TELEJORNAL BOM DIA RN EXIBE SÉRIE ESPECIAL SOBRE A SEGUNDA GUERRA – DESTAQUE PARA O LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”

Capa - Cópia

A INTERTV CABUGI, AFILIADA DA TV GLOBO EM NATAL, ESTÁ EXIBINDO UMA SÉRIE DE REPORTAGENS SOBRE NATAL DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, EM UM DOS TRECHOS ESTÁ DESTACADO A NOTÍCIA DO LANÇAMENTO DO NOSSO LIVRO LIVRO “EU NÃO SOU HERÓI-A HISTÓRIA DE EMIL PETR”.

MAIS DETALHES SOBRE ESTE LIVRO VEJA – 

https://tokdehistoria.wordpress.com/2012/10/13/o-meu-novo-livro-nunca-fui-heroi-a-vida-de-emil-petr/

https://tokdehistoria.wordpress.com/2012/11/02/fotos-do-lancamento-do-nosso-livro-eu-nao-sou-heroi-a-historia-de-emil-petr/

Emil Petr sendo entrevistado pela jornalista Margot Ferreira
Emil Petr sendo entrevistado pela jornalista Margot Ferreira

ACHEI A REPORTAGEM MUITO BOA, UM ÓTIMO TRABALHO PROFISSIONAL DA JORNALISTA MARGOT FERREIRA, QUE MOSTROU MUITOS ASPECTOS INTERESSANTES SOBRE ESTE ASSUNTO.

NOSSO AMIGO EMIL FICOU MUITO FELIZ COM O TRABALHO REALIZADO PELA INTERTV CABUGI.

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AQUELES QUE DESEJAREM ADQUIRIR ESTE LIVRO, O VALOR É DE R$ 50,00, ATRAVÉS DO SITE –  http://jovensescribas.com.br/

O VETERANO DE GUERRA QUE FICOU COM QUASE MEIO QUILO DE ESTILHAÇOS NO CORPO… POR 68 ANOS!

Choque: a família de  Brown disse que sabia de havia estilhaços em sua perna, mas eles ficaram surpresos ao ver com quantos fragmentos o ex-soldado tinha vivido com por quase 70 anos
Choque: a família de Brown disse que sabia de havia estilhaços em sua perna, mas eles ficaram surpresos ao ver com quantos fragmentos o ex-soldado tinha vivido com por quase 70 anos

Fonte – Jornal Daily Mail, Inglaterra – http://www.dailymail.co.uk/news/article-2219472/Ronald-Brown-War-veteran-walked-shrapnel-embedded-thigh–68-years.html#ixzz2GmvTk0CN

Durante a Segunda Guerra Mundial, o inglês Ronald Brown foi um soldado do Regimento East Yorkshire. Em 1944 ele foi atingido pela explosão de uma mina na França.

Recentemente o veterano faleceu aos 94 anos e seu corpo foi entregue para cremação, como era o seu desejo. Após o serviço executado pela funerária veio à surpresa. A família do ex-soldado ficou completamente estarrecida com a massa de fragmentos de metal afiado encontrados após a cremação. Quase 450 gramas de estilhaços ficaram permanentemente na perna de Brown por mais de 68 anos.

Sua filha Jane Madden, de 55 anos, da cidade de Exeter, Sudoeste da Inglaterra, comentou aos jornalistas que “-É incrível, porque ele nunca se queixou de dores”. Para ela “-Isso só mostra o quão corajoso ele era”.

O metal encontrado no corpo de Ronald Brown, veio quando uma explosão o atingiu na Segunda Guerra Mundial
O metal encontrado no corpo de Ronald Brown, veio quando uma explosão o atingiu durante a Segunda Guerra Mundial

Os parentes contaram aos repórteres do jornal britânico Daily Mail como Brown, que sempre realizava caminhadas diárias, nunca reclamou de dores e raramente falava de suas experiências no período da guerra. Quando os netos lhes pediam para sentar no seu colo, Brown sempre lhes pedia para evitar a perna esquerda. Só após a sua morte a família descobriu o porque.

Brown era natural da cidade de Kingston upon Hull, nordeste da Inglaterra e juntou-se ao Regimento de East Yorkshire em 1939. O então jovem de 21 anos de idade serviu na área da intendência desta unidade militar durante todo o conflito. Entre suas aventuras na guerra, seus familiares informaram que ele foi evacuado de Dunquerque (França), em seguida passou a lutar em El Alamein (Norte da África) e depois foi ajudar a libertar a Sicília, na Itália.

Em junho de 1944, após o desembarque aliado do Dia D, ele está novamente na França. Durante o avanço do seu regimento, uma mina explodiu próximo a sua perna esquerda, que foi salpicada com quentes estilhaços de metal. Ferido, Brown foi forçado a engatinhar por duas milhas para um setor mais seguro. Por causa das condições médicas no campo de batalha, acharam melhor deixar os estilhaços no seu corpo.

Vemos a direita a Sra. Jane Madden e a esquerda Holly Madden, filha e neta de Brown, orgulhosas ao olhar para as fotografias do veterano durante a Segunda Guerra Mundial
Vemos a direita a Sra. Jane Madden e a esquerda Holly Madden, filha e neta de Brown, orgulhosas ao reverem as velhas fotografias do veterano durante a Segunda Guerra Mundial

Após a guerra Brown passou a viver e trabalhar em Exeter, onde ao longo da vida comentou poucos detalhes do incidente ocorrido na França a seus dois filhos. Dizia apenas que a explosão o deixou com um “joelho ruim”.

A sua filha Jane Madden informou aos jornalistas que seu pai além dos estilhaços recebidos na França, informou que em outro momento da guerra havia sido atingido por uma bala na perna. Então quando a família recebeu as cinzas, perguntaram se a bala tinha sido encontrada e receberam do pessoal do crematório um saco cheio de metais.

A jovem Holly Madden, de 25 anos, um dos cinco netos de Brown, disse que nem com os membros mais novos da família ele falou muito sobre a guerra, “-Nós sempre pensamos que seu problema era devido a uma bala no joelho, mas quando os diretores da funerária nos deram este saco de estilhaços ficamos chocados com o quanto havia”.

Ronald Brown (centro) é visto aqui na África do Sul, junto com um colega de farda e um e um tradicional guerreiro Zulu
Ronald Brown (centro) é visto aqui na África do Sul, junto com um colega de farda e um e um tradicional guerreiro Zulu

Ela complementa que “-Os pedaços de metal apenas mostrar o quão horrível é a guerra”. Para Holly ela acha que estes metais são uma memória que simboliza tudo o que seu avô fez e como ele sofreu. Para ela é incrível que ele andasse normalmente com todos estes estilhaços na perna e por tanto tempo.

Holly disse que seu avô manteve um diário de suas experiências de guerra, onde descreveu que dos 900 membros originais do seu regimento no início do conflito, apenas 29 voltaram para casa no final de tudo.

Jane Madden está doando este material para o antigo regimento de Brown, ou para o conceituado Imperial War Museum. Para ela o sentimento que fica na família é que “-Ele tinha uma vida boa e fez um monte de coisas com seu tempo. Estamos todos muito orgulhosos dele”.

A HISTÓRIA DA AVIAÇÃO NO RIO GRANDE DO NORTE – CONTADA POR TARCÍSIO MEDEIROS

Mapa mostrando a proximidade da região Nordeste do Brasil com a África e a Europa – Fonte – Coleção do autor

A situação geográfica do Rio Grande do Norte no saliente Sul-americano ficou mais em evidência perante o mundo no período de 1922-1937, em decorrência do desenvolvimento aviatório ocorrido logo após o término da 1ª Grande Guerra. De 1920, sobretudo, á busca de pontos estratégicos para encurtar distâncias entre os Continentes, em razão da precária estrutura e potência dos motores dos aviões de então, constituía a preocupação dos países líderes na exploração das rotas aéreas comerciais.

Antiga nau portuguesa – Fonte – Coleção do autor

O litoral do Estado, que fora ponto de convergência das naus do movimento de expansão marítima do passado, vai ser o ponto de reunião das novas naus do espaço para o salto sobre o atlântico Sul, meta de todos os grandes vôos entre Europa, África e América.

E que inexplicável coincidência do destino! A terra de Augusto Severo, pioneiro da aviação, marcaria, mais uma vez, a sua presença no momento consagrador de sua evolução, testemunhando rasgos de audácia, coragem, sacrifícios, fracassos, daqueles que buscavam a glória em luta com o tempo. Os fenômenos meteorológicos e os das correntes marítimas existentes no corredor Atlântico entre Natal e Dakar foram descritos desde o ano de 1860 por Robert-Avé-Lallemant como perigosos na área do litoral potiguar, provocadores de situações difíceis e capazes de atrair as suas costas embarcações desconhecedoras dessas particularidades.

O médico e explorador alemão Robert Christian Barthold Avé-Lallemant – Fonte – http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Christian_Av%C3%A9-Lallemant

Também do outro lado, a começar do Cabo Bojador para o sul, abrangendo o cotovelo africano, existe o chamado “Mar da Escuridão” dos antigos navegantes. Paul Herrman (A Conquista do Mundo) descreve a região como consequência da água do mar que, lançada sobre recifes e bancos de areia por quilômetros de oceano, de forma violenta, agitada pelos ventos, provoca uma cortina de vapor que escurece tudo, até grande altitude. A região, por tal, passou a ser conhecida como “Pot-au-Noir” para qualquer espécie de navegação, sobretudo aérea ao tempo das primeiras travessias, quando os aviões não tinham condições para atravessá-la. Aí seria o túmulo de muitos aviadores e o de Mermoz, em 1936. Esse obstáculo originou a que as tentativas iniciais do vôo transatlântico partissem da costa africana em demanda de Natal, porque em sentido contrário os ventos soprando, ainda, rijos contra o nariz do avião, consumindo, pelo esforço, mais combustível, complicava a conclusão do “raid”.

Natal, uma cidade que cresceu sobre asas – Fonte – Coleção do autor

Por isso, Natal acolheu muitos desses aviadores vindos da África, ou em vôos percorrendo as Américas. Poucos ficaram para o retorno, apenas franceses e alemães em competição para exploração do correio aéreo internacional. Os franceses, inicialmente, mantiveram o serviço percorrendo o caminho de volta por meio do “Aviso Postal”, pequeno navio rápido, tripulado por senegaleses brancos e negros, até Mermoz conseguir realizar a façanha direta com o “Arc-em-Ciel”. Os alemães da Syndikat kondor, reabastecendo os seus aviões no meio do Atlântico com o navio catapulta “Deustchland”, depois o “Westfalen”, finalmente com o dirigível “Graf Zepellin” e os aviões da Lufhansa “Dornier-Wal”, dois motores, de 1.500HP, também, diretamente.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral partindo de Lisboa em direção ao Brasil Natal, uma cidade que cresceu sobre asas – Fonte – Coleção do autor

A travessia das 1.890 milhas entre a África e o Brasil (Natal) foi iniciada em 1922 pelos portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho, que executaram o trajeto com muitas dificuldades entre Lisboa e Rio de Janeiro, em etapas, arrebentando aviões até Fernando de Noronha. Daí rumaram para Recife, passando sobre Natal. Como outrora as caravelas de Cabral, agora eles percorriam roteiro semelhante, porém com as novas “Caravelas dos Ares”. Depois, outros seus patrícios repetiram o feito, com mais sucesso. Nesse ano de 1922, já o estuário do Potengi abrigava os primeiros hidroaviões que começavam a percorrer as Américas.

Na foto vemos o norte americano Walter Hilton e o cearense Euclides Pinto Martins, que possuía forte ligação com o Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção do autor

Assim, no dia 21 de Dezembro, amerissava o Sampaio Correia-II, tripulado pelo brasileiro Euclides Pinto Martins e o norte americano Walter Hilton, num “raid” Nova York-Rio de Janeiro, percorrendo 5.587 milhas. Pelas 14 horas, “a libellula de aço”, no dizer de “A República”, tocava as águas do rio, atracando no Cais Tavares de Lyra debaixo de aclamação popular e homenagens prestadas pelas autoridades do Estado. No dia imediato, rumava para o sul. O percurso anterior tinha sido feito de Aracati (Ceará) para Natal.

Hidroavião espanhol “Plus Ultra” e sua tripulação – Fonte – Coleção do autor

Somente de 1926 em diante, o movimento aviatório é intensivo em Natal. Alvoroçada ficou a cidade, desde o mês de fevereiro, porque estava no roteiro dos aviões “Plus Ultra” comandando por Ramon Franco e Ruiz de Alda y Duran, pretendendo a travessia Espanha-Buenos Aires, e do “Buenos Aires” comandando por Bernado Duggan acompanhado de Olivieri e Ernesto Campanelli, italianos, no intuito do “raid” Nova York – Buenos Aires. O primeiro, depois de partir de Dakar e haver percorrido 2.950 Ks, caiu em Fernando de Noronha. Reparado, seguiu para Recife- Rio de Janeiro- Buenos Aires.

Hidroavião “Buenos Ayres”, que apenas sobrevoou Natal em 1926 e aterrissaram na Barra de Cunhaú – Fonte – Coleção do autor

O segundo, iniciando viagem em maio, após vários acidentes no trajeto Havana-Pará, chegou ao litoral do estado no dia 11 de julho, pousando sem maiores consequências na Baía de Cunhaú. Socorrido com o necessário, partiu, depois, para Cabedelo, Paraíba.

Hidroavião “Santa Maria” – Fonte – Coleção do autor

No ano de 1927, em 24 de fevereiro, chega o “Santa Maria” de propriedade do Marquês de Pinedo, tendo como companheiros o cavaleiro Carlo Del Prete, Capitão de aeronáutica, e Victale Zachetti, “motorista”, todos italianos. “A República abria notícias:” Natal é o primeiro porto brasileiro em que pisa o marquês De Pinedo. Há três dias a alma da cidade vibra de emoção para saudar o grande aviador italiano. O coração do povo queria aplaudir o feito do famoso conquistador dos ares que hoje é considerado uma das verdadeiras glórias da aviação universal “”. De Pinedo, partira de Elmas, em 13 de fevereiro, chegando a Vila Cisneiros (Colônia do Rio do Ouro), 14 do mesmo mês, pelas 16 horas. Largou para Bolama, na Guiné portuguesa, aonde chegou no dia 15 as 7.30. Depois seguiu para Dakar a 17, decolando daí na noite do dia 18 para Porto Praia, local em que amerrissou no dia 19, pelas 9,30.

O italiano De Pinedo – Fonte – Coleção do autor

Somente no dia 22, levantou voo para Natal. Em Fernando de Noronha, como outros, faltando gasolina, teve de fazer um pouso de emergência. Foi reconhecido pelo Cruzador “Barroso”, no qual se hospedou. No dia 24 de fevereiro, pelas 7 horas decolava para Natal, chegando ás 9,30.

Como os anteriores, recebeu grandes manifestações. Desfilou em carro aberto pelas ruas da cidade, com as autoridades. A Assembléia Estadual, pelas 12 horas, ofereceu um almoço de 40 talheres. No seu discurso de agradecimento, De Pinedo foi profético: “Natal será a mais extraordinária estação da aviação mundial”. Carlo Del Prete e Victale Zachetti não desceram a terra, tendo permanecido todo o tempo a bordo do avião, procedendo á limpeza interna do aparelho, no qual foram ajudados por dois marinheiros da Capitania dos Portos. “A Rotisserie Natal” forneceu-lhes almoço a bordo por conta do governo do Estado. Carlo Del Prete voltaria a Natal, em 5 de julho de 1928, em companhia de Arturo Ferrarin, quando bateriam o “recorde” na travessia Roma – Natal (Praia de Touros). Partiram pelas 15:30, rumando para Recife.

O hidroavião português “Argos” – Fonte – Coleção do autor

O “Argos”, sob a direção do Major Sarmento de Beires, e tendo como auxiliares de navegação Jorge de Castilho e Manuel Gouveia, foi um dos aviões mais festejados que tocaram em Natal, por serem seus tripulantes portugueses. Tendo decolado de Bolama às 17 horas do dia 12 de março de 1927, amerrissou 150 quilômetros adiante. Recomeçou o voo para também pousar em Fernando de Noronha, no dia 18 de março pelas 10:15 às 12:55, contudo, do mesmo dia, estava em Natal, saudando a população em nota distribuída á imprensa: “A tripulação do avião” Argos “saúda o povo brasileiro que tão intensamente sabe vibrar sob a impressão resultante de qualquer tentativa levada a feito por homens dessa raça única e que pertencem os povos brasileiros e portugueses. Que o nosso esforço possa contribuir para o estreitamento da união luso-brasileira, tal é a nossa aspiração”.

Depois, Sarmento de Beires autografou um álbum de Sérgio Severo, filho de Augusto Severo, com a significativa mensagem: “Se não tivesse havido toda essa coorte de sacrifícios, entre os quais Severo fulge com cintilação imorredoura, as asas humanas não poderiam hoje singrar no espaço com segurança que nos permitiu atravessar o Atlântico numa noite inteira de voo . Pelas 16 horas, um após outro, suavemente, baixaram no Potente, amarrando em boias frente á pedra do Rosário.

Hidroavião norte-americano Loening OA-1A, da conhecida “Esquadrilha Dargue”, que estiveram em Natal em 1927 – Fonte – http://earlyaviators.com/eloenin2.htm

Comandante: Major Herbert A. Dargue, natural de Brooklin, Nova York. Sub-comandante, Capitão Artur B. Mac Doniel, de Santo Antônio, Texas, 1.o Tenente, Bernad S. Thompsom de Begdad, Flórida 1.o Tenente, Charles Mac Robson, de Columbus Ohio. 1.o Tenente, Luiz Fairchind, de Bellingham, Washington. A esquadrilha tinha feito o trajeto: Santo Antônio (Texas), Tambicu, Vera Cruz e Santa Cruz, no México; Guatemala, S. Salvador, Honduras, Costa Rica, Nicarágua, Panamá, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, passando pelo Rio Grande do Sul, Florianópolis, Santos, Rio, Bahia, Recife e Natal. Segui para o norte até completar o percurso nos Estados Unidos. Ao sair dos Estados Unidos, era composta de cinco aviões. Na Argentina houve um desastre, quando perdeu dois: o “New York e o Detroit”, que se chocaram no aeroporto de Palomar.

A capital potiguar parou para receber os brasileiros do “Jahú”- Fonte – Coleção do autor

Fins de abril, maio, junho de 1927, foram dias movimentadíssimos em Natal e para o mundo, por acontecimentos inusitados, envolvendo a avião da época. Ao mesmo tempo, em regiões diferentes, era programados vários vôos transoceânicos, abrindo “manchetes” nos jornais de todos os países.

O “Jahú”, tendo a frente o piloto Ribeiro de Barros- Fonte – Coleção do autor

Para a travessia do Atlântico Sul, interessando o brasil particularmente, estava o avião brasileiro “Jahu”, tripulado e de propriedade de João Ribeiro de Barros, paulista de 26 anos; com os companheiros João Negrão, de 26 anos; Vasco Cinquini, filho de italianos, porém brasileiro de nascimento, com 27 anos, mecânico do campo dos Afonsos e o Capitão Newtom Braga, com 42 anos. O raid seria Gênova-Dakar – Natal até Rio de Janeiro.

Preparado para o mesmo salto, de Rue (França) -Dakar-Natal, também desde abril, estava pronto o Marquês de Saint-Roman, com o “Paris-Amérique-Latine”. Pretendendo a travessia do Atlântico Norte, Europa – América do Norte, os franceses Nungesse e Coli tinham preparado o “Pássaro Azul”, e de New York para Paris, Charles Lindbergh, o “Saint-Louis, estando em jogo um prêmio no valor de 25.000 dólares. Da Inglaterra, os Tenentes Carr e Gilman preparavam o vôo Inglaterra-Índia. Da Espanha, chegavam notícias da circunavegação do globo pretendia por Ruiz Alba e Padelo Roda.

Outra imagem do “Jahú”- Fonte – Coleção do autor

Como se nota, estava-se presenciando um momento histórico da aviação: A conquista do espaço intercontinental contra o tempo numa provação de coragem humana e valorização de suas máquinas. O “O Jahu” depois de fazer o percurso Gênova – Dakar sem acidentes, pelas 3,45 do dia 29 de abril, largava de Porto Praia para Natal. Estações de rádio mais variadas, montadas por todo o brasil e, especialmente em Fernando de Noronha, espalhavam notícias constantes da travessia, esperando-se que batesse o feito anterior do “Argos”, então festivamente acolhido no Rio de Janeiro, e que chegasse primeiro a Natal do que de Saint-Roman.

Durante à tarde do mesmo dia, silenciaram as comunicações. O povo dormia nas calçadas dos jornais de várias cidades, aguardando notícias. Somente no dia seguinte, soube-se que o “Jahu”, pelas 17:30, caíra a 100 milhas de Fernando de Noronha, por Ter rompido uma hélice de um dos motores. O navio “Belvedére”, que passava no local, radiografou a triste nota, e que o “Angel Losi”, mais próximo do sinistro, estava rebocando o “Jahu” para a ilha nada tendo acontecido aos tripulantes. O jornal “Á Pátria”, que então era editado no Rio de Janeiro, achou de dar a notícia do acidente como motivado pela imperícia dos tripulantes do “Jahu”, fato que não ocorrera com o “Argos”. O povo que sofria apreensivo com o possível fracasso do avião brasileiro, rompeu num protesto violento contra o jornal, quebrando tudo, morrendo gente na confusão.

O “Jahú”, um hidroavião Savoia-Marchetti S.55, o último de seu modelo no mundo, atualmente se encontra no Museu de aviação da TAM, em São Carlos, São Paulo – Fonte – http://www.trekearth.com

No dia 5 de maio, Ribeiro de Barros ainda aguardava a nova hélice em Fernando de Noronha, quando a imprensa anunciou a largada de Dakar para Natal do “Paris-Amérique-Latine” de Saint-Roman. Então, o suspense foi martirizante. Recife, 5 – “De Dakar informa que o” Paris-Amérique-Latine “passou alto, pelas 12 horas, sobre os rochedos de S. Pedro e São Paulo” – Expectativa.

Recife, 6 – “Depois das 18 horas de ontem, nenhuma notícia positiva veio mais sobre o” Paris-Amérique-Latine “. As estações de rádio de Olinda e Fernando de Noronha têm estado em comunicação com os navios que cruzam o Atlântico, não conseguindo nenhuma informação do aparelho. O cabo francês também não recebeu notícia alguma. Parece que Saint-Roman anda fora de rota comum de navegação”. Consternação geral.

Natal esperou um nobre francês que viria pelo ar e que jamis chegou- Fonte – Coleção do autor

Depois, de todo o mundo, chegavam pedidos de informações sobre o paradeiro do “louco sublime”, como fora apelidado o simpático marquês. Organizaram-se buscas e mais buscas por todo o litoral brasileiro. Navios de vários países vasculharam o Atlântico Sul, e nada. Os mais desencontrados boatos davam Saint-Roman nas praias do Recife, Fortaleza, Maranhão até ás margens do São Francisco; ou que os destroços tinham batido no litoral de Massachusetts  Estados Unidos. Tão somente em 29 de junho, os restos do avião de Saint-Roman eram identificados no litoral brasileiro, entre o Maranhão e Pará. Mas um herói para a galeria da França, cujo drama emocionou as nações, especialmente o Rio Grande do Norte, que o esperou sempre. Enquanto isto, no dia 10 de maio, chegavam informações de Paris de que o drama de Saint-Roman não abatera o ânimo dos tripulantes do “Pássaro Azul”. No dia anterior, tinham partido para o “raid”. Paris-Nova-York. Idêntico destino estava reservado para eles: Desapareceram também nas águas frias do Atlântico Norte. A 14 de maio, finalmente, Natal aguardava a chegada do “Jahú”, que, recuperado, partira de Fernando de Noronha, ás 9,10.

Como um jornal pernambucano estampou a chegada do “Jahú” a Natal – Fonte – Coleção do autor

Multidão. Toda a cidade estava ás margens do Potengi. Navios, embarcações de todos os tipos, engalanados em arcos de bandeiras multicores. Pelas 13 horas, o ronco dos motores cresce á medida que a silhueta vermelha avulta no horizonte, vinda do mar. Quando numa curva sobrevoou Natal, o delírio foi indescritível: Palmas, gritos. Baixando após a ponte de Igapó, na altura da Pedra do Rosário, suavemente, uma, duas vezes, toca as águas do Potengi e depois desliza até ás proximidades do Cais Tavares de Lyra, onde atracou numa bóia.

O desembarque desses homens em terra foi um pandemônio. Ninguém conteve a multidão. Arrebatados, percorreram ruas de Natal nos ombros do povo. Depois, manifestações oficiais e particulares intermináveis. Durante dias, estafaram-se em um nunca acabar de festas, os solteiros arrebatando os corações das moças da terra… De tal modo que a poesia de cordel do tempo cantou… De forma irreverente. Pretendia Ribeiro de Barros deixar Natal depois do dia 20 para tanto distribuiu á imprensa uma nota: “Quando de perto sentimos a grandeza da alma, o civismo e a hospitalidade desse povo, embora de passagem, só temos um pensamento: Ficar. Só um compromisso do dever elevado e os reclamos de outros brasileiros podem ser uma força capaz de nos fazer partir, levando no coração um sentimento que nem a palavra saudada traduz”. a) Ribeiro de Barros – Newton Braga – João Negrão – Vasco Cinquini. A 24, pretendeu decolar. Tentativas e mais tentativas, e o “Jahu” teimava em ficar. E ficou até junho, revisando os motores.

Charles Lindbergh – Fonte – Coleção do autor

No mesmo dia 24 de maio, os jornais de todo o mundo saudavam um novo herói: Charles Lindgergh, o “ás” que realizou, sem etapas, diretamente, a travessia Nova York – Paris, fazendo jus ao prêmio “Orteig” de 25.000 dólares. A recepção do aeródromo de Bourget foi uma coisa nunca vista em Paris, quando Lindbergh aterrissou já á noite. Os cordões de isolamento foram rompidos e o povo carregou o aviador nos braços, também. Cansado, arrebentado, dormiu 14 horas seguidas, depois. Só mais não fez, porque foi acordado pela multidão que reclamava sua presença na sacada do hotel. Tarde de 3 de junho de 1927, o “Argos” voltava a Natal em sua viagem de regresso á pátria. O “Jahu” continuava em reparos. Domingo 5, pelas 7:30, com a presença dos tripulantes do “Argos”, autoridades e povo, o “Jahu”, finalmente, decolava rapidamente em demanda do Recife, aonde chegou pelas 9,30 do mesmo dia.

No dia seguinte o “Argos” seguiu para o Pará. Lá sofreria um acidente, danificando-se. Toda a equipagem, porém, safou-se para chegar em Lisboa, via Marítima.

Paul Vachet, terceiro a partir da esquerda, pousou com seu avião na praia da Redinha. Aqui o vemos em Buenos Aires – Fonte – http://sterlingnumismatic.blogspot.com.br

No mês de julho de 1927, continuava Natal em constantes surpresas ao receber aviadores inesperados. Em 18, é a vez de um Breguet da Latecoère. Companhia francesa de aviação, em busca de fixar-se na cidade, a fim de tentar o salto á África, e com isso conseguir o privilégio de um convênio com o governo para fazer o transporte do correio internacional, de vez que aos alemães haviam conseguido o mesmo no sul do país. Esse avião, que era um biplano terrestre, ou um aeroplano, somente podia aterrar em campo apropriado que não existia ainda na cidade. Partindo de Alagoas, chegou a Natal nessa data, aterrissando na Praia da Redinha, por não encontrar local melhor. Era comandado por Paul Vachet, acompanhado de Dely e Fayard.

Paul Vachet em um dos seus voos – Fonte – http://www.ladepeche.fr

O “Diário de Natal”, em duas edições de março de 1966, sob o título “Primeiro Avião em Natal”, publicou a tradução em trechos esparsos do livro desse aviador, então Coronel da Aviação francesa, já setuagenário, em que diz: “O voo foi efetuado a 17 de julho de 1927(e não 18) de 1927: esta é, portanto, a data da descoberta de Natal, do ponto de vista aeronáutico, de Natal que jamais recebera um avião e devia ser nossa cabeça de linha transatlântica para a América do Sul até o armistício de 1945. Evidentemente, por tudo que foi dito anteriormente, a afirmativa do velho Coronel, data vênia, constitui uma lastimável inverdade, justificável, apenas, para que lhe seja atribuído o mérito do pioneirismo da missão. Antes dele, pelos dramas heroicos de que fora testemunha da história, Natal já estava nas manchetes dos jornais de todas as nações, fazendo justiça àquela afirmativa de De Pinedo: “a mais extraordinária estação da aviação mundial”. E foi por isso que ele veio para cá.

Campo de Parnamirim na década de 1930 – Fonte – http://embuscadenovoscaminhos.blogspot.com.br

Paul Vachet, não resta dúvida, foi quem primeiro trouxe a Natal um aeroplano, o qual, por falta daquelas condições, aterrou na Redinha, e para atender os interesses de sua Companhia, por indicação do então Capitão Luiz Tavares Guerreiro conheceu o local no qual ergueria “PARNAMIRIM”. O terreno de propriedade da família Machado foi-lhe doado em seu próprio nome, mais tarde sendo lavrada a escritura para a Latecoère, que, sendo Companhia francesa sem personalidade jurídica reconhecida no Brasil, não poderia Ter recebido, naquele tempo, a doação.

Juvenal Lamartine – Fonte – http://encantosdoserido.blogspot.com.br

“Parnamirim”, a partir de então, tornou-se o Aeroporto Internacional maior da América do Sul, famoso em todo o mundo, especialmente por ocasião da Segunda Grande Guerra. A glória de sua fundação deve-se a Paul Vachet e a Latecoère. Prevendo o futuro do Estado que iria governar, Juvenal Lamartine, desde 21 de maio de 1927, apresentou na Câmara Federal, posteriormente aprovado e sancionado, o projeto de lei autorizado o poder Executivo criar no Porto de Natal um AVIÓDROMO que de acordo com a navegação aérea, teria oficinas para reparos, depósitos de material e combustível.

Avião Francês Laté-25 – Fonte – http://www.airwar.ru

Concretizando os trabalhos iniciados por Paul Vachet, Dely e Fayard, “Parnamirim” com pistas de grama e barro, estava em condições de receber os aviões da Latecoère. Assim, no dia 14 de outubro de 1927, aterrissava o “Nungesser-et-Coli”, com Costes e Le Brix, concluindo o pulo ATLÂNTICO de São Luís do Senegal a Natal. EM 20 de novembro do mesmo ano, o Laté-25 iniciava a linha regular, com Pivot, Pichad e Gaffe.

Logotipo da Condor – Fonte – Coleção do autor

No ano de 1928, os alemães que haviam fundado uma sociedade denominada “Syndikat Kondor”, desde 1.o de dezembro de 1927, estendem suas linhas na rota Porto Alegre – Rio de Janeiro- Natal. Em 14 de junho desse ano, amerissava no “Potengi”, um “Junkers” trimotor.

Festividade em Natal para os aviadores italianos Ferrarin e Del Prete. Da esquerda para direita vemos o Cônsul italiano em Recife, Arturo Ferrarin, Juvenal Lamartine, Carlo del Prete e a cientista Berta Lutz

Também os italianos entram na competição atlântica. A 5 de julho de 1928, Arturo Ferrarin e Carlo Del Prete, com um avião Savóia-64, conseguem bater o “Recorde” de distância Roma-Natal, caindo, porém, na Praia de Touros. Recebidos com carinho e entusiasmo pelos natalenses, a Itália reconhecida, oferecida, quando da chegada de Ítalo Balbo em 6 de janeiro de 1931, a Coluna Capitolina a fim de perpetuar a façanha inusitada, e por muitos anos insuperável, dos seus dois filhos heróis.

Ainda em 1928,29 de dezembro, pelo Dr. Juvenal Lamartine, Presidente, Dr. Dioclécio Duarte, Vice-Presidente, Dr. Adauto Câmara, 1.o Secretário, era fundado o “Aero Club” do Rio Grande do Norte, no bairro do Tirol, com o seu pequeno campo de pouso ao lado do poente da sede social. Participaram das festividades, numa revoada de Parnamirim a Natal, um “Blue-Bird”, pilotado pelo Diretor-Técnico, Comandante Djalma Petit, trazendo a bordo o Sr. Fernando Pedroza, e um aparelho da Générale Aéropostale (C. G. A.), pilotado por Depecker, conduzido o Sr. J. Pinon e dois mecânicos. Na ocasião, foi batizado o primeiro aeroplano do “Club”, com o nome de Natal.

De gravata borboleta vemos o piloto Djalma Fontes Cordovil Petit, oficial da Aviação Naval e diretor do Aero Clube do Rio Grande do Norte, tendo a sua esquerda o governador Lamartine

A partir de 1929, quando, possuindo o campo de “Parnamirim” e o estuário do Potengi, com meios de pouso para aeroplanos e hidroaviões, Natal passou a ser a capital do Brasil mais em evidência, eixo das rotas aéreas, sobretudo internacionais, é possível, como resumo dos fatos principais, fixar em EFEMÉRIDES, os seguintes:

Avião Bellanca CH-200, igual ao que os aviadores peruanos Carlos Martínez de Pinillos e Carlos Zegarra Lanfranco estiveram em Natal – Fonte – http://zonamisterio.site90.com

Em 8 de janeiro de 1929 – pretendendo fazer o circuito das Américas, passa o “Peru”, um Wright de 220 HP, de nacionalidade peruana, pilotado por Martinez e Zagarrra, que declararam, em a “República” de 9 do mesmo mês: “Natal confirma, dia a dia, o prognóstico de quantos asseveraram para si um posto de merecido destaque na América, como centro aviatório de interesse nacional e internacional”. Em 16, decolava com destino a São Luís do Maranhão.

Avião Breguet XIX GR, batizado como “Jesús del Gran Poder” em exposição no Museu del Aire de Cuatro Vientos, em Madrid, Espanha – Fonte – http://www.lasegundaguerra.com

Em 22 de janeiro de 1929 – Os primeiros campos de pouso são inaugurados no interior do Estado: _ (Ararinha) e Mossoró. Logo no dia 27, o de Ceará-Mirim. Em 28 de março – passa sobre Natal o avião Jesus Del Grand Poder, vindo da costa da África para aquatisar em Salvador, Bahia. Pretendia bater o recorde de distância e permanência no ar, de posse de Ferrarin e Del Prete. Em 9 de abril o aviador Chernu, partindo de Parnamirim, bate o “recorde” Natal – Rio de Janeiro, em 6 dias e 10 horas de voo, com escalas.

Hidroavião Consolidated Commodore da empresa New York, Rio & Buenos Aires Line (NYRBA) – Fonte – http://www.edcoatescollection.com

Em 5 de julho o hidroavião “Washington” amerrissa no Potengi, iniciando a linha Nova York – Rio- Buenos Aires, tripulação: Ralph A. O’Neill, acompanhado da esposa; M.M. Cloukey, piloto; H. Lelis, engenheiro; e miss Jane, secretária. Tinha a aeronave ainda capacidade para mais oito passageiros. No dia 6 demandou Recife. Em 7 de setembro – “A República” transcreve a reportagem traduzida do “The Sportman Pilot”, assinada por Miss Desbriere Irwin, de passagem por Natal para estudar as condições de instalação da “Pan-American Aiways”, na qual declarou: Natal é o ponto de escala das linhas comerciais e possui um clima agradável. Por sua posição geográfica foi escolhido como “Pivot” da linha aérea francesa. Tenho certeza que, futuramente, se tornará um dos grandes aeroportos internacionais do mundo “”. Em 13 de novembro O “Bahia”, pertencente á “Nyrba Line”, da rota Nova York – Rio – Buenos Aires, amerrissou no Potengi e depois decolou para Parnamirim onde aterrissou demonstrando ser um avião anfíbio já em uso. No dia 14, o “Tampa” da mesma Companhia, passou com destino ao norte. Foram demonstrações da nova técnica de fabricação da indústria aeronáutica norte-americana, caminhando para vencer a competição com os franceses e alemães. Em 20 de novembro A companhia Générale Aéropostale publica anúncio nos jornais advertindo á compra de passagens do tráfego regular entre Natal – Buenos Aires, até 11 horas das quintas-feiras.

Local da queda do avião que tinha como tripulantes o uruguaio Tydeo Larre Borges e o francês Leon Chale , na zona rural do município de Santo Antônio – Fonte – http://www.pilotoviejo.com

Em 6 de dezembro o “Aero Club” abre a matrícula para a sua escola de voo  sob a direção do Comandante Djalma Petit seu diretor técnico. Em 16 de dezembro de 1929 Cai em “Maracajá”, município de S. Antônio, distante de Nova Cruz quatro léguas, o biplano do aviadores Chelle e Larre Borges, que tentava o “raid” Sevilha-Buenos Aires. De Natal, seguiram para o local do sinistro, o Dr. Joaquim Inácio com uma ambulância e medicamentos, acompanhados pelo Sr. Ramade, Chefe do Aeroporto da CGA (Compagnie General Aeropostale), mecânico Chaulet. No avião do Aero Club, também partiram para o local do acidente, Djalma Petit e André Depecker. O aparelho ficou completamente destruído, sendo os destroços removidos para Natal, bem como o mais ferido Chelle. No dia 21 de dezembro, voltavam á pátria pelo Laté da linha regular.)

Em 10 de janeiro de 1930 o estuário do Potengi recebe o avião da “Pan -American Aiways” trazendo o sr. e sra. Georg Rihl e W. M. Cullbertson, 1.o piloto, Barnett Boyd, 2.o piloto e W. W. Ihma, radiotelegrafista, que iniciava o tráfego dessa Companhia com transportes de passageiros. Pelas 15:15, seguiu para Recife.

Jean Mermoz – Fonte – http://www.contre-info.com

Em 11 de janeiro Jean Mermoz começa a sua carreira de grande “ás” na América do Sul. Notícias de Buenos Aires afirmavam haver, no dia anterior (10), pilotando um Laté-28, n.o 926, com motor Hispano – Suíço de 500 C. V., em companhia do mecânico Colenot e como passageiro o banqueiro Macel-Bouilloux-Lafont, com a velocidade média de 228 quilômetros por hora, conseguido bater o “recorde” em 11 horas e 8 minutos do rio a Buenos Aires. Natal passava a conhecer o nome do homem famoso, que faria dela sua própria cidade.

Hidroavião de fabricação alemã, modelo Dornier Do J “Wal”, utilizado pela Condor – Fonte – mhttp://www.influindo.com.br

Em 22 de janeiro – O “Guanabara” hidroavião da “Sindicato Condor”, com sete passageiros, começou o tráfego costeiro e estabeleceu em Natal sua Agência, tendo como representantes Gurgel, Luck e companhia. Em 20 de fevereiro – Anúncio da vinda do “Conde Zeppelin” pela primeira vez no Brasil na rota Angola-Natal – Rio. Conforme notícia da imprensa, Natal tinha sido escolhida a cidade brasileira como base de suas futuras travessias. Por falta de meios do governo local para construir a torre de atracação, transferiu o local para Recife. Em 26 de fevereiro- “A República”- “Os que viajaram na Condor “. Dia 21, pelo Pirajá, de Natal para Recife: Simplício Cristino e Plínio Saraiva. De Recife para Natal: Luiz Pimentel Ribeiro e Jorge Kyrillus.

Em 16 de março (Domingo)- Pelas 15:30 o primeiro “Show aéreo” com Djalma Petit, pilotando o Natal-I, levando o acrobata Charles Cester, que passou pelas asas do aeroplano, ficou de cabeça para baixo, fez trapézio e L’enlévement du drapeau, ou seja, suspenso em trapézio, colocado abaixo das rodas do avião, de cabeça para baixo, arrancou, de passagem, uma bandeira suspensa do solo entre dois postes. Em 1.o de maio-Inaugura a Companhia Aeronáutica Brasileira a sua rota Recife – Natal, interligando-se com os aviões da Laté para transporte de malas postais á Europa.

Hidroavião Latécoère 28-3, pintado de vermelho, com o qual Mermoz e seus companheiros conseguiram atravessar o Atlântico – Fonte – http://jn.passieux.free.fr

Em 13 de maio de 1930 – Jean Mermoz faz sua primeira travessia de São Luís do Senegal para Natal pela “Cia. Générale Aéropostale” num Laté-28 com flutuadores. Tendo partido ás 8,55 (hora brasileira), chegou ás 18,20 depois de percorrer 3.100 quilômetros. A partir de então, ficou em Natal para tentar o percurso em sentido contrário, ainda não tentado por outros.

Em 20 de maio-Parte de Servilha com destino ao Brasil, o “Graf Zeppelin”. Dia 21, sobrevoava as Canárias e São Luís do Senegal. Dia 22 esperado em Natal, em vão. No dia 23, pelas 18:30, amarrava em Recife (Jiquiá). Partiria, depois, para o trajeto Recife-Nova York, sob o comando do Dr. Hugo Eckner.

Queda do avião do Aeroclube do Rio Grande do Norte que vitimou Edgar Dantas – Fonte – Coleção do autor

Em 23 de maio de 1930 – O primeiro desastre fatal na Escola de Voo do “Aero Club”. Falece no sinistro do “Natal-I”, Edgar Dantas, pertencente á tradicional família potiguar. Consternação geral na cidade.

Dirigível alemão “Graf Zeppelin” sobre a igreja Bom Jesus, no bairro da Ribeira – Fonte – http://aldeiapoti.blogspot.com.br/

Em 28 de maio de 1930 – Desamarrou de Recife com destino á Havana, pelas 11 horas, o “Graf Zeppelin”. Pelas 14 horas, sobrevoa Natal sob aclamação popular na praça “Augusto Severo”, sobre a qual deixou cair uma coroa de flores artificiais com os dizeres: “Homenagem da Alemanha ao Brasil na pessoa do seu grande filho Augusto Severo”. No momento era comboiado pelo Laté-25, n.o 616, pilotado por Velle e Dupont.

Em 8 de julho de 1930 – Pelas 16,30 após diversas tentativas na Lagoa do Bonfim (município de Nísia Floresta), próxima a Natal, decolou o grande hidroavião “Laté-28”, tripulado por Jean Mermoz, Gimié e Dabray, para a travessia Natal – São Luís do Senegal. A tentativa não foi completada, porque o avião caiu pelas 10,30 do dia 9, á altura de Dakar, no terrível “Pot-au-Noir”, em pleno mar. Sendo socorrido, voltou a Natal.

Aviadora norte-americana Laura Ingalls Houghtaling, a primeira grande aviadora a passar por Natal – Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Laura_Ingalls_(aviator)

Em 8 de abril de 1934 – Aviadora Laura Ingalls- Prosseguindo seu “raid” sensacional através do Continente, passa em Natal, aterrando em Parnamirim, a aviadora Laura Ingalls, que foi recebida pelos senhores Etienne Duthuron, gerente da Air France e R. H. Dacuart, gerente da Standard Oil, demorando-se apenas o tempo indispensável á retribuição dos cumprimentos, havendo externado seu entusiasmo pela terra brasileira: Aterrissou em Parnamirim, pela curiosidade de conhecer o campo, do qual se falava muito nas rodas aviatórias dos Estados Unidos, tendo verificado que, realmente, pelas condições naturais de que o mesmo dispõe, é dos melhores do mundo. Uma hora, após o “AWAY” (andorinha americana), levantou vôo para Fortaleza.

O jovem espanhol Juan Ignácio Pombo e seu pequeno avião British Klemm Eagle 2, batizado como “Santander” – Fonte – http://cabeceras.eldiariomontanes.es

Em 22 de maio de 1935 – Pilotando o pequeno avião de turismo “Kienim”, pelas 15:10, em Parnamirim, aterra Juan Ignácio Pombo, concluindo a travessia Balhurst-Natal, no “raid” Espanha-México. Tinha, então, 21 anos e desde os 16 foi aviador mais moço de Espanha, sendo filho de aviador civil de sua pátria. O avião possuía um motor de 130HP, media 12 metros e 7 cm de comprimento, e peso de 1.350 quilos. Partiu no dia 26, pelas 8 horas, sendo obrigado a descer em Camocim (CE), á falta de gasolina. Ao aterrissar  capotou quebrando uma hélice e o trem de aterragem. Depois dos reparos, com material enviado de Natal, prosseguiu viagem.

A bela aviadora neozelandesa Jean Batten – Fonte – http://www.ianmackersey.com

Em 13 de novembro de 1935 – AVIADORA JEAN BATTEN- Parnamirim recebe, pelas 16:40, a aviadora Jean Batten, natural de Nova Zelândia que levantara voo de Lympne, na Inglaterra, ás 6,20 do dia 11; de Dakar, ás 3 horas do dia 12 (hora G.M.T.), tendo feito a viagem com o tempo favorável, chegou, porém estafada, e logo se recolheu á residência do Sr. William Scolchbrook, em Petrópolis  de quem foi hóspede nesta capital. A destemida aviadora fez percurso sozinha, sem rádio, sem pára-quedas, nem colete salva-vidas, tampouco canoa, em um aeroplano tipo “Percival-Grull”, de fabricação inglesa, monomotor de 200 cavalos, com condições para vôos a longa distância. No dia seguinte, partiu para o Rio de Janeiro.

Em 13 de novembro – Ainda nesse dia, o “Graf Zepelim”, procedente de Balhurst, pelas 19:20, sobrevoa a praia da Limpa em Natal, deixando cair às malas postais procedentes da Europa. Um hidroavião da Sindicato Condor tomando-as, rapidamente decolou para o sul levando as mesmas para distribuição. Esse método passou a ser adotado, todas as vezes que o grande dirigível veio ao Brasil, inclusive quando foi substituído pelo “Hindemburg”.

Um grande avião do seu tempo, o francês Latécoère 521, batizado “Lieutenant de Vaisseau Paris” – Fonte – http://jn.passieux.free.fr

Em 14 de dezembro de 1935 – “LIEUTENANT DE VAISSEAU PARIS”. Voou sobre Natal, indo aquatizar na hidrobase da” Air France “em frente ao Réfoles, o gigantesco hidroavião “Lieutenant de Vasseau Paris”, o mais potente aparelho desse tipo até hoje construído no mundo. A poderosa aeronave de seis (6) motores de 900 cavalos de força, o que lhe dá maior capacidade que o “DOX”, o qual apenas o supera em proporções e peso, tendo aquela a tonelagem de 40.000 quilos. A sua tripulação era composta de oficiais da Marinha e do Exército da França, devendo ir de Natal direto á Ilha de Martinica, possessão francesa nas Antilhas, onde assistiria ás festas patrióticas que ali seriam realizadas. Comandante, Capitão-tenente Bonnot; capitão-de-corveta Jozan,1.o piloto;1.o brigadeiro Castellari, 2.o piloto; 1.o brigadeiro Morvan, mecânico; Emont, radiotelegrafista, e mecânicos civis, Dessendi e Durutty.

Em 9 de janeiro de 1936 – A “Air France”, sucessora da Laté, faz realizar importante melhoramento no seu serviço aéreo, no Brasil. A Companhia que possui a mais extensa rede do mundo, ligando os quatros Continentes, estabeleceu no seu serviço de ligação entre Natal e Dakar, e vise e versa, cada semana, além dos hidroaviões transatlânticos “Santos Dumunt”, “Croix du Sud” e o quadrimotor “Centaure”, acaba de incorporar á sua frota o “Ville de Rio de Janeiro”, “Ville de Buenos Aires” e “ville de Santiago”.Todos esses aparelhos são munidos de quatro motores e já deram prova de sua eficiência com a perfeita regularidade com que asseguram seu serviço bimensal inteiramente aéreo durante o ano de 1935. A partir de então, os pequenos navios “Avisos Postais”, que faziam a travessia Natal-Dakar, começam a desaparecer do nosso porto. Não tinham mais utilidade. Como herança funesta, tinham deixado o “anofelis-gambiae”, ainda sendo combatido em nossos sertões.

Em 15 de janeiro – Naufragou no ancoradouro de Pensacola, Estados Unidos, o hidroavião “Lieutenant de Vaisseau Paris”, não havendo perda de vidas. No dia 16, estava sendo içado.

O aviador cubano Antonio Menéndez Peláez – Fonte – http://asociacioneltrichorio.blogspot.com.br

Em 17 de janeiro de 1936 – “Raid” Cuba – Servilha- Em Natal, o aviador Menendez Pelaéz. Tendo partido de Cuba e, após fazer escalas em Trinidad, nas Guianas, em Belém, São Luís e Fortaleza, chegou a esta capital o avião “4 de setembro”, pertencente á Marinha de Guerra Cubana, e pilotado pelo Capitão Antônio Mendez. O aviador cubano destinava-se a Sevilha, na Espanha. A partida realizou-se três dias depois, quando foram concluídos os trabalhos de revisão dos motores de 550 HP WASP. Foi abastecido com 2.000 litros de gasolina.

O grande dirigivel “Hindenburg”, que sobrevoou Natal – Fonte – http://lingeriehistorica.blogspot.com.br

Em 20 de julho -Procedente de Dakar, chegou pelas 23,35 horas o hidroavião transatlântico “Ville de Santiago”, sob o comando do piloto Guerrero. Com essa viagem completou a “Air France” a centésima travessia direta do Atlântico Sul. Em 29 de agosto – Pela primeira vez, passa em Natal, pelas 19:12, o grande dirigível alemão Hindemburg, sob o comando do Capitão Pruss, em sua Sexta viagem ao Brasil. Após evoluir sobre o aeroporto da Condor (Praia da Limpa), deixou cair às malas postais e seguiu para o Rio de Janeiro. Trazidas as malas do correio para o hangar da Condor, estas foram transportadas para o “Anhangá”, que levantou voo com destino ao sul. Enquanto esteve em atividade, esse dirigível, todas as vezes que veio ao nosso país, passou sempre por Natal, para essa finalidade.

Aviadora inglesa Amy Mollinson – Fonte – http://www.dieselpunks.org

Em 20 de outubro- AVIADOR AMY MOLLISON- Notícias de Paris dizem que, ao levantar voo o avião da famosa aviadora Amy Mollison, caiu ao solo deixando-a gravemente ferida. Restabelecida, Amy Mollison, em data posterior, esteve em Natal, depois da travessia do Atlântico Sul.

Em 10 de dezembro – A Condor-Lufhansa comemorava a 200 travessia aérea do Atlântico Sul, no serviço de transporte do correio internacional. Entretanto, é preciso fazer-se ressalva de que iniciara com escalas, fazendo baldeação das malas postais em plano Atlântico, com os seus navios catapultas.

Hidroavião Latécoère 300, batizado como “Croix du Sud” – Fonte – http://www.lesmanantsduroi.com

Em 11 de dezembro de 1936 – O DESAPARECIMENTO DE MERMOZ – Os jornais de Natal, abriram manchetes para anunciar. “Vem sendo infrutíferas todas as pesquisas no Atlântico, através da rota seguida pelo hidroavião da Air France, a fim de se encontrar Mermoz e seu “Croix du Sud”. As últimas esperanças se vão desvanecendo e no espírito de todos os que admiravam em Mermoz o esplendor de uma bela e gloriosa mocidade, já se firmou a implacável certeza do seu desaparecimento. Assim, aprofunda-se no sorvedouro ignorado um dos heróis mais queridos da aviação francesa. Jean Mermoz, 35 anos, brevetado em plena adolescência e possuidor de um grande e brilhante tirocínio….” “Esse homem que a França hoje lamenta, o Brasil também se solidariza, particularmente, nesta dor, pois centenas de vezes os céus foram cruzados por ele, nos seus vôos de incansável bandeirante do espaço. Natal bem conhecia Mermoz, pois aqui era um dos seus ninhos preferidos. Teve ele um fim digno de sua vida. Morreu como um grande pássaro, acompanhado o colapso do aparelho que dominava e dirigia. Morte de Condor, precipitado do azul, Banhado na ofuscante luz oceânica e aos estertores de uma tragédia para sempre ignorada.

Jena Mermoz desapareceu no “Pot-au-Noir”, quando, mais uma vez, retornava da África para Natal. Pelas 10,40 em rápida mensagem, disse que o motor da direita estava falhando. Depois, silêncio.

Antoine de Saint-Exupéry em Toulouse, França, 1933 – Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Antoine_de_Saint-Exup%C3%A9ry

Antoine de Saint ‘Exupéry, seu antigo aluno e companheiro, pelo que lhe contou Mermoz na primeira vez que atravessou, descreve o “Pot-au-Noir”: “Trombas marinhas elevavam-se ali, acumuladas, imóveis, na aparência da escura e baixa da tempestade; mas através dos rasgões da abóbada, feixes de luz caminham e a lua cheia brilhava, entre os pilares, nas lajes frias do mar. E Mermoz seguiu sua rota através daquelas ruínas desabitadas, obliquamente, pelos canais de luz, contornando os pilares gigantes onde bramia a ascensão do marchando quatro horas, ao longo da esteira da lua, para a saída do tempo. E o espetáculo era tão esmagador que Mermoz, uma vez transposto o “Pot-au-Noir”, percebeu que não tivera medo”. Agora, Mermoz que havia decifrado as areias, as montanhas, à noite e o mar; que havia soçobrado mais de uma vez nas areias, nas montanhas, na noite, no mar, voltando sempre para partir outra vez, traído pelo encantamento do “pot-au-Noir, enfrentando a morte como enfrentou a vida, com arrojos, caiu, e, pela primeira vez não voltou mais. Ficou no seio das ondas do Atlântico, velho palco de suas epopeias.

A aviadora francesa Maryse Bastié- Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Maryse_Basti%C3%A9

Em 30 de dezembro de 1936 – A AVIADORA MARYSE BASTIÉ – A aviadora francesa sem abater-se a tragédia de Mermoz e seus companheiros, concluiu o “raid” Paris-Dakar-Natal, em apenas 12 horas e 7 minutos, tripulando, solitária, um “Caudron-Simon”, do Ministério do Ar da França, sob prefixo “Fenxo”, sem rádio, com um só motor de 220 C.V. – A partida de Mlle. Bastié de Dakar verificou-se ás 4,23 (hora brasileira), tendo chegado ao campo de Parnamirim, ás 16,30. Era a Segunda vez que Natal hospedava a destemida aviadora francesa, detentora de vários “recordes” femininos entre os quais avultam o de permanência no ar, com a duração de 30 horas, e o assinalado nesta travessia atlântica.

Amélia Earhart em 1936- Fonte – http://www.archives.gov

Em 7 de junho de 1937 – Procedente de Fortaleza, chegou a Natal, pilotando o seu monoplano “Lockhead-Electra”, miss Amélia Earhart que realizava um voo em redor do mundo. Pouco antes das 9 horas, a arrojada aviadora norte-americana descia no campo de Parnamirim, sendo ali cumprimentada pelas autoridades e jornalistas. Em seguida viajou de automóvel para esta capital, onde permaneceu durante o resto do dia, recebendo as homenagens da colônia britânica.

“Ontem, pela madrugada, ás 3,13 minutos (hora local), miss Amélia Earhart reiniciou o seu voo  para cobrir uma das maiores etapas dessa audaciosa tentativa, a travessia do Atlântico Sul. Segundo informações telegráficas, a destemida aviadora havia alcançado Dakar, ontem mesmo, ás 16,15 (hora local), estabelecendo, assim, na travessia o tempo de 13 horas e 2 minutos. Acompanhava miss Earhart o seu piloto ajudante, capitão Fred Noonan”, informava “A República , de 8 junho de 1937. O monoplano de Amélia Earhart tinha capacidade para 4.800 litros de gasolina, dos quais 1.600 nos tanques das asas e 3.200 nos da fuselagem, podendo alcançar cerca de 9.000 metros de altitude.

Amélia no cockpit do bimotor Lockheed Model 10 Electra – Fonte – http://en.wikipedia.org/wiki/Amelia_Earhart

Amélia Earhart, nascida em Atchison-Kansas, em 24 de julho de 1898, morreu no mês seguinte (julho) ao desse “raid”, desse ano, sobre o pacífico, em condições misteriosas, dizem a serviço da espionagem americana, sobre ilhas próximas ao Japão. Professora em Massachusetts abandonou o magistério, em 1927, sendo a primeira mulher a participar de um voo solitário sobre o atlântico, em 1932. Repetiu a façanha sobre o pacífico, 1935, voando do Havaí á Califórnia. Escreveu as obras “20 Hs. e 40 minutos” 1928, “Último Voo , publicado posteriormente por seu marido George Palmer Putman.

A partir de 1938, em face do constante aperfeiçoamento das estruturas e potência dos aviões, bem como dos novos meios de comunicações, a travessia direta do Atlântico Sul, em ambos os sentidos deixou de constituir atrativo para constantes aventuras. A rotina tornou-se evidente ante o desbravamento da rota suicida até então, pois a região “Pot-au-Noir” já não constituía um risco ante aviões tipos usados por Marise Bastié e Amélia Earhart, que podiam alcançar até 9.000 metros de altura, transpondo-se sem dificuldades. Por outro lado, o “Rádio Farol de Natal”, instalado desde 1936, na Praia da Limpa, frente ao Atlântico, emitindo de meia em meia hora, em ondas médias, o seu prefixo P.X.N., permitiu orientação segura por intermédio do “radiogoniômetro” do momento em que a aeronave ou navio partisse do litoral africano.

Grande base aérea de Parnamirim Field – Fonte – http://moraisvinna.blogspot.com.br

Todavia, Natal não perdeu a sua importância estratégica como cabeça de linha transatlântica para a América do Sul, uma das esquinas do mundo. Confirmaria, mais uma vez, o seu determinismo geográfico necessário á segurança das Américas, logo mais por ocasião da Segunda Grande Guerra, quando, no dizer de Paul Vachet – “ia transformar-se numa das maiores importantes bases aéreas do mundo, de onde se lançaram, aos milhares para África, Europa e Oriente, os bombardeios americanos e aliados”, e Parnamirim passou a ser conhecido como o “Trampolim da Vitória”. Por tudo isto, Natal foi e continua sendo: “Ninho de Ases de todas as Bandeiras”.

Este texto foi transcrito do livro de Tarcísio Medeiros, “Aspectos Geopolíticos e Antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, capítulo 17, páginas 160 a 186, lançado em Natal no ano de 1973, pela Imprensa Universitária.

O ÚLTIMO MILITAR AMERICANO EM NATAL

SARGENTO THOMAS N. BROWNING, O ÚNICO MILITAR AMERICANO ENTERRADO NO CEMITÉRIO DO ALECRIM 

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Sempre que vou ao Cemitério do Alecrim para visitar os túmulos de alguns parentes e, depois de uma certa idade, de alguns amigos, não deixo de dar uma passadinha para observar a única lápide de um militar norte americano que aqui esteve durante a Segunda Guerra Mundial e que permanece repousando em solo potiguar.

Vamos conhecer um pouco mais desta história.

Sem Deixar seus Mortos para Trás

Até o final da Segunda Guerra Mundial centenas de cemitérios temporários haviam sido criados pelas forças armadas dos Estados Unidos em campos de batalha e locais de apoio ao redor do mundo.

Um dos inúmeros cemitérios criados pelos americanos ao longo da guerra

Com o fim da guerra foi organizada uma grande operação para trazer aos Estados Unidos 233.181 americanos mortos, tudo sob a coordenação da American Battle Monuments Commission (ABMC), uma agência do governo americano criada em 1923 e destinada exclusivamente a tratar do repouso eterno dos guerreiros estadunidenses.

Grande parte dos cemitérios temporários foi desativada durante a operação de traslado dos corpos para os Estados Unidos, que se estendeu de 1945 a 1951. Às famílias que perderam filhos, irmãos e maridos no conflito foram respeitosamente ouvidos para instruir a ABMC onde queriam que os restos mortais de seus entes queridos ficassem enterrados. Muitas famílias acreditavam que seria mais apropriado para seus parentes descansarem junto aos seus companheiros de combate, perto dos campos de batalha onde eles haviam lutado e morrido. Assim 93.242 militares ficaram enterrados em alguns dos 24 cemitérios que os militares americanos decidiram manter permanentemente no exterior e que são até hoje mantidos pela ABMC.

Como foi encontrada a lápide do sargento Browning no cemitério do Alecrim

Essa situação também aconteceu em Natal, que chegou a ter um destes cemitérios temporários.

 “Operação Papa-defunto”

 A capital potiguar foi um grande ponto de apoio para milhares de militares norte-americanos que utilizavam o famoso “Trampolim para a vitória”, para seguir além do Oceano Atlântico, ou para voltar para seu lar.

Encontro dos presidentes Roosevelt e Vargas em Natal em 28 de janeiro de 1943

Devido à vinda de combatentes feridos de outras frentes de batalha e que expiravam em Natal, ou por ferimentos causados em combates contra submarinos inimigos em nossas costas, a queda de aeronaves, doenças e as mais diversas causas, estiveram enterrados no cemitério do Alecrim durante o período da guerra 146 militares estrangeiros.

Segundo consta no livro “História da Base Aérea de Natal”, de Fernando Hippólyto da Costa (Págs. 157 a 160), quase dois anos após o fim do conflito, no dia 10 de abril de 1947, um navio da marinha americana aportou em Natal, com uma equipe de especialistas destinados a trabalharem na remoção dos americanos aqui sepultados.

Não era raro na época da guerra em Natal a chegada de militares feridos em aviões especialmente adaptados para o transporte de enfermos, como o mostrado na foto. Muitos não resistiam a gravidade de seus ferimentos e foram enterrados no Cemitério do Alecrim

Segundo o autor, militar aposentado da Força Aérea Brasileira-FAB, esta operação contou com o apoio de aviões da FAB, que trouxeram de outras localidades brasileiras os corpos dos americanos ali enterrados. Para se ter uma ideia desta operação, o autor de  “História da Base Aérea de Natal” informa que foram trazidos corpos de americanos que estavam sepultados até na cidade pernambucana de Petrolina.

O embarque no porto de Natal dos corpos dos militares americanos em 1947

A movimentação chamou a atenção da população natalense, que passou a denominar jocosamente o trabalho como “Operação Papa-defunto”.

Mas um dos corpos não retornou para os Estados Unidos.

Versões Sobre o Sargento Browning

Já faz um tempo que não visito o local de descanso eterno deste militar americano. Mas em uma ocasião, acompanhado de outros amigos, conseguimos autorização da administração do Cemitério do Alecrim para que fosse retirado um pouco da terra que cobre o túmulo, deixando a mostra os textos gravados na lápide, que é idêntica às milhares existentes nos vários campos santos militares americanos.

Outra visão da lápide do sgt. Browning

A pedra tumular, já bem desgastada, é levemente arredondada na parte superior e nela encontramos uma cruz latina para os cristãos. Conforme se vê na inscrição inserida no mármore branco, ali repousa o sargento Thomas N. Browning, oriundo do estado de Ohio. Quando da sua morte ele era um jovem de apenas 22 anos, nascido em 25 de junho de 1922, um domingo e falecido coincidentemente em outro domingo, 18 de julho de 1943.

Através de sua pedra tumular, que o sargento mesmo estava em Natal lotado junto ao 22 AAF Weather Sq., também conhecido como 22 Expeditionary Weather Squadron. Esta era uma unidade de meteorologia e em Natal esta unidade especializada estava subordinada diretamente ao Air Transport Command – ATC, o setor da Força Aérea dos Estados Unidos destinado a transportar por aviões tudo que fosse necessário para abastecer as tropas americanas em combate em todo o planeta.

Existe uma ideia, tratada como algo muito positivo em Natal, que o sargento Browning tinha em nossa cidade uma desconhecida noiva e que estava para casar. Entretanto com a sua morte, a pedido de sua pretensa noiva e com a anuência de sua família em Ohio, ele ficou repousando eternamente no nosso mais antigo e tradicional campo santo de Natal.

O autor de “História da Base Aérea de Natal” comenta que procurou informações sobre esta pretensa noiva do americano junto à administração do Cemitério do Alecrim e a Igreja Batista de Natal, uma das mais antigas e respeitadas igrejas evangélicas em solo potiguar.

Teria o sargento Browning uma namorada natalense? Apesar da rigidez moral existente na ápoca, o contato das brasileiras com os militares estrangeiros era comum nas cidades que receberam tropas americanas

Segundo pude apurar, sem confirmação documental, a morte do sargento Browning teria sido provocada por uma doença e isso acabou criando versões sobre o falecimento do militar.

Para alguns teria sido alguma moléstia sexual, contraída em um dos vários cabarés que atendiam os americanos em Natal e região.

Já escutei uma certa pessoa me comentar que a família do jovem sargento era evangélica, de um segmento muito tradicionalista em relação as questões sexuais. Devido a sua morte ter ocorrido pela situação anteriormente comentada, a sua família teria ficado extremamente envergonhada e decidiram deixar o corpo do seu ente querido para trás. Tentavam evitar a vergonha perante os membros de sua comunidade religiosa.

Bem, pessoalmente eu nunca li os prontuários sobre a causa das mortes dos militares americanos enterrados no Cemitério do Alecrim e assim fico sem saber a causa mortis do sargento Browning. Mas acredito que esta versão é pura bobagem.

Uma Reportagem Reveladora

Através dos escritos deixados pelo respeitado jornalista e advogado macaibense, Edilson Cid Varela, que na época da guerra era correspondente da Agência Meridional de notícias em Natal, pudemos conhecer mais sobre o sargento Browning.

Jornal carioca Diário da Noite, com a reportagem de Edilson Varela

Em uma extensa reportagem publicada no jornal “Diário de Natal” e reproduzida no periódico carioca “Diário da Noite”, edição de quarta-feira, 31 de maio de 1945, entre outros assuntos, Edilson comenta que conheceu o sargento em 1943 e o chamava de Tom Browning. Informa que o mesmo chegou a Natal depois de passar dois meses em uma base aérea na Bahia.

O sargento era natural da cidade de Cincinnati e era tido como uma pessoa calma e tranquila. Da sua terra natal lembrava principalmente de uma irmã mais nova.

Solenidade em honra aos militares estrangeiros enterrados em Natal eram bem comuns, como mostrada nesta nota do Diário de natal, de 1944

Segundo o jornalista, Browning adorava o Brasil. Desejava permanecer no país após o fim da guerra. Para o jornalista o jovem americano tinha uma “alma de praia”, onde verdadeiramente adorava as calientes águas do litoral potiguar. Talvez o fato de vir de um estado localizado no centro oeste dos Estados Unidos, formado em sua maior parte por planícies e cuja praia mais próxima eram as geladas águas do Lago Erie, tenham criado este desejo no militar americano.

O estrangeiro estava extremamente empenhado em aprender português e era o próprio Edilson Varela quem lhe ministrava estas aulas. Browning fazia questão de aprender nosso idioma, mesmo depois de doze horas de trabalho em Parnamirim Field. Talvez estas aulas servissem para ele se comunicar com alguém da nossa região com maior facilidade e intimidade.

Outra parte da reportagem

Mas o interessante é que em nenhum momento na reportagem de Edilson Varela, existe algum comentário sobre uma pretensa noiva natalense do sargento Browning.

Um dia o militar americano deixou com o jornalista macaibense um livro que em português, que mandou vir do Rio de Janeiro para ajudar em suas aulas. Daí seguiu para seu turno de serviço em Parnamirim Fiel e simplesmente desapareceu.

Edilson conta que seis dias depois foi à base e passou a procurar o amigo nas mais de “900 alojamentos para oficiais e soldados” que existiam na área militar em 1943. Quando finalmente localizou o alojamento do sargento, houve o seguinte diálogo com um militar ali presente.

– Tom Browning está?

E lhe responderam:

– Esteve até ontem. Morreu.

Sem dar maiores detalhes sobre a causa da morte do americano que gostava de nossas praias.

A Amizade do Sargento e do seu Professor de Português

Quando o autor deste texto era mais jovem, morei muitos anos na Rua Hemetério Fernandes, no bairro do Tirol. Próximo a nossa casa, na Rua coronel Pedro Tavares, morava o professor Protásio Pinheiro de Melo, que jamais fez cara feia com as muitas perguntas de um garoto curioso sobre a época da Segunda Guerra em Natal.

O professor Protásio Melo junto a placa do SCBEU – Sociedade Cultural Brasil-Estados unidos – Fonte – http://juarez-chagas.blogspot.com.br

O professor Protásio era natalense, nascido em 3 de julho de 1914 e formado em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito de Recife. Chegou a ser Promotor Adjunto da comarca de Natal, mas abandonou a carreira jurídica para se dedicar ao ensino do idioma bretão. Com a eclosão da Segunda Guerra e a chegada das tropas americanas em Natal, se tornou o professor de português dos oficiais e praças estrangeiros.

O professor Protásio, falecido em 2006, foi autor do livro “Contribuição norte-americana a vida natalense” e também tratou da questão da morte do sargento Browning (Págs. 72 e 73).

Muitos militares americanos foram alunos do professor Protásio

Afirmou que a partida por via marítima dos corpos dos militares americanos enterrados em Natal ocorreu no dia 25 de abril de 1947 e tal como o jornalista Edilson, também deu aulas de português ao sargento Browning.

O professor Protásio comentou em seu trabalho literário que o túmulo de Browning foi construído no cemitério do Alecrim por seu intermédio, a pedido da família do falecido. Logo após a construção do túmulo, por solicitação do pai do sargento, o Comando da Base de Parnamirim publicou a seguinte nota:

“In memory of Sgt. Thomas N. Browning, Air Corps, born in Cincinnati, Ohio, June 15, 1921. Died July 18, 1943, in the service of his own country, in the services of Brazil and the Brazilian People, and the service of all who love liberty an freedom throughout the world. The memorial war erected by his own family and his friends in Natal.”

Igualmente como na reportagem publicada por Edilson Varela em 1945, em nenhum momento o professor Protásio em seu livro comenta sobre alguma noiva natalense do sargento americano, ou sobre a razão de sua morte.

É possível que o americano tivesse uma noiva brasileira, que pediu a família do seu amado para este ficar enterrado no solo potiguar? Quem sabe?

Fort Snelling National Cemetery, em Minnesota, Estados Unidos

Provavelmente através do contato junto a outros militares americanos, ou seja pela amizade angariada junto ao sargento Browning, o professor Protásio levou adiante a última homenagem a este militar. Com a total anuência da família do americano.

Mesmo sem o sargento Browning ter morrido em combate, derramando seu sangue em solo estrangeiro e tombando junto a seus companheiros de farda, algo fez com que a sua família da distante Ohio decidisse deixar seu parente em nossas terras.

Entre outras possíveis razões, em minha opinião, esta questão aponta para uma das melhores características existentes no povo da minha terra; a sua enorme facilidade de acolher e fazer amizades com aqueles que vêm de fora.

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RECIFE DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Hangar de manutenção em Recife. Salvo engano o monomotor da foto é um Grumman F6F Hellcat, caça típico dos porta-aviões americanos que patrulhavam o Atlântico Sul na caça de submarinos do eixo.

TEXTO – FRANCISCO MIRANDA – BLOG DO FRANCISCO MIRANDA
-http://chicomiranda.wordpress.com/2011/07/25/recife-e-a-segunda-guerra-mundial/

Em 1939 Recife sediava o III Congresso Eucarístico Nacional, que seria inaugurado no local o Parque 13 de maio. Neste local foram levantadas apressadamente arquibancadas e todo local foi preparado para o evento. Peregrinos de todo o país e do mundo chegavam para um dos maiores eventos religiosos da Igreja Católica do mundo.

Os rumores de guerra já batiam às portas da cidade e isso ficou mais evidente quando a embarcação britânica Amanzora, que trouxe à cidade os participantes do congresso, foi chamada as pressas para retornar à Inglaterra. E de fato, durante a própria abertura do congresso os alto-falantes comunicavam aos pernambucanos e a todos os peregrinos, a invasão da Polônia pela Alemanha.  Recife ainda não sabia, mas ela seria uma das cidades mais impactadas com o alvorecer dessa nova ordem mundial.

Recife, a Veneza Brasileira.

Ainda em 1941, os EUA iniciou a política de envio de observadores navais para vários portos brasileiros. O primeiro a chegar foi o capitão aposentado da US Navy W.A. Hodgman. Ele chegou ao Recife em 26 de fevereiro, sob as ordens do Escritório de Inteligência Naval. O observador foi instalado inicialmente em um escritório no consulado americano e posteriormente no terceiro andar do prédio do Banco de Londres, na Rua do Bom Jesus, próximo ao Porto do Recife, com isso ele poderia acompanhar as atividades portuárias.

Quadrimotor de patrulha naval e caça de submarinos Consolidated PB4Y-1 Liberator, variante naval do famoso bombardeiro B-24. Foto realizada em Ibura Field, outubro de 1943.

Recife era a terceira cidade do Brasil, com uma população estimada à época de 400 mil pessoas.  O porto, apesar do quebra-mar, era pequeno e estreito e necessitava de atracadores e rebocadores para atracar e desatracar. Armazéns estavam disponíveis com todo o tipo de loja. Instalações de abastecimento eram excelentes.

Hidroavião Catalina em Ibura Field

Com a declaração de guerra contra as potências do Eixo, e a cessão de bases no litoral brasileiro combinada com as operações de defesa do atlântico sul, Recife passa a ser uma cidade estratégica para as pretensões americanas, e com o apoio do então interventor do Estado Agamenon Magalhães, Recife terá a Sede da Quarta Frota Naval e será a base das operações marítimas com raio de atuação do Canal do Panamá até o extremo sul das Américas, além de um campo de pouso construído pelos americanos e chamado de Ibura Field, que atualmente é o Aeroporto Internacional dos Guararapes.

Torre de controle de Ibura Field

O governo do Estado fez enormes esforços para disponibilizar toda a infraestrutura para a acomodação da Quarta Frota. Foi disponibilizado um prédio inteiro para o Quartel-General além de outros prédios auxiliares no centro do Recife e alguns quilômetros de distância do Porto.

Militares americanos baseados em Recife.

Além disso, em conjunto com os Estado Unidos, foram construídos Hospitais de Campanha para serem utilizados como apoio de feridos no front africano, centros de treinamento de tropas, estruturação de defesas antiaéreas em toda a costa, alocação de unidades militares para atender a possível defesa em caso de invasão, também foi criado um centro de comunicação Aliada que tinha como principal objetivo estabelecer uma comunicação direta com a África, chamada Rádio Pina, que foi mantida em atividade pela Marinha Brasileira até 1992.

Marujo junto a um bombardeiro bimotor B-26.

Contudo as mudanças não foram meramente militares, houve um impacto profundo na sociedade pernambucana e, em especial em Recife. Primeiramente o impacto foi econômico, já que no auge de suas atividades a Quarta Frota mantinha cerca de 4000 homens no Estado, todos recebendo integralmente seus soldos e gastando, principalmente com os atrativos da vida nos trópicos. Passou a circular no mercado local dólares americanos, e isso impulsionou consideravelmente a comércio local e as atividades de apoio.

Descontração nas praias pernambucanas. Percebam as rodas do jipe com correntes, para passar nos atoleiros próximo as praias.

Outros aspectos interferiram na vida do recifense, que teve que passar por um racionamento de combustível e apresentou inflação de bens e serviços locais.

Arquitetura tradicional do centro de Recife chamando a atenção dos americanos

Segue abaixo alguns exemplos:

  • Atualmente o edifício que serviu de base para a Quarta Frota ainda está em funcionamento e é utilizado por alguns órgãos do governo do Estado, mas observa-se até os dias de hoje um grupo organizado de engraxates nas calçadas da av. Guararapes, e a origem do ofício nesse local remota na implantação do Quartel General da Quarta Frota, já que havia uma concentração de militares transitando nessa região com seus sapatos e coturnos, ou seja, uma demanda em potencial. Vários engraxates tinham ali sua fonte de renda. Passados décadas o local ainda é o melhor lugar da cidade para se lustrar os sapatos.
  • O Restaurante Leite é considerado o mais antigo do Recife e um dos mais requintados também. Já na década de 40 recebeu vários marinheiros e militares que, com seu soldo faziam a alegria dos garçons, já que as gorjetas eram em dólares.
  • O governo de Agamenon Magalhães cedeu outro edifício para a implantação do Grêmio Recreativo, onde aconteciam bailes dançantes, contudo esses bailes eram privados para os americanos e mulheres pernambucanas tinha acesso livre. Como não poderia, isso causava revolta entre os homens pernambucanos. Não foram os poucos os casos de brigas entre militares e os naturais da cidade.
  • Durante a guerra, o Porto do Recife foi um dos mais movimentados do país, e não por acaso, o bairro do Recife (uma ilha portuária),  tinha uma vida noturna agitada, oferecendo aos marinheiros todos os atrativos festivos das mulheres da noite. Com o fim da guerra a região entrou em declínio e passou por um período de abandono, sendo considerado por muitas décadas o baixo meretrício, o local era evitado pela maioria das pessoas. Há alguns anos, houve um esforço para recuperação do bairro do Recife e, atualmente, o bairro abriga um polo tecnológico e é uma das principais atrações turísticas do Estado.
  • Com o receio de bombardeios a cidade, foi instituída pelo governo um apagão em toda a região metropolitana do Recife; viaturas do exército realizavam rondas noturnas pela cidade para identificar moradores que desrespeitavam o apagão. Várias baterias antiaéreas foram estrategicamente posicionadas por toda a cidade na eminência de um ataque aéreo.
  • Helena Roosevelt, no período em que o presidente americano visitou Natal, participou em Recife da inauguração do Cassino Americano que permaneceu em funcionamento até a década de 90 do século passado.
  • O Encouraçado São Paulo ficou permanentemente estacionado no litoral pernambucano a fim de realizar a proteção marítima do Estado.
  • O 200º Hospital Estação foi construído e depois transformado no Hospital da Aeronáutica
  • O Ibura Field recebeu vários bombardeios B-52, B-29 e outras aeronaves de passagem para a Europa e a Itália, suas pistas ocupavam uma área maior do que atualmente ocupa o Aeroporto Internacional dos Guararapes, uma dessas pistas é atualmente a Rua Barão de Souza Leão, uma das principais vias de acesso entre Boa Viagem e o atual aeroporto.

Oficial americano junto a um Catalina

O estilo de vida americano foi se enraizando na vida do povo do Recife, que passou a adotar o “OK” e a usar camisetas de manga curta no lugar dos ternos que eram tão tradicionais até os anos 30.

Troféu de guerra.

Observando tudo isso, o que mais impressiona é que apesar das evidências o povo de Pernambuco sabe muito pouco sobre esse choque de cultura causado por uma guerra que, aparentemente, parecia tão distante, e que proporcionou um intercâmbio que deixou marcas visíveis até hoje.

O MEU NOVO LIVRO – EU NÃO SOU HERÓI, A HISTÓRIA DE EMIL PETR

Na vida da gente é uma grande satisfação quando nosso planos se realizam.

E eu me sinto assim neste momento, quando se aproxima o lançamento do meu quarto livro.

Em 2009 eu fui um dos realizadores do livro “Os cavaleiros dos céus – A saga do vôo de Ferrarin e Del Prete”, que narra a história da primeira travessia sem escalas entre a Europa e America do Sul, realizada pelos pilotos italianos Arturo Ferrarin e Carlo Del Prete, em 1928. Emil, um grande leitor sobre aviação teve acesso a este trabalho e gostou do livro.

Um dia foi contatado por um familiar, que me contou que em Natal morava um veterano norte-americano da II Guerra Mundial, que estava me procurando através de seus familiares e desejava me conhecer para contar a sua história. No principio achei tudo meio estranho e um tanto fantasioso, mas nada era mentira.

Conheci uma figura humana incrível e iniciamos nosso trabalho.

Emil Anthony Petr é natural da cidade de Deweese, no estado de Nebraska. Católico, descendente de tchecos, nasceu em 1919 e aos 22 anos, em janeiro de 1942, Emil buscou um local de alistamento para se engajar lutar contra os nazifascistas, este filho de simples agricultores tinha certeza que “-Não queria lutar em trincheiras, mas no ar”.

Foi primeiramente designado para o 57º Grupo de Caça, na área de Boston. Quando estava para seguir com a sua unidade para o deserto do norte da África, ele conseguiu a aprovação para cursar a escola de formação de navegadores, em San Marco, no Texas. Em 1943, após conseguir a patente de segundo tenente, foi designado para atuar em bombardeiros B-24. Mas não era o fim de sua preparação. O tenente Petr seguiu para a base aérea de Langley, Virginia, onde se especializou na tarefa de bombardeio por radar.

Em abril de 1944 chegou a sua transferência para a 15ª Air Force, no sul da Itália, para atuar no esquadrão 139, do 454th Bomb Group, baseado no campo de San Giovanni, próximo a cidade de Cerignola.

Durante o trajeto para a Europa o tenente Emil esteve no Brasil, mas não em Natal. Seu trajeto passou pelas cidades de Belém e Fortaleza, onde guardou boas lembranças. “-Não era para ter conhecido Natal na época da guerra, mas foi para cá que optei por viver e me casar”.

No 454th Bomb Group havia uma seção específica de pessoas que trabalham com sistemas de radar. Quando Emil foi escolhido para uma missão de bombardeio, ele me disse que era extremamente focado em seu trabalho. Porque ele sabia que qualquer erro pode comprometer todo o grupo de aeronaves e suas tripulações.

De abril a setembro de 1944 o tenente Emil participou de 38 missões sobre a Europa ocupada. Em uma delas, ao atacarem a fábrica da Messerschmitt, em Bad Voslau, na Áustria. O bombardeamento desta estratégica unidade fabril rendeu ao 454th Bomb Group uma citação do presidente dos Estados Unidos e o tenente Emil estava lá.

Mas no dia 13 de setembro de 1944, quando na sua 39º missão, a de número 117 do 454th Bomb Group, cujo objetivo era uma refinaria na cidade alemã de Odertal, seu B-24 foi atingido pela artilharia antiaérea alemã. Ninguém da sua tripulação morreu, mas a maioria foi capturada, entre estes o tenente Emil.

Sobre a derrubada de sua aeronave, conseguimos contatar dois veteranos alemães que estavam nas baterias antiaéreas que protegiam a cidade de Odertal e trouxeram interessantes detalhes sobre aquele dia.

Jovens alemães pertencentes ao Luftgal 8, FLAK-Gruppe Oberschlesiem-West, FLAK-Untergruppe Odertal, responsáveis pela derrubada da B-24 do tenente Emil em 1944

Feito prisioneiro, Emil foi levado para o campo de prisioneiros Stag Luft III, em Sagan (atual Zagan, na Polônia) e o sofrimento foi grande.

Meses depois as tropas russas estavam avançando a partir do leste e começaram a se aproximar do campo. Segundo os livros relativos à Segunda Guerra Mundial Adolf Hitler mandou evacuar Stalag Luft III, pois além de não querer que estes aviadores aliados fossem libertados pelos russos, havia a intenção de utilizá-los como reféns.

A ficha do prisioneiro Emil Petr em Stalag Luft III

Em 31 de Janeiro os homens seguiram para o Stalag Luft VIIA, em Moosburg. Durante dois dias de viagem, os aviadores foram levados em vagões de transportar gado. As necessidades fisiológicas eram feitas ali mesmo, em pé e para dormir só escorados uns nos outros e a viagem durou dois dias. Moosburg era uma verdadeira pocilga, onde os alemães amontoaram mais de 140.000 prisioneiros aliados, entre estes alguns brasileiros.

O dia da libertação

Finalmente os prisioneiros foram libertados pelos soldados da 14ª Divisão Blindada, do 3º Exército da U.S. Army, comandados pelo general George Patton.

Para o veterano residente em Natal, a lição mais importante da guerra foi a “Falta de justificativas para a violência”, que no seu entendimento ainda não foi aprendida pela humanidade.

Depois de retornar aos Estados Unidos, Emil tentou a universidade de Lincoln, sem sucesso e foi trabalhar em uma empresa de construção da família. Mas este americano de origem eslava, de profunda devoção católica, decidiu trabalhar como um voluntário em obras assistenciais na América Latina, através de um programa criado pelo Papa João XVIII.

Dom Eugênio e Emil

O destino o trouxe a Natal em 1963, onde conheceu Dom Eugênio de Araújo Sales (na época Bispo da capital potiguar) e se incorporou no programa SAR – Serviço de Assistência Rural. Através deste trabalho manteve contatos e participou de ações em Recife junto com Dom Helder Câmara e teve oportunidade de estar ao lado da irmã Dulce, de Salvador.

Natal-1963

Emil me comentou que já tinha ouvido falar sobre Natal, principalmente durante o seu trajeto aéreo para combater na Europa. Mas na época de sua passagem, devido ao grande trânsito de aviões no famoso “Parnamirim Field”, o seu caminho para a Itália foi através de Fortaleza. Mas, para ele, a hora certa de estar em Natal foi em 1963, onde conheceu uma pessoa que mudou sua vida.

Emil e Célia

Emil teve oportunidade de conhecer o sertão potiguar, os aspectos ligados aos trabalhadores rurais nordestinos e veio a ser casar com a assistente social Célia Vale Xavier, assistente social com curso de especialização na Costa Rica e Colômbia, nascida em Caicó, que havia sido indicada pelo Monsenhor Walfredo Gurgel, seu antigo mestre, para trabalhar no SAR junto com Dom Eugênio, na elaboração do pioneiro projeto de educação radiofônica através da Emissora de Educação Rural, mais conhecida como Rádio Rural de Natal.

Ela e Emil Petr se uniram oficialmente em 1967 e passaram a morar no bairro de Petrópolis. Na capital potiguar Emil criou fortes laços de amizade no seio de nossa sociedade. Viajou a serviço do PAVLA pelo Brasil, conheceu do interior do Nordeste a floresta amazônica. Após o fim do PAVLA, o nativo de Nebraska trabalhou em Natal junto à escola de línguas SCBEU, a Emater, no INPE e prestou serviço junto a UFRN.

Em 1969, com o apoio de sua esposa Célia, comprou uma propriedade na cidade de São Gonçalo do Amarante, próxima a Natal, a qual denominou “Sítio Nebraska”. Neste local, junto com as comunidades rurais da região, desenvolveu a primeira experiência de agricultura sem agrotóxicos no Rio Grande do Norte. Mesmo com dificuldades ele conseguiu escoar a produção para restaurantes que trabalhavam com comida natural em Natal e junto a consumidores individuais.

O casal Emil Petr e Célia Vale não tiveram filhos. Eles adotaram Maria Isabel, a querida Mabel, que havia nascido com um a grave doença cerebral, mas isto não foi problema para o casal dedicar a esta criança muito amor e carinho durante 11 anos. Apesar dos esforços dos pais, Maria Isabel deixou este plano terreno em meio a muitas saudades.

Emil levando sua filha Mabel para ser consultada no navio hospital “Hope”

Homem de extrema sensibilidade e preocupação com a natureza, a preservação do meio ambiente, o uso sustentável da terra e o consumo correto de produtos agrícolas, decidiu junto com o professor Waldson Pinheiro, o Embaixador Nestor Lima, o Dr. Otto Guerra, o ex-governador Cortez Pereira e outras pessoas, criar uma entidade de preservação da natureza, a primeira do gênero oficialmente estabelecida no Rio Grande do Norte. Esta ONG é a conhecida ASPOAN – Associação Potiguar Amigos da Natureza, que tantos trabalhos realizou (e realiza) em prol do meio ambiente potiguar. Foi um momento que Emil considera fantástico, onde surgiram muitas ideias e projetos ligados a área ambiental, a maioria deles ações inéditas no Rio Grande do Norte.

Em meio a muitas atividades, Emil teve a tristeza de saber que sua amada Célia fora acometida do Mal de Azheimer. Durante seis anos Emil e a família de Dona Célia, que ele considera sua família no Brasil, buscaram dar o melhor para esta caicoense de fibra. Em 14 de julho de 2010, Célia Vale Petr seguiu para um plano superior em meio a muito carinho.

Durante a luta em prol da saúde de sua amada esposa, surgiu na mente de Emil o desejo de contar sua história de vida para as gerações futuras.

Desde o primeiro semestre de 2010 iniciamos a fase de entrevistas, daí seguimos para fazer contato com pessoas e entidades nos Estados Unidos e na Eslováquia. Depois partimos para a análise de suas cartas e de sua esposa, Célia Vale Petr. Outras fontes são seus apontamentos compilados em um diário, muitas fotos, além do livro da sua formatura como oficial navegador, o livro oficial do seu esquadrão (publicado em 1946), análise de material vindo do Arquivo Nacional dos Estados Unidos, da família Petr e da família Vale.

Chegamos a reta final deste nosso trabalho e o resultado é “Eu Não Sou Herói, A História de Emil Petr”.

Contamos com o empenho do editor e escritor Carlos Fialho e dos profissionais da Editora Jovens Escribas, que realizaram um trabalho magistral. O resultado é um livro com mais de 300 páginas e um vasto acervo fotográfico. Tudo em um belo formato, repleto de histórias interessantes.

O autor e seu biografado

No dia 31 de outubro, no Iate Clube de Natal, quarta-feira, a partir das 19:00 horas, estarei junto com Emil, seus familiares e amigos, autografando este novo trabalho.

Um forte abraço a todos.

UM MILAGRE DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

O “All American” resiste bravamente nos céus do Norte da África após choque com avião alemão: milagre (Foto: Cliff Cutforth)

Já se foram quase sete décadas após o fim da II Guerra Mundial (1939-1945), mas episódios incríveis ocorridos durante aqueles tristes anos continuam a ser revelados com o passar do tempo.

Um dos mais recentes é sobre a saga de um bombardeiro quadrimotor americano B-17 – conhecido também como “Fortaleza Voadora”, desenvolvido pela Boeing – que, mesmo atingido em cheio numa colisão aérea por um avião de guerra alemão sobre a região portuária de Túnis, capital da Tunísia, conseguiu a duras penas voar por duas horas e meia e aterrissar em uma base de emergência dos Aliados na Argélia sem que nenhum de seus dez tripulantes sequer se ferisse.

A carta enviada pelo navegador Harry C. Nuessle a autoridades militares americanas: juntamente à foto, ele pede ao “censor” que não a mostre à sua esposa caso haja alguma restrição a imagens fortes, e lhe solicita devolver a correspondência neste caso. Na parte inferior, a lista com os nomes de todos os tripulantes.

O caso gerou a fotografia que abre este post, uma das mais famosas entre as que registram a participação dos EUA na II Guerra, e que mostra a aeronave voando em frangalhos.

Pedaços de avião alemão

O choque aéreo ocorreu em 1º de fevereiro de 1943 nos céus da Tunísia,  no curso da ofensiva dos Aliados contra as forças do marechal-de-campo alemão Erwin Rommel atuando no Norte da África. Um avião alemão, cujo piloto provavelmente estava ferido, perdeu o controle e atingiu a fuselagem do B-17, apelidado All American e pilotado pelo tenente Kendrick R. Bragg, do 414º Esquadrão de Bombardeiros dos EUA. O avião alemão partiu-se em dois, e alguns de seus pedaços foram parar no B-17.

Estado da cauda após a aterrissagem do B-17

Naquele momento, justo após a colisão, o estabilizador esquerdo horizontal do avião se encontrava totalmente destruído, os dois motores direitos não funcionavam, litros de combustível vazavam, a fuselagem praticamente se cortara ao meio, os sistemas elétrico e de oxigênio se danificaram e, na parte de cima, havia um buraco de 5 metros de comprimento por 1,5 de largura.

Paraquedas improvisados

Sam T. Sarpolus, atirador posicionado na cauda, ficou preso porque a extremidade já não tinha mais uma ligação no solo com o resto da aeronave. Com a ajuda de outro atirador, Michael Zuk, ele utilizou partes do avião inimigo e dos paraquedas da tripulação para evitar que a cauda se desprendesse.

Mas, graças a um cabo que ainda funcionava e a cauda que ainda se inclinava, o All American continuou voando e bombardeando seus alvos alemães no Norte da África. Faltava, no entanto, conseguir retornar em direção à segurança da base aliada.

Aterrissagem

Milagrosamente, o B-17 voou, perdendo lentamente altitude, por quase 120 quilômetros até chegar à base na Argélia. No caminho, ainda foi atacado por outros dois aviões alemães, mas conseguiu responder abrindo fogo – com dois de seus atiradores mantendo a cabeça para fora do buraco, metralhadoras em punho – e escapar. Na parte final do trajeto, recebeu escolta de alguns P-51 aliados. Cliff Cutforth, tripulante de um destes aviões, tirou o famoso retrato que abre este texto.

Militares posam ao lado do que sobrou do “All American”

Havia ainda um último obstáculo: com cinco dos paraquedas utilizados improvisadamente para que o B-17 prosseguisse no ar, metade dos ocupantes não teria como saltar. Duas horas e meia após a “trombada” nos ares, o tenente Bragg conseguiu, assim, aterrissar o que sobrava do All American em uma base de emergência.

Inacreditavelmente, nenhum dos militares americanos estava ferido.

*A dica para este post veio do fiel leitor do blog José Carlos Bolognese, que sempre contribui com excelentes pautas.

FONTE –

A BOA VIDA DOS MILITARES AMERICANOS EM NATAL DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNIDAL

O SITE DA REVISTA NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL DESTACOU A IMPORTANTE PARTICIPAÇÃO DE NATAL COMO BASE AMERICANA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL. CONFIRAM A MATÉRIA ABAIXO

Da Times Square, em Nova York, à praça Vermelha, em Moscou, multidões em êxtase comemoravam a data. Alvamar vestiu sua melhor roupa e escolheu bem as palavras, mas, na hora em que espiou do palco, teve um choque: a platéia, estranhamente, estava quase vazia. Os organizadores do evento, em pânico, saíram pelo bairro da Ribeira e recrutaram uma legião de transeuntes – mendigos, boêmios, prostitutas – para ocupar ao menos uma parte dos 600 lugares disponíveis. Alvamar enfim falou, mas um tom melancólico já tomara conta do teatro, das ruas, das pessoas. A cidade parecia estar de luto. Porque a guerra havia acabado.

 Assim foi a Segunda Guerra em Natal: um tempo de emoções intempestivas, de alegrias e tristezas fora de hora e de contexto. Entre 1942 e 1945, ali funcionou o principal quartel-general dos países aliados no hemisfério sul. Por sua localização, no extremo nordeste da América do Sul, a capital do Rio Grande do Norte é uma das cidades brasileiras mais próximas do continente africano – 3 horas de vôo em jatos de hoje. Por isso ela era uma “ponte” entre os Estados Unidos e a Europa, uma escala obrigatória para todos os vôos que seguiam rumo à África ou aos combates no Atlântico Sul.

Outras bases controladas por americanos seriam montadas no Brasil, do Amapá a Santa Catarina, mas nenhuma delas rivalizou em movimento e importância com o Campo de Parnamirim e a Base Naval de Hidroaviões, os dois núcleos militares de Natal durante a guerra. Em 1943, no auge dos conflitos no Atlântico, Parnamirim era o mais congestionado aeroporto do planeta, com até 800 pousos e decolagens num dia de pico. Natal era tão decisiva que ficou conhecida como a “encruzilhada do mundo”.

 A capital potiguar, contudo, jamais foi palco de qualquer combate. Os submarinos alemães não se aproximaram da cidade e nenhuma bomba inimiga foi lançada sobre suas belas praias ou ruas. Os únicos tiros ouvidos eram de treinamentos rotineiros dos americanos. A tensão da guerra estava no ar, o.k., mas os momentos mais assustadores foram, na prática, os exercícios de defesa civil, como os blecautes. Apesar da óbvia falta de estatísticas oficiais sobre o assunto, Natal foi, com certeza, o lugar de melhor qualidade de vida para um soldado na guerra. Os quase 50 mil natalenses da época, por sua vez, puderam descobrir um mundo de novidades. “As pessoas cantarolavam jazz nas ruas. A vida aqui era diferente, sofisticada, uma festa”, lembra-se Alvamar Furtado, hoje com 86 anos. Natal tornou-se a cidade mais badalada do Nordeste. Os cinemas militares, não raro, e sem que ninguém soubesse fora dali, recebiam convidados especialíssimos: os próprios astros de Hollywood. “Humprey Bogart voou de Marrocos para animar uma sessão de Casablanca no teatro aberto da base de hidroaviões. Os artistas eram comissionados para viajar pelos fronts do mundo todo. A presença deles servia para elevar o moral das tropas”, diz o historiador local José Melquíades, de 76 anos.

Bette Davis, lembra-se ele, também visitou Natal. E a orquestra de Glenn Miller tocou no Cine Rex. Para imaginar como foram aqueles anos loucos em Natal, é preciso observar a guerra como um momento de liberação, um evento protagonizado por uma legião de jovens reprimidos que nunca haviam saído de rincões rurais como Arkansas, Nevada ou Montana. De repente, no meio do horror de um conflito mundial, eles se descobriram num lugar amistoso, tropical, encantador. O mar, a luz, as relações pessoais, tudo era novo em suas vidas. Por vias tortas – a guerra –, eles foram encaminhados ao paraíso.

 Os branquelos gastavam seus dias de folga em banhos de mar nas praias de Areia Preta, Ponta Negra ou num outro trecho da orla, menor e mais reservado, que foi batizado Miami. Muitos pagaram um preço salgado pelo programa – terríveis queimaduras de sol –, mas pode-se dizer que eles inauguraram as belezas naturais que, décadas depois, iriam consagrar Natal: o mar verde, quente e calmo, as dunas mutantes, o vento perene. Os natalenses tinham o hábito de ir à praia apenas na “temporada de banhos”, as férias, entre dezembro e janeiro. Nos dias da guerra, eles descobriram que sua rotina poderia ser bem mais agradável.

Fonte – http://edilsonln.blogspot.com.br/2012/03/sexta-feira-23-de-marco-de-2012-mp.html?spref=fb

A HISTÓRIA DA FEB CONTADA PELAS FOTOS DE JORGE NALVO

Jorge Nalvo durante o serviço militar no 5.º Regimento de Infantaria (Lorena). Na foto, ele visita com amigo à cidade de Aparecida do Norte
ACERVO FAMÍLIA NALVO

Cabo foi um dos raros soldados que tiveram a preocupação de legendar suas imagens de guerra

FONTE – http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,a-historia-da-feb-contada-pelas-fotos-de-jorge-nalvo,921256,0.htm

Jorge Nalvo nasceu em 17/04/1918, em Cajobi, no norte do Estado de São Paulo. Homem simples, ele foi convocado para servir no 5º Regimento de Infantaria, em Lorena. Em um País católico e praticante, Nalvo aproveitou uma de suas folgas para visitar o antigo santuário de Aparecida do Norte – a atual basílica só seria construída depois da guerra.

Nalvo (alto à esq.) e três colegas da 3ª Cia de Comando do 11º Regimento de Infantaria (11.º RI), pouco antes do embarque para Itália
ACERVO FAMÍLIA NALVO

Com a declaração de guerra, em 1942, o cabo foi convocado – era alfabetizado e tinha o serviço militar completo. Mas, em vez de ser engajado na tropa paulista, o 6º Regimento de Infantaria, acabou indo parar na tropa mineira, o 11º Regimento, de São João del-Rei.

Pracinhas a bordo do USS General Meigs, o navio que levou o 11.º RI para a Itália em 1944. Foi esse navio que levou Nalvo e seu regimento à Europa
ACERVO FAMÍLIA NALVO

Treinou pouco e foi para a Itália no 3º escalão da FEB, em setembro de 1944. Deixou no Brasil a noiva, Alzira Pontes Nalvo, grávida, em Coroados, oeste paulista, onde moravam.  Ele só conheceria o filho, Nilton, depois do fim da guerra.

Pracinhas do 11.º RI em uma trincheira. Da esq. para a direita, os soldados Moacyr, João Moraes e Gomes (no centro). Gomes carrega um fuzil-metralhadora de fabricação americana. Todos eram amigos de Nalvo
ACERVO FAMÍLIA NALVO

Nalvo e seus amigos registraram esse momento. Também fizeram fotos do treinamento com canhões e metralhadoras. Ali estão raras imagens da destruição “causada por nossas armas” e os prisioneiros de guerra alemães e fascistas italianos feitos pelo 11º Regimento de Infantaria, a vida nas barracas de campanha e a comemoração no fim da guerra.

Três pracinhas do 11.º RI. O soldado Gomes está à esquerda. Todos foram amigos de Nalvo na FEB
ACERVO FAMÍLIA NALVO

Para o historiador francês Marc Ferro (‘Les individus face aux crises du XXe Siècle’), a vida de um homem pode, como um microcosmo, mostrar o funcionamento de uma sociedade e suas crises, transformando-se em uma miniatura da história.Por meio dela, podemos ver os comportamentos individuais e coletivos que produziram as diferentes situações e crises de nosso tempo.

Dois pracinhas com um canhão anticarro calibre 57 mm usado pelo 11º RI. A foto fazia parte da coleção particular de Nalvo
ACERVO FAMÍLIA NALVO

Por meio dessas fotos, podemos entender um pouco do País e dos soldados que tomaram parte naquela guerra. Nalvo foi um dos raros soldados que tiveram a preocupação de legendar suas imagens de guerra. Guardou tudo em um baú. E lá esse material ficou até o momento que familiares as encontraram. Foram eles quem as entregaram ao Estadopara ajudar a reportagem a entender a história desses soldados. O pracinha Nalvo morreu em 2001.

Soldado Jorge Nalvo, da 3ª Companhia de Comando do 3º Batalhão do 11º RI, na Itália
ACERVO FAMÍLIA NALVO

O soldado Gomes, do 11º RI, com uniforme de inverno na Itália segura uma submetralhadora de fabricação americana
ACERVO FAMÍLIA NALVO

Soldado Enock Valentim de Melo, da 3ª Companhia de Comando (3º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria), ferido ao pisar em uma mina em Montese, na Itália

Área de Montese destruída, segundo Nalvo, ‘pelas nossas armas’

Prédio na região de Montese, destruído pela artilharia da FEB. A imagem faz parte do acervo mantido por Nalvo.

Prisioneiros alemães feitos pelo 11º RI durante a ofensiva da primavera em 1945. Nalvo e seus colegas continuaram a perseguição aos alemães em direção a Turim, depois de passarem por Parma

Italianos fascistas aprisionados durante a ofensiva da primavera pelo 11º Regimento de Infantaria

Comemoração pelo fim da guerra do cabo Jorge Nalvo e de seus amigos da 3ª Companhia de Comando do 11º Regimento de Infantaria da FEB

Jorge Nalvo, à dir., dentro de barraca com amigos do 11º RI durante a campanha da Itália
ACERVO FAMÍLIA NALVO

Soldado Jorge Nalvo (à esq.) em Roma, durante licença, posa com colegas diante da Basílica de São Pedro
ACERVO FAMÍLIA NALVO

Na volta da Itália, a recepção ao pracinha Jorge Nalvo em Coroados (oeste de SP)
ACERVO FAMÍLIA NALVO

OS BRASILEIROS QUE FORAM A GUERRA NA ITÁLIA

 

À direita, o então sargento Samuel Silva, que serviu na 3ª Companhia de Petrechos Pesados do 6º Regimento de Infantaria durante a guerra. Silva foi condecorado com a Cruz de Combate de 1ª Classe por se distinguir em combate durante a ofensiva da primavera
ACERVO SILVA

AUTOR – Marcelo Godoy

FONTE – http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,os-brasileiros-que-foram-a-guerra,921241,0.htm

A história pessoal de cada um desses homens – comandantes ou comandados – está indissoluvelmente ligada à guerra. Não a uma guerra qualquer, mas à maior de todas até agora enfrentada pela humanidade. Suas experiências pessoais não são simples anedotas, mas representam as angústias, as decisões e os comportamentos de uma geração.

Os brigadeiros Rui Moreira Lima e José Rabelo Meira Vasconcelos já foram entrevistados dezenas de vezes. Não se negam a falar sobre a guerra e a contar o que viveram. Foram os pioneiros da aviação de caça no Brasil. Lima acabou cassado em 1964 – achavam-no próximo demais do governo de João Goulart. “Sempre fui um democrata. Tenho horror a ditaduras – comunista ou fascista, não importa.”

Militares do pelotão de transmissões do 1º Regimento de Infantaria, da FEB, acompanhados por dois italianos que auxiliavam a tropa brasileira (primeiro à direita e o homem em pé no jeep, à direita). O soldado Jacob Gorender está de pé, sem camisa, no centro da foto

Meira, com sua voz calma, é outro que viveu as perturbações que a política trouxe à caserna. “Foi um grande erro: militar não deve se envolver com política.”

Em São Paulo, a memória dos veteranos têm um endereço: Rua Santa Madalena. Todos os dias alguns senhores procuram a sede da Associação de ex-Combatentes do Brasil. Quase todos com mais de 90 anos. Cada um deles carrega uma história de sacrifícios em silêncio: primeiro na Itália, depois, no Brasil. A difícil readaptação desses homens à vida longe da batalha é uma experiência que marcou essa geração. O coronel Jairo Junqueira, comanda o associação, com seu amigo, o major Samuel Silva, ambos entrevistados pelo Estadão para essa série.

O então sargento João Gonzales (centro) com dois outros colegas ainda no Brasil, antes da partida para a Itália. Gonzales serviu na 1ª Companhia de Petrechos Pesados do 6º Regimento de Infantaria e foi ferido por três estilhaços de granada no tórax quando sua companhia estava em Riola Vecchia, nos Montes Apeninos

O mesmo trabalho de resgate da memória dos expedicionários mobiliza o coronel Amerino Raposo (comandou o último tiro de artilharia dado pela FEB na Itália) e o capitão Enéas de Sá Araújo, do 6º Regimento de Infantaria – foi ferido por estilhaços de uma granada. A mesma disposição de contar suas histórias teve o almirante Hélio Leôncio Martins , o general Octavio Costa e os colegas de 1ª Companhia de Petrechos Pesados, João Gonzales e Newton Lascalea. Foi isso que levou intelectuais, como Boris Schnaiderman, de 95 anos, e Jacob Gorender, de 91, a enfrentar o cansaço de longas entrevistas para contar suas experiências na guerra. Suas vidas se entrelaçam com as de seus comandantes – generais como Mascarenhas de Moraes e Zenóbio da Costa – ou do inimigo – o general Otto Fretter Pico, que se rendera aos brasileiros.

O comandante da FEB, general João Baptista Mascarenhas de Moraes, ao lado de seu jeep, apelidado de Liliana em homenagem a uma sobrinha, na Itália. Na rodas do carro, correntes para enfrentar a neve nas estradas dos Montes Apeninos. O ferro na frente do veículo servia de proteção contra armadilhas escondidas nas estradas pelos alemães

 

 

NA LINHA DE FRENTE : A HISTÓRIA DA PRIMEIRA TROPA BRASILEIRA A LUTAR NA ITÁLIA

Oficiais da companhia: Atratino aparece no centro, sentado ao lado de Duarte (de bigode, à dir.)

1ª Companhia de Petrechos Pesados da FEB era formada por 166 homens, a maior parte de São Paulo

AUTOR – Marcelo Godoy

FONTE – http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,na-linha-de-frente-a-historia-da-primeira-tropa-a-lutar-na-italia,921569,0.htm

Chovia no dia em que o tenente José Maria Pinto Duarte morreu. A temperatura oscilava de 10°C a 12°C nas montanhas toscanas cortadas pelo Rio Serchio. Fazia 15 dias que o avanço brasileiro não se detinha em obstáculo, fosse alemão, italiano ou geográfico. O capitão Atratino Cortês Coutinho e seus homens haviam se instalado em uma casa de grossas paredes de pedra. Dormiam quando começaram a ouvir vozes na madrugada. Eram do inimigo.

Soldados brasileiros em posição avançada de observação

De repente, um tiro de carabina. A bala tombou um alemão que descia a colina em direção à ravina atrás da casa dos brasileiros. Atratino, comandante da 1.ª Companhia de Petrechos Pesados (CPPI), foi o autor do disparo que instalou o inferno na paisagem. A resposta veio das metralhadoras alemãs. Tiros encurralaram o capitão e sua tropa. Havia uma única saída: fugir pela janela dos fundos. Todos passaram. Chegou a vez de Duarte. Ao pular, balas lhe alcançaram o corpo. Uma rajada apanhou o tenente no ar.

Soldados brasileiros, oriundos de Sergipe,  com bandeira nazista capturada.

Começava um dos mais duros dias da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. Em 31 de outubro de 1944, os homens de Atratino dispararam 13,7 mil cartuchos de metralhadora, além de 200 tiros com fuzis e carabinas. Seus morteiros despejaram 158 granadas de 81 mm para conter os alemães.

Diário. Cada detalhe da ação da 1.ª Companhia – que pertencia ao 6.º Regimento de Infantaria e tinha 166 homens, a maioria paulistas – está no diário de campanha de Atratino. Dois volumes mostram o dia a dia da unidade. Lá está a morte de Duarte, que marcou os homens da 1.ª Companhia. Os tiros do inimigo não permitiram que o corpo do oficial fosse resgatado e enterrado.

Medalhas e condecorações nazistas, capturadas por soldados da FEB.

“O Atratino tentava arrastar, mas ele (Duarte) era muito alto, pesado, era difícil… Lembro quando (Duarte) falou: ‘Cuidem bem da minha filha’, como uma súplica”, diz João Gonzales, de 92 anos, à época 3.º sargento. Atratino não se conformava. Montou duas patrulhas para encontrar o corpo. Sem sucesso. Cansado, escreveu: “O moral da tropa foi abalado pelos insucessos causados pelo contra-ataque inimigo”. A ideia de que era preciso enterrar Duarte atormentaria o capitão até o fim da guerra.

Dias depois do contra-ataque alemão, a companhia foi transferida com a FEB do Vale do Serchio para o do Reno, no centro dos Montes Apeninos. E ficou na retaguarda em Porreta Terme. No dia 15, voltou à linha de frente em um vilarejo cortado pela estrada 64. Era Riola Vecchia.

Soldados brasileiros condecorados.

Missão. Cinco dias depois, às 4h30, Gonzales recebeu uma missão: restabelecer a linha telefônica entre a 1.ª Companhia e outra unidade do batalhão interrompida pela artilharia alemã. Todo dia ela despejava bombas na tropa brasileira. Gonzales levou três subordinados para ajudá-lo. Em meio a explosões de granadas, ele telefonou para o comandante. “Disse que era praticamente impossível prosseguir e ele disse: ‘Ô, rapaz, você nunca mostrou medo, agora está com medo?’ Falei: ‘Medo não tenho, mas tô colocando em risco minha vida’.” O capitão respondeu: “Vê o que você pode fazer”.

Gonzales andou mais 200 metros na escuridão. De repente, um clarão. “Quando cai a bomba, aquela luminosidade. A gente fica cego, não enxerga nada.” A granada explodiu poucos metros à frente do sargento. Gonzales foi ao chão. Começou a se debater. Olhou para os lados, não viu ninguém. Percebeu três furos no capote, sentiu sangue escorrer. Pensou que seria seu fim. “Fiquei ali com uma hemorragia tremenda, sem poder levantar. Fazia esforço, mas não conseguia, não conseguia.”

Brasileiros no rigoroso frio do norte da Itália

Devagar, Gonzales recuperou a força e “se safou dessa”. Foi para o hospital. De internação em internação, três anos se passariam. No acampamento de Riola Vecchia, deixou amigos, como o sargento Newton Lascalea, de 91 anos. “Também fui ferido. O estilhaço rasgou meu casaco e cortou meu braço.” Lascalea permaneceu até o fim da guerra com a companhia, que participou da tomada de Castelnuovo, combateu à leste de Montese, esteve nos combates de Zocca e participou do cerco aos alemães em Fornovo di Taro. Com a rendição alemã e o fim da luta na Itália, Atratino voltou à ravina onde deixara o amigo. A neve e o frio haviam conservado Duarte. Em 9 de maio, ele enterrou o tenente em Pistóia, com os demais mortos da FEB.

O BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – MILITARES BRASILEIROS TEMIAM UMA INVASÃO DA ARGENTINA

Não são tropas alemãs na frente da Casa Rosada apesar do capacete de estilo prussiano. São tropas argentinas desfilando na frente da Casa Rosada, o palácio presidencial, nos anos 40. Esse modelo de capacete perdurou até a segunda metade dos anos 50.

Documentos secretos revelam que Brasil não conseguiria conter um ataque no Rio Grande do Sul

FONTES – http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,militares-temiam-invasao-da-argentina,921562,0.htm E http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/peron-e-o-terceiro-reich/

O fantasma de uma possível invasão argentina assombrava as mentes dos militares brasileiros no período que antecedeu o início da 2.ª Guerra Mundial. Documentos secretos do Conselho de Segurança Nacional mostram que o governo brasileiro sabia que seria impossível impedir um ataque argentino pelo sul do País, tamanha era a fragilidade das tropas nacionais no local. Além disso, a precariedade do sistema ferroviário fazia com que o governo brasileiro tivesse a consciência de que tampouco seria possível organizar a tempo um contra-ataque contra os argentinos.

Documento de 11 de janeiro de 1938, classificado como secreto, trata dessa situação. Nele é proposta a construção de uma segunda via férrea até a região para garantir a mobilidade de transportes e, principalmente, das tropas brasileiras. “O Estado-Maior do Exército insiste pela realização desses empreendimentos, que solicita há vários anos, como imperiosamente necessários à defesa nacional”, diz o documento.

A Argentina não só recebeu refugiados, antes, abasteceu a Alemanha nazista com altos funcionários. O argentino que atingiu o cargo mais elevado foi Ricardo Walter Oscar Darré, que se tornou ministro da agricultura de Adolf Hitler. Darré, junto com Alfred Rosenberg (nascido na Lituânia), foi autor das leis raciais que condenaram à morte milhões de judeus, ciganos e demais civis que ele considerava “inferiores”.

O Conselho de Segurança Nacional simula nesse trabalho a eventual evolução das tropas argentinas, caso houvesse a decisão de ataque pelo Sul. “Em cerca de 40 dias, a contar da declaração de guerra, a totalidade do exército ativo argentino estará concentrado em Corrientes e poderá invadir o Rio Grande do Sul”, diz o texto. “Em face de tais possibilidades, quais são as do Brasil?”, questiona o conselho. “Como valor, o Exército de campanha brasileiro é muito inferior ao argentino”, define categoricamente o documento.

A partir daí, descreve em tom de angústia a incapacidade do Brasil em deslocar seus efetivos em tempo hábil para reagir à invasão dos vizinhos. “Em 270 dias, depois de declarada a guerra, a Argentina poderá ter no Rio Grande do Sul 12 divisões do exército, 4 de cavalaria e outros elementos. E o Brasil só poderá ter 7 a 8 divisões de infantaria e 3 de cavalaria. Quer isso dizer que dificilmente se poderá impedir a invasão do território brasileiro”, diz o estudo. “A situação é extremamente angustiante! Metade do Estado do Rio Grande do Sul terá sido perdido.”

Mapa que mostra o plano de Hitler para reconfigurar a América do Sul. O mapa foi encontrado em um táxi que bateu em Buenos Aires em 1941. Posteriormente, descobriu-se que havia sido forjado pela inteligência britânica. Mas, os historiadores indicam que, apesar da falsidade do mapa, ele ilustra bem como o vegetariano austríaco que transformou-se em genocida queria reconfigurar o mundo.
“Duvido que os alemães pensassem seriamente em uma invasão da América do Sul, mas fizeram o possível para estimular o surgimento de governos favoráveis ao Reich, de forma a incomodar os EUA”, afirma o historiador Uki Goñi.

Outro documento secreto de 7 de julho de 1937 já tratava do problema, recusando a proposta argentina de fazer parceria com Brasil e Uruguai para a construção de uma usina hidrelétrica no Rio Uruguai. Para o Conselho de Segurança, a obra só beneficiaria os argentinos e ainda ampliaria a superioridade estratégica do vizinho. O texto também analisa a proposta sob o ponto de vista militar. “Sob esse aspecto, o empreendimento é de todo desfavorável ao Brasil. Primeiramente, a Argentina possui organização militar e meios bélicos superiores aos do Brasil”, descreve. “No caso de guerra Brasil-Argentina, o Brasil não poderá utilizar a via marítima para levar tropas ao Rio Grande do Sul. A esquadra argentina, por ser mais forte que a nossa, barrará essa via.” / M.M.

O BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – CAÇA AOS ESPIÕES ALEMÃES NO BRASIL COMEÇOU ANTES DO CONFLITO

Aparelho achado no Rio servia para mandar informações a nazistas

Polícia política de Getúlio Vargas prendeu membros da inteligência alemã antes de o País declarar guerra

FONTE – http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,caca-a-espioes-alemaes-no-brasil-comecou-antes-do-conflito,921599,0.htm

Muito antes que o Brasil rompesse relações com o Eixo (Alemanha, Itália e Japão), em 28 de janeiro de 1942, a Abwehr, o serviço de inteligência militar alemão, já operava redes de espionagem a partir da comunidade germânica no Brasil. E, muito antes da declaração de guerra, em 22 de agosto, a maior parte dos integrantes já tinha sido presa pela polícia política de Getúlio Vargas. Segundo a historiadora Priscila Ferreira Perazzo, pesquisadora da espionagem alemã no Brasil na 2.ª Guerra, isso ocorreu porque a ação dos espiões já era monitorada havia anos.

“De 1939 a 1941, polícia e Itamaraty sabiam o que estava acontecendo, ficaram só monitorando esses grupos”, conta. “No início de 1942, a polícia sai numa caça. No primeiro semestre, essas redes são desmontadas.” Duas grandes operaram no Brasil. Uma foi chefiada por Niels Christian Christensen e tinha ligações com Rio e São Paulo; a outra era articulada por Gustav Engels, executivo da empresa alemã AEG, com ligações no Rio, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Espiões alemães também agiam em outros Estados. Informações eram passadas à Alemanha por radiotransmissores clandestinos.

Espiões Nazistas que agiam em Santos, São Paulo – Fonte – http://atdigital.com.br/historiasdesantos/?p=94

Um deles foi descoberto em 1942 com Frank Walter Jordan, no Rio. Em depoimento no Tribunal de Segurança Nacional (TSN) – com todas as reservas que merecem provas obtidas no Estado Novo, quando a tortura era corriqueira -, ele confessou ser espião. Ao delegado Aládio Andrade do Amaral, da Delegacia Especial de Segurança Política e Social (Desps), contou em agosto ser filiado ao partido nazista e ter integrado a marinha alemã, da qual teria sido excluído por se envolver em briga. Disse que, após viagem aos Estados Unidos, foi recrutado para o serviço secreto. Foram dois meses isolado, vivendo em hotéis, estudando criptografia e aprendendo a se disfarçar. No fim de 1940, foi mandado ao Brasil, onde deveria procurar algumas pessoas. Embarcou em Paris, levando uma estação transmissora. Acabou condenado pelo TSN.

Depois da guerra, espiões tiveram penas reduzidas e foram soltos. Segundo Priscila, a ação deles se deu em um quadro em que Vargas passara a reprimir comunidades estrangeiras que mantinham no País vida e cultura próximas das de suas nações de origem. /AUTOR – WILSON TOSTA

O BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – AVIÃO FEZ O PRIMEIRO ATAQUE DO BRASIL NA GUERRA

O B-25, bombardeio usado no primeiro ataque do Brasil na guerra – o alvo foi o submarino italiano Barbarigo- , patrulhou o oceano Atlântico a partir das base de Fernando de Noronha. Um desses também atuou na Itália como avião de transporte e apoio -REPRODUÇÃO/HERÓIS DOS CÉUS

Capitão-aviador Oswaldo Pamplona atacou submarino italiano três meses antes de o País declarar guerra

AUTOR – Marcelo Godoy

FONTE – http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,aviao-fez-o-primeiro-ataque-do-brasil-na-guerra,921227,0.htm

O céu estava limpo a cerca de 300 quilômetros de Fernando de Noronha quando, às 13h57, o

O céu estava limpo a cerca de 300 quilômetros de Fernando de Noronha quando, às 13h57, o capitão-aviador Oswaldo Pamplona avistou o alvo. Lá embaixo, com seus dois canhões de 100 mm e quatro metralhadoras, estava o submarino italiano Barbarigo, que atacara recentemente embarcações brasileiras na região. Era 22 de maio. Pamplona estava prestes a lançar o primeiro ataque brasileiro na guerra.

O capitão desceu até 900 pés (300 metros )de altitude e lançou 10 bombas de 45 quilos sobre a embarcação, danificando o submarino. O fogo antiaéreo italiano impediu ao capitão de verificar estragos feitos pelo ataque. Outros aviões tentaram localizar o Barbarigo em seguida, mas não conseguiram.

A ação no meio do Atlântico teria uma grande repercussão. Ela foi usada como pretexto pelo Alto Comando alemão para a ordem de se atacar indiscriminadamente os navios brasileiros – até então eles diziam que os ataques ocorriam por engano. Em três meses, a escalada levaria o Brasil a declarar guerra à Alemanha e à Itália.

A patrulha de nosso litoral envolveu diversos tipos de aviões. Duas bases em solo brasileiros foram entregues para os Estados Unidos – Belém e Natal – e pilotos daquele país também patrulharam nossa costa. Até o fim do conflito, o Brasil receberia mais de 400 aviões dos Estados Unidos. Além dos B-25, vieram Catalinas, Hudsons, Venturas e P-40.

O submarino italiano Barbarigo, no porto francês de Bordeaux.

Em 1943, com a decisão de se mandar tropas brasileiras para a guerra, foi criado o 1º Grupo de Aviação de Caça. O grupo treinou no Panamá e nos Estados Unidos. Em 6 de outubro de 1944, o grupo chegou à Itália, onde foi incorporado ao 350º Fighter Group da Força Aérea dos americanos.

Durante a guerra, o grupo executou  2.546 saídas ofensivas. Lançou 4.442 bombas nos inimigos e disparou mais de 1 milhão de tiros de metralhadora calibre .50. Oito pilotos brasileiros morreram na Itália e um durante treinamento no Panamá.

As fotos nesta página foram feitas pela Força Aérea Brasileira ou por seus pilotos. Parte delas pertence a acervos de pilotos como os brigadeiros José Meira Vasconcelos ou Rui Moreira Lima. Outras são da FAB e, por fim, algumas foram editadas no livro Heróis dos Céus, sobre a história de nossos pilotos na 2.ª Guerra Mundial.

avistou o alvo. Lá embaixo, com seus dois canhões de 100 mm e quatro metralhadoras, estava o submarino italiano Barbarigo, que atacara recentemente embarcações brasileiras na região. Era 22 de maio. Pamplona estava prestes a lançar o primeiro ataque brasileiro na guerra.

O capitão desceu até 900 pés (300 metros )de altitude e lançou 10 bombas de 45 quilos sobre a embarcação, danificando o submarino. O fogo antiaéreo italiano impediu ao capitão de verificar estragos feitos pelo ataque. Outros aviões tentaram localizar o Barbarigo em seguida, mas não conseguiram.

tribuna_illustrata_9_contando_os_feitos_do_barbarigo

A ação no meio do Atlântico teria uma grande repercussão. Ela foi usada como pretexto pelo Alto Comando alemão para a ordem de se atacar indiscriminadamente os navios brasileiros – até então eles diziam que os ataques ocorriam por engano. Em três meses, a escalada levaria o Brasil a declarar guerra à Alemanha e à Itália.

A patrulha de nosso litoral envolveu diversos tipos de aviões. Duas bases em solo brasileiros foram entregues para os Estados Unidos – Belém e Natal – e pilotos daquele país também patrulharam nossa costa. Até o fim do conflito, o Brasil receberia mais de 400 aviões dos Estados Unidos. Além dos B-25, vieram Catalinas, Hudsons, Venturas e P-40.

Em 1943, com a decisão de se mandar tropas brasileiras para a guerra, foi criado o 1º Grupo de Aviação de Caça. O grupo treinou no Panamá e nos Estados Unidos. Em 6 de outubro de 1944, o grupo chegou à Itália, onde foi incorporado ao 350º Fighter Group da Força Aérea dos americanos.

Durante a guerra, o grupo executou  2.546 saídas ofensivas. Lançou 4.442 bombas nos inimigos e disparou mais de 1 milhão de tiros de metralhadora calibre .50. Oito pilotos brasileiros morreram na Itália e um durante treinamento no Panamá.

As fotos nesta página foram feitas pela Força Aérea Brasileira ou por seus pilotos. Parte delas pertence a acervos de pilotos como os brigadeiros José Meira Vasconcelos ou Rui Moreira Lima. Outras são da FAB e, por fim, algumas foram editadas no livro Heróis dos Céus, sobre a história de nossos pilotos na 2.ª Guerra Mundial.

O BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – NO IMPROVISO, PAÍS SE UNE AOS ALIADOS


Marcelo de Moraes / BRASÍLIA

FONTE – http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,no-improviso-pais-se-une-aos-aliados,921558,0.htm

Documentos inéditos e classificados do Conselho de Segurança Nacional mostram como o Brasil estava despreparado para enfrentar a 2.ª Guerra Mundial e precisou recorrer aos Estados Unidos para conseguir enviar suas tropas para o combate na Europa. A decisão de participar da guerra fez com que o governo brasileiro se deparasse com a incrível falta de infraestrutura de suas tropas, deficientes em efetivos, armas, equipamentos e treinamentos. Os documentos, aos quais o Estado teve acesso, estão guardados no Arquivo Nacional, em Brasília, e foram liberados na íntegra graças à Lei de Acesso à Informação.

O Brasil declarou guerra à Alemanha em 1942, mas decidiu mandar tropas para o conflito apenas no ano seguinte. Documento de 2 de junho de 1943, classificado como secreto e enviado pelo Conselho de Segurança Nacional para o então presidente Getúlio Vargas, trata do acordo político-militar firmado com os Estados Unidos para o envio de tropas. No documento, o Brasil chega ao inusitado ponto de tentar escolher o local onde as tropas brasileiras iriam combater para evitar que os soldados nacionais sofressem com o frio europeu.

Segundo o documento, o Ministério da Guerra salientava “ser absolutamente imprescindível assentar, por uma questão de clima e condições mesológicas, que, em princípio, o emprego de nossa força expedicionária se restrinja à região sul mediterrânea da Europa”.

Nesse documento, o Ministério da Guerra também deixa clara a precariedade dos armamentos nacionais e pede que o governo avise os americanos sobre a questão. O texto diz que o Brasil deve “estipular, de modo explícito, o problema do armamento do Corpo Expedicionário, como dos demais elementos guarnecedores do território nacional”.

Getúlio Vargas no interior de navio de transporte de tropas, conversando com soldados brasileiros a caminho da Itália.

Outro documento reservado, enviado em 8 de novembro de 1943 pelo Conselho de Segurança Nacional para Getúlio Vargas, trata justamente da criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e narra a preocupação que o Ministério da Guerra tinha com as medidas que deveriam ser adotadas para evitar “os inconvenientes de uma improvisação”.

As deficiências brasileiras eram totais. Arquivo secreto de 5 de janeiro de 1944 mostra a solicitação do Ministério da Guerra para enviar à América do Norte um oficial para “estudar a organização da Infantaria do Ar – tropa especialmente adestrada para o transporte aéreo”. A exposição de motivos não poderia ser mais direta: os militares brasileiros simplesmente não tinham nenhum conhecimento sobre o uso militar de tropas de paraquedistas.

“Alega o senhor ministro que nada possuímos a respeito, não passando os exercícios de paraquedismo entre nós de meras demonstrações de eficiência dos aparelhos na salvação das equipagens de aviões no caso de acidente”, cita o texto do documento secreto.

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Coluna motorizada da FEB

A improvisação do governo brasileiro alcançava todas as suas áreas. Excertos tirados da Ata da Comissão de Estudos de Segurança Nacional mostravam a preocupação com abastecimento de alimentos para regiões do Brasil mais diretamente envolvidas com o conflito, como o Nordeste. A região era considerada um ponto estratégico nas operações militares e a comissão chegou a ter dúvida entre a fomentação de frigoríficos para estocar carne no Nordeste ou o incentivo a uma prosaica “indústria do charque”, carne menos perecível.

Rapadura. Se equipamentos e armas faltavam para as tropas, integrantes da comissão avaliaram que não poderia faltar também rapadura. Nessa reunião, os estudiosos consultados pelo governo defenderam a estocagem de gêneros e lembraram “ser a rapadura produto primordial na alimentação do nordestino”.

PROPAGANDA NO TEMPO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Autor – Rostand Medeiros

A arte de anunciar determinado produto para a venda, seja em revistas, jornais, televisão, etc., segue muito a tendência do momento.

Na época da Segunda Guerra Mundial, em meio ao afundamento de navios civis brasileiros, a morte de vários compatriotas no mar, a declaração de guerra do Brasil contra a Alemanha e Itália, os preparativos para a defesa, os blackouts, a ida da Força Expedicionária Brasileira e do 1º Grupo de Caça para lutar na Itália, muitos eram os jornais e revistas que ficaram repletos de propagandas que evocavam vários aspectos bélicos daqueles dias sombrios.

Vejam alguns exemplos….

O “V” da vitória.

Este era o principal símbolo dos aliados, o “V” da vitória, aqui mostrado também na forma reproduzido no código Morse, três pontos e um traço. Neste período era muito comum, principalmente depois da declaração de guerra, uma grande quantidade de peças publicitárias de produtos importados dos Estados Unidos. O Veedol Motor Oil era um produto da Tidewater Petrolium, atualmente pertencente ao Grupo Texaco.

Propaganda de armas era comum.

Era grande a quantidade de propagandas com armamentos produzidos pelos americanos, onde muitos nem sequer foram utilizados pelas Forças Armadas do Brasil. Mas o avião mostrado acima, o Lockheed Hudson, fabricado pela Lockheed Corporation, foi utilizado pela FAB. 

Seu projeto original era de um avião de uso civil, desrinado ao transporte. Mas com as devidas alterações se tornou uma boa máquina de guerra. Um deles foi o primeiro avião da Marinha Americana (U.S. Navy) a afundar um submarino naquele conflito.

A população brasileira se militarizava.

Com a participação brasileira no conflito se tornou comum que o vestuário local tivesse um corte, ou acessórios, com característica mais militar. Como na época, mesmo sem os atuais problemas na camada de ozônio, era generalizado a utilização de chapéus, nada melhor do que vender um produto condizente com o conturbado momento. Mesmo que belicamente não tivesse nenhuma utilidade.

Até a Loteria Federal se aproveitou do momento militarizado para vender seus jogos.

Era um trambolho, mas necessário naqueles dias.

Em 1940 a população brasileira era de 41 milhões de pessoas e possuía uma frota que girava em torno de 250.000 veículos. Todos os veículos que circulavam no país eram importados, já que as fábricas apenas montavam os automóveis por aqui e não produziam suas peças. Apesar de haver duas refinarias de petróleo no Rio Grande do Sul, grande parte da gasolina era importada e muito deste combustível ainda era distribuído em latas e tambores. Com a eclosão da guerra, a gasolina se tornou mais difícil e o jeito para rodar de carro foi através do gasogênio, onde seu uso era incentivado pelo governo.

Utilizando madeira e carvão para produzir gás dentro de geradores, que normalmente ficavam na parte traseira dos veículos, eram bastante úteis. Havia gasogênios de todos os tipos; os que eram colocados em reboques, na parte dianteira dos carros, compactos e colocados nos porta malas. Não era um negócio fácil de manusear, mas quem tinha veículo particular e não tinha gasogênio, não estava participando do “esforço de guerra” e podia ser tachado de estar “ajudando o inimigo”.

Agradecimento aos países abaixo do Rio Grande.

Esta imagem, de uma empresa americana fabricante de pneus, que se tornou a Uniroyal e hoje pertence ao grupo francês Michelin, mostra uma situação comum na época; muitas peças publicitárias de empresas dos Estados Unidos, agradecendo aos povos da América Latina pela participação no esforço de guerra. Mas tem um detalhe – não se vê a bandeira da Argentina na foto acima. A razão foi porque este país só declarou guerra à Alemanha em 1945 – declaração meramente formal, como condição para a sua entrada na recém-criada ONU.

Muitas peças publicitárias davam a ideia que a guerra estava perto de casa.

Ter seus trabalhadores servindo na FEB era um bom negócio em termos propagandísticos.

A peça publicitária acima mostra como era positivo para muitas empresas ter seus trabalhadores servindo na Itália e continuar pagando integralmente seus salários. E elas faziam questão de divulgar isso, pois publicavam nos jornais fotos onde mostravam os seus diretores entregando os salários dos militares engajados as suas esposas, ou seus pais.

Até mesmo produtos de empresas que a maioria das pessoas não tinham contato, como os de aviação, faziam questão de divulgar suas peças de propaganda com um viés bastante militarizado.

Até na propaganda de um simples remédio para a dor de cabeça, tinha de algo que lembrasse o conflito.

Mesmo as revistas e seções de jornais que tratavam da moda feminina na época, sempre tinham um cenário que evocavam o conflito.

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A VERSATILIDADE DOS JEEPS

O modelo da foto é um dos últimos a serem fabricados. Já apresentava recursos e dispositivos que os Jeeps comuns não possuíam, como rodas mais altas, limpador de para-brisa com motor, guincho e para-choque reforçado.

Por longo tempo os serviços de mensageiro e de batedor do Exército dos Estados Unidos da América do Norte foram realizados por homens montados a cavalo. As trilhas que os mensageiros e os reconhecedores seguiam eram muito acidentadas e nada recomendadas para charretes e diligências. Posteriormente, estas atividades passaram a ser desenvolvidas por motociclistas. Entretanto, as motos eram do tipo “side car” e tinham limites para transporte de pessoal e material. Interessado em utilizar um veiculo de reconhecimento leve, rápido e capaz de trafegar em qualquer terreno, o Exército norte-americano lançou um desafio a 135 fabricantes de automóveis dos Estados Unidos, expresso em um edital datado de 11 de julho de 1940, nos seguintes termos: a viatura deveria ser fabricada em aço estampado, ter tração nas 4 rodas, capacidade para 3 passageiros, pesar no máximo 600 kg , potência máxima do motor de 40 HP, velocidade máxima de 80 km/h, transportar no mínimo 300 kg e estar adaptada com uma metralhadora de 30 mil. As empresas interessadas deveriam apresentar o protótipo do veiculo 49 dias após o lançamento do edital e entregar 70 viaturas 75 dias após atender a primeira exigência. A empresa American Bantam Car Company foi a primeira a fabricar seu protótipo identificado como MK II, entregando-o ao Exército dos Estados Unidos no dia 23 de setembro de 1940. O pequeno MK II foi submetido a rigorosos testes em mais de 5.000 km de estradas de chão e considerado apto.

O modelo MK II fabricado pela Americam Bantam Car Companhy, apelidado General Purpose é rigorosamente o primeiro veículo que ficou mundialmente conhecido como Jeep. A empresa norte-americana certamente foi preterida por razões ainda não convincentes.

A Willys-Overland Company só apresentou o modelo “Quand” em 11 de novembro de 1940. O modelo da Ford, batizado como Ford GP “Pygmy” foi entregue em 23 de novembro do citado ano. Os modelos da Willys e da Ford eram muito parecidos com o MK II da American Bantam Car Company. Por ser arrojado e capaz de trilhar terrenos ingrimes e lamacentos, satisfazendo assim os interesses dos militares, o MK II foi apelidado de General Purpose, alcunha do personagem Eugene do desenho animado Popeye, que fazia sucesso desde 1936, ano de seu lançamento. O pequeno personagem correspondia a um animal com poder de viajar entre as dimensões e resolver todos os tipos de problemas. General Purpose significa “fim geral” em inglês e no desenho era referenciado como Gee Pee, nome das letras G e P. Entretanto, no seio da população a letra G era pronunciada como se fosse um J. Assim, o veiculo ficou popularizado como Jeepee, evoluindo para Jeep. No quesito motor o modelo da Willys levava grande vantagem porque tinha 60 HP contra 46 HP da Ford e 45 HP da American. O motor Go Devil fabricado pela Willys podia alcançar a velocidade máxima de 118hm/h e percorria até 38 km queimando um galão de gasolina. Para que o modelo da Willys apresentasse rendimento ainda mais satisfatório, seu motor foi totalmente desmontado e as peças avaliadas uma a uma. Como forma de conciliar uma forte animosidade que surgia entre as empresas que fabricaram protótipos, o Exército Norte-Americano encomendou 1.500 veículos a cada companhia, perfazendo o total de 4.500 unidades Quando os Estados Unidos passaram a participar da Segunda Guerra Mundial, a partir de dezembro de 1941, a produção de Jeeps alcançou índices bem elevados. A 23 de julho de 1941, o Corpo de Intendência do Exército concedeu a Willys-Overland Motors o contrato para a fabricação de 16 mil veículos do modelo Willys MA.

Modelo Willys MB ou Mobel B pode ter sido concebido a partir do modelo MK II. A Willys-Overland só entregou seu protótipo ao Exército dos Estados Unidos depois que a American Bantam o fez rigorosamente dentro do prazo exigido.

Este modelo sofreu alterações dando origem ao modelo Willys MB (Model B) com a forma com que ficou conhecido no mundo. O carro da Willys ganhou a preferência dos militares, tanto que, no decorrer da Segunda Guerra Mundial, mais de 660 mil unidade do modelo Willys MB Track ¼, 4/4 foram utilizadas nas operações de campanha bélica. Ainda no fluxo de 1941, o modelo MB ganhou grades dianteiras em aço soldado, igual a uma grelha e ficou conhecido popularmente como “Slatt Grill”. Estima-se que ainda rodem pelo mundo cerca de 200 veículos.

Modelo MB da Willys Overland que foi fabricado em série por ela e pela Ford.Is Jeeps fabricados pela Ford eram obrigados a ter na lataria as letras GPWs, com o W evidenciando que a viatura decorria de um modelo da Willys. O Jeep foi preparado para enfrentar terrenos hostis, possuindo machado, pá e um holofote sobre o para-lama dianteiro esquerdo.

Em outubro de 1941, forçado pela grande procura de Jeeps, o governo americano fez um acordo com a Willys-Overland para que ela entregasse a um segundo fabricante o projeto e as especificações do modelo MB, ficando-lhe assegurado o direito de produzir pelo menos a metade das encomendas. O segundo fabricante em questão era a Ford, que a contar do dia 10 de janeiro de 1942, iniciou a produção de 15 mil GPWs. A letra W que figurava no modelo significava “padrão Willys”. Até dezembro de 1945, a Willys e a Ford fabricaram 640 mil Jeeps.

Modelo MB fabricado pela própria Willy e que foi exaustivamente utilizado pelos exércitos estadunidense, inglês e brasileiro na II Guerra Mundial e no pós guerra.

Foram Jeeps deste modelo que a Força Expedicionária Brasileira-FEB recebeu como doação do governo dos Estados Unidos. As tropas brasileiras integraram o contingente do V Exército Norte-Americano durante a campanha da Itália. O número total de Jeeps ¼ toneladas foi da ordem de 655, havendo entre eles 9 ambulâncias. Em 1942, a Willys produziu o Jeep mais prestigiado pelos Exércitos dos Estados Unidos e Inglês, o MB42, considerado o modelo mais clássico.

Jeeps da Força Expedicionária Brasileira por ocasião da II Guerra Mundial. O valente Jeep MB transportava até cinco pessoas.

Após o encerramento do grande conflito, as viaturas que se apresentavam em perfeita condição de uso foram trazidas para o Brasil. Em 1950, a Willys registro a marca Jeep, mantendo-a até 1953, quando a vendeu para Henry J. Kaiser Motors. A Kaiser Motors introduziu no mercado automobilístico os modelos CJ 5  e CJ 6, que foram fabricados até o ano de 1986. Atualmente a marca Jeep pertence à Daimler-Chrysler depois de ter passado pelo controle acionário da American Motors Corporation e da Chrysler.
 
                        A WILLYS-OVERLAND DO BRASIL

O modelo CJ 5 foi o último a ser fabricado peal Ford do Brasil depois de ter assumido o controle acionário da Willys Overland do Brasil.

A Willys-Overland do Brasil foi fundada em 26 de agosto de 1952, na cidade paulista de São Bernardo do Campo. Em 1954, a empresa deu origem a produção de veículos com o nome de Jeeps Universal, correspondendo ao Jeep Willys modelo CJ 5, montados com peças trazidas dos Estados Unidos. Do ano de 1957 até 1959, quase todas as partes do veiculo foram fabricadas no Brasil. A partir de 1959, até o motor já era de fabricação brasileira. Em outubro de 1967, a Ford do Brasil assumiu o controle acionário da Willys-Overland do Brasil, herdando as marcas Jeep, Rural Willys, Pick-Up Willys, Aero-Willys, Itamaraty, Gordini e Interlagos. Em 1970, a Ford deixou de fabricar o Jeep e o Aero-Willys. Em 1986, quando a marca Jeep se encontrava sob controle da Kaiser Motors, a linha CJ foi substituída pela linha Jeep Wrangler. Coube a Daimler-Chrysler, em 2002, trazer de volta a marca overland, utilizada no Jeep Grand Cherokee.
Autor – Nilson Montoril (Fonte – http://montorilaraujo.blogspot.com.br)

Propaganda do jeep.

AVIÃO P-40 DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL ENCONTRADO NO DESERTO DO SAARA 70 ANOS APÓS SEU DESAPARECIMENTO

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Quem olhar de relance as fotos deste texto, pode até pensar que é uma grande tolice tanto material por uma aparente “sucata” no meio do nada. Mas na verdade esta é uma verdadeira cápsula do tempo na forma de um avião de caça da Segunda Guerra Mundial, descoberto em pleno deserto do Saara em março de 2012.

A descoberta foi feita por Jakub Perka, um funcionário de uma empresa de exploração de petróleo polonesa, que atuava com a sua equipe em uma expedição na região oeste do Egito. A importância deste achado se deve principalmente pela preservação dos vestígios e legibilidade dos sinais de identificação, o que permitiu encontrar a história do avião, do piloto e dos relatórios originais da queda no deserto.

O modelo da aeronave é um Curtiss P-40 Kittyhawk III, fabricado nos Estados Unidos, mas que pertencia em 1942 ao 260º Esquadrão da RAF, a Royal Air Force, como é conhecida a força aérea da Inglaterra. Há 70 anos este caça atuava no Norte da África, durante os encarniçados combates entre tropas aliadas contra alemães e italianos, por aquele pedaço esquecido do mundo.

Mas como aquele avião foi parar naquele local?

Um Estranho Voo

Em meados de 1942, as forças aliadas no Norte da África estavam em retirada ante o avanço implacável do general alemão Erwin Rommel, o famoso estrategista que ficou conhecido como a “Raposa do Deserto” e que comandava o “Afrika Korps”.

Sgt. Dennis Charles Hughmore Copping

No início da tarde do dia 28 de junho de 1942, um domingo, os Sargentos de Voo (Flight Sergeant) do 260º Esquadrão da RAF, Dennis Charles Hughmore Copping e W.L. “Shep” Sheppard tinham ordens para voar com dois P-40s que seguiriam para uma revisão. Eles partiriam da base aérea LG-100, próximo a linha de combate, até a base aérea LG-085, localizada próximo a estrada Cairo-Alexandria. Depois retornariam com dois aviões do mesmo tipo para o ponto de partida.

Dennis Copping em um P-40

Nada mais que uma simples missão de traslado. Ida e volta em 30 a 40 minutos e tudo estava terminado. Mas não foi tão simples assim!

Consta no relatório existente que Sheppard estava pilotando uma aeronave que se encontrava com as asas danificadas por causa de uma batalha aérea que havia acontecido naquela mesma manhã de 28 de junho. Para fazer o avião voar, o pessoal de terra preencheu os orifícios de balas com sacos de areia e cobriu tudo com tecido. Já o P-40 de Copping teve impactos na fuselagem com estilhaços de fogo antiaéreo e ele voaria com o trem de pouso baixado, possivelmente porque o sistema hidráulico foi danificado e não podia recolher. Copping, com muito mais experiência de voo que Sheppard, seria o líder.

Vários P-40 do 260º Esquadrão da RAF, a Royal Air Force

Na necessidade do conflito e para estarem com suas máquinas aéreas prontas para novos combates, os pilotos ingleses se arriscavam em voos com estas aeronaves em estado precário. Mas alguém tinha de cumprir este tipo de missão!

Vinte minutos após a decolagem, Sheppard percebe que algo está errado. Para sua surpresa o experiente Copping segue em direção ao oeste, entrando direto para o coração do deserto e em uma área controlada pelos inimigos, quando deveria seguir em direção leste.

No início o pensamento de Sheppard era que Copping estava tentando evitar as posições alemãs existentes nas proximidades da LG-100, já que ambos voavam com metralhadoras desativadas e não poderia se defender se fossem interceptados por combatentes inimigos.

Sheppard confere várias vezes a sua bússola e vendo que Copping não altera o curso de sua aeronave, decidiu chamar pelo rádio, quebrando o silêncio obrigatório ao voar sobre o território inimigo para escapar à detecção. Sheppard alerta seu companheiro que ele está seguindo o curso errado, mas Copping não responde. Então Sheppard, aproximou seu avião e por 15 minutos ficou acenando com as mãos, indicando que o líder estava indo na direção oposta. Naquele momento eles estavam a 35 minutos no ar e já deveriam ter chegado ao destino. Copping parecia não ter mais a mínima noção do plano de voo.

Copping diante de um Curtiss P-40

Em seu relatório posterior aos eventos, Sheppard narrou que tomou uma decisão extrema. Ele colocou seu aeroplano em frente do avião de Copping e manobrou indicando para que ele o seguisse, mas nada aconteceu. Sheppard afirmou que repetiu a mesma manobra, mas Copping novamente não alterou seu rumo e Sheppard foi forçado a deixá-lo sozinho e apontou o nariz do seu P-40 em direção leste.

Sheppard voou verificando a todo momento a sua bússola e a posição do sol, rezando para está correto. Aventurou muito perigosamente dentro do deserto do Saara e até mesmo temeu por sua vida. Finalmente visualizou a Depressão Qattara, um ponto geográfico que confirmou a sua posição, lhe permitindo localizar o rio Nilo e ir para LG-100, depois de passar quase duas horas no ar.

Um P-40 da RAF, derrubado pelos alemães na Sicília, é examinado por soldados americanos

Após o desembarque os comandantes de base perguntaram onde estava o outro P-40 e Sheppard só pode explicar o infeliz acontecimento, em seguida, foi enviado para se refrescar com um chá e seguiu para o médico. Depois de longas horas de espera, Copping não deu nenhum sinal de vida. Aquela altura seu avião já tinha esgotado todo o seu combustível e caído sobre as dunas do deserto.

Ao piloto Sheppard foi ordenado seguir o plano de voo original. Ele pegou um avião substituto e o levou ao LG-085, onde se encontrou com o Comandante Wilmot e teve que elaborar um relatório sobre o que aconteceu com seu parceiro.

Em seguida praticamente não houve nenhum esforço para resgatar Copping, cujo caso foi imediatamente esquecido em meio ao caos vivido durante a retirada diante do avanço do Afrika Korps. Se ele tivesse sobrevivido, teria ficado muito atrás das linhas inimigas e se tivesse sido encontrado por alguém, seria pelo exército alemão.

Indícios Apontam que Copping Sobreviveu ao Acidente

As razões para a pretensa desorientação do piloto inglês provavelmente jamais serão conhecidas, mas os restos do seu avião apontam que ele sobreviveu a queda. Nas fotos podemos ver que ele era um bom piloto, pois conseguiu pousar em meio a uma região com bastante rochas e não capotou o P-40.

Depois de examinar os restos do avião, que repousam na área conhecida pelos egípcios como Al Wadi al Jadid, percebe-se que o painel de instrumentos foi encontrado intacto.

Foram encontradas evidências de um acampamento perto da fuselagem, os restos de paraquedas teria sido aberto e utilizado como uma tenda improvisada e o rádio, juntamente com as baterias da aeronave foram retiradas. Provavelmente Copping tentou pedir ajuda, sem sucesso. Nas fotos o transmissor está na areia. Equipamentos e controles do avião foram encontrados espalhados em volta da nave no local do acidente.

Rádio do avião na areia

A equipe de Jakub Perka afirma que pesquisou uma área de 30 quilômetros no entorno do P-40, mas o corpo do piloto não foi localizado. Acredita-se que Copping, sabendo que não seria resgatado, tentou desesperadamente fazer uma viagem de retorno impossível, perecendo ao longo do caminho, pois estava a 320 km de qualquer vestígio de civilização.

El Alamein War Cemetery

Dennis Charles Hughmore Copping  era filho de Sydney Omer Copping e Adelaide Copping, nasceu em Southend-on-Sea, Essex, oeste da Inglaterra. Mesmo sem um corpo, seu nome está cerimoniosamente gravado no Painel 249, do El Alamein War Cemetery, localizado a 130 quilômetros de Alexandria, no Egito.

O Caça P-40 na África

Os aviões de caça P-40 ganharam destaque quando foram pilotados pelo homens do “Flying Tigers”, um famoso esquadrão de pilotos voluntários americanos que lutaram na China contra os japoneses, antes dos Estados Unidos entrarem oficialmente em guerra.

Cofre de munição .50

A única vantagem que o P-40 tinha contra os poderosos caças japoneses Zero era a sua velocidade de mergulho, mas em 1942 o avião já estava bastante defasado e começaram a ser substituídos por outros aviões de caça.

Na Europa esta aeronave estava completamente abaixo dos caças alemães Messerschmitt Me-109 e Focke-Wulf FW-190 e eram utilizados principalmente no reconhecimento e ataque ao solo. Em 1942, a RAF enviou a versão “D” para a África.

Durante os meses críticos de 1942, quando a derrota para os inimigos era evidente, um caça modelo P-40D ainda poderia com algum sucesso ser bater em um duelo contra um Messerschmitt Me-109E, isso se o combate fosse a cerca de 4.000 metros de altitude. Logo novos caças alemães chegariam ao Norte da África e o P-40 começou a sofrer duras derrotas, sendo substituído por versões do Supermarine Spitfire tropical. Já em confrontos com os italianos, que possuíam aeronaves tecnicamente mais fracas, os P-40s ainda eram um avião superior.

Segundo o Smithsonian Institution, de Washington, Estados Unidos, entre 1939 e 1944 foram fabricados 13.737 aeronaves Curtiss P-40, de vários modelos. Atualmente cerca de 30 ainda estão perfeitas condições de voo e a Força Aérea Brasileira chegou a utilizar este avião.

Um P-40 que chegou ao século 21 e com pintura similar a que era utilizada pelo avião encontrado no deserto

Tentativa de Resgate Antes Que se Perca Totalmente o P-40

O Museu da RAF localizado em Hendon, norte de Londres, tomou conhecimento da descoberta e planos já estão em andamento para recuperar a aeronave antes que alguém tenta tirá-lo para usar como sucata ou lembranças.

O capitão Paul Collins, adido de defesa inglês para o Egito, confirmou ao jornal londrino Daily Mail que uma pesquisa seria montada para recuperar os restos mortais do aviador, mas admitiu que era “extremamente improvável” que a empreitada fosse bem sucedida. O local poderia ser marcado como um túmulo de guerra depois que a aeronave fosse recuperada.

Um dos trens de pouso do P-40, perdido no choque com o solo

O Capitão Collins acrescentou ao jornal que o local do acidente está perto de uma linha de contrabando que liga o Sudão a Líbia e que para ir ao ponto exato teriam de contar com o apoio e a proteção do exército egípcio. Ian Thirsk, do Museu da RAF, confirmou que trabalha conjuntamente com o Ministério da Defesa da Inglaterra para recuperar o avião.

Parte do paraquedas que pode ter sido utilizado como abrigo improvisado para suportar o calor que pode chegar a 50 graus

Infelizmente ninguém sabe ao certo o que restará para ser resgatado. A aeronave foi completamente saqueada antes que pudesse ser realizado o seu regresso. Membros do exército egípcio removeram a munição das metralhadoras para evitar um acidente. Historiadores temem que o governo britânico esteja levando muito tempo para recuperar o avião de guerra.

Pesquisadores apontam que um dos principais indícios que durante 70 anos ninguém esteve junto a este avião está no fato de haverem sido encontrados as munições nos cofres das metralhadoras intactos. Pois em uma região com tantos conflitos após a Segunda Guerra Mundial, este material bélico certamente já teria sido a muito retirado.

Foto de satélite que mostra o P-40 no deserto

Fotos: Jakub Perka/BNPS – via Daily Mail (UK).

Material Pesquisado e outras fotos-

http://www.viafanzine.jor.br/site_vf/aerov/legendarios.htm

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2142300/Crashed-plane-Second-World-War-pilot-Dennis-Copping-discovered-Sahara-desert.html?ito=feeds-newsxml

http://www.vintagewings.ca/VintageNews/Stories/tabid/116/articleType/ArticleView/articleId/357/language/en-CA/Original-Kittyhawk-HS-B-Discovered.aspx

http://compendiummagazine.com/p-40-de-la-segunda-guerra-mundial-encontrado-en-el-sahara-70-anos-despues-de-su-desaparicion

http://www.thesun.co.uk/sol/homepage/news/4312635/Sergeant-Dennis-Copping-is-the-pilot-from-42-whose-plane-was-found-70-years-after-he-crashed-in-the-desert.html

http://www.iwm.org.uk/collections/search?filter%5BagentString%5D%5B0%5D=%22Royal%20Air%20Force%2C%20260%20Squadron%22&query=

http://www.arido.eu/clamoroso_ritrovamento.html

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ELEANOR ROOSEVELT E PARNAMIRIM FIELD COMO A MAIOR BASE AÉREA DOS AMERICANOS NA II GUERRA MUNDIAL

Eleanor Roosevelt

Eleanor Roosevelt era a esposa do presidente dos Estados Unidos Franklin Delano Roosevelt (1882 – 1945).  Conhecida pela sua ação em ajudar os mais necessitados através da caridade, foi também autora e uma defensora incansável das causas sociais.

Em 1944 esta brilhante mulher esteve em Natal, visitando Parnamirim Field e autoridades locais.

Anna Eleanor Roosevelt nasceu em New York, em 11 de outubro de 1884. Sua família era financeiramente estável, mas perturbada. Seu pai era Elliott Roosevelt, o irmão mais novo do ex-presidente americano Theodore Roosevelt (1858-1919). Apesar de bonito e charmoso, Elliott sofria de depressão mental e alcoolismo. Já a mãe de Eleanor estava preocupada com a imagem da família na alta sociedade e transmitia extrema vergonha pela aparência física de Eleanor, que não foi considerada bonita.

Na época da escola

Embora o pai de Eleanor fosse considerado ausente, ela o considerava um pai maravilhoso e fascinante. Quando Eleanor era uma criança, seu pai entrou uma instituição para alcoólatras. Foi uma das muitas perdas iniciais para a jovem, cuja mãe morreu quando ela tinha apenas oito anos de idade. Após a morte de sua mãe, Eleanor e seus dois irmãos mais novos foram viver com sua avó materna, em Nova York. Pouco tempo depois o irmão mais velho morreu. Quando Eleanor ainda não havia completado 10 anos, ela soube que seu pai havia morrido. Sua avó abrigou-a de todo o contato exterior, exceto para os amigos da família.

Eleanor Roosevelt começou a descobrir um mundo além de sua família depois de frequentar uma escola para mulheres jovens na, Inglaterra, quando tinha 15 anos de idade. Para ela a sua escola lhe ensinou um sentido maior de responsabilidade com a sociedade. Eleanor começou a agir de acordo com este ensinamento depois de seu retorno a Nova York. Mergulhou no trabalho em pról dos mais carentes. Ao mesmo tempo, seu primo, alto e bonito, Franklin Delano Roosevelt, começou a cortejá-la. Eles se casaram em março de 1905. Eleanor tinha agora de lidar com uma avó controladora e com um marido que gostava de estar em público e que realmente não entendia a luta de Eleanor para superar sua timidez e insegurança.

Os Rosevelt. Uma relação bem longe da perfeição.

Entre 1906 e 1916, os Roosevelt tiveram seis filhos, um dos quais morreu quando criança. A família viveu em Hyde Park, Nova York, enquanto Franklin focava em suas ambições políticas para se tornar uma figura importante no Partido Democrata. Ele exerceu um mandato de Senador pelo estado de Nova York no senado americano, antes do presidente Woodrow Wilson  nomeá-lo como secretário assistente da Marinha em 1913. Embora Eleanor tenha realizado muitos trabalhos voluntários pela Cruz Vermelha durante a I Guerra Mundial (1914-18), ela permaneceu fora do olho público.

Um importante ponto de mudança na vida de Eleanor veio em 1921, quando Franklin contraiu poliomielite e sofreu de paralisia e perdeu a mobilidade das pernas. Eleanor fez tudo para o marido volta à atividade política. Dentro de poucos anos havia recuperado sua força e ambições políticas. Enquanto isso, Eleanor tinha-se tornado uma importante figura pública, trabalhando para um maior envolvimento ativo das mulheres em vários setores do governo. Ela começou a agir como se fosse as “pernas e ouvidos” do depois que Franklin tornou-se governador de Nova York em 1928, Ela se manteve muito ocupada inspecionando hospitais estaduais, casas e prisões.

No final de 1930 os tambores de guerra ecoavam e mostravam que os Estados Unidos seguia para a luta.

Eleanor Roosevelt falou vigorosamente em favor da política externa de seu marido.  Depois que os Estados Unidos entraram formalmente a Segunda Guerra Mundial em dezembro de 1941, ela fez várias viagens ao exterior para impulsionar os espíritos de soldados e de inspecionar as instalações da Cruz Vermelha.

Eleanor em diálogo com o Brigadeiro Eduardo Gomes e o Bispo de Natal, Dom Marcolino Dantas

Eleanor Roosevelt visitou o Brasil entre 14 e 17 de março de 1944, onde visitou Belém, Natal e Recife. Na capital potiguar ela visitou a Base de Parnamirim, esteve com autoridades locais. Esteve na sede do USO, o clube de recreio dos militares americanos, que ficava na praça Augusto Severo, por trás da antiga Rodoviária, no bairro da Ribeira. Ali ela foi reconhecida e ovacionada por muitos natalenses. Esteve também na Base Naval de Natal, onde elogiou as instalações.

Condecorando oficiais da US Navy em Parnamirim Field

Um fato interessante foi que para os jornalistas a Sra. Eleanor Roosevelt afirmou (e assim foi reproduzido) que a base aérea de Parnamirim era “A mais bem equipada do Mundo”. Mesmo reproduzindo o que ela disse, os jornalistas locais claramente se empolgaram e lascaram em letras destacadas “A maior base do Mundo”. E parece que a coisa pegou.

Eu entendi que aparentemente na época ninguém leu o conteúdo e ficaram nas letras destacadas.

Muita gente fala até hoje sobre isso, mas eu pessoalmente nunca vi nenhum documento de lá, informando, ou corroborando a informação que Parnamirim Field foi a maior base aérea norte-americana em atividade na Segunda Guerra.

Maior base?

A escritora Clarice Lispector, em uma carta endereçada a Elisa Lispector e a Tania Kaufman, em Belém, no dia 18 de março de 1944, fez os seguintes comentários sobre Eleanor Roosevelt, que está reproduzida no  livro “Clarice Fotobiografia”,  de autoria Nádia Battella GOTLIB e publicado pela Editora da USP.

“… A senhora Eleanor Roosevelt passou por aqui. Fomos convidados para recebê-la no aeroporto e para ir à recepção dada a ela. Fui com meu vestido preto. Ela é simpaticíssima, muito simples, vestida com muita modéstia, bem mais bonita pessoalmente do que nas fotografias e no cinema. No dia seguinte, ela deu entrevista coletiva à imprensa, eu fui, mandei noticiário telefônico para A NOITE, mesmo estando de licença porque não queria perder a chance”.

Depois de Franklin Roosevelt morreu no cargo em abril de 1945, esperavam que Eleanor se retirasse para uma vida privada e tranquila. No entanto, até o final do ano, ela estava de volta em público. O novo presidente dos Estados Unidos, Harry S. Truman a indicou co0mo representante americano para a Comissão das Nações Unidas sobre Direitos Humanos. Ela permaneceu no cargo até 1952. Mais tarde, ela continuou a trabalhar para a compreensão e cooperação internacional, atuando como um representante da Associação Americana para as Nações Unidas.

Durante a última década de sua vida Eleanor Roosevelt viajou para vários países estrangeiros, incluindo a temida União Soviética. Ela completou sua Autobiografia em 1961.

Ela morreu em Nova York, em 06 de novembro de 1962.

Apesar de sua infância tímida e solitária, Eleanor Roosevelt tornou-se uma das mulheres mais importantes do século XX e sua ação inspirou milhares de mulheres.

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A PRIMEIRA NOTÍCIA SOBRE A BASE AÉREA DE NATAL – 70 ANOS DE MUITA HISTÓRIA

 UM LUGAR SIMPLESMENTE CONHECIDO COM “A BASE” 

A primeira página da edição de 3 de março de 1942 do jornal “A Republica” mostra em destaque a primeira notícia sobre a criação da Base Aérea de Natal (BANT), ou simplesmente “A Base” para os natalenses.

Esta importante unidade militar, onde tantos potiguares serviram, ganhou um espaço na história durante a Segunda Guerra Mundial.

Brasileiros e norte-americanos trabalhando em conjunto no reabastecimento de aviões durante a guerra

Foi criada no dia 2 de março de 1942, e ativada em 7 de agosto do mesmo ano, pelo Decreto Lei nº 4.142, assinado pelo então ministro da Aeronáutica do governo do presidente Getúlio Vargas, Salgado Filho. Em novembro do mesmo ano, passaram a conviver no mesmo aeródromo duas unidades militares, uma norte-americana e outra brasileira.

A brasileira ficava localizada no chamado Setor Oeste do aeródromo, e a americana no Setor Leste. O local era conhecido como “Trampolim da Vitória”, assim chamado por ser ponto obrigatório de passagem das aeronaves aliadas que se destinavam ao Teatro de Operações da África e da Europa.

Militares dos Estados Unidos e do Brasil no portão principal da base aérea

No período da 2ª Guerra, a Força Aérea Brasileira e a Marinha atuavam nas missões de patrulhamento e de cobertura a navios ou comboios, em cooperação com as forças navais e aéreas norte-americanas.

Movimentação de grandes bombardeiros

Em 1946, com o término do conflito, a Bant passou a ocupar as instalações da base americana e, no decurso do tempo, a Organização teve diferentes finalidades: Centro de Instrução Militar e Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM), Centro de Aplicações Táticas e Recompletamento de Equipagens (Catre), e Comando Aéreo de Treinamento que, em 1° de janeiro de 2002, foi desativado e em seu lugar foi reativada a Base Aérea de Natal.

Subordinada ao Segundo Comando Aéreo Regional (Comar II), em Recife, órgão coordenador de todas as unidades da Força Aérea Brasileira na região Nordeste, a Base tem hoje a missão de apoiar as unidades de aeronáutica que nela operam.

Manutenção

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AS CORES NA RAMPA E NA BASE DE PARNAMIRIM DURANTE A II GUERRA

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Autor – Rostand Medeiros

A grande maioria dos potiguares e os entusiastas da história da aviação no Brasil sabem perfeitamente o significado de Rampa e da Base de Parnamirim.

A Rampa foi uma base de hidroaviões localizada no estuário do Rio Potengi, em Natal. Construída antes da Segunda Guerra Mundial foi utilizada durante este conflito principalmente como uma unidade de apoio a hidroaviões da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy).

Área onde se localizava a antiga base de hidroaviões conhecida como Rampa, no Rio Potengi. É possível ver um hidroavião PBY Catalina pousado e amarrado – Fonte – Coleção do autor.
Já a Base de Parnamirim, ou Parnamirim Field, assim como a Rampa, foi primeiramente um empreendimento civil. No caso de Parnamirim era um campo de pouso desenvolvido por franceses na década de 1920, que foi se desenvolvendo conforme a importância estratégica de Natal crescia para a aviação civil a nível mundial.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial o antigo campo foi ocupado por forças militares dos Estados Unidos, que ali desenvolveram uma das maiores bases aéreas de apoio ao esforço de guerra aliado em todo o conflito. Lá existiam unidades tanto da U.S. Navy, como da USAAF – United States Army Air Force, a força aérea do exército dos Estados Unidos.

Visita a Natal do então presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt – Fonte – Coleção do autor.

Para o povo da terra estes dois locais são simplesmente a “Rampa” e a “Base” e a história destes locais está intrinsicamente ligada ao desenvolvimento de Natal.

Bom, quem está acostumado a ler sobre a história destes locais em inúmeros livros, trabalhos acadêmicos e outros tipos de publicações, está basicamente acostumado a ver a sua iconografia histórica através de fotos em preto e branco.

Tripulantes de um avião da marinha americana,utilizado na caça e destruição de submarinos inimigos. Tinham como base Parnamirim Field – Fonte – Coleção do autor.

Isso não significa que no período da Segunda Guerra não foram realizadas fotos coloridas destas unidades militares, de Natal, ou de outros pontos do Brasil. Ou estas fotografias foram feitas em pequenas quantidades, ou não aparecem muito para o público.

Recentemente obtive aceso as fotografias da Library of Congress (Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos) e descobri uma interessante coleção com mais de 1.600 imagens coloridas, em um período que compreende as décadas de 1930 e 1940, com muito material sobre a Segunda Guerra Mundial.

Ao observar as belas fotos, algumas com extrema nitidez, comecei a imaginar como nossos antepassados (no meu caso os meus avós maternos) viram ao vivo e a cores a movimentação militar aérea dos americanos em Natal e região. Daí eu me questionei quais daquelas fotos estaria mais próximo do que os natalenses da época tiveram oportunidade de ver?

Comecei então a classificar as imagens e trouxe para vocês um pouco do que seriam estes visuais.

Junto às fotos coloridas originais da época da Segunda Guerra Mundial, trago algumas fotografias atuais de aviões históricos que foram preservados, onde muitos dos exemplares apresentados estiveram na nossa região naquele período.

Ao clicar na foto você pode vê-la em um tamanho maior.

Vamos começar com fotos que mostram atividades similares as que ocorriam na base de hidroaviões da Rampa, no Rio Potengi.

A foto acima mostra o característico formato do hidroavião, ou “Aerobote”, PBY Catalina. Utilizado em missões de busca e destruição de submarinos, resgate de náufragos, esta aeronave se tornou um ícone da aviação mundial e foi utilizado pela FAB – Força Aérea Brasileira. Os primeiros Catalinas que chegaram a Natal pertenciam a esquadrilha VP-52 e amerrissaram no Rio Potengi poucos dias após ao ataque japonês a base aeronaval americana de Pearl Habor, em dezembro de 1941.

Aqui vemos uma rampa que servia, tal como a existente em Natal, para baixar e recolher hidroaviões da U.S. Navy da água. Na foto é possível ver detalhes da operação.

Detalhes da estrutura da fuselagem, da asa e dos motores do Catalina, em uma operação de abastecimento.

Forma de abastecimento do grande PBY Catalina.

Um provável teste de motores em um Catalina. Fico imaginando o nível de ruído dentro da cabina de pilotagem.

Linhas clássicas de um Catalina preservado na atualidade.

Agora vemos fotos coloridas que bem poderiam ser da base de Parnamirim, a “Parnamirim Field” dos americanos.

Aqui temos exemplares do quadrimotor Consolidated C-87 Liberator Express, uma versão de transporte do conhecido bombardeiro pesado B-24.

Tripulantes de aeronaves, membros da USAAF, recebendo instruções com seus tradicionais uniformes.

Fotografia atual de um caça monomotor P-40, com marcações da China Nacionalista. Construído em várias versões, foi igualmente utilizado pela FAB.

Um bimotor Douglas A-20C Havoc, em 1942. Este era um avião de ataque e bombardeiro médio que também veio a ser utilizado pela nossa FAB.

Um sargento da USAAF posando diante de um motor radial. Nas unidades militares aéreas dos Estados Unidos em Natal, a questão da manutenção das aeronaves era um dos pontos fundamentais das atividades dos militares ali baseados. Principalmente na questão da travessia do Atlântico Sul.

Era normal e aceito pelos comandos militares, que as tripulações pintassem o nariz dos aviões com imagens características, únicas e extremamente interessantes, que ficaram conhecidas como “Nose Art”. Era também aceito que estes aviões fossem batizados com nomes escolhidos pelos tripulantes. Para muitos membros da aviação americana dava azar não batizar o avião.

Eu acho que este tipo de aeronave, um avião de caça North American Aviation P-51 Mustang, não esteve em Natal. Mas decidi colocar a foto  pois ela é muito interessante.

Esta aparente confusão de aeronaves na porta de um hangar nos Estados Unidos, bem que poderia ser uma cena vista em “Paranamirim Field”, pois o tráfego aéreo era intenso.

Um caça bimotor Lockheed P-38 Lightning sobrevivente, clicado em um show aéreo nos Estados Unidos. Existem indicações que este tipo de aeronave esteve em Natal. Se for correto, a sua travessia em direção a África só poderia ser feita com uma escala na ilha de Ascensão. Esta é uma pequena porção de terra vulcânica no meio do Oceano Atlântico, pertencente ao britânicos, que também foi utilizada como ponto de apoio de aeronaves que seguiam de Natal em direção a África.

Outro avião que frequentou nosso espaço aéreo, considerado um clássico e que também fez parte do inventário da FAB – O North American B-25 Mitchell.

Este é outro clássico – o Douglas C-47 Dakota. Foi o verdadeiro “burro de carga” do transporte aliado durante a Segunda Guerra Mundial e fez parte da nossa FAB ao longo de décadas. Este é um C-47 conservado até os dias atuais.

Caças P-51 Mustang, dos primeiros modelos, provavelmente destinado aos ingleses.

Este é o conhecido caça monoplano Republic P-47 Thunderbolt, em um recente show aéreo. Construído aos milhares não tinha a mesma beleza esguia do P-51, mas era um verdadeiro tanque de guerra no ar. A nossa FAB utilizou este tipo de aeronave nos céus da Itália. Inclusive vale ressaltar que o Brasil foi o único país Latino-Americano a enviar tropas e aviões de combate que efetivamente participaram de um conflito em solo europeu.

Manutenção em um B-25.

Torre de metralhadoras dianteira de um B-24 conservado nos Estados Unidos.

Instrução a um grupo de pilotos do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, os conhecidos “Marines”, que lá possuem sua própria frota de aviões de combate. Natal não possuiu um grupo de aviação destes militares, mas havia uma unidade para proteção das áreas da U.S. Navy. Em Recife também havia um grupo destes militares.

Manutenção em motores.

B-25.

Embarcando para o voo.

Um bombardeiro pesado Consolidated B-24 Liberator. O projeto era simples no conceito, mas foi avançado para seu tempo. Muitos passaram por Natal em direção a África, mas igualmente muitos deles atravessaram o Atlântico saindo de Fortaleza.

Natal não teve muitos “Marines” e nem sequer planadores. Mas para cá vieram muitos jipes. Infelizmente o que transportou o presidente F. D. Roosevelt, durante a sua famosa visita a nossa cidade em 1943, se perdeu e já deve ter virado sucata.

Um belo B-25 muito bem conservado.

Um tripulante da USAAF e seus tradicionais óculos “Ray-Ban”.

Vários B-25 saindo da linha de montagem.

Um C-87 visto de frente.

Outro peso pesado da USAAF, o clássico bombardeiro quadrimotor B-17, ou Boeing B-17 Flying Fortress. Mais conhecido aqui como “Fortaleza Voadora” foi um avião que a FAB chegou a possuir algumas unidades baseadas em Recife. Um destes se espatifou estrondosamente em Cajupiranga, Parnamirim, no primeiro semestre de 1942.

Manutenção em um A-20.

Caminhões militares americanos. Muitos destes modelos circularam em nossa cidade.

O inconfundível B-17.

Manutenção de um C-87.

Quero deixar bem claro que nenhuma destas fotos coloridas possui ligação com a ação dos norte-americanos em Natal durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas é quase certo que foi desta forma que milhares de pessoas desta terra viram esta época tão intensa e diferente.

FONTE – http://www.flickr.com/

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OS “POCKET GUIDE” DOS SOLDADOS AMERICANOS NO BRASIL E A FORÇA DOS MPs

Propaganda americana de uma fábrica de aviões durante a Segunda Guerra Mundial

Autor – Rostand Medeiros

Durante a Segunda Guerra Mundial os militares norte-americanos ocuparam praticamente todos os espaços existentes em várias frentes de combate. Do Circulo Polar Ártico as ilhas do Caribe. Dos desertos da África do Norte passando pela China, índia, oceanos e outros locais.

Para evitar problemas em um exército que contava o seu efetivo na casa do milhão de homens, os comandos militares dos Estados Unidos criaram pequenos livretos de bolsos, espécie de guias, onde os militares, em tese, aprenderiam dicas e informações sobre a vida militar e os locais onde deveriam ser transferidos. Chamados de “Pocket Guide”, foram confeccionados os milhares.

Capa do “Pocket Guide” sobre a Índia

Havia guias que traziam dicas da melhor maneira de como um militar deveria se comportar junto a mulheres, o que fazer quando se tornasse um prisioneiro de guerra, ações para o caso de um avião cair no mar, primeiros socorros, etc.

Havia um destes “Pocket Guide” que explicava a função do censor de cartas.

O censor de cartas

Em engraçadas charges este militar era apresentado como um verdadeiro “monstro”, pronto a cortar com suas tesouras as informações que poderiam comprometer a segurança da tropa, inadivertidamente transmitidas nas cartas aos seus familiares.

Em relação aos “Pocket Guide” preparados para os militares que seguiam para o exterior, não podemos esquecer que grande parte das tropas americanas era formada por gente muito simples, jovens que mal conheciam o estado vizinho de onde moravam e que, praticamente de uma hora para outra, poderiam ser enviados para a Cochinchina. Este lugar era explicado nos guias como “Uma região ao sul da Indochina”, que atualmente é parte do território do Vietnam.

Natal como verdadeiro "gargalo" da mais importante rota aérea dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial

Como sabemos o Brasil se tornou o mais importante aliado dos Estados Unidos na América do Sul, onde diversos aeroportos brasileiros foram utilizados como pontos de apoio para uma grande ponte aérea que ligava os Estados Unidos a locais tão distantes como o Norte da África, Índia, Burma (atual Mianmar) e China.

Além do apoio a esta grande operação de transporte aéreo, muitos destes aeroportos brasileiros abrigaram unidades de combate da Marinha dos Estados Unidos (U. S. Navy), que patrulhavam as águas do Atlântico Sul na caça de submarinos alemães e italianos.

Dicas de comportamento social para os militares americanos faziam parte dos “Pocket Guide”

O mais importante aeroporto utilizado pelos americanos no Brasil foi o Campo de Parnamirim, ou “Parnamirim Field”, a poucos quilômetros de Natal, capital do Rio Grande do Norte.

Devido a sua proximidade com a costa africana, Natal era um excelente ponto estratégico, onde se tornou um verdadeiro gargalo por onde passaram milhares de aviões transportando homens, armas, máquinas diversas, medicamentos, etc. A cidade hospedou milhares destes militares estadunidenses e até o tradicional cemitério do bairro do Alecrim foi durante algum tempo o local do último repouso de vários deles.

O Brasil da década de 1940 era um país bem distinto dos Estados Unidos naquela época, então vários guias foram publicados, mostrando como estes militares deveriam se comportar e agir na nossa terra e em outras regiões tropicais do Mundo.

Ao conhecermos estes “Pocket Guide” percebemos não apenas a ideia do comando militar dos Estados Unidos em preservar uma boa relação com vários países, mas igualmente informar aos seus soldados sobre doenças típicas das regiões tropicais.

O cuidado com as cobras em áreas tropicais

Uma destas dicas, ilustrada através de uma engraçada charge, mostra o problema que havia nas zonas tropicais em relação à proliferação de ofídios venenosos e a importância dos militares sempre estarem atentos ao que havia de indesejado nos seus beliches. Apesar da região do Arizona, Novo México, Louisiana e Flórida serem extremamente prolificas em cobras venenosas, era transmitida uma informação que gerava o entendimento que nestas zonas tropicais estes animais peçonhentos eram encontrados praticamente andando livremente nas ruas e dentro das casas. Em certa medida, este tipo de pensamento ainda permeia a ideia que a sociedade americana tem de algumas regiões abaixo da linha do Equador.

Malária “- É a fêmea que pica!”

Os americanos tinham verdadeira ojeriza em relação às doenças transmissíveis por insetos, principalmente a malária. Em uma das charges destes guias de bolso, a malária é apresentada como uma mulher um tanto “prestativa” em fornecer carinhos, onde estava estampada a intrigante frase “- É a fêmea que pica!”.

Neste aspecto, não tenho dúvida em comentar que além da razão estratégica geográfica para os americanos escolherem Natal em detrimento a centros urbanos mais desenvolvidos, como Recife, estava na qualidade da água existente em nossa região e das condições naturais que facilitavam um melhor controle destas pragas junto as suas bases aéreas.

Charge aconselhando evitar o excesso de bebidas

Uma outra charge mostra as consequências de um destes soldados passarem dos limites em relação álcool. Ela mostra dois MP (Military Police), levando um alterado soldadinho e sua garrafa de bebida. Estes MPs eram verdadeiros brutamontes preparados para manter a conduta, a lei e a ordem nos locais onde estavam estacionadas as tropas americanas.

Sobre esta charge me recordo de uma conversa que tive com o amigo Laélio Ferreira de Melo, nosso parceiro do Tok de História, com seu satírico e contundente blog “Mediocridade Plural” (http://mediocridade-plural.blogspot.com/). Ele me narrou que na época da Segunda Guerra Mundial era um menino de calças curtas, em um momento que havia tantos militares americanos em Natal, que em suas palavras parecia que tinha “-Gringos saindo pelo ladrão”.

Morando entre a Ribeira e a Cidade Alta, a casa de Laélio era perto de um bar frequentado por militares americanos. Ocorre que em uma determinada noite, um oficial da USAAF – United States Army Air Force (Força Aérea do Exercito dos Estados Unidos) com a graduação de major, passou da conta na sua cota de bebidas e acabou fazendo o maior “barraco” no ambiente. Parece que até garrafa quebrou. Evidentemente que a algazarra chamou atenção das famílias que viviam na região e o pessoal ficou ali contemplando o estrangeiro dar o seu “espetáculo”.

Típicos MPs do exército americano

Nisso apareceu um jipe com dois verdadeiros “armários ambulantes” da MP e, para surpresa do garoto Laélio, o tal major arruaceiro seguiu com os dois policiais militares (que certamente eram de patente bem mais baixa) para o jipe, sem fazer a mínima alteração e morto de vergonha.

Laélio não sabe o que ocorreu com o oficial, mas comentou que o major “afinou” na hora que viu os guardas com suas características braçadeiras com as letras “MP” e seus longos cassetetes de quebrar o lombo dos arruaceiros de uniforme.
Certamente este major esqueceu de ler um dos muitos “Pocket Guide” sobre conduta.

Para encerrar eu tenho certeza que o que mais deve ter chamado a atenção do amigo Laélio foi presenciar um oficial de patente elevada, mesmo agindo de forma errada, se colocar tão mofino diante dos guardas da MP. Coisa bem distinta de ver em nossas tropas.

Até porque no Brasil daquela época, como no Brasil de agora, basta ser uma “otoridade”, ter uma estrelinha a mais, ou ser um funcionário público de carreira, para não aceitar nenhuma ordem. Tal como pensam alguns juízes de direito, que não tem dúvidas que são deuses.

A corregedora do CNJ, Doutora Eliana Calmon, que o diga.

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UMA OUTRA “PARNAMIRIM FIELD” NA REGIÃO AMAZÔNICA

A BASE DE DIRIGÍVEIS “BLIMPS” DE IGARAPÉ-AÇU, NO PARÁ 

Dirigível “Blimp” Classe K, de patrulha

Aqueles que gostam da história de Natal e Parnamirim durante o período da Segunda Guerra Mundial, que tiveram a oportunidade de ler algum material sobre este período, normalmente encontra materiais relativos a presença de tropas americanas em nossa cidade, passagens de grandes quantidade de aviões de transporte, ação de patrulha contra submarinos do Eixo que operavam no litoral brasileiros e inúmeras outras histórias sobre este interessante período.

Mas não foi apenas Natal que se envolveu nestas ações. Nem muito menos o espaço aéreo brasileiro da época presenciou apenas a passagem de aeronaves.

Igarapé-Açu, uma cidade encravada em plena região amazônica, não muito distante do litoral paraense, também possuiu a sua base americana. Mas esta não era de aviões, mas de dirigíveis, os conhecidos popularmente como “Zepelins”.

Pesquisando na internet encontrei no blog do jornalista e professor Manuel Dutra, de Belém, um interessante artigo sobre esta pouco conhecida unidade militar americana no norte do nosso país.

Nele podemos encontrar muitas similaridades na relação de envolvimento dos habitantes desta cidade paraense com as tropas americanas, tanto como ocorreu entre os potiguares.

Os Zepelins de Igarapé-Açu – Histórias de Ontem e de Hoje

No final da Segunda Guerra Mundial os moradores do município de Igarapé Açu, no Pará, já habituados à passagem diária do trem que ligava Belém a Bragança, começaram a olhar para o céu, extasiados, para apreciar as evoluções dos balões norte-americanos que saíam dos arredores da cidade para patrulhar a costa norte do Brasil, alvo dos submarinos alemães. A atração durou pouco, de meados de 1943 até o fim da guerra.

Igarapé Açu, Pará – Foto – Herson Vale

Preocupados com o afundamento de navios brasileiros pelos nazistas, os governos do Brasil e dos Estados Unidos decidiram cooperar e, entre as medidas adotadas, foram instaladas no Norte três estações de operação de “blinps” ou “zeppelins’ (nome do inventor alemão e da marca, que virou nome comum) no Amapá, Pará e Pernambuco, em versão militar. Igarapé-Açu, na zona bragantina, a 110 quilômetros de Belém e hoje com 27.700 habitantes, foi escolhida por apresentar condições geográficas e meteorológicas consideradas ideais para pouso e decolagem de dirigíveis, além de já estar ligada à capital por estrada de ferro e rodovia.

Marujada

Quem viu de perto e conta essa história é Júlio Vaz de Souza, 70 anos, casado, pai de vários filhos. Ele, que ainda vive na cidade, recorda: “Às seis horas da manhã a marujada preparava um ou dois balões que seriam utilizados naquele dia; ajeitavam aquele bichão de mais ou menos 80 metros de comprimento, soltavam os cabos como quem larga um navio, e o balão subia. Virava os dois motores traseiros e lá ia ele, vencendo os 40 quilômetros entre Igarapé-Açu e a praia, perto de Salinas. Quando a situação estava calma (sem alemães por perto) e o tempo ajudava, eles estavam de volta no começo da noite. A marujada americana tinha passado mais um dia dentro do que eles apelidavam de shit bag, o que significa saco de bosta”.

Um “Blimp” a sua torre – Arquivos do autor do Blog

Esse apelido devia-se à comparação que os militares aliados faziam com os aviões de caça, que também operavam na pista ainda existente em Igarapé-Açu. Passar algumas horas dentro de um avião, rápido para a época, era incomparavelmente mais confortável do que balançar um dia inteiro a menos de 60 quilômetros por hora, na “caixa” dependurada no corpanzil de um balão cheio de gás. Júlio de Souza, conhecido na cidade por Júlio Prego, tinha 19 anos quando foi contratado pela base norte-americana para trabalhar como copeiro e zelador das instalações dos oficiais.

Escrever a história da base de dirigíveis de Igarapé-Açu não é fácil. Segundo explica o ex-piloto e pesquisador de aviação regional Antônio Guerreiro Guimarães, os documentos relativos a esse fato foram levados, na década de 60, para o Rio de Janeiro, podendo ser encontrados na Biblioteca Nacional, no Arquivo Público do Rio ou em organizações da Aeronáutica.

As Torres

No Pará, o que resta é um pedaço da torre móvel, que tinha 25 metros de altura e que servia para deslocar os balões para uma das cinco torres fixas, de onde eram içados. Dotados de canhões e metralhadoras, os dirigíveis eram, basicamente, empregados no patrulhamento com vistas à localização de submarinos do Eixo, que vinham pondo a pique navios da Marinha Mercante do Brasil ao longo da costa.

Preparação para amarração de um “Blimp”  – Arquivos do autor do Blog

Júlio relembra que, nos quase dois anos de operação, não houve mortes de militares. Mas dois zepelins acidentaram-se – um foi atingido pelo fogo alemão e, perdendo o gás, terminou caindo perto da cidade de Maracanã. Outro veio ao chão e perdeu o gás, certo dia, no momento em que os americanos o preparavam para zarpar. O vento forte tomou as cordas das mãos dos fuzileiros e a enorme estrutura bateu forte contra o solo, partindo-se.

Era muito comum a citação desta cidade paraense em documentos oficiais americanos na época da guerra

A base de Igarapé-Açu chegou a ter cerca de 200 homens, conta Júlio. “Tinha o alojamento dos oficiais, dos praças brancos e dos praças pretos. Eles não se misturavam. As casas onde os brancos se alojavam eram de tijolo, enquanto as dos militares negros eram feitas de lona”.

Bisbilhotagem

Na cidade, as pessoas mais velhas contam que, nos finais de tarde, quando retornava das missões no litoral, o balão costumava estacionar sobre os igarapés, com os militares observando as mulheres em trajes sumários, lavando roupa.

Mas a convivência com a comunidade era tranquila e os fuzileiros, nas folgas, andavam pouco mais de um quilômetro para tomar cerveja e paquerar na cidade, onde também frequentavam as festas.

A importância da base de dirigíveis no contexto da Segunda Guerra Mundial é ressaltado pelos integrantes da Sociedade Ambientalista e Cultural de Igarapé-Açu (SACI), que começa a movimentar-se para recuperar, em parte, o patrimônio deixado pelas forças aliadas. Paulo Henrique Souza, 20 anos, presidente da entidade, lembra fatos confirmados pelo velho Júlio Vaz de Souza, como a presença de uma famosa cantora norte-americana, nos idos de 1944, para alegrar os militares.

Os membros da SACI deploram o sumiço das quatro torres fixas que serviam de moirão para os balões. Ninguém sabe para onde foram. Diz-se que um ex-prefeito as teria transformado em ferro velho e vendido a uma sucata. O mais grave é que a torre móvel, que permaneceu na forma original até 20 anos atrás, foi cortada na parte superior para servir de suporte para uma caixa d’água que serve à família que toma conta do que resta da base, hoje sob os cuidados da Força Aérea Brasileira.

Abandono

A conservação do local não existe, o mato invade a área, e os prédios, como o cassino dos oficiais, estão em ruínas, incluindo os salões de jogos, restaurante e o bar onde rolava muita cerveja nas noites de folga.

O estado como se encontra a antiga torre de amarração de dirigíveis em Igarapé-Açu – Foto – Ney Paiva

Os jovens da SACI já falaram com o prefeito Valdir Oliveira Emim, pedindo apoio para a recuperação dos equipamentos. Eles pretendem entrar em contato com o comando da Aeronáutica, em Belém, a fim de conseguir a permissão para transformar a antiga base em atração turística, depois de reconstruir o topo da torre de ferro, que foi destruído. Recentemente a SACI mandou uma carta ao presidente Itamar Franco, pedindo ajuda para a empreitada.

Pista de pouso para aviões, da antiga estação da U.S.Navy em Igarapé-Açu – Foto – Ney Paiva

Se conseguirem seu intento os jovens esperam atrair visitantes para sua cidade, “ponto de almoço” dos passageiros da extinta Estrada de Ferro de Bragança. Por ser ponto intermediário destacado nessa viagem, Igarapé-Açu cresceu e ganhou prédios e pontes de ferro, uma delas abandonada, sobre os três rios que cortam o município. Edificações de linhas arquitetônicas imponentes como o Fórum, o Paço Municipal e a sede dos Correios foram destruídas ou descaracterizadas.

Júlio Prego

O velho mercado está desativado, ameaçando virar ruína. O Governo do Estado recupera as linhas originais da antiga Delegacia de Polícia do município, que vive da agricultura, da pequena pecuária e onde, no passado, pontificavam famílias como os Pires Franco, Borges Gomes, Martins, Nobre, Aquino e Pontes. Hoje quer aproveitar seu passado para, com o turismo, melhorar de vida.

Um “Blimp” sobre a cidade de Mossoró, em 1945. Provavelmente este dirigível era baseado em Pici Field, Fortaleza – Arquivos do autor do Blog

O velho empregado da base, Júlio Prego, quer contar as viagens das bandas de música que vinham de Recife, de zepelim, para animar as festas de Natal, a chegada dos aviões que traziam água mineral e cigarros, e os comboios da Estrada de Ferro que abasteciam os militares de comida, cerveja e Coca-Cola. As garrafas vazias de refrigerantes os americanos davam para Júlio, que, de uma só vez, chegou a vender 29 mil delas. Com o dinheiro da venda, mais a indenização que ganhou ao final da guerra, ele abriu uma mercearia e tornou-se comerciante, atividade que desenvolve até hoje.

* Publicado originalmente em fevereiro de 1994 no jornal “O Liberal”, de Belém, a versão na internet pode ser acessada através do link – http://blogmanueldutra.blogspot.com/2011/04/os-zepelins-de-igarape-acu-historias-de.html

Do autor do Blog;

Gostaria apenas de complementar informando que os dirigíveis utilizados pelos americanos em Igarapé-Açu eram dos modelos não rígidos, construídos pela empresa Aircraft Company Goodyear, da cidade de Akron, no estado de Ohio, sendo designados como “Classe K”. Eram configurados para operações de patrulha, escolta de comboios de navios, busca de náufragos e guerra contra submarinos. Foram amplamente utilizados pela U.S. Navy (Marinha dos Estados Unidos) no Atlântico, em as áreas do Oceano Pacífico, Mar mediterrâneo e podiam ter até 12.000 metros cúbicos de gás no seu interior.

Normalmente possuíam uma tripulação de 10 homens, que incluíam um piloto (o comandante), dois copilotos, um navegador, um especialista no gás do dirigível e seu ajudante, dois mecânicos e dois radiocomunicadores.

Quem observa as fotos deste dirigíveis, pode até imaginar que eles eram, por assim dizer, “inofensivos”. Que serviam mais para olhar o mar de cima para baixo. É um grande engano, pois estas máquinas possuíam radar de busca com alcance de 150 quilômetros (cerca de 90 milhas marítimas), sistema de detecção de anomalias magnéticas para localizar submarinos, bombas de profundidade e metralhadoras Browning, calibre .50 (12,7 mm) na parte da frente do carro de controle.

Um “Blimp” fixado em sua torre – Arquivos do autor do Blog

Tinham uma ótima capacidade para permanecerem horas pairando em uma mesma área de observação, em baixas altitudes e velocidades lentas, o que resultou na detecção de muitos submarinos, bem como auxiliar em missões de busca e salvamento.

Mas não tinha a mesma agilidade de manobra que possuíam os aviões para destruir os submersíveis.

Mesmo grande e lento, conta que apenas um destes foi abatido. O fato ocorreu em 8 de julho de 1943, através da ação das armas antiaéreas do submarino alemão U-134.

O último “Blimp” foi aposentado em Março de 1959.

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PIERRE CLOSTERMANN – UM CURITIBANO NA RAF

Autor – Leonel T. Rodrigues

Nascido no Brasil, mas de nacionalidade francesa,  por ser filho do banqueiro francês Jacques Clostermann, que morava no Brasil, Pierre Henri Clostermann foi  o maior ás da aviação de caça francesa na II Guerra Mundial.

As marcas das vitórias no avião de Closterman. Ao final da guerra, Pierre Clostermann se despede do seu Hawker Tempest V, batizado "Le Grand Charles" em homenagem a Charles De Gaulle, líder dos "Franceses Livres". As cruzes sem o fundo preto representam aviões alemães provavelmente abatidos, mas ainda não homologados como tal. (Foto do livro O GRANDE CIRCO.)

Pierre nasceu em Curitiba, em 28 de fevereiro de 1921.  Estudou no Brasil e pouco antes do início da II Guerra Mundial, foi para os EUA, cursar Engenharia Aeronáutica. Em 1940, após a queda da França, ele abandonou os estudos de engenharia e embarcou para a Inglaterra, onde cursou uma escola de pilotos militares, como voluntário pelos “Franceses Livres” do General  Charles De Gaulle.

Graduado como sargento-piloto, na Real Força Aérea Inglesa (Royal Air Force – RAF), a princípio fez parte da formação do esquadrão 341,chamado Grupo Alsácia, uma unidade formada exclusivamente por aviadores franceses.

Reprodução artística do avião de Closterman

Em julho de 1943, obteve suas primeiras vitórias, abatendo dois caças alemães Focke-Wulf FW-190 numa mesma missão.

Porém, envolveu-se em um nebuloso episódio, durante uma missão onde era o  avião-ala, encarregado de proteger a retaguarda do comandante da unidade, o lendário René Mouchotte, o primeiro não-britânico a comandar uma unidade da RAF. Segundo sua própria narrativa, ele perdeu contato visual com o seu líder após este ter feito uma manobra muito radical, e envolveu-se em combate individual com caças alemães, abatendo um deles. Mais tarde, ouviu-se pelo rádio a voz de Mouchotte, comunicando estar sem cobertura, sob ataque inimigo. Mouchotte acabou sendo abatido e morto neste combate, enquanto Clostermann obtinha mais uma vitória.

Depois disso, parece que o clima ficou desfavorável para ele, no Grupo Alsácia, e Clostermann foi transferido para outro esquadrão da RAF, passando a voar junto com pilotos ingleses.

Ele participou da fase final da guerra e, pilotando caças Supermarine Spitfire e Hawker Tempest, abateu confirmados 23 aviões alemães, além de nove prováveis, sem contar aviões, tanques, viaturas militares e outros alvos destruídos no solo. No seu livro, os registros são expostos de forma mais completa, porém, isto ainda geraria muita discussão, em épocas mais recentes. Por estes feitos, recebeu a Distinguished Flying Cross (DFC), a mais alta condecoração aeronáutica inglesa, além de diversas outras, inclusive comendas americanas e francesas, como a Legião de Honra (mais tarde, recebeu do Brasil a Ordem do Mérito Santos-Dumont).

Medalha DFC

Ao final do conflito, ele comandava uma ala(wing) inteira da RAF, e tinha a função e posto de wing-commander (tenente-coronel), mas foi integrado na Armée de l’Air (Força Aérea Francesa) como primeiro-tenente, como “deferência especial”, pois sua formação fora apenas como sargento ao ingressar na atividade aérea, e ele não havia concluído o curso superior.

Isto o deixou aborrecido e ele solicitou sua desmobilização imediata da Armée de L’Air!

Em 1948, colocou partes de seu diário de guerra num livro considerado pela crítica especializada como a melhor narrativa dos combates aéreos da II Guerra, Le Grand Cirque, publicado no Brasil pela Ed. Flamboyant nos anos 60, com o título O Grande Circo. Possuo ambas as edições, a francesa e a brasileira.

O Grande Circo foi meu livro de cabeceira na adolescência. Passei bons momentos “voando” nas páginas deste livro, espiando sobre o ombro de Pierre Clostermann, enquanto ele disparava os canhões de seu potente Hawker Tempest contra os  caças Me-109 e FW-190 alemães.
Depois, Clostermann escreveu também o livro Fogo No Céu (original: Feux du Ciel) – Ed. Flamboyant -1966, onde conta episódios baseados em atividades aéreas de outros pilotos, em diversos teatros de operações aéreas da II Guerra.

Clostermann concluiu seu curso de Engenharia Aeronáutica, e ainda voltou a voar anos depois pela Armée de L’Air, na guerra contra a Argélia, o que rendeu mais um livro: Episódios da Guerra Aérea Na Argélia (Ed. Flamboyant) e além disto, teve sua patente de guerra reconhecida, sendo reformado como coronel.

Mais tarde, exerceu cargos na indústria aeronáutica, nas empresas Max Holste e na divisão francesa da Cessna Aircraft  Company. Entrou também na política e uma de suas ações, como parlamentar ligado à indústria aeronáutica francesa, foi tentar obstruir a aquisição de aeronaves brasileiras pela Armée de L’Air, na década de 80!  Assim, meu herói virou vilão! Contudo, estava defendendo os legítimos interesses do seu país!

Mas o ás francês falhou em abater os Xingus e Tucanos da EMBRAER,  usados até hoje pela Armée de L’Air!

Embraer 121 Xingu: assim como o Embraer 312F Tucano, até hoje operado pela Armée de L'Air, apesar do lobby contrário de Clostermann. (Foto: Stéphane Pichard - AIRLINERS.NET)

Touché, Pierre !

Em 2004, a editora brasileira Adler, especializada em livros e gravuras  sobre aviação, promoveu, com apoio da Força Aérea Brasileira, um encontro na França,  de Pierre Clostermann com pilotos veteranos do 1º Grupo de Caça da FAB, que também atuaram na II Guerra. Nesta ocasião, o piloto francês autografou uma série de gravuras dos aviões voados por ele, emitidas pela editora.

Pierre Clostermann

Durante a guerra das Malvinas,  ele elogiou a coragem e os feitos dos pilotos argentinos, alguns ex-alunos de seu filho, também piloto militar, com quem aprenderam a pilotar os aviões Mirage. Isto lhe custou diversos ataques por parte de alguns jornais ingleses, que questionaram suas vitórias e condecorações inglesas, obtidas na II Guerra.
Mas tudo não passou de uma série de equívocos,  usando como pretexto os critérios diferentes para classificação de “vitórias”, segundo padrões da RAF e da Armée de L’Air.
Pierre Clostermann faleceu em 22 de março de 2006 em Montesquieu-des-Albéres, na França.

Notas adicionais:

1 – Existem versões diferentes sobre o período da vida de Pierre Clostermann nos anos  compreendidos entre seu nascimento e o início da II Guerra Mundial. A versão que eu apresento é a que consta na contracapa da edição brasileira de O GRANDE CIRCO. 

2 – Sobre seu pai, a Wikipédia o menciona como diplomata, mas ele só exerceu as funções de Consul Geral da França no Brasil no pós-guerra, no período entre 16 de outubro de 1949 a 31 de maio de 1954.

3 – Na edição original  francesa do livro Le Grand Cirque, havia uma foto de um jovem oficial alemão, equivocadamente legendada como sendo do aviador e ás austríaco Walter Nowotny. Na edição brasileira de 1966, esta foto já havia sido suprimida.

4 – Sobre Walter Nowotny, nas edições que possuo, há outro equívoco, no capítulo dedicado a ele, onde são citadas as circunstâncias sobre a sua morte. Este assunto é abordado na postagem: QUEM ABATEU O ÁS NOWOTNY? (http://asteroide-leonel.blogspot.com/2010/08/quem-abateu-o-as-nowotny.html).

Até o final da guerra, esse foi o seu quadro pessoal de vitórias:

Abatidos no Ar

19 Fw-190

7 ME-109

2 Dornier 24

1 Fieseler 156

1 JU-252

1 JU-88

1 JU-290

1 Heinkel 111

Destruidos no Solo

7 JU 88

6 DO-18

4 HE-177

2 Arado 323

1 JU-252

1 Blom-Voss

72 locomotivas

5 Tanques

1 Submarino

2 Destroyers

Fontes – http://asteroide-leonel.blogspot.com/2011/07/pierre-clostermann-um-curitibano-na-raf.html

 http://www.cockpitnews.com.br/serie-ases-da-wwii—pierre-closterman-4-0150.html

AFUNDAMENTO DO “AFONSO PENA” NO ATLÂNTICO SUL

A ACADÊMICA E MÉDICA PARAIBANA EUDÉSIA VIEIRA E A SUA EXPERIÊNCIA NO AFUNDAMENTO DO “AFONSO PENA” EM 1943

Autor – Rostand Medeiros

Aos 49 anos de idade, a médica paraibana Eudésia de Carvalho Vieira, mãe de cinco filhos, realizava, em pleno período de vigência da Segunda Guerra Mundial, uma viagem de navio entre Recife e o Rio de Janeiro. Era o dia 2 de março de 1943 e este tipo de viagem estava se tornando muito perigosa devido à ação de submarinos alemães e italianos que até aquela data já haviam afundado vinte e sete navios brasileiros e levado a morte várias pessoas.

Mas a Doutora Eudésia precisava seguir para o sul do país, até porque este era o único meio de ligação eficaz entre a então Capital Federal e a Região Nordeste.

Navio de Cabotagem “Aspirante Nascimento”. O transporte marítimo era o principal meio de contato entre as capitais brasileiras. Fonte-http://www.portogente.com.br 

Segundo artigo publicado na Revista do Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante – SINDMAR – ANO VI – Nº 21 – Agosto/2005, na primeira metade do século passado, a principal via para movimentação de cargas e passageiros no Brasil era a marítima. Como hoje, onde 95% das mercadorias importadas e exportadas são transportadas pelo mar, apesar da Marinha Mercante brasileira ser responsável apenas por 4% desse total, o tráfego marítimo na década de 30 do século passado era muito utilizado.

A razão era simples: as rodovias, quase inexistentes na época, e as ferrovias, completamente obsoletas, dependiam de investimentos do governo. O transporte aéreo também não era muito utilizado pelo alto custo financeiro. Por isso, as comunicações se faziam ao longo da costa por meio da navegação de cabotagem e de longo curso e a nossa Marinha Mercante exercia um papel fundamental para a economia nacional.

Uma Mulher Corajosa

Já que a paraibana Eudésia de Carvalho Vieira, uma mulher disposta, corajosa e batalhadora, tinha de seguir em um navio, em meio a submarinos espreitando como lobos ferozes, ela via aquele momento como mais um outro desafio, em meio a tantos que enfrentou no seu passado.

Nascida no dia 8 de abril de 1894, na povoação de Livramento, no município de Santa Rita, fez seus estudos primários em uma escola particular na então cidade da Parahyba, atual João Pessoa. Recebeu o diploma de professora pública e iniciou a carreira do magistério dando aulas particulares. Só em 1915, através de concurso público, ingressou no magistério oficial. Casou-se em 1917, nascendo desse casamento 14 filhos, dos quais apenas cinco sobreviveram. Foi professora pública em várias escolas primárias da Paraíba e já casada, decidiu ser médica, contrariando a vontade do marido e enfrentando todos os obstáculos e preconceitos da época.

Eudésia foi à única mulher numa turma de homens a receber o grau de doutora e a primeira paraibana a conquistar o título pela Faculdade de Medicina de Recife. Na provinciana capital paraibana instalou um consultório em sua residência, a Rua Duque de Caxias, onde passou a atender e dedicar-se à sua clientela, fazendo da medicina o seu apostolado. Foi Assistente Social da Penitenciária Modelo, sendo muito querida pelos presidiários. Além de Professora e médica, atuou como jornalista e poetisa. Ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano em 3 de junho de 1922.

Um Navio venerável

Apesar de ser um momento negativo para se encontrar no alto mar, o navio em que a paraibana Eudésia seguia era o confiável Afonso Pena.

O “Afonso Pena”

A tradicional nave fora construído em 1910 no estaleiro Workman, Clark & Co., de Belfast, na Irlanda do Norte. Foi entregue no mesmo ano a companhia de navegação Lloyd Brasileiro, sendo registrado no Rio de Janeiro e batizado como “Afonso Pena”, em homenagem ao ex-presidente brasileiro Afonso Augusto Moreira Penna.

Apesar de ter 33 anos singrando os mares, o navio era uma nave ainda respeitável. Tinha mais de 110 metros de comprimento, 15 metros de largura e quase 5 metros de calado. Fora todo construído em casco de aço, para o transporte de carga e de passageiros. Possuía um motor a vapor e podia transportar mais de 250 passageiros em três classes distintas, em várias cabines.

Havia partido dias antes de Manaus, tendo feito escalas em Belém, São Luís, Fortaleza, Recife e transportava 242 tripulantes e passageiros.

O “Afonso Pena” havia saído de Recife em um comboio escoltado por vasos de guerra. Mas desde o dia anterior a embarcação estava navegando de forma solitária e o clima de medo e apreensão no navio onde estava a Dra. Eudésia havia crescido.

Comboio

Aconteceu que o comboio se separou em duas rotas distintas, onde uma parte seguiria para Maceió e outra em direção a África do Sul. Mas o Capitão de Longo Curso da Marinha Mercante, Euclides de Almeida Basílio, alegou que iria por outra rota em direção ao Rio de Janeiro, por não conhecer aquela que o comboio seguiria. Ele era um homem experiente, veterano da Primeira Guerra Mundial e detentor da “Medalha da Vitória”, segundo consta no Diário Oficial da União, de 5 de maio de 1934, na página 6.

Falou-se que o fato de não estar mais no comboio não teria tanto problema por ser uma semana de lua nova, onde a escuridão poderia proporcionar, junto com a ordem de não acender luzes a bordo, uma maneira da nave de passageiros e carga não ser vista através do periscópio de um submersível.

Mas a atitude de seguir sozinho fez o “Afonso Pena” se tornar um alvo fácil.

O Atacante

Enquanto isso, na costa do estado da Bahia, o Regio Sommergibile “Barbarigo”, um submarino italiano da classe “Marcello”, estava espreitando o fundo do mar feito um tubarão de aço.

Torre do “Barbarigo”, mostrando desenhos com as silhuetas de navios atacados e afundados pelos italianos

Estes submersíveis eram construídos na cidade de Monfalcone, sendo considerados os melhores modelos que a marinha italiana possuía no seu inventário durante a Segunda Guerra Mundial. Foram completadas onze unidades, que podiam alcançar até 100 metros de profundidade operacional máxima, com velocidade que variava de 19 a 8.5 nós. Eram tidos como confiáveis, robustos, manobráveis e transportavam 59 toneladas de combustível, sendo por esta razão designados como submersíveis oceânicos.

Revista italiana com os feitos do “Barbarigo”

Inicialmente eram utilizadas no Mediterrâneo, depois algumas unidades foram transferidas para a base de Betasom, uma unidade de submarinos italianos em Bordeaux, França, dentro da área de ocupação alemã naquele país.

Estando atuando na Marinha da Itália (ou Regia Marina) desde 1938, a carreira do “Barbarigo” foi considerada pelos italianos positiva no desenrolar do conflito. Esta era a sua décima missão de guerra e a segunda patrulha de caça e destruição de navios aliados no Atlântico Sul, próximo a costa brasileira.

O submarino embandeirado em dia de festa

O “Barbarigo” havia saído do porto de La Pallice, na cidade francesa de La Rochelle, no dia 24 de janeiro de 1943, sob o comando do tenente Roberto Rigoli.

No dia 24 de fevereiro o submarino italiano atacou próximo ao Arquipélago de Fernando de Noronha o cargueiro espanhol “Monte Igueldo”, afundando-o. Ocorre que hidroaviões norte-americanos testemunharam o ataque do “Barbarigo” e o atacaram impiedosamente com três bombas. Estas aeronaves eram modelos Martim PBM-3 Mariner, pertencentes ao esquadrão VP-74 da Marinha dos Estados Unidos, com base em Natal, Rio Grande do Norte, mais precisamente na área da “Rampa”, no Rio Potengi.

Um Martim PBM-3 Mariner do esquadrão VP-74, da Marinha dos Estados Unidos

Por sorte o tenente Rigoli conseguiu fugir e seguiu em direção sul, onde pretendia atacar navios que estivessem na região próxima ao Arquipélago dos Abrolhos, onde seu caminho cruzaria com o do “Afonso Pena”.

Tem Início a Matança e o Heroísmo

No começo da noite do dia 2 de março de 1943, uma terça feira, a cerca de 250 quilômetros de Porto Seguro, o tenente Rigoli e sua tripulação haviam diminuído a marcha do “Barbarigo” e acompanhavam um lento navio que se deslocava a no máximo 10 nós de velocidade. O destino do “Afonso Pena” estava selado.

Dezessete dias depois do afundamento do navio brasileiro, o jornal “Poughkeepsie New Yorker”, do estado de Nova York, edição do dia 19 de março, trás na sua primeira página uma reportagem exclusiva sobre o afundamento do “Afonso Pena”. Foi a paraibana Eudésia de Carvalho Vieira quem fez um sucinto relato para este jornal sobre o terror que aconteceu no Atlântico Sul.

Tripulação do “Barbarigo” em patrulha no Atlântico Sul

Na cama de um hospital de Salvador, Eudésia afirmou que estava no seu camarote quando sentiu a vibração da nave com o impacto do torpedo. Depois escutou um forte grito de uma mulher e logo outros passageiros estavam em pânico, pois o “Afonso Pena” começou a afundar. Para ela o caminho mais rápido para fora foi através de uma vigia, através da qual foi puxada. Mas em meio ao pandemônio formado, Eudésia bateu a cabeça e sofreu um severo corte. Daí ela e seus salvadores correram ao redor do convés tentando encontrar salva-vidas, ou entrar em alguma baleeira. Ela afirmou ao jornalista que pulou no mar ao lado de uma balsa (raft, em inglês). Alguns homens já estavam no pequeno barco salva-vidas e um deles lhe colocou um pano em volta da sua cabeça, que sangrava muito.

Em busca de alvos no horizonte

Mas o triste nesta história é que, mesmo de forma lenta, o “Afonso Penna” não parou. Continuou navegando, adernando e afundando.

Segundo o artigo publicado na Revista do Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante – SINDMAR – ANO VI – Nº 21 – Agosto/2005, o Capitão de Longo Curso João Batista Rodrigues, anotou no Livro de Registro de Histórias da Marinha Mercante, arquivado na biblioteca do SINDMAR, que o “Afonso Pena” afundou de proa (parte dianteira do navio), a cerca de três milhas da balsa onde ele se encontrava, ou seja, a mais de cinco quilômetros e meio de distância.

Um artigo exclusivo do uniforme da tripulação do “Barbarigo”

Provavelmente as máquinas do navio não pararam após o impacto do torpedo. Havia uma ordem para no caso de uma emergência, o oficial encarregado, antes de subir, deveria parar o motor sob a sua responsabilidade, para que a hélice não colhesse náufragos ou baleeiras em caso de torpedeamento. Mas isso não foi feito e várias pessoas e balsas foram sugadas para próximo a grande hélice em movimento e estraçalhadas.

Durante o trajeto final do “Afonso Pena”, já ferido de morte, o tenente Rigoli trouxe o “Barbarigo” para a superfície e isto foi presenciado pela paraibana Eudésia.

Tenente Roberto Rigoli. Sob suas ordens o “Barbarigo” atacou o “Afonso Pena”

O radiotelegrafista do navio, Pedro Mota Cabral, de forma extremamente heroica, em nenhum momento da tragédia deixou de enviar mensagens para chamar reforços e socorro. Os italianos temendo a presença de aviões, abriram fogo com o canhão dianteiro e silenciaram a estação de rádio, matando seu operador.

Segundo o Capitão Batista, provavelmente devido ao cabo de apito ter ficado preso, o “Afonso Pena”  submergiu apitando, tal como um grito de desespero.

Salvamento em Meio a Tubarões

Nesse meio tempo o “Barbarigo” desceu para as profundezas e se foi. No meio da noite escura, ao redor do sinistro, ficaram tentando se salvar mais de uma centena de pessoas.

Documento da Marinha dos Estados Unidos, informando sobre os ataques do “Barbagiro”na costa brasileira. As datas dos afundamentos apresentadas no documento não estão corretas.

Eudésia e o Capitão Barbosa, mesmo feridos, assustados e molhados, estavam em relativa segurança nas balsas. Ao passo que muitas das 240 pessoas que estavam a bordo do “Afonso Pena” não tiveram a mesma sorte. Estes eram principalmente os passageiros da terceira classe e os foguistas do porão, que tinham alguns lances de escada para subirem e se salvarem. Entre estes se encontrava a família Duarte, de Belém do Pará. José Duarte Junior, sua esposa Maria Duarte Brandão, e seus filhos Ester, Sidônio e Guilherme, afundaram junto com o “Afonso Pena”.

A médica paraibana informou a imprensa norte-americana que viu aterrorizada a presença de tubarões próximos a concentração de balsas, que buscavam ficar juntas enquanto o mar as levava em direção a costa baiana. Eudésia também viu um casal com colete salva-vidas passar pela sua balsa, ambos mortos e abraçados.

Resgate no mar durante a Segunda Guerra Mundial

Durante dois dias eles vagaram, até que um navio-tanque da marinha norte-americana avistou alguns dos sobreviventes e passou a resgatá-los.

No momento de embarcar, ela caiu e um desconhecido oficial americano pulou na água para ajudá-la, enquanto membros da tripulação abriam fogo com rifles e metralhadoras contra tubarões que circulavam nas proximidades.

Morreram 33 tripulantes e 92 passageiros, num total de 125 pessoas. Muitas balsas que não foram resgatadas pelo navio americano conseguiram chegar as praias de Porto Seguro. Houve 117 sobreviventes.

Esquecimento

No outro dia o submarino “Barbarigo”, cujo lema era “Chi teme la morte, non è degno di vivere!” (Quem teme a morte, não é digno de viver!), conseguiu mais um tento com o afundamento do navio norte-americano S.S. Staghound, um cargueiro tipo “Liberty Ship”. Depois de três vitórias no Atlântico Sul, a nave italiana voltou para sua base.

“Barbarigo” retornando da costa brasileira

Mas sua carreira teria um fim até hoje desconhecido. Ainda em 1943, no dia 16 de julho, o submarino partiu em direção ao Japão e jamais foi visto novamente. Acreditasse que tenha sido afundado na área da Baía de Biscaia, próximo a Espanha, por ação de forças aliadas na caça de submarinos. Mas até hoje o fato não foi devidamente comprovado.

O lema do “Barbarigo”

Não consegui maiores informações sobre o Capitão João Batista Rodrigues, mas a paraibana Eudésia continuou o seu sacerdócio na medicina e desenvolvendo novos trabalhos literários, um deles narrando suas experiências no torpedeamento do “Afonso Pena” e em 1974 recebeu o título de cidadã Benemérita da Paraíba. Faleceu no dia 16 de julho de 1981, em João Pessoa .

No artigo publicado na Revista do Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante temos a informação que 927 pessoas morreram em navios brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial, entre tripulantes e passageiros e 21% da frota brasileira foi a pique nesse período.

O estrago só não foi pior devido ao esforço da Força Naval do Nordeste, que participou junto com a Marinha dos Estados Unidos, na proteção de 575 comboios, escoltando mais de três mil navios.

A Marinha Mercante, seus tripulantes e passageiros, foram os brasileiros que mais sofreram e tiveram o maior número de vítimas durante a Segunda Guerra, mas pouco são lembrados nos dias atuais.

Fontes:

http://en.wikipedia.org

http://bloggerdocma.blogspot.com

http://www.sindmar.org.br/

http://www.sbhe.org.br/

Livro – O Brasil na Mira de Hitler, Roberto Sander, 2007, pág 138.

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NO CAIS DOS ESQUECIDOS: O SACRIFÍCIO ANÔNIMO NA II GUERRA

AUTOR – JORGE LEÃO TEIXEIRA-Revista Problemas Brasileiros, n. 312, 1995 

Na cripta do monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial, erguido no Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, estão inscritos os nomes de 559 tripulantes de embarcações da marinha mercante brasileira, mortos no cumprimento do dever. Ali faltam, porém, os nomes dos 502 passageiros desaparecidos no mar, que viajavam em navios afundados por torpedeamento, colisão ou outros acidentes, em decorrência dos ataques e ameaças de submarinos alemães. No total, foram 1.061 vítimas, mais do dobro das perdas sofridas pela Força Expedicionária Brasileira na Itália.

Monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial, Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro

É preciso, também, não esquecer a tragédia daqueles que sobreviveram e foram testemunhas de quadros que jamais se apagaram de suas mentes, mas que apesar dessa experiência terrível voltavam a embarcar em outro navio, amparados por um misto de força moral, orgulho ferido e autodisciplina. Houve gente que sobreviveu a mais de um torpedeamento e continuou navegando até o fim do conflito, vencendo os momentos de medo e dúvida, expectativa e angústia, inevitáveis na rotina dos comboios ou nas incertezas daqueles que eram obrigados a navegar desgarrados daquela proteção.

A marinha mercante brasileira no início do último conflito era integrada, em sua maioria, por velhas embarcações, muitas das quais lançadas ao mar antes da Primeira Guerra Mundial. O Lloyd Brasileiro tinha alguns navios mistos mais modernos, para cargas e passageiros. A Companhia de Navegação Costeira, do empresário Henrique Lage, possuía a frota dos “Itas” e “Aras”, navios franceses para passageiros, com propulsão a diesel, de padrão de luxo. Além dessas empresas, a Companhia Comércio e Navegação e outros pequenos armadores exploravam o transporte de cargas entre os portos nacionais, passando a navegar para os Estados Unidos e a África com o advento da guerra.

Anúncio de chegada e partida de navios do Lloyd Brasileiro em Natal, início do século XX

Nesses navios obsoletos, as tripulações não desfrutavam do conforto oferecido pelos modernos barcos mercantes, sofrendo principalmente com o frio ou com o calor tórrido na casa de máquinas, onde penavam carvoeiros e foguistas. O pessoal das máquinas, além disso, em caso de emergência, precisava subir três escadas até o convés, devendo o oficial encarregado, antes de subir, parar a máquina sob a sua responsabilidade, para que a hélice não colhesse náufragos ou baleeiras em caso de torpedeamento.

Outros heróis eram os telegrafistas, que, ao enviar pedidos de socorro, arriscavam-se a não ter acesso às baleeiras e expunham-se ao canhoneio e metralha dos submarinos contra suas cabinas, a fim de impedir a transmissão de qualquer informação sobre a posição do submersível. 

Tensão permanente

A organização de comboios, embora aliviasse os riscos das viagens sem escolta, contando com a própria sorte, como acontecia com os navios brasileiros que se dirigiam aos Estados Unidos até meados de 1942, não implicava segurança absoluta ou eliminação das tensões com as quais conviviam as tripulações.

O inimigo

Uma das ameaças era a navegação em noites escuras, que se por um lado diminuía a possibilidade de os submarinos avistarem o comboio, por outro favorecia os abalroamentos, pois os barcos navegavam com todas as luzes externas apagadas. (A frota mercante brasileira perdeu por abalroamento em comboios seis embarcações, além de uma outra que bateu numa pedra submersa ao fugir de um submarino.)

Um episódio curioso que ocorreu com o navio “França M”, em fevereiro de 1944, ilustra esses perigos: viajando em sentido contrário a um comboio, a embarcação nele penetrou, provocando confusão e chegando a ser atacada pela corveta “Filipe Camarão”, que a confundiu com um submarino.

Comboio de navios durante a Segunda Guerra Mundial

Nas primeiras viagens dos comboios, quando os navios da escolta desconfiavam da presença de algum submarino, lançavam bombas de profundidade, que ao explodir dentro do mar levantavam grandes colunas d’água, fazendo com que as embarcações mais próximas estremecessem violentamente. A princípio assustadas, as tripulações corriam para as baleeiras, prontas para arriá-las caso os barcos fossem atingidos pelas bombas. Com o passar do tempo, porém, acostumaram-se a essas explosões, que se incorporaram à rotina de risco dos comboios.

As horas de maior suspense chegavam com o crepúsculo e o alvorecer, aliados dos submarinos, que conseguiam divisar os navios, enquanto seus afilados periscópios tornavam-se praticamente invisíveis aos olhos dos observadores. 

Tecnologia

O desenrolar da guerra assistiu a uma corrida tecnológica no mar entre Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha; os Aliados desenvolvendo equipamentos cada vez mais eficientes para proteção aos comboios e os alemães aperfeiçoando submersíveis e torpedos para superar os mecanismos de proteção dos inimigos.

Ataque

Os números traduzem o que foi essa epopéia nos mares: os alemães afundaram 2.603 navios mercantes e 175 navios de guerra, usando 1.162 submarinos, dos quais 784 ficaram fora de combate por motivos vários, tendo perdido 28 mil homens que tripulavam os seus submersíveis.

Uma vítima entre milhares durante a guerra

Os comboios também não conseguiam evitar um inimigo insidioso: os informantes da chamada “quinta-coluna”, que, até terem suas atividades desmanteladas, forneciam detalhes sobre o movimento de navios nos portos brasileiros, principalmente no nordeste. (O então secretário de Segurança de Pernambuco, Etelvino Lins, chegou a prender no Recife um espião alemão que transmitia informações sobre a saída de navios.) Navegar era preciso, mas sempre desconfiando, com navios pintados de cinza, camuflados, suspeitando-se inclusive de navios supostamente neutros (espanhóis, por exemplo), que enviavam mensagens pelo rádio para orientar os submarinos alemães. 

Ambiguidade

A posição do governo brasileiro durante a evolução da Segunda Guerra Mundial foi ambígua, retratando o choque de opiniões no círculo mais próximo ao presidente Vargas: enquanto os generais Gaspar Dutra e Góes Monteiro demonstravam velada simpatia para com a Alemanha, o chanceler Osvaldo Aranha comandava a corrente simpática aos Aliados.

Góes Monteiro (esq.) e Gaspar Dutra. Germanófilos no alto escalão do governo Vargas

Em meio ao choque dessas duas correntes, Getúlio Vargas agia como um poder moderador, ora dando linha a um grupo, ora ao outro, a fim de salvaguardar uma difícil neutralidade brasileira, e tentando tirar vantagens políticas e econômicas dos dois lados em conflito. Principalmente, procurando não abrir a guarda do Estado Novo para os grupos de postura ideológica democrática, que através do combate ao nazi-fascismo poderiam tentar minar o governo ditatorial brasileiro.

O rumo dos acontecimentos internacionais, entretanto, com o ataque a Pearl Harbour, começou a fazer a balança pender para o alinhamento com os Estados Unidos, embora continuasse a resistência de Góes e Dutra, mesmo após a recomendação da III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores, realizada no Rio de Janeiro, em janeiro de 1942, para que os países do continente americano rompessem relações com a Alemanha, Itália e Japão.

Aspecto da III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores, Rio de Janeiro, janeiro de 1942

Góes, em carta reservada a Vargas, alegaria que o país não estava aparelhado em suas forças armadas para a defesa do território nacional, advertência ratificada por Dutra, que lembrou a Vargas existir “largo espaço entre o querer e o poder”, recomendando que, sem repudiar compromissos, o país “não se aventurasse quixotescamente a uma luta provocada”.

Os adeptos do Eixo espalhavam notícias alarmantes, anunciando o bombardeamento de cidades da costa brasileira por submarinos e navios de guerra alemães, caso o Brasil rompesse relações diplomáticas com a Alemanha e a Itália. Mas a 28 de janeiro de 1942, Vargas decreta o rompimento. 

A Resposta

Até então, a navegação mercante brasileira sofrera apenas um ataque aéreo alemão – quando o “Taubaté” foi metralhado entre Chipre e Alexandria, em março de 1941, tendo um tripulante morto – além dos misteriosos desaparecimentos dos navios “Santa Clara”, no mesmo mês, em viagem inaugural de Norfolk para o Rio, e do “Cabedelo”, ambos atribuídos a torpedeamentos.

Notícia do "Jornal do Brasil" informando o ataque ao navio Taubaté

A partir de fevereiro de 1942, porém, começaram as ações intimidativas no mar, com o torpedeamento do “Buarque” na costa americana, seguido do canhoneamento também na costa americana do “Olinda”, afundado pelo U-432. Em março, foi a vez do “Arabutan”, torpedeado pelo U-155, e do “Cairu”, afundado pelo U-94. Em maio, próximo a Trinidad, soçobrava o “Parnaíba”, torpedeado e canhoneado, seguido pelo “Comandante Lira”, na costa do Ceará, afundado pelo submarino italiano “Barbarico”.

Os ataques se sucedem: o U-502 afunda o “Gonçalves Dias”, o U-156 torpedeia o “Alegrete” no Caribe, o U-203 bota a pique o “Pedrinhas” nas Antilhas, o “Tamandaré” é afundado pelo submarino comandado pelo capitão Markworth (frequentador do Café Belas-Artes, no Rio, que falava português fluentemente e interrogou o comando da embarcação brasileira). Em julho é a vez do “Barbacena”, atingido por dois torpedos do U-155, que no mesmo dia afunda o “Piave”, tendo o submarino alemão canhoneado uma baleeira com sobreviventes do “Barbacena”, num requinte de crueldade.

Kapitänleutnant Friedrich Markworth. Em 26 de julho de 1942 como comandante do U-66 afundo o navio Tamandaré

O dia 15 de agosto é negro. Entre Salvador e Maceió, o “Baependi” é afundado pelo U-507, ocasionando a morte de 55 tripulantes e 235 passageiros. O mesmo U-507 afunda também o “Araraquara” e, no dia seguinte, torpedeia o navio de passageiros “Anibal Benevolo”, entre Salvador e Aracaju. A faina sinistra prossegue no dia 17, quando outro navio de passageiros, o “Itagiba”, é torpedeado ao sul da capital baiana. E 48 horas depois, antes de regressar à Alemanha, o U-507 despediu-se do litoral brasileiro afundando a barcaça “Jacira”, de 80 toneladas, tripulada por apenas seis homens.

Korvettenkapitän Harro Schacht. Verdadeiro carrasco dos brasileiros, com um saldo mortífero de seis navios afundados. Foto fonte-http://www.uboat.net

Em nenhum dos cinco ataques do U-507 foi dada oportunidade e tempo para os passageiros e tripulantes se salvarem nas baleeiras, o que provocou um grande número de mortes. Registre-se que os navios viajavam iluminados, como em tempos de paz, ao longo da costa brasileira. 

Revolta

A sequência de torpedeamentos de embarcações de passageiros incendiou uma revolta que já atiçava a opinião pública, que no mês de julho, por ocasião de uma passeata da União Nacional de Estudantes, proibida por Filinto Müller, conseguira criar uma grave crise ministerial, pois o ministro interino da Justiça, Vasco Leitão da Cunha, entrara em choque com o poderoso chefe de polícia, Filinto Müller, autorizando a passeata e chegando a prendê-lo por desacato a autoridade. Vasco demitiu-se, mas a crise custou alguns cargos da ala governamental simpática à Alemanha: Filinto, Lourival Fontes (chefe da Casa Civil) e Francisco Campos deixaram o governo, o que fortaleceu Osvaldo Aranha e seus aliados.

Vergonhosa bajulação do jornal natalense "A Republica" a Felinto Muller em 1942. Outro germanófilo no governo Vargas, que só as mortes dos brasileiros no mar fez sair do poder

A situação política tornou-se tensa, com manifestações antinazi-fascistas em todo o país. Um grande comício no centro do Rio leva Aranha, tribuno popular excepcional, a levantar o povo, que marcha em massa até o Palácio Guanabara, munido de archotes, exigindo a declaração de guerra aos países do Eixo.

Um jornal de Nova York e o Brasil na guerra

Vargas, sentindo que não podia postergar a decisão sob pena de minar as bases do Estado Novo, decidiu assumir a liderança da reação nacional e declarou guerra a Alemanha, Itália e Japão no dia 31 de agosto de 1942. 

Última etapa

Com a entrada do Brasil na guerra e o incremento da ajuda americana, melhoraram as condições de apoio e segurança para a navegação mercante, tornando-se nossos navios mais bem artilhados, os comboios mais eficientes e a marinha de guerra brasileira mais bem equipada. Por outro lado, acirrava-se a guerra submarina do inimigo, que prosseguiria, implacável, até o último dia do conflito, sem o desânimo que tomou conta do seu exército no final da guerra.

Submarino alemão U-126 no mar. Fonte-Ariane Krause, http://www.uboat.net

Muitos náufragos de navios mercantes nacionais eram interrogados por comandantes e tripulantes dos submarinos alemães, interessados nas viagens de outras embarcações e nas cargas levadas para os Estados Unidos.

Os torpedeamentos prosseguiram: em setembro de 1942, um comboio foi atacado próximo ao rio Pará, sendo afundados o “Osório” e o “Lages”, enquanto o “Antonico” era torpedeado, dias depois, na costa da Guiana Francesa. O pequeno navio, desarmado e sem estação telegráfica, teve os náufragos metralhados covardemente pelo U-516. Em novembro, a caminho da África do Sul, o “Porto Alegre” foi afundado, o mesmo acontecendo com o “Apalóide”, que seguia para Nova York.

Fregattenkapitän Gerhard Wiebe, comandante do U-516, que afundou o navio Antonico em 28 de setembro de 1942 e ordenou o metralhamento de parte da indefesa tripulação do cargueiro brasileiro. Foto fonte-http://www.uboat.net

Em fevereiro de 1943, o “Brasilóide” foi torpedeado na costa baiana. No mês seguinte, a Quarta Esquadra Americana informava que a costa brasileira já era toda navegável, em segurança, o que não impediu o torpedeamento do “Afonso Pena”, ao largo de Maceió, em março, pelo submarino italiano “Barbarico”, que canhoneou a cabine radiotelegráfica e matou o seu indefeso ocupante. Em junho seria a vez do “Tutóia”, no litoral paulista. E no mês seguinte a do “Pelotaslóide”, a caminho de Belém, e do “Bagé”, na costa nordestina.

As últimas baixas foram registradas nos meses de setembro e outubro de 1943, quando o “Itapagé”, entre Recife e Salvador, e o “Campos”, entre Santos e Rio de Janeiro, foram afundados. O esforço para manter o abastecimento no país, que dependia então vitalmente da navegação de cabotagem, continuou enorme, embora a perda de 31 navios criasse grandes dificuldades, repercutindo com a escassez de muitos produtos. Além disso, a programação dos comboios, visando o máximo de segurança na partida dos navios, contribuía para prolongar viagens e escalas.

Heroísmo

Foram muitos os atos de bravura e estoicismo das tripulações dos nossos navios mercantes. Infelizmente é pequena a literatura a esse respeito, pois um detalhado livro do almirante Saldanha da Gama, fruto inclusive de pesquisas feitas na Europa no pós-guerra, A Marinha do Brasil na Segunda Guerra Mundial (Capemi Editora, 1982), tornou-se uma obra rara. Em 1993, porém, a editora publicou um importante livro, escrito por Herbert Campbell, ex-piloto da marinha mercante que jovem ainda passou a guerra no mar, intitulado “A Marinha Mercante na Segunda Guerra”, relato que conjuga a informação precisa com o dom da narrativa, e que nos orientou ao escrever esta reportagem.

Cargueiro Buarque. Fonte foto - http://www.uboat.net

Entre os fatos relevantes contidos nesse livro, selecionamos um que retrata o desprendimento heróico dessa brava gente: o “Cairu” era comandado pelo capitão-de-longo-curso José Moreira Pequeno, o qual, doente, pedira em Belém para ser substituído, mas ao saber do torpedeamento do “Buarque” achou injusto passar o comando a um colega em circunstâncias tão perigosas, seguindo viagem, bastante enfermo. Após o torpedeamento do “Cairu”, na baleeira apinhada, sob frio intenso, seu estado de saúde piorou. Ao amanhecer, descobriu-se que ele desaparecera silenciosamente, preferindo escolher o oceano como túmulo para não causar embaraços aos demais sobreviventes. Muitos deles morreriam congelados nas baleeiras, que foram dar à costa americana, exceto uma delas, recolhida pelo navio “Titânia”, que salvou todos os seus ocupantes. 

Patrulhas

Não foi fácil a tarefa da marinha de guerra, repentinamente obrigada a patrulhar a grande costa brasileira, em regime de guerra, procurando garantir as rotas dos navios mercantes para que o país não parasse. Os encouraçados “São Paulo” e “Minas Gerais” foram deslocados respectivamente para Recife e Salvador, servindo como fortalezas para revidar qualquer ataque inimigo. E comboios foram sendo organizados, primeiro em nosso litoral, depois até Trinidad.

Dois caça-submarinos da classe G (conhecidos como Caça Ferro) Gurupi e Grajaú, ainda com indicações da US Navy

Enquanto treinava recursos humanos e modernizava-se, ocupando inclusive a ilha de Trindade, a marinha improvisava para dar cabo de suas missões, com os “caça-paus” (navios de madeira, com 33 metros de comprimento, cuja guarnição só comia enlatados e tinha água racionada), substituídos mais tarde pelos “caça-ferros”, tipo G (“Guaporé”, “Gurupi”, etc.), que possuíam melhores condições para a caça aos submersíveis. E suas antigas corvetas, a partir de 1943, receberam o reforço de oito destróieres americanos, o que permitiu maior eficiência no patrulhamento.

      
Avião da US Navy em Parnamirim Field. Utilizado na patrulha e caça de submarinos, foram quem efetiva e operacionalmente defenderam nossas costas

A marinha de guerra também sofreu grandes baixas. Em julho de 1944 uma violenta volta do mar emborcou a corveta “Camaquã”, no litoral pernambucano, provocando a morte de 33 homens, inclusive o seu comandante, o capitão-de-corveta Gastão Monteiro Moutinho. Dois anos depois, o “Vital de Oliveira” foi torpedeado entre Vitória e o Rio de Janeiro, tendo morrido 99 homens de sua guarnição.

O Vital de Oliveira

A tragédia maior, sobretudo, ocorreria com a guerra já encerrada, a 4 de julho de 1945, com o cruzador “Bahia”, o qual recebera equipamentos eletrônicos para missão de apoio aos aviões americanos que cruzavam o Atlântico, vindos da África. A 500 quilômetros de Fernando de Noronha, um disparo casual de metralhadora atingiu uma bomba de profundidade, colocada na ré, para uso contra submarinos, provocando uma terrível explosão e destruindo toda a popa do vaso de guerra, com perda total das baleeiras e causando o rápido afundamento da belonave. Quase 300 homens que escaparam da explosão comprimiram-se em dezessete balsas, com água até a cintura, enquanto outros agarravam-se a destroços. (Cada balsa tinha apenas um reservatório de água, e esta acabara contaminada pela água do mar.) Salvaram-se apenas 36 homens da guarnição, encontrados inconscientes. Pereceram 337, inclusive o capitão-de-fragata Garcia D’Ávila Pires e Albuquerque, que comandava o “Bahia”.

Cruzador Bahia

MEMORIES OF WORLD WAR II IN NATAL, BRAZIL

A DIFFERENT DAY IN PONTA NEGRA BEACH

Rostand Medeiros – Writer and member of the Historical and Geographic Institute of Rio Grande do Norte.

Although little known outside Brazil, this country was during the Second World War the main U.S. ally in Latin America.
At that time many Brazilian ships were sunk in the conflict, causing the declaration of war against Germany and Italy on August 22, 1942.
But even before this date, naval forces U.S. maintained a network of air bases in the major coastal cities of Brazil. For the U.S. bases in the cities of Belém and Natal were of vital importance to the call of the South Atlantic route, they passed thousands of aircraft to the south of Europe, Africa, Middle East, India, China, Burma and elsewhere.

American soldiers at Ponta Negra beach during World War II

From December 1941 until the end of the conflict, the city of Natal, located in the Brazilian Northeast, received a large number of American soldiers who operated the wide Parnamirim Air Base, besides their patrol squads and hunting and destruction Nazi and Fascist submarines.
The U.S. military authorities worked together with the authorities and the Brazilian military that even with serious deficiencies in equipment and training, did their best to protect their territory.

Defending the Coast of Northeastern Brazil

Four months before the day of the official declaration of war against Germany and Italy, the Brazilian military employed a system of patrols along their shores. The then Brazilian minister of war, General Zenóbio da Costa created what is called “Plan for the Defense of the Northern Army.”
Among the orders for the thousands of Brazilian soldiers assigned to this mission, is the exercise of strong vigilance on the coast. This task was assigned to the 7th Military Region, then a control region (now extinct) of the Brazilian Army, with headquarters in the city of Recife. The Brazilian Air Force and the Navy of Brazil also participated in these efforts, but in other ways.

Brazilian soldiers in the beach

Army units were moved to the northeastern beaches. Men from various parts of the country occupied the coast, in a form of defense somewhat questionable in the sense of war. Actually they were more observant of things happening on our beaches, which itself was a fighting force able to deter a possible invasion.

Brazilian soldier watching the coastline in a poor lookout

But they were important in its function and this activity had its value.
I believe that the Brazilian military brass pointed to other goals. How to prevent the landing of spies by submarine and the very question of the psychological context of transmitting to the population of these coastal regions that our forces were present on our shores, taking part of our defense.
Despite this importance, we know that given the revealing of the history of Brazilian participation in World War II, by quite a few studies that linked the memories of the Brazilians who were at the European front.
If the state of history connected people who crossed the ocean to fight in Italy is limited, the more difficult are the testimonies of those who were patrolling our beaches, awaiting the arrival of an enemy that could land at any time.
The lives of these soldiers of the Brazilian army was not easy.

Brazilian soldiers

Besides having to endure the jokes of people who said they were on the beach “sunbathing” there was the scarcity of accommodation, food, the uncertainty of the appearance of the enemy, the monotony of deserted beaches, the wear caused mainly by the mighty Northeastern sun, salt, sand, wind, rain fell from time to time and homesickness, especially for those who had come from afar.
Indeed the situation was monotonous. But not always!

The Sad Arrival of a North American in the Ponta Negra Beach

Years ago I met the Mr. Clóvis Ramalho Ribeiro Dantas, a Brazilian born in Natal, father of our great friend, the economist Vivianne Fernandes Ribeiro Dantas, she is a competent official of the Regional Labor Court of Natal.
Mr. Clóvis, was the retired bank cashier. Serious man, worker, mason, quiet and liked to tell stories of his participated in the Second World War.
He recounted his sufferings always one of the “beach soldier” as the coast guard was known. He spoke about the patrols, the lack of what to do, spending all day staring at the sea of ​​night patrols and day to day of this function.
But one day something appeared on the horizon and everything was different and busy.

Ponta Negra Beach

You said that Mr. Clóvis said that “beginning of the year 43, probably in January.” He was on patrol in the area of ​​Ponta Negra Beach, in the area near the present highway known as the “Via Costeira”, a desert location at the time, but currently is full of sumptuous hotels that receive thousands of tourists who visit the city of Natal.
According to him, his friend, a military, who was the first person to spot the small boat. For this military, which drew his attention to the sea were some sea birds flying over a point in the sea and then he noticed the small boat.
Then someone, or the strength of the tide, brought the boat to shore. Several Brazilians were watching what was in it. Your Mr. Clóvis was among these patrols.
What caught his attention, even when he was walking some distance from the ferry, was the smell of rotting flesh. Inside the lifeboat was the reason: there was a human body in a state of putrefaction. He was a man, of the North American military, with clothes of a foreign exchange official U.S. Army. The body was very dehydrated, badly burned, with multiple wounds in the skin caused by the sun and birds. The head was hanging on the edge of the raft, and what most caught the attention of Mr. Clóvis, was the lips late opening of grotesque form, showing what was due to the action of the sun.
At the time when he recounted this episode, he told me that it may be endured, but many colleagues vomit before the board. Like most of the Brazilian population is devout Catholic, to these other military men, who made the sign of the cross and remained on their knees and prayed for the souls of the dead.
It is war that, but even without going directly to Natal, he sent a message there saying.

Signs of a tragedy in the Atlantic

Another thing that caught the attention of this young Brazilian soldier was a small bag that from the U.S. A Brazilian sergeant opened to verify its contents and found, according to Mr. Clóvis, several “small plates with engraved names”. He was speaking of the famous identification nameplates, involved in several armies during the Second World War. Used primarily to identify the wearer in case of death or injury, the small plates served as a source of medical information for treatment, always bringing the blood type and other data. The Americans called this material “Dog Tag” because of its similarity with the plates placed in collars, used to identify dogs.
Soon they reached the shore where were U.S. military, both soldiers and officers. Some of the men rolled the body, which when searched, photographed it, took notes, and sought information from the Brazilian patrol through interpreters.

Demonstrating the use of rescue boat in a school of the Air Force 

Everything was done quickly, without much talk, no crying, with the military quiet and reserved. Soon the U.S. military took the corpse, the bag with small plates, the ferry, put everything into a vehicle and drove away.
Mr. Clóvis Ramalho Ribeiro Dantas never forgot this day. But until his death in 2008, her never knew who was the American on the ferry. Mr. Clóvis thought the occupant of the boat was the victim of a submarine that sank a ship in the Atlantic and Mr. Clóvis  never knew his name.
Life goes on.

News was even in Australia

I’ve never forgotten the story that Mr. Clóvis told me with, to the richness of detail and eloquence as he recounted this episode.

But at the same time, due to lack of information provided to the Brazilians at the time, about who the person was on the ferry, there were few details known about the case.

Recently I remembered the story of Mr. Clóvis and his like today we have this unique tool (both for good and for bad) that we call the internet, I had the desire to seek contacts with people around the world, seeking any information on this episode.

I left information about the case and to my luck and surprise, Mr. Henry F. Mann, Sydney, Australia, sent me a helpful message, which forwarded the pictures of two pages of old newspapers in his country. The newspapers were of January 1943 and had an interesting story about a plane crash in the middle of the Atlantic Ocean.

Reporting on the event of Ponta Negra in Australian newspaper

In a note from the Australian newspaper “The Mail”, Adelaide city, edition of February 20, 1943, on the first page, reports that a small life raft, rubber, bearing the body of Maj. Arthur Mills, member of the Army Air Corps Ferry Command, who drifted to a beach near Natal, Brazil.
According to United Press correspondent stationed in Natal, the note added that the boat had neither food nor water, and the ferry had probably followed the drift of more than 1,000 miles across the South Atlantic
Pointed to note that Major Mills struggled to survive because the small boat had fish bones and one of those traditional emblems of an eagle (which the Americans put on the caps of officers during World War II) was transformed into a makeshift fishhook.

More significant was the fact he was found with the body together with six aboard “Dog Tag”, indicating that six other airmen had died, probably on the ferry, amid a tremendous agony of thirst and hunger. The names of these six victims were not released.
It was a very similar story that was told to me by Mr. Clóvis.

Since the newspaper “The Sydney Morning Herald”, issue on 24 January 1943, on the eighth page, you find the news that follows. Two members of the Royal Australian Air Force (RAAF), the pilot W. T. B.  Smithson and Sargent H. V. Lamb, along with thirteen Americans and twelve British who were unaccounted for due to the loss of an American transport plane in the South Atlantic.

The note stated that the body of Major Arthur Mills had been taken on a life raft headed for the Brazilian coast.
The note ended, that some of the personal property of other airmen were found in the raft.

An Old Book Helps Understand This Episode 

Then I remembered that in the city of Recife, a friend of mine has a copy of the book “The eagle in the egg” and might have some information about this case.
Written in 1949 by Lt. Col. Oliver La Farge, and published by Houghton Biffin Company, Boston, this material with 319 pages detailing the history of the ATC – Air Transport Command, which was the agency that developed the network of aircraft, airports, airfields and the whole structure of American air travel in the Second World War.

Fueling aircraft on the airfield’s ATC en route from South America

At my request he did a search and found on page 194, that just before midnight on January 17, 1943, a transport aircraft model Consolidated C-87 “Liberator Express”, registration number 41-11708, took off from the African city of Accra, the former Gold Coast, now Ghana, towards the city of Natal. Its pilot was Captain Orval Eknes Mijkpen and he basically carried passengers. Given in the book that due to a good strong tailwind, Capt. Elwes planned to make the trip nonstop, just flying over the island of Ascension, a volcanic rock in the middle of the Atlantic Ocean, belonging to England and also an important air base support.
But this plane just disappeared.
At noon on Jan. 18, began the search for the aircraft along the route which, although hampered by bad weather conditions, was continually used until January 30, 1943, both by air, for seeking military signals brought on Brazilian beaches of the sea.

C-87

No wreckage was found.
On February 5, a Friday, the Brazilian soldiers patrol in Ponta Negra, among them the Mr. Clóvis Ramalho Ribeiro Dantas, spotted a lifeboat where the dehydrated body of Major Arthur Mills. This was nineteen days after the plane C-87 41-11708 had taken off at night in Accra.

Accra Airport during World War II

This appeared in “The eagle in the egg,” the men who perished on the waters of the Atlantic, left no records or documents to unravel the mystery of the disappearance of C-87.
What was interesting is that the author has confirmed the note’s Australian newspaper, that there were bones and a distinctive cap of colonel to form a fishhook.
For Lt. Col. La Farge, it was evident that the plane had landed successfully in the water and the men on board (or part of them) should have successfully managed to evacuate the stricken aircraft, but with great haste, but apparently did not bring all of their survival gear in the raft.

Investigations 

The ensuing investigation found that Captain Elwes was one of the best pilots to fly over Africa, he was not tired, had not drunk the night before the match in Accra. The records show that the behavior of the entire crew before the flight was normal. There was the usual inspection before takeoff and the engines were in great condition.

Embarking on a military C-54 ATC in Accra

The book claims that the plane was relatively new in service, without having flown in an excessive way. Furthermore there was no unusual incident, nor was any message received from the plane after it took off.
For the book’s author, Lieutenant Colonel La Farge, a likely explanation was that this accident could have been any problem with the fuel on board or the C-87 could have been knocked down by a German submarine.
These are just theories. The truth about what really happened to the C-87 “Liberator Express” will probably never be known.

A Strange Story 

Major Arthur Mills who was a former transport pilot of air mail in the United States, was born in the city of Muscatine, Iowa.
Among the occupants of the aircraft was Sgt Ross Ballard Moore Jr., of Texas. He graduated in 1940 and joined the Army Air Corps of the United States and died in this accident. It was the only crew member who was photographed and there is a strange story involving this military.

Sergeant Ross Ballard Moore Jr.

On the internet site http://www.findagrave.com/cgi-bin/fg.cgi?page=gr&GRid=42650429 amid a series of misrepresentations regarding this accident, a relative says that on the night of 15 January 1943, the older sister of Ballard, called Dorothy Lee, the awoke, and saw at the foot of her bed she saw her brother.

She was surprised and startled, because she knew that he was in South America. What was worse when she heard the figure clearly say “You’ll have to take care of our mother now, I will not be able”. Reportedly, she began to ask what he was talking about but he was gone.

According to the information on this site, the family only learned of the accident two days late.
I am not judging this last information, just informing.

Natal, Brazil, may 2011

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Rostand Medeiros – Was born in Natal, Rio Grande do Norte. He is a 45 years old writer, researcher and expert in producing biographical works. Also does researches in history of aviation, participation of Brazil in World War II and in regionalist aspects of Northeast Brazil. He studied History at UFRN – Federal University of Rio Grande do Norte and is member of Genealogy Institute of Rio Grande do Norte – IGRN and SBEC – Brazilian Society for the Study of Cangaço.

In 2009, he was co-author of “Os Cavaleiros dos Céus – A Saga do Voo de Ferrarin e Del Prete” (in free translation, “The Knights of the Sky: The Saga of Ferrarin and Del Prete Flight”), a book that tells a story from 1928, of the first nonstop flight between Europe and Latin America. This book was supported by the Italian Embassy in Brazil, Brazilian Air Force (FAB) and Potiguar University (UNP).

In 2010, Rostand was a consultant of SEBRAE – Brazil’s Micro and Small Business Support Service, participating of the project “Território do Apodi – nas pegadas de Lampião” (in free translation, “Apodi Territory – In the footsteps of Lampião”), which deals with historical and cultural aspects of rural areas in Northeast Brazil.

In 2011, Rostand Medeiros launched the book “João Rufino – Um Visionário de Fé” (“João Rufino – A visionary of Faith”), a biography of the founder of industrial group Santa Clara / 3 Corações, a large coffee roasting company in Latin America. The book shows how a simple man, with a lot of hard work, was able to develop, in Rio Grande do Norte state, a large industry that currently has seven units and 6,000 employees in Brazil. Also in 2011, he wrote, with other authors, a book of short stories entitled “Travessa da Alfândega” (in free translation, “Customs Cross Street”).

In 2012, Medeiros produced the following books: “Fernando Leitão de Moraes – Da Serra dos Canaviais à Cidade do Sol” (“Fernando Leitão de Moraes – From Sugarcane Mountains to Sun City”) and “Eu Não Sou Herói – A História de Emil Petr” (“I’m not a hero – The Story of Emil Petr”). This latest book is a biography of Emil Anthony Petr, a farmer who was born in Nebraska, United States. During World War II, he was an aviator in a B-24 bombing and became a prisoner of the Germans. This work shows the relationship of Emil with Brazilian people, whose with he decided to live from 1963, when he started to work for Catholic Church.

He also published articles in “Tribuna do Norte”, newspaper of the city of Natal, and in “Preá”, cultural magazine published by Rio Grande do Norte State Government. He founded SEPARN – Society for Research and Environmental, Historical and Cultural Development of Rio Grande do Norte. Currently, is working as a Parliamentary Assistant in Rio Grande do Norte Legislative Assembly and develops other books. Rostand Medeiros is married, has a nine years old daughter and lives in Natal, Rio Grande do Norte, Brazil.

Phones: 0051 84 9904-3153 (TIM) / 0051 84 9140-6202 (CLARO) / 0051 84 8724-9692 (Oi)

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1918 – QUANDO A GRIPE ESPANHOLA ATACOU NATAL

O PIOR É QuE 102 ANOS DEPOIS O DRAMA PODE SE REPETIR COM O NOVO CORONAVÍRUS VINDO DA CHINA

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

– Texto originalmente publicado originalmente no jornal Tribuna do Norte em 14 de fevereiro de 2008, publicado pela primeira vez no TOK DE HISTÓRIA em 19/03/2011 e revisado em 19/02/2020.

Em 1918, a pequena Natal seguia sua vida tranquila, em meio a um mundo que há quatro anos se esmagava em uma guerra com um nível de crueldade até então nunca testemunhado.

Tribuna do Norte, edição de 14 de fevereiro de 2008.

Os natalenses acompanhavam a Primeira Guerra Mundial através dos jornais locais, que traziam cotidianamente notícias dos combates, histórias pitorescas de soldados e da incrível ação das novas armas como os aviões e os submarinos. Apesar do natalense ler sobre o conflito, este se mantinha distante, sem alterar o dia a dia da cidade.

Esta sensação foi alterada quando navios brasileiros foram torpedeados por submarinos alemães e o país declarou guerra a este país em 26 de outubro de 1917.

Em todo país cresce o ufanismo e o orgulho de participar da “Grande Guerra”. O presidente Wenceslau Brás decide compor uma frota de navios da marinha de guerra, para ajudar no esforço dos aliados.

Somente sete meses depois, em maio de 1918, parte do Rio de Janeiro a pomposa frota naval, batizada de DNOG (Divisão Naval de Operações de Guerra). Em julho, esta frota composta de oito navios aporta no rio Potengi e a cidade se encanta com o aparato militar. Teve recepção, missa campal e até hino de Palmyra Wanderley para os combatentes que iam para além mar, foi declamado.

Após a partida da DNOG em direção à África, os quase 29.000 habitantes da capital voltaram ao seu ritmo tradicional e tranquilo.

Aparentemente pouca gente em Natal prestou a mínima atenção quando o jornal A República publicou na sua edição de terça-feira, 24 de setembro de 1918, uma pequena nota intitulada “Influenza”. Esta dava conta que o ministro do exterior, Nilo Peçanha, havia recebido a notícia que vários marinheiros da DNOG morreram em consequência da “influenza” ou “gripe espanhola”.

A Primeira Morte

Após a primeira notícia, começam a chegar novas informações que deixavam claro que uma epidemia estava crescendo pelo mundo afora, tornando-se o que a ciência classifica de pandemia, uma doença em escala global.

No Rio de Janeiro, ainda na segunda quinzena de setembro de 1918, após a chegada de navios de carreira, com passageiros infectados, começam a ocorrer às primeiras mortes no país.

Foto de um hospital de emergência durante a epidemia de gripe de 1918, em Camp Funston, Kansas, Estados Unidos. 

Logo depois, em 30 de setembro, A República informa que havia diversos casos da “influenza” em Recife, então a doença começa a ser mais destacada nos jornais da nossa capital. Estes reproduziam não medidas profiláticas, ou algum tipo de preparação para enfrentar a doença, mas informes de autoridades médicas, que buscavam amenizar os efeitos da gripe, classificando-a de uma “gripe comum”.

De forma geral a imprensa local não anunciava com mais ênfase o alastramento da gripe espanhola, noticiava-se com mais destaque o início do primeiro campeonato potiguar de “Foot boll”.

Mas gradativamente a situação vai mudando.

Quem lê os jornais do período, percebe como aos poucos a gripe espanhola entra no cotidiano da população de Natal. Praticamente de uma hora para outra surgem nas páginas de anúncios dos jornais inúmeras propagandas de remédios, tais como a “Kolyohimbina”, “Puritol”, ou o “Balsamo Philantropico”, que prometiam a “cura milagrosa contra o mal espanhol”.

Se tornaram frequentes em Natal a reprodução no jornal A República de notícias sobre a Gripe Espanhola em outros estados brasileiros.

Aparentemente, a primeira morte em decorrência da gripe espanhola ocorrida em Natal foi a do comerciante cearense Mozart Barroso, a bordo do navio “Pará”, que estava ancorado no porto da cidade. Em A República, na edição de 15 de outubro, informa que o falecimento ocorreu devido a uma “moléstia” contraída em Recife, vindo a falecer o comerciante em decorrência da viagem.

Se Mozart Barroso morreu ou não da gripe espanhola, os jornais não esclarecem. Entretanto, quatro dias depois, o respeitado médico Januário Cicco escreve em “A Republica”, uma coluna visando “auxiliar na defesa da saúde publica contra a epidemia de gripe ou influenza espanhola, que celeremente se disseminou por toda parte”.

Jornal A República de 1 de outubro de 1918, descrevendo a chegada da Gripe Espanhola em Recife e o que se sabia dos meios de prevenção.

O Dr. Januário recomendava então o uso da “quinina”, informando ter distribuído pelas farmácias da cidade, comprimidos deste produto. Este médico solicitava que “os poderes competentes”, ordenassem aos funcionários da Inspetoria de Higiene que fossem visitar as “choupanas dos mais pobres, distribuindo quinina, aconselhando a melhorar os aspectos de higiene, escolher uma alimentação sadia, beber água de procedência e evitar aglomerações”.

Enquanto isso chegava notícias que no Rio de Janeiro, a 19 de outubro, fora decretado um feriado de cinco dias de duração, na tentativa de se evitar aglomerações e o pânico. Em 21 de outubro morreria o primeiro doente na cidade de São Paulo. Até dezembro de 1918, entre 12.000 a 17.000 pessoas, morreriam na então capital federal e entre 5.400 e 12.300 sucumbiriam em São Paulo.

Nem é preciso dizer que o primeiro campeonato de futebol do estado do Rio Grande do Norte foi adiado.

O Medo se Propaga

Engana-se quem pensa que a Gripe Espanhola atacou basicamente Natal. Conforme podemos ver na capa da edição do dia 7 de dezembro de 1918 do jornal O Município, de Jardim do Seridó, a peste também o interior potiguar.

Em meio à apreensão causada pelo alastramento da gripe, o comércio se adequava como podia a triste novidade. A farmácia Torres anunciava que por 1$800 (um mil e oitocentos réis) era vendido um preservativo que poderia ser utilizado no ato sexual, mesmo em meio ao surto de gripe, “prevenindo pessoas que dele fazem uso com vantagem”. Para outras atividades a situação era mais complicada; a fábrica de gelo da Força e Luz, a única da cidade, parou suas atividades durante a ocorrência do surto.

Surgem boatos que os soldados do 40º Batalhão de Caçadores, a unidade do Exército Brasileiro existente em Natal na época, teriam contraído a doença em larga escala, mas estes boatos não tinham fundamento.

Percebe-se pelos jornais que setores da sociedade passam a cobrar dos órgãos governamentais uma maior atenção com as questões de higiene pública, onde surgem cobranças para a extinção de lamaçais existentes nas ruas da cidade, ou contra o abate de animais em residências, além da providência de se enterrar com urgência as carcaças. A 23 de outubro, a diretoria do Colégio da Conceição decidiu encerrar o ano letivo, “sem entrega de diplomas e sem festas”, devido à “epidemia”.

Conforme o medo do alastramento da doença crescia, medidas profiláticas eram recomendadas, com algumas ações que pareciam saídas de algum tratado de bruxaria; lavagens intestinais com água morna, chá de pimenta d’água com duas gotas de glicerina, ou tomar um vidro de magnésia fluida, com vinte gotas de “briônia” e dez gotas de “tintura de beladona”.

O interior não se mostrava imune aos efeitos da pandemia, de Areia Branca vinha à notícia que a gripe havia atacado a cidade. De Nova Cruz, Mario Manso, o Presidente da Intendência (cargo que atualmente equivale ao de prefeito), informava que se recuperava da gripe. Já o Intendente de Mossoró, Jerônimo Rosado, informava que 38 pessoas morreram na cidade.

As Ações do Governo

O governo estadual não se pronunciava sobre a crise. Apenas em 1º de novembro, o então governador potiguar, Ferreira Chaves, anuncia através do jornal “A Republica”, que estava “agindo para acudir a pobreza desta cidade”, organizando na Escola Frei Miguelinho uma comissão de apoio, que visava fornecer alimentação aos necessitados no bairro.

Este trabalho estava sob a direção do diretor da Inspetoria de Higiene, o Doutor Calistrato Carrilho, com a participação do professor Luís Soares, então diretor da escola “Frei Miguelinho”, do Padre Fernando Nolte, do Dr. Antônio Soares, do Tenente João Bandeira e do Senhor Laurentino de Moraes, contando com o apoio dos escoteiros. Desta comissão o governo criou então um Posto de Assistência do Alecrim, onde trabalhavam os médicos Varela Santiago e Marcio Lyra. A missão do Posto era fornecer remédios, alimentos e até mesmo querosene para iluminação.

Em meio aos carcomidos exemplares que restam dos antigos jornais natalenses na atualidade, chama a atenção um aviso publicado, pela Inspetoria de Higiene, no início de dezembro de 1918, intitulado “A Influenza Espanhola, Conselhos ao povo”, onde entre outras coisas, solicitava “evitar aglomerações, não fazer visitas, evitar toda fadiga e excesso físico”.

Um indício de como estava à situação no bairro do Alecrim é apontada pela própria comissão, que em média atendia a um número superior de 350 pessoas por dia. Escoteiros percorreram diversas ruas do bairro, para entregar alimentos e remédios nas casas dos que não tinham sequer condições de se deslocarem para o colégio “Frei Miguelinho”.

As ações então cresciam; no bairro das Rocas, as “Damas de Caridade”, grupo ligado a Igreja Católica, atuavam neste bairro no apoio principalmente às famílias dos pescadores. De barco seguiu para as Praia de Muriú, Praia de Maracajaú, Farmacêutico Floriano Pimentel, com vários medicamentos. Os cinemas Royal e Polytheama, que estavam sem exibições cinematográficas desde outubro, foram rigorosamente desinfetados.

Outra notícia, sem detalhes estatísticos ou maiores referências, da conta que o governador Ferreira Chaves buscava atender, com as mirradas condições do tesouro estadual, os inúmeros pedidos das cidades e vilas do interior para o combate a pandemia.

As Mortes

Apesar da assistência oferecida, o número de mortos crescia na cidade. Discretamente, nas notas diárias dos jornais, surgem diversas notas de falecimentos, atribuindo abertamente a gripe espanhola à causa da morte de diversas pessoas, envolvendo principalmente representantes das classes menos abastardas da cidade.

São inúmeros os informes, tais como o do funcionário da Estrada de Ferro Central, José Calazans Carneiro, que perdeu dois filhos menores de idade. Já o capitão da polícia, Abdon Trigueiro, Sargento da polícia Othoniel Trigueiro. Ou o falecimento de Alfredo Costa, serralheiro da Ferrovia Great Western, que deixou numerosa família e a comerciário da empresa A. dos Reis & Cia., Miguel Medeiros, que morreu nas dependências do Hospital Juvino Barreto e foi enterrado no cemitério do Alecrim.

Sem maiores dados é temerário afirmar se a classe mais abastarda da cidade na época, foi ou não atingida diretamente pela pandemia de gripe espanhola. Entretanto, entre os inúmeros necrológicos publicados no período temos os casos de falecimento do desembargador Vicente Lemos, ou do Comerciante Alexandre de Vasconcelos, Professor Tertuliano da Costa Pinheiro. Contudo, nos necrológicos das pessoas mais bem posicionadas socialmente, não consta à mínima referência que a causa de alguma destas mortes tenha sido atribuída à gripe espanhola.

É na tradicional mensagem ao Congresso Legislativo do estado, lida no dia 1 de novembro de 1919, que o governador Ferreira Chaves deixa transparecer que a gripe espanhola deixou marcas em todas as camadas sociais de Natal. Ele afirma que a pandemia, “mesmo não sendo tão mortífera como em outros lugares, roubou-nos muitas vidas preciosas e pesou cruelmente sobre todas as classes da sociedade”.

O Fim do Pesadelo. Ou Não?

No mês de dezembro de 1918, da mesma forma abrupta que este pesadelo chegou a Natal, ele estava deixando a nossa terra.

No dia 11 de dezembro, a Inspetoria de Higiene considerava praticamente extinta o surto de gripe espanhola em Natal.

Do interior do Rio Grande do Norte chegam notícias do declínio dos surtos de gripe espanhola em Natal. De Lajes, o Intendente Felix Teixeira informava o recuo da doença e agradecia o apoio do governador Ferreira Chaves.

Inaugurado em 9 de setembro de 1909 pelo então governador Alberto Maranhão, o Hospital de Caridade Juvino Barreto, atual Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), era a unidade de referência para atendimento hospitalar em Natal no ano de 1918.

No dia 15 de dezembro o governo decidiu encerrar as atividades do Posto de Assistência do Alecrim, o principal da cidade. Ao final houve homenagens, festas e comemorações para a Inspetoria de Higiene, aos que trabalharam e mantiveram ativo o Posto de Assistência do Alecrim e aos escoteiros, sendo todos recebidos com honras pelo mandatário estadual no palácio do governo.

Segundo informou o professor Luís Soares, em trinta dias de atividades, o Posto atendeu nada menos que 10.814 pessoas. Os escoteiros visitaram neste período 169 casas, atendendo 135 doentes que não puderam nem mesmo se deslocar para o local de assistência.

Soldados da Força Expedicionária Americana vítimas da gripe espanhola no US Army Camp Hospital no. 45 em Aox-les-Bains, França. Calcula-se que só no Brasil morreram 300.000 pessoas devido a Gripe Espanhola, ou cerca de 10% de nossa população na época. Hoje seriam algo em torno de 20 milhões de vítimas fatais.

Infelizmente os jornais da época não explicam com maiores detalhes estes dados estatísticos. Não sabemos se destas 10.814 pessoas, todas estavam doentes, ou o grau de virulência a que foram submetidos e, principalmente, em nenhuma linha é divulgado quantos morreram neste período. Em Natal se repetiu o mesmo que ocorreu em outras partes do país; as autoridades deliberadamente escamotearam os dados sobre a doença.

Para uma cidade onde a população girava em torno de 29.000 pessoas, um surto epidêmico que leva ao atendimento de 10.814, mostra a dimensão do problema que foi a gripe espanhola. Para efeito de comparação, segundo o Censo 2007, o número de habitantes de Natal neste período, equivale atualmente à cidade de João Câmara.

Se, aparentemente, o número de mortos desta pandemia em Natal e no Rio Grande do Norte não foi tão grande, qual fator teria ajudado aos potiguares em relação a outras áreas do Mundo? Seriam os ventos que sopram no litoral, ou o clima seco do sertão?

O certo é que tivemos muita sorte, pois a gripe espanhola ceifou mais de 50 milhões de pessoas em todo planeta. Proporcionalmente na história da humanidade, nada foi mais terrível que esta pandemia. Este número é superior a soma de todos os soldados mortos em combate durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial, Guerra da Coréia e Guerra do Vietnã.

Foto da atual problemática envolvendo o novo surto de o Coronavírus originário da China e denominado oficialmente pela Organização Mundial de Saúde como COVID-19 – Fonte – https://exame.abril.com.br/mundo/coronavirus-supera-sars-na-china-e-se-aproxima-do-brasil/

O interessante desse texto é que na sua primeira publicação, nas páginas da Tribuna do Norte, ele não foi criado porque havia na época algum grande surto viral e nem imaginava que algo pudesse acontecer pelos anos seguintes. Mas em 2011, quando um vírus chamado H1N1, ou gripe A, se propagou desde o México e assustou o planeta, decidi publicar esse texto pela primeira vez no nosso TOK DE HISTÓRIA. Logo esse surto desapareceu e ouve alívio geral. Quando publiquei esse texto em 2011 eu encerrava com um questionamento “Assim percebemos que a questão não é saber se vai haver ou não outra pandemia, mas quando?”.

Passados nove anos dessa publicação, eu sei a resposta!

Estamos novamente a volta de uma nova pandemia com o Coronavírus originário da China e denominado oficialmente pela Organização Mundial de Saúde como COVID-19 . Apesar do número de mortos ser pequeno o COVID-19 é extremamente virulento e está deixando o mundo em um intenso estado de alerta. Afetando primeiramente a China.

Parece que vamos conviver com esses surtos com maior frequência que imaginei !

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KHL – IR DE NATAL PARA A EUROPA EM ALTO ESTILO

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Natal hoje tem voo internacional para a Europa, o que é uma maravilha. Mesmo este voo não alcançando muitas cidades do velho continente, ninguém discute a enorme vantagem de se pegar um avião Airbus ou Boeing, jatos de alto padrão de segurança e conforto, para depois desembarcar em oito ou dez horas no seu destino. Às vezes é necessário sair de Natal e “descer” para Recife, Salvador, São Paulo, pegar uma conexão e atravessar o Atlântico. Dá um pouco mais de trabalho, mas se chega com enormes vantagens.

Não se pode desprezar a evolução das coisas, mas nada impede dar uma olhada no passado, para saber como nas primeiras décadas do século XX  um abonado natalense seguia para a Europa. Esta pessoa poderia até pegar algum barco de carga em Natal e se virar com o que houvesse. Mas o melhor era seguir para Recife, onde navios de grandes empresas de navegação e as melhores rotas, estavam disponíveis.

Propaganda do Lloyd Holandês publicada em Natal no ano de 1914.

No passado, os navios de passageiros brasileiros, os conhecidos “Navios de Linha”, ou “Paquetes de Cabotagem”, pertencentes principalmente a Companhia Costeira e do Lloyd Brasileiro, serviam como o principal elo entre as capitais localizadas na costa do Brasil e os rios da região amazônica. Quem daqui seguia para a escala em Recife, pegava um destes barcos e na capital pernambucana fazia uma transferência para navios que impressionavam pelo tamanho, qualidade, conforto e detalhes.

Uma destas empresas que ligavam a região Nordeste com a Europa, era conhecida como Lloyd Holandês, ou Koninklijke Hollandsche Lloyd, que tinha a sigla KHL. Esta empresa era representada em Recife pelo pernambucano de descendência holandesa Julius von Sohsten, que tinha fortes ligações com o Rio Grande do Norte, já tendo possuído na nossa cidade uma casa de comércio no bairro da Ribeira.

A KHL foi fundada em 1899, destinada a levar gado e outras mercadorias entre Amsterdam e a América do Sul, principalmente a Argentina. Devido à proliferação da febre aftosa no vizinho platino, a empresa passou a trabalhar com transporte de passageiros e carga. Seus navios levavam desde passageiros de alto poder financeiro, a pobres imigrantes desejosos de tentar uma nova vida no hemisfério sul.

Viajar de navio, com a brisa soprando, a paisagem mudando como um filme, era uma situação bem interessante. Mas as viagens eram bem demoradas, bem ao estilo da velocidade em que o mundo vivia na época.Naqueles tempos a quantidade de passageiros transportadas dentro de um navio destes mal chegavam a 1.500 pessoas. As naves eram decoradas com extremo luxo e bom gosto, tinha em seus salões obras de artistas famosos e muito requinte.

A empresa KHL chegou a criar em Amsterdam um local de hospedagem exclusivo para seus passageiros, e não apenas os mais ricos utilizavam este serviço. Este era o Lloyd Hotel, que foi concluído em 1921 e que custou oito vezes mais do que o planejado.

De certa forma este hotel foi utilizado como alojamento temporário para imigrantes, cuja a maioria era formada por judeus pobres da Europa Oriental, que fugiam de perseguições tanto na Alemanha, como na União Soviética. Estas naves partiam em média a cada vinte dias da Holanda e, enquanto aguardavam o momento do embarque, os passageiros ficavam no hotel.

Entre os navios da KHL, que faziam a escala de Recife, estavam o SS Frisia, o SS Gelria, o SS Zaanland e o SS Tubantia.

O SS Zaanland tinha 7.995 toneladas de peso, quase 135 metros de comprimento, foi lançado em 1910 e continuou em serviço na KHL até março de 1918. Durante a Primeira Guerra Mundial os norte-americanos o arrendaram e ele foi transformado em transporte de tropas. Voltou a servir a KHL até 1935.

O SS Frisia tinha um porte de 7.400 toneladas, divididos em quase 130 metros de comprimento, com uma velocidade de até 13 nós e transportava 1.000 passageiros. Foi construído em 1909 e sua viagem inaugural começou em Amsterdan, depois seguiu para Boulogne, Plymouth, La Coruña, Lisboa, Las Palmas, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Santos e Montevidéu.

Já o SS Gelria foi construído em 1913, deslocando 13.868 toneladas de porte bruto, em um comprimento de 170 metros. Tinha alojamentos para quase 1.500 pessoas. Foi vendido em 1935 a uma empresa italiana e foi utilizado como navio transporte de tropas na guerra da Abissínia e, ocasionalmente, como um navio hospital. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi tomada pelos alemães quando a Itália se rendeu e usado como um navio-hospital. Acabou sendo capturado por um submarino britânico em 1944 e levado para Alexandria, no Egito.

Mas de todos estes navio que aportavam no Nordeste, o que teve a pior sorte foi o SS Tubantia. Era uma nave  com dimensões e características semelhantes ao SS Gelria. Foi lançado ao mar em 1913, mas na madrugada do dia 16 de março de 1915,  na costa holandesa,  foi atingido por torpedos do submarino alemão UB-13 e afundou. Três navios responderam aos pedidos de socorro e todos a bordo foram salvos. Durante a Primeira Guerra Mundial a Holanda ficou neutra e seu serviço de transporte de passageiros e carga continuou, mas não para este navio. Foi a maior nave de um país neutro torpedeada e destruída neste grande conflito.

Devido às consequências do conhecido crash da bolsa de Nova York, em 1929, associada ao alto custo do Hotel Royal, fez com que a KHL fechasse suas portas e uma nova empresa de navegação foi criada.

Não tenho maiores dados relativo a frequência com que os membros da sociedade potiguar utilizavam estes navios em viagens a Europa. Mas é normal vermos notas nos antigos jornais natalenses, onde pessoas da elite local faziam questão de anunciar que partiam, ou retornavam da Europa em naves da KHL.

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1940 – O “GRANDE DITADOR” EM NATAL

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Em 1940 ator e diretor Charles Chaplin, criador do inigualável personagem “Carlitos”, lançava um dos seus mais importantes filmes, O Grande Ditador (The Great Dictator) e a imagem no início desta postagem mostra como os jornais apresentaram o cartaz do filme.

Com roteiro ousado, engraçado e com forte crítica social sobre o momento em que o mundo iniciava seu maior conflito bélico, a Segunda Guerra Mundial, foi o primeiro filme sonoro de Charles Chaplin e um dos mais marcantes.

No filme temos dois personagens idênticos fisicamente, mas em situações adversas. Adenoid Hynkel é o grande ditador da Tomânia, uma nação em crise, que passa a crer em coisas como grandes líderes e a superioridade de uma raça sobre a outra. Já o outro personagem é um sujeito que perdeu a memória na guerra,  tentando retornar à vida como barbeiro, depois de ficar internado em um hospital e mora em um gueto onde forçadamente habitam os judeus.

O filme mostra as ações dos dos dois personagens, ambos interpretados por Chaplin, que nunca se encontram, mas tem suas vidas ligadas, pois devido às semelhanças físicas, o barbeiro é confundido com o ditador e este acaba discursando em seu lugar. Ao invés de ouvirem o discurso inflamado do antigo ditador, o que houve é uma exaltação à paz. O grande discurso, inflamado, acabou ganhando mais fama que o próprio filme de Chaplin.

Outra  cena que marcou época  é do ditador Hynkel brincando com o globo terrestre e chora feito um menino quando ele estoura.

Esta película foi censurada no Brasil pelo (DIP) Departamento de Imprensa e Propaganda, temido órgão governamental que realizava a censura na época do período do Estado Novo, durante a ditadura de Getúlio Vargas. A alegação dos censores foi que a obra era “comunista” e “desmoralizadora das Forças Armadas”. É certamente uma obra-prima sem igual, onde vemos uma bela reprodução de um período complicado da história, onde Chaplin defende a liberdade, a solidariedade e a igualdade. Apesar de tudo isso, existe uma versão que afirma que Chaplin dizia ter se arrependido de ter feito o filme. Ele comentou que se soubesse o que acontecia nos campos de concentração, não teria brincado com um tema tão complicado.

Os jornais de Natal na época não comentam a reação do público, ou pormenores das apresentações desta película. “O Grande Ditador” apenas veio e foi presentado no antigo cinema “Rex”, que ficava na Avenida Rio Branco.

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O ÁS DA AVIAÇÃO ALEMÃ NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL QUE TRABALHOU EM NATAL

Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

A história da aviação em Natal, no período anterior a Segunda Guerra Mundial, é emocionante e inigualável. Entretanto, pouco destes fatos históricos são conhecidos do público em geral. Poucos são os livros que contam as aventuras dos aviadores durante as décadas de 1920 e 1930, quando eles cruzavam os céus em suas precárias máquinas aéreas, viajando através do Atlântico Sul quase sem equipamentos e chegando a nossa provinciana capital.

Ao realizar uma pesquisa no Arquivo Público do Rio Grande do Norte, acabei me deparando com um extenso arquivo contendo fichas de pedido de vistos, para passaportes de vários pilotos estrangeiros que vinham trabalhar em Natal. Pesquisando em outros centros de informações, descobri que um destes pilotos viria a se tornar um dos principais ases da aviação de caça noturna alemã na Segunda Guerra Mundial, superaria a derrota da Alemanha e terminaria sua carreira como general da nova Força Aérea Alemã, na então Alemanha Ocidental.

Um dos aviões Dornier DO-26 sendo posicionado no Rio Potengi. Ao fundo a Praia da Redinha.

Os alemães chegam a Natal

Esta história tem início com a chegada da aviação comercial alemã no Brasil em 1926, quando foram iniciados estudos técnicos para implantação de linhas aéreas. Neste mesmo ano, um hidroavião Dornier Wall, chegava ao Rio de Janeiro, realizando o primeiro vôo comercial no país. Diferentemente dos franceses, os alemães pouco deram atenção à região Nordeste no início de suas operações, tanto que a empresa Sindikat Condor, estabeleceu em 1927 linhas aéreas entre Porto Alegre e o Rio de Janeiro e outras rotas para o interior do estado gaúcho, com serviços de transportes de passageiros e cargas.

Apenas em 1930, conduzido pelo diretor Fritz Hammer, o hidroavião “Guanabara” chegava a Natal. Este alemão vinha com a missão de instalar uma base de hidroaviões na cidade. O então governador Juvenal Lamartine apoiou incondicionalmente o projeto, isentou de taxas a empresa e cedeu uma área para a instalação de uma base próxima à foz do rio Potengi, na conhecida Praia da Limpa (Montagem). Em fevereiro de 1930 é inaugurada a linha entre Natal e Porto Alegre e em Março deste mesmo ano tem início os planejamentos para uma ligação entre a América do Sul e a Europa.

Em 3 de fevereiro de 1934, a Deutsche Lufthansa implanta o primeiro serviço aéreo transoceânico do Mundo, onde em dois dias e meio uma carta viajava entre Berlin e o Rio de Janeiro, sendo este um avanço espantoso para a época. O defeito deste sistema estava no fato das aeronaves vindas da Europa necessitarem amerissarem no meio do Oceano Atlântico, para depois ser içada por um navio-catapulta, abastecida e depois catapultada em direção a Natal. Algum tempo depois este sistema foi desativado com a entrada de novos aviões com maior raio de alcance.

A atuação dos alemães crescia fortemente na região, chegando a ponto de, em 1936, estarem transportando quase 16.000 pessoas. Sobre este dado é importante lembrar que a capacidade de muitas aeronaves neste período, não era superior a 20 passageiros.

Horário da Condor em Natal.

Condor tinha vôos semanais para Rio e Buenos Aires

Em Natal os vôos da Condor eram semanais, com o fechamento da mala postal às dezoito horas da quarta-feira e a partida na quinta, sempre às cinco da manhã. A empresa prometia que o passageiro estaria no Rio de Janeiro em um dia. Para Buenos Aires se chegava em dois dias. Já o serviço transatlântico era uma operação conjunta Condor-Lufthansa, com saídas ás dezoito horas da quinta-feira e chegada em quatro dias a Europa, com escalas em Bathust (na atual Gâmbia), Las Palmas (Ilhas Canárias), Sevilha, Barcelona (Espanha) e Frankfurt (Alemanha). Muitas vezes os horários e dias de partida mudavam, onde a propaganda nos jornais locais sempre solicitava aos interessados, entrar em contato com o agente das empresas na cidade, que em 1935, tinha esta função exercida pela firma Filgueira & Cia, que ficava na Rua Quintino Bocaiuva, próximo à igreja do Rosário.

Em 1939, os alemães implantaram o avião que provou ser o mais confortável, o mais silencioso e o mais caro do mundo na sua época, o quadrimotor Focker Wulf 200. Transportava quatro tripulantes, vinte e oito passageiros e era considerado um fantástico salto de qualidade em termos de viagens aéreas. Para efeito de comparação seria como Natal, nos dias de hoje, fosse rota normal para o novo super-avião Airbus A-380.

O piloto Ernst Wilhelm Modrow.

Alemães se mantinham à distância

Em 2 de janeiro de 1939, o piloto Ernst Wilhelm Modrow, de 30 anos, natural de Stettin (atualmente Szczecin, na Polônia), recebia a sua autorização de viagem para Natal. Provavelmente este não era o primeiro pedido de ingresso de Modrow em Natal, pois desde 1930 ele já trabalhava na América do Sul, primeiramente na empresa aérea colombiana SCADTA, uma empresa de aviação com controle alemão, e a partir de 1937, como responsável pelas rotas turísticas da Lufthansa.

Neste período, a aviação se profissionalizava cada vez mais. Em Natal o movimento de aviões seguindo para o sul do país, ou em direção a Europa, fazia parte do dia a dia, bem como a presença de pilotos e equipes de apoio na cidade. Muitos deles aproveitavam as benesses da cidade, principalmente às praias de águas quentes.

Ficha de entrada no Brasil do futuro ás alemão.

Lendo os jornais da época, percebe-se que os aviadores alemães, talvez pela sua própria natureza mais comedida, não interagiam tão fortemente com a população. Diferentemente dos franceses e italianos, os germânicos ficavam alojados na sua base na Praia da Limpa, mais distantes da convivência direta com a cidade.

Em relação à Modrow, poucas foram às informações sobre a estada deste piloto em Natal. Era apenas mais um dos muitos aviadores estrangeiros de passagem pela cidade. Seu trabalho na América do Sul durou até agosto de 1939.

A partir de setembro, com a eclosão da guerra, Modrow é convocado para a Força Aérea Alemã (Luftwaffe). Segue primeiramente para a frente norueguesa, servindo em um esquadrão de transporte, o KGr. Z.B.V. 108, que utilizava o hidroavião Dornier DO-26. Primeiramente efetuou missões de reconhecimento e de abastecimento de tropas na região de Narvik. Em maio de 1940 seu avião havia amerissado para descarregar equipamentos no fiorde Rombakken, quando foi atacado por caças Spitfire, da Força Aérea Britânica (RAF), e destruído. Mesmo ferido, Modrow foi o único sobrevivente da tripulação.

O hidroavião Blohm & Voss Bv 222

Após sua recuperação, passa um período como instrutor de vôo, seguindo ao encontro de sua unidade, que em 1942 se encontrava sediada na Itália. A ele é destinado o grande hidroavião de seis motores Blohm & Voss Bv 222, um dos maiores aviões de transporte da Segunda Guerra Mundial. Tinha a missão de realizar vôos para a África do Norte, no abastecimento das tropas alemãs do Afrika Korps e retirada de feridos. Modrow concretiza mais de 100 missões de transporte, sendo esta quantidade de missões considerada um verdadeiro prodígio, pois devido a suas dimensões e baixa velocidade, o BV 222 era considerado um alvo fácil para os caças aliados.

Devido as suas habilidades, em 1943 é transferido para um grupo de caça noturna, que tinha a função de destruir bombardeiros ingleses que atacavam diretamente o coração da Alemanha. É designado para o II Grupo do esquadrão NJG 1, baseado em bases na França ocupada.

Símbolo do NJG 1.

Em uma noite de março de 1944, Modrow faria sua primeira vítima sobre a localidade de Venlo, Holanda, provavelmente um caça noturno bimotor do tipo “Mosquito”. Sua segunda vítima é um bombardeiro quadrimotor britânico “Halifax”, seguido por outro bombardeiro quadrimotor do tipo “Lancaster”, também britânico.

Um caçador de Aviões aliados, nos céus noturnos da Europa

O Hauptmann (capitão) Modrow.

O caça de Modrow era um Heinkel HE 219, uma das melhores aeronaves na categoria de caças noturnos já fabricados. No chão a sua aparência não era das melhores, pois a aeronave fora construída com um grande e desajeitado trem de pouso, um conjunto de antenas na parte dianteira e a cabine para piloto e operador de radar bem à frente da aeronave.

Mas esta aparência era enganadora, no ar este avião era quase imbatível. Possuía um moderno sistema de radar frontal FuG 212C-1 “Lichtenstein”, que servia para a localização dos lentos bombardeiros noturnos aliados. Para derrubá-los, o HE 219 utilizava um revolucionário e inovador modelo de canhões duplos conhecido como “Schräge Musik”, tradução para “Jazz Music”, numa alusão ao ritmo acelerado das bandas de swing norte-americanas.

Heinkel HE 219

Era uma arma impressionante, cujo diferencial estava no fato dela disparar para o alto. Tratava-se de dois canhões de calibre 30 milímetros, instalados na parte traseira da fuselagem, possuindo uma inclinação de 65 graus e disparavam contra a parte baixa e desprotegida dos bombardeiros ingleses.

A ação de caça ocorria normalmente da seguinte maneira; um piloto de caça noturno alemão voava sozinho na noite, sempre apoiado por radares em terra que tinham a função de localizar um bombardeiro. Após marcarem o alvo, transmitiam para o operador de radar do avião atacante a posição da vítima. O piloto do avião caçador seguia para área de ataque, localizava visualmente o alvo, posicionava-se atrás e abaixo de sua presa, passava exatamente sob a “barriga” da desprotegida aeronave, abria fogo e o alvo normalmente era destruído.

Modrow vai desenvolvendo sua capacidade de caçador de forma notável, tanto que em junho de 1944, em duas noites distintas, derruba sete bombardeiros quadrimotores, sendo condecorado com a Ritterkreuz (Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro). Os combates prosseguiram nos meses seguintes e ele novamente obteria grande sucesso na noite de 23 para 24 de setembro de 1944, derrubando quatro quadrimotores ingleses, próximo a Düsseldorf, Alemanha. De suas 34 vitórias confirmadas, 33 foram durante o ano de 1944. Em janeiro de 1945 ele seria condecorado com a Deutsches Kreuz (Cruz Germânica), uma das mais elevadas honrarias da Força Aérea Alemã na Segunda Guerra.

Deutsches Kreuz (Cruz Germânica).

Na noite de 1 de fevereiro de 1945, seu avião HE-219 teve problemas, Modrow e o seu auxiliar, Alfred Staffa, utilizaram o novo sistema de assento ejetável, sendo uma das primeiras tripulações a usar esta nova invenção. Este ás alemão abateria sua última vítima na noite de 5 para 6 de janeiro de 1945, vindo a se render para os aliados ocidentais quando da assinatura do Armistício, em maio daquele ano.

Ao ás Modrow foi creditado 34 vitórias, em 259 missões, incluindo 109 missões como piloto de caça noturno. Na década de 1950, com a reconstrução das Forças Armadas Alemãs, Modrow juntou-se à Bundesluftwaffe, a nova Força Aérea Alemã, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1964, quando passou para a reserva no posto de tenente-coronel.

Com relação a sua aeronave de caça, atualmente existe apenas um exemplar do HE 219 sobrevivente em todo o mundo e encontra-se no famoso Museu Smithsonian, em Washington, capital dos Estados Unidos.

Ernst-Wilhelm Modrow faleceu de causas naturais na cidade portuária de Kiel (Alemanha) aos 82 anos de idade, em 10 de setembro de 1990.

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A DESCONHECIDA DE “PARNAMIRIM FIELD”

Quadrimotor C-87 abastecendo.

Autor – Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Atualmente os recursos existentes nas nossas máquinas ligadas a informática são maravilhosos. Quando utilizamos estes produtos para escanearmos fotos antigas, sejam a partir de originais, ou inseridas em livros, muitas vezes descobrimos situações interessantes. Na foto principal deste artigo vemos um destes casos que chamam atenção.

Publicada no Brasil originalmente na página 129 do livro “Trampolim para a Vitória” (Ed. Universitária, 1993), de autoria do professor Clyde Smith Junior, a imagem mostra o abastecimento de um quadrimotor norte americano Consolidated C-87, “Liberator Express”, no campo de Parnamirim, em maio de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial.

Vemos um trabalhador (provavelmente brasileiro e sem nenhum material de proteção) com um compressor, retirando o combustível de um dos mais de trinta tambores de gasolina de alta octanagem mostrados. No alto da asa da aeronave temos quatro indivíduos (pelas roupas utilizadas devem provavelmente ser dois americanos e dois brasileiros) trabalhando no enchimento dos enormes tanques do C-87. Mas o que realmente chama à atenção na imagem é a existência de dois personagens no canto direito da foto.

A desconhecida e o “gringo”.

Nela vemos um homem alto, branco, de botas, bermudas, chapéu estilo “tropical” e sem camisas. Esta pessoa observa tranquilamente o serviço na aeronave e provavelmente deveria ser um dos inúmeros “yankes” que viveram, ou passaram, pela base de apoio de Parnamirim. Ao seu lado se encontra uma mulher de baixa estatura, negra, descalça, aparentando ser jovem, com um pano enrolado na cabeça, que calmamente observa o serviço, posicionada ao lado do provável estadunidense. O detalhe é que todos dois estão sobre os tambores e, pelo menos na foto, ninguém mais está em cima destes objetos.

A pergunta é bem simples; o que esta mulher fazia neste lugar?

Parnamirim Field
A grande base de Parnamirim Field durante a Segunda Guerra Mundial.

Pois afinal de contas havia uma guerra acontecendo e poderíamos imaginar que a segurança em “Parnamirim Field”, como os americanos chamavam o antigo “Campo dos Franceses”, seria extrema e jamais poderia ocorrer este tipo de situação. Seria esta mulher então uma “amiga” dos americanos, que realizava serviços para os “gringos” e assim havia sido “convidada” para ver aquela faina?

Não sabemos, mas temos o conhecimento que a relação das tropas americanas na região de Natal, fossem os que trabalhavam de forma fixa, ou os que apenas estavam em trânsito, era muito próxima da população local, principalmente a de baixa renda. Sabe-se que muitas pessoas realizavam inúmeros tipos de serviços para os estrangeiros. Lavagens e concertos de roupas, câmbio, limpeza de barracas, reparos em alojamentos e compra de objetos eram alguns dos serviços realizados.

Consolidated C-87 “Liberator Express”. Fonte-Wikipédia.

O número de americanos e de trabalhadores brasileiros que construíram o aeroporto, segundo Antonio Barroso Pontes (in Cangaceirismo do Nordeste, Ed. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 2ª Edição. 1973, pág. 75), seria superior a mais de “quarenta mil”. Sendo este número correto, não é de admirar que muitas pessoas passassem a viver nas proximidades do complexo militar. Normalmente viviam em casas de taipas, construídas sem nenhum planejamento e com sérios problemas de higiene. Muitas destas pessoas chegaram a região de Parnamirim vindas da zona do semiárido potiguar, fugindo da grande seca ocorrida em 1942.

Mesmo sabendo destas relações, criadas em grande parte pela necessidade dos americanos por serviços e dos brasileiros por dinheiro, chama atenção a “proximidade” entre os dois personagens existentes na foto.

Já a aeronave mostrada era um transporte criado a partir do consagrado bombardeiro B-24. O “Liberator Express” foi produzido com a intenção de ser um avião de transporte de passageiros VIP, ou um cargueiro aéreo pesado. Possuía maior alcance e melhor desempenho em altitudes do que o tradicional bimotor C-47, este derivado do clássico Douglas DC-3. Não possuía armamentos, podia transportar até 25 pessoas, ou uma carga superior a 10.000 libras. Muitos destes passaram por Natal a caminho da África, Oriente Médio, índia, China e outros locais onde tropas americanas operavam.

Decolagem de um C-87. Fonte-Wikipédia.

ASAS ALEMÃS SOBRE O RIO POTENGI

Hidroavião Dornier DO-26, batizado “Seefalk” (Falcão do Mar), da empresa aérea alemã Lufthansa, pousado na margem do Rio Potengi, na chamada Paraia da Limpa.

A Presença Germânica Em Natal Antes da Segunda Guerra Mundial

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Publicado originalmente no jornal TRIBUNA DO NORTE.

A importância de Natal como ponto estratégico para a aviação mundial já foi apontada de diversas formas, principalmente no período da Segunda Guerra Mundial. Entretanto no período anterior ao conflito, mas especificamente sobre a atuação da aviação comercial alemã na nossa cidade, a sua base e os motivos da sua implantação e desativação, são fatos hoje pouco conhecidos.

Durante a segunda metade da década de vinte do século passado, se desenrolava uma forte disputa comercial entre estrangeiros pelo Mundo afora. Competia-se por vantagens no novo e promissor negócio do transporte do correio aéreo e de passageiros. No Rio Grande do Norte, inicialmente os primeiros atores envolvidos foram franceses e alemães, sendo seguidos pelos norte-americanos e italianos.

Os franceses iniciaram suas atividades em 1927, com um serviço de transporte de cartas e encomendas que ligava a França e a Argentina. Nesta operação, aviões partiam de Paris em direção a Dacar, capital da então colônia francesa do Senegal, na costa africana. Os malotes com correspondências, eram então embarcados em navios pequenos e bastante velozes, conhecidos como os “Avisos Rápidos”, que atravessavam o oceano até Natal. Daqui, outros aviões transportavam o correio aéreo até Buenos Aires. Antes deste novo  serviço, uma carta transportada em linhas de navegação normais, poderia demorar até trinta dias entre a França e a Argentina. Com a mala postal aérea francesa, este tempo caiu para no máximo 8 dias.

Os Alemães em Natal e a sua “Rampa

Já os alemães, através da empresa “Sindicato Condor”, que desde janeiro de 1927 operava no Brasil, logo perceberam o enorme potencial que Natal possui como ponto estratégico para a aviação comercial. Em setembro de 1928 eles realizam visitas a cidade, planejando a instalação de uma “hidro-base” na região, mas somente em janeiro de 1930, com irrestrito apoio do então governador Juvenal Lamartine de Faria, esta base de operações e uma linha aérea que transportava cargas e alguns poucos passageiros, passou a funcionar com regularidade semanal. O local escolhido pelos alemães para construírem suas instalações era conhecido como “Praia da Limpa”, as margens do rio Potengi. Ali foram erguidos dois grandes hangares, com rampa de acesso para hidroaviões, alojamento para tripulantes, sala de leitura, e uma estação de rádio. Os hidroaviões eram trazidos para os hangares através de uma rampa, onde uma espécie de carroça puxada por um cabo era colocada no rio, sendo esta colocada embaixo da aeronave, então através de um sistema de trilhos a aeronave era puxada para fora do rio. Este sistema de retirada e acesso de aeronaves, através de uma rampa as margens do Potengi, precede a famosa “Rampa americana”, que seria construída algum tempo depois ao lado da base alemã. Os jornais da época apontam que a população de Natal, passou a denominar o local como “Base da Condor” ou “Base da Limpa”.

Já em relação às cargas vindas da Europa, primeiramente os alemães desenvolveram uma operação trabalhosa e perigosa; um hidroavião saia de Natal em direção a Fernando de Noronha, amerissava ao largo da ilha, encontrando-se com um navio de passageiros e cargas, de forma arriscada eram passadas mercadorias e malotes em meio às ondas. O hidroavião então decolava para Natal, reabastecia e seguia em direção ao sul do país. Durante algum tempo esta operação continuou, mas na noite de 11 de setembro de 1931, um destes hidroaviões do “Sindicato Condor”, batizado como “Olinda”, após retornar de Fernando de Noronha, sofre uma pane na tentativa de decolagem para Recife e explode na margem esquerda do rio Potengi, ocasionando a morte de todos os três tripulantes. Percebendo os riscos e as desvantagens desta operação, os alemães decidem desenvolver novos meios para que a ligação aérea entre a Alemanha e os países sul-americanos fossem mais segura, prática e rentável.

Em 1933, com uma concepção audaciosa para a época, a empresa alemã “Lufthansa”, que controlava administrativamente o “Sindicato Condor”, decide utilizar dois “navios-catapulta”, como ponto de apoio e reabastecimento de hidroaviões. Chamados “Schwabenland” e “Westfalen”, estas naves se revezavam em uma posição no meio do Oceano Atlântico, entre a costa africana e o Brasil, onde a idéia básica seria receber um hidroavião vindo da Europa, para que suas malas postais fossem repassadas para um outro aparelho, que seria catapultado para Natal e depois esta carga seguiria em outras aeronaves em direção sul. O hidroavião que havia chegado da Europa, era então reabastecido e catapultado para o Velho Continente com as cartas vindas do sul.

O Incremento do Transporte Aéreo Alemão

Este revolucionário serviço é inaugurado no dia 3 de fevereiro de 1934, quando uma aeronave decolou de Stuttgart, no norte da Alemanha, para a Espanha, transportando 100.000 cartas. Um outro aparelho transportou as malas postais em direção à cidade africana de Bathurst, na então colônia britânica da Gâmbia e finalmente um dos hidroaviões seguiu por 1.500 km até o “Westfalen”. No dia 7 de fevereiro a tripulação deste navio catapultou com sucesso um hidroavião modelo “Dornier Wal”, batizado “Taifun”. Este aparelho possuía dois motores, montados sobre asas altas, tinha 23,20 metros de envergadura, 18,20 metros de comprimento, raio de alcance de 2.000 mil quilômetros e desenvolvia uma média de 225 km/h. A tripulação alemã era formada pelo comandante Joachim Blankenburg, co-piloto Walter Blume, mecânico de vôo Otto Gruschwitz e o rádio-operador Guenther Fechner. Após um cansativo voo o arquipélago de Fernando de Noronha é sobrevoado e o comandante Blankenburg amerissa na baía da ilha.

Hidroavião alemão pousado no Rio Potengi, em uma área onde atualmente se encontra o quartel do 17º GAC, do Exército Brasileiro.

Neste local um segundo hidroavião da empresa aguarda o “Taifun”. Algum tempo depois os dois aparelhos decolam em direção ao território potiguar. Segundo os jornais da época, eram duas horas da tarde em Natal, quando os dois hidroaviões sobrevoaram o rio Potengi. Autoridades potiguares e um grande número de populares aguardavam na praia da Limpa a chegada do vôo histórico, mas para surpresa de todos, o racionalismo técnico dos alemães, entrou em ação; dez minutos após o pouso, antes mesmo de serem iniciadas as diversas homenagens previstas, as malas postais foram prontamente passadas para um hidroavião modelo Junkers trimotor, batizado como “Tietê”, que rapidamente seguiu em direção ao sul do país. Se para os natalenses a chegada das aeronaves era quase uma festa, para os alemães tudo não passava de negócios.

Mesmo depois de voarem quatorze horas sobre o oceano, a tripulação que havia decolado do “Westfalen”, participou do evento, onde foi coberta de atenções pelo povo de Natal e tratados como heróis. Autoridades visitaram o “Taifun”, foram erguidos brindes pela realização do vôo e a banda da Polícia Militar tocava para os presentes.

A Influência Alemã na Cidade

Com o passar do tempo, à chegada e a partida de hidroaviões alemães no rio Potengi, se tornou mera rotina. Todas as sextas-feiras havia aeronaves amerissando ou decolando no tranquilo rio que banha a capital potiguar. Em meio ao crescimento do movimento aviatório em Natal, aumenta o número de germânicos vivendo na pequena urbe de 35.000 habitantes. O expoente mais importante desta comunidade, além de ser um dos alemães que há mais tempo viviam em Natal, era o empresário Ernest Walter Lück.

Base alemã em Natal.

Nascido em 1883, na cidade de Gevelsberg, estado da Westfalia,  Alemanha, Lück chegou a Natal em 1911, em companhia de um amigo chamado Richard Bürgers, vinham com a intenção de trabalhar em uma firma inglesa que efetuava perfurações no interior do Rio Grande do Norte. Ao desembarcarem descobriram que a firma havia falido, mesmo assim permaneceram na região. Em 1922 Lück e um outro sócio fundaram a empresa “Gurgel, Lück & Cia. Ltda”, com a intenção de importarem produtos alemães e exportarem matérias-primas potiguares para aquele país. Logo os horizontes se ampliaram e a empresa tornou-se representante de linhas de navegação alemã, bem como das empresas aéreas “Lufthansa” e do “Sindicato Condor”. O empresário Lück foi designado cônsul alemão na cidade e coube a ele a ligação entre empresas e o governo da Alemanha, junto às autoridades potiguares.

A comunidade germânica cresce. Logo uma “Escola Alemã” foi fundada sob os cuidados do professor Alonso Meyer. Funcionando na antiga “rua do Norte”, esta escola informava através dos jornais, que oferecia o curso primário completo e o curso de língua alemã, sempre com “Disciplina, ordem e respeito garantidos”. Na ocasião da chegada do hidroavião “Taifun”, o hino alemão entoado pelas crianças desta escola, emocionou a experiente tripulação do comandante Blankenburg.

A partir de 1933, a nova ideologia nazista implantada com a ascensão de Adolf Hitler ao governo alemão, chega à colônia germânica no Rio Grande do Norte. Segundo a edição do jornal “A Republica”, de 25 de abril de 1934, quatro dias antes, em uma festa ocorrida pela dupla comemoração do aniversário de Hitler e da morte de Tiradentes, na chácara pertencente a Richard Bürgers, esteve presente a totalidade da colônia alemã em Natal. Entre estes o Sr. Lück e o diretor da base da Condor, Sr. Neulle. Este último era veterano da Primeira Guerra Mundial e estava na festa com suas medalhas de combate e o traje tradicional nazista. O ponto alto ocorreu às vinte horas, quando após serem entoados os hinos alemão e brasileiro, os participantes postaram-se solenemente diante de um rádio de ondas curtas, para através da emissora de rádio oficial da Alemanha, escutarem um discurso proferido por Joseph Goebbles, o todo poderoso ministro da propaganda do governo de Hitler. Este discurso era destinado especificamente às comunidades alemãs existentes na América do Sul. A importância dessa festa pode ser medida pelo fato de estarem presentes altos membros do governo e da sociedade potiguar da época, entre estes o chefe do executivo estadual, o Interventor Mario Câmara.

Apesar de toda esta movimentação cívica, de forma geral, o comportamento dos membros da colônia alemã em Natal, era extremamente discreto.

O fim da “Base da Condor”

A operação aérea da base alemã em Natal continuou ativa e rotineira até o início da Segunda Guerra Mundial. Foram efetuadas quase 500 travessias utilizando os “navios catapulta” como ponto de apoio entre a Europa e a América do Sul. Grandes pilotos germânicos trabalharam nesta travessia e estiveram na capital potiguar, como Richard Heinrich Schimacher, que por possuir muita experiência nas travessias oceânicas, entre 1938 e 1939 é convocado para participar da grande expedição cientifica alemã a Antártica. Em um “Dornier-Wal” batizado como “Borea”, este aviador realizou diversos voos pioneiros, no praticamente inexplorado continente gelado. Outro piloto foi Ernst-Wilhelm Modrow, que durante a guerra se tornou um às da aviação de caça noturna da “Luftwaffe” (Força Aérea Alemã), onde abateu 34 aviões aliados.

Hidroaviões da marinha dos Estados Unidos baseados no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial

Com o crescimento do conflito, o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães e a entrada oficial do Brasil na guerra, a “Base da Condor” e a comunidade alemã na cidade foram igualmente afetados pela conflagração. O local foi primeiramente ocupado por forças navais norte-americanas.

Segundo o jornalista Roberto Sander, autor do livro “O Brasil na mira de Hitler”, após a chegada das forças norte-americanas a Natal, Ernst Walter Lück, Richard Bürger e um outro alemão de nome Hans Weberlig, foram formalmente acusados e presos pelo FBI, como agentes de espionagem alemães.

Com o fim do conflito, a Marinha Norte-americana entregou grande parte das antigas instalações aéreas ao Exército Brasileiro. Atualmente a área é ocupada pelas instalações do Iate Clube de Natal e pelo 17º Grupamento de Artilharia de Campanha e quase nada mais resta da antiga base alemã na velha praia da Limpa.

* Como em relação à pesquisa histórica nada é realizado sem a fraternal ajuda de outras pessoas, o autor deste artigo gentilmente agradece ao pesquisador Luiz G. M. Bezerra pela seção de fotos e informações.

MAIO DE 1921 – A SUÁSTICA NAS PÁGINAS DO JORNAL POTIGUAR “A REPUBLICA”

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Suástica em propaganda de gasolina

A interessante fotografia que ilustra este artigo mostra um anúncio de meia página, que se encontra no jornal natalense “A Republica”, edição de 20 de maio de 1921, onde a empresa “The Anglo Mexican Petroleum Company Limited”, que negociava produtos derivados de petróleo, anunciava através do seu representante no Rio Grande do Norte, a poderosa empresa potiguar “Wharton, Pedrosa e Comp.”, a venda do “Kerosene” da marca “Aurora” e sua gasolina da marca “Energina”, respectivamente com as cruzes vermelha e azul, para identificá-los e diferenciá-los para o publico consumidor.

A questão era que esta cruz, com suas cores distintas para distinguir os dois produtos, era uma suástica.

Seria então esta empresa uma organização empresarial ligada aos nazistas?

Entretanto a história desta empresa, sua chegada ao Brasil, não apontam nenhuma relação com a ideologia nacional-socialista.

A Comercialização de Produtos Derivados do Petróleo

Em janeiro de 1912, a primeira multinacional do petróleo a se instalar no Brasil foi a “Standart Oil Company of Brazil”, nome original da atual “Esso Brasileira do Petróleo”. Sua instalação ocorreu a partir de um ato assinado pelo então presidente da república, marechal Hermes da Fonseca. No ano seguinte a “Shell”, sob o nome “The Anglo Mexican Petroleum Products Company Limited”, foi autorizada pelo Decreto 10.168, assinado pelo mesmo presidente Hermes, a comercializar produtos derivados de petróleo.

No dia 5 de maio de 1914, a “The Anglo Mexican Petroleum Products Company Limited” inaugura o primeiro depósito de óleo combustível do Brasil, no bairro da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. A empresa começou a distribuir seus produtos através dos lombos de burros, estes poderiam ser desde óleos combustíveis industriais, o “Kerosene Aurora”, lubrificantes, óleo diesel e a Gasolina “Energina”.

Nesta época a comercialização destes produtos era feitas em latas e tambores. Podiam ser vendidos em qualquer local, desde armazéns, onde se misturavam a cereais e outras mercadorias do gênero. Nesse período, a população brasileira era em torno de 22 milhões de habitantes, a frota nacional de veículos não superava os 2.400 veículos, todos importados. O país crescia e com ele o consumo de derivados de petróleo, obrigando o surgimento dos primeiros grandes depósitos deste tipo de produto, para serem vendidos a granel.

Somente em 1922 foram inauguradas as primeiras bombas de gasolina em ruas e garagens de capitais e cidades do interior, e também ao longo de rodovias.

Buscando maiores informações sobre este anúncio encontrei um artigo do jornalista pernambucano Ronildo Maia Leite, intitulado “Até a cachorrinha da praia sabia da revolução” e publicado no site da Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco. Neste artigo o autor trata sobre a ascensão e queda do governador Estácio Coimbra a deflagração da Revolução de 1930 neste estado e a tensa situação mundial existente nesta época. Em um determinado ponto do texto, o jornalista Romildo aponta como um dos exemplos do avanço da ideologia nazista em Pernambuco, que a partir de julho de 1930, os jornais deste estado começaram a estampar anúncios da multinacional “The Anglo-Mexican Petroleum Company Limited”, onde esta empresa vendia “o óleo lubrificante Swastica e a gasolina Energina, ambos com a Suástica, a logomarca de Hitler”.

Aparentemente a propaganda dos produtos da empresa “The Anglo-Mexican Petroleum Company Limited”, utilizando uma suástica como símbolo, continuou muito tempo depois de 1921.

A Suástica

Mas afinal, de onde vem a suástica? Sua origem poderia explicar a sua utilização por esta empresa em uma propaganda, em um jornal potiguar, em 1921?

Segundo o pesquisador Elísio Gomes Filho, em um interessante artigo sobre este símbolo, aponta que a suástica ou cruz gamada, como também é conhecida, é um dos símbolos mais difundidos e antigos existentes no mundo. Qualquer que seja sua complexidade simbólica, a suástica, por seu próprio grafismo, indica manifestamente um movimento de rotação em torno do centro, imóvel, que pode ser o ego ou o pólo. É, portanto, símbolo de ação, de manifestação, de ciclo e de perpétua regeneração.

A suástica já foram encontradas em povos e culturas extremamente distintas na sua formação e localização; índios Hopi da América do Norte, Astecas da América Central, Celtas, Budistas, Gregos, Hindus, Malteses, Islâmicos etc. Os símbolos a que chamamos suástica são muitas vezes bastante distintos. Vários desenhos de suásticas usam figuras com três linhas. Outras chamadas suásticas consistem de cruzes com linhas curvas. Os símbolos islâmicos e malteses parecem mais hélices do que suásticas. A chamada suástica celta dificilmente se assemelha a uma, mas seria uma forma secundária, como tais são outras.

Na China, a suástica é o sinal do número dez mil, quer é a totalidade dos seres e da manifestação. É também a forma primitiva do caráter “fang”, que indica as quatro direções do espaço. Também poderia ter uma relação com a disposição dos números do “Lochu”, que, em qualquer caso, evoca o movimento do giro cíclico. Na Índia, considerando-se sua acepção espiritual, a suástica às vezes simplesmente substitui a roda na iconografia hindu, por exemplo, como emblema dos “nagas”. Mas é também o emblema de “Ganeça”, divindade do conhecimento e, às vezes, manifestação do princípio supremo.

Vários tipos de suásticas

Já os maçons obedecem estritamente o simbolismo cosmográfico, considerando o centro da suástica como a estrela polar e as quatro gamas que a constituem como as quatro posições cardeais da Ursa Maior.

Há ainda formas secundárias da suástica, como a forma com os braços curvos, utilizada no País Basco, que evoca com especial nitidez a figura de espiral dupla. Como também a da suástica clavígera, cujas hastes constituem-se de uma chave.

A Utilização pelos Nazistas

No caso da utilização da suástica como símbolo da ideologia nazifascista, segundo o pesquisador Elísio, no livro escrito por Adolf Hitler, “Mein Kampf”, ele explica que por volta de 1920, a liderança do então pequeno Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães via crescer cada vez mais o número de militantes de suas fileiras, mas ainda não havia uma bandeira ou um símbolo para os seus partidários. Em uma edição espanhola de 1937 do livro “Mein Kampf”, no capítulo VII, páginas 260 e 261, Hitler comentou sobre a questão de “nossa bandeira”, sobre o seu aspecto e de como o assunto preocupava os nazistas. Escreve Hitler que de todos os lados se recebiam “sugestões bem intencionadas”, porém “carentes de valor prático”. De sua parte, Hitler, pronunciou a favor da conservação das antigas cores da bandeira imperial alemã, em parte por seu efeito estético e que, melhor que qualquer outra combinação, harmonizava com seu “próprio modo de sentir”. Ele mesmo, depois de inumeráveis ensaios logrou definir uma forma definitiva, ou seja: sobre um fundo vermelho, um disco branco e no centro, a cruz gamada em negro.

Suásticas nas Olimpíadas de 1936, em Berlim.

Os nazistas empunharam pela primeira vez sua bandeira, com a suástica inclusa, no verão de 1920, as margens do lago Tegernsee, um pitoresco local rodeado de montanhas, a 50 quilômetros ao sul de Munique, onde vários chefes do partido possuíam casas de descanso.

Tal símbolo passa a ser utilizado como emblema do partido nazista e em 1935, é utilizado oficialmente como símbolo oficial do próprio estado alemão.

Provavelmente a utilização da suástica, na propaganda da “The Anglo-Mexican Petroleum Company Limited”, no jornal “A Republica” , em maio de 1921, não seguia uma orientação de apoio às idéias nazistas, podendo ser uma utilização por tudo que este símbolo representava antes da Segunda Guerra Mundial.

Creio que dificilmente a empresa que vendia estes produtos, que com o passar dos anos, passou a ser conhecida como “Shell”, utilizaria novamente este símbolo em suas peças publicitárias.

Abastecedoras de gasolina na esquina das ruas Floriano Peixoto com São Paulo, em Fortaleza, no ano de 1935. Fonte-Livro “AH Fortaleza!-1880-195o” pág. 48, 1995. Na bomba do fundo, ampliando a foto é possível ver uma suástica.