PEQUENA HISTÓRIA DOS BONDES DE NATAL

Bonde da linha do Alecrim, fotografado em fins de 1942, pelo oficial da USAAF Robert C. Henning. Fonte - Livro Eu não sou herói-A história de Emil Petr, de Rostand Medeiros, 2012, pág. 92
Bonde da linha do Alecrim, fotografado em fins de 1942, pelo oficial da USAAF Robert C. Henning. Fonte – Livro Eu não sou herói-A história de Emil Petr, de Rostand Medeiros, 2012, pág. 92

Este texto foi originalmente produzido por Augusto Severo Neto e publicado no Jornal Dois Pontos, edição semanal de 15 a 21 de junho de 1984, na sua coluna “Ontem vestido de menino – XXX”. Eu  li e guardei esta página ao longo destes quase 30 anos, com um desejo de não esquecer os registro de uma Natal que não existia mais, que não conheci, mas que achava importante conhecer através dos escritos de quem viveu naquela época. Infelizmente não consegui conservar perfeitamente este documento, as traças levaram um pedaço, mas o que trago dá uma ideia do meio de transporte mais marcante da antiga Natal  

Quando eu “cheguei”, os bondes puxados a burro já haviam dobrado a esquina do tempo. Também já haviam desaparecido as empresas que haviam explorado esse lírico meio de transporte. Primeiro foi a Ferro Carril de Natal, nos fins de março de 1908, no governo Alberto Maranhão, que, naturalmente, como magistrado supremo desta simpática sesmaria que é o Rio Grande do Norte, Capital Natal, presidiu a instalação solene deste meio de transporte.

E houve aquela pressa em assentar os trilhos, em comprar os bondes, que vem lá de longe, de Belém do Pará, e em adquirir os burros de tração, para tirar as viaturas. Eram burros de raça, fortes e custaram uma nota, 250$000 (Duzentos e cinquenta mil reis) cada.

O primeiro trecho da linha ia da rua Dr. Barata à Praça Padre João Maria. Na “viagem” inaugural, ocupavam os assentos do novo transporte, o Governador Alberto Maranhão, o Senador Ferreira Chaves, o Deputado Juvenal Lamartine, o Presidente da Intendência Joaquim Manoel Teixeira (cargo equivalente atualmente ao de prefeito), algumas pessoas gradas e, naturalmente, os dirigentes da empresa.

As linhas foram se estendendo e chegaram até o Esquadrão de Cavalaria (onde funciona hoje a Escola Doméstica). O preço da passagem era de $100 (cem réis, ou um tostão como chamavam). O primeiro acidente ocorreu em fevereiro de 1909, quando as rodas de ferro do veículo cortaram uma das pernas do garoto Antônio Pereira Dias.

Em 1911, o Governo tomou à França um empréstimo de R$ 4.214,274$830 (quatro mil e duzentos e quatorze mil contos, duzentos e setenta e quatro mil e oitocentos e trinta réis). Com esse dinheiro Natal teve luz e bondes elétricos, além de telefones. Crescia o conforto moderno da cidade. Isso tudo foi inaugurado em outubro daquele mesmo 1911. A Empresa de Melhoramentos de Natal, Vale de Miranda & Domingos Barros passou a gerir e explorar os novos melhoramentos da cidade. As linhas de bondes se estenderam ao Alecrim, até o Hospital dos Alienados. Em 1912 chegaram a Petrópolis. Em 1913 iam até o Tirol, onde se encontra a sede do Aero Clube. Em 1915 atingiam a praia de Areia Preta.

Foto da revista Life, realizada em fins de 1941, ou no início de 1942, mostrando um típico bonde de Natal, nos cruzamentos das Avenidas Duque de caxias e Tavares de Lyra, no bairro da Ribeira.
Foto da revista Life, realizada em fins de 1941, ou no início de 1942, mostrando um típico bonde de Natal noscruzamento das Avenidas Duque de caxias e Tavares de Lyra, no bairro da Ribeira.

Vale de Miranda e Barros se separaram e os serviços de bondes, luz e telefones estiveram a ponto de ir para o brejo, nas mãos da nova arrendatária, Cia. De Tração, Força e Luz. Aí o Governador deu uma de durão e acabou com a moleza. Mandou executar a Força e Luz. Em 1930, uma outra Cia. Força e Luz do Nordeste do Brasil assumiu a coisa, tendo a frente o inglês Mr. Brown, genro de Juvenal Lamartine. Foi aí que eu comecei a tomar conhecimento, de mesmo, com os bondes de Natal.

Com o passar dos anos, eu e os bondes, adquirimos uma grande intimidade. Chegava a sofrer com ele (se não participava do troço), quando, na subida da Avenida Junqueira Aires, defronte do velho Atheneu, os estudantes passavam sabão nos trilhos e o coitado ficava patinando no mesmo lugar, sem conseguir chegar ao fim da ladeira. Tinha aquelas vezes que, até a “viagem” até o Aero Clube do Tirol, a gente tomava o lugar do motorneiro e, a nove pontos e muitos gritos, víamos passar as mangabeiras da antiga Rua Jundiaí, ainda sem calçamento e as poucas construções da Avenida Hermes da Fonseca, entre as quais o Esquadrão de Cavalaria e a casa do Dr. Varela Santiago. O bonde corcoveava que só montanha russa e, aqui e ali, a lança saltava e a gente tinha de recolocar no lugar.

Já tatuado e metido a sebo, junto com alguns colegas, eu descia de bonde até à Ribeira , para ir a “zona”, pagar o meu tributo as mulheres-damas. Quando o bonde passava defronte de minha casa, na Junqueira Aires, eu baixava a sanefa e os outros passageiros punham a mao para fora, para ver se estava chovendo.

Um dia os bondes começaram a falecer, até que morreu o último, de abandono e ferrugem, em um galpão sem nenhum conforto. Ainda hoje sinto saudades daquela alegria amarela (a cor tradicional dos bondes), lírica e barulhenta que cortava as ruas de Natal.

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SOBRE O AUTOR – Augusto Severo Neto é oriundo de uma família de tradição que remonta ao século XVII e que deu ao Rio Grande do Norte nomes ilustres como os governadores Pedro Velho e Alberto Maranhão, o prefeito Djalma Maranhão, o revolucionário André de Albuquerque e o pioneiro da aviação, Augusto Severo, entre outros. Sua vida profissional teve origem no comércio.

O carisma do seu ilustre avô incentivou-o a tentar, por um certo período de tempo, o campo da aviação civil. Espírito inquieto, não tardou a largar as linhas aéreas para abraçar o jornalismo, atividade em que se revelou um cronista sensível às fraquezas e grandezas humanas, em que realizou um trabalho marcante, que tocou as fronteiras do jornalismo e da literatura.

Foi membro correspondente da Academia Paulista de Letras (na vaga de Cãmara Cascudo), professor universitário (cargo em que se aposentou na Universidade Federal do Rio GHrande do Norte) e viajante.

Esta última atividade, “por fome de vida”, segundo a sua mulher, Maria Lúcia Beltrão. Mas, na opinião dela, a principal atividade de Augusto Severo Neto foi “viver e ser feliz”. Formado em Jornalismo pela UFRN, colaborou em diversos periódicos do Rio Grande do Norte de outros estados desde 1942. Sua galeria Vila Flor, foi, nos anos 70, importante ponto de encontro de intelectuais e artistas natalenses.

Apaixonado pela cultura européia, sobretudo a de extração latina, empreendeu dezenas de viagens ao Velho Continente, o que lhe rendeu alguns livros de memória e uma impressão pessoal sobre Paris, cidade a que devotava uma admiração especial. A vida cultural natalense, com seus tipos boêmios e poéticos, também lhe chamou atenção. Em De Líricos e de Loucos, Augusto Severo Neto presta tributo a essas personagens, sob a forma de crônicas.

Ao morrer, seus amigos escolheram como epitáfio para o seu túmulo, os versos:

Há caminhos de luz escondidos nas trevas
Para achá-los, porém, é preciso ir sozinho.

Os versos são do próprio poeta. Seu corpo foi sepultado no cemitério da vila de Pirangi, litoral sul potiguar, que ele mesmo escolheu como sua última morada.

(texto de Nélson Patriota)

Fonte da biografia – http://www.enciclopedianordeste.com.br/088.php

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AVIAÇÃO FRANCESA NO RIO GRANDE DO NORTE

Mapa da empresa Compagnie Générale Aéropostale (CGA) mostrando sua rota aérea que passava por Natal
Mapa da empresa Compagnie Générale Aéropostale (CGA) mostrando sua rota aérea que passava por Natal

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

A importância da capital potiguar como ponto estratégico para a aviação mundial já foi apontada de diversas formas, principalmente no período da Segunda Guerra Mundial. Durante a segunda metade da década de vinte do século passado, se desenrolava uma forte disputa comercial entre estrangeiros pelo mundo afora. Natal acolheu muitos desses aviadores vindos da África, ou em voos percorrendo as Américas.

Competia-se por vantagens no novo e promissor negócio do transporte do correio aéreo e de passageiros. No Rio Grande do Norte, inicialmente os primeiros atores envolvidos foram franceses e alemães, sendo seguidos pelos norte-americanos e italianos.

Avião francês  Breguet XIV
Avião francês Breguet XIV

Durante a Primeira Guerra Mundial o visionário Pierre-Georges Latécoère (1883–1943), pioneiro da aeronáutica decide transformar sua fábrica de vagões num Centro de Produção Aeronáutica. Em 1918, com a paz restaurada, a fim de realocar os pilotos desempregados que queriam voltar a voar e percebendo a urgência de acelerar a comunicação entre os países, cria uma linha aérea regular para transportar o correio entre a França e o Marrocos a partir de 1919. Em 1925, a linha chegou a Dacar. Didier Daurat (1891-1969), diretor de exploração da companhia Latécoère recrutou pilotos como Jean Mermoz, Henri Guillomet, Antoine Saint-Exupéry.  Em 1923, Roit criou os envelopes com bordas vermelhas específicos para as linhas Latécoère. Entre 1919 e 1927 diversos aviões Breguet 14  (biplano francês, aeronave bombardeiro e de reconhecimento da Primeira Guerra Mundial) acidentaram-se nas linhas Latécoère, mas a linha continuou.

Carta transportada pela empresa Compagnie Générale Aéropostale (CGA) de Natal para a Holanda
Carta transportada pela empresa Compagnie Générale Aéropostale (CGA) de Natal para a Holanda

Pierre Georges Latécoère, cedeu a linha aérea em abril de 1927 à Marcel Boullioux-Lafont, investidor radicado na América do Sul. A razão social passou a ser Compagnie Générale Aéropostale (CGA). Lafont tinha planos ambiciosos, com a ideia de criar uma grande linha aérea postal de Toulouse, Casablanca, Dacar e daí para Natal, Rio de Janeiro, Buenos Aires e Santiago do Chile. Nesta ideia empreendedora, ainda em julho de 1927, chega a capital potiguar o piloto francês Paul Vachet, em um avião Breguet, para implantar o primeiro aeródromo do Rio Grande do Norte, em um descampado conhecido como Parnamirim.

Base dos franceses no Campo de Parnamirim
Base dos franceses no Campo de Parnamirim

Em 1 de março de 1928 foi inaugurado o primeiro serviço aeropostal entre a França e a América do Sul. Nesta operação os aviões partiam da França para Paris a Dacar, na costa africana. Os malotes com correspondências eram então embarcados em navios pequenos e bastante velozes, conhecidos como “Avisos Postais”, ou “Avisos Rápidos”, que atravessavam o oceano até Natal.

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Selos franceses mostrando as conquistas aérea dos aviadores daquela nação, onde Natal foi local de extrema importância para o desenvolvimento deste momento histórico da aviação

Da capital potiguar outros aviões transportavam o correio aéreo até Buenos Aires. Antes deste novo serviço, uma carta transportada em linhas de navegação normais, poderia demorar até 30 dias entre a França e a Argentina. Com a mala postal aérea francesa, no máximo 8 dias.

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Um dos pontos altos da empresa ocorreu em 12 e 13 de maio de 1930, com a viagem através do Atlântico Sul do hidroavião Latécoère 28, batizado como Comte. de La Vaulx que sem escalas e pilotado pelo francês Jean Mermoz.

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Este mítico aviador francês voou 3.160 quilômetros de St. Louis, no Senegal, a Natal, em 19 horas e 35 minutos, com seu avião trazendo mais de 100 quilos de malas postais e estabelecendo o recorde mundial de distância  para aquele avião.

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A linha Argentina-Chile foi aberta em 1929. Guillomet atravessou a Cordilheira dos Andes. A Compagnie Generale Aéropostale explorou a maior rede postal do mundo com mais de 17.000 km. Em 1931, a CGA foi à falência. As atividades foram reativadas pela Air France.

Carta de 1934, emitida em Natal, transportada pela Air France
Carta de 1934, emitida em Natal, transportada pela Air France

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CHURCHILL, O HUMORISTA

Winston Leonard Spencer Churchil, ou simplesmente, Sir. Winston Churchill, como ficou mundialmente conhecido este brilhante político britânico. Nasceu em 1874 e veio a falecer em 1965, ficando mundialmente conhecido pelo seu trabalho e liderança junto aos países aliados no combate aos nazistas e fascistas.
Winston Leonard Spencer Churchil, ou simplesmente, Sir Winston Churchill, como ficou mundialmente conhecido este brilhante político britânico. Nasceu em 1874 e veio a falecer em 1965, ficando mundialmente conhecido pelo seu trabalho e liderança junto aos países aliados no combate aos nazistas e fascistas.

Nem só de gente carrancuda se faz a História.

Winston Churchill foi, sem dúvida, uma das maiores figuras de todos os tempos.

Mas Churchill não era só um político genial e um orador incomparável. Era também um sujeito extremamente bem humorado.

Rápido no raciocínio, cáustico nas respostas, era um interlocutor temido.

Certa vez, no seu aniversário de 80 anos, um fotógrafo com menos de 30 aproximou-se e disse:

“Sir Churchill, espero estar aqui novamente para fotografá-lo nos seus 90 anos”.

Churchill respondeu:

“E por que não, meu jovem? Você me parece bastante saudável”.

O presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt e Winston Churchill na Conferencia de Casablanca, Marrocos, em janeiro de 1943. Em pé, da esquerda para direita, temos o general Henry H. Arnold, o almirante Ernest King, o general George Marshall,  o almirante Sir Dudley Pound, o general Sir Allen Brook e o marechal do ar Sir Charles Portal. Foi depois deste encontro na África que Roosevelt veio se encontrar com o presidente Getúlio Vargas em Natal.
O presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt e o primeiro ministro Winston Churchill na Conferência de Casablanca, Marrocos, em janeiro de 1943. Em pé, da esquerda para direita, temos o general Henry H. Arnold, o almirante Ernest J. King, o general George C. Marshall, o almirante Sir Dudley Pound, o general Sir Allen Brook e o marechal do ar Sir Charles Portal. Após este encontro na África Roosevelt veio a Natal e aqui se encontrou com o presidente Getúlio Vargas.

Em outra ocasião, George Bernard Shaw, um dos maiores dramaturgos e escritores ingleses de todos os tempos,   resolveu convidá-lo para a estreia de uma peça sua. Como era daqueles que perdia o amigo, mas não perdia a piada, Shaw mandou-lhe um bilhete com os dizeres:

“Tenho o prazer e a honra de convidar Sua Excelência, o Primeiro-ministro, para a primeira apresentação da minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver”.

Churchill enviou-lhe um telegrama em seguida:

“Agradeço ao ilustre escritor o honroso convite. Infelizmente, não poderei comparecer à primeira apresentação de sua peça. Mas prometo que irei à segunda, se houver”.

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Em 1940, entre o dramático episódio da Retirada de Dunquerque e a épica a Batalha da Inglaterra, Churchill realizou um memorável discurso no Parlamento Britânico. Andrew Roberts comenta no seu livro Tempestade da guerra – Uma nova história da Segunda Guerra Mundial, que após Churchill proferir este discurso, enquanto ainda era intensamente ovacionado, sentou ao lado do ministro conservador Walter Elliot e lhe cochichou preocupado no caso dos alemães atravessarem o Canal da Mancha:

“Não sei como vamos combatê-los – creio que teremos de quebrar suas cabeças com garrafas – as vazias, é claro”.

Em outra oportunidade, durante uma sessão do parlamento, a primeira mulher eleita para a Câmara dos Comuns, Nancy Astor. Apesar de amigos, Nancy Astor alterou-se durante uma discussão. Aos berros, afirmou:

“Se Sua Excelência fosse meu marido, eu colocaria veneno no seu café”.

Ao que Churchill respondeu:

“Pois se eu fosse marido de Vossa Excelência, eu tomaria o café”.

Agora, a melhor de todas.

Ao lado de Winston Churchill vemos o Marechal Bernard Law Montgomery, 1º visconde Montgomery de Alamein
Ao lado de Winston Churchill vemos o Marechal Bernard Law Montgomery, 1º visconde Montgomery de Alamein

Bernard Montgomery foi um dos comandantes das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial. Fez fama por bater o general alemão Erwin Rommel, a Raposa do Deserto, nas batalhas pelo Norte da África. Mas – dizem as más línguas – não era assim tão bom quanto diziam. Além disso, era um certinho a toda prova, caxias mesmo. Ainda assim, Monty, como era chamado pela imprensa, ficou se achando o máximo após o fim da guerra.

Certo dia, durante uma celebração qualquer, Monty foi discursar sobre sua experiência na guerra. Disse ele:

“Eu não fumo, não bebo e não prevarico. Por isso, sou herói de guerra”.

Na plateia, Churchill emendou para um colega que estava ao seu lado:

“Já eu fumo, bebo e prevarico. Por isso, sou chefe dele”.

1943 – QUEM FOI O MOTORISTA DO JIPE DE ROOSEVELT E VARGAS EM NATAL

Roosevelt e Vargas em Natal. Na direção do jipe o capitão David Channing Moore
Roosevelt e Vargas em Natal. Na direção do jipe o capitão David Channing Moore

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Hoje, através do amigo Petit das Virgens, soube que outro dileto amigo, a quem muito admiro, desejava saber a identidade do militar americano que dirigia o jipe que transportou os presidentes Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Dorneles Vargas, quando os dois estiveram em Natal em 1943. Quem desejava saber a informação é o meu amigo Luiz Gonzaga Cortez. Jornalista dos bons, a quem tenho enorme admiração. Seus livros e seu trabalho no Diário de Natal são referências para mim. Principalmente sobre 23 de novembro de 1935, dia da deflagração da Intentona Comunista em Natal. A importância está no sentido de descobrir mais sobre a participação do meu avô, Joaquim Paulino de Medeiros Filho, neste malogrado movimento.

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Já sobre a pergunta do amigo, o nome do motorista era David Channing Moore, era um capitão e creio não era um piloto. Ele havia trabalhado na empresa IBM, era formado na Brown University (mas não sei em que), entrou na USAAF (United States Army Air Force) no ano 1942. Serviu em Washington, América do Sul, Norte da África e continuou sua trajetória militar em um grupo de caça junto à 14th Air Force, no teatro de guerra CBI – China, Burma e Índia.

Material jornalistico de um jornal americano, de 1943, apontando o capitão Moore como motorista do famoso jipe
Material jornalistico de um jornal americano, de 1943, apontando o capitão Moore como motorista do famoso jipe

Passou 31 meses servindo fora dos Estados Unidos. Deixou a USAAF no posto de coronel. Foi policial e morava em um subúrbio de Nova York chamado Bronxville. Casado, tinha três filhos e morava na Elm Rock Road, número 12, no Condado de Westchester, a cerca de 25 km ao norte de Manhattan.. Já o que ele especificamente fazia em Natal eu não sei…

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A MAIOR MATADORA DE HOMENS – E AÍ, ENCARAVA?

Lyudmila Mykhailvna Pavlichenko
Lyudmila Mykhailvna Pavlichenko

Conheça a história da atiradora de elite Lyudmila Pavlichenko. Até o final da Segunda Guerra Mundial esta ucraniana tornou-se a atiradora mais bem sucedida da história, com 309 soldados inimigos mortos

Autor – Rostand Medeiros

É interessante como a extinta União Soviética, um país comunista, não pareceu ter muitos problemas em matéria de igualdade de gênero durante a sua história, em comparação com os países europeus e os Estados Unidos, que promoviam a liberdade e igualdade para todos. Não podemos esquecer que foram os soviéticos que enviaram a primeira astronauta ao espaço exterior no início da década de 1960 (Valentina Tereshkova) e um par de décadas antes, promoveu as suas mulheres para combaterem os invasores nazistas. Aqui temos a história da maior matadora destes inimigos de seu país e, talvez, a mulher que comprovadamente matou mais homens em toda história.

No seu trabalho
No seu trabalho

Pelas fotos que aqui trago eu não posso dizer que a mulher da foto acima, com belos olhos castanhos, um uniforme de corte extremamente masculino e muito condecorada, é alguma grande referência em termos de beleza feminina. Inclusive nas fotos que temos neste artigo podemos ver que esta militar parecia estar até acima do peso. Ou seria o corte do seu uniforme que a deixava cheinha?

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Mas esta mulher de olhos extremamente luminosos, aparência simples, tranquila e serena, matou mais de três centenas de homens dos exércitos que um dia vieram do oeste e ousaram invadir a sua terra.

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Seu nome era Lyudmila Mykhailvna Pavlichenko, nasceu na cidade ucraniana de Balaya Tserkov, em 1916, filha de um operário e de uma professora. Na adolescência se mudou para a cidade de Kiev, a capital ucraniana, na época um estado satélite da União das Republicas Socialistas Soviéticas, a URSS. Desta época ela descreveu-se como uma menina “indisciplinada na sala de aula”, mas atleticamente competitiva, e que não se permitiria ser superada por meninos “em nada”.

Neste período a garota participava de um clube de tiro e se deu bem nesta atividade. Mesmo depois de aceitar um emprego em uma fábrica de armas, ela continuou a praticar a sua pontaria. Em 1937 a jovem Lyudmila se matriculou na Universidade de Kiev, onde estudava história com a intenção de tornar-se uma professora.

Os exércitos de Hitler, a Wehrmacht, arrasando a Europa
Os exércitos de Hitler, a Wehrmacht, arrasando a Europa

Mas em junho de 1941, os alemães lançaram  contra a União Soviética a Operação Barbarossa e a garota imediatamente alistou-se na 25ª Divisão de Rifles, começando sua carreira militar como uma simples recruta. No alistamento ela teve que forçar a barra para ser designada como uma franco atiradora, ou “sniper”, pois o pessoal do alistamento, provavelmente levado pela sua aparência, queria que ela fosse enfermeira.

Lyudmila em ação.
Lyudmila em ação.

No seu primeiro dia no campo de batalha ela estava em uma posição próxima ao inimigo e ficou paralisada de medo. Incapaz de levantar a sua arma, um rifle M1891/30 Mosin Nagant, de 7,62 mm. Um jovem soldado russo ficou ao seu lado na sua posição de tiro. Mas antes que eles tivessem a chance de estabelecer seus alvos, um tiro ecoou e uma bala alemã tirou a vida de seu camarada. Lyudmila ficou chocada. “Ele era um bom menino e tão feliz”, ela lembrou. “Ele foi morto repentinamente ao meu lado. Depois disso, nada poderia me impedir”. Em pouco tempo ela registrou suas primeiras vitórias; com precisão matou dois batedores alemães que tentavam reconhecer uma área perto da localidade rural de Belyayevka.

Rifle M1891/30 Mosin Nagant, de 7,62 mm, similar ao utilizado pela atiradora de elite
Rifle M1891/30 Mosin Nagant, de 7,62 mm, similar ao utilizado pela atiradora de elite

A jovem soldado lutou tanto na região de Odessa e na Moldávia, onde acumulou a maioria de suas mortes. Extremamente seletiva, como toda mulher deve ser, Lyudmila tinha uma enorme preferência por homens que utilizavam no peito e nos ombros muitas fitas, condecorações e outros penduricalhos que os oficiais militares se ornamentam para mostrar a sua bravura em combate. Consta que mais de 100 oficiais nazistas pagaram com a vida por andar com estes prêmios diante da mira telescópica do rifle de Lyudmila.

Ela se tornou um dos mais de 2.000 atiradores de elite do sexo feminino no Exército Vermelho, dos quais apenas cerca de 500 sobreviveram à guerra. Creio que não vale nem a pena descrever o que os nazistas faziam com as atiradoras que eles capturavam vivas!

Um atirador de elite alemão. Igal a este Lyudmila matou 36.
Um atirador de elite alemão. Igual a este Lyudmila matou 36.

Como a contagem de homens mortos pela ucraniana só crescia, ela recebeu mais e mais missões perigosas, incluindo a mais arriscada de todas – o duelo à distância com franco-atiradores inimigos. Lyudmila Pavlichenko nunca perdeu um único embate contra seus opositores, matando 36 atiradores em caçadas que poderia durar todo um dia e uma noite. Em um caso o duelo durou três dias.

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Sobre este caso em particular ela comentou que “Essa foi uma das experiências mais tensas da minha vida”. É  interessante ver como esta jovem teve resistência e força de vontade que a levou a ficar 15 ou 20 horas deitada, mantendo a calma, silêncio e o sangue frio necessário para apertar o gatilho no momento certo. “Finalmente”, disse ela sobre seu perseguidor nazista, “ele fez um movimento e atirei”. Um a menos!

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Quando os alemães ganharam o controle de Odessa, sua unidade foi enviada para a região da cidade de Sevastopol, ou Sebastopol, ao sul da península da Criméia, onde Lyudmila passou oito meses de intensos combates.

Em maio de 1942 ela já tinha alcançado o posto de tenente, quando foi citada pelo Conselho do Exército do Sul por ter matado 257 soldados alemães, incluindo 187 em seus primeiros 75 dias neste estranho trabalho para uma mulher.

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Seu total de mortes confirmadas durante a Segunda Guerra Mundial foi de 309. Também deve ser notado que o número real de inimigos abatidos por Lyudmila foi, provavelmente, muito mais do que os 309 confirmados por testemunhas. Historiadores acreditam que esta mulher pode ter matado mais de 500 inimigos.

Lyudmila foi ferida em quatro ocasiões distintas. A mais grave ocorreu em junho de 1942, quando sua posição de tiro foi bombardeada por fogo de morteiros e ela recebeu estilhaços no rosto.

Lyudmila com a Primeira Dama dos Estados Unidos, a Sra. Eleanor Roosevelt
Lyudmila com a Primeira Dama dos Estados Unidos, a Sra. Eleanor Roosevelt

Apenas dois meses depois de deixar Sevastopol, a jovem oficial estava nos Estados Unidos, em um trabalho puramente propagandístico. Ela se tornou o primeiro cidadão soviético a ser recebido pelo Presidente Roosevelt na Casa Branca e manteve uma ótima relação com Eleanor Roosevelt, a Primeira Dama.

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Para a imprensa americana Lyudmila relatou que suas botas negras tinham “Conhecido a sujeira e o sangue de batalha”. Ela deu entrevistas com descrições contundentes de seu dia como uma franco atiradora. A ucraniana relatava sua odisseia com extrema sinceridade, olhando os repórteres nos olhos, falando com delicadeza, mas de maneira firme e muito orgulhosa em relação aos seus feitos. Matar nazistas, disse ela, não lhe despertou emoções complicadas. Na época afirmou “A única sensação que tenho é a grande satisfação que um caçador sente ao matar um animal de rapina”.

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A atiradora fez tanto sucesso na terra de Tio Sam que até mesmo virou “hit” de canção popular. Isso ocorreu quando o músico americano Woody Guthrie gravou uma canção Intitulada “Senhorita Pavlichenko”, em homenagem a durona atiradora de olhos suaves. Neste país Lyudmila ainda foi agraciada com uma pistola Colt calibre 45, com gravações exclusivas de sua visita, e um rifle Winchester 70. O último dos quais pode ser visto em Moscou, no Museu Central das Forças Armadas.

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Tendo alcançado o posto de major, Lyudmila nunca mais voltou a combater, mas tornou-se instrutora de franco atiradores soviéticos até o fim da guerra. Em 1943, ela foi premiada com a Estrela de Ouro de Herói da União Soviética.

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Lyudmila Mykhailvna Pavlichenko foi destaque em dois selos postais comemorativos na União Soviética depois da guerra (um deles trago ao lado). Ela terminou um mestrado em história na Universidade de Kiev, foi ativa no comitê soviético de veteranos de guerra e, entre outras coisas, trabalhou como assistente de pesquisa na sede da marinha soviética.

Morreu em 10 de outubro de 1974, aos 58 anos de idade.

Apesar do número elevado de mortos, não podemos esquecer que esta mulher era apenas uma militar em combate, nunca foi uma “serial killer”. Ela cumpria seu dever de defender seu país, que havia sido invadido e, como em todas as guerras, se espera que os militares matem o maior número de invasores inimigos.

Ou alguém acha que por ser mulher ela não poderia cumprir a sua missão?

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PEDRA DO INGÁ – INTRIGANTE E MARAVILHOSA

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Há aproximadamente 5000 mil anos, os antigos habitantes do Ingá registravam a sua história. Registros que atravessou séculos de história e encantam quem os conhece, enchendo de orgulho os seus herdeiros, os cidadãos paraibanos e, porque não, todos os nordestinos.

Pedra de Ingá-PB (5)

O estranho monólito que compõe a Pedra do Ingá é conhecido praticamente desde a descoberta do Brasil, pois se sabe que o mesmo foi citado pela primeira vez em 1618, no livro Diálogos da Grandeza do Brasil, atribuído ao português Ambrósio Fernandes Brandão.  É provável que este monumento tenha seu lugar reservado entre os mais intrigantes enigmas arqueológicos já descobertos em nosso planeta.

Pedra de Ingá-PB (3)

É sabido que se trata do maior, mais complexo e mais misterioso conjunto rupestre que reporta a um passado desconhecido e carrega consigo uma grande quantidade de caracteres e signos ainda por serem decifrados. Esta colossal pedra cifrada está localizada no Estado da Paraíba, na Serra da Borborema, município de Ingá, às margens do rio de mesmo nome, antigo Bacamarte, a 85 km de João Pessoa e a 35 km de Campina Grande. Estes registros tornaram esta pequena cidade grandiosa no debate sobre Patrimônio Histórico.

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Na época das chuvas este grande monólito fica parcialmente encoberto pela água e no tempo seco pode ser visto em sua totalidade, além de que o leito do rio fica completamente seco, com apenas algumas poças d’água espalhadas em quase toda a sua extensão.

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Que registros são esses? Sobre o que eles falam? As Itacoatiaras do Ingá formam um paredão de 15 metros de extensão por 2,30. São inúmeras inscrições na pedra, compondo um sistema de signos/símbolos com inúmeras probabilidades de entendimento. Por isso, podemos afirmar que a arte rupestre das Itacoatiaras do Ingá representam um dos vestígios mais importantes dos primeiros habitantes da Paraíba.

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Este conjunto de inscrições rupestres possui uma excepcionalidade, tanto em relação à sua forma e métodos utilizados, quanto à sua complexidade e execução de sua vasta petrografia. Além disto, suas insculturas parecem ter sido rigorosamente planejadas, traçadas e executadas, criando assim certa dificuldade junto aos estudiosos.

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Recentemente dois pesquisadores voltaram-se para estudar a chamada “Pedra do Ingá”, o arqueólogo Juvandi Santos (2007) cuja preocupação maior está voltada para a comprovação da existência de sítios arqueológicos em cada mesorregião da Paraíba, como também para a sistematização das gravuras ou produção cultural encontrada em cada um.

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Já o historiador Vanderley Brito (2008) teve por motivação maior conseguir desfazer as “impressões fantasiosas”, de que seres extraterrestres teriam feito as marcações na Pedra do Ingá, e provar que as inscrições são obras de paleoíndios (os primeiros nativos que ocuparam o Brasil). Em sua pesquisa Brito desenvolveu uma metodologia de estudos sobre gravuras que vem se destacando quando o assunto é arte rupestre.

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Estes dois trabalhos são importantíssimos na redescoberta da pré-história da Paraíba, uma linha de pesquisa pouco desenvolvida e, portanto, pouco valorizada. Talvez resulte dessa ausência de valorização com Patrimônio histórico o esquecimento e o abandono por parte não só das autoridades, como da própria sociedade.

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Assim, ao conhecer as riquezas arqueológicas da fabulosa “Pedra do Ingá” aprendemos a valorizar, a cuidar e preservar este nosso tesouro. A Paraíba e o Nordeste agradecem!

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Fotos – Professor e fotógrafo Arnaldo Vitorino da Silva, de Santa Cruz do Capibaribe, Pernambuco

Fontes – Texto produzido através dos escritos de Érica Fabrícia C. da Silva – http://humanaspanorama.wordpress.com/2012/03/21/110/ e J.A. Fonseca – http://www.aforteanosla.com.ar/Colaboraciones/brasil/articulos/fonseca%20pedra%20inga.htm

AUTÓPSIA DE D. PEDRO I

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Revelação inédita da autópsia de D. Pedro I aponta para a sua saúde frágil e livra seu médico particular da acusação de envenenamento

O médico e o doente. Mas não era um médico qualquer, era daqueles que acompanham o paciente por anos, conhecendo seus hábitos, suas aflições, suas fraquezas. O doente também não era comum: um jovem que se tornou imperador aos 26 anos, boêmio, um tanto fogoso, e que enfrentou guerras, acidentes e uma série de percalços de saúde. Dr. João Fernandes Tavares e D. Pedro I se encontravam nos momentos mais vulneráveis do monarca. Dos sintomas aos diagnósticos, a relação de confiança se fortalecia e fazia o médico conhecer ainda mais o paciente. A prova está no registro de autópsia feita pelo Dr. Tavares. O médico expõe os diversos problemas de saúde que debilitaram a vida de D. Pedro.

Mas a forma como o documento é escrito extrapola as notações técnicas da função. Linha por linha, o médico narra a história de cada órgão, como personagens de um grande drama. E sofre. Quando descreve o estado dos rins, por exemplo, põe-se no lugar do enfermo: “E que transtorno e perturbação não devia causar na regularidade das funções dos demais órgãos tão aturado, e tão intenso padecimento!”.

Tanto sofrimento e intimidade também tinham um quê de defesa, já que as más línguas suspeitavam de que o médico havia envenenado D. Pedro, como conta Claudia Thomé Witte. Seu artigo nos brinda com este documento exclusivo e apresenta o complexo contexto da morte de D. Pedro, mergulhado na disputa familiar pelo trono português.

Em 2012, o corpo de D. Pedro I começou a ser estudado pela primeira vez com todos os recursos da atual medicina. Esse trabalho, conduzidopela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel para o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP com o fim de preservar os corpos, confirmou que nosso primeiro imperador fraturou quatro costelas ainda em vida e que seu coração foi retirado do corpo logo após falecer.Um documento histórico inédito, publicado nas próximas páginas, traz a versão da morte de D. Pedro I por meio do relato de seu médico particular, Dr. João Fernandes Tavares (1795-1874), que assinou o atestado de óbito e realizou a autópsia do ex-imperador do Brasil.

Até agora se conheciam apenas as informações que D. Amélia de Leuchtenberg, viúva de D. Pedro, relatara em uma carta para sua enteada Januária. O resultado da autópsia, impresso avulso em 1834, foi localizado em uma coleção particular no Brasil e seu proprietário gentilmente concordou em divulgá-lo. Com isso, temos finalmente acesso ao relato completo da morte de D. Pedro e das semanas que a antecederam, além de um histórico de sua saúde. Nas entrelinhas, percebe-se que o médico João Fernandes Tavares foi bastante explícito e detalhista ao narrar as causas da morte. Procurava, com isso, justificar sua conduta e afastar as suspeitas que recaíam sobre ele.

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Quando D. Pedro I faleceu em Portugal, em 1834, o Dr. Tavares foi acusado de tê-lo envenenado. Era natural que se buscasse um bode expiatório, afinal, a morte ocorria pouco após D. Pedro vencer uma guerra civil contra seu irmão, o absolutista D. Miguel. Todas as esperanças de reconstrução de Portugal repousavam sobre D. Pedro. Havia dúvidas de que a nova rainha, D. Maria II, com seus 15 anos, fosse capaz de assumir as grandes responsabilidades que exigia um país recém-saído de uma guerra. A morte de D. Pedro podia significar uma nova oportunidade para os miguelistas.

São artigos que provam que história se faz também – e principalmente – com sentimento.

40 ANOS DO TRÁGICO INCÊNDIO DO EDIFÍCIO JOELMA

Edifício Joelma após a tragédia - Fonte - http://www.saopauloantiga.com.br/
Edifício Joelma após a tragédia – Fonte – http://www.saopauloantiga.com.br/

Era uma manhã sexta-feira, 1 de fevereiro de 1974, com chuva fina, que aconteceu a tragédia do Edifício Joelma. Este ficava localizado no nº 225 da Avenida Nove de Julho, Praça da Bandeira, região Central da cidade de São Paulo, cuja população assistiu, horrorizada, seu pior incêndio.

Tudo ficou impresso de maneira intensa, em um momento da história que marcou a capital paulista. O alastramento do fogo, o pânico dos que não conseguiam sair, os atos de heroísmo, a calma que salvou vidas, o intenso trabalho dos bombeiros que combateram as chamas e realizaram salvamentos por mais de dez horas. Entre os milhares de curiosos que lotavam as ruas do centro, muitos solidários, paravam para rezar pelos que estavam no Joelma, alguns traziam cartazes pedindo calma aos que estavam no prédio e pedindo para não saltarem. 

Fonte - http://www.saopauloantiga.com.br/
Fonte – http://www.saopauloantiga.com.br/

Ficaram marcantes as cenas de pessoas que se atiravam ao solo para fugir do fogo. Em uma época onde na cidade de Natal não havia shopping centers, os cinemas Nordeste e Rio Grande, com seus filmes infantis, era uma grande pedida para um final de período de férias. Pessoalmente ainda me recordo, mesmo sendo na época um garoto de sete anos, destas cenas sendo erradamente passadas no extinto “Canal 100”, antes dos filmes que assistia na companhia da minha mãe e a minha irmã.  

O edifício Joelma era um empreendimento novo, inaugurado em 1971, tinha vinte e cinco andares. O subsolo e o térreo eram destinados à guarda de registros e documentos; entre o 1° e o 10° andares, ficavam os estacionamentos e, do 11° ao 25°, as salas de escritórios. O expediente já havia começado para os funcionários do Banco Crefisul de Investimentos, que ocupava os 25 andares do prédio.

Fonte - http://www.saopauloantiga.com.br/
Fonte – http://www.saopauloantiga.com.br/

Consta que algumas pessoas testemunharam que por volta das 8h30min, ao passarem pelas calçadas da Avenida Nove de Julho e da Praça da Bandeira, notaram sinais de fumaça que saia das janelas do edifício Joelma. A perícia apontou que por volta das 08h50min um funcionário ouviu um ruído de vidros sendo quebrados, proveniente de um dos escritórios do 12º andar. Foi até lá para verificar e constatou que um aparelho de ar condicionado estava queimando. Em seguida foi correndo até o quadro de luz daquele piso para desligar a energia, mas ao voltar encontrou fogo seguindo pela fiação exposta ao longo da parede. O funcionário correu para apanhar o extintor portátil, mas ao chegar não conseguiu mais adentrar a sala, devido à intensa fumaça. As cortinas se incendiaram rapidamente e o incêndio começou a se propagar pelas placas inflamáveis do forro. Então ele subiu as escadas até o 13º andar, alertou os ocupantes e ao tentar voltar ao 12º pavimento, encontrou densa fumaça e muito calor. A partir daí o incêndio, sem controle algum, tomou todo o prédio. As salas e escritórios no Joelma eram divididos por paredes divisórias de compensado, muitos móveis de madeira, pisos de carpete, cortinas de tecidos e forros internos de fibra sintética, condição que muito contribuiu para o alastramento incontrolável das chamas.

Em meia hora, as chamas tomaram conta de quatro andares. A alta temperatura e a fumaça tornaram impossível a circulação pelas escadas do edifício. Logo, o pânico e a histeria tomou conta das pessoas. Contrariando as recomendações, alguns se arriscaram e se salvaram usando os elevadores, já que o prédio não possuía escadas de incêndio. Foram feitas várias viagens com os elevadores enquanto o oxigênio permitiu, salvando dessa forma muitas pessoas. Uma ascensorista, na tentativa de salvar mais vidas, prosseguiu, mas como a fumaça havia piorado, ficou sem oxigênio e acabou falecendo no 20º andar. Os elevadores foram utilizados até a parada completa do sistema elétrico.

Helicóptero UH-1H da FAB na cena da tragédia do Joelma - Fonte - www.saopauloantiga.com.br
Helicóptero UH-1H da FAB na cena da tragédia do Joelma – Fonte – http://www.saopauloantiga.com.br

Com a lembrança ainda viva do incêndio do Edifício Andraus, ocorrido em 24 de fevereiro de 1972 na cidade de São Paulo, quando muitos foram salvos pela ação de helicópteros, algumas pessoas no Edifício Joelma tentaram subir até o topo do prédio. Helicópteros foram acionados para auxiliar no salvamento, mas não conseguiram pousar no teto do edifício, pois este não era provido de heliporto.

Os bombeiros, muitos deles sem equipamentos básicos de segurança, como máscaras de oxigênio, decidiram entrar no prédio para o resgate, tentando alcançar aqueles que haviam conseguido chegar ao topo do edifício. Foram apenas parcialmente bem sucedidos; a fumaça e as chamas já haviam vitimado dezenas de pessoas. Alguns sobreviventes, movidos pelo desespero, começaram a se atirar do edifício, gerando imagens terríveis e impressionantes. Nenhum sobreviveu. 

Salto para a morte no Joelma - Fonte - terror-sobrenatural.blogspot.com
Salto para a morte no Joelma – Fonte – terror-sobrenatural.blogspot.com

No caso do Joelma um conjunto de fatores tornou as condições ainda mais desesperadoras, os hidrantes do prédio não funcionavam, as mangueiras dos carros dos bombeiros não tinham pressão suficiente para alcançar todos os andares. 

Por volta de 10h30min da manhã o fogo já havia consumido praticamente todo o material inflamável no prédio. O incêndio foi finalmente debelado com a ajuda de 12 auto bombas, 3 auto escadas, 2 plataformas elevatórias e o apoio de dezenas de veículos de resgate. Às 13h30min, todos os sobreviventes haviam sido resgatados. Dos aproximadamente 756 ocupantes do edifício, 191 morreram e mais de 300 ficaram feridos. A grande maioria das vítimas era formada por funcionários do Banco Crefisul de Investimentos.

O laudo pericial do Instituto de Polícia Técnica sobre o incêndio foi concluído em março de 1974,  reabrindo o debate sobre a revisão do Código de Obras de São Paulo. Em vigor desde 1934, um tempo em que a cidade tinha 700.000 habitantes, prédios de poucos andares e não havia a quantidade de aparelhos elétricos da década de 1970. Este código nunca havia passado por um exame que o adequasse às novas condições da cidade e melhorasse seu sistema de prevenção e combate a incêndios.

Fonte - www.estadao.com.br
Fonte – http://www.estadao.com.br

A investigação sobre as causas da tragédia, concluída e encaminhada à justiça em julho de 1974, apontava a Crefisul e a Termoclima, empresa responsável pela manutenção elétrica, como principais responsáveis pelo incêndio. Afirmava que o sistema elétrico do Joelma era precário e estava sobrecarregado. O resultado do julgamento foi divulgado em 30 de abril de 1975: Kiril Petrov, gerente-administrativo da Crefisul, foi condenado a três anos de prisão. Walfrid Georg, proprietário da Termoclima, seu funcionário, o eletricista Gilberto Araújo Nepomuceno e os eletricistas da Crefisul, Sebastião da Silva Filho e Alvino Fernandes Martins, receberam condenações de dois anos. Não sei se estas pessoas cumpriram suas penas.

Ocorreram muitas tragédias entre no meio da grande tragédia. Uma das que mais impressionou foi a morte de treze pessoas que tentaram escapar por um elevador, não conseguindo, e morrendo carbonizadas em seu interior. Devido ao estado dos cadáveres ninguém foi identificado, pois naquela época ainda não existia a análise de DNA, sendo então enterrados lado a lado no Cemitério São Pedro, localizado na Av. Francisco Falconi, 837, Vila Alpina e deram origem ao mistério das Treze Almas.

Placas e Cartazes com Agradecimentos pelas Graças Alcançadas junto aos Túmulos das "Treze Almas" no Cemitério São Pedro - Fonte - http://www.alemdaimaginacao.com/
Placas e Cartazes com Agradecimentos pelas Graças Alcançadas junto aos Túmulos das “Treze Almas” no Cemitério São Pedro – Fonte – http://www.alemdaimaginacao.com/

Esta situação gerou um caso de religiosidade popular, muito conhecido em São Paulo, pois a estes treze corpos são atribuídos milagres, ficando conhecidas como as treze almas não identificadas. Ao longo dos anos as sepulturas sem nomes atraem centenas de curiosos. Ao lado das sepulturas, foi construída a “Capela das Treze Almas”, onde diariamente muitos visitantes fazem suas preces agradecendo à Deus pelas graças alcançadas e também fazendo seus pedidos.

Após o incêndio, o prédio ficou interditado para obras por quatro anos. Com o fim das reformas, em outubro de 1978, foi rebatizado de Edifício Praça da Bandeira.

O antigo Joelma nos dias atuais - Fonte - Wikipedia
O antigo Joelma nos dias atuais – Fonte – Wikipedia

Com o tempo surgiram rumores estranhos envolvendo o Edifício Joelma e uma estranhíssima coincidência.

Funcionários revelam já terem presenciado aparições de espíritos, ouvido gritos e vozes, além de terem visto fenômenos estranhos como faróis de carros vazios acenderem e apagarem. A fama de que o local seria mal-assombrado aumentou ainda mais após a divulgação de que o terreno teria sido palco de assassinatos, no acontecimento trágico o qual ficou conhecido como “Crime do Poço”.

Casa original onde ocorreu o terrível "Crime do Poço" - Fonte - http://www.alemdaimaginacao.com/
Casa original onde ocorreu o terrível “Crime do Poço” – Fonte – http://www.alemdaimaginacao.com/

Consta que no ano de 1948, o professor de química orgânica da USP – Universidade de São Paulo, Paulo Ferreira de Camargo, de 26 anos, morava junto com a mãe Benedita e as irmãs Cordélia e Maria Antonieta em uma casa no centro da cidade de São Paulo. No dia 4 de novembro Camargo assassinou a tiros a sua mãe e as duas irmãs e enterrou os corpos em um poço que mandara construir dias antes no quintal da casa em que moravam. O estranho desaparecimento das três mulheres o levou a ser o principal suspeito do triplo homicídio. No momento em que a polícia começou a escavar o poço, Paulo pediu para ir ao banheiro da casa. Ele então se suicidou com um tiro no coração. O crime abalou a população de São Paulo e ficou conhecido como “O Crime do Poço. O lugar ganhou então a fama de mal-assombrado. Por isso, a numeração da rua foi modificada quando vinte e seis anos mais tarde, no lugar da casa, foi construído o Edifício Joelma.

Fontes –http://www.alemdaimaginacao.com/Noticias/Os%20Misterios%20do%20Joelma.html

http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,fogo-no-joelma-40-anos-da-tragedia-que-marcou-sp,9669,0.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Edif%C3%ADcio_Joelma

PARNAMIRIM FIELD NA IMPRENSA INTERNACIONAL

Reportagem de uma revista
Reportagem de uma revista australiana sobre Parnamirim Field

A VISÃO DA IMPRENSA ESTRANGEIRA SOBRE A GRANDE BASE AÉREA EM SOLO POTIGUAR

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Em termos de politica internacional, dificilmente alguém contestará que, o mais importante acontecimento, nesta área, ocorrido no Rio Grande do Norte, em todo o século XX, talvez em toda a sua história, tenha sido o encontro entre os presidentes dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, e do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas, em 28 de janeiro de 1943, a bordo do navio de guerra americano USS Humboldt, ancorado no estuário do Rio Potengi.

Parnamirim Field
Parnamirim Field

A partir deste histórico acontecimento, a imprensa norte americana passou a dar uma maior visibilidade sobre a participação prática e efetiva do Brasil na guerra e a apresentar ao público americano como ajudávamos o esforço de guerra Aliado. Um dos focos da atenção dos jornalistas foi a importância da Natal Air Base, também conhecida pelos aviadores americanos como Parnamirim Field, então considerada uma das maiores bases aéreas construídas fora dos Estados Unidos e uma das principais encruzilhada das rotas aéreas no mundo.

A United Press em Parnamirim Field

Um dos primeiros jornalistas a transmitir estas informações ao público norte americano foi James Alan Coogan, natural de Milwaukie, Oregon. Ele era o chefe do escritório da respeitada agência de notícias United Press para a América do Sul.

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No início de 1943 os Aliados já tinham começado a virar favoravelmente o jogo da guerra e forças alemãs, italianas e japonesas estavam sofrendo derrotas em inúmeras frentes de combate ao redor do mundo. Coogan iniciou uma série de reportagens enaltecendo que foi a partir de Parnamirim Field que surgiu a “energia aérea” que estava ajudando a derrotar as forças alemãs e italianas no Norte da África. Daquela base aérea, decolavam, dia e noite, milhares de aviões de transporte com homens e materiais que ampliavam o poderio Aliado naquela parte do mundo.

Mesmo informando que era um segredo militar, o número de aviões que decolavam com um pequeno intervalo de tempo das pistas de Parnamirim, para Coogan era impressionante a quantidade de “Fortalezas Voadoras”, “Liberators”, “Mauraders” e outros modelos, que chegavam e partiam initerruptamente, durante as 24 horas do dia, sete dias por semana.

Os Acorrentados

Coogan observou que a base tinha um forte esquema de proteção e se encontrava cercada de trincheiras ocupadas por brasileiros e americanos, atentos a alguma ação do inimigo. Somente depois de novembro de 1942, após ações Aliadas na África que inviabilizaram um possível ataque inimigo ao Nordeste do Brasil, ocorreu um grande alívio para os defensores da grande base de Parnamirim. Estas ações foram principalmente o desembarque americano no Norte da África (Operação Torch) e a posse da cidade de Dakar, na época capital colonial da África Ocidental Francesa.

Posição geográfica de natal em reportagem estrangeira
Posição geográfica de natal em reportagem estrangeira

O moral das tropas era elevado e havia muito trabalho sendo feito, o que deixava os homens sem tempo para pensarem em diversões comuns aos grandes centros.

Para o jornalista da United Press, as tripulações dos aviões americanos cada vez mais ampliavam sua capacidade operativa e suas habilidades, ao realizarem vários voos entre os Estados Unidos e as frentes de combate, sempre utilizando Parnamirim Field como ponto obrigatório.

O jornalista percebeu que, mesmo sem estarem diretamente expostos ao combate, os corpos e as mentes dos homens da Divisão de Transportes eram muito cobrados.

Portão em Parnamirim Field, guarnecido por brasileiros e americanos
Portão em Parnamirim Field, guarnecido por brasileiros e americanos

Eles voavam constantemente no traslado de novos aviões, transportando homens e materiais de combate para as várias áreas do conflito. Coogan comentou que os pilotos de transporte na base aérea se autodenominavam “Os Acorrentados”, por viverem presos aos cintos dos assentos de suas aeronaves.

O Comandante Americano e Parnamirim

Nesta época não existia uma força aérea dos Estados Unidos independente, sendo esta força uma parte do exército deles. Por esta razão, o comandante em chefe das forças do exército americano no Atlântico Sul era o General Robert. L. Walsh.

Com 48 anos de idade, Walsh havia sido brevetado como piloto em 1918, pertencendo desde então ao quadro de aviadores do exército americano e havia assumido a função no Brasil em 20 de novembro de 1942. Vindo do setor de inteligência, era considerado pelo jornalista Coogan como o “mais modesto general americano”.

C-47, o "Burro de carga" da aviação Aliada. Muitos destes passaram por Natal
C-47, o “Burro de carga” da aviação Aliada. Muitos destes passaram por Natal

Em uma entrevista concedida no Quartel General da Divisão de Transportes em Parnamirim Field, junto com a sua oficialidade, em meio ao constate barulho de pousos e decolagens de aeronaves multimotores, o reservado general tinha consciência da importância do trabalho dos seus homens e daquela grande base aérea, tida pelo Alto Comando Aliado como vital. Comentou que apesar de algumas improvisações iniciais, do limitado tempo para o lazer dos seus homens naquele inicio de 1943, a missão a eles passada estava sendo cumprida a contento.

Tanto o general como seus oficiais transmitiram a Coogan que as bases aéreas norte-americanas no Brasil eram de grande auxilio para o combate das forças nazifascistas, igualmente era notável a contribuição dos operários e técnicos brasileiros para a construção das bases aéreas, especialmente Parnamirim Field, a maior e mais movimentada.

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O interessante na entrevista com o General Walsh foi ele enaltecer primeiramente os operários e técnicos civis brasileiros, com bastante ênfase por sinal, e só depois comentar favoravelmente a colaboração de nossas autoridades.

Disciplina Folgada

Em uma das passagens de sua extensa reportagem, que no Brasil foi publicada em quatro edições em jornais cariocas, Coogan comentou que a quantidade e o volume de tarefas em Parnamirim Field era tal, que a disciplina militar era mais “democrática”. Para o jornalista americano havia em Parnamirim Field uma “disciplina folgada”.

Os praças americanos em Parnamirim tratavam seus oficiais por “Senhor”, mas não ficavam a toda hora batendo os calcanhares, nem realizando continências simetricamente perfeitas. Se, por exemplo, os militares americanos de patente inferior estavam descanso em baixo da asa de algum avião, eles não se levantam rapidamente e prestavam continência a passagem de qualquer tenentinho.

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Na verdade, o jornalista da United Press, que morava há algum tempo no Rio de Janeiro e certamente conhecia os hábitos castrenses brasileiros, ao transmitir esta questão, mostrava uma das grandes diferenças que existia entre os nossos militares e os militares dos Estados Unidos. Enquanto os nossos oficiais, muitas vezes, se preocupavam mais com o tamanho de um corte de cabelo, a posição de uma mão na hora da continência, ou quão lustrada uma bota estava, para os americanos, valia mais a questão da operacionalidade do elemento e o cumprimento das missões, do que a rigidez de certos procedimentos de saudação militar.

Em contrapartida, os militares americanos daquela época nunca conseguiram compreender como a oficialidade brasileira aceitava tranquilamente conviver com negros em suas tropas.

Repouso e Diversão

Havia alojamentos, locais de alimentação e recreação distintos para praças e oficiais, mas não era incomum que em uma mesma mesa se alimentassem, ou realizassem um jogo de cartas, coronéis e majores, junto com capitães e tenentes. Os oficiais de maior graduação tinham seus alojamentos individuais, oficiais não tão graduados formavam duplas e dividiam um alojamento.

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Já os praças, ao menos nesta época, se alojavam em grandes tendas montadas em sólidos alicerces de concreto, com pisos de ripas de madeira. Normalmente ficavam em número de quatro pessoas por barraca. O correspondente da United Press ocupou solitariamente a barraca de número 64. Apesar da força inclemente do sol nordestino, a tropa americana considerava o clima agradável pela ação dos ventos e as noites eram tranquilas e agradáveis.

As maiores diversões dos americanos dentro de Parnamirim Field eram escutar as emissoras estadunidenses em rádios valvulados de ondas curtas, jogos de cartas e calorosas partidas de beisebol. Este esporte tão estranho aos brasileiros na época envolvia as tropas do corpo aéreo do exército e da marinha americana, que tinham uma área dentro da base, junto com um setor exclusivo da Força Aérea Brasileira.

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Uma interessante compensação para os militares americanos em Parnamirim Field, em comparação àqueles que estavam servindo na cosmopolita e animada cidade do Rio de Janeiro, ou outra localidade brasileira bem mais confortável, era que os jornais americanos chegavam com no máximo um ou dois dias após sua publicação.

Um Repórter Australiano em Parnamirim Field

Mas não eram apenas os jornalistas americanos que transmitiam para seus leitores impressões sobre Parnamirim Field.

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Quase um ano após a publicação das reportagens de James Alan Coogan, esteve em Natal o jornalista australiano J. A. Marris, da revista Western Mail, da cidade de Perth, a capital e maior cidade do estado australiano da Austrália Ocidental.

Sua reportagem, intitulada “Skayway Base”, foi divulgada na edição de quinta feira, dia 20 de janeiro de 1944 desta revista, com amplo destaque na coluna “This Week”. Merris utilizou no texto uma linguagem bem clara, onde detalhou a importância estratégica de Parnamirim Field e um dia do seu intenso movimento aéreo.

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O australiano informou que nesta época na grande base aérea já não havia tendas e nem trincheiras contra um ataque aéreo. Mas se por um lado o medo de um ataque já não existia, o movimento aéreo era intenso. Na sua opinião, nas pistas de asfalto de Parnamirim Field “passavam os grandes heróis anônimos do transporte aéreo moderno”.

Vital para a vitória Aliada

O jornalista informou que a construção da base ocorreu enquanto na África do Norte os Aliados lutavam contra as forças do Afrika Korps, comandados pelo mítico General alemão Erwin Rommel.

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A estratégica base área militar foi construída em solo brasileiro no mais rigoroso sigilo militar, onde um exército de brasileiros simples, a maioria sertanejos fugidos da grande seca, concluíam, com muito suor e sacrifício, um lugar que possibilitou a criação de uma rede de linhas aéreas que na época supria quase todas as frentes de guerra.

Quando o General Rommel ameaçou invadir Alexandria, no Egito, em 1942, os olhos do mundo estavam voltados para o Vale do Nilo, mas os olhos dos comandantes aliados estavam focados na distante base de Parnamirim. Pois foi através desta estratégica área militar, que um fluxo de aviões vindos dos Estados Unidos e transportando valiosos materiais estratégicos, foi fundamental para a vitória Aliada na frente Africana.

Para o jornalista australiano foi em Parnamirim que o destino do Egito e do Oriente Médio, e talvez de todo o curso da guerra, foi decidido.

Movimento Internacional

J. A. Marris cruzou o Oceano Atlântico em direção aos Estados Unidos. Narrou que, após a chegada a Parnamirim Field, na sua aeronave, logo adentrou uma equipe de homens do setor de defesa sanitária. Estes passaram a fumegar em todas as partes do avião doses de veneno contra possíveis mosquitos africanos transmissores de doenças.  Segundo nos narrou Fernando de Góes Filho, um dos oficiais brasileiros responsáveis por este serviço era o seu pai, o médico Fernando Góes.

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Logo após desembarcar, o australiano soube que seu avião estava sendo requisitado para retornar a África e cumprir outra missão. Agora ele iria esperar uma vaga em outro avião que seguisse para os Estados Unidos, em meio a um dos maiores congestionamentos de tráfego aéreo de aviões americanos e de material de guerra. Marris agora era um “caronistas aéreo”.

Havia muita poeira e calor em Parnamirim Field, além de um barulho constante dos grandes motores aéreos ligados e guardas verificando as credenciais de todos que chegavam. Logo, os outros passageiros presentes ao setor de embarque e desembarque davam ao jornalista australiano uma ideia do caráter internacional da grande base aérea.

A importância de Parnamirim Field na época da Segunda Guerra pode ser medido pelo número de pessoas de importância política internacional que aqui estiveram. Como Eleanor Roosevelt que esteve na base em 1944
A importância de Parnamirim Field na época da Segunda Guerra pode ser medido pelo número de pessoas de importância política internacional que aqui estiveram. Como Eleanor Roosevelt, que esteve na base em 1944

Em um canto, um holandês, que trabalhava em um gabinete ministerial do seu país, dialogava com um funcionário de uma empresa aérea americana. Através de uma porta estreita, corre um coronel da Força Aérea Chinesa para pegar um avião que seguia para Washington. Mais adiante, era possível escutar histórias de pessoas que vinha de lugares tão diferentes como Chongqing (cidade no centro da China), Glasgow (Escócia) e Trípoli (capital da Líbia). Logo um grupo de militares passa a observar com muita atenção em uma determinada direção. Era um grupo de enfermeiras americanas que desembarcavam.

Em pouco tempo pousava uma esquadrilha de bimotores B-25 Mitchell, parando para reabastecer antes do salto sobre o Oceano Atlântico em direção à África. Depois o repórter australiano testemunhou outro avião que taxiava na pista, ainda trazendo manchas barrentas do solo africano em seu trem de aterrissagem. Esta última aeronave deixava um grupo de soldados feridos, que seriam levados para a principal unidade hospitalar que atendiam estes militares em Natal e hoje é conhecido como Maternidade Januário Cicco. Um dos feridos não passava de um simples garoto, mas que trazia um grande ferimento na perna e era um calejado veterano. Recuperava-se depois de dois anos de combate.

Partindo de Parnamirim Field

Finalmente J. A. Marris recebeu a noticia que iria continuar sua viagem. O avião era um bimotor Douglas C-47, de uma pequena esquadrilha de três aeronaves idênticas. Estes haviam aterrissado apenas uma hora antes, foram rapidamente reabastecidos, revisados e agora estavam alinhados na pista prontos para outra viagem.

Base Aérea de Acra durante a Guerra. localizada na atual Gana, África, foi um dos destinos dos aviadores Aliados depois de partirem de Parnamirim
Base Aérea de Acra durante a Guerra. localizada na atual Gana, África, foi um dos destinos dos aviadores Aliados depois de partirem de Parnamirim

Toda a bagagem a bordo foi empilhada no meio da fuselagem, formando um grande monte de objetos, cobertos com uma rede para evitar que se deslocassem dentro da aeronave e tudo isso era amarrado no piso. Entre tripulantes e passageiros ali estavam vinte homens; o piloto, o copiloto, um alto executivo de uma grande empresa de aviação americana, dois oficiais do exército chinês, um grupo de náufragos americanos resgatados, um trabalhador de um estaleiro da Filadélfia, três funcionários do governo de Londres e meia dúzia de outros pilotos americanos.

Durante o voo o C-47 seguiu ao longo da costa brasileira e da selva. Alguns passageiros tentavam dormir em desconfortáveis bancos que foram originariamente projetados para paraquedistas, enquanto outros jogavam cartas. De vez em quando se mudava a posição das pernas para passar as dores musculares e, ocasionalmente, ficava-se em pé, onde era possível dar três passos sem pisar em alguém e assim fazer o sangue circular.

Militares de países da Commonwealth são desembarcados de um C-47 americano. Parnamirim Field, como mostra a reportagem australiana, tinha um grande aspecto internacional
Militares de países da Commonwealth são desembarcados de um C-47 americano. Parnamirim Field, como mostra a reportagem australiana, tinha um grande aspecto internacional

Apesar de todo desconforto, ao ler a reportagem de Marris, fica evidente para este repórter australiano que Parnamirim Field era a mais importante engrenagem aérea em sistema de grande circulação de material e armas de guerra.

Ele reproduziu um interessante comentário de um observador realista, que muito sintetiza a importância de Parnamirim; “certamente Hitler daria dez de suas divisões em troca daquele lugar”.

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MARACAJAÚ E RIO DO FOGO – ANTIGOS CEMITÉRIOS DE BARCOS DA COSTA POTIGUAR

Yet he held his hould

Ao longo da história de duas belas praias do litoral potiguar, ocorreram vários relatos de afundamentos até hoje praticamente desconhecidos

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Na história do Rio Grande do Norte sempre foi muito pouco relevante os fatos ligados às questões náuticas e a série de problemas que aqui existiam para quem navegava.

Era um período de navegações heroicas e arriscadas, onde os homens se aventuravam por costas ainda não totalmente mapeadas, ou passando por áreas sem os faróis para o auxílio à navegação. Coisas como as atuais maravilhas tecnológicas de navegabilidade sequer povoavam as mentes dos novelistas mais criativos. Conduzir um barco a vela, através dos oceanos era então uma tarefa que exigia muita atenção e a experiência de navegação dos seus comandantes era fundamental para uma boa viagem.

É bem verdade que já se utilizava bússolas, mapas de navegação conhecidos, sextantes, cronômetros marítimos e outras ferramentas que ajudavam na navegação. Mas nada era totalmente seguro.

A Complicada Costa Potiguar

Localizado no “cotovelo” da América do Sul, a posição geográfica do Rio Grande do Norte sempre se caracterizou para a navegação pela existência de ventos fortes em certas épocas do ano, correntes marítimas complicadas e algumas perigosas áreas com recifes de corais.

Antigos instrumentos de navegação - maxinecooper.wordpress.com
Antigos instrumentos de navegação – maxinecooper.wordpress.com

Apesar dos perigos isso não impediu que portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e marujos de outras nacionalidades navegassem no nosso litoral e muitos naufrágios marcam a nossa história.

O interessante site Naufrágios do Brasil (http://www.naufragiosdobrasil.com.br) possui uma página específica para os afundamentos em águas potiguares. A relação traz os nomes de mais de 100 barcos e alguns aviões que repousam no fundo do mar. O mais antigo registro existente neste site é de um barco, provavelmente uma caravela portuguesa, com o nome “São João e Almas”, que se perdeu na região do Cabo de São Roque no longínquo ano de 1677.

Ao longo dos séculos seguintes não era tão raro a notícia de algum afundamento em águas costeiras do Rio Grande do Norte, especialmente nas regiões onde se encontram recifes de corais, principalmente na área das conhecidas praias de Maracajaú e Rio do Fogo.

Área de recifes de corais, ou parrachos de Maracajaú e Rio do Fogo, costa do Rio Grande do Norte
Área de recifes de corais, ou parrachos de Maracajaú e Rio do Fogo, costa do Rio Grande do Norte.

Atualmente estas praias são locais de destinação turística e de veraneio, possuindo ambos os locais tradicionais comunidades de pescadores. Mas a maioria dos naufrágios ali ocorridos é desconhecida e envoltos em histórias onde o destino da carga era mais importante que a vida dos tripulantes.

Uma Região Perigosa Para um Velho Brigue Inglês

Há quase 174 anos o velho brigue inglês Orion, de 198 toneladas, bateu e afundou nos recifes de coral diante da praia potiguar de Rio do Fogo, onde nesta época já existia uma povoação de pescadores.

Construído em 1804, no estaleiro pertencente a John Holt Jr. e John Richardson, em Whitby, o terceiro maior centro de construção naval da Inglaterra, depois de Londres e Newcastle, o Orion serviu a Royal Navy (Marinha Real Britânica) como barco de transportes nos combates contra as forças de Napoleão. Este brigue, um barco que possuía normalmente dois mastros maiores, uma tripulação variável de oito a quinze homens, uma média de 40 a 90 metros de comprimento e uma tonelagem que variava de 160 a 1.150, foi depois vendido para uma empresa de transportes marítimos de Londres e já se encontrava a 36 anos navegando pelos sete mares quando encontrou seu fim no dia 30 de março de 1840, uma segunda feira.

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Na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, encontramos nas páginas amareladas do velho jornal Publicador Natalense, edição de sábado, 2 de maio de 1840, as notícias do Expediente do Governo provincial potiguar, cuja a presidência era exercida por Manoel de Assis Mascarenhas. Nesta páginas, uma espécie de Diário Oficial da época, consta que o juiz de paz de Touros, na época um município emancipado desde 1833, trazia notícias sobre o acidente do Orion, dando conta que o mesmo vinha carregado de café do sul do Brasil.

Encontramos a informação que havia sido negado ao juiz de paz de Touros, cujo nome não foi divulgado, o seu pedido para que os jangadeiros de Rio do Fogo ficassem de posse da metade dos objetos e da carga do brigue acidentado. O pedido do juiz ia de encontro ao Artigo 18 do Tratado firmado entre os reinos do Brasil e da Inglaterra, sobre o destino das cargas de naves naufragadas.

O Presidente da Província Manoel de Assis Mascarenhas, que deixaria o cargo em julho de 1841, exigia que o juiz de Paz de Touros, que possuía jurisdição sobre Rio do Fogo, arrecadasse com os jangadeiros da localidade tudo que eles haviam salvado do Orion. Entretanto no mesmo despacho percebemos que o Presidente não parecia confiar no juiz de paz e nem estava brincando em relação a suas ordens, pois ordenava ao “Inspetor interino da Thesouraria da Fazenda” que enviasse um oficial e guardas da Alfandega para arrecadarem e inventariarem os objetos salvos. Para que a ordem ficasse mais bem transmitida, no mesmo despacho o Presidente abonava o soldo de cinco guardas do Corpo de Polícia para seguirem a Touros para participarem desta missão.

Típico brigue inglês
Típico brigue inglês

Neste caso do Orion não sabemos nada do que causou a destruição do brigue, o que houve com a tripulação e nem se os jangadeiros de Rio do Fogo, ao salvarem os objetos e a carga do barco sinistrado agiram na ânsia de conseguirem vender o que arrecadaram a revelia da tripulação e das autoridades, ou se eles foram incitados a salvarem este material pela tripulação inglesa, com a promessa de ficarem com a metade do que conseguiram tirar das águas e depois tiveram a sua parte no acordo retirado a força pelas autoridades comandadas pelo Presidente Manoel de Assis Mascarenhas.

A Barca Norte Americana Destruída em Maracajaú

Onze anos após o desastre do brigue Orion, uma barca, ou “bark” em inglês, uma nave com três ou mais mastros, com um comprimento que poderia variar de 35 a 60 metros, foi totalmente destruída nos belos recifes de coral de Maracajaú. Estes recifes de corais são conhecidos na região como parrachos.

A edição existente na internet do tradicional jornal The New York Times, de 30 de outubro de 1851, da conta que os seus jornalistas haviam recebido a notícia que a barca Ruth, que seguia do porto norte-americano de Baltimore para o Rio de Janeiro, havia se perdido em “Patagonia”, próximo “ao Cabo de São Roque”, mas a tripulação se encontrava a salvo. Parece que as informações geográficas dos jornais americanos desta época eram bem complicadas.

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No periódico O Argus Natalense, existente na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, na sua edição de sábado, 11 de outubro de 1851, que encontramos uma notícia mais abalizada sobre o acidente da Ruth, com o destino da sua carga envolta em um rumoroso inquérito judicial.

Consta que a Ruth vinha dos Estados Unidos com 2.600 “barricas” contendo farinha de trigo, tendo se chocado com os parrachos de Maracajaú nos primeiros dias do mês de setembro de 1851. Este era um barco novo, tinha 337 toneladas e havia sido lançado ao mar em Baltimore no dia 27 de julho de 1847, sendo um dos 80 barcos construídos nos estaleiros daquele porto durante aquele ano.

Já no dia 15 daquele mês o “Inspector” da Alfandega da Cidade do Natal Manoel Pedro Alvares, informava que Antônio Francisco Nobre Câmara, o subdelegado de Maracajaú, havia firmado com John Llufrio, o capitão da barca, um norte americano de 43 anos de idade e natural de Rhode Island, um acordo onde os jangadeiros de Maracajaú e proximidades receberiam 50% da carga salva. Mas o inspetor Pedro Alvares acusava que o subdelegado Nobre Câmara participava e dava apoio ao extravio de mercadorias da barca naufragada, sem o conhecimento do capitão Llufrio.

Porto de Baltimore, quadro de Fitz Hugh Lane
Porto de Baltimore, quadro de Fitz Hugh Lane.

Como a farinha de trigo é um produto que se transforma no contato com a água, tudo indica que a Ruth bateu nos parrachos e ficou com parte do casco fora da linha d’água, deixando muito de sua carga intacta. O inspetor Pedro Alvares informou, entre outras coisas, que todos os dias “de 100 a 200 barricas” desembarcavam na praia de Maracajaú, que os sete soldados do Corpo de Polícia de Maracajaú participavam do “roubo” e revendiam as barricas de farinha de trigo. Outra acusação dava conta que uma barcaça (nome e origem não mencionados) havia seguido para “portos do norte” com 120 barricas e que apenas 200 das 2.600 barricas, menos de 10% da carga, estavam sob a guarda da autoridade alfandegaria.

O inspetor Pedro Alvares informou também que contratou jangadeiros para salvarem barricas da Ruth, pagando 1.600 réis por unidade salva, mas parece que os jangadeiros preferiam realizar o transporte das barricas para um destino mais rentável. Pois no mesmo relato o inspetor pedia a seu chefe em Natal, João Bernardino Nunes, que pelo menos 30 praças do Corpo de Polícia fossem enviados para Maracajaú para evitar o extravio da carga, pois a entrega indevida deste material já se estendia por “mais de uma légua” ao longo da costa.

Pelo que está transcrito em O Argus Natalense, aparentemente o inspetor Pedro Alvares desejava cumprir o seu papel de fiscal da fazenda pública e cobrar as taxas alfandegarias pelos salvados da Ruth, independente do acordo feito pelo subdelegado Nobre Câmara com o capitão John Llufrio. Mas parece que seus esforços foram em vão.

Outros Acidentes

Quase dez anos depois do sinistro da Ruth, entre dezembro de 1860 e janeiro do ano seguinte uma pequena escuna norte americana chamada Madshler, de 350 toneladas, cujo comandante era o capitão Henshel, naufragou em Maracajaú com sua carga de ossos de animais, uma mercadoria que na época era destinada a ser reciclada como ração animal. Estas são praticamente as únicas indicações deste sinistro, que está registrado no periódico carioca Diário do Rio de Janeiro, edição de quarta feira, 30 de janeiro de 1861 e preservado na hemeroteca da Biblioteca Nacional.

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No mesmo jornal, na edição de 25 de maio de 1869, uma terça feira, na segunda página, na seção destinada às notícias vindas de Pernambuco, dá conta que no dia 10 de abril daquele ano um barco brasileiro chamado Santa Cruz, do tipo iate, ou “hiate” na grafia da época, registrado em Recife, havia partido da capital pernambucana com uma carga de fazendas e outros gêneros, a maioria desta pertencente ao rico comerciante Pedro José Gonçalves da Silva, para a cidade cearense de Aracati.

Dois dias depois, as oito da manhã de uma segunda feira, em meio a uma tempestade, o Santa Cruz encalha defronte ao povoado de Maracajaú. Ao bater nos parrachos foi aberto um rombo no casco de madeira, o barco encalhou e passou quatro horas enchendo de água e perdendo grande parte de sua carga. Contam que pouco foi salvo e que não se perdeu foi vendido em Natal “por conta do seguro”.

Talvez por ser um barco de pequeno porte, ou pela natureza de sua carga, ou quem sabe por ser o mesmo oriundo de um porto nordestino, as notícias sobre o sinistro desta embarcação são limitadas. Não sabemos quem era seu capitão, ou “Mestre”, nem o número de tripulantes. Desta vez nada temos sobre a participação da comunidade local no salvamento da carga e não existem problemas envolvendo agentes públicos e a carga sinistrada.

Entretanto sabemos que o frete entre Recife e Aracati foi de parcos 600 mil réis e que a avaliação do sinistro ficou na casa dos 120 contos. Consta na nota deste jornal uma forte crítica pelo uso de barcos limitados como o Santa Cruz, em detrimento da utilização de vapores no transporte de cargas.

Parrachos de Maracajaú, um afamado destino turístico
Parrachos de Maracajaú, um afamado destino turístico.

Oito meses depois do sinistro do Santa Cruz, o próximo barco a sofrer danos nos parrachos de Maracajaú é a barca inglesa Gabalva. Era o dia 11 de janeiro de 1870, uma terça feira, a barca Gabalva tinha 479 toneladas, era comandada pelo capitão W. Hyde, transportava uma carga de vinhos, móveis, fazendas e outras mercadorias. A nave era registrada em Londres, seguia de Boston (outras fontes apontam Baltimore), nos Estados Unidos, em direção à cidade australiana de Melbourne. Este acidente, tudo indica, ocorreu a noite, em meio a uma tempestade.

Apesar da carga valiosa e útil, nada foi comentado sobre problemas envolvendo o recolhimento indevido da carga deste barco.

Afundamentos Desconhecidos e Cargas Típicas de Uma Época

A barca americana chamada T. Jeffie Southard, de 830 toneladas, comandada pelo capitão G. R. Handy, que seguia de Nova York a São Francisco através do Cabo Horn, sul da Argentina, foi destruída por choque com os parrachos de Maracajaú no dia 18 de março de 1882. Logo foi despachado para a região o pessoal do serviço alfandegário de Natal e membros da Força Pública para evitar o desvio da carga. O registro deste afundamento se encontra no periódico cearense Gazeta do Norte, de 15 de abril de 1882, existente na hemeroteca da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro.

Típico padrão de uma barca americana
Típico padrão de uma barca americana.

Pouco mais de um ano após este sinistro, na metade de junho de 1883, outro barco se tornou uma nova vítima dos parrachos de Rio do Fogo. Mas a nacionalidade, nome, tonelagem, nome do capitão, quantidade de carga e destino dos tripulantes ficaram totalmente desconhecidos. Mas o jornal carioca Gazeta de Notícias, edição de sábado, 30 de junho de 1883, aponta que novamente as autoridades locais se apresavam em garantir os salvados deste barco misterioso.

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Quase no final do século XIX é a vez do patacho holandês Catherine Klesin  ir de encontro aos parrachos de Maracajaú. Os patachos eram barcos de dois mastros e tonelagem variando de 40 a 100. No caso da Catherine Klesin ela era comandada pelo capitão J. Douwes, junto com uma tripulação de quatro marinheiros (todos se salvaram) e bateu nos parrachos às três da manhã. O patacho Catherine Klesin ficou totalmente destruído, mas parte do carregamento foi salvo. Ainda sobre o que a Catherine Klesin temos a informação que o material que ela transportava era uma miscelânea de produtos que tinham sua importância no final do século XIX; carvão de pedra, malte, garrafas vazias, coque, ferro em barras, vergalhões, sal, ácido sulfúrico, tintas, cortiça e sabão de potassa.

O acidente se deu em 5 de março de 1898 e ficou registrado nas páginas do jornal natalense A República, edição do dia 8 de março.

Conclusão

Os relatos dos afundamentos em Maracajaú e Rio do Fogo ao longo do século XIX, pelas características dos barcos e de suas cargas, pouco tem do charme envolvendo as histórias dos galeões espanhóis que afundaram no Caribe abarrotados de ouro e prata. Mas o conhecimento destes sinistros mostram características praticamente desconhecidas dos problemas marítimos na costa potiguar, a relação das autoridades com estes fatos e como as comunidades tradicionais de pescadores interagiam com estes acidentes.

Relato do afundamento da barca americana T. Jeffie Southard
Relato do afundamento da barca americana T. Jeffie Southard.

Através dos relatos existentes nestes jornais antigos conseguimos informações sobre oito naufrágios ocorridos entre 1840 e 1898, de diferentes nacionalidades, transportando mercadorias variadas, provavelmente ainda latente na mente e na tradição oral dos pescadores de Maracajaú e Rio do Fogo, o que pode revelar muito mais sobre estes sinistros, se bem trabalhadas e com uma pesquisa histórica mais profunda.

E não podemos esquecer que as áreas de navegação de Maracajaú e Rio do Fogo, mesmo com todo avanço tecnológico, ainda provocam acidentes. – Ver – http://portalnoar.com/policia-divulga-video-do-resgate-a-naufragos-no-litoral-norte-do-rn/

VER NO TOK DE HISTÓRIA – https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/15/o-naufragio-do-sao-luiz/

Fontes – http://freespace.virgin.net/suesteph.baines/williamholt1752.html

http://www.bbc.co.uk/northyorkshire/content/articles/2005/04/04/coast05walks_stage1.shtml

http://fultonhistory.com/Newspapers%206/New%20York%20NY%20Tribune/New%20York%20NY%20Tribune%201851%20Nov%20-%20Jan%201852%20Grayscale/New%20York%20NY%20Tribune%201851%20Nov%20-%20Jan%

http://postingsfromthepast.blogspot.com.br/2006/08/baltimore-daily-news-november-19-1978.html

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89 ANOS DA CORRIDA DE SÃO SILVESTRE

Em 1980, depois de 34 anos sem um brasileiro vencer a Corrida Internacional de Sáo Silvestre, o entao garcon Jose Joao da Silva, pernambucano da cidade de Bezerros, quebrou o jejum de vitõrias.
Em 1980, depois de 34 anos sem um brasileiro vencer a Corrida Internacional de São Silvestre, o ex-entregador de pizzas José João da Silva, pernambucano da cidade de Bezerros, quebrou o jejum de vitorias.

No dia 31 de dezembro de 1925, ocorre a primeira edição da Corrida Internacional de São Silvestre. Cásper Líbero, um jornalista e advogado paulista milionário que fez fortuna no início do século XX, fez uma viagem a Paris e de lá voltou maravilhado com uma corrida realizada à noite, onde os corredores carregavam tochas ao longo do percurso. Entusiasta do esporte e decidido a promover algo semelhante aqui, criou uma corrida noturna a ser realizada no último dia do ano de 1925. Estava fundada a Corrida de São Silvestre, que recebeu esse nome em homenagem ao santo do dia.

Na primeira edição, apenas 146 atletas paulistanos participaram do evento. No total, 60 percorreram todos os 6,2 mil metros entre a avenida Paulista e a Ponte Pequena (atual estação Armênia do metrô). Alfredo Gomes, do Clube Espéria, cruzou a linha de chegada às 0h23 do dia 1.º de janeiro de 1926 em primeiro lugar, com o tempo de 23m10s. Segundo o regulamento da época, somente os primeiros 25 atletas receberam medalhas.

Inicialmente aceitando apenas a participação de brasileiros natos, nos anos seguintes a inscrição foi permitida a estrangeiros morando no Brasil, o que permitiu ao italiano Heitor Blasi, radicado em São Paulo, ser convidado a disputá-la e vencer duas das primeiras edições da prova, em 1927 e 1929. Sem grande experiência na organização deste tipo de evento, as primeiras edições impediam os corredores de beberem qualquer tipo de líquido durante a prova, e os atletas muitas vezes nela competiam com os próprios sapatos que usavam para treino no dia a dia e roupas que acumulavam suor.

Nota jornalistica dos primeiros anos da tradicional Corrida de São Silvestre
Nota jornalistica dos primeiros anos da tradicional Corrida de São Silvestre

Ao contrário de outros eventos desportivos tão ou mais antigos, a Corrida de São Silvestre nunca deixou de realizar-se, nem mesmo durante a Revolução Constitucionalista de 1932, ou a Segunda Guerra Mundial.

A partir de 1945, com o fim da guerra, ela passou a contar com a participação de estrangeiros, mas apenas para corredores convidados provenientes de outros países da América do Sul. O sucesso das duas primeiras edições internacionais, no entanto, levou os organizadores a permitirem a participação de corredores de todo o mundo a partir de 1947. Este ano marcou o início de período de 34 anos durante o qual nenhum brasileiro venceria a prova, o que se encerrou somente quando pernambucano José João da Silva venceu a edição de 1980.

O Brasil amargava uma fila desde 1946, quando a prova passou ser internacional, ficando 34 anos o lugar mais alto do pódio da nossa principal corrida de rua dominado por estrangeiros. O público ansiava por um campeão nacional e após seu feito o ex-entregador de pizza se tornou um ícone do atletismo brasileiro, recebendo várias homenagens.feito que ele repetiria em 1985.

O maior vencedor – e também recordista – da prova é o queniano Paul Tergat com cinco vitórias e, entre as mulheres, a portuguesa Rosa Mota, que com seis vitórias consecutivas nos anos 1980 é a maior vencedora geral.

Entre os brasileiros, o título fica com Marílson Gomes dos Santos, com três vitórias.

A 89ª edição da tradicional prova de rua será nesta terça-feira, 31 de dezembro de 2013 em São Paulo.

Convocacao feita por clubes em jornais paulistanos da decada de 1920, para seus filiados participarem da Corrida de Sào Silvestre
Convocação feita por clubes em jornais paulistanos da década de 1920, para seus filiados participarem da Corrida de São Silvestre

Fontes – https://www.facebook.com/historiadigital –

http://pt.wikipedia.org/wiki/Corrida_Internacional_de_S%C3%A3o_Silvestre

 

1924 – A MAIS ANTIGA LISTA TELEFÔNICA DE NATAL

Autor – Rostand Medeiros

Trago para os leitores do nosso blog TOK DE HISTÓRIA, diretamente da minha coleção de fotos das antigas páginas do jornal natalense “A República”, aquela que acredito ser a mais antiga lista telefônica da capital potiguar.

Nesta época eram poucos os telefones em Natal e maioria deles estavam instalados em repartições e empresas. A leitura desta lista vai apresentar ao leitor do nosso blog algumas características desta pequena capital nordestina, que talvez nem tivesse 35.000 habitantes em 1924.

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NATAL DE 1944 – BATALHA DAS ARDENAS – QUANDO DEUS VEIO PARA A CEIA DE NATAL

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Autor – Rostand Medeiros

Para mim o espírito de Natal é algo tão forte, tão intenso, que mesmo no meio de uma sangrenta guerra ele pode produzir milagres. Foi assim na fria véspera de Natal de 1944, nesta incrível história que conto a vocês.

Após a invasão da Normandia, a chamada Operação Overlord, a consequente conquista da Normandia no fim de julho de 1944 e do hoje pouco lembrado desembarque no sul da França em 15 de agosto, os Aliados avançavam rumo a Alemanha de forma mais rápida do que era esperado.

Em meio a problemas de abastecimento e do cansaço das forças americanas e britânicas, Hitler decidiu lançar uma contraofensiva alemã na frente ocidental, na tentativa de deter o avanço Aliado.

Em meio a neve, a destruição de uma aldeia belga na região das Ardenas
Em meio a neve, a destruição de uma aldeia belga na região das Ardenas

Conhecida como Batalha das Ardenas, ou Batalha do Bulge, aconteceu na floresta das Ardenas, na região da Valônia, sul da Bélgica. Tudo começou em meio a um inverno rigoroso, no dia 16 de dezembro de 1944, quando tanques panzers alemães avançaram, causando fortes estragos nas fileiras Aliadas pegas completamente de surpresa. Os americanos e britânicos estavam com suas linhas de combate muito espalhadas, passando a enfrentar uma força inimiga inicialmente superior.

Os alemães capturaram milhares de prisioneiros e seu ataque deixou muitas unidades americanas e britânicas isoladas em meio à floresta.

Fritz Vincken em 1940
Fritz Vincken em 1940

Enquanto a carnificina se generalizada nas Ardenas, uma mãe e seu filho de 12 anos, chamados Elisabeth e Fritz Vincken, tentavam sobreviver ao caos escondidos em uma cabana no meio da floresta.

Escondidos Para Viver…

Eles eram alemães da cidade de Aachen. Ali o marido de Elisabeth tinha uma padaria. Na madrugada de 11 para 12 de abril de 1944, 352 bombardeiros britânicos atacaram esta cidade, perdendo nove aeronaves. O ataque foi intensamente destrutivo, causando danos generalizados e fortes incêndios. Entre os locais atingidos estavam a padaria e a casa dos Vincken, que sobreviveram. Na sequência todos foram evacuados para uma aldeia, onde encontraram abrigo.

Alemães nas Ardenas
Alemães nas Ardenas

Consta que o pai de Fritz ficou então agregado como cozinheiro de uma unidade do exército alemão. Uma noite ele veio em um pequeno caminhão militar e levou sua família para as profundezas da floresta de Ardenas, 20 quilômetros ao sul do abrigo onde se encontravam, perto da fronteira da Alemanha com a Bélgica. Era uma área elevada, bem arborizada, onde existia uma solitária cabana de caça. Foi um amigo belga do marido de Elisabeth que mostrou o caminho para chegar lá. Foi neste local que ela e Fritz se encontravam na véspera de Natal de 1944.

Fritz comentou que na noite anterior as temperaturas caíram para abaixo de zero, entretanto no dia 24 de dezembro, o sol nasceu com vigor, trazendo um espetacular céu azul sem nuvens. Aproveitando a visibilidade, durante todo o dia centenas de aviões aliados voaram em suas missões mortais. O rugido sombrio e pesado de seus motores permaneceriam para sempre enraizado na mente do garoto.

Quando a escuridão caiu no final da tarde, a quietude repentina era caracterizada pelo silêncio na floresta e incontáveis estrelas ​​no céu. Fritz narrou que havia até mesmo longos pingentes de gelo formados fora das janelas da casa. Mãe e filho ficaram algum tempo olhando o espetáculo celeste e comentando quando viriam novamente o seu mundo em paz. Depois entraram para dividirem a ceia de Natal.

Prisioneiros americanos. Na Batalha das Ardenas, só os americanos tiveram 19.000 mortos, 47.500 feridos, 23.000 capturados ou desaparecidos.
Prisioneiros americanos. Na Batalha das Ardenas, só os americanos tiveram 19.000 mortos, 47.500 feridos, 23.000 capturados ou desaparecidos.

Nisso ouviram batidas na porta do abrigo. Aterrorizada, Elisabeth rapidamente apagou as velas que iluminavam o lugar e Fritz foi até a porta, sendo bloqueado por sua mãe.

Mesmo sabendo que ali fora poderia haver problemas, Elisabeth e Fritz decidiram abrir e ver quem lá estava. Como fantasmas contra as árvores cobertas de neve, ali se encontravam dois homens com capacetes de aço. Um deles falou em uma língua que eles não entenderam, apontando para um terceiro homem deitado na neve. Elisabeth percebeu que eram soldados americanos. Eram inimigos!

Um Escolha Difícil

Mãe e filho ficaram olhando em silêncio, parados. Eles estavam armados, poderiam ter forçado a entrada na cabana e, além disso, estavam com um homem ferido, parecendo mais morto do que vivo. Ela sabia que a pena por abrigar o inimigo era a morte por fuzilamento, mas quando olhou nos olhos dos jovens americanos não teve medo, abriu a porta e os deixou entrar. Eles se aproximaram, andando com neve até os joelhos.

Tanque alemão destruido pelos americanos na batalha
Tanque alemão destruido pelos americanos na batalha

Os americanos eram bem jovens, nem barbas tinham. Elizabeth não falava inglês, mas um dos americanos falava francês, idioma que a mãe de Fritz conhecia. Contaram que estavam perdidos no meio da floresta e já vinham andando por três dias, escondendo-se dos alemães e procurando a sua unidade de combate. Porém, tudo o que encontram foi aquela casa.

Sem outra solução Elizabeth mandou Fritz trazer mais seis batatas para o fogo e “Hermann”, um galo gordo. Este homenageava Hermann Goering, o obeso comandante da Luftwaffe, a força aérea dos nazistas, figura a qual Elisabeth nutria pouco afeto. O galo tinha sido engordado durante semanas na esperança de que o pai de Fritz estivesse na casa para o Natal. Mas, algumas horas antes, quando era óbvio que ele não viria, sua mãe tinha decidido que o galo deveria viver mais alguns dias para o caso de seu marido chegar para o Ano Novo.

Os Americanos nas Ardenas careciam de roupas apropriadas para o rigor do inverno. Vemos infantes do 290th Regiment perto de Amonines, Bélgica.  em 4 de Janeiro de 1945.
Os Americanos nas Ardenas careciam de roupas apropriadas para o rigor do inverno. Vemos infantes do 290th Regiment perto de Amonines, Bélgica. em 4 de Janeiro de 1945.

Todavia, diante das circunstâncias, Elisabeth mudou de ideia: “Hermann” serviria para um fim imediato. Em breve o cheiro tentador de frango assado permeava pela cabana.

O clima foi se distendendo e os americanos foram se apresentando. Havia um atarracado, de cabelos escuros, chamado Jim. Seu companheiro, alto e magro, era Ralph e o ferido se chamava Herbie.

Quando Fritz arrumava a mesa para a ceia de Natal e os americanos estavam em um quarto onde o ferido Herbie estava deitado, escutaram uma forte batida na porta.

Com a expectativa de encontrar mais americanos perdidos, Fritz abriu com hesitação e lá estavam quatro soldados com uniformes muito familiares para a jovem mãe e seu filho. Eram soldados alemães da Wehrmacht, o exército de Hitler.

Blindados anti aéreos alemães destruídos pelos americanos.
Blindados anti aéreos alemães destruídos pelos americanos.

Diante do Perigo

Apesar do medo de Elisabeth e Fritz, ela disse calmamente “Fröhliche Weihnachten” (Feliz Natal em alemão). Os soldados lhe responderam um Feliz Natal e informaram que se perderam do seu regimento e gostariam de abrigar-se na cabana para descansar e esperar a luz do dia, explicou o militar de hierarquia mais elevada, um cabo.

Com uma calma nascida do pânico, Elisabeth respondeu que sim. Eles poderiam descansar, ter uma refeição quente e comer até o pote ficar vazio. Estes sorriram enquanto sentiam o aroma de “Hermann” através da porta entreaberta.

Mas Elisabeth acrescentou com firmeza que na casa estavam três outros convidados e disse quem eram. Daí para frente sua voz se tornou severa ao comentar: “É véspera de Natal e não haverá nenhum tiro aqui”. Ela narrou a situação dos inimigos e pediu que “Nesta noite de Natal todos deveriam esquecer a matança”.

Blindado alemão destruído.
Blindado alemão destruído.

O cabo olhou para ela por uns dois ou três segundos intermináveis ​​de silêncio. Então Elisabeth pôs fim à indecisão “Chega de falar” ela ordenou e bateu palmas rispidamente. “Por favor, coloquem suas armas aqui na pilha de lenha, e se apressem para comer o jantar!”. Aturdidos com a autoridade feminina e diante de um quadro que certamente lembrava as suas mães em seus lares na Noite de Natal, os homens de Hitler obedeceram.  Os quatro soldados colocaram suas armas sobre a pilha de lenha ao lado da porta. Enquanto isso, Elisabeth estava falando francês de forma igualmente autoritária para Jim e logo eles entregaram suas armas àquela valente mulher.

Apesar do clima tenso, Elisabeth foi preparar o jantar. Nisso um dos alemães tinha posto seus os óculos para inspecionar a ferida do americano, ele havia estudado medicina em Heidelberg até poucos meses atrás e informou que graças ao frio a ferida de Harry não iria infecionar.

Uma Ceia de Natal Especial

O relaxamento começou a substituir a suspeita. Fritz Vincken comentou anos depois que, mesmo sendo um garoto de doze anos, todos os soldados pareciam muito jovens. Entre os germânicos havia Heinz e Willi, ambos de Colônia, com apenas 16 anos de idade. O cabo era o mais velho de todos os militares das duas nações em guerra e só tinha apenas 23 anos. Do seu saco de comida ele tirou uma garrafa de vinho tinto e Heinz conseguiu encontrar um pedaço de pão de centeio para aumentar o jantar.

Filme da televisão americana sobre este fato.
Filme da televisão americana sobre este fato.

Quando tudo estava pronto, Elisabeth deu as graças na mesa.  Com lágrimas em seus olhos, ela disse velhas palavras familiares: “Komm, Jesu Herr. Seien Sie unser Gast” (Vem, Senhor Jesus. Seja nosso convidado). Fritz comentou que jamais esqueceu que viu ao redor da mesa lágrimas nos olhos dos jovens militares cansados e longe de casa. Herbie, mesmo ferido, sacou de uma pequena Bíblia, leu uma das passagens e terminou declarando que haveria pelo menos uma noite de paz nessa guerra. Todos concordaram e os soldados alemães e norte americanos compartilharam uma refeição quente, juntos, em uma noite especial.

Depois todos descansaram em paz.

O armistício privado continuou na manhã seguinte. O cabo aconselhou os americanos sobre a melhor maneira de encontrar o caminho de volta para as suas linhas. Olhando por cima do mapa de Jim, o cabo apontou um córrego e disse “Continue ao longo deste riacho e você encontrará o seu pessoal se reagrupando”. O estudante de medicina transmitiu a informação em um Inglês atravessado, mas compreensível. Jim então perguntou por que não ir para a cidade de Monschau? “Nein!”, o cabo exclamou. “Nós retomamos Monschau e lá vocês seriam mortos ou capturados”.

Somente na hora de sair Elisabeth deu-lhes todas as suas armas. Os soldados alemães e americanos apertaram as suas mãos e desapareceram em direções opostas.

Um Grande Encontro

Elisabeth, seu marido (cujo nome desconheço) e seu filho Fritz sobreviveram a Guerra.

Fritz Vincken no Havaí.
Fritz Vincken no Havaí no final da década de 1990.

Seu marido faleceu em 1963 e Elizabeth em 1966. Fritz Vincken se casou em 28 de fevereiro 1958 e logo após emigrou para o Canadá, depois Estados Unidos, onde foi morar em Honolulu, Havaí, onde montou uma padaria. Durante anos Fritz tentou encontrar os sete soldados, mas sem sucesso. Ele chegou até a escrever um texto pessoal de suas lembranças sobre aquela noite nas Ardenas, mas nunca publicou.

Um dia Fritz narrou a sua incrível história para uma revista americana e depois apareceu na televisão em março 1995, em um programa chamado “Unsolved mysteries” (Mistérios não resolvidos), onde novamente narrou sobre aquela noite de Natal verdadeiramente interessante.

Na cidade de Frederick, Maryland, na casa de repouso chamada Northampton Manor Nursing Home, estava Ralph Henry Blank, um pedreiro aposentado e veterano da Segunda Guerra Mundial, que inúmeras vezes, e para várias pessoas, tinha contado a mesma história. Logo, seus familiares fizeram contato com o canal televisivo.

Ralph e Fritz Vincken.
Ralph e Fritz Vincken.

Em janeiro de 1996, Fritz foi até Maryland e reencontrou Ralph em um momento muito emocional. Lá ele soube que além de Ralph, os outros soldados se chamavam Jimmy Rassi e Herbie Ridgin. Consta que Fritz Vincken ainda conseguiu se encontrar com outro dos americanos, mas não consegui descobrir qual deles era. Em relação aos alemães, apesar desta história ter sido divulgada pela imprensa, nada se conseguiu saber destes combatentes.

Nesta história vemos que a força interior de uma única mulher, através de sua inteligência e intuição, em um momento onde o espírito de Natal mostra a sua luz, impediu um potencial derramamento de sangue. Transmitindo o significado prático das palavras: “boa vontade para com a humanidade”.

Ralph Henry Blank  faleceu aos 79 anos, em Frederick, Maryland, no dia 21 de maio de 1999. Já Fritz Vincken, depois de viver vários anos em Honolulu, Havaí, faleceu no dia 10 de janeiro de 2002, aos 69 anos, na cidade de Salem, Oregon.

Desejo a todos que visitaram o nosso TOK DE HISTÓRIA um FELIZ NATAL!

Mais sobre a força do espírito de Natal entre combatentes, veja este relato sobre interessantes fatos ocorridos em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial – https://tokdehistoria.wordpress.com/2013/04/30/5606/

Fontes – http://pulpitbytes.blogspot.com.br/2007_01_01_archive.html

http://jrackman.wordpress.com/2011/12/13/truce-in-the-forest-seeing-the-bigger-picture/

http://the.honoluluadvertiser.com/article/2002/Jan/11/ln/ln37a.html

http://ba-ez.org/educatn/LC/OralHist/vincken.htm

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25 CURIOSIDADES SOBRE A HISTÓRIA DO NATAL

 

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Fonte – http://www.historiadigital.org/curiosidades/25-curiosidades-sobre-a-historia-do-natal/

Dia 25 de dezembro, comemoramos o Natal. Por ser uma tradição cultural, esta festa se manifesta de diferentes formas no mundo, dependendo da região ou mesmo religião. Para conhecer um pouco mais sobre esta data comemorativa, conheça 25 curiosidades sobre a história do Natal.

Esta lista foi extraída e adaptada do Guia dos Curiosos – (http://guiadoscuriosos.com.br/)

– Na Europa, antigamente, as pessoas deixavam a porta de casa aberta durante a noite para que viajantes e pessoas pobres pudessem participar da ceia de Natal. Até hoje, a refeição é o momento de confraternização entre amigos e familiares. No Brasil, o prato mais tradicional é o peru assado.

Fonte - icarjcriadolerj.blogspot.com
Fonte – icarjcriadolerj.blogspot.com

– A criação da Missa do Galo é atribuída a São Francisco de Assis, que teria construído o primeiro presépio em 1224, na cidade de Greccio, na Itália. O ato era seguido de uma missa e, como os galos cantavam às primeiras horas da madrugada, o povo deu a essa celebração o nome de Missa do Galo.

– Há uma lenda que diz que foi um galo que anunciou o nascimento de Cristo. O animal cantou exatamente à meia-noite de 24 de dezembro, horário e dia que o rebento nasceu. Em Portugal, Espanha e Brasil, havia o costume de levar um galo à missa. Se ele cantasse, era sinal de bom agouro para o próximo ano.

– A canção natalina Noite Feliz nasceu na Áustria, em 1818. O padre Joseph Mohr saiu atrás de um instrumento que pudesse substituir o antigo órgão da igreja. Em suas peregrinações, começou a imaginar como teria sido a noite em Belém, fez anotações, e procurou o músico Franz Gruber para criar a melodia.

Frei Pedro Sinzig (1876-1952) - Fonte - http://www.franciscanos.org.br
Frei Pedro Sinzig (1876-1952) – Fonte – http://www.franciscanos.org.br

– A versão brasileira da canção também foi feita por um religioso: o Frei Pedro Sinzig. Também nascido na Áustria, em 1876, veio morar na cidade de Salvador, na Bahia, em 1893. O frei naturalizou-se brasileiro em 1898 e se destacou como um grande incentivador da música religiosa no país.

– A maioria das versões sobre a procedência da árvore de Natal indica a Alemanha como seu país de origem. A mais aceita atribui a novidade ao padre Martinho Lutero. Ele montou um pinheiro enfeitado com velas em sua casa, para mostrar às crianças como deveria ser o céu na noite do nascimento de Cristo.

Martinho Lutero - Fonte - www.recantodasletras.com.br
Martinho Lutero – Fonte – http://www.recantodasletras.com.br

– Outra versão atribui a criação ao anglo-saxão Vilfrido. Ele teria ido pregar o cristianismo na Alemanha e teria usado a figura triangular de um pinheiro para explicar a Santíssima Trindade. A partir de então, a árvore passou a ser reverenciada como uma planta divina.

– A tradição de relacionar árvores a divindades vem da mitologia grega. As plantas, para o gregos, intermediavam o céu e a terra e simbolizavam a evolução e a elevação do homem. O carvalho homenageava Júpiter; a oliveira, a deusa Minerva; e a videira, o deus Baco. Para os chineses, o pinheiro significa longa vida.

– Já na Roma antiga, existia o costume de pendurar máscaras de Baco em pinheiros para comemorar uma festa chamada de Saturnália, que coincidia com o nosso Natal. Na Europa, durante o século 12, havia a tradição de pendurar um pinheiro no teto das casas, de ponta-cabeça, como símbolo da fé cristã.

848, em Inglaterra, uma ilustração com a família real inglesa em Windsor, junto  à árvore de Natal, é publicada no Illustrated London News - Fonte - http://relvateresa.blogspot.com.br/2011/12/arvore-de-natal.html
Imagem inglesa de 1848, com a família real inglesa em Windsor, junto a árvore de Natal. Foi publicada no Illustrated London News – Fonte – http://relvateresa.blogspot.com.br/2011/12/arvore-de-natal.html

– Foram os ingleses quem popularizaram a árvore de Natal. Eles tomaram contato com a tradição por volta de 1850. Quando o príncipe Albert se casou com a rainha Vitória, ela começou a montar árvores majestosas em sua residência de férias na ilha de Wight. A população passou a imitá-los.

– Natal é uma festa cristã, sendo encarado de forma diferente por outras religiões. Os hinduístas reconhecem Cristo como um avatar (encarnação de Vishnu, uma das principais entidades divinas). O dia 25 de dezembro é reservado à comemoração da Festa das Luzes  pois, neste dia, o nascimento da luz venceu a escuridão.

Muçulmanos hindus na festa do Eid al-Adha em Nova Deli - Fonte - blogs.sacbee.com
Muçulmanos hindus na festa do Eid al-Adha em Nova Deli – Fonte – blogs.sacbee.com

– Para os muçulmanos, Cristo é uma espécie de profeta, mas os fieis não possuem uma data especial para comemorar seu nascimento. As duas principais festas da religião são a Eid el-Fitr, celebração do desjejum realizada após o Ramadã, e o Eid el-Adha, que marca o encerramento da peregrinação a Meca.

– Os judeus não reconhecem Jesus Cristo como Filho de Deus e, portanto, não comemoram seu nascimento. No período do Natal, eles realizam o Chanuká, ou a Festa das Luzes. Ela relembra a reinauguração do Grande Templo de Jerusalém, reconquistado pelos judeus após 3 anos de guerras.

– Como entendem que festas de aniversário são um costume pagão, as Testemunhas de Jeová não fazem nenhuma comemoração no dia 25 de dezembro. Apesar de prestarem devoção a Cristo, eles preferem negligenciar a data.

Caracterização de Ogum - Fonte - gustavoserrate.wordpress.com
Caracterização de Ogum – Fonte – gustavoserrate.wordpress.com

– Em algumas religiões afro-brasileiras, como a Umbanda, existe um forte sincretismo religioso, que associa figuras cristãs às suas entidades, como o caso de São Jorge (Ogum). Esta religião associa Cristo a Oxalá, maior de todos os Orixás. No dia 25 de dezembro, os umbandistas agradecem à entidade.

– No Brasil, o Natal se manifesta de forma diferente nas várias regiões. Em algumas áreas do nordeste, nesta época, encena-se a Chegança, a luta entre cristãos e mouros que ocorria durante a Idade Média. Na Paraíba, a Chegança recebeu o nome de “barca”.

Chegança do Almirante Negro, Maricá, Rio de Janeiro - Fonte - http://roselypellegrino.wordpress.com/
Chegança do Almirante Negro, Maricá, Rio de Janeiro – Fonte – http://roselypellegrino.wordpress.com/

– No nordeste também são encenados os Autos de Quilombolas. Com danças e cânticos, procura-se reconstituir os quilombos, núcleos povoados por escravos fugitivos no século XVII. São representadas duas guerrilhas: uma de índios, outra de negros aquilombados.

– No Pará, existe uma tradição chamada Círio de Nazaré, que consiste em uma procissão realizada no segundo domingo de outubro, na capital Belém, em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré. Os paraenses dão a ele uma importância equivalente à do Natal. Preparam ceia com pratos típicos e trocam presentes.

– Os fandangos são danças rurais regionais, divididas em dois grupos: as batidas, apresentadas só por homens sapateando forte; e as valsadas (ou bailadas), em que casais arrastam os pés no chão. São representados na época do Natal. No Sul e no Sudeste, recebe o nome de marujada.

Folia de Reis em Minas Gerais - Fonte - http://www.reidaverdade.net/
Folia de Reis em Minas Gerais – Fonte – http://www.reidaverdade.net/

– Durante a Folia de Reis, homens caracterizados de Reis Magos saem pelas ruas das cidades do interior de todo o país e param nas casas onde há presépios. Cantam, dançam e abençoam a família com uma bandeira que representa o anúncio do nascimento de Jesus.

– Em países africanos, acontece no Natal uma cerimônia chamada Kwanzaa para agradecer a boa colheita. Na ocasião, acende-se uma vela para cada um dos 7 princípios necessários para o sucesso: união, auto-determinação, trabalho coletivo e responsabilidade, economia cooperativa, propósito, criatividade e fé.

– Na Alemanha, quatro domingos antes do Natal, as famílias mantêm a tradição de fazer a Coroa do Advento, formada por quatro velas. A cada domingo, uma vela é acesa. A árvore é decorada com os pfefferkuchen, bolachinhas recobertas de glacê colorido.

Natal em Bangladesh - Fonte - mwww.asianews.it
Natal em Bangladesh – Fonte – mwww.asianews.it

– Em Bangladesh, , os cristãos plantam bananeiras para decorar a entrada de casas e de igrejas. Fazem arcos utilizando folhas das bananeiras e pedaços de bambu. Depois, colocam óleo e “forram” as paredes das casas, de modo que elas fiquem cheias luz.

– Na Bélgica, São Nicolau (como Papai Noel é conhecido por lá) visita a casa das crianças para saber quem se comportou direitinho. Dois dias depois, ele volta para pôr presentes em cestinhas que meninos e meninas deixaram perto da porta. Algumas crianças colocam junto cenouras para alimentar as renas de Papai Noel.

– Na China, são montadas árvores artificiais nas casas, decorando-as com enfeites feitos de papel, como flores e lanterninhas. As crianças penduram meias na sala e ficam à espera de Papai Noel, que é chamado de Dun Che Lao Ren (“Homem velho do Natal”, em chinês).

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FOTO HISTÓRICA – A CRIMINOSA DE 1 ANINHO E 11 MESES

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Esta foto foi capturada em 1893, na França.

Esta belíssima imagem da coleção de Suzanne Winsberg, mostra uma criança (Françoise) de apenas 1 ano e 11 meses de idade fichada como criminosa.

O crime: a gula. O menino estava devorando umas peras de uma cesta alheia.

Fonte – https://www.facebook.com/historiadigital

QUASE 20 ANOS APÓS SURGIR O INTERESSE, FINALMENTE DILMA COMPRA CAÇAS SUECOS PARA A FAB

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Si vis pacem, para bellum – Provérbio latino

Ainda em 1994, o governo brasileiro começou a procurar interessados em oferecer um novo avião de caça e superioridade aérea para substituir os Mirage e os F-5, adquiridos no início da década de 1970. Bem, depois de uma epopeia, uma verdadeira saga a coisa se definiu. Depois de aberto a licitação foram outros dez anos de discussão contínua. Finalmente hoje a presidente Dilma Rousseff decidiu pela aquisição de caças Gripen NG, da empresa sueca Saab, para a FAB (Força Aérea Brasileira), no âmbito do programa FX-2.

É um final surpreendente para a disputa, que teve ao longo do segundo governo Lula o francês Dassault Rafale como o principal favorito –o avião chegou a ser anunciado como escolhido pelo presidente e seu colega Nicolas Sarkozy em 2009, mas o governo brasileiro recuou após a insatisfação da FAB, que não havia sido consultada sobre a decisão.

Contra o Rafale sempre pesou a questão do preço: seu pacote inicial chegava a US$ 8 bilhões, embora descontos tenham sido negociados. No governo Dilma Rousseff, os americanos e seu Boeing F/A-18 passaram à dianteira por causa de sua oferta comercial mais atraente, de declarados US$ 7,5 bilhões mas com diversas compensações. Entre estas estavam um avião presidencial igual ao utilizado por Obama, outros aviões militares e, se não me engano, até alguns navios para nossa Marinha. A Boeing chegou a associar-se com a Embraer para vender o seu novo cargueiro KC-390.

Só que o escândalo da espionagem da Agência Nacional de Segurança americana, que incluiu Dilma no rol das autoridades alvo de arapongagem, derrubou politicamente o F-18.

Com isso, o pequeno Gripen, avião criticado por ser menor do que os concorrentes e menos testado em combate, voltou à condição de favorito que a própria FAB havia declarado em seu primeiro relatório sobre a escolha, em dezembro de 2009. O pacote de 36 aviões foi oferecido por US$ 6 bilhões, mas a compra pode acabar em torno de US$ 5 bilhões.

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ENTENDA O CASO

As discussões para a aquisição de um novo caça de superioridade aerea tinha se iniciado desde 1994. Em 2001, na gestão Fernando Henrique Cardoso, foi aberto o programa F-X para substituir os caças de interceptação da FAB (Força Aérea Brasileira). O Mirage-2000 francês, o Sukhoi-35 russo e o Gripen sueco disputavam a preferência.

Após Lula assumir em 2003, o processo foi congelado e, depois, encerrado. Foi reaberto como F-X2 para a compra de 36 novos caças supersônicos com capacidade múltipla (interceptação, combate e ataque a solo), 28 de um lugar e 8 de dois, para substituir gradualmente todos os modelos em operação (Mirage, F-5, AMX). Foram escolhidos o Gripen, o Rafale (França) e o F-18 (EUA). Os russos ficaram de fora.

Em 2009, um relatório técnico da Força Aérea deu preferência ao Gripen, da Suécia. O ex-presidente Lula, contudo, chegou a anunciar publicamente, durante festividades do 7 de setembro, que o Rafale havia vencido. Ele recuou depois e o processo parou novamente.

Com a posse de Dilma em 2011, o processo foi retomado e o F-18 americano tornou-se favorito. Só que as denúncias de espionagem americana contra o governo do Brasil interromperam as negociações.

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CRONOLOGIA

1994 Governo começa a procurar interessados em oferecer um novo avião de caça e superioridade aérea para substituir os Mirage e os F-5

Jul.2001 FHC lança programa de modernização da FAB, de US$ 3,54 bilhões em 7 anos. F-X é a prioridade, com US$ 700 milhões

Ago.2001 Edital é lançado. Sukhoi, Mirage, F/A-18, F-16, MiG-29, Eurofighter e Gripen são oferecidos

Out.2001 ”Short-list” decidido, já sem F/A-18 e Eurofighter, muito caros

Nov.2002 FHC deixa decisão para o sucessor

Jan.2003 Projeto adiado sob alegação de que combate à fome é prioritário; tudo é reexaminado

Out.2003 Processo é reaberto e fabricantes refazem propostas

Abr.2004 Reunião do Conselho de Defesa para decidir o caso é adiada indefinidamente

Fev.2005 Concorrentes recebem carta anunciando fim do F-X

Abr.2005 Russos, suecos, americanos e franceses refazem propostas alternativas de compra direta ou aluguel

Jul.2005 Governo assina memorando para aquisição na França de 12 Mirage-2000C/B

2006 FAB começa a receber novas propostas para os caças, e o programa ganha o nome de F-X2

Out.2008 FAB exclui o Sukhoi-35 (Rússia) e o Eurofighter (EADS). Ficam na disputa o Saab Gripen NG, o Boeing F/A-18 e o Dassault Rafale

Jan.2009 A Folha revela que a FAB dá preferência ao pacote do Gripen

Set.2009 Lula anuncia a compra do Rafale de forma atabalhoada. Recua em seguida

Dez.2009 FAB faz novo relatório, ajustado para aprovar todos os aviões, mas mantém preferência pelo Gripen

Jan.2011 Dilma assume e adia a decisão. Nos próximos dois anos, os americanos ganham terreno

Mai.2013 Boeing assina acordo com a Embraer para vender avião cargueiro brasileiro, virando favorita absoluta ao negócio

Jul.2013 As revelações da espionagem americana contra Dilma e outras autoridades derruba politicamente as chances da Boeing

Dez.2013 O governo escolhe o Saab Gripen

A partir do texto – http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/12/1387333-dilma-decidiu-pela-aquisicao-de-cacas-suecos-para-a-fab.shtml

NOSSA PARTICIPAÇÃO NO CADERNO ESPECIAL SOBRE OS 55 ANOS DE CRIAÇÃO DO MUNICÍPIO DE PARNAMIRIM

Capa do caderno especial do jornal "Potiguar Notícias"
Capa do caderno especial do jornal “Potiguar Notícias”

Autor – Rostand Medeiros

Recentemente recebi um convite do qual fiquei muito honrado e gratificado.

O jornalista José Pinto Junior, apresentador do programa televisivo “Conexão Potiguar”, transmitido pela TV Bandeirantes de Natal e diretor do periódico “Parnamirim Notícias”, me chamou para escrever em um caderno especial, comemorativo aos 55 anos de fundação do município de Parnamirim e encartado em seu jornal.

José Pinto Junior apenas me pediu para escrever algo diferente sobre a base de Parnamirim Field, embrião da criação e do desenvolvimento deste que hoje é o terceiro município em termos populacionais do Rio Grande do Norte (229.000 habitantes – IBGE 2013).

Lançado o desafio aceitei sem nenhum problema. Na verdade me senti muito gratificado, pois escrever sobre a grande base de Parnamirim Field, ou sobre outros fatos da história do Rio Grande do Norte durante o período da Segunda Guerra Mundial não é nenhum sacrifício, é antes um grande prazer. Além disso, desde 1999 eu sou um tranquilo habitante de Parnamirim, onde moro no bairro de Nova Parnamirim, na Avenida Maria Lacerda Montenegro.

Este caderno especial foi publicado hoje (13/12/2013) no “Potiguar Notícias”, que a 15 anos circula nesta progressista cidade potiguar. São duas páginas e meia onde nosso artigo foi postado na integra, junto com seis fotos, algumas inéditas.

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Para este trabalho decidi trazer à tona a visão que a imprensa internacional tinha da base de Parnamirim Field. Quais eram as impressões dos jornalistas estrangeiros sobre esta estratégica área militar.

A partir de pesquisas que realizei, percebi que a partir do encontro histórico entre os presidentes dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt e do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas, em 28 de janeiro de 1943, a bordo do navio de guerra americano USS Humboldt, ancorado no estuário do Rio Potengi, a imprensa norte americana passou a dar uma maior visibilidade sobre a participação prática e efetiva do Brasil na guerra e a apresentar ao público americano como ajudávamos o esforço de guerra Aliado. Um dos focos da atenção dos jornalistas foi a importância de Parnamirim Field, então considerada uma das maiores bases aéreas construídas fora dos Estados Unidos e uma das principais encruzilhada das rotas aéreas no mundo. Debrucei-me principalmente sobre o trabalho de dois jornalistas estrangeiros, um norte americano e outro australiano.

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Um deles foi James Alan Coogan, creio que o primeiro jornalista estrangeiro a transmitir estas informações ao público norte americano. Natural da cidade de Milwaukie, Oregon, este norte americano era o chefe do escritório da respeitada agência de notícias United Press para a América do Sul. Sobre Parnamirim Field ele produziu várias reportagens que foram reeditadas em diversos jornais estadunidenses e brasileiros em janeiro e fevereiro de 1943.

Já o outro periodista era o australiano J. A. Marris, da revista semanal “Western Mail”, da cidade de Perth, a capital e maior cidade do estado australiano da Austrália Ocidental. Sua reportagem, intitulada “Skayway Base”, foi divulgada na edição de quinta feira, dia 20 de janeiro de 1944 desta revista. Merris utilizou no texto uma linguagem bem clara, onde detalhou a importância estratégica de Parnamirim Field e um dia em meio ao intenso movimento aéreo.

Reportagem publicada na revista australiana “Western Mail”, sobre Parnamirim Field.
Reportagem publicada na revista australiana “Western Mail”, sobre Parnamirim Field.

Sua experiência aconteceu durante uma viagem aérea em direção aos Estados Unidos, vindo da África. Na reportagem “Skayway Base” fica evidente para este repórter australiano que Parnamirim Field era a mais importante engrenagem aérea em sistema de grande circulação de material e armas de guerra.

Em meio a interessantes impressões sobre a base, J. A. Marris reproduziu um interessante comentário de um observador realista, que muito sintetiza a importância de Parnamirim; “Certamente Hitler daria dez de suas divisões em troca daquele lugar”.

CARTAS QUE MUDAM A HISTÓRIA

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Quando se pensa que não há mais nada para se descobrir sobre a monarquia brasileira, eis que surge correspondência inédita de Dom Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança. São 42 cartas, de uma coleção particular, que fazem referência aos eventos pré-queda da monarquia, à evolução da doença do príncipe (ele morreu louco, em 1934, na Áustria) e às desavenças entre o Conde d’Eu e seus sobrinhos. Vale lembrar que, se não fosse a proclamação da República, em 1889, o príncipe tinha grandes chances de se tornar D. Pedro III. Filho da princesa Dona Leopoldina, caçula de Dom Pedro II, ele era o neto preferido do imperador.

Segundo sua biógrafa, Mary del Priore, as cartas vão ajudar a entender um pouco mais sobre o segundo ramo dinástico da família imperial brasileira – que reina na Bélgica até os dias de hoje. E também auxiliarão a historiadora na preparação de um filme baseado em seu livro O Príncipe Maldito, que ficará pronto em 2014. O longa fará parte das homenagens aos 80 anos da morte de Dom Pedro Augusto.

O lote inteiro (incluindo a foto acima, tirada em Cannes, em 1888) foi colocado à venda no site Estante Virtual.

Fonte – http://blogs.estadao.com.br/sonia-racy/cartas-que-mudam-a-historia/

FEB BOTANDO ORDEM!

Seria este o tanque M-4 Sherman surrupiado pelos brasileiros, para dar o troco aos americanos?
Seria este o tanque M-4 Sherman surrupiado pelos brasileiros, para dar o troco aos americanos?

A história que segue é para muitos uma lenda, para outros aconteceu de verdade. Se verdadeira, foi a maior tiração de onda que deve ter ocorrido entre tropas Aliadas. Uma grande fuleiragem dos brasileiros contra os americanos em plena Itália, durante a Segunda Guerra Mundial.

A Tropa americana que dividiu acampamento com a FEB (Força Expedicionária Brasileira) em 1944, nem imaginava o pelotão casca-grossa que estava a seu lado.

O pelotão da FEB chega a uma clareira no Vale Garfagnana, no Norte da Itália.

O acampamento fica próximo a outro pelotão aliado, formado por uma divisão americana e alguns poucos soldados ingleses. As barracas brasileiras estão a cerca de 200m do acampamento aliado, mas há liberdade total de ir e vir entre os soldados, que tentam se enturmar.

Os brasileiros percebem que coisas estão sumindo da dispensa da tropa. Caixas com latas de comida, rapadura, cachaça, cobertores e até munição desaparecem.

Os responsáveis pela cozinha pedem para falar com o comandante e reclamam. Soldados americanos foram vistos rondando as barracas. O coronel brasileiro foi falar com os oficiais americanos e recebe como resposta risadas “Isto aqui é uma guerra, não um colégio. Os homens estão tensos, precisam extravasar seus instintos. Vocês que saibam proteger seu material e pronto” e a reunião é encerrada. Contrariado, o comandante brasileiro retorna e relata o encontro a seus soldados.

Ao terminar, fica um pouco em silêncio, enquanto os homens resmungam e cochicham. “Essas são as regras. Quer dizer, não há regras aqui. Façam então o que devem fazer”, conclui o comandante.

Dias depois, o oficial americano visita os brasileiros e, humilde, pede: “Quanto aos alimentos, às roupas e às munições, tudo bem.

Mas, por favor, devolvam nosso TANQUE!”

Retirado do blog:segundaguerrademochilao

#Shm0tzVinicius Meneghel ADM Fatos Desconhecidos — com Italo Della Garza.

SÚPLICA CEARENSE

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Decifre se for capaz! Requerimento assinado em 1744 por padre de vila no Ceará pede ao rei de Portugal, D. João V, para comprar ornamentos e paramentos para a igreja da vila, em situação de miséria devido à seca 

Autor – Expedito Eloísio Ximenes

O original deste documento, datado de 20 de agosto de 1744, encontra-se no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa. Mas não é difícil acessar sua versão fac-similada nos arquivos públicos dos estados brasileiros.

O texto se inicia pelo vocativo Senhor abreviado, e as 22 linhas do documento são preenchidas até o fim da margem direita, com espaços regulares entre as linhas, ao fim das quais aparece a assinatura do reverendo padre João Saraiva de Araújo. Na margem esquerda inferior, há uma informação que parece escrita por outra mão. Na margem superior, dois despachos do Conselho Ultramarino – com seis rubricas dos conselheiros no primeiro, e quatro no segundo. À esquerda, mais duas informações escritas por outras pessoas.

A escrita é a humanista, em vigor desde o século XVI, de fácil leitura por sua simplicidade, apesar das variações conforme o grau de conhecimento e o estilo de quem escreve. O traçado é regular e inclinado para a direita, mas as hastes de algumas letras são caídas para a esquerda – caso da letrad. Em finais de palavras, a letra sapresenta uma cauda longa para a esquerda, semelhante ao formato doj interno, como nas palavras paramentos e hajão. No início e no meio de palavras, porém, o s tem formato diferente. O f tem formato semelhante ao L maiúsculo, como na palavra Leal, masé escrito da linha para cima, enquanto o L é da linha para baixo; da parte inferior do traçado vertical puxa-se outro para a esquerda formando um ângulo reto, como em falta e fallencia. A letra h tem forma de E maiúsculo, o grafemar no início de palavra tem formato grande e muitas vezes se confunde com maiúsculo.

Os escribas costumavam juntar as palavras clíticas – pronomes oblíquos, preposições e conjunções – com as palavras que seguem. A conjunção aditivae se emenda à palavra seguinte em casos como eoutros, e a preposição de, em degadosedoque.

O requerimento é bem escrito, com linguagem culta e um discurso convincente. A grafia não apresenta muitas variações, pois o autor tem bom domínio da língua por tratar-se de um padre com boa formação. Há falta de acentuação em algumas palavras e uso de letras maiúsculas desnecessárias, ocorrências típicas do período em que não havia normas ortográficas.

Expedito Eloísio Ximenes – é professor da Universidade Estadual do Ceará e autor de Fraseologias Jurídicas: estudo filológico e linguístico do período colonial (Appris, 2013).

Igreja de Nossa Senhora da Expectação (Matriz de Icó) na década de 1920. Construção que remonta ao século XVIII
Igreja de Nossa Senhora da Expectação (Matriz de Icó) na década de 1920. Provavelmente foi neste local que este documento histórico pode ter sido produzido. A construção deste templo remonta ao século XVIII

Quando a seca é real

O requerimento assinado pelo padre João Saraiva de Araújo, da vila do Icó, no centro-sul do Ceará, é um pedido ao rei de Portugal, D. João V, para comprar ornamentos e paramentos para a igreja da vila, em situação de miséria devido à seca. Ele pede melhores condições de trabalho para administrar a vida espiritual dos vassalos de Sua Majestade, para que não lhes falte o “pasto espiritual”. O Ceará era uma das capitanias mais pobres do Brasil Colônia.

Além da situação caótica da vila do Icó, o documento é um testemunho da relação entre Igreja e Estado, quando os religiosos eram funcionários da Coroa e dela dependiam para tudo. O monarca era quase onipresente em qualquer rincão de seus domínios.

Primeira construção edificada na cidade de Icó, por volta de 1709. Época de grandes agitações e bravas lutas, entre as famílias, Montes e Feitosas, que com prestígios e bravura defendiam suas terras. Por ocasião de uma destas lutas, a filha do coronel Francisco Monte e Silva, foi assassinada. A esposa deste bravo pioneiro, sensibilizada por sepultar sua filha em pleno campo doou 1 légua de terra e mandou erigir uma capelinha para servir de túmulo a sua filha, sob invocação de Nossa Senhora do Ó. Também por essa época, o lugar antes chamado Icó dos Montes passou a ser conhecido como Arraial, depois Sítio Nossa Senhora do Ó. Hoje a capelinha que serviu de túmulo para os dominantes daquela época, é a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Expectação. Duas grandes reformas sofreu a capela para se tornar a então matriz de hoje, uma em 1785 e outra em 1911. No ano de 2000 a Igreja Matriz foi restaurada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, e devolvida à comunidade local em 15 de abril e 2000. A sua padroeira é Nossa Senhora da Expectação. Faz parte do Patrimônio Histórico Nacional.  Fonte:http://cdlico.com - Fonte da foto - aldecyalves.blogspot.com.br/2012/01/igrejas-do-ceara-vii-patrimonio.html
Primeira construção edificada na cidade de Icó, por volta de 1709. Época de grandes agitações e bravas lutas, entre as famílias, Montes e Feitosas, que com prestígios e bravura defendiam suas terras. Por ocasião de uma destas lutas, a filha do coronel Francisco Monte e Silva, foi assassinada. A esposa deste bravo pioneiro, sensibilizada por sepultar sua filha em pleno campo doou 1 légua de terra e mandou erigir uma capelinha para servir de túmulo a sua filha, sob invocação de Nossa Senhora do Ó. Também por essa época, o lugar antes chamado Icó dos Montes passou a ser conhecido como Arraial, depois Sítio Nossa Senhora do Ó. Hoje a capelinha que serviu de túmulo para os dominantes daquela época, é a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Expectação. Duas grandes reformas sofreu a capela para se tornar a então matriz de hoje, uma em 1785 e outra em 1911. No ano de 2000 a Igreja Matriz foi restaurada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, e devolvida à comunidade local em 15 de abril e 2000. A sua padroeira é Nossa Senhora da Expectação. Faz parte do Patrimônio Histórico Nacional.
Fonte:http://cdlico.com – Fonte da foto – aldecyalves.blogspot.com.br/2012/01/igrejas-do-ceara-vii-patrimonio.html

Solução do “Decifre”

Haja vista o procurador da fazenda. Lisboa, 23 de janeiro de 1745.

[Rubricas dos conselheiros do Conselho Ultramarino]

Informe o provedor da fazenda real de Pernambuco

com seu parecer. Lisboa, 10 de fevereiro de 1745.

[Rubricas dos conselheiros do Conselho Ultramarino]

Este requerimento é de

graça a que Sua Majestade

deferirá como for servido.

[Rubrica – não é possível identificar]

Senhor

Provido no benefício de cura desta freguesia de Nossa Senhora da

Expectação do Icó, capitania do Ceará Grande, por provimento

de meu Prelado e Excelentíssimo Bispo de Pernambuco, entrei a exercer

o ofício pastoral, e tomando posse do curato no ano de mil sete-

centos e quarenta e dois achei a Igreja Matriz tão falta de

ornamentos, e paramentos necessários para cinco altares com o maior

e outras tantas portas com a principal, e um púlpito, que já

os não tem capazes com que se celebrem os sacrifícios nas festas

solenes, e ofícios funerais, sendo motivo e causa a grande pobre-

za desta terra, na qual suposto hajam alguns efeitos de gados

vacum e cavalar, estes há bastante anos não rendem dinheiro pela

falência do negócio, além de estar muito destruída, e vexada com secas

e esterilidades que tem experimentado, à vista do que brevemente ficará

o povo sem o pasto espiritual, se Vossa Majestade como monarca tão

zeloso do culto divino não posar os olhos de sua benigna piedade

e clemência em tanta necessidade, provendo a dita matriz com os ditos

ornamentos, e paramentos por esmola, para maior honra de Deus,

e salvação de seus católicos vassalos. Vila do Icó, 20 de agosto

de 1744.

Os pés de Vossa Real Majestade

os beija o mais  reverente  e leal vassalo

João Saraiva de Araújo

Do cura do Icó

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/decifre/suplica-cearense

Sobre a Igreja Matriz de Icó – CE – http://iconacional.blogspot.com.br/2008/10/ic-cear-brasil-igreja-de-nossa-senhora.html

UMA MÚMIA EGÍPCIA QUASE VAI PARA O LIXO EM PARIS

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A Fundação do Patrimônio da França lançou uma campanha de angariação de fundos para conseguir mais de 15 mil euros para a urgente reparação de uma múmia encontrada no ano de 2001.

De acordo com moradores da comuna de Rueil-Malmaison (no departamento de Hauts-de -Seine, a oeste da capital francesa), a história é digna das mais fantásticas lendas egípcias. Aparentemente em 2001, uma mulher desconhecida chegou a um local onde são colocados recipientes para reciclagem e perguntou a pessoas que trabalham nesta área onde poderia jogar alguns pacotes volumosos, dentre estes um bem alongado. “É um morto?” Alguém brincou. “Não, é uma múmia”, ela disse.

Decidiram chamar o pessoal do Museu do Louvre e estes determinaram que a descoberta era real, sendo uma legítima múmia egípcia que remonta há mais de dois mil anos. No pequeno caixão de madeira clara, com o comprimento 92,5 centímetros, a radiografia revelou um esqueleto bem preservado e envolto em ataduras. Algumas inscrições funerárias permitiram aos egiptólogos até mesmo dar um nome a esta garota que devia pertencer à classe média : Ta- Iset , que significa em honra da deusa Isis.

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Quem a possuiu ao longo dos anos e por que se livraram dela? Quem a trouxe para a França e quando? Estes são alguns dos mistérios que cercam a mortalha venerável do que aparentemente é uma menina de quatro ou cinco anos de idade, que nasceu entre o final do período ptolomaico, a chegada dos romanos no Egito (século III aC – primeiro século dC), nas margens do Nilo.

De acordo com as especulações dos historiadores, este tesouro poderia ter vindo do Egito através do general Noël Varin-Bey (1784-1863), um oficial de Napoleão Bonaparte, que serviu durante duas décadas ao serviço do vice-rei do Egito, Mehmet Ali. Consta que o militar francês ajudou a fundar em Giza uma escola de cavalaria e tornou-se general do exército egípcio. Ao retornar a França em 1857, o já veterano Bey se estabeleceu na região de Rueil-Malmaison, trazendo Iset Ta como uma lembrança de sua longa estadia no antigo país dos Faraós. Em seguida, seus herdeiros, sem saber o que fazer com lembrança tão excêntrica tentaram se livrar dela.

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Agora cabe ao Centro de Pesquisa e Restauração dos Museus da França (C2RMF ) baseados em Versalhes, a restauração da múmia. A restauração da tem um custo de 15.450 euros, a maior parte suportada pelo governo (9.000 euros). O restante montante deverá ser financiado pela população, impulsionada pela Fundação do Patrimônio da França, através da internet, quando a história ficou conhecida.

20 FATOS SOBRE A HISTÓRIA DO SEXO

Sexo-Mesopotamia

O sexo acompanha o ser humano em toda a evolução. Apesar de nossos antepassados e todos nós termos nascidos a partir de um ato sexual, o tema ainda é motivo de polêmica e taboo em várias culturas e/ou religiões ocidentais e orientais. Com o objetivo de conhecermos a forma como nossos ancestrais encaravam o tema, confira 20 fatos sobre a história do sexo.

– Estudos feitos por arqueólogos em objetos e pinturas rupestres indicam que os seres humanos na Pré-História já distinguiam sexo de reprodução, usavam cosméticos naturais para incrementar a paquera, faziam sexo em posições diferentes e usavam até mesmo métodos anticoncepcionais.

– As posições sexuais variavam. Uma imagem encontrada em Ur, na Mesopotâmia, datada de 3200 a.C., mostra a mulher por cima, posição também encontrada em obras de arte da Grécia, do Peru, da China e da Índia. Uma outra imagem mostra a mulher sentada com as pernas levantadas para facilitar a penetração.

– No Paleolítico, os machos dominantes se casavam com várias mulheres, seguindo o comportamento de animais polígamos, como bisão e veado. Já no Neolítico, a monogamia passa a ser predominante. Observando o estilo de vida dos animais domesticados, os homens passaram à monogamia.

– Não faltam exemplos da prática da masturbação na Pré-História: há de estátuas a bastões fálicos talhados em madeira ou em pedra. Uma das estátuas, de Malta, mostra uma mulher se masturbando de pernas abertas por volta de 4000 a.C. Outra retrata um homem no ato em 5000 a.C.

– Os homens usam plantas medicinais há pelo menos 40 mil anos. Arqueólogos desconfiam que plantas do gênero Aneilema eram usadas para evitar a gravidez, enquanto a borragem provavelmente já era usada para amenizar os sintomas da tensão pré-menstrual nas mulheres e como afrodisíaco para os homens.

Sexo-Venus-Willendorf

– Pesquisadores apontam que a atividade homossexual masculina e feminina é comum em mais de 200 espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes e insetos, o que poderia indicar que também era praticada pelos homens pré-históricos.

– O sexo entre homens e animais – a zoofilia – também era praticada. Há uma pintura rupestre de cerca de 3000 a.C., em Val Camonica, na Itália, que mostra um homem copulando com um asno! Já na Sibéria aparecem imagens de homens copulando com alces.

– Os homens faziam estátuas eróticas que podem ser consideradas ancestrais da pornografia. A mais famosa é conhecida como Vênus de Willendorf: uma mulher de nádegas e peitos grandes com traços de corante vermelho, encontrada em uma região ocupada há 40 mil anos atrás.

– Na hora da paquera, o homem pré-histórico já tinha à disposição cosméticos feitos de plantas, como a hena, usada nos cabelos. Sabe-se que extratos de beladona eram usados para dilatar as pupilas e, assim, chamar mais a atenção. Havia ainda pigmentos avermelhados, que destacavam partes da pele.

– Quando o homem virou bípede, o corpo passou a ter novos focos de atração sexual. Os peitos das mulheres, únicas fêmeas entre os primatas que têm seios permanentemente grandes, passaram a ser tão atrativos quanto a bunda. O ser humano passou a ser um dos poucos animais que fazem sexo cara a cara.

Sexo-Roma-Antiga

– Na Antiguidade, a prostituição era regulamentada, o divórcio começou a existir e havia até deuses do sexo! Os romanos, por exemplo, prezavam tanto o sexo que havia uma lei para desincentivar o celibato: a solteirice e a falta de filhos eram punidos, e as pessoas cheias de herdeiros tinham privilégios.

– Os conhecimentos sobre a atividade sexual começaram a se aprimorar com Hipócrates, considerado o pai da medicina. Os romanos também estudavam o corpo humano e já conheciam algumas doenças venéreas, como a gonorreia, termo cunhado por Galeno no século 2.

– Os gregos e romanos eram monogâmicos – no império de Diocleciano, em Roma, a bigamia foi declarada ofensa civil. Mas os greco-romanos descobriram que o amor nem sempre é eterno: foi nessa época que surgiu o divórcio. As mulheres adúlteras podiam ser condenadas à morte.

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– Em Roma, as posições sexuais apareciam em pinturas, mosaicos e objetos de uso cotidiano, como lamparinas, taças e até moedas. Em uma face, ficava a posição sexual, e, na outra, um número. Para alguns historiadores, as moedas eram fichas de bordel, e as posições com penetração tinham números maiores.

– na Grécia e na Roma antigas, a masturbação era vista como natural. No Egito, a masturbação era até parte do mito da criação. Um dos ditos piramidais afirma que Aton, o deus do Sol, teria criado o deus Shu e a deusa Tefnut através do sêmen de sua masturbação!

– Casais de homem com homem e mulher com mulher eram comuns na Grécia. Havia até mitos para explicar a origem da pederastia, a relação entre homens maduros e jovens: o primeiro dizia que Orfeu, um dos seres da mitologia grega, acabou se apaixonando por adolescentes depois que sua mulher, Eurídice, morreu.

– O grego Hipócrates achava que o útero poderia deslocar-se pelo corpo da mulher em busca de umidade e poderia chegar até o fígado! Mas ele também deu bolas dentro: calculou a duração da gravidez em 10 meses lunares (cerca de 290 dias do nosso calendário), tempo parecido com os 9 meses atuais.

Orfeu-Euridice

– Os galanteios dos romanos seguiam um manual: o livro A Arte de Amar, do poeta Ovídio, escrito entre 1 a.C. e 1 d.C. Entre as dicas, estava o uso do goró: “O vinho prepara os corações e os torna aptos aos ardores amorosos”. Recomendava: “Esconda os defeitos e, o quanto possível, dissimule suas imperfeições físicas”.

– A legislação sexual romana era polêmica! Eram puníveis com a morte: adultério cometido pela esposa, incesto e relação sexual entre uma mulher e um escravo. No estupro, a punição sobrava até para a vítima – se não gritasse por socorro, a virgem poderia ser queimada viva.

– Em Roma, as prostitutas eram registradas e pagadoras de impostos, se vestiam com tecidos floridos ou transparentes, e, por lei, não podiam usar a estola, veste das mulheres livres, nem a cor violeta. Os cabelos deviam ser amarelos ou vermelhos.

Pintura da Idade Média
Pintura da Idade Média

– Na Idade Média, o orgasmo não tinha nada a ver com um prazer racional; era considerado uma força incontrolável. O corpo feminino era considerado mais suscetível ao pecado e à corrupção, necessitando da vigilância maculina. Não se costumava ficar completamente nu, nem para fazer sexo.

– O centro de uma casa nobre era um casal procriador, cercado de filhos solteiros, parentes e agregados. Porém, o adultério era comum nas famílias nobres e a poligamia era praticada e até admitida. Segundo a literatura, numa casa repletas de irmãs, sogras, tias, primas e cunhadas, só podia rolar incesto.

– A noite de núpcias poderia acontecer antes da cerimônia oficial do casamento, porque os noivos já estavam comprometidos pelo desponsatio, a partir do qual a noiva se tornava responsabilidade do marido e se mudava para o novo lar.

– No período medieval, um único leito não servia apenas ao casal, mas também a filhos e parentes. Ou seja, era cama famliar e não de casal, o que causava grandes preocupações morais. Cortinas podiam isolar a área destinada ao senhor. Quem tinha mais riqueza e poder, mantinha seus criados íntimos num quarto vizinho.

– O rapto de mulheres era corriqueiro até o século XII. Frequentemente, era feito com a concordância da mulher ou instigado por ela. Tratava-se de um modo de fazer valer a vontade dos pombinhos contra um casamento arranjado ou um meio de uma mulher se livrar de um mau marido.

Espartilho

– Os cabelos longos eram obrigatórios para as mulheres. Porém, como as longas madeixas tinham grande poder erótico, deveriam sempre ser trançadas. Todas as mulheres que não fossem prostitutas ou meninas, bem como as casadas quando saíam do quarto, deveriam cobrir as tranças com touca.

– Os costumes medievais recatados continuaram na Idade Moderna, mas a Reforma Protestante ajudou a tornar alguns deles menos rígidos. O divórcio, por exemplo, que era proibido pelo catolicismo, passou a ser aceito na Igreja Anglicana.

– A partir deste período, mudarm os padrões de beleza – mulheres com cinturas fina e seios fartos passaram a ser as mais desejadas. No século XVI, surgiu o espartilho, peça de roupa que projetava o peito da mulherada para cima e afinava suas cinturas.

Sexo-Cortesas

– De 1545 a 1563, o Concílio de Trento tornou a Igreja a responsável pelo casamento – antes, os casamentos eram só civis, e aconteciam em casa mesmo. A partir daí, passaram a acontecer diante de um membro da igreja.

– No século XVI, o pintor italiano Giulio Romano pintou uma série de 16 desenhos para um livro de sonetos obscenos de Pietro Arentino, retratando várias posições sexuais. Em um dos quadros, um homem de joelhos segura uma mulher, que está na diagonal e com uma das pernas sobre seu pescoço.

– As pinturas de Giulio Romano são fichinha comparadas ao Kama Sutra, que foi escrito provavelmente entre os séculos 3 e 4, mas só foi popularizado no Ocidente a partir de 1883, quando ganhou uma tradução em inglês. O livro contém a descrição de 529 posições sexuais.

– Mesmo com a pena de morte por enforcamento, os homossexuais não deixavam de sair do armário. No século 18, começaram a surgir vário bordéis masculinos na Inglaterra, as “molly houses” (“molly” era a palavra em inglês para “efeminado”).

Imagem do livro Les Bijoux Indiscrets, de Diderot.
Imagem do livro Les Bijoux Indiscrets, de Diderot.

– As prostitutas eram chamadas de cortesãs e seus quartos eram cheios de pentes, caixas de pó e frascos de perfume. Havia dois tipos de cortesãs. Algumas atendiam em casa e tinham uma agente, a alcoviteira, que buscava clientes nas ruas. Havia ainda as que trabalhavam em bordéis, tabelados pelo estado.

– A paquera às moças solteiras tinha data para acontecer. Nas noites de 30 de abril, árvores parecidas com pinheiros, chamadas maio, eram plantadas diante das casas das moças. Plantas espinhosas eram dedicadas às garotas orgulhosas e o sabugueiro, que exala mau odor, era uma forma de debochar das pobrezinhas.

– Os casamentos por amor, e não apenas por interesse, passaram a se tornar mais comuns, assim como o hábito de trocar cartas entre apaixonados. Muitas cartas tinham códigos secretos – o rei Henrique IV, que governou a Inglaterra de 1399 a 1413, usava, por exemplo, o $ em seus textos quando queria esconder algo.

– Na escola, todos já ouviram falar de Rousseau e Voltaire. Esses intelectuais do Iluminismo também escreviam pornografia. Na era moderna, tornaram-se comuns livros de contos eróticos. Voltaire escreveu o livro Candide, que tem alguns textos eróticos, enquanto Diderot fala de sexo em Les Bijoux Indiscrets.

– As leis mais humilhavam que puniam. O adultério, por exemplo, era punido na França com um desfile dos maridos traídos e das mulheres traidoras. Os homens eram obrigados a montar um asno e passear pela cidade usando chifres, enquanto as mulheres adúlteras tinham que montar em um asno, cobertas de penas.

– Em 1495, os soldados franceses em Nápoles dão sinais de tumores genitais. É o início da sífilis na Europa, uma das piores doenças sexuais modernas. Só em 1527,  é empregada pela primeira vez a expressão doença venérea, por Jacques Bethercourt.

– Por volta de 1550, o médico italiano Gabriel Fallopius descreveu os órgãos reprodutivos femininos, e um deles ganhou seu nome: as trompas de Falópio, hoje chamadas de tubas uterinas. A invenção da camisinha moderna também é creditada a Fallopius e ocorreu nessa década.

– Em 1554, o médico alemão Johannes Lange descreve uma doença bizarra: a clorose, que atacava quem não fizesse sexo. Entre os sintomas, letargia e palidez. O tratamento para curar a doença, obviamente, era a prática sexual.

Livro-Breve-Historia-Sexo

Se você gostou desta lista, sugerimos a leitura do livro Uma breve história do Sexo, de Claudio Blanc, mostra ao leitor como a sociedade encarou o sexo desde os tempos mais longínquos da Pré-História, acompanhando as diferentes alterações passadas pelas concepções no decorrer da linha do tempo.

FONTES – http://www.historiadigital.org/curiosidades/20-fatos-sobre-a-historia-do-sexo-parte-i/ – http://www.historiadigital.org/curiosidades/20-fatos-sobre-a-historia-do-sexo-parte-ii/

UM HERÓI DA RAF EM MALTA QUE CRESCEU EM RECIFE

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Viveu Muitos Anos na Capital Pernambucana e Era Torcedor do Sport Club Recife

Autor-Rostand Medeiros

Recentemente estive mais uma vez naquele que, em minha opinião, é o maior templo da memória da região Nordeste, o Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

No centenário edifício na Rua do Imperador, localizado no centro do Recife, está uma das mais importantes hemerotecas do país. Apesar de prioritariamente abrigar a memória pernambucana, pessoas de outros estados da região sempre encontram muito material interessante, com boas histórias para contar.

Fachada do Arquivo Púbico do Estado de Pernambuco - Fonte - http://www.cliografia.com/
Fachada do Arquivo Púbico do Estado de Pernambuco – Fonte – http://www.cliografia.com/

Ao buscar realizar uma coleta de dados para um trabalho sobre a Segunda Guerra Mundial, me deparei com inúmeros e interessantes materiais. Daí surgiu à história, na verdade um epitáfio, de um jovem inglês chamado Thomas Peter Logan Griffith. Comentava que ele já havia morado em Recife, possuía família naquela bela cidade, era bem conhecido da sociedade local e havia morrido em combate em Malta.

Forte Ligação Inglesa Com Pernambuco

Thomas Peter Logan Griffith, ou Tom Griffith, nasceu em 09 de junho de 1917, em Cringleford, Norfolk. Era filho de Thomas Logan Griffith e Lucy Irene Beryl Blomfield, mas sua família tinha uma antiga e forte ligação com o Brasil. Seu avô se chamavaa Thomas Comber Griffith, representante em Recife da empresa de navegação Price Line Ltd, era casado com Isabel Clara Prangley, uma típica inglesa de Norfolk, mas com um nome tipicamente português. Eles tiveram dois filhos nascidos em Recife e outros que casaram nesta cidade.

Isso não era nenhuma novidade, pois os súditos da coroa inglesa sempre mantiveram fortes laços com Pernambuco. Assim como o avô e o pai de Tom Griffith, muitos destes estrangeiros exerciam cargos em empresas inglesas existentes em Pernambuco e espalhadas pelo Nordeste. Era o caso da Western Telegraph Company, da Pernambuco Tramways and Power Company, da Great Western of Brazil Railway Company (que possuía ramal ferroviário até Natal), da Telephone Company of Pernambuco, do Bank of London & South America, do London & River Plate Bank, da Price Waterhouse, da Machine Cotton, White Martins e de outros mais.

Os ingleses exerciam inegável influência entre a elite social pernambucana, divulgando seus hábitos, suas comidas, suas bebidas, sua maneira de vestir e seus esportes tradicionais, principalmente o “foot-ball”.

Vamos encontrar o pai de Tom Griffith como membro da equipe de futebol do Sport Club do Recife, participando de um jogo histórico; a primeira peleja do chamado Leão da Ilha contra o arquirrival Clube Náutico Capibaribe, um dos clássicos mais antigos do futebol nacional.

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O jogo aconteceu na tarde de 25 de julho de 1909, um domingo, no campo do Pernambuco British Club e o resultado foi 3 x 1 para o Náutico, com participação decisiva de Thomas Logan Griffith no único gol da equipe rubro-negra. Consta que Thomas L. Griffith transmitiu sua paixão pelo rubro negro da Ilha do Retiro a todos os seus familiares e assistia aos jogos com seus filhos.

Vivendo em Recife

Durante a Primeira Guerra Mundial vamos encontrar a família Logan Griffith na Inglaterra. Segundo a reportagem existente no periódico recifense “Jornal Pequeno”, após o fim deste conflito a família retorna a capital pernambucana, onde Tom Griffith passa toda sua infância e adolescência, sempre muito bem ambientado.

Recife no passado - Fonte - http://chicomiranda.wordpress.com/
Recife no passado – Fonte – http://chicomiranda.wordpress.com/

Após o falecimento do avô de Tom Griffith em 1921, a representação da empresa de navegação Price Line Ltd continua com seu pai, com escritório na Rua Bom Jesus, número 220, sala 5, 2º andar. Esta rua é a antiga Rua dos Judeus, onde durante o período da dominação holandesa no Brasil (1630-1654) foi ali fundada a primeira sinagoga das Américas.

Aparentemente Thomas Logan Griffith foi naturalizado brasileiro, pois em 1934 chegou a ser designado pelo então presidente Getúlio Vargas, delegado da Diretoria de Estatística Econômica e Financeira do Tesouro Nacional em Pernambuco.

Segundo pudemos apurar os Logan Griffith residiam na Rua Padre Inglês, 314, bairro da Boa Vista, Recife, próximo as tradicionais escolas evangélicas Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil e a Escola de Trabalhadoras Cristãs, atual Seminário de Educação Cristã-SEC. Não podemos esquecer que no bairro da Boa Vista, a Rua Padre Inglês ganhou fama por hospedar diversos súditos do Império Britânico.

 Tom Griffith
Tom Griffith em uniforme da RAF

Após o início a Segunda Guerra Mundial, muitos jovens de origem britânica que moravam no Brasil, nascidos ou não em nosso país tropical, ingressaram nas forças armadas de Sua Majestade e seguiram para várias áreas de combate. Tom Griffith foi um deles.

O Cerco de Malta

Apesar de servir na RAF – Royal Air Force (Real Força Aérea), a função de Tom Griffith não era no ar, mas no mar. No final de 1939 ele fazia parte da tripulação de uma lancha de alta velocidade do RAF Marine Craft, o também conhecido RAF Marine Craftum grupo de elite que se arriscava dia e noite com a função de salvar vidas.

Barco HSL 130 da RAF realizando o salvamento em alto mar.
Barco HSL 130 da RAF realizando o salvamento em alto mar. Era neste tipo de barco que Tom Griffith servia.

Acredito, mas sem comprovação, que este jovem inglês vindo de Recife testemunhou os episódios épicos da Retirada de Dunquerque e participou de salvamento de pilotos durante a Batalha da Inglaterra. De certo sabemos que o destino de Tom Griffith foi o arquipélago de Malta, onde participou ativamente da defesa deste importante bastião estratégico Aliado no meio do Mar Mediterrâneo.

Este lugar é habitado (e cobiçado) há tantos séculos, que as estruturas sobreviventes dos templos megalíticos em Ġgantija, Hagar Qim e Mnajdra, são consideradas algumas das mais antigas estruturas construídas pelos homens no mundo. Entre 800 a 218 antes de Cristo, Malta foi colonizada pelos fenícios e cartagineses e em seguida passou a fazer parte do Império Romano. Consta que no ano 60 depois de Cristo, o apóstolo Paulo naufragou próximo ao arquipélago e sobreviveu. Segundo o folclore local, a partir daí Paulo converteu os habitantes locais ao cristianismo. Depois os árabes chegaram em 870 e sua presença teve uma considerável influência sobre a agricultura e a linguagem maltes.

Foto de satélite mostrando as ilhas de Gozo, Comino (a menor) e Malta ( a maior) - Fonte - odysseyadventures.ca
Foto de satélite mostrando as ilhas de Gozo, Comino (a menor) e Malta ( a maior) – Fonte – odysseyadventures.ca

Depois veio uma sucessão de conquistadores até o ano de 1530, quando as ilhas foram entregues aos Cavaleiros da Ordem de São João, uma organização religiosa cruzada fundada em Jerusalém. Em 1798 o arquipélago de Malta caiu sob o domínio de Napoleão. Dois anos depois os ingleses ajudaram a libertar estas ilhas e tornou o lugar uma pequena parte do Império Britânico. Ali eles construíram uma grande e estratégica base naval.

Durante a Segunda Guerra Mundial o arquipélago maltes sofreu um pesado cerco aéreo e naval.

Posição estratégica de Malta na área do Mediterrâneo
Posição estratégica de Malta na área do Mediterrâneo

Com o envio de forças alemãs do Afrika Korps para o Norte da África, comandadas pelo marechal-de-campo Erwin Rommel, a estratégica Malta adquiriu um papel fundamental no conflito. Deste ponto os britânicos podiam corta grande parte todo o abastecimento nazifascista vindo da Europa para a África e Rommel rapidamente reconheceu sua importância.

Aspecto do resultado dos bombardeios em Valletta, capital de Malta
Aspecto do resultado dos bombardeios em Valletta, capital de Malta

Para provocar a derrota deste bastião estratégico os alemães e italianos decidiram forçar a submissão de Malta através de bombardeios e da fome, atacando seus portos, estradas, cidades e linhas marítimas de suprimentos. As forças aeronavais da Alemanha e da Itália nazifascistas realizaram mais de 3.000 bombardeios num período de dois anos, tornando Malta uma das áreas mais bombardeadas da Segunda Guerra Mundial.

Muita Ação Violenta

Tom Griffith ficou lotado na base da RAF em Kalafrana (ou Calafrana), um centro de operações de hidroaviões na Baía de São Paulo, extremo sul de Malta e principal casa dos grandes hidroaviões quadrimotores Short Sunderland. Neste local seu barco era uma lancha do tipo HSL, de 63 pés, com o seu armamento focado principalmente para defesa contra aviões. Normalmente possuía duas torres com metralhadoras gêmeas Vickers 0,303, um canhão Oerlikon de 20 milímetros e metralhadoras Browning ponto 50.

Uma lancha HSL e um avião Hurricane
Uma lancha HSL e um avião Hurricane

Durante aquele período Tom Griffith viu muita ação. Praticamente todos os dias a Luftwaffe e a Regia Aeronautica realizavam suas “visitas” a Malta. Eram ataques que começavam no início do dia e se prolongavam até ao entardecer. No dia 4 de fevereiro de 1942, uma terça feira, não foi diferente.

Segundo o diário do reverendo Reginald M. Nicholls, Chanceler da St.Paul’s Anglican Cathedral, na cidade de Valletta, o “expediente” daquele dia começou por volta das nove e meia da manhã, quando dois ou mais caças foram vistos ao norte de Malta. Depois do meio dia um grupo de seis Hawker Hurricane, dos esquadrões da RAF 249 e 126, decolaram do aeródromo militar de Ta Kali (ou Ta ‘Qali) e interceptaram ao sul de Kalafrana alguns bombardeiros médios alemães JU-88, sendo um dos inimigos avariados e sem perdas para os ingleses.

Hawker Hurricane - foi um dos mais famosos aviões de caça britânicos da Segunda Guerra Mundial. Fator de preservação de Malta nas mãos dos aliados.
Hawker Hurricane – foi um dos mais famosos aviões de caça britânicos da Segunda Guerra Mundial. Fator de preservação de Malta nas mãos dos aliados.

Às três da tarde, vindas do norte, um grupo de aeronaves inimigas atacam com grandes bombas o campo de Ta Kali, deixando muitos danos e crateras na pista.

Ataque Mortal

Nesse meio tempo partiu da base de Kalafrana a lancha HSL 129, com a missão de realizar um resgate perto da ilha de Filfla, ao sul de Malta. Comandava o barco rápido o tenente F. Nicolls, junto com os tripulantes Tom Griffith, Gerry R. King, Thomas L. Nielsen, Jock Muir, Dennis Whittaker, o cabo Cooper e o ajudante Norton.

Ilustração do artista Thierry Dekekr de um Messerschmitt Bf 109 também conhecido como Me 109, do Jagdgeschwader 53
Ilustração do artista Thierry Dekekr de um Messerschmitt Bf 109, também conhecido como Me 109, do Jagdgeschwader 53

Após o ataque a Ta Kali um grupo de aviões de caça alemães Mercheshimit ME-109, provavelmente do Jagdgeschwader 53 (JG 53), sobrevoam a região de Benghisa Point, onde localizam a HSL 129 próximo a Filfla e passam a atacá-la impiedosamente.

Em meio a fuzilaria, aos rasantes dos caças alemães, ao revide das armas do barco e a fuga em ziguezague da HSL 129, a matança foi pesada. O tenente Nicolls foi atingido no estômago, caiu na casa do leme, mas veio a sobreviver. Gerry King foi para uma das torres de tiro e logo foi morto com um petardo na cabeça. Já o primeiro timoneiro Nielsen foi morto no leme. Tom Griffith, que estava na torre de tiro traseira, mesmo disparando sem cessar, foi gravemente ferido e morreu. Outros três tripulantes ficaram feridos.

Ilha de Filfla, onde em suas proximidades a HSL 129 onde estava Tom Griffith foi atacada pelos caças alemães.
Ilha de Filfla, onde em suas proximidades a HSL 129 onde estava Tom Griffith foi atacada pelos caças alemães.

Em dado momento os aviões alemães partiram da sua rapinagem e nenhum deles foi derrubado.

O cabo Cooper, mesmo com uma mão cortada no punho e esvaindo-se em sangue, conseguiu com a outra mão pilotar a HSL 129 danificada de volta para Kalafrana, aonde este barco chegou praticamente destruído. Apesar dos ingleses estarem em guerra a quase três anos, de Malta ser atacada naquela época todos os dias, os relatos dão conta que, diante do estado em que se encontrava a lancha na base de Kalafrana e as mortes dos tripulantes, muitos militares daquela unidade ficaram chocados com o resultado do ataque dos ME-109.

Lanchas HSL
Lanchas HSL

Mais tarde, pela sua coragem, o cabo Cooper foi condecorado, mas considerado inválido e colocado fora do serviço militar.

Uma Mensagem Dos Seus Pais

O sacrifício deste torcedor inglês do Sport Club Recife não foi em vão. Os comboios Aliados foram capazes de sustentar e reforçar Malta, enquanto a RAF defendia seu espaço aéreo à custa de imensas perdas vitais e materiais. Depois os Aliados desembarcaram tropas no Marrocos e Argélia, o que obrigou Rommel a desviar suas forças para estas regiões e os ataques contra Malta foram reduzidos. O cerco ao arquipélago maltes terminou efetivamente em novembro de 1942.

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A lápide de Thomas Peter Logan Griffith é uma das 719 existentes no Cemitério Naval de Kalkara, conhecido como Cemitério Capuccini, onde repousam os combatentes britânicos que morreram durante a Segunda Guerra Mundial na defesa de Malta e região. Junto a este inglês que cresceu em Recife repousam os seus companheiros de infortúnio King e Nielsen.

Mas é apenas na lápide de Tom Griffith que se encontra os dizeres “Until we meet again beloved son” (Até que nos encontremos de novo filho amado).

VEJA TAMBÉM A HISTÓRIA DE UM COMANDANTE DE BOMBARDEIRO B-17 QUE VEIO DO RIO DE JANEIRO – https://tokdehistoria.wordpress.com/2012/12/07/4574/

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ARQUEOLOGIA – ACERVO DO RN TEM 500 MIL PEÇAS

Peças de estudos arqueológicos encontradas no RN ficam no Laboratório de Arqueologia do Museu Câmara Cascudo - Foto - Alex Regis - Fonte - http://www.tribunadonorte.com.br/
Peças de estudos arqueológicos encontradas no RN ficam no Laboratório de Arqueologia do Museu Câmara Cascudo – Foto – Alex Regis – Fonte – http://www.tribunadonorte.com.br/

Quem visita o laboratório de arqueologia do Museu Câmara Cascudo faz uma viagem ao passado. Dentro de caixas, prateleiras e em cima de mesas de trabalho, estão guardadas, segundo estimativas do professor Luiz Dutra – responsável pelo setor – mais de 500 mil peças descobertas em aproximadamente 1.500 sítios arqueológicos já identificados no Rio Grande do Norte. Isso não é tudo. Além da instituição comandada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), há peças arqueológicas depositadas na Universidade Estadual do RN (UERN).

Luiz Dutra explica que, na última década, houve um salto significativo na quantidade de áreas arqueológicas identificadas em território potiguar. “Em 2000, fiz um levantamento no que estava catalogado e havia apenas 100 sítios cadastrados. Implantei um projeto na UFRN e conseguimos multiplicar esse número”, diz.

Os números não são precisos. A Universidade não dispõe de um curso de graduação em Arqueologia e a equipe do professor Luiz Dutra é restrita. “Em contrapartida, há um volume extenso de trabalho no Estado”, coloca.

Arquelógico

O resultado das escavações da Alasca Arqueologia em João Câmara e Extremoz será encaminhado para o Museu. É o Iphan o órgão responsável por indicar onde os vestígios do homem serão depositados. “Para começar o estudo, é necessário a autorização por parte do Iphan porque o empreendimento está intervindo num bem da União, que é o sítio arqueológico.

Depois de publicado essa portaria no Diário Oficial, o arqueólogo vai a campo fazer a pesquisa e, se ele descobrir os sítios, haverá uma segunda fase da pesquisa que será determinada de acordo com a importância desse sítio. Por fim, o material é encaminhado para uma instituição. No RN, o normal é que vá para UFRN ou UERN”, explica Onésimo Santos.

Bom trabalho

O superintendente do Iphan diz ainda que o volume de trabalho representativo em terreno potiguar é explicado por alguns fatores. Um deles é o bom relacionamento entre Iphan e Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

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“O Iphan-RN tem um bom entendimento com o Idema e Ibama. Somos um bom exemplo para o Brasil. Em outros Estados há mais empreendimentos, mas a interação entre os órgãos ambientais não é bem articulada”, justifica.

Contratação de estudo arqueológico é obrigatório

A contratação de estudo de arqueologia é uma obrigação de toda empresa antes de iniciar qualquer empreendimento em áreas remotas dos grandes centros urbanos. É preciso autorização do Iphan para iniciar as atividades sob pena de responder civil e criminalmente. No Rio Grande do Norte, não é comum a desobediência à lei, no entanto, há casos de empresas que, literalmente, passam o trator por cima das recomendações e começam a construção sem a análise do solo.

O último caso registrado ocorreu há dois anos, no município de Guamaré, a 165 quilômetros de Natal. Após denúncia do Iphan, Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal do RN apuram um suposto crime cometido pela empresa Brasventos Aratuá Geradora de Energia S.A. A empresa é acusada de destruir um sítio arqueológico localizado na comunidade conhecida como “Alegria”, no município litorâneo.

De acordo com informações repassadas pela assessoria de imprensa da Polícia Federal, a denúncia chegou à mesa do delegado responsável pela caso em janeiro deste ano. A denúncia do Iphan ocorreu em outubro de 2011.

O delegado já indiciou o proprietário da empresa, mas ele ainda não foi ouvido pois mora em São Paulo.   A empresa é acusada de infringir o que diz a Lei número 9.605, de 1998, mais especificamente o artigo 62. A pena para esse tipo de crime é reclusão, de um a três anos, e multa.

Linhas de transmissão

Os sítios encontrados em João Câmara e Extremoz estão localizados em áreas onde vão ser instaladas subestações e linhas de transmissão de energia eólica no Rio Grande do Norte. A obra está atrasada. Segundo a Chesf, a razão do atraso é a dificuldade para obter autorizações de proprietários de terra para instalar as torres em suas áreas.

A companhia também justifica o atraso com o  fato de ter encontrado resquícios arqueológicos. Com as mudanças no cronograma, a linha que interligará Extremoz à João Câmara será ‘energizada’ – ligada à rede – apenas em janeiro de 2014 e a que ligará Paraíso (Santa Cruz) à Lagoa Nova, só em julho do próximo ano. A primeira linha deveria ter sido entregue ainda em junho de 2012 e a segunda, de acordo com o último cronograma apresentado, em maio de 2014. Ambas, no entanto, estão atrasadas em mais de um ano, se considerados os prazos originais.

Fonte – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/acervo-do-rn-tem-500-mil-pecas/267970

FAROESTE CABOCLO – TIROS E MORTE NO SENADO FEDERAL

O momento do disparo. A foto rendou Prêmio Esso ao fotógrafo Efraim Frajmund em 1964
O momento do disparo. A foto rendou Prêmio Esso ao fotógrafo Efraim Frajmund em 1964

Há 50 anos, o senador Arnon de Mello, de dentro do plenário, disparou contra desafeto político

Em 4 de dezembro de 1963, o Senado foi palco de um acerto de contas. A rixa entre os senadores alagoanos Silvestre Péricles e Arnon de Mello, acabou em tiros e morte. “Há anos que o Sr. Silvestre Péricles me insulta e me ameaça”, justificou em sua defesa o senador Arnon de Mello o autor de três disparos contra Pericles, que chegou a sacar sua arma, mas não disparou.

Os disparos de Melo não atingiram o alvo, mas um tiro atingiu o suplente de senador José Kairala. O político acreano estava no seu último dia de suplência, após seis meses no cargo. Morreu horas depois no hospital.

Arnon de Mello, pai do ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello, não foi punido porque dispunha de imunidade parlamentar.

No dia seguinte aos tiros, o jornal detalhou que o senador Silvestre também sacou sua arma.  Indicado pela seta, o senador Kaiala, a vítima fatal do conflito
Indicado pela seta, o senador Kaiala, a vítima fatal do conflito

Prêmio. O fotógrafo Efraim Frajmund conseguiu registrar toda a sequência do conflito (ver imagem abaixo) que começou com o discurso de Arnon de Mello na tribuna, de onde se defendeu das agressões do adversário, até a saída do plenário do senador Kairala. A foto do tiroteio recebeu o Prêmo Esso em 1964.

Autor – Carlos Eduardo Entini

Fonte – http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,tiros-e-morte-no-senado,9432,0.htm

O PRAZER NOSSO PELO CARRO NOVO – SÃO OS MILITARES AMERICANOS OS RESPONSÁVEIS POR ISSO?

Militares americanos e brasileiros da FAB no portão da guarda da base de Parnamirim Field.
Militares americanos e brasileiros da FAB no portão da guarda da base de Parnamirim Field.

Autor – Rostand Medeiros

O natalense de maneira geral gosta de carro novo?

Ah como Gosta!

Gosta tanto que em recente pesquisa divulgada pelo setor de Estatística do Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Norte (Detran/RN), o aumento no número de veículos no estado é maior que próprio crescimento populacional.

Segundo o site Nominuto.com, a pesquisa mostra que entre 2010, até outubro de 2013, a população norte-rio-grandense cresceu 6,5%, enquanto a quantidade de veículos automotores foi ampliada para a incrível cifra de 29,99% (para ver mais detalhes desta pesquisa veja http://nominuto.com/noticias/cidades/frota-de-veiculos-no-rn-cresce-quatro-vezes-mais-que-a-populacao/104434/).

Engarrafamento em Natal - Fonte - tribunadonorte.com.br
Trânsito em Natal – Fonte – tribunadonorte.com.br

A cada mês uma média superior a 2.500 veículos novos deixam as concessionárias e passam a circular nas ruas de Natal. Logicamente que este fluxo contínuo cria sérios problemas de mobilidade urbana.

Para quem dirige em Natal isso não é nenhuma novidade. Há uns quinze anos atrás se dizia que você atravessava toda a capital potiguar em parcos 20 minutos. Hoje, se você tiver um compromisso importante, dependo da hora e onde você mora, se não sair de casa com muita antecedência vai chegar atrasado.

Mas está errado as pessoas buscarem comprar um veículo novinho?

Não, de forma alguma! Além do ditado popular comentar que “tudo que é novo é bom”, para uma cidade que tem um terrível, anacrônico e atrasado sistema de transporte urbano, um veículo automotor privado acaba sendo uma necessidade em Natal.

Carros novos em Natal - Fonte - tribunadonorte.com.br
Carros novos em Natal – Fonte – tribunadonorte.com.br

Mas a questão que eu quero abordar não está na validade de se possuir um veículo, mas na intensa rotatividade e na quantidade de veículos novos que circulam aqui.

Uma História Sobre Rodas

Não sei quando o primeiro veículo automotor circulou pelas ruas de barro de Natal, certamente nos primeiros anos do século XX.

Poucos veículos circulavam por Natal nas primeiras décadas do séc. XX.
Poucos veículos circulavam por Natal nas primeiras décadas do séc. XX.

Mas sei que 483 veículos percorriam os caminhos do Rio Grande do Norte no ano de 1924. Em 1925 a quantidade passou para 539 e em 1926 chegou a 607 veículos. Neste último ano, exclusivamente em Natal, circulavam 218 dos chamados “modelos de autopropulsão”, para uma população em torno de 40.000 habitantes. Estes dados faziam parte de uma pesquisa a nível nacional do extinto Ministério da Viação, junto aos 1.407 municípios que oficialmente existiam no Brasil (ver jornal A República, pág. 3, 10 de julho de 1928).

Publicada em 1939, a Sinopse Estatística do Estado, produzida pelo Departamento Estadual de Estatística, traz na página 53 a informação que o número de automóveis de passeio, motocicletas, caminhões e veículos especiais circulando em Natal no ano de 1938 eram de 377 veículos, para uma população que superava 50.000 habitantes. Ou seja, de certa forma o crescimento foi proporcional durante algum tempo.

Natal vazia de veículos
Natal vazia de veículos

Mas em algum momento de nossa história isso mudou e dizem que os grandes responsáveis foram os americanos na época da Guerra.

Será?

E Os Americanos Chegaram…

Natal e o Rio Grande do Norte assistiram a grande máquina militar americana construir e utilizar as instalações da grande base de Parnamirim Field. Deste ponto estratégico, um dos aeródromos mais movimentados do mundo durante o conflito, partiam e chegavam centenas de milhares de militares Aliados em direção as áreas de combate.

Parnamirim Field
Parnamirim Field

Em Parnamirim Field e na Naval Air Station Natal (NAS Natal), que conhecemos como Rampa, uma cifra muito elevada de militares estadunidenses ficaram baseados durante certo período. Eram homens que trabalhavam em várias funções, exercendo muitas responsabilidades e num ritmo frenético.

Isso tudo são fatos mais que conhecidos. Entretanto existe a ideia que os militares estrangeiros em Natal tinham um grande número de veículos a sua disposição. Havia Fords, Chevrolets, Lincolns, Buicks e Mercurys, típicos sedans americanos da década de 1940. A maioria deles ostentando uma estrela branca nas laterais, padrão do exército americano.

Tripulação de uma B-17 em seus trajes de voo, recebendo instruções. Muitos destes aviões passaram por Parnamirim Field.
Tripulação de uma B-17 em seus trajes de voo, recebendo instruções. Muitos destes aviões passaram por Parnamirim Field.

Com o fim da guerra e a saída destas tropas de nossa terra, comenta-se que os americanos deixaram uma grande quantidade de materiais excedentes e que a maior parte dos materiais que aqui ficou eram veículos seminovos. Estes seriam carros com pouco tempo de uso e que foram vendidos por preços baixíssimos. Para alguns o preço teria sido uma verdadeira “mixaria”.

Logo vários natalenses estavam dirigindo veículos de ótima qualidade, ainda “cheirando a novo” e comprados por preços baixíssimos. Pessoas que andavam a pé, de bicicleta, ou de bonde, logo estavam rodando em um reluzente carrão americano, matando de inveja a vizinhança, principalmente quando ficavam lavando e limpado o possante por horas na porta de casa.

Seria Esta a Razão?

Pessoalmente nunca acreditei nesta versão.

Jipe na pista de Parnamirim Field.
Jipe na pista de Parnamirim Field.

Ao pesquisar o tema não descobri nas páginas do jornal potiguar “A República”, nenhuma referência, que os militares americanos publicaram convites a pessoas interessadas em participar da compra de lotes de carros de passeio.

Mas vamos partir do princípio que realmente os americanos venderam muitos destes tipos de carros por aqui. Aí logo surge uma questão básica – Militares em missões utilizam quais tipos de carros?

Parnamirim Field era um aeródromo que servia como um grande ponto de apoio para tropas e aviões.
Parnamirim Field era um aeródromo que servia como um grande ponto de apoio para tropas e aviões.

Concordo, até por possuir fotos do período, que os americanos tinham os tipos de veículos que supostamente venderam em quantidade e a preços baixos na nossa cidade. Provavelmente utilizavam estes carros no trajeto entre Natal e a base aérea, transportando oficiais de alta patente, autoridades, visitantes, jornalistas e outros. Mas certamente eram poucos veículos, pois o grosso da missão deles aqui era principalmente apoiar aeronaves militares. Para isso se utiliza jipes, caminhões de transporte, camionetes, caminhões de transporte de combustíveis, carros guinchos, ambulâncias e outros veículos especializados.

Sem Resposta,,,

Na busca de uma resposta fui atrás de quem conhece muito, embora ele diga que não, sobre a presença dos americanos no Rio Grande do Norte durante a Segunda Guerra Mundial. Entrei em contato com o amigo Laélio Ferreira de Melo para debatermos sobre o tema.

Parnamirim Field em 1944, Othoniel é o primeiro, em pé, à esquerda. Trabalhava no Posto de Engenharia.
Parnamirim Field em 1944, Othoniel é o primeiro, em pé, à esquerda. Trabalhava no Posto de Engenharia. Coincidentemente um veículo de passeio de fabricação americana está atrás das pessoas na foto – Fonte – glosandoomundo.blogspot.com.br

Laélio era garoto na época da Guerra, filho de Othoniel Menezes, que trabalhava na base de Parnamirim junto aos americanos. Othoniel Menezes é uma figura mais do que conhecida e respeitada no Rio Grande do Norte. Poeta, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras e criador dos versos da canção “Praieira”, de 1922, cuja musica foi composta pelo maestro Eduardo Medeiros no ano seguinte e considerada durante muitos anos a canção tradicional da cidade de Natal.

Laélio me comentou que seu pai trabalhava no posto de engenharia de Parnamirim Field e ocasionalmente o levava para ver o movimento na base. Para ele é fantasia esta história que os americanos venderam muitos veículos de passeio para os natalenses, até porque eles tinham poucos destes carros.  Corroborando minhas suspeitas, Laélio me confirmou que os americanos tinham principalmente utilitários, veículos militares e uns poucos carros de passeio utilizados no transporte de autoridades, principalmente Chevrolets ou Mercurys. Estes tinham realmente a estrela branca nas laterais, eram pintados com uma cor fosca e possuíam nos faróis materiais próprios para veículos que circulavam em áreas em regime de blackout.

Roosevelt e Vargas em Natal e de Jipe.
Roosevelt e Vargas em Natal e de Jipe.

Laélio me comentou que mesmo existindo estes poucos veículos, muitas autoridades circulavam pela cidade em veículos militares. Assim como os presidentes Franklin Delano Roosevelt e Getúlio Dorneles Vargas transitaram por Natal de jipe, Laélio testemunhou a passagem da Sra. Soong May-ling, esposa do general Chiang Kai-shek e primeira dama da República da China, passando próximo a Rua Felipe Camarão, no centro da cidade, sentada na traseira de um simples jipe.

Quando os americanos foram embora eles levaram o que puderam e venderam (mas não doaram) veículos para nossas forças armadas. Para Laélio somente anos depois estes mesmos veículos, já bastante usados, foram revendidos a particulares. Como nunca vi uma documentação que traga os números, e os tipos dos veículos negociados pelos militares americanos ao deixarem o Rio Grande do Norte, só posso concordar com o amigo Laélio.

Natal década de 1950
Natal década de 1950

Para mim o gosto dos natalenses pela frequente compra de veículos novos está ligado a outras razões, que não sei quais são. Mas sei que esta necessidade do carro novo já afundou muita gente em dívidas e infindáveis renegociações de financiamentos com juros acachapantes.

Aqui é comum se ver um tremendo carrão na porta, diante de uma habitação simples, onde normalmente não se encontra nenhum livro dentro dela.

P.S. – Sobre as memórias do amigo Laélio Ferreira de Melo durante o período da guerra em Natal, veja este interessante artigo de sua autoria. – http://www2.uol.com.br/omossoroense/220806/conteudo/laelio_ferreira.htm

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AS INCRÍVEIS FOTOS DE NAUFRÁGIOS INGLESES

A barca Mildred, que encalhou em 1912
A barca Mildred, que encalhou em 1912

O que dizer de uma família que ao longo de 125 anos, durante quatro gerações, realizou 1.360 imagens, de mais de 200 naufrágios ocorridos nas águas traiçoeiras da região da Cornualha e das ilhas de Scilly, no sudoeste da Inglaterra.

Pela qualidade das imagens, no mínimo obrigado!

A costa da Cornualha é conhecida como um dos locais mais perigosos para a navegação, um verdadeiro cemitério de navios e tripulações. Diante da frequência de desastres e das imagens dramáticas, o fotógrafo John Gibson fez a sua primeira fotografia de um naufrágio em 1869.

John fundou um pequeno negócio fotográfico familiar na década de 1860, mas foram seus filhos e inseparáveis ​​irmãos Alexander e Herbert que aperfeiçoaram a técnica de fotografar o drama cruel destes naufrágios.

o Glenbervie, que encalhou, de Glasgow,  sobre as rochas em Coverack logo após encalhar em 13 janeiro de 1902. Este desastre foi muito festejado.
o Glenbervie, que encalhou, de Glasgow, sobre as rochas em Coverack logo após encalhar em 13 janeiro de 1902. Este desastre foi muito festejado.

Se um navio encalhava na costa da Cornualha, um membro da família Gibson seria um dos primeiros na cena. Na coleção existem fotos como a do vapor alemão Schiller, de 3.500 toneladas, que em 1876 afundou deixando um rastro de 300 mortes. Mas os Gibsons fotografam casos de acidentes pitorescos e felizes, como a da barca britânica Glenbervie, que bateu em rochas na área de Coverack. Felizmente toda a tripulação foi salva e grande parte de sua carga de 600 caixas de uísque e 400 de brandy foi recolhida pela população local.

O Cviet que encalhou perto Porthleven em 1884 com a perda de três vidas.
O Cviet que encalhou perto Porthleven em 1884 com a perda de três vidas.

Muitas destas imagens foram destaque em jornais, revistas, cinema e na TV inglesa ao longo de décadas, bem como em livros de autores famosos, como John Le Carré .

Em novembro de 2013 esta magnifica coleção foi colocada à venda na conhecida casa de leilões Sotheby e adquirida pelo National Maritime Museum, um museu marítimo localizado em Greenwich, Londres, que pagou 122.500 libras pela coleção.

O Voorspoed de 1901.
O Voorspoed de 1901.

O estado do Granite destruído em Porthcurno em 1895
O estado do Granite destruído em Porthcurno em 1895

O barco britânico Cromdale bateu nas rochas em meio a névoa espessa em 1913. Transportava uma carga de nitrato do Chile.
O barco britânico Cromdale bateu nas rochas em meio a névoa espessa em 1913. Transportava uma carga de nitrato do Chile.

A Barca Hansey naufragou em 13 de novembro de 1911. Você pode ver claramente a navios de carga de madeira muito do que foi recuperada e usada localmente.
A Barca Hansey naufragou em 13 de novembro de 1911. Você pode ver claramente a navios de carga de madeira muito do que foi recuperada e usada localmente.

O Seine bateu em terra no dia 28 de dezembro de 1900. Vindo do Chile com uma carga de salitre e  a tripulação foi forçada a abandonar o navio em mar revolto. A barca era um desastre total e o que restou foi vendido por apenas 42 libras.
O Seine bateu em terra no dia 28 de dezembro de 1900. Vindo do Chile com uma carga de salitre, a tripulação foi forçada a abandonar o navio em mar revolto e o que restou foi vendido por apenas 42 libras.

A escunas Mary Barrow e Lizzie R Wilce encalharam  durante uma tempestade em janeiro de 1908. Ambos os navios estavam transportando carvão e conseguiram voltar a navegar.
A escunas Mary Barrow e Lizzie R Wilce encalharam durante uma tempestade em janeiro de 1908. Ambos os navios estavam transportando carvão e conseguiram voltar a navegar.

A família Gibson fotografou estes desastres marítimos durante quatro gerações
A família Gibson fotografou estes desastres marítimos durante quatro gerações

Fonte – http://www.bbc.co.uk/news/uk-england-24623410

1942-O PROTESTO DOS ESTUDANTES NATALENSES CONTRA O NAZISMO

War Brazil (31)

War Brazil (33)

Autor – Rostand Medeiros 

O dia 20 de junho de 2013 foi uma quinta feira para entrar na história de Natal, pois, segundo vários meios de comunicação, neste dia aconteceu a maior manifestação de protesto da história desta cidade. Este protesto era um dos que foram idealizados contra o aumento da tarifa de transporte coletivo urbano e ficou conhecido em todo o Brasil como “Revolta do Busão”.

Motivado pelo desejo de entender o que ocorria, de como pensavam as pessoas que lá estavam e ter a oportunidade de vivenciar um momento histórico na minha própria cidade, eu me fiz presente e não me arrependi de nada.

Em Natal estes protestos tiveram início em maio e detonaram, em maior ou menor escala, os demais protestos contra o aumento da tarifa de transporte em todo o país. Como se sabe estes grandes protestos ganharam as primeiras páginas dos principais jornais de todo o mundo. De acordo com o tabloide americano The New York Times, o povo de Natal teve importante papel nas mobilizações sociais que ocorreram em todo país.

Quando estava no asfalto da BR-101, no último dia 20 de junho, me pus a perguntar qual teria sido outra grande movimentação estudantil ocorrida no passado e que tenha mobilizado Natal desta forma?

A primeira coisa que lembrei foi a invasão da reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, na década de 1980. Na época eu era estudante secundarista e fui até a reitoria para acompanhar a mobilização dos universitários. Este movimento teve muita repercussão, mas o público era mais localizado na UFRN.

Movimento Revolta do Busão em Natal - Foto - Henrique Dovalle/G1
Movimento Revolta do Busão em Natal em 2013- Foto – Henrique Dovalle/G1

Mas logo veio a minha mente a participação de inúmeros estudantes na Praça Gentil Ferreira, quando houve um dos maiores comícios em termos proporcionais da capital potiguar, na chamada “Campanha das Diretas Já”. Aquele movimento mobilizou toda a nação em torno do livre direito dos brasileiros decidirem através do voto direto quem seria o seu presidente.

Tempos depois houve o movimento do impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, o conhecido “Fora Collor” da década de 1990, que levou milhares de pessoas as ruas vestidas de preto e com as faces pintadas nas cores verde e amarelo. Natal também se vestiu de preto e apoiou o movimento.

Estas lutas políticas com a participação dos estudantes tiveram seus méritos, mas se pensarmos sobre o momento em que o mundo vivia, nenhuma delas conseguiu superar em minha mente o movimento organizado pelos estudantes de Natal contra o Nazismo em 1942. Fato ocorrido antes mesmo dos principais afundamentos de navios brasileiros que motivaram oficialmente a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Tempos Difíceis

No primeiro semestre de 1942 o mundo estava em franca convulsão, a três anos a Segunda Guerra Mundial havia sido deflagrada e as forças nazifascistas dominavam grande parte da Europa.

Soldado alemão em combate
Soldado alemão em combate – Foto –  miltary.discovery.com

As forças de Hitler avançavam sobre as largas estepes da então União Soviética, onde encontrariam um povo disposto a grandes sacrifícios para expulsá-los de sua nação. Na Ásia, o Império Japonês dominava grandes extensões de territórios e vastas áreas do Oceano Pacifico, mas desde dezembro de 1941 suas forças militares se batiam contra o poderio bélico e industrial dos Estados Unidos.

Já no Brasil a cena política era dominada pela conhecida ditadura do Estado Novo, que teve início com o golpe deflagrado em 10 de novembro de 1937.

A partir desta data o governo brasileiro, sob o comando do gaúcho Getúlio Vargas, retirou dos cidadãos as garantias constitucionais, a Justiça Eleitoral foi suspensa, o direito à greve foi banido e ficou estabelecida a censura prévia à imprensa. Ao outorgar a Constituição de 1937, Vargas proclamou o fim do federalismo e da democracia liberal. Num ato de grande impacto, fez queimar as bandeiras dos Estados. Em seguida, extinguiu a Justiça Federal de primeiro grau. Era um regime totalmente policialesco.

Propaganda típica da época do Estado Novo - Foto - www.infoescola.com
Propaganda típica da época do Estado Novo – Foto – http://www.infoescola.com

Já para compreender a situação política em Natal neste período, é importante observar dois episódios marcantes; a violenta campanha eleitoral estadual de 1934 e a deflagração da Intentona Comunista de 1935.

Em 1934 comandava o executivo potiguar o interventor Mário Leopoldo Pereira da Câmara, tido como um homem inteligente e capaz, mas que lhe é creditado um período de governo onde imperou um clima favorável ao surgimento de movimentos políticos radicais, que facilmente apelavam para a violência e o uso de armas para conquistar espaços. Durante a campanha de 1934, em várias localidades do Rio Grande do Norte, não faltaram notícias de assassinatos, violências e surras praticados contra adversários.

Quartel da Força Policial, conhecido como "Quartel de Salgadeira", em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista - Foto - toxina1.blogspot.com
Quartel da Força Policial, conhecido como “Quartel de Salgadeira”, em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista – Foto – toxina1.blogspot.com

Logo Mário Câmara deixou o governo potiguar e no dia 9 de outubro de 1935 assumiu o executivo estadual o médico Rafael Fernandes Gurjão.

Em meio a este clima pesado na política potiguar e de mudanças. Menos de dois meses após a posse de Rafael Fernandes, na noite de sábado, 23 de novembro de 1935, sargentos e cabos do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC) do Exército Brasileiro, sediado em Natal, iniciaram um levante armado que ficaria conhecido como Intentona Comunista. Logo este levante recebeu a adesão de populares e descontentes com as lideranças governamentais do Rio Grande do Norte. Ocorreram outros levantes no Recife e no Rio de Janeiro.

Tido como o primeiro caso de sucesso de implantação pela força de um governo comunista no continente americano, a Intentona Comunista prevaleceu em Natal por apenas 80 horas, até a madrugada do dia 27 de novembro. Além de dominar a capital e 17 cidades do interior potiguar, sé se encerrou com a vinda de tropas federais da Paraíba e Pernambuco. A consequente repressão foi violentíssima. Levou à prisão de milhares de pessoas e uma das suas consequências foi a implantação do Estado Novo em 1937.

Governador Rafael Fernandes Gurjão
Governador Rafael Fernandes Gurjão – Foto – Coleção do Autor

Depois de toda esta agitação, a cidade de Natal voltou a sua pasmaceira habitual, típica de uma capital nordestina que na época tinha em torno de 45.000 habitantes. Mas no final de 1941 esta tranquilidade havia sido quebrada pela chegada de vários militares, engenheiros e técnicos norte-americanos, que vieram desenvolver no antigo campo de pouso de Parnamirim uma das maiores bases militares do mundo.

A Guerra Vem Chegando

Oficialmente o Brasil não estava em guerra no primeiro semestre de 1942, mas muitas situações mostravam que isso logo mudaria.

Em Natal os tambores de guerra eram mais audíveis e os sinais do conflito eram cada vez mais visíveis. Um destes era o fato da gasolina já se encontrar em franco racionamento. Para controlar o consumo havia sido criada a Comissão Estadual de Racionamento de Combustível, sob o comando do Secretário de Governo Aldo Fernandes Raposo de Melo.

War Brazil (16)

Inúmeras listas eram publicadas nos jornais natalenses com os nomes de jovens potiguares que deveriam servir nas Forças Armadas. Muitos militares, vindos de várias regiões do país, chegavam a cidade para reforçar as nossas defesas e novos aquartelamentos eram criados. Os natalenses presenciavam todos os dias inúmeros aviões de transportes Aliados seguirem para além mar. Das bases de Parnamirim e da Rampa, próximo ao estuário do Rio Potengi, partiam aeronaves norte-americanas de patrulha e destruição de submarinos.

Em meio a esta movimentação os estudantes e a sociedade natalense já estava nas ruas contra a ação dos nazifascistas.

Segundo o livro do baiano João Falcão “O Brasil e a 2ª Guerra Mundial – Testemunho e depoimento de um soldado convocado” (1999, Ed. UNB, pág. 82), a primeira capital brasileira a promover amplas manifestações contra os países do Eixo foi Salvador, depois veio Natal.

Falcão reproduz em seu livro uma notícia do jornal carioca Correio da Manhã, dando conta que houve um grande comício em Natal de solidariedade a Getúlio Vargas. O movimento teve um grande apelo popular, com a participação de milhares de natalenses. Iniciou na Esplanada Silva Jardim, no bairro da Ribeira, onde Amílcar de Faria Cardoso, delegado regional do Ministério do Trabalho realizou empolgado discurso, depois o povo em passeata seguiu pela Avenida Duque de Caxias.

Luís Maranhão Filho, importante líder estudantil e grande idealizador dos protestos ocorridos em Natal contra os nazifascistas - Foto - Coleção do Autor
Luís Maranhão Filho, importante líder estudantil e grande idealizador dos protestos ocorridos em Natal contra os nazifascistas – Foto – Coleção do Autor

Consta que acompanhando o povo seguiam bandas de músicas, lanceiros da Força Polícia acompanhavam montados em seus alazões e jovens da sociedade local levavam bandeiras. Defronte a redação do jornal A República o então acadêmico Luiz Maranhão Filho, proeminente líder estudantil, fez um entusiasmado discurso. O cortejo encerrou defronte ao Colégio Atheneu com muitos discursos. Entre os que falaram estavam Rômulo Wanderley, Aldo Tinoco e Djalma Marinho.

Estranhamente o jornal A República, o periódico oficial do governo potiguar e principal jornal do Rio Grande do Norte na época, não divulgou uma linha sobre este acontecimento.

O Povo de Natal Volta as Ruas Liderados Pelos Estudantes

Independente desta questão, cada vez mais os tambores de guerra vão aumentando o tom no Brasil.

Em 11 de março de 1942, Getúlio Vargas decretou o confisco de bens de imigrantes alemães e italianos no Brasil, grupos de espiões nazistas foram descobertos e detidos no Rio de Janeiro. Até mesmo um avião bimotor B-25 da recém criada FAB – Força Aérea Brasileira, operando a partir de Fortaleza, atacou um submarino do Eixo.

Avião B-25 da FAB, que partiu de Fortaleza e atacou um submarino inimigo - Fonte - http://moraisvinna.blogspot.com.br/2012/05/ha-70-anos-o-fortaleza-entrava-em.html
Avião B-25 da FAB, que partiu de Fortaleza e atacou um submarino inimigo – Fonte – http://moraisvinna.blogspot.com.br/2012/05/ha-70-anos-o-fortaleza-entrava-em.html

Mas o principal sinal que a entrada do Brasil na guerra estava próxima era o fato que até o final do mês de julho de 1942, nada menos que 14 navios da frota mercante nacional haviam sido atacados e afundados pelos nazistas, com a morte de 136 pessoas.

Em meio a este clima a população de Natal, incentivados pelos estudantes, voltaram às ruas contra os nazifascistas e desta vez sendo extensamente noticiado pelo principal jornal potiguar.

War Brazil (15)

Na edição do dia 28 de julho de 1942 de A República, e em dias posteriores (como aponta a manchete acima), temos várias notícias apontando que o C E P – Centro Estudantal Potiguar (não era “Estudantil”) estava organizando uma semana de protestos contra os países integrantes do Eixo no mês de agosto, que culminaria com um “comício monstro”. Novamente o poder executivo estadual deu todo apoio a esta iniciativa dos estudantes, que desde o início do processo se colocaram na liderança do movimento.

Foram criadas comissões com a participação de vários segmentos da sociedade potiguar. O Chefe de Polícia aprovou oficialmente a realização dos protestos da “Semana Anti-Eixista”, foi comunicado a UNE – União Nacional dos Estudantes, no Rio de Janeiro a movimentação dos estudantes potiguares. Como parte das comemorações foi realizada uma grande festa no tradicional Aero Clube, o principal da cidade.\

Aldo Tinoco foi outro estudante com forte atuação nestes protestos contra os países do Eixo - Foto - Coleção do autor
Aldo Tinoco foi outro estudante com forte atuação nestes protestos contra os países do Eixo – Foto – Coleção do autor

Ocorreram várias reuniões preparatórias e convocatórias em Natal, sempre muito acaloradas e com grande participação popular. Entre os locais listamos a Escola Industrial, na Sociedade dos Sargentos da Força Policial e na Liga Artístico Operária de Natal, que ficava localizado na Avenida Rio Branco.

Durante aquela movimentada semana a Rádio Educadora de Natal, a ZYB-5, realizou a transmissão de várias palestras sobre as questões da guerra e a mobilização promovida pelo Centro Estudantal Potiguar. A última transmissão foi realizada por Luiz Maranhão Filho e foi considerada por um colunista do jornal A República como “incisivo”.

Percebe-se, lendo as amareladas páginas dos antigos jornais natalenses que Natal não presenciava uma movimentação política tão intensa, desde a implantação do Estado Novo em 1937.

Logo chegou o dia 11 de gosto de 1942.

O Grande Comício

Foi uma terça feira sem chuva e durante a tarde a cidade de Natal parou. As escolas, o comércio e as repartições públicas fecharam e as pessoas seguiram para a Praça 7 de setembro, no centro da cidade.

Palácio do Governo do Estado do Rio Grande do Norte e Praça 7 de setembro, local da concentração contra os nazifascistas - Foto - Coleção do autor
Palácio do Governo do Estado do Rio Grande do Norte e Praça 7 de setembro, local da concentração contra os nazifascistas – Foto – Coleção do autor

Os estudantes vieram em passeata desde o Colégio Atheneu, sendo animados e acompanhados pela banda de música da tradicional Associação de Escoteiros do bairro do Alecrim. Não faltaram cartazes com caricaturas de Hitler e Mussolini, faixas de incentivo as Forças Armadas e muitas bandeiras do Brasil. Na Praça 7 de setembro havia um potente sistema de auto falantes colocados por Luiz Romão, que era proprietário de uma difusora bem atuante na cidade.

Basicamente a movimentação na praça foi em cima de vários e inflamados discursos. Estes foram proferidos principalmente pelas autoridades, mas os realizados pelos estudantes foram mais aplaudidos e ovacionados, sempre comandados pela vibração de Luiz Maranhão Filho.

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O palanque foi na sacada principal do Palácio do Governo, onde autoridades, oficiais militares de alta patente e inúmeros estudantes dividiram espaço. Figuras politicas como Elói de Souza e o próprio governador Rafael Fernandes deram seu recado ao povo. Basicamente os pronunciamentos giraram em torno dos ataques que já haviam ocorrido contra os navios brasileiros, a política de Vargas na sua maior aproximação do Brasil junto aos países Aliados, principalmente os Estados Unidos.

Nem a imprensa da época e nem as autoridades policiais realizaram algum tipo de contagem da quantidade de pessoas que participaram do chamado “Comício Monstro”. Mas destacam que havia “um mar de gente” e enaltecem que havia “milhares de pessoas”.

Navio brasileiro Baependi, afundado pelo submarino U-507 - Foto - http://www.photoship.co.uk/
Navio brasileiro Baependi, afundado pelo submarino U-507 – Foto – http://www.photoship.co.uk/

Se não fosse as agruras e incertezas da chegada da Segunda Guerra Mundial ao Brasil, seguramente um comício como aquele jamais teria ocorrido.

Para exemplificar apuramos que uma das pessoas que discursaram foi Vivaldo Ramos de Vasconcelos, um estudante da faculdade de direito do Rio de Janeiro e estava representando a UNE em Natal. Segundo o jornalista Luiz Gonzaga Cortez, no seu interessante livro “A Revolta Comunista de 1935 em Natal”, através da informação de Paulo Cavalcante, autor de quatro volumes de memórias sobre este episódio (“O Caso eu conto como o caso foi”), este era o mesmo Vivaldo Vasconcelos que durante a Intentona Comunista em Natal, foi o elemento de ligação entre os que faziam os preparativos para a insurreição de 23 de novembro de 1935.

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Após o comício existe uma clara ideia que em Natal, depois de todos os problemas políticos ocorridos no Rio Grande do Norte durante a década de 1930, mesmo em meio a uma ditadura feroz, as forças pensantes da sociedade potiguar estavam unidas diante de um problema externo muito maior.

O Brasil Entra na Guerra

Menos de uma semana depois da realização deste comício, Natal e todo o Brasil foram abalados pela verdadeira carnificina promovida pelo Korverttenkapitan Harro Schacht, comandante do submarino alemão U-507.

O Araraquara, outro dos navios afundados pelo submarino alemão U-507, comandados pelo Korverttenkapitan Harro Schacht, que motivaram a declaração de guerra do Brasil - Foto - Coleção do autor
O Araraquara, outro dos navios afundados pelo submarino alemão U-507, comandados pelo Korverttenkapitan Harro Schacht, que motivaram a declaração de guerra do Brasil – Foto – Coleção do autor

Entre os dias 15 e 17 de agosto, na altura do litoral sergipano e baiano, este oficial germânico comandou o afundamento de seis barcos brasileiros, que ocasionaram a morte de mais de 600 pessoas.

As manchetes de A República não deixam dúvidas da indignação no povo natalense e jã não havia mais dúvidas que o Brasil estava em guerra.

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AS BELEZAS DO PARQUE NACIONAL VALE DO CATIMBAU, EM BUÍQUE, PERNAMBUCO

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Este material foi gentilmente cedido pelo Professor Arnaldo Vitorino, da cidade pernambucana de Santa Cruz do Capibaribe, que visitou este local com amigos e trouxe estas fotos maravilhosas. Ele inclusive colocou algumas dicas que reproduzimos em nosso blog. Parabéns Vitorino!

Vale do Catimbau-PE (12)

Localizado a 283 km da capital de Pernambuco, Recife, o Vale do Catimbau é um complexo de Serras, Vales e Rochas do agreste e do sertão. Possui 62.300 hectares de terra, o Vale preserva uma das últimas áreas de Caatinga.

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Catimbau, em Tupi, significa “Cachimbo pequeno apagado, práticas de feitiçaria e lugar de cobras” Tudo isso numa só palavra. O Vale do Catimbau foi nomeado Parque Nacional Catimbau pelo IPHAN em 2002 através do decreto 913/12.

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É considerado uma área de extrema importância Biológica, Geográfica e Arqueológica. A região possui registros de pinturas rupestres e artefatos que datam de um período de, pelo menos, 6.000 anos.

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O Parque Nacional Catimbau é o segundo maior do país, perdendo apenas para a Serra da Capivara, no Piauí.

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Possui terras nos municípios de Buíque, estendendo-se por áreas semi-áridas de Tupanatinga, Inajá e Ibimirim, já em plena Microrregião do Sertão do Moxotó.

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O Parque possui dezenas de Serras, vales, rochas das mais variadas formas e cores, além de uma grande riqueza de escrituras rupestres, histórias das tribos indígenas da região assim como seus cemitérios espalhados por todo o vale e vestígios de suas práticas ritualísticas.

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O parque possui só na região de Buíque, cerca de 10 trilhas ecológicas onde, Turistas e Excussões pedagógicas podem percorrer, com ajuda de guias locais qualificados, boa parte do parque e conhecer maravilhas e surpresas exóticas que essa região indígena oferece.\

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Próximo ao parque está localizado a Vila Do Catimbau, formada por remanescentes de tribos indígenas que viveram na região, possui uma infra estrutura muito básica para acomodar os visitantes do Vale.

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Na Vila do Catimbau podemos encontrar a Associação dos Guias do Vale do Catimbau , é com eles que devemos nos informar e realizar as atividades no Parque Nacional, ao lado podemos encontrar lojinhas de conveniência, assim como uma Pousada e Restaurante Do Vale do Catimbau.

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Chegando à pousada, é só procurar por Dona Zefinha, a proprietária, o lugar é muito aconchegante, e dispões de ótimas refeições regionais. O Acesso ao Vale do Catimbau, para quem vai de Carro particular é fácil e bem sinalizado, porém para quem vai de transporte coletivo é preciso ir para Buique, centro, e seguir no emocionante “Pau de Arara” até a Vila do Catimbau. Dicas: Para quem vai de carro particular, não deixe de dar uma paradinha no Caminho para conhecer as cidades de Pesqueira, Arcoverde.

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O BRASIL ENTRE BEATOS, CANGACEIROS E CORONÉIS

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Em ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’ Glauber Rocha capta as fissuras da sociedade brasileira. Retratando a violência e a crueza das relações sociais no sertão nordestino, constrói a ‘estética da fome’

Alexandre Leitão

Eu andei por esse mundo gente, e conheci a desgraça dos outros… e aprendi uma verdade que estava na Sagrada Bíblia: É olho por olho e dente por dente!

Cangaceiro Coirana, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.

Durante o século XX, amadureceu no seio da intelectualidade brasileira o desejo de identificar os traços mais característicos do ethos nacional. Sociólogos, antropólogos, historiadores e artistas se perguntavam no que, de fato, se constituiria o Brasil, e o que o impediria de transformar-se num país plenamente realizado nos planos socioeconômico e político. Nomes como Euclides da Cunha, Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Hollanda publicariam obras-chave na tentativa de encontrar um significado para a existência nacional. No campo das artes plásticas, Cândido Portinari retrataria a existência sofrida do sertanejo, e na poesia e dramaturgia Oswald de Andrade ergueria a bandeira do antropofagismo cultural, como resposta e atestado do processo de realização artística no país.

Foi unindo diversas dessas teses, além de criando suas próprias, que Glauber Rocha definiu uma narrativa da história brasileira, expressa em obras como Terra em Transe (1967); e plenamente desenvolvida em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969). Neste longa-metragem, continuação de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), acompanhamos o destino melancólico de Antônio das Mortes, personagem vivido por Maurício do Valle, jagunço e matador de cangaceiros, contratado para realizar um último serviço.

Gláuber Rocha
Gláuber Rocha

Logo nos créditos iniciais, o filme apresenta um rápido sumário em francês, que Glauber – além de diretor, também roteirista do filme – julgou necessário para a compreensão dos eventos e do recorte histórico que queria construir (fruto de uma coprodução franco-brasileira, o prefácio quer explicar a um público estrangeiro os eventos históricos que considera mais relevantes para a compreensão do filme): “Chamam-se – ‘Jagunços’ assassinos de aluguel; ‘Coronel’ grandes proprietários de terras; ‘Beatos’ comunidade de camponeses miseráveis e místicos; ‘Santo’ pessoa que dirige espiritualmente essas comunidades”. Junto ao glossário se encontra uma rápida descrição dos cangaceiros enquanto “bandidos místicos que desapareceram do Nordeste do Brasil em 1940”, tendo sido Lampião o “mais célebre de todos”.

A apresentação reforça o sentido de disparidade estilística e narrativa em relação a Deus e o Diabo na Terra do Sol, que se passa no final da década de 1930. Ocorrendo em um momento relativamente atemporal, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro retrata um Nordeste em franco processo de modernização capitalista, no qual crescem as cidades, constroem-se estradas e postos de gasolina, e já se considera inevitável o advento da industrialização e da reforma agrária.

O sertão de Glauber

É em meio a esse cenário de abandono forçado de estruturas arcaicas, que um bando de cangaceiros e beatos, liderado pelo bandoleiro Coirana, ataca um pequeno povoado da caatinga, despertando pavor nas pessoas da região, que são forçadas a implorar pela ajuda de Antônio das Mortes – um jagunço aposentado.

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Chegando à cidade, um oficial da lei esclarece ao pistoleiro que, diferente do tempo das intensas volantes (expedições militares que partiam à caça dos bandos de Lampião, Corisco, e tantos outros), ele espera que tudo seja resolvido de forma rápida. Percebe-se que o perigo real de rompimento da ordem mantida pelo Estado no Nordeste simplesmente inexiste no que concerne ao bando de Coirana. Eles representam uma mera surpresa inconveniente, já que as condições para o surgimento dos cangaceiros por aquelas paragens já haviam, há muito, desaparecido.

O fato pode ser observado quando ocorre a segunda invasão do povoado pelos cangaceiros, retratada por Glauber em uma interminável panorâmica (como se chama a tomada em que a câmera gira sobre seu próprio eixo), na qual o bando, vestido com roupas tradicionais do sertão nordestino e indumentárias próprias de cultos afro-brasileiros, em vez de disparar suas armas contra o inimigo, dança e canta anarquicamente uma gira de louvor a São Cosme e Damião e ao orixá Xangô. O ataque, neste caso, é alegórico, representando a invasão de todo um legado cultural, popular e mestiço, que as elites brasileiras teriam sempre buscado frear.

E é sob esse aspecto que triunfam as pretensões estilísticas do filme de Glauber Rocha. Ao criar um grupo de cangaceiros extemporâneos, o cineasta retrata uma espécie de vingança histórica, segundo a qual uma segunda vinda do Cangaço tenderia a se justificar pela necessidade de punição simbólica da estrutura agrária brasileira, responsável primeiramente pela opressão secular sofrida pelos sertanejos. O chefe local, coronel Horácio (interpretado por Jofre Soares), longe de representar o perigo dos outrora onipotentes donos de terra do Norte, não passa de um velho cego, cuja vida se resume a divagar sobre uma realidade que ele jamais consegue apreender completamente. O velho é também desprovido do respeito do delegado Mattos (personagem de Hugo Carvana) e de sua própria mulher Laura, interpretada por Odete Lara, cujo caso amoroso é conhecido por todos os personagens.

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À ausência da necessidade material de uma rebelião (em vista do processo de modernização do sertão nordestino), corresponderia o imperativo de uma justiça simbólica capaz de punir os poderosos pelos crimes que haveriam cometido em tempos já remotos. É a percepção disso que faz Antônio das Mortes arrepender-se do assassinato de Coirana, a quem fere com uma peixeira, e decidir proteger os beatos. Estes são então chacinados por outro exército de jagunços, convocado pelo coronel Horácio.

Em uma cidade já fantasma, resta a Antônio das Mortes, Antão (comandante negro dos beatos, encarnado pelo ator Mário Gusmão) e ao professor de história do vilarejo, interpretado por Othon Bastos, concluírem a vingança iniciada por Coirana, eliminando o coronel e seus matadores. Ao cabo da trama, porém, não há uma multidão jubilosa tomando as ruas da cidade, ou uma sequência explicativa que mostre a celebração dos sertanejos.

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A justiça histórica retratada por Glauber Rocha é crua e desprovida de consequências práticas: o processo de modernização do Nordeste seguirá inexoravelmente, deixando cair por terra as arcaicas relações de trabalho e poder da região, repostas por outras, mais adequadas a um mundo em contínua transformação. Resta a Antônio das Mortes, o pistoleiro redimido, simplesmente marchar sem rumo por uma rodovia empoeirada, tomada por grandes caminhões de carga e ladeada por um posto de gasolina da Shell, símbolos do novo mundo que invade o Sertão e altera sua paisagem.

A estética da fome

A protoanarrativa histórica de Glauber acaba assim por ecoar aquela delineada por Euclides da Cunha, cuja obra Os Sertões, caracteriza a relação entre o Brasil capitalista e modernizante do litoral, e o interior antigo e isolado, como sendo marcada pelo signo da violência. Violência que permeia os laços entre senhores e camponeses – mediada por jagunços – e a violência dos grandes centros urbanos, que desde o final do século XIX buscam sufocar, progressivamente, qualquer experiência ou modelo social que se interponha à marcha do “progresso”.

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Em 1965, o próprio Glauber ressaltaria o traço brasileiro da violência e a necessidade desta existir como nervo central do projeto artístico do Cinema Novo (representando ainda um relevante instrumento de transformação política) em seu manifesto “Uma estética da fome”, publicado na Revista Civilização Brasileira.

Nele, o cineasta defende que “somente uma cultura da fome, mirando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. (…) Pelo cinema novo: o comportamento exato de um faminto é a violência e a violência de um faminto não é primitivismo”. Esta se veria traduzida de maneira ritualizada nas alegóricas cenas de assassinato de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, primeiro filme colorido do diretor: a paleta de cores de cada plano e cada sequência remete quase sempre ao vermelho, a tons terrosos, à sujeira e ao sangue.

O imenso impacto estilístico e narrativo do Cinema Novo (com destaque para as obras de Glauber Rocha) rondaria fantasmagoricamente a história do cinema nacional, ecoando até os dias de hoje. Como se pode atestar em produções recentes, caso de O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, escolhido para ser o candidato brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2014.

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Na trama, seguimos diversos grupos de personagens, de distintos níveis econômicos, habitantes da mesma rua ocupada por um condomínio de luxo, em Recife. Os prédios, que compõem o conjunto habitacional da narrativa, acabam por se tornar o espaço de realização de tensões sociais e históricas, ecoantes do Brasil colonial, tal qual descrito por Gilberto Freyre em seu livro Casa-Grande & Senzala: “Na zona agrária (brasileira) desenvolveu-se, com a monocultura absorvente, uma sociedade semifeudal – uma minoria de brancos e brancarões dominando patriarcais, polígamos, do alto das casas-grandes de pedra e cal, não só os escravos criados aos magotes nas senzalas como os lavradores de partido, os agregados, moradores de casas de taipa e de palha, vassalos das casas-grandes em todo o rigor da expressão”.

Na nova realidade de um Brasil que se urbaniza, o antigo senhor de engenho, representado em O som ao redor pelo personagem Francisco, torna-se investidor imobiliário, não se furtando em considerar a vizinhança em que habita como sua propriedade pessoal. O papel antes reservado aos escravos passa a ser exercido pelas empregadas domésticas, que muitas vezes, quando jovens, são “pegas para criar” por seus patrões, os quais afirmam, por vezes, considera-las “da família” – materializando relações profissionais que estão muito distantes do que se esperaria de uma lógica de trabalho livre. As senzalas transformam-se nas famigeradas “áreas de serviço” e “quartos de empregada”, recintos de dimensões reduzidas e altas temperaturas, por vezes dominados pelo mofo e pela umidade – reservados a uma força de trabalho que, no condomínio, considera-se estar apenas de passagem.

E quanto aos outrora folclóricos jagunços, estes se transmutam nos sempre presentes vigias de rua – representados no filme pelo personagem Clodoaldo, interpretado por Irandir Santos, e seus comandados. Estes deixam de lado o gibão e o chapéu de couro, a peixeira, e a garrucha, para vestirem o já habitual colete preto, sem mangas, marcado nas costas com palavras como SEGURANÇA ou CONTENÇÃO. Longe de visarem cangaceiros e beatos, buscam agora os chamados intrusos, pivetes e trombadinhas, nos quais preferem aplicar seus “cala-boca” ou “sossega-leão”, do que apelar para a lei de um Estado racionalista, sustentado por instituições, ao menos oficialmente, não-patriarcais. E talvez seja neste aspecto que O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro tenha se tornado, infelizmente, defasado. O Brasil arcaico que tanto Glauber Rocha quanto a época em que viveu consideravam moribundo e superado, parece continuar vivo nas entranhas do Brasil moderno.

FONTE – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/cine-historia/o-brasil-entre-beatos-cangaceiros-e-coroneis

OS VERDADEIROS HERÓIS ESQUECIDOS – OS SOLDADOS DA BORRACHA

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Autor – Ricardo Lavecchia – Pesquisador paulista sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial e responsável pelo blog Ecos da Segunda Guerra (http://segundaguerra.net/)

Quando falamos sobre o Brasil na Segunda Guerra Mundial, logo vem à cabeça os ataques a Monte Castelo e Montese na Itália, ou os ataques dos submarinos alemães a nossa marinha mercante em nossa costa. Mas o que muitos não sabem, e sinceramente eu até poucos dias também não sabia, é que aqui em nosso território, de baixo de nosso nariz, alistaram mais de 50 mil brasileiros no esforço de guerra, os chamados “Soldados da Borracha”.

Durante a Segunda Guerra Mundial a utilização de borracha em material bélico era essencial, e com a utilização em automóveis e demais aparelhos o consumo era muito alto. Nessa época os americanos tinham um estoque razoável, mas com o avanço nipônico na Ásia onde os ingleses tinham grandes concentrações de extração de borracha, causou um colapso mundial. Sendo assim os planejadores militares tiveram que arrumar alternativas para a borracha, uma vez que ainda não tinha sido criada a borracha sintética.

A principal estratégia seria a busca do material na América Latina, ou seja, na Amazônia. Nessa hora que entra a história de milhares de nordestinos que, fugindo da seca viram na promessa do Governo uma possibilidade de riqueza no então novo “El Dorado”.

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Um relatório do Governo Brasileiro informava a existência de mais de 300 mil arvores chamada de “seringueira” na região amazônica, e uma estimativa anual de 800 mil toneladas anuais de borracha, essa noticia encheu os olhos dos americanos. Na época os Estados Unidos ofereceu em troca da borracha, uma enorme lista de matérias bélicos para Brasil, entre eles estão tanques, metralhadoras e etc…

Mas como tudo que é bom, não dura muito, esse relatório não contava com os imprevistos, entrem eles tinha a distancia e o difícil acesso a Amazônia, outro detalhe não pensado foi que em um acre de terra tinha em média 6 a 8 seringueiras, e o mais agravante de todos os imprevistos era a mão de obra, uma vez que os seringais estavam abandonados desde a década de 30. Todos esses imprevistos junto com a urgência do material não podia ter outro nome senão “Batalha da Borracha”.

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O recrutamento para mão de obra teve o principal foco no nordeste brasileiro, o Governo fez propagandas oferendo o “El Dorado”, todos voluntários teriam direito a porcentagens na extração de borracha, da colheita de castanhas, na madeira derrubada, também teriam direito a poder caçar, pescar e a um hectare de terra para poder plantar, todos tinham direito a viagem de ida e volta e o principal de tudo, seria considerado “Heróis do Brasil”.  Todas essas promessas encheram os olhos dos flagelados da seca e logo milhares de caminhões saiam lotados em direção aos seringais.

O Presidente Getúlio Vargas deu um presente aos então soldados da borracha, era um kit para o trabalho, esse kit era composto de uma calça azul, uma camisa branca, um chapéu de palha, um par de sandálias, um caneca, um prato fundo, um talher, uma rede e uma carteira de cigarros, tudo isso em um saco de estopa. Assim o voluntário iria passar seus dias de trabalho no inferno verde.

Tudo parecia muito bonito nas propagandas, mas infelizmente nada aconteceu como previsto, os voluntários tiveram problemas com alimentação e transporte para chegar nos seringais, la chegando viram o sonho jogando no lixo, não passaram de meros escravos dos patrões tendo que trabalhar em troca de comida e sendo vigiados por capataz o tempo tendo. Dali, não conseguiam fugir, tudo que precisavam para se manter era cobrado a preço de ouro, até a viagem de ida e volta estava anotada na caderneta de cada voluntario, ele já foram com uma divida, e muitos morreram e não conseguiram quitar, e muitos outros milhares jamais voltou para sua casa, para seus pais.

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Os voluntários não tinham para quem reclamar, nem para quem recorrer, os americanos não estavam nem ai para nada, eles tinham pressa para ter a borracha, não se preocupavam com os soldados e nem com o desenvolvimento da Amazônia e bem estar da população.

O reflexo de tudo isso foi a morte de mais de 30 mil voluntários, a grande maioria por conta de doenças, na região não tinha medicamentos necessários para o tratamento de todos e o nível de contaminação era maior que o de médicos e medicamentos, teve também um grande numero de mortes por conta de assassinato e brigas.

Hoje os veteranos da guerra da borracha continuam em busca de seu reconhecimento, alguns poucos conseguiram sua aposentaria com o nível de veterano, mas muitos não conseguiram a aposentadoria e vivem até em extrema miséria, morando em palafitas sobre os rios ou em favelas no interior do Acre e outros estados amazônicos,

Infelizmente como já se era esperado o Governo não cumpriu com sua palavra, os voluntários (soldados) não tiveram o seu El Dorado e sim a desgraça e miséria, e o rotulo de “HERÓIS DO BRASIL” ficou somente na memória dos poucos sobreviventes, muitos morreram e foram enterrados e vala comum, isso quando foram enterrados, morreram por uma causa, por um propósito e seus nomes não estão na lista de veteranos de guerra, nem tão pouco na lista de Heróis.

O Brasil sem memória, sem história, sem reconhecimento, já tinha la em meados dos anos 40 a ideia de se aproveitar da vontade de trabalhar de seu povo e da ingenuidade dos retirantes nordestinos. Essa é mais uma parte da história que caiu no buraco negro da história militar brasileira na Segunda Guerra Mundial.

PRISIONEIROS ALEMÃES DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL CONSTRUÍRAM BAIRRO NOBRE DE GOIÂNIA

Prisioneiros alemães capturados por tropas norte americanas, em junho de 1944
Prisioneiros alemães capturados por tropas norte americanas, em junho de 1944

Protocolo assinado entre governos goiano e inglês resultou na vinda de 50 oficiais das Forças Armadas alemãs aprisionados no Reino Unido para Goiás. Supostos nazistas teriam desenhado planta urbanística ao estilo alemão

Autor – Frederico Vitor

Não é segredo que de­pois da derrocada da Alemanha nazista do ditador Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), dezenas de partidários do nacional-socialismo — Partido Nazista —, a maioria criminosos de guerra e genocidas, se refugiaram na América Latina. Muito deles se esconderam na Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Brasil. Porém é pouco conhecida a história de uma leva de oficiais da Wehrmacht — forças armadas da Alemanha hitlerista — que desembarcou em Goiânia. Mais desconhecido ainda — e surpreendente — é que eles teriam desenhado a planta e construíram as avenidas e ruas do que é hoje o Setor Jaó, bairro nobre da capital goiana.

Tal história, que é rodeada de enigmas e muito segredo, não é muito explorada pelos historiadores locais. Contudo é fato que 50 prisioneiros alemães vieram do Reino Unido para Goiás em 1947, durante a administração do governador Jerô­ni­mo Coimbra Bueno.

Prisioneiros alemães ajudando na colheita em solo britânico. Existiram 1.026 campos de prisioneiros na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial – Foto - Hulton Archive/Getty Images
Prisioneiros alemães ajudando na colheita em solo britânico. Existiram 1.026 campos de prisioneiros na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial – Foto – Hulton Archive/Getty Images

O início desta fas­cinante saga germânica por terras goia­nas se deu em uma visita do che­fe do Executivo estadual ao em­bai­xador britânico, na sede da embaixada, no imponente palácio localizado na Rua São Clemente, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, que nos anos 40 ainda era capital federal.

Durante a conversa, regada por muito “scotch” — legítimo uísque escocês —, o embaixador pediu ao governador de Goiás um favor um tanto quanto inusitado: acolher no Estado 50 prisioneiros de guerra alemães. Coimbra Bueno, surpreendido e desconcertado com o pedido, elegantemente, teria acatado o desejo do representante inglês no Brasil. Assinado o protocolo junto à embaixada britânica, numa data desconhecida de 1947, um avião que provavelmente pertencia à Royal Air Force (RAF) — Força Aérea Real — aterrissou em Goiânia com os 50 militares alemães a bordo.

Palestra de um oficial inglês, junto a prisioneiros alemães.
Palestra de um oficial inglês, junto a prisioneiros alemães.

Ao desembarcarem da aeronave, um capitão do Exército britânico teria estendido o braço a uma autoridade estadual, passando-lhe um recibo que deveria ser assinado. O documento atestaria ao governo de Vossa Majestade a posse dos prisioneiros alemães por parte do Estado de Goiás. Ao pisarem em solo goiano, os alemães, todos oficiais e de elevado nível intelectual, não vieram apenas com a roupa do corpo. Eles trouxeram malas e demais pertences pessoais que, juntamente com eles, foram transportados para a penitenciária de Goiânia — à época localizada na Avenida Independência, atual área de treinamento da Delegacia de Operações Especiais, Grupo Tático 3 (GT3) da Polícia Civil e antiga Casa de Prisão Provisória (CPP) —, no Centro da capital.

Típico oficial alemão durante a Segunda Guerra Mundial
Típico oficial alemão durante a Segunda Guerra Mundial

Toda a operação de traslado dos europeus até a prisão foi realizada de forma secreta, sem mídia e sem alardes. O vazamento da no­tícia de que o governo de Goiás teria recebido um grupo de prisioneiros “nazistas” poderia se transformar em um grande escândalo, provocaria um alvoroço sem precedentes. Por isso, para não chamar muita atenção e para primar pelo sigilo que o caso exigia, os alemães foram transferidos da penitenciária para a Fazenda Retiro da Interestadual Mercantil S/A, pertencente a José Maga­lhães Pinto, banqueiro e político mi­neiro da antiga UDN, que depois seria go­vernador de Minas Gerais (1961-1966), e principal acionista do então Banco Nacional, uma das maiores instituições bancárias do País.

Surge o Jaó

Coimbra Bueno, formado na Escola Politécnica de Engenharia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1933, especialista em urbanismo, teve a ideia de urbanizar a Fazenda Retiro, às margens do Rio Meia Ponte, que servia de acampamento aos alemães. Magalhães Pinto aprovou a ideia e o governo goiano teria total autonomia nas decisões do projeto. O único pedido do banqueiro foi a denominação das avenidas Pampulha e Belo Horizonte, para homenagear a capital mineira, no que viria ser o Setor Jaó.

Advogado Artur Rios é entusiasta e pesquisador  do assunto: "Estado deve ter lista com o nome dos 50"
Advogado Artur Rios é entusiasta e pesquisador do assunto: “Estado deve ter lista com o nome dos 50”

O advogado e morador do bairro Arthur Rios é um pesquisador do assunto e detém uma cópia da planta original do setor que, provavelmente, teria sido desenhada pelos alemães e assinada pelo engenheiro Tristão Pereira da Fonseca, já que os europeus não tinham registro no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) para tal. Ele conta que os prisioneiros ficavam acampados em barracas às margens do que é hoje a represa Jaó, e eram vigiados pelo Estado. Mais tarde, todos eles empregados pelo loteador, ganhariam a liberdade. “Apresentem o mapa do loteamento a um urbanista brasileiro, vão notar ideias alienígenas para o Brasil em 1947 e 1950”, diz Arthur Rios.

Livres para decidirem como seria o novo bairro, os alemães adotaram o nome Setor Jaó, em alusão a um pássaro comum à região. Eles impuseram os padrões germânicos aos logradouros, com ruas e avenidas largas e encurvadas, com os espaços verdes extremamente valorizados. Com exceção das Avenidas Belo Hori­zon­te e Pam­pulha, os nomes das demais vias começavam o “J” de Jaó, uma característica alemã de não atribuir nomes aos endereços. Esse sistema de nomenclatura também era usado em outras áreas, como por exemplo, nos submarinos na Segunda Guerra Mun­dial. A temida força U-boat sempre denominava os submergíveis de “U” sucedido de frios três dígitos. O mesmo sistema seria adotado para batizar as ruas do recém-criado loteamento de Goiânia, como Rua J-33, por exemplo, e assim em diante.

Soldados ou criminosos?

Mesmo hoje, o traçado do Setor Jaó impressiona. O conceituado arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira, responsável pelo projeto urbano da cidade de Pal­mas, capital do Estado do To­cantins, ao analisar a planta original do Jaó desenhada pelos alemães, afirma que o projeto valoriza o orgânico, ou seja, houve um alto aproveitamento da natureza do local.

O arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira ressalta que planta urbanística valorizou o orgânico
O arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira ressalta que planta urbanística valorizou o orgânico

“Isso mostra certa diferença do que se fazia antes aqui, embora o Setor Sul seja um dos projetos mais interessantes que eu vejo em Goiânia”, diz. “Essa característica de organicidade do desenho prova que tirou-se partido da natureza. Até hoje os alemães são muito mais ligados à natureza do que nós latinos. Florestas já foram replantadas na Alemanha e o próprio Partido Verde começou por lá.”

Ao término dos trabalhos de loteamento do Setor Jaó, em 1952, os alemães receberam uma recompensa pela colaboração. A maioria foi convidada pelo presidente Juan Domingos Perón a mudar-se para Argen­tina. Outros, por conta própria, foram para São Paulo. Em Goiânia permaneceram apenas três: Werner Sonnenberg, Otto Hoffmann e Paul Boetcher. Pouco se sabe do paradeiro do restante. Possivelmente, os arquivos do Estado de Goiás devem ter a lista com os nomes dos 50. Há a possibilidade real de que alguns deles possam ser de fato nazistas ou criminosos de guerra, da mesma forma que possam ser apenas militares aprisionados pelo inimigo.

A dedução se baseia no fato de que vários genocidas partidários do nacional-socialismo se refugiaram na América do Sul após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Muitos deles foram presos pelo Mossad — serviço secreto israelense — em Buenos Aires e na Patagônia argentina. Uma parte destes fugitivos esteve no Paraguai durante regime do ditador Alfredo Stroessner, e até mesmo no Brasil. O caso mais emblemático foi o de Josef Mengele, morto por afogamento em 1979, em Bertioga, no litoral paulista. O médico alemão, conhecido como “anjo da morte”, foi acusado de ter cometido atrocidades vis contra prisioneiros judeus e ciganos no complexo de Aus­chwitz-Birkenau, campo de concentração operado pelos nazistas no sul da Polônia.

Parque Beija Flor; avenidas curvas e muita área verde ao estilo alemão
Parque Beija Flor; avenidas curvas e muita área verde ao estilo alemão

Mas, nem todos os alemães que lutaram na Segunda Guerra eram partidários do nazifascismo. O advogado Arthur Rios alerta para este detalhe no caso dos 50 prisioneiros germânicos que construíram o Jaó. Ele afirma que o engenheiro Tristão Pereira lhe confidenciou que, naquela época, era vítima de desconfiança de terceiros por não esconder sua admiração e simpatia pela técnica aprimorada dos alemães do Jaó. “A verdade é que a história é contada pelos vencedores e não pelos vencidos. Fica a dúvida se a maioria deste grupo era de nazista ou eram apenas soldados alemães, conhecidos por serem bons cumpridores de ordens.”

Atual planta urbanística do Setor Jaó; bairro idealizado por prisioneiros alemães privilegia área verde do local
Atual planta urbanística do Setor Jaó; bairro idealizado por prisioneiros alemães privilegia área verde do local

O professor de História da Universidade Federal de Goiás (UFG) Luís Sérgio Duarte da Silva ressalta que não há importância se os alemães do Jaó eram ou não nazistas. Para ele, o fundamental é que o fato reforça a história de uma nova cidade que acolhia a todos e que abria novas fronteiras, neste caso, o da imensidão do Brasil Central. “Goiânia foi uma cidade que abrigou comunistas nos anos 30 e 40, Pedro Ludovico os protegia. Agora mais essa notícia de que outro governador trouxe supostos nazistas. Uma característica importante é que o governo, naquela época, trazia qualquer um que pudesse ajudar na construção da cidade.”

Técnicos estrangeiros

Em novembro de 1934, os irmãos Abelardo e Coimbra Bueno, originário de Rio Verde, aceitam a proposta de tocar o projeto de urbanização de Goiânia por meio da empresa Coimbra Bueno & Pena Chaves Ltda. Na década de 40, a empresa trouxe técnicos do exterior para dar continuidade ao projeto, entre eles o engenheiro civil belga Gustav von Aderup, responsável pelos cálculos das estruturas de vários edifícios, como por exemplo, o Cine Teatro Goiânia.

Mapa de Goiânia, mostrando a área onde os alemães trabalharam
Mapa de Goiânia, mostrando a área onde os alemães trabalharam

A empresa dos irmãos Coimbra Bueno também trouxe para seu corpo técnico Salvador Trotta, arquiteto italiano que trabalhou como desenhista na seção de arquitetura. Jan Wladyslaw Kaufer Wisniewski, engenheiro cartógrafo polonês, demarcou o Setor Aeroporto. O engenheiro e sanitarista alemão Werner Sonnemberg, um dos integrantes da leva dos 50 prisioneiros que desenharam o Jaó, foi o responsável pelo projeto de água e esgoto da cidade. O arquiteto e agrimensor alemão Josef Neddermeyer dirigiu a seção técnica de arquitetura e topografia das obras. Stefan Szucs, pintor húngaro, trabalhou no acabamento do Palácio das Esmeraldas, sede do governo goiano.

Desenho urbanístico de Goiânia é do arquiteto e urbanista Atílio Correa Lima sob modelo francês
Desenho urbanístico de Goiânia é do arquiteto e urbanista Atílio Correa Lima sob modelo francês

Em relação ao Setor Jaó, antes de abandonar o projeto de Goiânia, Atílio teria sugerido a utilização da represa para uma base de hidroaviões, comum naquela época, já que o transporte por terra era muito deficiente. Mas, de fato, naquele leito, mais especificamente na cachoeira Jaó, foi construída a primeira usina que produziria eletricidade para a nova capital. A usina começou a ser construída no dia 4 de janeiro de 1935, mas a obra esteve paralisada por longo período por falta de verba até ser inaugurada em 1938.

No dia 3 de abril de 1945, o excesso de chuvas danificou seriamente a estrutura e os equipamentos da usina. Goiânia enfrentou grande período de falta de energia elétrica e a alternativa encontrada foram os geradores particulares. Para suprir a iluminação pública, se usou motor de um submarino alemão. Por breve período, a máquina foi o responsável pela geração de energia que iluminaria as noites da capital. Para que pudesse ser refrigerado, o propulsor foi instalado às margens do córrego Botafogo. Já a usina do Jaó só foi completamente reconstruída em 1947, justamente o ano da chegada dos 50 prisioneiros alemães. Hoje, a construção em que se encontrava o antigo maquinário está completamente abandonada.

Ás alemão trabalhou para o governo goiano e ajudou na construção de Brasília

A relação de Goiás com ex-oficiais alemães que combateram os Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, não ficou restrita aos alemães que ajudaram a construir o Setor Jaó.

O alemão Martin Drewes, que combateu na Segunda Guer­ra Mundial como piloto de caça noturno, teve Goiás como primeiro destino em terras brasileiras. No país desde 1949, esteve a serviço do governo estadual em 1951, e trabalhou na aerofotogrametria do Estado, inclusive fez fotos aéreas para a construção de Brasília. Sua carreira começou no Exército alemão, teve breve passagem pela divisão Panzer — regimento de tanques de guerra —, mas sua vo­cação o levou para a força aérea,  alcançando o posto de major.

Martin Drewes
Martin Drewes

Durante o conflito, o aviador abateu 52 aeronaves aliadas em 235 missões de combate.  Um de seus artilheiros de bordo, Walter Scheer, se tornou presidente da Alemanha Ocidental em 1974. Ele chegou ser prisioneiro dos ingleses na Alemanha ocupada e mudou-se para o Brasil depois da guerra, onde trabalhou como piloto civil. Em sua casa, na cidade catarinense de Blumenau, guardava na parede um telegrama recebido do próprio Hitler, em abril de 1945, que lhe concedia uma das maiores condecorações militares alemãs. Em entrevista à televisão brasileira, Drewes negou-se a comentar sobre a política da época: o nazismo e o holocausto.

O piloto alemão morreu no dia 16 de outubro deste ano, aos 94 anos, por falência múltipla dos órgãos. Viúvo, ele teve uma filha na Alemanha e um filho no Brasil.

Fonte – http://jornalopcao.com.br/posts/reportagens/prisioneiros-alemaes-da-segunda-guerra-mundial-construiram-bairro-nobre-de-goiania#.UnXEDYYjqxI.facebook

P.S. – AGRADEÇO DE CORAÇÃO A AMIGA CARINA DOURADO, O ENVIO DESTE INTERESSANTE MATERIAL. CARINA,  UMA ORGULHOSA FILHA DE GOIÁS, É UMA COMPETENTE E ATENCIOSA JORNALISTA DA TV BRASIL, A QUAL TIVE O PRIVILÉGIO DE PERCORRER, JUNTO COM A SUA COMPETENTE EQUIPE, O CINEGRAFISTA OSVALDO SANTOS E O TÉCNICO ALEXANDRE, OS CAMINHOS DO CANGAÇO PELO NOSSO NORDESTE. VEJAM ESTE TRABALHO NESTE LINK – https://tokdehistoria.wordpress.com/2013/09/11/link-para-o-programa-caminhos-da-reportagem-e-a-rota-do-cangaco-na-tv-brasil/

ENTRE O CLIQUE E A MORTE – ROBERT CAPA, O FOTÓGRAFO QUE ODIAVA A GUERRA

Robert Capa
Robert Capa

Testemunha dos principais conflitos bélicos do século XX, o fotojornalista Robert Capa ajudou a construir o imaginário visual de guerra contemporâneo.

Autora – Eliza Casadei

“A guerra era como uma atriz que envelhece”, definiu o fotojornalista Robert Capa (1913-1954), em um texto publicado na revista Life, em 1944. Para ele, que morreu aos 41 anos cobrindo um conflito bélico, a guerra era “cada vez menos fotogênica e cada vez mais perigosa”. Conhecido por suas fotografias brilhantes e pelo estilo de vida pouco usual, o fotógrafo foi responsável por grande parte do imaginário visual da guerra que temos atualmente.

Testemunha dos principais conflitos do século XX, Capa não era reconhecido pela beleza das composições em suas fotografias, mas sim, por colocar a sua própria vida em risco com o objetivo de estar o mais próximo possível dos acontecimentos.

Capa fotografou o desembarque nas praias francesas da Normandia, no dia 6 de junho de 1944
Capa fotografou o desembarque nas praias francesas da Normandia, no dia 6 de junho de 1944

Entre as suas coberturas fotográficas estão a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial (cujas imagens da batalha da praia de Omaha serviram de base para a reconstrução do filme O resgate do soldado Ryan), a Guerra Sino-Japonesa e a Guerra da Indochina, seu último e fatal conflito.

Sobre seu trabalho na praia de Omaha, Capa escreveu certa vez que “eu diria que o correspondente de guerra consegue mais drinques, mais garotas, um salário melhor e mais liberdade para escolher onde ficar e poder ser um covarde.

Outra imagem de Capa durante o "Dia D"
Outra imagem de Capa durante o “Dia D”

 

O correspondente de guerra tem as suas apostas – sua vida – nas próprias mãos e pode preferir esse ou aquele cavalo, ou então resolver ficar na sua no último minuto”. Mesmo assim, “eu sou um jogador. E decidi partir com a primeira leva”. Por essa postura, Capa acabou transformando-se na personificação do fotojornalismo, em imagens que misturam a crueza da violência com o fascínio que sentimos por ela.

Robert Capa, contudo, não nasceu como Robert Capa: o seu nome de batismo era Endre Friedmann. O nome artístico surge apenas depois de ele trocar a sua cidade natal, Budapeste, por Paris e, após vários meses de dificuldade financeira, decidir que um nome norte-americano o faria conseguir um pagamento melhor por suas fotografias.

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O início da carreira como fotógrafo freelancer não havia sido muito gentil com Capa e conta-se que, em 1934, aos 21 anos, era comum encontrá-lo em casas de penhores do Quartier Latin, onde ele negociava a sua preciosa Leica em troca de alguns trocados. De acordo com um de seus biógrafos, o jornalista Alex Kershaw, a câmera passava três semanas penhorada para cada semana que ficava nas mãos de Friedmann.

Foi justamente a dificuldade em conseguir trabalho que fez com que Capa mudasse de nome. Em uma de suas entrevistas, para a rede radiofônica WNBC, em 1947, o fotojornalista dizia que Capa nasceu como um fotógrafo inventado, imaginado como “um famoso fotógrafo americano que veio para a Europa e não queria se aborrecer os editores franceses por não pagarem o suficiente”. E assim, “simplesmente fui chegando com a minha pequena Leica, tirei algumas fotos e escrevi em cima Bob Capa, conseguindo vendê-las pelo dobro do preço”.

No instante da morte

Embora isso o tenha ajudado a conseguir um pouco de dinheiro, a fama chega para Capa junto com a Guerra Civil Espanhola e com uma das mais polêmicas fotos da história do jornalismo, O soldado caído.

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A versão oficial de Capa de que a foto retratava um homem no instante de sua morte iminente, no exato momento em que ele era alvejado por um tiro, é contestada por muitos outros que afirmam que a foto não retratava mais do que um homem simplesmente caindo. A fotografia suscitou as mais curiosas teorias da conspiração, desde que se tratava de um treinamento militar (e não de um combate) até a especulação de que a foto nem ao menos teria sido tirada por Capa (e sim por sua namorada Gerda Taro que, muitas vezes antes de tornar-se famosa, publicava suas fotografias com a assinatura de Robert Capa para conseguir um pagamento maior). O próprio Capa contribuiu para as polêmicas em torno da foto, tendo contado diferentes versões do fato em ocasiões diversas.

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Na citada entrevista para a WNBC, ao comentar sobre O soldado caído, Capa chegara a afirmar que “a foto rara nasce da imaginação dos editores e do público que a vê”. Tendo se tornado famoso aos 24 anos, Capa demonstra em seus trabalhos posteriores a excelência de seu estilo fotojornalístico, em que a força da cena representada se encontra na proximidade do momento retratado. A beleza plástica de composição, em Capa, não se apoia nas técnicas da arte, mas na própria crueza dos acontecimentos, mesmo que as fotos pudessem estar ligeiramente fora de foco, como é o título de seu mais famoso livro.

A intensidade do trabalho de Capa se espelhava em sua vida pessoal: apesar de sua fama ter lhe trazido bastante dinheiro, ele era conhecido por perder grandes quantias ao jogar cartas com soldados, artistas e milionários e por beber muito. Dizia-se que ele extremamente atraente e charmoso, tendo namorado atrizes e modelos famosas como Ingrid Bergman (na época, casada com Petter Lindstrom), Hedy Lamarr e Jemmy Hammond.

Capa registrou aqui um soldado de um grupo de reconhecimento, atuando perto de Troina, na Sicília, Itália, em 4 ee agosto de 1943
Capa registrou aqui um soldado de um grupo de reconhecimento, atuando perto de Troina, na Sicília, Itália, em 4 ee agosto de 1943

Ele também foi um dos fundadores da agência Magnum, que mudou a forma como os fotojornalistas se relacionavam com os seus empregadores. Para ele, um fotojornalista que não tivesse controle sobre os seus negativos, estava perdido e, por isso, ele se empenhou em construir um lugar onde as relações de trabalho fossem mais vantajosas para os fotógrafos.

Em um depoimento publicado pela Popular Photograpgy, o escritor americano John Steinbeck disse que “realmente me parece que Capa demonstrou sem sombra de dúvida que a câmera não precisa ser um instrumento mecânico frio. Como a pena, ela tem as qualidades daquele que a usa. Pode ser a extensão da mente e do coração”. Para também fotógrafo Cartier-Bresson, Capa “envergava o traje deslumbrante do toureiro, mas nunca investiu contra o bicho para matar de verdade; grande jogador, ele lutava por si mesmo e pelos outros num turbilhão. Mas o destino tinha decidido que ele fosse abatido no auge da glória”.

Robert Capa, durante a cobertura da Guerra Civil Espanhola, em 1937 – Foto - Gerda Taro / Wikimedia
Robert Capa, durante a cobertura da Guerra Civil Espanhola, em 1937 – Foto – Gerda Taro / Wikimedia

Um de seus biógrafos, Alex Kershaw, conta uma história que talvez resuma a importância de Capa para o fotojornalismo: ao ser perguntada por Eve Arnold sobre o que achava das fotografias de Capa, a editora da revista New Yorker, Janet Flanner, teria respondido que “bem, não acho que sejam muito bem concebidas”. Nisso, a outra respondeu de imediato: “minha cara, a história também não é bem concebida”. 

Eliza Casadei é professora de fotojornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/entre-o-clique-e-a-morte

FOTOS DA PRISÃO DE ANTÔNIO SILVINO

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A prisão de Antônio Silvio em 1914

O aprisionamento de Lampião não se me afigura impossível. Nada importa diga ele que prefere a morte. Antônio Silvino também o dizia, mas, apenas se viu baleado, foi o primeiro em fazer questão de mansamente se entregar à justiça. Restabelecido ulteriormente, voltaram-lhe no presídio os ímpetos brutais, como na manhã em que, entre descomposturas do calão mais vil, sacudiu um pão na cara de um desembargador.

Antonio Silvino preso.
Antônio Silvino preso.

Quando a captura de Lampião parece a tanta gente sonho irrealizável, vem a propósito recordar como se deu a de seu terrível predecessor.

O que desgraçou Antônio Silvino foi a perseguição sem tréguas que lhe moveu uma de suas vítimas mais humildes. Bem diz o povo que “não há inimigo pequeno” e que “mutuca é que tira boi do mato”…

Sargento Alvino, promovido a alferes após a captura de Antonio Silvino
Sargento Alvino, promovido a alferes após a captura de Antonio Silvino

José Alvino Correia de Queiroz era obscuro comerciante no sertão de Pernambuco, quando Antônio Silvino lhe saqueou o pequeno estabelecimento. Reduzido à miséria, jurou vingar-se e entrou a polícia daquele Estado. Acreditaram nos seus propósitos e fizeram-no sargento.

Inteirado de que Silvino transitaria por certa faixa do município de Taquaritinga, o Sargento Alvino buscou informações de João Vicente e Joaquim Pedro, moradores naquelas paragens. Ambos negaram a pés juntos ter qualquer conhecimento a respeito. Mas, tão jeitosamente o miliciano conduziu as investigações, que a esposa de João Vicente o orientou:

– Quando o Sr. chegar à casa de nosso vizinho, o Joaquim Pedro, e encontrar as mulheres torrando galinhas ou fazendo comedoria de sobra, pode apertar o pessoal que o “capitão” Antônio Silvino está escondido perto, no mato…

O oficial Theophanes Ferraz Torres, comandante da volante que capturou Silvino. Valente e destemido, seria um grande perseguidor de Lampião.
O oficial Theophanes Ferraz Torres, comandante da volante que capturou Silvino. Valente e destemido, seria um grande perseguidor de Lampião.

No dia esperado, 27 de novembro de 1914, os policiais, sob o comando do Alferes Teófanes Torres e do Sargento José Alvino, estavam no local referido, de nome Lagoa Laje.

Assim que penetrou na residência de Joaquim Pedro, o Sargento Alvino se encaminhou diretamente para a cozinha, atrás de cuja porta se lhe deparou pendurada uma banda de ovelha. E viu chegar desconfiado, pelo quintal, um rapazola com um tabuleiro à cabeça, cheio de tigelas, colheres e pratos. Interrogado, o recém-vindo explicou, titubeante, que havia ido deixar comida a uns “trabalhadores”, num roçado.

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Concomitantemente, o Alferes Teófanes submetia Joaquim Pedro a interrogatório, e este negava que soubesse do paradeiro de Silvino.

Aparece o sargento e, depois de falar na ovelha morta e de mostrar o tabuleiro com os restos de comida, pede permissão para forçar o velho sertanejo a não continuar mentindo. Ato contínuo, tranca-lhe, numa alcova, a mulher e os filhos e ordena que os soldados desembainhem os sabres.

Nos antigos jornais e revista por mim pesquisados, esta foto consta como sendo a força policial que lutou e capturou Antonio Silvino, mas muitos pesquisadores apontam como sendo o próprio bando de Antonio Silvino.
Nos antigos jornais e revista por mim pesquisados, esta foto consta como sendo a força policial que lutou e capturou Antonio Silvino, mas muitos pesquisadores apontam como sendo o próprio bando de Antonio Silvino.

Nesse momento, mais nervosa, uma filha do ameaçado pede, da alcova:

– Meu pai, por caridade, descubra logo!

Joaquim Pedro roga que não lhe batam e justifica-se, alegando que logo não disse a verdade por temer a vingança de Silvino, no caso de a polícia o não prender ou matar. E confessa que o celerado está escondido não longe dali.

Eram cinco horas da tarde e urgia assaltar os cangaceiros, antes que a noite sobreviesse.

Também nos jornais de época esta mulher foi apresentada como Antônia de Arruda, amante de Silvino.
Também nos jornais de época esta mulher foi apresentada como Antônia de Arruda, amante de Silvino.

Sob as ameaças de ser liquidado, se desse o menor sinal aos bandidos, Joaquim Pedro vai mostrar o esconderijo deles. Com todas as precauções imagináveis, a tropa se aproxima da malta criminosa.

Antônio Silvino estava deitado numa pedra, sobre a qual se debruçava copada oiticica. Perto, divertiam-se alguns de seus cabras, a jogar um sete-e-meio. Ao ouvir a primeira descarga, Silvino gritou, motejante:

Ferimentos de Antonio Silvino após a sua captura.
Ferimentos de Antônio Silvino após a sua captura.

– Espera aí, rapaziada! Deixem, ao menos, os menino acabar esta mão!

Mas o fogo irrompeu violento e sem intermitências, dos dois lados.

Com o cair da noite, o tiroteio deixou de ser correspondido. O Alferes Teófanes e o Sargento Alvino acreditaram que Silvino tivesse fugido. Suspeitando, todavia, que ele se quisesse vingar de Joaquim Pedro, foram entrincheirar-se na casa deste.

Antonio Silvino já com o uniforme da prisão.
Antônio Silvino já com o uniforme da prisão.

Coisa bem diversa se passava. Silvino fora atingido por uma bala nas espáduas e o seu companheiro Joaquim Moura tivera quebrada uma perna. Os demais cangaceiros se embrenharam, desorientados, na caatinga, favorecidos pelo negrume da noite.

Estando a perder muito sangue, Silvino convidou Joaquim Moura a se entregarem, mas este repelira o convite e, depois de dizer que macaco do Governo não tinha o gosto de botar-lhe as mãos em riba, ele vivo, suicidou-se com um tiro na cabeça.

Outra foto do oficial Ferraz.
Outra foto do oficial Ferraz.

Impressionado ainda mais com o trágico fim do último assecla que lhe restava, Silvino despojou-se das armas e arrastou-se para a casa da mulher que ele ignorava tivesse sido quem o denunciara. O marido dela, João Vicente, a estava censurando por sua leviandade, persuadido de que Silvino, sabedor da denúncia, lhes não perdoaria.

De repente, batem à porta. Quando, de fora, uma voz anuncia que quem bate é Antônio Silvino, João Vicente encomenda a alma a Deus, convicto de que vai morrer. É sua mulher quem se afoita a atender ao chamamento.

Aqui outra imagem do sargento Alvino.
Aqui outra imagem do sargento Alvino.

Ao se abrir a porta, aparece, à luz da lamparina, o vulto do grande salteador. Quase desfalecido e com as vestes rubras de sangue, Silvino está escorado no portal.

– Capitão, que horror é este?

– Mataram-me… arqueja aquele que, acovardado, começava a expiar crimes sem conta.

Conduzido a uma rede, ele pede que chamem a polícia. Vai alguém a Taquaritinga, mas não encontra lá os soldados. Na confusão em que todos se viam, ninguém a princípio se apercebeu de que os policiais poderiam estar pernoitando na fazenda de Joaquim Pedro. À mulher de João Vicente ocorre agora essa possibilidade. Despacham para ali o portador. Quando este bate à porta de Joaquim Pedro, os soldados aperram as armas, crentes de que é Silvino quem chega. Aberta a muito custo uma janela, o mensageiro dá contas de sua incumbência: vem avisar que Antônio Silvino, sozinho, desarmado e gravemente ferido, está em casa de João Vicente e quer entregar-se à prisão.

Expectativa para a chegada do famoso bandoleiro nordestino na Casa de Detenção de Recife.
Expectativa para a chegada do famoso bandoleiro nordestino na Casa de Detenção de Recife.

O Alferes Teófanes suspeita que se trate duma cilada e opina que se aguarde o raiar do dia. Tanto insiste, porém, o Sargento Alvino que, afinal, o seu comandante se dispõe a ir ver Silvino. Ainda assim, o recadista vai seguro pelos cós e advertido de que receberá uma punhalada, ao primeiro tiro com que a tropa seja surpreendida.

Cercada com cautelas a morada de João Vicente, houve grande alegria, quando se patenteou aos olhos de seus perseguidores a mísera situação daquele que se gabava de que, embora sem saber ler, governava todo o sertão! O Sargento Alvino parecia o mais contente. Exigiu que se não fizesse o menor mal a Antônio Silvino e saiu, pelos matos, a cortar umas folhas de quixabeira para lhe lavar as feridas.

Fora destronado o Átila bronco que, durante dois decênios, apavorara a gente matuta do meio-norte e assoalhava não ser passarinho que morasse entre grades… Por trinta anos ia se fechar atrás dele o portão da Penitenciária de Recife!

Multidão a frente da Estação Central do Recife na chegada do famoso cangaceiro.
Multidão a frente da Estação Central do Recife na chegada do famoso cangaceiro.

Foi à tenacidade do Sargento Alvino, à sua argúcia e vontade firme de vingança que se deveu a prisão de Antônio Silvino. Forçoso é, porém, reconhecer que colaborou inestimavelmente nisso a indiscrição duma mulher.

Acontecerá o mesmo, algum dia, a Lampião? Até na ruína dos cangaceiros terá aplicabilidade o cherchez la femme.

Texto acima é do Cearense Leonardo Mota, inserido no seu livro “No tempo de Lampião” e publicado pela Of. Industrial Gráfica, do Rio de Janeiro, em 1931. Esta reprodução é da segunda edição, de 1967. Leonado Mota era cearense da cidade de Pedra Branca, nasceu em 1891 e faleceu em 1948. Estudou a fundo o sertão nordestino, onde descreveu vários aspectos da região em obras memoráveis. 

Antes de Lampião, Antônio Silvino era o cangaceiro mais famoso e seu apelido mais conhecido foi “Rifle de Ouro”. Nascido no dia 2 de dezembro de 1875, em Afogados da Ingazeira, Manoel Batista de Morais entrou para a história como Antonio Silvino. Durante 16 anos, driblou a polícia, praticou saques e assassinou inimigos, mas era tratado pelos poetas populares como um “herói” por respeitar as famílias. A invencibilidade de Silvino terminou no dia 27 de novembro de 1914, quando ocorreu o seu último tiroteio com a polícia. Atingido no pulmão direito, conseguiu se refugiar na casa de um amigo e disse que ia se entregar. Da cadeia de Taquaritinga seguiu, dentro de uma rede, até a estação ferroviária de Caruaru, onde um trem especial da Great Western o levou para o Recife. Uma multidão o aguardava na Casa de Detenção, atual Casa da Cultura. Antonio Silvino tornou-se o detento número 1.122, condenado a 239 anos e oito meses de prisão. Em 4 de fevereiro de 1937, depois de vinte e três anos, dois meses e 18 dias de reclusão, foi indultado pelo presidente Getúlio Vargas. O ex-rei do cangaço morreu em 30 de julho de 1944, em Campina Grande, na casa de uma prima.

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FOTOS DO CANGACEIRO ANTÔNIO SILVINO NO RIO

O ex-cangaceiro Antônio Silvino (marcado na foto), desembarcando do navio "Conte Grande" no porto do Rio de Janeiro e chamando muita atenção.
O ex-cangaceiro Antônio Silvino (marcado na foto) no porto do Rio de Janeiro e chamando muita atenção. Ele desembarcou do navio italiano SS Conte Grande, da empresa de navegação Lloyd Sabaudo Line.

Autor – Rostand Medeiros

Algum tempo após a sua libertação da Casa de Detenção em Recife, o agora ex-cangaceiro Antônio Silvino esteve visitando o Rio de Janeiro, então Capital Federal. Vejam algumas fotos.

O prisioneiro Manuel Baptista de Morais, o Antônio Silvino
O prisioneiro Manuel Baptista de Morais, o Antônio Silvino

Deixando a detenção em Pernambuco
Deixando a detenção em Pernambuco

Antônio Silvino prestes a desembarcar
Antônio Silvino prestes a desembarcar

AS 1938 (8)

Quando esteve no Rio, houve um encontro entre Antônio Silvino e Getúlio Vargas, onde o ex-cangaceiro pediu um emprego.
Quando esteve no Rio, houve um encontro entre Antônio Silvino e Getúlio Vargas, onde o ex-cangaceiro pediu um emprego.

Quando foi entrevistado pelos jornalistas cariocas, o velho cangaceiro contou como realizou uma interessante mudança urbanística na pequena vila potiguar de Jardim de Piranhas. Vejam a íntegra da notícia.
Quando foi entrevistado pelos jornalistas cariocas, o velho cangaceiro contou como realizou uma interessante mudança urbanística na pequena vila potiguar de Jardim de Piranhas. Vejam a íntegra da notícia.

Antônio Silvino faleceu em 1944, em Campina Grande
Antônio Silvino faleceu em 1944, em Campina Grande

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OS LATINO-AMERICANOS NAS GRANDES GUERRAS

Artilheiro da FEB na Itália. O Brasil foi o país latino-americano que mais esteve engajado nos dois conflitos mundiais do século XX
Artilheiro da FEB na Itália. O Brasil foi o país latino-americano que mais esteve engajado nos dois conflitos mundiais do século XX

A preferência dos países desta região do mundo pela neutralidade não impediu a participação de seus militares nos grandes conflitos

A participação da Colômbia na Guerra da Coréia, um episódio em que a Guerra Fria ficou bem mais quente, é uma exceção. Historicamente, os países latino-americanos têm preferido a neutralidade em grandes conflitos internacionais e a maioria se limitou a participar em missões de paz sob a bandeira das Nações Unidas.

Até 1917, a participação da grande maioria dos países latino-americanos nas guerras europeias havia sido simplesmente para vender suprimentos e matérias primas para os países em conflito. A primeira conflagração internacional em que um país da América Latina decidiu intervir diretamente foi a Primeira Guerra Mundial. Após a entrada dos Estados Unidos no conflito, em 1917, vários países da região, entre os quais Cuba, Panamá, Bolívia e Uruguai, declararam guerra à Alemanha, mas só o Brasil passou a enviar tropas, que só chegaram à Europa um dia antes da declaração do armistício.

Foi na Segunda Guerra Mundial, onde a intervenção dos países latino-americanos se tornou mais importante. Durante os dois primeiros anos do conflito (1939 a 1941), a política de boa vizinhança impulsionada pelo então presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, buscou a neutralidade do continente americano e a solidariedade em caso de ataque dos beligerantes. Após o bombardeio de Pearl Harbor, em dezembro de 1941 , nove países da América Latina declararam guerra ao eixo formado por Alemanha, Itália e Japão.

O chamado "Escuadrón de Pelea 201" com o qual os aviadores mexicanos combateram durante a Segunda Guerra Mundial.  A unidade voou mais de 95 missões de combate, totalizando mais de 1.900 horas de voo. Os mexicanos participaram do esforço aliado para bombardear Luzon e Formosa, durante a expulsão dos japoneses daquelas ilhas. Durante sua luta nas Filipinas, cinco pilotos do esquadrão morreram.
O chamado “Escuadrón de Pelea 201” com o qual os aviadores mexicanos combateram durante a Segunda Guerra Mundial. A unidade voou mais de 95 missões de combate, totalizando mais de 1.900 horas de voo. Os mexicanos participaram do esforço aliado para bombardear Luzon e Formosa, durante a expulsão dos japoneses daquelas ilhas. Durante sua luta nas Filipinas, cinco pilotos do esquadrão morreram.

México juntou-se aos Aliados em 1942, após o afundamento de vários navios petroleiros mexicanos por submarinos alemães, na costa dos Estados Unidos. O governo liderado por Manuel Ávila Camacho ordenou a criação da Força Aérea Expedicionária Mexicana (FAEM), que lutou nos céus das Filipinas, durante os primeiros meses de 1945. Dos 30 pilotos do Esquadrão 201, três morreram em combate e três em acidentes aéreos.

Foto do pequeno caça submarino CS-13, da marinha cubana, que em 15 de maio de 1943, sob o comando do alferes Mario Ramirez Delgado, afundou o submarino alemão U-176, comandado pelo Kapitänleutenant Reiner Dierksen. Este submarino tinha afundado 11 navios, num total de 53.307 Ton.
Foto do pequeno caça submarino CS-13, da marinha cubana, que em 15 de maio de 1943, sob o comando do alferes Mario Ramirez Delgado, afundou o submarino alemão U-176, comandado pelo Kapitänleutenant Reiner Dierksen. Este submarino tinha afundado 11 navios, num total de 53.307 Ton.

O México também contribuiu para a defesa costeira contra os ataques do Eixo. Outros países concentrou seu esforço de guerra na defesa de suas águas territoriais. A Marinha cubana, por exemplo, afundou um submarino alemão U- 176, de maio de 1943.

Mas o país latino-americano com maior destaque na contribuição para o esforço de guerra seria novamente o Brasil. Depois da declaração de guerra ao Eixo em 1942, o Brasil permitiu a construção de bases aéreas em seu território, o que seria importante durante a Operação Torch (Tocha), a invasão aliada do norte da África. O Brasil foi o único país sul-americano que enviou tropas para a Europa. Era a sua Força Expedicionária Brasileira, com mais de 25.000 membros, sob o comando do general Mascarenhas de Moraes, que lutaram na Itália entre 1944 e 1945. Mais de 400 brasileiros caíram em batalha.

Fonte – http://internacional.elpais.com/internacional/2013/07/26/actualidad/1374865013_450191.html

A INCRÍVEL DESCOBERTA DE 1.500 VALIOSAS OBRAS DE ARTE ROUBADAS PELOS NAZISTAS DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Hitler só gostava de arte clássica
Hitler, tendo a sua direita o ditador fascista italiano Mussolini, só gostava de arte clássica

Um  Verdadeiro e Grandioso Tesouro em Obras de Artes Estavam Escondidas no Apartamento de um Idoso de 80 Anos, Atrás de Latas que Continham Comida Podre

Em 2011, fiscais aduaneiros alemães, em continuação a uma verificação de rotina, descobriram em um apartamento no bairro de Schwabing, Munique, um tesouro com 1.500 obras realizadas pelos melhores pintores do período entre as guerras mundiais do século XX.

Com o valor estimado em quase um bilhão de euros, acreditava-se que estas obras estavam perdidas. Mas estavam escondidos atrás de latas de macarrão, frutas e feijão, já apodrecidas.

São obras realizadas por artista do porte de Pablo Picasso, Marc Chagall, Emil Nolde, Henri Matisse, Max Beckmann, Renoir, Franz Marc, Otto Dix, Paul Klee, Oskar Kokoschka , Ernst Ludwig Kirchner e Max Liebermann.

Esta semana a revista semanal alemã Focus revelou toda esta incrível e surpreendente história de sua recuperação. É como o enredo de um filme de suspense.

“Arte Degenerada”, Para Hitler, Mas Cobiçada Por Muitos Nazistas

Munique, 1937, Hitler e Josef Goebbels, seu terrível ministro da propaganda, realizaram uma exposição conhecida como “Arte Degenerada”. Hitler gostava de um estilo clássico, de pinturas românticas, que idolatrava a sua visão do que ele acreditava ser o super-homem alemão. E seu gosto tinha de ser obrigatoriamente absolvido por aqueles que lhe seguiam. Dezenas de milhares de alemães visitaram a exposição “Arte Degenerada”, para ver seus líderes lhes dizerem o que deviam, ou não, gostar em relação à arte.

Hitler diante de obras que ele considerava como  “arte degenerada”, que ordenou retirar dos museus alemães.
Hitler diante de obras que ele considerava como “arte degenerada”, que ordenou retirar dos museus alemães.

Definitivamente o impressionismo, o cubismo e o modernismo não tinha lugar no Terceiro Reich.

Apesar desta aversão de Hitler por estes estilos de pintura, muita gente que participava das altas rodas do Regime Nazista, apreciavam este tipo de arte.

Já era fato conhecido na época que muitas das melhores coleções de obras de arte da Europa, organizadas e montadas ao longo de décadas, estavam nas mãos de judeus. Diante do avanço e da brutalidade do Regime Nazista, temendo por suas vidas, muitos destes judeus entregaram por pouco, ou nenhum dinheiro, grandes clássicos realizados por Matisse, Picasso, Renoir e outros.

Quem adquiria primariamente este material eram membros medianos do regime, mas que possuíam conexões com o setor de transportes do Reich. Em troca das obras, os antigos proprietários recebiam passagens para países distantes e salvavam suas vidas. Normalmente este contrato era cumprido. Mas não por benevolência, ou gratidão.

Hitler e Hermann Göring, seu obeso comandante da aviação militar nazista, apreciando um quadro.
Hitler e Hermann Göring, seu obeso comandante da aviação militar nazista, apreciando um quadro.

Isso ocorria porque estes funcionários medianos revendiam estas obras a membros de escalões superiores da cúpula nazista, que pagavam preços muito elevados pela sua nova aquisição. Certamente estes últimos não ficariam nem um pouco satisfeitos se descobrissem que pagaram um valor elevado por uma obra de arte, que havia sido conseguida por uma ninharia de um judeu.

Mas havia pessoas que, mesmo sem receberem do Partido Nazista uma maior atenção, também se aproveitavam desta situação. Um deles foi Hildebrand Gurlitt.

O Aproveitador

Este era um dos historiadores de arte mais respeitados na Alemanha no momento em que Hitler chegou ao poder em 1933. Ele continuou a ter sua licença de revendedor de arte durante o regime nazista, mas foi inicialmente odiado pelos novos governantes por ser especialista em arte moderna e ter uma avó judia.

Entre as obras recuperadas em Munique está este quadro do francês Henri Matisse.  Os historiadores de arte estão empolgados com a descoberta de uma pintura de Matisse esta.
Entre as obras recuperadas em Munique está este quadro do francês Henri Matisse. Os historiadores de arte estão empolgados com a descoberta de uma pintura de Matisse esta.

Apesar deste último e terrível agravante para os nazistas, eles também precisavam de Hildebrand, pois ninguém tinha os contatos que ele possuía com outros colecionadores, dentro da Alemanha Nazista e fora.

Quando a guerra começou ele participou de um intenso intercâmbio artístico para nutrir o grande museu que Hitler pretendia construir na cidade austríaca de Linz, onde nasceu. Este Führermuseum quimérico abrigaria a maior coleção de arte do mundo.

 Hildebrandt Gurlitt
Hildebrandt Gurlitt

De acordo com a revista Focus, conforme Hildebrand assumia uma melhor posição junto aos próceres nazistas, teve maior facilidade em adquirir centenas e centenas de valiosíssimas obras de arte a preços medíocres.

No final da guerra, Hildebrand Guirlitt afirmou as forças Aliadas que o terrível bombardeio efetuado pela RAF contra a cidade alemã de Dresden, em fevereiro de 1945, havia destruído toda a sua valiosa coleção na casa da família, em Kaitzer Strasse.

Obra do pintor Max Beckmann foi uma das pinturas recuperadas.
Obra do pintor Max Beckmann foi uma das pinturas recuperadas.

Tudo que Hildebrand Guirlitt narrou aos Aliados foi dado crédito. Suas raízes judaicas e a raiva inicial dos nazistas com aquele especialista em artes, fez com que ele se tornasse aos olhos dos Aliados uma vítima e não um aproveitador da desgraça alheia. Ele nunca foi acusado de obrigar judeus a vender suas coleções de arte por tostões.

Hildebrand morreu em um acidente de carro no ano de 1956.

O Herdeiro

Em setembro de 2010, autoridades aduaneiras alemãs realizaram uma verificação durante a viagem de um trem entre Munique e a Suíça. Em meio ao trabalho de rotina eles encontraram Cornelius Gurlitt, um ancião com 80 anos, único filho sobrevivente de Hildebrand.

1945 - Soldados americanos recuperando obras uma pintura roubada pelos nazistas. Os aliados acreditaram em  Hildebrandt Gurlitt.
1945 – Soldados americanos recuperando obras uma pintura roubada pelos nazistas em uma mina. Os aliados acreditaram em Hildebrandt Gurlitt.

Percebendo que este parecia nervoso, os oficiais alemães decidiram dar uma verificada. Eles descobriram que aquele velhinho tinha um envelope contendo 9.000 euros em dinheiro vivo, dividido em 18 notas de 500 euros, além de um estoque de envelopes vazios.

É normal que muitos alemães abonados realizem ilegalmente depósitos em dinheiro nos “prestimosos e infalíveis” bancos suíços, tão conhecidos dos nossos políticos em Brasilia. Isso tudo com a intenção de fugir das altas taxas de tributação sobre as suas poupanças em sua pátria. Consequentemente a parada e controle sobre estas pessoas é comum nas fronteiras alemãs. E tem gente que pensa que só no Brasil se busca burlar o leão do fisco.

Realizando verificações sobre Cornelius, os guardas descobriram que ele nunca tinha trabalhado, não tinha qualquer conta bancária oficial, pensão, seguro de saúde e seguro de vida. Aquele homem não estava registrado junto à polícia (obrigatório na Alemanha), ou junto às autoridades fiscais e não tinha passaporte. Segundo estas mesmas autoridades “-Cornelius Gurlitt era um homem que não existia”.

Os fiscais então emitiram um mandado de busca para vistoriar o apartamento alugado de Cornelius.

Um Valioso Tesouro No Meio da Comida Podre

Ao chegarem ao local na primavera de 2011, no bairro Schwabing, ao norte de Munique. Lá os funcionários aduaneiros encontraram um apartamento cheio de lixo, comida podre, uma montanha de garrafas e latas de comidas já vencidas de macarrão, frutas e feijão. Atrás destas latas, ao lado de uma janela gradeada, havia várias caixas empoeiradas e dentro delas um enorme tesouro de valor artístico e econômico.

O edifício onde se localiza o apartamento que continha o tesouro artístico.
O edifício em Munique onde se localiza o apartamento que continha o tesouro artístico.

Um porta-voz da alfândega acrescentou: “-Nós fomos para o apartamento esperando encontrar alguns milhares de euros não declarados, mas ficamos impressionados com o que encontramos. Do chão ao teto, do quarto ao banheiro, eram pilhas e pilhas de comida velha, em latas velhas, grande parte delas ainda dos anos de 1980. E por trás de tudo estavam estas obras de arte no valor de centena de milhares de euros”.

A busca no apartamento e a apreensão das peças duraram vários dias, durante os quais Cornelius não ofereceu a mínima resistência. Mas, de forma controversa, os fiscais proibiram a divulgação de maiores informações sobre a apreensão, até a recente divulgação da revista Focus.

As autoridades afirmaram que o governo alemão tem tentado encontrar os herdeiros destas obras de arte ao redor do mundo. É um trabalho árduo, pois são muitos esboços, pinturas a óleo, a carvão, litografias e aquarelas.

Capa da revista alemã Focus sobre a descoberta das obras de arte mantidas. Grande trabalho jornalistico.
Capa da revista alemã Focus sobre a descoberta das obras de arte mantidas. Grande trabalho jornalistico.

Sempre de acordo com a revista alemã Focus, as obras de arte estão agora em um cofre do Serviço de Alfândega da Baviera, em Garching, perto de Munique, onde uma equipe de especialistas está tentando encontrar os herdeiros dos legítimos proprietários.

Enquanto isso os promotores alemães acusaram Cornelius Gurlitt de evasão fiscal, por vender muitas outras obras de arte ao longo dos anos para viver.

A revista Focos informou que os investigadores encontraram um livro de registros bancários, com contas de poupança, onde Cornelius possui cerca de quinhentos mil euros. Fruto da venda destas obras de arte ao longo dos anos.

Ironicamente, embora Cornelius possa enfrentar prisão por evasão fiscal e lavagem de dinheiro, a legislação alemã deixa em aberto a possibilidade de muitas destas pinturas serem devolvidas para ele, se seus legítimos herdeiros não forem encontrados.

NOVAS INFORMAÇÕES SOBRE ESTE CASO, VEJA NO BLOG CULTURA DO RIO GRANDE DO NORTE – http://www.culturadorn.com.br/?p=331#more-331

Fonte – http://www.dailymail.co.uk/news/article-2486251/Discovered-Billion-pound-art-collection-seized-Nazis-ordered-destroyed-discovered-rotting-food-dishevelled-Munich-apartment.html

– http://cultura.elpais.com/cultura/2013/11/03/actualidad/1383505840_170909.html

1640-A MAIOR BATALHA NAVAL OCORRIDA NOS MARES BRASILEIROS

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E FOI FINALIZADO DEFRONTE A BAÍA FORMOSA E COM DESDOBRAMENTOS NA FOZ DO RIO CEARÁ-MIRIM

Quando o Rei Sebastião de Portugal morreu em 1578, Felipe II da Espanha o sucedeu no trono em Lisboa. De 1580 a 1640, os dois reinos peninsulares foram unidos sob a Coroa Espanhola. Com esta união os holandeses passaram a sofrer sanções comerciais de Felipe II, Rei da Espanha, uma vez que desde 1568 os Países Baixos lutavam pela sua independência frente ao domínio espanhol.

Entre os portugueses e holandeses, que mantinham, até então, boas relações comerciais. No caso da América portuguesa, os holandeses eram os responsáveis pelo refino e distribuição do açúcar produzido na colônia, que era então o principal produto de exportação. Os portugueses, por sua vez, recebiam em seus portos os produtos trazidos pelos navios holandeses.

Portugal, que dependia dos produtos negociados com os holandeses, reagiu às sanções impostas e obteve, junto ao governo espanhol, uma trégua em 1609 que perdurou até 1621, episódio que ficou conhecido como a Trégua dos Doze Anos.

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Beneficiados com a trégua, os holandeses já participavam do financiamento de engenhos de açúcar e estavam cada vez mais interessados na América portuguesa.

O fim da trégua em 1621 coincidiu com a fundação da Companhia das Índias Ocidentais, associação de mercadores que tinha por objetivo resguardar o comércio nas regiões que mantinham negócios com os Países Baixos. Para isto, a companhia foi autorizada pelo governo a conquistar terras, esta “… seria responsável pelo governo local, criando instituições e firmando acordos com os principais homens das áreas incorporadas”. 

Os Primeiros Ataques ao Brasil

Já em maio de 1624, a Companhia das Índias Ocidentais liderou uma invasão à Bahia, capital da América portuguesa. Com uma frota composta de 26 navios e 500 canhões, os holandeses iniciaram sua invasão. Mas, um ano após terem chegado, foram expulsos, sem grandes dificuldades.

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Outro ataque na América portuguesa foi planejado para 1630. Desta vez a capitania escolhida foi a de Pernambuco, considerada a mais rica produtora de açúcar no mundo. Os holandeses já conheciam Pernambuco, pois muitos lá residiam e negociavam.

Conseguiram conquistar as vilas de Olinda e Recife, mas o mesmo não ocorreu com a zona rural. Liderados por Matias de Albuquerque, os lusos brasileiros ofereceram forte resistência.

Para vencer essa resistência, os holandeses realizaram vantajosos acordos em que prometiam investir na formação de novas lavouras e na construção de engenhos. Com isso, os proprietários de terras pernambucanos passaram a apoiar a entrada dos holandeses no Brasil. A partir daquele momento, os holandeses não só se concentraram em dominar terras pernambucanas. Ao longo do tempo, expandiram a sua dominação para outras regiões açucareiras do nordeste. Além da capitania de Pernambuco, os holandeses ocuparam, sobretudo, as capitanias de Itamaracá, da Paraíba e do Rio Grande, futuro Rio Grande do Norte.

Engenho na Paraíba na época da invasão holandesa
Engenho na Paraíba na época da invasão holandesa

Os holandeses construíram diversos engenhos e financiaram novas plantações. Além disso, algumas cidades coloniais ganharam reformas e construções que deram uma nova aparência ao espaço colonial nordestino.

Conde Nassau 

Tempos depois foi nomeado para o cargo de governador das dominações holandesas no Brasil o conde João Maurício de Nassau (em holandês – Johan Maurits van Nassau-Siegen), que chegou ao Recife em janeiro de 1637.

No período em que governou o Brasil-holandês, entre 1637 a 1644, Nassau procurou estabelecer uma administração eficiente e um bom relacionamento com os senhores de engenho da região. Desse modo, foi colocado a disposição dos proprietários de engenho recursos financeiros para serem utilizados na compra de escravos e de maquinário para o fabrico do açúcar.

Nassau também criou órgãos de representação municipal, a fim de estimular a participação política da população nas decisões de interesse local. Durante seu governo, as vilas de Recife e Olinda passaram por um intenso processo de urbanização e melhoramentos que mudaram completamente a paisagem local.

Maurício de Nassau
Maurício de Nassau

Mas Nassau também era um militar e os holandeses não haviam se esquecido da derrota na Bahia em 1625. Em 8 de abril de 1638, o conde João Maurício de Nassau, à frente de uma esquadra de 30 barcos e no comando de 3.600 soldados e 1000 índios tapuias, tentou tomar Salvador. Além de não conquistar seu objetivo, a missão sofreu inúmeras perdas.

Mesmo com estas perdas e derrotados na tentativa da conquista, a expedição fora rentável em termos de pilhagem dos engenhos de açúcar do Recôncavo e pelo apresamento de boa quantidade de escravos para serem revendidos no Recife.

Prevendo novos ataques por parte dos espanhóis/portugueses, o conde de Nassau, com os poucos recursos de que dispunha, junto com o comando do almirante Willem Corneliszoon Loos, trabalha no sentido de aumentar a sua frota naval com a contratação de barcos mercantes particulares, que vinham buscar açúcar no Recife.

Demonstração de Força

Em 10 de janeiro de 1639, uma segunda-feira, surgiu diante das praias calientes de Olinda e Recife as velas da uma grande armada que zarpara de Lisboa a 8 de setembro de 1638 e se reunira nas ilhas de Cabo Verde a uma outra armada, esta castelhana.

Porto de Recife
Porto de Recife

Esta respeitável concentração de velas e canhões era comandada por Dom Fernando de Mascarenhas, o primeiro conde da Torre, antigo governador de Ceuta e Tanger, que desde 8 de junho de 1618 fora nomeado encarregado do governo geral do Brasil. Mas o conde não veio ao Recife para atacar, era apenas numa demonstração de força.

Permaneceu com a esquadra parada até o meio dia, seguindo então viagem para Salvador, sempre à vista do litoral. O conde desejava que os holandeses saíssem para o combate, mas sem sucesso.

Nos meses seguintes os informantes de Nassau e a captura de correspondência portuguesa, mostraram a Nassau as penosas circunstâncias materiais e morais da armada e das más relações do conde da Torre com o governador em Salvador, que o acusava de covardia por não ter atacado imediatamente as naves de guerra do Brasil holandês.

Para se ter uma ideia dos problemas deste grupo, da saída da frota de Lisboa, da passagem por Cabo Verde e Recife, até a chegada a Salvador, morreram quase 2.000 homens, a grande maioria acometidos de doenças. Salvador quase entrou em colapso por receber mais de 7.000 homens.

O que veio a seguir foi pior. Por quase um ano ficou a armada do conde da Torre fundeada nas águas da baía de Todos os Santos, com a maior parte dos seus homens recolhidos ao Hospital da Misericórdia e a outros conventos de Salvador, padecendo os rigores da epidemia, desnutrição provocada pela escassez de alimentos, doenças venéreas e outros males. Cada dia a morte ia ceifando mais vidas dos membros da esquadra. Não fosse a vinda de reforços do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, a frota teria perdido sua capacidade de combate.

Arcabuzeiro holandês
Arcabuzeiro holandês

E nesse espaço de tempo, Mauricio de Nassau e o almirante Willem Corneliszoon Loos, que não eram idiotas para aceitarem combates apenas com inúteis demonstrações de força, vão reforçando a sua frota, ampliando o número de canhões em suas naves, acumulando pólvora e mandando os homens afiarem as suas espadas.

Problemas ao Zarpar de Salvador

Finalmente, depois de solucionar inúmeros problemas, a armada do conde da Torre, devidamente embandeirada e recebendo salvas dos canhões dos fortes de Salvador, levanta âncoras em 19 de novembro de 1639 e segue para o norte.

Apesar de suas perdas, na partida da Bahia a esquadra luso-espanhola não era um grupo qualquer. Ampliada pelos reforços, era uma frota constituída de 77 naves, sendo 30 galeões, 34 navios mercantes, 13 navios menores, 4.000 marinheiros e 10.000 soldados. Alguns estudiosos apontam que esta frota era composta de 82 naves.

Logo ao sair de Salvador, o Conde da Torre tem contra si o primeiro e grande aliado dos holandeses, o deus Éolo (o deus dos ventos, filho de Zeus), que lhe envia o vento norte e com ele uma violenta tempestade. Durante seis semanas esteve a esquadra à deriva, com o peso dos seus galeões e navios transporte, impossibilitada de seguir sua rota em busca de Pernambuco.

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Quando se pensava que a situação iria mudar, eis que de repente todas as forças da natureza se unem e a corrente se transforma em vento sul, mas com tamanha violência que arrasta toda a formidável armada para muito além da Paraíba, impedindo assim que os seus navios chegassem ao Recife.

Com a enorme esquadra toda desbaratada, em formação aberta e desarrumada, o conde da Torre faz o retorno e vem em busca do porto de Pernambuco.

Neste meio tempo, em 1º de janeiro de 1640, parte do Recife ao encontro conde da Torre o almirante holandês Willem Corneliszoon Loos. O holandês tem o vento norte por aliado, que vão ajudar a sua frota de 41 navios e 2.800 soldados, este sob as ordens do major Pierre Legrand.

Um engenho de açucar tocado por escravos negros, a casa grande do dono das terras e uma capela, cenário típico do Nordeste do Brasil holandês.
Um engenho de açucar tocado por escravos negros, a casa grande do dono das terras e uma capela, cenário típico do Nordeste do Brasil holandês.

Logo a maior batalha naval já ocorrida nas costas brasileiras terá início.

Uma Batalha Naval em Quatro Atos 

Na manhã do dia 12 de janeiro, uma quinta-feira, foram avistados os barcos luso-espanhóis na altura da praia do Pau-Amarelo, onde estes pretendiam desembarcar parte de sua infantaria. Pelas três da tarde, as naus holandesas, tomando a dianteira em direção dos barcos adversários.

Iniciaram o bombardeio dos galeões a três milhas de mar aberto, entre a ilha de Itamaracá e a praia de Ponta de Pedras. Durante três horas o fogo intenso dos canhões escureceu os céus.

A nau do almirante Willem Corneliszoon Loos partiu ao encontro da capitânia do conde da Torre e de outros quatro galeões que a rodeavam, sendo recebida por sucessivas salvas de canhões e de mosquetes. Neste momento, o almirante holandês vem a ser ferido gravemente por um canhonaço, tendo o seu ombro sido arrancado do seu corpo. Vem em seu socorro o vice-almirante Jacob Huygenszoon, procurando evitar a abordagem em face de inferioridade numérica dos holandeses no confronto.

A capitânia holandesa, com seu agonizante comandante, rompe o cerco dos galeões espanhóis, retira-se do cenário da luta e vai à busca do porto de Itamaracá, onde o corpo do almirante falecido vem a ser sepultado com todas as honras.

À noite, os canhões silenciam. No estado maior holandês é escolhido o vice-almirante Jacob Huyghensz como novo comandante da esquadra.

A Batalha Continua

O combate tem sequência na manhã do dia 13 de janeiro, entre a foz do rio Goiana e o atual território da Paraíba, prolongando-se o combate até o cair da noite. Neste dia perderam-se uma nau holandesa e dois barcos mercantes adversários.

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Os barcos holandeses, por serem menores levam vantagem na refrega sobre os galeões, graças à extrema perícia de seus pilotos e marinheiros que, fazem círculos em torno daquelas pesadas naus, causando-lhes danos irreparáveis, como descreve com precisão Gaspar Barlaeus (1647) – “Nestas batalhas, ostentaram-se várias virtudes Assim, a perícia náutica soube utilizar a vantagem dos ventos e as marés. O arrojo, travando-se com inimigos mais poderosos, envolveu-se nos mesmos riscos que ele. Preferiu a prudência militar queimar e submergir as naus adversas a capturá-las e conservá-las não sem dispêndio público. Pugnou heroicamente a fidelidade, a constância, o esforço. A moderação ficou satisfeita com debandar o adversário, que era impossível abater com tão pequena força. A clemência salvou os inimigos próximos da perdição. Manifestou-se mais de uma vez a amizade, socorrendo os companheiros em perigo. Uma entusiástica pressa, que não consentia folga aos desígnios do inimigo, acometeu-lhe reiteradamente as naus apercebidas para pelejar, mas movendo-se tardiamente”.

Na manhã de 14 de janeiro novamente se defrontam as duas esquadras, defronte ao Cabo Branco, localizado atualmente na capital paraibana.

Os holandeses aproveitaram-se do vento desfavorável que dificultava as manobras da frota luso-espanhola, tendo os holandeses perdido a nau Zwaan (Cisne) que leva junto consigo, de encontro aos arrecifes, a nau do vice-almirante português Antônio da Cunha Andrade, com 240 marinheiros, quatro frades, dois capitães, dois alferes e um médico.

Calculava-se em 30.000 florins conseguida pelos holandeses neste barco. Sendo desde prata amoedada, lavrada e em barra, feita no navio, fora um colar de ouro e outros objetos subtraídos pelos marinheiros.

mapa que mostra a costa paraibana e potiguar durante a ocupação holandesa. Na base do quadro vemos reproduções dos combates navais.
mapa que mostra a costa paraibana e potiguar durante a ocupação holandesa. Na base do quadro vemos reproduções dos combates navais.

O conde Maurício enviou como prisioneiro para a Holanda o do vice-almirante Andrade, considerado homem de inteligência cultivada e caráter afável, julgando pudesse ser útil à Companhia detê-lo ali algum tempo.

Prisioneiro no Recife o comandante português fez entrega da sua espada ao Conde de Nassau este, por sua vez, em um dos seus retratos, conservado no Castelo de Vianen, pintado por autor desconhecido em 1640, tem nas mãos aquela espada, onde se lê, gravado na lâmina, o nome Antônio.

O Combate Chega ao Litoral Potiguar

Os dias 15 e 16 de janeiro foram todo de calmaria, “em que as duas frotas se tornaram joguete das ondas e não consentiam ser governadas pelas velas e lemes”.

Imagem de Frasz Post, mostrando o que importava no Brasil para os holandeses
Imagem de Frasz Post, mostrando o que importava no Brasil para os holandeses

Porém a quarta refrega entre as duas armadas veio acontecer no dia 17, na costa do Rio Grande do Norte; “no inicio da ação, a esquadra holandesa rompeu pelo meio da espanhola com tal destreza que logrou a vantagem dos ventos do mar ficando a frota inimiga a sota-vento da nossa”.

A área onde ocorreu este combate é defronte a área onde atualmente se localiza o município de Baía Formosa. Por volta das nove da manhã as duas esquadras entraram em alcance de tiro e os canhões começaram trovejar. O ataque cerrado dos barcos holandeses contra a capitânia espanhola aniquilou completamente a capacidade de resistência da esquadra do Conde da Torre. O combate só se encerrou no final da tarde.

Não consegui maiores detalhes em águas potiguares. Tudo indica que diante das derrotas anteriores, ação dos ventos, limitação de água potável e mantimentos, os luso-espanhóis buscavam evitar prolongar o combate e se salvar.

Uma parte dos seus navios foi em busca da costa potiguar, aonde vieram ancorar defronte a foz do rio Ceará-Mirim. Ali desembarcaram uma força que varia (dependendo da fonte) entre 1.300 a 2.000 soldados, sob o comando do pernambucano Luís Barbalho Bezerra.

Aqui tem início uma saga inigualável, uma grande marcha de resistência, séculos antes da marcha da Coluna Prestes.

Típico militar holandês
Típico militar holandês

Luís Barbalho achava-se exatamente no Rio Grande do Norte, em pleno território holandês, a mais de 2.400 quilômetros da Bahia e da proteção de tropas amigas. Mesmo com um longo caminho de retorno, em nem um instante este pernambucano de Olinda, nascido em 1584, pensou em entregar-se, e sem hesitação resolveu dá início a sua terrível marcha.

Recebendo amigavelmente mantimentos nas terras que lhe eram favoráveis, tomando-os à força e queimando o que não podia levar das povoações hostis, ia marchando Luís Barbalho para o sul com infinita cautela, utilizando táticas de guerrilha, procurando evitar sempre um recontro com tropas holandesas.

Em Pernambuco, os holandeses souberam de sua empreitada e enviaram uma coluna em sua perseguição. Foi então que Luís Barbalho Bezerra desenvolveu raras qualidades estratégicas, de vez em quando sumindo na floresta e logo depois caindo com um raio sobre a coluna holandesa para a molestar e desaparecer imediatamente.

Em Goiana, Pernambuco, teve de se bater com um grupo composto de quinhentos e trinta holandeses e seus aliados. Derrotou-os e prosseguiu na sua marcha até o rio de São Francisco. Atravessou-o e achou-se enfim no território português, onde podia ser apoiado. A perseguição holandesa também parou ali.

Estava terminado um dos mais brilhantes feitos de combate daquele tempo. Tendo a sua célebre retirada sido elogiada pelos próprios escritores holandeses.

O Fim da Esquadra

Mas voltado para a dispersa e desmantelada esquadra luso-espanhola.

Após deixar a costa potiguar, os barcos portugueses seguiram dispersos em busca ou do mar das Antilhas, ou do arquipélago dos Açores. Já o conde da Torre seguiu no seu retorno ao porto de Cádiz e com o que sobrou dos barcos espanhóis.

Antigo Castelo de Keulen, atual Fortaleza dos Reis Magos, Natal, Brasil
Antigo Castelo de Keulen, atual Fortaleza dos Reis Magos, Natal, Brasil

Depois de um descanso na foz do rio Potengi, defronte ao Castelo de Keulen, a nossa gloriosa Fortaleza dos Reis Magos, os barcos holandeses retornaram a Recife no dia 1º de fevereiro de 1640, onde foram recebidos com grandes festas e alaridos.

A vitória sobre a armada do conde da Torre tornou-se um feito de justificável orgulho para o conde de Nassau, que, pelejando em posição de inferioridade, no que diz respeito ao número de barcos de sua esquadra e de soldados, alcançou a vitória. Consta que as suas perdas se limitaram a dois navios e 106 homens.

Na Holanda foi mandado cunhar uma medalha comemorativa à vitória alcançada sobre os luso-espanhóis, com a esfinge do conde de Nassau e, no seu reverso, uma representação da batalha com a seguinte inscrição: Deus abateu o orgulho do inimigo em 12, 13, 14 e 17 de janeiro de 1640.

A sorte dos que ficaram, porém, até hoje extasia aos que, mesmo passados tantos anos, leem as crônicas daqueles dias.

Fonte – http://www.old.pernambuco.com/diario/2003/11/03/especialholandesesf186_0.html

Bibliografia

SANTIAGO, Diogo Lopes. História da Guerra de Pernambuco. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Estudo introdutório de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: FUNDARPE; Diretoria de Assuntos Culturais, 1984. (Coleção Pernambucana; 2fase, v. 1). p. 129.

BARLAEUS, Gaspar. História dos feitos, recentemente praticados no Brasil. Tradução de Cláudio Brandão; Apresentação de Leonardo Dantas Silva; Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980. XIII, 410 p. il. 60 gravuras, reproduzidas em fac-símile da ed. de Amsterdam de 1647, 27 assinadas por Frans Post (1645). (Coleção Recife; v. 4). P. 168

MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo de Jornal. Apresentação e organização Leonardo Dantas Silva. Recife: FJN, Ed. Massangana, 1998. 320 p. (Documentos, n.45). Inclui bibliografia. P. 73

W-TJEN, Hermann. O domínio colonial holandês no Brasil. Tradução de Pedro Celso Uchoa Cavalcanti. São Paulo: Companhia Editora Nacional,1938. (Brasiliana, v. 128).p. 161.

STRAATEN, HARALD S. VAN DER. Brazil a destiny. Haia, 1984

NETSCHER, P.M. Os holandeses no Brasil. São Paulo, 1942

OLIVEIRA LIMA, M. de. Pernambuco seu desenvolvimento histórico. Organização e apresentação de Leonardo Dantas Silva. Prefácio de Gilberto Freyre. 3. ed. fac-similar. Recife: FJN, Ed. Massangana 1997. XXVIII, 342 p. il. (Descobrimentos, n. 9).

CANUDOS

Monumento de Antônio Conselheiro, no Parque Estadual de Canudos LUCIANO ANDRADE/
Monumento de Antônio Conselheiro, no Parque Estadual de Canudos
LUCIANO ANDRADE/

Canudos, Bahia (6/11/1896 – 5/10/1897)

Movimento que surgiu na primeira metade da década de 1890, com a pregação de Antônio Conselheiro, um líder beato local que passou a ser seguido pelas populações do sertão baiano como uma espécie de messias. O beato começo a pregar por volta de 1870, tendo sido proibido de fazê-lo em 1882 por ordem da Igreja Católica. Após a proclamação da República de 1889, passou a criticar a República devido ao estabelecimento do casamento civil e à separação entre Igreja e Estado.

Participou de uma rebelião contra a cobrança de impostos em 1893, e fixou-se no arraial de Canudos (no vale do rio Vaza-Barris), ao lado de milhares de sertanejos aos quais prometia a salvação espiritual. Fundou-se uma comunidade autônoma onde se produziam os próprios meios de subsistência. Os produtos básicos era divididos e a condição de miséria das populações marginalizadas era amenizada.

O movimento é normalmente associado às péssimas condições de vida que existiam na região nordeste desde o final do Império. A área era dominada por grandes latifúndios de baixa produtividade, por uma oligarquia política arcaica e contendo uma grande massa de excluídos e miseráveis. Somando-se a isso a frequência de secas e a baixa produtividade das terras locais, o resultado era que muitos sertanejos juntavam-se em bandos paralegais ou criminosos (como o cangaço) visando garantir sua sobrevivência, fenômeno que passou a ser chamado de “banditismo social” pelos historiadores.

Ruínas da entrada do cemitério da antiga cidade de Canudos Arquivo/AE
Ruínas da entrada do cemitério da antiga cidade de Canudos
Arquivo/AE

Em 1896, Canudos contava com uma população estimada entre 10 mil e 25 mil habitantes, e continuava crescendo. Tal inchaço demográfico e a atração que a comunidade causava começaram a incomodar as oligarquias, o clero e a imprensa locais, que difundiram rumores de que Canudos seria um movimento monarquista e uma ameaça à República. Os sertanejos de Canudos eram qualificados como “fanáticos”.

No mesmo ano, Conselheiro encomendou uma remessa de madeira em Juazeiro com o objetivo de construir uma igreja. Quando esta atrasou, alegou-se que a comunidade de Canudos estaria se preparando para lançar uma ofensiva armada contra as autoridades para conseguir o produto pela força. O governo da Bahia, por conseguinte, enviou duas expedições armadas contra os beatos. A primeira com cerca de uma centena de homens, e a segunda com 500 homens. Ambas as expedições foram derrotadas pelos sertanejos.

Face às humilhantes derrotas, o governo baiano organizou uma terceira expedição, mais volumosa e bem equipada. Eram cerca de mil e duzentos homens, comandados pelo célebre coronel Moreira César.

Vista do mirante de Canudos, a estátua de Antônio Conselheiro, no Parque Estadual de Canudos, na Bahia LUCIANO ANDRADE/AE
Vista do mirante de Canudos, a estátua de Antônio Conselheiro, no Parque Estadual de Canudos, na Bahia – LUCIANO ANDRADE/AE

No entanto, a nova expedição não obteve sucesso e seu comandante foi morto pelos sertanejos. Essa derrota levou a uma enorme insatisfação da opinião pública no Rio de Janeiro, culminando com a depredação de jornais monarquistas e um assassinato.

Finalmente, foi organizada uma nova expedição militar pelo governo federal, na época representado pelo presidente Prudente de Morais. A quarta leva de soldados cercou a comunidade e a bombardeou. Os rebeldes forma aniquilados em outubro de 1897. O cadáver de Antônio Conselheiro foi exumado e sua cabeça decepada.

O jornalista Euclides da Cunha foi correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” (na época “Província de São Paulo”) em Canudos e descreveu a quarta campanha do exército republicano contra a comunidade. Sua cobertura para o jornal rendeu ao Brasil um de seus maiores clássicos literários, o livro “Os Sertões”. Após a derrota da terceira expedição, Cunha havia publicado no jornal um artigo intitulado “A nossa Vendéia”, no qual comparava o conflito baiano a um episódio da revolução francesa, e demonstrara seu apoio à República.

Vista das ruínas da igreja de Canudos LUCIANO ANDRADE/AE
Vista das ruínas da igreja de Canudos
LUCIANO ANDRADE/AE

No entanto, ao visitar pessoalmente os revoltosos e assistir ao extermínio perpetrado pelas forças republicanas, o autor se decepcionou profundamente com o exército e passou a ver o conflito com outros olhos.

Seu clássico foi publicado em 1902. Nele, o jornalista enaltecia a raça dos sertanejos (“rocha viva de nossa raça”) em oposição aos “litorâneos” e apontava os problemas da República, como o militarismo. Denunciou, através de seu livro, o massacre dos vencidos e o comércio de mulheres e crianças, interpretação que se tornou marcante e hegemônica na memória nacional.

Fonte – http://acervo.estadao.com.br/noticias/topicos,canudos,881,0.htm

FÓSSIL DO CÁUCASO REVELA NOVA FACE DA EVOLUÇÃO HUMANA

Capa da revista Science, com foto do novo crânio de Homo erectus. (Foto: © Guram Bumbiashvili/Georgian National Museum)
Capa da revista Science, com foto do novo crânio de Homo erectus. (Foto: © Guram Bumbiashvili/Georgian National Museum)

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Cientistas anunciaram hoje a descoberta de um crânio hominídeo de 1,8 milhão de anos, praticamente completo e intacto, que poderá obrigá-los a redesenhar a árvore evolutiva da espécie humana. O fóssil foi encontrado nas colinas de Dmanisi, próximo às ruínas de uma cidadela medieval na Geórgia, e está sendo classificado pelos pesquisadores como Homo erectus – membros da linhagem que teria dado origem aos seres humanos modernos (Homo sapiens).

O crânio, descoberto em 2005, e sua mandíbula, escavada cinco anos antes no mesmo local, estão em excelente estado de conservação, com suas formas originais quase que totalmente preservadas, o que permitiu aos cientistas estudar os traços anatômicos do hominídeo com alto grau de detalhamento. “É uma descoberta extraordinária em vários aspectos”, disse a pesquisadora Marcia Ponce de Léon, da Universidade de Zurique, na Suíca, que assina o trabalho na revista Science com outros seis autores. “O estado de preservação é perfeito, sem deformações nem fragmentações.”

O fóssil, batizado apenas como “crânio #5″, tem uma caixa craniana surpreendentemente pequena (com 546 cm³, cerca de 1/3 do volume de um crânio humano moderno) para o período em que viveu, o que reforça a teoria de que o aumento de tamanho do cérebro não foi um pré-requisito para que nossos ancestrais humanos deixassem a África, por volta de 2 milhões de anos atrás. Já o rosto é surpreendentemente protuberante, com dentes e maxilares ainda bastante robustos, como os de chimpanzés ou de hominídeos mais primitivos, anteriores ao gênero Homo.

Outros quatro crânios encontrados em Dmanisi em anos anteriores e atribuídos ao mesmo período (1,8 milhão de anos atrás), porém, possuem características diferentes. E é daí que surge a proposta mais ousada do trabalho: de que fósseis desse mesmo período encontrados em outras partes do mundo (África e Ásia) e classificados como espécies diferentes de Homo (H. erectusH. habilis e H. rudolfensis) podem, na verdade, ser indivíduos de uma mesma espécie, que os autores do trabalho optam por chamar de Homo erectus – “porque é a linhagem mais bem definida à qual podemos nos referir”, segundo o antropólogo Christoph Zollikofer, também da Universidade de Zurique.

Escavações em Dmanisi.
Escavações em Dmanisi.

Se delimitar espécies já é algo problemático para os biólogos que trabalham com animais e plantas viventes, para os paleontólogos que trabalham com fósseis de plantas e animais extintos é muito mais complicado ainda. Para diferenciar uma espécie da outra é preciso contemplar a variabilidade genética e morfológica que existe dentro de cada uma delas, e para isso é preciso ter acesso a vários exemplares de uma mesma população; só que o registro fóssil é escasso. Por isso o sítio de Dmanisi é tão especial: ele permite, pela primeira vez, comparar a morfologia de vários indivíduos hominídeos que viveram num mesmo local, num intervalo de tempo muito curto. “É o primeiro lugar que nos permite contemplar e quantificar variações em uma população de hominídeos”, afirma Zollikofer. “Antes tínhamos apenas indivíduos; agora temos uma população”, completa Marcia.

Os pesquisadores fizeram uma comparação detalhada — usando, inclusive, técnicas de tomografia e computação 3D — entre os cinco crânios de Dmanisi e concluíram que a variabilidade morfológica observada entre eles é comparável à variabilidade que existe entre cinco indivíduos de uma população qualquer de chimpanzés, bonobos ou seres humanos modernos. Ou seja: eles são tão diferentes entre eles quanto você pode ser de qualquer outra pessoa sentada ao seu lado no metrô. Não só isso, mas é também compatível com a variabilidade observada entre fósseis de Homo erectusHomo habilis e Homo rudolfensis do mesmo período encontrados na África e na Ásia– o que abre a possibilidade de que esses fósseis não representam espécies diferentes, mas, na verdade, variações individuais entre membros de uma mesma espécie (a exemplo do que se observa hoje nos seres humanos modernos).

Em outras palavras, abre-se a possibilidade de juntar três galhos da árvore evolutiva humana em uma única ramificação. (Imagine que você está assistindo a um filme antigo com vários personagens que parecem ser pessoas diferentes, mas que na verdade são interpretadas por um único ator com maquiagens diferentes … é mais ou menos isso.)

Imagem computadorizada dos cinco crânios descobertos em Dmanisi (ordenados de 1 a 5). Crédito: M. Ponce de León e Ch. Zollikofer, Universidade de Zurique
Imagem computadorizada dos cinco crânios descobertos em Dmanisi (ordenados de 1 a 5). Crédito: M. Ponce de León e Ch. Zollikofer, Universidade de Zurique

“Essas diferenças entre fósseis que chamávamos de Homo erectus foi o que motivou subdividir o gênero em vários táxons — H. ergasterH. pekinensisH. javanensisH. heidelbergensis etc –, que hoje chamados de complexo H. erectus, a linhagem que antecedeu o Homo sapiens“, diz o pesquisador Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “O fato de essa heterogeneidade ser encontrada em um só lugar agora sugere, de acordo com os autores, que esta variação deveria ser intraespecífica, representativa de uma única espécie muito heterogênea (muito mais do que a espécie humana hoje) no passado. Acho que é uma conclusão interessante e uma explicação possível, mas que ainda precisa ser corroborada por outros estudos, principalmente se encontrarem outro sítio paleontológico com variações parecidas, de diferentes épocas.”

Os pesquisadores acreditam que os cinco crânios pertencem a um homem idoso sem dentes, dois homens adultos, uma mulher jovem e um adolescente cujo sexo não pôde ser determinado, segundo informações divulgadas pela Science. As análises do terreno no qual os fósseis foram encontrados indicam que os cinco indivíduos morreram e foram fossilizados num intervalo curto de tempo, de apenas alguns séculos. Além dos crânios, foram encontrados vários fragmentos de ossos de outras partes do corpo, assim como centenas de fragmentos de ferramentas de osso e pedra que os hominídeos utilizavam no seu dia a dia. Também estão preservados em Dmanisi centenas de fósseis de animais carnívoros que conviveram com os seres humanos da época e podem ter sido tanto presas quanto predadores deles. “É uma cápsula do tempo de 1,8 milhão de anos”, diz o pesquisador David Lordkipanidze, do Museu Nacional da Geórgia, que dá uma ideia não só de como era a aparência dos hominídeos, mas de como eles viviam e como era o ambiente da época ao redor deles.

O FUSCA FARDADO – O CARRO POPULAR DE ADOLF HITLER

Festa Nazista e o
Festa Nazista e o “Carro do Povo” – Fonte – Tima/Life

A Kraft durch Freude , que pode ser traduzido como “Força pela Alegria”,  a organização para os tempos livres da DAF – Deutsche Arbeitsfront, a Frente Alemã do Trabalho, a grande organização corporativa do regime nazista, foi quem mandou construir a fábrica de Wolfsburg, onde foi produzido o “carro do povo”.

Tudo começou em 1934 quando o ditador Adolf Hitler encomendou ao engenheiro austríaco Ferdinand Porsche o desenvolvimento de um pequeno automóvel “para o povo”.

Porsche tinha sido diretor técnico da empresa Daimler-Benz, mas no começo dos anos 1930 tinha-se estabelecido por conta própria como designer de automóveis de competição, em Stutgart, no sul da Alemanha. Um dos seus projetos era o de desenvolver um carro pequeno que fosse, ao mesmo tempo, barato e económico; um «carro popular», que em alemão se dizia Volkswagen.

O primeiro estudo foi realizado em 1931 para a fabricante de motocicletas Zundapp, também conhecida como Zünder- und Apparatebaugesellschaft. O protótipo, com o nome de tipo 12, foi produzido no ano seguinte, mas logo foi abandonado. Em 1932, este projeto foi reaproveitado por outra fabricante de motocicletas, a NSU Motorenwerke AG, mas também acabou por ser abandonado.

Porsche apresentando a Hitler seu projeto
Porsche apresentando a Hitler seu projeto

Em 1933, Hitler abordou Porsche, que conhecia desde 1924, sobre a realização de um carro popular e pediu-lhe a apresentação de projetos. Porsche, entre outros, apresentou um trabalho com base numa plataforma com suspensão dianteira e traseira com barras de torção, com um motor de  4 cilindros, refrigerado a ar. A carroçaria baseava-se no carro Tropfenwagen, desenvolvido pelo austríaco Edmund Rumpler, um veículo em forma de gota de água. Foi este projeto que Hitler apoiou em 1934, e que foi formalmente contratado com a Reichverband der Automobilindustrie (RDA), a associação industrial da indústria automotiva.

O carro que foi encomendado tinha que ter como características um motor traseiro de 986 cilindradas, 26 cavalos, uma velocidade máxima de 100 km/hora, não pesar mais de 650 kg, ser refrigerado a ar, e consumir sete litros de gasolina a cada cem quilômetros. Imitando a solução encontrada pela Ford, com o seu modelo T,  o Volkswagen, também só seria fabricado numa única cor – um azul escuro acinzentado, quase preto. Certamente uma cor bem ao estilo da política alemã da época.

Hitler conhecendo os primeiros protótipos - Fonte - Time/Life
Hitler conhecendo os primeiros protótipos – Fonte – Time/Life

Os primeiros protótipos foram terminados em fins de 1935, sendo batizados com o código VW1 e VW2. Os primeiros ensaios em estrada foram realizados de Outubro a Dezembro de 1936, com base em três protótipos, e depois de estes serem analisados por uma comissão de admissão à produção, composta por representantes de todos os construtores de automóveis alemães, o projeto foi aceito.

Em 1937 e 1938 foram fabricados à mão,  pela Mercedes-Benz, por ordem expressa de Hitler, duas séries de protótipos, conhecidos pelo nome de VW38. Uma primeira série de 30 e posteriormente uma nova série de 60 unidades, que realizaram ensaios de avaliação em grande escala.

Foi em 1938 que se decidiu construir uma fábrica para produção dos Volkswagen. O local escolhido foi a propriedade do conde von Schulenburg, o castelo de Wolfsburg, em Fallersleben na Baixa-Saxónia, a 80 km da cidade de Hanover.

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A empresa que iria produzir o novo carro foi registada, em 28 de Maio de 1938, com o nome Gesellschaft zur Vorbereitung des Volkswagens (GEZUVOR) – Companhia para o desenvolvimento do Volkswagen, que foi mudado para Volkswagenwerk GmbH em outubro seguinte.

A fábrica foi lançada por Hitler em 26 de Maio de 1938, sendo aí apresentados os protótipos definitivos. O New York Times de 3 de Julho descrevia-o ironicamente dando-lhe o nome de «Beetle» – Besouro. A sua apresentação ao grande público ocorreu no Salão Automóvel de Berlim de 1939, com o nome de Kdf Wagen – o Carro Força pela Alegria ! Ao mesmo tempo em que se construía a fábrica para a produção do carrinho, criava-se uma cidade que teve o nome provisório de Stadt des KdF-Wagens – Cidade do carro Força pela Alegria.

Anúncio ao KDF-Wagen mostrando a caderneta de poupança para organizar o pagamento do carrinho.
Anúncio ao KDF-Wagen mostrando a caderneta de poupança para organizar o pagamento do carrinho.

O preço estabelecido foi de 990 Reich Mark’s, mais 200 marcos para o pagamento dos seguros, num total de quase 1.200 marcos, fantasticamente divididos em pagamentos semanais de 5 marcos. O contrato previa a possibilidade de rescisão, mas a empresa seria indemnizada com 20% do capital pago, não se obrigando a um prazo de entrega, mesmo que o carro já tivesse sido pago.

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Em finais de 1938 havia 150.000 contratos realizados, que chegaram, em Novembro de 1940, aos 300.000, mas nenhum “Volkswagen” foi entregue a particulares.  Entre Maio de 1938 e Setembro de 1939 foram fabricados, à mão, 215 exemplares, sendo que o primeiro destinado à venda saiu da fábrica em 15 de Agosto de 1939. Estes exemplares foram todos entregues a dignitários nazistas.

Hitler e seu carro popular - Fonte - Getty Images
Hitler e seu carro popular – Fonte – Getty Images

A produção em série só começou em Julho de 1941, sendo produzidos ao todo 41 modelos, basicamente militares. Quando em Agosto de 1944 a fábrica foi integrada na indústria de armamento alemã, sobretudo para produzir os foguetes V1, e a produção dos KdF-Wagen foi terminada, tinham sido produzidos, ao todo, 630 exemplares.

Um Waffen-SS KDF-Wagen (Volkswagen)
Um Waffen-SS KDF-Wagen (Volkswagen) “Käfer” (“besouro”). Observe a chapa de matrícula da SS.

O primeiro modelo militar, construído na fábrica  da Kdf, foi um carro para oficiais, com tração nas quatro rodas e um chassi mais elevado, que teve o nome de Kommandeurwagen e foram construídos 667 exemplares. O modelo tinha boas qualidades em todo-o-terreno, mas o seu desempenho na estrada era ruim pela falta de tração. Foi o carro que voltou a ser fabricado em 1946, quando a fábrica, destruído durante a guerra, voltou a produzir novamente.

Um Kommandeurwagen preservado
Um Kommandeurwagen preservado

O Kübelwagen, o modelo seguinte teve muito mais sucesso, tendo sido produzidos  50.788 exemplares. Foi, de fato, o Jeep alemão. Devido o motor refrigerado a ar, podia ser usado em qualquer região do mundo, tanto no Ártico como no Norte de África.

O Kübelwagen, o
O Kübelwagen, o “Jeep” alemão

Em 1944 o motor de 984 cilindradas foi substituído por um de 1.131, o mesmo motor que será usado nos primeiros Volkswagen produzido no pós-guerra. Este modelo voltou a ser produzido nos anos 60, tanto numa versão militar, como numa civil, sendo conhecido nos Estados Unidos por “The Thing” – A Coisa!

O Kübelwagen
O Kübelwagen

A outra versão militar, e a última, produzida durante a  Segunda Guerra Mundial foi o Schwimmwagen. Veículo anfíbio produzido a partir de 1942, com uma carroçaria completamente estanque, o Schwimmwagen era um bom veículo de reconhecimento e era tracionado para todo terreno.

O Schwimmwagen, usando o motor de 1.131 cilindradas que será utilizado depois no Kubelwagen, foi fabricado até 1944, tendo sido produzidos 14.283 veículos.

Um Schwimmwagen pronto para o combate
Um Schwimmwagen pronto para o combate

No fim da 2.ª Guerra Mundial a Volkswagenwerk estava destruída. Quando os soldados da 102.ª divisão de infantaria do exército americano avistaram a fábrica e a cidade da Volkswagen, em 11 de Abril de 1945, desconheciam a sua existência porque a localidade não vinha representada em nenhum mapa. Entretanto, as máquinas para produção dos automóveis estavam intactas, e havia material armazenado que permitia o recomeço da produção.

Mais tarde, com a divisão da Alemanha em quatro zonas de ocupação, a cidade passou a ser responsabilidade do exército britânico. Foi encarregado de reativar a fábrica o major Ivan Hirst, do Corpo de Engenheiros do exército britânico, pois carros pequenos eram necessários para as forças de ocupação britânicas.

A fábrica destruida
A fábrica destruida

Nos primeiros tempos a fábrica serviu para reparação de Jeeps do exército britânico, e produção de motores. Logo dois KdF-Wagens foram montados à mão, para uso do Quartel General do exército britânico. Os britânicos fizeram uma encomenda de 20.000 automóveis à Volkswagen e até ao fim de 1945 foram produzidos 1.785 automóveis, e no ano seguinte chegou-se aos 10.000 veículos. O preço unitário era de 5.000 marcos, sendo entregues à Comissão aliada de Controle da Alemanha, e distribuídos aos Correios, à Cruz Vermelha e a outras instituições nascentes no país em reconstrução. Não foram vendidos exemplares a particulares.

No dia 2 de Janeiro de 1948 o exército britânico entregou a Heinz Heinrich Nordhoff, um antigo engenheiro da empresa Opel, a direção da fábrica. Em 1949 os Aliados entregaram o controle dos bens públicos do estado alemão ao governo federal, entre estes a fábrica da Volkswagen.

Heinz Heinrich Nordhoff e os novos
Heinz Heinrich Nordhoff e os novos “Carros do Povo”

Apesar de tudo que havia ocorrido, a empresa entregue à Alemanha foi um sucesso. Empregava quase 10.000 pessoas, produziria 46.154 veículos até ao fim de 1949, dos quais 23% seriam exportados para nove países. Uma produção que aumentava rapidamente. O Volkswagen era o carro mais vendido na Alemanha, tendo 50% do mercado. A empresa estava criando uma rede de vendas e de serviço na Alemanha e no exterior, e tinha inovado ao criar um seguro especificamente para os compradores de Volkswagens.

Fonte - vwboxerpatos.blogspot.com
Fonte – vwboxerpatos.blogspot.com

Logo estes veículos cruzariam a linha do equador e desembarcariam em um grande país tropical, onde seriam eternamente conhecidos como “Fusca”.

Baseado em texto encontrado no site – http://www.arqnet.pt

ARTISTAS OU AGIOTAS?

Historiadora lançou recentemente um blog, onde quer estreitar a relação com entusiastas da história [Foto: Divulgação]
Historiadora lançou recentemente um blog, onde quer estreitar a relação com entusiastas da história [Foto: Divulgação]

Autora de biografias de grande sucesso, Mary del Priore fala em entrevista sobre a história das narrativas sobre a vida de figuras públicas, o fim da privacidade e critica duramente o grupo Procure saber.

Ronaldo Pelli

Ela já escreveu biografias de amantes de imperadores, mostrou bastidores do poder, revelou segredos de príncipes para o grande público, abriu as portas da vida privada do brasileiro de séculos passados, contou segredos de grandes nomes da cultura nacional. Isso só para ficar em alguns dos exemplos da sua longa lista de obras históricas publicadas. A professora Mary del Priore tem, portanto, experiência no tema para opinar sobre a recente polêmica das biografias. Para ela, entre todas as questões levantadas pelo grupo formado por artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Roberto Carlos, Djavan, a pior acusação seria a de que biógrafos ganhariam muito dinheiro com as obras de pessoas famosas – e que esse valor deveria ser dividido entre os biografados.

“A ênfase do grupo Procure saber em transformar biógrafos em ‘gente que ganha dinheiro’ é chocante! Uma tal visão das coisas só revela a ganância dos membros deste grupo. Somos jornalistas, historiadores, escritores, apenas interessados em fazer nosso trabalho pelo qual somos pagos proporcionalmente ao mercado de livros que no Brasil ainda é muito pequeno. O que querem de nós, que paguemos ‘dízimo’? E chamar essa gente de ‘artistas’? Melhor seria: agiotas ou comerciantes”, diz ela, em conversa por e-mail.

A intenção da professora da pós-graduação de Historia da Universidade Salgado de Oliveira nesta discussão é, em vez de diminuir as produções de cunho histórico, divulgar o conhecimento sobre o assunto. Mais biografias, e sem autorização de ninguém. Se houver calúnia ou exageros, que a Justiça seja chamada para resolver a questão. Herdeiros impedindo a publicação de qualquer texto? Um absurdo. Imagine ter que atender todos os descendentes dos cerca de 40 filhos bastardos de D. Pedro I?

Novo livro da historiadora aborda a trajetória masculina no Brasil [Foto: Divulgação]
Novo livro da historiadora aborda a trajetória masculina no Brasil [Foto: Divulgação]
Confirmando esse interesse na difusão, recentemente ela lançou o blog “História Hoje”, para dialogar com os entusiastas do tema. Além disso, após estudar as crianças e as mulheres em separado, acaba de publicar a História dos homens no Brasil, nada menos que seu 37º livro, segundo o seu site oficial (http://marydelpriore.com.br/). Seu interesse pelas biografias vem desde o início de sua carreira. Em entrevista para a Revista de História da Biblioteca Nacional, em 2010, ela já explicava como começou a escrevê-las:

“Quando me mudei para o Rio de Janeiro, descobri o riquíssimo arquivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e percebi quantos filões poderiam nascer dali. E, nesse momento, houve uma ruptura naquilo que eu considerava que poderia ser uma carreira, como historiadora, e não como professora. Nunca me senti professora de nada e nem de ninguém. Então, naquele período, vislumbrei a possibilidade de fazer livros de divulgação que chamassem atenção para a questão da História do Brasil. Escrever sobre personagens que fossem desconhecidos, usando-os como janelas para o passado. E aí o meu trabalho deu uma guinada, e comecei a focar nas biografias, onde tenho tido bastante sucesso.”

Agora, em entrevista por email, ela reforça que os textos sobre a história de homens – ilustres ou não -, inclusive, não devem ficar restritos ao ambiente universitário, mas ser tratado como uma das vertentes da literatura, como “romances, thrillers policiais, auto-ajuda”.

“Considerado um gênero menor, paradoxalmente ele atrai milhões de leitores e tem autores desde a Antiguidade. O pioneiro Plutarco em sua obra Vidas paralelas tratou da biografia de Rômulo, Cesar entre outros personagens históricos”, explica a professora, que vai participar de um evento na Estação das letras, no Flamengo, Zona Sul do Rio, no dia 28 de novembro, discutindo exatamente “Literatura e História: Limites Ilimitados”.

Mary del Priore, em foto para a entrevista publicada na RHBN em abril de 2010 [Foto: Fernando Rabelo]
Mary del Priore, em foto para a entrevista publicada na RHBN em abril de 2010 [Foto: Fernando Rabelo]
“Outra característica que se esquece é que a biografia é filha de seu tempo. Ela reflete as formas de pensar de uma época. Na Antiguidade, a biografia fabricava heróis, na Idade Média, santos e personagens de vida espiritual irreprochável, na Idade Moderna, obras como a de Vasari ou Brantome procuravam personagens moralizantes, capazes de transmitir ideais por meio de seu comportamento.”

A professora recorda que “no século XIX, biografias de reis e generais serviram a consolidar a ideia de nação, com seus heróis e feitos”. Já no seguinte, autores famosos como Stefan Zweig e Marguerite Yourcenar escreveram romances históricos, ao abordar personagens famosos como Maria Antonieta ou o imperador romano Adriano, respectivamente. Já no atual século, o grande tema é a intimidade, “objeto de estudos das ciências humanas, através da história, da psicanálise e da antropologia e é natural que essas questões se transfiram para as biografias”, escreve ela.

“Some-se a isso o fato de que vivemos numa sociedade do espetáculo que aprecia o voyeurismo através da internet, de programas como Big Brother, de sex texts. Como impedir que essas questões que emanam da sociedade não contaminem o trabalho literário?”, questiona.

Segundo Mary, em nossa sociedade pós-burguesa, os valores do exibicionismo se tornaram mais fortes do que os da discrição e do pudor. Assuntos que frequentam as páginas de revistas de fofocas vão necessariamente aparecer na obra de biografados.

“Figuras públicas são públicas. Então que tenham coerência entre o que dizem e o que fazem”, opina, lembrando que os limites entre o que é público e o privado está ficando cada vez mais difícil de se perceber. “Em meu livro, Historias Intimas, demonstrei que a privacidade, um fenômeno cultural que foi lentamente construído pela burguesia entre os séculos XVIII e XIX está sendo desmontado.”

A professora argumenta que o estudo da vida privada, em vez de ser um problema, deve ser encarado como uma qualidade das biografias. Ela já comentava essa proposta na entrevista em 2010 para a Revista de História da Biblioteca Nacional, quando afirmou que um dos principais pontos quando se escreve sobre a vida de alguém é exatamente o detalhe.

“Isto é absolutamente inquestionável. A possibilidade de o leitor ver aquilo que você está contando. O escritor deve estar menos interessado em interpretar ou justificar determinados fatos e mais preocupado em recuperar a atmosfera de um período e descrever certos acontecimentos. E, para isso, é preciso estudar sobre a vida privada.”

Basta, agora, os biografados concordarem.

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/reportagem/artistas-ou-agiotas

PROJETO QUE LIBERA BIOGRAFIAS NÃO AUTORIZADAS PODE SER VOTADO NESTA SEMANA

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O Projeto de Lei 393/2011, mais conhecido como Lei das Biografias, poderá ser votado já nesta quarta-feira (22) na Câmara dos Deputados caso os líderes partidários decidam pelo tratamento de urgência, o que garante prioridade na pauta. A decisão de antecipar a votação saiu da reunião que o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), teve nesta terça-feira (23)  com os líderes.

“Há consenso para a urgência e, se sobrar um tempinho, podemos votar também, mas ainda precisamos fazer ajustes”, disse o líder do PT, deputado José Guimarães (CE). Ele informou que os deputados querem votar a proposta antes do dia 28 de outubro, quando a pauta passa a ser trancada pelo projeto do marco civil da internet. “Se não votarmos até lá, essa questão ficará entregue ao Supremo Tribunal Federal”, disse.

A proposta, criada pelo deputado Newton Lima (PT-SP), autoriza a publicação de biografias sem autorização prévia da pessoa retratada ou de sua família. A pressa para decidir sobre a questão pode comprometer a comissão geral anunciada nesta terça pelo presidente da Câmara. Pouco antes do encontro, Alves anunciou que vai realizar uma comissão geral para discutir o assunto.

Em Brasília será decidida esta questão
Em Brasília será decidida esta questão

O líder do DEM, deputado Ronaldo Caiado (GO), defende que seja incluído na proposta que, em caso de difamação, os autores enfrentem processo judicial em rito sumário. Caiado entrou, há oito anos, na Justiça contra o escritor Fernando Moraes, que incluiu no livro “A Toca dos Leões” uma fala atribuída a Caiado e contestada pelo deputado. “Há oito anos luto contra uma mentira. Assim, não é possível que um processo que avilta ou denigre a imagem de alguém possa demorar em média 15 anos”, disse.

Polêmica entre artistas

Após o debate acalorado sobre o tema exceder os corredores de Brasília –principalmente depois de artistas de renome, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, se declararem a favor da autorização prévia para a publicação de uma biografia–, o projeto, de autoria do deputado Newton Lima (PT-SP), recebeu atenção especial entre os mais 1,5 mil temas a serem votados.

“Meu projeto seria arquivado porque é um assunto que raramente entra em pauta, estava em último em uma lista de 1,5 mil projetos. O presidente da Casa costuma decidir emendas constitucionais e outras questões mais importantes, mas agora os artistas entraram na pauta”, afirmou ao UOL o deputado Newton Lima (PT-SP), autor original do projeto e um dos parlamentares que encaminharam ao presidente da Casa o pedido para que o tema fosse debatido.

Cartunista - Alpino - Fonte - http://br.noticias.yahoo.com/blogs/alpino/lan%C3%A7ada-biografia-n%C3%A3o-autorizada-jos%C3%A9-dirceu-153755754.html
Cartunista – Alpino – Fonte – http://br.noticias.yahoo.com/blogs/alpino/lan%C3%A7ada-biografia-n%C3%A3o-autorizada-jos%C3%A9-dirceu-153755754.html

O projeto de lei pede a modificação do artigo 20 do Código Civil, que prevê autorização prévia para a divulgação de imagens, escritos e informações biográficas. O artigo possibilitou que Roberto Carlos proibisse a comercialização de sua biografia não autorizada, “Roberto Carlos em Detalhes”, lançada pelo jornalista Paulo Roberto de Araújo, em 1997.

Aprovado em abril na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, em caráter conclusivo, o projeto estava pronto para ser votado no Senado. O próximo passo seria a assinatura da presidente Dilma Rousseff. No entanto, o assunto voltou para o final da fila quando 74 deputados federais –entre eles os três líderes partidários Antony Garotinho (PR-RJ), Ronaldo Caiado (DEM-GO) e André Figueiredo (PDT-CE)– entraram com um recurso para que o projeto fosse debatido novamente na Câmara.

Com o tema em voga em veículos da imprensa –onde escritores, biógrafos e artistas se posicionaram contra ou a favor da publicação de biografias não autorizadas– e redes sociais, os parlamentares começaram a prestar mais atenção nas discussões. “Os artistas ajudaram a colocar luz ao assunto. Eles já tinham ajudado no caso do Ecad [Escritório Central de Arrecadação e Distribuição], mas dessa vez eles acabaram entrando em uma linha do raciocínio que colabora para a censura prévia”, afirmou o deputado Newton.

Grato pela repercussão, o petista não esconde certa decepção com os artistas dos quais admira. “Eu sou fã de todos eles, não só como artistas, mas como políticos. Eles foram essenciais para a reconstrução política. Não esperava essa posição, fiquei decepcionado”.

Assinaturas

Nos últimos dias, alguns parlamentares retiraram suas assinaturas do recurso, entre eles, o deputado Garotinho. Ao comentar que também é fã de Caetano e Djavan, Garotinho fez discurso na tribuna da Câmara, na semana passada, mudando de lado: “O trabalho do pesquisador e do jornalista não pode sofrer censura”. Na lista ainda constam a rubrica de Paulo Maluf (PP-SP), Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Pastor Marco Feliciano (PSC-SP). “Se houver uma retirada em massa e o requerimento ficar com menos de 51 assinaturas ele perde a validade e o projeto segue direto para o Senado”, disse Garotinho.

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O deputado Alessandro Molon (PT-RJ), último relator do projeto na Câmara, enxerga ainda a possibilidade do assunto ir para votação do Senado em breve. Molon também defende que pessoas públicas precisam ter a privacidade resguardada, mas de maneira relativa. “Esse é um dos ônus de alguém que tem vida pública. Eu compreendo por um lado a preocupação com a publicação de aspectos de sua vida privada. Mas eu entendo que é um erro imaginar que a solução seja a proibição”.

A Ministra da Cultura, Marta Suplicy, também já se posicionou a favor do projeto. “Minha opinião caminha para o apoio à liberdade de expressão, com multas mais vultosas aos autores que infringirem a verdade e a imagem do biografado”, afirmou em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” publicada na segunda-feira (21).

Cartum - Cau Gomez - Fonte - http://oferrao.atarde.uol.com.br/
Cartum – Cau Gomez – Fonte – http://oferrao.atarde.uol.com.br/

Molon avalia que a indecisão de hoje é culpa do Congresso no passado. “Nós que erramos ao aprovar o Código Civil na época do FHC [Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente], com esses dois artigos que abriam uma brecha para a família do Mané Garrincha processar o biógrafo Ruy Castro. O Roberto Carlos, do qual sempre fui fã, teve o descabimento de tirar o livro das prateleiras, um trabalho de pesquisa que levou 15 anos e que não o desmoralizava”, avaliou.

“Felizmente, o debate publico fez o parlamento despertar parta tomar a decisão”, comemorou. O deputado Newton Lima demonstra preocupação que o STF (Supremo Tribunal Federal) decida a questão antes do Congresso, o que geraria uma crise de poderes. “Precisamos votar, pelo sim ou pelo não, mas precisamos votar. Esse é um assunto político, não jurídico”. 

Cartum - Simanca - Fonte - http://oferrao.atarde.uol.com.br/?p=10574
Cartum – Simanca – Fonte – http://oferrao.atarde.uol.com.br/?p=10574

O STF anunciou no último dia 14 que vai realizar audiência pública para discutir o tema das biografias não autorizadas. A ministra Cármen Lúcia, relatora da Ação Direta de Inconstitucionalidade inciada pela Anel (Associação Nacional dos Editores de Livros), que questiona a validade dos artigos 20 e 21 do Código Civil, anunciou audiência pública para discutir o assunto nos dias 20 e 21 de novembro.

O presidente do STF, Joaquim Barbosa, e o ministro Marco Aurélio Mello já deram entrevistas sinalizando que são a favor da publicação de biografias sem autorização prévia.

Escritores e biógrafos como Ruy Castro e Lira Neto já mandaram o recado. “Caso o código civil brasileiro não seja alterado, como queremos, extinguindo a autorização obrigatória, as biografias vão entrar em extinção no Brasil. Minha carreira de biógrafo estará encerrada”, afirmou Lira. 

AUTOR – Tiago Dias* – Do UOL, em São Paulo – 22/10/2013

* Com informações da Agência da Câmara

* O AUTOR DESTE BLOG, IGUALMENTE AUTOR DE TRÊS BIOGRAFIAS, QUER DEIXAR PÚBLICA SUA OPINIÃO – Pessoalmente sou totalmente contrário a quem escreve biografias de forma irresponsavelmente, de maneira mentirosa, criminosa, muitas visando somente criar a polêmica com o intuito de ampliar a venda. Mas não posso aceitar a censura prévia. Se o biografado se sentiu prejudicado, a justiça está aí.  Mas como bem aponta o jornalista Mário Magalhães, autor da biografia de Carlos Marighella, “O conhecimento da história consagra-se como direito humano”.

FONTE – http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2013/10/22/apos-polemica-de-biografias-projeto-podera-ser-votado-ainda-nesta-semana.htm#fotoNav=21

BIOGRAFIAS NÃO AUTORIZADAS QUE MUDARAM A FORMA DE MUITA GENTE VER O MUNDO

ENQUANTO NO BRASIL ESQUENTA A POLÊMICA SOBRE A QUESTÃO DAS BIOGRAFIAS NÃO AUTORIZADAS, PROIBIR ESTE TIPO DE PUBLICAÇÃO LÁ FORA É FORA DE QUESTÃO E ESTE É UM GRANDE FILÃO DO MERCADO EDITORIAL. MAS O BIÓGRAFO TEM DE TER MUITO CUIDADO COM O QUE ESCREVE

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“The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice” (1995, Twelve), de Christopher Hitchens

Quando questionado sobre o título de duplo sentido (“missionary position”, em inglês, pode ser uma gíria para a posição “papai e mamãe”), o autor respondeu: “Era ou isso ou “Vaca Sagrada”, o que teria sido de mau gosto”. Trata-se de uma crítica feroz à Madre Teresa, que é retratada como uma oportunista política e dogmática que, em vez de tentar acabar com a pobreza, preferia ensinar como suportá-la. Segundo Hitchens, ela desviava fundos de suas obras de caridade para uma rede global de conventos. Jornais como o “The New York Times” consideraram a obra convincente (Carlos Messias) Reprodução.

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“Che Guevara, Uma Biografia” (1997, Objetiva), de John Lee Anderson

Com mais de 800 páginas (dependendo da edição), trata-se da mais completa biografia já publicada sobre o revolucionário argentino. Além de narrar a trajetória de Che de cabo a rabo, o livro ajudou a desmitificar a sua imagem de idealista, retratando-o mais como um guerrilheiro extremista, disposto a sacrificar a própria vida e a de quem mais ficasse no caminho dos seus objetivos. Mais do que isso, a pesquisa do autor alterou para sempre os próprios autos da história, revelando que os restos mortais do marxista estavam enterrados em uma vala no aeroporto de Vallegrande, na Bolívia. A obra foi considerada livro daquele ano pelo “The New York Times” (Carlos Messias).

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“Barack H. Obama: The Unauthorized Biography” (2008, Progressive Press), de Webster G. Tarpley

Também autor de “George Bush: The Unauthorized Biography”, Tarpley retrata o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos como um fascista pós-moderno, insistindo em propagar o nome do meio do político, que é Hussein. Segundo Tarpley, Obama não passaria de um rosto carismático –e narcisista– a serviço do estrategista político Zbigniew Brzezinski, que serviu como conselheiro de segurança durante a administração Carter. O livro foi publicado no ano da campanha para eleição do primeiro mandato do político, mas, segundo os seus fiéis opositores, conseguiram fazer com que a obra fosse varrida para debaixo do tapete (Carlos Messias)

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“Hitler” (2010, Penguin/Companhia das Letras), de Ian Kershaw

Condensando dois volumes em um, a edição brasileira é mais enxuta. No entanto, preserva a descrição detalhada da intimidade do ditador antes e durante a Segunda Guerra Mundial. O autor enfatiza os aspectos sociais da Alemanha pós-Primeira Guerra que levaram ao nazismo, sem abrir mão dos traços da personalidade da figura mais sinistra da história do século 20. “É o tipo de biografia magistral que somente um historiador de primeira linha é capaz de escrever?, disse a resenha do “The Observer” (Carlos Messias)

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“Princess Diana: Her Life Story, 1961-1997” (1997, Publications International), de Richard Buskin

Originalmente publicado em 1992, este livro ganhou 32 páginas cobrindo a morte e o velório, que foi transmitido mundialmente, da Princesa de Gales. Mesmo sendo não autorizada, a obra tem mais credibilidade do que a biografia com a qual Diana chegou a contribuir, “Diana – Her True Story”, do jornalista de celebridades Andrew Morton, quem, segundo ela e outros membros da realeza britânica, distorceu os fatos e depoimentos que lhe foram amplamente concedidos (Carlos Messias)

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“A Woman Named Jackie: An Intimate Biography of Jacqueline Bouvier Kennedy Onassis” (2000, Lyle Stuart), de C. David Heymann

Depois de encorajar John F. Kennedy a escrever “Profiles in Courage”, que retrata a história do senado norte-americano e que ganhou o Pulitzer de melhor biografia em 1957, a primeira-dama mais fascinante dos Estados Unidos foi tema de dezenas de biografias. No entanto, nenhuma delas foi tão completa (com 715 páginas) e controversa quanto esta, que se atreve a enxergá-la além do objeto de fascínio e, em vez de desmerecê-la, procura compreendê-la na intimidade, expondo toda sua complexidade (Carlos Messias)

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“The Unauthorized Look at Steve Jobs 101 Genius Ideas to Success” (2013, 202 Press), de Xander Christoph

Lançada em junho, esta biografia tenta identificar e traduzir para a prática os componentes que formavam o gênio criativo Steve Jobs (1955-2011). Elementos como a mente inquisitiva, a arrogância, a determinação, a fase hippie e a formação cultural são analisados com lupa. Diferentemente da biografia autorizada, de Walter Isaacson, esta obra também lança luz, sem filtros, sobre características menos elogiosas do cofundador da Apple, como suas práticas selvagens de capitalismo, exploração de mão de obra e delírios de grandeza (Carlos Messias)

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“Elvis” (1981, McGraw-Hill Book Co.), de Albert Goldman

Poucas biografias renderam tanta revolta quanto esta, chegando a fazer com que o autor fosse insultado em rede nacional. Em vez do glamuroso pop star, aqui o Rei do Rock é retratado como um caipira ignorante, infantil e incongruente, capaz de torrar US$ 100 em picolés em uma noite, que, mesmo se declarando publicamente contra as drogas, usava fraldas por incontinência, devido ao abuso de substâncias controladas. Sem contar as narrativas de orgias com garotas adolescentes (as quais ameaçava fisicamente) e a descrição pouco enaltecedora do seu membro (o “Little Elvis”), que teria sido motivo de vergonha para o galã. Não é leitura para fã (Carlos Messias)

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“Get Back: The Unauthorized Chronicle of the Beatles” “Let It Be” Disaster” (1999, St. Martin”s Griffin), de Doug Sulpy e Ray Schweighardt

Um dos registros mais completos do rompimento da maior banda de rock da história. A obra narra em detalhes o dia a dia das gravações do disco “Let it Be”, entre os dias 2 e 31 de janeiro de 1969, quando se formou um atrito irreparável entre os “fab four”, levando à dissolução do grupo. O autor se baseou nos sigilosos rolos de fita dos bastidores da gravação do filme “Let it Be”, que foram roubados após a conclusão do documentário e apreendidos pela polícia três décadas depois (Carlos Messias)

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“His Way: The Unauthorized Biography of Frank Sinatra” (1987, Bantam), de Kitty Kelley

Antes mesmo da publicação desta obra, o “Sr. Olhos Azuis” em pessoa ameaçou processar a autora em US$ 2 milhões, ideia que logo abandonou. Entre as principais acusações –aparentemente, realistas–, o Voz de Veludo seria um mulherengo crônico, teria histórico de violência doméstica sob efeito de doses cavalares de álcool e ligações com a máfia italiana. A autora declarou ter tido acesso a grampos da polícia de Nova York, arquivos de mafiosos e horas de entrevista com o ator Peter Lawford, um dos melhores amigos de Sinatra, enquanto ele estava no leito de morte (Carlos Messias)

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“Madonna: Unauthorized” (1992, Island Books), de Christopher Andersen

Apesar de não ter revelações lá muito surpreendentes, esta biografia remonta em detalhes escândalos já bem conhecidos da Rainha do Pop, como a criação rígida por uma família católica, as primeiras experiências sexuais, envolvimentos com drogas no início do estrelato e o conturbado casamento com o ator Sean Penn, à época um alcoolatra, que praticava violência doméstica (Carlos Messias)

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“Michael Jackson: The Magic, The Madness, The Whole Story, 1958-2009” (2009, Grand Central Publishing), de J. Randy Taraborrelli

Originalmente publicado em 1991, o livro ganhou uma edição revisada e ampliada em 2004, e outra em 2009, logo após a morte do Rei do Pop. Portanto, envolve 30 anos de pesquisas, contendo citações reveladoras de diversos membros da família do mito. A obra traz o pacote completo: a infância traumatizante no Jackson 5, o vitiligo, a infantilidade, os hábitos estranhos, o casamento de aparência com Lisa Marie Presley, os processos por pedofilia e insinuações de homossexualidade. Caso raro de biografia que não consegue separar o homem do mito (Carlos Messias)

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“Brando: An Unauthorized Biography” (1987, Dutton Adult), de Charles Higham

Espécie de biógrafo das estrelas, Higham já perfilou Katharine Hepburn, Howard Hughes, Cary Grant, Orson Welles, Errol Flynn, entre outros. Ao tratar de Marlon Brando (1924-2004), o autor relata em detalhes a vida do astro, desde a infância difícil em Omaha (EUA) aos bastidores do início da carreira, no teatro, e das filmagens de longas como “Um Bonde Chamado Desejo” (1951). Contando com depoimentos de velhos amigos e ex-amantes do ator, o biógrafo remonta situações cômicas do seu passado e fundamenta a sua reputação de destemido (Carlos Messias)

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“Tom Cruise: An Unauthorized Biography” (2008, St. Martin”s Press), de Andrew Morton

Este best-seller, que teve tiragem inicial de 400 mil exemplares, causou na vida do astro. Primeiro por abordar a separação de Mimi Rogers e de Nicole Kidman, o namoro com Penélope Cruz e com a modelo Sofia Vergara, e o conturbado início de relacionamento com Katie Holmes, que teria tido de se submeter a um teste para se tornar a namorada de Tom Cruise, e precisaria aceitar servir como garota-propaganda da Cientologia. Segundo, por mergulhar pesado no envolvimento do ator com esta instituição. De acordo com a autora, Nicole teria tido atritos com a igreja, que ameaçou tirar a guarda dos seus filhos, durante a separação (Carlos Messias)

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“Angelina” (2010, St. Martin”s Press), de Andrew Morton

Controversa, esta biografía sobre Angelina Jolie foi acusada pelo “New York Times” de ser imprecisa, mas fez a festa dos leitores de tablóides com revelações picantes. Segundo o livro, ela teria tomado banho com Leonardo Di Caprio após a premiação do Globo de Ouro de 1998, os motivos que a levaram a se livrar oficialmente do sobrenome do pai, John Voight, de sua documentação; os espancamentos que sofreu do primeiro marido, Jonny Lee Miller; e a intimidade “caliente” com o segundo, Billy Bob Thornton. Além, claro, da relação com Brad Pitt (Carlos Messias)

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“Mr. Playboy: Hugh Hefner and the Fantasy Life of Modern America” (2009, Wiley), de Steven Watts

Mais do que se apegar a quantas coelhinhas o criador da revista “Playboy” levou para a hidromassagem, esta biografia conta a trajetória de Hugh Hefner apontando como ele se tornou um ideal masculino na cultura de consumo após a Segunda Guerra Mundial. Mas claro que Watts, professor de história da Universidade de Missouri, não deixou de fora algumas curiosidades, como que, na Mansão de Playboy, todos os banheiros são equipados com aspirina, loção de amêndoas para o corpo e preservativos (Carlos Messias)

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“Superhero: An Unauthorized Biography of Christopher Reeve” (1999, Bt Bound), de Chris Nickson

Uma história tocante e rica em detalhes contando como o protagonista de “Super-Homem” (1952-2004) foi de astro de Hollywood a ativista social em diversas frentes, passando, claro, pelo acidente que lhe deixou tetraplégico. Mesmo sem puxar muita sardinha para o lado do biografado, a obra procura mostrar a motivação interna do astro, que sempre teria tido um espírito lutador, que manteria durante ao longo de sua reabilitação, sempre em busca de uma possível cura para sua paralisia (Carlos Messias)

Fonte – http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2013/10/22/apos-polemica-de-biografias-projeto-podera-ser-votado-ainda-nesta-semana.htm#fotoNav=18

26 DE SETEMBRO DE 1983 – O DIA EM QUE O MUNDO QUASE ACABOU!

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A HISTÓRIA DE UM HOMEM SIMPLES QUE SALVOU
A HUMANIDADE DA GUERRA NUCLEAR

Em 1983, a tensão entre a União Soviética e os Estados Unidos ainda estava em vigor, portanto, ambas as superpotências se monitoravam intensamente. A estratégia de dissuasão nuclear era perturbadora. Foi baseada principalmente no fato de que ambos os arsenais poderia destruir ambos os lados e, portanto, se alguém disparasse primeiro, a outra nação teria margem de manobra suficiente para disparar seu arsenal e aniquilar o oponente (completa autodestruição). Portanto, qualquer sinal ou detecção de ataque era o gatilho para ativar o sistema de resposta completa.

A situação entre os Estados Unidos e seus aliados contra a União Soviética sempre foi muito tensa durante a chamada Guerra Fria. Mas em setembro de 1983, a temperatura estava ainda mais elevada, pois um avião de passageiros Boeing 747, da Korean Air Lines, denominado pelo sistema aéreo como voo 007, havia sido abatido por entrar no espaço aéreo soviético por engano, com 269 passageiros a bordo. Logo a Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN, braço armado que unia americanos e seus aliados europeus, tinha organizado manobras de grandes proporções. Para completar a rede de espiões soviéticos da temida KGB, informaram a Moscou que os Estados Unidos e seus aliados estavam se preparando para atacar a União Soviética.

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Com todo este pré-alarme como pano de fundo, o tenente-coronel Stanislav Yevgrafovich Petrov estava como um oficial de serviço em 26 de setembro 1983, em Serpukhov-15, um poderoso bunker em Moscou, onde se controlava o sistema de alerta antecipado de mísseis. O sistema de alerta utilizado pela União Soviética era baseado em satélites que apontavam suas lentes de observação para os principais locais de lançamento de mísseis.

Aquela noite para Petrov deveria ter sido de folga, mas outro militar estava doente e ele tinha sido convocado na última hora.

Tudo parecia normal, sem maiores alterações. Até que as 00:14, horário de Moscou, vários alarmes começaram a tocar quando um dos satélites detectou o que parecia ser um lançamento de um míssil a partir da base de Malmstrom, no estado de Montana, nordeste dos Estados Unidos. O tempo de impacto esperado entre 20 e 30 20 minutos. De acordo com o protocolo estabelecido, o coronel Petrov teria que iniciar uma sequência de atos programados e avisar seus superiores. No entanto, Petrov não agiu como ele tinha sido treinado. Do seu posto Petrov deveria passar a informação aos seus superiores na cadeia de comando, mas este tenente-coronel decidiu esperar. E por qual razão? Segundo ele porque sentiu que o sistema estava errado (e aquele foi o primeiro erro deste sistema de alerta) e ordenou o cancelamento do alarme.

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Logo depois, com a equipe ainda em estado de choque, novos alarmes mostraram um segundo míssil e depois surgiram mais outros três artefatos que teoricamente foram disparados de Malmstrom. Nada menos que um possível grupo de cinco mísseis balísticos intercontinentais, cada um deles com várias ogivas atômicas, estavam no ar em direção a sua pátria.

Escutavam-se muitos gritos por todos os lados. Os consoles e mapas eletrônicos piscavam. Os colegas de Petrov afirmavam o lançamento de um ou dois mísseis podiam ser erros do computador, mas não um bombardeio de cinco mísseis. Sem dúvida, tratava-se do pior cenário possível. Era preciso fazer algo!

Quando o destino da espécie humana está – literalmente – em suas mãos, a última coisa que se quer é entrar em pânico. E, no meio dessa situação terrível, Petrov fez algo que um militar não deve. Tal como fez Vassíli Arkhipov, o herói da crise dos mísseis cubanos de 1962 que se recusou a lançar torpedos nucleares contra embarcações americanas, Petrov não seguiu o protocolo e decidiu não autorizar um início da sequência de informações que culminariam em grande ataque.

Stanislav Yevgrafovich Petrov
Stanislav Yevgrafovich Petrov

Mesmo levando em conta que o Kremlin precisaria de 15 minutos para começar o lançamento, os funcionários do bunker precisavam agir em cerca de 10 minutos, ou perderiam a oportunidade de um contra-ataque para sempre. Entretanto Petrov percebeu que era um tanto óbvio que os americanos, que possuíam milhares de misseis, começarem um ataque nuclear ao grande território soviético com apenas cinco mísseis. Pois a resposta soviética seria gigantesca.

Petrov quis esperar a confirmação do ataque daqueles supostos cinco misseis através do sistema de radar de solo, onde teve que aguardar alguns minutos extremamente tensos e cruéis. Logo o radar de solo confirmou a Petrov que ele estava certo. Era uma falha do sistema soviético. Os sensores dos satélites de alerta tinha experimentado uma situação estranha, que fez a luz solar refletida por nuvens em elevadas altitudes, parecerem disparos de misseis, ativando a rede de alarme.

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Todas as decisões e os dados coletados por Petrov foram passados para o seu superior, o general Yuri Votintsev. Informado do “alarme falso” e após terminar o incidente, o general prometeu que Petrov seria honrado por “Ter salvado o mundo da guerra nuclear”.

Mas o tenente-coronel Petrov passou bem longe de ser honrado (ou considerado Herói da União Soviética, a mais alta condecoração do seu país). Ele foi investigado pelas altas autoridades militares, que concluíram que ele fora “indisciplinado”. Alegaram também que Petrov deveria ter seguido a cadeia de comando e informado a seus superiores, para que eles tomassem suas decisões.

Há certa confusão quanto ao papel militar do Petrov neste incidente. Petrov, como um indivíduo, não estava em uma posição em que poderia sozinho, ter lançado qualquer míssel do arsenal soviético. Seu único dever era monitorar os equipamentos de vigilância por satélite e relatar a seus superiores sobre algum aviso de ataque. Seguindo uma cadeia de comando, só os altos dirigentes soviéticos teriam poder para decidir lançar um ataque de retaliação contra os Estados Unidos. Mas o papel de Petrov era crucial no fornecimento de informações para a tomada de decisão neste caso.

Até hoje o governo russo afirma que o coronel Petrov não poderia ter começado uma guerra nuclear simplesmente relatando o lançamento de um míssil. Eles afirmam que a confirmação teria que vir de outras fontes para as ordens de lançamento serem efetivadas. Embora isso possa ser verdade, também é verdade que as forças soviéticas estavam em constante estado de alerta durante a primeira metade da década de 1980. Yuri Andropov, então chefe da União Soviética, tinha uma forte desconfiança dos norte-americanos, especialmente do presidente estadunidense Ronald Reagan. Por sua parte, Reagan era contundente ao afirmar que sua intenção era retirar os comunistas de Moscou do poder. Em meio a este clima de tensão, analistas militares têm teorizado que se Petrov tivesse seguido o padrão operacional para qual havia sido treinado e relatado um possível ataque com mísseis, é muito possível que os protocolos normais não tivessem sido seguidos.

Em uma entrevista concedida em 2013, Petrov disse que apesar de sua decisão, ele reconheceu que nunca teve total certeza de que o alarme estava errado. Ele sentiu que a sua formação civil ajudou a tomar a decisão certa. Seus colegas eram todos soldados profissionais, com formação puramente militar e, seguindo as instruções, teriam relatado aos superiores que um ataque com mísseis estava em curso e a retaliação nuclear teria acontecido.

Petrov depois disse: “Eu, obviamente, nunca tinha sonhado que um dia eu iria enfrentar essa situação. Foi a primeira e, até onde eu sei, também a última vez que tal coisa tinha acontecido, exceto para cenários de prática simulada “.

Independente desta questão, naquele dia Petrov salvou o planeta, mas expôs as falhas de um sistema caríssimo. Naquele tempo, ele não podia ser premiado por isso, o que seria um soco no estômago da liderança soviética. Petrov não foi julgado ou punido pelo incidente, nunca mais foi promovido até sua aposentadoria, o que afetou drasticamente em sua pensão. Foi transferido para posições sem maior prestígio e lhe foi ordenado manter segredo sobre o incidente.

O homem que verdadeiramente salvou o mundo
O homem que verdadeiramente salvou o mundo

Logo Petrov se aposentou do exército com a patente de tenente-coronel e, por vários anos, padeceu de problemas de ansiedade, como resultado daqueles 15 minutos de extrema tensão.

A sua história só veio a tona em 1998, quando o general Yuri Votintsev revelou tudo em suas memórias.

Stanislav Yevgrafovich Petrov salvou o planeta e a raça humana. Apesar de ter recebido em 2006 uma homenagem na sede da ONU, tendo recebido vários prêmios, de ter a sua vida (e aquela noite pavorosa) contada em um documentário, é engraçado como alguém como ele não muito reconhecido pelo público. Talvez por Petrov ser sempre muito modesto e apenas comenta que era “a pessoa certa no momento certo”. Petrov disse que não sabe que ele deve considerar-se como um herói pelo que ele fez naquele dia.

MITOS NA BERLINDA

O Brasil coleciona personalidades que inspiram liderança.
Mas os heróis de hoje podem não ser os de amanhã

Vivi Fernandes de Lima

O paulistano Benedito Eliseu dos Santos foi um dos mais de 25 mil brasileiros que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Ele não ostentava as divisas dos oficiais militares em sua farda – era soldado – e não pôde ver a calorosa recepção que a população e o governo brasileiro prepararam para a chegada dos pracinhas, vindos da Itália em 1945. Benedito morreu na guerra, como outros 456 expedicionários, e é reconhecido como um herói pela Força Expedicionária Brasileira (FEB). Afinal, “é melhor morrer em combate do que ver ultrajada a nossa nação”, já dizia o primeiro-ministro britânico Winston Churchill.

Três pracinhas do 11.º RI. na FEB - ACERVO FAMÍLIA NALVO
Três pracinhas da FEB. A guerra é um ótimo palco para se criar heróis, que muitas vezes só desejavam voltar vivos e inteiros para suas casas – ACERVO FAMÍLIA NALVO

Hoje, Benedito dá nome à rua de um colégio que homenageia todos os combatentes da Segunda Guerra: a Escola Estadual Heróis da FEB, no Parque Novo Mundo, em São Paulo. A escola e seu endereço não estão sozinhos na homenagem a esses homens: o bairro inteiro tem ruas com nomes de expedicionários. Cristiane Matos, professora de História do colégio, levou o tema para a sala de aula: “Fizemos um projeto em que os alunos saíram à caça de documentos de ex-combatentes. Foi ótimo; eles buscaram a história de cada um que dá nome às ruas”.

A atividade fez com que os estudantes se interessassem pela guerra, o que nem sempre é fácil. “Normalmente, os alunos não têm facilidade em relacionar os heróis com os fatos históricos. Sobre Tiradentes, por exemplo, a maioria sabe que ele morreu enforcado e que se parecia com Jesus. Só isso”, diz a professora. A distância entre a figura do líder e a sua causa está presente até no caso de Che Guevara, apontado por professores como o personagem histórico mais popular para a juventude. Aqui, “muitos vestem a camisa com a foto do Che e não têm noção da história dele. O que atrai o interesse dos jovens é mais o poder de comando e de liderança do personagem do que a sua causa”, afirma Cristiane.

Em um primeiro olhar, todos sabem quem é o personagem da foto. Mas nem todos sabem que ele é seguramente o argentino mais famoso no Brasil, mais até do que Maradona, seus pais eram oriundos de famílias pertencentes a classe alta argentina, seu nome era Ernesto Guevara de la Serna e nasceu na cidade de Rosário, em 1928 - Fonte - http://www.havana-cultura.com/
Em um primeiro olhar, todos sabem quem é o famoso personagem da foto ligado a história cubana. Mas nem todos sabem que ele é seguramente o argentino mais famoso no Brasil (mais até do que Maradona), seus pais eram oriundos de famílias pertencentes a classe alta do seu país de origem e nasceu em 1928 na cidade de Rosário  – Fonte – http://www.havana-cultura.com/

O professor de História da Escola Estadual Tiradentes, em Umuarama (PR), Ângelo Alves, concorda com a colega de profissão paulista. Mesmo estudando no colégio que tem o nome do mais famoso inconfidente, muitos de seus alunos não reconhecem Tiradentes como um herói. “Atualmente, a historiografia vem desmitificando muitos nomes. O próprio Tiradentes se diluiu bastante. Já Che Guevara chama muito a atenção dos jovens. Eles se encantam com seu espírito aventureiro e por ter entrado numa luta que parecia impossível. E, claro, com o grande marketing que é feito com sua imagem”, explica o professor.

Mas, afinal, o que faz um personagem histórico ser reconhecido como herói? O poeta espanhol Reinaldo Ferreira (1922-1959), em sua “Receita para fazer um herói”, menciona alguns passos para a construção desse personagem mítico: “Tome-se um homem,/ feito de nada, como nós/ (…) Depois, perto do fim,/agite-se um pendão,/e toque-se um clarim”. Para arrematar a receita, uma dica fundamental: “Serve-se morto”.

Nesse ponto, as definições de herói e mártir se assemelham. Mas a permanência do heroísmo de quem sofreu por uma causa depende de muitas circunstâncias. “A construção de um herói é, ao mesmo tempo, um processo político e histórico. Ou seja, um protagonista da História delineia, simultaneamente à sua atuação, uma memória de si mesmo e de seus atos”, explica a historiadora Cecília Helena Lorenzini de Salles Oliveira, diretora do Museu Paulista da USP. A memória a que ela se refere pode ser enaltecida ou difamada, durante ou após sua vida. Isso depende dos objetos e documentos deixados, mas também da vontade de outras pessoas e de segmentos sociais que interpretem este protagonista como um representante do que desejam. “Assim, um protagonista que, para seus contemporâneos, não mereceu consideração pode vir a se tornar posteriormente uma referência na compreensão de certos eventos”, esclarece Cecília.

Já Tiradentes só foi reconhecido herói quase 100 anos após a sua morte
Já Tiradentes só foi reconhecido herói, com direito a um feriado, 100 anos após a sua morte

Esse reconhecimento pode demorar muitos anos, décadas e até séculos. No caso de Tiradentes, a primeira celebração do 21 de abril ocorreu em 1881, 89 anos após sua morte. A data só virou feriado nacional em 1890, no mesmo ano em que o 15 de novembro também passou a ser comemorado. Coincidência? Nem um pouco. Os republicanos estavam ávidos por lançar um herói para o novo regime. E esta era uma tarefa difícil, já que a Proclamação teve quase nenhuma participação popular e, como o historiador José Murilo de Carvalho escreveu, “a pequena densidade histórica do 15 de novembro (uma passeata militar) não fornecia terreno adequado para a germinação de mitos”.

Enquanto tentavam exaltar a imagem do marechal Deodoro, de Benjamim Constant e Floriano Peixoto – que sequer foram heróis militares –, Tiradentes vinha aparecendo na literatura e nas artes. O poeta Castro Alves chegou a se referir ao inconfidente como “o Cristo da multidão”. Sua simpatia pela república – nos moldes norte-americanos, e não nos da que foi implantada aqui – e a memória de seu martírio couberam como uma luva na vaga de herói daquele momento político. A proliferação de estudos sobre o personagem chegou a levantar a hipótese de que Tiradentes teria escapado da forca, teoria desmentida posteriormente.

Em 1965, quando o país estava novamente sob o regime militar, Tiradentes foi proclamado patrono cívico da nação brasileira. O mesmo governo também decretou que todas as repartições públicas do país afixassem o retrato do inconfidente, o que era impensável no Império, quando se aclamava D. Pedro I como herói da Independência, ou melhor, o neto da rainha que mandou executar Tiradentes. A divulgação da imagem do imperador estava fortemente ligada à atuação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838 para criar uma história nacional.

A figura de Luís Alves de Lima e Silva, dependendo do grupo que ocupa a liderança máxima do Brasil, pode ser cultuada como um grande herói nacional, a um cruel exterminador de membros de movimentos libertários
A figura de Luís Alves de Lima e Silva, dependendo do grupo que ocupa a liderança máxima do Brasil, pode ser cultuada como um grande herói nacional, a um cruel exterminador de paraguaios e de brasileiros membros de movimentos libertários

Outro exemplo de herói a serviço do governo é o duque de Caxias, que já era reconhecido pelos políticos do Partido Conservador, do qual fazia parte, durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). “Ele havia tomado decisões em campo de batalha que dirigiram os combates a favor do Império. Foi essa situação que fez com que sua biografia se engrandecesse e que sua atuação anterior – no combate às revoluções que ocorreram no Brasil nas décadas de 1830 e 1840 – fosse interpretada de modo positivo”, explica Cecília Oliveira. Mas durante a ditadura, a historiografia marxista atacou o herói militar, considerando-o um assassino, por ter liderado o Brasil na guerra mais sangrenta da América Latina.

Essa discussão sobre quem são os heróis, expondo versões sobre “o outro lado” do senso comum, pode parecer uma tentativa de derrubar os grandes personagens. Mas a questão não é assim tão simplória. “Os estudos históricos, desde os anos 1920, têm procurado desmistificar os heróis para evidenciar como foram projetados. Para o historiador, o fundamental não é descobrir ou destruir  heróis, mas reconstituir uma época, um evento, uma situação, para entendê-los por inteiro, nas suas várias facetas e contradições”, elucida Cecília.

Já este personagem seguramente foi um grande líder para aqueles que o seguiam, estrategista e conhecer a sua história ajuda muito a compreender o nosso atual flagelo da violência no Brasil. Infelizmente se perde muito tempo na quase eterna discussão se ele foi herói ou bandido!
Seguramente este homem foi um grande líder para aqueles que o seguiam, um inteligente estrategista e muito valente. Conhecer a sua história ajuda muito a compreender o nosso atual flagelo da violência no Brasil. Infelizmente se perde muito tempo na quase eterna discussão se ele foi herói ou bandido!

E contradição é o que não falta quando ao assunto é um grande personagem. Além de suas biografias terem diferentes versões com o passar do tempo, há também casos em que o indivíduo é endeusado e demonizado num mesmo período. Assim é Lampião: alguns batem palmas para sua origem humilde e para o discurso de que ele entrou no cangaço para fazer justiça; outros têm repugnância por quem talvez tenha sido o mais cruel dos bandidos do Nordeste. Já o padre Cícero é ainda uma personalidade muito popular na região, onde nem sempre o senso comum está de acordo com a historiografia acadêmica. Sua biografia não deixa escapar uma possível aliança com o cangaço para combater a Coluna Prestes, liderada por outro herói nacional, Luiz Carlos Prestes.

Como se vê, há heróis para todos os lados. E se eles refletem, de certa forma, as transformações das sociedades, é natural que novos heróis surjam a cada época. Decretar um feriado em homenagem a Zumbi e à Consciência Negra, como ocorre hoje em mais de 200 cidades brasileiras, só foi possível quatro séculos depois do fim do Quilombo dos Palmares. Nesse caso, novamente a memória e a política se unem. Desta vez, como resultado do crescente movimento em defesa dos direitos dos negros.

Além de Zumbi, o quilombola Malunguinho foi bastante perseguido em Pernambuco no século XIX e é reverenciado como herói. “Hoje, este líder é muito comemorado no catimbó, no meio da mata, com festas”, conta o historiador pernambucano Marcus de Carvalho. Em 1827, tropas do governo enfrentaram o quilombo de Malunguinho, mas muitos negros conseguiram fugir, inclusive o líder. Uma recompensa de 100 mil-réis foi oferecida por sua captura ou morte. “Para se ter uma ideia do temor que ele provocava, foi a maior quantia proposta pela captura de alguém vivo ou morto em Pernambuco até a Cabanada (1832-1835)”, diz o historiador. Atualmente, o quilombola é, inclusive, nome de uma lei estadual que criou a Semana Estadual da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana, em 2007.

O marinheiro João Cândido
O marinheiro João Cândido

O líder da Revolta da Chibata, João Cândido, é outro personagem que foi ainda mais valorizado com o movimento negro. Sua vida não para de despertar a curiosidade de pesquisadores, que volta e meia encontram uma novidade sobre o Almirante Negro. Aliás, enquanto ainda se investiga esse mito, a historiografia recente traz a existência de outro líder da Revolta. Os historiadores Marco Morel e Sílvia Capanema de Almeida publicaram recentemente descobertas sobre Adalberto Ferreira Ribas (1891-1963), que provavelmente foi quem escreveu o manifesto com as reivindicações do movimento contra os castigos corporais aplicados aos marinheiros.

A descoberta de novos heróis e a revisão dos antigos pode estar também associada ao aumento de estudos biográficos. Durante muito tempo – aproximadamente até a década de 1970 –, a biografia não era considerada História por se tratar de uma investigação sobre um indivíduo, e não sobre acontecimentos coletivos. Mas o próprio Karl Marx, que é referência para a história social, já dizia que não via os indivíduos como elementos isolados… Se a historiografia muda, os heróis também podem mudar. Enquanto isso, a juventude brasileira veste camisetas com estampas do argentino Che Guevara.

Saiba Mais – Bibliografia

CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

RÉMOND, René (org.). Por uma História política. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003.

MALERBA, Jurandir (org.). A independência brasileira: novas dimensões. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/mitos-na-berlinda

ESCRITOR CRITICA DESIGUALDADE NO BRASIL E DIVIDE OPINIÕES EM ABERTURA DA FEIRA DE FRANKFURT

Foto: Adriana Vichi
Luiz Ruffato – Foto: Adriana Vichi

Antes de embarcar para Frankfurt, o escritor Luiz Ruffato, um dos preferidos dos leitores alemães, já tinha dito que seu discurso de abertura da 65.ª edição da maior feira de livros do mundo incomodaria. E incomodou na mesma medida em que encantou o público ao fazer referências à história e à situação atual do País. Pouco depois, em sua fala, o vice-presidente Michel Temer acabou vaiado por parte da plateia que compareceu ao evento. Em seu discurso de abertura na Feira do Livro de Frankfurt, o escritor Luiz Ruffato fez uma pesada crítica as desigualdades sociais brasileiras. Entre outras questões, falou do passado escravagista, de violência, da população carcerária e de homofobia. Leia a íntegra do discurso a seguir:

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro –é a alteridade que nos confere o sentido de existir–, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania –moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade–, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios –o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

O Brasil é o país homenageado em Franlfurt
O Brasil é o país homenageado em Franlfurt

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais –ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo –amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Logotipo da feira de Frankfurt
Logotipo da feira de Frankfurt

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro –seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”

SOBRE LUIZ RUFFATO – http://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Ruffato

FONTE – http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,leia-a-integra-do-discurso-de-luiz-ruffato-na-abertura-da-feira-do-livro-de-frankfurt,1083463,0.htm

AMORES ESCRAVOS E AMORES MESTIÇOS NO BRASIL DO SÉCULO XIX

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Há poucas referências de cronistas estrangeiros aos casamentos entre escravos. Sabe-se hoje que eles eram correntes. O livro do casal Agassiz, educadores que capitanearam uma expedição ao Brasil entre 1865 e 1866, tece, por exemplo, alguns comentários de índole moral em torno de cerimônias que eles mais consideram “irreligiosas”, tal a rispidez com que o padre tratava os nubentes. Segundo o relato,

“[…] se estas pobres criaturas refletissem, que estranha confusão não se faria em seu espírito! Ensinam-lhes que a união entre o homem e a mulher é um pecado, a menos que seja consagrada pelo santo sacramento do matrimônio. Vêm buscar este sacramento e ouvem um homem duro e mau resmungar palavras que eles não entendem, entremeadas de tolices e grosserias que eles entendem até demais. Aliás, com seus próprios filhos crescem crianças escravas de pele branca, que na prática, ensinam-lhes que o homem branco não respeita a lei que impõe aos negros.”

Provavelmente inspirado nos negros que trabalhavam para a empresa inglesa da Mina de Morro Velho, era Minas Gerais, Richard Burton dizia que “[…] o escravo tem no Brasil, por lei não escrita, muitos direitos de homem livre […] é legalmente casado e a castidade de sua esposa é defendida contra o senhor. Tem pouco receio de ser separado da família”.

downloadNo século XIX, para efetivar seus casamentos os escravos continuavam precisando da anuência de seus senhores que, muitas vezes, decidiam levando em conta o número de filhos que nasceriam dessa união. Em propriedades grandes e médias havia a tendência em não separar os cônjuges, por venda ou herança. Nos plantéis pequenos, porém, os proprietários estavam mais sujeitos a contratempos econômicos, garantindo em menor escala o bem-estar conjugal dos escravos. Aos jovens, fortes candidatos a fugas, dizia um senhor da região de Campinas, no interior paulista: “E preciso casar este negro, dar-lhe um pedaço de terra para assentar a vida e tomar juízo”.

A presença da escravidão e da mestiçagem trouxe muitos reflexos para as relações afetivas. No Brasil, a fidelidade do marido não apenas era considerada utópica, segundo os viajantes, mas até ridicularizada. E a manutenção de amantes — a julgar pela marquesa de Santos, exemplo vindo de cima — um verdadeiro segredo de polichinelo. Tal vida não se tornava, no dizer de um desses cronistas, “uma ignomínia para um homem, em vez disso era como a ordem natural das coisas”. Eram comuns, particularmente no interior do Brasil, famílias constituídas por um homem branco cuja companheira — mais ou menos permanente, segundo o caso — era uma escrava ou uma mestiça. Somava-se a isso a desproporção entre homens — em maior número — e mulheres — poucas — estudada por demógrafos historiadores. As marcas do sofrimento ficaram na documentação e nas observações de uma viajante estrangeira. Conta-nos ela:

escravidao2“Na noite anterior eu notara uma jovem mulher branca, ou antes amarela, de grandes olhos com olheiras, de cabelos mal penteados, que andava descalça, vestida com uma saia malfeita, uma criança pela mão e outra no colo, e supusera que bem poderia ser a mulher do administrador que, no entanto, tinha roupa fina, um traje decente e um verniz de letras e de ciência […] resolvi, então, satisfazer minha curiosidade, notando em seu rosto traços de profundo sofrimento:

— Pareces triste, senhora, disse-lhe.
— Sou bem infeliz, senhora, respondeu-me ela.
— Não é a mulher do administrador?
— Para minha desgraça.
— Como assim?
— Ele me trata indignamente. Aquelas mulatas, acrescentou ela, apontando-me uma, é que são as verdadeiras senhoras da fazenda. Por elas, meu marido me cobre de ultrajes.
— Por que suporta isso?
— Meu marido me força a receber essas criaturas até em minha cama; e é lá, debaixo dos meus olhos, que lhes dá suas carícias.
— Ê horrível!
— Quando me recuso a isso, ele me bate e suas amantes me insultam.
— Como continua com ele? Abandone-o.
Ela olhou-me com profundo espanto, replicando.
[…] — Isso é bom para as francesas que sabem ganhar seu pão; mas nós, a quem não se ensinou nada, somos obrigadas a ser como criadas de nossos maridos.”

Na cultura popular, as modinhas ensinavam as mulheres a desconfiar seus maridos. Veja-se esta coligida na Bahia em 1843:

Astuciosos os homens são
Enganadores
Por condição
Os homens querem sempre enganar
Nós nos devemos
Acautelar
Juram constância
Até morrer
Mas enganar
É seu prazer
[…]
Quando dependem
São uns cordeiros
Logo se tornam
Lobos matreiros
[…]
Quando da noite
O sol raiar
Então firmeza
Lhes hão de achar
Já nem ao menos vergonha tem:
Quando isto ouvem
Riem-se bem.

O concubinato corrente entre homens brancos e mulheres afrodescendentes provocou uma reação: mulheres brancas deviam casar com homens brancos. Embora já houvesse muitas uniões entre brancas e mulatos, como descreveu Freyre para o Nordeste, nas capitais todo o cuidado era pouco. Tão pouco, que a Folhinha Laemmertz de 1871 admoestava: “com a Lei do Ventre Livre algumas moças que não querem ficar para tias, casam-se com negros”. Ao fundo, a imagem de um casal misto, ela, uma pintura, ele, caricaturizado.

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No litoral, procuravam-se genros nascidos no Velho Mundo. O “mendigo de mais alto nascimento era preferido aos mais ricos nativos”. Mas nas províncias do interior não havia tanta fartura de brancos e, na conclusão do observador estrangeiro Burton, “o mulatismo tornou-se um mal necessário”. Maria Graham repete as mesmas palavras: os portugueses “preferem dar suas filhas e fortuna ao mais humilde caixeiro de nascimento europeu do que aos mais ricos e meritórios brasileiros”, leia-se, mestiços. Ela acreditava que “os portugueses europeus ficavam extremamente ansiosos para evitar o casamento com os naturais do Brasil”, demonstrando, dessa forma, já estarem “convencidos das prodigiosas dificuldades, se não malefícios que fizeram a si próprios com a importação de africanos”. Mas a solidão em que viviam muitos brancos, isolados em um deserto e não tendo qualquer restrição das opiniões da sociedade possibilitava, no entender da professora inglesa, que eles se “acomodassem” com as mulheres a seu alcance. Escapa-lhe o potencial afetivo de muitas dessas relações. Completava-se, assim, o binômio que induzia “muitos no país a prescindirem de uma esposa”, nesse caso, de uma moça branca para casar legalmente. Desse “desregramento” nem os ingleses escapavam, observa um norte-americano, mencionando o caso de certo Mister Fox, comerciante solteiro que já sexagenário desfrutava, em sua casa, da companhia de uma senhora negra e viçosa, de pouco mais de 35 anos, que atendia à mesa, desincumbindo-se, também, de outras tarefas domésticas.

Nosso conhecido viajante Schlichthorst fazia à corte, a sua maneira, a uma mestiça que encontrara nas ruas do Rio de Janeiro. A aproximação entre o estrangeiro e a nativa é direta. Não há rodeios; há trocas. Comida por companhia. As clivagens de raça e classe ficam claramente visíveis, sobretudo, quando ele titubeia em beijar a mão da linda jovem cuja visão o deleitava. Orgulho e preconceito se misturam. Vejamos como ele relata essa experiência:

“A moça de aparência decente, estava desacompanhada. Ofereci-lhe o braço e levei-a para sua casa. Algumas escravas nos seguiam. A esse feliz acaso fiquei devendo minhas horas mais agradáveis no Rio de Janeiro. Beata Lucrécia da Conceição não era, em verdade de sangue puro como a Europa exige para sua pretensa fidalguia racial,” mas era uma moça boa e simples, de dezessete anos, que vivia com decente liberdade em companhia de sua mãe, uma crioula gorda. A riqueza dessa gente modesta constava de uma casinha e de alguns negros que trabalhavam na alfândega. O capital crescia com um bando de moleques, de tempos em tempos, aumentado pela extraordinária fertilidade das negras ou, como dizia a velha — pela benção do céu. D. Luiza, mãe de D. Beata, era viúva. A filha, solteira, tinha um amigo tropeiro, que andava com sua tropa de mulas por Minas Gerais e vivia com ela quando vinha ao Rio de Janeiro. Uma encantadora menina nascera desta união.”

casamentodenegrosO jovem estrangeiro deixa-se encantar pelo ambiente simples e acolhedor de uma casa onde podia chegar à hora que quisesse. De certa feita, resolve ir às compras para, o que considera, uma refeição modesta.

“Como sei que é dia de jejum e conheço o gosto das senhoras, compro caranguejos, palmitos, macarrão para a sopa, algumas sardinhas e batatas, cebolas, agrião para a salada e um pouco de alho às escondidas. Não me esqueço das passas, das amêndoas, dos abacaxis, das laranjas, das bananas e, para completar, a sobremesa, de ostras, de queijo e algumas garrafas de excelente vinho do Porto, que nenhuma senhora desdenha. Chego assim carregado com o negro à casa de D. Luiza e me convido para jantar. A boa mulher sente-se muito honrada com a minha visita e sua amável filha me recebe com toda a sua graça natural.”

Mas logo sobrevêm considerações que misturam preconceito e prazer, sentimentos complexos que deviam viver não poucos dos que vinham fazer a América:

“Quase sou tentado a beijara mão que me estende. Contra isso, porém, rebela-se o nobre sangue europeu, ao pensar que a tinge leve cor africana. Enquanto a velha vai em pessoa para a cozinha, a fim de dirigir o preparo da refeição, aprendo com a minha bela mestra, em poucas horas, mais português do que me ensinaria em seis semanas um rabugento professor. Se nesta convivência íntima, um sentimento melhor não vence o orgulho ridículo a que venho de me referir, fico indeciso, porque sei respeitar os direitos alheios, mesmo que sejam de um simples tropeiro de Minas. Após a refeição, as senhoras que se serviram de talheres em consideração à visita vão dormir. Acendo um cigarro, me embalo numa rede até o sono me fechar às pálpebras. Um sonho me conduz à Europa, na qual, quando acordado raras vezes penso, e me concede gozos a que devo renunciar no Brasil […]. A noite cega depressa. Quando se acendem os lampiões ofereço o braço à dama mais moça e, seguidos por uma escrava preta, damos uma volta pelas ruas da cidade, que a essa hora têm a maior animação.”

E o comentário: “D. Luiza que de bom grado teria vindo conosco fica em casa pela delicada modéstia de sentir sua diferença de cor. Sua filha com um quarto de sangue africano, à noite pode passar como branca de sangue puríssimo”.

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Apesar de consideradas indignas de casar de papel passado, laços de convívio diário com escravas acabavam por tornar-se tão respeitados como em qualquer país da Europa e elas assumiam, sem maiores obstáculos, a honrosa posição de esposas. No caso em que tais relações se prolongassem, adentrando a velhice do parceiro, este não se decidindo por providenciar um casamento com uma mulher branca, acabava por fazer de seus filhos mulatos os únicos herdeiros de seus bens. Durante uma visita a Bertioga, no litoral paulista, o reverendo Walsh defrontou-se com “uma negra”, que, diz ele, “veio e sentou-se para olhar para nós. Ela era a companheira de nosso pequeno anfitrião e mãe de algumas crianças mulatas que possuíam toda a propriedade de seus pais”.

Estudando a vida privada na Província de São Paulo, o historiador Robert Sleenes esmiuçou documentos em que essas afirmações ganham carne e sangue. Filhos mulatos nascidos dessas uniões herdam bens, escravos e negócios, dando origem a uma pequena camada média, mestiça, como já observara, à mesma época, o reverendo Walsh. O fenômeno não era comum, havendo o pai que alforriar seus filhos que, por seu turno, muitas vezes, tinham seus herdeiros nas mesmas condições: com escravas. As dificuldades de mobilidade social foram grandes até meados do século, mas não faltavam senhores que, literalmente apaixonados, ameaçavam a vida de casal de escravos. Um exemplo, em São Paulo? Um senhor que perseguia violentamente Romana, sua escrava, dizendo a seu marido que “o havia de matar porque precisa da crioula para sua manceba”. Ou, em Vassouras, no Rio de Janeiro, em que uma esposa traída apresenta ao juiz uma carta de seu marido à amante, uma ex-mucama: “Marcelina, você como tem passado, meu bem? Estou com muita saudade de você e ainda não fui dar-lhe um abraço porque estou na roça feitorando outra vez […]”. E se despede:

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“Adeus, minha negra, recebe um abraço muito e muito saudoso, e até breve. O frio já está apertando, e faz-me lembrar das noites da barraca com uma saudade que me põe fora de mim; está bom, não quero dizer mais nada por hoje, se começo a me lembrar de certas coisas, em vez desta carta vou eu mesmo, e hoje não posso sair. Outra vez adeus e até lá.”

Na corte, Marcelina deixava-se fotografar com acessórios considerados de fino trato: leques e lindo vestido de tafetá pregueado com o laço à marrequinha.

Não é esse o caso de Marcelina, mas na maioria dos exemplos que extraímos da documentação tem-se a impressão de que era mais fácil, se não econômico, para o homem branco, aproveitar-se das mulheres que não podiam exigir dele compromissos formais, mas lhe ofereciam os mesmos serviços que uma esposa branca e legalmente casada. Segundo observação de um viajante estrangeiro, até os homens acabavam por sentir “uma estranha aversão pelo casamento”, passando a não gostar de se casar para sempre e, uma vez que “a humana lei latina facilita o reconhecimento dos filhos ilegítimos”, são eliminados os atrativos que restam ao matrimônio. Ficavam assim justificadas em favor do homem, segundo Tânia Quintaneiro, as ligações à margem da legislação com negras e mestiças e a desproteção a muitos filhos que, apesar da “humana lei latina”, nem sempre eram legalmente reconhecidos.

Texto de Mary Del Priore in “História do Amor no Brasil”, Contexto, São Paulo, 2006, excertos p. 188-195. A partir de http://stravaganzastravaganza.blogspot.com.br/2013/04/amores-escravos-e-amores-mesticos-no.html?q=Nordeste

1997 – NO SERTÃO CENTRAL DO CEARÁ – PROJETO DO POLO DE ECOTURISMO DO SERTÃO

AGOSTO DE 1997 – ESTE FOI UM DOS MELHORES PROJETOS QUE PARTICIPEI. FOI O MAPEAMENTO DA REGIÃO DO POLO DO SERTÃO CENTRAL, PARA UTILIZAÇÃO ECOTURÍSTICA, NOS MUNICÍPIO DE QUIXADÁ E QUIXERAMOBIM, NO CEARÁ. FORAM 20 DIAS BEM PROVEITOSOS E ESPECIAIS. COM OS AMIGOS ADEILTON RIGAUD E JOAQUIM DAS VIRGENS NETO

Autor – Rostand Medeiros

Os monólitos da Região Central do Ceará. Bela paisagem. Em Quixadá.
Os monólitos da Região Central do Ceará. Bela paisagem. Em Quixadá, Ceará.

Subida da Serra dos Macacos. Só no lombo de animal.
Subida da Serra dos Macacos. Belo local, mas a subida só no lombo de animal.

Açude da Faz. Logradouro
Açude da Faz. Logradouro

Eu e o velho Joaca tentando mostrar aos caçadores, sem muito sucesso, o erro de caçarem mocós. Não havia seca na época, mas as condições de vida deste pessoal não dava margem para debater sobre preservacionismo em meio a fome.
Eu e o velho Joaca tentando mostrar aos caçadores, sem muito sucesso, o erro de caçarem mocós. Não havia uma seca muito pesada nesta na época, mas as condições de vida deste pessoal não dava margem para debater muito sobre preservacionismo em meio ao espectro da fome.

Depois de trocar o pneu do Troller, em meio aos monólitos
Depois de trocar o pneu do Troller, em meio aos monólitos, com o guia Dagoberto, gente muito fina.  No Troller com motor VW 2.0 e caixa de marcha de D-20. Era uma máquina e tanto na época.

As perneiras que utilizávamos não era para aparecer bonito nas fotos, mas para proteger das picadas de cascavéis.
As perneiras que utilizávamos não era para aparecer bonito nas fotos, mas para proteger das picadas de cascavéis.

No alto da serra dos Cacos, horas a cavalo.
No alto da serra dos Cacos, horas a cavalo.

Com o pessoal da Secretária de Turismo do Estado do Ceará, transmitindo os dados de vinte dias de campo.
Com o pessoal da Secretária de Turismo do Estado do Ceará, transmitindo os dados de vinte dias de campo. Ao meu lado direito os amigos Adeilton Rigaud (sentado), atualmente na Petrobrás do Espirito Santo e Joaquim das Virgens Neto (em pé), atualmente no CPRM do Piauí

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AS PEGADAS DOS DINOUSSAUROS EM SOUSA-PB – UM LOCAL FANTÁSTICO

Trilha fossilizada no Vale dos Dinossauros, no município de Sousa - Fonte - Fabio Colombini
Trilha fossilizada no Vale dos Dinossauros, no município de Sousa – Fonte – Fabio Colombini

REGISTROS DO CRETÁCEO – ALGAS AJUDARAM A PRESERVAR
PEGADAS DE DINOSSAURO NA PARAÍBA 

IGOR ZOLNERKEVIC | Edição 209 – Julho de 2013 – Revista de Pesquisa da FAPESP

Para quem quiser deixar uma marca duradoura de sua existência na Terra, fica a dica: caminhe à beira de um lago, onde houver lama ou areia fina e molhada, coberta de limo. Centenas de dinossauros fizeram isso, e suas pegadas permanecem intactas, gravadas nas rochas do sertão nordestino, no município de Sousa, interior da Paraíba, graças à ação das algas verdes e azuis do limo onde pisaram há mais de 100 milhões de anos.

A conclusão é dos paleontólogos Ismar Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Giuseppe Leonardi, do Instituto Cavanis, em Kinshasa-Ngaliema, na República Democrática do Congo. Em parceria com o geólogo Leonardo Borghi, da UFRJ, eles apresentaram, em artigo publicado em maio deste ano na revista Cretaceous R  esearch, a primeira prova material da importância do limo na preservação de pegadas fósseis. O filme gelatinoso criado pelos microrganismos crescendo sobre a lama pisada teria impedido que as pegadas fossem apagadas pelo vento e pela chuva, antes que ela endurecesse e fosse recoberta por uma nova camada de sedimento que a protegeria da erosão.

“É incrível como microrganismos ajudaram a registrar a vida de alguns dos maiores animais que já viveram”, comenta Leonardi, considerado um dos principais especialistas em icnologia, o estudo de marcas deixadas por animais extintos, os chamados icnofósseis, para determinar sua postura e comportamento. Foi por meio de pegadas, por exemplo, que os paleontólogos deixaram de montar incorretamente os esqueletos fósseis nos museus.

Foto realizada pelo autor do blog TOK DE HISTÓRIA em 1994
Foto realizada pelo autor do blog TOK DE HISTÓRIA em 1994

Antigamente achava-se que os dinossauros andavam como os crocodilos, arrastando o ventre e a cauda no chão. As pegadas, no entanto, mostram que as criaturas andavam com a cauda e corpo suspensos, com seu peso distribuído igualmente sobre as patas.

As pegadas de Sousa foram descritas pela primeira vez em 1924, pelo engenheiro de minas Luciano Jacques de Moraes. O estudo dessas marcas, entretanto, só começou em 1975, quando Leonardi passou um ano explorando a região. Nascido na Itália em uma família de geólogos e paleontólogos, Leonardi, 74 anos, sempre dividiu seu tempo entre a carreira de pesquisador e a de padre católico. Ele se prepara para lançar um livro sobre Sousa, escrito em colaboração com Carvalho, ao mesmo tempo que atua na educação de crianças no Congo.

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As rochas de Sousa se formaram a partir de sedimentos acumulados em um vale aberto no início da separação entre a América do Sul e a África, no começo do chamado período Cretáceo. Entre 142 milhões e 130 milhões de anos atrás, o vale abrigava rios e lagos, atraindo a fauna da região. Sua lama transformada em rocha registrou a passagem de quase 400 indivíduos — dinossauros, crocodilos, sapos e tartarugas. Também há marcas de ondulações produzidas por água corrente e até pequenos buracos criados por gotas de chuva.

Cenas do passado

Não há, porém, ossadas fósseis em Sousa, ao contrário do que ocorre na bacia sedimentar vizinha do Araripe, no Ceará, local da descoberta de muitos dinossauros do Cretáceo. Leonardi explica que os sedimentos e o ambiente das bacias eram distintos. O ambiente mais ácido de Sousa corroía os ossos, enquanto no Araripe enxurradas arrastavam e soterravam rapidamente as carcaças dos animais, mantendo os ossos em condições favoráveis à petrificação.

“Em geral, os fósseis são registros da morte, enquanto as pegadas são registros da vida”, afirma Carvalho. Dificilmente as pegadas permitirão identificar a espécie do animal que as produziu. Mesmo assim, os pesquisadores conseguem classificá-las de acordo com certos grupos de dinossauros e, em locais onde há muitas delas, podem reconstruir cenas do passado.

Fonte - ARIEL MILANI MARTINE
Fonte – ARIEL MILANI MARTINE

O cotidiano dos dinossauros de Sousa lembra a vida dos grandes mamíferos das savanas africanas de hoje. Há trilhas feitas por bandos numerosos de saurópodes, imensos herbívoros quadrúpedes, semelhantes aos brontossauros. Em certo local é possível notar que um saurópode adulto diminuiu sua marcha para acompanhar o passo de um filhote. Em outros pontos, esses bandos são perseguidos por pequenos grupos de terópodes, carnívoros bípedes parecidos com tiranossauros ou velocirraptores. Mais ativos que os herbívoros, os terópodes deixaram mais pegadas registradas, apesar de provavelmente terem sido em menor número.

“Essas marcas são estruturas tão delicadas, tão fáceis de serem apagadas pelas intempéries”, diz Carvalho. “Queríamos entender como foram preservadas.” Segundo ele, os pesquisadores costumavam concordar que, para as pegadas serem preservadas, bastava que o sedimento onde estavam impressas tivesse certas características especiais. Ele deveria ser fino, úmido e plástico na medida certa, como a argila. Todos os estudos experimentais feitos até agora, porém, demonstram que isso muitas vezes não é o suficiente.

De uma década para cá, começaram a aparecer evidências de que as pegadas menos erodidas são aquelas cobertas por limo. Em 2009, por exemplo, um grupo de arqueólogos suíços observou exatamente isso ao estudar o endurecimento de pegadas humanas impressas há poucos anos na beira de lagos no Caribe e no Oriente Médio. Carvalho notou algo semelhante na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Outros paleontólogos começaram a suspeitar de que as chamadas esteiras microbianas que compõem o limo funcionariam como uma cola entre os grãos do sedimento, preservando os traços das pegadas, além de os protegerem contra o vento e a chuva. Os microrganismos ajudariam ainda na petrificação, acumulando o cálcio que endurece o sedimento.

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Carvalho e seus colegas descobriram a primeira evidência material do fenômeno ao analisarem ao microscópio as lâminas de rochas extraídas de um poço na Fazenda Cedro, em Sousa. Encontraram várias camadas de microbialitos, um tipo de rocha formado a partir dos restos de esteiras microbianas do Cretáceo.

Outra evidência indireta é a presença em Sousa de fósseis de conchostráceos, um crustáceo protegido por duas conchas, aparentado de caranguejos e camarões. Os conchostráceos existem até hoje e quase nunca ultrapassam meio centímetro de comprimento. Uma das espécies de Sousa, porém, atinge 4,5 centímetros. Carvalho acredita que os conchostráceos de Sousa cresceram tanto por conta do ambiente de águas quentes, calmas e ricas em nutrientes que favoreceram a proliferação das esteiras microbianas nas margens dos lagos onde os dinossauros pisavam.

Foto de uma reprodução de um dinossauro. Realizada pelo autor do blog TOK DE HISTÓRIA em 1999
Foto de uma reprodução de um dinossauro. Realizada pelo autor do blog TOK DE HISTÓRIA em 1999

Mais limo, mais detalhes

As pegadas mais ricas em detalhes, que vistas bem de perto revelam de marcas de unhas a ranhuras da planta das patas e dos dedos, seriam aquelas formadas onde as esteiras teriam crescido mais. O limo teria ajudado a preservar também as rebordas que aparecem em volta de algumas pegadas. As rebordas são feitas da lama espirrada quando o animal pisou e podem informar seu peso.

Além do sedimento argiloso e das esteiras microbianas, os ciclos de deposição dos sedimentos seguindo as estações secas e chuvosas também ajudou a preservar as pegadas em Sousa. Pegadas eram gravadas e endurecidas durante a estação seca, para então serem enterradas por uma nova camada de sedimento trazida pelas chuvas. A nova camada serviria então de substrato para gravar mais pegadas na estação seca seguinte. Em um local conhecido como Passagem das Pedras, em Sousa, Leonardi escavou 25 dessas camadas com pegadas, produzidas por variações cíclicas na borda de um lago.

Carvalho, cuja pesquisa tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), espera agora examinar lâminas de rochas de outros lugares do mundo com pegadas fósseis. O maior deles fica em Sucre, na Bolívia. “Tenho quase certeza de que os microbialitos estão presentes lá”, diz.

Foto de uma das trilhas feitas pelos dinossauros em Sousa, realizada pelo autor do blog TOK DE HISTÓRIA em 1994
Foto de uma das trilhas feitas pelos dinossauros em Sousa, realizada pelo autor do blog TOK DE HISTÓRIA em 1994

“As esteiras microbianas estão na moda”, comenta o paleontólogo Marcelo Adorna Fernandes, da Universidade Federal de São Carlos, cujo laboratório possui a maior coleção de icnofósseis do país, muitos deles coletados no interior paulista, principalmente em Araraquara, onde foram descobertas pegadas até em rochas das calçadas da cidade. Fernandes conta que espera analisar em breve o que ele acredita ser rastros deixados por invertebrados ao rasgarem esteiras microbianas crescendo no fundo dos lagos glaciais, que deram origem às rochas sedimentares conhecidas como os varvitos de Itu.

Artigo científico

CARVALHO, I. et alPreservation of dinosaur tracks induced by microbial mats in the Sousa Basin (Lower Cretaceous), BrazilCretaceous Research. Publicado on-line. 10 mai. 2013.

Fonte – http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/07/12/registros-do-cretaceo/