sobre a passagem de Lampião pela casa . Eles nós garantiram que era a primeira vez que conheciam pessoas que vinha à casa da Fazenda Abóbora em razão do tema cangaço.
A nossa visita foi rápida, mas valeu e muito.
Mas uma vez agradeço ao André Vasconcelos pelo apoio.
[1] Relatos transmitidos em entrevista gravada junto ao Sr. Antônio Antas, da cidade paraibana de Manaíra, em dezembro de 2008. O Sr. Antônio, parente de Marcolino Diniz, conviveu com o filho de Maçal quando este estava idoso e vivendo na Comunidade de Patos do Irerê. Vale ressaltar que é relativamente pequena a distancia da sede da Fazenda Abóbora para a cidade de Manaíra.
[2] Relato transmitido ao autor em entrevista gravada junto ao Sr. Antônio Ramos Moura, em agosto de 2006, em Santa Cruz da Baixa Verde.
[3] Para Frederico Pernambucano de Mello, autor do livro “Guerreiros do Sol-Violência e banditismo no Nordeste do Brasil” (2004), na página 244, afirma que Maçal Diniz conheceu Lampião e seus irmãos quando os mesmo já eram membros do bando de Sinhô Pereira, cangaceiro que igualmente recebeu proteção e apoio deste fazendeiro em 1919.
[4] Entrevista gravada com Antônio Antas, dezembro 2008.
[5] Sobre o combate de Lampião na Lagoa Vieira ver – tokdehistoria.wordpress.com/2011/02/10/quando-lampiao-quase-foi-aniquilado
[6] Segundo Frederico Pernambucano de Mello, Sabino também era conhecido como Sabino Gomes de Melo, Sabino Barbosa de Melo, ou ainda com os denominativos Gore, Gório ou Goa. Ver “Guerreiros do Sol-Violência e banditismo no Nordeste do Brasil” (2004), pág. 243.
[7] Rodrigues de Carvalho (pág. 164) afirma que Sabino nasceu na Paraíba, no lugar denominado Pedra do Fumo, então município de Misericórdia, atual Itaporanga. Pela lei estadual nº 3152, de 30 e março de 1964, o antigo distrito de Pedra de Fumo foi desmembrado do município de Itaporanga e elevado à categoria de município com a denominação de Pedra Branca. Está localizado a cerca de 20 quilômetros de Itaporanga. Pelo que escutamos durante nossas visitas a região, acreditamos que a versão do autor de “Guerreiros do Sol” é mais correta.
[8] Sobre o ataque a Sousa ver o livro “Vingança, Não”, de Francisco Pereira Nóbrega.
[9] Sobre este combate ver “Pernambuco no tempo do Cangaço – Theophanes Ferraz Torres, um bravo militar (2 volumes)”, de Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho, págs. 379 e 380.
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Na década de 1950 do século passado, quando a televisão ainda não possuía a atual massificação, a verdadeira “janela para o mundo” que os brasileiros vislumbravam naquela época estava nas salas dos cinemas. Além dos açucarados musicais de Hollywood, a plateia nacional assistia as produções das empresas cinematográficas brasileiras Vera Cruz (São Paulo) e Atlântida (Rio de Janeiro).
Apesar de algumas tentativas de se trabalhar com temas brasileiros mais sérios, principalmente a Companhia Atlântida parte para as comédias de costume, de forte apelo popular, conhecidas como Chanchadas, que utilizava como atores figuras conhecidas dos programas de rádio.
Nesta mesma época aportava nas salas de cinemas das grandes cidades brasileiras, filmes da corrente artística do Neorrealismo desenvolvido na Itália. Totalmente diferentes dos musicais americanos e das Chanchadas da Atlântida, os filmes do Neorrealismo italiano buscavam representar de forma objetiva a realidade social e econômica daquele país europeu no período do pós-guerra. Havia nestas películas um forte comprometimento político, onde muitas vezes os temas representavam pessoas menos favorecidas, vivendo em ambientes onde predominava uma grande injustiça social, sem perspectivas futuras e muitas frustações na busca por dias melhores.
Para muitos dos novos diretores de cinema no Brasil, esta forma desenvolvida pelos cineastas italianos mostrou novas perspectivas de seguir adiante com sua arte. Realizando um cinema que mostrasse a realidade do verdadeiro Brasil, com mais substância e desenvolvido a baixo custo.
Tem início uma nova etapa na história do cinema brasileiro, que ficará conhecido como Cinema Novo. Não havia mais espaço para películas suntuosas e nenhum espaço para os devaneios das Chanchadas. Filmes como Rio 40 graus, e Rio, Zona Norte, ambos de Nelson Pereira dos Santos, mostrando a dura realidade das favelas cariocas, estouram com sucesso no cenário nacional.
O Cineasta de Vitória da Conquista
Em meio a estas mudanças um jovem baiano de Vitória da Conquista, chamado Glauber de Andrade Rocha, vem fazer parte deste novo movimento do cinema tupiniquim. Conhecido pela frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, é indiscutível a importância deste cineasta dentro do movimento do Cinema Novo, principalmente no tocante a sua genialidade.
Glauber Rocha
Na filmografia de Glauber Rocha, duas de suas principais obras tinham contextos ligados a temática do cangaço e foram consagrados pela crítica internacional. Estou falando das películas Deus e o diabo na terra do sol (1964) e Dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969).
Mas como pessoa que assistiu a estes clássicos e outras obras de Glauber Rocha, estranhava o fato deste cineasta não ter trabalhado através de sua arte a figura maior deste movimento de banditismo, o famoso Virgulino Ferreira da Silva. Nunca compreendi o fato deste diretor não haver retratado aspectos da vida de Lampião, coisa que poderia ter realizado através de um documentário.
Recentemente, quando realizava uma pesquisa sobre os cinemas potiguares da década de 1970 nos velhos jornais existentes na hemeroteca do nosso Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me deparei com uma interessante notícia afirmando que Glauber Rocha teria dado início a um projeto que visava filmar a vida de Lampião.
A Conquista do Sertão Por Lampião
Na página 4, da edição de sexta feira, dia 24 de novembro de 1972, no extinto jornal “A República”, encontro a manchete que apresento na fotografia abaixo. Este material, uma reprodução da revista portuguesa “Vida Mundial”, iniciava afirmando que Lampião, “que já havia sido tema de vários filmes nacionais”, iria novamente invadir as telas com seus “cabras, seus tiros e suas artimanhas” e a direção seria de Glauber Rocha.
Aos jornalistas Glauber comentou que desejava dar ao “seu” Lampião uma visão “mais original”. Afirmou aos jornalistas portugueses que em “um ou dois anos” a película estaria pronta e já tinha até mesmo um título; A Conquista do Sertão Por Lampião.
Para Glauber havia uma dificuldade em conhecer, em decifrar, a figura de Lampião. Comentou que ainda não tinha feito o filme, pois “-Não conheço muito bem o caráter de Lampião; li muitos livros sobre ele, mas é um personagem controvertido, e ainda não tenho nenhuma ideia sobre ele, e também não quero criar uma visão romântica”.
Glauber sentia a mesma dificuldade que muitas pessoas têm ao tentar compreender a figura de Virgulino Ferreira da Silva, quando leem livros sobre a sua vida.
Revista portuguesa Vida Mundial
Outra dificuldade para a realização da obra naquele momento era saber quem seria o ator que iria representar Lampião. Disse que tinha dificuldades em eleger este ator, pois não conseguia concluir pelas fotos existentes nos livros, se Virgulino “era baixo ou alto”.
Mas o diretor baiano tinha a ideia clara da linguagem cinematográfica a ser utilizada nas filmagens sobre a vida de Lampião. Para Glauber “-Quanto ao problema da linguagem, penso sempre ao nível do plano e nunca ao nível do argumento. Não parto do roteiro para fazer os meus filmes, mas, sim, dos personagens. Se não consigo resolver uma personagem em função de um plano, corto o personagem e não repito o plano. Isto não é uma posição estética, mas cinematográfica, porque, para mim, o cinema é o próprio estilo”.
Com Faulkner na Mão, os Atores, a Vontade e Muito Amor pelo Nordeste
Para a reportagem de “Vida Mundial”, reproduzida pelo jornal potiguar, o diretor de cinema brasileiro revelou seu forte entusiasmo pelo escritor americano William Faulkner (1897 – 1962). Afirmou que na hora das filmagens estava sempre a mão com um exemplar de O Som e a Fúria, Absalão! Absalão!, Os Invencidos, Luz em Agosto e outros. O fato de Glauber ter estes clássicos do escritor americano era uma fonte de inspiração, pois para ele havia o desejo de filmar como se “-Estivesse escrevendo uma novela, um monólogo direto, no estilo de Faulkner”. Glauber declarou que este era o escritor que mais admirava.
Para as filmagens de A Conquista do Sertão Por Lampião, Glauber afirmou que teria uma atitude liberal para com os atores, deixando a improvisação seguir a vontade. Tinha até uma palavra de ordem para aqueles que iria dirigir; “-Inventa teu próprio personagem”, contanto que desse tudo certo, senão ele como diretor faria algum tipo de intervenção. Mas afirmou que quando tudo corria bem no desenvolvimento do filme, “-Deixo os atores improvisarem com liberdade”.
Glauber comentou na reportagem seu orgulho pelas raízes nordestinas e do entusiasmo de ser “-Natural desta região e estou muito ligado a ela”.
Mostrando como as filmagens e as repercussões de Deus e o diabo na terra do sol e Dragão da maldade contra o santo guerreiro tiveram em sua importante carreira, finalizou a entrevista comentando que desejava fazer “-Unicamente filmes de cangaceiros”. Mas completou dizendo “-Embora não queira, porque pode parecer uma repetição”.
Neste último trimestre de 1972 o cineasta baiano estava oficialmente exilado em Cuba, onde permaneceu até dezembro daquele ano. Segundo a biografia de Glauber, existente no site da Fundação Tempo Glauber (http://www.tempoglauber.com.br), durante o ano de 1972, ele conclui junto com Marcos Medeiros o filme História do Brasil.
Nesta época manteve encontros com exilados e lideranças da esquerda brasileira como Vladimir Palmeira, José Dirceu, Fernando Gabeira, Miguel Arraes e outros. Neste período ele viajou com destino a Roma e Paris para comprar cerca de dois mil livros para a realização de pesquisas. Creio que foi nesta ocasião em que circulou pela Europa, que ele concedeu a entrevista para a revista portuguesa “Vida Mundial”, edição de 28 de outubro de 1972, reproduzida nas páginas do jornal natalense.
O Que Foi Feito de A Conquista do Sertão Por Lampião
Quem pesquisar a filmografia de Glauber Rocha não vai encontrar nada referente a película A Conquista do Sertão Por Lampião, pois Glauber não a realizou.
Para o Professor Mauricio Cardoso, do Departamento de História da USP-Universidade de São Paulo, autor do artigo “Glauber Rocha e a tentação do exílio (1972-1976)”, publicado no livro L’exil brésilien en France-Histoire et imaginaire – O exílio dos brasileiros na França-História e imaginário (SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos; ROLLAND, Denis-Organizadores, Paris, Editora L´Harmattan, 2008, pp. 327-339), de todos os diretores do Cinema Novo, Glauber foi efetivamente o mais ativo e reconhecido no exterior.
Em 1969, no Festival de Cannes, o filme O Dragão da maldade contra o santo guerreiro recebeu o prêmio de melhor direção e foi a consagração do cineasta baiano na Europa.
Com o sucesso dos seus filmes Glauber circulava pelos grandes festivais de cinema, dava entrevistas em revistas especializadas, sendo elogiado por consagrados mestres europeus como o italiano Roberto Rossellini, o espanhol Luis Buñuel e o francês Jean-Luc Godard.
Entre 1969 e 1970, através dos muitos contatos internacionais conseguidos, o cineasta baiano roteirizou e dirigiu Der leone have sept cabeças e Cabezas cortadas. O Professor Cardoso aponta que estes filmes sofreram fortes críticas da mídia especializada e dos produtores europeus.
Aparentemente houve uma decepção pelos rumos da obra do cineasta, ocasionando um desinteresse pelo seu trabalho. Glauber, de maior diretor de cinema do Terceiro Mundo, deixou quase que repentinamente de ser assunto de debate cinematográfico.
Cardoso afirma que após estes episódios, Glauber não conseguia novos financiamentos para os seus projetos, apesar do seu esforço ininterrupto para emplacar inúmeros trabalhos. As dificuldades em realizar seus projetos, o crescente desinteresse da crítica européia pelos seus filmes realizados no exterior provocou uma espécie de asfixia econômica e social do cineasta.
O projeto A Conquista do Sertão Por Lampião seria uma retomada dos filmes com cenários no Nordeste do Brasil, agora tendo como personagem principal a figura do famoso Lampião. Já a reportagem para a revista portuguesa “Vida Mundial” poderia ser uma mensagem para os produtores europeus, informando que o diretor Glauber Rocha voltava suas energias para filmar novamente na mesma área que o consagrou, mas agora tendo como personagem principal o mais representativo chefe do movimento cangaceiro.
Mas não deu certo.
O Que se Perdeu
No arquivo da Fundação Tempo Glauber, entidade criada pela família Rocha para manter seu acervo de 22 filmes e quase 80 mil documentos produzidas por este genial diretor, existem documentos que incontestavelmente apontam que Glauber Rocha tinha o desejo de realizar um trabalho envolvendo a vida de Virgulino Ferreira da Silva.
Com sede na Rua Sorocaba, nº 190, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, a Fundação Tempo Glauber possui 223 roteiros de filmes e projetos de livros, a maioria dos quais inéditos, onde se encontram anotações com a distribuição de atores para o projeto de um filme intitulado “LAMPIÃO”. Afora isso existe dossiers de projetos futuros, onde surgem novamente títulos como “LAMPIÃO”, “O CANGACEIRO LAMPIÃO” e “O PRÍNCIPE DO INFERNO”.
Talvez uma pesquisa mais apurada neste acervo possa apontar o que se perdeu pelo fato de não ter ocorrido esta filmagem e que ajudariam a ter uma ideia de como Glauber Rocha pensava Lampião e o cangaço.
Certamente seria algo marcante.
Reunir em uma película cinematográfica a controversa história da figura maior do cangaço, tendo como diretor o vulcão criativo que era Glauber Rocha, que iria desenvolver esta obra como se “-Estivesse escrevendo uma novela, um monólogo direto, no estilo de Faulkner” e dando a grandes atores da dramaturgia brasileira da época a total liberdade de criar seus personagens como eles quisessem.
Em 1981, em Portugal, Glauber recebeu a visita do conterrâneo Jorge Amado. Fonte-jorgeamadoespecial.blogspot.com
Em agosto de 1981, Glauber Rocha é internado em Portugal com complicações pulmonares. Em estado de extrema gravidade é trazido de volta ao Brasil na noite do dia 20, sem acompanhamento médico. Chega ao Rio de Janeiro no dia 21 e recebe soro ainda na enfermaria do Aeroporto do Galeão. Depois é levado para a Clínica Bambina, em Botafogo, onde falece às 4 horas da manhã do dia 22 de agosto.
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Como já foi bastante comentado, devido as sérias perseguições contra a família de Virgulino Ferreira da Silva, seguido do assassinato do seu pai pela ação desastrosa de um grupo de policiais alagoanos no lugar Matinha de Água Branca, em 9 de junho de 1920, fez com que ele e seus irmãos Antônio e Livino, se transformem definitivamente em cangaceiros.
Lampião
Os irmãos Ferreiras se juntam ao bando conhecido como Porcinos e depois, em agosto de 1920, passaram a servir sob as ordens do chefe cangaceiro Sebastião Pereira, o conhecido Sinhô Pereira. Em meio às ações junto com Sinhô, Virgulino recebe a alcunha de Lampião.
A ligação de amizade entre Sinhô e Lampião vai ocasionar, em outubro de 1922, a morte de um importante comerciante chamado Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz, da cidade de Belmonte (atual São José do Belmonte), no sertão pernambucano. Este caso, um dos mais emblemáticos do período em que parte do Nordeste foi flagelado pela figura do temido cangaceiro Lampião, teve uma grande repercussão.
A cidade de Belmonte, atual São José do Belmonte, no mapa de Pernambuco
Muito já foi comentado sobre este episódio, mas no Arquivo Público do Estado de Pernambuco, nas amareladas páginas dos antigos jornais, foi possível encontrar novas informações.
Uma Interessante Carta
No domingo, 11 de março de 1923, foi publicada no jornal recifense “A Província”, uma grande carta vinda da cidade de Belmonte, cujo autor se intitulou “Um Assignante”. Neste volumoso documento ele narra pormenorizadamente o conflito ocorrido na sua cidade em outubro do ano anterior, que culminou na morte do comerciante Gonzaga.
Sinhô Pereira sobreviveu para contar sua história
Em maio de 1922, segundo o autor da missiva publicada no periódico, se encontrava em Belmonte a volante policial Pernambucana, comandada pelo tenente Cardim. Esta volante estava a caça do grupo de cangaceiros de Sinhô Pereira e tinham informações que estes se encontravam no lugar “Olho D’água”, uma serra próximo a fronteira do Ceará e da Paraíba.
Para alcançar seu objetivo o tenente Cardim solicitou apoio de uma volante da polícia cearense, que teria em torno de sessenta membros, cujo autor da carta não declina o nome do comandante, mas afirma que este era “um antigo cangaceiro”.
Consta que Cardim desejava realizar um cerco contando com o apoio dos cearenses. Mas o comandante desta volante não participou da ação policial e, pior, saiu a praticar toda sorte de atrocidades contra a população, principalmente terríveis surras. Este fato assustou toda a comunidade e alertou o bando de Sinhô Pereira que desapareceu na caatinga. A carta afirmava que Cardim se encontrou com seu colega cearense, dispensou seu apoio, mas antes passou uma ríspida descompostura no seu comandante pela ação dos seus soldados.
Evidentemente insatisfeito com a reprimenda, com a frustrada ação policial no estado vizinho ao Ceará, onde a sua marca principal era a tortura em larga escala na busca de informações, o tenente cearense buscava alguma compensação. Consta que o militar recebeu uma informação sobre um possível coiteiro e parente de Sinhô Pereira e, para não “perder a viagem”, no caminho de volta para casa fez uma “visitinha” a esta pessoa e sua família. A propriedade era conhecida como Cristóvão, pertencia a Crispim Pereira de Araújo, conhecido como Ioiô Maroto, um homem pacato e que vivia longe de complicações, apesar de ser membro da família de Sinhô Pereira.[1]
Documentação mostrando Crispim Pereira, proprietário das terras denominadas Cristóvão
Segundo comenta a tradição oral da região , e que conseguimos apurar em nossa visita a Belmonte em 2008, o mínimo que posso dizer em relação à visita da volante cearense ao pobre do Ioiô Maroto foi que “o cacete comeu”. Sobrou até para sua já vetusta mulher e suas filhas. Consta que um policial negro, conhecido como “Uberaba”, teria praticado contra as mulheres “toda sorte de misérias e imoralidades, entre a risadaria de todos, inclusive do tenente que achava em tudo muito espirito”.[2]
Depois do ocorrido, segundo a versão publicada no jornal de 1923, consta que Ioiô Maroto soube que o oficial da polícia cearense esteve na cidade de Belmonte, onde se arranchou na casa de seu compadre e amigo, o comerciante Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. Foi informado ao fazendeiro ultrajado que Gonzaga declinou ao perverso tenente que Ioiô Maroto era parente de Sinhô Pereira.
O autor da carta publicada no jornal, por razões óbvias, não declinou o nome do militar, mas se sabe que ele era o tenente Peregrino de Albuquerque Montenegro.[3]
Versões
Em seu livro “O Canto do Acauã” (2011, pág. 157), a pesquisadora Marilourdes Ferraz dá outra versão para o caso. Ela afirma que o tenente Montenegro recebeu uma carta, onde havia uma denúncia contra Ioiô Maroto, informando ser ele um coiteiro de cangaceiros. Segundo afirma a autora de “O Canto do Acauã”, a dita carta foi falsamente atribuída ao comerciante de Belmonte. Por saber de qual família vinha Maroto, Gonzaga correu a afirmar ao fazendeiro que não tinha culpa neste caso.
A ilustre visita do Bispo D. AUGUSTO ÁLVARO DA SILVA a paróquia de Belmonte em 1912. Da esquerda para a direita sentados: Frei Lucas, D. Augusto Álvaro da Silva e Padre Sizenando de Sá Barreto. De pé: Coronel José de Carvalho e Sá Moraes, Capitão Tertuliano Donato de Moura, Manoel de Medeiros Filho, Dr. Isídio Moreira,Coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, Dr. Felisberto dos Santos Pereira, Capitão Miguel Lopes Gomes Ferraz, Capitão João Lopes Gomes Ferraz, Major Manoel da Mota e Silva, Tenente Augusto Nunes da Silva e o Major Joaquim Leonel Pires de Alencar. Crianças: Antônio Brandão de Alencar, Luiz Alencar de Carvalho (Luzinho), Otacílio Gomes Ferraz e Napoleão Gomes Ferraz. Fonte – Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.
Já autora de “As Táticas de Guerra dos Cangaceiros”, Maria Christina Russi da Matta Machado (1969, pág. 73), não afirma que Ioiô Maroto e Gonzaga eram amigos e nem compadres, mas que os dois tinham uma desavença antiga. A autora aponta, sem detalhar nada, que o problema entre os dois “foi coisa sem importância” e que Ioiô Maroto não imaginava que Gonzaga aguardasse a oportunidade de “liquidar as contas”, lhe denunciando a volante cearense que lhe desonrou em sua própria casa.
Já João Gomes de Lira, autor de “Memórias de um Soldado de Volante” (1990, págs. 77 e 78) tem outra versão. Segundo este antigo membro de volantes que perseguiu cangaceiros, Ioiô Maroto residia em um lugar chamado “Queimada Grande” e durante a surra aplicada pelos militares cearenses, soube da boca do próprio tenente Montenegro que foi o comerciante Gonzaga a pessoa que lhe havia denunciado.
Mas é a própria Marilourdes Ferraz que aponta duas ocorrências, que mostram uma possível solução deste pequeno mistério.
A primeira razão teria ocorrido em maio de 1922, quando foi saqueada por Sinhô Pereira e seu bando, composto inclusive de Lampião e seus irmãos, uma carga de tecidos de Gonzaga que era transportada para Rio Branco, atual Arcoverde. Parte da carga foi distribuída entre os bandidos e o resto eles atearam fogo.
Segundo Valdenor Neves Feitosa, neto de Crispim Pereira de Araújo, o Ioiô Maroto, quem está a direita de seu avô é Raimundo Neves Pereira, nascido em 12 de setembro de 1935, em Parambu-CE, conhecido como “Edmundo” e filho de Ioiô. Sentado no seu colo está o seu neto Dario, e à a sua esquerda se encontra a sua filha caçula, Francisca Neves Pereira. Esta foto foi tirada, na década de 40, do século XX, na fazenda Malhada, Município de Parambu, nos sertões dos Inhamuns, Estado do Ceará, próximo a fronteira com o Piauí. Agradeço a Valdenor Neves Feitosa pela informação.
A outra razão seria o fato que, depois desta ocorrência, Gonzaga começou a atender as exigências dos cangaceiros que viviam pela região. O comerciante, para se ver livre desta corja de malfeitores, entregava mercadorias e dinheiro. Entretanto, em uma ocasião em que estava ausente, consta que sua esposa, a Senhora Martina, tratou muito rispidamente o portador da mensagem dos bandoleiros. Diante dos episódios ocorridos, a autora afirma que Gonzaga contratou homens para a sua proteção, de sua família, de seus negócios e de suas propriedades.[4]
A notícia da desatenção da esposa de Gonzaga e do fato dele contratar homens para sua proteção chegou aos chefes dos cangaceiros causando insatisfação. Estes guardavam muito rancor de quem não lhes atendia seus pedidos e de quem tomava estas atitudes de defesa.
Sabendo destes fatos narrados em “O Canto do Acauã” e lendo o teor do material publicado no jornal recifense “A Província”, em 11 de março de 1923, ao cruzarmos as informações, podemos facilmente deduzir que Gonzaga estando com homens armados para lhe proteger e com o comandante da volante cearense arranchado em sua casa, se sentiu seguro para relatar ao tenente Montenegro os problemas que acontecia consigo e a ligação de parentesco entre Ioiô Maroto e Sinhô Pereira.
Jornal do Commercio, 21 de outubro de 1922
Depois do fracasso da atuação de sua volante em Pernambuco, da reprimenda do tenente Cardim, não é difícil imaginar que o tenente Montenegro deduziu que fazer uma visita ao parente de Sinhô Pereira poderia lhe trazer alguma vantagem. [5]
Evidente que isso é apenas uma dedução e nada impede que a triste sina de muitas pessoas de “botarem lenha na fogueira”, possa ter desencadeado tudo que ocorreu depois.
Lampião Chefe de Bando
No meio de toda esta história, enquanto Ioiô Maroto tentava curar suas feridas e Gonzaga se preocupava com seu futuro, no dia 4 de junho de 1922, no sítio Feijão, zona rural do município pernambucano de Belmonte, próximo a fronteira do Ceará, Sinhô Pereira informou ao membros do seu bando, que em breve vai entregar o comando a Lampião.
Apesar de ter menos de 27 anos de idade, Sinhô alegou problemas de saúde para a sua decisão e que seguia um apelo do mítico Padre Cícero Romão Batista, da cidade de Juazeiro, Ceará, que havia lhe pedido para deixar esta vida e ir embora para o sul do país.[6]
Vinte e dois dias depois de receber a notícia que a passagem de comando está próximo, Lampião efetivamente já é chefe de grupo. Neste momento começa a imprimir sua horrenda marca pelo Nordeste e vai se tornar o maior cangaceiro do Brasil.
Na edição de 29 de junho de 1922, do jornal “Diário de Alagoas”, afirma que “Cangaceiros, em numeroso bando assaltaram a cidade de Água Branca, penetrando na residência da Baronesa”.
Casa da Baronesa atacada e roubada por Lampião e seu bando. Fonte-Blog Cariri Cangaço
Esta era a octogenária Joana de Siqueira Torres, viúva do Barão do Império Joaquim Antônio de Siqueira Torres. Os cangaceiros chegaram de madrugada entraram pelos fundos do casarão e roubaram o que puderam. Apesar de ocorrer uma resistência das pessoas do lugar, eles escaparam ilesos.
No dia 1 de julhos este periódico alagoano informou através de “viajantes vindos do sertão”, que os esforços da polícia para prender os assaltantes foram nulos.[7]
Lampião segue para Pernambuco, feliz pelo resultado do saque. Em uma tarde, junto com seus companheiros de rapinagem, dançaram xaxado e cantaram a mítica melodia “Mulher Rendeira” embaixo de uma quixabeira no centro do povoado de Nazaré e o fato foi presenciado por Manuel de Souza Ferraz, o conhecido Manuel Flor. Este se transformaria em um dos maiores perseguidores de Lampião.[8]
Manuel Flor. Fonte-Blog Lampião Aceso
Finalmente, no dia 22 de agosto de 1922, Sinhô Pereira parte da fazenda Caraúbas, perto do lugar Bom Nome, em Pernambuco, para o estado de Goiás.[9]
Mas antes de partir, Pereira pediu a Lampião que fosse a Belmonte resolver a desfeita sofrida por seu parente Ioiô Maroto. Lampião certamente possuía uma dívida de gratidão com Sinhô Pereira, por tudo que ele havia lhe ensinado em meios as andanças pelas caatingas e jamais iria lhe negar esta solicitação. Além do mais, ele sabia que Gonzaga tinha dinheiro e isto era o que realmente lhe interessava.
Gonzaga não Acreditou no Vaqueiro
Marilourdes Ferraz informa que Ioiô Maroto agiu de forma dissimulada e buscou a paz com seu amigo e compadre, que diante desta atitude decidiu dispensar seus guarda costas.[10]
A cidade de Belmonte atualmente
A carta do misterioso “Um Assignante”, publicada no domingo, 11 de março de 1923, dá um informação que se aproxima da versão de “O Canto do Acauã”. Consta que diante da surra em Ioiô Maroto, o comerciante Gonzaga começou a se desfazer de seus negócios em Belmonte, seguindo com a família para a cidade pernambucana de Bom Conselho. Então o próprio Ioiô Maroto teria escrito uma carta a Gonzaga, afirmando que não iria lhe fazer retaliações, que “era seu compadre e amigo”, que a amizade “voltaria a ser o que era”. A carta de “Um Assignante” afirma que Ioiô pediu então, certamente como prova de boa vontade, para Gonzaga dispensar os seis rapazes armados que ficavam em sua casa.
A casa de Gonzaga em 2008. Fonte-Alex Gomes
O jornal afirma que às dez da noite do dia 19 de agosto de 1922, um vaqueiro de Gonzaga conhecido como “Manoel Pilet”, foi a sua casa e afirmou ter visto muitos cangaceiros na propriedade “Cristóvão” de Ioiô Maroto, mas Gonzaga não acreditou. O vaqueiro chegou a se oferecer para fazer companhia e proteger o patrão em sua casa na cidade de Belmonte, mas Gonzaga recusou.
No livro “Serrote Preto”, de Rodrigues de Carvalho (1961. Págs, 157 a 161), o autor comenta que certa noite, provavelmente um ou dois dias antes da manhã de 20 de outubro, Lampião e seu bando chegaram a propriedade de Ioiô Maroto, prontos para resolverem a questão. Rodrigues de Carvalho afirma que o parente de Sinhô Pereira não queria mais a vingança e que seguiu com Lampião praticamente obrigado.[12]
Lampião e seu bando a cavalo
Já a carta publicada no jornal “A Província”, comenta que nesta época a cidade de Belmonte era guarnecida pelo sargento José Alencar de Carvalho Pires e mais 10 praças. Havia uma ordem que, no caso de serem ouvidos disparos, os comandados do sargento Alencar deveriam ir para o pequeno aquartelamento policial para serem tomadas as medidas de defesa[13].
Depois de uma noite de muita chuva, que facilitou o ataque dos cangaceiros, as quatro da manhã do dia 20 de outubro de 1922, uma sexta feira, foram ouvidos tiros espaçados e depois a fuzilaria aumentou. Nesta manhã o sargento Alencar se achava adoentado na casa do seu sogro, o coronel João Lopes, irmão de Gonzaga. Mesmo assim Alencar saiu a rua e disparou contra os cangaceiros “cerca de 40 tiros” e foi para o pequeno quartel para dar ordens ao seu pessoal. Mas no lugar, ao invés dos 10 militares só estavam os praças Manoel Rodrigues de Carvalho, José Francisco e José Oliveira.
A cidade entrou em polvorosa. Pessoas buscavam refúgio em baixo dos poucos móveis existentes nas suas casas. Muitos correram para o mato, deixando tudo para trás e saindo apenas com os familiares e a roupa do corpo.
Jornal recifense “A Província”, 11 de março de 1923
Em pouco tempo chegaram para defender a urbe os soldados Severino Eleutério da Silva e Heleno Tavares de Freitas. Este último foi logo alvejado e morto.[14]
Após isso o sargento Alencar distribuiu a munição e saiu a rua acompanhado dos soldados Manoel Rodrigues de Carvalho e José Oliveira. Ele deixou um soldado na casa do coronel João Lopes e outro na casa do escrivão Manoel Medeiros. O militar posicionado na casa do escrivão tinha ordens de abrir fogo contra o prédio do açougue, onde estava alojado um grande número de cangaceiros, pois o sargento Alencar iria atacar o açougue pela retaguarda. A fuzilaria era cerrada e desigual, pois a cidade era defendida, segundo afirma o jornal, por apenas 6 militares, uns poucos civis, contra 65 cangaceiros.[15]
Os militares que estavam no quartel, mesmo cercados, mataram Antônio Pereira da Silva, conhecido vulgarmente como “Antônio da Cachoeira” e primo de Ioiô Maroto e Sinhô Pereira.[16]
Outras notícias sobre o ataque
Pessoas da localidade participavam da defesa. Entre estes estavam Manuel Gomes de Sá, conhecido como Manuel Justino e seu filho João Gomes de Sá, que foi ferido. Um cangaceiro alcunhado “Baliza”, vendo este cidadão em apuros pulou o muro de sua casa disposto a matá-lo. A ajuda veio de Dona Luzia Gomes, esposa de João Gomes, que municiou o rifle e animou o esposo para a luta. João Gomes matou “Baliza” com um tiro no peito.
Outro que pegou em armas foi o cidadão Luís Mariano, que junto com outros disparava contra a corja de bandidos de dentro do curral de Tertuliano Donato.[17]
O sargento, depois coronel, JOSÉ ALENCAR DE CARVALHO PIRES (em pé, a esquerda com a espada) era filho do Alferes José Leonel de Alencar (sobrinho de dona Bárbara de Alencar e tio do romancista José de Alencar) e de Antônia da Assunção Pires. Nasceu em 13/03/1892 na fazenda Várzea, no município de Belmonte, e faleceu em 19/03/1960, no Recife. Foto do pesquisador Valdir José Nogueira, de Belmonte – PE.
Consta que o sargento Alencar expulsou os cangaceiros do açougue e de uma janela deste estabelecimento comercial, gritava palavras de apoio a Gonzaga e mandava bala contra os cangaceiros. O sargento imaginava que Gonzaga estava resistindo dentro de sua casa. Mas aí, segundo está textualmente descrito no jornal, o próprio Lampião gritou “-Eu levo daqui um comboio de fazenda; eu vou ficar rico!…”. Deixando entender que a situação do comerciante não era das melhores.
Alencar percebeu que a única maneira de expulsar os cangaceiros seria atacar pela retaguarda da casa de Gonzaga. Mesmo com poucos homens e a munição acabando, ele seguiu para o local e abriu fogo contra a “cabroeira”.
Antiga Rua do Comércio. No primeiro plano a famosa loja “A Rosa do Monte” do Coronel Gonzaga Ferraz e mais adiante a sua famosa residência, adquirida tempos mais tarde pelo Sr. João de Pádua. Fonte – Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.
De dentro da casa eram ouvidos gritos de euforia e de pavor. Dona Martina, a mulher de Gonzaga, suas filhas e outras mulheres que estavam no interior gritavam pedindo proteção aos céus. Quando estive em Belmonte me narraram que um cangaceiro chamado José Tertuliano, conhecido como Zé Terto, e possuindo o vulgo de “Cajueiro”, protegeu as mulheres da família de Gonzaga da sanha de seus companheiros, empurrando-as para dentro de uma dispensa.
Ainda dentro da casa os cangaceiros gritavam de euforia, parecendo que haviam alcançado a vitória desejada. Mas para o sargento Alencar e parte do seu valoroso destacamento, o que importava era entrar na residência e expulsar aquela corja para longe de sua cidade. A tática deu certo. Era perto das oito da manhã e depois de um fogo intenso o bando de Lampião saiu de Belmonte cantando a “Mulher Rendeira”.[18]
Provavelmente ao entrar na casa do comerciante, o sargento Alencar entendeu o porquê dos cangaceiros e Ioiô Maroto irem embora cantando.
Saldo do Ataque
Gonzaga Ferraz jazia morto na sala existente logo na entrada. Estava envolto em panos, onde certamente os atacantes iriam atear fogo no falecido e consequentemente na casa.[19]
Ele teria tentado se defender da turba que buscava invadir o local pela porta dos fundos. Havia chegado a atirar com o que tinha, mas diante da desvantagem empreendeu fuga indo para o grande sótão. Ao tentar se esconder, ou buscar fuga utilizando uma janela, ele despencou na sala e teria morrido da queda, ou então sido chacinado pelos cangaceiros.
Sótão da casa de Gonzaga. Fonte-Solón Almeida Netto
O certo foi que Ioiô Maroto, mesmo ferido levemente, alcançou sua pretendida vingança. Já Lampião e seus homens roubaram o que puderam do comerciante. Para o “Rei do Cangaço” o produto do butim que mais lhe chamou atenção foi a aliança de Gonzaga.
O saldo para o povo de Belmonte, além da morte de Gonzaga e do soldado Heleno Tavares de Freitas, foi a morte de um civil, que “A Província” chama apenas como “um velhinho” e que se achava na porta de sua casa quando foi alvejado. Já o jornal “Diário de Pernambuco”, transcrevendo um telegrama enviado pelo delegado Manuel Guedes ao então Chefe de Polícia, Desembargador Silva Rêgo, dá conta que o civil morto se chamava Joaquim Gomes de Lyra. [20]
Entre os defensores de Belmonte feridos, além do citado João Gomes de Sá, o próprio sargento Alencar estava com um ferimento leve, em decorrência de ter tido sua arma destroçada por um balaço dos cangaceiros. O jornal “A Província” de 1923 dá conta que depois de encerrado o tiroteio, cinco pessoas da cidade vieram “participar da defesa”, ajudando a transportar o “corpo” do sargento Alencar. Como este não estava morto, provavelmente desfalecido devido ao seu ferimento de natureza leve, se levantou e passou a maior descompostura naqueles que só ajudavam “carregando os defuntos”.[21]
Corredor da casa. Por aqui passaram os cangaceiros.Fonte-Solón Rodrigues Netto
Além de “Antônio da Cachoeira” e “Baliza”, os cangaceiros aparentemente tiveram um terceiro homem mortalmente alvejado pelos defensores da cidade. As fontes apontam que poderia ser um antigo membro do grupo de Sinhô Pereira, de alcunha “Pilão”, ou um cangaceiro conhecido como “Berdo”.[22]
Já as fontes apontam sempre de forma controversa, que o número de feridos entre os atacantes chegou a até cinco homens e os nomes variam. A unanimidade é o nome do paraibano Cícero Costa, que seria uma espécie de enfermeiro do grupo e em menos de dois anos seria morto no tiroteio da Serra das Panelas.
Consequências
A notícia do ataque a Belmonte teve forte repercussão na imprensa pernambucana. Uma semana depois do ocorrido, o periódico recifense “Jornal do Commercio” fazia uma severa crítica ao então governador pernambucano, Sérgio Teixeira Lins de Barros Loreto pela falta de segurança no sertão. O jornal traz estampada uma carta da viúva de Gonzaga, datada do dia da morte do seu marido, pormenorizando os fatos e responsabilizando Ioiô Maroto.
Casa de Gonzaga.Fonte-Solón Almeida Netto.
O Desembargador Silva Rêgo, Chefe de Polícia de Pernambuco, divulgou na imprensa que havia recebido informes de seus colegas da Paraíba, Alagoas e do Ceará. Estas autoridades transmitiam as tradicionais solidariedades, criticavam a ação dos cangaceiros e se colocavam a disposição. Mas de prático só o telegrama do Dr. Demócrito de Almeida, da Paraíba, afirmando ter informações vindas do bacharel Severino Procópio, que se encontrava na cidade de Conceição, dando conta que os cangaceiros estavam acoitados no velho esconderijo de Sinhô Pereira, na Serra do Olho D’água.
Família do Coronel Luiz Gonzaga. Foto tirada no Porto da Madeira, Recife, onde passaram a residir logo depois do ocorrido em Belmonte. Sua esposa é a senhora vestida do preto, de luto pelo falecimento de Gonzaga. Fonte – Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.
Dias depois, o “Diário de Pernambuco”, de 1 de novembro, reproduz na página 4 uma nota do jornal oficial do governo paraibano, “A União”, informando que o bando havia sido visto na Serra do Catolé, ainda em território pernambucano, mas próximo a fronteira paraibana, onde estariam nesta serra 50 bandidos. O bacharel Severino Procópio, junto com o tenente Manuel Benício e uma força paraibana, estavam a postos para atacar os cangaceiros. Mas o bacharel solicitava reforços de Pernambuco, para assim alcançarem um número de 150 policiais, pois devido às condições geográficas da região, só um número grande de homens para desalojar os cangaceiros do alto das serras. Mas aparentemente nada foi feito.[23]
Na sequência a família de Gonzaga vendeu tudo que tinha na região, partiu primeiramente para Recife e depois para o sul do país.[24]
Pesquisando sobre cangaço no sertão de Pernambuco
Não é novidade que a pesquisa em jornais antigos, associada à pesquisa em livros, artigos em revista, internet e, obviamente, a uma pesquisa de campo junto aos descendentes dos que presenciaram os fatos, se não traz nenhuma grande informação bombástica, mostra que é sempre possível conseguir novos detalhes e informações sobre o cangaço que, como me disse em certa ocasião um respeitado autor do tema “-São fontes de informações pequenas, mas que sempre dá para saciar a todos”.
NOTAS
[1] Sobre a posse da propriedade de Ioiô Maroto, ver “Relação dos Proprietarios dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”. DIRECTORIA GERAL DE ESTATÍSTICAS, Pág. 34, 1925, onde o “Cristóvão” é sua única propriedade listada no município de Belmonte.
[2] Sobre esta visita, foram realizadas entrevistas com pessoas da comunidade, que trazem apenas lembranças transmitidas pelos seus antepassados. Em minha opinião as fontes escritas foram mais proveitosas.
[3] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. A carta do misterioso “Um Assignante”, publicada em quase um ano após os fatos “A Província” , corrobora a tradição oral da região em muitas informações.
[4] Na “Relação dos Proprietarios dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”. DIRECTORIA GERAL DE ESTATÍSTICAS, Pág. 33, 1925, são listadas as propriedades “Varzeota” e “Contendas” como pertencentes a “Luiz Gonzaga Torres Ferraz”, ao invés de “Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz”, onde acreditamos que ocorreu um erro de datilografia na feitura deste documento.
[5] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco e “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 154, 2011.
[6] Ver “A Cabeça do Rei”, ARAÚJO, I. Págs. 144 e 145, 2007.
[7] Para muitos esta seria a primeira grande proeza de Lampião e seu bando, tendo o fato sido noticiado com destaque nas edições de 5 e 7 de julho de 1922, no respeitado periódico “Diário de Pernambuco”.
[8] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 154, 2011. A competente autora, mesmo ligada por laços de parentesco ao comerciante Gonzaga, no nosso entendimento busca apontar de forma bastante aproximada o que destaca a tradição oral da região em relação aos acontecimentos.
[9] Ver “A Cabeça do Rei”, ARAÚJO, I. Pág. 146, 2007.
[10] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 157, 2011.
[11] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.
[12] Neste livro o autor tem um posicionamento extremamente crítico contra Gonzaga e um tanto complacente em relação a Crispim Pereira. Não se pode negar que este autor viveu na região na época dos fatos, mas sua versão literária é diametralmente contrária em relação à figura de Gonzaga, tanto quando comparamos com os antigos jornais, como na tradição oral da região.
[13] O jornal “A Província” afirma que o sargento Alencar só tinha cinco anos que havia se incorporado a polícia pernambucana.
[14] No centro da cidade de São José do Belmonte existe Rua Sd. Heleno, em honra a este militar.
[15] Os jornais de época apontam apenas seis soldados defendendo a cidade e três civis. Outros autores dizem que foram 8 os militares e quatro civis. Em relação ao número de cangaceiros que atacaram Belmonte, os autores que se debruçaram sobre o assunto apontam um mínimo de 30 e um máximo de 70. Rodrigues de Carvalho afirma que eram 70 homens comandados por Lampião. Ver “Serrote Preto”, Rodrigues C. Pág. 158, 1961. Já João Gomes de Lira afirma que eram “trinta e tantos ou quarenta cangaceiros”. Nesta obra o autor informa que foram denunciados pelo Promotor Público de Olinda 33 pessoas pelo ataque a Belmonte e o assassinato de Gonzaga. Mas o autor aponta que faltaram vários nomes de cangaceiros participantes, como os irmãos de Lampião e Lavandeira. Ver “Memórias de um Soldado de Volante”, LIRA, J. G. Pág. 78, 1990.
[16] Ver “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 55, 1987.
[17] Ver “Memórias de um Soldado de Volante”, LIRA, J. G. Pág. 79, 1990 e “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 54, 1987. Já Bismarck Martins de Oliveira, em “Cangaceiros do Nordeste”, pág. 208, 2002, informa que “Baliza” seria o primeiro cangaceiro a ter esta alcunha que andou com Lampião, que ele era pernambucano, havia sido membro do bando de Sinhô Pereira e se chamava Gabriel Lima. Já Erico de Almeida, em “Lampeão, sua história”, pág. 27, 1926, diz que o nome de “Baliza” era José Dedé. Este foi o primeiro livro a dar destaque ao ataque a Belmonte.
[18] Entre as várias fontes pesquisadas existe uma grande disparidade sobre a duração do ataque, que variam de uma a até quase quatro horas de combate.
[19] Ver “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 55, 1987. Em 2008 quando visitei a região e esta casa, ela se mantinha bem conservada e original em muitos aspectos, graças aos esforços de suas atuais proprietárias, professoras da rede pública de ensino.
[20] Em “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 54, 1987, afirma este civil chamado Cicero Januário, seria um padeiro e também um espião de Lampião. Mas apenas este autor dá esta informação.
[21] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.
[22] Em relação a esta questão, o periódico recifense “Jornal do Commercio”, edição de 8 de novembro de 1922, na sua página 3, dá conta que, desde o dia 3 de outubro de 1922 estava preso na cadeia de Belmonte um cangaceiro conhecido como “Bêrdo”. O mesmo, depois de atacar a propriedade denominada “Três Passagens”, onde teria assassinado o proprietário e sua esposa, sofreu forte de populares e estava ferido no peito. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.
[23] Ver na Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, edições de 21 e 28 de outubro e 1 de novembro de 1922, sempre nas páginas 4.
[24] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Págs. 159 e 161, 2011.
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O bando de Lampião em Limoeiro do Norte, Ceará, após a derrota em Mossoró.
Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte
Quando em 10 de junho de 1927, Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado Lampião, juntamente com seus cangaceiros atravessaram a fronteira da Paraíba com o Rio Grande do Norte, teve início um verdadeiro suplício em várias propriedades rurais do Oeste potiguar.
Muitas destas pessoas que viviam no campo eram simples e pequenos agricultores, como foi o caso do sítio Juazeiro, então localizado na zona rural da cidade de Pau dos Ferros, atualmente pertencente ao território do município de Marcelino Vieira, a 380 quilômetros de Natal.
Serra do Panati e parte do açude do Junco.
Sentada na varanda da casa anteriormente invadida pelo bando, defronte ao açude do Junco e da grande serra do Panati, Dona Terezinha de Jesus Queiroz, de setenta e dois anos, relembra o que seu pai, o falecido agricultor Manuel Joaquim de Queiroz, conhecido na região como “Manuel Laurindo”, lhe contou daquele estranho dia.
Ele tinha na época vinte e dois anos de idade, era solteiro, e na parte da tarde estava sentado no alpendre da casa de seu pai, concertando um sapato com algumas ferramentas para esta função. O genitor de Manuel, na época já viúvo, estava ausente e junto com ele na residência se encontrava a sua irmã mais velha.
A casa do sítio Juazeiro, zona rural do município de Marcelino Vieira, Rio Grande do Norte Casa onde morava Manuel Joaquim de Queiroz, o “Manuel Raulino”, localizada atualmente as margens do açude do Saco. Segundo Dona Terezinha, excluindo a calçada, a rampa e a coluna de alvenaria, o resto da casa está original.
De repente, em meio a uma grande algazarra, gritos, guinchados, urros, assovios e galopes das montarias, um grupo de cangaceiros se posta diante do agricultor. Grosseiramente alguns lhe apontam seus fuzis, enquanto outros invadem a casa e ameaçam a todos.
Maria Queiroz, a irmã de Manuel, passava roupa na sala da casa. Ao perceber a entrada dos invasores armados começou a gritar, logo fez menção de querer pular uma janela e correr. Rapidamente um cangaceiro apontou-lhe um fuzil na cabeça e ordenou que ela não fugisse. Outro membro do grupo de assaltantes disse que não maltratasse a mulher. Essa gritaria, esse movimento deixou os bandoleiros nervosos e foi preciso o irmão solicitar calma a jovem.
O autor deste artigo junto aos baús onde a família guardava roupas e outros utensílios. No dia do ataque todos foram revirados pelos cangaceiros em busca de armas e dinheiro.
Logo a pequena casa fica cheia de cangaceiros malcheirosos e rudes. Tem início uma busca frenética por dinheiro, armas e eles começaram a mexer em tudo. Alguns baús, peças de mobília que na época era comumente utilizada para guardar roupas, lençóis e outros objetos, foram bruscamente abertos e os seus conteúdos espalhados. Manuel negou a existência do que os cangaceiros desejavam, mas sua negativa apenas atiçou o desejo da rapinagem. Estes baús estão até hoje nesta casa e bem conservados.
Em meio à agonia e o terror proporcionado pelos cangaceiros, Manuel não percebeu a presença de seu tio Antônio Raulino, que naquele instante servia de guia forçado para aquela fração do bando de Lampião, que não se encontrava entre os assaltantes.
No momento de partirem, o pai de Dona Terezinha lhe contou que um dos cangaceiros estava tão pesado devido aos equipamentos, que o mesmo não conseguiu subir na sua alimária. Grosseiramente este ordenou a Manuel que segurasse as rédeas com força para que ele pudesse subir. Ameaçou o jovem que se caísse “ele iria sentir o peso de sua mão”. Manuel segurou as rédeas da maneira mais firme possível, para assim o arrogante bandoleiro conseguir montar e partir com seus companheiros.
Dona Terezinha sendo entrevistada para o documentário Chapéu Estrelado.
Após a saída do grupo, o clima dentro da casa era de desalento. Tudo estava revirado, roupas e lençóis estavam espalhados, objetos estavam pelo chão quebrados. O medo dos cangaceiros retornarem era enorme. Raulino chama sua irmã e decidem partir para o mato. Ainda tem tempo de escutarem outra parte da cavalaria de delinquentes passarem próximos de seu esconderijo e seguem em direção a casa de parentes.
No caminho escutam inúmeras detonações. Era o combate que ficaria conhecido como “Fogo da Caiçara”. Neste tiroteio, o primeiro do grupo de Lampião contra a polícia potiguar, o resultado foi um morto para cada lado e a fuga dos policiais comandados pelo tenente Carvalho Agra.
No dia 13 de junho, enquanto Lampião chegava a Mossoró, Manuel Joaquim de Queiroz se encontrava na Delegacia de Polícia da cidade de Pau dos Ferros, relatando para as autoridades presentes os fatos ocorridos na casa de seu pai naquela tarde do dia 10 de junho. Entre outras informações, ele listou para o capitão da polícia Jacinto Tavares Ferreira, fato registrado na página 17 do processo que trata da passagem do bando de Lampião pela região, que os cangaceiros subtraíram uma quantidade de bens que o depoente calculou em 850.000 réis.
Dona Terezinha de Jesus Queiroz relembra com saudades o tempo em que a família se reunia no alpendre para ouvir histórias sobre a “visita” dos cangaceiros.
Dona Terezinha comenta que mesmo não sendo contemporânea destes fatos, ela recorda com satisfação as ocasiões em que a sua família relembrava estes episódios, todos reunidos a noite no alpendre da casa. Para ela, com a morte dos protagonistas e o desinteresse dos mais jovens da região pelo assunto, em breve não haverá mais quem se lembre dos fatos ocorridos no dia 10 de junho de 1927.
Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte
Os fatos relacionados ao fenômeno do cangaceirismo possuem em suas variadas narrativas, locais que são referências pelos acontecimentos ali ocorridos. Pontos que se tornaram conhecidos por batalhas, ataques a cidades, assaltos e outros episódios, quase sempre associados ao sangue derramado, a valentia apresentada ou a derrota sofrida.
Serras na fronteira entre a Paraíba e Pernambuco.Foto Sólon R. A. Netto.
Na área onde as fronteiras entre os Estados de Pernambuco, da Paraíba e do Ceará se encontram, existem no lado pernambucano um destes locais. Trata-se de uma elevação natural, com altitudes que chegam a mais de 1.000 metros e conhecida como Serra do Catolé. Este ponto geográfico, localizado ao norte da cidade pernambucana de São José de Belmonte, se tornou conhecido dentro do chamado “Ciclo do Cangaço”, por ser apontado por consagrados autores, como o local onde existiam grutas que serviam de esconderijos a cangaceiros famosos, como os de Sinhô Pereira e Luís Padre, além do “aluno” do primeiro, Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião.
Junto com os amigos Sólon Rodrigues Almeida Netto e Alex Gomes partimos da cidade paraibana de Manaíra, na fronteira com Pernambuco, seguimos acompanhados do amigo Antônio Antas, que estava nos ajudando na função de guia na região. Conhecedor das histórias dos cangaceiros e dos inúmeros confrontos na região do Pajeú pernambucano, além de privilegiada fonte de informações, Seu Antonio é um homem da conversa franca, aberta e prazerosa.
Nosso guia na região e verdadeira enciclopédia do cangaço, Sr. Antônio Antas. Foto-Sólon R. A. Netto.
A Saga dos Pereiras
Ele nos conta como se deu a luta dos Pereiras, hoje um verdadeiro mito na região.
Sinhô Pereira ou Sebastião Pereira e Silva nasceu em 1896, na antiga Vila Bela, atual Serra Talhada, na região do Pajeú, Pernambuco. Era sobrinho-neto de um rico fazendeiro, que possuía o titulo nobiliárquico de Barão do Pajeú.
Desde os tempos que os primeiros brancos chegaram ao Pajeú, estes viveram principalmente da criação de gado. Como a pecuária requer uma larga extensão de terras, em meio a uma região de gente valente, com a quase total ausência do Estado, não era rara a ocorrência de conflitos sanguinolentos entre famílias, que chegaram a durar décadas.
Em 1848, quase cinquenta anos antes do nascimento de Sinhô Pereira, sua família entra em desavenças políticas com a família Carvalho. Em 1907, com o endurecimento deste conflito, foi assassinado o então líder dos Pereiras, Manoel Pereira da Silva Jacobina, conhecido como Padre Pereira, que era assim conhecido por ter estudado em um seminário em Olinda, Pernambuco. Terra de bravos e com a quase total ausência do Estado, Pouco tempo depois, em resposta, um dos chefes dos Carvalhos é morto.
Três irmãos de Sinhô Pereira assumem por parte da família o combate contra os Carvalhos. Em 1916, um destes irmãos, conhecido como Né Dadu é morto no conflito e Sinhô Pereira assume seu papel no conflito fratricida.
Sinhô Pereira e Luís Padre (em pé).
O falecido Padre Pereira tinha como filho Luiz Pereira Jacobina, conhecido como Luiz Padre e primo de Sinhô Pereira. Logo os primos estarão à frente de um grupo de cangaceiros, que não vão se caracterizar pela rapinagem franca e aberta contra alvos aleatórios, mas pela missão proeminente de destruir a tudo e a todos que pertenciam, ou eram ligados aos Carvalhos. Os primos utilizavam o vilarejo de São Francisco, na época crescendo em número de habitantes, como sua principal base de apoio.
A forma de combate dos Pereiras é a guerrilha sertaneja. Para eles não existe outra opção, pois além de poderosos e bem armados, as ligações políticas dos Carvalhos com o poder constituído de Pernambuco, colocava ao lado destes a força policial.
Os fatos envolvendo estas lutas se perpetuaram na região; em uma manhã de junho de 1917, à frente de sete homens, Sinhô Pereira e Luís Padre atacaram a fazenda Piranhas, em Serra Talhada. Apesar de perderem um dos seus companheiros e terem outros feridos, o saque foi alto e a destruição intensa.
Em outro caso, o grupo dos Pereiras chegou um dia antes do casamento de um aliado dos Carvalhos, que evidentemente não ocorreu mais, onde a lua de meu do noivo foi de rifle na mão e perseguindo os Pereiras no meio da caatinga.
A perseguição das autoridades aos Pereiras era intensa, as vezes absurda. Em abril de 1919, após um combate contra o bando onde morrerem nove soldados. Os policiais pernambucanos, comandados pelo Coronel João Nunes, como forma de quebrar a resistência dos primos cangaceiros, simplesmente decidiram saquear e queimar totalmente o vilarejo de São Francisco. E assim foi feito!
Em meio a estes conflitos, os Pereiras utilizaram o apoio de fazendeiros da região para terem proteção e aproveitarem os vários esconderijos oferecidos, ou “coitos”.
Segundo o livro do jornalista cearense Nertan Macedo, intitulado “Sinhô Pereira-O comandante de Lampião” (pág. 87, Ed. Artenova, 1975), afirma que Luís Padre possuía terras na Serra do Catolé, onde o bando se escondia. Teriam eles utilizado cavernas?
Para nós que estávamos na região pesquisando, a suspeita era pertinente, pois outras publicações clássicas sobre o cangaço narram que grutas da Serra do Catolé foram utilizadas como esconderijos por Lampião e seu bando (Optato Gueiros, in “Lampeão-Memórias de um oficial de Forças Volante”, 4ª Ed., Editora Livraria Progresso, 1956, págs. 83 a 92 e Francisco Bezerra Maciel in “Lampião, seu tempo e seu reinado-Livro II-A Guerra de Guerrilhas-Fase de Vendetas”, 2ª Ed., Editora Vozes, 1987, págs. 115 a 129). Como sabemos que muito do aprendizado de Lampião e seus irmãos no cangaço foi passado por Sinhô Pereira, era bem possível que este tenha ensinado ao “Rei dos Cangaceiros”, os principais locais de esconderijo na serra?
Para tirar a dúvida, bastava ir lá.
Até o encontro com o Senhor Antonio Antas, estas eram a únicas informações que possuíamos sobre a passagem do bando dos cangaceiros pela serra. Nosso informante confirmou tudo que fora escrito nos velhos livros e acrescentou outras informações, nos animando para continuar a jornada.
Indicações
Seguimos pela bela cidade serrana de Triunfo, em direção a Serra Talhada, depois pela BR-232, até o entroncamento em direção a São José de Belmonte, percorrendo mais de 50 quilômetros de boas estradas de asfalto.
A partir de São José de Belmonte o caminho para a Serra do Catolé segue por 25 quilômetros de estradas de barro, até o distrito do Carmo. Neste aglomerado urbano, soubemos da existência do Senhor Francisco Maciel da Silva que poderia nos dar boas informações.
Carmo, em São José de Belmonte, Pernambuco. Foto-Alex Gomes.
Vivendo em uma casa simples do lugarejo, idoso, mas lúcido, o Senhor Maciel é um homem de pequena estatura, lento nos gestos e que utiliza um par de óculos com grossas lentes para poder enxergar. Apesar disto, a firmeza da sua voz, a lucidez e o forte aperto de mão, não deixam transparecer que ele possui 97 anos de idade. E comentou que durante anos viveu no alto da Serra do Catolé e que na sua propriedade existe uma gruta que foi utilizada como esconderijos de cangaceiros.
Já sua filha Maria do Carmo Rodrigues da Silva, de 66 anos, informou que quando ainda moravam no alto da serra, muitas vezes seus filhos traziam desta cavidade, cascas de balas de fuzis detonadas ou ainda intactas e em uma ocasião, um deles achou uma espécie de chave de fendas, aparentemente utilizada para manutenção rifles. Dona Maria nos informa que estes fatos não se restringiram apenas a pequenos objetos. Em anos passados, ela não recorda quando, em outro sítio existente na região da serra, em uma ocasião em que trabalhadores capinavam próximos a uma pequena gruta, foram encontrados dentro desta, segundo suas palavras; “um mundo de rifles socados nas furnas”.
Devido à idade, o Senhor Maciel não pode nos acompanhar, mas informou que um amigo por nome de Luiz Severino dos Santos, morador do Sítio Catolé, saberia muita coisa sobre estes esconderijos.
Os Caminhos para A Serra do Catolé
Seguimos então para a serra por uma estrada de péssima qualidade.
No trajeto percebemos a pequena quantidade de habitações existentes ao longo do caminho, onde a maioria delas se encontra com as portas fechadas, sendo difícil acharmos pessoas quem possa nos dar alguma informação. Vimos pequenas estradas vicinais, seguindo para pontos ignorados, onde mesmo com a ajuda do GPS, acabamos nos perdendo em algumas ocasiões.
Ao buscarmos informações com as poucas pessoas que encontramos, estes se mostraram arredios, desconfiados com quatro homens em um jipe EcoSport. Este comportamento estranho, bastante diferente do que estamos acostumados a encontrar nas nossas andanças pelo sertão nordestino, se explica pelo isolamento do local e a proximidade de três fronteiras estaduais, por onde “passa todo tipo de gente e bicho” como nos disse um lavrador local. Se hoje é assim, imaginemos então no tempo do cangaço.
Apesar dos percalços, cada vez mais a serra surgia imponente.
Subindo a Serra do Catolé. A árvore que da nome a serra são as palmeiras a direita do carro. Foto-Alex Gomes.
A Serra do Catolé possui características interessantes; além de elevada, extensa, é coberta com uma imensa quantidade de palmeiras conhecidas como coqueiro catolé (Syagus cromosa). Esta árvore, característica dos cerrados, é igualmente vista em praticamente toda a região Nordeste do Brasil, principalmente em locais com maior altitude, chega a ter em media 7 metros de altura e fornece uma amêndoa que se produz um fino óleo que é utilizado na culinária nordestina. Da sua polpa, principalmente no Ceará, se produz uma bebida chamada aluá e antigamente o sertanejo encontrava nesta caridosa árvore um palmito de gosto amargo, utilizado para temperar carne.
Entre esta verdadeira floresta de coqueiros catolé, vemos uma grande concentração de enormes blocos de granito, sendo esta outra característica desta interessante serra. Foi devido à ação da erosão, ao longo de milênios, que estes blocos rolaram ao longo dos declives da serra, e, ao se juntarem a outros blocos, formaram as cavidades naturais que os valentes cangaceiros do bando de Sinhô Pereira utilizaram em meio as suas lutas.
O “Coito” dos Pereiras e a Gruta da Pedra de Dé Araújo
Em meio a tantas pessoas com o semblante desconfiado, foi uma benção encontrar o riso aberto do Senhor Luiz Severino dos Santos. Homem tranqüilo, forte para seus 66 anos, comenta que nasceu na serra e de lá, no máximo só saiu até Serra Talhada. Para nossa surpresa, no começo do nosso diálogo, ao ser perguntado sobre estes esconderijos, ele confirma a existência das grutas e comenta que elas foram esconderijos usados pelo bando do seu avô, o próprio Luis Padre.
Surpresos diante desta declaração, passamos a conversar e buscar novas informações.
Conhecendo a história. Foto-Alex Gomes.
Segundo o Senhor Severino, a família de Luís Padre era proprietária do Sítio Catolé antes mesmo do inicio das “brigadas” contra os Carvalhos. Entre uma pausa e outra da luta, Luis Padre, Sinhô Pereira e o bando seguiam para a Serra do Catolé, onde se refaziam para novos combates. Aparentemente, entre estas pausas, Luís Padre iniciou um relacionamento com a sertaneja Ana Maria de Jesus. Logo deste encontro nasceram duas filhas do célebre cangaceiro, Emília e Agostinha Pereira da Silva, a última foi a genitora do nosso informante, sendo ela quem narrou as peripécias e as andanças do seu pai no cangaço.
As características de isolamento e as dificuldades naturais de acesso a serra, proporcionaram aos cangaceiros um verdadeiro local de descanso e apoio, mas por medo da polícia descobrir estes locais, o Senhor Severino informou que a permanência do grupo era sempre rápida e controlada. Todos os acessos eram vigiados, ninguém entrava ou saia da serra sem que Luis Padre e Sinhô Pereira soubessem. Percebemos a importância estratégica da serra e do Sítio Catolé, pois estamos a somente 18 quilômetros da fronteira cearense e a 3 da Paraíba, mostrando que a partir deste local estas fronteiras poderiam ser ultrapassadas e outros locais de apoios e de combate poderiam ser alcançados.
Em relação às cavidades, Seu Severino comenta que existem várias na região, que o grupo se escondia nelas quando havia notícias das proximidades da polícia, ou quando algum dos cangaceiros estava ferido.
No abrigo de “Dé Araújo”. Foto-Alex Gomes.
Devido ao nosso tempo curto, pedimos para conhecer a mais representativa em sua opinião. Ele escolhe para uma que sua mãe lhe contou ter ido a este local, ainda criança, levada pelo pai cangaceiro, para ver um dos seus companheiros de luta que se recuperava de um balaço recebido. Ela lhe contou que o cangaceiro se chamava “Dé Araújo”, que havia sido ferido no combate das “Piranhas”, sendo trazido nas costas dos companheiros, onde foi tratado com raízes e produtos naturais. Na medicina destes cangaceiros, eles utilizavam um cipó facilmente encontrado na serra, que chamavam “cipó de baleado”, onde o mesmo era pilado, colocado sobre a ferida da bala, que cicatrizava o ferimento.
A cavidade passou a ser conhecida na região como “Gruta da Pedra de Dé Araújo”, sendo formada por um matacão granítico rolado e internamente, no centro da cavidade existe uma área arenosa, plana, onde sua mãe lhe dizia ser o “leito” do cangaceiro “Dé Araújo”, que se recuperou plenamente e voltou a luta. O Senhor Severino não soube informar se este lugar “Piranhas”, fora a mesma fazenda Piranhas, atacada pelo bando dos Pereiras em junho de 1917.
Religiosidade do sertanejo. Foto-Sólon R. A. Netto.
Em 1919, com o endurecimento da luta, onde a vitória total era impossível, mas a honra da família estava mantida, o conflito entra em um impasse. Neste momento surge a figura do famoso Padre Cícero, da cidade de Juazeiro, Ceará. O sacerdote pede aos Pereiras que deixem a região, que sigam para “o Goiás em busca de paz”. Eles acatam o pedido do religioso e decidem partir separadamente, levando cada um deles, um número reduzido de homens, os de maior confiança. Luís Padre consegue chegar a Goiás, mas Sinhô Pereira entra em combate no Piauí e, sem conseguir ir adiante, retorna para o violento Pajeú.
Tempos depois, em 1920, um pequeno grupo de seis cangaceiros, comandado pelo caçula dos três irmãos Ferreira, de nome Virgulino, entra no bando de Sinhô Pereira. Eles buscam vingança contra um vizinho de propriedade e de um tenente da polícia alagoana que havia matado seu pai. Durante dois anos Virgulino Ferreira da Silva, seria tornaria braço direito de Sinhô Pereira e aprenderia muito com o chefe, inclusive os esconderijos da Serra do Catolé. Em agosto de 1922, atendendo a outro pedido do Padre Cícero e acometido de problemas reumáticos, Sinhô Pereira deixa o Nordeste em direção a Goiás, onde reencontra o primo e juntos vão participar de outras lutas.
A Gruta que salvou Lampião
Chico Barbosa, já falecido, foi um agricultor que possuía uma pequena propriedade na Serra do Catolé. Morava próximo ao Senhor Severino, de quem era grande amigo e lhe contou ter sido durante algum tempo, cangaceiro do bando de Lampião.
Lampião, o “Rei do Cangaço”.
A razão da entrada do bando, de onde ele veio, o “nome de guerra” que adotou no bando e como Chico Barbosa deixou o cangaço, ele nunca declinou ao amigo e nem o Senhor Severino perguntou.
Ocasionalmente, quando queria, Chico Barbosa comentava ao vizinho suas andanças “nos tempos dos clavinotes”. Em um destes relatos comentou que chegou à Serra do Catolé através da passagem do bando pelo lugar, quando Lampião foi ferido no pé.
O caso se deu assim; no dia 23 de março de 1924, por volta das dez da manhã, uma volante comandada pelo major da polícia de Pernambuco, Thoephanes Ferraz, teve um encontro com Lampião e dois cangaceiros em uma área próxima a Lagoa do Vieira, distante apenas cinco quilômetros da Serra do Catolé. Na luta, o chefe cangaceiro foi seriamente atingido no pé e sua montaria foi morta, caindo sobre a perna de Lampião. Apesar disto, o bandoleiro consegue fugir. Seu bando então segue para o alto de uma serra, onde o chefe passa por uma recuperação. Sobre este caso ver https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/02/10/quando-lampiao-quase-foi-aniquilado/
Alguns dias depois, segundo o boletim oficial emitido pelo mesmo major Theophanes Ferraz, às cinco e meia da tarde do dia 2 de abril, uma tropa do seu setor de ação, ataca o acampamento dos cangaceiros e morrem dois perigosos bandidos, Lavadeira e Cícero Costa. Já Lampião, ao empreender fuga, abre o ferimento e tem início uma séria hemorragia.
O chefe se esconde nas moitas, por pouco não é descoberto pela polícia. Durante três dias Lampião padece no meio da caatinga sem água ou alimentos, com uma grave ferida aberta. Por sorte um garoto o encontra, este chama seu pai, que começa a tratar do cangaceiro. Após se recuperar, Lampião manda comunicar a seus irmãos, que chegam ao local com um bando calculado em cinqüenta cangaceiros, entre eles supostamente estaria Chico Barbosa. Neste ínterim, a polícia sabia do grave ferimento de Lampião e as buscas na região eram intensas. Sem condições de seguir para algum local aberto para um tratamento melhor, o grupo seguiu para a Serra do Catolé.
Gruta que salvou Lampião. Foto Alex Gomes.
Chico Barbosa comentou que primeiramente Lampião veio para a gruta da “Casa de Pedra da Boa Esperança”.
O Senhor Severino, com extrema boa vontade nos levou a esta cavidade natural. Seguimos de carro em torno de dois quilômetros, até um ponto onde subimos uma parte da serra a pé, seguindo no meio de uma plantação de milho. O que vemos a partir do ponto onde se localiza a gruta é estonteante, é possível visualizar parte do Ceará e da Paraíba.
Chico Barbosa comentou ter Lampião sido transferido para outras cavidades na Serra do Catolé, como a Furna da Onça, localizada na fazenda Ingá. Mas foi na Casa de Pedra da Boa Esperança que ele passou mais tempo se recuperando. A razão era o isolamento do lugar e sua localização privilegiada.
Um mês após esta peregrinação por cavidades, o chefe cangaceiro será protegido por ricos latifundiários da fronteira entre Pernambuco e Paraíba, aonde vai se recuperar plenamente combatendo por mais quatorze anos, até ser liquidado em julho de 1938, na Grota de Angico, em Sergipe. Durante a continuidade da sua luta, onde vão morrer todos os seus irmãos que aderiram ao cangaço, ele vai incorporar ao bando mulheres, como a sua Maria Bonita e vai participar de inúmeros combates. Apenas ocasionalmente, na região próxima a zona do rio São Francisco, e de forma ocasional, o “Rei do Cangaço” voltara a utilizar cavidades naturais como abrigo.
Conclusão
Ainda criança, Agostinha Pereira viu seu pai Luís Padre, fugir para terras distantes e dele então não teve mais notícias.
Nos anos 50, chega a Serra Talhada um jovem bem instruído, simpático, de fala tranquila e vindo do sul do país. Ele busca entrar em contato com parentes de Luiz Pereira Jacobina, o temido Luiz Padre.
Foto de Luís Padre (a direita), entregue pelo seu filho. Foto- Solón R. A. Netto.
Era o goiano Hagaús Pereira, ativo membro da sociedade da cidade goiana de Dianópolis, filho de Luiz Padre, que a seu pedido buscava entrar em contato com a família deixada na Serra do Catolé. O Senhor Severino nos conta que uma parte da sua família seguiu para Goiás. Ele foi convidado, mas na última hora as belezas da serra falaram mais alto e ele está por lá até hoje.
Luiz Padre faleceu em 1965. Do avô que não conheceu ficou uma foto.
Para os privilegiados moradores deste local, a utilização da Serra do Catolé pelos cangaceiros no passado é um momento da história que cada dia mais se perde diante da concorrência desleal da televisão, provocando o desinteresse dos jovens em ouvir dos mais velhos os “causos” do passado.
A história da famosa promoção a capitão do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião”, ocorrida em Juazeiro, no ano de 1926, é de conhecimento de todos e um tema já bastante divulgado. Sobre o homem que realizou este procedimento, o pernambucano Pedro de Albuquerque Uchôa, muito já foi igualmente comentado.
Quem primeiro trouxe a história da patente e a figura de Uchôa ao conhecimento geral foi o cearense Leonardo Mota (1891-1947), no seu livro “No tempo de Lampião”. Lançado em 1930, a entrevista transcrita de Uchôa colocou este funcionário público no centro das atenções.
Três anos após o lançamento do livro de Mota e sete anos depois deste acontecimento “burocrático-cangaceirístico”, Uchôa teceu mais alguns interessantes comentários relativos a este pitoresco episódio da trajetória do Rei do Cangaço.
Matéria com Uchôa.
Através da reprodução das páginas de um vespertino carioca, apresentadas na primeira página do jornal sergipano “Diário da Tarde”, de sexta-feira, 29 de setembro de 1933, vamos encontrar o funcionário público Uchôa, aparentemente vivendo na antiga Capital Federal. Pela descrição no jornal, tudo indica que ele não era mais um membro dos quadros do então Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Era apresentado pelo jornal como funcionário da “Secretaria do Tribunal”, sem especificar se era um tribunal ligado a justiça Estadual ou Federal.
O jornalista que realizou a entrevista informa que se espantou ao descobrir que estava diante do homem que forçadamente provocou uma interessante querela burocrática e o mesmo, em nenhum momento da entrevista, negou o seu ”feito”.
“- Fui eu mesmo, quando estava no Juazeiro, Ceará”. Afirmou Uchôa.
Pedro de Albuquerque Uchôa. Fonte-2ºSgt Narciso.
Mas como tudo ocorreu.
Para reavivar a memória de todos, recorro ao excelente livro “Padre Cícero-Poder, Fé e Guerra no Sertão”, de autoria do jornalista e escritor cearense Lira Neto, que no capítulo 11, páginas 463 a 482, traça detalhadamente os episódios que culminaram na criação da patente de capitão para Lampião.
No ano de 1925, o então presidente da República Arthur Bernardes idealizou um plano para derrotar os componentes de uma coluna de oficiais rebelados do Exército Brasileiro, que percorriam os sertões na esperança de insuflar a massa com o seu exemplo de luta, derrubar o presidente e alterar a ordem vigente na nação. Comandados por Luís Carlos Prestes, Isidoro dias Lopes, Siqueira Campos, eram conhecidos na época como Revoltosos.
Floro Bartolomeu
Eles estavam no início de 1926 adentrando o Ceará, vindos do Piauí. O presidente da República convoca Floro Bartolomeu da Costa para organizar a resistência aos rebelados no Ceará. Floro era um médico baiano, que vivia em Juazeiro, era deputado federal, muito ligado ao Padre Cícero Romão Batista e que em 1914 havia organizado um movimento sedicioso que culminou com a derrubada do então governador cearense, Franco Rabelo. Parecia o homem certo para a função.
Floro Bartolomeu e Padre Cícero.
Floro procura o Padre Cícero, carismático prefeito e religioso de Juazeiro, e, com uma dinheirama vinda do Rio de janeiro, organizam os chamados Batalhões Patrióticos. Eram mais de mil homens com uniformes de brim azul-celeste e munidos de modernos fuzis privativos das forças armadas. Foram passados em revista pelo Padre Cícero em 9 de janeiro de 1926 e saíram ao encalço dos revoltosos.
Mas a caçada não deu certo. Afeitos as táticas de guerrilhas e ao constante movimento da tropa pelo sertão, os revoltosos conseguiram driblar os membros dos Batalhões Patrióticos e seguiram atravessando o Ceará.
Batalhão Patriótico em Juazeiro.
Desesperado, o Floro pede mais dinheiro ao governo e amplia a já amalucada ideia de Arthur Bernardes. Ele envia um portador com uma carta do padre destinada a ninguém menos que Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado Lampião. Ele estava sendo convocado para uma “Guerra Santa”.
No início desconfiado, Lampião acabou aceitando o convite do seu “Padim Ciço”, o homem a quem ele devotava confiança cega e que aparentemente, protegia os seus familiares há algum tempo de vinganças.
Virgulino partiu para o Juazeiro.
Lira Neto foi muito feliz ao colocar uma frase que exemplifica esta parte desta história; “Deus e o Diabo iriam se encontrar na Terra do Sol”.
Mudanças no Meio do caminho
Enquanto Lampião seguia para a “Meca do sertão”, os Revoltosos driblavam os Batalhões Patrióticos e seguiam seu caminho de lutas sem nem chegar perto de Fortaleza, ou de Juazeiro, grande temor do Padre Cícero. Neste meio tempo Floro Bartolomeu adoeceu fortemente de sintomas ligados a sífilis e deixou a “frente de combate”.
Coluna Prestes.
Logo a coluna de Revoltosos, que entraria para a história do Brasil como Coluna Prestes, passou pelo Rio Grande do Norte (Cidades de São Miguel e Luís Gomes) e seguiu para a Paraíba. Floro Bartolomeu por sua vez rumou para Fortaleza e depois foi de navio para o Rio de janeiro, onde morreria em pouco tempo.
Tudo parecia indicar que a tempestade havia passado, mas uma nuvem negra, em formato de um chapéu de couro com a testeira quebrada, se aproximava de Juazeiro.
O perigo dos Revoltosos poderia ter até passado, mas Lampião vinha cobrar a sua conta para poder “cumprir seu dever cívico”.
A princípio o chefe da guarnição policial de Juazeiro pensou em oferecer resistência, mas Padre Cícero não podia aceitar esta situação. Afinal o homem era um convidado e deveria ser bem recebido. Durantes três dias de um final de semana memorável para a cidade de Juazeiro, Lampião e seus homens aproveitaram ao máximo da principal urbe do interior do Ceará.
Na noite de 4 de março de 1926, ocorreu o famoso encontro de duas das mais míticas figuras já produzidas no Nordeste do Brasil.
É nessa hora que entra em cena Pedro de Albuquerque Uchôa.
Encontro Memorável
Voltando a reportagem reproduzida sete anos após os fatos, Uchôa comenta que ainda na época em que vivia em Juazeiro, era “muito amigo” do líder político e religioso da cidade. Afirmou que mantinha uma boa relação com o religioso, a ponto de todo dia o Padre Cícero ir tirar um cochilo na sua casa ao meio dia. Nestas horas a casa de Uchôa ficava cheia de romeiros que vinham pedir a benção ao velho padre.
Lampião e seu irmão Antônio Ferreira.
Sobre os acontecimentos de 4 de março de 1926, Uchôa não narra o que aconteceu antes da chegada de Lampião, mas informa que nesta noite foi acordado por dois “jagunços”, em um sobradinho onde morava com seu contraparente, o cantador João Mendes de Oliveira.
Os homens intimaram o funcionário público, afirmando autoritariamente que “-Meu padrinho está chamando o Senhor com urgência”. Uchôa não perdeu tempo e foi logo a casa do Padre Cícero.
Segundo sua narrativa, estes dois homens portavam fuzis a tiracolo, estavam encourados e cheios de “medalhas”. As medalhas no caso, certamente seriam imagens de santos penduradas no peito. Ao escritor Leonardo Mota, Uchôa afirmou que estes homens eram Sabino Gomes e o irmão de Lampião, Antônio Ferreira.
Ao chegar a residência do líder de Juazeiro, o Padre Cícero lhe apresentou Lampião e disse, conforme está reproduzido no velho jornal sergipano de 1933.
“- Aqui está o capitão Virgulino Ferreira. Ele não é mais bandido. Veio com cinquenta e dois homens para combater os revoltosos e vai ser promovido a capitão. Olhe, o senhor vai fazer a patente de capitão do Sr. Virgulino Ferreira e a de tenente do seu irmão”.
Evidentemente que Uchôa ficou pasmo, “perplexo” em suas palavras.
Fiquei imaginando a cara do pobre coitado do funcionário do Ministério da Agricultura, acordado no meio da noite com esta bomba na mão. Ele ainda tentou argumentar que não podia, mas um dos irmãos de Lampião ponderou na hora.
“- Não, se meu padrinho está mandando o senhor pode”.
O Padre Cícero lhe colocou na condição de “mais alta autoridade federal de Juazeiro” e aí não teve jeito. Com o carismático prefeito ditando os documentos, foram “lavradas” as designações de patente.
Padre Cícero em sua mesa de trabalho.
Segundo Uchôa comentou ao repórter, parte dos termos do documento referente a patente de Lampião foram; “Pelo Governo Federal era concedido a Virgulino Ferreira a patente de capitão do Exército, por serviços prestados a República”.
Depois o Padre Cícero foi categórico e ordenou a Uchôa um curto “assine”. Ele colocou a sua firma no controverso documento.
Interessante é que em nenhum momento na reportagem, Uchôa pronuncia que concedeu uma patente a um dos mais cruéis e sanguinolentos bandidos de Lampião, o famigerado Sabino.
Após os “trâmites burocráticos”, Uchôa afirma que presenciou o temível Lampião, todo equipado, se ajoelhar reverentemente e beijar emocionado a batina do Padre Cícero. Lampião informou ao Padre que se comprometia a “proceder bem”…..
Uchoa informou ainda que após o encontro destas duas figuras, Lampião e seus homens receberam suas armas, munições e partiram no meio da noite.
Se assim foi, este foi o último ato da visita de Lampião e seu bando a Juazeiro.
Um Simples “ajudante de inspetor agrícola”?
A Leonardo Mota, o funcionário público Uchôa afirmou que ao retornar para a sua casa, por volta das onze da noite, tentou argumentar com Sabino e Antônio Ferreira que aquele documento não valia nada e que ele “não passava de um simples funcionário subalterno do Ministério da Agricultura”. Ao que o irmão do cangaceiro-mor do Brasil respondeu secamente que “-Se o padre dissera que era ele que devia assinar a patente, era porque era ele mesmo”. Uchôa se calou.
O escritor Leonardo Mota.
Ao ler em Mota, que Uchôa se considerava “um simples funcionário subalterno do Ministério da Agricultura”, percebi que na reportagem de 1933, Uchôa informou que na época era um “simples ajudante de inspetor agrícola”.
Ele então se encontrava em um dos postos mais baixo na hierarquia dos quadros funcionais do Ministério da Agricultura daquela época? Seria obrigatório que um “ajudante de inspetor agrícola”, fosse uma pessoa com formação superior?
A resposta é não necessariamente.
Mesmo com o termo “ajudante”, aparentemente esta extinta função do Ministério da Agricultura, conforme se lê em vários exemplares do Diário Oficial da União (D.O.U.) desta época, poderia, ou não, ser exercida por uma pessoa com o título de agrônomo. Encontrei várias transferências publicadas no D.O.U., do início da década de 1930, onde vemos inúmeros “ajudantes de inspetor agrícola” sendo remanejados. Alguns aparecem com o título de “agrônomo” adiante do cargo, em outros não.
O interessante é que na entrevista concedida no Rio, sete anos depois do episódio em Juazeiro e reproduzida na primeira página do jornal sergipano “Diário da Tarde”, em nenhum momento Uchôa comenta sua formação superior. Isso em uma época onde o Brasil era tão carente de educação, que quem era “Dotô” fazia questão de dizer a todos sobre a sua superioridade acadêmica e ainda mostrar o seu anel de formatura.
Das duas uma; ou Uchôa era um homem muito humilde, ou o repórter do tal vespertino carioca era muito fraco…
Consequências
Certamente o Padre Cícero, em muito pouco tempo, deve ter se arrependido de dar continuidade à ideia de Floro de trazer Lampião a Juazeiro.
Logo Lampião percebeu que seus “colegas de farda” não viriam até ele com salamaleques típicos de militares e nem com continências do estilo. Deles o cangaceiro Lampião só iria receber bala!
Sobre a sua luta contra os Revoltosos da famosa Coluna Prestes, existem indicações que Lampião e seu bando travaram um pequeno combate em Pernambuco, sem maiores consequências. Depois o cangaceiro decidiu continuar seu caminho de depredações, saques e violências, do qual era um especialista, deixando de lado a promessa feita ao Padre Cícero.
Mas quem não deixou passar em branco a situação foram os jornais da época, que se mostraram extremamente impiedosos nas críticas ao líder de Juazeiro.
As manchetes do jornal recifense “A Noite”, de 10 de agosto de 1926, aqui apresentadas, dão uma ideia do que o Padre Cícero sofreu. O texto então é pior ainda. Nele encontramos; “E ainda agora, para coroar toda esta obra de misérias que o Padre Cícero vem desenvolvendo ao longo de anos, Lampião passeia a sua impunidade nas ruas de Juazeiro, garantido e hospedado pelo padre satânico”.
Em minha opinião o Padre Cícero não percebeu a extensão do estrago que ocorreria quando decidiu dar prosseguimento ao plano desorientado de Floro Bartolomeu.
Alguém se esqueceu de lembra ao padre que seria muito difícil fazer com que certos componentes de volantes que combatiam os cangaceiros, teriam agora de parar a sua luta figadal contra o facínora e seus homens, e ainda mais, teriam de prestar continência ao capitão Virgulino. Isso tudo apenas por uma ordem emanada de Padre Cícero e sacramentada pela “mais alta autoridade federal de Juazeiro”, um ajudante de inspetor agrícola.
Para a imprensa do país e certos setores da elite que governavam a nação, a ação do Padre Cícero foi considerada, no mínimo, “desastrada” e só serviu para manchar a sua biografia.
Sobrou até para o pobre do Uchôa. Segundo a reportagem de 1933, ele teve de prestar contas do ocorrido a ninguém menos que o próprio Ministro da Agricultura.
Uchôa não informa se foi ao titular da pasta durante a gestão Arthur Bernardes, o baiano Miguel Calmon du Pin e Almeida, que ele teve de narrar os fatos. Ou se prestou contas ao sucessor deste, o paraense Geminiano Lira Castro. Ou se este encontro ocorreu com o paulista Paulo de Morais Barros, que assumiu o ministério depois da Revolução de 1930, na mesma época que ocorreu o lançamento do livro de Leonardo Mota, que tornou o “simples funcionário subalterno do Ministério da Agricultura”, em alguém que mereceu um encontro com o titular do ministério.
Com qual ministro se Uchôa encontrou, não importa. O que importa foi que neste encontro ele falou a autoridade o mesmo que havia dito a Leonardo Mota; “Naquele momento eu lavraria até a demissão do presidente da República.”
Não sei se esta verdadeira “epopeia burocrática” trouxe a Uchôa algo mais do que constar nos livros de história do cangaço.
O maior beneficiado com a visita a Juazeiro foi Lampião.
Sem dúvida alguma, apenas uma pessoa saiu ganhando deste episódio e ele foi Lampião. Além de receber novos fuzis e munições, vaidoso como era, deve ter adorado a sua “patente”. Pois assim passou a assinar seus bilhetes e seus cartões que continham sua fotografia. A partir do dia que Uchôa assinou aquele papel, todos os nordestinos que ficaram diante de Lampião, desde um rico coronel na sua casa-grande, ao simples lavrador na sua tapera, passaram a tratá-lo como capitão.
Uma situação chama atenção.
Lampião sabia que não lutaria mais com a Coluna Prestes?
A Coluna Prestes cruzou o Rio Grande do Norte em 4 de fevereiro de 1926, depois foi para a Paraíba e Pernambuco. Lampião só chegou a Juazeiro em 4 de março. É possível que ele soubesse por onde andava a Coluna? Certamente! Os jornais Pernambucanos da época, que estão no Arquivo Público de Pernambuco, dão notícia praticamente dia a dia dos Revoltosos. Se os jornais em Recife sabiam, imaginem Lampião.
Esperto e bem informado, certamente Lampião deveria saber de tudo isto. Mas como diz Lira Neto, foi a Juazeiro cobrar o que lhe foi prometido.
Lampião era tão sem vergonha, pilantra, que não ficou satisfeito só com as armas e munições (que já era um grande presente), quis a patente, quis sair de Juazeiro como “oficial” e “oficializado” e aí ocorre o caso do Uchôa.
Me chama a atenção que, com o poder que o Padre Cícero tinha em Juazeiro, ele poderia ter mobilizado até as “corujas da torre da igreja” para lutar contra Lampião e este jamais teria pisado em Juazeiro e sei lá o que teria acontecido. Mas ele não o fez. Por que?
Creio que o Padre tinha receio de um retorno dos Revoltosos a sua região. Pode ter pensado que podia precisar dos serviços do “capitão”. Não podemos esquecer que nesta época os membros da Coluna já tinham entrado em Piancó, na Paraíba, e degolado o líder político local, o Padre Aristides, depois de um forte combate pouco conhecido.
Defesas em Favor do Padre Cícero
Chama atenção neste episódio a forma como ao longo dos anos os defensores de Padre Cícero buscaram, de todas as maneiras, alterar as características deste encontro com Lampião. Dos cantadores de feira, passando pelo sanfoneiro Luís Gonzaga e até na internet dos nossos dias, muita gente buscou dar uma nova versão aos fatos.
Durante anos existiram folhetos de cordel, livros, revistas que defendiam a existência histórica do encontro e surgiam os defensores da tese que nada foi daquela forma.
Capa do disco com o show de 1972, com Luiz Gonzaga ao vivo.
Em 1972 o admirador inconteste de Padre Cícero e de Lampião, o sanfoneiro Luiz Gonzaga, de Exu, em Pernambuco, ao realizar um antológico show no Teatro Teresa Raquel, no Rio de Janeiro, defendeu abertamente o Padre Cícero em relação ao seu encontro com Lampião. Nesta época, devido a Bossa Nova, Jovem Guarda e outros movimentos musicais, Luiz Gonzaga andava meio esquecido do grande público. Este show foi seu grande retorno, sendo um dos poucos registros de como era Gonzagão no palco.
Quando cantou a música “Olha a Pisada”, de sua autoria em parceria com o médico Zé Dantas, fez um “break” e narrou uma história sobre o episódio. Começava com Lampião e a “cangaceirada” entrando de fuzil na igreja “com a boca do cano para baixo” em sinal de respeito. Gonzaga afirmou que o Padre Cícero não queria que Lampião chegasse muito perto dele e, quando este pediu uma benção, o padre de Juazeiro não lhe benzeu e ainda aplicou com seu cajado uma grande surra em Lampião.
Evidentemente que nada disto aconteceu. Era uma criação fantasiosa do insuperável sanfoneiro, na defesa do Padre Cícero.
Nesta grande enciclopédia da internet, no tópico destinado a narrar a vida do médico baiano Floro Bartolomeu da Costa, encontramos um texto repleto de meias verdades, que em nada ajuda a estudantes que por ventura utilizarem este serviço para uma pesquisa sobre este assunto.
O texto comenta que no ano de 1925, Floro havia recebido uma ordem do então presidente da República Artur Bernardes para defender o Ceará da Coluna Prestes. Foram então organizados os chamados Batalhões Patrióticos (verdade).
Consta que Floro, teria então usado o nome do Padre Cícero sem que o sacerdote soubesse dos fatos (situação essa muito difícil de ocorrer devido ao prestígio do Padre Cícero).
Este então convidou Lampião a fazer parte do Batalhão Patriótico. Lampião, grande devoto do padre, aceitou o convite e partiu para Juazeiro, mas não encontrou Floro, que havia viajado para o Rio de Janeiro por motivos de saúde (verdade).
Comenta-se que Padre Cícero ficou perplexo quando soube que Lampião estava em Juazeiro para servi-lo (O Padre Cícero sabia que eles vinham).
Ao encontrar Lampião e seu bando, Padre Cícero os aconselhou a abandonar o cangaço e lhes deu rosários de presente, com a condição de que só usassem depois de abandonar a vida bandida (o Padre Cícero pode até ter dado conselhos, rosários e escapulários, mas as armas e munições foram entregues).
Os cangaceiros deixaram então Juazeiro, mas antes Lampião recebeu a patente de capitão do Batalhão Patriótico das mãos de Pedro de Albuquerque Uchôa, funcionário público e integrante do batalhão (Uchôa não afirmou isso nem em Leonardo Mota e muito menos na reportagem de 1933).
O Padre Cícero Romão Batista era um homem do seu tempo, com virtudes e defeitos. Possui uma biografia feita de altos e baixos momentos, coisa normal que qualquer ser humano passa em sua vida. Para mim, o encontro com Lampião foi um momento de baixa na história do padre.
Mas em minha opinião, ele fez sim um grande milagre (e não tem nada ligado com a história da Beata Mocinha).
O maior milagre do padre Cícero, mesmo tendo sido realizado em meio a religiosidade popular e mística, lances de violência e muita politicagem, foi a transformação de um simples povoado em uma das mais pulsantes e progressistas cidades do interior do Nordeste.
Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte
Nos primeiros meses do ano de 1924, o chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o temido Lampião, mantinha junto com seu bando uma intensa atividade de pilhagens, assaltos e ataque aos seus inimigos na região fronteiriça entre os estados de Pernambuco e da Paraíba. Neste setor não eram incomuns as notícias dos cangaceiros nas cidades de Princesa (PB), Triunfo e São José de Belmonte (PE). São deste período dois grandes ataques do bando de Lampião contra o ex-companheiro de cangaço, Clementino Furtado, ou o famoso “Clementino Quelé”.
Lampião
Segundo o livro “Pernambuco no tempo do cangaço, Volume I”, de Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho (Recife,2002), em sua página 328, informa que segundo o Boletim Geral nº 05, da Polícia Militar de Pernambuco, as primeiras horas da manhã de seis de janeiro e 1924, dia dedicado aos Santos Reis, o chefe cangaceiro atacou um sítio próximo a vila de Santa Cruz, atual cidade de Santa Cruz da Baixa Verde, a apenas seis quilômetros de Triunfo, acompanhado de um grupo de cangaceiros calculado em sessenta homens.
Durante seis horas de nutrido tiroteio, Clementino Quelé suportou juntamente com outros membros de sua família, uma terrível provação. Mesmo tão próximo a cidade de Triunfo, somente as onze daquela manhã foi que o sargento Higino Belarmino, ordenou o deslocamento de sua tropa para salvar os sitiantes. Diante do fogo dos policiais, Lampião ordenou a retirada. Na casa ficaram três mortos, sendo um deles irmão de Quelé, e um ferido.
Não satisfeito pelo fato de ter conseguido matar o ex-companheiro de bando, o chefe Lampião retorna cinco dias depois a casa de Quelé, com igual número de cangaceiros, e reinicia o ataque. Aparentemente desta vez a tropa veio em socorro dos sitiantes mais rapidamente. Entretanto, como na ocorrência anterior novamente Quelé perdeu outros parentes e amigos.
Diante da situação, Clementino Quelé o homem que suportou is ataques de Lampião, cruzou a fronteira e seguiu para a cidade de Princesa, onde através da influência do “dono” do lugar, o coronel José Pereira, sentou praça na polícia paraibana. Ele recebeu a patente de sargento e tratou logo de montar uma força volante para caçar seu maior inimigo e o seu bando.
Diante da repercussão destes combates, as forças policiais dos dois estados aumentam a pressão contra os cangaceiros. Pelos próximos dois meses circulam notícias da presença do bando na proximidade da vila de Nazaré e informações de um assalto ao sítio São Domingos. (Ferraz, op. cit. Págs. 331 e 332).
Theophanes Ferraz Torres, o notório oficial da polícia pernambucana
Entre os oficiais da polícia pernambucana que desejavam capturar, ou abater, Lampião estava o major Theophanes Torres Ferraz. Aos 30 anos de idade, este militar era considerado uma verdadeira lenda no seio da corporação em que atuava. Ferraz havia se notabilizado pela prisão do famoso cangaceiro Antônio Silvino, em novembro de 1914, após o tiroteio ocorrido no sítio Lagoa da Laje, na zona rural do atual município pernambucano de Vertentes. Há algum tempo ele estava baseado na cidade de Vila Bela, atual Serra Talhada, atuando no desbaratamento de grupos cangaceiros.
Considerado atuante, enérgico e determinado, o nome do major Ferraz é visto costumeiramente nas páginas dos antigos jornais conservados na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. Estes periódicos estampavam principalmente seus telegramas destinados a Eurico Souza Leão, então Chefe de Polícia de Pernambuco, cargo atualmente equivalente ao de Secretário de Segurança. Nestes relatos o major Ferraz dava conta da atuação da força policial no interior.
Em março de 1924, a frente de uma tropa de vinte e cinco policiais, o major Ferraz seguiu de Vila Bela para várias localidades da região do Pajeú pernambucano. Consta que uma das missões do major Ferraz era arregimentar o maior número de homens para formar uma grande volante destinada a combater os cangaceiros que assolavam a região.
Um dos locais para onde a tropa seguiu foi a Serra do Catolé, distante cerca de 30 quilômetros de São José de Belmonte. Este elevado maciço granítico, que possui altitudes que ultrapassam os mil metros, está fincada na região onde as fronteiras dos estados de Pernambuco, Ceará e Paraíba se encontram, tendo seu nome originado a partir da existência de uma grande quantidade de pequenas palmeiras conhecidas como coqueiro catolé. A força policial chegou à região da serra no dia 23 de março.
Na capa do jornal recifense “A Notícia”, de 26 de março de 1924,com a narrativa do combate da Lagoa do Vieira feito pelo major Ferraz.
Segundo João Gomes de Lira, ex-oficial da Polícia Militar de Pernambuco, antigo perseguidor de Lampião na década de 1930 e autor do livro “Memórias de um soldado de Volante” (Recife,1990), informa na página 129 que ao passarem pela serra, os policiais souberam que três cangaceiros montados em alimárias haviam seguido em direção a região da fronteira da Paraíba. Provavelmente o major Ferraz recebeu a informação que entre os membros daquele pequeno grupo de bandidos estava Lampião e partiu para a perseguição.
Antônio Amaury Correa de Araújo e Vera Ferreira, autores do livro “De Virgulino a Lampião” (São Paulo,1999), na página 96, informam que o chefe cangaceiro seguia com os companheiros que tinham a alcunha de Moitinha e Juriti. Para estes autores os celerados seguiram para a região da Lagoa do Vieira, na intenção de receberem uma encomenda feita a um coiteiro da região.
Durante a nossa visita a região (dezembro de 2008) a área apontada como sendo a Lagoa Vieira estava praticamente seca-Foto Alex Gomes
Por volta das dez horas da manhã os policiais vinham cautelosos ante a aproximação dos cangaceiros. Segundo Lira (op. cit. Pág. 129), o major Ferraz determinou que habitantes da região que buscassem o rastro dos fora das lei. Nesta movimentação os policiais ouviram a aproximação de alimárias, viram os três homens montados e o tiroteio começou.
Logo o animal que transportava o chefe cangaceiro caiu varado de balas e um destes disparos igualmente atingiu o calcanhar direito de Virgulino. O cavaleiro caiu ao solo, onde na seqüência a sua montaria tombou sobre seu pé ferido e Lampião ficou momentaneamente preso. Se não fosse a ação destemida de Moitinha e Juriti, provavelmente aquele seria o dia derradeiro do “Rei do Cangaço”.
Próximo a Lagoa Vieira se encontra a famosa Pedra do Reino, palco de trágicos acontecimentos em 1838
Teria sido o próprio major Ferraz quem atingiu o chefe cangaceiro. De alguma forma Lampião se livra do peso do animal morto e mesmo ferido consegue reagir a altura da situação. Logo, segundo a nota publicada no jornal “A Noticia” ele e seus companheiros fogem em direção a uma serra, que o oficial pernambucano declara ser a “Serra da Catinga”, existente nas proximidades.
Foto-Alex Gomes
Segundo as pessoas que atualmente habitam a isolada região da Lagoa do Vieira, o local deste combate é demarcado pela existência de uma árvore do tipo “pau-ferro”, em uma parte mais baixa do terreno, próximo as margens desta lagoa. Em relação aos detalhes deste acontecimento, os atuais moradores não transmitiram muitas informações, mas foram categóricos em apontar o local do combate, através de relatos passados pelos mais velhos.
O abundante rastro de sangue mostra o caminho para onde a tropa deve seguir. Ainda segundo a nota publicada no jornal recifense, a cerca de uma légua de distância, ou seja, seis quilômetros, na altura de um lugar chamado “Barro”, outros cangaceiros vieram em socorro do chefe e montaram o ponto de disparos. Logo a tropa é violentamente atacada em uma emboscada.
Neste ponto a tropa do major Theophanes Ferraz se encontra em desvantagem, o tiroteio cresce e logo claros são abertos no lado dos militares. Em pouco tempo três policiais são feridos, sendo dois com gravidade.
As estradas da região próxima a Lagoa do Vieira são péssimas, mantendo a região ainda bastante isolada.
Em sua nota na imprensa pernambucana, o major Ferraz informa que diante da situação dos dois feridos, os praças Manoel Amaro de Souza, que havia sido atingido no olho direito e de Manoel Gomes de Sá, baleado no braço esquerdo e na coxa direita, ele decidiu se retirar do combate para buscar um local apropriado para aplicar os primeiros tratamentos, além de conseguir a remoção dos mesmos para Belmonte e Vila Bela. Ainda segundo o oficial, os homens atingidos gravemente foram transportados nas costas dos seus companheiros de farda até uma propriedade denominada Montevidéu. O soldado João Demetrio de Souza, o terceiro ferido, este sem gravidade, consegue seguir por seus próprios meios.
Nas imediações desta árvore, neste mesmo antigo caminho de barro, segundo os moradores da região, foi o local onde se deu este combate do dia 23 de março de 1924.
Da parte dos cangaceiros, o ferimento no pé de Lampião preocupa. O cangaceiro paraibano Cícero Costa de Lacerda propõem conduzir o chefe para o alto a Serra das Panelas, que ficava nas proximidades.
Vendo seu ferimento melhorar Lampião Imaginava que, juntamente com seus cangaceiros, todos estavam bem protegidos no alto da grande serra, mas logo ele teria um encontro com um dos seus mais terríveis inimigos, Clementino Quelé.
Na altitude de mil metros da Serra do Catolé, a esquerda o Ceará e a direita a Paraíba. A partir da esquerda para a direita a equipe participante, Alex Gomes, Solón Almeida Netto (Fotógrafos), os nossos guias na região Luiz Severino dos Santos (Morador do Sítio Catolé, no alto da serra e neto do cangaceiro Luís Padre, primo do mítico chefe cangaceiro Sinhô Pereira), Antônio Antas (Grande amigo e verdadeira biblioteca ambulante sobre o cangaço na região, de Manaíra-PB) e o autor deste artigo.