Perseguidos na Europa pela Inquisição, centenas de judeus se exilaram na América no fim da Idade Média. Cinco séculos depois, descendentes tentam descobrir suas raízes
Eduardo Manet não esquece aquela noite de junho de 1943. O tempo estava bom em Havana. Ele e a mãe tinham ido ao cinema. Na volta para casa, o futuro escritor cubano ouviu a mãe explicar que ela havia nascido em uma família “Marrana”. O menino não entendeu imediatamente o que aquilo queria dizer. “Creio que não ouvi direito… o ruído do mar, meus ouvidos zumbiam…”
A frase não fazia sentido para Manet. “Marrano” significa “porco” em espanhol. Confuso, ele perguntou: “Como assim? Você nasceu com os porcos?”. O adolescente, prestes a completar 13 anos, compreendeu na hora que acabara de ferir profundamente a mãe. Com uma expressão séria no rosto, ela explicou ao filho o sentido religioso do termo: “Chamamos de Marranos os judeus sefarditas que foram obrigados a se converter à religião católica no fim do século XV. Eles não tinham escolha: era o exílio ou a conversão. Os que não quiseram abandonar a terra de seus ancestrais nem se converter ao catolicismo acabaram na fogueira”.
Obra mostra cena de explusão de judeus da Espanha em 1492. Muitos deixaram o país, mas outros optaram por ficar e se onverter ao catolicismo. (Xilogravura, Michaly von Zichy, 1880, posteriormente colorizada)
Sessenta anos depois, o escritor manteve gravado na memória esse dia em que descobriu o segredo de sua família. Ele era judeu sem o saber. Ou melhor, era um criptojudeu. Inspirado por essa revelação, decidiu pesquisar mais a fundo a história de seus antepassados. Em 2007, reuniu o resultado de seus estudos para escrever o livro Marrane! (Marrano!), publicado pela editora francesa Hugo et Compagnie. A obra não é apenas uma emocionante viagem à Cuba da juventude do autor, mas também um interessante relato sobre a trajetória de uma família marrana que se refugiou no Novo Mundo para fugir da Inquisição. Em busca das origens, o autor se debruçou sobre sua árvore genealógica e retrocedeu no tempo até chegar a doña Asunción, judia sefardita que foi obrigada a dissimular sua religião na Espanha do século XV.
Naquela época, os judeus eram alvo de uma feroz perseguição religiosa na Península Ibérica. O antissemitismo não era novo. As primeiras manifestações desse tipo de preconceito remontam à Antiguidade, mas só no fim do século XIV a intolerância assumiu a forma de grandes massacres de judeus, os chamados pogroms. A situação dos filhos de Israel só piorou quando, cem anos depois, a rainha Isabel de Castela, conhecida como “a Católica”, assinou vários decretos reais condenando severamente todos os hebreus que não abraçassem a fé cristã.
Há quem garanta que Colombo foi judeu, assim como grande parte da tripulação de suas três caravelas. (Chegada de Colombo na América em 1492, óleo sobre tela John Vanderlyn, séc. XIX)
Milhares de judeus passaram então a esconder sua religião. A Inquisição se mostrou especialmente implacável com eles. Em 1481, muitos Talmudes (livros que registram as leis e costumes dos hebreus) foram queimados em autos de fé organizados em toda a Espanha. Em 1492, os reis católicos tomaram Granada, expulsando definitivamente os muçulmanos da Península Ibérica. Senhores absolutos da Espanha e contando com o apoio do papa Sisto IV, que reconheceu oficialmente a Inquisição espanhola em uma bula de 1478, os soberanos de Castela e Aragão assinaram o Decreto de Alhambra em 31 de março de 1492, que expulsou os judeus do reino espanhol. De acordo com esse texto, todos os súditos hebreus deveriam se converter ao catolicismo ou partir. Apesar da enérgica ação de Isaac Abravanel, funcionário da corte de Isabel de Castela que tentou obter a anulação do decreto, as perseguições se intensificaram.
Centenas de milhares de israelitas (entre 200 mil e 400 mil pessoas, dependendo da fonte) escolheram deixar o país. Alguns foram para Portugal, de onde foram expulsos em 1497. Outros atravessaram o estreito de Gibraltar para viver livremente sua fé do outro lado do Mediterrâneo, no Marrocos. Muitos fugiram para o Oriente – para a Itália, para o leste da Europa, para o Egito ou para a Palestina. Houve os que encontraram refúgio no Império Otomano, onde o sultão Bayazid II lhes ofereceu sua hospitalidade. Os que ficaram (cerca de 150 mil) se converteram, mas um grande número continuou a viver secretamente de acordo com a tradição judaica.
Não era fácil professar a fé na clandestinidade, principalmente na ausência de rabinos e de ensino religioso. Praticados de forma secreta, os ritos e as festas perdiam às vezes o sentido, mas os gestos sobreviveram e foram transmitidos de pai para filho. A comunidade dos marranos na Europa, também chamados de “conversos”, contava com algumas celebridades, como o filósofo Baruch Spinoza (que acabou rompendo com o judaísmo), ou Antoine de Luppes, avô materno do filósofo Michel de Montaigne.
Página original do decreto, assinado pelos soberanos de Castela e Aragão, que determinou a expulsão dos judeus no século XV
Há quem diga que o próprio Cristóvão Colombo era um criptojudeu, mas não há provas que corroborem tal afirmação. A única certeza é que grande parte dos financiadores de sua expedição de 1492 era judia. Entre eles estavam Abraão e Isaac Abravanel, Juan Cabrero, Luis de Santángel, Gabriel Sánchez e Alfonso de la Caballeria. Segundo Lee Friedman, autor de um estudo sobre os pioneiros judeus do Novo Mundo intitulado Jewish pioneers and patriots (Pioneiros e patriotas judeus), vários membros da tripulação das três caravelas da expedição de Colombo seriam judeus. Alguns teriam, inclusive, criado raízes na América desde a primeira missão, em agosto-setembro de 1492. Cada nova onda de conquistadores trouxe novos criptojudeus.
Desde a década de 60, diversas comunidades marranas vêm sendo identificadas no continente americano. Não só em Cuba, mas também em Porto Rico, no Brasil (a partir dos anos 80), no México e nos Estados Unidos. Um dos casos mais interessantes é o de um grupo de moradores da região do Novo México, nos EUA, que, apesar de oficialmente cristãos, seguem há várias décadas as tradições judaicas sem sequer ter consciência disso.
A revelação sobre as raízes israelitas dessa comunidade do sudoeste dos Estados Unidos foi feita pelo historiador Stanley Hordes em 2005 e gerou polêmica entre a população local. Segundo Hordes, o Novo México abrigaria uma das mais antigas comunidades criptojudaicas da América. O historiador de Santa Fé revelou que centenas de viejitos – como são conhecidos lá os velhos habitantes hispanófonos – ignoram que mantêm vivos diversos elementos da tradição israelita há centenas de anos, mesmo se considerando oficialmente católicos.
Eduardo Manet, escritor cubano, que se descobriu marrano: pesquisa resultou num livro que vai da inquisição à Cuba do século XX
Eles evitam, por exemplo, comer carne de porco e acendem duas velas nas sextas-feiras à noite. A oração que recitam em enterros seria muito próxima de uma prece judaica chamada kaddish, mas não existe sinagoga alguma em um raio de mil quilômetros e eles não conhecem a Torá.
Hordes divulgou sua pesquisa no livro To the end of the Earth – A history of the crypto-jews of New Mexico (Até o fim do mundo – Uma história dos criptojudeus do Novo México), publicado em 2005. Nessa obra, o historiador defende a ideia de que os ancestrais dessa “tribo perdida” seriam marranos vindos no rastro de Hernán Cortez, explorador espanhol que conquistou o México em 1519. Segundo Hordes, esses descendentes de judeus teriam se instalado na fronteira norte do império colonial espanhol, no território correspondente ao atual Novo México, onde era mais fácil escapar da autoridade da Igreja e do Estado e praticar sua fé livremente.
Para sustentar sua tese, Hordes cita várias biografias de conquistadores investigados por tribunais espanhóis por causa de suas crenças religiosas. O principal caso seria o de um certo Luis de Carvajal, sobrinho do governador da província de Nuevo León, no México. Ele, sua mãe e sua irmã foram condenados à morte em 1596 por serem judeus. Seu tio e outros 170 marranos teriam então deixado a cidade de Cerralvo, no atual México, marchando em direção ao norte, sem dar nunca mais nenhum sinal de vida. Stanley Hordes acredita que os criptojudeus do Novo México sejam descendentes desses homens e mulheres.
A Expulsão dos Judeus, de Roque Gameiro.
O isolamento dessa comunidade se revelou uma faca de dois gumes. Desenraizados e tendo adotado o calendário romano, eles teriam perdido o sentido das tradições que, no entanto, continuaram observando. Nos últimos anos, alguns desses marranos têm realizado o movimento que os judeus chamam de techuva, o “retorno às origens”.
Stanley Hordes conta o caso de uma moradora da cidade católica de Ruidoso, no Novo México, que empreendeu esse resgate de suas origens ancestrais. Sonya Loya diz sempre ter se sentido judia, mas só recomeçou a observar o Shabbat depois de descobrir a história de suas origens ao ler o livro de Hordes. Na verdade, essa revelação não a surpreendeu. Um de seus tios, ao retornar da Segunda Guerra Mundial, disse ter visto o nome da família em uma lista de prisioneiros dos campos de concentração. Criptojudia, ela decidiu se converter ao judaísmo para se tornar “plenamente” judia.
O caso de Bill Sanchez é ainda mais impressionante, pois esse marrano chegou a ser ordenado padre católico. As revelações de Hordes o abalaram de tal modo que ele decidiu mandar analisar seu DNA. O exame revelou que ele possuía uma série de marcadores genéticos em seu cromossomo Y presentes em 30% dos homens judeus (os cientistas reiteram, no entanto, que não existe um cromossomo “judeu”). Bill Sanchez não renegou a fé católica, mas hoje ele usa uma correntinha no pescoço com a estrela de Davi ao lado de um crucifixo.
AUTOR – Baudouin Eschapasse – Jornalista e colaborador da revista Historia
Esse foi o obstáculo que o fotógrafo chileno Tomás Munita encarou ao seguir para as favelas do Recife, Brasil, para buscar fotografar a história do vírus Zika.
João Batista conforta a filha, Alice, que tem microcefalia, em sua casa no Jordão Baixo, Recife. Alice tem um mínimo de quatro ataques epilépticos por dia, além de danos ao seu sistema nervoso, que tem causado rigidez nos braços e cabeça. Ela toma 28 medicamentos diferentes e sem nenhuma ajuda por parte do governo – Foto – Tomás Munita
O mosquito Aedes aegypti, principal vetor para a proliferação do Zika, vírus suspeito de causar microcefalia em crianças nascidas de mães infectadas, que também carrega os vírus da dengue e chikungunya, não foi fotografado.
As crianças brincam no Coelho, Recife. Bairros pobres como este, com lixo em vários locais, são terreno fértil para a proliferação dos mosquitos Aedes aegypti – Foto – Tomás Munita
Ao contrário de outras histórias que Munita clicou, o personagem principal ficou escondido em poças de água e qualquer tipo de objeto que acumule água. Muitos destes objetos são ignorados nas ruas.
Todos os oito membros da família de Regina Kelly Siqueira tiveram dengue e chikungunya, e podem ter tido Zika também. Ela e seus seis filhos vivem em um bairro pobre chamado Coelho, em Recife – Foto – Tomás Munita
Munita, no entanto, descobriu que a ira ao inseto era visível nas pessoas que ele conheceu e cujas vidas foram viradas de cabeça para baixo pelo Zika.
Suas fotografias buscam contar a história dessas pessoas, sua ambivalência, sua luta e, em última análise, sua perseverança.
Soldados do Exército Brasileiro alinham-se no início da manhã antes de ir de porta em porta entregando folhetos com conselhos para combater mosquitos – Foto – Tomás Munita
Mas para Munita “É quase impossível de controlar a epidemia do mosquito Aedes aegypti”.
Oito membros da família desta menina tiveram chikungunya e dengue, doenças nascidas a partir do mesmo mosquito que transmite o vírus Zika – Fonte – Tomás Munita
Como você pode parar dos mosquitos portadores de doenças de se multiplicarem? Essa é a pergunta que assola o governo brasileiro, que enviou contingentes de soldados do exército de porta em porta, em uma missão contra o vírus Zika.
Soldados conversam com uma mulher no bairro Alto José Bonifácio, em Recife, sobre como conter a reprodução do mosquito Aedes aegypti. Durante o dia os soldados entregam às pessoas folhetos, inspecionam quintais e aplicado larvicidas em recipientes com água. Foto – Tomás Munita
“Eles estão dando folhetos, dizendo que você tem que manter seu quintal limpo de lixo”, diz o fotógrafo Munita, que documentou estas ações em Recife, a capital do estado nordestino de Pernambuco, cidade com uma população em torno de 3,7 milhões de pessoas.
Um trabalhador de saúde em uma favela na cidade de Recife, Brasil. Fumigação é um dos esforços do governo para evitar a propagação de Zika. Foto – Tomás Munita
O flagelo mosquito vai muito além desses bairros apertados. O Aedes aegypti tem sido incrivelmente difícil de ser erradicado desde que chegou à América Latina através do tráfico de escravos da África.
Soldados do Exército Brasileiro inspecionam uma casa no bairro Alto José Bonifácio, em Recife, como parte de sua campanha para parar a propagação do vírus Zika – Foto – Tomás Munita
Muitos países da região desenvolveram enormes programas de erradicação na década de 1950, com algum sucesso em vários locais, apenas para ver a praga ressurgir na década de 1970 e 80.
Um trabalhador de saúde fumegando em um bairro de Recife. Munita diz que as pessoas são muitas vezes surpreendidas ao ver fumigadores em suas ruas. Alguns fecham suas portas contra o spray, enquanto outros fazem o contrário para ajudar a matar os mosquitos em suas casas. – Foto – Tomás Munita
Marcelo Castro, ministro da saúde no país, tem sido citado como tendo dito que o Brasil está “perdendo a batalha” contra os mosquitos. Agora, o governo está tentando interromper quimicamente a reprodução do mosquito por fumigação de ruas e colocando larvicidas em tanques de água. Mas segundo relata a agência de notícias Reuters, logo o país vai tentar algo muito mais extremo: a criação de mosquitos machos em cativeiro, esterilizando-os com raios gama.
Um bebê de quatro meses de idade, nascido com microcefalia é fotografado em sua casa no bairro de Ibura, Recife – Foto – Tomás Munita
Mas em favelas do Brasil, ou bairros pobres, Munita comentou que é difícil imaginar que a campanha de informação do governo, ou qualquer outra, poderá ter muito efeito sem outras ações por parte das autoridades.
Uma fisioterapeuta trabalha com crianças com microcefalia que vieram com suas mães para um hospital infantil em Recife – Foto – Tomás Munita
“É quase impossível controlar algo assim nesse tipo de lugar”, diz ele. Muitas casas nas favelas são barracos de papelão e chapas de metal descartado. Além disso, estas áreas possuem limitado acesso à água potável e coleta de lixo. O resultado é a existência de muitos locais que podem armazenar água, criando um terreno fértil para a proliferação dos mosquitos.
Um soldado distribui panfletos em uma comunidade – Foto – Tomás Munita
Enquanto isso, aqueles que vivem nas camadas mais pobres da Recife devem decidir se vale a pena gastar o seu tempo para seguir os conselhos do governo sobre como prevenir a propagação de mosquitos. Muitos sentem que isso é apenas um fato da vida.
Bairro do Coque – Foto – Tomás Munita
“O mosquito está em toda parte”, diz Munita. “Realmente, não há muito que podem fazer além de manter sua própria casa limpa. Mas se a do seu vizinho não é limpa, em seguida, toda a vizinhança terá mosquitos e novos casos da doença”.
ADENDO DO TOK DE HISTÓRIA – E JÁ FAZ MUITO TEMPO QUE LUTAMOS CONTRA MOSQUITOS….
REVISTA O MALHO, RIO DE JANEIRO, 17 DE JUNHO DE 1911
Jornal “A República”, Natal-RN, 3 de dezembro de 1919
Manuel de Oliveira Lima foi um ilustre escritor, crítico, embaixador do Brasil em diversos países, professor-visitante na Universidade de Harvard e membro fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL). Em novembro de 1919 ele esteve em terras potiguares e o blog TOK DE HISTÓRIA traz na íntegra o interessante relato do próprio Oliveira Lima sobre essa visita.
NOTA – Este material foi originalmente publicado no site http://www.consciencia.org/
É um ótimo sinal quando se chega a uma terra que não é uma terra de arte como a Itália ou a Grécia, ou uma terra de incomparáveis belezas naturais como o Japão ou a Suíça, e as coisas que há a mostrar ao estrangeiro são escolas e hospitais.
Quer isto dizer que essa terra acalenta as preocupações sociais sem as quais qualquer comunidade se torna improgressiva e infecunda do ponto de vista humano. Como o Rio Grande do Norte parece precisamente que nutre e dá, pelo que verifiquei, expansão a semelhantes preocupações, sendo isso tanto mais de admirar quanto é um dos Estados mais pobres da Federação.
É clássica a pilhéria de que os vencimentos dos seus empregados públicos se pagavam em parte com jerimuns, cuja abundância era notável ao lado da escassez do numerário. As circunstâncias decerto mudaram: os jerimuns devem ter diminuído ao ponto que os não vi e achei pouco delicado perguntar por eles, e o numerário, se não cresceu muito, tem sido aproveitado com tamanha felicidade que tem chegado para dotar-se o Estado de boas escolas, entre elas notáveis grupos escolares, e atender-se a serviços de assistência aos doentes, aos loucos e aos desvalidos.
Ao aproximarmo-nos de Natal, ao largo da linha negrft dos arrecifes, antes de dobrarmos a fortaleza dos Reis Magos, inofensiva hoje mas sempre pitoresca, que a patina secular embeleza e o senso da tradição faz conservar, e de subirmos o amplo Potengi, avista-se no cimo de um morro, a cavaleiro da praia onde se quebram as ondas e com um horizonte de colinas cobertas de uma vegetação escura, um grupo de construções. São o hospital, a cadeia e o asilo, o primeiro e o último já remodelados de maneira a preencherem adequadamente os seus fins.
O desvelo manifestado por semelhantes assuntos de pedagogia e de assistência honra o espírito público dos dirigentes. Mas também os dirigidos se distinguem pela sua cordura e urbanidade.
Coleção TOK DE HISTÓRIA
Tem-se a impressão de lidar com gente boa, de sentimentos mais pacíficos, e de fato o sertão do Rio Grande do Norte destoa dos sertões vizinhos em não apresentar essa feição peculiar do banditismo. A população acusa, portanto, uma superior disposição moral. Por quê? Não saberia dizê-lo, nem me deram disso a razão. O Rio Grande do Norte tem ainda falta de sociólogos. A superior mentalidade feminina que observei deverá ser, antes do que causa, resultado daquela condição do meio.
É curioso verificar esse maior desenvolvimento intelectual da mulher, que se sente como se sente que já vem de longe o favor que merece o ensino. A primeira formação espiritual da notável escritora que foi Nísia Floresta fez-se no agreste de Papari, desabrochando das brenhas essa flor de civilização. Outras senhoras continuam e zelam semelhante tradição, que dota a inteligência do seu sexo de uma maior independência e de uma maior amplidão. A Escola Doméstica de Natal, da qual não é exagero quanto se disser de bom que não tem sua parelha no Brasil, nem mesmo noutros países, havia forçosamente de adaptar-se ao meio, nele se sentido à vontade.
Ouvi que exerceram grande influência em Natal na sua atividade de educadoras duas americanas, Miss Reed e Miss Porter, se não me engano. Miss Leora James, a diretora incomparável da Escola Doméstica, que pela organização e pela disposição parece um pedaço dos Estados Unidos encravado no Rio Grande do Norte, não faz mais do que seguir-lhes as pegadas na esfera que lhe proporcionou a lúcida iniciativa do Governo.
A educação americana é útil pelo seu espírito prático adequado às vicissitudes da vida, pelo bom humor que preside ao seu desenvolvimento, por uma tonalidade que não é apenas jovial mas altamente eficiente. Considero-a vantajosa para a nossa mentalidade mais formalista e mais pautada pelas convenções. Nos discursos pronunciados na festa literária pelas alunas graduadas da Escola Doméstica pode perfeitamente notar-se esse influxo americano. Nem sentimentais, nem bombásticos, esses discursos, por elas elaborados, foram todos repassados de um humourque se casa perfeitamente com a saudade descrevendo um, com a franqueza da despedida, episódios da vida escolar, esboçando outro com uma ponta de malícia mas sem maldade os perfis dos mestres com os seus cacoetes, dando outro a conhecer um testamentomuito espirituoso, formulando ainda outro com graciosa ironia o programa que por magia cada uma dessas moças se traçara para a existência. Esta última produção é da aluna Isabel Dantas, que teve o prêmio de viagem.
A Escola Doméstica não tem desviado sua atenção do fim essencial da sua ação, que é ajudar o progresso social da comunidade, dando às moças, que serão amanhã mães de família, além dos conhecimentos gerais indispensáveis à vida da inteligência, o preparo necessário para desempenharem conscientemente, isto é, cientificamente, as diferentes categorias de atividade em que até aqui procediam empiricamente, quer dizer, instintivamente. Assim é que para a aula de puericultura existe anexa uma crechecom seis crianças, de dois dias a cinco anos, cuja evolução fisiológica e psicológica pode, portanto, ser diretamente observada.
Oliveira Lima assistiu uma tradicional vaquejada, com vaqueiros trajando sua característica vestimenta de couro, como apresentada nesta foto do início do século XX. Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA
A essa chamada e verdadeira medicina do lar agregam-se cursos que debalde se procurariam noutras instituições: o de educação social, a cargo de Henrique Castriciano; o de educação estética, comportando a decoração da casa, uma arte simples e encantadora mas ainda rara no nosso meio; de direito usual, para que as mulheres não ignorem nem os seus direitos civis, nem o que seja uma hipoteca ou outra qualquer transação sobre propriedade, assim evitando que pela vida adiante venham a ser logradas nos seus bens.
Não há por enquanto na Escola um campo de tennis.Entretanto, o sportnão é alheio ao belo sexo do Rio Grande do Norte: pela mais gentil das deferências, baixei a terra numa embarcação tripulada por adestradas remadoras do Clube Náutico feminino. Outros desportos florescem: não posso dizer se também o footballentre os homens. É mais que provável, se bem que sem o furor que noutro Estado do norte divide a sociedade local em campos irreconciliáveis, sendo por exemplo vedado ao membro ou partidário de um dos dois clubes fazer negócio com o do outro clube, extremando-se o comércio nesses antagonismos e chegando não raro os desaguisados de opinião à pancadaria.
Ao sertão não alcançaram, porém, ainda esses exercícios físicos americanos e o seu desporto principal continua a ser a vaquejada nacional. Assisti a uma na Fazenda Santa Rita, em que tomaram parte oitenta e tantos artistas,na maior parte profissionais vestidos de couro — a vestia, o dianteiro, as perneiras, o chapéu de abas e as meias-luvas — alguns, porém, amadores, como um negociante da Serra Caiada que me confessou que dava a alma por essa corrida em disparada atrás do animal que o cavaleiro trata de segurar pela cauda e desse modo derrubá-lo, para o que se requer força e agilidade. Já noutras ocasiões tinha partido um braço, uma perna e uma clavícula; concertara tudo e lá estava numa das filas de cavaleiros, esperando a saída do bicho do curro.
Antiga sede da Escola Doméstica de Natal – Fonte – tribunadonorte.com.br
Se já não tivesse quatro filhos, não perdia uma, rematou. E eu dava-lhe razão, porque a vaquejada deve ali operar como a tourada no espírito dos que se criaram assistindo a elas e interessando-se por quanto lhes diz respeito.
A Escola Doméstica de Natal representa uma soma incalculável de esforço e de tenacidade. Não faltavam preconceitos a disputar-lhe o passo. Foi ela combatida como pouco pudica por ter uma seção de puericultura, a qual entretanto é de natureza a prestar relevantes serviços, ajudando a cruzada do saneamento da população nacional, empreendida por alguns espíritos previsores e generosos. Nós sabemos quanto é avultada no país a mortalidade infantil e que a razão disto está mais que tudo na falta, não de carinho, mas de cuidados inteligentes dados à alimentação e à higiene das crianças.
Ciência ou arte, a puericultura deve adquirir-se como qualquer outra, e é como se procede hoje nos Estados Unidos, que tão grande atenção estão prestando a esse gênero de questões.
A Escola foi ainda increpada de fútil por pretender ensinar a coser, a lavar e engomar, a cozinhar, a fabricar manteiga e queijos, a tratar de galinhas, a cuidar de jardins e de hortas. Ora, um minuto de reflexão basta para indicar quanta utilidade envolve tudo isso. Ensina-se a costura e a cozinha naquele estabelecimento de instrução com o máximo do gosto e o máximo da economia. No Brasil os pobres sofrem de falta de alimentação substancial mais do que na Europa: em compensação, porém, os que podem gastar, e mesmo os remediados, comem demasiado, considerando uma mesa opípara ou pelo menos muito farta a primeira das condições do conforto. O nosso jantar comum de família compõe-se de dois e três pratos de meio, quando um bastaria, com uma sopa e uma sobremesa. E o desperdício no preparar iguala o desperdício no consumir. O banquete que me foi oferecido pela Escola Doméstica, todo de execução das alunas graduadas, auxiliadas pelas do segundo ano, consistia numa boa sopa, um peixe excelente, galinha com salada de legume e sorvete de abacaxi.
Henrique Castriciano de Souza foi um dos que estiveram junto de Oliveira Lima na sua visita ao Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA
As alunas aprendem a compor o seu orçamento culinário como outro qualquer e a respeitarem esses orçamentos: assim fizessem os governos. Os vestidos das graduadas, para a festa da formatura, por elas próprias executados, custaram, fazenda e enfeites, 47$000 cada um. Também para os trajes se faz orçamento, o que constitui uma magnífica promessa de tranquilidade nos casais. A modéstia é de rigor na vestimenta escolar. Trajam todas igualmente de branco, sem sacrifício da elegância compatível com a simplicidade, e não usam joias, para não estabelecer diferenças de fortuna assinalando-as por esse meio.
Compreende-se a vantagem que o fabrico dos laticínios pode emprestar a muitas raparigas, filhas de criadores, cujas manadas de vacas dão muito mais leite do que podem consumir suas famílias e que só aproveitam as sobras em uma espécie tradicional de requeijão. A avicultura é outra ciência de grandes benefícios, como também a pomicultura e a horticultura. Tudo isso, aliás, distrai dos trabalhos puramente mentais e varia o programa escolar, contribuindo para completar uma educação feminina. A vida no internato faz-se assim tão aprazível, dada também a suavidade da direção, a qual não exclui a disciplina, apenas trata de torná-la consciente, que não há por assim dizer aluna que não deixe a escola com vivas saudades da atmosfera de bem-estar e de cordialidade que em redor delas soube criar a ótima educadora a quem em boa hora a Liga do Ensino confiou semelhante tarefa.
Na época da visita de Oliveira Lima a Natal, a cidade tinha uma população com pouco mais de 30.000 habitantes. Na foto vemos o então Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA
Nessa vivenda adrede construída, em boa parte segundo as indicações da mesma diretora, passa-se uma existência muito mais de família que de colégio, na velha acepção do termo, cumprindo cada qual seus deveres com satisfação e não se regateando as ocasiões de agradável intercurso, participando as alunas da administração comum, vivendo portanto do espírito da casa que é de método ao mesmo tempo que de liberdade, e é sobretudo de autonomia no pensar e no sentir. Pelo que pude ver, as alunas adquirem desembaraço sem contraírem desenvoltura.
A festa da Escola terminou por uma alegoria à paz, a qual expulsa do palco a guerra, enquanto os Estados Unidos e o Brasil se unem num amplexo de aliança. Os educadores norte-americanos, longe de quererem suscetibilizar o sentimento patriótico das nações da América do Sul, fazem o que está ao seu alcance para avivá-lo, no interesse mesmo da cooperação e solidariedade visadas. A sua ação redunda igualmente na disseminação do espírito associativo, que faz parte integrante do feitio americano. A seção culinária da Escola Doméstica de Natal já está ensaiando uma espécie de “extensão” entre as famílias; mediante o preparo, pelas matronas que aderem aos clubes gratuitos, de conservas de legumes e frutas com que aproveitar o produto de umas estações em outras, também de bolos e doces.
De tudo quanto me foi dado observar na minha rápida visita ao Rio Grande do Norte, eu trouxe a impressão consoladora para um espírito brasileiro de que no seu governo e nos agentes que lhe personificam a ação existe mais pronunciado do que noutros pontos do território nacional o sentimento do dever cívico que se desdobra no dever humanitário para com os nossos semelhante. O fato deixará de parecer surpreendente a quem tiver em mente que o vulto histórico para quem vão todas as simpatias locais, todo o culto da comunidade, foi não um agitador ou um demagogo, mas um homem essencialmente de caráter.
O Padre Miguelinho foi um sacerdote instruído e meigo, professor querido dos seus discípulos e espírito não só ilustrado como preocupado de conciliação e de concórdia; mas o que sobretudo o torna grande entre as vítimas generosas da revolução de 1817 foi a sua inquebrantável lealdade para com os companheiros de revolução e sobretudo para com a sua fé política. Nessa figura tocante, que resistiu ao apelo à vida que lhe estendiam, é que se concentra a devoção patriótica dos rio-grandenses do norte. O influxo de tal devoção não podia deixar de ser salutar para uma sociedade.
Manuel de Oliveira Lima (Recife, 25 de dezembro de 1867 – Washington, Estados Unidos, 24 de março de 1928).
Oliveira Lima começou a trabalhar como jornalista com catorze anos de idade. Em seus artigos constantemente criticava o domínio das oligarquias sobre a recém-fundada República e por isso ganhou fama de monarquista.
Formou-se em letras na Faculdade de Lisboa em 1887, e em 1890 começou a trabalhar para o Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Atuou como diplomata em Portugal, Bélgica, Alemanha, Japão e Estados Unidos.
Foi encarregado de negócios da primeira missão diplomática brasileira no Japão. Em 1901 deu parecer contrário ao projeto brasileiro de recebimento de imigrantes japoneses. Escreveu então ao Ministério das Relações Exteriores alertando sobre o perigo de o brasileiro se misturar com “raças inferiores”.
Chegou a ser falado para a embaixada brasileira em Londres mas o Senado não aprovou sua indicação. Oliveira Lima era malvisto pelo governo britânico por defender que o ideal de que o Brasil permanecesse neutro na Primeira Guerra Mundial e por sua proximidade intelectual com a Alemanha.
Também fez inimigos dentro do país, em parte por não aprovar a atitude expansionista da República em situações como a anexação do Acre realizada pelo Barão do Rio Branco. Ele dizia que o território nacional já era vasto e muito mal fiscalizado e que a verdadeira expansão do Brasil só viria através do comércio.
Oliveira Lima sempre gostou de ler e escrever. publicou numerosas obras de história, entre elas: Memória sobre o descobrimento do Brasil, História do reconhecimento do Império, Elogio de F. A. Varnhagen, No Japão, Secretário Del-Rei, Dom João VI no Brasil. Sobre esta última obra de história que Oliveira Lima publicou é importante destacar sua importância para o rearranjo da historiografia brasileira, pois ela é considerada como sendo um clássico da historiografia nacional segundo o Lima um intelectual que têm variadas conferências sobre a formação da nacionalidade brasileira. A ilustre obra “Dom João VI no Brasil” é considerada como sendo uma das grandes obras do autor Oliveira Lima. Essa avaliação é feita por muitos estudiosos e autores relacionados a questões significativas sobre o Brasil. Alguns autores e escritores como Gilberto Freyre, Octavio Tarquínio de Souza e Wilson Martins já tiveram a oportunidade de escrever sobre os relatos de Oliveira Lima contidos nesta obra de grande prestígio para a historiografia brasileira.
Em 1913 quando já morava nos Estados Unidos, Oliveira Lima doou sua descomunal biblioteca à Universidade Católica de Washington por temer que a coleção não recebesse os cuidados adequados no Brasil. Impôs a condição de que ele próprio fosse o primeiro bibliotecário e organizador do acervo, função que desempenhou por quatro anos.
Em 1924 foi apontado professor honorário da Faculdade de Direito do Recife.
Morreu em 1928 e foi enterrado no cemitério Mont Olivet, Washington. Em sua lápide não consta seu nome, mas a frase “Aqui jaz um amigo dos livros“.
Este site é um espaço virtual de estudo, pesquisa e ensino. Tradicional site de filosofia, que ampliou o leque temático para abranger outras ciências humanas: História do Brasil, História Geral, Literatura, Antropologia, Sociologia, Linguística e áreas afins. Foi criado em 1997, pelo filósofo Miguel Lobato Duclós (1978-2015). Segundo seu pai, Nei Duclós, o trabalho desenvolvido por Miguel Lobato Duclós proporcionou a criação de um vasto acerto virtual de conhecimento, um trabalho pioneiro num país onde a universidade ainda possui um forte preconceito contra a internet. O espaço virtual consciência.org atrai milhares de estudantes e é responsável pela introdução à Filosofia e atualização do conhecimento para mais de uma geração de alunos, que se mostram admirados e agradecidos, como atestam as inúmeras cartas recebidas e publicadas neste website.
O blog TOK DE HISTÓRIA homenageia Miguel Lobato Duclós como verdadeiro pioneiro da democratização da informação intelectual em espaço virtual.
Normalmente as pessoas que gostam de um determinado tema histórico possuem em suas casas livros sobre o assunto de sua preferência. Certamente que nestas estantes alguns destes livros se destacam de outros pelo constante manuseio e a frequência com que seus proprietários vasculham suas páginas em busca de respostas para certas indagações. São aqueles livros que se tornam referência. Evidentemente que diante dessa situação, surge naturalmente uma positiva admiração pelos autores destes maravilhosos trabalhos.
Na minha estante sobre livros do cangaço, que nem é tão numerosa assim, existem alguns poucos livros que se enquadram perfeitamente nesta situação, cujos autores são verdadeiros Mestres para mim. Um deles é “Guerreiros do Sol”, de Frederico Pernambucano de Mello.
Nessa minha busca pelo conhecimento do que significa o fenômeno do cangaço, sem dúvida alguma esta obra é uma grande ferramenta que me ajuda a ampliar o meu conhecimento sobre o tema.
Com o tempo fui incorporando ao meu acervo outros interessantes livros de Frederico Pernambucano de Mello, todos de alto nível.
E hoje, em Recife, eu tive o privilégio de conhecer Mestre Frederico.
Fui recebido de maneira extremamente atenciosa, em um momento muito agradável, muito salutar, onde pudemos debater de maneira tranquila e aberta sobre o universo do cangaço e da história de nossa região.
Conheci um homem com amplo conhecimento sobre esse tema, mas com uma natural simplicidade, enorme fidalguia e extrema atenção a este seu admirador.
Eu só tenho o mais franco agradecimento ao Mestre Frederico por este agradável encontro.
CORONEL JÁ HAVIA SIDO CONDENADO NA JUSTIÇA FEDERAL POR TRÁFICO INTERNACIONAL DE DROGAS FOTO: IMAGEM ILUSTRATIVA FAB
MILITAR FOI PRESO COM 32 KG DE COCAÍNA, ESCONDIDOS EM MALAS
O Superior Tribunal Militar (STM) acolheu a representação do Ministério Público Militar (MPM) e declarou o coronel Paulo Sérgio Pereira de Oliveira, da reserva da Força Aérea Brasileira (FAB), indigno para o oficialato. Com a perda de seu posto e de sua patente, o oficial fica impedido de permanecer nas Forças Armadas.
Pereira, que na época era tenente coronel, foi preso em 1999, juntamente com mais dois oficiais da FAB, o tenente coronel Washington Vieira da Silva e o major Luiz Antônio da Silva Greff. Os oficiais foram presos após a Polícia Federal apreender 32,9 quilos de cocaína, em um avião da FAB, na Base Aérea do Recife.
Estes militares de carreira formavam uma quadrilha especializada em tráfico internacional de substância entorpecente para a Europa, mediante a utilização de aviões da FAB. O esquema consistia em providenciar o transporte da droga por um avião militar, em malas de bagagens comuns, que não passavam pelo processo rotineiro de controle.
TRÁFICO INTERNACIONAL DE COCAÍNA EM UM C-130
Em 18 de abril de 1999 a aeronave decolou da Base Aérea do Galeão, no Rio, e faria escala em Anápolis/GO e em Recife/PE. O destino final era Palma de Mallorca, na Espanha, com mais uma escala nas Ilhas Canárias. E seria nesta escala que a droga sairia do avião de transporte Hércules C-130 da FAB.
C-130 Hércules – Fonte – G1
De acordo com dados dos autos, a cocaína foi embalada em 30 pacotes e estavam armazenadas em duas malas. Todos os pacotes estavam cobertos por uma camada de algodão e enrolados em borracha e papel celofane, com vários desenhos de Mickey Mouse. A cocaína encontrada tinha, segundo peritos da Polícia Federal, 98,96% de pureza. Dependendo das substâncias misturadas para o consumo, poderia render entre 80 a 100 quilos, o equivalente a US$ 3 milhões.
A operação para prisão da quadrilha foi realizada pela Polícia Federal e se chamou “Mar Aberto”. Para a Polícia Federal a prisão não revelou um fato isolado, mas uma prática reiterada da quadrilha, que há algum tempo dedicava-se ao tráfico de entorpecentes. As investigações comprovaram que o coronel possuía importante papel no esquema criminoso. O flagrante foi precedido de uma minuciosa pesquisa que incluiu até mesmo interceptações telefônicas.
Cocaína pronta para consumo – Fonte – sossolteiros.bol.uol.com.br
O coronel Paulo Sérgio Pereira de Oliveira já havia sido condenado na Justiça Federal a 16 anos de reclusão por tráfico internacional de drogas. A 6ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro condenou o militar à pena de 16 anos de reclusão, em regime prisional inicialmente fechado, pelos crimes incurso nos artigos 12 ,14 e 18 da Lei 6.368/76 (lei de tóxicos), com pagamento de 266 dias de multa, com valor unitário de dois salários mínimos.
VOTO DO MINISTRO DO SUPERIOR TRIBUNAL MILITAR
Com a sentença transitada em julgado, o Ministério Público Militar ingressou junto ao STM com representação para declará-lo indigno para o oficialato e a condenação à perda do posto e da patente, conforme previsto nos termos do art. 142, § 3°, inciso VII, da Constituição Federal.
Ao analisar o processo, o ministro José Barroso Filho, do STM. votou por acolher a representação e declarou indigno o oficial. Segundo ministro a ética militar, prevista no Estatuto dos Militares, está calcada em regras e padrões de comportamento que orientam o militar a agir em sintonia com o sentimento do dever, a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe. Nesse aspecto, impõe-se a cada militar uma conduta moral irrepreensível.
Para José Barroso Filho a constatação de que ao oficial da Aeronáutica foram dispensados vários elogios, ao longo dos anos da carreira, não tem o condão de elidir o acentuado grau de reprovação de que se reveste sua atuação contra a lei, disso tendo resultado sua condenação criminal. Nos julgamentos dessa natureza, disse o ministro, levam-se em conta os fatos, o contexto em que se inserem e, principalmente, a retidão de conduta exigida do militar, sob o enfoque da ética e da moral.
“De igual modo, irrelevante se torna sua condição de inativo, pois, mesmo nessa situação, compromete o prestígio e a respeitabilidade da Força a que pertence, não só pela gravidade do delito praticado, mas pelas repercussões nefastas que se espraiam no meio militar e na vida civil, não só no Brasil, mas no exterior, onde os fatos tiveram repercussão, denegrindo a imagem e o conceito dos militares, em especial os da Força Aérea Brasileira e, dos brasileiros em geral”, votou o ministro José Barroso Filho.
Os demais ministros do STM acolheram o voto do relator por unanimidade.
O RESTO DA QUADRILHA
O tenente coronel Washington Vieira da Silva e o major Luiz Antônio da Silva Greff foram condenados a penas similares. Em novembro de 2011, o STM já havia declarado aperda do posto e patentede coronel de Vieira da Silva. Apesar de não estar mais na ativa na época dos fatos, o tenente coronel Washington dispunha de informações privilegiadas sobre os dias de voos dos aviões da FAB para a Europa. Após permanecer foragido por alguns meses, Washington foi preso.
Na época, além dos oficiais foram presos o americano John Michael White, a boliviana Lila Mirta Ibañez Lopez, Luís Fernando dos Santos e Luiz César Pereira de Oliveira (irmão do tenente coronel Paulo Sérgio Pereira de Oliveira). Inclusive a droga seria entregue a Luís Cezar Pereira de Oliveira, que se encontrava nas Ilhas Canárias, na Espanha.
Luís César Pereira de Oliveira, Irmão do tenente-coronel Paulo Sérgio Pereira de Oliveira, sendo levado preso por militares da FAB em 1999, na Base Aérea do Recife – Fonte – http://www2.uol.com.br/JC/_1999/1806/br1806g.htm
A maioria dos réus foi condenada pelos crimes de tráfico de entorpecentes e por formação de quadrilha para o tráfico. John White ainda foi enquadrado nos crimes de falsificação e uso de documentos públicos. Lila Mirta Ibañez Lopez foi condenada por associação para o tráfico de entorpecentes, ocultação de valores obtidos como fruto do crime e também por falsificação e uso de documentos públicos. Luís Fernando dos Santos recebeu pena pelo crime de ocultação de valores angariados com a atividade criminosa.
O americano John White foi quem recebeu a maior condenação: 39 anos de reclusão em regime fechado e multa de 5.750 salários mínimos (o equivalente, hoje, a mais de dois milhões de reais). Além disso, o TRF determinou a perda de todos os seus bens, direitos e valores adquiridos desde 1997, por entender que eles foram obtidos exclusivamente com ações criminosas. Lila Ibañez foi apenada em 19 anos e seis meses de reclusão, mais multa de 1.500 salários. O tenente coronel Washington Vieira da Silva recebeu pena de 17 anos de prisão e 1.330 salários mínimos de multa.
Um panorama único da justiça imperial brasileira está circunscrito a uma ilha. Fernando de Noronha, a cerca de 543 quilômetros do Recife, abrigou a maior prisão do país no século XIX. Os portugueses fundaram a colônia penal em 1737 e, como a maioria dos soldados e dos condenados que a Coroa mandava para a ilha vinha do Brasil, depois da independência, o Brasil reclamou Fernando de Noronha e continuou a povoá-la com sentenciados e soldados. Os oficiais do Exército que administravam a colônia agrícola enfrentavam desafios semelhantes aos senhores de escravos de grandes plantações e seus parceiros no continente, e lidavam com soldados recrutados à força: como motivar trabalhadores coagidos a labutar?
Daniel Crioulo, preso em julho de 1865 e condenado à galé perpétua. A fotografia foi retirada do álbum “Galeria dos Condenados”, durante o Brasil Império, e está atualmente sob a guarda da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional. (Imagem: Fundação Biblioteca Nacional)
A documentação farta sobre o que ocorreu na ilha nos leva a conhecer uma micro-história das interações cotidianas muito mais detalhada do que é possível em comunidades ou plantações do continente. Uma base de dados com mais de mil sentenciados registrados nos livros de matrícula da colônia penal permite identificar as características mais comuns usadas para descrever os presos. Manoel da Silva, por exemplo, veio do interior de Pernambuco. Ao ser condenado, ele teria 31 anos de idade, era solteiro e sua condição civil era livre. Antes de ser julgado, trabalhava como lavrador. Era magro, pardo e de estatura média. Seus olhos pretos cintilavam debaixo de uma testa comprida e de sobrancelhas espessas. Seu rosto era quadrado, com pouca barba. O cabelo, preto e carapinho. Tinha o nariz chato e uma boca regular, com lábios grandes e bons dentes. O júri o condenou pelo crime de homicídio e decidiu pela sentença de galés perpétuas, ou seja, prisão com trabalho acorrentado até a morte.
O retrato de Manoel é uma composição com os traços mais comuns entre os sentenciados, por isso não reflete sua diversidade. Havia também brancos, pretos e indígenas, mas nas classificações de cor os brancos eram sub-representados: assim eram descritos 20% dos condenados, enquanto respondiam por 42% da população nacional, segundo o censo de 1872. A maioria era de civis livres, mas havia escravos (pouco mais de 15%). Cerca de 19% da população carcerária era formada por militares condenados por Conselhos de Guerra. Menos de 2% eram mulheres.
Imagem meramente ilustrativa da força policial de Pernambuco destacada em Fernando de Noronha na década de 1920.
A maior parte dos que foram levados para Fernando de Noronha nasceu no Brasil. Os 7% de estrangeiros tinham vindo principalmente de Portugal e da África. Mais de dois terços foram condenados por homicídio ou tentativa de homicídio, mas o número pode ser maior: várias entradas não relatam o crime cometido, mas as condenações a sentenças longas fazem supor que entre 70% e 80% dessa população tenham sido penalizados por assassinato. Outros crimes registrados são roubo e furto (6%), injúrias físicas (4,6%), guarda ou repasse de moedas falsas (2,6%) e deserção militar (3,2%). Mais raros, defloramento, reduzir a escravidão e sublevação não somam 1%. Nessa amostra, mais da metade dos julgados recebeu sentença perpétua ou a pena de morte, que normalmente era comutada pelo imperador D. Pedro II para galés perpétuas, porque ele não apoiava a pena última. Entre as outras sentenças, há galés temporárias, prisão simples, prisão temporária com trabalho.
O passado de Fernando de Noronha é pouco conhecido e nada tem haver com a imagem atual que os brasileiros possuem em relação a este belo lugar.
Vieram de quase todas as províncias e da corte, menos Goiás. Pernambuco contribuiu com mais de um terço do total, e outro terço veio das províncias do atual Nordeste brasileiro. Pode-se explicar o predomínio de condenados desta região pelos custos e dificuldades de transportar presos de províncias distantes, mas também pela gestão da ilha. Até 1877, os governadores de Pernambuco dividiam sua administração com o Ministério de Guerra, localizado no distante Rio de Janeiro. Depois, o Parlamento transferiu a responsabilidade para o Ministério de Justiça. Mesmo assim, o exército continuava a fornecer os oficiais e os soldados que garantiam a segurança local. Os governadores pernambucanos usavam a colônia para aliviar a superlotação da Casa de Detenção no Recife. Pelo decreto do Parlamento, de 1859, somente três tipos de criminosos deveriam ser remetidos à ilha: os escravos condenados à pena capital cujas sentenças foram comutadas a galés perpétuas, os envolvidos com moedas falsas e os sentenciados à prisão com trabalho.
Estes dados realçam dois aspectos de Fernando de Noronha no sistema de justiça imperial. Primeiro, que as autoridades de Pernambuco e do exército abusavam de seus papéis de administradores, remetendo à colônia criminosos que, pela lei, não deveriam ir para lá. Segundo, o predomínio de condenados por crimes de homicídio, indicando que a polícia e os juízes utilizavam seus escassos recursos para reprimir e punir crimes violentos. Quase não havia espaço para sentenças não mortíferas. Com a proclamação da República, o sistema federal adotado resultou no fechamento de Fernando de Noronha como instituição nacional: depois de 1897, tornou-se colônia penal de Pernambuco.
Durante a primeira administração de Getulio Vargas, Fernando de Noronha voltou a ser um lugar de exílio para presos políticos e, em 1942, tornou-se território administrado pelas Forças Armadas. A prisão da ilha foi definitivamente fechada em 1957.
Peter M. Beattie é professor da Michigan State University e autor de Punishment in Paradise: Race, Slavery, Human Rights, and a Nineteenth Century Brazilian Penal Colony (Duke University Press, 2015).
Passaporte português está mais próximo de milhares de brasileiros descendentes de sefarditas – Foto: iStock
Decreto divulgou lista oficial de sobrenomes e o que é necessário para conseguir o passaporte português
Milhares de brasileiros podem obter a cidadania portuguesa como descendentes de sefarditas. A lei portuguesa que beneficia os herdeiros dos judeus expulsos da Península Ibérica no século 15 foi aplicada pela primeira vez em outubro, com a aprovação de três pedidos de naturalização, um deles vindo justamente do Brasil.
Embora não existam dados oficiais que confirmem o número atual de sefarditas, diferentes organizações judaicas estimam que haja 3,5 milhões em todo o mundo. No Brasil, eles seriam em torno de 40 mil, dos cerca de 110 mil judeus que vivem no país.
Mas o número de brasileiros beneficiados pela medida do governo português pode ser significantemente maior, já que a lei não especifica que apenas os descendentes que ainda pratiquem o judaísmo sejam contemplados com a naturalização.
“O critério legal é a ascendência sefardita portuguesa, não a religião do interessado. Como se sabe, um segmento importante de pessoas abrangidas pela lei é de descendentes de judeus sefarditas que foram forçados à conversão ao cristianismo”, explica à BBC Brasil o advogado português Rui Castro, especialista em processos de cidadania lusa e que mantém escritórios no Brasil e em Portugal.
Em 1496, o rei D. Manuel determinou a expulsão de todos os judeus do território português. Os que optaram por permanecer no país foram obrigados a se converter, ficando conhecidos como cristãos-novos. Durante o período da Inquisição, muitos desses judeus convertidos também foram perseguidos e forçados a abandonar Portugal, refugiando-se em diversos países, entre eles o Brasil.
Sobrenomes oficiais
A aquarela ‘A Expulsão dos Judeus’, do artista português Roque Gameiro, retrata a história da Inquisição em Portugal – Foto: Reprodução
Desde que surgiram as primeiras notícias há aproximadamente dois anos, de que Portugal e Espanha aprovariam leis que facilitariam a naturalização dos descendentes de sefarditas, circulam pela internet listas com milhares de sobrenomes – alguns deles entre os mais comuns do Brasil – que indicariam a ascendência, mas nenhuma delas de cunho oficial.
Essa lacuna foi preenchida com a publicação do Decreto-Lei n.º 30-A/2015, de 27 de fevereiro passado, que abriu caminho para a naturalização dos descendentes de sefarditas, em que a Justiça lusa finalmente divulgou uma lista oficial com os seguintes sobrenomes: Abrantes, Aguilar, Almeida, Álvares, Amorim, Andrade, Avelar, Azevedo, Barros, Basto, Belmonte, Brandão, Bravo, Brito, Bueno, Cáceres, Caetano, Campos, Cardoso, Carneiro, Carvajal, Carvalho, Castro, Crespo, Coutinho, Cruz, Dias, Dourado, Duarte, Elias, Estrela, Ferreira, Fonseca, Franco, Furtado, Gaiola, Gato, Gomes, Gonçalves, Gouveia, Granjo, Guerreiro, Henriques, Josué, Lara, Leão, Leiria, Lemos, Lobo, Lopes, Lombroso, Lousada, Lopes, Macias, Machado, Machorro, Martins, Marques, Mascarenhas, Mattos, Meira, Melo e Prado, Mello e Canto, Mendes, Mendes da Costa, Mesquita, Miranda, Montesino, Morão, Moreno, Morões, Mota, Moucada, Negro, Neto, Nunes, Oliveira, Osório (ou Ozório), Paiva, Pardo, Pereira, Pessoa, Pilão, Pina, Pinheiro, Pinto, Pimentel, Pizarro, Preto, Querido, Rei, Ribeiro, Rodrigues, Rosa, Sarmento, Salvador, Silva, Soares, Souza, Teixeira, Teles, Torres, Vaz, Vargas e Viana.
A iniciativa, no entanto, gerou críticas, pois apenas o sobrenome não é suficiente para a entrada com o pedido de cidadania. “O legislador cometeu um erro ao mencionar essa lista. Existem nomes que efetivamente estão estreitamente relacionados a uma origem sefardita, mas, mesmo nestes casos, o interessado tem de reunir elementos complementares de prova”, diz Rui Castro.
Lei beneficia herdeiros dos judeus expulsos da Península Ibérica (mapa acima) no século 15 – Foto: Divulgação
Maior rigor
Segundo o Consulado Geral de Portugal em São Paulo, para solicitar a naturalização é preciso que o candidato comprove laços com uma comunidade sefardita de origem portuguesa. Isso é possível através de alguns requisitos que confirmem a ligação com Portugal, como sobrenome, idioma familiar, e descendência direta ou colateral.
Em países como Turquia, Israel ou Estados Unidos, com um número considerável de descendentes de sefarditas, a confirmação de um nome de família e até mesmo do uso da língua portuguesa já pode significar um grande passo para conseguir a cidadania lusa. No entanto, o fato de o Brasil ser uma ex-colônia de Portugal faz com que muitos destes elementos não sejam suficientes para provar a ascendência, tornando o processo mais rigoroso para os brasileiros.
“Os pedidos de cidadãos brasileiros que afirmam ser descendentes de pessoas condenadas pela Inquisição por heresias relativas ao judaísmo não pode ser admitido automaticamente”, admite Michael Rothwell, porta-voz da Comunidade Israelita do Porto, responsável por emitir o Certificado da Comunidade Judaica Portuguesa, documento usado para confirmar a ascendência sefardita no processo de naturalização.
A organização com sede no Porto tem emitido o certificado apenas para judeus praticantes, o que tem sido criticado pelos advogados especialistas na naturalização lusa.
“Esta é uma interpretação errada da lei, não só para a maioria dos juristas que tratam do tema, mas também na opinião da Comunidade Israelita de Lisboa, que não segue por este caminho”, argumenta Rui Castro. “A naturalização não deve ser condicionada pela halachá (lei judaica), que determina sob seus específicos critérios quem é ou não judeu. O que deve ser considerado é se o interessado é descendente desses portugueses que foram forçados a abandonar seu país e, muitas vezes, suas crenças para continuar vivos.”
Hoje um dos pontos turísticos mais famosos de Lisboa, a praça do Rossio, no centro da capital, foi palco de execuções de judeus durante a Inquisição – Foto: Reprodução
Fundador e diretor da Associação Brasileira de Descendentes de Judeus da Inquisição (Abradjin), Marcelo Miranda Guimarães defende uma interpretação “sensibilizada” da lei pelos portugueses, que facilite a naturalização dos herdeiros de cristãos-novos.
“A lei é muito bem-vinda, mas precisa ser interpretada com consciência e sensibilidade, porque a maioria desses judeus foi obrigada a se converter ao cristianismo para não morrer, eram pessoas proibidas de realizar qualquer ritual ligado ao judaísmo”, explica Guimarães à BBC Brasil.
“Como podemos ir a uma sinagoga buscar os documentos dos nossos ancestrais se nem sinagogas existiam naquela época no Brasil, onde o judaísmo também era proibido? Mas existem caminhos alternativos. Vários livros relatam as histórias dessas famílias no país, listam nomes e documentam a realidade da época. Isso deve ser levado em consideração como prova, porque, se não for, mais de 95% dos descendentes brasileiros não terão direito a essa reparação”, afirma.
Custos e procedimentos
Uma seção do Museu da História da Inquisição, em Belo Horizonte, é dedicada às vítimas brasileiras da intolerância religiosa – Foto: Divulgação Associação Brasileira de Descendentes de Judeus da Inquisição
Depois de levantar os documentos que considerar necessários para comprovar a ascendência sefardita, é preciso obter o Certificado da Comunidade Judaica Portuguesa, por intermédio das comunidades israelitas de Lisboa ou do Porto. A ausência desse certificado pode ser compensada de outras maneiras, como com “a apresentação de registros de sinagogas e cemitérios judaicos, títulos de residência, títulos de propriedade, testamentos e outros comprovantes de ligação familiar na linha colateral de progenitor comum a partir da Comunidade Sefardita de origem portuguesa”, de acordo com o Consulado Português em São Paulo.
Os candidatos têm ainda de ser maiores ou emancipados face à lei portuguesa e não podem ter sido condenados a crimes com pena igual ou superior a três anos, também de acordo com a legislação vigente no país europeu.
Segundo Rui Castro, o custo global do processo nunca será inferior a 1 mil euros (cerca de R$ 4,3 mil), valor que pode aumentar se for preciso realizar o levantamento de documentos ou se o candidato optar por contratar uma assessoria jurídica.
Em contato com a BBC Brasil, o Ministério da Justiça português informou que até o fim de outubro 250 pedidos de naturalização estavam em análise, dos quais cerca de 10% correspondiam a cidadãos brasileiros. A expectativa, no entanto, é de que esse número cresça nos próximos meses, impulsionado pelas notícias de que Portugal começou a aplicar a lei que garante a cidadania aos descendentes de sefarditas.
PUBLICADO NA IMPRENSA PERNAMBUCANA TRÊS DIAS APÓS O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ, O TEXTO NADA COMENTOU SOBRE ESTE GRAVE EPISÓDIO!
Autor – Rostand Medeiros
Tércio Rosado Maia foi um potiguar nascido no dia 19 de agosto de 1892, em Mossoró, sendo o terceiro filho do farmacêutico paraibano Jerônimo Ribeiro Rosado e de Maria Amélia Henriques Maia, que faleceu justamente durante o parto de Tércio. Seu pai, como era o costume comum na época, logo contraiu matrimônio com Isaura Henriques Maia, sua cunhada.
Tércio Rosado Maia – (1892 – 1960)
O patriarca Jerônimo inicia a partir do nascimento de Tércio uma tradição singular na família Rosado de Mossoró. Tércio em Latim significa terceiro e seus irmãos que nasceram posteriormente foram batizados com números. Alguns em latim, mas a maioria com numeração existente no idioma francês.
Tércio se mostrou um homem de extrema capacidade, onde buscou ampliar muito dos seus conhecimentos através dos estudos. Já nos primeiros anos da década de 1910 concluiu o curso de farmácia na Escola de Medicina da Bahia. Dinâmico e atuante foi um dos pioneiros do cooperativismo no Rio Grande do Norte, responsável em 1915 pela criação da primeira cooperativa potiguar; a Sociedade Mossoró Novo. Consta que passou um tempo trabalhando na Estrada de Ferro de Mossoró e em 1925 deixou este emprego e passou a morar na capital pernambucana[1]. Ainda em Recife concluiu o curso de odontologia em 1929, o de Direito em 1940 e chegou até o 4º ano de medicina.
Mossoró, primeira metade do século XX – Fonte – blogdetelescope.blogspot.com
Mas voltando para a segunda metade da década de 1920, ao realizarmos uma pesquisa na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, descobrimos que nesta época Tércio Rosado estava em Recife não apenas aprendendo sobre dentes, ele igualmente começou a escrever na imprensa do Recife e a participar ativamente da vida intelectual da cidade.
Não sei quando e em qual periódico ele começou a escrever na capital pernambucana, mas vamos encontrá-lo assinando em 10 de abril de 1927 um interessante artigo sobre a chegada do hidroavião português “Argos” a Recife. O trabalho foi publicado na primeira página do Diário de Pernambuco, um dos mais respeitados jornais do Brasil naquela época[2].
Na sequência o nome de Tércio Rosado Maia começa a aparecer ocasionalmente na coluna “Estudos e opiniões”, onde trazia principalmente temas que iam desde o folclore nordestino, até mesmo assuntos internacionais. Quase sempre esta coluna era publicada nas primeiras páginas do Diário de Pernambuco.
Junto com sua atuação nos periódicos, Tércio também começou a fazer parte do Cenáculo Pernambucano de Lettras, uma das várias associações literárias que congregavam grupos de intelectuais em Recife. Nesta época também fazia parte desta associação o médico potiguar Abelardo Calafange.
Na continuidade das minhas pesquisas, encontrei na edição do Diário de Pernambuco de quinta-feira, 16 de junho de 1927, na segunda página, um interessante e pouco conhecido artigo escrito por Tércio Rosado Maia sobre os cangaceiros nordestinos.
O bando de Lampião. Foto realizada após a derrota em Mossoró, em Limoeiro do Norte-CE.
Intitulado “A magistratura e a prophilaxya do cangaceirismo”, inicialmente clamava por uma ação mais ativa da magistratura contra os sobas das localidades interioranas, os portentosos coronéis que tanto contribuíam para a formação e a existência dos grupos de cangaceiros. Apesar da sua formação acadêmica em Direito só haver ocorrido treze anos após o famoso ataque de Lampião a Mossoró, Tércio Rosado escreveu este interessante texto com extrema segurança e desenvoltura em relação as suas opiniões.
Também trazia a sua visão sobre os fatores que determinavam a criação dos cangaceiros, classificando-os “por índole, degenerados e perversos”. Ainda sobre os cangaceiros no texto chama atenção quando Tércio Rosado apontou a ação positiva da magistratura potiguar no combate ao cangaço. Mas confesso que desconheço completamente a qual caso ele fez referência, que envolveu a ação de magistrados no combate a cangaceiros no Rio Grande do Norte.
Fonte – cariricangaco.blogspot.com
O texto de Tércio Rosado Maia suscita muitos outros questionamentos e o mais importante estava no fato dele ter sido publicado apenas três dias após o ataque de Lampião e de seus homens a cidade de Mossoró. Mas no material publicado não existe uma única referência sobre este famoso ataque, ocorrido no dia 13 de junho de 1927.
Diário de Pernambuco, primeira página, 19 de junho de 1927.
Vale ressaltar que a primeira notícia do Diário de Pernambuco sobre o ataque a cidade natal de Tércio Rosado só foi publicada no dia 19 de junho, seis dias após a ocorrência dos episódios. Era uma pequena nota na primeira página, onde a empresa Leite Bastos & Cia. informou ter recebido um telegrama de Ramiro Queiroz comentando sobre o ataque, o pavor da população mossoroense, a morte do cangaceiro Colchete e a prisão do temido cangaceiro Jararaca.
Jornal do Brasil, edição de quarta-feira, 15 de junho de 1927, página cinco.
Apesar dos sistemas de comunicação existentes no Nordeste brasileiro em 1927 não serem tão modernos, a notícia do ataque de Lampião a Mossoró logo alcançou locais muito mais distantes do que Recife. O periódico carioca Jornal do Brasil, edição de quarta-feira, 15 de junho de 1927, na página cinco, trazia uma nota intitulada “Audácias do Banditismo” e resumia o ataque dos cangaceiros a cidade potiguar.
Apesar de não ter descoberto quer era o Sr. Ramiro Queiroz, é inquestionável o atraso do conceituado periódico Diário de Pernambuco em publicar tão grave acontecimento ocorrido em uma cidade nordestina.
Sem mais delongas o leito poderá ler o artigo de Tércio Rosado Maia na íntegra, aqui reproduzido com a escrita original. As palavras marcadas em negrito seguem o padrão original do texto conforme foi publicado em 16 de junho de 1927.
Boa leitura!
Diário de PE-26-07-1927 (1)
“ESTUDOS & OPINIÕES”
A MAGISTRATURA E A PROPHILAXYA DO CANGACEIRISMO
Sobre os hombros do magistrado impende a tarefa principal de sanear o Nordeste da epidemia do Cangaço.
Este acerto cathegorico, tout court[3], nasce de um exame preciso da singular instituição que tanto estorva o progresso e a estabilidade da vida regional.
E tem a sua contra-prova, decisiva, fulminante, num exemplo irretorquível e brilhantíssimo: o caso do Rio Grande do Norte.
O magistrado, aqui no Nordeste quando não é, por sua incapacidade, fraqueza, e desorganização, o principal gerador do cangaceiro, significa o melhor prophylatico de que o governo, possa lançar mão para exterminar a praga do cangaço, ao nascedouro.
O magistrado, agindo dentro das normas estrictas do Dever e conscio de suas responsabilidades, representará no organismo da Região o papel de um phagocyto, insulando e eliminando os elementos tornados deletérios, e immunizando o meio de forma a faze-lo refractario a população de taes vírus de ruina e decomposição.
A dupla interrogação supra lançada, vou tentar uma resposta, procurando de caso passado, fazer abstração e idéias e conceitos todo-formados sobre o assunpto e atirados em circulação com a impertinência de dogmas.
Norteio meu esforço em ver com meus próprios olhos, e analysar com meu proprio senso analytico o problema do cangaço. E vejo afina, desvanecido e satisfeito, que as minhas conclusões em alguns pontos coincidem, e noutras se aproximam das idéias de outros que, reputadamente, souberam distinguir claro, no confuso phenomeno pathologico que é o banditismo no Nordeste.
O cangaceiro – o profissional do Cangaço, póde ser levado a este meio extremo de vida por diversos motivos. Ora, é a explosão destruidora de latentes instictos de ferocidade sanguinaria, conduzindo ao primeiro assassinato, elo inicial de uma cadeia maldita que acrescerá continuamente até o fim da vida. Dessa forma, surge a escoria do cangaço, a mais perigosa e perversa camada da classe.
São os seus componente criminosos-natos, individuos degenerados a quem o momento sobrevindo, aproveitam gostosamente a ensancha de se encarreirarem no crime.
Um outro grupo, esquerdo e apagado, exercendo a contragosto a singular profissão com um fatalismo melancholico e resignado, é formado pelos criminosos ocasionais, de diferentes matizes, os que por uma circumstancia fortuita, inesperada, uma fatalidade, emfim, bruscamente incidiram nas disposições punitivas do Codigo; e, sem coragem para enfrentarem a perda de liberdade ou os azares do jury, abrigam-se á impunidade aleatoria do cangaço…
Uma outra divisão ainda; a dos revoltados: se os dois primeiros grupos proliferam com a responsabilidade directa do magistrado, por que os meio de acção de este dispõem nem sempre permittem reduzir á obediencia das leis os elementos recalcitantes: os revoltados constituem uma reacção directa da magistratura viciosa e indigna.
O revoltado é o homem a quem a Sociedade, pela boca expressiva de seu magistrado, negou Direito, faltou justiça. Indignado, elle tenta fazer justiça por suas mãos, justiça que não é justiça, por que esta só póde ser impessoal e equânime. Dado o primeiro passo, o revoltado segrega-se do contacto social, homisiando-se em alguma fazenda distante, sua ou de algum amigo. Se não o incommodam, elle recobrará mais tarde sua anterior personalidade. De alcateia, porém, durante algum tempo, elle, sendo perseguido reage, lucta. Aggrega companheiros – parentes e asseclas, mantem o pequeno grupo em pá de guerra, no cangaço emfim; o trabalho descurado, intermitente, quasi ineficaz, já não repara as brechas feitas nas pequenas economias. Os recursos se exgottam; surge então os expedientes de pedidos de dinheiro, verdadeiras extorsões que a pequena tropa nomade vae fazendo sertão em fóra. Mais tarde as depredações e tropelias. Ou então o grupo cae sob o patrocinio de um potentado, senhor de engenho, dono de grandes latifundios, az ou rei no baralho da politica local. Este dá aos protegidos, muitas vezes, uma occupação pacifica; outras vezes os utiliza nas suas pazzias[4], ou emprezas políticas e… financeiras. Porque atingiu em zonas do interior, v. g.[5] nos Cariris cearenses, á perfeição de uma verdadeira exploração industrial.
O potentado sertanejo é um remanescente do feudalismo medieval; negue, embora, Sylvio Romero a verdade é que o desenvolvimento da colonia recapitula, atravez de formas fustes e camufladas; a história da metropole, e assim não há que extranhar em reconhecer no grande proprietário matuto, o neto do barão feudal.
Com a preoccupação de ostentar força e prestigio, a vaidade dos chefes sertanejos leva-os a acolher e amparar esta escumalha do crime, garantindo-lhe a manutenção e a impunidade. E timbram em afrontar os balbuciantes reclames da justiça local.
Esta, desamparada do poder central, assombrado pelo prestigio politico do temido coronel, reduz-se, annulla-se, dobrando, subserviente, ao capricho dos poderosos.
Vê-se, portanto, que geralmente, de tres fontes recruta-se o exercito do cangaço: os criminosos por indole, degenerados e perversos; os assassinos occasionaes em que se incorporam os criminosos passionaes e, por ultimo, os revoltados, os que torturados pela fome e pela sêde de justiça arvoram contra a Sociedade – emulos de Miguel Kohlhaos, herói citado por Ihering[6] – bandeira sangrenta da rebellião.
Enquadrando o conjuncto, fornecendo ao meio de cultura de taes germens os elementos nutritivos substanceais. A figura bastarda de juiz pulsilaneme e desmoralizado, e a catadura bronca do despota sertanejo, chefe politico ou magnata da roça. Cabe, indiscutivelmente, á Policia Militar de todos os Estados interessados, e actuando combinadamente, como já esta se fazendo[7], a destruição de nucleos de bandidos que, exacerbados pela passagem das hordas de Prestes, e dellas tendo recebido admiraveis licções de uma tactica irreprehensivel, mostram agora uma audacia e mobilidade espantosas[8]. E tambem a esta policia impede a vigilancia manu miltari[9], sem condescendencias, e por um largo tempo ainda, de certas paragens mal afamadas que a experiencia historica assignalou como outros tantos locais habituaes de formação cangaceira.
Mas é a magistratura, que devidamente apparelhada, se antolha, principalmente, a grande e nobilitadora tarefa de sanear o Nordeste, esterilizando o ambiente social sertanejo, de maneira a tornar antecipadamente inviaveis, essas larvas monstruosas do Crime: os cangaceiros.
Pode a magistratura realizar este ambicionado desideratum[10]? Póde; dil-o com segurança, o Rio Grande do Norte.
Mesmo tendo sido escrito no dia 14 de junho de 1927 e publicado dois dias depois, não tenho como afirmar se o motivo de Tércio escrever este texto foi devido ao ataque de Lampião a Mossoró, ou outra razão. Encontrei uma referência sobre este artigo no livro “Lampião, senhor do sertão: vidas e mortes de um cangaceiro”, da francesa Elise Grunspan-Jasmin, na página 223 (EDUSP, 2006).
Considerado um dos maiores intelectuais mossoroenses, Tércio Rosado foi também professor em Mossoró, onde lecionou na Escola Normal e no Ginásio Diocesano Santa Luzia, onde seus cursos práticos de agricultura marcaram época. Já no Recife exerceu o magistério na Faculdade de Comércio, Escola Politécnica, Escola Normal Pinto Júnior, Ateneu Pernambucano, Faculdade de Farmácia da Universidade do Recife, Ginásio Pernambucano, Colégio Santa Margarida e Colégio Vera Cruz.
Tércio Rosado Maia faleceu em 8 de novembro de 1960, aos 68 anos de idade.
NOTAS
[1] Ver Diário de Pernambuco, edição de 27 de junho de 1926, página 10.
[2] Ver Diário de Pernambuco, edição de 10 de abril de 1927, 1ª página. O hidroavião português “Argos” havia realizado naquela época a primeira travessia noturna do Oceano Atlântico, era pilotado pelo militar Sarmento de Beires e havia amerissado no Rio Potengi, em Natal, poucos dias antes.
[3]Tout court – Expressão francesa que significa – sem mais nada, simplesmente, tal qual, sem nada a acrescentar. De um modo geral era comum nas primeiras décadas do século passado o uso de expressões em língua estrangeira, principalmente em francês, nos textos publicados pelos intelectuais brasileiros. Tal como acontece atualmente com o inglês.
[4]Pazzias – Em italiano, no plural, significa – loucuras, demências, insanidades.
[5]V.g. – Abreviatura da expressão em Latim verbi gratia, que significa – por exemplo.
[6] Quase certamente nesta parte deste texto houve um erro de transcrição do alemão para o português. Tércio Rosado Maia não comenta sobre uma pessoa, mas sobre um livro intitulado “Michael Kohlhaas” e escrito pelo dramaturgo, poeta e contista alemão Heinrich von Kleist (1777 – 1811). Neste livro Kleist conta a história do negociante de cavalos Michael Kohlhaas, que se engaja contra uma injustiça praticada contra ele. A história do livro se passa em meados do século XVI e a obra foi escrita em 1810, porém, apesar dos mais de 215 anos, é considerado um livro muito atual. As discussões que suscita vão desde os meios que são permitidos na busca da justiça até questões mais amplas como o ideal subjetivo versus a realidade mundana, a liberdade individual versus a opressão governamental, o povo versus o poder. Trata-se de uma história de impotência. Tanto o tema da busca fanática pela justiça quanto o estilo, espécie de crônica longa, são surpreendentemente modernos. Ver – http://www.sul21.com.br/jornal/a-necessidade-de-justica-e-a-solidao-de-michael-kohlhaas/
[7] Em 12 de dezembro de 1926, o advogado Estácio Coimbra assume o mais alto cargo no Poder Executivo de Pernambuco. Neste novo governo foi designado como Chefe de Polícia (cargo equivalente atualmente ao de Secretário de Segurança) o também advogado Eurico Souza Leão. Este era filho de tradicional família de plantadores de cana do litoral, morava no Rio de Janeiro, mas não recusou o pesado trabalho. Logo marcou uma reunião para promover convênios com os estados vizinhos, visando uma ação contra o cangaço, contando com o apoio do governador Coimbra. É sobre esta ação combinada entre os Estados que comenta no texto Tércio Rosado. Além desta ação conjunta, ocorreram nos primeiros meses de 1927 outras ações referentes a ação da segurança pública contra os cangaceiros no interior pernambucano que logo trouxeram resultados positivos. Quando completava seis meses a frente do cargo, no dia 11 de junho de 1927, através da imprensa pernambucana, Eurico Sousa Leão divulgou uma lista com o nome, alcunha e fatos ligados a captura ou morte de 100 cangaceiros de diversos bandos que infestavam o sertão.
[8] Acredito que se os cangaceiros receberam algumas das “admiraveis licções de uma tactica irreprehensivel” dos membros da famosa Coluna Prestes, só se foi à distância. Inexistem informações de contatos amistosos entre cangaceiros e membros da famosa coluna de revolucionários comandados por Luís Carlos Prestes, quando estes percorreram vários estados nordestinos em 1926. Neste mesmo, na cidade cearense de Juazeiro do Norte e com o beneplácito do Padre Cícero, Lampião recebeu a famosa e controversa patente de capitão. Junto com a deferência vieram muitas armas modernas, munições e fardamentos para o bando do famoso cangaceiro. O objetivo do Padre Cícero e de outras autoridades era de contar com o reforço dos cangaceiros no combate aos revolucionários de Prestes. Ao perceber o nível de comprometimento e preparo dos homens que compunham a coluna de revoltosos, de forma matreira Lampião evitou o confronto com os revolucionários e voltou à vida errante de cangaceiro, mas agora muito melhor armado e municiado. Este último fato é o que, apesar de toda repressão sofrida, tornou os cangaceiros de Lampião mais audaciosos na primeira metade de 1927.
[9]Manu militari é uma locução latina que significa, literalmente, “com mão militar”, ou seja, “com uso de força militar”. Usa-se a propósito de ações cumpridas mediante o uso da força das armas ou com emprego de força policial ou força armada.
[10]Desideratum – Palavra do Latim que significa aquilo que é objeto de desejo, aspiração, pretensão.
“Independência ou Morte!” Consagrado pela História, o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, quase não causou repercussão entre seus contemporâneos. Na imprensa do Rio de Janeiro, somente o número de 20 de setembro do jornal O Espelho exaltou “o grito acorde de todos os brasileiros”. Na prática, a Independência estava longe de chegar.
Três séculos depois do descobrimento, o Brasil não passava de cinco regiões distintas, que compartilhavam a mesma língua, a mesma religião e, sobretudo, a aversão ou o desprezo pelos naturais do reino, como definiu o historiador Capistrano de Abreu. Em 1808, os ventos começaram a mudar. A vinda da Corte e a presença inédita de um soberano em terras americanas motivaram novas esperanças entre a elite intelectual luso-brasileira. Àquela altura, ninguém vislumbrava a ideia de uma separação, mas esperava-se ao menos que a metrópole deixasse de ser tão centralizadora em suas políticas. Vã ilusão: o império instalado no Rio de Janeiro simplesmente copiou as principais estruturas administrativas de Portugal, o que contribuiu para reforçar o lugar central da metrópole, agora na América, não só em relação às demais capitanias do Brasil, mas até ao próprio território europeu.
D. Pedro I do Brasil, D. Pedro IV em Portugal (1782-1847), Pinacoteca do Estado de São Paulo
O auge do questionamento das práticas do Antigo Regime aconteceu em 24 de agosto de 1820, quando estourou a Revolução Liberal do Porto. Clamava-se por uma Constituição baseada nas liberdades e direitos do liberalismo nascente. A revolução teve importante eco no Brasil, por meio de uma espantosa quantidade de jornais e folhetos políticos. Durante todo o ano de 1821, porém, não surgiu nesses impressos qualquer proposta favorável à emancipação.
Até o início de 1822, ninguém falava de Brasil. Ao partir para as Cortes de Lisboa, para a discussão da Constituição do Reino, os deputados americanos pensavam apenas em suas “pátrias locais”, ou seja, em suas províncias. Só os paulistas demonstraram alguma preocupação em construir uma proposta para o conjunto da América portuguesa. Nem por isso abriam mão da integridade do Reino Unido: sugeriam o Brasil como sede da monarquia, ou então a alternância da residência do rei entre um lado e outro do Atlântico. “Independência” significava, antes de mais nada, autonomia.
Ao longo daquele ano, porém, o discurso se radicalizou. A insatisfação com a metrópole crescia, pois das Cortes vinham propostas para retomar algumas das antigas restrições políticas e econômicas que tinham limitado a autonomia do Brasil no passado. Junto com o projeto constitucionalista surgia a ideia separatista, embora ainda não direcionada a toda a América portuguesa.
Aclamação de D. Pedro I no Campo de Santana, Rio. Quadro de Jean Baptiste Debret
Considerada na época como a data que oficializou a separação do Brasil de sua antiga metrópole, a aclamação de Pedro I como imperador, em 12 de outubro de 1822, não significou a unidade política do novo Império. A proposta foi aceita pelas Câmaras Municipais de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Pernambuco titubeou durante algum tempo. Por causa das dificuldades de comunicação, Goiás e Mato Grosso só prestaram juramento de fidelidade ao Império em janeiro de 1823. Enquanto isso, Pará, Maranhão, Piauí e Ceará, além de parte da Bahia e da província Cisplatina, permaneceram leais a Portugal, refratárias ao governo do Rio de Janeiro. Foram tempos de guerra.
No início de 1823, enquanto várias províncias já escolhiam seus deputados para a Assembleia Legislativa e Constituinte do Rio de Janeiro, o Maranhão elegia deputados para as Cortes ordinárias de Portugal.
Enfim, apesar dos horrores da guerra e das tensões que não desapareceram, esboçou-se pela força a unidade territorial do Brasil. Mas o rompimento total e definitivo mantinha-se sub judice. Afinal, o imperador era português e sucessor do trono dos Bragança. Capaz, portanto, de reunir novamente, após a morte do pai, os dois territórios que o Atlântico separava.
Somente em 1825, depois de demoradas negociações, D. João VI reconheceu a Independência, em troca de indenizações. Mesmo assim, o gesto veio sob a forma de concessão, transferindo a soberania do reino português, que ele detinha, para o reino do Brasil, sob a autoridade de seu filho. E D. João foi além: reservou para si o título de imperador do novo país, registrado nos documentos que assinou até sua morte, em 1826.
Os laços de sangue faziam da Independência um processo ambíguo e parcial. Foi preciso esperar outra data, a da abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, para que se rompesse definitivamente qualquer vínculo do Brasil com Portugal. Assumia o poder um soberano-menino, também ele um Bragança, mas nascido e criado no Brasil. No linguajar dos exaltados do período regencial, acabava-se “a farsa da independência Ipiranga”.
Lucia Bastos Pereira das Neves é professora titular de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora de Corcundas e constitucionais: a cultura política da Independência (1808-1822) (Revan, 2003).
Às vésperas da Independência do Brasil, dom Pedro I enviou de São Paulo uma carta ao seu amigo e ministro José Bonifácio. No final, cravou um pedido misterioso: “Recomende-me aos senhores nossos II e CC (…)”.
Essa simples frase, cheia de pontos em formatos estranhos, revela o contato estreito do então príncipe regente, a pouco tempo de virar o primeiro governante do Brasil independente, com duas sociedades secretas operantes durante o processo histórico que culminou no 7 de Setembro. Os três pontos, cada um no que seria um vértice de uma pirâmide, antecedidos por duas letras “i”, são ainda hoje utilizados por membros da Maçonaria e significam “irmãos”. Se essa primeira sociedade permanece conhecida no mundo inteiro, a seguinte, que se revela nas duas letras “c” seguidas por quatro pontos em forma de cruz, que significavam “camaradas”, foi uma ordem secreta 100% brasileira que teve vida efêmera. Tratava-se do “Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz”, ou, simplesmente, Apostolado.
A Maçonaria e o Apostolado na independência
Dom Pedro foi iniciado na Maçonaria em 2 de agosto de 1822, adotando o nome de Guatimozin, o último imperador asteca que tentou resistir aos invasores espanhóis. Nesse período, a partir de 1821, com a campanha de emancipação política do Brasil, as lojas existentes começaram a ter um papel político mais vigoroso, embora já existissem registros de atividades maçônicas no Brasil desde o século 18. Em 1822, durante o processo da Independência, foi criado o Grande Oriente do Brasil, ou Brasiliano, conforme ata de 17 de junho, com o qual a Maçonaria brasileira libertou-se e tornou-se independente do Grande Oriente Lusitano.
Inspirado pelos ventos da Revolução Francesa, da independência da América do Norte e das Guerras Napoleônicas, que varreram por algum tempo da Europa o absolutismo, a Maçonaria brasileira tentava atrair o então príncipe regente. Se alguns elementos maçônicos sonhavam com a implantação da República no Brasil, a maioria achava que a independência definitiva de Portugal se daria de maneira menos traumática se contasse com a simpatia de dom Pedro, por isso buscou envolvê-lo na causa.
Apenas com a intenção de ilustrar ainda mais o texto e trazer mais informações aos nossos leitores sobre como a maçonaria era perseguida no passado, vejam este texto do jornal natalense “A República”, de 20 de junho de 1940.
Foram os maçons, capitaneados por Joaquim Gonçalves Ledo e José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara do Rio de Janeiro, que se movimentaram para dissuadir dom Pedro de cumprir as ordens das Cortes Portuguesas, que solicitaram o retorno dele à Europa em 1821. Inclinado a respeitar as diretrizes das Cortes, o príncipe regente foi convencido pelo movimento de Ledo e Pereira, que conseguiram a adesão de representantes de Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Bahia ao pedido para que não deixasse o Brasil, levando ao Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822. Em 13 de maio, a Maçonaria concedeu a dom Pedro o título de “Protetor e Defensor Perpétuo do Reino Unido do Brasil”, o qual o príncipe declinou parcialmente, aceitando apenas o de “Defensor Perpétuo”.
O Apostolado da Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz foi fundado por José Bonifácio em 1822, com o objetivo de defender a integridade do Brasil e lutar por sua independência. Porém o propósito primordial era combater o grupo de Gonçalves Ledo, que, se a princípio havia aceitado a monarquia constitucional como caminho rápido para a separação, acalentava o sonho republicano.
Tanto a Maçonaria como o Apostolado acabaram sendo, cada um a seu tempo, fechados por ordem de dom Pedro. Mas a influência das duas sociedades secretas no processo político da Independência é inegável. Das reuniões do Apostolado entre janeiro e março de 1823, como mostram as atas reunidas no Acervo Histórico do Museu Imperial, em Petrópolis, há debates de artigos que seriam apresentados ao projeto da Constituição do Império em setembro pelo deputado Antônio Carlos, irmão de Bonifácio.
O escritor Luiz Gonzaga da Rocha, presidente do Tribunal Distrital de Justiça do Grande Oriente do Distrito Federal e autor de A Bucha e Outras Reminiscências Maçônicas, afirma que as sociedades secretas perderam poder. “A Maçonaria exerce pouca ou quase nenhuma influência na sociedade brasileira”, diz. Segundo Rocha, isso ocorre devido ao baixo índice de inserção social e ao fato de a sociedade estar afastada do cenário político-econômico-social e das discussões das questões de interesse nacional.
A ação da Bucha
“É a polícia, ninguém se mexa!”, disse, triunfante, o subdelegado Armando Pamplona para um bando encapuzado. Eram os anos finais da Primeira Guerra, e Pamplona buscava espiões alemães. Certa noite, passando a altas horas pelo antigo prédio do Liceu de Artes e Ofícios em São Paulo, notou uma estranha movimentação. Diversos senhores com ar misterioso tomavam carros de luxo estacionados nas redondezas do edifício. Decidido, o subdelegado resolveu montar uma campana para descobrir do que se tratava.
A persistência deu resultado. Certa noite, por volta das 9 horas, vultos suspeitos se esgueiravam para dentro do edifício. Já passava das 10 horas quando o movimento terminou. O subdelegado chamou seus homens e invadiu o local. Pamplona deve ter achado esquisito aqueles homens trajando mantos e faixas bordadas. Uns traziam no peito uma âncora verde, símbolo da esperança, outros um coração vermelho, lembrando a caridade, alguns, a cruz azul da fé.
O subdelegado estava radiante com a perspectiva de ter “explodido” um ninho de perigosos espiões. Mas qual não foi sua surpresa quando os membros da assembleia, perplexos diante daquela invasão, começaram a tirar os capuzes. Armando reparou que os rostos eram familiares: ele conhecia pessoalmente alguns daqueles senhores, outros de vista, outros por fotos em jornais. Estavam no salão o governador do estado, Altino Arantes, diversos políticos paulistas, mineiros, cariocas e gaúchos, além de inúmeros professores das Faculdades de Direito, de Medicina e Politécnica, assim como o secretário de Segurança Pública, Elói Chaves, chefe de Pamplona. Invertendo a ação, Chaves deu ordem de prisão ao subdelegado e a seus homens.
Naquela mesma noite os policiais invasores foram juramentados e ameaçados severamente pelas altas personalidades ali reunidas. Assim terminou a grande noite do subdelegado Pamplona; em vez de uma batida e a prisão de espiões, a fama e a glória estampadas nos jornais matutinos, ele acabou se tornando, à força, membro juramentado da Bucha, a sociedade secreta que, para muitos, por quase cem anos ajudou a governar os destinos do Brasil.
Em 11 de agosto de 1827, o imperador dom Pedro I assinou a lei que criava os cursos jurídicos no Brasil. Ela previa a instalação de duas faculdades, uma em Recife e outra em São Paulo. A paulista foi a primeira a entrar em funcionamento. Instalada em parte do antigo Convento de São Francisco, as arcadas do velho claustro se tornaram sinônimo da recém-instalada academia. A lei de 11 de agosto também institucionalizou os Cursos Anexos, espécie de preparatório que capacitava os jovens a prestarem os exames de admissão à faculdade.
31 de maio de 1913: Certificado da Alta Ordem dos Maçons Livres, do Grau 33, do Rito Escocês. (Photo by Hulton Archive/Getty Images)
Júlio Frank
Nos Cursos Anexos, houve, entre tantos outros, dois importantes mestres estrangeiros de índole liberal: o professor de aritmética, o italiano Líbero Badaró, assassinado por suas ideias em 1830, e o alemão Johann Julius Gottfried Ludwig Frank, ou Júlio Frank, como era conhecido no Brasil. Frank, nascido em 1808, havia estudado na Universidade de Göttingen, mas não chegou a se formar. Teve que sair da cidade por causa de dívidas contraídas e veio parar no Brasil. Tentou se estabelecer no Rio de Janeiro, depois no interior de São Paulo, e por fim na capital.
Frank morreu de pneumonia em 1841 e, como não era católico, seu corpo teria de ser sepultado no Cemitério dos Aflitos, local que recolhia indigentes, criminosos mortos na forca e escravos. Um ultraje para o venerado mestre. Os estudantes, em revolta, resolveram enterrar seu professor na própria escola. Seu túmulo, em um dos pátios, é venerado pela tradição acadêmica da faculdade até hoje.
Inspirado nasBurschenschaften, ou Confrarias de Camaradas, instituições acadêmicas alemãs, Frank teria tido, durante uma reunião com o estudante Vicente Pires da Mota e o secretário de Governo da província de São Paulo, Pimenta Bueno, a ideia de criar uma associação similar na Academia de Direito. Segundo o escritor Luiz Gonzaga da Rocha, “a Bucha tinha por objetivo a filantropia e, ainda, ressaltar a função social do advogado no seio da sociedade paulistana e brasileira, por extensão”.
Controle
Os integrantes da Bucha, Bucha Paulista, ou B. P., como passaria a ser chamada aBurschenschaft da Academia de Direito de São Paulo, eram escolhidos pela sua inteligência e lisura de caráter. Na faculdade, a ordem era composta de Catecúmenos, Crentes e Doze Apóstolos; fora, por Chefes Supremos e Conselho dos Divinos. A estrutura da sociedade, com o passar dos anos, transcendeu os velhos muros da academia e passou a permear a política nacional, envolvendo a estrutura burocrática do Estado.
Os antigos alunos da São Francisco que pertenciam à Bucha e ocupavam posições nas diversas esferas do poder nacional acabaram favorecendo outros membros da organização na distribuição de cargos governamentais. O historiador Luis Fernando Messeder dos Santos, autor da dissertação de mestrado A Burschenschaft e a Formação da Classe Dirigente Brasileira na República Velha, afirma a respeito: “Percebe-se o fortalecimento da atuação da organização na década de 1870, quando alguns dos que iriam ocupar a ‘suprema magistratura’ do país durante a Primeira República estudaram na mesma turma”.
Durante o Império, entre os “bucheiros”, havia políticos, artistas e intelectuais destacados, como Castro Alves, Álvares de Azevedo, o Barão do Rio Branco, o Visconde de Ouro Preto, entre outros. Após a queda do Império, em 1889, foi instituída uma comissão, apelidada de Comissão dos Cinco, encarregada do anteprojeto da Constituição Republicana. Dos cinco membros da comissão, três eram conhecidos bucheiros: Saldanha Marinho, Américo Brasiliense e Santos Werneck.
Embora os ideais liberais levados para as Arcadas por Líbero Badaró e Júlio Frank tenham servido de norte para a criação da Bucha, inspirando seus membros a lutarem pelo abolicionismo e pela República, à medida que os ardores juvenis arrefeciam e seus integrantes passavam a pertencer ao establishment, alguns transformaram-se em conservadores, defendendo a monarquia e a escravidão.
Na República Velha, acredita-se, não havia ministro, juiz ou mesmo candidato à presidência da República que tomasse posse, ou fosse indicado, sem prévia deliberação do Conselho dos Divinos. A filantropia inicial, a ideia de ajuda mútua, acabou se corrompendo e desaguou no franco favorecimento para obtenção de cargos públicos. Segundo o professor Miguel Reale, em suas memórias: “Como toda sociedade secreta, [a Bucha] logo se degenerou em cadeia de privilégios, que começava na faculdade pela seleção dos catedráticos e terminava nos acordos ‘café com leite’ entre ex-alunos de São Paulo e Minas Gerais, sob a batuta do Senador [do Rio Grande do Sul] Pinheiro Machado, também diplomado pelas Arcadas, e que, sutilmente, preferia ser a eminência parda dos eventos republicanos”.
Conchavos
Nos primeiros 40 anos da República, do governo dos militares Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto à política do café com leite, bacharéis formados por uma das duas academias de Direito e membros da Bucha destacaram-se como ministros ou chefes do Executivo. Dos 14 presidentes eleitos da República Velha, oito eram da sociedade: Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Venceslau Brás, Artur Bernardes, Washington Luís e Júlio Prestes, que não chegou a ser empossado por causa da Revolução de 1930.
Quando a Bucha foi fundada, no início da década de 1830, também surgiu outra instituição, a Sociedade Filantrópica, que prestava ajuda a presos e órfãos. Desde então, a sociedade secreta da Faculdade de Direito sempre esteve ligada a um “braço” público. Na década de 1910, um deles, a Liga Nacionalista, aglutinou em sua direção membros da Faculdade de Medicina e da Escola Politécnica. Estas possuíam também suas próprias organizações estudantis: a Jungenschaft (União da Mocidade), na Medicina, fundada em 1913, e a Landmannschaft (sociedade das pessoas de um mesmo campo), na Politécnica, de 1895. O intercâmbio de alunos de Direito entre São Paulo e Recife acabou por ocasionar a criação de um braço da Bucha em Pernambuco, a sociedade Tugendbund (União e Virtude).
Com a Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha, chegou ao poder Getúlio Vargas. Data daí o declínio da Bucha. Adhemar de Barros, interventor do estado de São Paulo, teria colocado as mãos em uma lista parcial de membros da Bucha no final dos anos 30 e se apressou a apresentála a Getúlio. Segundo o político Carlos Lacerda, o presidente leu atentamente a lista e a devolveu para Adhemar, dizendo: “Não se pode governar o Brasil sem essa gente, o senhor que entre para aBurschenschaft”.
“Forças ocultas”
Em 1931, quase cem anos após a criação da Bucha, foi fundada a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo pelo diplomata José Carlos de Macedo Soares. Segundo Afonso Arinos de Melo e Franco, Macedo Soares teria sido o último chefe daquela sociedade secreta, e a associação seria a sucessora final da Bucha.
Mas, e nos dias de hoje, a Bucha ainda existe? Segundo o historiador Pedro Brasil Bandecchi, em 1961, “Jânio Quadros teria se referido à Bucha quando falou de forças ocultas para justificar sua renúncia”. O atual presidente da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP, José Carlos Madia de Souza, afirma que, em 13 anos como presidente da entidade, jamais teve conhecimento da continuidade da existência ou da atuação da Bucha.
Já o jornalista e escritor Fernando Jorge, ex-aluno da São Francisco e antigo vice-presidente da Academia de Letras da faculdade, na década de 1950, é de opinião contrária: “Na minha época achava curioso o costume de alunos mais velhos se encontrarem ao redor do túmulo do Júlio Frank. Alguns diziam que era ritual da Bucha. Anos mais tarde, na década de 80, Bandecchi, numa conversa comigo e com o historiador Leonardo Arroyo, afirmou categoricamente que a Bucha ainda existia”.
Em 2006, a comunidade da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo foi surpreendida com cartazes nos corredores de suas unidades. Nele, uma certa sociedade E.S.P.A.R.T.A. anunciava a comemoração de seus 50 anos de existência.
A E.S.P.A.R.T.A., segundo rumores, seria um ramo da Burschenschaft e teria surgido em 1956. Diferentemente dos famosos guerreiros que morreram na Batalha das Termópilas defendendo sua terra da invasão persa, essa sociedade secreta era composta de menos que 300 membros. Por ano, supostamente seriam recrutados 20 alunos. Metade deles, indicados por membros antigos e que ficariam “em observação” por um ano. Cinco vagas seriam reservadas para pessoas que solicitassem sua entrada na sociedade. As demais era reservadas para filhos de antigos membros.
Nascida na Guerra Fria, o período histórico de 1945 a 1991 marcado por disputas estratégicas e conflitos indiretos entre Estados Unidos e a extinta União Soviética, a E.S.P.A.R.T.A. – sempre supostamente – contaria com um projeto de poder denominado Jano, nome do deus romano representado por duas ou mais faces, cada qual olhando para uma direção. Preparando-se para dois cenários mundiais distintos, um com o socialismo como vencedor e outro com o capitalismo, a sociedade teria formado duas elites para que seus interesses sobrevivessem em qualquer cenário.
Entre seus membros, estariam proeminentes figuras acadêmicas, como Perseu Abramo, Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso, os dois primeiros fundadores do PT, e o último, do PSDB. Juntos, esses partidos têm se mantido há 20 anos no poder. Seus políticos, em alguns momentos, uniram-se a uma causa comum, como quando o então líder sindical Lula apoiou a campanha política de FHC para o Senado, em 1978, chegando, até, a representá-lo em alguns comícios.
SAIBA MAIS
Livros
A Bucha e Outras Reminiscências Maçônicas. Londrina, Luiz Gonzaga da Rocha, A Trolha, 1999
A Sombra de Júlio Frank. Afonso Schmidt, Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP, 2008
Aos 18 anos, Maria Gomes conheceu Lampião, um caboclo alto, corcunda, manco e caolho. Curiosamente, o apelido pelo qual ficou conhecida não surgiu no Sertão, mas no meio urbano do Rio de Janeiro, em 1937, inventado por jornalistas.
Autor – Felipe Torres
PUBLICADO EM – http://lounge.obviousmag.org/sarcasmo_e_sonho/2014/08/a-verdade-por-tras-de-maria-bonita.html
Ano de 1929, município de Jeremoabo, Sertão da Bahia. Lampião era um caboclo alto, um tanto corcunda, cego do olho direito, óculos ao estilo professor, manco de um pé (baleado três anos antes), com moedas de ouro costuradas na roupa. Exalava mistura forte de perfume francês com suor acumulado de muitos dias. O cangaceiro podia até não preencher os requisitos de um bom partido, mas foi com esses atributos que conquistou a futura mulher, filha de casal com uma dezena de filhos.
Maria Gomes Oliveira tinha 18 anos quando subiu na garupa do cavalo de Virgulino Ferreira da Silva. Corpo bem feito, olhos e cabelos castanhos, um metro e cinquenta e seis de altura, testa vertical, nariz afilado. Era bonita, habilidosa na costura (assim como era Lampião) e adorava dançar. Foi o suficiente para Virgulino quebrar a tradição do cangaço e permitir o ingresso de uma mulher nos bandos, o que abriu precedente para várias outras.
Curiosamente, ela nunca foi conhecida como “Maria Bonita”. Segundo o historiador Frederico Pernambucano de Mello, o “nome de guerra” não surgiu no Sertão, mas no meio urbano do Rio de Janeiro, em 1937, por meio do uma “conspiração” de jornalistas. A partir dali, tomou conta do Brasil.
Até então, a mulher de Lampião era chamada de Rainha do Cangaço, Maria de Dona Déa, Maria de Déa de Zé Felipe ou Maria do Capitão. O nome definitivo surgiu inspirado em um romance de 1914, Maria Bonita, de Júlio Afrânio Peixoto, adaptado para o cinema 23 anos depois. Vários repórteres chegaram ao consenso para padronizar a informação disseminada pelos jornais impressos.
Nos três primeiros anos, de 1929 a 1932, as mulheres do cangaço ficavam reclusas no Raso da Catarina, refúgio no nordeste da Bahia. Quando, enfim, foram autorizadas a acompanhar os bandos de cangaceiros, passaram a conviver com a elite sertaneja, esposas e filhas de coronéis poderosos.
“Disso resulta o aprimoramento da estética presente em trajes e equipamentos, além do aburguesamento de maneiras. A máquina de costura, o gramofone, a lanterna elétrica portátil – e logo, a filmadora alemã e a câmera fotográfica, pelas mãos do libanês Benjamin Abrahão – chegam ao centro da caatinga, amenizando os esconderijos mais seguros, levados pelos coiteiros”, destaca Frederico Pernambucano de Mello.
O Pastoril integra o ciclo das festas natalinas do Nordeste, particularmente, em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas. É um dos quatro principais espetáculos populares nordestinos, sendo os outros o Bumba-meu-boi, Mamulengo e Fandango.
De tais espetáculos, participa o povo ativamente, com suas estimulantes interferências não se comportando apenas como passivo espectador, a exemplo do que acontece com os espetáculos eruditos. Muitas destas interferências, servindo de deixa para inteligentes e engraçadas improvisações, imprimindo ao espetáculo formas diferentes e inesperadas de movimento e animação.
A comunicação entre palco – geralmente um coreto – e platéia – esta, quase sempre ocupando grandes espaços abertos – entre personagens e espectadores, não se faz somente sob influência que a peça, por seu enredo e por sua interpretação, possa exercer sobre a assistência. Nem simplesmente – aqui admitindo teatro erudito bem educado – através dos aplausos convencionais, quase sempre sob forma de palmas. Palmas que às vezes revelam apenas educação ou incentivo.
No Pastoril, os espectadores, representados pelo povo, a comunicação com os personagens faz-se franca e informalmente, não só com palmas, mas com vaias e assobios, com dedos rasgando as bocas, piadas e ditos, apelidos e descomposturas.
Tudo isto enriquece o espetáculo de novos elementos de atração, dando-lhes nova motivação, reativando-o, recriando-o pela substituição de elementos socialmente menos válidos, por outros mais atuantes e mais condizentes com o gosto e os interesses momentâneos da comunidade para a qual ele exibe. Deste modo, revitaliza-se o espetáculo, permanecendo sempre dinâmico e atualizado, alimentando no espírito do povo e no dos próprios personagens um conteúdo emocional que tem no imprevisto e no suspense sua principal tônica.
Nos começos, o auto natalino, que deve ter surgido na terceira década do século XIII, em Grecio, sua primeira apresentação teatral não passava do drama hierático do nascimento de Jesus, com bailados e cantos especiais, evocando a cena da Natividade.
Com o correr do tempo, os autos baseados na temática natalina se separam em duas direções: uns, seguindo a linha hierática, receberam o nome de Presépios ou Lapinha, outros, de Pastoris.
Em Pernambuco, o primeiro Presépio surgiu nos fins do século XVI, em cerimônia realizada, no Convento de São Francisco, em Olinda.Com as pastorinhas cantando loas, tomou o Presépio não só forma animada, mas dramática, ao lado da pura representação estática de gente e de bichos.
A dramatização do tema, agindo em função didática, permitiu fácil compreensão do episódio na Natividade. A cena para da, evocativa do nascimento de Jesus, movimenta-se, ganha vida, sai do seu mutismo, com a incorporação de recursos, não apenas visuais, também sonoros.
Pastoril Dona Joaquina – Foto de Isaias Carlos
O Presépio, representado em conventos, igrejas ou casas de família, reunia mocinhas e meninas, cantando canções que lembram o nascimento de Cristo. As canções, obedecendo a uma seqüência de atos que se chamam jornadas, são entoadas com o maior respeito e ar piedoso pelas meninas e jovens de pastorinhas.
O Pastoril, embora não deixasse de evocar a Natividade, caracteriza-se pelo ar profano. Por certa licenciosidade e até pelo exagero pornográfico, como aconteceu nos Pastoris antigos do Recife.
As pastoras, na forma profana do auto natalino, eram geralmente mulheres de reputação duvidosa, sendo mesmo conhecidas prostitutas, usando roupas escandalosas para a época, caracterizadas pelos decotes arrojados, pondo à mostra os seios, e os vestidos curtíssimos, muito acima dos joelhos.
Do Pastoril faz parte uma figura curiosa: O Velho. Cabia ao Velho, com suas largas calças, seus paletós alambasados, seus folgadíssimos colarinhos, seus ditos, suas piadas, suas anedotas, suas canções obsenas, animar o espetáculo, mexendo com as pastoras, que formavam dois grupos, chamados de cordões: o cordão encarnado e o cordão azul. Também tirava o Velho pilhérias com os espectadores, inclusive, recebendo dinheiro para dar os famosos “bailes”, – descomposturas – em pessoas indicadas como alvo. “Bailes”, que, muitas vezes, terminavam, terminavam, nos pastoris antigos dos arrabaldes do Recife, em charivari, ao qual não faltava a presença de punhais e pistolas.
O Velho também se encarregava de comandar os “leilões”, ofertando rosas e cravos, que recebiam lances cada vez maiores, em benefícios das pastoras, que tinham seus afeiçoados e torcedores. Nos Presépios atuais, como nos Pastoris, encontram-se ainda os dois cordões. O Encarnado, no qual figuram a Mestra, a 1ª do Encarnado e a 2ª do Encarnado, e o Azul, com a Contra-Mestra, a 1ª do Azul e a 2ª do Azul.
Entre os dois cordões, como elemento neutro, moderando a exaltação dos torcedores e simpatizantes, baila a Diana, com seu vestido metade encarnado, metade azul.
Foram famosos no Recife, até começos da década de 30, os pastoris do Velho Bahu, que funcionava aos sábados, ora na Torre, ora na ilha do Leite, também, os dos velhos Catotas, Canela-de-Aço e Herotides.
Hoje, os pastoris desapareceram do Recife. Só nos arrabaldes mais distantes ou em algumas cidades do interior, eles são vistos. Mesmo assim, sem as características que marcavam os velhos pastoris do Recife, não deixando, no entanto, de cantar as jornadas do começo e do fim: a do Boa Noite e da despedida. O que vemos hoje são presépios ou lapinhas. Presépio tradicional do Recife, exibindo-se em grande sítio do Zumbi, era dos irmãos Valença, infelizmente há vários anos sem funcionar.
Mestre Salustiano, arte na rabeca – Fonte – catracalivre.com.br
Manoel Salustiano Soares, conhecido como Mestre Salustiano ou Mestre Salu nasceu na cidade de Aliança, região da Zona da Mata Norte de Pernambuco, no dia 12 de novembro de 1945.
Seu pai, João Salustiano, era um tocador de rabeca e foi quem o ensinou a fazer e a usar o instrumento. Mestre Salu usa praíba, imburana, pinho, mulungu e cardeiro para fazer suas rabecas, pois segundo ele são as melhores madeiras para produzir o som. Durante a infância participou de brincadeiras e folguedos populares existentes nos engenhos de Aliança. Sua grande paixão é o cavalo marinho, que apesar de utilizar alguns personagens, músicas e coreografias comuns ao bumba-meu-boi, tem características próprias.
Foi um dos maiores dançadores de cavalo-marinho da sua região, interpretando diversos personagens: arlequim, dama, galante, contador de toada, Mateus (durante nove anos), recebendo por isso o título de mestre. É considerado um dos grandes nomes do maracatu em Pernambuco, uma das maiores autoridades em cultura popular no Estado e o precursor ou “patrono espiritual” do manguebeat.
Fundou o Maracatu Piaba de Ouro, em 1997, tendo participado com o grupo do festival de Cultura Caribeña, em Cuba. Foi o comandante do cavalo-marinho Boi Matuto, que criou em 1968, e do Mamulengo Alegre.
Mestre Salustiano também foi um artesão. Além das rabecas, era ele quem confecciona os bichos do bumba-meu-boi, cavalo, boi, burra; as máscaras do cavalo-marinho, feitas de couro de bode ou de boi e os mamulengos de mulungu.
Foi um dos grandes responsáveis pela preservação, principalmente no seu estado, da ciranda, do pastoril, do coco, do maracatu, do caboclinho, do mamulengo, do forró, do improviso da viola e de outros folguedos populares do folclore nordestino.
Em 21 de abril de 2002, realizando um sonho do mestre Salustiano, foi fundada a Casa da Rabeca do Brasil na cidade Tabajara, em Olinda, um espaço dedicado à preservação da cultura e tradição. No início, era apenas uma tenda coberta de palhas de coqueiros, coincidentemente a árvore símbolo de Olinda. Funcionava aos domingos e recebia familiares, sanfoneiros, rabequeiros, zabumbeiros, pandeiristas, triangueiros, emboladores de coco, mestres de maracatu, cavalo marinho, cirandeiros e os amigos da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Hoje, o espaço é um reduto de artistas populares, com apresentações de forró de rabeca, encontros de cavalo marinho e maracatus, entre outras manifestações do povo.
Carnaval Olinda 2015 Encontro de Maracatus na Casa da Rabeca. Foto Jan Ribeiro Prefeitura de Olinda
O espaço possui um grande terreiro para as diversas apresentações, bar, salão de danças e uma loja, onde são comercializados produtos de confecção própria, como rabecas, alfaias, pandeiro, mamulengos, além de peças do artesanato de barro de Caruaru.
Na época do carnaval, a Casa recebe caboclinhos, bois, burras, troças, ursos, além do seu maracatu Piaba de Ouro. No Natal, é palco para pastoril, ciranda, cavalo-marinho, entre os quais o Boi Matuto, com a participação de 76 figurantes e 18 pessoas brincando.
Mestre Salustiano foi agraciado com o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1965, e percorreu com a sua arte a maioria dos estados brasileiros e países como a Bolívia, Cuba, França e Estados Unidos.
Recebeu ainda, em 1990, o título de “reconhecido saber” concedido pelo Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco e o de comendador da Ordem do Mérito Cultural, em 2001, pelo então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.
Mistura de músico, produtor, artesão e professor, Mestre Salu realizou turnês nacionais e internacionais, tocando sua rabeca e mostrando sua peculiar fusão de ritmos do folclore nordestino.
Mestre Salustiano faleceu aos 62 anos, na cidade do Recife, no dia 31 de agosto de 2008.
FONTES CONSULTADAS:
AMORIM Maria Alice. Salu, um mestre de folguedos. Continente Documento, Recife, ano 4, n.43, p.39-43, mar. 2006.
ASSUMPÇÃO, Michelle. Símbolo da cultura popular, ás da rabeca. Diário de Pernambuco, Recife, 31 jan. 2006. Caderno Especial.
Eles se distribuíram por mais de 100 países e ainda assim conseguiram manter vivos seus valores e tradições
Texto Eduardo Szklarz | Ilustrações Marcos Rufino
Os judeus são o único povo que nasceu com o dever divino de habitar uma região do planeta: Canaã (Israel). No entanto, ao longo de seus 4 mil anos de história, eles se tornaram a nação mais cosmopolita do mundo. As comunidades judaicas hoje se espalham em mais de 100 países – do México à Inglaterra, do Cazaquistão à África do Sul, de Cuba ao Japão. Com exceção de Israel, os judeus têm vivido como minorias em todos esses lugares.
“A história judaica é marcada por sucessivas dispersões e diásporas dentro de diásporas”, diz Luis S. Krausz, professor de Literatura Hebraica e Judaica na Universidade de São Paulo (USP). “Essa história começa com a destruição do Templo de Salomão pelo rei Nabucodonosor, no século 6 a.C., quando os judeus foram levados ao cativeiro na Babilônia. E continua até o século 20, com a dispersão e o genocídio dos judeus da Europa.”
Tantas travessias produziram uma diversidade de grupos judaicos que cristalizaram costumes, idiomas e culinárias dos lugares onde viveram. E também contribuíram para enriquecer as culturas locais. Nesta reportagem, vamos viajar pelos momentos mais importantes da saga judaica através das fronteiras.
Babilônia e Império Romano
Os judeus botaram o pé no mundo em 587 a.C., quando o rei babilônio Nabucodonosor invadiu o antigo reino de Judá (ao sul de Israel). O monarca arrasou Jerusalém e mandou parte de seus habitantes para a Babilônia, na Mesopotâmia (hoje Iraque). Mas o que havia sido um degredo imposto à força contribuiu para o florescimento do judaísmo. “Foi durante o exílio que se impôs pela primeira vez a todos os judeus a prática regular de sua religião”, diz o historiador britânico Paul Johnson no livro História dos Judeus.
Representação do exílio judaico na Babilônia.
“Também foi reforçado o ritual da circuncisão, que os distinguia dos pagãos, e o costume do shabat (dia do descanso)”, diz Johnson. Os escribas redigiram as tradições orais e compilaram os pergaminhos vindos do templo destruído. O calendário judaico se aprimorou com a astronomia babilônica e incluiu festas como o Pessach (Páscoa), que recorda a saída dos hebreus da escravidão no Egito. Apenas 50 anos depois, em 538 a.C., o rei persa Ciro permitiu a volta dos judeus a Jerusalém e a reconstrução do templo. “Muitos preferiram ficar na Babilônia, que permaneceu como um centro da cultura judaica por 1,5 mil anos”, diz Johnson. Em 63 a.C., uma nova reviravolta. O general Pompeu invadiu a Judeia e a transformou em província do Império Romano. Terminava assim o reino dos Hasmoneus – o último país judeu independente que existiu até a criação do Israel moderno, em 1948.
Representação existente no Arco de Tito, em Roma, onde vemos o triunfo romano na comemoração do saque de Jerusalém. -Fonte – wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7d/Arch_of_Titus_Menorah.png
A tensão culminou com uma rebelião. Em 70, o general romano Tito reprimiu os revoltosos, destruiu o segundo templo e mandou os judeus a uma nova diáspora, que alcançou a Ásia, a Europa e o norte da África. Mas ao contrário dos anos na Babilônia, o exílio nos domínios romanos marcou o início das perseguições. “Os romanos não toleravam o culto judaico a um Deus único nem costumes como o shabat”, diz o historiador francês Gerald Messadié no livro História Geral do Antissemitismo. A situação piorou com a conversão do imperador Constantino ao cristianismo, no século 4. Em 325, o Concílio de Niceia acusou os judeus pela morte de Jesus, o que serviu de base para o mito medieval de que tinham poderes sobrenaturais e eram aliados do diabo. Nas terras da cristandade, os judeus foram proibidos de exercer funções públicas, ter empregados e se casar com não judeus. Qualquer semelhança com as Leis de Nuremberg, promulgadas em 1935 pelo nazismo, não é coincidência.
Os sefaradim
No século 9, a comunidade judaica da Babilônia começou a declinar e muitos rumaram para outros cantos do globo. Parte foi para o norte da África, à região que hoje corresponde a Argélia, Marrocos, Sahara Ocidental e Mauritânia. Lá se assentaram nos domínios de duas tribos muçulmanas: os berberes, que eram exímios guerreiros; e os mouros, mais tolerantes, que se dedicavam ao comércio, ao artesanato e à ciência.
Como os exércitos mouros estavam em franca expansão pela Espanha, os judeus pegaram carona com eles – e ficaram conhecidos como sefaradim (de Sefarad, “Espanha” em hebraico). Produziram uma língua própria, o ladino, impregnando de vocábulos hebraicos o espanhol medieval. A união entre mouros, judeus e ciganos daria origem ao flamenco, que até hoje é tocado e bailado como um hino à liberdade.
Nos demais países muçulmanos, os judeus viviam como cidadãos de segunda classe. Podiam seguir suas crenças nos dhimmis (comunidades protegidas) desde que pagassem impostos. Seu status era superior ao de pagãos e escravos. “No mundo islâmico, os judeus desfrutaram de prosperidade nos séculos 10, 11 e 12. Houve explosões de violência contra eles, mas esporádicas e locais”, diz o historiador britânico Nicholas de Lange em Povo Judeu. Alguns chegavam a ser ministros dos califas. O rabino Maomônides (1135-1204), um grande filósofo da Idade Média, foi médico dos sultões do Egito. “No século 13, quando o mundo muçulmano passou a sofrer pressões dos cristãos no oeste e dos mongóis no leste, a condição dos judeus piorou de forma dramática”, diz Lange. “Os líderes islâmicos deram carta branca à intolerância religiosa.
” Pior: no século 15, Fernando de Aragão e Isabel de Castela (os reis católicos) se uniram para acabar com o domínio muçulmano no sul da Espanha. A Santa Inquisição queimava judeus como “hereges” e pilhava seus bens. Em 1492, os reis católicos derrotaram Granada, o último bastião mouro na Península Ibérica. E expulsaram os judeus que não aceitassem a conversão imediata à fé cristã. Os que quiseram praticar o judaísmo de forma aberta emigraram para o Império Otomano, que abrangia a Turquia, o norte da África e o Oriente Médio. “A maioria, cerca de 100 mil, optou pela solução mais fácil: fugir para Portugal”, diz Lange. “Foi uma decisão equivocada. Cinco anos depois, o rei dom Manuel batizou os judeus à força.”
Os convertidos, os “cristãos-novos”, continuaram sendo alvo de suspeita dos inquisidores. Tanto que ficaram conhecidos como marranos (“porcos”, em espanhol) ou anussim (“forçados”, em hebraico). “Para muitos, a saída foi praticar o judaísmo secretamente, correndo risco de vida”, diz o escritor americano-português Richard Zimler, autor de vários livros sobre o tema. Outros botaram o pé no mundo e se fixaram em todo o arco mediterrâneo, sul da França, Holanda, Inglaterra e norte da Alemanha.
Segundo Johnson, a diáspora sefaradim mobilizou judeus do mundo inteiro. A chegada de refugiados a uma cidade provocava a expulsão dos que lá viviam. “Muitos judeus converteram-se em vendedores ambulantes”, diz. Vem dessa época a lenda antissemita do Judeu Errante, o sujeito que teria negado água a Jesus no trajeto até a crucificação e por isso havia sido condenado a uma vida sem rumo. O primeiro gueto da história, em Veneza, data de 1516. Outros “cristãos-novos” vieram para o Brasil, trabalhar em Minas Gerais ou nos engenhos de Pernambuco. Em 1636, fundaram no Recife a primeira sinagoga das Américas sob a bênção dos holandeses.
Os ashkenazim
A saga dos sefaradim foi simultânea à de outro importante grupo: os ashkenazim (do hebraico medieval Ashkenaz, “Alemanha”). Eles se assentaram entre a Alemanha e a França, ao longo do Vale do Reno, a partir do século 8, incentivados pelo imperador Carlos Magno. A maioria se dedicava ao artesanato, à fabricação de vinhos e ao comércio – conheciam como poucos as rotas para o Mediterrâneo e o Oriente Médio.
“No século 13, muitos ashkenazim foram para a Polônia atraídos pelas oportunidades econômicas”, diz Lange. “Tinham em suas mãos a maior parte do comércio.” A idade dourada dos ashkenazim acabou em 1648, ao serem alvo de uma rebelião dos cossacos, vindos da Rússia e da Ucrânia, que investiram contra os judeus, matando perto de 100 mil e dizimando 300 comunidades. O antissemitismo tornou a Europa um lugar perigoso. Judeus já haviam sido expulsos da Inglaterra em 1290 e da França em 1306.
“A ausência de um Estado fez com que construíssem sua identidade com base em parâmetros mais religiosos e étnicos do que nacionais ou territoriais”, diz Krausz. Em geral, viviam como estrangeiros, apenas tolerados. Não podiam reivindicar os direitos dos outros cidadãos e pagavam impostos abusivos. Não tinham terras nem participavam de corporações de ofícios, que só aceitavam cristãos. “Restava-lhes o pequeno comércio e a lida com o dinheiro”, diz Krausz. Os ashkenazim chegaram à Lituânia, Ucrânia, Moldávia e Rússia. Viviam num vilarejo semi-isolado, o shtetl. Assim como os sefaradim, criaram seu dialeto: o ídiche, que mescla alemão medieval com termos hebraicos e eslavos.
A emancipação
Quando os ventos da Revolução Francesa sopraram na Europa, os judeus puderam sair do gueto e conquistar a cidadania. Figuras como Albert Einstein e Sigmund Freud moldaram o pensamento do Ocidente. Mas, se por um lado o século 19 trouxe emancipação, também instigou o nacionalismo. Os modernos Estados-nação acusaram os judeus de não participar da cultura majoritária e, portanto, da identidade nacional.
A Rússia virou palco do pogrom – uma perseguição insuflada pelos czares. Algumas matanças acabaram com shtetls inteiros e motivaram levas de emigrantes para ir para os Estados Unidos a partir de 1880, milhares de ashkenazim retornaram ao ponto de partida, a Palestina. A Inglaterra assumiu o controle da região após a Primeira Guerra e impôs restrições à imigração, apesar de defender um lar nacional para os judeus bem ali, onde Davi havia governado 3 mil anos antes. A imigração aumentou nos anos 30, com o fluxo de judeus que fugiam do nazismo.
Após a criação de Israel, em 1948, judeus foram expulsos de países árabes onde residiam havia séculos. No Egito, que tinha 65 mil judeus em 1937, restaram menos de 100. Na Líbia, nenhum. “Quando meu pai era menino na Polônia, as ruas eram cobertas de pichações dizendo: `Judeus, vão para a Palestina! Quando voltou, em visita à Europa 50 anos mais tarde, os muros estavam cobertos de pichações dizendo: `Judeus, saiam da Palestina!¿”, recorda o escritor israelense Amós Oz no livro Contra o Fanatismo.
Os muitos judeus
Os sefaradim e ashkenazim são os principais grupos, mas há outros
Italianos
Vivem na península da Itália desde a destruição do segundo templo, no ano 70. A eles se juntaram sefaradim deportados da Espanha e de Portugal no século 15. Norte da África
São descendentes dos judeus que se assentaram ali por volta do século 9. Também foram expulsos após a criação de Israel. Na Líbia, por exemplo, não restou um único judeu. No Egito, menos de 100.
Mizrahim
Viveram no Iraque, Síria, Líbano, Egito e outros do Oriente Médio desde a Antiguidade, muito antes da chegada dos sefaradim, com quem são confundidos. Sua fala e seus nomes são árabes. Os do Iraque descendem de cativos que foram levados à Babilônia no século 6 a.C. Foram expulsos após a Independência de Israel, em 1948.
Teimanim
Chegaram ao Iêmen provavelmente no tempo de Salomão. Falam árabe como os mizrahim, mas sua tez é morena-escura e possuem um folclore muito típico. Expulsos após a criação de Israel, restaram cerca de 200 no Iêmen.
Etíopes
Conhecidos como Beta Israel ou falashas, têm origem desconhecida. Teriam chegado lá nos tempos de Salomão ou se convertido ao judaísmo em algum momento posterior. Em vez de hebraico, usavam o ge¿ez ou o am¿hári como língua religiosa e eram observadores estritos do shabat e da kashrut (lei alimentar). Eram quase 40 mil, viviam em campos de refugiados e foram resgatados por Israel nos anos 80 e 90.
Indianos
O sincretismo do hinduísmo se combinou com a segregação do sistema de castas – que acabou protegendo-os. Os judeus da costa do Malabar viveram muito tempo separados do resto do mundo. Hoje são cerca de 5 mil.
Chineses
Se assentaram em vários locais do país na Idade Média e foram bem tolerados pelo confucionismo. A maior comunidade ficava em Kaifeng, mas foi perdendo suas tradições. Hoje são cerca de 2,5 mil em toda a China.
Saiba mais
Livros
Povo Judeu, Nicholas de Lange, Folio, 2007
Passagens: Literatura Judaico-Alemã entre Gueto e Metrópole, Luis S. Krausz, Edusp, 2012
VEJA MAIS POSTAGENS SOBRE TEMAS LIGADOS A JUDEUS NO TOK DE HISTÓRIA
Que histórias guardam uma casa abandonada no sertão nordestino, um antigo sanatório para doentes de tuberculose no interior paulista ou a escola para meninas na primeira vila operária de São Paulo?
Em Patos de Irerê (PB) Lampião deixava o esconderijo no pé da serra para passar a noite jogando cartas na casa de Marcolino, seu “protetor”. Histórias de sequestros de mulheres, combates entre polícia e cangaceiros, a briga entre o governador da Paraíba e o coronel José Pereira, estão em patrimônios públicos e privados, conservados ou não. E por que o ser humano sente-se atraído por imagens e histórias de locais deixados sob a ação do tempo?
O Caminhos da Reportagem acompanhou fotógrafos apaixonados por ruínas no Hospital Matarazzo, fechado durante 20 anos, em São Paulo, e pernambucanos que consideram Olinda uma caixa de fotografias que lembra a todos de onde vieram e quem são.
Roteiro e direção: Bianca Vasconcellos
Reportagem: Aline Beckstein, Gustavo Minari
Produção: Aline Beckstein, Carina Dourado, Luana Ibelli, Monique Amorim, Natália Keiko,Pamela Santos, Thaís Rosa, Rostand Medeiros
Imagens: Alexandre Nascimento, Eduardo Viné, Milene Nunes, William Sales
Auxiliares: Eduardo Domingues, Leandro Oliveira, Rafael Carvalho
Sonoplastia: Priscila Resende
Edição de imagens: Caio Cardenuto, Rodger Kenzo
Finalização de edição de imagens: Rodger Kenzo
Fotos: Bianca Vasconcellos
O primeiro cangaceiro a assombrar o Nordeste foi o Cabeleira, nascido em Gloria do Goitá, no interior de Pernambuco, presumivelmente no ano de 1751, conforme o seu biografo, Luís da Câmara Cascudo. O Cabeleira morreu enforcado, no Largo das Cinco Pontas – em Recife – em 1776 – “A sua figura de homem belo, de cabeleira loura – escreveu José Lins do Rego – passaria a figura de ninar nos cantos das pretas velhas. – Seria um dos modelos para a figura de Aparício Vieira, protótipo dos bandidos do sertão brasileiro” (conforme a definição de Antônio da Cunha, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa), que o romancista paraibano levanta nos livros Pedra Bonita e Cangaceiro. José Lins mostra com força dramática, nos seus romances sertanejos, esse mundo “dos santos e dos cangaceiros, dos que matam e rezam com a mesma crueza e humanidade”.
A figura de Jose Gomes já aparecera, muito romantizada, no livro de Franklin Távora O Cabeleira. O cangaceiro e seu bando aterrorizavam as populações, “estripando mulheres a punhal, incendiando casas, depredando tudo, espalhando a morte”, no dizer de Cascudo. O Cabeleira, como ocorria com Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino e, claro, Lampião, o mais célebre e temível de todos os cangaceiros, cujo sobrenome chegou a adjetivar-se, como sinônimo e arquétipo – seria também personagem dos poetas populares e cordelistas. Silvio Romero registra seu nome em Cantos Populares do Brasil. Pereira da Costa trata dele no Folclore Pernambucano e Leonardo Mota escreveu um drama sobre suas façanhas, intitulado Cabeleira vem aí, cujo título se origina, certamente, dessas quadrinhas populares – citadas por José Lins e Cascudo, com algumas variações – hoje praticamente esquecidas na memória popular nordestina:
Cascudo o descreve como um tipo forte, alto, airoso, com extensa cabeleira anelada que lhe cobria a nuca, dizendo que madrugou nas tropelias e violências, guiado por seu pai, Joaquim Gomes, e em companhia do mameluco Teodósio. José Bernardo Fernandes Gama, nas Memórias Históricas da Província de Pernambuco, registrou as façanhas do Cabeleira, confundido o apelido que atribui ao pai do cangaceiro: fala de um celerado, a quem chamavam de Cabeleira, um filho deste (sic), e “um pardo, de nome Teodósio, ladrão mui astuto”, que aterrorizavam esta província com seus enormes crimes. Entretanto, como ocorreria com a maioria dos cangaceiros célebres, o Cabeleira encontrou simpatias populares. Cascudo explica: “Sua mocidade, beleza física, a graça de maneiras, as lágrimas de arrependimento, as evocações constantes a figura da mãe e aos conselhos, sua arte de tocar viola, horas e horas encantando os soldados (sic) e assistentes, foram modificando a impressão corrente, e o Cabeleira começou a encontrar defensores e mesmo simpatias”.
Mais ou menos nesta mesma linha José Lins do Rego escreve sobre José Gomes, o Cabeleira: “Apesar de toda crueldade, ainda chegou a impressionar a massa sobre a qual afligia tamanha servidão. Contava-se que morreu por amor. Apaixonado por uma linda moça, o seu coração ficou terno e não resistiu ao mágico poder da mulher, deixando-se enfeitiçar para morrer na forca”.
Um dos episódios sinistros do Cabeleira reporta que ele matou a tiros de bacamarte umas crianças que se haviam refugio com temor de seu bando em uma árvore, numa estrada de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco (para alguns, local de nascimento do cangaceiro). Outra versão sustenta que a vítima foi um adulto, que, por estar defendendo-se com um galho de árvore, o cangaceiro compara a um grande macaco guariba – um guaribão -, daí a denominação de “macacos” para as volantes de soldados que se opunham aos cangaceiros e os enfrentavam nas caatingas nordestinas. Silvio Romero colocou em versos, que imitam o ritmo do cordel, o episódio de “guaribão”. Na peça fala o próprio Cabeleira, lembrando seus feitos mais heroicos:
Lá na minha terra
la em Sant’ão
encontrei um homem
feito um guaribão.
Botei o bacamarte,
Foi pá – pí no chão.
No ensaio Presença do Nordeste na Literatura Brasileira, José Lins do Rego aborda o tema do cangaço nordestino, assinalando que está intimamente ligado à história social do patriarcalismo, à vida de uma região dominada pelo mandonismo do senhor da terra e de homens, como se fossem barões de feudos.
Já em O Sertanejo, – livro que influenciou a obra, de Euclides da Cunha – José de Alencar retratava esses “barões sertanejos”, tão poderosos e autossuficientes nos tempos coloniais do Brasil, que “só nominalmente rendiam preito e homenagem ao rei de Portugal, seu senhor e suserano”. José Lins mostra, ainda em nosso século, “o chefe que continuava a mandar de baraço e cutelo, na família, nos aderentes e nos eleitores”; por isso, precisando muitas vezes de “uma força acima da lei, para impor-se a dominar sem limites”. Assim o chefe sertanejo cria um poder que nem o estado – pelo menos durante algum tempo – seria capaz de enfrentar, pois “o chefe era, no sertão, mais que o estado”.
Para firma-se de pé e impor sua lei – para “pré-firmasse suseranamente”, conforme as palavras de José Lins, ele próprio neto de um desses poderosos das terras nordestinas, conforme conta em livros como Menino de Engenho e Meus Verdes Anos – o chefe recorria aos seus “homens dispostos, aos cabras de olho virado, aos que matavam sem dor na consciência”. Assim, a função do cangaceiro, em certa medida, a de uma espécie de “gendarmeria às avessas”. Como, nessa inversão, o crime adquiria um poder corretivo (a lá Esquadrão da Morte de nosso passado recente e urbano), surgiram cangaceiros que, revoltando-se contra o senhor a cujas terras literalmente pertenciam, fizeram trabalhar por sua conta, tornando-se chefes de bandos e passando eles próprios a ditar as leis do sertão. É a estrutura social que determina o aparecimento do cangaceiro, conforme nos mostram em seus romances, um José Lins do Rego, mais recentemente, um Adonias Filho.
FONTE – Jornal da Paraíba, Campina Grande-PB, 2 de fevereiro de 1983, pág. B-5
AUTOR – JOSÉ EDILBERTO COUTINHO – Nasceu em 28 de setembro de 1938, em Bananeiras, Paraíba. Advogado, jornalista, professor e escritor dedicado ao folclore nordestino. Diplomado pelo World Press Institute, escreveu nos principais jornais e revistas do Brasil e durante algum tempo, foi correspondente, na Europa, do Jornal do Brasil e da Revista Manchete e, nos Estados Unidos, dos Diários Associados (O Jornal e O Cruzeiro). Em 1970, transferiu-se, definitivamente, para o Rio de Janeiro. Pela atuação nos meios intelectuais e literários, conquistou vários prêmios, tanto no Brasil como no exterior, entre os quais, destacamos: “Ensaios de Jornalismo Literário e de Ficção”, conferido pela Academia Brasileira de Letras; “Crítica Literária”, da Associação Paulista de Críticos de Arte; “Estudos Brasileiros de Ficção”, da Fundação Cultural de Brasília-Conselho Federal de Cultura; “Ensaio Biográfico”, da Associação Brasileira de Crítica Literária e o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio “Casa de Las Americas”, de Havana, com o livro Maracanã, adeus: onze histórias de futebol (1980). Ingressou na Academia Paraibana de Letras, em 28/05/1982. Principais livros publicados: Onda boiadeira e outros contos (1954), Erotismo no romance brasileiro, anos 30 a 60 (1967), Rondon e a integração amazônica (1968), Um negro vai à forra (1977), Sangue na praça(1979), 1979; Criaturas de papel (1980), Erotismo no conto brasileiro (1980),Memória demolida (1982), O jogo terminado (seleta de contos), (1983), A imaginação do real, (1983). Sua última publicação foi a obra póstuma: Bar Savoy. Faleceu em 1995.
Igreja do Salvador do Mundo, segundo registro fotográfico de Leonardo Dantas Silva (2015).
Texto & Fotos de LEONARDO DANTAS SILVA.
Quando de sua chegada a Pernambuco, Duarte Coelho Pereira[1] trazia consigo o alvará régio de criação da paróquia do Salvador do Mundo, datado de 5 de outubro de 1534, que veio a ser instalada na vila por ele fundada “resultando na matriz mais ampla e bem provida da Colônia”. [2]
Doada a Duarte Coelho Pereira pelo Rei D. João III, em carta datada de Évora, 10 de março de 1534, a capitania de Pernambuco compreendia “sessenta léguas de terra na costa do Brasil, as quais começarão no Rio de São Francisco, que é do Cabo Santo Agostinho para o Sul, e acabarão no rio que cerca em redondo toda a ilha de Itamaracá, ao qual rio ora novamente ponho o nome de Rio Santa Cruz, e mando que assim se nomeie e chame daqui por diante a isto com tal declaração que ficará com o dito Duarte Coelho a terra da banda Sul, e o dito rio onde Cristóvão Jaques fez a primeira casa de minha feitoria…” [3]
De posse da carta de doação da Capitania de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira começou a reunir “a gente nobre e limpa”, de que fala Oliveira Lima, necessária ao início da colonização.
Não poderia descuidar-se da assistência religiosa de sua gente, tendo para isso escolhido o padre Mestre Pedro da Figueira, que veio a ser o primeiro vigário da paróquia do Salvador, datando o seu primeiro ordenado de 3 junho de 1534, na razão de 15$000 ao ano, tendo sido pago o primeiro trimestre, 3$750, em setembro do mesmo ano.[4]
Partindo de Portugal em outubro de 1534, Duarte Coelho Pereira veio aportar na Praia dos Marcos, junto à antiga feitoria de Cristóvão Jaques, no Canal de Santa Cruz, em 9 de março do ano seguinte, onde se abrigou nos primeiros meses juntamente com sua mulher e as muitas famílias que trouxe consigo.
Seguindo para o Sul, o donatário foi à procura de um local onde pudesse construir a sede de sua capitania, a fim de iniciar a colonização das terras que veio a denominar de Nova Lusitânia.
Foi Duarte Coelho Pereira, no dizer de Francis A. Dutra (The Americas, vol. XXIX, nº 4, Washington 1973), “o começo de uma dinastia”. Seu tino administrativo, ao conceder favores e incentivos especiais aos primeiros colonizadores, serviu de lição às gerações que o sucederam.
Fundou ele a matriz do Salvador de Olinda, tendo para isso trazido de Portugal o primeiro vigário, Padre Mestre Pedro da Figueira, auxiliado por quatro capelães, devidamente examinados pelo Deão da Capela Real, D. Diogo Ortiz de Vilhegas, bispo de São Tomé, por se achar vacante o bispado do Funchal, a cuja jurisdição pertenciam. No alvará régio de criação da Paróquia do Salvador consta o ordenado do vigário, 15$000 (quinze mil réis) ao ano e duas peças de escravos, estando estipulado para cada um dos quatro capelães a quantia de 8$000 (oito mil réis) e uma peça de escravos, devendo os vencimentos contarem a partir de Lisboa, logo que aceitasse o convite do donatário. Informa o padre Arlindo Rubert não constar nos documentos os nomes dos primeiros capelães e nem sempre eram necessariamente sacerdotes, já que consta haver entre eles clérigos de ordens menores e diáconos, embora genericamente chamados de padres, inclusive nas cartas jesuíticas.
Do primeiro vigário de Olinda não temos outras notícias nem sabemos até quando dirigiu a freguesia. Terá sido sucedido, talvez antes de 1550, pelo Padre Pedro Manso.[5]
Foram esses os difíceis tempos de lutas contra os índios e contra seus apresadores, contra os contrabandistas de pau-brasil, contra os que ameaçavam a estabilidade social da colônia, em favor da criação de uma reserva ecológica da cobiçada madeira de tingir (pau-brasil) e dos privilégios e liberdades concedidos por El Rei, quando da outorga da carta de doação da capitania.
Assim, Duarte Coelho fundou a Vila de Olinda, antes mesmo da dos Santos Cosme e Damião, originária de uma propriedade do vianês Afonso Gonçalves, conforme este faz menção em carta dirigida a El Rei em 1548, segundo revelação feita por José Antônio Gonsalves de Mello. [6]
Procurou o donatário dar o sustentáculo econômico a sua capitania, encarregando o seu cunhado, Jerônimo de Albuquerque, da fundação do primeiro engenho de açúcar e distribuindo sesmarias com outros colonos dispostos a implantar a agroindústria do açúcar na Várzea do Capibaribe.
Os frutos de sua administração não se fizeram tardar: em 1585, segundo relato do Padre Fernão Cardim, a produção dos 66 engenhos de açúcar de Pernambuco era estimada em 200 mil arrobas, sendo o porto do Recife visitado anualmente por 45 navios, com algumas famílias da capitania ostentando uma vida de fausto superior à de Lisboa.
Para Gabriel Soares de Sousa, Pernambuco era, em 1587, a mais adiantada das capitanias, quer no cultivo das terras, quer na polidez dos costumes e conforto da vida (Tratado Descritivo do Brasil).
A matriz do Salvador de Olinda veio a ser a igreja mais importante da América Portuguesa, depois da Sé da Bahia, durante todo o século XVI e início do século XVII. Matriz colegiada era dirigida por um pároco, auxiliado por um coadjutor e quatro capelães, que recitavam o ofício divino e celebravam missa solene em comum.
O pároco era, no dizer de Arlindo Rubert, uma espécie de vigário Geral da Capitania, com especiais faculdades outorgadas pelo Bispo da Bahia. Em “A Igreja no Brasil” (Santa Maria 1981).
Destruída pelos holandeses em novembro de 1631, a matriz do Salvador do Mundo veio a ser reconstruída, tendo os trabalhos sido parcialmente concluídos em 1669, quando a 6 de outubro foi rezada a primeira missa pelo vigário Manuel Ferreira Nunes.
As obras de restauração continuaram até 1676, ano em que foi elevada a catedral do Bispado de Pernambuco, nela instalado em 21 de maio daquele ano; seguindo-se, no ano seguinte, a posse do primeiro bispo, D. Estevão Brioso de Figueiredo.
As obras da Sé de Olinda têm continuidade nos anos que se seguiram, tomando grande impulso quando da administração do bispo D. Frei Luís de Santa Teresa (1739-1753) e no episcopado de D. Francisco Xavier Aranha (1753-1771), quando foi concluída a restauração do seu interior.
[1] Muito embora assinasse em suas cartas tão-somente Duarte Coelho, seu nome completo era Duarte Coelho Pereira, como se depreende das declarações do seu filho Jorge de Albuquerque Coelho: “por alma do meu pai, Duarte Coelho Pereira, primeiro Governador que foi desta Capitania . . .’’ Livro de Tombo do Mosteiro de São Bento de Olinda; Revista do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, vol. XLI (Recife 1948), p. 26. Ainda o mesmo Jorge de Albuquerque Coelho: . . . “Faço saber que Duarte Coelho Pereira, meu Senhor e Pai, que Deus tem, ao tempo que foi povoar e conquistar a dita Capitania. . .’’ . Provisão datada de Lisboa, 2 de setembro de 1594, transcrita por José Antônio Gonsalves de Mello. In: Cartas de Duarte Coelho a El Rei. Recife: 1967. p. 21.
[2] Arlindo Rubert citando a carta do padre Antônio Pires, datada de 2 de agosto de 1551, “fué cosa para dar murchas gracias al Señor, ver este Domingo pasado una iglesia muy grande lhena de esclavos que venian a la doctrina, que serian cerca de mil”. In A Igreja no Brasil, v. 1. Santa Maria: 1981. p. 59
[3] COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Anais pernambucanos 1493-1850. Edição fac-similar. Recife: FUNDARPE; Diretoria de Assuntos Culturais; 1983. v. 1 p. 161 (Coleção Pernambucana, 2ª fase, v. 2).
[4] Quem pela primeira vez revelou tal documento foi Methódio Maranhão, Duarte Coelho e a Colonização de Pernambuco (Recife: 1935, p. 73), citando pesquisa do seu filho, Gil Maranhão, responsável pela revelação.
[5] RUBERT, Arlindo. op. cit. p. 59-60.
[6] MELLO, José Antônio Gonsalves de; ALBUQUERQUE, Cleonir Xavier de. Cartas de Duarte Coelho a El Rei. Prefácio de Leonardo Dantas Silva. 2. ed. Recife: FJN; Ed. Massangana, 1997. 138 p. (Descobrimentos, n.º 7).
O VP-211 foi criado nos Estados Unidos em 15 de fevereiro de 1943 e possuía no seu inventário 15 hidroaviões Martin PMB-3S Mariner. No Brasil primeiramente ficou baseado na NAF Aratu (NAF – Naval Air Facility), na Bahia, onde chegou em 27 de setembro de 1943, sob o comando do militar C. Fink Fisher. Á última seção do esquadrão de quatro aeronaves chegou a Aratu no dia 16 de outubro e ficou sob o controle operacional da FAW-16 (FAW-Fleet Air Wing). Depois o VP-211 tornou-se uma parte da Task Force 44, sendo uma unidade aérea integrante da 4ª Frota da US Navy, que tinha sua base em Recife.
Em 12 de novembro de 1943, por um período de três meses, o esquadrão mudou sua sede para a Ilha do Governador, na NAF Galeão, no Rio de Janeiro. Deixaram um destacamento de três aeronaves em Aratu. Para os americanos, apesar da NAF Galeão estar mais perto da zona de caça aos submarinos inimigos, as condições de vida eram consideradas “primitivas” e frequentemente o lugar estava envolto na névoa no amanhecer.
Quase todas as patrulhas deste esquadrão foram realizadas à noite, com ajuda de holofotes e utilização de radar de busca. Era uma média de 14 a 16 patrulhas semanais e isso começou a cobrar um preço das aeronaves. Como as instalações de manutenção no Galeão eram muito básicas, as mudanças de motores foram feitos no mar, próximo a Florianópolis, Santa Catarina.
Símbolo do VP-211\VPB-211, baseado no personagem Dumbo, de Walt Disney. Mas aqui o tranquilo personagem joga uma bomba contra os inimigos.
Estas tarefas eram efetuadas em quatro seções de três aeronaves cada, com um Martin PMB-3S Mariner realizando a mudança, enquanto um segundo hidroavião ficava junto para ajudar na manutenção. As aeronaves eram apoiadas por navios da US Navy que possuíam a função de manter operacionais os hidroaviões. Estas naves tinham tudo que as aeronaves necessitavam; suprimentos necessários, gasolina e pessoal de manutenção.
Em 12 de janeiro de 1944 o esquadrão sofreu seu primeiro acidente operacional. Foi quando durante um exercício de treinamento o oficial Thomas E. Donahue e a equipe do hidroavião P-8 soltaram uma carga de profundidade em uma altitude muito baixa. Houve uma detonação perto da cauda, fazendo com que o hidroavião caísse na água. A tripulação do hidroavião P-4 amerissou e desembarcaram imediatamente na área do sinistro. Conseguiram resgatar cinco sobreviventes gravemente feridos da água.
Infelizmente outros acidentes se seguiriam. Em 21 de abril de 1944, o hidroavião P-4 partiu de Natal para Aratu para treinamento noturno em e desapareceu numa tempestade com toda a tripulação composta por três oficiais e cinco subalternos. Em 10 de junho de 1944 o VP-211 foi transferido para Natal, ficando baseado na RAMPA, onde realizava patrulhas que normalmente seguiam até 800 milhas náuticas de Natal.
Em 31 de agosto do mesmo ano outro infortúnio – um Martin PMB-3 Mariner colidiu com obstáculo ao pousar em Aratu com perda total da aeronave.
Aqui vemos o pelo Kapitänleutnant Dietrich von der Esch, comandante do U-863 – Fonte – http://uboat.net/index.html
O mesmo Martin PMB-3S Mariner número P-4, que resgatou os sobreviventes do acidente de 12 de janeiro, em 28 de setembro de 1944 localizou por radar um submarino alemão, tentou atacar, mas foi expulso da área pelo fogo pesado da artilharia antiaérea embarcada. Foi feita uma localização do submarino e no outro dia por dois Consolidated PB4Y-1 Liberator, do esquadrão VB-107, pilotados pelos Tenentes E.A. Krug e J.T. Burton, realizaram um ataque coordenado sobre o submarino alemão U-863, comandado pelo Kapitänleutnant Dietrich von der Esch, pertencente a 12. Unterseebootsflottille, com base na cidade francesa Bordeaux, então ocupada pelos alemães.
Este submarino, ou U-boat como também eram conhecidos, estava a 66 dias em patrulha de combate, não afundou nenhum navio Aliado e foi afundado a sudoeste de Recife, na mesma área anteriormente registrada pelo pessoal do VP-211. O naufrágio foi confirmado pela avaliação dos registros inimigos no pós-guerra, com a morte de toda tripulação de 69 homens.
Em fevereiro de 1945 o esquadrão mudou a denominação para VPB-211 e ficou baseado temporariamente a bordo do tender de hidroaviões USS Matagorda (AVP 22) na Baía de Todos os Santos, em Salvador, Bahia. A missão era ajudar na formação da tripulação do navio a lidar com hidroaviões em bases avançadas. Depois a mesma tarefa foi feita no USS Rockaway (AVP 29), USS Rehoboth (AVP 50) e USS Humboldt (AVP 21). O pessoal do esquadrão especulava que todo esse treinamento poderia ser uma preparação para a transferência iminente de VPB-211 para o teatro de operações do Pacífico.
Em 16 de maio de 1945 as patrulhas de apoio a comboios foram interrompidas e depois, no dia 24 de maio de 1945, o esquadrão deixou o Brasil em direção a San Juan, Puerto Rico. Na sequência seguiram para a Base Naval de Norfolk, Estados Unidos, onde o VPB-211 foi desmobilizado.
Martin PMB-3S Mariner do VP-211\VPB-211 sobre o Rio de Janeiro.
Este esquadrão de hidroaviões Martin PMB-3S Mariner não entrou em combate na costa do Brasil e no Atlântico Sul, mas certamente foi o mais fotografado das aeronaves da US Navy na América do Sul.
Fonte – Dictionary of American Naval Fighting Squadrons e http://uboat.net/index.html
UM TRABALHO EM QUE TIVE O PRIVILÉGIO E A HONRA DE PARTICIPAR
PRÓXIMO dia 12 DE MARÇO, ás 22:00 (QUINTA-FEIRA), vocês vão poder conferir na TV BRASIL, no programa CAMINHOS DA REPORTAGEM, o maravilhoso trabalho LUGARES ESQUECIDOS.
Casa antiga em Serra Talhada (PE) – CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR.
Neste programa a equipe da TV BRASIL de São Paulo, tendo a frente a competente jornalista Bianca Vasconcelos, vão apresentar antigas casas e locais hoje esquecidos, mas que no passado tiveram muita importância histórica. São locais que possuem uma beleza e uma áurea própria, que proporcionam uma reflexão do abandono geral em relação ao conhecimento do nosso passado.
Uma parte deste programa foi realizado em São Paulo e a outra parte no ensolarado sertão nordestino. Tive o privilégio e a honra de estar junto com estes profissionais em um trabalho maravilhoso. Além da Bianca, estive junto ao cinegrafista Alexandre Nascimento e Eduardo Domingues. Este é nosso segundo trabalho com a TV BRASIL, o primeiro foi em 2013, junto com a jornalista Carina Dourado e o cinegrafista Osvaldo Santos e o tema foi sobre cangaço.
Sobre este primeiro tralho veja aqui nestes links;
Percorremos centenas de quilômetros pelos caminhos ensolarados dos sertões da Paraíba e de Pernambuco, onde busquei apresentar a Bianca e a sua equipe locais bem interessantes e com antigas casas que testemunharam as lutas do tempo da colonização, do tempo do cangaço de Lampião e da Guerra de Princesa.
Para isso contei com a inestimável ajuda de grandes amigos que tenho pelo sertão afora.
Antônio Antas sendo entrevistado
Com Antônio Antas (Manaíra-PB) a equipe da TV BRASIL de São Paulo pode conhecer a “Casa Grande dos Patos”, em Patos de Irerê, próximo a São José de Princesa (PB), onde em 1930 ocorreu uma grande batalha da chamada Guerra de Princesa.
Junior Alves defronte a casa do coronel José Pereira, em Princesa Isabel (PB)
Ainda sobre este conflito, através do conhecimento de Junior Alves (Tabira-PE), eles adentraram pela casa do coronel José Pereira, na cidade de Princesa Isabel (PB), local que é um verdadeiro símbolo do poder no sertão antigo.
Com a ajuda de André Vasconcelos (Triunfo-PE), estivemos em Santa Cruz da Baixa Verde (PE), em uma casa simples, onde em 1924 ocorreram dois grandes combates entre Lampião e Clementino Quelé, um dos mais valentes inimigos do Rei do Cangaço.
Francisco Mourato e Álvaro Severo, de Serra talhada (PE)
Junto com Álvaro Severo e Francisco Mourato (Serra Talhada-PE), dois verdadeiros baluartes em relação à preservação da memória de sua região, conhecemos as histórias de uma das primeiras casas do período da colonização do Sertão do Pajeú e a presença do cangaço na secular Fazenda Barreiros. E foi nesta fazenda que encontramos Edvan, conhecido como Edvan Loló.
Este é um homem simples, que montado no seu cavalo, utilizando todos os utensílios de couro existentes para o trabalho de vaqueiro, cavalga entoando cânticos e abios que trazem nos seus versos a memória da sua região.
Edvan ao lado de um jovem vaqueiro que mantém a tradição dos homens encourados da caatinga nordestina
Edvan é um conhecedor profundo da arte de conduzir o gado pela caatinga, veste o gibão de couro com orgulho e enfrenta a caatinga com paixão e valentia.
Edvan é também um dos personagens de um programa da TV BRASIL que vai trazer as histórias das antigas casas sertanejas que foram palcos de luta.
Junto a equipe da TV BRASIL de São Paulo, Bianca, Eduardo e Alexandre. Uma honra trabalhar com vocês!
NÃSO ESQUEÇAM, PRÓXIMO dia 12 DE MARÇO, ás 22:00 (QUINTA-FEIRA), na TV BRASIL, no programa CAMINHOS DA REPORTAGEM, vocês vão poder conferir o maravilhoso trabalho LUGARES ESQUECIDOS.
O governador Ricardo Coutinho e Elizabeth Teixeira, durante a entrega da Medalha do Mérito Universitário, feita pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) em 2011 – CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR
Renata Ferreira – Jornalista
Ela abriu mão do conforto para viver o amor ao lado de um trabalhador pobre e analfabeto. Com ele, formou família e ajudou a construir a história do movimento sindical agrário no Brasil. A paraibana Elizabeth Teixeira é a face feminina das lutas camponesas da metade do século passado. Junto ao marido, João Pedro Teixeira, fundou, no município de Sapé (PB), o maior sindicato de trabalhadores agrários do país até então. E assumiu a liderança do movimento depois do assassinato dele, em 1962.
O líder camponês João Pedro Teixeira, sua mulher Elizabeth e seus filhos.
A trajetória de Elizabeth será lembrada na próxima sexta-feira (13/2), quando ela completa 90 anos de vida. A celebração vai ocorrer no Memorial das Ligas Camponesas, fundado no antigo sítio onde a camponesa viveu com João Pedro e os 11 filhos, no distrito de Barra das Antas, em Sapé (município a 65 quilômetros da capital do Estado, João Pessoa).
Elizabeth Teixeira em 1962
O imóvel de sete hectares foi tombado em 2012 pelo Governo do Estado da Paraíba e transformado em um espaço de resgate da memória e homenagem aos trabalhadores que dedicaram a vida a lutar por dignidade no campo e reforma agrária.
Universidades, sindicatos e movimentos sociais estão engajados no evento, do qual devem participar filhos e netos de Elizabeth e João Pedro. Pela manhã, as atividades serão fechadas aos parentes e organizadores. “Será uma reunião de família”, explica o professor da UFPB Antônio Alberto Pereira, um dos coordenadores do Memorial das Ligas Camponesas.
Às 14h, terá início o evento aberto a toda a comunidade. O coral da Universidade Federal da Paraíba vai se apresentar cantando o Hino do Camponês, acompanhado pela Orquestra Santa Cecília, de Sapé, e sob a regência do próprio compositor da obra, o maestro Geraldo Menucci, antigo militante do Movimento Cultural Popular. A letra da música é de Francisco Julião, advogado, político e escritor que atuou com as ligas camponesas de Pernambuco.
A parte cultural do evento terá também apresentações de coco de roda e músicas populares. A organização espera reunir, além de autoridades da região e representantes dos movimentos populares e sindicais, crianças e jovens das escolas públicas de Mari, Sapé, Sobrado e Cruz do Espírito Santo. No sábado (14/2), haverá o lançamento do documentário “A família de Elizabeth Teixeira”, do cineasta Eduardo Coutinho, morto em 2014 e diretor de “Cabra Marcado para Morrer”, obra que conta a história de João Pedro, Elizabeth e das ligas camponesas do Nordeste. O lançamento do documentário será no Centro de Formação João Pedro Teixeira, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, no município de Lagoa Seca (PB).
Prisão e fuga
Depois da morte de João Pedro, em 2 de abril de 1962, Elizabeth assume a liderança do movimento, ao lado de nomes como Pedro Fazendeiro e Nego Fuba. Foi presa por várias vezes e, numa delas, retorna à casa para se deparar com a tragédia do suicídio da filha mais velha, Marluce, que não suportou conviver com a possibilidade de a mãe ter o mesmo destino do pai.
Em 1964, com a instalação do regime militar, Elizabeth é presa pelo Exército e passa oito meses na cadeia. Na volta, precisa fugir para não ser morta. Esconde-se na cidade de São Rafael, no interior do Rio Grande do Norte, com apenas um dos 11 filhos – Carlos, que é rejeitado pelo avô por se parecer muito com o pai. Passa 17 anos afastada da família, vivendo com a identidade de Marta Maria da Costa.
Isso até 1981, quando o cineasta Eduardo Coutinho resolve retomar as gravações de “Cabra Marcado para Morrer”, interrompidas pela truculência da ditadura. Por intermédio de um dos filhos de Elizabeth, Coutinho reencontra a líder camponesa e conclui o trabalho. A viúva de João Pedro vem, então, morar em João Pessoa, no bairro de Cruz das Armas, em uma casa que lhe é presenteada pelo próprio Eduardo Coutinho.
Heranças da luta
As ligas camponesas e a história de João Pedro e Elizabeth são lembradas não apenas como registro histórico. A luta chegou aos dias atuais, trouxe heranças e desafios futuros. Embora a sonhada reforma agrária ainda não tenha se concretizado, o homem do campo está consciente dos próprios direitos e busca cada vez mais organizar-se em cooperativas e associações para potencializar ações e iniciativas. Para o presidente do Memorial das Ligas Camponesas, o agricultor Luiz Damázio de Lima (o Luizinho), os líderes João Pedro e Elizabeth Teixeira deram o primeiro passo, mas a luta camponesa continua se atualizando. E várias são as heranças desse movimento. Uma delas, segundo Luizinho, é o crescimento da organização dos pequenos produtores.
Ele cita a experiência da Ecovárzea (Associação dos Agricultores e Agricultoras da Várzea Paraibana), uma entidade que reúne cerca de 300 assentados. “Esse tipo de iniciativa nasceu com as ligas”, afirma. Juntos, os pequenos produtores são mais fortes do que se estivessem trabalhando de forma independentes.
No caso da Ecovárzea, eles optaram por um modelo de cultivo limpo e saudável: a agroecologia. Longe dos agrotóxicos e aditivos químicos, os trabalhadores ganham em qualidade de vida e levam verduras, hortaliças e frutas de melhor qualidade ao consumidor. A comercialização é feita sempre às sextas-feiras, na UFPB, e a estimativa de venda é de R$ 7 mil a R$ 8 mil por semana.
Segundo Luizinho, a Paraíba já conta com 45 feiras de pequenos produtores com a da Ecovárzea. “Não são todas agroecológicas, mas isso já demonstra o processo organizativo dos agricultores”. Nessas feiras, são comercializadas entre 90 e 100 toneladas de produtos semanalmente. “Isso dá uma rentabilidade imensa”, afirma.
Outra herança das ligas, segundo o agricultor, está no maior acesso à educação. “Hoje temos filho de agricultor fazendo Pedagogia, Enfermagem, Ciências Agrárias, Agroecologia, Agronomia, por exemplo. Nossos filhos estão lutando para conquistar um espaço na universidade”, garante. “Há uma quantidade muito grande de jovens do campo que estão conseguindo sua formação e estão atuando em cooperativas e associações”, reafirma a professora da UFPB, Fátima Rodrigues, que é colaboradora do Memorial das Ligas Camponesas.
Ela e Luizinho citam ainda como ganhos decorrentes das ligas camponesas o maior acesso à saúde e o crescimento da participação e do protagonismo das mulheres nas ações das comunidades rurais. “Ainda precisamos melhorar bastantes, por exemplo, ampliando a assistência médica, as políticas públicas para os jovens, a infraestrutura, as escolas”, afirma Luizinho. E para se alcançar essas melhorias, segundo ele, é necessário que o homem do campo continue ciente da importância do processo organizativo.
Sobre qual conquista seria a mais difícil de alcança, Luizinho se mostra convicto: “difícil é conquistar a consciência da sociedade em apoio a essa luta”, declara. Para ele, o aniversário de Elizabeth Teixeira é a consagração de 90 anos de luta. “Ela não começou a lutar depois de casada com João Pedro, mas quando nasceu. Ela enfrentou o próprio pai, que era latifundiário. Essa celebração é uma honra para nós. Se João Pedro é o cabra marcado para morrer, Elizabeth é a mulher marcada para viver”, declara.
Outra herança das ligas, segundo o agricultor, está no maior acesso à educação. “Hoje temos filho de agricultor fazendo Pedagogia, Enfermagem, Ciências Agrárias, Agroecologia, Agronomia, por exemplo. Nossos filhos estão lutando para conquistar um espaço na universidade”, garante. “Há uma quantidade muito grande de jovens do campo que estão conseguindo sua formação e estão atuando em cooperativas e associações”, reafirma a professora da UFPB, Fátima Rodrigues, que é colaboradora do Memorial das Ligas Camponesas.
Ela e Luizinho citam ainda como ganhos decorrentes das ligas camponesas o maior acesso à saúde e o crescimento da participação e do protagonismo das mulheres nas ações das comunidades rurais. “Ainda precisamos melhorar bastantes, por exemplo, ampliando a assistência médica, as políticas públicas para os jovens, a infraestrutura, as escolas”, afirma Luizinho. E para se alcançar essas melhorias, segundo ele, é necessário que o homem do campo continue ciente da importância do processo organizativo.
Sobre qual conquista seria a mais difícil de alcança, Luizinho se mostra convicto: “difícil é conquistar a consciência da sociedade em apoio a essa luta”, declara. Para ele, o aniversário de Elizabeth Teixeira é a consagração de 90 anos de luta. “Ela não começou a lutar depois de casada com João Pedro, mas quando nasceu. Ela enfrentou o próprio pai, que era latifundiário. Essa celebração é uma honra para nós. Se João Pedro é o cabra marcado para morrer, Elizabeth é a mulher marcada para viver”, declara.
Extensão do domínio holandês no Nordeste do Brasil
Os holandeses do norte vinham em rebelião aberta contra a Coroa espanhola desde 1568, mas foi em 1602 e 1621 que eles levaram a guerra ao campo do inimigo. E foram eles, também chamados neerlandeses ou batavos, os primeiros europeus a arrancarem do controle dos conquistadores ibéricos um grande naco de terra no que hoje chamamos de América do Sul. Isso ocorreu no Brasil.
Para realizar estas conquistas os holandeses utilizaram uma empresa. A organização da Companhia das Índias Ocidentais, o empreendimento comercial conquistador holandês, é muitas vezes atribuída por historiadores ibéricos às maquinações de capitalistas judeus que fugiram (ou foram expulsos) de Espanha e Portugal, mas essa visão é insustentável. O investimento judaico no início de ações da Companhia (nominalmente capitalizada em sete milhões de florins) foi relativamente insignificante. Mas o verdadeiro impulso veio de exilados calvinistas holandeses, sendo estes particularmente proeminentes na formação da Companhia e nas listas de seus acionistas. Para os calvinistas o sentimento contra os espanhóis e portugueses era muito forte, onde a luta era considerada uma verdadeira guerra santa contra os católicos.
Prédio em Amsterdã, Holanda, sede histórica da Companhia das Índias Ocidentais, ou West-Indische Compagnie – WIC
Ao longo de sua história os holandeses reclamam que os ingleses apenas seguiram o rastro de suas conquistas; e, embora esta alegação não possa ser sempre justificada, não há dúvida de que foram os holandeses que suportaram o peso esmagador do monopólio colonial católico ibérico, que parecia tão maciçamente intacto em 1600.
As duas coroas ibéricas estavam unidas desde 1580 (a chamada união dinástica) e as Américas se tornaram um grande alvo para os holandeses, que decidiram iniciar suas operações militares atacando o Brasil, ao invés de México ou Peru. Pensavam os estrategistas batavos que os portugueses seriam vítimas mais fáceis e o governo de Madrid não reagiria de forma tão violenta a perda de terras portuguesas.
Uma vez estabelecidos no Brasil, os holandeses teriam uma base americana para operações contra os tesouros das frotas espanholas que traziam incalculáveis tesouros do Novo Mundo. Além de administrarem o crescente comércio de açúcar na sua origem e, eventualmente no futuro, marcharem por terra para as minas de prata de Potosi (Bolívia), grande manancial de riqueza da Espanha no Novo Mundo.
O Primeiro ataque
O golpe inicial da Companhia das Índias Ocidentais foi um sucesso espetacular e São Salvador, Bahia, caiu em maio de 1624.
Barco holandês
Foi alegado pelo célebre Lope de Vega, em seu “El Brasil Restituído”, que esta vitória holandesa ocorreu devido à traição dos judeus “cristão-novo”, ou cidadãos cripto judeu, que vislumbravam com os batavos a liberdade religiosa do culto judaico em terra de conquistadores católicos. A verdade foi que a derrota aconteceu pela covardia dos defensores de Salvador e a pela audácia do vice-almirante holandês Pieter Pietersen Heyn.
Mais ou menos ao mesmo tempo, na costa oposta da América do Sul, outra frota holandesa tentou dominar Callao, no Peru. Esta audaciosa tentativa falhou, mas os assentamentos espanhóis na costa do Pacífico foram jogados em um estado de tremenda confusão e alarme.
Contrariando as expectativas holandesas, a perda da Bahia despertou para uma ação decisiva o lento governo em Madri. Provavelmente porque eles reconheceram que o objetivo final holandesa não era o açúcar do Brasil, mas a prata andina.
Fonte – peregrinacultural.wordpress.com
Com uma velocidade e rigor excepcionais para o padrão administrativo ibérico, uma armada combinada portuguesa e espanhola foi mobilizada. Na verdade aquela era a maior frota que já tinha cruzado a linha do Equador em direção ao Brasil desde seu descobrimento em 1500. 52 navios, 14.000 homens e 1.185 armas de fogo surgiram fora de Salvador na véspera da Páscoa de 1625. Em 1 de maio a guarnição holandesa, que não era composta de idiotas, entregou-se a Dom Fadrique de Toledo Osorio, Capitão Geral da Armada. Logo uma frota chegou da Holanda e rapidinho se retirou, sem se aventurar a um contragolpe contra a grande esquadra combinada ibérica.
Enquanto os holandeses eram pela primeira expulsos do Brasil, os esforços deles para capturar um dos mercados de escravos portugueses na costa oeste da África também falhou desastrosamente e por negligência dos seus comandantes. Um cronista holandês escreveu que “no verdadeiro estilo militar, cada um jogou a culpa no outro”.
Se os protestantes holandeses venceram o primeiro round, os seus adversários católicos haviam decididamente vencido a segunda fase e a Companhia das Índias Ocidentais estava quase falida. Mas os calvinistas das Terras Baixas do Mar do Norte eram homens teimosos. Eles não desanimavam com golpes pesados e logo recomeçaram a afiar suas espadas.
Piet Hein – Fonte – en.wikipedia.org
Em pouco tempo o brilhante almirante Pieter Pietersen Heyn varreu os barcos de transporte ibéricos na costa brasileira entre 1626-1627. Em setembro de 1628 conquistou toda a frota de prata espanhola na Baía de Matanzas, Cuba, um feito sem paralelo.
Com o tesouro derivados destes e de outros ataques navais, a Companhia das Índias Ocidentais pagou todas as suas dívidas, declarou um dividendo de 50 por cento e em 1630 equipou outra expedição poderosa contra o Brasil (65 navios e 8.000 homens). Desta vez seu objetivo não era a Bahia, mas Olinda e Recife, na província de Pernambuco, a região produtora de açúcar mais rica do mundo e a parte mais próspera do Império Colonial Português.
O Doce Nordeste
O açúcar havia sido introduzido no Brasil a partir da Madeira e de São Tomé em 1530, mas foi no século XVII que se tornou “o século do açúcar”, devido ao grande aumento da procura por este produto na Europa, onde constantemente se tornou uma necessidade, em vez de um luxo.
A plantação de açúcar tipicamente brasileira era centrada no engenho, ou moinho para moer a cana-de-açúcar não refinado. Os principais centros de produção foram os distritos férteis conhecidos em torno de Olinda e Recife, em Pernambuco, e do Recôncavo, nos arredores de Salvador. Os plantadores de açúcar, ou senhores de engenho, geralmente viviam em suas propriedades e vinha para a cidade apenas para festas, ou para fiscalizar o transporte de suas colheitas. Com o aumento da produção cada vez mais os lusos importavam escravos negros africanos para o Brasil.
Engenho e tropas holandesas
Isso deu a sociedade brasileira colonial um selo marcadamente rural, em contraste com a da América contemporânea espanhola, onde os líderes da sociedade preferiam morar nas cidades do vice-reino do México e de Lima (Peru), ou no grande centro de mineração de Potosí.
Frei Manoel Calado escreveu um relato da luta Luso-Holandesa pelo nordeste do Brasil. Comenta que por volta de 1630 a produção de açúcar em Pernambuco havia chegado a um ponto em que os pilotos e mestres das grandes frotas de naus mercantes, que diariamente entravam e saíam do porto de Recife, competiam entre si em entreter os plantadores locais, a fim de conseguirem obter o transporte do doce produto.
Os seletos vinhos e víveres europeus foram importados de Portugal e dos Açores, enquanto sedas asiáticas e têxteis de qualidade eram tão abundantes nas lojas de Olinda como nas de Lisboa. O padrão de vida era excessivamente alto e qualquer chefe de família cuja tabela de serviço não era tabelada em prata maciça era considerado como miseravelmente pobre.
Olinda e ações navais holandesas
Pyrard de Laval, um marinheiro francês muito viajado, que visitou a colônia portuguesa em 1610, observou que “em nenhum país que eu tenho visto a prata é tão comum como nesta terra do Brasil. Você nunca vê pouco dinheiro por aqui”.
Mesmo que Olinda não se comparasse em tamanho ou em riqueza com a Cidade do México, Lima, ou Potosí, a doce riqueza que vinha do interior da província tornou a região um prêmio que valia a pena conquistar. A descrição de Manoel Calado desta região como o “espelho de um paraíso terrestre” não era mera hipérbole.
Vitória e Dominação
As ordens para os comandantes da força expedicionária holandesa de 1630 previam não só a captura de Olinda, mas, posteriormente o Rio de Janeiro (ou, alternativamente Salvador) e até mesmo de Buenos Ayres. Este programa revelou-se demasiado ambicioso.
As tropas invasoras não eram apenas compostas de holandeses, havia muitos mercenários de outras localidades na Europa, com líderes militares como excelente polonês Crestofle d’Artischau Arciszewski e o alemão Sigismund von Schoppe. Combateram em solo pernambucano muitos alemães, franceses e escandinavos formando talvez os maiores contingentes no serviço militar da Companhia. Havia até mesmo um bom número de ingleses – tantos que um capelão inglês protestante chamado Samuel Batchelor ficou alguns anos em Recife.
Apesar de Olinda e Recife terem sido tomadas sem muitas dificuldades, a resistência portuguesa no interior foi forte e teimosa. Para acabar este problema foi trazido um grande combatente, que se mostrou igualmente um grande administrador.
Nassau – Fonte – pt.wikipedia.org
A partir de janeiro 1637, até maio de 1644, a conquista holandesa no Brasil foi governada pelo príncipe Johan Maurits van Nassau-Siegen (ou simplesmente Mauricio de Nassau). Pouco depois de sua chegada, ele infligiu uma grave derrota ao napolitano Giovanni Vincenzo di San Felice, o Conde de Bagnolo, que comandou as forças portuguesas, espanholas em Porto Calvo (Alagoas) e as levou-o ao sul do Rio São Francisco.
Os defensores do Brasil foram desmoralizados por esta derrota, e Frei Manoel Calado, sem grande admiração pelos “senhores barrigudos”, como ele frequentemente chamava os líderes militares da resistência contra os batavos. O Frei maliciosamente relata como muitos deles fugiram para o sul.
Se Mauricio de Nassau seguisse o processo de avanço militar em direção sul, provavelmente ele teria tomado novamente Salvador para os holandeses. Mas o líder conquistador não percebeu toda a extensão de seu sucesso e quando um ano depois ele atacou a capital colonial, descobriu que aquele objetivo “não era o tipo de gato para ser tomada sem luvas”. Foi repelido com grandes perdas.
Este reverso foi mais do que compensado pela derrota, em janeiro de 1639, de uma grande armada português-espanhola que o governo Ibérico tinha finalmente conseguido mobilizar, após anos de esforços abortivos, para a recuperação de Pernambuco.
Com a captura de São Jorge da Mina, na Guiné (o mais antigo assentamento europeu na África Ocidental) e de Luanda, em Angola, os holandeses conseguiram o controle total do tráfico de escravos do Oeste Africano.
Engenho de açucar
Até o final de 1641, Mauricio de Nassau governou uma área no Brasil cujo litoral possuía mais de mil quilômetros.
Um Príncipe que Amava o Brasil
Mauricio de Nassau não era apenas um general capaz, mas um administrador de primeira classe e um governante que estava, em muitos aspectos, muito à frente de seu tempo.
No dia em que ele desembarcou em Recife ele se apaixonou pelo Brasil e não poupou esforços, dinheiro e energia para melhorar a colônia. No momento da sua chegada Recife tinha uma população com cerca de três mil almas e a superlotação foi terrível. Casas custavam a partir de 5.000 a 14.000 florins, enquanto a remuneração mensal dos empregados comuns da Companhia era de cerca de 60 florins.
Mapa de Recife
Ele melhorou e ampliou a cidade existente com novas (e pavimentadas) ruas, estradas e pontes. Ele construiu uma nova cidade chamada Mauritia (ou Mauritstadt) em uma ilha adjacente.
Nassau tinha trazido da Holanda uma comitiva cuidadosamente selecionada de quarenta e seis acadêmicos, artistas, cientistas, artesãos e naturalistas, os quais tiveram suas próprias funções e tarefas especiais.
Assim Pintores como Frans Post e Albert Eckhout (este último possivelmente um aluno de Rembrandt) pintaram vários aspectos da vida e da cultura local. Franciscus Plante estudou a antropologia social ameríndia, flora e fauna exóticas. O astrônomo saxão Georg Marcgraff fez observações celestes no Brasil e em Angola. Os trabalhos de cartografia de Cornelis Golijath, junto com Johannes Vingboons, contribuíram para consolidar o conhecimento das costas brasileiras naquela época. Já Caspar Barlaeus escreveu um relato da atuação de Mauricio de Nassau no Brasil, que foi denominado “História dos Feitos Recentemente Praticados Durante Oito Anos no Brasil e Noutras Partes sob o Governo de Wesel, Tenente-General de Cavalaria das Províncias-Unidas sob o Príncipe de Orange” e publicado em 1647. Este livro contém grande número de mapas e ilustrações da região.
Nenhuma equipe de trabalho científico e artística dirigida por homens brancos nos trópicos foi novamente vista com tamanha capacidade e magnitude até as grandes expedições do capitão inglês James Cook e seus sucessores.
Não era de admirar que seus compatriotas o apelidassem de “Maurits, de Braziliaan” (Mauricio, o brasileiro).
Idade do Ouro
Nassau entendeu perfeitamente a importância de conciliar os plantadores de cana com a dominação holandesa e seus esforços conseguiram um considerável grau de sucesso neste item. Mesmo sendo um protestante convicto, numa época em que os calvinistas e católicos consideravam-se uns aos outros como inevitavelmente condenados ao fogo do inferno, Nassau deliberadamente tolerou os clérigos católicos locais, apesar da oposição dos ministros calvinistas coloniais.
Em um esforço para evitar os males da monocultura do açúcar, ele promoveu o cultivo de outras culturas, além de reduzir a tributação. Ajudou os plantadores a reconstruírem seus engenhos arruinados pela guerra e a comprar escravos em Angola. Até 1641 nada menos do que 120, de 160 engenhos de açúcar destruídos voltaram a funcionar. A produção total de açúcar durante o seu mandato foi estimado em 218.220 caixas, no valor de 28 milhões de florins.
Nassau observou que o segredo de governar Pernambuco foi lembrar aos comerciantes holandeses a importância objetiva do seu dinheiro e dos seus bens para as suas vidas. Enquanto aos portugueses ele buscava tratá-los com cortesia e polidez excessiva e não com justiça rigorosa e imparcial.
Dança dos Tapuias, índios aliados dos holandeses. Quadro de Albert Eckhout
Os fazendeiros portugueses, segundo ele, eram em sua maioria “muito pobres e muito orgulhosos”. Nassau substituiu os vereadores portugueses pelos magistrados e subdividiu as capitanias em distritos, locais onde as câmaras neerlandesas se fixariam posteriormente. Durante o governo de Nassau a paz entre luso-brasileiros e os neerlandeses se estabeleceu no Brasil e este período ficou conhecido como “Idade do Ouro”.
Mudanças Importantes
Nesse meio tempo, em dezembro de 1640, um complô aristocrático liquidou 60 anos de domínio espanhol sobre Portugal. A revolta bem sucedida foi rapidamente seguida pela adesão de todas as colónias portuguesas (com exceção solitária de Ceuta, até hoje uma das últimas possessões espanholas). Em Junho de 1641 Portugal e a Holanda celebram um tratado de trégua de dez anos quanto às respectivas colônias. No Brasil esta trégua foi vista de forma negativa por ambos os lados.
Dom João IV se tornou o primeiro monarca português da Casa de Bragança e isso apresentou os holandeses com um delicado problema diplomático. Por um lado saudaram o enfraquecimento de seu inimigo tradicional espanhol (com quem os batavos só fizeram a paz em 1648), mas por outro lado eles estavam relutantes em parar seus ataques rentáveis na desintegração do Império Colonial Português.
Antes da trégua de dez anos entrar em vigor os neerlandeses tiveram o cuidado de dominar tanto território ultramarino Português quanto fosse possível. Maurício de Nassau por recomendação dos diretores da Companhia das Índias Ocidentais mandou ocupar Sergipe e o Maranhão.
Naturalmente esta atitude foi vista de forma muito amarga pelos portugueses, que ao se livrarem jugo espanhol esperavam poder até voltar a dominar parte do que eles tinham perdido no nordeste do Brasil, ou por negociação mediante compra, ou por troca.
Nisso outros problemas foram prejudicando os holandeses no Brasil.
Membro de um grupo de reencenação histórica, com uniforme típico holandês do século XVII.
Devido a fortes enchentes, a safra de açúcar entre 1641 e 1642 foi baixa. A escravaria foi atacada por uma praga de “bexigas” (varíola) vinda de Angola. A queda dos preços do açúcar refletiu-se no valor do preço dos imóveis em Recife, que se reduziu em 1/3. A receita fiscal da Companhia caiu na mesma proporção. Em quatro anos, o tráfego marítimo com a metrópole se reduziu de 56 para 14 embarcações anuais.
Após sete anos, mesmo tendo desenvolvido uma política conciliadora e tolerante, Nassau não conseguiu impedir contradições insolúveis. Divergências entre sua forma de governar e os lucros esperados pela Companhia levaram-no a deixar o cargo e retornar à Holanda e ele partiu em 23 de maio de 1644. A saída de nassau foi lamentada por toda a colônia e marcou o início do declínio da Holanda Brasil.
Logo os novos dirigentes holandeses que sucederam Nassau, sem considerar o testamento político realizado anteriormente pelo príncipe, passaram a cobrar a liquidação das dívidas aos produtores de cana inadimplentes. Senhores de engenho e lavradores de cana deviam à Companhia 5,7 milhões de florins e começou a existir a ideia que somente expulsando os batavos é que “se livrariam das dívidas”. Em meio à crise social e econômica, a animosidade mútua entre rígidos calvinistas e católicos fanáticos aumentou rapidamente.
A Rebelião
Consta que em 15 de maio de 1645 (para outros foi em 23 de maio) dezoito líderes insurretos, liderados por João Fernandes Vieira, se reuniram no Engenho de São João, onde assinaram um compromisso para lutar contra o domínio holandês. Afirma-se que neste documento foi escrito pela primeira vez o vocábulo pátria em terras brasileiras.
Retrato anônimo de João Fernandes Vieira, século XVII, Museu do Estado de Pernambuco.
O líder João Fernandes Vieira era ex-sócio dos holandeses no tempo de Nassau e o segundo maior devedor da Companhia quando assumiu a liderança dos insurretos. Uma das primeiras medidas de João Fernandes foi decretar nulas as dívidas que os rebeldes tinham com os holandeses. Houve grande adesão da “nobreza da terra”, entusiasmada com esta “proclamação heroica”.
A rebelião explodiu em 13 de junho de 1645, dia de Santo Antônio de Lisboa. Uma Guerra de Reconquista, ou Guerra de Restauração, que sangrou basicamente Pernambuco por nove anos.
Teoricamente as chances holandesas de eventualmente esmagar a rebelião continuavam excelentes. Estes possuíam o domínio indiscutível do mar, uma vez que os insurgentes não tinha um barco maior do que uma canoa à sua disposição. Mas embora os holandeses pudessem aliviar Recife, ou mesmo bloquear Salvador, eles não fizeram maiores esforços para afastar e dominar os insurgentes.
Embora os insurgentes pedissem auxílio ao rei D. João IV, o monarca português não podia dar ao luxo de antagonizar os holandeses, ajudando abertamente seus súditos no Brasil. Em público ele abandonou a colônia, enquanto secretamente enviava homens e suprimentos por meio da Bahia.
As mal armadas caravelas portuguesas, que levaram estes reforços periódicos, foram frequentemente interceptados pelos holandeses, cujos corsários também realizavam estragos contra os barcos que transportavam açúcar e se dirigiam para Portugal. 249 navios portugueses foram tomados entre 1647 e 1648. Se as perdas portuguesas continuassem neste ritmo a rebelião teria inevitavelmente em colapso, já que não havia uma indústria de armas no Brasil.
Vitória Luso-brasileira
O ponto decisivo da luta veio em abril de 1648, justamente quando as coisas pareciam ficar mais difíceis para os luso-brasileiros. Em março deste ano fortes reforços holandeses chegaram a Recife. Mas um grave problema existia no seio da tropa – os oficiais dos reforços recém-chegados tinham recebido um bônus considerável em dinheiro, ao passo que os soldados não tinham recebido nada e os salários estavam em grande parte atrasados. Muitos dos homens que compunham as tropas batavas se recusaram a lutar no dia da batalha, gritando “deixar que aqueles que foram pagos vão a luta; não vamos lutar sem remuneração”.
As Batalhas dos Guararapes, episódios decisivos na Insurreição Pernambucana, são consideradas a origem do Exército Brasileiro. Quadro de Domingos Meireles – Fonte – pt.wikipedia.org
Foi quando em 19 de abril ocorreu a derrota holandesa nos Guararapes!
Os holandeses ainda nem tinham se recuperado deste revés quando veio a notícia da perda de Luanda, em Angola, recapturada em agosto por um esquadrão Português vindo do Rio de Janeiro.
O desastre de Guararapes se repetiu em fevereiro de 1649, em situações ainda pior, mostrando a disposição dos portugueses e dos brasileiros nativos em expulsar os hereges. A partir deste momento os holandeses ficaram praticamente confinados em Olinda e Recife.
Apesar destas derrotas em terra, o resultado da luta ainda estava em jogo. A força naval holandesa permaneceu esmagadoramente superior a de Portugal, mas a eclosão da guerra anglo-holandesa em 1652 (a chamada Primeira Guerra Anglo-Holandesa e travada inteiramente no mar) impediu um esforço realmente determinado de reconquistar Pernambuco. Esta guerra deu a D. João IV a chance de ajudar abertamente os combatentes luso-brasileiros em Pernambuco.
Uma frota partiu de Lisboa para o Brasil em Outubro de 1653 e recebeu ordens de não apenas bloquear Recife a partir do mar, mas de “invadir o local”. Foi uma oportunidade fugaz, mas muito valiosa para Dom João IV. Quando em dezembro a frota chegou diante de Recife e desembarcou homens para reforçar os insurgentes em terra, a guarnição e burgueses holandeses praticamente perderam a vontade de lutar.
Em 26 de janeiro de 1654 os termos da capitulação foram assinados em Recife e todos os outros fortes e lugares ainda em mãos dos holandeses ao longo da costa do nordeste brasileiro se renderam, com todas as honras de guerra, a Francisco Barreto, o comandante de campo português.
Era o fim da ocupação holandesa no Brasil.
Conclusão
O tratado de paz que Portugal concluiu em 1661 com a Holanda (sob forte pressão inglesa), fez os holandeses reconhecerem formalmente a perda de sua colônia sul-americana. Mas o desastre de 1654 marcou duramente este povo em todo o mundo.
Quando prisioneiros holandeses encarcerados pelos portugueses em Goa, na Índia, foram informados da derrota no Brasil, eles se recusaram a acreditar. Comentavam desesperados que “um dia o português pode levar Amsterdam, mas Recife nunca!”. Mas levaram!
Houvessem os holandeses continuado e ampliado a politica administrativa desenvolvida por Mauricio de Nassau, talvez o nordeste brasileiro jamais tivesse voltado a ser português e toda a história holandesa poderia ter cambiado drasticamente.
Mais tarde, gerações de holandeses consideravam que a verdadeira negligência em na perda territorial do nordeste do Brasil foi o fim da idade de ouro da expansão colonial holandesa, que tinha começado com a fundação da Batávia por Jan Pieterszoon Coen, na atual Indonésia, em 1619.
Após a chegada da Corte portuguesa, em 1808, o Rio de Janeiro não teve do que reclamar. Dom João VI e seu séquito transformaram a cidade no centro do Império Português. Ela passou a receber impostos vindos das outras regiões do Brasil e a desfrutar de todas as vantagens do sistema colonial. Se antes os brasileiros odiavam o controle exercido por Lisboa, agora era a supremacia do Rio que causava indignação. Na região norte (que hoje chamamos de Nordeste), o ressentimento com a corte era enorme. As cidades de lá não viam vantagem em mandar tanto dinheiro para o sul. Entre as taxas, havia uma destinada a financiar a iluminação das ruas do Rio. Não é surpresa que ela tenha se tornado o grande símbolo da exploração.
Em nenhum lugar a revolta foi tão contundente como em Pernambuco. Entre 1817 e 1824, a província se manteve em estado de rebeldia constante, tornando-se uma pedra no sapato do rei português dom João VI e, depois, do imperador brasileiro dom Pedro I. Mas o que a elite pernambucana que promoveu esta revolta tinha de tão diferente e tão comum ao resto do país?
Para começar, entre 1630 e 1654, a então capitania tinha sido governada pelos holandeses. Os invasores foram expulsos pelos pernambucanos, que, em vez de proclamar independência, optaram por voltar a ser colônia de Portugal. Ao fazer isso, eles se sentiram senhores do seu próprio destino. Pernambuco estaria submetida à Coroa por opção. “Enquanto entre El Rei e os demais colonos prevaleceria urna sujeição natural, os pernambucanos manteriam com a monarquia um vínculo consensual, ao se haverem libertado dos Países Baixos mercê de uma guerra travada por seus próprios meios, havendo assim retornado à suserania lusitana de livre e espontânea vontade”, diz o historiador Evaldo Cabral de Mello no livro A Outra, Independência.
Esse gosto pela autonomia nascido no século 17 alimentou o ódio de Pernambuco às imposições da Corte. Para completar, a vinda de dom João VI coincidiu com um período inédito de prosperidade. No início do século 19, graças à produção de algodão, Pernambuco era uma das partes mais ricas do país. Do outro lado do oceano, Inglaterra e França viviam a Revolução Industrial e precisavam alimentar suas frenéticas fábricas de tecido. Os pernambucanos embarcavam sua produção no porto de Recife diretamente para o Velho Mundo (e para os Estados Unidos). Mas não podiam fazer isso sem prestar contas à Corte.
Nota do jornal Correio Braziliense, sobre a revolta pernambucana de 1817
O algodão fez com que Recife se firmasse, ao lado de Salvador, corno grande entreposto comercial. “Recife tinha grande influência sobre Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e Alagoas”, diz Eduardo Schnoor, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. Naquele intercâmbio não circulavam só mercadorias. Os comerciantes estrangeiros que aportavam em Recife traziam um bocado de novas idéias. E algumas delas não combinavam nada com a situação colonial, como os princípios de liberdade e igualdade que haviam inspirado a independência americana, em 1776, e a Revolução Francesa, em 1789. Quando esses ideais se juntaram à indignação diante dos impostos, o caldeirão revolucionário começou a ferver.
República
As lojas maçônicas, que pipocavam no Recife, serviam como local de discussão das idéias liberais e de reuniões que planejavam complôs contra a Coroa. Diante do clima de conspiração, em 6 de março de 1817, o governante da província, Caetano Pinto de Miranda Montenegro, mandou prender diversos suspeitos de querer implantar uma república em Pernambuco. Mas o tiro saiu pela culatra. Ao receber voz de prisão, o capitão de artilharia José de Barros de Lima matou seu comandante e saiu às ruas acompanhado por soldados. Libertou os conspiradores e ajudou a prender o governador. No dia 7 de março, foi implantado um governo provisório. Assim que assumiram o poder, os rebeldes divulgaram uma Lei Orgânica. As novidades não eram poucas: a província virava uma república, independente de Portugal. O texto estabelecia ainda a liberdade de imprensa e a igualdade de direitos, mas não ousava mexer com a escravidão.
A república pernambucana buscou apoio no exterior. Enviou emissários à Argentina e aos Estados Unidos, propondo acordos comerciais e pedindo reconhecimento. Ao mesmo tempo, os revolucionários criaram uma bandeira própria e difundiram o costume de chamar os cidadãos de “patriota”. Mas nem todos aceitaram as mudanças. No norte da província, os produtores de algodão eram mais receptivos aos novos ideais políticos — muitos deles haviam estudado na Europa. Já no sul predominavam decadentes fazendeiros de cana-de-açúcar, cujo interesse era preservar o sistema colonial, pois o açúcar ainda tinha Portugal como principal freguês.
Assim que soube da insurreição, dom João VI mandou suas tropas reprimirem o movimento – que já havia atingido a Paraíba e o Rio Grande do Norte. Durante os combates, as forças da Coroa contaram com a ajuda de milícias organizadas pelos senhores de engenho e a revolução foi sufocada em dois meses. O capitão José de Barros de Lima e outros rebeldes foram enforcados pelo crime de alta traição. Seus corpos foram esquartejados e tiveram partes expostas em diferentes cidades. Mas a brutalidade não foi capaz de conter o ânimo dos pernambucanos. Mesmo derrotada, a Revolução de 1817 colocou o norte na vanguarda do movimento de independência do Brasil. Enquanto o sul havia visto apenas inconfidências esmagadas nos estágios iniciais, Pernambuco havia acabado de ensaiar uma experiência autônoma de governo.
O Carmelita Miguel de Almeida e Castro, conhecido como Frei Miguelinho, era potiguar de Natal e teve participação ativa na revolta de 1817 em Pernambuco. O quadro mostra seu julgamento em Salvador, onde foi condenado a morte pelo fuzilamento e a pena cumprida no dia 12 de junho de 1817. É nome de cidade em Pernambuco e sua memória é muito cultuada no Rio Grande do Norte.
Depois de enfrentar a rebeldia pernambucana, dom João VI teve que cuidar de um novo levante. Dessa vez foi em Portugal: a Revolução Liberal do Porto, que começou em agosto de 1820. O movimento exigiu o retorno do rei, elegeu uma assembléia que limitou os poderes da monarquia lusa e, na prática, passou a controlar o Império Português. Em março de 1821, dom João VI foi para Lisboa e deixou aqui o filho
Pedro, na condição de príncipe regente do Brasil. No mesmo ano, a assembléia tirou da cadeia os envolvidos na Revolução de 1817 que estavam presos.
No dia 26 de outubro de 1821, seguindo a orientação da assembléia portuguesa, foi escolhida a primeira Junta de Governo de Pernambuco. Seu líder, Gervásio Pires, era um ex-revolucionário de 1817. Depois de tanto lutar, os pernambucanos pareciam ter encontrado sua liberdade. Afinal, eles não precisavam mais engolir governadores nomeados por dom João VI. A Junta de Gervásio, como ficaria conhecida, investiu na educação, instituiu o concurso como forma de escolher funcionários públicos e parou de enviar tributos à Corte.
Tela do carioca de Niterói Antônio Diogo da Silva Parreiras (1860-1937) sobre a revolta de 1817
Enquanto isso, no Rio de Janeiro, um novo projeto estava sendo criado para o Brasil. Seu principal articulador era o político José Bonifácio de Andrada e Silva. Para ele, o país devia se tornar independente, com as províncias unidas sob o comando do príncipe Pedro. Os pernambucanos novamente se dividiram. Alguns gostaram dos planos de Bonifácio. Já Gervásio e outros preferiam manter os laços frouxos com Lisboa. Eles anteviam que, com a independência, o poder voltaria a se concentrar no Rio e a autonomia da província chegaria ao fim.
Em 1° de junho de 1822, chegou ao Recife uma comitiva vinda do Rio. O grupo obrigou Gervásio a reconhecer que dom Pedro era o líder máximo do Brasil. Apesar disso, a Junta continuou se opondo à independência. A experiência bem-sucedida de Gervásio tinha feito os pernambucanos gostarem ainda mais de controlar o próprio destino. O problema é que, em 7 de setembro, o príncipe regente resolveu se tornar dom Pedro I, imperador do Brasil. Dias depois da independência, um golpe em Pernambuco tirou Gervásio do poder. Em 17 de setembro de 1822, uma nova junta, dominada por senhores de engenho e alinhada ao Rio de Janeiro, assumiu o controle da província, no que ficou conhecido como o Governo dos Matutos.
Confederação
O Brasil precisava de novas leis. Em 1823, foi eleita uma Assembléia Constituinte, que se reuniu no Rio de Janeiro. Mas, em 12 de novembro, dom Pedro I ordenou seu fechamento. Os temores haviam se concretizado: o imperador não estava muito a fim de dividir seu poder. Em Pernambuco, a reação veio rápido. O Governo dos Matutos foi derrubado e, em 13 de dezembro, as câmaras municipais de Recife e Olinda elegeram uma junta de governo. À frente dela estava Manuel de Carvalho. Veterano da Revolução de 1817, ele havia se refugiado nos Estados Unidos, onde se encantara com o grau de autonomia dos estados. Era isso o que muitos pernambucanos queriam para o Brasil. Mas, em 25 de março de 1824, o imperador entregou ao país uma nova Constituição. No texto, dom Pedro I estava acima do povo e de qualquer instituição. E era ele, claro, quem deveria escolher os presidentes das províncias.
Bênção das bandeiras da Revolução de 1817, de Antonio Parreiras.
Para Pernambuco, o imperador nomeou José Carlos Mayrink. Em meio à agitação na província, entretanto, o escolhido não teve coragem de assumir. Dom Pedro I mandou uma esquadra bloquear o porto de Recife enquanto o poder não fosse passado a Mayrink. Os pernambucanos continuaram irredutíveis até que, em junho, a frota teve de voltar ao Rio por causa de uma suposta ameaça de invasão portuguesa.
Com o fim do bloqueio, Manuel de Carvalho propôs que as províncias do norte se unissem para formar um país independente. Em 2 de julho de 1824, nascia a Confederação do Equador, inspirada nos Estados Unidos. Um dos membros mais destacados do movimento foi Frei Caneca. Com sua influência religiosa, ele conseguiu o apoio de Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, que aderiram à Confederação.
Em pouco tempo, as notícias sobre o levante começaram a queimar o filme do Brasil no exterior. Nem todas as grandes nações da época haviam reconhecido a autoridade de dom Pedro I e a revolta não ajudava em nada a diplomacia. Em agosto, tropas imperiais desembarcaram em Alagoas e de lá foram para o Recife, seguindo o mesmo caminho de 1817. E, como na primeira revolta, os senhores de engenho ajudaram a derrubar os rebeldes.
“Estudo para Frei Caneca”, de Antônio Parreiras (1918).
A Confederação foi extinta em 29 de novembro. Carvalho foi poupado e fugiu para a Inglaterra, enquanto outros líderes da insurreição foram executados. No Rio de Janeiro, a Corte respirava aliviada com a manutenção de seu poder sobre todo o país. Mas vivia com medo dos pernambucanos. O conservador Diário Fluminense advertiu que a repressão deveria ser dura, pois a tranqüilidade poderia não durar. “E o sono do leão adormecido (…) pela perda de sangue. Repousou seis anos depois da primeira queda. Como se levantou? Mais atrevido e mais insultador do que nunca.”
Mas nos escravos ninguém mexe – A liberdade não era para todos os pernambucanos
A Revolução de 1817 era liberal, mas os grandes proprietários de terra, nem tanto. A idéia de perder toda a mão-de-obra escrava sob decreto de um novo regime afastava muitos fazendeiros do movimento e neste aspecto esta elite agrária em nada diferia do resto da elite brasileira.
Os líderes rebeldes sabiam que o apoio deles era fundamental e não incluíram a abolição em suas propostas. “A questão escravocrata foi secundária entre as idéias que dominaram a revolução de 1817″, diz o historiador Eduardo Schnoor. O Governo Provisório não tocou no assunto, mas os senhores de escravos não ficaram satisfeitos.
Para desmentir rumores de que os negros seriam libertados, as novas autoridades disseram que uma eventual emancipação dos escravos seria feita de forma “lenta, regular e legal”. E, para que os fazendeiros tivessem certeza de que nada ia acontecer, havia um adendo: “a base de toda sociedade regular é a inviolabilidade de qualquer espécie de propriedade”. Sete anos depois, a Confederação do Equador foi um pouco mais ousada. O líder Manuel de Carvalho não chegou a abolir a escravidão, mas suspendeu o tráfico negreiro em Pernambuco.
No dia 24 de maio de 1926, decolava da base aeronaval americana de Miller Field, em Nova York, um hidroavião Savoia-Marchetti S 59, pintado com as cores azul e branco, sendo conduzido por três ocupantes e seguindo em direção sul, estava decolando o “Buenos Aires”.
O Projeto de um Herói da Aviação na Primeira Guerra Mundial
A ideia desta viagem tivera início em 1925 e tinha como objetivo abrir uma rota aérea para futuros voos com passageiros. Os autores desta ideia foram os pilotos Eduardo Olivero, e Bernardo Duggan.
Eduardo Olivero
Olivero nasceu em 2 de novembro de 1892, em Tandil, uma cidade argentina localizada na província de Buenos Aires, a cerca de 350 km da capital do país. Ele era filho de italianos emigrados para o país platino e durante a Primeira Guerra Mundial utilizou-se de sua segunda nacionalidade para lutar entres as tropas italianas, atuando na função de piloto de combate. Ascendeu ao posto de tenente na denominada “Esquadrilha Baracca” e completou 553 voos de combate. Destes voos 156 foram missões de caça, 262 patrulhas de combate, 61 escoltas de reconhecimento e de aviões de bombardeio. 11 missões de reconhecimento estratégico, 14 missões de ataque terrestre contra concentrações de infantaria austríacos e uma missão para derrubar um balão de observação do tipo Draken. Documentos apontam que Olivero participou de 25 combates aéreos, em que derrubou nove aviões inimigos. No fim da guerra é promovido a capitão.
Julio Campanelli, Eduardo Olivero e Bernardo Duggan
Entre o fim da Primeira Guerra e o ano de 1924 Olivero participa de diversos raids aéreos na Argentina e experiências de voo em grande altitude, visando um melhor aproveitamento aéreo sobre a Cordilheira do Andes. Em uma delas sofreu um grave acidente que lhe deixou sequelas. Em 1924 realiza diversas experiências com radiofonia aérea. Em 1925 inicia os preparativos, junto com Duggan, do Raid aéreo Nova York – Buenos Aires.
Por aqueles dias a incipiente rota Nova York – Buenos Aires era uma das mais difíceis, recheada de inconvenientes e problemas, principalmente diante das características técnicas dos aviões existentes na época. Olivero e Duggan, concluíram que, para terem um melhor êxito deveriam tentar repetir o trajeto realizado pelo tenente do Corpo de Aviadores dos Estados Unidos, Walter Hinton. Vale lembrar que Hinton, junto com o brasileiro Euclides Pinto Martins, haviam partido, em 1922, da mesma Nova York, em direção ao Rio de Janeiro, no hidroavião Curttis, batizado como “Sampaio Correa”, sendo esta a primeira aeronave a voar sobre o território potiguar. O americano, o brasileiro e mais três tripulantes conseguiram realizar o seu intento, mesmo com muitos problemas.
Na foto vemos o norte americano Walter Hilton e o cearense Euclides Pinto Martins, que possuía forte ligação com o Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção do autor
Com os dados das viagens de Hinton, os argentinos começaram a traçar a sua rota. Decidiram, como a maioria dos aviadores da época, por utilizar um hidroavião. Concluíram que a aeronave ideal seria o Savoia-Marchetti S 59.
Na Itália, acompanham a construção e entrega de sua aeronave que contava com motores de 400hp de potência, a portentosa velocidade máxima de 176 km/h, autonomia de 1.400 km e uma carga de total de 900 litros de combustível. Isso tudo sem rádio e outras máquinas de apoio ao voo.
Finalmente o hidroavião é completado com as tradicionais cores nacionais argentinas e despachado através de navio para Nova York. Neste momento junta-se aos dois argentinos Julio Campanelli, executando o trabalho de mecânico.
Partindo da Terra do Tio Sam
Nos Estados Unidos são tratados com honras, recebendo apoio incondicional das autoridades locais, inclusive com liberação de aterrissagem em bases americanas durante o trajeto.
O hidroavião Buenos Aires
Realizam várias provas e no dia 24 de maio de 1926, decolam em direção sul, com a primeira parada será em Chaleston, no estado da Carolina do Sul, depois Miami, seguindo para Havana, em Cuba. Neste país passam ainda pelas cidades de Cienfuegos e Guantanamo. Depois seguem para Porto Príncipe, no Haiti, aonde são ovacionados por grandes multidões, depois Santo Domingo, na Republica Dominicana, seguindo na seqüência para San Juan (Porto Rico), Ilhas Virgens, Montserrat, Guadalupe, Martinica e Trinidad e Tobago. Neste ponto deixam de sobrevoar as paradisíacas ilhas caribenhas e atingem a América do Sul pela Guiana Inglesa (atual Guiana), chegando a capital Gorgetown, depois Paramaribo, na Guiana Holandês (atual Suriname), em seguida Caiena, na Guiana Francesa. A partir deste ponto ocorreria o incidente mais grave de todo o trajeto.
Barca paraense “Juruna”, vendo sentados, da esquerda para direita, Duggan, Olivero, Mestre Josino Campos (comandante do barco) e Campanelli, no porto de Belém em 1926.
Existem duas versões para o que aconteceu com o hidroavião ao sobrevoar o trecho Caiena – Belém.
Uma delas afirma que o “Buenos Aires” teve um problema no motor e teve que pousar no Oceano Atlântico, de frente as costas brasileiras, sendo resgatados por um pequeno barco pesqueiro, o “Juruna”, que os reboca para uma ilha, na qual o mecânico Camapanelli pode concertar a aeronave e seguirem para Belém.
A outra versão afirma que as faltas de mapas detalhadas da região para uma melhor navegação, além de chuvas torrenciais, fazem a tripulação do “Buenos Aires”, aparentemente, perder seu rumo, pois os mesmos se vêm com uma completa falta de combustível, tendo que pousar em um rio da região aonde os pilotos são resgatados pelo mesmo “Juruna”. O certo é que durante alguns dias o mundo desconhece o paradeiro dos três argentinos, preocupando todos que acompanhavam o raid, Após os sete dias de parada eles seguem para Belém e lá são recepcionados como heróis.
Visão atualizada do que os aviadores do Buenos Aires observaram de Natal
Na continuidade do seu trajeto no Brasil seguiram a costa norte brasileira em direção ao Rio Grande do Norte e no dia 11 de julho de 1926 pousam no Rio Curimataú, na região da Praia de Barra de Cunhaú. Mas apenas sobrevoaram Natal as 11:20 da manhã, do dia 11 de julho de 1926.
A Segunda Aeronave em Céus Potiguares
Qual teria sido a razão dos argentinos terem ido direto para Barra de Cunhaú e não para a capital?
Natal (30.000 habitantes na época) possuía razoáveis serviços de apoio e o Rio Potengi era uma ótima opção para pouso, mas provavelmente neste ponto de uma viagem já bem atrasada, os aviadores tenham decidido utilizar os mesmos locais de pouso e trajeto realizados no mês de janeiro do mesmo ano, pela tripulação espanhola do Dornier Val “Plus Ulta”, que concluirá seu raid Espanha – Argentina, em 10 de fevereiro de 1926. Apesar de Olivero e Duggan não estarem na Argentina no momento da chegada dos espanhóis, foi repassado a eles o roteiro dos pousos do aeroplano espanhol em terras brasileiras. Nesse caso Recife, e não Natal, era o destino normal após a decolagem do Ceará. Outra razão poderia ser creditada a falta de um conhecimento mais apurado das qualidades de Natal como destino. Recife, por ser uma cidade mais desenvolvida e conhecida no exterior naquele período, era o destino mais correta para os pioneiros aviadores. Vale lembrar que o raid dos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, mesmo após os acidentes ocorridos no trajeto, seguiram direto para Recife.
Quem tem a oportunidade de voar sobre a costa potiguar, entre a Natal e a fronteira da Paraíba, percebe que além do Rio Potengi e da Lagoa de Guaraíras, o Rio Curimataú, que desemboca em Barra de Cunhaú, é um dos melhores pontos para o pouso de um hidroavião. Devido a estes fatos, parece-nos razoavelmente possível acreditar que, neste período (primeira metade do ano de 1926), Natal ainda não gozava de todo reconhecimento e prestígio no meio aviatório mundial. Fato que mudaria consideravelmente já no ano de 1927.
Na bela região de Barra de Cunhaú os aviadores receberam total apoio do coronel Luiz Gomes, chefe político da cidade mais próxima, Canguaretama, e só seguiram viagem na manha de 13 de julho. Eles partiram para Cabedelo, na Paraíba, depois Recife, Maceió e Aracaju. Na sequência realizaram um percurso mais longo até a cidade litorânea de Prado, na Bahia, pousando no rio Jucuruçu. De Prado, seguem para o Rio de Janeiro, Santos, Cananéia, Florianópolis e Porto Alegre.
Na capital gaúcha Olivero recebe a notícia que fora promovido a major do exército italiano. Apenas outra jogada de marketing do histriônico ditador italiano Benito Mussolini, aproveitando as manchetes mundiais sobre este voo.
Depois do Brasil, os argentinos seguem para Montevidéu e depois a Buenos Aires. São escoltados na chegada pelo hidroavião espanhol Dornier Val “Plus Ultra”, orbitam sobre a capital Argentina e pousam com suavidade no Rio da Prata, tendo percorrido 14.856 km, em 114 horas de voo efetivo. A cidade parou para receber os seus heróis, tendo muitas bandeiras nos edifícios e muitas autoridades presentes no desembarque dos aviadores.
Atualmente o Museu do Forte Independência, em Tandil, guarda peças históricas do mais importante raid argentino de longa duração.
– Dedico este texto ao amigo German Zaunseder, compatriota dos aviadores do “Buenos Aires” e um grande pesquisador da aviação potiguar e da Segunda Guerra Mundial em Natal, cidade em que decidiu viver com muita satisfação.
Um amigo em comum me comunicou o recente falecimento de uma pessoa que me fascinou pelo seu amor e dedicação pela história.
No último dia 14 de novembro de 2014, no município pernambucano de Macaparana, seguiu para o plano superior o Professor, Historiador e Pastor evangélico Geraldo Batista dos Santos.
Homem de extrema sensibilidade para a importância da preservação e democratização da informação histórica, não mediu esforços na busca de documentos, objetos e informações sobre o passado de sua terra natal, a cidade pernambucana de Macaparana, na região da Zona da Mata Norte. Mestre Geraldo, sem nenhum apoio, chegou mesmo a criar um museu em sua própria casa.
Mestre Geraldo em sua casa, recebendo, entre outras pessoas, Fernando leitão de Moraes, seu filho Hermano Moraes e o autor deste artigo.
Entre 2011 e 2012 eu tive oportunidade de conhecê-lo no lugar Pirauá, um pequeno e belo distrito de Macaparana. Fui ao seu encontro na companhia de Fernando Leitão de Moraes, nativo desta região, que desde a década de 1960 vive em Natal, onde se integrou a nossa sociedade, trabalhou no BNB e criou seus filhos. Na época eu havia sido contratado pelo Deputado Estadual Hermano Moraes, um dos filhos de Seu Fernando, para produzir a biografia do seu pai, em comemoração ao seu 80º aniversário.
De Pirauá e Macaparana eu não conhecia absolutamente nada! Mas além de me encantar com uma região serrana particularmente bela, conheci maravilhosos detalhes de sua história na companhia de Mestre Geraldo. Ele contou-me sobre os primeiros engenhos de cana de açúcar, da ocupação dos brancos naquela área, das lendas, dos escravos e das passagens dos cangaceiros de Antônio Silvino por aquele pedaço de Pernambuco no início do século XX.
Ele me mostrou com enorme satisfação o calhamaço de seu livro “Macaparana Centenária”, que conta grande parte da história local e não foi publicado. Segundo ele por falta de apoio.
Além do amplo conhecimento histórico, do seu belo trabalho de conduzir as ovelhas em direção ao evangelho, Mestre Geraldo mostrava com intenso entusiasmo o museu que criou em sua casa.
Para mim aquele contato, totalmente aberto e tranquilo por parte daquele pernambucano maravilhoso, me abriu a mente e me mostrou o caminho para produzir “Da serra dos canaviais à cidade do sol”, meu terceiro livro.
Talvez para algum membro de alguma universidade, com um extenso currículo na Plataforma Lattes, o que Mestre Geraldo tinha era um “ajuntamento de peças”. Mas aquele homem estava muito distante do sectarismo rombudo e ignorante em relação à democratização do conhecimento, que infelizmente permeia muitas Academias. Para ele o maior prazer em possuir seu museu era receber os jovens estudantes da região, para difundir e apresentar as histórias do seu lugar.
Rifle Winchester 44 que teria pertencido a um dos cangaceiro do grupo de Antonio Silvino.
Entre as peças do seu simples museu havia uma que particularmente me chamou atenção – um rifle Winchester, calibre 44, cano sextavado, que havia sido deixado (ou perdido) por um dos cangaceiros de Antônio Silvino em um combate perto de Macaparana.
Como Geraldo Batista dos Santos, existem inúmeras pessoas que possuem uma enorme abnegação pela história. É gente espalhada por vários rincões deste Brasil, que muito faz para manter a memória de seus lugares e quase nada de apoio recebem. Isso quando não são taxados de doidos e excêntricos!
Agora o mais interessante que vejo em relação a estes “guardadores inúteis de história”, como assim me definiu um professor da UFRN, após realizarmos uma visita a um destes abnegados na região do Oeste Potiguar, é que na hora que os “Mestres” e “Doutores” da Academia necessitam de informações, não raramente recorrem a estas maravilhosas pessoas.
Igualmente, após sugarem o conhecimento destas pessoas boas e honestas, quase nada fazem por elas e pela sua luta pela história.
E no meu caso, que também bebi da fonte, o que deixei para Geraldo Batista dos Santos?
Quando lá retornei para uma segunda e última visita, lhe deixei apenas duas coisas; meus livros e um material produzido pelo IBRAN – Instituto Brasileiro de Museus, onde estava o Estatuto dos Museus e as regras e caminhos para conseguir apoios e financiamentos para a instituição destes locais de memória.
Não sei se Mestre Geraldo utilizou este material ou leu meus livros!
Mas jamais poderia deixar de louvar uma pessoa com uma vida dedicada a Deus e a preservação da memória local. Que difundiu, expôs e preservou a cultura da região do seu jeito, fazendo os mais jovens conhecerem e se emocionarem com o passado.
Corrida de vaqueiros no meio da caatinga da Fazenda Barreiros – CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR
Este fim de semana estive no Pajeú com o amigoLuiz Dutra. Lá estivemos juntos dos muitos amigos que lá tive o privilégio de conhecer. Pessoas maravilhosas que lutam e valorizam a história nordestina e a nossa cultura. O empresário Francisco Mourato organizou e realizou com vários amigos a Cavalgada da Serra Grande, onde um grupo de 40 cavaleiros trilharam os antigos caminhos dos almocreves e passaram pelo cenário do maior combate da história do cangaço. A cavalgada encerrou na Fazenda Barreiros, do nosso amigoAlvaro Severoonde os cavaleiros assistiram uma corrida dos tradicionais vaqueiros pela caatinga e provaram do interessante e gostoso “bode enterrado”, um prato antigo, utilizado pelos cangaceiros do grupo de Lampião. Para mim é uma satisfação desfrutar da amizade e da extrema receptividade dos amigos da região do Pajeú Pernambucano. Melhor ainda é podemos trabalhar juntos em prol da nossa história e nossa cultura, pois nesta luta somos todos NORDESTINOS. Um grande e forte abraço aZel Ferraz, Patrícia Noia da Silva, Patricia Cruze ao amigoAndré Vasconcelos, responsável por me apresentar as maravilhas do Pajeú. A reportagem que segue mostra um pouco do que foi esta interessante cavalgada –
Tradição e renovação na Fazenda Barreiros, Serra Talhada, Pernambuco
Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte
A região do Seridó Potiguar nunca foi pródiga na formação de cangaceiros, nem ocorreram surtos sérios deste fenômeno de banditismo social. Contudo, existiram alguns cangaceiros originários desta região, basicamente ligados ao bando de Antônio Silvino. Um deles foi Gitirana, cujo nome real era Bento Gomes de Lira. Nascido em Catolé do Rocha em 1889, entrou no bando de Silvino aos 18 anos de idade, permanecendo nas correrias pelo sertão até 1910. Segundo o pesquisador Adauto Guerra Filho, autor do livro “O Seridó na memória de seu povo”, Gitirana faleceu em 1978, sem ter concedido nenhuma entrevista sobre o assunto, pois não gostava de falar de sua passagem pelo cangaço. Apenas declamou versos sobre o seu ex-chefe e suas lutas. Aparentemente Gitirana viu muita coisa interessante no período que esteve no bando, mas calou-se e praticamente se encontra esquecido para aqueles que se debruçam sobre este tema.
Diferentemente foi o caso de Francisco Nicácio da Silva, nascido em 9 de dezembro de 1893, na Fazenda Coelho, atualmente município de São Fernando, Rio Grande do Norte. Nicácio vivia com seus pais e quatro irmãos uma infância aparentemente tranquila, caçando nas terras das Fazendas Coelho e na vizinha Saboeiro, nas imediações dos riachos da Roça e da Pitombeira. Um dia foi mordido por uma jararaca, passando a ser conhecido pelo apelido que o tornaria conhecido no cangaço; Chico Jararaca.
A propriedade Coelho pertencia a familiares de Joaquim Saldanha, conhecido como Quincas Saldanha, rico fazendeiro que tinha Catolé do Rocha como sua área de atuação política. Quincas Saldanha era um chefe político de atitudes violentas e prepotentes, possuindo numeroso bando de “cabras” a sua disposição e prontos a cumprir suas ordens.
Controvérsias
Como sua família era “gente” de Quincas Saldanha, seguindo a risca as ordens do chefe, não é difícil de compreender a razão de Chico Jararaca fazer parte de um grupo de sete “cabras” que seu patrão levou para Serra Negra do Norte, no Rio Grande do Norte, para colocar este pessoal ao grupo de Silvino.
Aqui abro um parêntese na história de Chico Jararaca para apontar ao leitor a dificuldade de se levantar uma história baseada, na sua totalidade, em entrevistas orais. Os pesquisadores Carlos Lyra e Adauto Guerra Filho, que entrevistaram o ex-cangaceiro em diferentes anos das décadas de 70 e 80 do século passado, não são coincidentes nas informações básicas.
Um assunto controverso é a data de nascimento de Nicácio, bem como o período em que Chico Jararaca entrou e participou do bando de Silvino. Entre os dois pesquisadores existe uma diferença de dez anos sobre a data de nascimento do cangaceiro seridoense.
Sobre a entrada do mesmo no cangaço, Carlos Lyra indica, através do depoimento prestado em 1972 pelo ex-cangaceiro, que o mesmo permaneceu nas hostes de Antônio Silvino dois anos, de 1911 a 1913. Já Adauto Guerra aponta, através de entrevista concedida por Chico Jararaca em junho de 1982, que ele teria pertencido ao bando por quatro anos, de 1909 a 1913.
Saber quando e em qual período Chico Jararaca entrou no bando é difícil. Acredito que neste aspecto Carlos Lyra obteve mais sorte, devido ao fato do próprio Chico Jararaca ter lhe fornecido uma data, 30 de maio de 1911.
Sem adentrar mais nesta questão, mesmo com controvérsias, é possível traçar um relato da vida de Chico Jararaca.
Junto com Antônio Silvino
Sua entrada no cangaço deu-se quando o mesmo tinha entre 18 e 26 anos.
Antonio Silvino
Quando Quincas Saldanha forneceu seus homens para Antônio Silvino, o chefe quadrilheiro buscava reforçar seu grupo para ajudar um parente de nome Manoel Godê. Este seria irmão de Antão Godê, nome de guerra de Idelfonso Godê de Vasconcelos. Estes irmãos eram parentes de Silvino, homens valentes ao extremo e que buscavam apoio para atacar um grupo de inimigos comuns na região da Serra da Colônia, em Afogados da Ingazeira, Pernambuco. Este local era especial para Antônio Silvino, pois no sopé desta serra existe a Fazenda Colônia, local de seu nascimento.
O grupo de jovens do Rio Grande do Norte seguiu para o lugar “Santo Agostinho”, nas proximidades da Serra da Colônia. Os inimigos dos Godê, que Chico Jararaca denomina apenas de “negos” ou “mulatos”, eram protegidos do coronel Desidério Ramos, homem poderoso em Afogados da Ingazeira. Em 3 de janeiro de 1897, Desidério matou, juntamente com outros capangas, o pai de Antônio Silvino, Pedro Baptista Rufino de Almeida, conhecido como “Batistão”.
Ao chegar à região, Chico Jararaca descobriu que o grupo dos “mulatos” tinha 33 homens em armas, enquanto o grupo de Silvino e dos Godê apenas 16 “cabras”.
Logo ocorreram tiroteios entre os grupos no lugar “Jasmim” e em outros locais. Mas este trabalho, tão próximo à morte, não estava nos planos do jovem Nicácio. Decidido a deixar o bando, Chico Jararaca avisou a Antônio Silvino sua intenção de voltar para o Seridó. O problema é que o jovem cangaceiro não sabia o caminho de retorno, tinha medo de cair “no oco do mundo” e o jeito foi ficar no bando, na “vida do rifle”.
Silvino após sua captura em 1914
Chico Jararaca estava em uma ocasião participando de uma tocaia, junto com o chefe Antão Godê, quando avistam a figura do inimigo “Bem-te-vi”, que vinha por uma várzea galopando em um cavalo baixo. “Bem-te-vi” era um combatente já veterano em outras lutas e não se alterou quando Godê ordenou ao comandado mandar bala no inimigo. Chico tremeu diante da tranqüilidade do seu oponente, ele atirou várias vezes, mas o inimigo não foi atingido, não reagiu e ainda tirou o chapéu de couro e disse corajosamente “-Vão lá para casa que vocês almoçam bala, jantam bala, e se há bala, dormem com a bala na mão”.
Combate na Atual Santa Maria do Cambucá, Pernambuco
Quando entrou no cangaço, junto com o pessoal de Quincas Saldanha, fazia parte do grupo Estevam, Cassimiro, Peitada, Joaquim Cigano, Neco Domingo, Mané Barão e Mané Pequeno. No bando de Silvino conheceu Serrote, Pau Reverso, Zé Pedro, Manuel Pequeno, Severino, Girondo, Gavião, Biano, Salvino, Bacurau, Manoel e Antão Godê. Para Chico Jararaca todos eram valentes por igual, mas os Godê se sobressaíam. Já o negro Serrote era extremamente perverso, gostava de buscar os soldados da polícia feridos e sangrá-los cruelmente. Entretanto, na hora da defesa, todos participavam.
Jornal do Recife, Sexta Feira, 19 de julho de 1912
O combate que mais fortemente permaneceu na memória de Chico Jararaca foi o realizado em 1912, contra a vila de Santa Maria (atual Santa Maria do Cambucá, Pernambuco).
O bando com 22 cangaceiros dormira em Vertentes, próximo a Taquaritinga do Norte, onde pretendia ir a Santa Maria para ajustar umas contas com o tenente-coronel José Braz Pereira de Lucena, conhecido como coronel Zé Braz, que desdenhara dos pedidos de dinheiro do chefe quadrilheiro e ainda respondia desaforadamente as ameaças de Antônio Silvino. Este soubera também que o coronel acolhera em sua casa uma volante da polícia pernambucana, comandada pelo capitão João Nunes e isto tornara o coronel Zé Braz seu inimigo.
A vila se localizava em uma área baixa, de onde os cangaceiros contemplavam a urbe e sua feira semanal. Neste momento se aproxima do bando um velhinho que voltava da feira, Silvino ordena que o mesmo retorne a vila e avise ao coronel Zé Braz que o bando vai entrar. O velho desce para vila, os cangaceiros observam quando ele se encontra com o coronel e retorna para onde está o bando. Zé Braz e o sargento Georgino mandaram avisar que por lá eles não passariam.
O povo se assusta com a movimentação, Chico Jararaca afirma que Antônio Silvino só ordenou o inicio dos disparos depois que o povo da feira houvesse deixado a praça pública. Outros autores afirmam que os cangaceiros não esperaram por nada e nem por ninguém. Entraram na feira distribuindo chicotadas no povo, atirando para o alto, derrubando bancas e barracas. A feira acaba e o tiroteio começa.
Santa Maria do Cambucá hoje – Fonte – santamariacambuca.blogspot.com
Para o ex-cangaceiro, os homens do coronel Zé Braz atiraram primeiro, depois a resposta do bando de Silvino foi “empurrar o dedo” nos defensores. O tiroteio teria durado quatro horas para Chico Jararaca, para outros pesquisadores a resistência durou pouco mais de uma, ou no máximo duas horas, e acabou pelo fato do grupo de defensores de Santa Maria haver esgotado sua munição.
Com o fim da resistência, familiares de Zé Braz pediram garantias ao seu parente, que foram concedidas e ele foi obrigado a explicar as razões de ter admitido a volante em sua casa. Satisfeito com a explicação, Silvino exigiu três contos de réis pela vida do coronel (jornal da época fala em um conto de réis), que foi pago.
Sargento Alvino, promovido a alferes após a captura de Antonio Silvino
Chico Jararaca nada comenta sobre o saque e a total destruição do comércio de José Alvino Correia de Queiroz, que teve tudo que possuía roubado e queimado. Este comerciante sentou praça na polícia de Pernambuco, conseguindo o posto de sargento e passa a perseguir Antonio Silvino. Quando este foi um capturado, em 28 de novembro de 1914, na propriedade Lagoa da Laje, em Taquaritinga, Pernambuco, José Alvino só não matou o chefe bandoleiro por insistente ordem do tenente Theophanes Ferraz Torres.
Memórias Controversas
Chico Jararaca possuía um rifle Winchester, calibre 44 e normalmente transportava 600 cartuchos. Ele comentou que não faltava munição ao bando, onde Silvino adquiria o material através dos fazendeiros amigos. Entretanto nunca declinou o nome destas pessoas.
Silvino, de roupa escura no centro da foto, após sua captura
Uma afirmação controversa dada pelo ex-cangaceiro foi que em 1912, em uma oportunidade que o bando retornava para Afogados de Ingazeira e descansou nas proximidades de Vila Bela (atual Serra Talhada), Chico Jararaca afirmou que “conheceu Lampião”. O encontro se deu na casa do velho José Ferreira, pai do futuro “Rei do Cangaço”, sendo um momento de muita alegria, pois, segundo Chico Jararaca, “Antônio Silvino era primo da mãe de Lampião”. Na ocasião deste encontro, Chico Jararaca viu Virgulino Ferreira da Silva quando este retornava de uma viagem como almocreve, o futuro chefe cangaceiro teria entre 12 e 16 anos.
O oficial Theophanes Ferraz Torres, comandante da volante que capturou Silvino. Valente e destemido, seria um grande perseguidor de Lampião.
Segundo o depoimento de Chico Jararaca, ele já tinha ouvido muito falar na intrigante história do “cangaceiro que comeu sal”, que vivia sendo narrada pelos cantadores de viola que declamavam as valentias do chefe Silvino pelo sertão afora. Ele afirmou que não foi testemunha deste fato, mas acreditava que esta história havia ocorrido de verdade. Em uma ocasião o grupo chegou à casa de uma mulher muito pobre, ela se encontrava só e seu pai estava em um roçado a três quilômetros de distância. O chefe quadrilheiro a tranquilizou, lhe deu garantias de vida e ordenou que matasse uma galinha para saciar a fome do grupo de cangaceiros. No medo, a mulher esqueceu de colocar sal. Após degustarem a alimentação insossa, o chefe pagou a senhora e quando saiam da casa, perguntou ao grupo o que acharam da comida e a cabroeira respondeu que estava boa. Silvino repetiu a pergunta três vezes e em todas as ocasiões à resposta foi idêntica. Contudo, na última vez, um dos rapazes comentou que “estava boa, mas um pouco insossa”, nisto o chefe alterou o semblante e disse ameaçadoramente “por causa disso, o companheiro vai comer um litro de sal”, mas a ameaça não se concretizou. Provavelmente Silvino desejava chamar a atenção dos seus “cabras” com esta incerta história.
Deixando o Bando
Para Chico, Antônio Silvino era um homem muito bom, tratava todos bem no bando, não obrigava ninguém ficar ao seu lado e detestava quem bebia cachaça.
Antônio Silvino e Lampião eram muito diferentes nas suas maneiras de praticarem o cangaço, mas compartilhavam o mesmo ódio em relação à polícia, aos rastejadores e aos delatores.
Chico Jararaca afirmou, sem maiores detalhes, que durante o período que esteve com Antônio Silvino presenciou a realização de muitos casamentos, onde o comandante bandoleiro não deixava um “cabra safado”, que supostamente “buliu” com uma menina, sair incólume e não assumir as responsabilidades do matrimônio.
Outra declaração bem contraditória do ex-cangaceiro foi que em uma ocasião, quando Antônio Silvino esteve no Ceará, o grupo assistiu em Juazeiro a uma missa realizada pelo padre Cícero Romão Batista. Chico Jararaca afirmou que Antônio Silvino tinha ótimas relações com os padres José Cabral e Aristides, respectivamente párocos e chefes políticos de Gurinhém e Piancó, ambas as localidades na Paraíba.
Mas a maré começaria a mudar para o bando. No dia 25 de dezembro de 1912, ocorria uma importante reunião em Recife, onde pela primeira vez seria efetivamente concretizada a união das polícias dos Estados do Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e Pernambuco, para conjuntamente darem cabo de Antonio Silvino e seu bando.
Em 1913, como resultado desta nova iniciativa governamental, ocorreu uma forte perseguição ao grupo. Para Chico Jararaca, estas perseguições produziam fome e lhe mostrava a pouca perspectiva de continuar nesta vida. O cangaceiro seridoense pediu a Antônio Silvino para deixar o grupo. O chefe não criou problemas e em 1913 eles se viram pela última vez.
O Descanso do Antigo Cangaceiro
Chico Jararaca retornou para a fazenda Coelho e escondeu seus apetrechos do cangaço. Mas sua nova vida não seria tão fácil, pois teve que viver 48 dias escondidos da polícia na Serra da Forquilha, onde se deslocava até o Boqueirão de Porteiras, para se abrigar em uma caverna granítica com duas entradas.
Houve até um encontro com a força volante do tenente Zacarias Neves, mas Chico conseguiu enganar o oficial e seus homens, passando por um simples caçador. O próprio oficial lhe ofereceu para sentar praça na polícia, mas o “caçador” recusou.
Após estes episódios, Chico Jararaca voltou a ser Francisco Nicácio da Silva, casou em 1917 com Rita Antonina da Silva, tiveram quatro filhos, mas a dura realidade das carências do sertão provocou a morte de todos os seus filhos.
Chico enviuvou em 1964, passando a viver numa casinha de barro, na mais franciscana condição, junto com outros parentes e amigos. Guardava na sua humilde vivenda retratos de Nossa Senhora da Conceição e de São Sebastião. Nunca se esqueceu de mandar rezar, em todo mês de janeiro, uma novena para o santo de devoção.
Sua vida como cangaceiro lhe proporcionou algumas situações interessantes; ele teve oportunidade de conhecer vários lugares na Paraíba, Pernambuco, Alagoas e no Ceará, numa época onde muitos dos seus semelhantes mal tinham oportunidade de conhecer a fazenda vizinha e após o cangaço viveu apenas na fazenda Coelho. Conheceu poderosos do seu tempo, sentou-se à mesa de muitos que, de forma subserviente, atendiam seu chefe e morreu apoiado apenas por uma parca aposentadoria.
Os livros que adentram mais detalhadamente na vida de Antônio Silvino são pouco informativos sobre aventuras ligadas ao cangaceiro Chico Jararaca, o que mostra ter sido discreta sua passagem pelo bando, provavelmente rápida, sem maiores façanhas, a não ser acompanhar o chefe Silvino.
No seu depoimento a Carlos Lyra, Chico Jararaca se dizia um homem “que atirava muito mal”, “que correu muito” e por isto “nunca havia matado ninguém”. A Adauto Guerra ele mostrou uma cicatriz no peito, produzido por uma bala “varada” e sem rumo.
O que tornou Chico Jararaca conhecido foi sua comprovada condição de ter sido o último membro sobrevivente do bando de Antônio Silvino, além de sua abertura aos pesquisadores aqui mencionados e a outras entrevistas que ele participou, proporcionando aos que se debruçam sobre a história do cangaço, um melhor detalhamento sobre a realidade do cangaço de Antônio Silvino.
Francisco Nicácio da Silva, o Chico Jararaca, faleceu em 18 de dezembro de 1984, estando enterrado no cemitério São Vicente de Paulo, no bairro Paraíba, em Caicó.
Henrique Castriciano de Souza em um flagrante no almoço oferecido em honra a Rafael Fernandes, na antiga Escola Doméstica na década de 1930
Autor – Rostand Medeiros
Henrique Castriciano de Souza é considerado uma das maiores inteligências que o Rio Grande do Norte já teve. Nascido em 15 de março de 1874, na cidade de Macaíba, exerceu durante sua vida uma enorme gama de atividades; diplomado pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1904, foi jornalista, poeta, ensaísta, critico literário, secretário de governo, vice-governador, presidente da Assembléia Legislativa, deputado estadual e outras atuações que mostram um espírito que impressionam os que se debruçam sobre sua vida e sua obra.
Jornal “A Republica”, em 25 de abril de 1908
Foi um incentivador cultural, criando a primeira lei de incentivo cultural no Rio Grande do Norte. Criou escolas, adorava a pesquisa, tendo viajado a Europa buscando os caminhos por onde andou Nísia Floresta, escritora nascida em 1810 em Papary (atual município de Nísia Floresta) e falecida na França em 1885. Nísia, como Castriciano, foi uma autora de vasta obra.
Em 1908, Castriciano frequentava quase diariamente as páginas do periódico “A Republica”, produzindo suas crônicas, com comentários sobre os mais diversos assuntos. No dia 25 de abril daquele ano publicou uma crônica dedicada exclusivamente ao cangaço.
Antonio Silvino
Provavelmente este trabalho foi realizado diante da repercussão negativa do ataque promovido pelo bando de Antônio Silvino ao povoado Machados, localizado a 18 quilômetros do município de Bom Jardim, Pernambuco.
Neste ataque, ocorrido no dia 15 de fevereiro, à uma hora da tarde, em pleno dia de feira, Silvino e seus cangaceiros entraram sem alteração no lugar. O chefe quadrilheiro vinha na intenção de ir a um comércio do lugar e acertar certas contas com o proprietário.
Silvino estava resolvendo esta situação, quando recebeu voz de prisão do Inspetor policial do lugar. Este chegou à mercearia acompanhado com um grupo de quatro paisanos, que voluntariamente se colocaram prontos a auxiliar o Inspetor para prender o bando.
Jornal “A Republica”, em 21 de fevereiro de 1908
Os jornais da época e os autores que trataram da vida de crimes do cangaceiro Antônio Silvino, não detalham com clareza o que ocorreu, mas o resultado foi o extermínio da tropa voluntária e do Inspetor. Após o tiroteio, Silvino e seu bando saquearam o comércio de Machados em 400$000 réis e fugiram em direção aos Lugares Pedra Fria e Palma (O ataque a Machados foi reproduzido na primeira página do jornal “A Republica”, em 21 de fevereiro de 1908).
Diante deste fato de forte repercussão, principalmente em Pernambuco, na Paraíba e no Rio grande do Norte, Estados frequentados por Antônio Silvino, Castriciano busca mostrar aos leitores do litoral potiguar, as diferenças entre as populações do sertão e do litoral, a dureza das regiões quentes e as origens e peculiaridades do banditismo “boêmio”.
Comenta de forma clara a figura de Jesuíno Brilhante, que a época cada vez mais se mitificava, assumindo a figura de um “Dom Quixote vermelho”, que “andava por toda a região sertaneja, distribuindo justiça a seu modo”. Observava como o tempo fazia o povo esquecer suas atitudes de um bandoleiro não tão romântico assim e apontava como “as gentes do centro”, como Castriciano designava o sertanejo e o sertão, via esta singular figura de bandido. Interessante é o comentário que Castriciano faz, quando narra sua experiência ao segurar o crânio de Jesuíno Brilhante.
Antonio Silvino em desenho a bico de pena
Já sua visão de Silvino é de um sanguinário, um terror dos sertões, tacha-o de “moralmente muitíssimo inferior”, de gostar da atenção da platéia popular e comenta a sua brutalidade.
Em uma época em que Virgulino Ferreira da Silva, o futuro “Lampião”, ainda brincava de baladeira na região da Serra Vermelha, Castriciano já apontava as diferenças e as sutilezas entre os cangaços de Brilhante e Silvino. Da mesma forma que, anos depois, muitos apontariam as diferenças entre Silvino e Lampião, apresentando “O rifle de ouro” quase como um “gentleman” e o “cego de Vila bela”, como a encarnação do “cão do quinto livro”.
O mais interessante da crônica de Henrique Castriciano é a sua analise sobre a popularidade do Antônio Silvino, através do livreto de cordel do cantor popular Francisco das Chagas.
Denominando esta obra apenas de “folheto”, Castriciano aponta este material como o “melhor espelho do estado mental e moral das nossas populações”. Mostra (às vezes de forma preconceituosa) a visão dos sertanejos ante o fracasso das perseguições do aparato governamental a Silvino, destacando a “ironia, a gargalhada do povo rude em face da impotência dos governos”.
Silvino após sua captura em 1914
Entre irônicas tiradas contra a justiça oficial de então, existe espaço neste cordel para “planos de governo” de Antônio Silvino, com apontamentos socialistas, divisão da terra e até criticas a atuação de estrangeiros pelo sertão afora, no caso os ingleses e suas estradas de ferro.
Neste maravilhoso trabalho, Henrique Castriciano utilizou como era normal no período, o pseudônimo de “Mario Valle”. Segundo Manoel Rodrigues de Melo, no livro “Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte 1909 – 1987”, página 259, Castriciano era pródigo em criar pseudônimos. Este autor narra nove deles, desde um simples “H.C.” ao interessante “Erasmo van der Does”.
Henrique Castriciano faleceu em 26 de julho de 1947.
CRÔNICAS – Jornal “A Republica”, sábado, 25 de abril de 1908.
O Nosso clima, as brutas arestas do sertão, o solo escalvado que constituem grande parte da zona do Norte, todo este conjunto de fatores ásperos, gera, de quando em quando, tipos totalmente sintéticos, recapitulações da psicologia por vezes mórbida da sub-raça que se agita nessa parte do território brasileiro.
São interessantíssimos os representantes máximos e diretos da plebe entre nós: os cantadores ambulantes, o vaqueiro heróico, e, mais do que todos, devido à agilidade perversa e a concepção anarquista que forma do mundo, os criminosos boêmios que, às vezes durante anos, percorrem léguas matando e destruindo a vontade.
Há uma grande diferença física entre a gente do agreste e do sertão; diferença que se afirma na singular energia da população da última destas zonas, em contraste com a meiguice humilde dos habitantes da primeira.
Todos os criminosos notáveis aparecidos nos Estados setentrionais do Brasil são gerados nas plagas sertanejas, produto agressivo de gerações e gerações em eterno combate com a natureza, casos teratológicos de uma gente até no crime forte e excepcional.
Eles são bons filhos das terras em que nasceram. Assim como nestas, ao lado das várzeas e dos rios pródigos, existem a montanha pedregosa e a campina estéril, assim também, na sociedade que lá vive, surge de quando em quando, dentre centenas de seres educados na bondade enérgica e sofredora, as almas tingidas de vermelho, os corações golpeados de ódio que se chamam Jesuíno Brilhante e Antônio Silvino, símbolos da anarquia física desse meio hostil, cardos humanos nascidos entre aquela branca seara de almas, como os espinhos do mandacaru entre os imbuzeiros carregados de frutos e ninhos.
E, fato singular; quaisquer dos bandidos acima citados são, como o solo sertanejo, uma perene contradição, uma extraordinária messe de coisas que se repelem.
A vida do primeiro surpreende pelo contraste, pela diversidade dos meios postos em prática, pela serie infinita de atos profundamente maus e de ações reveladoras de profundo desprendimento.
Jesuíno brilhante é uma figura típica do herói popular, de Dom Quixote vermelho. A existência desta singularíssima figura representa o que a de mais doce na alma humana e o que a de mais feroz.
Alguém poderoso ou não, tentara contra a honra da desvalida moça?
Ei-lo em campo, armado até os dentes.
O sedutor reparava a falta ou morria. E andava por toda a região sertaneja, distribuindo justiça a seu modo, justiça absolvente de animal primitivo, girando entre o roubo e a morte.
Para ele, como para todos que cumprem igual destino, a propriedade era da comunhão. Daí o grande ódio que votava as autoridades constituídas, especialmente aos soldados, como representantes da lei.
Um médico do centro, o meu distinto amigo Dr. Almeida Castro, guarda o crânio deste desgraçado. Vi-o a cerca de doze anos, estive com ele entre as mãos, como Hamlet sustentando nos dedos a caveira de Iorick e, como o desditoso príncipe, filosofei acerca do miserando ser, sentindo no intimo um frêmito de compaixão.
Quem sabe até onde iria a coragem deste rebelado se outros fossem o meio e o tempo em que viveu?
Os heróis não são feitos de temperamento diverso; creio que foi Victor Hugo que os chamou de uma variedade de assassino….
O tempo tornou a sua figura legendária; das depredações que fez já ninguém se recorda; e as gentes do centro falam dele como de um justo que, nos dias de fome, assaltava as tropas guardadoras dos comboios que conduziam a farinha destinada pelo rei ao seu povo, mas que os magnatas das aldeias queriam transformar em fortuna própria.
Com Antonio Silvino, moralmente muitíssimo inferior, está se dando o mesmo. O celerado anda por aí quase à vontade, sentido em torno de si o respeito e a estima da plebe, com quem reparte cavalheirescamente o que recolhe dos inimigos.
Este é brutal, sem um raio de estrela na sua alma tenebrosa, sem as crises de bondade do outro, sem penas de garça nas asas de corvo.
Mas as multidões o acarinham, porque vem nele um forte. E sem perceber que a sua generosidade é apenas um gesto hábil, já o está glorificando pela boca dos poetas campônios. Tenho sob a vista um folheto do cantor popular Francisco das Chagas. Há muito não vejo melhor espelho do estado mental e moral das nossas populações; as 16 páginas a que me refiro, valem um compendio de psicologia.
Quem, de futuro, quiser saber o pensamento da gente analfabeta, que povoa o nosso solo não tem mais do que abrir este livrinho; aí encontrará a ironia, a gargalhada do povo rude em face da impotência dos governos que ele vaia gostosamente, na sua qualidade de mosquito zumbidor.
Encontrará o ódio que vota ao empregado público, aos partidos, as autoridades, colocando-se, já se vê, ao lado de Antonio Silvino, em quem contempla a síntese da anarquia que lavra no seio das sociedades incultas do centro.
Não sei se os senhores sabem que o bandido teve por companheiro uma fera de nome Cocada. Teve.
E um dia, desconfiado dele, expulso-o do rebanho maldito.
A fera, perseguida pela polícia, não pode ser alcançada, vindo a morrer as mãos de um senhor Pica-pau, sequioso de vingança, e de sangue.
O poeta Chagas narra o fato com a sua meia língua de trovador rural e, legitimo interprete do zé-povo, termina com esta gargalhada cuspida a face da justiça;
Na povoação da Serrinha,
Aonde a morte se deu,
A polícia, por milagre,
Ao tal Pica-pau prendeu,
E encontrou as orelhas
De Cocada em poder seu,
Não conseguindo a polícia
Prender o ex-valentão,
Ao pegar suas orelhas
Meteu-as numa prisão:
Encarceradas num frasco
Ficaram elas então….
Dizem os filhos da Candinha
Que já estão processadas
As orelhas do bandido,
Que em breve serão julgadas
E que as galés perpétuas
Elas serão condenadas.
Dificilmente um poeta culto encontraria sarcasmo tão pungente para caracterizar o seu desprezo em face de uma justiça que o não garante bem.
O livrinho termina com a exposição da Política de Antonio Silvino:
Há doze anos que vivo
Com o governo em questão
Sem que ele conseguisse
Vencer minha oposição:
Vou agora experimentar
Se ganho-lhe uma questão.
Ao meu lado tenho todos
Os chefes oposicionistas:
Já pleiteei mais vinte
Candidatos governistas,
E antes das eleições
Farei inda outras conquistas.
O programa seria o tentado por qualquer pessoa do povo se viesse a governar;
Mesa de rendas uma só
Não deixarei, isso eu juro!
Livros de arrecadação
Mando deitar no monturo.
Intendência em município
Acabarei com as que houverem:
Empregado pede esmolas!
Os que assim não fizerem
Vão trabalhar alugados
Para bacalhau comerem!
Promotores, delegados,
Inspetor de quarteirão,
Todos eu demitirei
Com uma surra de facão….
Inglês onde eu dominar
Não contará pabulagem;
Para o trem poder correr
Há de pedir-me homenagem,
Consentirei que o trem corra
Mas ninguém paga passagem.
É a tendência igualitária dos vencidos, o socialismo inconsciente das classes pobres.
A terra será comum
Todos se apossarão
Ninguém pagará mais foro
Para fazer plantação;
Não haverá nesse tempo
Nem criado, nem patrão.
Será geral a igualdade
Todos hão de ter direitos
O que foi rico terá
Ao que foi pobre respeito
O grande senhor de engenho
Irá trabalhar no eito.
A nota característica da poesia popular no Brasil é o sarcasmo; porém á neste livrinho alguma coisa que não é somente isto.
E não entristece ver, em mais de um Estado e na hora presente, o povo do centro encarnando os seus ideais na pessoa de Antônio Silvino?
Como um mercenário alemão da região de Hesse, prisioneiro entre índios canibais brasileirosconseguiu sobreviver para trazer ao público a sua grande aventura, que se tornou um best-seller na Europa
Após Cristóvão Colombo atravessar o Oceano Atlântico em 1492 algumas informações desta viagem começaram a circular na Europa, atiçando o imaginário dos habitantes do Velho Continente sobre o que havia nestes exóticos locais.
Logo, em 1502 e 1504, foram publicadas cartas do explorador e cartógrafo florentino Américo Vespúcio, onde ele apresentou curiosos e fantásticos relatos do “Mundus Novus”. Vespúcio descreveu tempestades, animais estranhos, mulheres sensuais, sexo indiscriminado e canibalismo. Este último fato presenciado pelo famoso navegador na costa potiguar, em 1501, na atual Praia do Marco.
Um tatu (ou um quati), visto e descrito por Staden quando esteve no Brasil
“Mundus Novus” foi um dos maiores best-sellers em seu tempo. Em apenas três anos, 19 edições das cartas de Vespúcio foram publicadas somente em alemão, ajudando a denominar de Novo Mundo, tudo que estivesse do outro lado do Atlântico.
Certamente que os homens que faziam livros naquela época perceberam que ganhariam muito dinheiro com outras obras que trouxesse nas suas páginas os relatos dos navegantes e suas aventuras.
Mas quem poderia escrever algo assim?
Um Mercenário no Novo Mundo
Muito provavelmente o alemão Hans Staden, natural da cidade de Homberg, lutou como um mercenário na Guerra de Schmalkaldischen, uma das primeiras guerras religiosas entre protestantes e católicos. O nosso herói era um “Büchsenschütze”, um atirador de arma de fogo longa, um artilheiro, e, portanto, um especialista muito requisitado naquela época em que as armas de fogo ainda eram uma novidade. Consta que mercenários com esta função faziam um bom dinheiro, quase o dobro dos soldados comuns de infantaria.
Hans Staden
Staden combateu por seus senhores protestantes, que derrotaram o imperador católico, mas não tinham dinheiro para pagar suas tropas. Além disso, na sequência destes acontecimentos, a região de Hesse foi ocupada pelos católicos, com tropas onde havia mercenários portugueses. Talvez nesta hora Staden tenha escutado pela primeira vez algo sobre o Brasil.
Provavelmente animado por relatos dos lusos, Staden deixou sua região e foi até a cidade de Bremen, de lá seguiu para o porto holandês de Kampen e ali subiu a bordo de um cargueiro que seguia para Península Ibérica em busca de sal. Em 29 de abril de 1547 chegou a Setúbal e depois foi para Lisboa.
Na capital de Portugal existia uma colônia alemã de tamanho considerável. Staden encontrou hospedagem junto a um anfitrião chamado Leuhr, que mediou sua entrada para uma expedição que seguia para as “Índias”. Embarcou em uma nau lusa para Pernambuco no dia 28 de janeiro de 1548, cujo capitão chamava-se Penteado. Colocaram Staden como artilheiro do navio e ele não era o único alemão a bordo, havia ainda Hans Hausen, de Westerwald, e Heinrich Prant, de Bremen. O futuro escritor e seus companheiros foram envolvidos no sequestro de navios mouros, viu peixes voando para dentro do convés próximo a costa marroquina. Chegou ao Brasil com a missão de transportar degredados portugueses remetidos para povoar a colônia, recolher pau-brasil e atacar corsários franceses que exploravam as nossas costas.
Aparentemente Staden lutou contra corsários franceses na Paraíba e não esteve onde hoje é o Rio Grande do Norte. Mas se houvesse ocorrido este confronte certamente não seria uma tarefa fácil para os mercenários alemães, pois os gauleses conheciam profundamente a costa nordestina e potiguar. Constam que estes estiveram na enseada de Itapitanga (atual Praia de Pititinga), também no Rio Pequeno, ou Baquipé (depois denominado Ceará-Mirim, onde penetravam os barcos francesas, que ali iam resgatar o pau-brasil aos indígenas), no Rio Grande, ou Potengi (aonde os franceses iam muitas vezes as suas margens carregar madeiras nobres e nesta área, em 1599, os portugueses fundariam uma comunidade que ficou conhecida como Natal), no porto dos Búzios (na foz do Rio Pirangi), na enseada de Tabatinga (entre o porto dos Búzios e Itacoatiara, ou Ponta da Pipa) e na enseada de Aratipicaba (atual Baía Formosa).
Pouco depois o grupo mercenário de Staden foi requisitado pelo Governador Geral Dom Duarte da Costa para defender uma fortaleza na região de Igaraçu, Pernambuco. O local era constantemente atacado por grupos que totalizavam cerca de 8.000 indígenas, sendo defendido por aproximadamente 120 pessoas, às quais se uniram os cerca de 40 recém-chegados, incluindo Hans Staden. Depois de uma renhida luta e de um cerco prolongado no qual vieram a faltar provisões, os defensores conseguiram, afinal, vencer os indígenas. Neste embate tão desigual, foi a tecnologia das armas de fogo que fez a diferença.
Após um ano e meio ele retornou para Lisboa, aonde chegou em 8 de outubro de 1548.
O que ele viu no Brasil já seria suficiente para um livro, entretanto estes primeiros momentos em terras tropicais ocuparam apenas cinco capítulos, de 53, do seu futuro trabalho literário.
Entre Canibais
Talvez decepcionado com a falta de perspectivas de um Brasil que só tinha os produtos das suas florestas a oferecer aos aventureiros europeus, Staden foi para a Espanha para depois seguir em busca de ouro na América Espanhola.
Em abril 1549 partiu em uma nave da armada de Diogo de Sanábria, que pretendia fundar um povoado na costa da Ilha de Santa Catarina e outro na embocadura do Rio de la Plata. Mas nesta segunda ocasião em terras tropicais ele não teve sorte, pois seu navio naufragou na costa catarinense. Os integrantes da expedição, depois de passarem dois anos na região, decidiram rumar para a cidade de Assunção, atual capital do Paraguai. Staden se juntou a um grupo que rumou para a cidade de São Vicente, no litoral paulista, onde tentaria fretar um navio capaz de chegar a Assunção. Existem informações que deste último ponto os europeus pretendiam alcançar a Bolívia e o Peru em busca de ouro.
Antes de chegar a São Vicente o navio de Staden naufragou nas imediações de Itanhaém, no litoral paulista, mas seus ocupantes conseguiram nadar até a praia. De lá, foram a pé até São Vicente, onde Staden foi contratado, inicialmente por quatro meses, como artilheiro (outras fontes apontam como comandante) do Forte de São Felipe da Bertioga.
Em 1553, ao realizar uma caçada sozinho, foi capturado por indígenas. Ele contou depois que os índios usavam pequenos gravetos no lábio inferior e nas bochechas, discos de conchas brancas no pescoço e estavam cobertos com penas. Tinham seus corpos nus e estavam com os braços pintados em vermelho e preto. Os seus captores lhe jogaram violentamente no chão, rasgaram suas roupas, lhe espancaram e o esfaquearam. Nu e sangrando, Staden foi levado para a aldeia de Ubatuba (Uwattibi, no texto original do relato de Staden), dos índios tupinambás, do chefe Cunhambebe. Segundo o historiador Capistrano de Abreu, este chefe guerreiro se encontrou com Staden na Serra de Ocaraçu, atual conjunto de morros do Cairuçu, ao Sul de Paraty, na região de Trindade, Rio de Janeiro. Ele seria pai de outro chefe chamado Cunhambebe, líder de maior autoridade dentro da coalizão indígena conhecida como Confederação dos Tamoios, que lutou bravamente contra os portugueses.
Após a captura, Staden percebeu que a intenção dos indígenas era devorá-lo. Certas fontes apontam que, passado algum tempo, índios tupiniquins atacaram a aldeia onde ele era mantido prisioneiro. Obrigado pelos tupinambás, Staden lutou ao lado destes. Seu desejo era tentar fugir para unir-se aos atacantes. Mas, estes, vendo que a resistência dos defensores era muito forte, desistiram da luta e se retiraram.
O alemão testemunhou o ritual do canibalismo praticado contra indígenas capturados e o descreveu com riqueza de detalhes no seu relato. Outras fontes apontam que o alemão não foi vítima de canibalismo dos tupinambás pelo fato dele não ser português, já que seus captores haviam se aliado aos franceses.
Ritual de canibalismo. Staden, o barbudo nu a direita, se coloca horrorizado diante da cena.
Independente desta questão o certo é que o alemão passou nove meses junto aos seus captores. Chegou a aprender a língua deles e seu livro contém 150 de suas expressões. Staden acompanhou os indígenas em suas campanhas guerreiras e chegou até mesmo a ter esposas, como era comum entre os brancos que tinha amizades com os índios. Mas Staden silenciou sobre isso mais tarde, provavelmente para não manchar a sua reputação como um cristão. Um dos costumes que o alemão vivenciou foi a participação nas festas em que bebera o cauim, uma bebida alucinógena produzida pelas mulheres da tribo para grandes rituais.
Preparo do caulim
Durante seu cativeiro o alemão chegou pedir ajuda a um navio português e a outro francês. Ambos recusaram-se a ajudá-lo por não desejarem entrar em conflito com os índios. Um dia, em 1554, chegou à aldeia de Cunhambebe a tripulação do barco francês Catherine de Vatteville, comandado por Guillaume Moner, que manteve contato com o alemão. Consta que para libertar Staden o francês enganou os tupinambás, afirmando que “seus irmãos tinham vindo busca-lo” e ele foi trocado por facas, machados, espelhos e pentes de pouco valor. Essa troca talvez tenha sido apenas um ato de pura piedade e fé cristã, pois o tempo em que Staden passou ao lado dos tupinambás parece que pouco interessou aos marinheiros gauleses.
De Volta ao Velho Mundo
Staden viajou para Europa via o porto francês de Le Havre, depois esteve em Londres, logo após desembarcou na Antuérpia e finalmente chegou à região de Hesse. Ele estabeleceu-se na cidade de Wolfhagen e começou a trabalhar numa fábrica de pólvora.
Dois anos depois o alemão Hans Staden estava financeiramente quebrado, mas ele tinha visto coisas verdadeiramente inusitadas. Mais do que qualquer outra pessoa de sua região e tinha algo para vender; uma história para um livro.
Combate entre índios
Para sua época o que ele tinha para contar era algo tão inacreditável que poderia ser um problema para fazer os seus leitores acreditarem no que estava escrito. Mas era tudo verdade e ele tinha experimentado tudo sozinho. Já em 1556 ele teria terminado o manuscrito de seu livro.
O homem que aceitou produzir a sua obra foi Andreas Kolbe (ou Andres Colben), um respeitado gráfico que preparava principalmente folhetos religiosos. Kolbe trabalhava no ramo desde 1546, na cidade de Marburg, mas seu negócio não era particularmente lucrativo e ele precisava de um sucesso em seu programa. Como corresponsável pelo livro de Staden, Kolbe chamou Johann Eichmann, conhecido como Dr. Dryander, professor de matemática e anatomia da universidade de Marburg, considerado um dos principais médicos de seu tempo. O Dr. Dryander representava a reputação acadêmica, escreveu o prefácio, e explicou ao público alemão por que a história de Staden era “verdade”. O Dr. Dryander também afirmou que conhecia o pai de Hans Staden e atestou a reputação do escritor e aventureiro.
E assim foi publicado em março 1557, em Marburg, um livro sobre o Brasil. Um lugar cuja existência tinha apenas 50 anos entre os Europeus ditos civilizados e da qual se tinha uma vaga ideia do que ali existia.
Dúvidas e Sucesso
Desde então tem sido muito discutido sobre qual a parte que Staden realmente escreveu? Pois ele era um soldado, com presumivelmente pouca educação para escrever um texto com 53 capítulos. Para muitos quem escreveu o livro foi o Dr. Dryander. Outros chegaram até mesmo a questionar se Staden foi realmente uma testemunha ocular e se esteve entre canibais brasileiros?
Mas Staden foi muito detalhista no seu relato e consta que o Dr. Dryander nunca deixou a Alemanha em direção ao Novo Mundo. E os fatos verificáveis - na época havia muito mais, porque Staden apontou datas, nomes e eventos – levam os seus inúmeros defensores a mostrarem isso como prova da autenticidade de suas experiências.
Críticos apontam que no texto, pelo menos ocasionalmente, Staden deve ter exagerado em seus relatos para abrir ao seu livro melhores oportunidades de mercado.
É claro que na publicação desta obra Staden, Kolbe e o Dr. Dryander tiveram o público em mente. Pois dinheiro foi gasto na feitura de 50 xilogravuras que compõem a obra, produzidas conforme as descrições do autor. Isso certamente fez com que o livro ficasse mais atraente para leitores inseguros com a incrível história.
Independente destas questões, o sucesso da publicação dos relatos de Staden foi imediato. Tanto que ainda em 1557, Kolbe colocou a venda uma segunda edição, que segundo o historiador berlinense Wolfgang Neuber é estimado em 3.000 exemplares. Um número considerável para a época.
Sim, e vejam como era o título original – Wahrhaftige Historia und Beschreibung einer Landschaft der wilden, nackten, grimmigen Menschfresser Leuthen in der Newenwelt America gelegen (História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América). Na atualidade o título desta obra parece um tanto grandioso, mas na verdade era relativamente curto para os padrões da época. Nas edições posteriores as xilogravuras de Staden seriam reproduzidas pelo belga Theodore de Bry a partir de uma técnica mais sofisticada e dispendiosa que a anterior.
Legado de Quase 460 Anos
Embora no século XVI a impressão de um livro pudesse gerar uma renda decente, aparentemente para Hans Staden o que ele não viu foi o dinheiro dos direitos autorais. E para piorar a situação, no mesmo ano do lançamento oficial foram publicadas em Frankfurt duas cópias não autorizadas da sua obra. Ou seja, piratearam descaradamente o livro do mercenário alemão!
Entretanto historiadores germânicos apontam que o sucesso do livro ajudou a melhorar a situação do antigo prisioneiro dos tupinambás, pois o prestígio conseguido abriu as portas para um emprego na corte de um conde local. Estudos a partir de notas da época sugerem que ele se casou em Wolfhagen e desta união veio duas filhas e um filho, que morreu em decorrência de uma praga no ano de 1576.
Ao longo dos séculos a obra de Hans Staden se firmou como um importante relato da realidade dos primeiros anos de ocupação europeia do território brasileiro. A partir de sua leitura é possível ter uma ideia, mais ou menos bem acabada dos personagens importantes do período: corsários franceses, colonos portugueses, indígenas, aliados e inimigos dos colonos estabelecidos no litoral. Os costumes dos tupinambás estão ricamente descritos no livro.
Hans Staden nunca mais escreveu nenhum livro. Mas sua única experiência literária é comentada há quase 460 anos, onde foram publicadas mais de 80 edições, em oito idiomas diferentes.
Nada mal para um simples artilheiro da província de Hesse.
Há menos de dez ilhas oceânicas no Atlântico Sul e o fantástico Atol das Rocas é o único do gênero neste vasto oceano. Localizado ao largo da costa do Brasil, é um local de extrema importância para a reprodução e alimentação de várias espécies, como o atum, tubarão, a tartaruga e mamíferos marinhos. Este atol coralíneo é o lar da maior concentração de aves marinhas tropicais no Oceano Atlântico Ocidental, abrigando quase 30 espécies diferentes, entre elas estão o Atobá-mascarado (Sula dactylatra), Atobá-marrom (Sula leucogaster), Trinta-réis-do-manto-negro (Sterna fuscata), Viuvinha-marrom (Anous stolidus), Viuvinha-negra (Anous minutus), Atobá-do-pé-vermelho (Sula sula); Fragata (Fregata magnificens) e garça-vaqueira. Além delas, 25 espécies migratórias fazem do Atol das Rocas um porto permanente. Passam por ali espécies originárias da Venezuela, da África e até maçaricos provenientes da Sibéria. Até o momento, nenhuma espécie potencialmente predadora foi catalogada no Atol das Rocas[1].
O Atol das Rocas – Fonte – Flick.com (CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR)
Um dos menores do mundo, este atol encontra-se a 260 km (160 milhas) a nordeste de Natal, sendo uma formação de recifes sob um substrato de rocha submarina, parte de um grande sistema de montanhas submarinas de origem vulcânica, que se elevam do fundo do oceano cerca de 4.000 metros de profundidade. Com uma área aproximada de 7,5 km², durante a maré alta ficam visíveis acima do nível da água apenas duas ilhas arenosas, com uma altura máxima de 3 metros e algumas formações calcárias isoladas. A maior destas ilhas é a do Farol, com cerca de 1.000 metros de comprimento e 200 metros de largura média. A menor é chamada de Ilha do Cemitério, Durante a maré baixa o anel de recife do atol se expõem cerca de 1,5 metros fora d’água. No interior do atol existe uma grande lagoa com águas rasas e piscinas naturais com profundidade variável de 1 a 5 metros de profundidade. A vegetação no Atol das Rocas é principalmente herbácea, resistente ao sal e típica de praias de areia.
Outra vista aérea do Atol das Rocas – Fonte – Flick.com
O primeiro mapa que mostra o Brasil descoberto pelos portugueses, o conhecido “Planisfério de Cantino”, de 1502, já registrava a existência do Atol das Rocas. No livro “Desastres marítimos no Brasil”, o almirante Dário Paes Leme, comenta que em 1503 ali ocorreu o naufrágio de uma nau da expedição liderada pelo português Gonçalo Coelho à costa do Brasil. Este foi o primeiro acidente com embarcações no atol e muitos destes desastres são pouco conhecidos e provavelmente foram muito frequentes!.
Primeiros Grandes Desastres
Não existe uma documentação comprovatória se acidentes ali ocorreram naqueles primeiros séculos de navegação europeia pela região. Sabemos que ao longo de 300 anos o Atol das Rocas foi ocasionalmente visitado por navegadores e cosmógrafos, como o português Manuel Pimentel, Cosmógrafo-Mor do Reino de Portugal, que lá esteve em 1701. Mas conforme crescia o tráfego marítimo internacional, devido a sua mínima elevação acima da linha d’água e dificuldade de visualização, o atol foi se tornando um local que chamava a atenção dos navegadores da pior maneira possível[2].
Barcos ingleses Fonte – en.wikipedia.org
Em 2 de novembro de 1805, doze dias após a vitória inglesa na famosa batalha naval do cabo Trafalgar, sobre uma frota combinada franco espanhola, um grave acidente chama atenção do mundo marítimo para o pequeno atol no Atlântico Sul. Às quatro da manhã daquele dia bateram nos recifes os barcos ingleses de carga Britannia e King George, que seguiam para a Índia como parte de uma frota sob o comando do almirante Sir Home Riggs Popham. Foram os tripulantes da fragata HMS Leda que viram o desastre com os dois barcos e através de sinais informaram os outros barcos da frota, que evitaram os corais do Atol das Rocas e novos acidentes[3].
HMS Pomone, barco idêntico ao HMS Leda, que salvou parte de uma frota de barcos ingleses de se perderem no Atol das Rocas.
Em uma época onde satélites no espaço, radares e o GPS nem eram fantasias de escritores, o pequeno atol brasileiro passou a ser mais estudado na intenção de serem evitados casos como o do Britannia e do King George. Em dezembro de 1825 ali chegou a corveta francesa La Bayadere, sob o comando do Barão Albin Reine Roussin e tendo a bordo o cientista M. Latirgue, que realizou os primeiros estudos hidrográficos e de localização geografica[4].
Retrato do tenente, depois almirante, Samuel Phillips Lee pintado por Thomas Sully, 1845.
Em 14 de março de 1852 chega ao atol o brigue de exploração americano Dolphin, sob o comando do tenente Samuel Phillips Lee, um primo em terceiro grau de Robert E. Lee, comandante das forças confederadas durante a Guerra Civil Americana e futuro almirante. No relatório ao seu governo Lee conta que ele e seus homens desembarcaram no dia 16, mas devido a forte claridade do sol e do branco solo da ilha que eles chamavam Sable, mas que no futuro seria conhecida como Ilha do Farol, alguns sofreram de oftalmia, uma inflamação nos olhos acompanhada de vermelhidão e dor de intensidade variável[5]. No outro dia choveu, ventou e os americanos puderam explorar o atol com mais tranquilidade.
Lee produziu o primeiro mapa do Atol das Rocas. Para melhorar a visualização daquele lugar pelos barcos que por ali passavam plantou alguns coqueiros na Ilha do Cemitério. Naquela visita Lee constatou a existência de vários destroços de navios, com pedaços de cascos arrebentados, amarras, e até mesmo um abrigo feito de fardos de algodão abertos, que se espalhavam pelo atol. Que os fez nunca se soube[6].
Os Náufragos Ingleses que Navegaram das Rocas para Macau
Apesar dos esforços do tenente Lee, os desastres continuaram. As duas e meia da madrugada de 27 de agosto de 1855 foi a vez do Countess of Zetland ser destruído no Atol das Rocas. Este era uma barca (ou bark) inglesa, com 350 toneladas de carga, que havia saído de Recife com destino a Liverpool. Estava sob o comando do capitão John Hale Hannibal, transportava 150 toneladas de açúcar, 1.700 sacas de algodão e tinha 19 pessoas entre tripulantes e passageiros.
Restos de naufrágios no Atol das Rocas em 1934
Em um relato feito pelo capitão Hannibal, pela manhã flutuavam ao redor da barca vários sacos de algodão e outros destroços. Os náufragos pegaram os barcos salva-vidas e se dirigiram para a Ilha Sable. Conseguiram juntar algumas abóboras, uma barrica d’água, pedaços de charque, algumas bolachas e, tal como fizeram antigos náufragos de barcos desconhecidos, criaram um abrigo com fardos de algodão. Estando em um local sem fonte de água, no meio do Atlântico, onde ninguém sabia o que havia acontecido com eles, o melhor era fazer-se ao mar com o que tinham. E rápido!
Foto realizada pela Marinha do Brasil em 1934, mostrando um tronco seco de um dos antigos coqueiros plantados no século XIX.
Os dois barcos salva-vidas que possuíam para tentar chegar ao Brasil eram equipados com mastros e velas. Um era menor, que chamavam “bote”, e o outro era denominado “lancha”. No domingo, 2 de setembro de 1855, após seis dias no Atol das Rocas, os náufragos se fizeram ao mar nos dois pequenos barcos a vela. Logo o bote fez água e afundou. Ninguém morreu e todos se aboletaram na lancha. Estava tão lotada que a água do mar entrava em boa quantidade, sendo necessário três homens continuamente retirando com baldes o que entrava. Navegaram por alguns dias e por sorte pegaram mar brando, tempo e vento bom.
Pássaros do Atol das Rocas em 1934.
Quando já não havia água potável e nem mantimentos, avistaram a costa do Rio Grande do Norte. Logo alguém viu uma típica jangada nordestina com pescadores e os ingleses seguiram até ela. Os morenos nativos procuraram ajudar os náufragos da melhor maneira, lhes entregando sua água potável, peixe seco e farinha. Estes potiguares, cujos nomes não foram anotados para história, acompanharam os náufragos ingleses do Countess of Zetland e mostraram a rota para a cidade de Macau, que os estrangeiros denominaram “Macau do Assu”.
Pedaços de correntes antigas. Fotografia de 1934.
O capitão Hannibal afirmou que quando ali chegaram, foram todos “grandemente obsequiados e bem tratados durante todo o tempo que estivemos ali”. Dias depois os ingleses seguiram para Recife na barca brasileira Maria Deolinda e de lá para a Europa[7].
O Rumoroso Afundamento do Duncan Dunbar
Apesar dos problemas causados a navegação marítima, para o grande público o pequeno Atol das Rocas era totalmente desconhecido. Mas em 1865, “Las Rocas”, como era chamado o lugar pelos ingleses, seria manchete de vários jornais de todo o mundo.]
No dia 29 de agosto daquele ano deixava Londres o barco de passageiros e carga Duncan Dunbar. Após uma parada rápida em Plymouth, zarpou no dia 2 de setembro para Sidney, Austrália. Era uma nave do tipo Clipper, comandado pelo capitão J. B. Swanson e realizava aquela viagem em 81 dias. Na ocasião o barco australiano transportava 70 passageiros, sendo 35 mulheres e crianças, além de uma tripulação de 47 homens.
Outra imagem do Duncan Dunbar realizada por T.G. Dutton e em exposição no Royal Museums Greenwich, de Londres – Fonte – httpwww.19thcenturyshipportraitsinprints.com
No dia 7 de outubro pela manhã o capitão Swanson marcou o rumo do seu barco para passar a algumas boas milhas ao largo do Atol das Rocas. Mas nesta mesma noite, por volta das oito e meia, todos foram surpreendidos pelo forte impacto do grande barco de 1.374 toneladas sobre uma porção periférica do recife, na parte noroeste do Atol das Rocas.
Após a batida consta que a tripulação lutou muito para tentar tirar o navio do local onde ele estava. Sua carga foi lançada fora para aliviar o peso e tentar se livrar. Um dos mastros foi cortado com a finalidade de evitar o balanço que jogava o navio de um lado para outro. Mas foi tudo em vão, já que o Duncan Dunbar encalhou na maré alta e com a baixa mar ele ficou ainda mais fixo em um leito de rocha. Logo a água do mar invadiu o porão e foi o fim da embarcação!
Agonia do Duncan Dunbar no Atol das Rocas, vista em um desenho publicado em um jornal inglês
Tempos depois, em uma reportagem publicada pelo jornal australiano The Sidney Morning Herald, os náufragos informaram que pela manhã todos os 117 ocupantes do Duncan Dunbar foram para a Ilha Sable. Foi realizado um grande trabalho para retirar do barco tudo que fosse aproveitável, inclusive porcos vivos. A água potável era racionada ao extremo. Durante os dois primeiros dias, debaixo de um sol escaldante, os sobreviventes só consumiram meio litro de água. Uma tenda foi erguida para as mulheres com os panos das velas e em outra tenda, que eles chamavam de “loja”, foram colocados os mantimentos e a água. Este último local era mantido sob extrema vigilância[8].
Destruição do Duncan Dunbar no jornal australiano The Sidney Morning Herald
Na manhã do dia 11 de outubro, uma quarta-feira, saíram do atol em um barco salva-vidas o capitão Swanson, um passageiro de nome Gallonway e seis ou sete marinheiros. Dias depois Swanson e seus homens foram avistados pela tripulação do barco americano Hayara e eles foram levados ao Recife, onde obtiveram ajuda do cônsul britânico. No dia 17 de outubro, o vapor Oneida, da empresa Royal Mail Packet, comandado pelo capitão Woolcott, foi visto pelos náufragos. Todos foram recolhidos e seguiram viagem para o porto inglês de Southampton, aonde chegaram três semanas depois.
Na tentativa de diminuir as despesas com o desastre, ao meio dia de 19 de outubro de 1865, na frente da Associação Comercial de Recife, os restos do Duncan Dunbar foram leiloados, conforme podemos ver no anúncio aqui reproduzido. Aquele que desejasse participar, só poderia saber o que de valor estava no Atol das Rocas, lendo o manifesto da carga que se encontrava em um escritório na Rua do Trapiche. Não sabemos quem arrematou os restos do barco, mas onze dias depois deste primeiro anúncio foi publicado que um novo leilão ocorreria no Cais do Apolo, onde seriam leiloados objetos salvos do Duncan Dunbar. A leitura da propaganda deste leilão mostra o tipo de carga que havia no barco e sabemos que os porcos foram trazidos do atol.
A repercussão do caso do Duncan Dunbar no exterior foi grande. O capitão Swanson passou por um rumoroso processo na Inglaterra e não pode mais comandar barcos. [9].
Provavelmente como consequência do desastre do Duncan Dunbar, a marinha real britânica (Royal Navy), envia para o atol seu vaso de guerra HMS Sharpshooter, sob o comando do tenente John Edward Parish. Ele e seus homens realizam estudos e, como os coqueiros plantados por Lee quatro anos antes não vingaram, plantam novas mudas como única forma de sinalização[10]. Mas os desastres não paravam!
Dificuldade encontrada pela equipe do Navio Faroleiro Vital de Oliveira, da Marinha do Brasil, para entrar na lagoa do Atol das Rocas com uma tradicional jangada.
Ainda em 1856 foi a vez de ser destruído neste local o brigue inglês de Liverpool, denominado simplesmente como E.D.. O comandante e parte da guarnição se estabeleceu na Ilha Sable, onde relatou a existência de pelo menos cinco antigos cascos de embarcações, além de crânios e ossos humanos. Os náufragos passaram um mês no atol, durante os quais avistaram alguns barcos que passavam pelas proximidades, mas estes não viram seus desesperados sinais.
Pescaria no Atol das Rocas.
Em 12 de novembro de 1856 a tripulação do True Briton, sob o comando do capitão Ed Reynell, avistou duas bandeiras colocadas pelos náufragos e tentaram recolher a tripulação do E.D. Mas a operação falhou devido aos ventos fortes e corrente marítimas desfavoráveis. O conhecimento da existência destes náufragos foi logo comunicado em Recife e eles foram salvos[11].
Os Brasileiros Chegam ao Seu Atol
Aparentemente foi em agosto de 1858 que ocorreu a primeira visita de um navio da Marinha do Brasil as Rocas.
A bordo do Paraybano, um veleiro de madeira do tipo Iate, com meros 23 metros de comprimento, ali desembarcou sua tripulação, sob o comando do então 1º tenente Vital de Oliveira. Seu trabalho era hidrografar e reconhecer o Atol das Rocas. Vital de Oliveira fez seu trabalho obtendo posições precisas levantadas astronomicamente. Q comandante Vital de Oliveira comunicou que havia encontrado uma cabana pintada de vermelha, construída pela tripulação de um barco denominado Siren, do qual ele não especifica se ali naufragou. Comentou que ali havia mais de 50 pés de coqueiros plantados, além de pés de mulungus e gameleiras[12].
Restos de um pequeno canhão…
Mas não demora e a rotina de desastres e tragédias continua.
Em 1860, em dia e mês não especificado, o barco francês Imperatrice du Brésil vinha do porto francês de Havre e bateu nos recifes do Atol das Rocas com perda total[13].
Milhares de lagostas pescadas, mostrando a proliferação deste crustáceo no atol.
Um acidente com resultados trágicos no Atol das Rocas aconteceu dez anos depois do desastre do Imperatrice du Brésil. No dia 25 de março de 1870, sob o comando do capitão Cuthbertson, o brigue dinamarquês Mercurius, de 338 toneladas, com 22 tripulantes, bateu nos recifes de coral.
Ovos de tartaruga coletados no atol em 1934.
Os sobreviventes construíram uma cabana com restos de barcos antigos, sofreram muito com um tipo de formiga que enxameavam a Ilha do Cemitério e labutaram pela vida por 51 dias. 16 destes homens morreram. Apesar do número relativamente pequeno de mortos, diante da falta de maiores registros, este foi um dos mais graves desastres conhecidos no atol. Os náufragos do Mercurius foram recolhidos no dia 15 de maio pela tripulação do barco Silver Graig, que avistaram primeiramente a cabana dos náufragos[14].
Outros restos de naufrágios fotografados em 1934
Em 18 de junho 1871 o governo brasileiro volta ao atol. Nesta data ppartiu do Rio de Janeiro a corveta Baiana, em viagem de instrução de Guardas-Marinha. Estava sob o comando do capitão-de-fragata João Antônio Alves Nogueira, onde visitou as Ilhas de Trindade, Fernando de Noronha, passando ao largo da Ilha Martins Vaz e chegando ao “Parcel das Rocas”, como também foi conhecido o local no passado. Os brasileiros ainda encontraram o abrigo feito pelos homens do Mercurius e grandes restos de navios antigos.
A partir da década de 1880 o governo brasileiro, através das Forças Armadas, inicia a construção de benfeitorias e de um farol “de 6ª classe”. Era uma estrutura simples, com uma luz montada em um mastro de madeira com 14 metros de altura. As obras foram tocadas sob o comando do coronel engenheiro João de Souza Melo Alvim e do capitão-tenente engenheiro Honório José Maria da Conceição Junior e no início de 1883 o primitivo farol das Rocas estava funcionando plenamente.
Mapa do Atol das Rocas produzido por Vital de Oliveira.
No seu relatório ao Ministro da Marinha, o coronel Alvim relata a existência de uma grande quantidade de restos de naufrágios, que apareciam principalmente na maré baixa, provenientes de aparentemente 18 sinistros. Âncoras de grandes dimensões, concentração de amarras, conjunto de correntes, cabrestantes, turcos, vergas, muito carvão para as máquinas a vapor, vigias e outras peças típicas de barcos.
Base de farol erguida em 1934.
Ao sul estavam duas âncoras encravadas no recife de coral e ali próximo chapas e cantoneiras. A nordeste do atol um velho canhão oxidado. A descrição é pormenorizada, com a relação do que achou e a localização destes restos. Ela é extensa, parecendo que as Rocas era mais um local de desmanche de barcos do que um ponto de terra firme perdido no Atlântico Sul[15].
Gradativamente os relatos de naufrágios diminuem nos arquivos históricos. Um dos últimos documentados foi o veleiro inglês Joquerina, que se despedaçou sobre os recifes de coral em 22 de abril de 1890[16].
Novos Rumos Para o Belo Atol
Na segunda década do século XX, o poste de madeira foi substituído por um de ferro, com 16 metros de altura, tendo sobre ele uma lanterna a gás acetileno do sistema canadense Wilson. Naquela época, vale ressaltar, esse gás era produzido pela mistura de carbureto de cálcio com água salgada, no próprio atol das Rocas.
Outra grande corrente no atol.
O Farol Rocas foi automatizado em 1914, tendo adquirido uma torre de treliça de ferro, assim como uma lanterna AGA, contendo válvula solar. Apesar dos avanços tecnológicos, a viagem até o farol, a reposição de 12 acumuladores de acetileno, e o desembarque no atol, ainda demandavam muitos esforços e requeriam cuidados.
No ano de 1934, a Marinha do Brasil enviou para as Rocas o navio faroleiro Vital de Oliveira, cuja equipe arduamente construiu uma torre de concreto armado com 16 metros de altura, em substituição à de treliça de ferro. Cerca de três décadas depois, pelo fato de a maresia ter corroído as suas ferragens, uma torre de alumínio (um pouco menor em altura) substituiu a de concreto armado. Finalmente, em 1986, o Farol Rocas adquiriu painéis solares e um banco de baterias fotovoltaicas[17].
O Atol das Rocas na atualidade – Foto Igor Pinheiro – Fonte – Flick.com
O Atol das Rocas é a primeira Reserva Biológica Marinha do Brasil criada no Brasil, em 5 de junho de 1979, pelo Decreto-lei n.º 83549, constituindo-se desse modo numa reserva biológica em que a única atividade humana permitida é a pesquisa científica. Pode ser considerada como uma das mais bem sucedidas unidades de conservação marinhas em termos de pesquisa. A singularidade, beleza e fragilidade deste ecossistema despertam o interesse de inúmeros pesquisadores e instituições de pesquisa nacionais e internacionais, haja vista o significativo número de trabalhos científicos, dissertações de mestrados e doutorados já realizados na unidade.
[2] Ver Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, págs. 1185 e 1204.
[3] Ver o livro “The India directory, or, Directions for sailing to and from the East Indies, China, Australia, and the interjacent ports of Africa and South America: comp. chiefly from original journals of the honourable company’s ships, and from observations and remarks, resulting from the experience of twenty-one years in the navigation of those seas”, produzido por VM. H. Allen and Co., Londres, 1841. Volume 1, pág. 32. Sobre o almirante Sir Home Riggs Popham ver http://es.wikipedia.org/wiki/Home_Riggs_Popham Em relação a fragata HMS Leda, ela foi lançada ao mar no ano de 1800 e dá nome a uma classe de 47 navios de guerra ingleses, equipado com 38 canhões, que tiveram forte atuação nas batalhas navais das guerras napoleônicas – ver http://en.wikipedia.org/wiki/HMS_Leda_(1800)
[4] Sobre a passagem da corveta francesa La Bayadere, ver o livro “The nautical magazine and naval chronicle for 1866”, Londres, 1866, pág. 18 e a Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, pág. 1205. Três franceses se destacam na primeira metade do século XIX, em campanhas hidrográficas no litoral brasileiro: Louis Marius Barral, Tardy de Montravel e Roussin. Este último chega em 1819, na corveta La Bayadére, e trabalha, até 1821, entre as Ilhas do Maranhão e de Santa Catarina. Disso resultam o roteiro “Le Pilote du Brésil” e, sobretudo, a “Carta Geral da Costa Brasileira”, além de catorze cartas particulares, tudo este material sido publicado entre 1822 e 1827. Sobre o Barão Albin Reine Roussin ver https://www.mar.mil.br/dhn/dhn/hist1823.html e http://fr.wikipedia.org/wiki/Albin_Roussin
[5] Enquanto a Ilha do Farol foi conhecida como Sable, ou Sand, no passado mais remoto a Ilha do Cemitério era conhecida como ilha de Grass, ou Capim. Ver http://www.seb-ecologia.org.br/viiceb/resumos_professores/Conferidos/PDF/Mauriz%E9lia.pdf – Já a areia ali existente é de um branco característico, as areias do Atol das Rocas são classificados como falsas, pois derivam apenas do calcário moído de incontáveis fragmentos de conchas, ossos de aves e de peixes e de detritos vegetais (esqueletos de seres chamados vermetos), que ocuparam as rochas vulcânicas, estabilizando a faixa de recifes emersa, geralmente na forma de um círculo ou semicírculo, com uma lacuna no meio. Ver http://aurelioschmitt.blogspot.com.br/2012/01/atol-das-rocas-um-pedacinho-do-brasil.html
[6] Sobre a passagem do brigue de exploração americano Dolphin, ver o livro “The nautical magazine and naval chronicle for 1866″, Londre, 1866, pág. 161 e a Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, pág. 1205 a 1207. Sobre o tenente Samuel Phillips Lee ver http://en.wikipedia.org/wiki/Samuel_Phillips_Lee
[7] Ver Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, págs. 1186 e 1187.
[8] Ver Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, pág. 1187 e o jornal The Sidney Morning Herald, Sidney, Australia, edição de 22 de janeiro de 1866, pág. 5. O Duncan Dunbar era registrado em Londres, mas seus proprietários seriam australianos.
[9] Nas quase duas semanas que os náufragos do Duncan Dunbar passaram no atol, tal como os náufragos do brigue E.D., avistaram cinco barcos que passavam pelas proximidades, mas estes não viram seus sinais de socorro. Isso mostra a intensidade do tráfego marítimo naquela época. Sobre animais deixados neste local por navegadores, não podemos olvidar que o Atol das Rocas também era conhecido como “Baixio das Cabras”. Mas sobre este fato não conseguimos nenhum dado.
[10] Sobre Parish no Atol das Rocas ver Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, pág. 1208 e http://www.pdavis.nl/ShowBiog.php?id=969
[11] Ver Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, págs. 1187 e 1192.
[12] Manuel Antônio Vital de Oliveira nasceu em Recife no dia 28 de Setembro de 1829, filho de Antônio Vital de Oliveira e Joanna Florinda de Gusmão Lobo Vidal. Permaneceu em Recife até 13 de Dezembro de 1842, onde fez os estudos necessários à sua matrícula na Escola Naval em 1 de Março de 1843. Aos dezenove anos de idade destacou-se no combate de 2 de fevereiro de 1849 , Revolução Praieira, de onde saiu ferido, merecendo a condecoração de Cavaleiro da Ordem de Cristo. Suas atividades hidrográficas começaram em 1845 no Iate Paraybano quando realizou em Pernambuco o levantamento do trecho entre Pitambu e São Bento e posteriormente o Atol das Rocas. No período de 1857 a 1859 como comandante do Paraybano fez o levantamento no trecho entre o rio Mossoró, Rio Grande do Norte, e a foz do rio São Francisco em Alagoas. Morreu em combate, a 2 de fevereiro de 1867, durante a Guerra do Paraguai. Ver Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, págs. 1207 a 1214.
[13] Ver Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, pág. 1187.
[14] Os náufragos do Mercurius foram recolhidos no dia 15 de maio pela tripulação do barco Silver Graig, que avistaram primeiramente a caba dos náufragos. Ver Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, págs. 1187 e 1188. Sobre a origem deste barco ver o Jornal da Tarde, edição de 14 de dezembro de 1869, Rio de janeiro, pág. 3.
[15] Ver Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, págs. 1188 a 1190.
[16] Ver Revista Marítima Brasileira. Imprensa Naval, Rio de Janeiro. Ano LIX, edição de janeiro-fevereiro de 1941, pág. 1188.
Cantadores de Viola Zipa Nunes e Etinha, Tabira, Pernambuco
Rostand Medeiros
Recentemente estive na região do Pajeú, em Pernambuco, onde acompanhei o trabalho do fotógrafo e Jornalista Álvaro Severo, no desenvolvimento do Projeto “Flui do Sertão – o sertão diluído em imagens…”, cujo resultado será em breve apresentado na forma de uma exposição fotográfica em São Paulo.
O nosso encontro aconteceu na agradável cidade de Tabira, distante 405 km de Recife e possuindo uma população com cerca de 28.000 habitantes. Ali Álvaro Severo esteve em um encontro na casa do poeta Dedé Monteiro, junto a integrantes da APPTA (Associação dos Poetas e Prosadores de Tabira) e depois participou de uma entrevista na Rádio Cultura FM, sob o comando do radialista e blogueiro Junior Alves.
Radialista e Blogueiro Junior Alves e o poeta Dedé Monteiro – Foto Álvaro Severo
Na sequência seguiram todos para o Sítio Pocinhos, as margens da estrada asfaltada que liga Tabira a cidade paraibana de Água Branca. Ali encontramos os irmãos Josaete e Josino Nunes Firmino, ambos cantadores de viola, mas que também tocam suas vidas dirigindo um pequeno comércio e no cabo da enxada.
Quando chegamos Josaete estava trabalhando no roçado e veio conversar conosco ainda com a chibanca na mão e sujo de terra. Já Josino estava no seu estabelecimento comercial, o conhecido “Bar do arroz”.
Ambos deram um tempo em suas atividades para servirem de modelos para o fotógrafo Álvaro Severo. Ficaram felizes em saber que a exposição desenvolvida por Álvaro vai acontecer no Festival de Fotografias BIT, em Atibaia, interior de São Paulo, cujo a realização está a cargo da Incubadora de Artistas, um pólo catalizador de ações culturais e sociais ( http://www.incubadoradeartistas.com.br/ ).
Na sequência os cantadores me narraram sobre suas cantorias, suas vidas e a história do seu lugar. Me informaram sobre a força e a importância da cantoria de viola nesta parte do Nordeste brasileiro e, evidentemente, tocaram viola.
Conhecidos popularmente como Etinha e Zipa Nunes, com extrema humildade me informaram que não se consideram profissionais, mas já possuem três CDs gravados, um DVD e já se apresentaram várias vezes em muitos locais da região do Pajeú. Comentaram que na cidade de Tabira a cantoria de viola é parte do dia a dia local e que as associações de cantadores que buscam a manutenção e renovação desta arte tipicamente nordestina. Ali os festivais de viola são frequentes, as rádios estão sempre apresentando cantorias e novos valores vão surgindo entre os mais jovens. Para eles, e muitas pessoas de Tabira, o cantar, o improviso, o desafio de viola, é antes de tudo uma diversão, um prazer, talvez uma brincadeira e um grande encontro com amigos. Ir para um “Pé de parede” é parte da existência deles, inclusive tocar viola pode acontecer a qualquer hora, a qualquer momento.
Na conversa me comentaram que são tantos os cantadores de viola em sua cidade que é possível fazer dois festivais simultaneamente, com apresentações de várias duplas de violeiros, em locais separados da comunidade. Além disso, Tabira é berço de cantadores que percorrem todo o Nordeste levando a sua arte de forma profissional, como José Carlos Nunes, o Zé Carlos do Pajeú, filho de Etinha e sobrinho de Zipa Nunes.
José Carlos Nunes, o Zé Carlos do Pajeú
Para os irmãos cantadores as inspirações e exemplos para o desenvolvimento de sua arte vêm de cantorias ouvidas no “pé de parede”, ou seja, em apresentações simples, sem sofisticações, microfones e caixas de som. Ouviram na sua região gente do naipe de um Pinto do Monteiro, um Manoel Reis, Severino Ferreira, Manuel Xudu. Outra grande influência para eles foram os irmãos cantadores Lourival, Dimas e Otacílio Batista[1].
Para eles a viola, o instrumento, é simplesmente um “Pinho”, ou “Reguenteira”. Tanto faz se ela é visualmente simples ou com ornamentos, o respeito é igual. Pois é o instrumento que os inserem em um patamar mais elevado no seu meio social. Em relação às origens do instrumento eles valorizam os fabricados pelo amigo e cantador Denílson Nunes, de Tuparetama, Pernambuco, que segundo eles fábrica ótimas violas.
Eu já sabia que no Pajeú era terra de poetas e cantadores de viola, eu só não sabia da força e popularização desta arte na região. Para Etinha e Zipa Nunes um dos fatores do sucesso da força da cantoria de viola em Tabira e região está na união das associações de cantadores. Elas são registradas em cartório e reconhecidas na comunidade como entidades que batalham junto às instituições governamentais e aos empresários na busca de apoio para o desenvolvimento da arte da cantoria de viola. Na cidade o comércio tem uma visão positiva e proativa no apoio a cantoria. O próprio Zipa Nunes organiza no seu estabelecimento uma cantoria denominada “Belas tardes de viola”, sempre no último domingo de cada mês, onde reúne cantadores de várias localidades do Pajeú e da vizinha Paraíba.
Quando se está no Pajeú, além da poesia, da cantoria de viola, da cultura local, outro assunto palpitante e recorrente é o cangaço. Zipa Nunes contou que na época que o Sítio Pocinhos era mais afastado de Tabira, seu avô Firmino Gregório de Santana recebeu várias vezes o grupo de cangaceiro do famoso Antônio Silvino quando passava pela região. O chefe e seus cangaceiros ficavam arranchados em um local onde tinha um grupo de grandes juazeiros, que proporcionava sombra e abrigo. Zipa Nunes comenta que sua família ajudava para evitar serem atacados pelos cangaceiros.
Sebastião Dias, cantador afamado, atual prefeito de Tabira e potiguar da região do Seridó, da cidade de Ouro Branco – Fonte – clubedorepente.com.
Para finalizar eu soube que o atual prefeito desta cidade é também um cantador e, para minha total surpresa, um potiguar. Estamos falando de Sebastião Dias Filho, seridoense da cidade de Ouro Branco, próximo a Caicó. Filho de Sebastião Dias de Araújo e Ana Araújo de Medeiros, consta que Sebastião sofreu uma grande influência da sua família na escolha da profissão por serem ligados as cantorias de viola.
[1]Entre os cantadores comentador por Etinha e Zipa Nunes podemos destacar Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro. Nascido 21 de novembro de 1895, na cidade de Monteiro, Paraíba, é considerado uma verdadeira lenda do improviso e da cantoria de viola nordestina. Pinto de Monteiro era filho de um tropeiro com uma doméstica e passou por várias profissões, antes de se dedicar inteiramente à viola. Foram seus mestres de cantoria Saturnino Mandu, de Poções (PE), Manoel Clementino, de Sumé (PB), e José de Lima em companhia de quem foi para o Recife onde cantou com muitos repentistas daquele Estado. A característica marcante da cantoria de Pinto foi a naturalidade e rapidez de improviso. Faleceu em 28 de outubro de 1990. Outro grande berço de cantadores nordestinos é a da cidade pernambucana de São José do Egito, vizinho a Tabira e foi de lá que surgiram os irmãos Batista no cenário da viola. Destes quem mais se destacou foi Lourival Batista Patriota, também conhecido por Louro do Pajeú, considerado um dos um dos mais afamados poetas populares do Nordeste. Nasceu em Itapetim (PE), em 6 de janeiro de 1915 e faleceu em São José do Egito no dia 5 de dezembro de 1992. Foi considerado o “Rei do trocadilho”, concluiu o curso ginasial no Recife em 1933, de onde saiu para fazer cantorias. Sempre viveu dessa arte de repentista e cantador. Apresentou-se, assim, em várias partes do Brasil. Fontes –http://cantigasecantos.blogspot.com.br/2013/05/poesia-pinto-do-monteiro-um-cantador.html e http://pt.wikipedia.org/wiki/Lourival_Batista
Com a recém-conquistada colônia holandesa, a Igreja Cristã Reformada, nome da Igreja Protestante na Holanda, inicia sua expedição missionária com os índios do Brasil holandês. Além da pregação religiosa na língua nativa, outras iniciativas pretendiam a tradução da Bíblia para o tupi.
Autor – Frans Leonard Schalkwijk
Três vezes a igreja protestante foi implantada no Brasil Colônia, três vezes foi expulsa pelos portugueses católicos. Primeira vez: a igreja reformada dos franceses no Rio de Janeiro (1557-1558); segunda, a dos holandeses na Bahia (1624-1625); terceira, a dos holandeses, alemães, ibéricos, ingleses, franceses e índios no Nordeste, quase 30 anos depois. ]
Área de ocupação do Brasil holandês – Fonte – nl.wikipedia.org
A história da igreja protestante indígena durante a Ocupação holandesa do Nordeste (1630-1654) está registrada em vários arquivos, especialmente em Amsterdã e Haia, na Holanda.
No século XVII, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco constituíam os três principais centros urbanos do Brasil Colônia. A riqueza produzida pelo açúcar brasileiro ajudava a Espanha a consolidar o seu domínio, enquanto procurava estrangular a jovem República dos Países Baixos – ou seja, a Holanda.
OS CONFLITOS DA COROA DE CASTELA
Embora o Brasil tivesse nascido como colônia portuguesa, a partir de 1580 Portugal havia passado a fazer parte da União Ibérica, comandada pela Espanha. O Brasil, em conseqüência, foi envolvido nos conflitos internacionais da coroa de Castela.
Na Holanda, pouco depois de 1500 a casa de Habsburgo chegou ao poder e reuniu as possessões alemãs, espanholas e holandesas nas mãos de Carlos V. Foi quando eclodiu, na Europa, a Reforma Protestante (1517).
Tropas holandesas e um engenho nordestino em 1664
O sucessor de Carlos V, Filipe II, rei da Espanha, decidiu eliminar os protestantes de suas terras, o que levou à Guerra dos 80 Anos (1568-1648).
Com a derrota da armada espanhola, em 1588, o poder da Espanha entrou em declínio, enquanto a Holanda ganhou impulso, especialmente porque recebeu milhares de refugiados franceses, belgas, espanhóis, alemães, poloneses. Tinha início a Idade de Ouro dos Países Baixos.
O trono espanhol, em represália, fechou seus portos para os holandeses, que foram obrigados a singrar os oceanos, considerados até então considerados mares territoriais ibéricos.
A Igreja Cristã Reformada (Protestante) também crescia com o afluxo de refugiados perseguidos por sua fé religiosa. Nessa Primeira Guerra Mundial, o vigoroso comércio ultramarino holandês organizou duas grandes companhias – a das Índias Orientais e a das Índias Ocidentais – para fortalecer a cooperação entre as empresas e se proteger dos espanhóis.
Brasão do Brasil holandês
O Atlântico era a área da Companhia das Índias Ocidentais, cuja diretoria era composta de 19 membros, os chamados Senhores XIX, representantes das cidades cooperadoras, das quais Amsterdã era a principal.
Cientes de que as maiores riquezas da inimiga Espanha provinham das Américas, estes senhores começaram a pensar na conquista de parte das colônias americanas como forma de estancar a fonte de sustentação econômica das forças espanholas.
Nesse contexto, a Bahia parecia presa fácil, e a cidade de Salvador foi tomada. Conquista, entretanto, perdida um ano depois (1624-1625). Os holandeses, porém, decidiram prosseguir com a empreitada, agora voltada para Pernambuco. O sucesso do projeto deu início ao Brasil Holandês (1630-1654).
Edificação da Companhia das Índias Ocidentais em Amsterdam
Durante esse período, tem lugar um capítulo pouco conhecido da história eclesiástica brasileira, a da Igreja Cristão Reformada, nome da Igreja Protestante na Holanda. Era uma igreja do Estado, situação das igrejas no Ocidente, seja nos países católicos, seja nos protestantes. A Igreja Cristã Reformada veio para o Brasil sob a bandeira holandesa, e foi expulsa com ela.
Na medida que os holandeses ampliavam o território conquistado, eram implantadas congregações reformadas. Durante algum tempo, existiram 22 igrejas protestantes no Nordeste, sendo que a do Recife era a maior, contando, inclusive, com uma congregação inglesa e uma francesa. Esta se reunia no templo gálico, que tinha no conde Maurício de Nassau seu membro mais ilustre e o pastorado era exercido pelo espanhol Vicentius Soler.
Na leitura dos documentos da época, surge uma igreja cercada de pessoas dispostas a expulsá-la de sua terra como a religião dos invasores.
Bandeira do Brasil holandês
Entretanto, para os índios, os holandeses não eram invasores, mas sim libertadores, o que levou a missão reformada no Nordeste a fazer uma opção preferencial pelos indígenas. Para os holandeses, as tribos aculturadas constituíam os brasilianos e as não-subjugadas os tapuias.
Filipe Camarão: O líder dos Potiguares recebeu honrarias do Rei Português por sua lealdade aos interesses lusos.
O primeiro contato entre os brasilianos e a Companhia das Índias Ocidentais ocorreu em Salvador. Com a perda da cidade, em 1625, o almirante da frota holandesa seguiu para o norte e aportou na baía da Traição, cerca de nove quilômetros ao norte da Paraíba.
Os índios locais, da tribo potiguar, viram nos holandeses os seus libertadores do jugo português e muitos quiseram embarcar quando a frota partiu. Apenas seis jovens índios conseguiram seguir para a Holanda, enquanto a tribo procurava refúgio na mata para fugir da vingança dos portugueses.
Os seis índios potiguares – entre eles o índio Pedro Poti – permaneceram durante cinco anos nos Países Baixos, onde foram alfabetizados e instruídos na religião reformada. Pouco depois da invasão de Pernambuco, alguns desses índios foram enviados de volta ao Brasil para servirem de línguas (tradutores) no contato com seus compatriotas nas aldeias nordestinas.
O sistema de aldeamento dos índios foi iniciado pelos padres católicos e continuou com os holandeses. Por volta de 1639, o Rio Grande abrigava cinco aldeias de brasilianos, a Paraíba sete, Itamaracá cinco e Pernambuco quatro. O trabalho da igreja reformada teve início em cima do trabalho realizado pelos padres católicos.
Os índios tinham aprendido algumas orações, a confissão apostólica, conheciam os nomes de Jesus e de Nossa Senhora, e tinham sido batizados; quanto ao mais, mantinham suas crenças animistas. Cedo a Igreja Reformada começou a evangelizar os indígenas, com apoio do governo, que precisava dos guerreiros na luta contra os portugueses.
Mas, apesar dos esforços, os holandeses não conseguiram estabelecer um método ideal de evangelização. Entretanto, os documentos registram anotações sobre batismos. No Presbitério de 1637, por exemplo, surge a questão do batismo de filhos de brasilianos e de africanos de pais já batizados pelos padres católicos. A Igreja Cristão Reformada reconheceu o batismo da Igreja Católica Romana, e decidiu que os filhos de pais batizados poderiam receber o sinal da aliança desde que seus pais confessassem a Jesus Cristo.
Mapa da região de Itamaracá
Em 1638, índios da Paraíba pediram ao Presbitério um predicante próprio. Nestas alturas, o Presbitério decidiu atender ao pedido dos indígenas e deslocar um pastor para as aldeias para pregar a palavra de Deus, administrar os sacramentos e exercer a disciplina eclesiástica, lembrando as três marcas da verdadeira igreja, conforme o artigo 29 da Confissão Belga. Esse plano recebeu o apoio do governo, sob a liderança de Nassau.
APESAR DOS ESFORÇOS, OS HOLANDESES NÃO CONSEGUIRAM ESTABELECER UM MÉTODO EFICIENTE DE EVANGELIZAÇÃO
Convidado, o pastor David à Doreslaer mudou-se da capital da Paraíba para a aldeia de Maurícia. O trabalho do pastor Doreslaer teve sucesso, pois foi elogiado pelos representantes do Presbitério do Brasil em carta aos Senhores XIX, enquanto Nassau comunicava que os próprios índios expulsaram os padres das aldeias.
Doreslaer e o pastor inglês Johannes Eduardus ampliaram o trabalho missionário e deram início ao ministério da educação. O primeiro professor protestante entre os índios foi o espanhol Dionísio Biscareto, casado com uma holandesa. Biscareto foi nomeado professor em Itapecerica, a maior aldeia da região de Goiana. Para as aldeias paraibanas, foi indicado o professor inglês Thomas Kemp.
Em 1640 começou o trabalho de brasilianização, movimento idealizado pelo pastor Soler, da Igreja Francesa no Recife. Ele conheceu um brasiliano razoavelmente experimentado nos princípios da religião, e no ler e escrever, capaz de instruir os índios. O pastor Eduardus, por sua vez, lembrou a existência de índios em idênticas condições em Goiana.
Assim, solicitaram ao governo que esses índios fossem nomeados professores nas aldeias, com um salário mensal de 12 florins, soldo de um cabo do exército. Esses dois índios foram os primeiros professores indígenas da Igreja Protestante na América do Sul.
Em livro publicado em 1651, Pierre Moreau cita um jovem ministro britânico que traduzira as Santas Escrituras para a língua brasiliana. Tudo indica que o hábil lingüista era o pastor Eduardus. Mas o que foi traduzido? Provavelmente apenas trechos bíblicos, mas, até hoje, não foram encontrados registros sobre o assunto nos arquivos. O que fica evidente é o interesse da Igreja Cristã Reformada em entregar aos índios a mensagem bíblica em sua própria língua.
Com a necessidade de um catecismo em língua tupi, o pastor Doreslaer organizou um livro de instrução que foi impresso na Holanda com o título Uma instrução simples e breve da Palavra de Deus nas línguas brasiliana, holandesa e portuguesa, confeccionada e editada por ordem e em nome da Convenção Eclesial Presbiterial no Brasil com formulários para batismo e santa ceia acrescentados. Embora o livro tenha sido criticado pelo Presbitério de Amsterdã, a Companhia das Índias Ocidentais mandou imprimi-lo em 1641 e, no ano seguinte, distribuiu-o no Brasil.
No terreno da assistência social, a Igreja Reformada enfrentava a caótica situação matrimonial existente na colônia, inclusive entre os índios. Muitos brasilianos casados viviam separados de suas esposas e não podiam casar-se novamente, embora muitos desejassem fazê-lo.
O Presbitério, em 1638, foi de opinião que a parte desertora do casal deveria ser citada por edital público do juiz civil. Depois de determinado período, a parte abandonada deveria ser considerada livre da parte desertora, o que deveria ser aprovado pelo magistrado. Esta determinação, reconhecendo a fraqueza da natureza humana, representa o primeiro projeto de reconciliação ou divórcio legal na América do Sul.
Os resultados práticos, entretanto, foram limitados, em razão das hesitações do magistrado, temeroso de conseqüências mais amplas. Na outra ponta, o problema da escravidão dos índios exigia solução urgente.
Desde o início da chegada dos holandeses ficou claro que os indígenas, aculturados e não-aculturados, deveriam ser livres. A liberdade dos brasilianos seria um dos capítulos fundamentais da Constituição do Brasil Holandês e tratada nos Regulamentos de 1629, 1636 e 1645.
Os holandeses não só precisavam dos índios na guerra contra os ibéricos, como sentiam profunda empatia pelos indígenas, pois, como eles, também estavam sendo oprimidos pela União Ibérica, a superpotência mundial da época.
LIBERTAÇÃO DOS INDÍGENAS
Os Senhores XIX insistiram para que fossem postos em liberdade os brasilianos escravizados pelos portugueses em 1625, depois da partida da esquadra holandesa. Esta libertação demorou, e começou a se tornar concreta com o início do trabalho missionário.
Em 1638, descobriu-se que os moradores portugueses de Recife ainda mantinham indígenas como escravos domésticos. Boa parte desses índios havia sido aprisionada pelas expedições punitivas levadas a efeito ao redor da baia da Traição, em 1625. O governo ordenou que todos os escravos fossem libertados imediatamente.
O governo holandês também combateu duramente a semi-escravidão, lembrando aos proprietários rurais, em Alagoas, que índios somente poderiam trabalhar nas lavouras por livre vontade e recebendo a devida remuneração. O sub-pagamento foi outra forma de exploração firmemente reprimida no Nordeste holandês. O governo determinou que os capitães que abusassem de sua autoridade fossem exemplarmente castigados.
Os índios, por sua vez, desejavam se transferir para as aldeias que possuíam missionários e, após intervenção do Presbitério, as autoridades promoveram as transferências para colaborar com o crescimento da igreja de Deus.
Na história da luta da Igreja Reformada no Brasil em favor da libertação dos índios é necessário lembrar a lei do ventre livre de 1645, originária de consulta do pastor Kemp sobre a situação de brasilianos casados com escravas africanas e escravos negros casados com indígenas.
Em resposta, as autoridades decidiram que a parte escrava do casal não se libertava pelo matrimônio, mas podia ser alforriada, e que os filhos resultantes desse tipo de casamento seriam considerados livres, reiterando que brasilianos, sem exceção, eram livres.
EM RELAÇÃO À ESCRAVIDÃO DOS NEGROS AFICANOS, AS CONSCIÊNCIAS CRISTÃS ERAM PRIMITIVAS, CONSIDERAVAM-NA UM ESCRÚPULO DESNECESSÁRIO
Infelizmente, quanto à escravidão africana, na época as consciências cristãs era subdesenvolvidas. Quando o pastor Jacobus Dapper questionou se era lícito ao cristão negociar ou possuir escravos africanos, até o conde de Nassau afirmou que se tratava de escrúpulos desnecessários.
Nassau se conformava ao espírito de seu tempo, mas contrariava o pensamento do pai espiritual da Companhia, o belga Willem Usselinex, e do patriarca da Igreja Reformada, o francês João Calvino.
O derradeiro período da missão da Igreja Cristã Reformada começou com a realização de duas importantes assembléias, uma eclesiástica, outra política. A mesa da Assembléia Geral das Igrejas recebeu pedidos de tribos que queriam receber seus próprios obreiros.
O professor Dionísio Biscareto foi ordenado pastor e dois brasilianos nomeados professores. Poucos meses antes da chamada insurreição pernambucana, em 1645, realizou-se a primeira grande assembléia indígena, com 120 representantes, em Itapecerica, na capitania de Itamaracá.
Foram organizadas três câmaras,: a câmara de Itamaracá, dirigida pelo índio Carapeba; a de Paraíba, pelo índio Pedro Poti; e a do Rio Grande, pelo índio Antônio Paraupaba.
O teste final e violento da missão reformada veio com a eclosão da guerra de restauração portuguesa. Os documentos atestam a impressionante fidelidade dos brasilianos refugiados ao redor das fortalezas litorâneas.
O mais famoso desses registros são as chamadas cartas tupis, trocadas entre dois primos colocados em campos opostos, o capitão-mór Filipe Camarão e Pedro Poti. Camarão era defensor do lado luso-católico na guerra; Poti, defensor do lado flamengo-reformado. Essa correspondência deixa claro a estreita vinculação entre fé e nação, igreja e Estado. Filipe Camarão escreveu: não quero reconhecer a Antônio Paraupaba, nem a Pedro Poti, que se tornaram hereges […].
Batalha dos Guararapes
Em resposta datada de 31 de outubro de 1645, dia da Reforma Protestante, Poti garante que seus índios viviam em maior liberdade do que os outros, ressaltando que os portugueses queriam apenas escravizá-los.
Poti lembra a Camarão as matanças ocorridas na baia da Traição e em Sirinhaém, havia poucas semanas, quando os portugueses, após a rendição da frota holandesa, mataram perversamente 23 índios prisioneiros de guerra, quebrando as condições previamente acordadas.
Confessou também ser cristão, crendo somente em Cristo, não desejando contaminar-se com a idolatria, e convidou seus parentes e amigos a passar para o lado dos piedosos, que nos reconhecem no nosso país e nos tratam bem.
Ambos os primos não veriam o final dessa luta sangrenta: Camarão faleceu em 1648, depois da primeira batalha de Guararapes, e Poti no ano seguinte foi preso no cabo Santo Agostinho pelos portugueses. Segundo testemunho de Paraupaba, Poti foi lançado num poço, onde permaneceu durante seis meses.
Insurreição Pernambucana
Retirado de vez em quando, padres se atiravam sobre ele, tentando obrigá-lo a abjurar a religião protestante. Poti, entretanto, resistiu bravamente na fé protestante, e foi embarcado para Portugal, para as câmaras de tortura do Santo Ofício, mas a viagem não acabou, atalhada pela morte.
A guerra de restauração aproximou ainda mais os índios dos holandeses e apenas o pacto com os brasilianos garantiu a resistência flamenga durante nove anos.
Quando não houve mais condições de manter Recife, com as tropas luso-brasileiras às portas das fortificações e a armada portuguesa á entrada do porto, o Nordeste foi devolvido a Portugal. Terminava, também, a missão cristã reformada, impossível sem a proteção de um país protestante.
Em 12 de dezembro de 1926, o advogado Estácio Coimbra assume o mais alto cargo no Poder Executivo de Pernambuco. Neste novo governo foi designado como Chefe de Polícia (cargo equivalente atualmente ao de Secretário de Segurança) o também advogado Eurico Souza Leão. Este nasceu em 1889, no Engenho Laranjeiras, interior pernambucano. Era filho de Manoel Arthur Souza Leão e Ernestina Freire Souza Leão, de tradicional família ligada à aristocracia da Zona da Mata Pernambucana. Eurico estudou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, colando grau no dia 23 de dezembro de 1921. Quando assumiu seu cargo em 1926, o jovem de 37 anos tinha pela frente uma tarefa muito difícil; nada menos do que comandar a estrutura estadual e os homens que iriam perseguir o mais importante chefe de cangaceiros do Brasil, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
Eurico, com o apoio do governador Coimbra, logo marcou uma reunião para promover convênios com os estados vizinhos, visando uma ação contra o cangaço. Ele reformulou o serviço policial volante, compondo os grupos de combate com soldados oriundos do sertão, com hábitos e resistência física semelhante às dos próprios cangaceiros. Outra ação importante foi a abertura de processos judiciais e até mesmo prisões de pessoas que apoiavam e davam guarida aos bandidos, os chamados coiteiros. Muitos destes eram ligados ao próprio partido do governo estadual.
Logo a ação trouxe resultados de maneira extremamente positiva, ajudando a destruir o elo que unia os cangaceiros aos poderosos chefes do interior e enfraquecendo a ação dos bandidos.
Uma caricatura apresenta o medo do sertanejo em relação ao cangaço
As medidas aplicadas foram avassaladoras e provocaram muitas baixas entre os cangaceiros, principalmente entre os membros do grupo de Lampião, conquistando também a opinião pública. Nesta empreitada o Chefe de Polícia Eurico Sousa Leão teve como um dos principais elementos ao seu lado o major Teófanes Ferraz Torres, que comandou as unidades policiais nas cidades e vilas do interior[1].
Resultados Imediatos
Dos cangaceiros capturados pela ação do governo pernambucano, antes do episódio de Mossoró, sem dúvida que a maior “estrela” foi Arthur José Gomes da Silva, o conhecido Beija Flor. Ele havia sido capturado na região de Jatobá de Tacaratu pela volante do tenente Amadeu[2].
O cangaceiro Beija Flor
Chegou ao Recife em 13 de março fortemente escoltado por dez policiais, desembarcando em um trem da Great Western. Os jornais propalavam que ele falava desembaraçadamente e com tranquilidade, apesar de analfabeto. Jovem, tinha cabelos claros e foi pessoalmente interrogado por Eurico. Afirmou que era chefe de um bando de cangaceiros independentes, que ocasionalmente se reunia com Lampião para realizar assaltos, sendo considerado responsável por “mais de 30 mortes” e assaltos ao longo de sua vida como bandoleiro. Finalizou informando que desde janeiro não se encontrava com Lampião e sabia que este tinha ido “para o norte”[3].
Segundo os pesquisadores Frederico Bezerra Maciel e Bismarck Martins de Oliveira, o cangaceiro Arthur José Gomes da Silva, o Beija Flor, era pernambucano, filho do ex-praça da polícia pernambucana Arsênio José Gomes e de Maria Tereza da Conceição, além de ser irmão de Euclides José Gomes, o cangaceiro Cacheado. Ele teria acompanhado seu irmão e o bando de Lampião durante a ida deste a cidade cearense de Juazeiro, quando em 6 de março de 1926 houve o encontro de Lampião e Padre Cícero. Os autores apontam que os irmãos Gomes participaram da maior batalha da história do cangaço, a da Serra Grande, próximo a Vila Bela, em 26 de novembro de 1926.
Bando de Lampião em Juazeiro, 1926
Beija Flor sempre andava com uma ostensiva medalha de Nossa Senhora das Graças no peito, tendo sido preso no dia 3 de fevereiro de 1927, aos 21 anos de idade. Devido à ação mais enérgica da polícia pernambucana, tencionava seguir para a região de Uauá, na Bahia.
Dias depois da sua chegada a capital de Pernambuco, os jornais locais divulgavam, até com certa surpresa, que Beija Flor havia constituído um advogado para ser libertado. Seu causídico logo requereu um habeas corpus junto ao Superior Tribunal de Justiça. Através do Desembargador Arthur da Silva Rêgo, solicitou ao Chefe de Polícia Eurico Sousa Leão maiores informações sobre aquele prisioneiro que tinha a alcunha de um pequeno pássaro e estava doido para “bater asas” de novo. A resposta de Eurico não utilizou palavras positivas. Informou que o cangaceiro era “perigoso”, sendo considerado “um problema seu livramento”.
Beija Flor havia cometido crimes em Água Branca, Alagoas, onde estava pronunciado nos artigos 294 e 356 (assassinato e roubo), do Código Penal de 1890, então vigente na época. Já no município pernambucano de Vila Bela, atual Serra Talhada, ele também estava pronunciado no mesmo artigo 294 e nos artigos 136 (incêndio a edificação) e 304 (lesão corporal). Para complicar a situação de Beija Flor, o Chefe de Polícia ainda aguardava novas comunicações do major Ferraz sobre outros crimes que ele havia cometido. Dias depois o pedido de habeas corpus foi negado[4].
Antiga Cadeia Pública de Recife – Fonte – ideiasembalsamadas.blogspot.com
Logo outros cangaceiros foram chegando para a grande Casa de Detenção do Recife[5].
Mais de 100 Cangaceiros Capturados ou Mortos
Sempre com certo estardalhaço, quando novas prisões e mortes de cangaceiros ocorridas no sertão eram divulgadas em profusão na imprensa recifense.
Na noite de 11 de abril de 1927, uma segunda feira, um homem negro, alto, procurou o major Ferraz no quartel da polícia em Vila Bela. Disse que seu nome era Francisco Miguel, que era acusado de assassinato no município pernambucano de Floresta, havia andado como membro do grupo de Lampião, era conhecido como Pássaro Preto e deixou o bando a cerca de dois meses. Logo este cangaceiro, que também participou do grande combate de Serra Grande, veio para Recife[6].
Lampião e seu irmão Antônio em Juazeiro
Em 19 de abril, no lugarejo São João do Barro Vermelho, perto de Vila Bela, foi morto o cangaceiro Cícero Nogueira em um tiroteio com as volantes dos tenentes Antônio Francisco e Alfredo Alexandre. Mesmo sem maiores detalhes, consta que os policiais passaram pelo lugar Poço Ferro e tiveram a notícia que este bandoleiro, também participante do combate de Serra Grande, estava próximo a São João do Barro Vermelho.
Major Teófanes Ferraz Torres
Ali foi capturado pelo soldado Augusto Gouveia. Mesmo detido e cercado, em um dado momento este cangaceiro pediu para palestrar com seu captor, no que foi atendido. No meio da conversa Cícero Nogueira aproveitou um momento de distração do militar e bateu com seu chapéu de couro na cabeça de Gouveia. Na correria que se seguiu o cangaceiro foi alvejado e morto[7].
Quando completava seis meses a frente do cargo, no dia 11 de junho de 1927, através da imprensa pernambucana, Eurico Sousa Leão, junto com o major Ferraz, divulgaram uma lista com o nome, alcunha e fatos ligados a captura ou morte de 100 cangaceiros de diversos bandos que infestavam o sertão[8].
Esta lista impressionante foi publicada no mesmo dia que Lampião e seus homens se encontravam no Rio Grande do Norte, com o objetivo de realizar o ataque a Mossoró, o que ocorreria dois dias depois. O fato do “Rei do Cangaço” está em terras potiguares, buscando novas paragens para praticar suas rapinagens e crimes, é um quadro claro da feroz perseguição que sofria em solo pernambucano.
Dias Maravilhosos Para os Policiais
Ao longo do segundo semestre de 1927 outros cangaceiros foram sendo continuamente mortos e capturados pelas forças policiais de Pernambuco e de outros estados nordestinos. Dentre estes estavam alguns que estiveram no ataque dos cangaceiros ao Rio Grande do Norte.
Lampião e seu bando após a derrota em Mossoró
Na sexta-feira, 22 de julho de 1927, o telégrafo estalou em Recife com a notícia da captura naquele mesmo dia do cangaceiro Serra do Umã, também alcunhado Mão Foveira. Ele se chamava Domingos dos Anjos de Oliveira, era negro, jovem, tido como valente e natural da grande Serra do Umã, uma elevação natural do sertão pernambucano cheia de histórias[9].
Região da Serra do Umã na atualidade – Foto – G. dos Anjos
Já o bandoleiro Serra do Umã era irmão do cangaceiro alcunhado Azulão, morto no dia 10 de junho de 1927 pelo soldado da polícia potiguar José Monteiro de Matos, no lugar Caiçara, próximo a povoação de Vitória, durante a primeira resistência ocorrida contra Lampião e seus homens no Rio Grande do Norte[10].
Cangaceiro Serra do Umã preso em Recife
Além de Azulão, o pai e outro irmão do cangaceiro Serra do Umã também já haviam andado com Lampião de arma na mão e chapéu de couro na cabeça. Estes dois, Raimundos dos Anjos (o pai) e Rufino (o irmão), foram presos nos primeiros dias de agosto pela volante do tenente Arlindo Rocha, na localidade Serrote, município de Floresta[11].
Cangaceiro Andorinha
Ao observar os jornais antigos e livros sobre o tema cangaço, é inegável que aqueles dias de agosto de 1927 foram maravilhosos para a luta das forças de segurança do governo pernambucano contra os cangaceiros e outros bandidos que infestavam o sertão. Até o fim do mês foram presos 16 destes foras da lei, alguns capturados nos contrafortes da própria Serra do Umã. Entre estes figuravam cangaceiros como José Alves de Lima, o José Guida, e João Alves Mariano, o Andorinha, respectivamente com 52 e 30 anos de idade e que haviam acompanhado o mítico chefe cangaceiro Sinhô Pereira[12].
Também estavam detidos os antigos companheiros de Lampião como Antônio Quelé Alves Bezerra, ou Antônio Guilé, alcunhado Candeeiro, Camilo Domingos de Farias, o Pirulito, e seus parentes Fortunato Domingos de Farias, o Guará, e Benedito Domingos de Farias. Consta que Candeeiro e Benedito Domingos estiveram em Mossoró no dia 13 de junho de 1927[13].
Benedito Domingos de Farias preso. Ele também participou do ataque a Mossoró
Nestas capturas o tenente Arlindo Rocha certamente usou de violência para alcançar os seus intentos, inclusive contra os coiteiros da Serra do Umã. Após capturar Pirulito (e depois de certamente apertá-lo) o tenente Arlindo esteve junto aos coiteiros conhecidos como David Dudu, Manoel Domingos e Manoel Lucindo, membros ou ligados a família Domingos. Com estes conseguiu encontrar três fuzis Mauser e um rifle Winchester. Mesmo discretamente, um jornal recifense afirma que o tenente Arlindo conseguiu este material bélico depois de colocar os coiteiros “debaixo de rigor”[14].
Em setembro, no dia 11, um domingo, quem se entregou na cadeia de Vila Bela foi outro cangaceiro que causou sensação na imprensa quando chegou à casa de Detenção do Recife. Era o famoso Zabelê.
Considerado de alta periculosidade pela polícia, seu nome verdadeiro era Isaias Vieira dos Santos e quem o recebeu foi o delegado A. Xavier. O cangaceiro declarou que havia tomado parte em vários tiroteios, estando envolvido em um crime na Serra Grande e que nos últimos 14 dias ele estava sem alimentação regular devido à perseguição policial, vivendo de plantas do mato. Aí não teve jeito e decidiu se entregar[15].
Zabelê
Na década de 1960, já velho, morando em um casebre em Serra Talhada, desassistido e muito pobre, Isaias Vieira dos Santos declarou a pesquisadora Aglae Lima de Oliveira que no passado havia sido um pequeno vendedor nas caatingas e seus melhores clientes eram os bandidos. A polícia soube quem era a sua clientela preferencial, o classificou como coiteiro, prometeu surrá-lo e prendê-lo. Isaias decidiu então seguir junto com Lampião. Nesta mesma entrevista, destinada a fornecer dados para o desenvolvimento do livro “Lampião, Cangaço e Nordeste”, o ex-cangaceiro Zabelê afirmou a Aglae de Lima que se entregou aos policiais porque soube que “-Tava garantido pelo coroné Corneio Luare”.
Ou houve um erro gráfico na impressão do livro. Ou a transcrição da fala tradicional do velho cangaceiro ficou muito a desejar. Ou a pesquisadora não quis colocar textualmente que a pessoa que supostamente garantia a entrega de Zabelê à polícia era o comerciante e político serra-talhadense Cornélio Soares[16].
Quem Podia Pagava. Quem não Podia Ficava…
O ano de 1928 se iniciou e mais cangaceiros chegavam ao Recife.
Em 28 de março, vindo de Rio Branco (atual Arcoverde), chegava a Recife um trem com 15 cangaceiros e uma escolta de 30 policiais.
Camilo Domingos de Farias, o Pirulito
Na gare da estação desembarcaram Camilo Domingos de Farias, o Pirulito, Antônio Bernardo Silva, Adriel Ananias Pereira, Manoel Othon Alencar, o Seu Né, Benedito Domingos Farias, Manuel Torquato Amorim, Antônio Quelé Bezerra, o Candeeiro, Domingos dos Anjos de Oliveira, o Serra do Umã, Fortunato Domingos de Farias, o Guará, Rufino dos Anjos Oliveira, Manoel Cornélio de Alencar, o Sinhô Piano, José Bernardo da Silva, Antônio Serafim da Silva, o Antônio de Ernestina e Cícero Flor da Silva[17].
Para quem estava preso os dias passavam lentos, como se passa em todo local de detenção. Para evitar este problema, quem podia tratava de sair da cadeia pelos meios legais.
Este foi o caso do comerciante Emiliano Novaes. Membro de uma proeminente família da cidade de Floresta, tido como amigo e coiteiro de Lampião, consta que chegou a cavalgar de arma na mão ao lado de cangaceiros. No livro de Luiz Bernardo Pericás, “Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica” existe a reprodução de um telegrama policial enviado pelo tenente Sólon Jardim, de Vila Bela para Recife.
O Casca Grossa
Informava o oficial que Emiliano Novaes estava chamando cangaceiros de várias partes para atacar a vila de Nazaré, onde viviam e se concentravam alguns dos maiores inimigos e mais tenazes perseguidores de Lampião.
O grupo de Emiliano Novaes era superior a 100 cangaceiros e entre suas ações consta que no dia 29 de julho de 1926, no lugar Ingazeira, eles mataram o Soldado Cândido de Souza Ferraz, de número 386, lotado na 1ª companhia, do 3º Batalhão de Vila Bela. Consta que o Soldado Ferraz estava com a saúde debilitada e seguia para o quartel quando foi covardemente assassinado.
Pelo crime Emiliano Novaes foi preso. Mas em agosto de 1928, através do renomado Dr. Caetano Galhardo, seu advogado, conseguiu o desaforamento de seu processo para o município do Cabo, próximo a capital pernambucana. Depois o Dr. Galhardo impetrou uma ordem de habeas corpus. Esta foi julgada em 21 de agosto, sendo o processo anulado “Ab initio” e concedendo a liberdade ao acusado, que foi imediatamente solto[18].
Já os cangaceiros sem recursos, nem advogados, pagavam seus crimes na cadeia.
Um Intelectual Visita os Cangaceiros
Na Casa de Detenção de Recife, os agora ex-cangaceiros trabalhavam principalmente na sapataria, alguns eram alfaiates e um era serralheiro. Eles eram muito respeitados pelos outros presos, mas raramente recebiam alguma visita de parentes.
Cangaceiro Capão
Entretanto entre as décadas de 1920 e 1930 era normal a visita de estudiosos e jornalistas ávidos para descobrir os aspectos ligados aos cangaceiros e ao cangaço. Mas a maioria só procurava conversar com o velho e respeitado Manoel Baptista de Morais, o famoso cangaceiro Antônio Silvino.
Fotos de cangaceiros presos na Casa de Detenção de Recife, estampada na primeira página de um jornal da capital pernambucana
Mas os antigos guerreiros de chapéu de couro não ficavam fora dos holofotes. O Chefe de Polícia Eurico Sousa Leão, não criava nenhum tipo de problema quando algum jornalista de Recife e de outras cidades queriam entrevistar e fotografar os cangaceiros. Era uma ótima propaganda da ação “saneadora” do governo pernambucano contra a violência no sertão.
Outra foto dos cangaceiro na reportagem de “O Malho” de dezembro de 1928
Uma grande reportagem, que trazia como principal fotografia que abre este artigo, foi realizada pela revista carioca “O Malho”, edição de 29 de dezembro de 1928, cujo autor foi o respeitado Ribeiro Couto. E este fez diferente, nem sequer falou com Antônio Silvino e foi direto conversar com os “cabras” de Lampião[19].
Aproveitando uma parada de quatro horas do vapor Bagé em Recife, Ribeiro Couto deu um jeito de ir à Casa de Detenção. Ali quem lhe apresentou o ambiente foi o delegado Maurício Pinheiro Guimaraes.
Aqueles antigos cangaceiros, sem suas impressionantes roupas e armas, envergando seus claros uniformes azuis de presidiários não causavam medo ao visitante.
Entre maravilhado e um tanto repugnado, o paulista de Santos primeiramente tentou contato com Beija Flor, mas soube que ele estava em uma audiência no interior do estado. Mas se impressionou com Serra do Umã, que para ele era “um cafuzo que os próprios companheiros temiam pelos instintos ferozes”.
Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto
Ribeiro Couto foi até a oficina da sapataria, onde cerca de 80 homens realizavam seus ofícios na maior tranquilidade, mas a maioria deles estava condenada a 30 anos de reclusão. Ali foi apresentado a Genésio Vaqueiro, um negro risonho, mas discreto. Era conhecido no cangaço como Mourão, disse ter andado com Lampião só por alguns “dias”, que era agricultor, se iludira com o cangaço e que não tinha nenhuma morte nas costas.
Baraúna, o cangaceiro que Couto considerou “um índio”
Já em relação a Antônio Gregório da Silva, o Baraúna (ou Braúna), Couto o considerou sua aparência como a de um “índio” e soube que era um dos mais perigosos homens que andou com Lampião. Mas também um verdadeiro artista na “arte de engraxar botas”, seu ofício na Casa de Detenção.
Já de Ventania, que não tinha ainda vinte anos, cujo nome verdadeiro era José Pereira da Cunha, foi o único dos detentos que expressou uma opinião negativa sobre Lampião, por ele ter desrespeitado uma prima sua. Ribeiro Couto sugeriu então se não seria o caso de incorporá-lo nas volantes que no final de 1928 caçavam Lampião nos sertões da Bahia.
Para Ribeiro Couto aqueles rapazes, que um dia viveram apenas da agricultura, ao andarem com Lampião se tornaram “famosos”, mas que também aquilo havia sido a perdição de todos[20].
Anos Atrás das Grades
O tempo ia passando, seguindo o ritmo da justiça.
No começo de dezembro de 1929, em seção presidida no Fórum de São Lourenço pelo juiz José Julião R. Pinto de Souza, sendo promotor o Dr. Nogueira Vilela, o ex-cangaceiro Serra do Umã foi pela segunda vez absolvido. Não sei dizer quando ocorreu seu primeiro júri, mas sabemos que o seu processo foi desaforado da Comarca de Floresta e que, mesmo com a segunda absolvição, o Dr. Vilela apelou novamente. Mas o antigo companheiro de Lampião não desistiu[21].
Não sabemos quando, mas temos a notícia que Beija Flor foi julgado e condenado a 30 anos de reclusão no presídio do então Território Federal de Fernando de Noronha. Em fevereiro deste mesmo ano ele chegava do temido arquipélago no vapor Corcovado, junto com mais 90 detidos, para ir depor em Salgueiro, no interior de Pernambuco. Foi notícia em todos os jornais recifenses[22].
O cangaceiro Guará
Ao longo dos anos vários dos antigos bandoleiros participavam de seus julgamentos, alguns deles por vezes seguidas, com resultados que chamam atenção. No primeiro julgamento da 4ª Seção do Júri de Recife, presidido pelo Dr. João Tavares, no dia 25 de outubro de 1933 foram absolvidos Benedito Domingos de Farias (que havia feito parte do bando de Lampião durante o ataque de Mossoró), Fortunato Domingos de Farias, o Guará, e Domingos dos Anjos de Oliveira, o Serra do Umã. Para Domingos era terceira vez que pisava em um tribunal e pela terceira vez ocorria a sua absolvição. Mas tal como das outras vezes, pela terceira vez o promotor recorreu. A partir daí não sabemos o que aconteceu com ele e seus companheiros[23].
Passados 30, 40 anos depois, vamos ter algumas notícias destes antigos cangaceiros que andaram com Lampião no período anterior a 1928. Entretanto o destino de muitos requer pesquisa mais acentuada, mas com possibilidades de se conseguir poucas informações. E a causa é relativamente simples!
Em outra reportagem de “O Malho” vemos, da esq. para dir. os cangaceiros Cobra Verde, Cocada e Recruta em 1929
Estigmatizados, perseguidos e marcados, para muitos que sobreviveram ao cangaço e o cárcere, o melhor na vida pós-cadeia era a discrição. Evitar falar sobre este tema. Evitar falar sobre a sua vida no cangaço e na cadeia até com os familiares.
Na década de 1920 a Casa de Detenção de Recife se caracterizava por haver grupos de trabalhos, como este da gráfica e encadernação.
Muitos deles até estavam vivos e lúcidos quando vários setores culturais brasileiros nas décadas de 1950 e 1960 voltaram seus focos para o tema cangaço e a sociedade brasileira passou a conhecer Mais do tema. Mas o Nordeste dessa época ainda era bem atrasado no sentido de absorção de informações e poucos foram até eles com material condizente para gerar bons registros.
Cangaceiro Cancão
Na década de 1970 pesquisadores começaram a percorrer os sertões em Fords Rurais em busca dos que participaram do cangaço antes de 1928. Buscavam histórias da época anterior a Lampião cruzar o “Velho Chico”, quando os bandos podiam ter mais de 100 “cabras” e antes das mulheres participarem ativamente do cangaço.
Antônio Quelé Alves Bezerra, ou Antônio Guilé, alcunhado Candeeiro
Chegaram aos rincões levando a tiracolo pesados gravadores de “Fitas K7” e máquinas fotográficas japonesas de ótima qualidade. Mas muitos dos que vivenciaram aquele momento do cangaço ou continuavam sem querer falar, ou já tinham morrido, ou estavam senis.
Mas com persistência e uma busca mais apurada alguns falaram e deram ótimos depoimentos sobre suas andanças de armas na mão.
Mas poucos falaram das experiências cadeia!
Dos que falaram temos o exemplo de Isaias Vieira dos Santos, o Zabelê.
No seu relato dado a pesquisadora Aglae Lima de Oliveira no final da década de 1960, comentou que quando andava com Lampião passava muito bem e vivia de “barriga cheia”. Mas aí veio o cárcere!
Sabemos que Zabelê passou 14 anos atrás das grades e que grande parte foi em Fernando de Noronha. Para ele este tempo de presídio lhe trazia muito arrependimento. Mas não pelos crimes cometidos, mas por ter se entregado as autoridades. Isaias reclamou que nunca achou “quem espiasse meus papé” para sair mais cedo da cadeia.
José Alves de Lima, o José Guida, que teria sido cangaceiro de Sinhô Pereira
Ele confirmou que entrou no cangaço “empurrado pula puliça” e que não era ”home de leva surra de outro home”. A pesquisadora Aglae Lima acentuou em seu livro que Isaias Vieira dos Santos, na época do seu relato “passava fome”[24].
[2] Este lugar atualmente se chama Petrolândia, está localizado na região do Médio São Francisco, na fronteira entre Pernambuco e Bahia e possui cerca de 25.000 habitantes.
[3]Beija Flor afirmou também que estava atuando com seu pequeno bando de cangaceiros na fronteira entre Pernambuco e a Bahia, quando caiu em uma cilada e foi capturado. Mais sobre Beija Flor ver o Jornal de Recife, Recife-PE, edição de 15 de março de 1927, pág. 2. Sobre a saída de Lampião de Pernambuco devido à atuação das forças volantes ver TORRES FILHO, G. F. de S. Pernambuco no tempo do Cangaço : Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Virgulino Ferreira “Lampião” : Theophanes Ferraz Torres, um bravo militar – Volume II (1926-1933): Recife-PE: Edições Bagaço, 2003, págs. 170 a 174.
MACIEL, F. B. Lampião, seu tempo e seu reinado: A Guerra de Guerrilhas (fase de domínio): Petrópolis-RJ: Editora Vozes Ltda, 1986, págs. 171 e OLIVEIRA, B. M. O Cangaceirismo no Nordeste, 2ª Ed.: João Pessoa-PB, 2002, pág. 209.
[5] Em 6 de agosto de 1848, através da Lei provincial 213, foi autorizada a construção de uma cadeia pública em Recife. A construção se iniciou em 1850 e sua conclusão só ocorreu em 1867, apesar da sua inauguração oficial ter sido realizada 25 de abril de 1855. O prédio da Casa de Detenção do Recife, em estilo neoclássico, foi construído em forma de cruz, ficando as celas dispostas em alas que podiam ser vigiadas facilmente a partir de uma sala central. Em 1973, depois de 118, o presídio foi desativado e o local transformado na Casa de Cultura de Pernambuco, onde até hoje funciona um centro de artesanato, com lojas de pintura, bordado, joias, confecções etc. Ver www.casadaculturape.com.br/aCasa.php
[6] Ver o periódico Jornal Pequeno, Recife-PE, edição do dia 12 de abril de 1927, 1ª pág.
[7] Cícero Nogueira é apontado nos jornais como sendo tanto coiteiro que apoiava Lampião, quanto cangaceiro que andou com o grande chefe do cangaço e, aparentemente, formou um pequeno bando que perturbava a paz na região de São João do Barro Vermelho, atualmente denominada Tauapiranga e ainda hoje um distrito de Serra Talhada. Ver os periódicos Jornal Pequeno, Recife-PE, edição do dia 12 de abril de 1927, 1ª pág, A Província, Recife-PE, edição do dia 20 de abril de 1927, pág. 5 e o livro de TORRES FILHO, G. F. de S. Pernambuco no tempo do Cangaço : Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Virgulino Ferreira “Lampião” : Theophanes Ferraz Torres, um bravo militar – Volume II (1926-1933): Recife-PE: Edições Bagaço, 2003, págs. 194 e 195.
[8] Ver jornal A Província, Recife-PE, edições dos dias 11 e 12 de junho de 1927, págs. 2 e 3 respectivamente.
[9] Com altitudes que chegam a quase 1.000 metros, está localizada entre as cidades pernambucanas de Floresta, Salgueiro e Serra Talhada, mas a cidade mais próxima é Carnaubeira da Penha, com quase 13.000 habitantes. Durante o período do Cangaço a Serra Umã foi um verdadeiro baluarte dos bandoleiros e considerada quase inexpugnável. Em 1920 o então capitão Teófanes Ferraz Torres subiu a serra atrás de bandidos, junto com uma volante e levou um tiro no rosto dos chamados “Caboclos da serra”. Estes eram os descendentes de indígenas e de antigos escravos fugitivos que buscaram refúgio naquela grande elevação. Já a presença dos indígenas na Serra do Umã data provavelmente do século XIX. Segundo documentos de 1801, esses índios, sob a denominação de Umãs juntamente com outras tribos, foram aldeados no local onde permaneceram até 1819, quando a aldeia foi abandonada após vários conflitos. Em 1824, houve a dispersão de diversos grupos indígenas pelo sertão de Pernambuco, tendo os Umã se dirigido para região da Serra Negra. As primeiras visitas de representantes do extinto SPI – Serviço de Proteção ao Índio àquele grupo ocorreram entre 1943 e 1945, conforme depoimento de índios Aticum, quando funcionários desse órgãoestiveram na área para assisti-los dançarem o “toré”. A realização do “toré” seria o Indicador de que os habitantes daquela serra do sertão pernambucano eram “índios”, o que Ihes então daria o direito de receberem assistência do SPI. Em 1949 foi criado o Posto Indígena Aticum, posteriormente denominado Padre Nelson, na aldeia Alto da Serra. A presença dos antigos escravos é caracterizada também pela adoção de elementos da religiosidade de matriz africana entre os índios Aticum. Sobre a prisão do cangaceiro Serra do Umã ver jornal A Província, Recife-PE, edição do dia 22 de julho de 1927, pág. 2. Sobre as populações indígenas que habitam a Serra do Umã ver http://www.ufpe.br/nepe/povosindigenas/atikum.htm / http://www.ufpe.br/nepe/povosindigenas/atikum.htm. Sobre a fama da Serra doUmã ser um baluarte de cangaceiro ver TORRES FILHO, G. F. de S. Pernambuco no tempo do Cangaço : Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Virgulino Ferreira “Lampião” : Theophanes Ferraz Torres, um bravo militar – Volume II (1926-1933): Recife-PE: Edições Bagaço, 2003, págs. 218 e 219.
[11] Sobre a prisão do pai e do irmão do cangaceiro Serra do Umã, ver jornal O Paiz, Rio de Janeiro-RJ, edição do dia 13 de agosto de 1927, pág. 4.
[12] Mais sobre José de Guida e Andorinha, ver Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 2º de maior de 1928, pág. 7.
[13] Segundo o pesquisador Bismarck Martins de Oliveira o cangaceiro Andorinha também havia estado com Lampião em Juazeiro, no dia 4 de março de 1926. Sobre Candeeiro este autor aponta que ele também acompanhou Lampião a Juazeiro, esteve no grande combate da Serra Grande e confirma que o mesmo esteve participando da invasão de Mossoró. Ver OLIVEIRA, B. M. O Cangaceirismo no Nordeste, 2ª Ed.: João Pessoa-PB, 2002, págs. 200 e 214.Ver também os jornais A Província, Recife-PE, edição do dia 19 de agosto de 1927, pág. 5. e Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 23 de agosto de 1927, 1ª pág.
[14] Ver o Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 23 de agosto de 1927, pág. 9.
[15]A Província, Recife-PE, edição do dia 14 de setembro de 1927, pág. 3.
[16] Sobre o depoimento de Isaias Vieira dos Santos, ver OLIVEIRA, A. L. Lampião, Cangaço e Nordeste, 2ª Ed.: Rio de janeiro-RJ, 1970, págs. 420 e 421. Já em relação a Cornélio Aurélio Soares Lima, era mais conhecido como coronel Cornélio Soares, nasceu no dia 14 de setembro de 1886 na cidade de Salgueiro, era filho de Tibúrcio Valeriano Gomes Lima e Dona Lucinda Soares Lima. Ainda jovem contrai matrimônio com Cecília Diniz com quem forma uma prole de sete filhos. Em 1925 fica viúvo, e no ano de 1926 casa-se com Úrsula de Carvalho Soares que lhe dá mais nove filhos. Desde cedo demonstrou grande vocação para política, tomando sempre parte decisiva em todos os acontecimentos políticos e sociais da época. Com o advento da revolução de 1930, assume o comando político da então Vila Bela, que tinha como líder na política estadual o Dr. Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães. Foi prefeito de Serra Talhada no período de 1947 a 1951. Faleceu em 6 de agosto de 1955. Ver – http://www.fundacaocasadacultura.com.br/site/?p=materias_ver&id=268
[17] Ver o Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 30 de março de 1928, pág. 5.
[18] Sobre o caso Emiliano Novaes ver PERICÁS, L. B. Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica: São Paulo-SP, 2010, Boitempo Editorial, págs. 214 e 215. Também o Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 22 de agosto de 1928, pág. 3. Já “Ab initio” é uma expressão latina que significa desde o início, desde o começo.
[19] Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (Santos, 12 de março de 1898 — Paris, 30 de maio de 1963), mais conhecido simplesmente como Ribeiro Couto, formou-se bacharel em Direito em 1919, no Rio de Janeiro RJ. Até 1922, colaborou nas revistas Brás Cubas e Careta, sob os pseudônimos de Antônio Simples e Zeca, e nos jornais Gazeta de Notícias, sob o pseudônimo de Eduardo Sancho, Diário do Rio de Janeiro, A Pátria e A Manhã. Em 1921 publicou O Jardim das Confidências, seu primeiro livro de poesia. Nas décadas seguintes foram publicados seus romances Cabocla e Prima Belinha e seus livros de contos Circo de Cavalinhos e O Crime do Estudante Batista, entre outros. Também produziu livros de ensaios, impressões de viagens e crônicas, além da peça de teatro Nossos Papás. Entre 1929 e 1955 serviu, com adido consular e embaixador, na França, em Portugal e na Iugoslávia. Em 1932 fundou a Editora Civilização Brasileira, com Gustavo Barroso e outro sócio. Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1934. Sua obra poética inclui, entre outros, os livros Um Homem na Multidão (1926), Canções de Amor (1930), Noroeste e Outros Poemas do Brasil (1933), Cancioneiro do Ausente (1943) e Entre Mar e Rio (1952). A poesia de Ribeiro Couto pertence à segunda geração do Modernismo. De acordo com o crítico Rodrigo Octávio Filho – Ribeiro Couto opôs, aos temas nobres, os temas cotidianos, os temas da vida ao alcance do olhar de qualquer ‘homem da multidão’. E tudo isso em linguagem discreta e em meio tom.
[20] Ver Revista O Malho, Rio de Janeiro-RJ, ed. 29 de dezembro de 1928, págs. 23, 51 e 52.
[21] Sobre este caso, ver o jornal A Província, Recife-PE, edição do dia 4 de dezembro de 1929, pág. 2.
[22] Ver o periódico Jornal Pequeno, Recife-PE, edição do dia 2 de fevereiro de 1930, pág. 3.
[23] Ver o Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 26 de outubro de 1933, pág. 2.
[24] Ver OLIVEIRA, A. L. Lampião, Cangaço e Nordeste, 2ª Ed.: Rio de janeiro-RJ, 1970, págs. 420 e 421.
O sertão é do tamanho do mundo, dizia Guimarães Rosa. Dizia como ainda dizem os que se enveredam pelos tortuosos caminhos dos rincões nordestinos em busca de histórias, respostas, saberes. Não raro, porém, muitos retornam dessas terras ainda mais intrigados com novas questões. A pesquisadora Nathália Maria Montenegro Diniz mergulhou diversas vezes nesse território. Ali nasceram a dissertação de mestrado Velhas fazendas da Ribeira do Seridó (defendida em 2008) e a tese de doutorado Um sertão entre tantos outros: fazendas de gado nas Ribeiras do Norte (em 2013), ambas realizadas sob orientação de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Nessas empreitadas, ela encontrou não apenas respostas a seus estudos sobre a arquitetura rural do século XIX sertão adentro, mas também questionamentos novos que deram fôlego para um novo projeto de pesquisa, vencedor da 10ª edição do Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica – Clarival do Prado Valladares, divulgado em dezembro. O projeto O conhecimento científico do mundo português do século XVIII, de Magnus Roberto de Mello Pereira e Ana Lúcia Rocha Barbalho da Cruz, também foi premiado. Os vencedores foram escolhidos entre 213 trabalhos inscritos pela originalidade dos temas. O prêmio inclui a produção e publicação de um livro, sem valor predeterminado.
É difícil desvencilhar a história pessoal de Nathália Diniz de seu itinerário intelectual. De uma família de 11 filhos originária de Caicó, na região do Seridó, interior do Rio Grande do Norte, ela foi a primeira a nascer na capital potiguar. Em 1975, a família mudou-se para Natal – professores de matemática por ofício, os pais pretendiam oferecer melhores condições educacionais para os filhos. Nas férias e feriados todos retornavam à pequena cidade, onde ficavam em uma das casas das fazendas que pertenceu ao tataravô da pesquisadora. “Logo cedo pude notar as visões diferentes construídas sobre o sertão nordestino. As casas que eu via não eram as mesmas retratadas nas novelas de época, da aristocracia rural. Era outro sertão”, lembra.
Graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Nathália quis explorar os outros sertões esquecidos no século XIX, mais especialmente no Seridó, uma microrregião do semiárido que ocupa 25% do território do estado. Lá o povoamento se iniciou no século XVII com as fazendas de gado e o cultivo de algodão. Ainda estudante, deu o primeiro passo nessa direção quando participou de um projeto de extensão que investigou os núcleos de ocupação original do Seridó a partir de registros fotográficos e fichas catalográficas feitas por estudantes e pesquisadores. Descobriram, assim, que essas casas, posteriores ao período colonial, mantinham características herdadas da arquitetura colonial ao lado de elementos ecléticos modernos.
Uma vez bacharel, Nathália viajou a São Paulo para participar de um encontro de arquitetos e deparou com o processo seletivo para mestrado na FAU. Decidiu, então, despedir-se do Nordeste para estudar na capital paulista. “Foi preciso partir para poder redescobrir os sertões”, diz ela. Para seu projeto de dissertação, a jovem arquiteta tinha um trunfo: a originalidade da pesquisa sobre as casas de Seridó. “Quase ninguém conhece aquele patrimônio. Quis apresentar essa realidade nas minhas pesquisas.”
Acervo arquitetônico
Nathália investigou o acervo arquitetônico rural do Seridó, de formas simples e austeras, sem o apelo estético de outros exemplares do litoral nordestino. Essas construções, entre casas de famílias, casas de farinha e engenhos, representam um tipo de economia do século XIX alicerçado no pastoreio e no cultivo de algodão. Embora fundamental para a identidade da região, segundo o estudo, esse acervo composto por 52 edificações conta com poucas iniciativas concretas para tornar viável sua preservação.
Casa da fazenda Almas de Cima, também no Rio Grande do Norte: preservação ainda precária – Fonte – Nathália Diniz
No início do século XVII, com o povoamento do interior do Rio Grande do Norte, sesmeiros pernambucanos fincaram raízes no Seridó. Foi no século XVIII que surgiram as casas na região feitas de taipa, com madeiramento amarrado com couro cru, chão de barro batido e térreas, com telhado de beira e bica. Lentamente, as casas de taipa passaram a alvenaria, com tijolos apenas na fachada. Por fim, no século XIX, o Seridó ficou marcado pela construção de grandes casas de fazenda, habitadas pelo proprietário, familiares, agregados e escravos.
No doutorado, a arquiteta expandiu horizontes, territoriais e teóricos. Por um lado, debruçou-se sobre a arquitetura rural vinculada às fazendas de gado nos sertões do Norte (atuais estados da Bahia, Paraíba, Pernambuco, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte). Ela mapeou um acervo de 116 casas-sede a partir de levantamentos arquitetônicos do Piauí, Ceará e Bahia. A fim de melhor compreender o patrimônio material e imaterial nas habitações rurais dessa região, entrou nos campos da história social e da história econômica.
Do inventário de 116 casas-sede alicerçadas em pedra bruta, erigidas em diferentes ribeiras (Ribeira do Seridó, do Piauí, da Paraíba, dos Inhamuns e do São Francisco e Alto Sertão Baiano), a pesquisadora notou a heterogeneidade das construções arquitetônicas nas rotas do gado no Nordeste, que mantinham um mercado interno agitado, embora desconhecido, no calcanhar da economia do litoral exportador. Eram ainda construções pensadas para a realidade sertaneja, com sótãos e outras estruturas propícias para arejar os ambientes castigados pela alta temperatura e pelo tempo seco.
A casa da fazenda Santa Casa – Foto – Nathália Diniz
Contornando ribeiras e atravessando sertões, Nathália Diniz construiu suas investigações a partir de vestígios de tijolo, pedra e barro. Muitas casas de taipa, mencionadas nos arquivos, não resistiram ao tempo e desapareceram. Restaram fazendas formadas por casas-sede e currais. Entre as características da maioria das construções estavam à disposição dos ambientes: os serviços nos fundos do terreno, com tachos de cobre, pilões, gamelas; e a intimidade da vida doméstica no miolo das edificações, com mobiliário trivial, como mesas rústicas e redes, assentos de couro e de sola, baús e arcas de madeira. Em muitas fazendas, em paralelo a criação de gado, cultivaram-se cana-de-açúcar e mandioca, de onde viriam a rapadura e a farinha, que, ao lado da carne de sol, tornaram-se a base da alimentação sertaneja. “A arquitetura rural não segue modelos”, diz Nathália. “Os primeiros proprietários dessas casas eram filhos dos antigos senhores de engenho do litoral. Se a arquitetura rural tivesse um modelo, eles teriam construído casas similares às de seus pais no litoral, o que não ocorreu. A arquitetura dos sertões mostra a formação de uma sociedade a partir da interiorização dos sertões do Norte, de uma economia marcada pelo gado.”
Depois do doutoramento em São Paulo, a pesquisadora retornou a Natal, onde é professora de história da arte e de arquitetura no Centro Universitário Facex. Seu projeto atual é aprofundar a análise arquitetônica das casas-sede, explorando uma lacuna na historiografia brasileira sobre as relações sociais e suas consequências materiais nos sertões, ainda hoje um universo inóspito e incógnito, marcado por longas distâncias e imensos vazios. Esses territórios ficaram esquecidos, apesar de presentes na literatura e nos relatos memorialistas. Daí brotaram generalizações sobre o Nordeste e sua arquitetura rural, ainda compreendida a partir dos padrões dominantes da Zona da Mata pernambucana e do Recôncavo Baiano – o que, nas palavras da pesquisadora, não condiz com a realidade.
Exemplos da arquitetura sertaneja na Paraíba: sede da fazenda Sobrado – Foto – Nathália Diniz
Originalidade do tema
O novo trabalho será bancado com o prêmio ganho em dezembro e desenvolvido com o apoio de Beatriz Bueno, da FAU-USP. “O projeto de Nathália foi escolhido pela originalidade do tema e pela oportunidade que nos proporciona de compreender o processo de ocupação do sertão brasileiro e suas dimensões econômica, histórica e social”, diz o coordenador do Comitê Cultural da Odebrecht, Márcio Polidoro. Na economia, ela destacará o ferro que marcava o gado e que permitia identificar a fazenda à qual pertencia – até agora, a pesquisadora já coleciona 653 desenhos de ferro diferentes. “Num sertão disperso, sem fronteiras claramente visíveis, pontuado por tribos indígenas inimigas, o gado carregou a representação do território e da própria propriedade dos que vinham de outros lugares”, define. Na sociedade, ao cruzar os inventários post-mortem encontrados nos arquivos e nas casas, pretende compreender e revelar a vida cotidiana do sertanejo que se desenrolava a morosos passos no século XIX. Fará novas viagens para refazer fotografias e rever anotações. Mais uma vez, um retorno às suas raízes e às terras, tão diferentes das que via nas novelas na sua infância. “Ainda procuro o que buscava desde o início: quero mostrar o que eram esses outros sertões. Nós conhecemos a riqueza da arquitetura litorânea, a arquitetura do açúcar e do café. Falta a arquitetura sertaneja”, conclui.
Projeto–Paisagem cultural sertaneja: as fazendas de gado do sertão nordestino (nº 2009/09508); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisadora responsável Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno; Bolsista Nathália Maria Montenegro Diniz; Investimento R$ 130.587,92 (FAPESP).
Uma grande amiga, que dá muito valor a história, me mandou a dica desta postagem.
Ela é feita sob medida para aqueles que buscam saber se descendem, ou não, de judeus.
Mas vamos aos fatos.
Bem, em um site de notícias mexicano temos a informação que o governo espanhol publicou uma lista com 5.220 nomes e sobrenomes de origem judaica, que serão reconhecidos pela Espanha após mais de 500 anos de exclusão.
Informa o site que dias atrás o parlamento espanhol começou uma análise para devolver a cidadania para os descendentes dos judeus expulsos em 1492.
Aqueles que possuem estes sobrenomes, que vivam ou não na Espanha, poderão obter a dupla cidadania. Pois segundo o site de notícias, o artigo 23 º do Código Civil Espanhol, afirma que “Os cidadãos estrangeiros sefarditas, que provem a sua condição e sua ligação especial com o nosso país, mesmo sem residência legal em Espanha, qualquer que seja a sua ideologia, religião ou crenças”.
Bem, se isso é sério e real eu não tenho como corroborar.
Mas sabemos que no final do século XV, os judeus compunham entre 10% e 15% da população de Portugal — isso somando os cerca de 50 mil judeus portugueses, mais os quase 120 mil que cruzaram a fronteira vindos da vizinha Espanha em 1492, quando os Reis Católicos Fernando e Isabel expulsaram toda a população judaica daquele reino. Nos primeiros dois séculos depois do Descobrimento, o Brasil recebeu boa parte dessa população, os chamados Cristão-novos, convertidos ao cristianismo à força. Um em cada três portugueses que imigraram para a colônia era Cristão-novo.
Até recentemente, acreditava-se que esses judeus conversos abandonaram seus sobrenomes “infiéis” para adotar novos “inventados” baseados exclusivamente em nomes de plantas, árvores, frutas, animais e acidentes geográficos.
Como identificar, então, quem era Cristão-novo?
A mais importante pista está justamente nos arquivos da Inquisição. Aproximadamente 40 mil julgamentos resistiram ao tempo, 95% deles referentes a crimes de judaísmo. Anita Waingort Novinsky, historiadora da Universidade de São Paulo, encontrou exatos 1.819 sobrenomes de Cristão-novos detidos, só no século XVIII, no chamado “Livro dos Culpados”. Os sobrenomes mais comuns dos detidos eram , Nunes (120), Henriques (68), Mendes (66), Correia (51), Lopes (51), Costa, (49), Cardoso (48), Silva (47) e Fonseca (33). A Inquisição anotava todos os nomes dos detidos cuidadosamente, como se fosse a Gestapo nazista e mantinha uma relação de bens de Cristão-novos para confisco.
Isso não quer dizer, no entanto, que todas as famílias com esses sobrenomes eram marranas. Nas investigações, sob tortura, os detidos diziam tudo o que os inquisidores queriam ouvir, acusando vizinhos, empregados e parentes “inocentes”. Fora isso, os sobrenomes eram realmente comuns.
O historiador paulistano Paulo Valadares, autor do “Dicionário Sefaradi de Sobrenomes”, no qual destaca 14 mil sobrenomes oriundos de judeus da Península Ibérica, alerta que é preciso ir além: identificar se há antepassados portugueses que chegaram ao Brasil nos séculos XVI ou XVII ou se foram citados nos anais da Inquisição até o século XVIII, se a família se estabeleceu em alguma região específica e se guarda tradições “estranhas” (Ver – http://www.olhardireto.com.br/conceito/noticias/exibir.asp?id=3514 ).
Bom, mas em relação a como se consegue esta dupla nacionalidade?
Aí não sei mesmo!
Mas acho que isso é difícil, pois assim a população Espanha dobraria de tamanho rapidamente. Tanto que depois saiu uma notícia que a pretensa concessão de cidadania espanhola através da ligação histórica com antepassados judeus seria falsa.
Em todo caso, no meu ponto de vista, o legal da postagem foi a publicação dos 5.220 sobrenomes de origem judaica. De pessoas que, segundo o site, foram comprovadamente expulsas daquele país após a Reconquista do território espanhol dos Mouros.
Eu encontrei meu sobrenome (ou “apellido”), Medeiros, entre os listados.
Mas os meus antepassados partiram, em um dia bem remoto, nesta situação de perseguição lá da Espanha ?
Esse material me incentivou a pesquisar mais fundo na história dos meus antepassados e o que descobri é que eles são realmente oriundos da Península Ibérica.
Brasão da freguesia da Ribeira Seca
É certo também que eles vieram de Portugal, pois consegui alcançar dois irmãos Medeiros que emigraram para o Brasil, mais precisamente para a vila (atual cidade) de Santa Luzia, na Paraíba e depois para o Seridó Potiguar.
Um deles fincou raízes na região da cidade potiguar de Caicó e seu irmão em Acari, de quem descendo. Isso tudo na primeira metade do século XVIII. Constam que eram oriundos da Ilha de São Miguel, nos Açores, mais precisamente da freguesia (aqui no Brasil é o distrito) da Ribeira Seca, também conhecida como São Miguel da Ribeira Seca. Esta freguesia pertence a cidade de Ribeira Grande.
Bem o que apurei sobre estes meus antepassados reproduzo mais adiante, logo após a lista com os nomes.
Mas voltando a questão judaica – Os antepassados destes irmãos Medeiros poderiam ter vindo da Espanha? Seriam eles eram judeus ou cristãos?
Confesso que nada sei. Mas buscar este passado remoto, as minhas raízes, isso é legal de se conhecer e espero aprofundar mais e mais estas pesquisas.
D. Da Costa, Da Silva, Dacosta, D’Acosta,Dalorso, Dalorzo, Dalsaso, Damaceno, Damito,Daniel, Daniels, Dapuerto, Dapueto,Darce, Darche,Darcia, Darío, Dasadre, Dasilva, Dávalos, David,Dávila, Davis, D’Avola, De Abate, De Aguilar, De Alba, De Alvarado, De Benedictis, De Briones, De Camino, De Castro, De Céspedes, De Espeleta, De Ezpeleta, De Falco, De Faria, De Franco, De Jesús, De Jorge, De Juana, De La Cruz, De La Cuesta,De La Espriella, De La Fuente, De La Garza, De La Guardia, De La Herran, De La Hormaza, De La Jara, De La Mata, De La Nuez, De La O, De La Osa, De La Ossa, De La Paz, De La Peña, De La Rocha, De La Rosa, De La Selva, De La Teja, De La Torre, De La Trava, De La Vega, De Largaespada, De Las Casas, De Las Cuevas, De Las Heras, De Lemos, De León, De Lev, De Lima, De López, De Luz, De Miguel, De Miranda, De Moya, De Odio, De Óleo, De Ona, De Oña, De Paco, De Paredes, De Pass, De Paz, De Pazos, De Pedro, De Pinedo, De Prado, De Rayo, De Sárraga, De Sá, De Trinidad, De Ureña, De Vega, De Yglesias, Del Barco, Del Barrio, Del Bello, Del Busto, Del Carmen, Del Castillo, Del Cid, Del Pilar, Del Pimo, Del Río, Del Risco, Del Socorro,Del Solar, Del Valle, Delatolla, Delgadillo, Delgado, Deliyore, Dellale, Dellanoce, Delso, Delvo, Dengo, Denis, Dennis, Detrinidad, Devanda, Devandas, Devoto, Dias, Díaz, Díez, Díjeres, Díjerez, Dimas, Dinares, Dinarte, Discua, Doblado, Dobles, Dodero, Dalmus, Dalmuz, Domingo, Domínguez, Donado, Donaire, Donato, Doña, Doñas, Donzón, Dorado, Dormos, Dormuz,Doryan, Duar, Duares, Duarte, Duartes, Duenas, Dueñas, Duque, Duque Estrada, Durall, Durán, Durante, Duval, Duvall, Duverrán.
Bem, como comentei anteriormente, este material me ajudou incentivou muito a buscar mais informações e o que apurei sobre o meu primeiro antepassado a chegar ao Brasil eu reproduzo agora….
Sebastião de Medeiros Matos– Natural da Ilha de São Miguel, nos Açores, Sebastião (também Sebastião Afonso de Medeiros, conforme alguns genealogistas) migrou para o Brasil na primeira metade do século XVIII, estabelecendo-se, inicialmente, em Santa Luzia, na Ribeira do Sabugi, na Paraíba, juntamente com seu irmão e companheiro de migração Rodrigo de Medeiros Rocha (nascido a 21 de janeiro de 1709, batizado no dia 26 seguinte, na igreja de São Pedro da Ribeira Seca, na mencionada Ilha de São Miguel).
Eles eram filhos de Manuel Afonso de Matos, Alferes, e Maria de Medeiros Pimentel, os quais haviam casado nos Açores, a 17 de junho de 1693, e, conforme o grande e seguro historiador e genealogista Olavo de Medeiros Filho, faleceram a 7 de novembro de 1729 e 27 de novembro de 1734, respectivamente, no lugar chamado Lomba de Santa Bárbara.
Pelo lado paterno, foram seus avós Rodrigo de Matos e Catarina de Fontes, e, pelo materno, Bartolomeu de Frias Camelo e Maria de Medeiros Rocha (casaram 31 de março de 1674), esta, filha de Francisco Lopes da Costa e Maria de Medeiros (casaram a 15 de outubro de 1650.
Em Santa Luzia, casaram-se ambos os irmãos com duas irmãs – Sebastião de Medeiros Matos, com Antônia de Morais Valcácer, e Rodrigo de Medeiros Rocha, com Apolônia Barbosa de Araújo. Eram elas filhas de Manuel Fernandes Freire, natural de Olinda, e de Antônia de Morais Valcácer, também Antônia de Morais, a qual era filha de Pedro Ferreira das Neves, conhecido como Pedro Velho, e sua mulher Custódia de Amorim Valcácer – ele, natural de Mamanguape, transladou-se para a Ribeira do Sabugi, onde viveu na Fazenda Cacimba da Velha e se tornou um patriarca e proprietário de muitas terras.
Aliás, juntamente com o cunhado Sebastião de Medeiros Matos, um filho homônimo do patriarca requereu a sesmaria transcrita abaixo, publicada por João de Lyra Tavares:
“Nº 497 em 24 de Março de 1759 – Tenente Vicente Ferreira Neves e Tenente Sebastião de Medeiros, moradores nesta capitania, dizem que a custa de sua fazenda e risco de suas vidas, tinham descoberto sobre a serra da Borburema, sertões deste governo, terras devolutas e desaproveitadas, com sufficiencia de crear gados e como careciam de terras para os crear pretendiam que se lhes concedesse por sesmaria em nome de S.M. tres leguas de comprido e uma de largo, para ambos, na dita serra, logar chamado Albino riacho chamado Olho d’Agua Grande que nascia da pedra chamada o Fundamento cujas terras confrontam em muita distância pela parte do nascente com R.R.P.P. da companhia do sitio do Poço, pela parte do poente com terras do defunto Izidoro Hortins, pela do norte com as de Antonio de Araujo Frazão e Cosme Dias de Araujo e pela do sul com José da Costa Romeo ou com quem verdadeiramente pertencesse, podendo fazer do comprimento largura ou da largura comprimento, pedindo em conclusão se lhe concedesse as ditas terras por sesmaria com as confrontações declaradas para fazer a sua situação e peão no dito logar chamado Albino e Riacho chamado Olho d’Agua Grande. Foi feita a concessão, no governo de José Henrique de Carvalho.”
A cidade de Acari, na ribeira do Rio Acauã, no Seridó Potiguar, surgiu de um pouso de viajantes, a partir da construção da Capela de Nossa Senhora da Guia (foto) pelo sargento‐mor Manuel Esteves de Andrade, em 1737. Foi neste templo religioso que meus antepassados buscaram conforto espiritual no Brasil – Fonte – http://vlogdocatiripapo.blogspot.com.br/2010/04/cantos-de-acari-igreja-do-rosario.html
Posteriormente, o Alferes, depois Tenente e, finalmente, Capitão Sebastião de Medeiros Matos e sua mulher, Antônia de Morais Valcácer, passaram para o Seridó do Rio Grande do Norte, região vizinha do Sabugi, onde até hoje proliferam seus descendentes. Todos os estudiosos da história e da genealogia do Sabugi e do Seridó são unânimes em afirmar que daqueles dois casais – Sebastião de Medeiros Matos e Antônia de Morais Valcácer, Rodrigo de Medeiros Rocha e Apolônia Barbosa de Araújo – descendem todos os que portam o sobrenome Medeiros, originados do sertão do Rio Grande do Norte e do da Paraíba. Aqui se deve registrar, ainda, que um sobrinho dos dois irmãos, de nome José Inácio de Matos, igualmente açoriano, também esteve muito ligado a eles, havendo migrado junto ou chegado logo pouco tempo depois; ele casou com uma filha de Sebastião de Medeiros Matos, Quitéria Maria da Conceição. Não se sabe exatamente quando aqueles irmãos chegaram ao Brasil, mas é razoável acreditar que aportaram aqui no final da terceira década do século XVIII. Sabe-se que Rodrigo teve seu inventário iniciado em 1757, ficando seu irmão como tutor dos órfãos; sua viúva, Apolônia, faleceu e foi sepultada a 28 de novembro de 1802, estando com 88 anos de idade, conforme o registro do seu sepultamento. De Sebastião e de sua mulher, Antônia, não tenho as datas de falecimento, mas ele estava ainda vivo em 1793, com uma avançadíssima idade.
Bom, é isso pessoal, espero que tenham curtido esta viagem genealógica.
Entretanto, confesso que por mais que descubra coisas interessantes nesta questão, o que me dá orgulha mesmo de ser quem sou, é o fato de ser Nordestino. Talvez eu não fosse tão feliz em ser brasileiro se não tivesse nascido nesta região e morasse aqui.
VEJA MAIS POSTAGENS SOBRE TEMAS LIGADOS A JUDEUS NO TOK DE HISTÓRIA
Viveu Muitos Anos na Capital Pernambucana e Era Torcedor do Sport Club Recife
Autor-Rostand Medeiros
Recentemente estive mais uma vez naquele que, em minha opinião, é o maior templo da memória da região Nordeste, o Arquivo Público do Estado de Pernambuco.
No centenário edifício na Rua do Imperador, localizado no centro do Recife, está uma das mais importantes hemerotecas do país. Apesar de prioritariamente abrigar a memória pernambucana, pessoas de outros estados da região sempre encontram muito material interessante, com boas histórias para contar.
Ao buscar realizar uma coleta de dados para um trabalho sobre a Segunda Guerra Mundial, me deparei com inúmeros e interessantes materiais. Daí surgiu à história, na verdade um epitáfio, de um jovem inglês chamado Thomas Peter Logan Griffith. Comentava que ele já havia morado em Recife, possuía família naquela bela cidade, era bem conhecido da sociedade local e havia morrido em combate em Malta.
Forte Ligação Inglesa Com Pernambuco
Thomas Peter Logan Griffith, ou Tom Griffith, nasceu em 09 de junho de 1917, em Cringleford, Norfolk. Era filho de Thomas Logan Griffith e Lucy Irene Beryl Blomfield, mas sua família tinha uma antiga e forte ligação com o Brasil. Seu avô se chamavaa Thomas Comber Griffith, representante em Recife da empresa de navegação Price Line Ltd, era casado com Isabel Clara Prangley, uma típica inglesa de Norfolk, mas com um nome tipicamente português. Eles tiveram dois filhos nascidos em Recife e outros que casaram nesta cidade.
Isso não era nenhuma novidade, pois os súditos da coroa inglesa sempre mantiveram fortes laços com Pernambuco. Assim como o avô e o pai de Tom Griffith, muitos destes estrangeiros exerciam cargos em empresas inglesas existentes em Pernambuco e espalhadas pelo Nordeste. Era o caso da Western Telegraph Company, da Pernambuco Tramways and Power Company, da Great Western of Brazil Railway Company (que possuía ramal ferroviário até Natal), da Telephone Company of Pernambuco, do Bank of London & South America,do London & River Plate Bank,da Price Waterhouse,da Machine Cotton,White Martins e de outros mais.
Os ingleses exerciam inegável influência entre a elite social pernambucana, divulgando seus hábitos, suas comidas, suas bebidas, sua maneira de vestir e seus esportes tradicionais, principalmente o “foot-ball”.
Vamos encontrar o pai de Tom Griffith como membro da equipe de futebol do Sport Club do Recife, participando de um jogo histórico; a primeira peleja do chamado Leão da Ilha contra o arquirrival Clube Náutico Capibaribe, um dos clássicos mais antigos do futebol nacional.
O jogo aconteceu na tarde de 25 de julho de 1909, um domingo, no campo do Pernambuco British Club e o resultado foi 3 x 1 para o Náutico, com participação decisiva de Thomas Logan Griffith no único gol da equipe rubro-negra. Consta que Thomas L. Griffith transmitiu sua paixão pelo rubro negro da Ilha do Retiro a todos os seus familiares e assistia aos jogos com seus filhos.
Vivendo em Recife
Durante a Primeira Guerra Mundial vamos encontrar a família Logan Griffith na Inglaterra. Segundo a reportagem existente no periódico recifense “Jornal Pequeno”, após o fim deste conflito a família retorna a capital pernambucana, onde Tom Griffith passa toda sua infância e adolescência, sempre muito bem ambientado.
Após o falecimento do avô de Tom Griffith em 1921, a representação da empresa de navegação Price Line Ltd continua com seu pai, com escritório na Rua Bom Jesus, número 220, sala 5, 2º andar. Esta rua é a antiga Rua dos Judeus, onde durante o período da dominação holandesa no Brasil (1630-1654) foi ali fundada a primeira sinagoga das Américas.
Aparentemente Thomas Logan Griffith foi naturalizado brasileiro, pois em 1934 chegou a ser designado pelo então presidente Getúlio Vargas, delegado da Diretoria de Estatística Econômica e Financeira do Tesouro Nacional em Pernambuco.
Segundo pudemos apurar os Logan Griffith residiam na Rua Padre Inglês, 314, bairro da Boa Vista, Recife, próximo as tradicionais escolas evangélicas Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil e a Escola de Trabalhadoras Cristãs, atual Seminário de Educação Cristã-SEC. Não podemos esquecer que no bairro da Boa Vista, a Rua Padre Inglês ganhou fama por hospedar diversos súditos do Império Britânico.
Tom Griffith em uniforme da RAF
Após o início a Segunda Guerra Mundial, muitos jovens de origem britânica que moravam no Brasil, nascidos ou não em nosso país tropical, ingressaram nas forças armadas de Sua Majestade e seguiram para várias áreas de combate. Tom Griffith foi um deles.
O Cerco de Malta
Apesar de servir na RAF – Royal Air Force (Real Força Aérea), a função de Tom Griffith não era no ar, mas no mar. No final de 1939 ele fazia parte da tripulação de uma lancha de alta velocidade do RAF Marine Craft, o também conhecido RAF Marine Craft, um grupo de elite que se arriscava dia e noite com a função de salvar vidas.
Barco HSL 130 da RAF realizando o salvamento em alto mar. Era neste tipo de barco que Tom Griffith servia.
Acredito, mas sem comprovação, que este jovem inglês vindo de Recife testemunhou os episódios épicos da Retirada de Dunquerque e participou de salvamento de pilotos durante a Batalha da Inglaterra. De certo sabemos que o destino de Tom Griffith foi o arquipélago de Malta, onde participou ativamente da defesa deste importante bastião estratégico Aliado no meio do Mar Mediterrâneo.
Este lugar é habitado (e cobiçado) há tantos séculos, que as estruturas sobreviventes dos templos megalíticos em Ġgantija, Hagar Qim e Mnajdra, são consideradas algumas das mais antigas estruturas construídas pelos homens no mundo. Entre 800 a 218 antes de Cristo, Malta foi colonizada pelos fenícios e cartagineses e em seguida passou a fazer parte do Império Romano. Consta que no ano 60 depois de Cristo, o apóstolo Paulo naufragou próximo ao arquipélago e sobreviveu. Segundo o folclore local, a partir daí Paulo converteu os habitantes locais ao cristianismo. Depois os árabes chegaram em 870 e sua presença teve uma considerável influência sobre a agricultura e a linguagem maltes.
Foto de satélite mostrando as ilhas de Gozo, Comino (a menor) e Malta ( a maior) – Fonte – odysseyadventures.ca
Depois veio uma sucessão de conquistadores até o ano de 1530, quando as ilhas foram entregues aos Cavaleiros da Ordem de São João, uma organização religiosa cruzada fundada em Jerusalém. Em 1798 o arquipélago de Malta caiu sob o domínio de Napoleão. Dois anos depois os ingleses ajudaram a libertar estas ilhas e tornou o lugar uma pequena parte do Império Britânico. Ali eles construíram uma grande e estratégica base naval.
Durante a Segunda Guerra Mundial o arquipélago maltes sofreu um pesado cerco aéreo e naval.
Posição estratégica de Malta na área do Mediterrâneo
Com o envio de forças alemãs do Afrika Korps para o Norte da África, comandadas pelo marechal-de-campo Erwin Rommel, a estratégica Malta adquiriu um papel fundamental no conflito. Deste ponto os britânicos podiam corta grande parte todo o abastecimento nazifascista vindo da Europa para a África e Rommel rapidamente reconheceu sua importância.
Aspecto do resultado dos bombardeios em Valletta, capital de Malta
Para provocar a derrota deste bastião estratégico os alemães e italianos decidiram forçar a submissão de Malta através de bombardeios e da fome, atacando seus portos, estradas, cidades e linhas marítimas de suprimentos. As forças aeronavais da Alemanha e da Itália nazifascistas realizaram mais de 3.000 bombardeios num período de dois anos, tornando Malta uma das áreas mais bombardeadas da Segunda Guerra Mundial.
Muita Ação Violenta
Tom Griffith ficou lotado na base da RAF em Kalafrana (ou Calafrana), um centro de operações de hidroaviões na Baía de São Paulo, extremo sul de Malta e principal casa dos grandes hidroaviões quadrimotores Short Sunderland. Neste local seu barco era uma lancha do tipo HSL, de 63 pés, com o seu armamento focado principalmente para defesa contra aviões. Normalmente possuía duas torres com metralhadoras gêmeas Vickers 0,303, um canhão Oerlikon de 20 milímetros e metralhadoras Browning ponto 50.
Uma lancha HSL e um avião Hurricane
Durante aquele período Tom Griffith viu muita ação. Praticamente todos os dias a Luftwaffe e a Regia Aeronautica realizavam suas “visitas” a Malta. Eram ataques que começavam no início do dia e se prolongavam até ao entardecer. No dia 4 de fevereiro de 1942, uma terça feira, não foi diferente.
Segundo o diário do reverendo Reginald M. Nicholls, Chanceler da St.Paul’s Anglican Cathedral, na cidade de Valletta, o “expediente” daquele dia começou por volta das nove e meia da manhã, quando dois ou mais caças foram vistos ao norte de Malta. Depois do meio dia um grupo de seis Hawker Hurricane, dos esquadrões da RAF 249 e 126, decolaram do aeródromo militar de Ta Kali (ou Ta ‘Qali) e interceptaram ao sul de Kalafrana alguns bombardeiros médios alemães JU-88, sendo um dos inimigos avariados e sem perdas para os ingleses.
Hawker Hurricane – foi um dos mais famosos aviões de caça britânicos da Segunda Guerra Mundial. Fator de preservação de Malta nas mãos dos aliados.
Às três da tarde, vindas do norte, um grupo de aeronaves inimigas atacam com grandes bombas o campo de Ta Kali, deixando muitos danos e crateras na pista.
Ataque Mortal
Nesse meio tempo partiu da base de Kalafrana a lancha HSL 129, com a missão de realizar um resgate perto da ilha de Filfla, ao sul de Malta. Comandava o barco rápido o tenente F. Nicolls, junto com os tripulantes Tom Griffith, Gerry R. King, Thomas L. Nielsen, Jock Muir, Dennis Whittaker, o cabo Cooper e o ajudante Norton.
Ilustração do artista Thierry Dekekr de um Messerschmitt Bf 109, também conhecido como Me 109, do Jagdgeschwader 53
Após o ataque a Ta Kali um grupo de aviões de caça alemães Mercheshimit ME-109, provavelmente do Jagdgeschwader 53 (JG 53), sobrevoam a região de Benghisa Point, onde localizam a HSL 129 próximo a Filfla e passam a atacá-la impiedosamente.
Em meio a fuzilaria, aos rasantes dos caças alemães, ao revide das armas do barco e a fuga em ziguezague da HSL 129, a matança foi pesada. O tenente Nicolls foi atingido no estômago, caiu na casa do leme, mas veio a sobreviver. Gerry King foi para uma das torres de tiro e logo foi morto com um petardo na cabeça. Já o primeiro timoneiro Nielsen foi morto no leme. Tom Griffith, que estava na torre de tiro traseira, mesmo disparando sem cessar, foi gravemente ferido e morreu. Outros três tripulantes ficaram feridos.
Ilha de Filfla, onde em suas proximidades a HSL 129 onde estava Tom Griffith foi atacada pelos caças alemães.
Em dado momento os aviões alemães partiram da sua rapinagem e nenhum deles foi derrubado.
O cabo Cooper, mesmo com uma mão cortada no punho e esvaindo-se em sangue, conseguiu com a outra mão pilotar a HSL 129 danificada de volta para Kalafrana, aonde este barco chegou praticamente destruído. Apesar dos ingleses estarem em guerra a quase três anos, de Malta ser atacada naquela época todos os dias, os relatos dão conta que, diante do estado em que se encontrava a lancha na base de Kalafrana e as mortes dos tripulantes, muitos militares daquela unidade ficaram chocados com o resultado do ataque dos ME-109.
Lanchas HSL
Mais tarde, pela sua coragem, o cabo Cooper foi condecorado, mas considerado inválido e colocado fora do serviço militar.
Uma Mensagem Dos Seus Pais
O sacrifício deste torcedor inglês do Sport Club Recife não foi em vão. Os comboios Aliados foram capazes de sustentar e reforçar Malta, enquanto a RAF defendia seu espaço aéreo à custa de imensas perdas vitais e materiais. Depois os Aliados desembarcaram tropas no Marrocos e Argélia, o que obrigou Rommel a desviar suas forças para estas regiões e os ataques contra Malta foram reduzidos. O cerco ao arquipélago maltes terminou efetivamente em novembro de 1942.
A lápide de Thomas Peter Logan Griffith é uma das 719 existentes no Cemitério Naval de Kalkara, conhecido como Cemitério Capuccini, onde repousam os combatentes britânicos que morreram durante a Segunda Guerra Mundial na defesa de Malta e região. Junto a este inglês que cresceu em Recife repousam os seus companheiros de infortúnio King e Nielsen.
Mas é apenas na lápide de Tom Griffith que se encontra os dizeres “Until we meet again beloved son” (Até que nos encontremos de novo filho amado).
O dia 20 de junho de 2013 foi uma quinta feira para entrar na história de Natal, pois, segundo vários meios de comunicação, neste dia aconteceu a maior manifestação de protesto da história desta cidade. Este protesto era um dos que foram idealizados contra o aumento da tarifa de transporte coletivo urbano e ficou conhecido em todo o Brasil como “Revolta do Busão”.
Motivado pelo desejo de entender o que ocorria, de como pensavam as pessoas que lá estavam e ter a oportunidade de vivenciar um momento histórico na minha própria cidade, eu me fiz presente e não me arrependi de nada.
Em Natal estes protestos tiveram início em maio e detonaram, em maior ou menor escala, os demais protestos contra o aumento da tarifa de transporte em todo o país. Como se sabe estes grandes protestos ganharam as primeiras páginas dos principais jornais de todo o mundo. De acordo com o tabloide americano The New York Times, o povo de Natal teve importante papel nas mobilizações sociais que ocorreram em todo país.
Quando estava no asfalto da BR-101, no último dia 20 de junho, me pus a perguntar qual teria sido outra grande movimentação estudantil ocorrida no passado e que tenha mobilizado Natal desta forma?
A primeira coisa que lembrei foi a invasão da reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, na década de 1980. Na época eu era estudante secundarista e fui até a reitoria para acompanhar a mobilização dos universitários. Este movimento teve muita repercussão, mas o público era mais localizado na UFRN.
Movimento Revolta do Busão em Natal em 2013- Foto – Henrique Dovalle/G1
Mas logo veio a minha mente a participação de inúmeros estudantes na Praça Gentil Ferreira, quando houve um dos maiores comícios em termos proporcionais da capital potiguar, na chamada “Campanha das Diretas Já”. Aquele movimento mobilizou toda a nação em torno do livre direito dos brasileiros decidirem através do voto direto quem seria o seu presidente.
Tempos depois houve o movimento do impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, o conhecido “Fora Collor” da década de 1990, que levou milhares de pessoas as ruas vestidas de preto e com as faces pintadas nas cores verde e amarelo. Natal também se vestiu de preto e apoiou o movimento.
Estas lutas políticas com a participação dos estudantes tiveram seus méritos, mas se pensarmos sobre o momento em que o mundo vivia, nenhuma delas conseguiu superar em minha mente o movimento organizado pelos estudantes de Natal contra o Nazismo em 1942. Fato ocorrido antes mesmo dos principais afundamentos de navios brasileiros que motivaram oficialmente a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
Tempos Difíceis
No primeiro semestre de 1942 o mundo estava em franca convulsão, a três anos a Segunda Guerra Mundial havia sido deflagrada e as forças nazifascistas dominavam grande parte da Europa.
Soldado alemão em combate – Foto – miltary.discovery.com
As forças de Hitler avançavam sobre as largas estepes da então União Soviética, onde encontrariam um povo disposto a grandes sacrifícios para expulsá-los de sua nação. Na Ásia, o Império Japonês dominava grandes extensões de territórios e vastas áreas do Oceano Pacifico, mas desde dezembro de 1941 suas forças militares se batiam contra o poderio bélico e industrial dos Estados Unidos.
Já no Brasil a cena política era dominada pela conhecida ditadura do Estado Novo, que teve início com o golpe deflagrado em 10 de novembro de 1937.
A partir desta data o governo brasileiro, sob o comando do gaúcho Getúlio Vargas, retirou dos cidadãos as garantias constitucionais, a Justiça Eleitoral foi suspensa, o direito à greve foi banido e ficou estabelecida a censura prévia à imprensa. Ao outorgar a Constituição de 1937, Vargas proclamou o fim do federalismo e da democracia liberal. Num ato de grande impacto, fez queimar as bandeiras dos Estados. Em seguida, extinguiu a Justiça Federal de primeiro grau. Era um regime totalmente policialesco.
Já para compreender a situação política em Natal neste período, é importante observar dois episódios marcantes; a violenta campanha eleitoral estadual de 1934 e a deflagração da Intentona Comunista de 1935.
Em 1934 comandava o executivo potiguar o interventor Mário Leopoldo Pereira da Câmara, tido como um homem inteligente e capaz, mas que lhe é creditado um período de governo onde imperou um clima favorável ao surgimento de movimentos políticos radicais, que facilmente apelavam para a violência e o uso de armas para conquistar espaços. Durante a campanha de 1934, em várias localidades do Rio Grande do Norte, não faltaram notícias de assassinatos, violências e surras praticados contra adversários.
Quartel da Força Policial, conhecido como “Quartel de Salgadeira”, em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista – Foto – toxina1.blogspot.com
Logo Mário Câmara deixou o governo potiguar e no dia 9 de outubro de 1935 assumiu o executivo estadual o médico Rafael Fernandes Gurjão.
Em meio a este clima pesado na política potiguar e de mudanças. Menos de dois meses após a posse de Rafael Fernandes, na noite de sábado, 23 de novembro de 1935, sargentos e cabos do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC) do Exército Brasileiro, sediado em Natal, iniciaram um levante armado que ficaria conhecido como Intentona Comunista. Logo este levante recebeu a adesão de populares e descontentes com as lideranças governamentais do Rio Grande do Norte. Ocorreram outros levantes no Recife e no Rio de Janeiro.
Tido como o primeiro caso de sucesso de implantação pela força de um governo comunista no continente americano, a Intentona Comunista prevaleceu em Natal por apenas 80 horas, até a madrugada do dia 27 de novembro. Além de dominar a capital e 17 cidades do interior potiguar, sé se encerrou com a vinda de tropas federais da Paraíba e Pernambuco. A consequente repressão foi violentíssima. Levou à prisão de milhares de pessoas e uma das suas consequências foi a implantação do Estado Novo em 1937.
Governador Rafael Fernandes Gurjão – Foto – Coleção do Autor
Depois de toda esta agitação, a cidade de Natal voltou a sua pasmaceira habitual, típica de uma capital nordestina que na época tinha em torno de 45.000 habitantes. Mas no final de 1941 esta tranquilidade havia sido quebrada pela chegada de vários militares, engenheiros e técnicos norte-americanos, que vieram desenvolver no antigo campo de pouso de Parnamirim uma das maiores bases militares do mundo.
A Guerra Vem Chegando
Oficialmente o Brasil não estava em guerra no primeiro semestre de 1942, mas muitas situações mostravam que isso logo mudaria.
Em Natal os tambores de guerra eram mais audíveis e os sinais do conflito eram cada vez mais visíveis. Um destes era o fato da gasolina já se encontrar em franco racionamento. Para controlar o consumo havia sido criada a Comissão Estadual de Racionamento de Combustível, sob o comando do Secretário de Governo Aldo Fernandes Raposo de Melo.
Inúmeras listas eram publicadas nos jornais natalenses com os nomes de jovens potiguares que deveriam servir nas Forças Armadas. Muitos militares, vindos de várias regiões do país, chegavam a cidade para reforçar as nossas defesas e novos aquartelamentos eram criados. Os natalenses presenciavam todos os dias inúmeros aviões de transportes Aliados seguirem para além mar. Das bases de Parnamirim e da Rampa, próximo ao estuário do Rio Potengi, partiam aeronaves norte-americanas de patrulha e destruição de submarinos.
Em meio a esta movimentação os estudantes e a sociedade natalense já estava nas ruas contra a ação dos nazifascistas.
Segundo o livro do baiano João Falcão “O Brasil e a 2ª Guerra Mundial – Testemunho e depoimento de um soldado convocado” (1999, Ed. UNB, pág. 82), a primeira capital brasileira a promover amplas manifestações contra os países do Eixo foi Salvador, depois veio Natal.
Falcão reproduz em seu livro uma notícia do jornal carioca Correio da Manhã, dando conta que houve um grande comício em Natal de solidariedade a Getúlio Vargas. O movimento teve um grande apelo popular, com a participação de milhares de natalenses. Iniciou na Esplanada Silva Jardim, no bairro da Ribeira, onde Amílcar de Faria Cardoso, delegado regional do Ministério do Trabalho realizou empolgado discurso, depois o povo em passeata seguiu pela Avenida Duque de Caxias.
Luís Maranhão Filho, importante líder estudantil e grande idealizador dos protestos ocorridos em Natal contra os nazifascistas – Foto – Coleção do Autor
Consta que acompanhando o povo seguiam bandas de músicas, lanceiros da Força Polícia acompanhavam montados em seus alazões e jovens da sociedade local levavam bandeiras. Defronte a redação do jornal A República o então acadêmico Luiz Maranhão Filho, proeminente líder estudantil, fez um entusiasmado discurso. O cortejo encerrou defronte ao Colégio Atheneu com muitos discursos. Entre os que falaram estavam Rômulo Wanderley, Aldo Tinoco e Djalma Marinho.
Estranhamente o jornal A República, o periódico oficial do governo potiguar e principal jornal do Rio Grande do Norte na época, não divulgou uma linha sobre este acontecimento.
O Povo de Natal Volta as Ruas Liderados Pelos Estudantes
Independente desta questão, cada vez mais os tambores de guerra vão aumentando o tom no Brasil.
Em 11 de março de 1942, Getúlio Vargas decretou o confisco de bens de imigrantes alemães e italianos no Brasil, grupos de espiões nazistas foram descobertos e detidos no Rio de Janeiro. Até mesmo um avião bimotor B-25 da recém criada FAB – Força Aérea Brasileira, operando a partir de Fortaleza, atacou um submarino do Eixo.
Mas o principal sinal que a entrada do Brasil na guerra estava próxima era o fato que até o final do mês de julho de 1942, nada menos que 14 navios da frota mercante nacional haviam sido atacados e afundados pelos nazistas, com a morte de 136 pessoas.
Em meio a este clima a população de Natal, incentivados pelos estudantes, voltaram às ruas contra os nazifascistas e desta vez sendo extensamente noticiado pelo principal jornal potiguar.
Na edição do dia 28 de julho de 1942 de A República, e em dias posteriores (como aponta a manchete acima), temos várias notícias apontando que o C E P – Centro Estudantal Potiguar (não era “Estudantil”) estava organizando uma semana de protestos contra os países integrantes do Eixo no mês de agosto, que culminaria com um “comício monstro”. Novamente o poder executivo estadual deu todo apoio a esta iniciativa dos estudantes, que desde o início do processo se colocaram na liderança do movimento.
Foram criadas comissões com a participação de vários segmentos da sociedade potiguar. O Chefe de Polícia aprovou oficialmente a realização dos protestos da “Semana Anti-Eixista”, foi comunicado a UNE – União Nacional dos Estudantes, no Rio de Janeiro a movimentação dos estudantes potiguares. Como parte das comemorações foi realizada uma grande festa no tradicional Aero Clube, o principal da cidade.\
Aldo Tinoco foi outro estudante com forte atuação nestes protestos contra os países do Eixo – Foto – Coleção do autor
Ocorreram várias reuniões preparatórias e convocatórias em Natal, sempre muito acaloradas e com grande participação popular. Entre os locais listamos a Escola Industrial, na Sociedade dos Sargentos da Força Policial e na Liga Artístico Operária de Natal, que ficava localizado na Avenida Rio Branco.
Durante aquela movimentada semana a Rádio Educadora de Natal, a ZYB-5, realizou a transmissão de várias palestras sobre as questões da guerra e a mobilização promovida pelo Centro Estudantal Potiguar. A última transmissão foi realizada por Luiz Maranhão Filho e foi considerada por um colunista do jornal A República como “incisivo”.
Percebe-se, lendo as amareladas páginas dos antigos jornais natalenses que Natal não presenciava uma movimentação política tão intensa, desde a implantação do Estado Novo em 1937.
Logo chegou o dia 11 de gosto de 1942.
O Grande Comício
Foi uma terça feira sem chuva e durante a tarde a cidade de Natal parou. As escolas, o comércio e as repartições públicas fecharam e as pessoas seguiram para a Praça 7 de setembro, no centro da cidade.
Palácio do Governo do Estado do Rio Grande do Norte e Praça 7 de setembro, local da concentração contra os nazifascistas – Foto – Coleção do autor
Os estudantes vieram em passeata desde o Colégio Atheneu, sendo animados e acompanhados pela banda de música da tradicional Associação de Escoteiros do bairro do Alecrim. Não faltaram cartazes com caricaturas de Hitler e Mussolini, faixas de incentivo as Forças Armadas e muitas bandeiras do Brasil. Na Praça 7 de setembro havia um potente sistema de auto falantes colocados por Luiz Romão, que era proprietário de uma difusora bem atuante na cidade.
Basicamente a movimentação na praça foi em cima de vários e inflamados discursos. Estes foram proferidos principalmente pelas autoridades, mas os realizados pelos estudantes foram mais aplaudidos e ovacionados, sempre comandados pela vibração de Luiz Maranhão Filho.
O palanque foi na sacada principal do Palácio do Governo, onde autoridades, oficiais militares de alta patente e inúmeros estudantes dividiram espaço. Figuras politicas como Elói de Souza e o próprio governador Rafael Fernandes deram seu recado ao povo. Basicamente os pronunciamentos giraram em torno dos ataques que já haviam ocorrido contra os navios brasileiros, a política de Vargas na sua maior aproximação do Brasil junto aos países Aliados, principalmente os Estados Unidos.
Nem a imprensa da época e nem as autoridades policiais realizaram algum tipo de contagem da quantidade de pessoas que participaram do chamado “Comício Monstro”. Mas destacam que havia “um mar de gente” e enaltecem que havia “milhares de pessoas”.
Se não fosse as agruras e incertezas da chegada da Segunda Guerra Mundial ao Brasil, seguramente um comício como aquele jamais teria ocorrido.
Para exemplificar apuramos que uma das pessoas que discursaram foi Vivaldo Ramos de Vasconcelos, um estudante da faculdade de direito do Rio de Janeiro e estava representando a UNE em Natal. Segundo o jornalista Luiz Gonzaga Cortez, no seu interessante livro “A Revolta Comunista de 1935 em Natal”, através da informação de Paulo Cavalcante, autor de quatro volumes de memórias sobre este episódio (“O Caso eu conto como o caso foi”), este era o mesmo Vivaldo Vasconcelos que durante a Intentona Comunista em Natal, foi o elemento de ligação entre os que faziam os preparativos para a insurreição de 23 de novembro de 1935.
Após o comício existe uma clara ideia que em Natal, depois de todos os problemas políticos ocorridos no Rio Grande do Norte durante a década de 1930, mesmo em meio a uma ditadura feroz, as forças pensantes da sociedade potiguar estavam unidas diante de um problema externo muito maior.
O Brasil Entra na Guerra
Menos de uma semana depois da realização deste comício, Natal e todo o Brasil foram abalados pela verdadeira carnificina promovida pelo Korverttenkapitan Harro Schacht, comandante do submarino alemãoU-507.
O Araraquara, outro dos navios afundados pelo submarino alemão U-507, comandados pelo Korverttenkapitan Harro Schacht, que motivaram a declaração de guerra do Brasil – Foto – Coleção do autor
Entre os dias 15 e 17 de agosto, na altura do litoral sergipano e baiano, este oficial germânico comandou o afundamento de seis barcos brasileiros, que ocasionaram a morte de mais de 600 pessoas.
As manchetes de A República não deixam dúvidas da indignação no povo natalense e jã não havia mais dúvidas que o Brasil estava em guerra.
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Este material foi gentilmente cedido pelo Professor Arnaldo Vitorino, da cidade pernambucana de Santa Cruz do Capibaribe, que visitou este local com amigos e trouxe estas fotos maravilhosas. Ele inclusive colocou algumas dicas que reproduzimos em nosso blog. Parabéns Vitorino!
Localizado a 283 km da capital de Pernambuco, Recife, o Vale do Catimbau é um complexo de Serras, Vales e Rochas do agreste e do sertão. Possui 62.300 hectares de terra, o Vale preserva uma das últimas áreas de Caatinga.
Catimbau, em Tupi, significa “Cachimbo pequeno apagado, práticas de feitiçaria e lugar de cobras” Tudo isso numa só palavra. O Vale do Catimbau foi nomeado Parque Nacional Catimbau pelo IPHAN em 2002 através do decreto 913/12.
É considerado uma área de extrema importância Biológica, Geográfica e Arqueológica. A região possui registros de pinturas rupestres e artefatos que datam de um período de, pelo menos, 6.000 anos.
O Parque Nacional Catimbau é o segundo maior do país, perdendo apenas para a Serra da Capivara, no Piauí.
Possui terras nos municípios de Buíque, estendendo-se por áreas semi-áridas de Tupanatinga, Inajá e Ibimirim, já em plena Microrregião do Sertão do Moxotó.
O Parque possui dezenas de Serras, vales, rochas das mais variadas formas e cores, além de uma grande riqueza de escrituras rupestres, histórias das tribos indígenas da região assim como seus cemitérios espalhados por todo o vale e vestígios de suas práticas ritualísticas.
O parque possui só na região de Buíque, cerca de 10 trilhas ecológicas onde, Turistas e Excussões pedagógicas podem percorrer, com ajuda de guias locais qualificados, boa parte do parque e conhecer maravilhas e surpresas exóticas que essa região indígena oferece.\
Próximo ao parque está localizado a Vila Do Catimbau, formada por remanescentes de tribos indígenas que viveram na região, possui uma infra estrutura muito básica para acomodar os visitantes do Vale.
Na Vila do Catimbau podemos encontrar a Associação dos Guias do Vale do Catimbau , é com eles que devemos nos informar e realizar as atividades no Parque Nacional, ao lado podemos encontrar lojinhas de conveniência, assim como uma Pousada e Restaurante Do Vale do Catimbau.
Chegando à pousada, é só procurar por Dona Zefinha, a proprietária, o lugar é muito aconchegante, e dispões de ótimas refeições regionais. O Acesso ao Vale do Catimbau, para quem vai de Carro particular é fácil e bem sinalizado, porém para quem vai de transporte coletivo é preciso ir para Buique, centro, e seguir no emocionante “Pau de Arara” até a Vila do Catimbau. Dicas: Para quem vai de carro particular, não deixe de dar uma paradinha no Caminho para conhecer as cidades de Pesqueira, Arcoverde.
O aprisionamento de Lampião não se me afigura impossível. Nada importa diga ele que prefere a morte. Antônio Silvino também o dizia, mas, apenas se viu baleado, foi o primeiro em fazer questão de mansamente se entregar à justiça. Restabelecido ulteriormente, voltaram-lhe no presídio os ímpetos brutais, como na manhã em que, entre descomposturas do calão mais vil, sacudiu um pão na cara de um desembargador.
Antônio Silvino preso.
Quando a captura de Lampião parece a tanta gente sonho irrealizável, vem a propósito recordar como se deu a de seu terrível predecessor.
O que desgraçou Antônio Silvino foi a perseguição sem tréguas que lhe moveu uma de suas vítimas mais humildes. Bem diz o povo que “não há inimigo pequeno” e que “mutuca é que tira boi do mato”…
Sargento Alvino, promovido a alferes após a captura de Antonio Silvino
José Alvino Correia de Queiroz era obscuro comerciante no sertão de Pernambuco, quando Antônio Silvino lhe saqueou o pequeno estabelecimento. Reduzido à miséria, jurou vingar-se e entrou a polícia daquele Estado. Acreditaram nos seus propósitos e fizeram-no sargento.
Inteirado de que Silvino transitaria por certa faixa do município de Taquaritinga, o Sargento Alvino buscou informações de João Vicente e Joaquim Pedro, moradores naquelas paragens. Ambos negaram a pés juntos ter qualquer conhecimento a respeito. Mas, tão jeitosamente o miliciano conduziu as investigações, que a esposa de João Vicente o orientou:
– Quando o Sr. chegar à casa de nosso vizinho, o Joaquim Pedro, e encontrar as mulheres torrando galinhas ou fazendo comedoria de sobra, pode apertar o pessoal que o “capitão” Antônio Silvino está escondido perto, no mato…
O oficial Theophanes Ferraz Torres, comandante da volante que capturou Silvino. Valente e destemido, seria um grande perseguidor de Lampião.
No dia esperado, 27 de novembro de 1914, os policiais, sob o comando do Alferes Teófanes Torres e do Sargento José Alvino, estavam no local referido, de nome Lagoa Laje.
Assim que penetrou na residência de Joaquim Pedro, o Sargento Alvino se encaminhou diretamente para a cozinha, atrás de cuja porta se lhe deparou pendurada uma banda de ovelha. E viu chegar desconfiado, pelo quintal, um rapazola com um tabuleiro à cabeça, cheio de tigelas, colheres e pratos. Interrogado, o recém-vindo explicou, titubeante, que havia ido deixar comida a uns “trabalhadores”, num roçado.
Concomitantemente, o Alferes Teófanes submetia Joaquim Pedro a interrogatório, e este negava que soubesse do paradeiro de Silvino.
Aparece o sargento e, depois de falar na ovelha morta e de mostrar o tabuleiro com os restos de comida, pede permissão para forçar o velho sertanejo a não continuar mentindo. Ato contínuo, tranca-lhe, numa alcova, a mulher e os filhos e ordena que os soldados desembainhem os sabres.
Nos antigos jornais e revista por mim pesquisados, esta foto consta como sendo a força policial que lutou e capturou Antonio Silvino, mas muitos pesquisadores apontam como sendo o próprio bando de Antonio Silvino.
Nesse momento, mais nervosa, uma filha do ameaçado pede, da alcova:
– Meu pai, por caridade, descubra logo!
Joaquim Pedro roga que não lhe batam e justifica-se, alegando que logo não disse a verdade por temer a vingança de Silvino, no caso de a polícia o não prender ou matar. E confessa que o celerado está escondido não longe dali.
Eram cinco horas da tarde e urgia assaltar os cangaceiros, antes que a noite sobreviesse.
Também nos jornais de época esta mulher foi apresentada como Antônia de Arruda, amante de Silvino.
Sob as ameaças de ser liquidado, se desse o menor sinal aos bandidos, Joaquim Pedro vai mostrar o esconderijo deles. Com todas as precauções imagináveis, a tropa se aproxima da malta criminosa.
Antônio Silvino estava deitado numa pedra, sobre a qual se debruçava copada oiticica. Perto, divertiam-se alguns de seus cabras, a jogar um sete-e-meio. Ao ouvir a primeira descarga, Silvino gritou, motejante:
Ferimentos de Antônio Silvino após a sua captura.
– Espera aí, rapaziada! Deixem, ao menos, os menino acabar esta mão!
Mas o fogo irrompeu violento e sem intermitências, dos dois lados.
Com o cair da noite, o tiroteio deixou de ser correspondido. O Alferes Teófanes e o Sargento Alvino acreditaram que Silvino tivesse fugido. Suspeitando, todavia, que ele se quisesse vingar de Joaquim Pedro, foram entrincheirar-se na casa deste.
Antônio Silvino já com o uniforme da prisão.
Coisa bem diversa se passava. Silvino fora atingido por uma bala nas espáduas e o seu companheiro Joaquim Moura tivera quebrada uma perna. Os demais cangaceiros se embrenharam, desorientados, na caatinga, favorecidos pelo negrume da noite.
Estando a perder muito sangue, Silvino convidou Joaquim Moura a se entregarem, mas este repelira o convite e, depois de dizer que macaco do Governo não tinha o gosto de botar-lhe as mãos em riba, ele vivo, suicidou-se com um tiro na cabeça.
Outra foto do oficial Ferraz.
Impressionado ainda mais com o trágico fim do último assecla que lhe restava, Silvino despojou-se das armas e arrastou-se para a casa da mulher que ele ignorava tivesse sido quem o denunciara. O marido dela, João Vicente, a estava censurando por sua leviandade, persuadido de que Silvino, sabedor da denúncia, lhes não perdoaria.
De repente, batem à porta. Quando, de fora, uma voz anuncia que quem bate é Antônio Silvino, João Vicente encomenda a alma a Deus, convicto de que vai morrer. É sua mulher quem se afoita a atender ao chamamento.
Aqui outra imagem do sargento Alvino.
Ao se abrir a porta, aparece, à luz da lamparina, o vulto do grande salteador. Quase desfalecido e com as vestes rubras de sangue, Silvino está escorado no portal.
– Capitão, que horror é este?
– Mataram-me… arqueja aquele que, acovardado, começava a expiar crimes sem conta.
Conduzido a uma rede, ele pede que chamem a polícia. Vai alguém a Taquaritinga, mas não encontra lá os soldados. Na confusão em que todos se viam, ninguém a princípio se apercebeu de que os policiais poderiam estar pernoitando na fazenda de Joaquim Pedro. À mulher de João Vicente ocorre agora essa possibilidade. Despacham para ali o portador. Quando este bate à porta de Joaquim Pedro, os soldados aperram as armas, crentes de que é Silvino quem chega. Aberta a muito custo uma janela, o mensageiro dá contas de sua incumbência: vem avisar que Antônio Silvino, sozinho, desarmado e gravemente ferido, está em casa de João Vicente e quer entregar-se à prisão.
Expectativa para a chegada do famoso bandoleiro nordestino na Casa de Detenção de Recife.
O Alferes Teófanes suspeita que se trate duma cilada e opina que se aguarde o raiar do dia. Tanto insiste, porém, o Sargento Alvino que, afinal, o seu comandante se dispõe a ir ver Silvino. Ainda assim, o recadista vai seguro pelos cós e advertido de que receberá uma punhalada, ao primeiro tiro com que a tropa seja surpreendida.
Cercada com cautelas a morada de João Vicente, houve grande alegria, quando se patenteou aos olhos de seus perseguidores a mísera situação daquele que se gabava de que, embora sem saber ler, governava todo o sertão! O Sargento Alvino parecia o mais contente. Exigiu que se não fizesse o menor mal a Antônio Silvino e saiu, pelos matos, a cortar umas folhas de quixabeira para lhe lavar as feridas.
Fora destronado o Átila bronco que, durante dois decênios, apavorara a gente matuta do meio-norte e assoalhava não ser passarinho que morasse entre grades… Por trinta anos ia se fechar atrás dele o portão da Penitenciária de Recife!
Multidão a frente da Estação Central do Recife na chegada do famoso cangaceiro.
Foi à tenacidade do Sargento Alvino, à sua argúcia e vontade firme de vingança que se deveu a prisão de Antônio Silvino. Forçoso é, porém, reconhecer que colaborou inestimavelmente nisso a indiscrição duma mulher.
Acontecerá o mesmo, algum dia, a Lampião? Até na ruína dos cangaceiros terá aplicabilidade o cherchez la femme.
Texto acima é do Cearense Leonardo Mota, inserido no seu livro “No tempo de Lampião” e publicado pela Of. Industrial Gráfica, do Rio de Janeiro, em 1931. Esta reprodução é da segunda edição, de 1967. Leonado Mota era cearense da cidade de Pedra Branca, nasceu em 1891 e faleceu em 1948. Estudou a fundo o sertão nordestino, onde descreveu vários aspectos da região em obras memoráveis.
Antes de Lampião, Antônio Silvino era o cangaceiro mais famoso e seu apelido mais conhecido foi “Rifle de Ouro”. Nascido no dia 2 de dezembro de 1875, em Afogados da Ingazeira, Manoel Batista de Morais entrou para a história como Antonio Silvino. Durante 16 anos, driblou a polícia, praticou saques e assassinou inimigos, mas era tratado pelos poetas populares como um “herói” por respeitar as famílias. A invencibilidade de Silvino terminou no dia 27 de novembro de 1914, quando ocorreu o seu último tiroteio com a polícia. Atingido no pulmão direito, conseguiu se refugiar na casa de um amigo e disse que ia se entregar. Da cadeia de Taquaritinga seguiu, dentro de uma rede, até a estação ferroviária de Caruaru, onde um trem especial da Great Western o levou para o Recife. Uma multidão o aguardava na Casa de Detenção, atual Casa da Cultura. Antonio Silvino tornou-se o detento número 1.122, condenado a 239 anos e oito meses de prisão. Em 4 de fevereiro de 1937, depois de vinte e três anos, dois meses e 18 dias de reclusão, foi indultado pelo presidente Getúlio Vargas. O ex-rei do cangaço morreu em 30 de julho de 1944, em Campina Grande, na casa de uma prima.
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PROGRAMA ROTA DO CANGAÇO, CAMINHOS DA REPORTAGEM, TV BRASIL – AQUI CONVIDO A TODOS A ASSISTIREM UM INTERESSANTE TRABALHO QUE TIVE A HONRA DE PARTICIPAR. PERCORRI COM MARAVILHOSOS AMIGOS OS CAMINHOS DO SERTÃO NOS RASTROS DOS CANGACEIROS.
MAIS DE 50 MINUTOS DE CENAS INTERESSANTES, PARA AQUELES QUE DESEJAM CONHECER O ESTRANHO MUNDO DOS CANGACEIROS.
PARA ASSISTIR É SÓ CLICAR QUE VOCÊ VAI A PÁGINA DO PROGRAMA CAMINHOS DA REPORTAGEM, DAÍ É SÓ DESCER A BARRA DE ROLAGEM LATERAL, QUE VOCÊ VAI VER UM QUADRO COM UMA SETA. DAÍ É SÓ CLICAR E CURTIR O PROGRAMA…
PARABÉNS A TODA EQUIPE DA TV BRASIL QUE ESTIVERAM CONOSCO NO SERTÃO PERNAMBUCANO, OS AMIGOS CARINA DOURADO, OSVALDO SANTOS E ALEXANDRE SOUZA. SÃO ELES PROFISSIONAIS COMPETENTES, PESSOAS SIMPLES, DE FINO TRATO, QUE EXPANDEM EXTREMA ALEGRIA E UM FORTE SENTIDO DE PARCERIA. FOI BOM ESTAR NA ESTRADA COM VOCÊS E O RESULTADO DE NOSSA UNIÃO FOI MUITO POSITIVO. EVIDENTEMENTE QUE ESTENDO MEUS MAIS SINCEROS AGRADECIMENTOS AOS AMIGOS ALEXANDRE MORAIS, GRANDE POETA DA BELA CIDADE DE AFOGADOS DA INGAZEIRA E AO NOBRE BATALHADOR ALVARO SEVERO, UMA PESSOA DE MUITA VISÃO. COM CERTEZA VAMOS NOS ENCONTRAR NESTE NOSSO SERTÃO. QUERO DEIXAR MEUS ESPECIAIS AGRADECIMENTOS AO MEU GRANDE AMIGO, PARCEIRÃO NA BUSCA DA HISTÓRIA, O NOBRE ANDRÉ VASCONCELOS, A QUEM SOU ETERNAMENTE GRATO PELO ENORME APOIO QUANDO ESTOU NO PAJEÚ QUERIDO.
Contando a história da Fazenda Colônia, onde nasceu o cangaceiro Antônio Silvino
NO PRÓXIMO DIA 5 DE SETEMBRO, PELA TV BRASIL, ÁS 10 HORAS DA NOITE, VAI SER TRANSMITIDO UM PROGRAMA ESPECÍFICO SOBRE O TEMA CANGAÇO, AO QUAL TIVE O GRANDE HONRA E PRIVILÉGIO DE PARTICIPAR.
O PROGRAMA CAMINHOS DA REPORTAGEM É BEM INTERESSANTE, SÃO JORNALISTAS QUE VIAJAM PELO PAÍS E PELO MUNDO ATRÁS DE GRANDES HISTÓRIAS, TRAZENDO AO TELESPECTADOR UMA VISÃO DIFERENTE, INSTIGANTE E COMPLEXA DE CADA UM DOS ASSUNTOS ESCOLHIDOS. OS JORNALISTAS A QUEM TIVE A OPORTUNIDADE DE CONHECER E QUE TIVE OPORTUNIDADE DE ACOMPANHAR POR ESTES CAMINHOS DO CANGAÇO FORAM A CARINA DOURADO, OSVALDO SANTOS E ALEXANDRE SOUZA.
AGORA TRAGO UMA SEGUNDA MOSTRA DE FOTOS DESTA AÇÃO MARAVILHOSA, COM FOTOS CEDIDAS PELOS AMIGOS OSVALDO SANTOS E ALEXANDRE SOUZA.
Este é o grande amigo Braz de Buíque, da Serra da Colônia. Uma grande figura. Neste dia ele estava seguindo montado para uma missa de vaqueiros na vizinha Paraíba e deu um ótimo depoimento
Uma panorâmica da região da Fazenda Colônia. Um ótimo local para um filme de época. É só esconder o poste que está um visual original e bem característico das fazendas do passado do Nordeste.
Esta é a Casa Grande das Almas, propriedade que está situada na área rural de Triunfo (PE), na divisa dos estados de Pernambuco com a Paraíba. Sobre este local podemos comentar que é que parte da casa está em Pernambuco, do outro lado é a Paraíba. Dizem que Lampião, era amigo dos proprietários e gostava de jogar cartas neste local. Afirma-se que quando perseguido na região abrigava-se nas Almas, daí,quando a polícia de pernambuco chegava ali, o rei do cangaço passava para o lado paraibano da casa , onde a policia pernambucana não podia atuar, e quando era perseguido pelos paraibanos, fazia o contrário.
Osvaldo filmando as Almas
Na bela cidade serrana de Triunfo. O grande prédio antigo na foto é o cine teatro Guarany, cujo administrador é nosso amigo André Vasconcelos. Outra grande figura.
Aqui a Carina, Osvaldo estão juntos ao grupo de Xaxado de Triunfo e a nossa amiga Diana, grande batalhadora pela cultura de sua região. Diana é uma grande incentivadora da participação dos jovens de sua cidade neste grupo de Xaxado, a dança dos cangaceiros.
Pelos caminhos do sertão, junto aos amigos André Vasconcelos e Carina Dourado. Só não sei o que a Carina estava procurando!
Na Fazenda Barreiros, de propriedade do amigo Alvaro Severo, na zona rural de Serra Talhada, próximo da Serra Grande, onde ocorreu um dos mais importantes e maior combate da história do cangaço
Pelos caminhos da Serra Grande, tendo a frente o Seu Luiz, sertanejo de grande coração, que conhece tudo da fauna e flora da caatinga. Estando com ele o turista não passa fome nesta região
Seu Luiz mostrando os segredos da flora do sertão, úteis a sobrevivência em uma região seca
Panorâmica da Serra Grande. Quase sete horas de caminhada, entre subidas e descidas.
Outro visual da serra
Outra parada para conhecer a flora da caatinga
Deu para aprender bastante
No alto da serra, junto com nosso animal de estimação, o pequinês que a tudo escutava. Era um microfone na mão do Fred, outro grande companheiro de viagem.
O amigo Alvaro Severo, que desenvolve um maravilhoso projeto de aproveitamento ecoturístico na região, com intensa participação do pessoal do local, comentado sobre a grande luta no alto da serra
Toda a galera reunida no alto da serra
Bem, depois da Serra Grande eu voltei para casa, mas a galera da TV Brasil seguiu viagem. Estiveram na cidade baiana de Paulo Afonso, onde nosso amigo João de Souza Lima, grande pesquisador do cangaço, autor de livros, apresentou a região aos jornalistas. João é uma grande figura, a quem tenho extremo respeito pela pessoa e seu trabalho. João mostra a cruz que marca o local da morte de Antônio Curvina. Para saber mais, assista o programa dia 5 de setembro, na TV Brasil, ás 10 da noite
Osvaldo em frente a casa de Maria Bonita, que foi fielmente restaurada e hoje é local de visitação
Os amigos Osvaldo e Alexandre Souza entrevistando Seu Coquinho. Ele contou ótimas histórias sobre Lampião e seu bando Ele reside no povoado Brejo do Burgo, Bahia
Local próximo da casa onde Lampião costumava fazer seus bailes
No próximo dia 5 de setembro, ás 10 da noite, na TV Brasil, vamos ver o resultado deste trabalho. Um abração a todos
ESTA ERA A MAIOR AERONAVE EXISTENTE E ESTEVE EM NATAL PELA IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA DESTA CIDADE PARA A AVIAÇÃO MUNDIAL
Autor – Rostand Medeiros
Claudius Dornier certamente é um dos mais ilustres engenheiros aeronáuticos da história da aviação mundial, colocando seu sobrenome em toda uma série de empresas e aeronaves construídas entre 1912 a 2002.
É inegável para aqueles que estudam a história da aviação mundial que o nome de Dornier é muito associado com o chamado projeto X, o projeto de um enorme hidroavião e a maior aeronave do mundo da sua época.
Dornier e sua grande nave
Apesar dos nove anos de esforço, de ser uma impressionante maravilha aérea, infelizmente o DO-X foi sob muitos aspectos um grande fracasso. Mas isso não impediu que um dia este gigante dos ares houvesse amerissado nas calmas águas do Rio Potengi, na cidade de Natal, uma das mais importantes e estratégicas regiões para a aviação mundial no período inicial do seu desenvolvimento.
Esta é a sua história!
Um Grande Engeneiro
Nascido em Kempten, na Alemanha, em 14 de maio de 1884, Claude (ou Claudius) Honoré Desiré Dornier era filho de um francês, importador de vinhos, e de uma dona de casa alemã. Logo ficou claro a sua inteligência e capacidade, onde se percebeu o seu gosto pela ciência. Depois Dornier se destacou como um grande designer e empresário, mas igualmente como um verdadeiro acadêmico. Menos óbvio, mas igualmente importante, está na sua percepção política para conseguir sobreviver, mas também prosperar em uma Alemanha derrotada na Primeira Guerra Mundial, as restrições do Tratado de Versalhes, a má gestão predatória da era nazista e a segunda derrota alemã em 1945.
Dornier graduou-se em 1910, com distinção, na Technische Hochschule, de Munique, e foi contratado pela empresa fabricante de dirigíveis Zeppelin, onde sua experiência com estruturas metálicas foi inestimável.
O futuro DO X no Lago Konstanz
Impressionado com o jovem, o conde Ferdinand Graf von Zeppelin autorizou que uma instalação especial, em Seemoos, as margens do Lago Konstanz, fosse utilizada por Dornier para o desenvolvimento de hidroaviões. Lá, em janeiro de 1915, Dornier construiu o Zeppelin-Lindau Rs 1, um hidroavião trimotor, com estrutura metálica, tendo 43 metros de envergadura e pesando 10.500 toneladas. Infelizmente este aparelho foi danificado antes que pudesse voar.
Dornier completou mais três grandes hidroaviões antes do final da Primeira Guerra. Nenhuma destes pássaros se tornaram aviões de combate, mas cada um deles aprimorou a fórmula clássica de grande parte das futuras aeronaves desenvolvidas por Dornier.
Após a derrota na guerra veio a proibição da Alemanha de construir aviões de grande porte.
Em 1919, Dornier transfere suas operações para Manzell, Suíça. Lá ele projetou o famoso hidroavião bimotor Dornier DO-J Wal (baleia), que voou pela primeira vez em 12 de novembro de 1922. Devido a outras restrições do pós guerra, Dornier foi forçado a se estabelecer na Itália, onde funda a empresa S.A.I. di Costruzioni Mecchaniche i Marina di Pisa, com a intenção de produzir comercialmente o Wal.
O Dornier Wal
O hidroavião foi tão bem sucedida em termos de vendas que 320 unidades foram construídas, incluído as fabricadas sob licença pela Kawasaki no Japão, Aviolanda na Holanda, CASA na Espanha e em 1933, após os abrandamentos das restrições de fabricação de aeronaves, pela própria empresa Dornier Flugzeugwerke, com sede em Friedrichschafen, na Alemanha.
O Grande DO X
Em 1924, ainda quando Claudius Dornier se encontrava na Suíça, teve início os estudos que culminariam no hidroavião DO-X. Mais de 240 mil horas de trabalho vão ser gastas pelos próximos cinco anos para criar a maior aeronave de sua época. Para Walter J. Boyne, piloto e coronel reformado da United States Air Force, no seu trabalho intitulado “The Dornier DO-X: What Might Have Been” (2011), foi durante este período que Dornier perdeu o controle do projeto em termos de peso e arrasto.
Neste plano o DO X mais parecia um navio
Embora fosse um gênio na arte de estruturas leves, onde aprendeu mais ainda quando estava junto a Graf von Zeppelin, usando a sua famosa combinação de aço e duralumínio, Dornier parecia atacado por um complexo de “Art Deco aeronáutico”. Ele viu o DO-X não tanto como um hidroavião, mas como um verdadeiro “Palácio voador sobre os oceanos”, tendo o projeto se tornado estruturalmente complexo, excessivamente ornamentado e aeronauticamente complicado. Logo o DO-X recebia internamente três níveis. O mais alto foi dividido em cinco compartimentos para os 12 ou 14 tripulantes (formado pelos pilotos, navegadores, homens de rádio e engenheiros).
Requinte interno do DO X
O segundo pavimento foi ricamente equipado para o luxo e requinte dos ricos passageiros e com área para transportar suas volumosas e pesadas bagagens. Neste pavimento o DO-X possuía quartos de dormir, quarto para fumantes, um bar, banheiros, uma cozinha, um elegante salão que também poderia ser convertido em uma área para receber berços de dormir durante os voos noturnos e uma sala de jantar. A terceira plataforma foi utilizada para o armazenamento de combustível, de lastro, de óleo e de equipamentos.
Conhecido na Alemanha como Flugschiff (navio voador), possuía uma envergadura de 48 metros, uma área de asa com 450 m² e havia sido projetado para transportar 66 passageiros em voos de longa distância, ou 100 passageiros em voos curtos. As asas eram tão largas que permitia a passagem de engenheiros por dentro delas, para que eles alcançassem os motores em voo através de escotilhas de acesso.
A lateral da grande nave
Dornier tinha alcançado seu objetivo de construir o maior avião do mundo, mas infelizmente, na medida que o peso e o arrasto aerodinâmico do DO-X cresciam, consequentemente diminuía a potência disponível pela quantidade dos motores inicialmente idealizada. Como resultado foram acrescentados mais e mais motores, chegando a um total de 12. Para piorar a situação o engenheiro Dornier não pode dispor dos motores que desejava. O novo monstro alado pesava vazio mais de 28 toneladas (o mesmo peso de um Boeing 737-100). Dornier tinha a esperança de adquirir 12 motores americanos mais potentes, mas teve que se contentar com doze motores radiais Siemens-Halske, de 525 cavalos de potência. Assim, desde o início, ele tinha um total de 6.300 cavalos de potência disponíveis, em vez de dos 7.680 cavalos de potência que ele havia planejado.
O DO X no ar
Apesar de tudo isso, em 12 de julho de 1929, aquele hidroavião nada convencional decolou do Lago Konstanz, realizando o primeiro dos seus 239 voos.
Logo tudo que se relacionava ao DO-X recebeu uma grande atenção da imprensa mundial. Em 21 de outubro de 1929, o DO-X fez um voo recorde com 169 pessoas a bordo. Por esta época já tinham sido realizados quase 35 horas de testes, estes revelaram que os motores Siemens eram inadequados. Para sorte de Dornier os americanos da fábrica Curtiss finalmente entregaram seus motores modelo “Conqueror” para serem instalados no DO-X.
o Kapitänleutnant Frederick Christiansen, comandante do DO X
Mesmo com os novos motores, ficou patente que o grande hidroavião alemão não havia alcançado as metas desejadas para velocidade e altitude. Mesmo assim foi lançada uma turnê internacional de vendas. Dornier selecionou para comandar o DO-X o Kapitänleutnant Frederick Christiansen, um ás da Primeira Guerra Mundial, detentor da medalha “Blue Max”, com treze vitórias oficiais e oito não confirmados no seu currículo de aviador de combate da marinha germânica.
O Grande “Raid” do DO X
Em 3 de novembro de 1930 o DO-X voou do Lago Konstanz para Amsterdã (Holanda), Southampton (Inglaterra), Bordeaux (França), Santander e Catalunha (Espanha) e Lisboa (Portugal).
Mapa do “Raid” do DO X
Tudo correu bem até a chegada a Lisboa, quando ocorreu um grave dano. A lona do revestimento da asa esquerda, em contato com um tubo de escape quente, deu início a um incêndio que destruiu grande parte da asa e foram necessários seis semanas para finalizar os reparos. Os alemães passaram o natal e a chegada do novo ano de 1931 na capital portuguesa e este seria o primeiro de uma série de incidentes.
Quando a nave estava finalmente reparada ela partiu ás 8:30 da manhã de 31 de janeiro. Diante de uma multidão de lusos o DO-X percorreu durante dois minutos, com potência máxima dos motores, as águas do Rio Tejo e decolou. Transportava seis passageiros, treze tripulantes e 800 libras de mala postal, seguiu a uma atitude média de 200 metros, com o voo prosseguindo até as Ilhas Canárias, onde chegam depois de seis horas e meia de viagem.
O DO X durante sua grande viagem
Na sequência, houve graves danos na aeronave durante uma tentativa de decolagem, exigindo mais noventa dias de reparação. Durante este tempo foi imposto uma drástica redução de peso para melhorar a capacidade de decolagem, com todos os móveis pesados sendo jogados para fora e a equipe de voo sendo obrigada a se livrar de seus bens pessoais, até de suas navalhas. Além disso veio do Brasil um veterano piloto alemão chamado Rudolf Cramer von Clausbruch, que atuava na empresa aérea Sindicato Condor. Clausbruch sabia como aumentar o alcance de um hidroavião em travessias oceânicas. Ele voava rente as ondas do mar, não mais que 10 metros, utilizando o chamado efeito solo, situação onde a enorme asa do DO-X criava uma condição ideal.
O DO X realizando um voo próximo a água
As nove da manhã do dia 2 de maio de 1930, o grande hidroavião estava de novo no ar. Bordejaram a costa africana, Passaram pela colônia espanhola do Rio do Ouro (atual região do Saara Ocidental), por Dacar, então capital da África Ocidental Francesa (atual capital do Senegal), seguindo rumo sul em direção a ilha de Bubaque, no Arquipélago da Bijagós, na costa da então colônia portuguesa da Guiné (atual República da Guiné-Bissau). Neste local os aviadores alemães tiveram que esperar por mais quatro angustiantes semanas pelo tempo adequado, enquanto isso realizaram vários testes com a aeronave.
Jornal pernambucano informando a chegada do DO X
Com a confiança renovada na grande máquina alada, seguiram para Porto Praia, capital da então colônia portuguesa de Cabo Verde. Mas novamente ocorreram vários problemas devido ao peso, sendo abortadas várias decolagens. Finalmente no dia 4 de junho de 1931, sete meses depois de decolarem do Lago Konstanz, faltando seis minutos para uma da tarde, eles decolaram em direção ao Brasil.
Consta que se o combustível ficasse muito baixo nos tanques, o DO-X realizaria uma escala em Fernando de Noronha, na época uma colônia penal, e depois o destino seria Natal.
Na bela Ilha de Fernando de Noronha
Desde o final de 1922 que a tropical capital potiguar, com seus pouco mais de 40.000 habitantes, já estava até que bem acostumada com o movimento de aviões e hidroaviões. Além da passagem de vários aviadores famosos, em voos atentamente acompanhados pela mídia mundial, os chamados “raids”, já havia na cidade representações de importantes empresas aéreas francesas, alemãs e norte americanas.
Natal era um grande ponto de apoio para a aviação mundial, contando com dois pontos principais para onde as aeronaves convergiam. Os aviões pousavam no chamado Campo dos Franceses, em uma área denominada Parnamirim, que em 1927 era apenas uma fazenda de um rico comerciante imigrado de Portugal e que morava no centro de Natal, vizinho a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Já os hidroaviões amerissavam no Rio Potengi, que banha a capital potiguar. Era neste rio que a grande nave alemã iria descer dos céus.
Enquanto o DO-X não chegava a Fernando de Noronha, várias informações eram transmitidas para a imprensa brasileira. Durante o voo sobre o Oceano Atlântico, seguindo viagem tranquilamente a baixa altitude, o hidroavião viu e passou a cerca de 50 metros do navio francês “Massilia” e no final da tarde foi vista por outra nave francesa, o “Lutetia”. Coincidentemente ambos os barcos eram da Compagnie de Navigation Sud-Atlantique, em rota para o Brasil.
Foi igualmente informado pela imprensa que o cargueiro inglês “SS Thereza” avistou a nave aérea a 10 graus de latitude norte e 22 de longitude oeste.
Ocorre que o voo do DO-X da Guiné a Fernando de Noronha demorou mais de treze horas, sendo a travessia realizada a uma velocidade média de 95 milhas (cerca de 153 km/h), obrigando a amerissagem em Noronha.
O hidroavião amerissou diante da Vila dos Remédios, depois da meia noite do dia 5 de junho, em uma noite sem lua cheia que facilitasse a visualização. A operação demonstrou a capacidade do comandante Frederick Christiansen e do conhecimento local que Rudolf Cramer von Clausbruch possuía como piloto do Sindicato Condor. A nave ficou ancorada na baía de Santo Antônio, próximo das ruinas do antigo forte dedicado ao mesmo santo e de uma casa construída em 1927 e utilizada no apoio aos aviadores franceses, conhecida até hoje como “Casa da Air France”.
Depois de revisarem os motores, reabastecerem o hidroavião com 5.400 litros de gasolina, houve uma pausa para o descanso. A manhã do dia 5 estava nublada, fazendo com que a tripulação aguardasse o tempo abrir. Finalmente, depois do meio dia, a tripulação do DO-X transmitiu nas ondas de rádio de 39 metros uma mensagem para a estação rádio do Sindicato Condor em Natal, eles estavam a caminho.
Enfim na Capital Potiguar
Em Natal, como era normal durante a passagem dos grandes “raids” e da chegada de algum hidroavião incomum nas águas do Potengi, a cidade parou esperando o DO-X. E o DO-X era tão somente o maior engenho aéreo do mundo no seu tempo.
Tripulação do DO X
Na sexta feira, 5 de junho de 1931, o comércio local fechou as portas ao meio dia, sirenes em fábricas e as que existiam nos cinemas “Royal” e “São Paulo”, tocaram informando a saída da aeronave de Fernando de Noronha e as ruas passaram a ficar bastante movimentadas.
A pequena, mas influente colônia alemã em Natal, se concentrou na sede da empresa Sindicato Condor, que estava embandeirada com flâmulas com as cores do Brasil e da Alemanha. Até o representante em Nova York da empresa Dornier Flugzeugwerke estava na capital potiguar. Havia em Natal jornalistas de periódicos do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco.
Visual de Natal feito pelos tripulantes do DO X
Eram duas horas da tarde quando se ouviu o ronco da aeronave. Como sempre ocorria nestas ocasiões sinos repicaram, muita gente aplaudia, fogos de artifícios foram disparados e grande parte da população natalense estava as margens do Rio Potengi.
A aeronave surgiu primeiramente sobre o bairro de Petrópolis, depois evoluiu sobre a cidade durante dez minutos, ostentando as grandes letras negras de registro “D 1929”.
No Rio Potengi, barcos com autoridades potiguares e membros da colônia alemã em Natal encostam no grande DO X
Segundo os jornais, para deleite da população natalense concentrada as margens do Rio Potengi, a nave realizou um voo a baixa altitude desde a foz do rio, seguindo em direção a antiga ponte de ferro sobre o Rio Potengi, sobrevoando-a enquanto perdia altitude para amerissar. Tocou tranquilamente a então limpa água do rio na altura da área de “Refoles”, onde existia a estação de rádio da Marinha do Brasil e os franceses tinham na época uma base de hidroaviões (hoje se encontram as instalações da Base Naval de Natal). A partir daí, lentamente, a nave deslizou sobre o calmo rio em direção a uma pesada e firme boia de atracação de 700 quilos de peso, colocada no meio do rio pela “Inspectoria do Porto de Natal”, próximo ao lugar denominado “Volta do Periquito”.
Natalenses apreciando a grande máquina as margens do Rio Potengi
O DO-X trazia na popa uma grande bandeira tricolor preta, branca e vermelha. Era a antiga bandeira do Império Alemão, ainda adotada em cerimônias oficiais no exterior e que dois anos depois seria abolida para a utilização da famigerada bandeira nazista.
O maior avião do mundo no Potengi – Foto de Eduardo Alexandre Garcia
A 500 metros da boia seus motores, menos um deles, foram desligados e com extrema demonstração de perícia para o público presente, o grande hidroavião encostou no artefato de atracação sem problemas. Logo vários barcos encostaram trazendo autoridades, jornalistas e membros da colônia alemã.
O DO X em Natal é notícia
Para surpresa de muitos natalenses, um dos tripulantes do DO-X que surgiu era o conhecido almirante português Gago Coutinho. Em 1922, por pouco este aviador luso não havia amerissado em Natal, junto com seu companheiro Sacadura Cabral. Os dois intrépidos portugueses realizaram naquele ano um voo épico que ligou Lisboa ao Rio de Janeiro em um simples hidroavião monomotor de fabricação inglesa. Logo o almirante Coutinho foi perguntado pelos repórteres o que achou de Natal, respondeu “-O que posso dizer, estou encantado”.
Coutinho não era o único não alemão a bordo. Avaliando o desempenho do DO-X para uma o possível compra pelo seu país, estava a bordo o major italiano Giacomo Brenta.
Tripulação do DO X junto a autoridades brasileiras
Enquanto uma guarnição da Força Pública tomava conta do hidroavião, o piloto do Sindicato Condor, Rudolf von Clausbruch, deixava o DO-X e partia para o Rio. Enquanto isso os aviadores europeus aproveitavam a hospitalidade da bucólica Natal. O comandante Frederick Christiansen, o almirante Gago Coutinho, o major Giacomo e outros dez tripulantes eram discretamente vistos em vários eventos e locais de Natal. Nunca estavam sozinhos, andavam sempre bem trajados e eram de uma fidalguia e de uma conduta pessoal verdadeiramente impecáveis.
Eles foram homenageados com um jantar na casa do rico comerciante de origem portuguesa Manoel Machado, onde o almirante português estava hospedado. Machado era o mesmo que doara o terreno para a construção do Campo dos Franceses.
No domingo, dia 7 de junho, a tarde, o comandante Christiansen e o 1º piloto Horst Merz, apreciadores do nobre esporte bretão e antigos peladeiros, foram assistir a uma partida de futebol no “Campo do Tyrol”, o que hoje chamamos de estádio Juvenal Lamartine.
Os aviadores estrangeiros estavam na tribuna de honra e presenciaram uma emocionante partida de nove gols que decretou a vitória do time do América F.C. sobre seu arquirrival ABC F.C., pelo placar de 5 a 4. A edição de terça feira, 9 de junho, do jornal natalense “A República”, comenta na terceira página que Christiansen e Merz ficaram extremamente impressionados com a qualidade do futebol apresentado e pela garra dos jogadores potiguares.
O 1º piloto Horst Merz, que apreciou muito o jogo entre o América e o ABC F.C. no velho estádio Juvenal Lamartine
O 1ºpiloto Merz afirmou que “-Era impressionante uma pequena cidade possuir tão bons jogadores e com tanta qualidade”. Ao final os aviadores fizeram questão de cumprimentar cada um dos jogadores.
A Viagem Continua, mas um tripulante fica em Natal…
Passados alguns dias, como acontece em navios que visitam cidades, o DO-X foi aberto à visitação pública. Gago Coutinho esteve no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e na redação do jornal “A República”.
Natalenses a margem do Potengi contemplando a preparação para a decolagem da grande nave
No dia 17 de junho, ás seis da manhã, foi a data marcada para a partida da grande aeronave, mas simplesmente, como já tinha acontecido antes, o pássaro não voou.
Depois de duas tentativas frustradas, com idas e vindas ao longo do Potengi, em meio a uma grande barulheira dos 12 motores do DO-X que acordou a sonolenta cidade, com o público natalense certamente achando aquilo tudo muito estranho e esquisito, o monstro alado foi levado para a região onde atualmente se encontra o prédio histórico da Rampa e o Iate Clube de Natal e colocado as margens do rio.
Na edição de 18 de junho de 1931, uma quinta feira, na primeira página está colocado que a causa do revés da decolagem do grande hidroavião foi a existência de prosaicas e pequeninas “ostras” incrustadas no fundo do casco do DO-X.
O DO X nas margens do Potengi
Provavelmente o que havia não eram ostras, mas cracas marinhas. Estes são crustáceos marinhos sésseis de vários gêneros, da ordem Thoracica, da classe Cirripedia, que quando adultos têm o exoesqueleto calcificado e composto por várias placas que definem uma forma cônica. As cracas escolhem normalmente rochas para viverem e se reproduzirem, mas podem fixar-se também a fundos de embarcações (onde causam estragos) ou a outros animais (por exemplo baleias). Mas sinceramente não sei o quanto estes animaizinhos poderiam impedir o gigantesco DO-X de decolar do Rio Potengi. Os jornais locais foram muito econômicos sobre este fato.
No jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 18 de junho, página 2, o comandante Christiansen afirmou que “-Poderia decolar, mas achou conveniente fazer uma limpeza no casco”. Já o almirante Gago Coutinho, além de culpar os pequenos organismos marinhos, comentou que a falta de ventos e a “Pouca largura” do Rio Potengi, eram os vilões do problema. O comandante alemão decidiu testar novamente os motores do DO-X, realizando o que o jornal recifense classificou como um “passeio” ao longo do rio.
Em todo caso, no outro dia as cinco da manhã, o DO-X partiu de Natal para Salvador.
Não sei se por vergonha do que aconteceu no dia anterior, ou por pressa, mas pareceu aos natalenses que os aviadores da grande máquina decolaram com uma verdadeira velocidade de fugitivos, numa “Carreira igual daqueles que roubam” como se diz o dito popular. Pois simplesmente deixaram para trás um dos tripulantes.
Este fato inusitado está publicado na primeira página do jornal “A República”, edição de 19 de junho de 1931 e na página 3 do “Diário de Pernambuco”, do mesmo dia. O nome do pobre tripulante esquecido não foi mencionado, mas foi informado que logo ele seguiria pelas asas de um hidroavião do Sindicato Condor para Salvador.
É de se conjecturar onde este alemão estava para perder a hora da decolagem de sua aeronave e certamente o seu emprego. Vai ver que nos braços de alguma bela morena potiguar!
Em Outras Terras
O voo continuou para o Rio de Janeiro. O pouso na baía da Guanabara atraiu milhares de curiosos. Do Brasil, o hidroavião voou para os Estados Unidos, pousando em Nova York no dia 27 de agosto de 1931. Ali os motores Curtiss foram removidos e enviados para a revisão e a aeronave acabou ficando vários meses no atual aeroporto Fiorello La Guardia, onde se tornou uma atração turística.
O voo de regresso para a Alemanha partiu no dia 21 de maio de 1932, atravessando o Atlântico Norte e chegando a Berlim em 24 de maio, dessa vez sem maiores contratempos.
Infelizmente para a empresa Dornier Flugzeugwerke, os Estados Unidos estavam vivendo a chamada Grande Depressão, e não havia mercado com capacidade de absolver uma aeronave do tamanho do DO-X. O hidroavião passou para a empresa aérea Lufthansa, mas operou por pouco tempo.
Logo houve um pouso errado no sul da Alemanha e houve danos ao pássaro de metal. Reparado, o DO-X voltou para Berlin e passou a fazer parte do Deutsche Luftfahrt-Sammlung (museu da aviação) em Lehrter Bahnhof. Infelizmente, em novembro de 1943, o museu foi destruído por um pesado bombardeio da RAF e quase nada restou do DO-X.
Dornier fabricou mais dois hidroaviões Do-X, que foram vendidos ao italianos. Estes eram idênticos ao DO-X original, com exceção dos motores. O destino final dos dois aviões não é conhecido e provavelmente foram desmontados e sucateados silenciosamente. Um sucessor, o Do-XX, foi idealizado por Dornier, mas nunca avançou além do estágio de estudo de design.
Embora nunca tenha sido um sucesso comercial, o Dornier DO- X foi um pioneiro do seu tempo, que demonstrou o potencial de um serviço de transporte aéreo internacional de passageiros.
Diante da centenária capela da Fazenda Colônia, onde nasceu o cangaceiro Antônio Silvino. Da esq. para a dir. Carina Dourado, André Vasconcelos, Osvaldo Alves, o autor deste blog e Alexandre Souza
Na última semana tive oportunidade de percorrer o nosso sertão nordestino para estar junto com o pessoal da TV BRASIL, de Brasília, fazendo parte do programa “CAMINHOS DA REPORTAGEM” sobre o Cangaço e Lampião.
A Equipe era composta pela repórter brasiliense Carina Dourado, o cinegrafista goiano Osvaldo Alves e o auxiliar técnico carioca Alexandre Souza e o motorista Fred Silva, este do Ceará. Todos pessoas maravilhosas, ótimos companheiros de jornada e unidos na busca da informação. Foi uma honra estar com eles.
As cangaceiras do grupo folclórico de xaxado de Triunfo
No sertão pernambucano estivemos juntos em Triunfo, Afogados da Ingazeira e em uma fazenda em Carnaíba e outra em Serra Talhada. Todos locais incríveis, alguns sendo revisitados e outros sendo descobertos.
Mas especialmente em Serra Talhada ficamos hospedados na Fazenda Barreiros, onde passamos ótimos momentos junto com o proprietário, o fotojornalista Álvaro Severo, uma grande figura que produz cultura no nosso sertão e com muitas ideias fantásticas.
Cangaço – História e cultura nordestina
Nesta propriedade seguimos para a Serra Grande, palco do maior combate da história do cangaço no Brasil, onde Lampião, segundo algumas fontes, contava com 85 homens no seu bando e venceu várias volantes que totalizavam 300 policiais. Foram 900 metros de altitude (Mais elevada que a Serra de Martins) que tivemos de encarar e assim compreender o que ocorreu neste local em novembro de 1926. A Fazenda Barreiros está localizada a 38 km de Serra Talhada, possui 1.200 hectares, dos quais 800 são área de preservação permanente. Na grutas da Serra Grande, esconderijo de cangaceiros armas e utensílios tem sido encontradas ao longo dos anos pelo pessoal da fazenda e agora pertencem a coleção privada do Álvaro Severo (Autorizado pelo Exército). Ali já acharam até uma máquina de costura que os cangaceiros utilizavam para consertar seus uniformes. O Álvaro trabalha duro para criar um museu e uma pousada rústica para que os visitantes compreendam o que é o sertão, sua gente e sua história.
Foram 1.400 km de estrada, ida e volta do Pajeú, queimando trecho, comendo onde dava, andando em estrada esburacada, subindo serra, quebrando mato, deixando a família em Natal a pé e na casa de parentes. Mas descobrir estes locais, é igual a propaganda do Mastercard,…Não tem preço!
Início da minha viagem, passando por Santa Cruz-RN e a grande estátua da padroeira da cidade
Em Soledade-PB, buscando o caminho
Fazendas centenárias do sertão
Em Taperoá-PB, a lembrança da obra do grande Mestre Ariano Suassuna
Finalmente em Triunfo-PE e seu maravilhoso e diferente friozinho sertanejo
Juntos André e Carina transmitindo para os telespectadores as histórias da “Casa das Almas” de Triunfo. Dizem que a fronteira da Paraíba e de Pernambuco passa no meio desta casa e que na época do cangaço Lampião podia ficar em um dos lados da fronteira dentro da casa que a polícia não o perturbava. Será?
Filmado em Triunfo o grupo de xaxado organizado pela amiga e pesquisadora triunfense Diana Pontes
Em Afogados da Ingazeira, na praça principal, junto com o jovem poeta Alexandre Morais, que criou especialmente para o programa um maravilhoso poema sobre Antônio Silvino
A caminho da Fazenda Colônia, onde nasceu Antônio Silvino
Casa Grande da Fazenda Colônia, onde nasceu Manoel Baptista de Morais, futuro “Rifle de Ouro”, cangaceiro Antônio Silvino
Reencontrando o amigo Braz de Buíque, grande vaqueiro, afamado na sua ribeira e homem simples por natureza
Centenária moenda de cana da Fazenda Colônia
Procurando transmitir o que aprendi.
A Fazenda Colônia é um local que parou no tempo e daria um ótimo local para filmagens de época
A noite na Fazenda Barreiros, zona rural de Serra Talhada. A galera animada para a Serra Grande
O Alexandre, carioca da Tijuca, deleitando a todos com o puro chorinho em pleno sertão
Armas de fogo, munições e armas brancas encontradas em grutas que serviram de abrigo aos cangaceiros na Serra Grande
Serra Grande, local do maior combate do cangaço
Típico café sertanejo…..
Degustando um maravilhoso queijo, ao lado do amigo Álvaro Severo, proprietário da Fazenda Bezerros.
André e os carros de bois típicos do Pajeú
Instruções para encarar a subida com o guia local
Pelas mesmas trilhas dos cangaceiros
A caminho
No meio da mata
Como se diz – “Rapadura é doce, mas não é mole não!”
Não foi fácil..
..Mas no final tranquilos e realizados com o esforço.
Carina e seu achado…
O retorno…
No final junto com as crianças do Pajeú
Um grande agradecimento ao amigo André Vasconcelos pelo apoio e atenção no sertão do Pajeú. Já duas vezes que viajo com André e a nossa convivência e trabalho foram enormemente positivos. Eu fui contatado pelo pessoal da TV Brasil por conta do nosso blog TOK DE HISTÓRIA e os textos que aqui se encontra sobre o cangaço e eu fiz questão de contatar o André e colocá-lo na produção. Ele teve um ótimo espaço no programa apresentando a sua cidade (a famosa “Casa das Almas” e uma residência que nunca foi mostrada na imprensa e serviu para Lampião se recuperar do tiro no pé em 1924). Trabalhamos juntos e foi muito bom, ele é uma grande figura e, se Deus quiser, vamos repetir a dose em breve!
O grande André, extremo conhecedor do tema cangaço na região e um ótimo violeiro. Sem sua ajuda a gente não conseguiria
Foi em dezembro de 2010 que criei o TOK DE HISTÓRIA, com a ideia de ter um espaço na internet para escrever sobre coisas que gosto, sempre buscando democratizar a informação histórica. Nunca ganhei um centavo com este trabalho, mas o que ganhei em informações, conhecimento e principalmente amigos, já perdi as contas.
Em um dia de agosto de 2006, uma sexta feira, na cidade pernambucana de Santa Cruz da Baixa Verde, em Pernambuco, tivemos a oportunidade de conhecer um homem, nascido em 1912, que pela sua lucidez e saúde, foi como encontrar um verdadeiro tesouro da história oral do cangaço.
Clementino José Furtado, o Clementino Quelé.
Seu nome era Antônio Ramos Moura, sua residência uma casa ampla no sitio Conceição e o assunto foi os dois ataques perpetrados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e seus cangaceiros, contra a casa do seu antigo parceiro, Clementino José Furtado, o Clementino Quelé, que após estes embates se tornou um dos mais esforçados perseguidores do “Rei do Cangaço”.
Antônio Ramos Moura, então com doze anos, foi testemunha destes episódios e detalhou vários aspectos de sua vida na época e rememorou inúmeros fatos.
A Santa Cruz
O atual município de Santa Cruz da Baixa Verde está localizado na região do Sertão do Alto Pajeú, na fronteira com a Paraíba. Fica distante 455 quilômetros de Recife, possui um agradável clima serrano e a cidade se caracteriza por concentrar na atualidade a maior quantidade de engenhos de rapadura de Pernambuco. Já as origens do local são oriundas do antigo “sítio Brocotó” e a atual denominação tem origem na ação de um missionário nordestino que possui uma história extraordinária.
Nascido em 5 de agosto de 1806, na Vila de Sobral, Ceará, José Antônio Pereira Ibiapina teve uma origem confortável. Mas devido a participação do seu pai Francisco Miguel Pereira na insurgência conhecida como Confederação do Equador, este foi fuzilado em 1825, e o irmão Alexandre seguiu preso para a ilha de Fernando de Noronha, onde morreu pouco tempo depois. Ibiapina teve que assumir e manter financeiramente a família.
Algum tempo depois ingressou no Curso de Direito do Recife, concluindo em 1832. No ano seguinte exerce o cargo de professor substituto de Direito Natural na Faculdade de Olinda. Depois foi eleito Deputado Geral e nomeado, em dezembro, Juiz de Direito da Comarca de Campo Maior, no Ceará. Concluídos os trabalhos legislativos, em 1837, Ibiapina voltou para o Recife e resolve exercer a advocacia. No entanto, ele passa a trabalhar efetivamente na profissão no estado da Paraíba. Em 1840 volta ao Recife e continua sua luta junto aos tribunais.
A partir de 1850 Ibiapina resolve abandonar seus trabalhos forenses e inicia um período dedicado à meditação e exercícios de piedade. Após três anos de meditação e reflexão, Ibiapina decide-se pelo sacerdócio. Nesse sentido, em 12 de julho de 1853, aos 47 anos de idade, ele se torna o Padre Ibiapina. Logo após sua ordenação, o Bispo Dom João da Purificação o nomeia Vigário Geral e Provedor do Bispado, além de professor de Eloquência do Seminário de Olinda.
Mas contrariando seus superiores, opta pela vida missionária. Padre Ibiapina começou então seu trabalho missionário pelo interior do Nordeste. Em diversas vilas construiu casas de caridade, destinadas a moças pobres. Em cada lugar ele pregava, orientava, promovia reconciliações, construía açudes, igrejas, cemitérios, cacimbas e cruzeiros. Um destes cruzeiros foi erguido no sítio Brocotó e ficou conhecido como Santa Cruz, sendo esta a denominação na época do cangaço.
Região serrana de Santa Cruz da Baixa Verde, Pernambuco.
Com o passar do tempo, pelo fato da pequena urbe está no alto da Serra da Baixa Verde, o lugar passou a denominar-se Santa Cruz da Baixa Verde e pertencia administrativamente à bela cidade serrana de Triunfo.
Careta
O pai do nosso entrevistado chamava-se Miguel Moura, tinha uma pequena bodega, além de trabalhar como tropeiro, ou almocreve. Tinha uma tropa de animais e fazia a linha entre as cidades de Triunfo, Serra Talhada e Arcoverde, na época denominada Rio Branco, trazendo e levando cereais. Antônio Ramos comentou que seu pai viajava para vários locais, transportando rapaduras. Inclusive o Rio Grande do Norte foi um dos seus destinos, onde esteve em Mossoró para comprar sal e também em Caicó.
O autor e o memorioso Antônio Ramos Moura.
Para nosso entrevistado Clementino Quelé, era chefe de sua família, tinha como irmãos Pedro, Quintino, Antônio, José e Manuel (nezinho), todos considerados homens dispostos, valentes e que “gostavam da espingarda”. Antônio Ramos comenta que na sua infância tinha um enorme respeito por aquele homem. Pouco falou com ele, mas obteve muitas informações sobre Quelé através de seu sogro Joaquim de Fonte, sobrinho do chefe da família Furtado.
Clementino é descrito como um homem forte, de tez acentuadamente branca, que realmente ficava com a pele vermelha quando tinha raiva e esta teria sido a razão de Lampião apelidá-lo pejorativamente como “Tamanduá Vermelho”.
praça principal da atual Santa Cruz da Baixa Verde, com a estátua do Padre Ibiapina em destaque.
Já para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do Sol”, 2004, págs. 220 a 225), Quelé era natural da ribeira do Navio, onde seguiu jovem para Alagoas, afastando-se de Pernambuco por questões de disputa familiar. No retorno a sua família vem para Triunfo, no sítio Santa Luzia. O antigo membro de volante João Gomes de Lira (in “Lampião-Memórias de um soldado de volante”, 1990, págs. 123 e 124) comenta ser a Santa Luzia a morada do bravo pernambucano.
Fachada da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em santa Cruz da Baixa Verde.
Para Antônio Ramos, na época das grandes “brigadas” de Quelé contra Lampião, ele morava no sítio Conceição.
Independente desta questão consta para nosso entrevistado que Quelé e seus irmãos eram analfabetos “-De tudo”. Do tipo que “-Não assinavam nem o A” e nem faziam “-Garrancho” do nome. Dizia Quelé ao tio de Antônio Ramos que ele era “careta”, outra denominação para seu analfabetismo. Pois quando olhava para qualquer texto escrito, franzia a testa, mostrava o rosto carregado, com uma careta, por não saber ler.
Mas se Quelé e seus irmãos não sabiam ler, sabiam atirar e muito bem.
De Homem da Lei a Cangaceiro
Para Mello (op. cit.), o bravo Quelé alcançou o posto de subdelegado do seu lugar e impunha a ordem, mas igualmente angariava inimigos. O autor informa que em uma diligência Quelé matou dois ladrões de cavalo, respondeu processo e foi destituído do cargo. Em seu lugar assumiu seu irmão Pedro José Furtado, ou Pedro Quelé.
Em 1922, para livrar o valente chefe da família Furtado do processo, o líder político Aprígio Higino D’Assunção solicita deste e de seus irmãos votos na próxima campanha eleitoral em Triunfo. Diante da recusa de Quelé em apoiá-lo, Aprígio ordena que uma força policial com um oficial e quatorze praças saíssem à caça do valente.
Na tranquilidade do alpendre de sua casa, o sertanejo Antônio Ramos contou que um dia, certo morador do lugar chamado Tomé Guerra, antigo amigo de Quelé, arranjou uma encrenca com o mesmo e entendeu de matá-lo. Tomé chamou outro morador do lugar, também “chegado na espingarda”, de nome Cícero Fonseca. Estes, juntos com um grupo de policiais, colocaram uma tocaia contra Clementino ás cinco da manhã, “-Para pegá-lo com as mãos”.
O “major” Aprígio Higino D’Assunção, que por três ocasiões foi prefeito em Triunfo e dono de cartório. Foto reproduzida a partir do livro “Triumpho, a corte do sertão”, de Duana Rodrigues Lopes, pág. 234.
Quelé ao perceber o ardil, pulou desviando dos tiros e respondeu ao fogo, atingindo certeiramente a cabeça de Cícero Fonseca, tendo o mesmo caído mortalmente ferido em um barreiro. Os outros membros da emboscada “botaram” em Quelé, que conseguiu fugir para sua casa. Clementino teria escapado através de um local onde havia um curral que pertencia a um cidadão conhecido como Sebastião Pedreiro e por uma área onde existia certa quantidade de cactos do tipo palma, utilizados como comida para o gado.
Aprígio Higino e parentes. Para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello ele foi o pivô que levou Clementino Quelé a entrar no cangaço. Foto reproduzida a partir do livro “Triumpho, a corte do sertão”, de Diana Rodrigues Lopes, pág. 373.
Mello (op. cit.) aponta que um “certo Tomé de Souza Guerra”, do sítio Santana e outros homens engrossaram a força policial que perseguia Quelé. Mas Cícero Fonseca era um companheiro de Quelé, onde os dois bebiam na bodega de Sebastião Pedreiro, quando a polícia cercou o lugar e deu voz de prisão. Na versão do respeitado pesquisador, que conseguiu suas informações através do relato de Miguel Feitosa, o antigo cangaceiro Medalha, o pobre Cícero ao colocar o pé para fora da bodega foi crivado de balas.
Vendo que a força policial e os paisanos não vinham para prendê-lo, mas para exterminá-lo, Quelé solicita aos gritos o apoio de amigos das proximidades, estes atenderam ao chamado e a balaceira foi grande. Diante da resistência inesperada a força policial e os paisanos batem em retirada.
Independente de qual a versão correta, todos são unânimes em afirmar que a partir deste confronto os perseguidores passam a “apertar” Quelé, sendo esta a verdadeira razão para ele e seus irmãos entrarem no cangaço junto a Lampião.
A Briga de Quelé com o Cangaceiro Meia Noite
O comerciante e almocreve Miguel Moura nutria uma boa relação com Clementino, a quem chamava de “primo”. Este comentou com seu filho que a razão de sua saída do bando de Lampião foi uma briga com o valente cangaceiro “Meia Noite”.
Este era alagoano, do lugar Olho D’água, atual Olho D’água do Casado, próximo a cidade de Piranhas. Seu nome verdadeiro era Antônio Augusto Correia e pelo fato de possuir a pele negra, recebeu a famosa alcunha. Para o genitor de Antônio Ramos, o negro Meia Noite foi o mais valente de todos os homens que andaram com Lampião, do tipo de gente que “-Dava medo só de olhar”.Segundo Mello (op. cit.), a razão da briga entre Quelé e Meia Noite foram dois irmãos cangaceiros chamados José e Terto Barbosa. Este último havia assassinado no Ceará o irmão de um chefe cangaceiro, tendo se refugiado com seu mano na serra do Catolé, a cerca de 30 quilômetros da cidade pernambucana de Belmonte, próximo às fronteiras do Ceará e da Paraíba.
A região montanhosa de Santa Cruz da Baixa Verde, a partir da estrada que liga esta a cidade ao vizinho município de Manaíra, já na Paraíba.
Em uma ocasião que os cangaceiros de Lampião e Quelé se encontravam na fazenda Abóbora, pertencente ao tradicional coiteiro Marçal Diniz, chegou uma mensagem de José e Terto para seus tios Neco e Chico Barbosa, igualmente cangaceiros do bando de Lampião. O que os dois sobrinhos solicitavam aos tios era uma maneira de salvarem a pele.
Neco e Chico sabendo que o chefe cangaceiro cearense, conhecido como “Casa Velha”, cujo irmão foi morto por Terto, era amigo de Lampião, acharam por bem pedir a Clementino Quelé que recebesse os dois sobrinhos. O chefe dos Furtados, junto com seus irmãos, se sobressaía cada vez mais no cangaço e não pôs obstáculo à entrada dos dois rapazes no seu grupo.
Quando Meia Noite soube da história se colocou totalmente contrário, pois foi amigo do homem morto por Terto Barbosa e disse que se ele viesse para o bando iria atirar nele. O resumo da ópera foi que após Quelé tomar conhecimento da alteração de Meia Noite, este se coloca ao lado de Terto. Quelé corajosamente disfere uma saraivada de impropérios contra Lampião, Meia-Noite e os outros cangaceiros. Segundo Mello (op. cit), Clementino teria dito textualmente “-Que juntassem tudo que ele brigava do mesmo jeito”.
O chefe dos Furtados percebeu que após este fato, ficar ao lado de Lampião e seu bando seria o mesmo que praticar um suicídio, pois o mais famoso cangaceiro do Brasil era conhecido pelo seu rancor.
A região de Santa Cruz da Baixa Verde, a partir da PE-365, que liga Triunfo a Serra Talhada.
Já nosso informante Antônio Ramos transmitiu uma versão diferenciada. Na ocasião destes episódios, o chefe dos Furtados estava junto com Lampião e seu bando em um esconderijo próximo a povoação de Patos, já na Paraíba, onde o problema ocorreu no momento em os tios de Terto trouxeram uma carta dos sobrinhos para Quelé e lhe contaram o problema. Quelé então teria solicitado que alguém lesse a dita mensagem em voz alta. Nisto o cangaceiro Meia Noite ouviu sobre o conteúdo da missiva e desconfiou que Quelé fosse colocar aqueles indivíduos como integrantes do bando.
Vista da Serra do Catolé, em Belmonte, Pernambuco.
Segundo o entrevistado, Meia Noite conhecia os “Barbosas”, contra quem já havia brigado, era inimigo dos mesmos, principalmente de Terto. O negro alagoano ficou cismado que Quelé, ao colocar aquela turma de valentes no bando, seria um meio para Terto, dos “Barbosas da Serra do Catolé”, dar fim a sua vida.
Quelé ao saber do fato negou. Disse a Meia Noite que “-Gostava de homem valente”, que os “Barbosas” eram pessoas que ele tinha “-Para onde botar”. Meia Noite comentou que sendo Terto seu inimigo, se por acaso ele trouxesse os “Barbosas” para perto do bando, “-Sabia que ia ser uma desgraça, que nóis briguemo e ficou para quando nóis se encontrar, a bala cortar”. Antônio Ramos narrou que Quelé ponderou, afirmando que “-Quando o homem é valente, que pede uma proteção, eu gosto de amparar”.
A discussão entre estes guerreiros foi gradativamente aumentando de tom, crescendo na ferocidade, até que os dois valentes partiram para a luta corporal. Lampião chamou seus homens rapidamente dizendo “-Acode, acode, se não estes homens se matam” e conseguiram apartar a briga. Para o entrevistado Lampião disse a Quelé “-Que deixasse o negro Meia Noite com ele, pois parecia que ele tinha saído do inferno” e pediu a Clementino e seus irmãos para irem para o sítio Conceição.
Antônio Ramos relata que depois da discussão, Quelé aparentemente não se satisfez com o posicionamento de Lampião e reclamou. No entendimento do chefe dos Furtados, Lampião “-Teria dado mais valor a um negro do que a ele”. Sentindo-se rebaixado no seu racismo tardio, Quelé abandonou a vida do cangaço e ficou marcado por Virgulino.Outra informação ouvida por Antônio Ramos dá conta que no momento em que Clementino Quelé e seus parentes saíram da região dos Patos e do bando de Lampião, um dos seus parentes, filho de certa “Luzia Lalau” e um tal de Ricardo, pessoas de Santa Cruz, ficaram no bando de Lampião.
Os tiroteios de Lampião contra Quelé
Seja através de uma, ou de outra versão, o certo é que tempos depois desta desavença no seio do bando, o chefe Lampião, apoiado pelo fazendeiro Marcolino Diniz, filho do coronel Marçal, vem para Santa Cruz com o objetivo de matar Clementino e seus irmãos. Este encontro ocorreu no dia 5 de janeiro de 1924, um sábado.
Segundo informações coletadas em Santa Cruz da Baixa Verde, esta casa reformada teria sido a fortaleza de Clementino Quelé. Entretanto este dado ficou inconclusivo devido a divergências em relações a outras informações que foram apuradas na região.
Antônio Ramos informa que era um “-Meninote de doze anos”, que a sua casa antiga era próxima a sua atual morada e seu pai possuía uma bodega pequena, mas bem surtida.
Era ainda de madrugada, quase amanhecendo, quando o jovem Antônio Ramos acordou com o barulho de muitas vozes de homens no oitão da sua casa. Era um grupo numeroso de cangaceiros. O garoto notou que todos vinham alegres, animados, equipados, armados e com muita munição. Muitos deles estavam embalados por aguardente e segundo suas próprias palavras, os cangaceiros pareciam estar “-Com fogo saindo pelas orelhas”.Eles pediram tudo que seu pai tivesse de comida no estabelecimento, além de mais cachaça. Este prontamente passou a servir o bando, especialmente Lampião. Os homens armados não fizeram nada com seu pai ou sua família nesta ocasião.
Antônio assistiu Lampião comendo uma rapadura com queijo e comentando alegremente com a rapaziada sobre a futura luta. Ele se apresentava animado, doido para brigar. Neste momento pronunciou uma frase que Antônio Ramos jamais esqueceu.
“-Da família de Quelé, hoje só se salva quem avoa”.
O Rei do cangaço ainda afirmou que “
– Hoje eu vou beber o sangue de todo mundo”.
Nesta ocasião, durante o nosso encontro, o nonagenário entrevistado alterou-se, ficando visivelmente emocionado. Ele recordou que se tremeu todo, no momento que escutou estas frases do famoso bandoleiro. Comentou veementemente que viu Lampião falar exatamente da forma anteriormente descrita e narrou este fato agarrando fortemente o braço do autor, tal a emoção.
Outra imagem da casa onde pretensamente ocorreu a batalha.
Ele descreveu Lampião como sendo moreno, alto, rosto comprido, cego de um olho, não usava óculos naquele dia e que mesmo assim enxergava bem. Pouco tempo depois o bando saiu da bodega.
A desproporção da luta que se avizinhava era enorme, pois Quelé tinha junto com ele apenas outros cinco companheiros para lhe ajudar. Para Antônio Ramos os cangaceiros seriam em torno de “-Uns cinquenta homens”. Já Carvalho (op. cit.) afirma que seriam quarenta e cinco.O pesquisador Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho (in “Pernambuco no tempo do Cangaço-Volume I”, 2002, págs. 328 a 330) reproduz o “Boletim Geral nº 05”, emitido pela polícia pernambucana no dia 7 de janeiro de 1924, onde consta que o número de cangaceiros era de sessenta homens.
Mas para os familiares de Antônio Ramos, naquele momento o que importava era buscar de alguma maneira se proteger dentro de casa diante do que iria acontecer e em pouco tempo “-A bala comeu”. Ele e seus familiares ficaram escutando o tiroteio, mas não lembra a duração, só comentou que “-Demorou muito”.
Falou que “-Quando deu fé”, chegou a sua casa um rapaz da família de Quelé com cerca de 16 anos, dizendo que estava dentro de um partido de mandioca quando os cabras chegaram e comentou que “-A bala tava cortando tudo”. Narrou que o rapazinho tinha escutado os gritos dos cangaceiros prometerem: “-Derrubar a casa” e o pessoal da casa avisando aos gritos para os atacantes que
“- Se derrubar e entrar um, nóis mata na faca”.
A testemunha da batalha de 5 de janeiro de 1924 afirmou que este rapaz avisou que iria a Triunfo buscar uma volante. Nesta cidade o delegado era o tenente Malta e havia uma volante comandada pelo sargento Higino José Belarmino.
Edição do jornal recifense “A Notícia”, de 14 de janeiro de 1924, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, informando erroneamente sobre a ação da polícia, durante o segundo ataque de Lampião contra Quelé.
O jovem disse que seguiria através de um caminho alternativo, evitando a vereda que levava normalmente para esta cidade, pois com certeza os cangaceiros deviam ter “-Botado uma emboscada aculá na frente”. O jovem deixou a casa de Ramos, seguindo em direção a serra dos Nogueiras, saindo no lugar chamado Gameleira e de lá para Triunfo.
Entretanto, para nosso entrevistado, a polícia ficou “insonando”. No seu linguajar típico, onde Antônio Ramos utilizava expressões difíceis de serem ouvidas atualmente no sertão nordestino, ele quis dizer que os homens da lei ficaram enrolando e só foram chegar a Santa Cruz por volta das 11 horas da manhã.
Esta volante levou várias horas para percorrer os seis quilômetros entre as duas localidades. Provavelmente para os policiais, a ocorrência em Santa Cruz era um problema entre bandidos e quanto mais deles se matassem entre si, melhor. Mas diante da resistência feroz realizada por Clementino e seus companheiros, a polícia se deslocou para evitar a pecha de conivência e covardia.
Apesar da evidente falta de vontade dos policiais de irem a lutar, ficamos imaginando o conflito dentro da própria volante, entre aqueles que queriam ir e dos que não queriam, pois certamente nem todos eram covardes e honravam a farda que vestiam.
Enquanto isso a família de Quelé, literalmente “comia chumbo” e o tiroteio não dava mostras de diminuir. A casa sofria diante da quantidade de tiros, em mais de seis horas de batalha ininterruptas. Antônio Ramos e seus familiares, até por razões bastante óbvias, não viram nada da refrega, apenas escutaram assustados a troca de disparos.
Nosso entrevistado comentou que nesta época morava na sua casa um primo chamado Augusto e foi este quem primeiro ouviu um tiro de fuzil. Esta arma possuía um som característico e bem diferente dos rifles Winchester, de calibre 44, ainda bastante utilizados pelos cangaceiros e pelo pessoal de Quelé. O som lhe chamou a atenção e mostrava que a polícia estava chegando, vindo pelo caminho que seguia para a pequena Santa Cruz, que nessa época era um simples arruado “-Com no máximo quatro casas”.
Aparentemente a Força Policial começou a atirar com seus fuzis muito antes de chegar ao local do confronto, esperando que assim os cangaceiros debandassem. Mas segundo o nosso informante, foi nesse momento que o tiroteio ficou ainda mais forte, “-Com a fumaça cobrindo tudo” e as balas “-Zunindo por riba de casa”, o que deixou os membros da sua família extremamente assustados. Podemos deduzir através de suas informações que, de alguma maneira, a sua casa ficou entre o fogo cruzado.
O aposentado coronel Higino José Belarmino, em foto de Josenildo Tenório, de 1973. Reprodução feita a partir da página 50 do livro “Lampião, o cangaceiro e o outro”, de Fernando Portela e Claudio Bojunga, edição 1982.
Segundo Ferraz (op. cit.), no “Boletim Geral nº 05” encontramos a informação que o tiroteio morreu o irmão Pedro Quelé e Alexandre Cruz, ficando ferido Deposiano Alves Feitosa. Antônio Ramos narra que seu pai considerava Pedro Quelé como um homem valente. Na região ficou conhecido o fato que quando acabou a sua munição, este pediu garantias para sair, mas ao colocar a cabeça para fora da janela, foi impiedosamente morto.
Depois de toda uma batalha tenaz onde não tivera êxito, Virgulino Ferreira da Silva não refreou sua vontade de acabar com o atrevido Clementino Quelé.Ferraz (op. cit.) mostra que no “Boletim Geral nº 07”, da polícia pernambucana, emitido no dia 9 de janeiro de 1924, reproduz um bilhete do tenente Malta informando “Acha-se grupo de Lampião proximidade de Santa Cruz”. O militar ainda comentou na missiva que contava com “89 praças” para defender Triunfo e região.
Mesmo com esta força nas proximidades, seis dias depois, no dia 11 de janeiro, uma sexta-feira, Lampião e seus homens voltaram para aplicar uma segunda dose de chumbo em Quelé e seus companheiros.
Santa Cruz da Baixa Verde em 1951, durante uma visita de Frei Damião.
Antônio Ramos recordou muito bem que em relação a este combate, percebeu que o sol já vinha saindo quando o tiroteio teve início e novamente a história se repetiu. De um lado os cangaceiros sedentos de sangue e do outro um pequeno grupo de homens se defendendo como podiam.
Segundo Lira (op. cit.), Lampião despejava todo tipo de impropérios e palavrões conhecidos contra o destemido Quelé e seu pessoal. Mas os sitiados respondiam, cantavam e assim irritavam o chefe dos cangaceiros.
Mesmo com uma força policial numerosa em Triunfo, novamente os agentes de segurança do Estado levaram outras seis longas horas para chegarem a Santa Cruz, repetindo-se o que ocorreu no domingo anterior. De toda maneira Clementino só conseguiu se safar pela chegada do destacamento policial baseado em Triunfo. Para Antônio Ramos, consta que Quelé tinha um parente de nome José, apelidado “José Caixa de Fósforo”, que parece ter estado nos dois tiroteios.
Apesar do antigo cangaceiro de Lampião sair vivo nestes combates, a família Furtado foi praticamente exterminada. Segundo Mello (op. cit.), tanto neste, como em combates futuros, morreram três irmãos, dois genros e um sobrinho. Além destes seis parentes, segundo o pesquisador, mais cinco amigos do valente Quelé pagaram com a vida e inúmeros outras pessoas ligadas a Clementino ficaram feridos.
Casa antiga da região de Santa Cruz da Baixa Verde.
Em relação aos confrontos de janeiro de 1924, Antônio Ramos contou que uma das casas que foi palco dos dramas ainda existia e que na época era considerado um sítio afastado da então vila. Tentamos localizar o local. Chegamos a fotografar uma residência antiga, mas reformada. Entretanto houve divergências com outros informantes, que comentaram ter sido as casas da família de Quelé derrubadas há muito tempo.
Independente da residência correta onde aconteceram os tiroteios, fomos informados por pessoas da região, nascidas anos após os episódios, que seus parentes mais velhos narravam que quando estes seguiam para capinar nas proximidades das antigas vivendas, a coisa mais comum era encontrar capsulas deflagrada de rifles e fuzis.
O Vingador do Sertão
Depois dos tiroteios, Quelé ficou meio perdido pela região, sendo protegido por Higino Berlarmino. Para Antônio Ramos, foi o coronel José Pereira, o chefe político da vizinha cidade paraibana de Princesa, que deu o apoio decisivo para Quelé se tornar um implacável caçador de Lampião.
Sentado vemos Marcolino Diniz e seus comandados durante a Guerra de Princesa.
Após o grande assalto de cangaceiros ocorrido na cidade de Sousa, em 27 de julho de 1924, Pereira exigiu que seu parente Marcolino Diniz não desse mais apoio a Lampião e o expulsasse da região dos Patos. Por indicação de alguém que Antônio Ramos não recorda, foi sugerido ao “dono” de Princesa o nome de Quelé, para que este servisse no comando de uma volante em perseguição a Lampião. A solicitação foi feita ao então governador paraibano João Suassuna e Clementino Furtado passa a ser conhecido como o Sargento Quelé. (Sobre um episódio envolvendo o Sargento Quelé na Guerra de Princesa ver – https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/07/a-batalha-do-casarao-dos-patos/)
Sua volante, a famosa “Coluna Pente Fino”, ficou marcada na história do cangaço pela selvageria como combatia os cangaceiros e infligia o terror aos coiteiros. Muitos parentes fizeram parte do grupo. Se não faltam relatos de valentia do seu pessoal, infelizmente não faltam informações que inúmeros inocentes sofreram nas mãos dos homens de Quelé, além de inúmeros atos de pura rapinagem.
De toda maneira o “investimento” do governo da Paraíba em Quelé não foi em vão. Três anos e meio depois dos combates em Santa Cruz, no dia 14 de junho de 1927, ele e seus homens serão a primeira força policial a adentrar em Mossoró, após a fracassada tentativa de Lampião para conquistar a maior cidade do interior potiguar. Nesta ocasião consta que no currículo de combates de Quelé contra o Rei do cangaço, estavam listados vinte e um tiroteios.
Para Antônio Ramos, mesmo com toda coragem e capacidade para caçar cangaceiros, foi o analfabetismo de Quelé que deixou que ele permanecesse nas fileiras da polícia da Paraíba apenas com a graduação de sargento.
Provável túmulo do Sargento Clementino Quelé, na cidade da Prata, Paraíba.
As histórias das lutas entre Clementino Quelé e Lampião se tornariam verdadeiras lendas no imaginário dos nordestinos. Aparentemente um destes que se encantou com as lutas de Quelé foi Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”. Em parceria com José Marcolino, o sanfoneiro de Exu compôs a música “No Piancó”, onde em um trecho diz;
“Lá viveu o Clementino / Que brigou com Lampião.”
Não posso garantir que o Clementino descrito na música do grande artista pernambucano, seja o mesmo homem que perseguiu implacavelmente Lampião.
Mas houve outro?
A morte do pai de Antônio Ramos
Um dia, em 1926, segundo o entrevistado, o terrível chefe bandoleiro Sabino, acompanhados dos cangaceiros Juriti, Ricardo e outros, vieram de um lugar próximo chamado Lagoa do Almeida, da família dos Marianos e seguiram para a casa do senhor Manuel da Cruz. Este era um fazendeiro, tendo sido comentado aos cangaceiros ser um homem que possuía muito dinheiro Como este não foi encontrado, os cangaceiros continuaram seguindo em direção a pequena povoação de Santa Cruz.
Sabino fotografado montado em 1927, na cidade cearense de Limoeiro do Norte, logo após o fracassado ataque a Mossoró.
No caminho passaram adiante da casa de Miguel Moura. Como um dos cangaceiros era afilhado de batismo da mãe do entrevistado, por força do parentesco, pediu a Sabino, Juriti e Ricardo, que fossem na casa do sítio Conceição, ver se “arranjavam alguma coisa” com sua madrinha, que ele ficaria de fora.
A chegarem ao pequeno comércio, Sabino e os outros entram e passam a torturar Miguel Moura a ponta do punhal, para o mesmo dar conta do dinheiro que conseguia com o transporte nos burros. Na casa do pai do entrevistado se encontrava uma empregada da vizinha Isabel Correia, conhecida como Zabê e esta senhora foi a vivenda do entrevistado para moer milho. Os cangaceiros quiseram lhe arrebatar uma aliança, mas ela conseguiu tirar a joia do dedo e colocou-a na boca. Os cangaceiros exigiram o objeto de valor e a mesma recusou-se a entregar. Os bandidos passam a ação, tentando forçar a mulher a entregar a aliança e começa uma luta. A empregada lutou tão bravamente que teria quebrado o nariz do seu atacante. O próprio Sabino mandou soltá-la, tendo dito que “-Esta é uma desgraça que nem o diabo pode”. A mulher foi embora correndo com a aliança.Na casa da vizinha Zabê, que possuía certa quantidade de ouro, eles chegaram e arrastaram o que puderam, mandando inclusive a mulher tirar os brincos ou “-Cortariam com o pedaço da orelha”. O marido da mesma, Manuel Correia, foi chegando a casa e os cangaceiros o renderam com pistolas, que colocaram no pescoço do mesmo.
Para o pai do entrevistado a sorte não foi tão boa. Disseram que ele era rico, mas Miguel Moura comentou que gastava muito na propriedade. Daí Sabino ordenou que em oito dias ele conseguisse um conto de réis, sob pena de morrer.
O pai do entrevistado sofria do coração e diante de toda a tensão provocada pelas ameaças, veio a ter um ataque cardíaco. Sem assistência médica, que era muito difícil na época, morreu nove dias depois da “visita” dos cangaceiros.
Depois destes fatos, o nosso entrevistado e a família foram para Triunfo, onde perderam a roça e tiveram muitos prejuízos. Seguiram depois ao Juazeiro, para uma entrevista com o Padre Cícero, que os aconselhou a não voltar logo para casa.
Este fato foi testemunhado pela irmã de Antônio Ramos, criança a época, que se encontrava brincando defronte a casa no momento da passagem dos cangaceiros, tendo ela visto e escutado tudo.
Se para alguns, Sabino é apontado como “revolucionário”, para Antônio Ramos, ele é tão somente um arrogante bandido, cruel ladrão e frio assassino.
Me foi informado que esta antiga edificação amarela teria sido a casa comercial da família Campos em Triunfo, atacada por Sabino em 1926.
No dia 7 de julho de 1926, Sabino e seu grupo foram a Triunfo para assaltar a cidade. O bando fez muita bagunça, atacando a loja de tecidos de Antônio de Campos, o maior comerciante da cidade. Os cangaceiros levaram até um machado para furar o cofre, mas não conseguiram, passando a tocar fogo n estabelecimento. Segundo Ramos, na ocasião se encontravam na cidade dois soldados, de nome José Sabiá e José Piauí, que foram atacados pelo bando. O inusitado foi que Sabiá morreu com apenas um tiro e o Piauí, mesmo levando sete tiros, escapou com vida.
Início da extensa reportagem divulgada no jornal recifense “A Província”, edição do dia 10 de julho de 1926, dando conta do ataque de Sabino a Triunfo.
Para Lira (op. cit. pág.401) Sabino e seus homens entraram na cidade serrana quando se encontravam apenas quatro militares para protegê-la e corrobora a afirmação de Antônio Ramos quando escreve que “o soldado que foi morto tinha o apelido de Sabiá”.
A última vez que Antônio Ramos viu Lampião e seu bando
Depois que o nosso informante e sua família voltaram à antiga casa do sítio Conceição, eles procuraram seguir a vida. Mesmo diante da situação, o jovem Antônio Ramos não deixou de estudar. Em um dia de 1927, estava ele por volta das onze da manhã em uma escola nas proximidades de Triunfo, junto com um professor nascido na cidade de Floresta, quando chegou um grupo de cavalarianos armados e equipados. A princípio o mestre pensou que fossem policiais, mas o entrevistado comentou com segurança que “-Aquele ali é Lampião, eu conheço”. Segundo ele eram em torno de “-130 cangaceiros”, todos equipados, com chapéu de couro quebrado, cheio de medalhas, fuzis, cada um levando dois bornais e cartucheiras. Antônio Ramos ficou se perguntando como eles lutavam com tanto equipamento.
Antônio Ramos
Entre os cangaceiros, nosso entrevistado conhecia um deles. Chamava-se Isaías Vieira, e era de um lugar conhecido como Xique-Xique. Havia sido ladrão de bodes, que após ser preso apanhou muito e havia entrado no cangaço por vingança.
Nesta ocasião todos os cangaceiros estavam a cavalo, pegando animais descansados e deixando os que estavam viajando. Comentou que apenas às seis da noite, uma volante da polícia de Alagoas passou na região seguindo o bando. Este grupo era comandado por um militar conhecido como “tenente Arlindo”. A ocasião desta visita foi próximo ao mesmo período em que ocorreu o ataque a Mossoró.
Cruz em Santa Cruz da Baixa Verde, que mostra um local onde alguém morreu de “morte matada”.
A bibliografia mostra o quanto aparentemente nosso informante estava certo, mesmo com algumas pequenas alterações. O Pesquisador José Alves Sobrinho, da cidade de Serra Talhada, em Pernambuco (in “Lampião e Zé Saturnino-16 anos de luta”, 2006, pág. 112), comenta que na mesma época que Lampião seguia para Mossoró, passou na zona rural de Vila Bela, a antiga denominação do município de Serra Talhada, na fazenda Barreiras, de propriedade de Martins Venâncio Nogueira, conhecido como Martins da Barreira. Segundo o autor, o proprietário da fazenda Barreira conversou longamente com Lampião naquele dia e afirmou que junto ao chefe estavam “118 cangaceiros”.
Segundo Lira (op. cit pág. 379.) comenta que em fins do mês abril de 1927, este grande grupo de cangaceiros estava sendo realmente sendo seguido por uma força volante comandada pelo militar Arlindo Rocha, que salvo engano seria da polícia pernambucana e possuía a patente de sargento.
Antônio Ramos informou que nunca leu um livro sobre cangaço, que conta por que sabe e viu. Os fatos envolvendo Lampião e o cangaço era informação corrente na região. Tudo era narrado de boca em boca, nas feiras, nas ruas. Detalhes sobre a intriga dos Ferreiras com os Saturninos de Vila Bela, a história do chocalho, as brigadas e tudo mais que levou Lampião a entrar no cangaço, era muito repetido. Apenas em uma ocasião Antônio Ramos viu uma revista com a foto das cabeças cortadas em Piranhas, Alagoas, após o ataque que deu cabo de Lampião e acha que era ele mesmo.
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Decolagem no rio PotengiOs barcos típicos do rio PotengiFlutuante da Panair, onde os hidroaviões eram amarradosHidroavião na águaDesembarqueEmbarqueHidroavião subindo a rampaNatal em uma das principais rotas aéreas durante a Segunda Guerra Mundial, o “Trampolim da Vitória”Um piloto da U.S. Navy e seus óculos Ray-Ban
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O autor deste artigo no prédio histórico da Rampa em 2009 – Foto – Leonardo Dantas – CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR
Autor – Rostand Medeiros
Segundo apontam os principais estudos relativos à história da aviação no Brasil na primeira metade do século XX, a importância da cidade de Natal para o desenvolvimento desta atividade sempre esteve ligada a sua privilegiada localização geográfica.
Entre o final da década de 1920, até o primeiro semestre de 1942, em meio a uma cidade provinciana, com uma população que variou neste período entre 40.000 a 60.000 pessoas, importantes empresas aéreas chegaram a capital potiguar para desenvolveram suas atividades.
A provinciana Natal – Fonte – Coleção do autor
Estas eram de origem francesa, alemã, norte americana e italiana. Aqui construíram instalações diversas, vieram com seu pessoal técnico especializado e trouxeram um panorama de modernidade para a pequena capital nordestina. Estas ações tornaram a área de Natal um dos pontos de apoio mais importantes para o desenvolvimento da atividade aérea comercial no mundo.
Chegam os Norte-americanos
As empresas se dividiram basicamente entre dois locais; um no Campo de Parnamirim, afastado da cidade e exclusivo para aviões e o outro destinado às amerissagens dos hidroaviões, nas margens do estuário do rio que banha a cidade de Natal, o Potengi.
Neste rio, no setor situado entre as instalações do Porto de Natal e as proximidades da secular Fortaleza dos Reis Magos foi o local escolhido pelos alemães e norte-americanos para as instalações de suas respectivas estações aéreas.
Um cartaz informativo da Nyrba Lines – Fonte – Coleção do autor
A primeira aeronave americana de uma empresa aérea a chegar a Natal foi o hidroavião batizado “Washington”, em 5 de julho de 1929. Nos comandos estava o norte-americano Ralph O’Neill, veterano piloto de caça da Primeira Guerra Mundial e líder da empresa New York-Rio de Janeiro-Buenos Aires Lines, mais conhecida como Nyrba Lines. Em 13 de novembro de 1929, amerissava no rio Potengi o hidroavião “Baía”, da mesma empresa e durante mais três meses, vários outros hidroaviões da Nyrba Lines passam por Natal. Seus tripulantes estudavam as rotas aéreas, aspectos ligados à operação de apoio e um maior conhecimento da bacia do rio Potengi. No dia 25 de janeiro de 1930 a Nyrba Lines vai inaugurar oficialmente a sua rota Rio de Janeiro-Fortaleza, que tinha Natal como ponto de passagem.
Em pouco tempo, mais precisamente em 19 de agosto de 1930, a Nyrba é obrigada a se fundir com empresa Pan America Airways, a famosa Pan Am. Nesta época, segundo Paulo Pinheiro de Viveiros, autor do livro “História da aviação no Rio Grande do Norte” (págs. 31 a 38, 1ª Ed. 1974), os hidroaviões americanos permaneciam atracados em flutuadores estacionados à margem direita do rio Potengi, defronte ao local denominado Passo da Pátria. Era conhecido como “Estação Fluctuante da Panair”.
O homem ao lado da hélice do hidroavião é o mítico aviador norte-americano Charles Lindbergh, que juntamente com a sua esposa Anne Morow amerissaram seu hidroavião monomotor Lookheed 8 Sirius no rio Potengi na tarde de 5 de dezembro de 1933. na foto vemos sua aeronave sendo amarrada no flutuante da Panair. Eles realizaram um longo “raid” aéreo naquele ano.
Enquanto estas mudanças ocorriam com os norte-americanos, os alemães abrem a sua agência em Natal. Na 2ª página, da edição de quinta feira, 6 de fevereiro de 1930, do jornal natalense “A República”, na pequena nota intitulada “Movimento Aviatório”, existe a informação que um hidroavião da empresa área Syndicato Condor Ltda era esperado ás 15 horas daquele dia, inaugurando a linha aérea entre Natal e Porto Alegre. As instalações desta empresa, de origem e direção germânica, ficaram localizadas em uma área conhecida como praia da Limpa, na região onde atualmente se localiza as instalações do 17º GAC – Grupamento de Artilharia de Campanha.
Em 1934 a Pan Am decide criar uma subsidiária no Brasil, denominando-a Panair. Em Natal a empresa decide melhorar a sua estrutura de apoio onde é construída uma pequena estação de passageiros que desembarcavam dos hidroaviões através de um píer de concreto.
O local foi edificado em um terreno cedido pela Marinha do Brasil, conforme podemos ver na foto da nota jornalística de um jornal de Natal em 1938.
A Tempestade se Aproxima
Logo os tambores de guerra passam a tocar mais alto na Europa e Ásia. O Brasil, nação de tradição pacífica em relação à convivência com outras nações, logo se vê diretamente envolvido na Segunda Guerra Mundial, o maior conflito bélico da história da humanidade.
Enquanto a guerra se expandia em várias partes do mundo, em Natal, a Panair apresentava sua estação de passageiros a margem do rio Potengi – Fonte – Coleção do autor
Relatórios preliminares desenvolvidos pelas forças armadas dos Estados Unidos, antes mesmo da entrada deste país na guerra, corroboravam a importância geográfica de Natal. Informavam que a projeção do litoral nordeste do Brasil, o chamado Saliente Nordestino, onde Natal está localizado, era considerado um importante ponto estratégico militar.
Logo o Brasil e os Estados Unidos firmam acordos diplomáticos em relação ao momento turbulento. Inicialmente estes acordos focaram na defesa territorial do Saliente Nordestino, com a criação de unidades militares do Exército Brasileiro na região, criação de bases navais para a nossa Marinha de Guerra e o desenvolvimento de bases aéreas que seriam utilizadas pelos norte-americanos e pela recém-criada Força Aérea Brasileira, a FAB.
Hangar de nariz da base de Parnamirim, ou Parnamirim Fiel, durante a Segunda Guerra Mundial – Fonte – NARA, Washington D.C.
Um dos pontos fortes desta cooperação de defesa foi sem dúvida a Base Aérea de Parnamirim, em Natal. Além da defesa da área da capital potiguar, esta base foi essencial para o trânsito de milhares de aviões militares aliados, que seguiam dos Estados Unidos em direção a África, Europa e Extremo Oriente, transportando homens e todos os tipos de materiais essenciais para os aliados. O transporte por Parnamirim foi importante para a conquista do Norte da África e do Oriente Médio, além da invasão do sul da Europa. Daí surge à expressão que apontou a cidade de Natal como o “Trampolim da Vitória”.
A Base Militar no Rio Potengi e a presença Militar dos Estados Unidos no Brasil
A área da Panair a margem do rio Potengi não deixou de dar a sua contribuição para a defesa da nossa região, bem como dentro do espírito de cooperação entre brasileiros e norte-americanos.
Em 11 de dezembro de 1941, um mês e meio antes do Brasil decretar o rompimento das relações diplomáticas e ocorrer o reconhecimento do “Estado de Beligerância” e oito meses antes da declaração formal de guerra contra as potências do Eixo, chegam ao rio Potengi de seis hidroaviões militares PBY-5 Catalina, do esquadrão de patrulha marítima VP-52, da Marinha dos Estados Unidos (United States Navy-U.S. Navy). Já a área as margens do rio Potengi que pertencia aos alemães, passa a ser utilizada pelos americanos.
Neste período é construída a edificação com arcos e torre de controle que marcam este local histórico. Paralelo a esta situação são construídas rampas de acesso para a retirada dos hidroaviões da água e manutenção em terra. Por esta razão o lugar passou a ser conhecida pelos natalenses simplesmente como Rampa.
Além da base de Parnamirim e da área as margens do rio Potengi em Natal, dentro do processo de cessão de áreas militares no Brasil, os norte-americanos passaram a operar em 15 outros pontos do território brasileiro, em uma abrangência que ia do Amapá ao Rio Grande do Sul.
Para termos uma ideia da grandeza desta ação, o documento que apresentamos a seguir foi produzido em 14 de maio de 1944 e mostra a disposição das áreas de operações que a 4ª Frota (Fourth Fleet) da U.S. Navy possuía no Brasil.
Listas das bases da U.S. Navy no Brasil em 1944 – do Amapá ao Rio Grande do Sul.
É importante apontar que além da U.S. Navy, operava no nosso país a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Force-USAAF), com grande quantidade de homens e aviões, principalmente na função de transporte.
Nova Utilização
Após o final da Segunda Guerra Mundial, diante dos progressos técnicos da aviação, do crescimento do fluxo de passageiros e das mudanças em relação à forma de utilização da aviação comercial, a necessidade de estações de hidroaviões como a existente as margens do rio Potengi decresceu vertiginosamente.
Como havia sido anteriormente acordado entre o governo brasileiro e o norte-americano, as áreas militares utilizadas a margem do rio Potengi foram devolvidas aos brasileiros, fato que ocorreu em 1946.
O destino desta área militar foi uma parte entregue ao Exército Brasileiro (Que ali criou o aquartelamento atualmente denominado 17º GAC) e outra a FAB. Esta última Força ali implantou uma área de lazer para seus membros, que se tornou uma forte geradora de diversas atividades sociais, tanto para os militares, quanto ao povo natalense.
Um restaurante operou no prédio da Rampa – Fonte – Tribuna do Norte
Com o passar do tempo, em parte devido às mudanças do eixo de expansão da cidade de Natal, bem como diante de diversas mudanças de caráter social, cultural e de comportamento da nossa sociedade, a área da Rampa foi gradativamente perdendo sua importância e sua utilização pública cessou.
Nos últimos anos o local ficou sob a responsabilidade da União Federal e em 2009 foi repassada para a responsabilidade do estado do Rio Grande do Norte, que tem planos de ali abrigar um museu ligado a história da aviação e da Segunda Guerra Mundial.
Esperança de Recuperação
Em 2 de junho de 2013, em mais uma visita relâmpago ao Rio Grande do Norte, a Presidente Dilma Rousseff assinou a ordem de serviço para a obra, que está orçada em R$ 7,2 milhões, com a conclusão do serviço prevista para 12 meses.
Visita do historiador e brasilianista Frank McCann a Rampa – Fonte – Coleção do autor
Segundo reportagem do periódico Novo Jornal, de 3 de junho de 2013, o histórico prédio da Rampa não passa por uma reforma há mais de dez anos. Levantamentos realizados pela equipe técnica da Secretária de Turismo mostra que a estrutura apresenta problemas. O piso cimentado não tem condições de uso, as vigas e pilares que compõem todos os prédios do complexo estão em estado de oxidação e o antigo cais tem de ser demolido e construído um novo. A expectativa dos órgãos de turismo é que “o futuro Museu da Rampa e o Memorial do Aviador, que fazem parte do complexo, resgatem do esquecimento o antigo reduto das tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial, transformando-se em atração turística”.
Na época da assinatura da ordem de serviço, antes do início das grandes manifestações que atualmente ocorrem no país, a expectativa era que a empresa responsável pela obra, a Ramalho Moreira Ltda, começasse os trabalhos já no dia 10 de junho corrente.
O autor deste artigo com o professor McCann na Rampa – Fonte – Coleção do autor
Na última sexta feira, 28 de junho de 2013, estive no local com o historiador norte-americano Frank McCann, professor da universidade de New Hampshire, um dos mais respeitados brasilianistas e profundo conhecedor da história do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. Infelizmente nada, nenhuma obra física havia sido iniciada. Bem, pode-se argumentar que “Construção no Brasil é assim mesmo”. Ou então que “Diante das manifestações tudo atrasou”. Melhor seria que já estivesse sendo feito algo.
Para Frank McCann, a visão atual da Rampa foi um impacto. Esse americano, cujas obras literárias são referência no estudo sobre as relações políticas entre o Brasil e os Estados Unidos, sobre o Exército Brasileiro, sobre a nossa participação na Segunda Guerra Mundial e que desenvolve pesquisas históricas em nosso país há mais 50 anos, é um absurdo que aquele local, com tamanha bagagem histórica para a aviação brasileira e mundial, esteja naquele estado.
Espero que em breve estas mudanças ocorram e que aquele local seja preservado.
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Estas duas cidades são extremamente importantes na minha vida. Quem me conhece pessoalmente sabe da admiração que tenho por Pernambuco, seu povo e sua história, mas Recife e Olinda são especiais para mim.
Nada melhor do que trazer antigos postais e fotos destas duas maravilhosas cidades.
A ideia aqui não é fazer nenhuma postagem seguindo uma ordem cronológica rígida, ou utilizar esta iconografia para apontar algum fato específico, mas apenas homenagear estas cidades que escutam o baque solto do Maracatu.
Início do século XX, uma praça chamada Santos Dumont, onde os bancos sob as árvores frondosas eram mais importantes que o espaço dos automóveis. Não posso garantir que seja a atual Praça Santos Dumont na confluência das ruas Couto Magalhães com a Santos Dumont, perto do Estadio do Arruda.
A Praça da República. talvez hoje não seja tão movimentada como este cartão postal pintado a mão mostra, mas ainda mantém muito de sua beleza.
Faculdade de Direito de Recife, onde muita gente do Nordeste, muitos de Natal (entre estes Câmara Cascudo), buscavam o conhecimento.
A Estação Ferroviária Central de Pernambuco, ou apenas Estação Central do Recife, inaugurada em 1885 pela empresa inglesa Great Western, que na época tornou-se proprietária da E. F. Central de Pernambuco, que na época seguia para Jaboatão e depois foi sendo prolongada sucessivamente no sentido oeste do Estado.
Ponte Maurício de Nassau. Local extremamente histórico, esta ponte teve sua construção iniciada em 1640 pelo arquiteto Baltazar de Affonseca, por ordem do conde holandês Maurício de Nassau, feita em madeira, e inaugurada em 28 de fevereiro de 1644, sendo considerada a primeira ponte de grande porte do Brasil e a mais antiga da América Latina.
Uma rua no centro de Recife, em um tempo onde carro não existia. Essa não sei onde é.
Outra vista da Faculdade de Direito, antiga Escola de Direito.
Cais 22 de Novembro, antigo Cais do Ramos ou do Colégio. Se não me engano hoje é o Cais da Regeneração.
Casa de Banhos ficava no dique natural do Porto do Recife, onde atualmente se encontra o Parque das Esculturas de Francisco Brennand e o Farol do Recife. Foi construída em 1880 por Carlos José de Medeiros e no início do Século XX foi bastante frequentada pela sociedade recifense, que para ali se dirigia para tomar banho salgado em suas piscinas naturais. Era uma época onde o recato era muito intenso.
Olinda com sua bela paisagem, suas ladeiras, igrejas e seu casario.
Ponte Buarque de Macedo, sobre o Rio Capibaribe, no centro do Recife. Liga os bairros do Recife e Santo Antônio, tendo sido inicialmente construída em madeira no ano de 1845.
Rua do Sol.
Rua da Aurora.
O belo Seminário de Olinda.
Como todo local deste nosso belo e desigual país, o passado de Recife e Olinda não tinha apenas belezas, mas também locais onde a vida era bem difícil. Sem identificação deste local.
Início do século XX.
Recife e suas igrejas.
Edifícios dos banco River Plate e da Associação Comercial, no encontro das Avenidas Rio Branco e Marquês de Olinda.
Uma enchente do Capibaribe, na Madalena.
Carregamento de açúcar no porto do Recife.
A Ponte 7 de setembro.
O Porto de Recife.
Uma outra vista das docas de Recife, provavelmente entre a década de 1920 e 1930.
Rua Duque de Caxias.
Praça Arthur Oscar.
Jangada que não existe mais.
Jangada e seus jangadeiros, atração da cidade na década de 1950.
Escultura do Barão do Rio Branco, obra do francês Felix Charpeutier, colocada ali em 1917, em bronze com uma altura de 2,5 metros e inaugurada sob um pedestal em pedra de 4,20 m, esculpido por Corbiniano Vilaça, em 19 de agosto do mesmo ano. Dando a obra uma altura de 7 metros. Foto da década de 1930.
Praça da Independência.
O Grande Hotel de Recife. Parece que toda capital brasileira tinha o seu “Grande Hotel”. Sei que existe o daqui de Natal e existe (ou existia?) um em Belém.
Sei que esta casa em formato de um navio ficava em Boa Viagem.
Praia do Pina e seus postes para os bondes elétricos.
Praia de Boa Viagem na década de 1920.
O Banco do Recife
Avenida Alfredo Lisboa.
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Quando você acha que não pode nada por muitas coisas, quando muitos problemas surgem, muitas situações que parecem sem solução, o melhor para botar a cabeça no lugar é busca a natureza do nosso sertão nordestino.
Isso foi em Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, onde fui visitar sítios arqueológicos e grutas em granito no alto de belas serras. Foi show de bola, mas eu só faltei botar os bofes prá fora! Mas também, com 4.5 de quilometragem no motor, mais de 100 quilos na carroceria, eu quase tive uma turica, um passamento. Mas não desisti não! O negócio de andar no sertão é devagar e sempre, respeitar a hora do sol a pino (procurar uma sombra) e curtir a natureza. A comida foi a boa e velha rapadura, uma paçoquinha, muita água e, já que ninguém é de ferro, um bom café Santa Clara, que esquentamos no meio do mato. O melhor mesmo são as companhias, as conversas, a contemplação. Isso aí rolou em um sábado. Saímos de Natal na sexta, fizemos a trip no sábado e depois voltamos para casa no domingão. Melhor que assistir Faustão e o hômi do Baú….
Até onde sei, não existe na maioria das cidades do interior do Nordeste algo preparado e/ou programado para atender o turismo. Exceção as que possuem atrativos que estão sendo trabalhados e são bem comentados. Normalmente realizo estas viagens com amigos, pessoas simples, cujo objetivo principal é fotografar e visitar locais diferenciados, de preferência com conotação histórica. Praticamente todas as cidade do nosso sertão possuem algum meio de hospedagem, mas muito são precários. Não faltam pessoas dispostas a guiar e o custo é muito baixo. Normalmente buscamos áreas serranas, que dão um trabalho danado para subir, mas lá em cima a vista é fenomenal. Vale o esforço. Umas pessoas já me criticaram dizendo que isso é “programa de índio”, então UGA! UGA! Forte abraço….
Hangar de manutenção em Recife. Salvo engano o monomotor da foto é um Grumman F6F Hellcat, caça típico dos porta-aviões americanos que patrulhavam o Atlântico Sul na caça de submarinos do eixo.
TEXTO – FRANCISCO MIRANDA – BLOG DO FRANCISCO MIRANDA -http://chicomiranda.wordpress.com/2011/07/25/recife-e-a-segunda-guerra-mundial/
Em 1939 Recife sediava o III Congresso Eucarístico Nacional, que seria inaugurado no local o Parque 13 de maio. Neste local foram levantadas apressadamente arquibancadas e todo local foi preparado para o evento. Peregrinos de todo o país e do mundo chegavam para um dos maiores eventos religiosos da Igreja Católica do mundo.
Os rumores de guerra já batiam às portas da cidade e isso ficou mais evidente quando a embarcação britânica Amanzora, que trouxe à cidade os participantes do congresso, foi chamada as pressas para retornar à Inglaterra. E de fato, durante a própria abertura do congresso os alto-falantes comunicavam aos pernambucanos e a todos os peregrinos, a invasão da Polônia pela Alemanha. Recife ainda não sabia, mas ela seria uma das cidades mais impactadas com o alvorecer dessa nova ordem mundial.
Recife, a Veneza Brasileira.
Ainda em 1941, os EUA iniciou a política de envio de observadores navais para vários portos brasileiros. O primeiro a chegar foi o capitão aposentado da US Navy W.A. Hodgman. Ele chegou ao Recife em 26 de fevereiro, sob as ordens do Escritório de Inteligência Naval. O observador foi instalado inicialmente em um escritório no consulado americano e posteriormente no terceiro andar do prédio do Banco de Londres, na Rua do Bom Jesus, próximo ao Porto do Recife, com isso ele poderia acompanhar as atividades portuárias.
Quadrimotor de patrulha naval e caça de submarinos Consolidated PB4Y-1 Liberator, variante naval do famoso bombardeiro B-24. Foto realizada em Ibura Field, outubro de 1943.
Recife era a terceira cidade do Brasil, com uma população estimada à época de 400 mil pessoas. O porto, apesar do quebra-mar, era pequeno e estreito e necessitava de atracadores e rebocadores para atracar e desatracar. Armazéns estavam disponíveis com todo o tipo de loja. Instalações de abastecimento eram excelentes.
Hidroavião Catalina em Ibura Field
Com a declaração de guerra contra as potências do Eixo, e a cessão de bases no litoral brasileiro combinada com as operações de defesa do atlântico sul, Recife passa a ser uma cidade estratégica para as pretensões americanas, e com o apoio do então interventor do Estado Agamenon Magalhães, Recife terá a Sede da Quarta Frota Naval e será a base das operações marítimas com raio de atuação do Canal do Panamá até o extremo sul das Américas, além de um campo de pouso construído pelos americanos e chamado de Ibura Field, que atualmente é o Aeroporto Internacional dos Guararapes.
Torre de controle de Ibura Field
O governo do Estado fez enormes esforços para disponibilizar toda a infraestrutura para a acomodação da Quarta Frota. Foi disponibilizado um prédio inteiro para o Quartel-General além de outros prédios auxiliares no centro do Recife e alguns quilômetros de distância do Porto.
Militares americanos baseados em Recife.
Além disso, em conjunto com os Estado Unidos, foram construídos Hospitais de Campanha para serem utilizados como apoio de feridos no front africano, centros de treinamento de tropas, estruturação de defesas antiaéreas em toda a costa, alocação de unidades militares para atender a possível defesa em caso de invasão, também foi criado um centro de comunicação Aliada que tinha como principal objetivo estabelecer uma comunicação direta com a África, chamada Rádio Pina, que foi mantida em atividade pela Marinha Brasileira até 1992.
Marujo junto a um bombardeiro bimotor B-26.
Contudo as mudanças não foram meramente militares, houve um impacto profundo na sociedade pernambucana e, em especial em Recife. Primeiramente o impacto foi econômico, já que no auge de suas atividades a Quarta Frota mantinha cerca de 4000 homens no Estado, todos recebendo integralmente seus soldos e gastando, principalmente com os atrativos da vida nos trópicos. Passou a circular no mercado local dólares americanos, e isso impulsionou consideravelmente a comércio local e as atividades de apoio.
Descontração nas praias pernambucanas. Percebam as rodas do jipe com correntes, para passar nos atoleiros próximo as praias.
Outros aspectos interferiram na vida do recifense, que teve que passar por um racionamento de combustível e apresentou inflação de bens e serviços locais.
Arquitetura tradicional do centro de Recife chamando a atenção dos americanos
Segue abaixo alguns exemplos:
Atualmente o edifício que serviu de base para a Quarta Frota ainda está em funcionamento e é utilizado por alguns órgãos do governo do Estado, mas observa-se até os dias de hoje um grupo organizado de engraxates nas calçadas da av. Guararapes, e a origem do ofício nesse local remota na implantação do Quartel General da Quarta Frota, já que havia uma concentração de militares transitando nessa região com seus sapatos e coturnos, ou seja, uma demanda em potencial. Vários engraxates tinham ali sua fonte de renda. Passados décadas o local ainda é o melhor lugar da cidade para se lustrar os sapatos.
O Restaurante Leite é considerado o mais antigo do Recife e um dos mais requintados também. Já na década de 40 recebeu vários marinheiros e militares que, com seu soldo faziam a alegria dos garçons, já que as gorjetas eram em dólares.
O governo de Agamenon Magalhães cedeu outro edifício para a implantação do Grêmio Recreativo, onde aconteciam bailes dançantes, contudo esses bailes eram privados para os americanos e mulheres pernambucanas tinha acesso livre. Como não poderia, isso causava revolta entre os homens pernambucanos. Não foram os poucos os casos de brigas entre militares e os naturais da cidade.
Durante a guerra, o Porto do Recife foi um dos mais movimentados do país, e não por acaso, o bairro do Recife (uma ilha portuária), tinha uma vida noturna agitada, oferecendo aos marinheiros todos os atrativos festivos das mulheres da noite. Com o fim da guerra a região entrou em declínio e passou por um período de abandono, sendo considerado por muitas décadas o baixo meretrício, o local era evitado pela maioria das pessoas. Há alguns anos, houve um esforço para recuperação do bairro do Recife e, atualmente, o bairro abriga um polo tecnológico e é uma das principais atrações turísticas do Estado.
Com o receio de bombardeios a cidade, foi instituída pelo governo um apagão em toda a região metropolitana do Recife; viaturas do exército realizavam rondas noturnas pela cidade para identificar moradores que desrespeitavam o apagão. Várias baterias antiaéreas foram estrategicamente posicionadas por toda a cidade na eminência de um ataque aéreo.
Helena Roosevelt, no período em que o presidente americano visitou Natal, participou em Recife da inauguração do Cassino Americano que permaneceu em funcionamento até a década de 90 do século passado.
O Encouraçado São Paulo ficou permanentemente estacionado no litoral pernambucano a fim de realizar a proteção marítima do Estado.
O 200º Hospital Estação foi construído e depois transformado no Hospital da Aeronáutica
O Ibura Field recebeu vários bombardeios B-52, B-29 e outras aeronaves de passagem para a Europa e a Itália, suas pistas ocupavam uma área maior do que atualmente ocupa o Aeroporto Internacional dos Guararapes, uma dessas pistas é atualmente a Rua Barão de Souza Leão, uma das principais vias de acesso entre Boa Viagem e o atual aeroporto.
Oficial americano junto a um Catalina
O estilo de vida americano foi se enraizando na vida do povo do Recife, que passou a adotar o “OK” e a usar camisetas de manga curta no lugar dos ternos que eram tão tradicionais até os anos 30.
Troféu de guerra.
Observando tudo isso, o que mais impressiona é que apesar das evidências o povo de Pernambuco sabe muito pouco sobre esse choque de cultura causado por uma guerra que, aparentemente, parecia tão distante, e que proporcionou um intercâmbio que deixou marcas visíveis até hoje.
A missa do vaqueiro, realizada no município de Serrita, a 536 km do Recife, surgiu em 1971 como uma homenagem ao vaqueiro Raimundo Jacó, sendo considerada atualmente uma das maiores e mais importantes festas do sertão nordestino.
Esse evento atrai anualmente cerca de 50 mil visitantes e é promovido pela Fundação João Câncio, em parceria com a Prefeitura Municipal de Serrita e a Associação de Vaqueiros de Pega de Boi na Caatinga do Alto Sertão de Pernambuco (Apega).
Vamos conhecer um pouco de sua história.
A Morte de Raimundo Jacó
Em 1954 Serrita, no Sertão do Araripe, próximo a cidade de Salgueiro, era bem maior em termos de área territorial e possuía uma população estimada em quase 23.000 habitantes. Mas em um Nordeste ainda prioritariamente agrário, na sede municipal daqueles tempos habitavam pouco menos de 700 pessoas[1].
Em meio à caatinga fechada daquela região, à vegetação cortante e espinhenta que caracteriza este ecossistema, o vaqueiro encourado Raimundo Jacó se destacava na sua lide.
Conhecido pela sua dedicação ao trabalho era muito estimado pela população local. Ficou afamado pela coragem ao capturar, ou “pegar”, o boi no meio do mato. Ele também era conhecido por saber no meio da caatinga fechada, onde descansava e bebia cada um dos animais que ele tomava conta.
De tão destemido, o vaqueiro tinha o apelido de “Raimundo Doido”. Era casado com Odília de Jesus e tinha como filhos Francisca e Vicente. Em Rancharia, atualmente distrito do município de Granito, era admirado pelo seu aboio afinado, daqueles vibrantes, cantado “com o dedo no ouvido”[2].
Sobre o vaqueiro Raimundo Jacó, os irmãos cantadores Pedro e João Bandeira de Caldas assim cantaram a sua fama;
Raimundo Jacó trabalhava como vaqueiro para o fazendeiro José de Sá Barreto, conhecido como Seu “São” e Dona Tereza Teles, a Dona “Tetê”. Consta que ele cuidava do gado do patrão e José Miguel Lopes, seu colega de profissão, era o responsável pelo plantel da patroa.
No dia 8 de julho de 1954, ano seco, os dois vaqueiros saíram pelo sertão em busca de uma rês arisca que havia fugido e era famosa pelas suas astúcias.
Mas no fim do dia apenas Miguel retornou a sede da fazenda.
Contou que não havia encontrado Raimundo Jacó e logo a notícia se espalhou. Em pouco tempo várias pessoas rasgavam a caatinga na busca pelo afamado vaqueiro.
Dois dias após seu desaparecimento, o cadáver de Jacó foi encontrado junto a um pé de imbaúba, em um lugar conhecido como sítio Lajes. A pouca distância do corpo estava amarrado o garrote fugitivo, o seu cavalo e, guardando o cadáver dos urubus, estava o seu fiel cachorro.
No crânio do vaqueiro havia duas marcas de ferimentos e não muito distante do seu corpo, uma pedra com sangue. Todo o cenário apontava para um possível assassinato[4].
Consta que Raimundo Jacó foi sepultado no local onde fora morto. Afirma-se que o seu fiel cachorro acompanhou todo o enterro e que depois ficou no local, até morrer de sede e de fome, guardando o túmulo do seu amo.
O Nascimento de Um Mito
Logo, para a opinião pública e para a justiça local, Miguel Lopes surgiu como o mais provável suspeito da morte de Raimundo Jacó. Afirmavam que Miguel invejava o colega de profissão por suas habilidades como vaqueiro e que entre ambos havia uma rixa muito forte.
Para muitos o assassinato teria acontecido quando Miguel chegou às margens do açude do sítio Lajes e se deparou com Raimundo Jacó fumando tranquilamente um cigarrinho. Junto estava o seu cavalo, seu cachorro e a rês fugitiva, já devidamente amarrada. A cena deixou Miguel bastante alterado. Logo, motivado pela inveja, o ódio aflorou e de posse de uma pedra ele bateu fortemente na cabeça de Jacó.
Foi aberto um processo crime contra Miguel Lopes, que afirmava ser inocente e houve controvérsias e discussões em relação à morte de Jacó.
Clarisbalte Figueiredo Sampaio, o Promotor Público da cidade, desistiu do processo contra Miguel Lopes. No calhamaço de papeis que compunha a peça processual havia declarações de cinco testemunhas, que nem mesmo assistiram o episódio da morte do vaqueiro.
Logo o processo foi arquivado por falta de provas e a morte de Raimundo Jacó até hoje não foi esclarecida.
Ocorre que desde 1949 os Alencar e os Sampaios, as duas mais poderosas famílias da cidade de Exu, mantinham uma luta ferrenha entre seus membros. Estas famílias, como se diz na região oeste do Rio Grande do Norte, “se acabavam na bala”. Miguel era então ligado a um dos clãs e, para muitos na região, foi através desta ligação que ele não foi preso[5].
Vinte e dois anos depois da morte do vaqueiro, encontramos em um jornal pernambucano uma interessante e controversa declaração de Geraldo Teles, filho de Tereza Teles, a Dona “Tetê”, patroa de Raimundo Jacó e Miguel Lopes.
Ele afirmou que a morte de Jacó poderia ter sido acidental, pois este “sofria do coração e bebia muito” e afirmava que Miguel, que ainda estava vivo na época da reportagem, seria “incapaz de fazer mal a alguém”. Geraldo Teles levantou a hipótese que Jacó poderia ter tido um colapso. Após o ataque, consequentemente o vaqueiro teria caído do cavalo, batido a cabeça na pedra e falecido sem assistência médica[6].
Mas se da justiça não teve castigo, de uma parte da população da região o acusado da morte de Jacó só recebeu ódio e desprezo[7].
Como ocorre em muitos locais do Nordeste onde pessoas assassinadas em mortes trágicas eram enterradas, logo a cruz que marcava o túmulo de Raimundo Jacó passou a receber várias pessoas, principalmente vaqueiros. Estes, além de deixarem fitas e velas, rezavam e pediam ao falecido que intercedesse por alguma causa.
Mas foi um primo legítimo do falecido, que empunhava uma sanfona e fazia sucesso no Rio de Janeiro, que imortalizaria para sempre a figura de Raimundo Jacó em uma inesquecível canção.
A Morte do Vaqueiro na Voz de Luiz Gonzaga
Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu na fazenda Caiçara, em Exu, no dia 13 de dezembro de 1912, dia consagrado no catolicismo a Santa Luzia. Era filho de Januário José dos Santos e de Ana Batista de Jesus, mais conhecida como Santana. Além de agricultor seu pai era um afamado tocador de acordeon e igualmente conhecido por concertar este tipo de instrumento musical.
Foi com Januário que Luiz Gonzaga aprendeu a tocar ainda criança e passou a se apresentar acompanhando seu pai.
Em meio a muito talento, grande capacidade musical, inúmeras peripécias, aventuras e sorte, em 1963 vamos encontrar Luiz Gonzaga como um consagrado músico e cantor, com seu sucesso alcançando todo o Brasil e tendo se tornado um verdadeiro ícone da música nordestina.
Apesar de 1963 não ser um dos períodos mais felizes na carreira de Luiz Gonzaga, devido à concorrência com as músicas modernas e os rock vindos do exterior, naquele ano o músico pernambucano lançou pela empresa fonográfica RCA, o Long Play, ou “LP”, intitulado “Pisa no Pilão – Festa do Milho”.
Este disco de vinil tinha um acervo musical mais apropriada para ser tocado em festas juninas, pois possuía músicas intituladas “Festa do Milho”, “Festa de São João” e “Pisa no Pilão”.
Mas a quarta faixa do lado “A” do LP trazia uma toada diferente. Nomeada “A Morte do Vaqueiro”, é uma música marcante e de longe a mais importante deste disco de Luiz Gonzaga.
Capa do LP onde foi primeiramente divulgado a música “A morte do vaqueiro” – Fonte – discotecapublica.blogspot.com.br
Nas páginas 229 e 230 do livro “A vida do viajante: A saga de Luiz Gonzaga”, da francesa Dominique Dreyfrus, a música foi composta em uma única tarde na casa de Nelson Barbalho, amigo de Gonzaga[8].
O famoso cantador do Sertão do Araripe queria homenagear seu primo, o vaqueiro Raimundo Jacó. Ele narrou a Nelson como foi o episódio da morte do parente e em pouco tempo a “A Morte do Vaqueiro” ficou pronta.
A música se tornou um marcante sucesso da carreira de Luiz Gonzaga, imortalizando a morte de Jacó e se tornando um dos motores que impulsionaria um dos mais importantes eventos do sertão nordestino – A Missa do Vaqueiro de Serrita.
Mas toda missa precisa de um padre!
Um Padre Antes de Tudo Autêntico
Mesmo hoje em dia, em meio a toda uma plêiade de padres cantores, que estão sempre na televisão e surgem na velocidade da internet, certamente chamaria a atenção de todos se fosse divulgado que um sacerdote nascido no sertão de Pernambuco valorizava tanto as tradições de sua terra ao ponto de utilizasse normalmente o gibão de couro, participasse de constantes vaquejadas e fosse conhecido como “Padre Vaqueiro”.
Padre João Câncio
Imagine isso então no final da década de 1960?
João Câncio dos Santos nasceu em Petrolina, Pernambuco, em 21 de outubro de 1936, era filho de Francisco Avelino dos Santos e de Laudemira Carvalho Sales e seguiu sua vocação sacerdotal logo cedo. Estudou no seminário do Crato, depois foi para Salvador e João Pessoa, onde se formou padre em 1965.
Sua primeira paróquia foi em Serrita, onde iniciava seu trabalho pastoral com a consciência de que a religião e a fé estão presentes em todas as pessoas. Segundo material produzido pela Fundação Padre João Câncio, o pároco não impôs a comunidade a sua oratória de seminário, mas buscou aproximar-se da comunidade, vivenciando e praticando seus hábitos, com o propósito de entendê-los melhor[9].
No livro “A vida do viajante: A saga de Luiz Gonzaga”, nas páginas 246 e 247, Dominique Dreyfrus informa que em uma vaquejada realizada em Exu, no verão de 1970, ano de forte seca, o padre conheceu Luiz Gonzaga e daí nasceu uma grande amizade.
O padre Câncio adorava a música “A Morte do Vaqueiro”, que escutava no toca fitas de sua Ford Rural, enquanto seguia para alguma obrigação sacerdotal no meio do sertão.
A autora francesa informou que em meio à seca de 1970, durante as celebrações que ocorriam nas frentes de emergência, que proporcionava aos trabalhadores rurais alguma renda (mínima) em meio à calamidade climática, alguém comentou que “existia missa para todo tipo de gente, mas não havia para vaqueiros”. Logo foi sugerido que uma missa dessas poderia ocorrer no local onde Raimundo Jacó foi assassinado.
1971-Primeiro ano da Missa do Vaqueiro de Serrita, Pernambuco
Como o padre Câncio era um vaqueiro, gostava da música e conhecia Luiz Gonzaga, estava pavimentado o caminho para a Missa do Vaqueiro de Serrita.
Entretanto, ao lermos o trabalho intitulado “Padres do interior II – Os padres da Paroquia de Nossa Senhora do Bom Concelho de Granito”, produzido pelo padre Francisco José P. Cavalcante e publicado na internet em 2010, afirma que a ideia da famosa Missa do Vaqueiro de Serrita tem relação direta com uma celebração pela vida do vaqueiro e havia sido criada primeiramente na Diocese de Petrolina, no ano de 1941.
Segundo o padre Cavalcante foi no dia 2 de agosto de 1941, com uma concentração na fazenda Lagoa Seca, que se realizou pela primeira vez o “Dia do Vaqueiro”, evento idealizado pelo padre Américo Soares.
Registros informam que os vaqueiros estavam neste evento com a indumentária de couro apropriada e entraram nesta cidade do interior de Pernambuco dispostos em filas de quatro em quatro. Depois se dirigiram para a igreja matriz de Nossa Senhora Rainha dos Anjos, onde houve palestra preparando os vaqueiros para o sacramento da penitência. No dia seguinte, pela manhã, os vaqueiros participaram de uma missa na Matriz, presidida por Dom Idílio José Soares. Após duas missas realizadas no mesmo dia, os vaqueiros se concentraram diante do Palácio Diocesano e em seguida partiram em passeata pela cidade.
No ano seguinte a festa se repetiu com cerca de 150 vaqueiros. A programação foi semelhante à apresentada acima, mas com a diferença que o pregador foi famoso e carismático frei Damião de Bozzano.
Celebrações de vaqueiros pelo interior do Nordeste não eram incomuns nas décadas de 1940 e 1950. Aqui vemos um encontro de vaqueiros nas ruas de Icó, Ceará – Fonte –http://www.icoenoticia.com
No livro de tombo da Paróquia de Nossa Senhora Rainha dos Anjos, de Petrolina, há uma anotação informando que em 1946 continuava a ser celebrada a Festa do Vaqueiro. Em 21 de julho de 1951 o evento passou a ser presidido pelo padre José de Castro, vigário cooperador de Petrolina. Apesar das dificuldades o padre José conseguiu reunir uns 200 vaqueiros naquele ano.
A ideia de celebrar a vida do Vaqueiro foi seguida em outras paróquias da Diocese, como foi o caso na cidade de Araripina, Pernambuco, onde os vaqueiros entravam na cidade tocando os seus búzios nos eventos celebrados pelo padre Gonçalo Pereira Lima[10].
1971 – A Primeira Missa
Os jornais pesquisados na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco não são muito pródigos em relatos sobre a primeira Missa do Vaqueiro realizada em Serrita.
1971 – Luiz Gonzaga na primeira celebração
Ao folhear as velhas páginas, posso entender que o evento estava restrito a ser uma comemoração religiosa que ocorria em uma pequena cidade sertaneja, localizada a mais de 550 quilômetros da capital pernambucana.
Segundo o padre Câncio a primeira missa contou com o apoio decisivo de Luiz Gonzaga, que patrocinou grande parte do evento. Vários vaqueiros (o número não é especificado) e cerca de “50 outras pessoas” atenderam ao chamamento do padre e do cantador e se fizeram presentes no sítio Lajes.
Os cavaleiros vieram a celebração montados em seus alazões, trajados a caráter e assistiram a missa montados. A comunhão foi celebrada não com hóstias tradicionais, mas com queijo de coalho e rapadura. A missa foi celebrada sobre um tablado de madeira e junto ao padre estavam os familiares de Raimundo Jacó.
Os poucos relatos que me forneceram sobre este primeiro evento mostram uma foto com o consagrado Luiz Gonzaga, de sanfona em punho, cantando o sermão da missa. A pesquisadora francesa Dominique Dreyfus informa em seu livro, página 248, que Gonzaga participou ativamente dos primeiros anos da Missa do vaqueiro de Serrita e apoiou financeiramente o evento até 1974.[11]
Os primeiros eventos foram caracterizados pela simplicidade
Não foi possível precisar a data, mas acredito ter sido no terceiro domingo de julho de 1971, 18 de julho, pois nos anos seguintes seria nesta data que normalmente o evento passaria a ocorrer.[12]
Mas percebemos através dos antigos periódicos que foi tudo muito simples, sem sofisticação, sem recursos eletrônicos, mas com muita fé e um positivo sentimento participativo de todos que ali estavam.[13]
Mas algo aconteceu!
A simplicidade do altar nos primeiros eventos
Não sabemos como se processou, mas em meio à missa simples e tradicional de 1971, com todos os vaqueiros encourados presentes, foram realizadas as tomadas cinematográficas para um documentário.
Intitulado “A Missa do Vaqueiro”, era um curta-metragem rodado em 16 m.m., colorido, com 25 minutos de duração e tinha a direção do baiano José Carlos Capinam e do carioca José Carlos Avellar.[14]
Repercussão no Sul do País
Em janeiro de 1972 vamos encontrar o padre João Câncio e os poetas e cantadores Pedro e João Bandeira reunidos na casa de Luiz Gonzaga, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Estavam na Cidade Maravilhosa para assistir a uma exibição do trabalho de Capinam e Avellar, mas concederam entrevistas para os periódicos locais O Jornal e Jornal do Brasil, onde o padre Câncio conseguiu chamar a atenção dos jornalistas cariocas tanto para o seu trabalho sacerdotal, como para a incipiente e diferenciada celebração religiosa na zona rural de Serrita[15].
Os jornalistas se impressionaram com a simplicidade e a inteligência do padre Câncio. Afirmaram que ele poderia tanto comentar sobre problemas do sertão, como sobre a “Crise de Bagladesh”[16].
Nos anos posteriores a Missa do Vaqueiro de Serrita se consolidou e foi notícia em inúmeros jornais do sul do país. Com a divulgação na mídia o evento cresceu em movimento e fluxo de pessoas, tornando-se uma dos mais importantes eventos do calendário turístico de Pernambuco.
Ao violão o poeta Bandeira, tendo ao seu lado o padre Câncio com seu chapéu de couro. Foto da edição de 12 de janeiro de 1972, do periódico carioca “O Jornal”
Se nos anos seguintes a celebração só cresceu, igualmente ocorreram criticas relativas a descaracterização da pequena e simples festa, da participação negativa das forças políticas regionais no evento.
Anos depois o padre Câncio decidiu deixar a batina, casou com Helena Câncio e veio a falecer no dia 10 de fevereiro de 1989. Não sei até quando o grande Luiz Gonzaga continuou a frequentar o evento. Mas indubitavelmente a Missa do Vaqueiro, mantendo ou não suas características iniciais, deve a estes dois homens, que tanto amavam o sertão, o seu sucesso.
NOTAS
[1] Sobre dados estatísticos de Serrita na década de 1950, ver “Enciclopédia dos Municípios Brasileiros”, 18º Volume, IBGE, 1958, págs. 279 a 281.
[2] Este costume de muitos vaqueiros aboiadores colocarem o dedo no ouvido ao começar a cantar provem da necessidade da transformação da voz do rapsodo, de “voz do peito” em “voz da cabeça”, e à necessidade de manter o equilíbrio em face da vertigem que a cantiga provoca. Ver http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=892
[3] Ver “O Jornal”, Rio de Janeiro, edição de quarta feira, 19 de janeiro de 1972, págs. 4 e 5. Pedro e João Bandeira de Caldas, salvo engano, são netos do afamado violeiro Manuel Galdino Bandeira e são naturais do Sítio Riacho da Bela Vista, município de São José de Piranhas, sertão da Paraíba. Mas a vida artística destes respeitados violeiros se desenvolveu na cidade do Crato, Ceará.
[4] Ver o “Diário de Pernambuco”, edição de domingo, 20 de julho de 1975, págs. 12 e 13 e a edição de terça feira, 27 de agosto de 1996, págs. 10 e 11, existentes na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. O “Jornal do Commércio”, de Recife, na sua edição de quarta feira, 16 de julho de 1976, pág. 10, aponta que o corpo de Jacó foi encontrado um dia após o seu assassinato.
[5] A cidade de Exu se encontra a cerca de 70 quilômetros de Serrita. O conflito entre as famílias Alencar e Sampaio marcou profundamente a região do Sertão do Araripe, principalmente na década de 1970. Esta briga entre famílias tradicionais só acabou quando o próprio Governo Federal chegou a intervir na cidade, em parceria com outras instituições de Pernambuco, inclusive a igreja católica.
[6] “Diário de Pernambuco”, edição de terça feira, 20 de julho de 1976, página 9. Ver a reportagem sobre a Missa do Vaqueiro.
[7] Na edição de domingo, 27 de agosto de 1996, do “Diário de Pernambuco”, de Recife, trás a informação que José Miguel Lopes, ainda vivo a época da reportagem, jamais participou da celebração famosa, vivendo praticamente recluso no distrito de Rancharia.
[8] Segundo site http://www.onordeste.com, Nelson Barbalho nasceu no dia 2 de junho de 1918, na cidade de Caruaru, Pernambuco. Não chegou a concluir o curso secundário no Colégio Americano Batista do Recife, regressando à terra natal para trabalhar. Aposentou-se como fiscal do IAPAS, função que lhe permitiu conhecer quase todas as cidades do interior pernambucano, recolhendo, assim, farto material para seus livros. Jornalista, historiador, pesquisador, lexicógrafo, compositor musical (parceiro em diversas músicas com Luís Gonzaga – o Rei do Baião), Nelson Barbalho sempre foi um escritor, autor de quase uma centena de livros, entre os quais destacamos “Cronologia Pernambucana” (com vinte volumes publicados dos quase cinquenta que compõem a obra), perto de vinte livros sobre Caruaru (“Meu povinho de Caruaru”, “Major Sinval”, “Caruaru do meu tempo”, etc.) e outros trabalhos folclóricos como “Dicionário da Cachaça”, “Dicionário do Açúcar”, sem contar vários ensaios publicados em jornais e revistas especializadas, na qualidade de estudioso da história e costumes do povo do Nordeste. Faleceu na cidade do Recife, no dia 22 de outubro de 1993.
[10] Certas espécies de búzios marinhos possuem a capacidade de produzir sons fortes, que serviam para comunicação a distância e foram utilizados para esta prática em várias partes do mundo, por vários povos, através dos séculos. No sertão nordestino, de largas paragens, a utilização de búzios era uma forma de comunicação prática entre vaqueiros que tangiam gado no meio da caatinga. Vem daí o termo “buzar”, para tocar o instrumento.
[11] A foto comentada está na edição do periódico carioca “O Jornal”, de quarta feira, 19 de janeiro de 1972.
[12] Ver as páginas do periódico carioca “Jornal do Brasil”, edição de quinta feira, 1 de agosto de 1974, em reportagem realizada pela jornalista Leticia Lins, que seguiu para Serrita para realizar a cobertura da missa que acontecia pela terceira vez, onde temos informes do primeiro evento. Ainda sobre a primeira missa, ver o “Jornal do Commércio”, de Recife, edição de terça feira , 18 de julho de 1978.
[13] Em entrevista concedida pelo padre João Câncio e Luiz Gonzaga, ao periódico carioca “O Jornal”, de 19 de janeiro de 1972, afirma que a missa teve a participação de “cinco mil vaqueiros”, número que considero exagerado.
[14] No site http://cinemateca.gov.br temos detalhes deste documentário, mas com o título “A Morte do Vaqueiro”. José Carlos Capinam é poeta e compositor. Natural de Esplanada, Bahia, é considerado um dos grandes letristas de sua geração. Poeta desde a adolescência mudou-se para Salvador aos 19 anos, onde iniciou o curso de direito, na Universidade Federal da Bahia, onde conheceu os estudantes Gilberto Gil e Caetano Veloso, respectivamente dos cursos de Administração e Filosofia. Capinam participou ativamente do movimento Tropicalista no fim da década de 1960. Uma de suas músicas mais famosas é uma homenagem ao guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara e intitulada “Soy loco por ti, América”, com parceria de Gilberto Gil. Também é compositor da música “Papel Marche”, junto com João Bosco, Em 2000 compôs a ópera Rei Brasil 500 Anos, ao lado de Fernando Cerqueira e Paulo Dourado, uma crítica as comemorações dos 500 anos de Descobrimento do Brasil. Além de letrista, poeta e escritor, Capinam é publicitário, jornalista e médico! Ver http://www.salvadorcomh.com.br. Já o carioca José Carlos Avellar é Jornalista de formação, trabalhou por mais de vinte anos como crítico de cinema do Jornal do Brasil. Atualmente é integrante do conselho editorial da revista Cinemais e da publicação virtual “El ojo que piensa”, da Universidade de Guadalajara (México). É consultor dos festivais internacionais de cinema de Berlim (desde 1980), de San Sebastián (desde 1993) e de Montreal (desde 1995). Desde 2006 é também curador (com Sérgio Sanz) do Festival de Gramado e já publicou vários livros de ensaios sobre cinema. Ver http://bancocultural.com.br/cinema/?p=71.
[15] Descobri que o documentário “Missa do Vaqueiro” foi premiado na Jornada Nordestina de Curta-metragem, sendo exibido no MAM – Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, no início de outubro de 1973. Ver o “Diário de Notícias”, Rio de Janeiro, edição de domingo, pág. 16, 30 de setembro de 1973.
[16] Bangladesh, antigo Paquistão Oriental, é um país asiático, superpopuloso, que fica entre a Índia e o Golfo de Bengala. Independente do Paquistão em 1971, enfrentou uma sangrenta guerra pela sua liberdade que durou nove meses, encerranda no dia 16 de dezembro de 1971. Bangladesh contou com o apoio da Índia, que se envolveu no conflito contra o Paquistão. Este conflito, devido ao alto número de mortos civis, as terríveis imagens de pessoas famintas em meio aos combates, chamou a atenção dos países ocidentais.
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No último dia 16 de junho de 2012, um sábado, no Tropical Eco Resort, em São José de Mipibu ocorreu o lançamento do nosso mais novo livro.
Nosso novo trabalho.
Intitulado “Fernando Leitão de Moraes – Da Serra dos Canaviais à Cidade do Sol” foi um trabalho biográfico que buscou registrar a trajetória de um pernambucano nascido na região da Zona da Mata Norte, que escolheu Natal para viver e aqui criou raízes.
Trabalho simples, mas feito com esmero e dedicação, fruto do reconhecimento do meu trabalho anterior sobre o criador do Grupo Santa Clara/Três Corações, esta nova atividade nós levou a conhecer a região da cidade pernambucana de Macaparana, um belo e pouco conhecido local.
Estive na região em cinco ocasiões, sempre sendo muito bem acolhido, realizando os levantamentos necessários para a realização do nosso trabalho.
O convite para o lançamento do livro no éltimo dia 16 de junho de 2012
Por estar em um local onde existem elevações com mais de 800 metros de altitude, decidi criar o termo “Serra dos Canaviais”, fato desconhecido das maravilhosas pessoas desta região.
No artigo a seguir, uma adaptação do terceiro capítulo do nosso novo livro, trago um relato dos contatos ocorridos entre o famoso cangaceiro Antônio Silvino e antepassados do nosso biografado na região de Macaparana.
A ideia de se inserir os acontecimentos relativos a Antônio Silvino neste trabalho se deveu as lembranças da infância de Fernando Leitão de Moraes,
A passagem do bando deste famoso cangaceiro pela região da antiga Macapá, onde ocorreram combates que marcaram a memória local. Quem contava essas histórias ao nosso biografado era seu pai, Durval, sempre na casa do Sítio Gitó, no alto da Serra do Pirauá, acompanhado da plateia formada pelos filhos, parentes e moradores.
Aqui nosso biografado junto a sua irmã Creusa de Moraes Cavalcanti e sua sobrinha Creusa Olívia, defronte a casa centenária de seu avô, João Leitão de Melo, no Sítio Esquecido, atualmente na área rural da cidade pernambucana de São Vicente Ferrer. Tenho uma enorme gratidão a Dona Creusa e a sua filha pelo apoio nesta pesquisa. Foto – Rostand Medeiros
Foi realmente uma experiência interessante, que culminou com a festa de lançamento, de caráter privado e distribuição do livro dirigida aos cerca de 350, convidados que estiveram presentes na comemoração do 80º aniversário de Fernando Leitão de Moraes.
Neste trabalho biográfico contei com o total apoio de seus familiares, principalmente seus filhos Fernando Junior, Hermano da Costa Moraes e Fabiano Moraes, a quem agradeci diretamente na dedicatória de “Fernando Leitão de Moraes – Da Serra dos Canaviais à Cidade do Sol”.
A PRESENÇA DO CANGACEIRO ANTÔNIO SILVINO NA REGIÃO DE MACAPARANA
Antônio Silvino nasceu em no dia 2 de novembro de 1875, na Fazenda Colônia, zona rural de Afogados da Ingazeira, Pernambuco. A principal causa da sua entrada no cangaço, em 1896, foi a intenção de vingar a morte de seu pai. Lutou ao lado de seu tio, Silvino Aires de Alencar, e depois assumiu a chefia do grupo quando Aires foi morto, em 1900, em um combate na Paraíba, contra o tenente Luís Mansidão.
Antônio Silvino
Antônio Silvino foi o mais famoso cangaceiro do Nordeste brasileiro antes de Lampião. Foi rotulado de “Rifle de Ouro”, “Rei do Cangaço” e, durante 16 anos, ficou conhecido como “Governador do Sertão”.
As ocorrências envolvendo esse famoso cangaceiro, parentes e amigos da família do nosso biografado se deram entre os anos de 1904 e 1908, quando o bandoleiro e seus homens rondaram a região em vários momentos, atravessando impunemente a fronteira entre a Paraíba e Pernambuco.
Em 1904, a pequena Macapá continuava na sua missão de apoiar os que por ali passavam com destino a São Vicente e Timbaúba, em Pernambuco, ou a Umbuzeiro, já na Paraíba.
Visão atual da cidade de Macaparana, Pernambuco, antiga Macapá. Foto – Rostand Medeiros
No lugar, prosperava o comerciante Manoel Francisco de Paula, conhecido como Manoel Belo, dono de um sortido armazém, daqueles que vendiam de tudo um pouco, que ficava ao lado da igreja. Era tido como um homem rico e também acumulava a função de delegado.
No dia 22 de outubro de 1904, segundo o jornal recifense “A Provincia”, edição de quinta-feira, 27 de outubro de 1904, p. 1-2, por volta das sete horas da noite um grupo de dez homens fardados chegou a Macapá supostamente conduzindo um preso. Mas o soldado de plantão reconheceu que o detido era o famigerado cangaceiro “Cocada”, parceiro de Antônio Silvino, e foi feito refém naquele momento, sendo obrigado a levar o bando à casa do subdelegado da povoação.
Diante da autoridade, Silvino, que usava uniforme com divisas de Sargento, informou que o seu negócio naquele lugar era com o comerciante Manoel Belo.
Foi, então, conduzido à residência do dono do armazém, onde fez inúmeras ameaças. Os cangaceiros levaram dinheiro, peças de tecidos, rifles e outros produtos. Segundo o jornal, foi o soldado refém quem conseguiu convencer Antônio Silvino a não levar Manoel Belo em troca de seis contos de réis.
Antiga casa de Manoel Belo, em Macaparana – Foto Rostand Medeiros
Após essa primeira abordagem, o bando ainda atacou outras casas comerciais. Levou, inclusive, todo o dinheiro do posto de arrecadação fiscal que ali existia, deixando o povoado às onze horas da noite, depois de quatro horas de terror.
Ainda de acordo com o periódico, depois de saírem da cidade, os cangaceiros se dirigiram ao Engenho Macapá; às cinco horas da manhã, seguiram para o Engenho Bonito, de João do Rego Cavalcanti, e depois para o Engenho Santa Tereza, de Francisco Prefeito de Albuquerque Maranhão, quando tomaram a direção de Bom Jardim. O jornal não informa se eles atacaram esses locais nem fornece maiores detalhes sobre o percurso.
A primeira página da edição de “A Provincia” de terça-feira, 1 de novembro de 1904, traz uma extensa reportagem sobre o ataque do bando de Antônio Silvino a Macapá, fazendo sérias acusações a proprietários rurais da região de fornecerem apoio ao cangaço[1].
Outro caso envolvendo Antônio Silvino não está ligado diretamente a Macapá, mas a um parente de Fernando Moraes, o fazendeiro e comerciante Joaquim Tavares Vieira de Melo.
Ele era conhecido na família Leitão como “Quincas Tavares” ou “Tio Quinca”, a quem a mãe do nosso biografado, Izabel de Andrade Melo, muitas vezes mandou Fernando Moraes e seus irmãos pedirem a bênção. Fernando lembra-se dele como sendo um homem alto e forte.
Joaquim casou em 25 de novembro de 1886 com Leonor Ferreira Gomes de Andrade. Era tido como um homem de grande poder aquisitivo e possuía uma imponente casa numa localidade conhecida como Poço Comprido, onde exercia liderança política.
Ao lado do casarão ficava seu armazém, com farto sortimento de Mercadorias[2].
Quincas Tavares tinha, em casa, um verdadeiro arsenal de rifles e farta munição. Um dia, estava limpando sua coleção, quando uma pessoa passou e lhe indagou qual era o motivo de possuir tantas armas. Certamente confiando no potencial bélico do qual dispunha, proclamou, aos quatro cantos, que “ali Antônio Silvino não teria vez”.
Sem nenhum aviso, Silvino chegou a Poço Comprido para tomar satisfações com Joaquim.
Visão atual do Distrito de Pirauá – Foto – Rostand Medeiros
Surpreendido, o comerciante clamou pela vida. O chefe cangaceiro declarou que Joaquim estava preso e que sua liberdade custaria muito caro. Foi quando o detido se lembrou do comerciante e amigo Gonçalo José de Medeiros, que morava no povoado de Pirauá, já na fronteira com a Paraíba, argumentando com Antônio Silvino que certamente seu camarada teria condições de pagar pelo resgate.
Antes de seguir para Pirauá, o armazém de Quincas Tavares foi saqueado, suas armas e munições foram tomadas e muitos mantimentos foram espalhados na principal rua do lugarejo para que fossem recolhidos pelos mais pobres.
Casa do major Gonçalo José de Medeiros, em Pirauá, na fronteira entre Pernambuco e Paraíba, para onde Antônio Silvino e seu bando levaram Joaquim Tavares Vieira de Melo como refém. Foto – Rostand Medeiros
Em Pirauá, Major Gonçalo, como era conhecido o mais importante comerciante local, disse a Silvino que possuía apenas duzentos mil réis e que daria todo aquele dinheiro para que seu amigo fosse solto pelo bando. Antônio Silvino, irritado com o baixo valor oferecido pelo prisioneiro, respondeu que a liberdade de Joaquim valia dois contos de réis.
Diante do impasse, o chefe cangaceiro decidiu partir pela estrada que segue para a região do Sítio Gitó, já na Paraíba. Segundo uma das versões da história, Silvino iria levar seu prisioneiro para ser morto embaixo de uma frondosa cajazeira que ficava à beira da estrada.
Apesar das ameaças, o experiente cangaceiro percebeu que matar aquele homem não lhe traria nada de valor, além de problemas e perseguições. O melhor era receber os duzentos mil réis do
Major Gonçalo e evitar mais essa morte nas suas costas.
Ameaçou, então, um camponês que passava, exigindo que ele trouxesse o dinheiro que o comerciante de Pirauá havia oferecido em troca da vida de Joaquim.
Depois de receber e contar as notas, soltou seu prisioneiro.
Quase um ano depois do ataque a Macapá, Antônio Silvino e seu bando fariam um assalto a um engenho cujo proprietário era uma pessoa ligada a membros da família Moraes.
O fazendeiro Manoel Inácio de Andrade Lima. Fonte: Arquivo de José Inácio Moraes Andrade
Manoel Inácio de Andrade Lima era o senhor do Engenho Mirador, próximo à cidade de Bom Jardim, Pernambuco. Era uma terra poderosa, rica, com grandes áreas de plantações de cana-de-açúcar.
O motivo da visita do chefe cangaceiro seria uma vingança.
Em uma ocasião anterior, Silvino havia mandado um mensageiro pedir dinheiro ao dono do Engenho Mirador. Era uma das famosas solicitações de Antônio Silvino, que descaradamente alegava que não podia trabalhar por causa da perseguição do governo à sua pessoa. Então, argumentava que, como não queria roubar, apenas “pedia aos amigos”.
Manoel Inácio se recusou a atender não apenas a este, mas a vários outros pedidos feitos pelo cangaceiro. O problema era que o bandido não se esquecia dessas negativas e, quando tinha oportunidade, saía para cobrar o que havia pedido ou para gerar um prejuízo de grande porte.
Antônio Silvino, movido pela vingança, mandou seus cangaceiros abaterem a tiros de rifle todo o gado do Mirador e destruírem a casa-grande do engenho, principalmente seus móveis. Antes de deixar o local, gritou para os moradores: “Não é para aproveitar nem o couro dos bichos mortos!”.
O prejuízo – associado ao trauma do ataque dos cangaceiros – foi tão intenso que Manoel Inácio de Andrade Lima decidiu vender o Engenho Mirador e se mudar para uma propriedade próxima ao povoado de Poço Comprido. Começou a plantar outras culturas agrícolas, mas não prosperou. Então, vendeu a gleba e arrendou o Engenho Paquevira, nos arredores de Macapá, que pertencia à Senhora Maria Borba, mãe do futuro governador pernambucano Manuel Borba.
Xilogravura com a figura de Antônio Silvino
Somente dez anos depois do ataque de Antônio Silvino, o fazendeiro Manoel Inácio pôde se recuperar financeiramente. Ele comentava com seus descendentes que “valia mais a pena ser arrendatário plantando cana-de-açúcar do que ser proprietário de uma terra e plantar outras culturas”[3].
Existe, ainda, um último e importante caso envolvendo um membro da família Moraes e o cangaceiro Antônio Silvino: o do Bacharel Francisco Porfírio de Andrade Lima.
Sobre esse personagem, utilizamos o ótimo trabalho de pesquisa genealógica desenvolvido por José Ignácio de Andrade Lima. Segundo o estudioso, Porfírio nasceu em 1863 e se formou Bacharel em Direito pela tradicional Faculdade do Recife no ano de 1887.
O Bacharel Porfírio foi casado com Cândida Rosa Albuquerque de Morais, que faleceu em 4 de agosto de 1920, quando Porfírio era Juiz de Direito em Timbaúba. A união gerou quatorze filhos, entre eles, Ana de Moraes Andrade, de quem falaremos adiante.
Francisco Porfírio de Andrade Lima. Fonte: Acervo fotográfico da Fundação Joaquim Nabuco, Recife, Pernambuco
Ainda sobre Porfírio, sabemos que ele foi um dos fundadores da Loja Maçônica “Obreiros do Porvir”, da cidade de Nazaré, e que foi avô materno de Jarbas de Andrade Vasconcelos, ex-governador e atual senador pernambucano[4].
Em 1912, Francisco Porfírio era Chefe de Polícia em Pernambuco, cargo que pode ser comparado ao atual Secretário de Segurança do estado. Junto com o Bacharel Hercílio de Souza, então Secretário de Justiça, elaborou um plano que poderia ajudar a acabar com as ações do cangaceiro Antônio Silvino.
A ordem para esse projeto partiu do governador pernambucano na época, o General Emídio Dantas Barreto, que esteve à frente do Poder Executivo do estado entre 1911 e 1915[5].5
Capturar Antônio Silvino era uma das mais importantes demandas na área de Segurança Pública do governo pernambucano naqueles tempos.
Há anos o famoso chefe do cangaço dominava os sertões de Pernambuco, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Agindo com extrema mobilidade, Silvino não reconhecia a existência de fronteiras, mas as polícias estaduais – fracas, despreparadas e pouco numerosas – ainda tinham o agravante de não poderem cruzar os limites entre os estados.
Mensagem do governador pernambucano lida na Assembleia Legislativa do estado, em 1913, mencionando a reunião interestadual organizada por Porfírio. Fonte: Arquivo do autor
Percebendo que isoladamente as polícias não resolveriam a questão, Francisco Porfírio, mais conhecido na família Moraes como Dr. Chico Porfírio, concluiu, junto com Hercílio de Souza, que apenas a união de esforços dos governos estaduais e de seus aparatos de segurança pública poderia resolver o caso Antônio Silvino.
Foram enviadas mensagens para os governos dos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e do Ceará solicitando a presença de representantes em Recife para uma reunião que ocorreria no dia 25 de novembro de 1912.
O chamado foi respondido positivamente.
Da Paraíba, seguiu o administrador público e folclorista José Rodrigues de Carvalho. Do Rio Grande do Norte, veio o poeta, educador e escritor Henrique Castriciano de Souza e, do Ceará, seguiu para a importante reunião o escritor José Getúlio da Frota Pessoa[6].
Apesar da maioria dos respeitáveis representantes estaduais serem homens mais ligados à pena, utilizada para desenvolver poesias e textos literários, a reunião seguiu o caminho para o qual havia sido planejada. Os assuntos versados foram a criminalidade e a repressão ao banditismo, especialmente o caso Antônio Silvino.
Durante nossas pesquisas contamos com o apoio do pastor, pesquisador e professor Geraldo Batista (na cabeceira da mesa), que aqui está junto a Fernando Leitão de Moraes (a direita do Prof. Geraldo) e o autor deste trabalho (de camisa azul). Mestre Geraldo é uma grande figura humana, sempre disposto a ajudar, sendo imensamente devotado a Deus, a instrução e a história do seu lugar.
Ao final do encontro, foi realizado um festivo e concorrido almoço na conhecida “Pensão Landy”, à Rua Benfica, no centro da “Veneza brasileira”.
Henrique Castriciano de Souza retornou ao Rio Grande do Norte a bordo do paquete “Ceará”, da Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, em 3 de dezembro, sendo recebido no porto pelo governador Alberto Maranhão. No entanto, Castriciano não adiantou quase nada aos jornais da capital potiguar, visto que a reunião tinha “caráter reservado”.
Logo o periódico “A Republica” estampava um editorial no qual apontava que;
“Graças às medidas de vigilancia e perseguição postas em prática pelo Governo do Estado, agora mais efficazes com o acordo firmado em Pernambuco, os bandos de malfeitores acossados pelas polícias dos Estados compromettidos nessa obra saneadora dentro em breve terão desapparecido. Antonio Silvino, de todos os bandidos o mais sagaz, não escapará as deligencias inteligentemente combinadas, para extirpar do seio sertanejo, a sua mais profunda raiz do banditismo”.[7]
Cada estado participante do convênio idealizado por Porfírio deveria criar condições para ampliar o combate aos cangaceiros de Silvino. No caso do Rio Grande do Norte, o governador Alberto Maranhão atendeu ao que havia sido acordado e anunciou que ampliaria o efetivo do Batalhão de Segurança.[8]
Após a reunião dos governadores, a atuação de Antônio Silvino aparentemente se tornou extremante limitada, apesar de não haver indícios deste cangaceiro ter associado o enfraquecimento do seu poder à ação administrativa tocada pelo Dr. Chico Porfírio.
Sobre a captura de Antônio Silvino em 1914.
Ainda que o esforço de Porfírio tenha colhido bons resultados, ele não testemunharia, como Chefe de Polícia, a captura de Antônio Silvino, pois já havia deixado o cargo. Em seu lugar, assumiu o Bacharel Joaquim Maurício Wanderley.[10]10.
No dia 27 de novembro de 1914, dois anos depois da assinatura do convênio firmado entre os quatro estados nordestinos, o procurado chefe do cangaço foi capturado. Mas não por uma força conjunta interestadual, e sim por uma volante da polícia pernambucana comandada pelo militar Theophanes Ferraz Torres.[11]
O fato se deu em uma propriedade denominada Lagoa da Laje, na época pertencente territorialmente ao município pernambucano de Taquaritinga do Norte.
Notícia do jornal “Diário de Pernambuco”, informando a liberdade de Antônio Silvino.
Ferido, Antônio Silvino foi enviado a Recife. Depois, foi julgado e condenado a trinta e nove anos e quatro meses de reclusão em regime fechado. Ele só seria libertado em 13 de março de 1937, mediante um indulto assinado pelo então presidente Getúlio Vargas.
O temido cangaceiro permaneceu vinte e três anos, dois meses e dezoito dias na prisão. Faleceu em 28 de julho de 1944, em extrema pobreza, morando de favor na casa de uma prima na cidade de Campina Grande, Paraíba.
[1] As edições do jornal “A Provincia” aqui mencionadas se encontram na Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, na Rua do Imperador D. Pedro II, 371, Bairro de Santo Antônio, no Centro de Recife (PE).
[2]Poço Comprido, que tem mais de 120 anos, teve como um de seus fundadores justamente Joaquim Tavares. Quando era criança, ele tomava banho, junto com alguns amigos, em um poço construído na horizontal, uma espécie de canaleta para escoar a água, que ficou conhecido como Poço Comprido. O local ficava a cerca de três quilômetros da casa de seus pais, que residiam na Serra do Aburá. Quando casou, Joaquim construiu uma casa ao lado do poço e lá foi morar com sua esposa – daí surge o povoado. Informação gentilmente cedida por Creuza Olívia de Moraes Cavalcanti, de Macaparana, sobrinha De Fernando Leitão de Moraes.
[3] Manoel Inácio era o bisavô de José Inácio Moraes Andrade, sobrinho do nosso biografado, que ouviu a narrativa do caso contada pelo seu pai, José Inácio Filho.
[4] Em uma nota publicada no Jornal do Commercio (Recife, 17 jun. 2000), o ex-governador de Pernambuco e atual senador Jarbas Vasconcelos recordou que, pelo fato de seu avô ser Chefe de Polícia, a sua mãe, Dona Áurea de Andrade Vasconcelos, nasceu no mesmo prédio que abrigava, no ano de 2000, a Direto ria de Polícia Civil, na Rua da Aurora. Como os governadores pernambucanos residiam no primeiro andar do Palácio das Princesas, o avô do senador Jarbas morava no primeiro andar do prédio de sua repartição, mantendo no térreo o gabinete onde trabalhava.
[5] Emídio Dantas Barreto nasceu em Bom Conselho, Pernambuco, em 1850. Era militar, participando da Guerra de Canudos como Tenente-coronel; foi um dos primeiros a publicar registros sobre o acontecimento, narrando sua experiência no livro ”Última Expedição a Canudos”, lançado em 1898. Foi Ministro da Guerra no governo Hermes da Fonseca, depois governador e senador de Pernambuco. Além da carreira militar e política, Dantas Barreto redigiu obras científicas, estudos militares e romances históricos, deixando extensas informações sobre campanhas militares do seu período. Morreu no Rio de Janeiro, em 1931, aos 81 anos de idade.
[6] Segundo as amareladas páginas do jornal “A Republica”, que constam no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e no Arquivo Público do Rio Grande do Norte, em 1912, Henrique Castriciano de Souza respondia pelo cargo de Procurador Geral
do Estado.
[7] Em 1912, os termos “cangaço” e “cangaceiro” não eram muito utilizados pela imprensa nordestina. Eram mais comuns os vocábulos “banditismo”, “facinorosos” e “bandoleiros”. O texto é uma reprodução idêntica à redação da época.
[8] Esse aumento de efetivo foi publicado no jornal “A Republica”, em 18 de dezembro de 1912, através do Decreto Estadual nº 279. Interessante é notar a diferença de rendimento entre esses militares. Enquanto o capitão recebia 350$000 réis de gratificação mensal, aos soldados eram destinados apenas 5$000 réis. Para maiores detalhes, ver “A Republica”, edição de 22 de janeiro de 1912, p. 3.
[11] Ferraz Torres nasceu em 27 de dezembro de 1894, na cidade pernambucana de Floresta, e tinha o posto de Alferes em 1914. Ficou conhecido pelos combates, na década de 1920, contra Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
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