A cachaça é testemunha das transformações sociais e econômicas por que o Brasil passou
Ela praticamente nasceu junto com o Brasil e tornou-se a mais nacional das bebidas. Em cinco séculos de História, serviu como combustível para os bandeirantes suportarem as longas e insalubres viagens aos sertões, foi utilizada como moeda de troca de escravos na África, desencadeou revoltas contra a Coroa portuguesa e tornou-se símbolo de nacionalidade em momentos políticos e culturais importantes, como a Independência do país e a Semana de Arte Moderna de 1922. Sim, estamos falando da cachaça, que completa 500 anos este ano.
Os documentos são esparsos, mas, de acordo com os especialistas, os primeiros goles da branquinha foram dados a partir de 1516 em algum engenho construído na feitoria de Itamaracá, em Pernambuco. A cana-de-açúcar já tinha chegado ao país alguns anos antes, em 1504, pelo fidalgo português Fernando de Noronha, que recebeu a concessão da ilha, batizada posteriormente com o seu nome, para a exploração do pau-brasil.
“A cachaça foi uma das protagonistas da civilização do açúcar, que marcou um dos mais importantes períodos do desenvolvimento econômico do Brasil Colônia, principalmente no tempo das capitanias hereditárias. Pode-se dizer que, historicamente, a cachaça foi testemunha ocular das transformações econômicas vivenciadas pelo Brasil”, diz o engenheiro Jairo Martins Costa, especialista no assunto e autor do livro Cachaça – O Mais Brasileiro dos Prazeres. Segundo ele, a cultura do açúcar, e por consequência da cachaça, começou bem antes da expedição do colonizador Martim Afonso de Souza no litoral paulista, em 1532.
Além de pesquisas arqueológicas conduzidas por universidades na Bahia e Pernambuco em antigos engenhos de açúcar, um documento da alfândega de Lisboa aponta o pagamento de imposto sobre um carregamento de açúcar, vindo de Pernambuco, datado de 1526. “É a prova de que a produção começou muito antes de São Vicente.
Escravos moviam as moendas que produziam o caldo que, fermentado, gerava a cachaça, um dos principais produtos de exportação do Brasil colonial. – Fonte – www2.uol.com.br
O que aconteceu a partir de 1532 foi a forte expansão da civilização do açúcar”, diz Costa, lembrando uma frase do folclorista Câmara Cascudo no seu livro Prelúdio da Cachaça: “onde mói o engenho, destila o alambique”.
CACHAZA
Alguns mitos se esvaem ao estudar a história da branquinha. Um deles é que a bebida teria sido descoberta por acaso por escravos durante o processo de fermentação da canade-açúcar. A evaporação do caldo teria condensado ao bater no teto do engenho e daí teria nascido o nome “pinga”.
Segundo os estudiosos, não foi bem assim. As primeiras produções foram planejadas pelos colonizadores. Uma evidência é que o nome mais aceito para cachaça vem do espanhol “cachaza”, uma bagaceira de baixa qualidade produzida pelos ibéricos a partir das borras de uva. “Os europeus já dominavam as técnicas de destilação havia muito tempo, produzindo bebidas como a bagaceira. Como não tinham uvas aqui, improvisaram uma bebida com o resíduo da cana”, explica Silva.
A bagaceira, junto com o vinho português, foi um dos motivos para uma rebelião de produtores de cachaça ocorrida no Rio de Janeiro no século 17. Com a Popularização da bebida, em 1635 a Coroa baixou uma lei proibindo o comércio de aguardente, para não concorrer com a bagaceira e o vinho portugueses. A lei não pegou muito e a pinga continuou sendo produzida em larga escala, inclusive para o mercado externo. Em Angola, que também era uma colônia portuguesa, chegou a ser utilizada durante muito tempo como moeda de troca pelos traficantes de escravos.
Em 1647 foi criada a Companhia Geral de Comércio, uma empresa portuguesa que passou a ter o monopólio da venda de diversos produtos nas colônias, inclusive asbebidas alcoólicas. Por aqui, porém, a cachaça continuava fazendo enorme sucesso, mesmo sendo vendida clandestinamente. Os fazendeiros, longe de agir por debaixo dos panos, não escondiam sua atividade e eram, inclusive, respeitados na sociedade em quer viviam.
REVOLTA E PAZ
A relativa paz durou até 1659, quando o governo português fechou novamente o cerco, dessa vez com repressão e destruição de alambiques. No ano seguinte, vereadores do Rio de Janeiro propuseram liberar a bebida.
Diante da recusa, alambiqueiros lideraram uma rebelião – que ficaria conhecida como Revolta da Cachaça – e tomaram o poder da cidade durante cinco meses. A Coroa conseguiu acabar com a rebelião e retomar o poder no Rio de Janeiro, mas os revoltosos conseguiram uma importante vitória: em 1661, a rainha de Portugal, a regente Luísa de Gusmão, autorizou a produção e o comércio da aguardente no Brasil, mediante o pagamento de impostos. Nessa época, o açúcar brasileiro começava a sofrer forte concorrência com o produzido pelos holandeses nas Antilhas, de qualidade superior.
Além do açúcar, a cana levada pelos holandeses após sua expulsão do Brasil, em 1654, deu origem a uma bebida que é considerada “filha” da cachaça: o rum.
Depois da liberação pela rainha, surgiram várias regiões produtoras de aguardente, de norte a sul do Brasil. A cidade de Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro e um dos principais portos do Brasil Colônia, chegou a concentrar mais de cem alambiques a partir de 1700. Parte da produção seguia para Minas Gerais pela Estrada Real, durante o Ciclo do Ouro. Outra parte era escoada para o resto do Brasil e outros países da Europa e África.
“Se você falar da história de Paraty, vai ter de citar a cachaça. E se falar da história da cachaça, vai ter de citar Paraty”, diz Lúcio Gama Freire, 43 anos, presidente da Associação dos Produtores e Amigos da Cachaça de Paraty. A bebida da região era tão famosa que, durante muito tempo, era comum as pessoas pedirem uma “parati” quando queriam um simples copo de aguardente, tanto na Colônia como na Corte.
UFANISMO
“Com o aprimoramento da produção a partir do século 17, aumentou o número de consumidores, e a cachaça passou a ter importância econômica. O ápice do prestígio ocorreu no século 19, quando se transformou em símbolo de brasilidade”, diz o empresário Leandro Dias, CEO da Middas Cachaça, marca que atende o segmento de luxo.
“Deixar de bebê-la era considerado atitude antipatriótica, pois o Brasil vivia o período das lutas da Independência”, completa Leandro. Um brinde com a caninha passou a ser sinônimo de nacionalismo. Diz-se que dom Pedro I teria brindado a Independência do Brasil com um cálice de cachaça artesanal.
Um século depois, em 1922, jovens intelectuais repetiriam o gesto na Semana da Arte Moderna, em São Paulo. Os modernistas consideravam a bebida um símbolo líquido do país. O casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral gostava de divulgar a culinária brasileira e a cachaça em Paris. Levavam a bebida em frascos de perfume na mala para não haver problemas ao entrarem na França. Nas reuniões oferecidas a amigos parisienses, costumavam servir caipirinha e feijoada.
BEBIDA FINA
Após vencer o estigma de “bebida barata servida em balcão de botequim”, a cachaça voltou às altas rodas nas últimas décadas, em especial por causa da produção de cachaças artesanais. Além das de Paraty, ganharam fama as bebidas produzidas em estados como Pernambuco, Ceará e, principalmente, Minas Gerais. Nas montanhas de Minas, a cachaça ganhou status principalmente pelas cachaças produzidas em cidades como Januária e Salinas, no norte do Estado.
Salinas, que até hoje abriga várias destilarias de qualidade, é terra natal de um dos grandes personagens da história da cachaça brasileira, Anísio Santiago. Produtor da cachaça mais famosa do país, a Havana, Anísio era um tipo excêntrico que raramente saía de sua fazenda. Até morrer, em 2002, costumava pagar seus empregados e outras despesas com garrafas de sua preciosidade, disputadas por apreciadores e colecionadores da bebida. Os descendentes de Anísio, morto em 2002, assim como outros produtores em todo o Brasil, continuam a produzir e escrever a história da bebida brasileira que, como registrou o historiador Gilberto Freyre, “vem dos mais velhos dias do Brasil”.
LIVROS
Cachaça – O Mais Brasileiro dos Prazeres, Jairo Martins da Silva, Editora Anhembi-Morumbi, R$ 59
Prelúdio da Cachaça, Luis da Câmara Cascudo, Global Editora, R$ 42
Moedas de bronze foram depositadas em urnas no século IV d.C. e aparentemente eles foram deliberadamente escondidas em um espaço subterrâneo
Em um comunicado emitido pelo Ministério da Cultura da Comunidade Autónoma da Andaluzia, Espanha, foi informado que na última quinta-feira (16/06/2016), durante a realização de obras de canalização no Parque El Olivar Zaudín, na região da vila de Tomares, a 10 quilómetros de Sevilha, foram acidentalmente descobertas 19 ânforas, com 600 quilos de moedas de bronze romanas dos século III ou IV, depois de Cristo, no tempo dos romanas na Península Ibérica.
O comunicado aponta que uma das primeiras hipóteses para a existência deste tesouro seria que este conjunto de moedas deveria fazer parte do pagamento dos soldados romanos na região. Possivelmente este número de moedas deveria estar sob a supervisão de funcionários da administração pública das estruturas municipais do Império Romano no Bajo Guadalquivir. Ainda segundo o comunicado este raro conjunto de numismática “é um documento único de primeira ordem do período romano tardio na província de Sevilha e até agora não tem paralelo na história da Espanha”.
Ana Navarro, diretora do Museu Arqueológico de Sevilha diz que a descoberta das moedas foi partilhada com os arqueólogos italianos, ingleses e franceses. Todos estão de acordo: trata-se de um dos mais importantes achados do período romano mais importantes.
As moedas romanas foram depositadas em urnas, ou seja, em alguns recipientes que deliberadamente foram escondidos em um espaço subterrâneo. E ali permaneceram por 17 séculos.
Dez destes recipientes partiram-se durante as obras (foram as máquinas que as desenterraram). As restantes nove estão seladas. São menores do que aqueles que se usavam para transportar água ou azeite esclareceu, onde foram depositados os achados. “Usavam-se para transportar outras mercadorias. O que surpreende é que se utilizassem para guardar dinheiro”, afirmou ao jornal espanhol El Pais.
As moedas são de bronze e algumas podem ter um banho de prata. O anverso mostra as efígies de imperadores como Constantino, Diocleciano e Maximiano, mas pode haver outros imperadores, pois as moedas ainda não foram catalogadas.
Cada uma das moedas pesa entre oito e dez gramas. São de bronze e algumas estão banhadas a prata. Pelo aspeto, sem desgaste, nunca foram usadas. Ana Navarro diz tratar-se de milhões de euros, na moeda de hoje, mas arqueologicamente o seu valor é incalculável.
Como explicado para a mídia por Ana Navarro, diretora do Museu Arqueológico de Sevilha, no reverso de muitas moedas foram encontradas várias alegorias romanas, como algumas que representam a abundância. Sobre o local onde foram armazenadas e a razão, exige um exame mais detalhado.
No dia 21 de fevereiro de 1970, no periódico Diário de Pernambuco, Waldemar de Figueiredo Valente escreveu um texto intitulado “A gesta do Cangaço”, onde no final da primeira parte reproduziu os versos que agora apresento e que, segundo o autor, foram criados pelo cangaceiro Zabelê para comemorar o aniversário de Maria Bonita.
São versos bem interessantes, que mostram um lado diferenciado e menos focado nos processos ligados a violência que tanto caracterizou o cangaço.
Maria Bonita
Waldemar Valente foi médico, farmacêutico, antropólogo, sociólogo, etnólogo, professor, pesquisador, humorista e escritor. Pertenceu ao grupo de notáveis africanistas que se destacou na área desde o Primeiro Congresso Afro-Brasileiro de 1934. Como escritor Waldemar Valente escreveu obras como Introdução ao estudo da Antropologia Cultural (1953); Sincretismo religioso afro-brasileiro (1955); Maria Graham: uma inglesa em Pernambuco nos começos do século XIX (1957); Misticismo e região (1963); O padre Carapuceiro: crítica de costumes na primeira metade do século XIX (1969), Nordeste em três dimensões folclóricas (1986); Antologia pernambucana de Folclore (1990).
Waldemar de Figueiredo Valente
Foi professor na Professor da Universidade Federal de Pernambuco, e na Universidade Católica de Pernambuco. Waldemar Valente morreu no Recife, no dia 27 de novembro de 1992.
Na Era Vitoriana, era comum que famílias tivessem muitos filhos e que muitos morressem antes dos cinco anos; nesta foto, a criança à esquerda está morta e foi colocada de pé para o registro.
Fotografar parentes e amigos depois de mortos pode parecer algo mórbido nos dias de hoje. Mas na Era Vitoriana britânica (1837-1901), fazer imagens dos falecidos – e até mesmo juntar-se a eles no registro – era uma maneira de homenageá-los e de tentar arrefecer a dor da perda.
Em fotos que são ao mesmo tempo duras e perturbadoras, famílias posam com seus mortos, crianças parecem estar apenas adormecidas e jovens aparecem reclinadas. A morte lhes tomava a vida, mas também aumentava sua beleza – em meados do século 19, a palidez e a magreza causadas pela tuberculose eram vistas como atrativos em mulheres.
Pais também posavam com os filhos mortos.
A vida vitoriana estava cercada pela morte. Epidemias de difteria, tifo e cólera assolavam a Inglaterra, e o luto permanente assumido pela rainha Vitória em 1861 após a morte do marido, o príncipe Albert, fizeram das comiserações algo em voga.
Suvenires
No entanto, suvenires do tipo memento mori (do latim “lembre-se que você vai morrer”) tinham várias formas e já existiam em tempos pré-vitorianos.
A captação fotográfica de exposição longa fazia com que os mortos parecessem mais nítidos que os vivos exatamente por causa da ausência de movimento; à direita, um “memento mori”.
Mechas de cabelo dos mortos eram usadas em joias e máscaras mortuárias eram criadas em cera, por exemplo.
Mas, com a fotografia se tornando cada vez mais popular e acessível, um novo tipo dessas “lembrancinhas” surgiu em meados do século 19.
Barateamento
O daguerreótipo, primeiro processo fotográfico a ser anunciado e comercializado ao grande público, era um luxo caro, mas nem de longe com preço tão salgado quanto o de ter o retrato pintado – até então, a única maneira de preservar permanentemente a imagem de alguém.
O bebê gêmeo à direita está morto.
Mortos eram simplesmente colocados em frente à câmera como se ainda estivessem vivos. E frequentemente bem vestidos, para que parecessem bem em seu último “momento social”.
Mas, na medida em que cresceu o número de fotógrafos, o custo dos daguerreótipos caiu. E, na década de 1850, surgiram procedimentos ainda menos custosos, como o uso de vidro e papel para as impressões em vez de placas de metal.
Assim, os “retratos da morte” se tornaram incrivelmente populares. Para muitas famílias, era a primeira chance de tirar uma foto conjunta, e ao mesmo tempo a última de ter uma lembrança de um ente querido.
Os olhos do menino foram pintados sobre a foto, enquanto a menina foi colocada de forma a posar com seus brinquedos
Dois fatores, porém, logo iriam condenar a prática à extinção.
Primeiro, a qualidade dos serviços de saúde britânicos melhorou e aumentou a expectativa de vida da população, em especial a infantil. E o surgimento da fotografia instantânea permitiu que pessoas tirassem fotos uma das outras em vida, o que basicamente derrubou a demanda pelos “retratos da morte”.
Hoje, eles são apenas um lembrete de nossa mortalidade.
Em sua carreira militar Napoleão Bonaparte lutou cerca de 60 batalhas e perdeu sete. O grande domínio francês desmoronou rapidamente após a desastrosa invasão da Rússia em 1812. Napoleão foi derrotado em 1814 e enviado para o exílio na ilha de Elba; Em seguida escapou e voltou ao poder, apenas para ser derrotado na Batalha de Waterloo. Foi exilado de novo, desta vez na ilha de Santa Helena.
Membro do 24° Regimento Montado dos Cavaleiro da Legião de Honra.
Após sua morte em 1821, os veteranos sobreviventes da Grande Armée passaram a honrar seu nome e liderança histórica. Todos os anos, no dia 5 de Maio, o dia que Napoleão morreu, veteranos envergavam seus vistosos uniformes para honrar a memória ao imperador caído e marchavam na Place Vendôme, em Paris.
Granadeiro, 24° Regimento de Guardas, 1815.
Em uma dessas ocasiões, provavelmente em 1858, as fotos aqui apresentadas foram realizadas. Os veteranos, todos na casa dos 70 e 80 anos de idade naquele período, estavão vestindo seus uniformes originais, decoradas com suas medalhas originais e a destacada medalha de Santa Helena. As medalhas de Santa Helena foram outorgadas a todos os veteranos das guerras napoleónicas em agosto 1857.
Estas são as únicas fotografias conhecidas de soldados sobreviventes que lutaram nas guerras napoleônicas.
Lanceiro da Guarda, 1813-1814.
A Grande Armée teve uma grande quantidade de vitórias históricas que deu ao império francês um poder sem precedentes sobre o continente europeu. Amplamente reconhecido como uma das maiores forças de combate já criadas, sofreu perdas terríveis durante a invasão francesa a Rússia em 1812 e nunca recuperou a sua superioridade tática após essa campanha.
8° Regimento de Dragões, 1815. O capacete deste militar mostra nitidamente de onde os Dragões da Independência do Exército Brasileiro buscaram inspiração para seus tradicionais capacetes.
O sertão brasileiro e o cangaço apareceram em mais de um desfile no SPFW, sendo a grande inspiração de Lilly Sarti e Helo Rocha. Descobrimos, então, um artista que há algum tempo já trabalha lindamente com a temática. Azol é o nome artístico de Sérgio Oliveira, o artista originário de Natal, que trabalha o cangaço com uma estética colorida e alegre, com vida e muito frescor. Fizemos uma entrevista com ele sobre suas inspirações, processos artísticos e planos! Confira abaixo e não deixe de ver a nossa galeria com algumas de suas obras!
Quando surgiu a paixão pelas artes plásticas?
O meu primeiro contato com as artes foi no ensino fundamental, lá pela 7ª ou 8ª série. Eu costumava desenhar muito nas contracapas dos meus cadernos e fazia tirinhas cômicas usando meus colegas como personagens.
Quando e como ela deixou de ser um hobby e passou a ser o seu trabalho? Aconteceu há uns 5 ou 6 anos quando me desliguei da sociedade com uma produtora de áudio/visual e, como além do cinema eu também tenho diploma em artes gráficas e ilustração, decidi me enveredar para este lado. Comecei a desenhar e pintar e, eventualmente, me rendi às redes sociais e comecei a postar. Meu trabalho teve uma aceitação muito grande e os clientes apareceram. Me empolguei e resolvi me atualizar. Participei de alguns ateliês de pintura e escultura e comecei a experimentar a colagem. A abertura do ateliê foi inevitável.
Como é ter o ateliê em casa? Muitas influências da família no trabalho?
Moro em casa, em uma área muito bonita de SP que é o Pacaembu. Posso afirmar que é uma situação extremamente confortável, segura, conveniente e inspiradora pra mim, especialmente porque SP é uma cidade muito complexa, com grande problema de mobilidade, trânsito caótico e segurança. Graças a Deus me considero um felizardo. A família me inspira bastante porque existe muito amor, cumplicidade, admiração e respeito entre nós. São valores importantíssimos pra um indivíduo construir um sólido corpo de trabalho e uma vida de qualidade.
Qual é o seu processo criativo? Como surgem as ideias?
Sempre tive uma cabeça muito visual, daí a paixão pelo cinema. Com o passar dos anos, adquiri o hábito de procurar em meu cotidiano as fontes de inspiração, coisas que me estimulam a criar, como a natureza, os rostos, uma boa leitura, objetos, as máquinas, a cidade, uma conversa, enfim, tudo me inspira. Além do mais, estou sempre me atualizando com relação às exposições que acontecem na cidade e fora do país. Isso me oxigena. Tenho vários cadernos de desenho e, quando pinta algo na cabeça, pego logo um deles e começo a rabiscar. Pesquiso muito sobre o tema cangaço, procuro me abastecer ao máximo de informação pra poder alimentar minha imaginação.
Fiz alguns estudos em arte abstrata e figurativa, mas não encontrei nelas uma identificação, algo que fizesse eu me apegar, sabe? O cangaço chegou em minha vida depois de um longuíssimo processo de autodescoberta. Vivo há muitos anos fora da minha cidade e em todo lugar por onde passei adquiri um sentimento incômodo, uma espécie de falta de pertencimento àqueles locais, do ponto de vista cultural. Parecia uma peça que não se encaixava, mas eu não tinha noção do que estava acontecendo. Me adaptava aos costumes e ao estilo de vida, mas me sentia um “outsider”. Através da análise, pude fazer uma auto-descoberta pra entender essa confusão e, através desse processo, resgatei as minhas origens como num ritual místico e trouxe de volta pra dentro de mim a minha identidade.
Com isso, comecei a olhar profundamente o que eu tinha deixado pra trás e a entender que o lugar de onde vim estava longe fisicamente, mas muito perto espiritualmente e culturalmente. Fazendo essa conexão, eu poderia amenizar esse sentimento incômodo e viver mais em paz comigo mesmo e com meu meio. Foi nesse processo que eu me reencontrei com a poderosa cultura popular nordestina, o folclore, suas tradições e, quando me deparei com a iconografia do cangaço, “BUUMMM”! Foi uma explosão que me nocauteou. Me aprofundei nas pesquisas e encontrei o estudo que o pesquisador e historiador Frederico Pernambucano de Melo fez sobre a Estética do Cangaço, um trabalho rico e minucioso sobre o surgimento da linguagem visual do movimento. Foi inevitável a identificação e comecei a fazer experimentos. Foi um tiro certeiro!
Como você faz pra representar o cangaço? Por que a escolha de cores sempre tão vivas?
O tema cangaço é por natureza muito triste, pois representa um período violentíssimo do nordeste brasileiro. Foi uma época de muita seca e o Brasil estava economicamente muito frágil, então a pobreza imperava na região. A minha paleta de cores, por outro lado, é viva e muito colorida porque retrata o cangaço pela ótica da estética e não antropológica. Imagine que, nos anos 20 e 30, no sertão nordestino, o lugar era inóspito, árido e monocromático. Daí surge uma trupe de loucos criminosos fantasiados daquela maneira que conhecemos. Era um contraste, uma coisa bizarra, alegórica. A vestimenta do cangaceiro era uma “afetação estética”, como diria o Frederico Pernambucano.
Então, a minha arte reflete essa ótica, afetação e contraste. Outro aspecto que eu queria mencionar é que Lampião sofria de um paradoxo. Ao mesmo tempo em que ele matava e degolava sem piedade seus oponentes, ele mantinha uma sensibilidade pra criar suas roupas e acessórios. Sim, Lampião também era estilista, ele desenhava e costurava as próprias roupas e obrigava seus seguidores a fazerem o mesmo. Então, eu também carrego esse paradoxo pra minha arte, ou seja, ela representa um tema triste de uma forma alegre e viva por intermédio da paleta de cores. E essas cores estão associadas à luminosidade do nordeste, à beleza da linguagem visual do cangaço e à nossa herança cultural.
Quais os materiais mais utilizados?
Utilizo tinta acrílica pras telas e vez em quando uso bastões de pastel à óleo. Já pra colagem e esculturas, misturo muito, faço experimentos e lanço mão da técnica mista. Ultimamente, tenho feito esculturas com papelão, isopor, espuma, plástico, galhos, etc.
Como foi pra você expor em Natal e quais foram as emoções? E fora do Brasil?
Expor em Natal foi fantástico! Foi a minha primeira exposição individual na cidade e num local lindíssimo. Era uma casa construída no início do século passado em estilo colonial que hoje funciona como um centro cultural da cidade. Foi uma noite mágica muito bem organizada pela administração do centro e contou com um grande público na abertura. A mídia também fez uma ótima cobertura durante a semana que antecedeu o evento. Fiquei muito satisfeito com o resultado. Com relação ao exterior, participei de algumas exposições coletivas em uma galeria em NY e outra em Paris e também participei de duas feiras internacionais: Artexpo New York e Artshopping Le Carrossel Du Louvre, em Paris. Valeu como experiência e entendimento de como o mercado internacional funciona mas, atualmente, estou mais focado no mercado brasileiro. Existe muito o que se explorar por aqui.
Por que Azol como nome artístico?
AZOL é a junção das iniciais de meu sobrenome, Azevedo Oliveira. Fiz um teste e achei o nome forte, com identidade e potencial.
Existem planos futuros?
Sim, claro! Estou na gestação de um projeto grande aqui pra SP que pretende envolver a experiência sensorial de uma viagem ao mundo onírico do cangaço. Mas, por ora, é tudo que posso revelar!
Trinta anos depois, a ‘Noite dos Ovnis’ se mantém como um dos maiores mistérios ufológicos do Brasil.
No dia 19 de maio de 1986, vinte e um pontos luminosos foram vistos no céu de São José dos Campos (SP). Cinco caças da Força Aérea Brasileira (FAB) foram enviados para ‘combater’ os alvos, que segundo relatos documentados oficialmente pelo governo, mudavam de localização em alta velocidade. O G1conversou com os envolvidos no episódio – o controlador de voo falou pela 1ª vez publicamente sobre o assunto.
Naquela noite, o controlador de voo Sérgio Mota da Silva avistou os pontos luminosos no céu. Eles foram detectados pelo radar da torre de comando do aeroporto de São José. Quando Silva percebeu o primeiro ponto, acionou o piloto Alcir Pereira da Silva, que passava pela rota dos objetos em viagem com o então presidente da Embraer, Ozires Silva.
Jornal da época trazia observação como manchete (Foto: Reprodução/TV Vanguarda)
Alcir pilotava um Xingu, em viagem de Brasília para São José dos Campos. No áudio da conversa daquela noite, divulgado 28 anos mais tarde, Alcir avisa que se aproximaria do “alvo”, mas ao chegar ele muda de localização em alta velocidade.
Depois da primeira tentativa de alcançar os objetos, a Força Aérea mobilizou cinco aeronaves oficiais da frota de defesa para perseguirem as luzes. Foram cerca de 4 horas de ‘perseguição’.
Apesar da repercussão do assunto na época, com declarações da Aeronáutica e capas de jornais, os documentos e áudio que traziam detalhes do episódio conhecido como ‘Noite dos Ovnis’ foram considerados confidenciais pelo governo por quase três décadas e a investigação foi inconclusiva.
O único registro fotográfico do evento, de um fotojornalista de São José dos Campos, foi confiscado pela Nasa – esse material nunca foi recuperado. “À época um cientista que se dizia da Nasa foi ao jornal recolher o negativo desse material para análise. Era o único registro que tínhamos do que aconteceu naquela noite. Eles nunca devolveram esse material ou apresentaram um parecer sobre o que a análise das imagens”, contou o fotógrafo Adenir Brito.
Apesar de não ter os filmes originais das fotos, ele guarda o registro do que foi publicado em preto e branco na edição do jornal do dia 20 de maio de 1986. (veja abaixo)
Fotos publicadas no Jornal Valeparaibano em 1986 (Foto: Arquivo pessoal/Adenir Britto)
Envolvidos
Três décadas após a noite emblemática, o G1 reuniu relatos dos três personagens centrais desta história.
O evento marcou a carreira do controlador de voo Sérgio Mota, hoje com 59 anos. À época ele recebeu ordem de seu comando para que não tocasse no assunto com colegas ou desse entrevistas. Hoje, desligado da FAB, ele comenta pela primeira vez o evento e o descreve como surpreendente.
Ele contou que na época a chefia passou aos subordinados que os pontos avistados eram de uma guerra eletrônica – mas ele contesta. “Nesses eventos, possíveis inimigos usam aparelhos para confundirem o radar, colocando pontos de luz. Eles se confundem com aviões e bagunçam o controle do espaço aéreo. Apesar da explicação, esses pontos não poderiam ser vistos por olhos humanos, diferente do que aconteceu naquele dia” explicou.
Sérgio Mota na torre de controle em São José (Foto: Arquivo Pessoal/Sérgio Mota)
A vivência, no entanto, não foi o bastante para que ele acreditasse em ‘vida além da Terra’. “Eu não sei o que houve aquele dia. A rapidez, o número de pontos, não sei dizer o que foi aquilo. Mas não acredito em alienígena, quem sabe quando ele chegar para mim e se apresentar com RG, aí eu acredite”, brincou.
Outra peça importante no quebra-cabeça do mistério é Ozires Silva, que também é cético quanto à presença de extraterrestres naquela noite, mas guarda incertezas sobre o que aconteceu. “Claro que pode haver vida fora da Terra. Mas que nós possamos nos comunicar com eles e eles se comunicarem conosco me parece muito pouco viável. As distâncias no espaço sideral são de tal ordem que é muito difícil haver comunicações entre planetas, mesmo do Sistema Solar.”, disse.
Apesar de não constar nos relatórios oficiais, Ozires conta que dividiu a tarefa de pilotar a aeronave naquela noite com Alcir Pereira. Para Alcir, aquele 19 de março também é uma incógnita. “Eu fui piloto por muitos anos e nunca tinha visto algo como aquilo. Era ágil demais, impossível que houvesse um humano dentro dela. Eu não sei se era disco, mas era um brilho muito forte”, relembrou.
Mistério
Para o consultor da revista UFO, Renato Mota, o aparecimento foi o maior contato de vida inteligente fora da Terra com humanos. “São 130 milhões de estrelas. Achar que só a Terra é habitada é egoísmo. Hoje a questão não é mais se existe vida fora da Terra, já sabemos. A questão agora é quando eles vão se apresentar”, defendeu.
Onde tudo aconteceu – Fonte – efeitotemporal.blogspot.com.br
Segundo Mota, as respostas apresentadas pelos órgãos oficiais sobre a ‘Noite dos Ovnis’ são suposições. “Não podia ser estrela porque estrelas não podem ser captadas por radares; guerras de luz não podem ser vistas pelos olhos humanos. Não há nada que responda isso a não ser que foi um contato. Para mim esse é um mistério resolvido, eram naves de civilizações avançadas”, definiu.
Para o astrofísico da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), Oli Luiz Vors Júnior, não há comprovação científica que afirme que há vida fora da Terra e que a explicação para a noite de 19 de maio foi a passagem de um cometa.
“Quando entra na atmosfera, [o cometa] esquenta e emite luz. Isso explica os pontos brilhantes e a detecção pelo radar, já que tem massa. O número pode ser explicado pelos meteoros que acabam acompanhando o cometa”, explicou.
Confidencial
À época do fato, o então Ministro da Aeronáutica, brigadeiro Octávio Júlio Moreira Lima, disse em entrevista coletiva com os pilotos que o fato seria apurado pelo órgão. O resultado foi um dossiê mantido sob sigilo desde 1986 e divulgado apenas em 2014.
Documentos confidenciais divulgados pela FAB (Foto: Arquivo Nacional)
Na oitivas, os pilotos confirmam que viram pontos de luz no céu, que mudavam de cor e se movimentavam em alta velocidade. O dossiê com título “Possível Aparecimento de Ovni em São José dos Campos e Anápolis” concluiu que “os fenômenos eram sólidos e refletem de certa forma inteligências, pela capacidade de acompanhar e manter distância dos observadores”.
Os relatórios fazem hoje parte do acervo do Arquivo Nacional, sendo o segundo material mais acessado do acervo, atrás apenas dos relatórios da ditadura militar. Pela busca, todos os arquivos foram digitalizados e em 2014 o acesso tornou-se possível pelo site.
Inconclusivo
O G1procurou o Comando da Aeronáutica para saber, 30 anos depois, sobre as respostas para a ‘Noite dos Ovnis’. O órgão explicou por meio de nota que “não dispõe de estrutura e de profissionais especializados para realizar investigações científicas ou emitir parecer a respeito desse tipo de fenômeno aéreo”. Informou ainda que toda vez que algum objeto voador não-identificado é visto, é elaborado um relatório em registro público.
Os interessantes e enigmáticos monólitos da Pedra do Reino, em São José de Belmonte, Pernambuco.
No Sertão de Pernambuco encontramos a cidade de São José do Belmonte (a 473 Km de Recife, acesso pela BR-232) que tem como principal atrativo a Pedra do Reino, formação rochosa de granito no formato de duas torres, sendo que uma possuí certa de 30 e a outra 33 metros de altura. A região onde se localiza e curiosa Pedra do Reino seria palco de um dos eventos mais controversos da história brasileira.
A história da Pedra do Reino, palco da matança ocorrida entre os dias 14 e 17 de maio de 1838, começa pelo menos 270 anos antes, em Portugal, quando D. Sebastião é declarado rei aos 14 anos, em 1568.
O espírito aventureiro, explosivo, religioso e também belicoso do rei, o faz cometer inúmeros atos questionáveis. O maior, no entanto, é aquele em que perde a vida, lutando contra os mouros na Batalha de Alcácer-Quibir, na África.
A desastrosa operação causou não só a morte do rei, mas a desgraça do próprio país, que caiu na miséria. Enfraquecido, o reino foi ocupado pelas tropas de Filipe II, rei da Espanha. O corpo do rei não foi identificado em meio aos mortos, o que levou seus súditos a formularem histórias e mitos.
O Sebastianismo
Inconformado, o povo português transformou a morte de D. Sebastião num acontecimento simbólico: um dia ele voltaria para libertar e trazer de volta a felicidade ao seu povo.
Segundo o escritor belmontense Ernando Alves de Carvalho, o messianismo político-religioso de Portugal do século XVI ressurge deturpado e violento no interior de Pernambuco, três séculos depois.
Em nome de Dom Sebastião, autoproclamados profetas formaram comunidades que aguardavam a sua ressurreição. Os adeptos a este movimento esperavam a ressurreição do santo sob a crença de que os males seriam convertidos em alegrias, o mal se tornaria bom, o velho se tornaria jovem, e assim por diante. A crença na ressurreição de Dom Sebastião foi o marco inicial para dois grandes movimentos messiânicos registrado em Pernambuco, sendo que esse movimento existiu na primeira metade do século XIX em dois lugares. Na Serra do Rodeador, em Bonito, e na Serra Formosa, em São José do Belmonte. Ambos terminaram em tragédia.
Os fanáticos sebastianistas da Serra Formosa fundaram uma espécie de reino, que os dava direito a uma coroa feita de cipós.
Procurando saber o que a Pedra do Reino significa para comunidade.
Também manipulavam uma bebida à base de ópio e jurema. O primeiro rei foi João Antônio. Ele dizia que o rei havia lhe aparecido para mostrar-lhe um tesouro.
João Antônio portava um folheto de cordel e duas pedras preciosas , dizendo tê-las encontrado na Lagoa Encantada, situada na área da Pedra Bonita, o folheto funcionava como uma bíblia sebastianista e as pedras, eram usadas para atrair a atenção da população.
Através disso João consegue casar-se com Maria, moça que lhe foi negada por seus pais anteriormente e consegue angariar dinheiro e demais riquezas, prometendo que estas seriam pagas quando o reino desencantasse após a vinda de D. Sebastião.
Nas suas pregações, era auxiliado por todos os membros de sua família e outros adeptos, que percorriam as áreas circunvizinhas da região. Instalava-se assim, o Primeiro Reinado da Pedra Bonita, reinado este que foi marcado por pregações fanáticas e idéias socialistas.
O sofrimento desses visionários e o ódio contra o poder e a propriedade. Desencadeando a rivalidade com os proprietários locais que através do Padre Francisco Correia de Albuquerque conseguiu dissuadir o Rei João Antônio, a abandonar a região e fugir para o Ceará. Com a fuga de João Antônio seu o cunhado, João Ferreira, acabou assumindo seu lugar e tornando-se um “rei” louco, cruel e sanguinário.
Vivendo nos moldes de um reinado, João Ferreira fazia pregações e mantinha o controle de todos os hábitos e atos dos seus seguidores, impondo as regras em nome de D. Sebastião. Nas suas pregações o número de seguidores aumentava, fazendo com que a comunidade-seita chegasse a contar com 300 membros, entre homens, mulheres e crianças. A comunidade mantinha alguns hábitos e normas peculiares. Os homens podiam casar-se com várias mulheres, a higiene pessoal não era permitida, nem a lavagem de roupa e o trabalho não era necessário; também comiam pouco, bebiam em abundância, rezavam e dançavam esperando o grande acontecimento: a vinda de D. Sebastião.
João Ferreira fez as pessoas crerem que Dom Sebastião estaria “encantado” na Pedra e só retornaria, realizando todas as promessas feitas àquele povo, quando o lugar fosse lavado com sangue.
No dia 14 de maio de 1838, após embriagar a muitos membros da comunidade, o “rei” comunica a todos que D. Sebastião estava em profundo desgosto para com eles, pois eram homens incrédulos, fracos e falsos e não tinham coragem de regar o campo encantado, nem de lavar as duas torres da catedral do reino, com o sangue necessário para quebrar o encantamento e dar a todos uma oportunidade de vida melhor.
São muitos os relatos de mortes voluntárias (com pessoas se jogando do alto da Pedra) e involuntárias (a maioria era decapitada, incluindo crianças) ocorridas entre os dias 14 e 17 de maio.
Cinquenta e três pessoas foram sacrificadas nos três dias da matança, incluindo a mulher do “rei”, a rainha Izabel.
Tal ato despertou a ira do cunhado, Pedro Antônio, que mesmo de longe conseguiu falar com os discípulos, dizendo-lhes que Dom Sebastião precisava também do sangue do próprio rei, João Ferreira. Conta-se, que esse teria morrido com requintes de crueldade.
O major Manoel Pereira da Silva, outro conhecido personagem da história, soube do ocorrido e foi com suas tropas conter a verdadeira chacina provocada pelos reis da Pedra Bonita (que Ariano Suassuna, em seu romance, chamou de Pedra do Reino).
Os cavaleiros da cavalgada que ocorre atualmente, no local, rememoram a ida do major ao reino mais sangrento da “monarquia” brasileira.
ADENDO DO TOK DE HISTÓRIA – Segundo o meu amigo Francisco Pereira Dantas, renomado professor e competente livreiro de Cajazeiras, Paraiba, Existe um excelente e respeitável trabalho de Antônio Áttico de Souza Leite que foi publicado em 1876, com o título “Memória Sobre Pedra Bonita ou Reino Encantado na comarca de Villa Bella e reeditado pelo seu filho Solidônio em 1898 com o título: “Fanatismo Religioso: Memórias sobre o Reino Encantado na Comarca de Villa Bella” com um juizo crítico do Conselheiro Tristão de Alencar Araripe.
A mítica história do Rei Artur é um dos grandes temas da literatura britânica. Mas existe alguma verdade por trás do mito? E por que ele é ainda tão influente após séculos?
O Rei Artur que conhecemos hoje é uma junção de diferentes lendas, escritas por diferentes autores, em épocas distintas. Todas são unidas pelo tema comum de que o Rei Artur foi um general britânico do século V que lutou contra tribos anglo-saxônicas e garantiu que a Grã-Bretanha permanecesse um paraíso ocidental. A primeira menção ao Rei Artur na história data de 830 e é atribuída a um autor chamado Nennius. Ele escreve: “Naqueles dias, então, Artur lutou junto aos reis britânicos, e ele era o comandante nessas batalhas”.
Um conto mais elaborado sobre o Rei Artur surgiu no século XI, quando Geoffrey de Monmouth publicou seu livro “The History of the Kings of Britain” (em tradução livre, “A História dos Reis da Grã-Bretanha”). A vida inteira de Arthur é descrita pela primeira vez nessa publicação, desde seu nascimento, em Tintagel, até sua morte, e as figuras de Guinevere e Merlin são introduzidas. Esse livro teve um impacto enorme na época. Até hoje, ainda existem aproximadamente 200 manuscritos.
Com o casamento de Henrique II de Inglaterra com Leonor da Aquitânia, as histórias de Artur começaram a florescer nas cortes francesas, e a lenda tomou ares românticos e espirituais. Foi nesse contexto que o misterioso Cálice Sagrado aparece pela primeira vez pelas mãos do escritor da corte francesa Chrétien de Troyes. Em seu poema “Perceval ou le Conte du Graal” (1181-90), ele fala:
“Uma garota chegou, bela, formosa e lindamente enfeitada, e entre suas mãos ela segurava um cálice. E quando ela trouxe o cálice, o local foi inundado por uma luz tão brilhante que as velas perderam seu brilho, assim como a lua ou as estrelas quando o sol nasce”.
Os contos do Rei Artur se tornaram tão incorporados às mentes dos britânicos que quando Henrique VIII chegou ao trono, em 1509, ele mandou repintar a Távola Redonda de Winchester, de Eduardo III, com seu semblante retratado no topo, como um novo Artur, um imperador cristão e chefe do Império Britânico.
Outro exemplo da influência de Artur data de 1834, quando as Casas do Parlamento foram reconstruídas após um incêndio desastroso. Imagens do Rei Artur, do livro de Thomas Malory “The Death of Arthur” (1846), ou “A Morte de Artur”, na tradução, foram selecionadas para a decoração da antessala cerimonial da rainha na Câmara dos Lordes.
Até hoje, o mito não perdeu seu apelo e é ainda tema de muitos livros e filmes. Porém, apesar da presença forte de Artur no folclore Celta, são poucas as evidências sobre a sua real existência. Na história, não há menção a nenhum Artur. A única fonte contemporânea, “The Ruin and Conquest of Britain” (em tradução livre, “A Ruína e a Conquista da Grã-Bretanha”), livro escrito pelo historiador e monge britânico Gildas, menciona apenas um líder sem nome e Rei dos Britânicos – seria Artur?
O consenso entre a maioria dos historiadores é que Artur provavelmente existiu, ou como um indivíduo, ou mesmo como uma série de indivíduos. Como muitos dos heróis da Idade Média foram homens reais cujos talentos foram aceitos como verdade pela maioria dos historiadores, há uma grande possibilidade de que Artur tenha sido um guerreiro Celta que deu origem ao resto das estruturas mitológicas.
Por que, mesmo sem evidências concretas, Artur figura tão fortemente na mitologia britânica? Uma explicação seria que Artur representa a história britânica em sua totalidade, sendo seus contos um modo de explicar como nasceu a Grã-Bretanha, especialmente com relação aos Saxões e Celtas. Certamente, a história se tornou popular durante tempos de inquietação social devido à sua inquestionável estabilidade moral. E os últimos séculos só serviram para provar que a história do Rei Artur está longe de perder seu magnetismo.
Através da amiga e competente jornalista Zarife Assi, recebi pelo Facebook estas lindas fotos realizadas por Marc Ferrez (1843-1923). Este foi grande fotógrafo do século XIX em nosso país. Suas imagens formam o patrimônio visual de uma época de transformações no Brasil. Seus retratos de índios, escravos e indivíduos urbanos, são fortes e inesquecíveis e sua obra é considerada um dos mais ricos documentos visuais do período.
Marc Ferrez em 1876 – Fonte – pt.wikipedia.org
Filho de franceses, Marc Ferrez ficou órfão aos 8 anos, em 1851, quando os pais morreram de maneira desconhecida, por envenenamento ou de febre amarela. Depois de uma temporada na França, com um casal amigo, voltou ao Brasil com 21 anos, já interessado em fotografia.
Aqui, especializou-se com profissionais experientes, até fundar, em 1867, um ateliê e sua própria marca, a Marc Ferrez & Cia. No ano seguinte, registrou as comemorações do fim da Guerra do Paraguai e começou a trabalhar para o governo.
A partir de 1872, passou a se apresentar como “fotógrafo da Marinha Imperial e das construções navais do Rio de Janeiro, tendo como especialidade vistas do Rio de Janeiro e arredores, em todas as dimensões a preços acessíveis”.
Ferrez percorreu todas as regiões do Brasil, em expedições governamentais e científicas. Ele documentou tudo o que podia: fazendas de café, árvores, plantas arquitetônicas, praias, praças, navios e pessoas que encontrava em suas andanças.
Ficou conhecido internacionalmente não apenas por suas panorâmicas, mas também pelas pesquisas na área da fotografia. Por exemplo, com equipamentos adaptados para operar dentro de embarcações. Ele era um apaixonado pelo Rio, que descrevia como “uma cidade de beleza luxuriante e risonha”, pelo Brasil e pelas câmeras e lentes.
A maioria dos fotógrafos da época vivia do trabalho com retratos. Ferrez chegou a fazê-los (Machado de Assis, Santos-Dumont, conde d’Eu, etc.), mas não era o que mais o atraía. Gostava mesmo de experimentar, registrar acontecimentos, transformações.
Outro obstáculo ao trabalho de Ferrez vinha da técnica: uma de suas especialidades, a foto panorâmica, exigia esforço imenso. Na segunda metade do século 19, a panorâmica era muito apreciada, mas poucos estavam dispostos a enfrentar as dificuldades operacionais e os elevados custos da produção desse tipo de fotografia.
O processo fotográfico completo, mesmo de imagens em formato convencional, levava cerca de uma hora, para cada foto e o fotógrafo pensava muito, antes de tomar a decisão de uma foto.
Após a morte do fotógrafo, em 1923, o neto e historiador Gilberto Ferrez se dedicou ao estudo do acervo, o que contribuiu para sua divulgação no Brasil e no mundo. O conjunto da obra de Marc Ferrez mostra a vontade quase ufanista de documentar um país em formação, em vez de buscar o “pitoresco”, como faziam muitos na época. Suas imagens formam em nosso imaginário um retrato mais fiel do passado do Brasil.
Em uma quinta-feira comum na capital pernambucana, mais precisamente no dia 9 de novembro de 1972, o tradicionalíssimo Diário de Pernambuco publicava no Segundo Caderno, na quinta página, uma pequena nota que em muitos aspectos era diferenciada e um tanto inusitada.
Explicava que no sábado, dia 11 de novembro, aconteceria no palco de Nova Jerusalém, no distrito de Fazenda Nova, município de Brejo da Madre de Deus, a 200 quilômetros de Recife, o evento denominado “Feira Experimental de Música”.
Segundo os organizadores a ideia tinha o objetivo de mostrar o trabalho de vários conjuntos musicais fora do âmbito comercial que despontavam em Recife e outras cidades do Nordeste. O horário seria “do pôr, ao nascer do sol”, com entrada gratuita, participação de vários artistas, sem premiação, nem jurados e com o pensamento de “ouvir o som do cara que toca berimbau no Mercado de São José e também o som de Laílson, com uma guitarra que tem tanto botão que parece uma central elétrica”.
E como foi esta intensa noite no agreste pernambucano!!!
Tempos Nebulosos
Os primeiros anos da década de 1970 no Brasil foram momentos bem complicados.
Golpe de Militar em 1964, 30/04/1964. Tropas do Exercito saem as ruas e tomam o Palácio do Campo das Princesas em ação rápida. Credito: Reprodução / Petrônio Lins/Arquivo/DP.
Havia a Ditadura Militar, que apertava o garrote contra a sociedade brasileira de várias maneiras e uma forte repressão. Na área artística eram censurados filmes, peças teatrais, músicas e discos.
Na provinciana e caliente Recife, então a terceira maior metrópole do país, o momento conturbado foi sentido de muitas maneiras. Logo após a deflagração do Golpe Militar, em 31 de março de 1964, a capital pernambucana foi um dos lugares que mais sofreu atrocidades dos golpistas, tendo civis agredidos e mortos em passeatas que protestavam a favor da democracia. Tempos depois, em 25 de julho de 1966, opositores da ditadura explodiram uma bomba no saguão do Aeroporto Internacional do Recife.
No início da década de 1970 a barra estava pesadíssima. Até mesmo um núcleo do famigerado Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, o conhecido DOI-CODI, local de tortura aos opositores do Regime Militar, foi instalado na cidade e ficava localizado ao lado do antigo quartel do 4º Exército.
Fonte – cpdoc.fgv.br
A capital pernambucana vivia um momento pesado, nebuloso, cinzento. Mas por outro lado, chegavam do exterior as luzes de uma nova cultura.
Nos anos 1960 muitos jovens passaram a contestar, a nível mundial, a sociedade e a pôr em causa os valores tradicionais e o poder econômico. Seguindo esses movimentos de contestação, muita gente buscou várias alternativas a uma sociedade repressora e “careta”. Descontentes com a sociedade de consumo jovens começaram a formar grupos pelo mundo afora, desenvolvendo interessantes comunidades alternativas, celebradas por variados músicos e artistas, em meio a uma intensa explosão criativa.
Poster oficial do festival.
A celebração popular mais significativa daqueles dias sem dúvida aconteceu em 1969, com o grande encontro de três dias de música, paz e amor no Festival de Woodstock, no Estado de Nova York.
Em terras tupiniquins, em meio ao clima cinzento e pesado, a interessante experiência de viver em comunidades afastou muitos jovens dos diplomas universitários, dos planos familiares de um “futuro garantido” e da ideia de uma profissão tradicional e segura. Entretanto, foi entre os músicos que o ideal de levar uma vida longe da pressão do sistema vigente nas grandes cidades prosperou com mais sucesso.
Recife na década de 1970.
No Recife, o mesmo espírito mobilizou vários músicos e algum tempo depois aconteceria um evento que seria definido pelo jornalista Celso Marconi como “Uma espécie de Woodstock cabra da peste”.
Figuras Especiais
Muitos dos jovens músicos que tocavam nas grandes cidades brasileiras durante a década de 1960 geralmente se apresentavam com suas bandas em bailes, onde tanto tocavam covers de grupos estrangeiros, como os sucessos populares que eram executados nas rádios. Mas em meio a toda inquietação política, a crescente efervescência cultural, influências musicais do exterior, muitos destes jovens desejavam apresentar um material próprio e diferenciado.
Em Recife esta situação é amplificada pela existência de uma congregação de músicos com extremo talento, que estavam dispersos e buscavam ampliar os horizontes musicais.
Um deles era Laílson de Holanda Cavalcanti. Membro de uma família considerada abastada de Recife fez intercâmbio nos Estados Unidos, mais precisamente em Arkansas. Musicalmente ativo nos “States”, Laílson chegou a montar por lá uma banda onde tocavam músicas do guitarrista Jimi Hendrix e do grupo Creedence Clearwater Revival. Voltou a Pernambuco com mil ideias na cabeça.
Outro destes jovens era Luiz Augusto Martins Côrtes, mais conhecido como Lula Côrtes. Filho de militar, nascido na Base Aérea de Recife, havia morado no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mas voltou à cidade natal ainda adolescente. Consta que, em razão do trabalho do pai, conseguiu uma maior aproximação com estrangeiros e informações privilegiadas sobre os acontecimentos musicais de fora – gostava de Rolling Stones e Bob Dylan, e ficou sabendo de Jimi Hendrix bem antes de seus conterrâneos. Mesmo sendo oriundo de uma família abastada, resolveu largar tudo quando ainda era moleque, deixou o cabelo crescer e foi morar na rua. Era um hiperativo que dividia seu tempo entre o desenho e o seu inseparável (e legendário) tricórdio.
Lula Côrtes e seu tricórdio.
Outra figura importante deste contexto foi Marco Polo Guimarães, um ex-acadêmico de Direito e poeta. Com 16 anos atreveu-se a mostrar seus poemas a Ariano Suassuna e a Cesar Leal. Foi aprovado pelos dois e lançou seu primeiro livro em 1966. Dois anos depois começou no jornalismo e depois seguiu de carona para o Rio de Janeiro e na sequência São Paulo. “Na cidade que nunca dorme” Marco Polo conheceu o conterrâneo Fernando Portela, um dos editores do Jornal da Tarde, o JT, e conseguiu trabalho. Mas acabou voltando para a capital fluminense, onde vivia de trabalhos freelance para a editora Bloch. Logo virou hippie, trabalhando como artesão na desbundada Praça General Osório, em Ipanema. Consta que nessa temporada no sul maravilha, Marco Polo escreveu e compôs muito. Quando retornou a Recife, no final de setembro de 1972, encontrou uma cena musical efervescente, cheia de gente criativa e talentosa, prontos para despejar energia em suas composições.
Uma banda da época, Os Selvagens, era formada por jovens de classe média baixa – entre eles, o magricela estudante de engenharia Almir de Oliveira, o percussionista Agrício Noya e o talentoso guitarrista Ivson Wanderley, o Ivinho, além de Bira e Rafles. Anos antes, Almir já havia sido apresentado a Marco Polo por Rafles, amigo que era “tipo um imã, agregava todos ao redor dele”, como lembra o jornalista. O mesmo Rafles que, por volta de 1968, era considerado o “pirado” de plantão do Recife. Entre suas maluquices nunca esquecidas está a de enviar, pelo correio, um reforçado baseado, em legítimo papel Colomy, para Paul McCartney. Meses depois, ele recebeu a resposta do Beatle: uma foto autografada como agradecimento.
A aproximação foi inevitável e logo foi criada uma banda, ainda sem nome e cuja estreia ainda não tinha data marcada.
Mas logo esse dia iria chegar.
Os Cabeludos em Nova Jerusalém
Enquanto isso, no início do mês de novembro de 1972, no teatro ao ar livre de Nova Jerusalém, o “sonho de pedra” idealizado pelo gaúcho Plínio Pacheco, estava sendo preparada a encenação da peça Calígula, do francês Albert Camus. Dirigida pelo teatrólogo e ator José Pimentel, tendo como atores os mesmos que realizavam a já famosa encenação da “Paixão de Cristo”.
Encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém na década de 1970.
A apresentação aconteceu no sábado, 4 de novembro, foi um sucesso, com público estimado em três mil pessoas e contou até com a presença do cônsul francês no Recife, o Monsieur Jacques Boizet, que declarou que a peça realizada por aqueles atores brasileiros do agreste nordestino “superava as montagens francesas que ele havia assistido”.
Bem, depois de uma apresentação como essa, tão bem comentada pela imprensa recifense da época, era de se esperar outras atrações no mesmo estilo. Entretanto a Sociedade Teatral de Morada Nova, responsável pelo grande teatro ao ar livre, cedeu Nova Jerusalém para a realização de um festival de música ao ar livre, que seria igualmente produzido pelos diretórios acadêmicos dos cursos de medicina, geologia, arquitetura e engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Eu não descobri como rolou a negociação e nem como se desenvolveu a parceria entre os responsáveis por Nova Jerusalém e a galera do DCE. Mas sei que para a coordenação do festival foi convidado Laílson Cavalcanti, então com apenas 19 anos de idade.
Evento teria dois dias de música, com entrada franca, onde a produção tinha o intuito terminantemente categórico da abertura de um espaço para o pessoal que fazia música alternativa, fora do circuito comercial. Estava aberto tanto para a rapaziada de Recife, como músicos de outras cidades do Nordeste.
O evento foi oficialmente intitulado “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” e tinha como lema “Abrir os portões do teatro e as portas da percepção”.
Os artistas convidados, em sua grande maioria, tinham a ideia de produzir uma música aberta às referências do rock estrangeiro e das especificidades das músicas produzidas no Brasil. Laílson Cavalcanti comentou anos depois “Era a música pela música, a expressão criativa pelo prazer de criar e apresentar uma proposta original”.
Flávio Lira, o Flaviola, uma das atrações.
O “Woodstock nordestino” iria começar na noite de 11 de novembro de 1972.
Woodstock Cabra da Peste
Dentre os sites na internet, livros, trabalhos acadêmicos e outras fontes que comentam sobre este evento, consta que na Feira Experimental de Música participaram o próprio Laílson, Lula Côrtes, Marconi Notaro, Marco Polo e seus companheiros, Flávio Lira (cujo nome artístico era Flaviola) e o grupo Nuvem 33, onde um dos seus membros era Otávio Teremim e outro era o cearense Tiago Araripe. Araripe possuía uma forte vivência sertaneja, tinha morado até 1968 no Crato, Ceará e trazia sua experiência musical para a feira. Foram convidados pessoas como Jorge Mautner e Hermeto Pascoal (que não vieram). Da Paraíba foi convidada a cantora Katia de França.
No Diário de Pernambuco (10/11/1972, pág. 7, Segundo Caderno), a organização do festival prometia que a música apresentada seria ouvida por “34 caixas de som, 10 amplificadores delta e transmitida por 16 microfones”.
“A turma foi à Nova Jerusalém de ônibus, na sexta, dia anterior ao festival, para ajudar nos preparativos. Passaram a noite toda trabalhando e fazendo farra – quando amanheceu, estavam todos cansadíssimos, não haviam dormido. O único que tinha conseguido pegar no sono era Ivinho – que, na manhã de sábado, acordou com um dos olhos vermelho-sangue, por causa de um inoportuno derrame na vista. O show de estreia da recém-formada banda estava marcado para as 3h da madrugada. Almir de Oliveira mal se aguentava de sono e pediu que Laílson, o organizador, mudasse o horário para meia-noite. O pedido foi negado. “Eu sei que, quando deu uma, duas horas da manhã, eu arriei, fui dormir. E aí, quando deu três horas, acordei com Laílson e Ivinho me chamando”, lembra o baixista. A banda subiu ao palco com ele bêbado de sono e Ivinho tocando de costas para a plateia, de óculos escuros, por causa dos olhos sensibilizados. Apesar do sufoco, foi ali que o grupo ganhou forma e nome: Tamarineira Village. Tamarineira era o nome de um hospício famoso na época em Recife, e o Village (que é pronunciado “Világe”) fazia referência à vila de comerciários da cidade, de onde vinham a maioria dos integrantes”.
Sobre o show Marco Polo comentou que a banda fazia uma fusão da música tradicional do Nordeste com o rock. “Era uma coisa chocante na época ter uma banda influenciada por Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin”, comentou o músico e jornalista.
Já o Diário de Pernambuco (13/11/1972, pág. 5, Segundo Caderno) enviou um repórter para cobrir o evento e esta foi a sua visão.
HIPPIES” INVADEM A NOVA JERUSALÉM E REALIZAM FESTIVAL FAZENDA NOVA
(Do enviado especial) – As ruelas e palácios de Nova Jerusalém foram invadidos, sábado ao entardecer, por “hippies” e estudantes que, entre os sons de guitarras e a estridência “desordenada” de baterias, realizaram o primeiro festival de música de vanguarda de Pernambuco, com a denominação de I Feira Experimental de Música. O espetáculo, que começou às 17h30m do sábado terminando às 4 horas do domingo, reuniu cerca de duas mil pessoas. A Banda de Música de Fazenda Nova e a Banda de Pífanos de Nova Jerusalém abriram a parada musical em meio a um entusiasmo sem precedentes dos jovens aglomerados ante o imponente Palácio de Pilatos. Seguiu-se a apresentação do conjunto Tamarineira Village, culminando com a exibição do Nuvem 33 e Flaviola. Os promotores do certame distribuíram questionários a fim de colher as impressões dos participantes do espetáculo, qualificado pelos observadores como “o primeiro grande passo para a completa renovação da música popular regional.
E como não poderia deixar de ser em um evento com esta finalidade, em termos de “viagens astrais” o “Woodstock cabra da peste” não deixou nada a dever para o original californiano: lendas dão conta que a plateia divertia-se tomando ácido dissolvido em baldes de Q-suco. “O ácido era distribuído ao público, cerca de duas mil pessoas, dissolvido num balde com K-suco”, testemunhou depois Marco Polo numa entrevista ao jornalista pernambucano José Telles (autor de Do Frevo ao Manguebeat, Editora 34).
Uma Ilustre Espectadora
Ao realizar a pesquisa sobre aquela noite “mutcho loka” no agreste pernambucano, eu descobri que entre os presentes na plateia estava uma senhora de 66 anos de idade, educadora, escritora e membro da honorável Academia Pernambucana de Letras. Estamos falando de Maria Dulce Chacon de Albuquerque Nascimento, mais conhecida por Dulce Chacon.
Não tenho a mínima ideia das circunstâncias que levaram àquela senhora a Nova Jerusalém naquela noite. É possível que a presença de Dona Dulce Chacon se devesse a sua própria maneira de ser, que tinha muito de revolucionária.
Nascida no Recife em 8 de janeiro de 1906, era filha, sobrinha e neta de perseguidos políticos. Conviveu com a profusão de ideias e discussões sobre política, democracia e direitos do cidadão. Foi aluna da turma inaugural da Escola Normal de Pernambuco, onde liderou nesta Instituição uma das primeiras greves de estudantes no Brasil. Escolheu a carreira de professora por opção, por reconhecer nesta atividade um campo de atuação que lhe permitia colocar em prática suas ideias de uma nova educação; mais integradora e inclusiva. Paralelamente as sua atividades de educadora escreveu livros, quase todos voltados para sua área de interesse profissional e social.
No Diário de Pernambuco (17/11/1972, pág. 4, Primeiro Caderno), em um pequeno texto intitulado “A 1º Feira Experimental do Som”, a acadêmica Dulce Chacon comentou que assistiu “Um espetáculo espichando pela noite adentro”.
Texto de Dulce Chacon no Diário de Pernambuco
Chamou-lhe atenção a desinibição dos rapazes e moças, todos a vontade, deitados e usando suas mochilas como travesseiros. Informou que muitos dos estudantes vinham de Recife, mas havia gente de João Pessoa, Maceió, Fortaleza e alguns da Pontifícia Universidade Católica (PUC) da Bahia, “com um conjunto de timbales”.
Para ela os grupos que se apresentaram foram dezessete, com nomes como Banda Quebra Resguardo, Bandavoou, Transa Geral, os já citados Nuvem 33 e o Tamarineira Village, que lembrou a acadêmica um grupo de hippies do Greenwich Village, de Nova York.
Frutos
Mas certamente o melhor resultado da “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” foram as parcerias surgidas entre os músicos, que gerou marcantes maravilhas para a música nordestina e brasileira e alguns dos discos mais cultuados da psicodelia brasileira.
Interessante ressaltar que o festival aconteceu pouco tempo antes de um momento muito propício para aqueles músicos, pois pouco tempo depois – entre o final de 1973 e o início de 74 – a MPB estremeceu quando surgiram hippies-roqueiros como os Novos Baianos e os Secos e Molhados. As gravadoras do Sudeste descobriram que os jovens cabeludos e desbundados também podiam vender discos e gerar grana.
Foi neste festival que Laílson Cavalcanti conheceu Lula Côrtes e a sintonia foi total. Tanto que dois meses depois, em janeiro de 1973, eles lançavam “Satwa”, considerado um dos primeiros, se não o primeiro, LP independente do Brasil. Era uma mistura do som do Oriente com o do Ocidente, principalmente do blues. Um disco instrumental, para não ter que levar as letras à Polícia Federal.
Desenho de Laílson Cavalcanti, publicado no Diário de Pernambuco, tendo como tema o grupo Phetus.
Depois do lançamento deste disco, Laílson e Lula seguiram caminhos distintos. Laílson criou o Phetus, grupo mais progressivo e barroco, com o guitarrista Paulo Rafael e Zé da Flauta. “Seria o que hoje a gente chama de world music”, ele afirmou anos depois.
Já Lula Côrtes se aproximou de um jovem paraibano que conheceu no festival. Era um magricela de 23 anos, natural de Brejo do Cruz, chamado José Ramalho Neto, mas conhecido como Zé Ramalho. Em Nova Jerusalém eles foram apresentados por um amigo comum, o artista plástico Raul Córdula.
Zé Ramalho e Lula Côrtes
Zé estava de saco cheio de tocar em bandas de iê-iê-iê, animando bailes em de João Pessoa e Campina Grande e desejava novos voos. Isso ele conseguiu com Lula Côrtes.
A amizade, as viagens e a parceria musical entre os dois se ampliou. Foi quando Raul Córdula convocou os jovens músicos para rasgar a trilha seca que partia de Ingá do Bacamarte, a 85 quilômetros de João Pessoa, rumo a Pedra do Ingá, um misterioso monólito, ornado com representações datadas de três a seis mil anos e considerado o maior sítio arqueológico de gravuras rupestre da América Latina.
Pedra de Ingá – Foro – Rostand Medeiros
Naquele lugar a “viagem” dos dois músicos foi total e intensa. Dois anos depois do festival de Nova Jerusalém eles lançavam o LP “Paêbirú-Caminho da montanha do sol”, um clássico psicodélico do pós-tropicalismo que, além de acústicos destacam-se músicas como: “Nas paredes da pedra encantada”, “Pedra templo animal” e “Trilhas de Sumé”, todas dedicadas à Pedra do Ingá.
Paêbirú é das coisas mais malucas e assombrosas que já se fez na música brasileira, mas eu me surpreenderia muito se eu tiver mais de dois leitores que a conheçam. O nome é escrito assim mesmo, com a combinação agramatical de acentos. Foi gravado na Fábrica de Discos Rozenblit, em Afogados, Recife (empresa fundamental para a história da música pernambucana) e lançado imediatamente. Mas na terrível enchente de julho daquele ano no Recife, as águas do Capibaribe invadiram a fábrica e destruíram praticamente toda a prensagem do disco, com a exceção de 300 cópias que haviam sido levadas para a casa de Lula.
Capa de Paêbirú Caminho da Montanha do Sol-1975
Dessas 300 cópias nasceu o mito, que é tão incrível que há gente que não acredita.
Basicamente este disco de vinil é o mais caro de toda discografia brasileira, onde um dos exemplares em bom estado pode alcançar cifras que giram em torno de R$ 5.000,00. Hoje é possível encontrar “Paêbirú” em CD, lançado pela Shadoks, um obscuro selo alemão. Em 2008 o selo inglês Mr. Bongo lançou este trabalho nas terras da rainha.
Lula Côrtes continuou produzindo músicas, tocando, lançando livros de poesia, até a madrugada do dia 26 de março de 2011 quando faleceu aos 61 anos, vítima de um câncer na garganta, no Hospital Barão de Lucena, Recife.
Já Zé Ramalho se tornou um dos maiores nomes da música brasileira.
O pessoal da banda Tamarineira Village saiu de Nova Jerusalém para começar uma caminhada que paulatinamente foi alargando horizontes em Recife. Segundo o vocalista Marco Polo, durante uma dessas viagens pelo Nordeste, eles encontraram com uma cigana no sertão paraibano, que sugeriu a mudança a mudança de nome da banda para Ave Sangria, pois sua música era livre e forte.
Ave Sangria com a formação após a Feiras Experimental – Na frente Marco Polo, Agrício Noya, Almir Oliveira, Ivinho. Atrás Paulo Rafael e Israel Semente Proibhida.
Logo as apresentações do grupo chamaram a atenção do público, com um formato nada convencional dos seus shows.
O grupo Ave Sangria chegou a vir ao Rio para gravar um disco, cujo destaque foi o samba de breque “Seu Waldir”. O disco foi pouco divulgado pela gravadora, mas conseguiu relativo sucesso e vendeu bem no Nordeste e no Sudeste. Mas a música “Seu Waldir” acabou considerada uma apologia ao homossexualismo, quando não passava de uma brincadeira do irreverente grupo. Reza a lenda que a mulher de um general ouviu a música, achou um absurdo, e ela foi censurada. Pouco depois disso, a banda acabou. Interromperam as atividades em uma apresentação histórica em 1974, com o show Perfumes & Baratchos, no Teatro Santa Izabel, em Recife.
Um dos membros do Ave Sangria, o guitarrista Ivson Wanderley Pessoa, o Ivinho, possui o mérito de ter sido o primeiro brasileiro a se apresentar no palco do 12º Festival Internacional de Jazz de Montreux, na Suíça, em 1978. Nesta época estava sendo formado um grupo de artistas brasileiros para se apresentar em Montreux, do qual faziam parte Gilberto Gil, Pepeu Gomes e o grupo A Cor do Som. Naquele ano Ivinho estava no Rio, onde realizou apresentações que chamaram à atenção do pessoal ligado a música na Cidade Maravilhosa e acabou convidado para ir para Suíça.
Ivinho mandando ver em Montreux.
Foi para a Europa com apenas 25 anos, 50 dólares no bolso e uma viola de 12 cordas surrada. Mas ele surgiu no palco surpreendente, empunhando com galhardia seu instrumento e levando o público presente ao delírio. Com sua técnica e ‘feeling’ particular, Ivinho transformou sonoridades regionais em peças totalmente jazzísticas e psicodélicas. O show foi registrado em disco e lançado no Brasil, com excelente repercussão junto aos ouvintes de MPB e também à juventude ligada em rock and roll.
Ivinho foi considerado por muitos como um dos maiores guitarristas da história do rock brasileiro, mas nunca conseguiu o devido reconhecimento. Faleceu em junho de 2015, de hemorragia digestiva, em decorrência de uma cirrose, no Hospital Otávio de Freitas, Tejipió, Recife.
Houve outras histórias de parcerias, de discos lançados e shows alucinantes.
Mas ficou algum legado?
Com certeza!
Creio que o maior deles tenha sido esses músicos terem influenciado muitos outros jovens ao longo dos anos. Como um certo Francisco de Assis França Caldas Brandão, um rapaz que morava em Rio Doce, um bairro do subúrbio de Olinda. Graças aos amigos, com quem trocava discos e fitas K7, além da psicodelia setentista aqui tratada, ele conheceu o hip hop, a black music e se tornou Chico Science.
Chico Science
O interessante é que muitos dos atuais fãs daqueles que estiveram no palco da “I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém” é formada por jovens brasileiros e também por estrangeiros. O interesse por estas músicas e seus protagonistas voltou a ganhar força nos dias atuais com a internet, que facilita a circulação da informação do que rolava naqueles loucos anos da década de 1970.
Foi num sábado de primavera que de Natal partimos em direção ao sertão do padre Cícero Romão Batista. Na tripulação de quatro amigos (DaMata, Abimael, Homero e Antonio Medeiros), nenhum beato ou devoto do Padim Ciço.
Desde pequeno ouvimos nossos pais e avós falarem das romarias ao Juazeiro do Norte – A Meca do Nordeste. Sempre desejei fazer essa viagem assim como quem tem uma dívida com a sua cultura. Das promessas feitas e das graças alcançadas em tempos de privações e doenças por muitos familiares e amigos. Até os dias atuais essas romarias não arrefeceram e milhares de pessoas continuam fazendo a mesma peregrinação em direção ao Juazeiro onde está situado grande monumento do famoso padre do nordeste brasileiro.
A viagem ao cariri cearense foi feita via Caicó-RN, passando por Brejo do Cruz e Catolé do Rocha, na Paraíba. Terras-origens-cantadas pelos paraibanos Zé Ramalho e Chico César. Depois Sousa – terra dos Dinossauros – e, Cajazeiras. Viagem por um sertão profundo, cheio de mistérios e arcanos indecifráveis. Reserva cultural de um povo atencioso e pronto para qualquer informação. O Cariri Novo, de grandes engenhos de açúcar, beatos, cangaceiros, coronéis e rica cultura popular.
Vale dos Dinossauros, Sousa, Paraíba – Fonte – gestao.patrimoniodetodos.gov.br
O Vale dos Dinossauros
Indo ao nordeste do Brasil e passando em Sousa ( Pb), é obrigatória a visita ao Lajedo da Passagem de Pedras, onde fica situado o famoso “Vale dos Dinossauros” com as pegadas deixadas por dinossauros que habitavam essa região alagada. A visita é melhor ainda se for acompanhada pelo guia Robson Araújo Marques, o “Velho do Rio”. Robson é um norte-rio-grandense, nascido em Florânia e há 35 anos trabalhando nesse importante sítio arqueológico que precisava ser melhor preservado e estudado. Seu avô Anísio Fausto da Silva indo em busca de animais perdidos, descobriu essas importantes pegadas e denominou “Rastro do Boi e da Ema”. Analisada depois por paleontólogos descobriu-se que aqueles rastros que impregnaram os lajedos da “Passagem das Pedras” eram fabulosos rastros de gigantes dinossauros que por ali passeavam e caçavam há milhões de anos.
A Cajazeiras do Padre Rolim
Em Cajazeiras o encontro marcado com o amigo e historiador Francisco Pereira. Um grande estudioso do Cangaço e da cultura nordestina. A paixão de Pereira por esses temas o levou a colecionar e comercializar livros referentes ao Cangaço, Canudos e cultura nordestina. Conversar com o simpático amigo professor Pereira é uma viagem por essa rica cultura de beatos, coronéis e cangaceiros. Já o conhecia via internet e foi uma alegria conversar pessoalmente com ele e comprar uma dezena de livros sobre o nordeste profundo, seus costumes e crenças.
Pergunto ao Pereira sobre o filme “O Sonho de Inacim”, e ele diz que não gostou. Não gostou das liberdades do filme que poderia ser um belo documentário, e não é. Não gostou do pai do menino como cantor brega e achou – como historiador- que o filme presta um péssimo serviço à memória historiográfica nacional ao filmar o padre Rolim num colégio num colégio diferente daquele criado e mantido pelo pioneiro educador Rolim.
“O Sonho de Inacim” – O filme sobre o Padre Rolim
Duzentos anos após o nascimento do padre Ignácio de Sousa Rolim, nascido em 22 de agosto de 1800, o filme o “Sonho de Inacim” resgata a história desse “Educador do Sertão” que viveu na cidade de Cajazeiras, Pb, onde fundou um colégio. O menino Inacim sonha tendo contato com o Pe Botânico e sofre muitas discriminações. Expulso da escola vai para o psicólogo, médico, lançadora de Búzios e deixa a todos perplexos com os seus poderes para-normais. O menino vira celebridade na pequena cidade de cajazeiras já dominada por traficantes. Todas as revelações do menino Inacim são depois confirmadas pelo biógrafo do Pe Rolim, Padre Heliodoro Pires, que escreveu o importante “Padre Mestre Ignácio Rolim”, onde narra o pioneirismo do Pe Rolim no ensino da região da Paraíba. Rolim foi o melhor professor de Grego em seu tempo e a Paraíba teve que lutar para não perder o mestre para Olinda- PE.
O naturalista Pe Rolim de descendência francesa escreveu os importantes livros “Extracto de Gramática Grega” e “Noções de História Natural”, onde descreve a fauna e flora do Sertão. Do colégio fundado pelo Pe Sábio saíram alguns dos maiores sacerdotes e personalidades do Brasil: O controvertido Padre Cícero Romão Batista, o Cardeal Arcoverde (Primeiro cardeal da América Latina), Peregrino de Araújo (Governador da Paraíba 1900-1904), Irineu Joffily (historiador, jornalista e advogado Paraibano) e outros.
Um belo filme dirigido por Eliezer Filho que resgata a fundação da cidade de Cajazeiras na Paraíba (terra do diretor). A importância na nossa formação e cultura dos padres que aqui chegaram. Um belo elenco, fotografia e a música do Chico César. O som das vozes (mesmo em Dolby) não está muito bom.
José Wilker (sempre o mesmo) fez o Pe Rolim. Completa o elenco a excelente Marcelia Cartaxo, como mãe do menino Inacim (Gabriel Batistuta). E o excelente (meu voto de melhor ator) José Dumont – o Miguel do Jegue – toma uma cachaça amuada. O cantor brega Zé das Antas (Fubá) – o pai do menino – deixa a sua mãe e é suspeito de envolvimento com drogas.
Onde estão os restos mortais do padre Rolim, querem saber as autoridades da cidade para comemorar em grande estilo o seu bicentenário em 2000. Ninguém sabe. Inacim diz que o Padre está vivo. Claro, ele está sempre vendo o sacerdote professor e fala com o padre. Vê seu belo museu, etc.
Padre Ibiapina – o “Taumaturgo da Caridade”
Padre Ibiapina nasceu na cidade de Sobral (Ceará) em cinco de Agosto de 1806, seis anos após o nascimento do padre Rolim. Foi um grande peregrino do sertão nordestino e criador de inúmeras casas de caridade. Multidões seguiam seus ensinamentos de amor ao próximo, Mulheres eram acolhidas em suas 22 casas de caridades (dez só na Paraíba) deixadas por ele no Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Piauí e Ceará.
O padre Ibiapina foi o precursor de um catolicismo popular, inspirador de Antonio Conselheiro, Padre Cícero e de muitos outros padres, beatos ( Gedeões) e missionários. Um grande educador do nordeste deixou marcas profundas num séquito de fiéis seguidores, Nas casas de caridades as mulheres abrigadas aprendiam a ler, a contar, Aprendiam cozinhar, artesanar e recebiam também uma educação religiosa e moral. Quantos recém-nascidos não foram deixados na “ Roda dos Enjeitados” ou Expostos e abrigados pelas caridosas do padre educador da Paraíba e de todo nordeste brasileiro.
Padre Ibiapina realizou missões, organizou o povo humilde pólvora dos coronéis, conciliou intrigas, levantou e restaurou igrejas e capelas. Construiu em mutirões, o refrigério do nordeste: açudes, cacimbas e barragens.
O escritor e amigo Bartolomeu ganhou de herança e forneceu a um amigo uma bandeira daquelas usadas nas missões evangelizadoras do grande padre Ibiapina.
No dia 19 de fevereiro de 1883 falece o apostolo Ibiapina e seu tumulo está situado em Santa Fé, Paraíba.
Padim Ciço
O destino motivador da nossa viagem era o Juazeiro do padre Cícero Romão. Juazeiro, árvores que abriga o nordestino do sol inclemente, Já do hotel avistávamos a grande estátua do nosso Padim Ciço. A chegada ali foi coberta de grande emoção e sentimentos que amolecem o coração mais empedernido. Centenas e centenas de ônibus trazem os penitentes numa segunda feira imprensada, véspera do feriado da padroeira do Brasil. Tudo na cidade vive em função do padre Cícero e de suas pregações seguidas por uma multidão de fieis de todo o Brasil. Nordestinos eternamente pregados na cruz de uma terra seca e um sol inclemente.
Padre Cícero Romão Batista
Subimos a serra do horto cheio de penitentes e vendedores da fé, Imagens, fitas do padim Santo e velas para acender e rezar. Ouvem-se muitas rezas e loas em homenagem ao santo do nordeste.
Na casa de orações – ao lado – muitos ex-votos de madeira e fotos, A estátua do padre Cícero ao lado da beata Maria de Araújo, que em 1891 deixou a todos estupefatos quando a hóstia ficou vermelha em sua língua.
Romeiros com suas túnicas marrons, A ordem dos penitentes com seus costumes medievais e seguidores que se flagelam e entoam benditos. Tudo isso compõe um cenário de fé e de uma cultura viva, para alem das discussões acadêmicas sobre a beatitude e comportamento coronelístico do padre Cícero.
Multidões sobem as escadas para chegar mais perto da estátua do padre. Estátua que olha e abençoa o Cariri e seus devotos. Subo também e fico comovido com tanta fé e adorações. Assino meu nome no pé da estátua gigante. Muitos outros assinam formando um manto de letras e preces abençoadas pelo sacerdote nordestino.
Desço e digo para os meus amigos que ficaram em baixo que me sinto purificado. Um responde que estar cansado. Outro diz que tem sede.
É hora de voltar. Promessa cumprida. Muitos pedintes aproveitam para receber um dízimo dos beatos que rezam, pagam promessas e pedem pelos seus entes vivos e mortos.
E o Exemplo De Uma Cidade Potiguar na Preservação de Um Dia Intenso
Autor – Rostand Medeiros
1927 foi um ano bem intenso na história do Rio Grande do Norte. Enquanto os sobrevoos de aeronaves vindas da Itália, Portugal, Estados Unidos e França faziam com que a capital potiguar marcasse presença em jornais de circulação mundial com, o nosso sertão era “visitado” pelo maior bandoleiro da história do Brasil, o cangaceiro pernambucano Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião.
Seu ataque às terras potiguares, junto com um numeroso e feroz bando de cangaceiros, aconteceu em junho daquele ano e tinha como principal objetivo a progressista cidade de Mossoró. Mas ao longo do trajeto algumas comunidades e muitas propriedades foram invadidas, ultrajadas, roubadas e saqueadas. Em um imemoriável frenesi de medo, terror, gritos, sangue e mortes.
O ataque de Lampião ao Rio Grande do Norte jamais foi esquecido nestas comunidades e em alguns destes locais existe uma luta muito interessante e louvável para preservar a memória daqueles dias estranhos e intensos.
Um destes locais é a cidade de Antônio Martins.
A Chegada dos Celerados
Em 2010 eu percorri pela primeira vez o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, passando pelos territórios de dezenove municípios potiguares, como parte de uma pesquisa para o SEBRAE-RN[1].
Cidade de Antônio Martins
Quando estive em Antônio Martins eu conheci e recebi o apoio do escritor Chagas Cristóvão, que na época exercia o cargo de Secretário Municipal de Turismo e Cultura daquela cidade.
Competente pesquisador da história da sua comunidade, Cristóvão comentou que na época da invasão dos cangaceiros a atual cidade de Antônio Martins tinha a denominação de Boa Esperança. Era então uma pequena concentração de casas, onde viviam cerca de 350 a 400 habitantes, sendo parte do território da cidade serrana de Martins[2].
Em 11 de junho de 1927, dia da chegada do bando de cangaceiros a localidade, coincidiu com as celebrações da festa do padroeiro local, Santo Antônio.
De certa maneira esta situação de comemoração, novenas e alegria do povo do lugarejo foi muito útil para o grupo de celerados, pois pegou a todos na comunidade bastante desprevenidos, sendo a pequena urbe rapidamente ocupada. Aquela localidade era o primeiro núcleo urbano invadido pelo bando de cangaceiros de Lampião no Rio Grande do Norte.
Justino Ferreira de Souza, fundador do povoado de Boa Esperança.
Naquele mesmo 11 de junho, o povo de Boa Esperança aguardava a chegada de uma banda de música da cidade paraibana de Catolé do Rocha. Mas por atraso da saída destes músicos da cidade fronteiriça, não ouve o encontro da banda musical com os cangaceiros. Para Cristóvão esta também é outra das razões para a população da cidade ter sido pega totalmente de surpresa quando da entrada do bando. Vale ressaltar que durante a entrada dos bandidos na vila, um deles fazia a função de corneteiro, tocando um destes instrumentos que havia sido capturado dos policiais batidos no combate da Caiçara[3].
Neste período o fundador do lugar e líder político era Justino Ferreira de Souza. Ele foi avisado da chegada do grupo, mas diante do fato consumado decidiu esperar e ver o que acontecia.
Logo o bando adentra a rua principal. Ao perceberem quem eram os cavaleiros o pânico se instalou. Pessoas correram para todo lado. Os cangaceiros atiravam para o alto, gritavam, urravam, batiam e galopavam invadindo e saqueando as casas do lugarejo.
Lampião estava particularmente raivoso. Entre as sandices cometidas em Boa Esperança temos o suplício de Vicente Teixeira de Lira.
Aqui vemos Vicente Teixeira de Lira, que escapou por milagre de morrer nas garras de Lampião e dos seus homens.
O caso começou quando Lira deu uma resposta que o chefe cangaceiro pernambucano considerou insolente e foi “convocado” por Lampião. O humilde potiguar foi então obrigado a seguir à frente do bando, segurando na correia da alimária de Lampião. Em dado momento Lira escorregou no chão de terra e o cavalo do chefe dos bandidos quase lhe colocou no chão. Foi o que bastou para o pobre aldeão levar uma extensa cutilada de punhal. Para piorar sua situação, em frente à igreja de Santo Antônio, outros bandoleiros fizeram pouco caso de sua má sorte e o obrigaram a beber cachaça. Ele quase morreu.
Entre os locais de comércio que foram atacados estava a mercearia e a casa de Francisco Justino, onde os homens armados se abasteceram de vários gêneros e beberam muita cachaça. Com muita conversa, jeito, extremo tato, este pequeno negociante conseguiu que Lampião demovesse os seus seguidores de continuarem na sinistra depredação.
Alguns reféns anteriormente capturados pelos cangaceiros na passagem por propriedades que ficavam localizadas antes desta comunidade conseguiram fugir em meio a toda confusão reinante.
Na vila não faltaram ameaças, espancamentos e roubos de produtos em casas comerciais.
Uma Novaes no Rio Grande
Outro caso que ficou famoso foi no momento em que Sabino, o braço direito de Lampião na empreitada por terras potiguares, saqueava a loja e a residência de Augusto Nunes de Aquino. Sabino se preparava para levar a mulher do comerciante, Dona Rosina Novaes, como refém.
Dona Rosina Novaes, mulher do comerciante Augusto Nunes de Aquino. O sobrenome desta pernambucana do Pajeú fez Lampião diminuir o ímpeto do ataque de seu bando a pequena vila.
No momento de ser colocada em um cavalo e seguir com a turba encourada, Dona Rosina desabafou com o perigoso Sabino, comentando detalhes de sua procedência e a origem do seu nome de família. Sabino, ao escutar o relato da mulher, chamou o chefe na mesma hora.
Lampião descobriu, naquele longínquo lugarejo potiguar, estar diante de uma parenta de Elias e Emiliano Novaes, da cidade de Floresta, na época conhecida como Floresta do Navio, na mesma região do Pajeú. Emiliano Novaes era comerciante, membro de uma proeminente família, tido como amigo e coiteiro de Lampião. Consta que chegou a cavalgar de arma na mão ao lado de cangaceiros[4].
Revista “O Malho”, Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1929, página 28.
Para muitos habitantes da região, a situação na vila de Boa Esperança durante a invasão do bando só não foi mais grave devido a Dona Rosina Novaes. Pelo fato dela possuir laços familiares com pessoas que Lampião respeitava e temia em Pernambuco, fez com que o ímpeto destrutivo do chefe em relação ao lugar fosse claramente abrandado.
Lampião era muito valente, mas era antes de tudo inteligente. Evidentemente ele percebeu que quando retornasse para Pernambuco trazendo consigo a responsabilidade por algo negativo ocorrido a Dona Rosina Novaes, a temida e glorificada capacidade vingativa da família Novaes se faria sentir contra ele e seu bando. O melhor era deixar aquela mulher em paz.
O comerciante Augusto Nunes de Aquino.
Diante da nova situação o chefe refreou os ímpetos violentos tanto dele, quanto do seu bando. Lampião chega ao ponto de se desculpar com Dona Rosina pelo ocorrido. Alegava desconhecer ser o lugar habitado por uma legítima representante do temido clã dos Novaes[5].
Desfeito o “mal entendido”, para Lampião o clima ficou mais tranquilo e ele chega a solicitar que Dona Rosina prepare algo para eles jantarem. Mais adiante, tranquilamente sentado na mesa, mais para se justificar diante dos seus atos e do seu bando, o cangaceiro comenta “o porquê de estar nesta vida” – Comenta aos presentes estar naquela vida bandida como fruto das perseguições que sofria, destilou seu ódio contra a polícia e outras razões.
Diante da esperada respeitabilidade que Lampião passou a demonstrar por Dona Rosina e seu marido Augusto Nunes de Aquino, este último assume o papel de protetor dos habitantes de Boa Esperança.
Por volta das sete e meia da noite, o chefe prepara seu bando e seguem viagem.
Cangaceiros Rezando na Igreja de Santo Antônio
Da época do ataque de Lampião a Boa Esperança, poucos são os locais que se encontram preservados atualmente.
A primeira residência do atual município de Antônio Martins.
Um destes pontos invadidos pelos membros do bando de Lampião é uma interessante residência localizada na Rua Aureliano Saraiva, número 109. Construída em 1898, esta casa pertenceu a Justino Ferreira de Souza e na época servia como uma pousada para os viajantes que trafegavam na região. A casa se mantém original, sendo continuamente habitada e considerada a residência mais antiga e precursora da povoação de Boa Esperança.
O potiguar Luís da Câmara Cascudo e o paulista Mário de Andrade em foto no sertão nordestino.
Ainda sobre este local, segundo Chagas Cristóvão, um ano e sete meses depois da passagem do bando pelo lugar, no dia 19 de fevereiro de 1929, ali chegava um carro transportando quatro homens que visitavam a região sertaneja. Entre estes estavam o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo e o poeta e escritor paulista Mário de Andrade.
A passagem de um dos criadores do movimento modernista no Brasil pela Região Oeste Potiguar tinha como objetivo a observação dos costumes, das manifestações culturais e as características do povo do sertão nordestino. Mesmo passado quase dois anos do ataque de Lampião, chamou atenção do escritor paulista as marcas do medo da população de Boa Esperança diante da terrível “visita” de Lampião[6].
Igreja de Santo Antônio.
Vizinho a esta antiga habitação se encontrava a igreja de Santo Antônio. Construída 1901, este pequeno templo religioso era no dia 11 de junho de 1927 o principal local de realização dos festejos relativo ao padroeiro local.
Até hoje nesta festa religiosa é tradicional a realização das chamadas “trezenas”, onde durante treze dias anteriores ao dia 13 de junho, a data consagrada a Santo Antônio, são realizadas missas, cantos de benditos, encontros e outras participações da comunidade neste templo católico.
Segundo Chagas Cristóvão havia algumas pessoas da comunidade reunidas no local quando os cangaceiros chegaram a Boa Esperança. Logo alguns cangaceiros ficaram diante do templo e, visivelmente embriagados, proibiram a saída dos fiéis do local. De dentro da igrejinha essas pessoas assistiram horrorizados os suplícios do jovem Vicente Lira, que apunhalado e sangrando abundantemente, era obrigado a engolir talagadas de cachaça.
Cristóvão comentou ainda que existe uma versão onde diante da igreja aberta, outros cangaceiros adentraram respeitosamente o local, se ajoelharam, rezaram, se benzeram e depois saíram sem perturbar os atônitos presentes[7].
Velha casa do extinto sítio Alto da Ema, atualmente um bairro da cidade de Antônio Martins.
Na saída da zona urbana do atual município de Antônio Martins, temos a velha casa do sítio Alto da Ema, que então pertencia a um senhor conhecido como “Coqueiro” e hoje dá nome a um dos bairros da cidade. Neste ponto os comandados de Lampião procuraram adentrar residência assobradada, que se encontrava desocupado devido à fuga dos seus moradores. Eles utilizaram as coronhas dos seus fuzis na tentativa de derrubar a porta. Entretanto, fosse pela pressa em seguir adiante, ou pelo excesso de álcool, ou outra razão desconhecida, os cangaceiros não alcançaram seu intento e seguiram adiante no seu caminho de saque e terror.
A Memória da Passagem de Lampião
Em 2007, durante a passagem dos oitenta anos do ataque de Lampião ao Rio Grande do Norte, a prefeitura local decidiu promover toda uma programação destinada a marcar este momento dentro da comunidade. Em uma bela praça de eventos localizada no centro da cidade foi fixada uma placa de bronze com a relação dos trinta e um habitantes da antiga vila de Boa Esperança que sofreram violências ao longo da passagem do bando.
Placa comemorativa ao 80º aniversário da passagem de Lampião por Antônio Martins. Na placa de bronze estão inscritos os nomes de 31 pessoas que foram atacadas em 11 de junho de 1927.
Aos descendentes dos que foram atacados pelos cangaceiros, a Prefeitura Municipal de Antônio Martins outorgou uma insígnia honorífica, personalizada, no formato de uma pequena placa de acrílico, , alusiva aos fatos ocorridos. Esta condecoração foi entregue a alguns dos descendentes em praça pública, no dia 11 de junho de 2007.
Insígnia entregue em 11 de junho de 2007, aos descendentes dos que estavam na povoação de Boa Esperança e sofreram com o ataque do bando de Lampião.
Igualmente nesta mesma data, passava pela cidade de Antônio Martins a cavalgada comemorativa aos 80 anos do ataque a Mossoró, onde foi repetido o mesmo ato simbólico ocorrido na zona rural de Marcelino Vieira, com o descerramento de outra placa comemorativa em relação à resistência ocorrida em Mossoró, quando da passagem do bando pelo Rio Grande do Norte.
Placa da cavalgada dos 80 anos da resistência ao bando de Lampião em Mossoró, fixada em Antônio Martins.
Segundo Chagas Cristóvão a prefeitura de Antônio Martins desenvolveu um projeto visando a criação de um museu destinado a apresentar os principais aspectos da história municipal, onde seria inserido a história do ataque do bando de lampião aquela comunidade.
O museu estaria direcionado para um público local e regional, tendo como outros pontos focais a valorização das raízes locais e o desenvolvimento do turismo regional. Pessoalmente não tive mais informações se este museu foi inaugurado.
Mas louvo todas as iniciativas ali realizadas em relação a memória destes acontecimentos.
[2]O número da população de Boa Esperança na década de 1920 aqui apresentado é uma dedução feita a partir do texto existente sobre a história desta cidade existente no site http://www.wikipédia.org (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Martins), onde lemos que em 1920 havia “81 casas, com 327 moradores já estavam permanentes em Antônio Martins”. Esse número mostra que houve um aumento exponencial na população local, pois vinte e dois anos antes do ataque de Lampião a Boa Esperança, temos a informação que moravam neste lugar cerca de sessenta “fogos”, ou pessoas. Informação contida na mensagem do governador potiguar Augusto Tavares de Lyra, lida na Assembleia Legislativa em 1905 e publicada no ano seguinte, em um interessante detalhamento sobre o município de Martins, Ver “Mensagens lidas perante o Congresso Legislativo do Estado do Rio Grande do Norte”. Tipografia A República. Pág. 116, Natal-RN, 1906. Atualmente, utilizando as modernas rodovias BR-226 e RN-117, a distância entre Antônio Martins e Martins é de uns 35 quilômetros.
[5]Não é muito difícil na região do Oeste Potiguar encontrar inúmeras referências de famílias cujos antepassados eram provenientes do sertão do Pajeú, ou de outras áreas do sertão Pernambuco. Acreditamos que esse processo tem haver com o trânsito de pessoas e mercadorias, que seguiam principalmente em direção a Mossoró, em comboios de cargas transportados por mulas e jegues.
[6]O resultado desta empreitada sertaneja subsidiaria Mário de Andrade a escrever a obra “O turista aprendiz”.
[7]Durante todo nosso percurso pesquisando a passagem do bando de Lampião no Rio Grande do Norte em 2010 e em três outras viagens por este caminho em 2012, 2014 e 2015, esta foi a única informação que consegui sobre a presença de que alguns cangaceiros do bando teriam adentrado um templo católico com o intuito de rezar.
O processo que culminou com a renúncia do presidente Fernando Collor de Mello, em 29 de dezembro de 1992, foi resultado de meses de investigação parlamentarprovocada por denúncias de corrupção divulgadas pela imprensa. Ainda candidato, em 1989, o ex-governador de Alagoas era bem diferente dos políticos da época: relativamente jovem (39 anos), fazia cooper, andava dejet-ski e estampava frases de impacto, como “Não fale em crise. Trabalhe”, em suas camisetas.
Quando assumiu, em março de 1990, sua popularidade começou a ficar abalada ao confiscar o saldo das poupanças bancárias a fim de frear a inflação. Cada pessoa ficou com apenas 50 mil cruzeiros (hoje, cerca de R$ 6 mil) disponíveis e muita gente empobreceu da noite para o dia. Não deu certo: a inflação continuou crescendo e, em 1991, já passava dos 400% acumulados no ano, quando surgiram os primeiros escândalos de corrupção ligados a Collor.
QUEDA LIVRE
Fraudes financeiras provocaram a cassação do primeiro presidente eleito por voto direto após 21 anos de ditadura.
Pedro Collor, irmão do presidente, concedeu entrevista à revista VEJA, em maio de 1992, denunciando um esquema de lavagem de dinheiro no exterior comandado por Paulo César (PC) Farias, tesoureiro da campanha eleitoral de 1989. Fernando acusou o irmão de insanidade mental – desmentida por exames.
O Congresso Nacional criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as denúncias. Vieram à tona esquemas como a Operação Uruguai: empréstimos fraudulentos para financiar a campanha de 1989. Além disso, contas fantasma operadas por PC financiavam a reforma da Casa da Dinda, onde Collor morava.
As ligações do presidente com os golpes de PC ficaram evidentes. Um carro Fiat Elba para uso pessoal do presidente foi comprado com dinheiro vindo das contas fantasma do tesoureiro de campanha. Em agosto, o motorista Eriberto França (natural da cidade de Pau dos Ferros, Rio Grande do Norte) contou à revista Istoé como levava contas de Collor para serem pagas por empresas de fachada de PC.
Em busca de apoio, o presidente fez um pronunciamento pedindo para que a população fosse às ruas, em 16 de agosto, vestida com as cores da bandeira nacional. O povo não atendeu e saiu vestido de preto, em protesto. Entre os manifestantes, destacaram-se grupos de estudantes batizados pela imprensa de “caras-pintadas”.
Em 24 de agosto, um relatório da CPI atestou que US$ 6,5 milhões haviam sido transferidos irregularmente para financiar gastos do presidente. A insatisfação popular aumentou e, em 29 de setembro, o impeachment foi aprovado por 441 dos 509 deputados. Collor foi afastado e substituído por Itamar Franco, seu vice.
Collor foi, então, julgado pelo Senado Federal. Em 29 de dezembro, o presidente renunciou para tentar engavetar o processo e preservar seus direitos políticos. No entanto, por 76 votos a 3, os senadores condenaram o presidente, que não poderia concorrer em eleições pelos oito anos seguintes.
CURIOSIDADES:
– Também foram descobertas compras superfaturadas na Legião Brasileira de Assistência, entidade do governo presidida pela primeira-dama, Rosane Collor.
– Collor foi eleito pelo Partido da Reconstrução Nacional, criado só para abrigar sua candidatura. Em 2000, o PRN virou PTC (Partido Trabalhista Cristão).
– A renúncia foi ofuscada no noticiário pelo assassinato da atriz Daniela Perez por Guilherme de Pádua. A dupla contracenava na novela De Corpo e Alma, escrita por Glória Perez, mãe de Daniela.
– Em 17 de setembro, ocorreu a maior manifestação contra Collor, com 750 mil pessoas lotando o vale do Anhangabaú, em São Paulo.
Que fim levaram?Mortes misteriosas e reviravoltas políticas marcam a trajetória dos principais personagens do impeachment
FERNANDO COLLOR
Absolvido criminalmente pelo Supremo Tribunal Federal em 1994. Em 2006, foi eleito senador – cargo que ocupa até hoje (dezembro de 2012) -, representando o estado de Alagoas.
PEDRO COLLOR
Morreu com 42 anos, em 1994, vítima de um câncer cerebral. A mãe, Leda, sofreu um AVC durante o auge da crise e ficou três anos em coma, até morrer, em 1995.
PC FARIAS
Condenado por sonegação fiscal, falsidade ideológica e outros crimes. Em 1996, em liberdade condicional, foi achado morto com a namorada – ambos baleados – em circunstâncias misteriosas.
OPOSITORES
“Estrelas” da CPI do impeachment acabaram passando de juízes a julgados, caso dos então deputados José Dirceu e José Genoíno, condenados no escândalo do Mensalão.
FONTES:Revistas VEJA e Istoé e jornais Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil; Livros Notícias do Planalto, de Mário Sérgio Conti e Morcegos Negros, de Lucas Figueiredo.
Um interessante texto produzido pela ECEME – Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, sobre a guerra desenvolvida pelos lusos brasileiros contra a invasão holandesa ao Brasil.
Antecedentes – A Europa e o Brasil nos séculos XVI E XVII.
As relações entre as grandes potências europeias no século XVI foram caracterizadas pela expansão comercial e marítima, sendo criados os primeiros impérios coloniais da Idade Moderna, abrindo um novo horizonte geográfico, político e econômico. Na sequência dessa expansão a Inglaterra, a França e posteriormente a Holanda entraram em disputas por produtos, rotas comerciais, portos, territórios (colônias) e mercados, gerando rivalidades que, não raro, resultaram em conflitos armados. Desse conjunto, Portugal era o reino mais frágil, embora fosse detentor de um vasto império colonial que se estendia pelas ilhas do Atlântico, costa ocidental e oriental africana, o Brasil e entrepostos na Ásia. O Brasil, colônia lusitana na América, se distinguia das colônias espanholas do continente americano como uma área de exploração agrícola (açúcar), diferentemente das hispânicas (ouro e prata). Para o estabelecimento do empreendimento açucareiro, notadamente no nordeste do Brasil, os portugueses se valeram do seu conhecimento a respeito de suas plantações de açúcar nas ilhas do Atlântico, como também da experiência dos comerciantes ligados aos investidores, notadamente holandeses no refino, comercialização e distribuição desse produto na Europa. Após a morte de D. Sebastião, rei de Portugal, na batalha de Alcácer-Quibir em 1578, o trono português ficou vago, assumindo a Coroa lusitana Felipe II estabelecendo União Ibérica de 1580 a 1640.
Portugal havia adotado até então uma política internacional prudente, cioso de suas deficiências e vulnerabilidades, evitando atritos nesse campo. A situação foi alterada com a União Ibérica, tendo Felipe II como monarca das coroas hispano-lusitana, herdando Portugal de imediato todos os inimigos dos Habsburgos, ou seja, França, Inglaterra e Holanda. Os Países Baixos, possessão espanhola, se destacavam como polo comercial de vulto no contesto europeu, bem como pela qualidade de suas manufaturas têxteis de grande reputação na Europa e centro de distribuição de produtos coloniais, notadamente portugueses com uma burguesia próspera e atuante. A atuação de Felipe II em relação a essas possessões, pondo fim a uma tolerância religiosa e infligindo um bloqueio às atividades dos batavos, diminuiu a autonomia destes o que foi seguido de forte repressão por parte do duque de Elba e reação por parte dos neerlandeses, escalando o conflito com a Espanha então União Ibérica. Os mercadores flamengos eram os principais compradores e distribuidores dos produtos de Portugal o que foi agravando as medidas adotadas ao comércio batavo com os portos espanhóis e também lusitanos. A fim de enfrentar com maior liberdade de ação às restrições impostas ao seu comércio pelos espanhóis, os batavos encontraram uma solução com a criação da Companhia das Índias Orientais (1602) e a Companhia das Índias Ocidentais (1621) após a Trégua dos Doze Anos inserida na Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), entre a Espanha e a Holanda.
A Companhia das Índias Ocidentais (WIC) tinha o monopólio do tráfico de escravos, da navegação e do comércio por 24 anos, na América e na África negócios aos quais os holandeses estavam ligados há bastante tempo. No contexto dos séculos XVI e XVII ocorreram na Europa guerras e tratados que, influenciaram sobremaneira a relação entre os Estados na Idade Moderna e Contemporânea. A Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), o Tratado de Vestefália (1648) e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) contribuíram para transformar o cenário político, econômico e social europeu, bem como do mundo ocidental, tendo reflexos para as colônias europeias na América, Ásia e África. A Guerra Brasílica, levada a cabo pelos luso-brasileiros contra os holandeses, está inserida nesse contexto do mundo ocidental dos séculos XVI e XVII.
Por que o Brasil? Por que o Nordeste?
As motivações para as invasões e ocupação do nordeste brasileiro, na primeira metade do século XVII, tem ligação no que diz respeito à recuperação dos investimentos na empresa do açúcar e na busca do rompimento do bloqueio comercial imposto pelos espanhóis ao comércio neerlandês nos portos sob controle da União Ibérica. No caso, a América portuguesa, além de ser o polo produtor de açúcar se constituía no elo mais frágil na escala de prioridades de defesa de Madrid.
Barco holandês.
Os núcleos populacionais lusitanos se concentravam ao longo do litoral brasileiro, ao alcance do poder naval batavo, diferentemente dos hispânicos, que se posicionavam nos altiplanos, de difícil acesso e ocupação. A costa brasileira também servia de excelente base de operações contra a navegação castelhana no Caribe e contra a navegação portuguesa vinda da costa da África (escravos) e do Oriente (especiarias), podendo ainda os holandeses se valer do estrangulamento do Atlântico favorecido pelo saliente nordestino, correntes marítimas e ventos predominantes.
A Invasão da Bahia (1624-1625).
A Bahia e Pernambuco foram assim desde o começo os alvos prioritários do ataque neerlandês ao Brasil. Em 1623 o Conselho dos Dezenove da direção da WIC, escolheu a Bahia para sua pilhagem e conquista. Valendo-se na oportunidade da descuidada defesa e de informações sobre a terra e as gentes passadas, na maioria dos casos, por segmentos de Cristãos Novos colaboracionistas preocupados com a assunção de D. Marcos Teixeira ao bispado de Salvador, antigo visitador do Santo Ofício. A 9 de maio de 1624 a frota comandada pelo almirante Jacob Willekens, o seu vice-almirante Pieter Heyn e o governador da ocupação João Van Dorth se apresentaram frente a Salvador. O governador-geral, Diogo de Mendonça Furtado foi advertido do intento holandês, porém a demora da invasão desacreditou as providências.
Ataque de Salvador, tela do pintor flamengo Andries van Eertvelt, cerca de 1624, acervo do National Maritime Museum, Greenwich, Londres, Inglaterra. Retrata a batalha naval na Baía de Todos os Santos para a tomada da Cidade. O navio do holandês Piet Hein está embaixo, à direita. Fonte – http://www.historia-brasil.com/bahia/invasao-holandesa.htm
Na oportunidade as desavenças entre D. Marcos e o governador sobre as medidas de defesa eram grandes. Na sequência houve a tomada de Salvador com a prisão e remessa do governador preso para a Holanda, tendo a maior parte da população se refugiado no interior. A responsabilidade pela reação e assédio aos locais conquistados pelos holandeses recaiu sobre D. Marcos Teixeira. As primeiras táticas de emboscadas e guerrilhas foram levadas a efeito pela resistência baiana, ocasionando inclusive a morte de Van Dorth. Na oportunidade Madri e Lisboa envidaram esforços para a recuperação da capital da colônia, tendo em vista a importância das terras brasileiras para Portugal, enviando uma poderosa frota (Jornada dos Vassalos) para a restauração comandada por D. Fradique de Toledo Osório, importante personalidade do reino, forçando a rendição dos batavos em 1625.
A Invasão e Ocupação de Pernambuco (1630-1636).
A WIC preparou em 1629 uma poderosa expedição para a conquista do norte do Brasil, não sendo mais objetivo a pilhagem e sim o estabelecimento de uma colônia de rendimento. Aos diretores da WIC não interessavam mais a Bahia, fortificada e com permanente guarnição e sim Pernambuco, a donataria mais próspera da colônia lusitana não sendo também a capital do governo geral. Aliado a isso a situação militar da Espanha em relação ao conflito com os Países Baixos e no norte da Itália estava crítica, tendo em vista a falência da monarquia de Castela, não se esperando, notadamente por mar uma reação da União Ibérica. As notícias sobre o intento batavo já haviam chegado a Madri que, enviou Matias de Albuquerque, antigo capitão donatário e governador-geral interino, por ocasião da prisão de Mendonça Furtado em 1625.
Olinda e ações navais holandesas
Matias de Albuquerque trabalhou no aprestamento da defesa, fazendo rodear o Recife de uma dupla linha de paliçadas, obstruindo o porto com embarcações afundadas e posicionando peças de artilharia ao longo da praia de Olinda, impedindo a entrada no porto do almirante Lonch, comandante da frota neerlandesa. A força holandesa bombardeou de fora os fortes do Recife, enquanto Waerdenburch desembarca ao norte de Olinda em Pau Amarelo, guiado na operação por um judeu que morara muito tempo em Pernambuco, vibrando um golpe na resistência portuguesa. Ao deslocarem-se para o sul as forças neerlandesas sofreram escaramuças ao longo da sua progressão e uma resistência maior no corte do rio Doce, que sendo superada atingiu as elevações de Olinda pelo norte, suplantando suas defesas, conquistando-a em seguida. Na sequência desses acontecimentos, Matias de Albuquerque, vendo-se incapaz de defender o Recife, incendeia a povoação, depósitos de açúcar e embarcações fundeadas no porto se internando para oeste.
O Impasse Militar (1630-1632)
Poder naval e defesa local deveriam ser a estratégia utilizada pela União das Coroas Ibéricas, para fazer frente às ações dos holandeses, porém tendo em vista ao declínio do poder naval espanhol e aos recursos da economia e a opulência das sociedades coloniais o ônus da resistência recaiu sobre a colônia. A guerra de guerrilhas era a opção mais razoável, tanto mais que a preocupação dos donatários de Pernambuco em temer, que uma vitória sobre os holandeses por intermédio da ação do poder naval, tivesse como consequência ao fim do sistema de capitanias hereditárias. A conquista do nordeste pelos holandeses durou sete anos de guerra contínua, podendo-se distinguir duas fases de 1630 a 1632 e de 1632 a 1637. Na primeira fase, os holandeses seguiram uma estratégia que visava tomar as praças fortes do litoral, não rompendo o impasse. No que toca aos luso-brasileiros, a escassez de recursos e as dificuldades enfrentadas pela monarquia espanhola reduziram o esforço militar a uma posição defensiva.
Mapa de Recife na época dos holandeses
A Espanha não tinha, na oportunidade, condições de reeditar em Pernambuco, do ponto de vista do poder naval, a “Jornada dos Vassalos”, que possibilitou a retomada da Bahia em 1625. A única estratégia possível foi realização da “Guerra Lenta”, que com a perda do Recife e de Olinda, Matias de Albuquerque isolou os neerlandeses no litoral, impedindo-os de penetrarem na Várzea do Capibaribe, combinando forças convencionais concentradas no Arraial do Bom Jesus e contingentes “volantes”, que ocupavam a linha de estâncias sob a forma de meia-lua estendendo-se de Olinda ao Recife e nos espaços intermediários vagavam as companhias de guerrilha, que com emboscadas e assaltos repeliam as surtidas dos holandeses.
A Ruptura do Impasse (1632-1634) e Ofensiva Final (1635-1636)
O impasse dos dois primeiros anos foi rompido pelos holandeses a partir de 1632. Para tanto, eles dispunham da grande vantagem tática de sua superioridade naval, cuja variedade e mobilidade permitiam-lhes atacar os pontos mais distantes do litoral, dificultando a defesa em acorrer em tempo para fazer frente às ações batavas. As forças holandesas atuavam ao longo dos rios da zona da mata, saqueando e incendiando os engenhos de açúcar e amedrontando a população local, a fim de retirar à sustentação da resistência e com malogrados ataques ao Arraial do Bom Jesus. Por este tempo os holandeses receberam o substancial apoio de Domingos Fernandes Calabar, facilitando as ações de contraguerrilha pelo conhecimento do terreno e da situação. Os efeitos dessa contraguerrilha neerlandesa foram alcançados de certo modo, dificultando o apoio à sobrevivência do Arraial, rompendo o impasse.
Uma vez que a estratégia de contraguerrilha produziu os resultados almejados, havia chegado o momento de a WIC realizar com êxito o atingimento dos objetivos contra as praças fortes luso-brasileiras.
Com a conquista da fortaleza dos Três Reis Magos, no Rio Grande do Norte, onde os holandeses estabeleceram relações com os tapuias, a fim de criar uma aliança que pudesse ameaçar a resistência luso-brasileira vindo do interior. Conquistas na Paraíba e a ocupação do interior da capitania de Itamaracá assinalaram o declínio da resistência, reduzida agora às duas fortificações principais, o Arraial do Bom Jesus e o Cabo de Santo Agostinho. Debates entre os chefes militares a respeito de como conduzir a guerra contra os holandeses tergiversaram sobre a guerra convencional e a guerrilha pura e simples. O Arraial e o Cabo foram sitiados simultaneamente, capitulando em 1635, retirando-se os luso-brasileiros em marcha para o sul, rumo ao rio São Francisco nas Alagoas, onde Matias de Albuquerque planejava fortificar-se à espera de reforços militares enviadas da metrópole, sob o comando do general D. Luís Rojas y Borja. Na passagem por Porto Calvo, onde se encontrava Calabar, Matias de Albuquerque toma de assalto o lugar, fazendo Calabar prisioneiro e executando-o. Ao reconquistar Porto Calvo, Matias de Albuquerque, desimpediu o caminho terrestre para a Bahia para onde retraiu com grande número de luso-brasileiros, ficando o nordeste nas mãos dos holandeses na sua expansão máxima, passando o comando da resistência a Rojas y Borja se dirigindo à metrópole para ser julgado pela perda de Pernambuco.
Entradas e Excursões
O conde Bagnolo, oficial que chefiava o contingente napolitano do exército da resistência, substituiu Rojas y Borja, após sua morte, na derrota luso-brasileira de Mata Redonda (1636). Bagnolo transformou Porto Calvo no trampolim para ataques de campanhistas ao interior de Pernambuco, de Itamaracá e a Paraíba cujos canaviais e engenhos eram implacavelmente incendiados de maneira a impedir que a WIC tirasse proveito econômico do triunfo militar. Esta fase da guerra tornou o exército de resistência impopular junto à comunidade luso-brasileira que havia optado por permanecer no Brasil holandês.
Nassau (1604-1679) – Fonte – pt.wikipedia.org.
O Governo de Nassau no Brasil holandês (1637-1644)
João Maurício de Nassau-Siegen governou o Brasil holandês por sete anos (1637- 1644), se constituindo esse tempo em um período de relativa paz entre os dois períodos de guerra (1630-1636) e (1645-1654). A sua nomeação correspondeu mais aos interesses do Príncipe de Orange do que da WIC. A comitiva de Nassau se compunha dentre outros administradores; de pintores, paisagistas, urbanistas e cientistas, retratando o nordeste brasileiro da época. A relativa paz deste período se contrapunha as entradas e excursões encetadas pelos luso-brasileiros a partir de Porto Calvo, diminuindo-se o ímpeto dessas correrias após a perda de Porto Calvo para Nassau, em 1637. Por ação de Nassau, os luso-brasileiros foram rechaçados para além do rio São Francisco, estabelecendo neste o limite sul do Brasil holandês. De retorno ao Recife, Nassau realizou as duas grandes tarefas que lhe haviam sido confiadas: a organização administrativa do Brasil holandês e a reativação da economia açucareira depois de sete anos de guerra. Tratou Nassau de fixar as fronteiras norte com a conquista de Fortaleza (1637). Objetivou Nassau ainda, assegurar oferta de mão de obra escrava, degradada pelos anos de conflito por conta das fugas de escravos para os quilombos; sua partida para a Bahia na retirada de Matias de Albuquerque; sua incorporação tanto às tropas luso-brasileiras quanto às holandesas e os apresamentos como botins de guerra. Buscou também Nassau obter nas possessões africanas os escravos necessários ao bom andamento da empresa açucareira, ocupando praças portuguesas.
O Sítio da Bahia (1638)
Nassau reavaliou a situação em que apoiava os limites do Brasil holandês na margem esquerda do São Francisco, entendendo que a existência da sede do governo-geral do Brasil em Salvador, comprometia os interesses da WIC, pois eram fomentadas a partir daí as incursões de campanhistas luso-brasileiros, representando uma ameaça permanente, determinando, pois a conquista da Bahia em 1638.
Durante cerca de um mês, Nassau sitiou Salvador, ao mesmo tempo em que punha a ferro e fogo o Recôncavo Baiano não conseguindo ocupar a sede do governo-geral. O poder naval da União Ibérica foi acionado para socorrer o Brasil com a constituição da Armada de Oquendo e do conde da Torre não obtendo sucesso. Em janeiro de 1640, a armada do conde da Torre apresentou-se novamente diante do Brasil holandês, desta vez em busca de uma cabeça de ponte onde desembarcariam seus efetivos, que operariam em sincronia com tropas enviadas de Salvador. Perseguida por uma esquadra holandesa e sem ajuda de ventos e correntes marítima favoráveis, ela derivou ao longo do litoral de Itamaracá, Paraíba e Rio Grande do Norte, sustentando uma série de combates indecisos. A esquadra foi dar nas costas da baía de Touros com 1.200 soldados luso-brasileiros que, capitaneados por Luís Barbalho Bezerra, regressaram à Bahia pelo interior do nordeste com as demais unidades campanhistas, evitando os contingentes batavos que lhes saíam ao encalço e lhes causando baixas.
A Restauração Portuguesa (1640), o Fim do Governo de Nassau e a Conjura Lusa-Brasileira (1644)
Em dezembro de 1640 Portugal se livre do domínio da Espanha pondo fim a União Ibérica, assumindo o trono lusitano o duque de Bragança como D. João IV. Esse acontecimento trouxe uma relevância especial para o destino do Brasil holandês, comprometendo o equilíbrio estratégico no Brasil. Nassau comemorou o evento a fim de transformar Portugal em aliado dos Países Baixos na guerra contra a Espanha.
Engenho de açúcar.
Em março de 1642, Nassau já se dera conta de que, em vez de consolidar o Brasil holandês a Restauração Portuguesa constituía uma ameaça a seu futuro que aliado ao fato do problema das dívidas de senhores de engenho que começaram a ser cobradas pelos credores da WIC, culminando com a sua saída da administração do governo do Brasil holandês em 1644. Com a partida de Nassau em maio de 1644, a conspiração luso-brasileira tomou vulto.
A junta que substituiu Nassau foi a primeira a reconhecer o estado de coisas que poderiam levar a uma conjuração com a possibilidade de um golpe de mão pelo qual as autoridades holandesas poderiam sofrer algum tipo de ação contra sua integridade.
A Insurreição Pernambucana (1645-1654).
João Fernandes Vieira pôs-se à frente da insurreição, pesava sobre ele o fato de que era um dos maiores devedores da WIC ante a possibilidade de devassa por parte da administração do Brasil holandês. A 13 de junho de 1645, Fernandes Vieira e seus soldados internaram-se pela ribeira do médio Capibaribe para evitar, em inferioridade de condições, o confronto com o inimigo. Com o intuito de mitigar o movimento, o governo da WIC providenciou dentre outras medidas a anistia a todos os devedores que participavam de insurreição, exceto os líderes. Os insurretos de Vieira perseguidos pela principal força da WIC derrotaram os holandeses em 3 de agosto no Monte das Tabocas.
Na sequência desembarcaram em Sirinhaém os regimentos de André Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno, transportados por uma esquadra vinda de Salvador, ocupando a vila e marchando contra o Cabo de Santo Agostinho, cuja fortaleza capitulou a 13 de agosto mediante suborno aos neerlandeses. Essa capitulação dava aos insurretos uma base de operações navais com que poderiam se comunicar com a Bahia e Portugal, dando um duro golpe no moral dos holandeses. À junção da força de Vieira com as tropas de Henrique Dias e de Camarão segue-se a reunião com os terços de Negreiro e Martim Soares Moreno que na sequência das Tabocas rumaram contra a força holandesa surpreendendo-a no Engenho de Casa Forte. À vitória em Casa Forte, seguiram-se a rendição dos redutos de Porto Calvo e de Penedo e o êxito do levante da Paraíba, isolando inimigo em Cabedelo. Desta forma, a partir de 1645, os luso-brasileiros passaram a controlar praticamente o interior do nordeste, reduzindo a presença neerlandesa no Recife e nas guarnições litorâneas de Itamaracá, da Paraíba, de Fernando de Noronha e do Rio Grande do Norte.
Detalhe de quadro de Frans Post, mostrando detalhes de um engenho – Fonte – http://www.scielo.br
Os massacres de Uruaçu e de Cunhaú deixaram um rastro de sangue no imaginário luso-brasileiro, do qual se aproveitaram os insurretos. Estabeleceu-se incontinente o cerco ao Recife nos moldes das linhas de estâncias em 1630 a 1632. Sem acesso à produção local de víveres, os holandeses encontravam-se inteiramente dependentes do aprovisionamento vindo de fora do continente. A chegada da ajuda militar ao Brasil holandês forçou o comando do movimento a retirar a população luso-brasileira desde o Rio Grande do Norte até Igaraçu, reduzindo o perímetro de defesa e concentrar efetivos no assédio ao Recife. O socorro chegado ao Recife em 1646 reforçou a posição dos que em Lisboa advogavam a escalada da intervenção portuguesa. O Conselho Ultramarino manifestou-se em prol do envio de auxílio militar por intermédio da Bahia, chamando a atenção d’El-Rei para as divergências entre os insurretos e com o risco de ser solicitada a interferência de um terceiro país ou até negociarem por conta própria um acordo com o Brasil holandês. Em 1646 e início de 1647, D. João IV decidiu sustentar o movimento de modo à utilizar como meio de pressão diplomática contra os Estados Gerais. Nomeou-se um mestre de campo general incumbido de submeter à condução da guerra ao controle da Coroa, Francisco Barreto de Menezes. No segundo semestre de 1646, graças ao reforço enviado das Províncias Unidas para salvar o Recife da rendição pela fome, o governo do Brasil holandês tratou de passar a ofensiva. Ocupou-se Itaparica à entrada do Recôncavo Baiano, obrigando o governo-geral realocar suas forças de Pernambuco para reforçar Salvador. Com a chegada de uma armada holandesa em fins de março e início de 1648, o governo do Recife voltou a debater alternativas estratégicas, sendo a vencedora aquela que deveria romper o assédio do Recife por meio de uma demonstração de força que obrigaria os luso-brasileiros a aceitar uma batalha em campo aberto onde a superioridade neerlandesa terminaria por se impor.
Batalha dos Guararapes
Rumo aos Guararapes e a Campina do Taborda
Os luso-brasileiros por intermédio de ardis próprios da Guerra Brasílica aceitaram o desafio de uma batalha aos moldes da Guerra Holandesa, porém em local devidamente escolhido pelo Conselho de Guerra com o assessoramento de Antônio Dias Cardoso, atraindo os holandeses para um local de difícil desdobramento do seu dispositivo. As 1ª e 2ª Batalhas de Guararapes definiram o destino do Brasil holandês, confinando os batavos definitivamente no Recife e sua posterior capitulação na Campina do Taborda em 26 de janeiro de 1654 e confirmado pelo Tratado de Haia (1661) pelo qual a República Holandesa reconheceu a soberania portuguesa sobre o nordeste brasileiro. Nessa oportunidade a Primeira Guerra Anglo Holandesa (1652-1654) contribuiu para a mudança de prioridades na manutenção do Brasil holandês por parte dos neerlandeses, facilitando a vitória dos luso-brasileiros.
Conclusões
Domínio por parte dos holandeses de todas as etapas da produção açucareira já que dominavam sua distribuição e comercialização valendo-se da posterior produção Antilhana, contribuindo para o declínio da economia canavieira no nordeste brasileiro.
Controle do mercado fornecedor de mão de obra escrava africana pelos holandeses. Portugal cedeu aos Países Baixos o Ceilão e as ilhas Molucas, a título de compensação, além de pagar quantia indenizatória.
Manutenção da integridade do território brasileiro com o domínio do nordeste brasileiro, importante região estratégica debruçada sobre o estrangulamento do Atlântico.
Importância da Guerra Brasílica versus a Guerra Holandesa ou Europeia desenvolvendo a consciência da defesa do solo pátrio.
Desenvolvimento do ideário típico de Pernambuco observado na sua recalcitrante inserção na ordem imperial, depois do malogro das revoluções de 1817,1824 e 1848. Retomada das praças portuguesas na África, especialmente Angola, a fim de se restabelecer o fluxo de mão de obra escrava.
Perseguidos na Europa pela Inquisição, centenas de judeus se exilaram na América no fim da Idade Média. Cinco séculos depois, descendentes tentam descobrir suas raízes
Eduardo Manet não esquece aquela noite de junho de 1943. O tempo estava bom em Havana. Ele e a mãe tinham ido ao cinema. Na volta para casa, o futuro escritor cubano ouviu a mãe explicar que ela havia nascido em uma família “Marrana”. O menino não entendeu imediatamente o que aquilo queria dizer. “Creio que não ouvi direito… o ruído do mar, meus ouvidos zumbiam…”
A frase não fazia sentido para Manet. “Marrano” significa “porco” em espanhol. Confuso, ele perguntou: “Como assim? Você nasceu com os porcos?”. O adolescente, prestes a completar 13 anos, compreendeu na hora que acabara de ferir profundamente a mãe. Com uma expressão séria no rosto, ela explicou ao filho o sentido religioso do termo: “Chamamos de Marranos os judeus sefarditas que foram obrigados a se converter à religião católica no fim do século XV. Eles não tinham escolha: era o exílio ou a conversão. Os que não quiseram abandonar a terra de seus ancestrais nem se converter ao catolicismo acabaram na fogueira”.
Obra mostra cena de explusão de judeus da Espanha em 1492. Muitos deixaram o país, mas outros optaram por ficar e se onverter ao catolicismo. (Xilogravura, Michaly von Zichy, 1880, posteriormente colorizada)
Sessenta anos depois, o escritor manteve gravado na memória esse dia em que descobriu o segredo de sua família. Ele era judeu sem o saber. Ou melhor, era um criptojudeu. Inspirado por essa revelação, decidiu pesquisar mais a fundo a história de seus antepassados. Em 2007, reuniu o resultado de seus estudos para escrever o livro Marrane! (Marrano!), publicado pela editora francesa Hugo et Compagnie. A obra não é apenas uma emocionante viagem à Cuba da juventude do autor, mas também um interessante relato sobre a trajetória de uma família marrana que se refugiou no Novo Mundo para fugir da Inquisição. Em busca das origens, o autor se debruçou sobre sua árvore genealógica e retrocedeu no tempo até chegar a doña Asunción, judia sefardita que foi obrigada a dissimular sua religião na Espanha do século XV.
Naquela época, os judeus eram alvo de uma feroz perseguição religiosa na Península Ibérica. O antissemitismo não era novo. As primeiras manifestações desse tipo de preconceito remontam à Antiguidade, mas só no fim do século XIV a intolerância assumiu a forma de grandes massacres de judeus, os chamados pogroms. A situação dos filhos de Israel só piorou quando, cem anos depois, a rainha Isabel de Castela, conhecida como “a Católica”, assinou vários decretos reais condenando severamente todos os hebreus que não abraçassem a fé cristã.
Há quem garanta que Colombo foi judeu, assim como grande parte da tripulação de suas três caravelas. (Chegada de Colombo na América em 1492, óleo sobre tela John Vanderlyn, séc. XIX)
Milhares de judeus passaram então a esconder sua religião. A Inquisição se mostrou especialmente implacável com eles. Em 1481, muitos Talmudes (livros que registram as leis e costumes dos hebreus) foram queimados em autos de fé organizados em toda a Espanha. Em 1492, os reis católicos tomaram Granada, expulsando definitivamente os muçulmanos da Península Ibérica. Senhores absolutos da Espanha e contando com o apoio do papa Sisto IV, que reconheceu oficialmente a Inquisição espanhola em uma bula de 1478, os soberanos de Castela e Aragão assinaram o Decreto de Alhambra em 31 de março de 1492, que expulsou os judeus do reino espanhol. De acordo com esse texto, todos os súditos hebreus deveriam se converter ao catolicismo ou partir. Apesar da enérgica ação de Isaac Abravanel, funcionário da corte de Isabel de Castela que tentou obter a anulação do decreto, as perseguições se intensificaram.
Centenas de milhares de israelitas (entre 200 mil e 400 mil pessoas, dependendo da fonte) escolheram deixar o país. Alguns foram para Portugal, de onde foram expulsos em 1497. Outros atravessaram o estreito de Gibraltar para viver livremente sua fé do outro lado do Mediterrâneo, no Marrocos. Muitos fugiram para o Oriente – para a Itália, para o leste da Europa, para o Egito ou para a Palestina. Houve os que encontraram refúgio no Império Otomano, onde o sultão Bayazid II lhes ofereceu sua hospitalidade. Os que ficaram (cerca de 150 mil) se converteram, mas um grande número continuou a viver secretamente de acordo com a tradição judaica.
Não era fácil professar a fé na clandestinidade, principalmente na ausência de rabinos e de ensino religioso. Praticados de forma secreta, os ritos e as festas perdiam às vezes o sentido, mas os gestos sobreviveram e foram transmitidos de pai para filho. A comunidade dos marranos na Europa, também chamados de “conversos”, contava com algumas celebridades, como o filósofo Baruch Spinoza (que acabou rompendo com o judaísmo), ou Antoine de Luppes, avô materno do filósofo Michel de Montaigne.
Página original do decreto, assinado pelos soberanos de Castela e Aragão, que determinou a expulsão dos judeus no século XV
Há quem diga que o próprio Cristóvão Colombo era um criptojudeu, mas não há provas que corroborem tal afirmação. A única certeza é que grande parte dos financiadores de sua expedição de 1492 era judia. Entre eles estavam Abraão e Isaac Abravanel, Juan Cabrero, Luis de Santángel, Gabriel Sánchez e Alfonso de la Caballeria. Segundo Lee Friedman, autor de um estudo sobre os pioneiros judeus do Novo Mundo intitulado Jewish pioneers and patriots (Pioneiros e patriotas judeus), vários membros da tripulação das três caravelas da expedição de Colombo seriam judeus. Alguns teriam, inclusive, criado raízes na América desde a primeira missão, em agosto-setembro de 1492. Cada nova onda de conquistadores trouxe novos criptojudeus.
Desde a década de 60, diversas comunidades marranas vêm sendo identificadas no continente americano. Não só em Cuba, mas também em Porto Rico, no Brasil (a partir dos anos 80), no México e nos Estados Unidos. Um dos casos mais interessantes é o de um grupo de moradores da região do Novo México, nos EUA, que, apesar de oficialmente cristãos, seguem há várias décadas as tradições judaicas sem sequer ter consciência disso.
A revelação sobre as raízes israelitas dessa comunidade do sudoeste dos Estados Unidos foi feita pelo historiador Stanley Hordes em 2005 e gerou polêmica entre a população local. Segundo Hordes, o Novo México abrigaria uma das mais antigas comunidades criptojudaicas da América. O historiador de Santa Fé revelou que centenas de viejitos – como são conhecidos lá os velhos habitantes hispanófonos – ignoram que mantêm vivos diversos elementos da tradição israelita há centenas de anos, mesmo se considerando oficialmente católicos.
Eduardo Manet, escritor cubano, que se descobriu marrano: pesquisa resultou num livro que vai da inquisição à Cuba do século XX
Eles evitam, por exemplo, comer carne de porco e acendem duas velas nas sextas-feiras à noite. A oração que recitam em enterros seria muito próxima de uma prece judaica chamada kaddish, mas não existe sinagoga alguma em um raio de mil quilômetros e eles não conhecem a Torá.
Hordes divulgou sua pesquisa no livro To the end of the Earth – A history of the crypto-jews of New Mexico (Até o fim do mundo – Uma história dos criptojudeus do Novo México), publicado em 2005. Nessa obra, o historiador defende a ideia de que os ancestrais dessa “tribo perdida” seriam marranos vindos no rastro de Hernán Cortez, explorador espanhol que conquistou o México em 1519. Segundo Hordes, esses descendentes de judeus teriam se instalado na fronteira norte do império colonial espanhol, no território correspondente ao atual Novo México, onde era mais fácil escapar da autoridade da Igreja e do Estado e praticar sua fé livremente.
Para sustentar sua tese, Hordes cita várias biografias de conquistadores investigados por tribunais espanhóis por causa de suas crenças religiosas. O principal caso seria o de um certo Luis de Carvajal, sobrinho do governador da província de Nuevo León, no México. Ele, sua mãe e sua irmã foram condenados à morte em 1596 por serem judeus. Seu tio e outros 170 marranos teriam então deixado a cidade de Cerralvo, no atual México, marchando em direção ao norte, sem dar nunca mais nenhum sinal de vida. Stanley Hordes acredita que os criptojudeus do Novo México sejam descendentes desses homens e mulheres.
A Expulsão dos Judeus, de Roque Gameiro.
O isolamento dessa comunidade se revelou uma faca de dois gumes. Desenraizados e tendo adotado o calendário romano, eles teriam perdido o sentido das tradições que, no entanto, continuaram observando. Nos últimos anos, alguns desses marranos têm realizado o movimento que os judeus chamam de techuva, o “retorno às origens”.
Stanley Hordes conta o caso de uma moradora da cidade católica de Ruidoso, no Novo México, que empreendeu esse resgate de suas origens ancestrais. Sonya Loya diz sempre ter se sentido judia, mas só recomeçou a observar o Shabbat depois de descobrir a história de suas origens ao ler o livro de Hordes. Na verdade, essa revelação não a surpreendeu. Um de seus tios, ao retornar da Segunda Guerra Mundial, disse ter visto o nome da família em uma lista de prisioneiros dos campos de concentração. Criptojudia, ela decidiu se converter ao judaísmo para se tornar “plenamente” judia.
O caso de Bill Sanchez é ainda mais impressionante, pois esse marrano chegou a ser ordenado padre católico. As revelações de Hordes o abalaram de tal modo que ele decidiu mandar analisar seu DNA. O exame revelou que ele possuía uma série de marcadores genéticos em seu cromossomo Y presentes em 30% dos homens judeus (os cientistas reiteram, no entanto, que não existe um cromossomo “judeu”). Bill Sanchez não renegou a fé católica, mas hoje ele usa uma correntinha no pescoço com a estrela de Davi ao lado de um crucifixo.
AUTOR – Baudouin Eschapasse – Jornalista e colaborador da revista Historia
Durante os mais de vinte anos que durava seu serviço militar, os legionários viviam em áreas de fronteira, sujeitos a uma disciplina severa. Muito do aconteceu com estes combatentes no passado, faz parte da rotina de vários quartéis pelo mundo afora.
Rostand Medeiros
“Um homem que se alista no exército muda de vida completamente. Para de ser alguém que toma suas próprias decisões e embarca numa nova vida, deixando para trás a anterior”.
O grego Artemidoro de Daldis, também conhecido como Artemidoro de Éfeso, que viveu na segunda metade do século II D.C., explicou em seus escritos a mudança drástica da sua vida quando se tornou um legionário romano.
Naqueles tempos muitos queriam seguir por esse caminho, pois além da demanda por soldados ser intensa em meio a tantas guerras, a carreira oferecia muitos incentivos aos candidatos. Roma precisava a cada ano de 7.500 e 10.000 novos recrutas e a vida no exército garantia comida, abrigo e um salário que, se não fosse bem superior ao de um trabalhador livre, tinha a vantagem de ser corrigido.
Havia também atendimento de saúde, oportunidades de promoção interna, bem como certos privilégios ao lidar com processos judiciais.
Durante o serviço o combatente romano poderia aprender uma profissão, aprender a ler e escrever e receber uma melhor assistência médica do que a média dos outros romanos. Além disso, o graduado receberia uma quantia de dinheiro ou terras ao fim da carreira.
Naturalmente não faltavam exigências: o legionário devia obedecer às ordens sem contestação, onde suas faltas eram punidas com fortes castigos corporais e a pena de morte era aplicada sem grandes opções de defesa. Também eles não podiam se casar legalmente, embora na prática muitos soldados tivessem mulheres e filhos não reconhecidos oficialmente.
A vida no campo
Tal como hoje em qualquer exército, para um homem entrar numa Legião Romana (Romana Legio, em latim) tinha de cumprir uma série de requisitos verificados pelos oficiais de recrutamento. Como o serviço durava cerca de vinte e cinco anos, o candidato tinha de ser jovem, com não mais de vinte anos de idade. Era dada preferência aos homens do campo, porque eles viviam em condições duras e eram naturalmente preparados para aguentar mais facilmente os rigores da vida militar.
A altura ideal de um recruta para infantaria, ou cavalaria, variou entre 1,72 e 1,77 metros de altura, embora não eram rejeitados aqueles mais baixos, mas tinham que ser fortemente constituídos. No final do Império a exigência de altura caiu para 1,65.
Uma certa simplicidade e ignorância também eram necessários a este militar, com vista as fileiras não terem homens que questionassem as ordens recebidas. Mas, para ocupar cargos administrativos, isso não excluía alguns recrutas que tivessem educação em letras e números.
Era muito valioso para as Legiões aqueles que trouxessem da vida civil uma profissão e habilidades úteis para a vida nos acampamentos, como ferreiros, carpinteiros e caçadores. Alguns fizeram uso de cartas de recomendação escritas por pessoas influentes, em que as suas competências foram exaltadas.
Após o recrutamento o legionário estava destinado a sua unidade, inicialmente em um pequeno quartel localizado nas brenhas do Império Romano, onde o novo militar viveria de uma forma totalmente diferente do ambiente civil.
Estes aquartelamentos tinham uma estrutura comum, embora cada um pudesse apresentar as suas próprias particularidades.
Normalmente sua forma era retangular e sua extensão cobria cerca de vinte ou vinte e cinco hectares. Havia duas ruas principais: a via principalis, que ficava no centro e nas laterais do campo; e a via praetoria, que era a entrada principal, que seguia até o coração do acampamento. No centro geralmente ficava a sede administrativa da unidade militar, o comando. No mesmo ponto poderia haver uma grande praça, um pórtico, ou um templo. Este último era o espaço mais prestigiado, onde altares, estátuas e bustos de imperadores ficavam expostos e mantidos, além dos padrões e a águia que representava a Legião.
Ao lado destas dependências normalmente ficava a residência do comandante, sempre de qualidade superior, onde este vivia com sua família e sua comitiva de escravos. Aos centuriões e legionários sobravam as dependências comuns e coletivas do quartel.
O hospital (do latim “hospes”, que significa hóspede, dando origem a “hospitalis” e a “hospitium”) era um edifício essencial.
Ali era comum a presença dos soldados atingidos por ferimentos de combate ou, mais comumente, por doenças e acidentes da dura rotina diária. O hospital costumava ter um pátio central, em torno do qual os alojamentos para os enfermos estavam prontos. Os militares eram assistidos por médicos militares com certo grau de profissionalismo. As descobertas de instrumentos médicos e informações de receitas criadas por médicos militares indicam uma maior qualidade de cuidados que os militares recebiam em relação a um civil que não tinham recursos para pagar um médico particular.
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Muitos soldados viviam em longos barracões, onde era normal serem alojados cerca de cinquenta homens, que por sua vez eram subdivididos em grupos de dez. Cada um desses grupos, chamados Contubérnio, tinha duas pequenas salas, com cerca de cinco metros quadrados cada: uma para a guarda de bens pessoais e armas e outra que servia como dormitório.
Embora possa parecer um pequeno lugar para viver, era muitas vezes melhor do que as condições de habitação que viviam os civis romanos de baixa renda. Mas também na maioria das vezes os soldados estavam sempre em suas tarefas diárias fora do quartel.
O centurião tinha o seu alojamento em quartos mais espaçosos, em uma extremidade da unidade militar e sua missão era comandar. Muitos centuriões buscavam uma positiva convivência com seus homens nos quarteis, mas muitos agiam duramente e com muita brutalidade e arbitrariedade. Alguns centuriões utilizavam pedaços de madeira para punir adequadamente as faltas dos soldados, ou durante os treinamentos. O historiador Públio Cornélio Tácito, ou simplesmente Tácito, deixou escrito a história de um centurião chamado Lucílio, extremamente cruel com seus comandados. Este costumava quebrar fortes pedaços de pau nas costas dos subordinados como forma de disciplinar. Era tão cruel que foi morto em um motim.
Um suborno no momento certo poderia fornecer benefícios, como uma folga desejada, expandir uma já concedida, ou fazer com que o soldado recebesse tarefas mais confortáveis. Em uma carta de um soldado chamado Claudio Terenciano Mauro, atestava que no exército “nada era conseguido sem dinheiro”.
Tarefas e manobras
Ficaram cuidadosamente registradas para a posteridade as atividades diárias da Terceira Legião. Este grupo militar ficava baseado na região da Cirenaica, na costa oriental da moderna Líbia e as informações que chegaram até nossos dias consistia das atividades dos soldados durante os primeiros dez dias de um mês de outubro, no final do primeiro século D.C..
Tal como nos atuais quarteis pelo mundo afora, era dada muita importância aos turnos de guarda, aos componentes da vigilância do aquartelamento, da disposição dos homens na área, etc.
Havia legionários que eram responsáveis pela manutenção dos calçados, armas, latrinas e banheiros. Outros realizavam escoltas de oficiais, em tarefas fora do acampamento, ou executando patrulhas nas estradas.
Além de tarefas individuais os soldados treinavam muito, tanto de maneira individual, ou em grupo. Realizavam pesadas marchas de desempenho e formação de grupos de ataque e defesa. Os vários exercícios e manobras eram realizados com tal rigor que no primeiro século D.C., o historiador judeu Flávio Josefo comentou admirado que os exercícios pouco diferissem da própria guerra, onde cada soldado se exercitava todos os dias, com a maior intensidade possível.
Comida, entretenimento e religião.
Legionários faziam duas refeições por dia: café da manhã (prandium) e jantar (jantar), o principal, no final do dia. A dieta básica de um legionário consistia basicamente de cereais (principalmente trigo), carne, verduras, legumes, lentilha e feijão. A caça e a pesca realizadas próximo aos acampamentos poderiam contribuir para uma melhor alimentação. Às vezes os soldados pediam nas cartas aos seus familiares que estes lhes enviassem comida extra. Os oficiais tinham uma maior variedade, qualidade e quantidade de alimentos. Para beber havia água, cerveja e vinho azedo. O fato de cozinhar e comer juntos proporcionava muita camaradagem entre os soldados romanos.
O legionário tinha várias opções para aproveitar seu tempo livre. Uma delas era os locais de banho, como as fontes, rios e lagos próximos aos acampamentos. Eram locais adequados não só para a higiene e descanso, mas também para a vida social e jogos de azar.
Eles poderiam ir para as comunidades que surgiam na sombra dos grandes aquartelamentos, que foram chamados canabae. Havia sempre os comerciantes ansiosos para aliviar os bolsos dos legionários, tabernas para beber, jogar e até os prostíbulos. Mas nestas comunidades também viviam as famílias dos legionários, embora pareça que estes também pudessem ter habitado dentro dos acampamentos.
Estes locais tornaram-se ao longo do tempo as vici (aldeias) e deram origem a cidades. Alguns acampamentos possuíam um anfiteatro, como em Caerleon (ao norte da cidade de Newport, Gales do Sul, Grã-Bretanha), em que, além de lutas de gladiadores, ou caçar animais selvagens, eram realizadas paradas militares e exibições de lutas pelos próprios legionários.
O exército romano não negligenciava a vida religiosa de seus soldados, o que servia como um aglutinador entre as pessoas de diversas origens e favorecia o equilíbrio pessoal. Cerimônias religiosas em honra dos deuses e divindades oficiais, como Júpiter, eram incentivadas. Os feriados religiosos eram também uma válvula de escape para a rotina diária e permitia alguma flexibilização dos costumes. Oficiais, ao lado dos simples soldados, podiam adorar os deuses em particular harmonia.
A fim de alcançar a adesão e lealdade dos legionários a Roma e ao imperador que estava no poder, eram comuns as festas pela ocasião do aniversário do imperador, ou a celebração da fundação de Roma.
Como um incentivo em sua vida militar o legionário romano tinha um salário regular, que sob o Imperador Augusto ascendeu a 225 pence por ano. Este montante que aumentou gradualmente à medida que o avanço do Império Romano foi acontecendo. Embora neste pagamento houvesse deduções ocasionadas pela alimentação, manutenção de equipamentos e outras despesas, aparentemente muitos soldados conseguiam economizar até vinte e cinco por cento do salário anual. Além disso, o aumento no efetivo do exército implicou em um aumento considerável no dinheiro circulante nos quartéis salário, fazendo com que um centurião pudesse ganhar mais com subornos pagos pelo maior número de soldados.
Como a renda adicional os legionários tinham ocasionalmente contribuições extraordinárias pagas pelos imperadores. Isso acontecia por vontade dos mandatários romanos, por vitórias, ou em ocasiões especiais. Nestas ocasiões as tropas foram pagas proporcionalmente, de acordo com a patente militar.
O prêmio de uma vida de serviço
Afora a morte, que não era algo nada excepcional naqueles tempos, existiam três maneiras do militar de deixar a sua Legião.
O primeiro era resultado de uma grave doença, ou lesão que deixava o combatente inútil para o exército. A chamada (missio causaria). Nesse caso, tal como hoje, o legionário era licenciado após um rigoroso exame de sua condição.
O segundo caso era por haver cometido atos criminosos que provocavam a sua dispensa desonrosa e desqualificação de qualquer serviço imperial. Conhecida como (missio ignominiosa).
Por fim havia os legionários, cerca de metade do efetivo, que conseguiram sobreviver aos vinte e cinco anos, ou mais, de serviço e eram licenciados com honra (missio honesto).
Uma vez licenciados estes homens tinham uma série de direitos e privilégios como cidadãos e veteranos.
Eles estavam isentos de muitos impostos e recebeiam um tratamento preferencial em relação à justiça. Se quisessem eles também poderiam legalizar seu estado civil. Estes combatentes recebiam um documento escrito, que declarava a sua dispensa. Alguns destes militares se destacavam tanto que recebia um diploma de bronze, com o detalhamento do seu status legal como soldado veterano.
O licenciamento permitia aos legionários “voltarem para suas casas”. Mas muitos não voltavam para lugar algum, pois durante a sua vida aquilo que significava “casa” sempre foram seus quartéis.
Muitos receberam terras perto de seus acampamentos, ou na região onde eles tinham servido. As parcelas de terras reservadas para cada licenciado eram delimitadas por técnicos agrários, em um processo chamado centuriação. Isso era interessante, especialmente se eles tinham casado com mulheres das regiões dos aquartelamentos.
Aqueles que tinham sido centuriões poderiam desfrutar de uma boa posição na cidade onde eles decidiram fixar sua residência e até atingir os mais altos escalões do judiciário local. Outros investiam suas economias visando abrir um negócio; por exemplo, a venda de cerâmica, ou espadas.
Mas diferentemente dos centuriões, os legionários veteranos, mesmo com certos reconhecimentos por parte do Império, normalmente tinha uma vida muito dura no fim de sua existência. Na maioria dos casos muitos terminavam com o corpo mutilado pelas feridas, com saúde limitada, recebendo salários miseráveis que recebiam em troca de uma vida de dedicação e lutas. Mas, por incrível que possa parecer, estes soldados viviam melhor do que muitos civis pobres do Império Romano.
LEIA MAIS
Legionário. O (não oficial) manual do legionário romano. Philip Matyszak. Akal, Madri, 2011.
O Exército Romano. Adrian Goldsworthy. Akal, Madri, 2010.
A legião. Livro X da Quinta Licinio Cato. Simon Scarrow. Editorial Edhasa, Barcelona, 2012.
Um sujeito forte, de olhar mortífero e desconfiado, à sombra de um boné, me situou quanto ao itinerário:
“Aqui é Carnaúba”.
É um distrito de Senador Georgino Avelino, cidade vizinha ao meu destino, Arez, esta a segunda vila fundada na então capitania do Rio Grande, em 1760, cuja história registra presença de piratas franceses e espanhóis desde o final do século XVI, no escambo com índios por madeiras nobres, sobretudo pau-brasil – Extremoz foi a primeira.
Isso foi na última quarta-feira (23), dia em que eu e o fotojornalista John Nascimento saímos de Natal em busca de um paraíso perdido, em seu potencial turístico.
Arez tem 14 mil habitantes e uma das igrejas mais antigas do Estado
Por R$5,20 peguei o ônibus na praça central de São José do Mipibu rumo a Arez, casa de 14 mil habitantes e de diversas atrações para além de sol, mar e areia.
Ainda na estrada, vislumbro um naco de terra coberto por vegetação fechada,
com um cruzeiro cristão no centro, cercado por águas sossegadas.
Falo de um dos maiores patrimônios históricos desta esquina da América do Sul: a Ilha do Flamengo, encravada na Lagoa de Guaraíras, palco de uma batalha selvagem entre holandeses e portugueses, no tempo em que aqueles tomaram parte do nordeste da Coroa lusitana.
A Lagoa abrigou uma aldeia chefiada pelo cacique Jacumaúma, dissidente da antiga Papari, hoje Nísia Floresta – sua taba ficava na atual Usina Estivas, enquanto outro aglomerado indígena sob seu poder ficava na Lagoa de Aranum.
Esse pacote cultural fica distante 60 km da capital potiguar, à espera de um olhar sensível ou da gritaria generalizada por investimentos equivalentes a meia dúzia de suingueiras patrocinadas a fole por prefeituras.
Antes das 09h estávamos em companhia de Ricardo Dantas, coordenador da Secretaria Municipal de Cultura e de Eclécio Fernandes, gestor ambiental e funcionário da Secretaria do Meio Ambiente.
Ao chegarmos à Lagoa, uma notícia preocupante: a maré baixava, o que vetava barco em direção a Ilha.
Era atolar o pé no mangue ou voltar outro dia.
APA Bomfim-Guaraíras
Seguimos por uma trilha ainda em terra firme, dentro da Área de Preservação Ambiental Bomfim-Guaraíras.
É uma porção do RN com 42 mil hectares, delimitado em 1999 via decreto estadual – mas só dez anos depois o Ministério Público começou a caçar licenças de carcinicultores; a partir de 2012, o IDEMA começou a explodir viveiros para, enfim, o manguezal se restabelecer e a fauna revigorar.
Hoje Senador Georgino Avelino e Arez formam um conjunto natural importante para o ecossistema do Estado, em um corredor ecológico que vai até Baía Formosa.
Ecossistema da Lagoa revigorou com fim da carcinicultura
Quem me explicou tudo isso, no dia seguinte a minha ida a Arez, foi Gustavo Szilagyi, geógrafo, mestre em desenvolvimento regional, professor universitário, ex-diretor do IDEMA e atual supervisor de fiscalização ambiental da prefeitura de Natal.
Segundo ele, “A APA Bomfim-Guaraíras é da categoria de uso sustentável. É administrada pelo IDEMA e teve por principal objetivo salvaguardar e manter os recursos hídricos. É uma APA muito extensa. Envolve também a Mata Atlântica, extremamente importante para o Estado, pois na Lagoa do Bomfim é de onde parte a adutora Monsenhor Expedito, que abastece 23 municípios da região Agreste e Trairi. E essa APA ainda não tem um plano de manejo, não está regulamentada”.
A Ilha do Flamengo também é um importante berçário de aves silvestres.
Gustavo foi professor de Eclécio, nosso guia na jornada e morador de um sítio deslumbrante às margens da Lagoa.
O jovem de 20 anos empunhava um facão e nos explicava as dificuldades enfrentadas para manter o equilíbrio ambiental na redondeza.
“Nossa maior dificuldade aqui é a questão do desmatamento e do cuidado com o lixo. Um exemplo disso é que algumas pessoas utilizam a Lagoa de Guaraíras para divertimento no final de semana, mas deixam garrafas e sacolas plásticas na margem. Aí a maré enche e as correntes marítimas levam para outro espaço. Isso polui o mangue, alguns animais comem esse lixo. Aqui já aconteceu de tartaruga, que sempre tem entrado na Lagoa, comer esse lixo e morrer. E nas matas é o desmatamento, com frequência”.
Na medida em que nos aproximávamos da Ilha, o solo amolecia, com aquela pasta acinzentada e odorenta cada vez mais acima da canela. Para firmar o pé era preciso enfrentar uma espécie de corredor polonês de mariscos sob a lama. Qualquer vacilo, abriria um talho.
Ilha das lendas
Um dos cronistas holandeses da época das Invasões, Joan Nieuhof permaneceu no Brasil entre 1640 e 1649, a serviço da Companhia das Índias Ocidentais.
Assim ele descreveu a Ilha do Flamengo, em seu livro Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil:
“No lago de Groaíras, há uma quantidade incrível de peixes e a região produz farinha em grande escala. Daí vieram os fartos abastecimentos de carne e peixe para as nossas guarnições da Paraíba e outras partes, durante a rebelião dos portugueses”.
Em língua indígena, Guará significa ‘Pássaro’, e Iras, ‘peixe’.
Senhores da Ilha, os holandeses edificaram uma casa-forte no alto do terreno, voltada para onde fica a atual Tibau do Sul.
Ilha do Flamengo fica na Área de Preservação Ambiental Bomfim-Guaraíras
Duas trincheiras de tropas luso-brasileiras, comandadas pelo ‘governador dos pretos’ Henrique Dias, massacraram 40 neerlandeses e um sem número de índios e escravos africanos “[…] não perdoando o sexo nem a idade”, segundo relato do Frei Rafael de Jesus.
O confronto durou toda a madrugada de 06 de janeiro de 1648, e somente cinco holandeses conseguiram fugir.
Trinta anos após a matança, os jesuítas fundaram a aldeia de Guaraíras – apesar dela existir em caráter oficioso desde 1647.
Seria a origem oficial de Arez.
E de lendas, como a existência de tesouros enterrados e de espíritos dos mortos na batalha a vagar e atormentar curiosos.
Semanas após a leitura de Luís da Câmara Cascudo, Tavares de Lyra, Olavo de Medeiros Filho, Marlene da Silva e Luiz Eduardo Brandão Suassuna e do Monsenhor Paulo Heroncio de Melo, venci o mangue o cheguei a Ilha do Flamengo.
Logo de cara, uma triste constatação: garrafas pet, copos d’água, sacolas de supermercado, latas de cerveja e até um sapato nos lembravam de que a besta humana é incansável, incurável e chega aos recantos mais impossíveis.
Lixo abandonado por frequentadores da Lagoa chega ao coração da Ilha
Uma trilha íngreme força o visitante a pensar que todo esforço é pouco para vivenciar um lugar místico, com resquícios de um passado que o poder público insiste em nos negar.
Dois minutos antes de chegarmos ao centro da Ilha, vejo o buraco profundo cavado por um antigo morador, após sonhar com moedas de ouro enterradas nos Seiscentos – algo comum durante os séculos de colonização das Américas.
Um urubu nos assusta, ao sair do buraco fantasmagórico.
Até que descemos uma encosta, diante de uma gameleira imponente, onde restos do fortim holandês estão incrustrados.
Se isso gera pouca ou nenhuma emoção em quem toma conhecimento dessas histórias através de livros ou pela boca de algum conhecido, lamento bastante.
Porque, para mim, ter a oportunidade de saltar das páginas impressas e sentir a brisa, o cheiro, o calor, em meio àquelas plantas tropicais, como sentiu um holandês do século XVII, teve algo mágico, algo inexplicável nesta nota alongada de Sábado de Aleluia.
Cansados, fizemos o percurso de volta com pressa – o nativo Ricardo desconhecia a Ilha naquela condição.
Tínhamos um canhão, um cemitério e algumas pessoas para conhecer.
A cidade
A Ilha do Flamengo fica no distrito de Patané (de Pati-Hé, Palmeira ruim, que dá frutos mirrados), coisa de cinco minutos do centro de Arez.
Arez é bucólica, pacata, com encantos inesperados
Como em todo lugar, existe um ranço entre a sede do município e seus ‘afluentes’ – assim como o natalense da Zona Sul debocha do da Zona Norte e com mossoroenses.
Uma besteira sem tamanho.
Sei que a tarde iniciava, senhoras mostravam sua arte em renda de labirinto nas calçadas e o dindim de mangaba (R$0,75) amenizava a fúria do Astro-Rei.
Fomos ouvir o prefeito Erço de Oliveira Paiva, em seu ultimo ano de administração.
Indagamos sobre o que foi feito nesses quase oito anos de gestão para divulgar a cidade, oferecer estrutura aos forasteiros e revelar a riqueza cultural do entorno às crianças aresenses.
Eis sua resposta:
“Nós sabemos que a cultura é importante, a história, a tradição deve ser preservada. Com relação a Ilha do Flamengo, há um projeto nosso de fazer um terminal turístico. Já existe o projeto. Isso demanda uma parceria com o Ministério do Turismo, mas com essa crise a gente não conseguiu ainda alguma verba”.
O prefeito informa que seriam necessários quase dois milhões de reais para a construção do terminal e que sente orgulho em guiar o destino de um lugar de história tão rica.
Peça de artilharia holandesa fica na praça central
Do canhão ao frontal
Após a breve entrevista, conhecemos o frontal do cemitério de Arez, bloco arquitetônico em estilo rococó dos mais impressionantes neste Estado, construído pelo Frei Herculano, em 1882.
O Frei nasceu Hermenegildo Vieira da Costa, em Uiraúna, na Paraíba. Ordenado sacerdote pelo Seminário de Olinda, ele mudou de nome e peregrinou pelos dois Estados, vestido com o hábito de são Francisco.
As colunas da ordem coríntia dividem o frontal em cinco partes, com arcada central de acesso (o portão original foi roubado) e quatro painéis ornamentados para nos congelar, diante tanta beleza.
O monumento é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN.
Bem perto dali, como um conjunto de obras emolduradas por um céu azulado e gente sorridente, a praça central e a Igreja Matriz nos obrigou a postergar a volta no horário programado.
Da conversa de mais de uma hora que tivemos com o tabelião Giovany Teixeira de Menezes (foto), homem viajado e de raro nível intelectual, saíram os pormenores que acercam Arez como uma realidade incompleta.
Tabelião Giovany Teixeira é natalense, mas mora em Arez desde 1993
“O canhão, na verdade, se você observar, é diferente daqueles que tem lá no Forte dos Reis Magos. Outros só existem lá em Pernambuco ou aqui na Paraíba. E Arez tem um canhão. O que me chama atenção é que, certa vez, fui visitar a Europa e fui no museu da guerra em Paris e vi que os canhões de lá são iguaizinhos ao que tem aqui. Portugal não produzia armamento. Todo armamento que a Coroa tinha era comprado dos franceses ou dos ingleses. E o daqui de Arez não é característico dos portugueses e, sim, dos holandeses. Era uma coisa abandonada, não tinha valor nenhum, vivia jogado no meio da rua. Era uma coisa que ninguém queria, que servia de banco de pracinha. Foi na administração de um prefeito nos anos 1970, chamado José Ferreira, que colocaram naquele lugar e deram cuidado. Mas fizeram uma coisa que não deveria ter sido feita: entupiram de cimento, para que não ninguém jogasse lixo dentro do canhão”.
Um hipotético segundo canhão protagoniza outra lenda aresense.
Giovany diz que antigos moradores, via tradição oral, juravam que ele existiu e que o coronel João Aureliano de Lima, poderoso aliado de Aluízio Alves e primeiro prefeito da cidade (Arez foi alçada a essa categoria em 1938), teria escondido em sua fazenda.
Fato é que ninguém precisa o destino do objeto, cujo ‘irmão gêmeo’ decora a praça – ainda que Giovany acredite que o segundo canhão esteja na Ilha do Flamengo, soterrado pela mata.
“Eu não gostaria de fazer uma crítica a pessoa que está na prefeitura, mas, de um modo geral, a um descaso histórico. Eles não sabem o que é cultura. Não entendem o processo da cultura numa sociedade. Eles também não tiveram essa cultura, pois é preciso ter para dar valor a esse processo de transformação de um individuo. Quem administra um município que não abraça uma politica voltada para isso, simplesmente está fazendo papel de correntista de banco, só administrando conta corrente. Isso não é gestão, isso não é administração, não é desenvolver um município. É um faz de conta que eu administro e vocês fazem de conta que são administrados”.
No trajeto de volta para casa, pensei no que disse o tabelião.
Três técnicas em enfermagem falavam sem parar, no micro-ônibus sacolejante que gasta mais tempo entre Parnamirim e o viaduto de Ponta Negra do que de Arez até o início do engarrafamento da Grande Natal.
A empolgação das mulheres era total.
De repente, toca o celular de uma delas, sonorizado por uma música estridente que entendi ser um dos atuais forrós de sucesso.
“Diz!”.
Ela abriu um sorriso, olhou para as amigas.
“Não, faz tempo que já sai. Tu num sabe que só volto amanhã?”.
É o desejo de quem visita aquele pedaço de chão com tantas possibilidades outrora chamado Vila Nova de Arez.
Logo ao amanhecer, os homens eram levados para as plantações, que ficavam a até 1 quilômetro distância, e as mulheres faziam as tarefas doméstica na casa grande
Alimentação
Só havia uma refeição no fim do dia. A comida insuficiente para a nutrição, era feita num panelão pelas escravas, com canjica feijão e inhame. Carne, muito raramente
Feitores
Homens armados ficavam do lado externo da senzala, guardando as portas para impedir fugas. Também eram encarregados de organizar expedições para recapturar foragidos água, que os escravos usavam para se lavar
Sexo
Escravas eram encaradas basicamente como reprodutoras. Também sofriam violências sexuais e eram obrigadas a participar de orgias com os fazendeiros e os filhos e amigos deles
Festas
Os escravos mantinham os antigos rituais africanos. Suas danças foram mudando e ganhando movimentos de luta, que serviam para defesa pessoal, caso da capoeira
Valor
O preço de um escravo no século 19 variava muito, dependendo, por exemplo, da idade. Alguns valiam 400 mil réis, o suficiente para comprar um bom sítio na época
(Representação de um engenho. Infelizmente não encontrei a legenda dos números, mas podemos notar que se trata de um engenho movido a água. 1) Casa-grande, 2) Capela, 3) Senzala, 9) Roçado, 11) Canavial. – Fonte – http://www.joseferreira.com.br/
Barracão
Os escravos ficavam num barracão coletivo, de teto baixo e sem janelas. Dormiam no chão de terra ou em camas de tábuas. Um fogo ficava aceso para aquecer e iluminar
Religião
Proibidos de praticar rituais religiosos na senzala, os escravos mantinham seus lideres espirituais. E outros falavam aos mais novos sobre seus deuses e espíritos protetores
Acomodação
Em geral, homens, mulheres e crianças ficavam no mesmo cômodo. Algumas fazendas separavam os três grupos e outras mantinham os filhos com as mães até a adolescência
Escravos fujões ou rebeldes eram acorrentados a troncos em frente à senzala, como exemplo. Outros tinham que andar com grilhões nos pés e pescoço
Higiene
Sem água corrente, as senzalas fediam. Atrás do barracão ficavam as latrinas – fossas no chão – e barricas cheias de água, que os escravos usavam para se lavar
Bela e preservada casa do sítio Ponta da Serra, tendo ao fundo uma parte da Serra de Martins. Mantida em grande parte original é um dos locais mais interessantes no trajeto do ataque do bando de Lampião ao Rio Grande do Norte – Foto – Rivanildo Alexandrino.
Rostand Medeiros – Sócio efetivo do IHGRN e autor do livro “1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte”.
Era uma sábado, dia 11 de junho de 1927, pelos sertões da região oeste do Rio Grande do Norte, em meio à mata de caatinga fechada, seguindo por caminhos que praticamente não eram frequentados por automóveis, uma turba de homens armados e montados em seus cavalos levantava poeira. Era Lampião que seguia em direção ao seu objetivo principal – a cidade de Mossoró.
Aquele era o segundo dia do grupo de cangaceiros em sua jornada avançando em terras potiguares. No dia anterior o grupo armado havia travado um combate em um lugar conhecido como Caiçara, onde fizeram uma guarnição de soldados debandarem, mataram um valente militar que não negou fogo e ainda atingiu mortalmente o cangaceiro Azulão. Depois percorreram várias propriedades rurais roubando, saqueando, depredando, sequestrando pessoas e espalhando uma onde de medo e terror[1].
Desde 2010 o autor deste texto percorreu algumas vezes o caminho que os cangaceiros de Lampião utilizaram para atacar Mossoró. É uma viagem muito interessante.
Rostand Medeiros defronta a casa do sítio Ponta da Serra, invadida pelos cangaceiros de Lampião – Foto – Rivanildo Alexandrino.
Muitos dos locais que testemunharam os fatos não mais existem. Mais em outros pontos as pessoas preservam tenazmente estes ambientes, quase que teimando para que a história permaneça viva e fazendo tudo para que aqueles dias estranhos não sejam esquecidos.
Um destes locais é o sítio Ponta da Serra.
Buscando o Caminho dos Cangaceiros
Antes da chegada de Lampião a Ponta da Serra, baseado no que foi escrito, o último local visitado foi a propriedade Morada Nova, de Antônio Januário de Aquino.
Naqueles tempos longínquos, as áreas rurais entre a Morada Nova e a Ponta da Serra pertenciam respectivamente aos municípios de Pau dos Ferros e Martins, muito maiores em suas áreas territoriais do que são na atualidade[2].
Mas para Lampião, guiado pelo bandoleiro Massilon Leite, aquilo pouco importava. O que importava era encontrar propriedades que valessem a prática do saque e do roubo. A partir da Morada Nova o bando aponta seu rumo em direção Nordeste, em direção a uma das mais belas e estruturadas propriedades da região.
Ao percorrer estes caminhos em pleno século XXI, utilizando GPS, a distância compreendida entre a Morada Nova e o próximo alvo dos cangaceiros, a Ponta da Serra, ficou em cerca de nove quilômetros.
Ao percorrer este caminho que separa as duas propriedades eu encontrei poucas casas onde poderia conseguir maiores informações e saber o que ficou desta memória. Tentava buscar saber com as pessoas da região alguma informação sobre outro possível local de ataque dos cangaceiros, que não houvesse sido listado anteriormente, ou apenas para saber o melhor rumo a tomar em direção ao sítio Ponta da Serra. Mas é uma área onde não se observa muita gente, um tanto inóspita, sombria mesmo.
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, na cidade de Martins, Rio Grande do Norte. Foi a zona rural deste município uma das áreas mais atacadas por lampião e seus cangaceiros quando estiveram no Rio Grande do Norte em 1927 – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais
Se hoje é difícil achar um cristão naquelas veredas, na época de Lampião, segundo as informações coletadas junto aos atuais moradores da Morada Nova, este trecho era um verdadeiro deserto.
Segui com cautela, em meio a uma caatinga atemporal, com a paisagem ao fundo tomada pelo maciço da Serra de Martins, até que cheguei a BR-226, marco de modernidade que liga Pau dos Ferros a cidade de Antônio Martins[3]. Em certo trecho existe uma cancela a margem da rodovia federal e aquilo apontava que eu havia chegado a Ponta da Serra.
Corre Que Lampião Vem Aí!
Naquele antigo lugar “visitado” por Lampião eu percebi a razão da Ponta da Serra despontar como uma referência na região quando o assunto são casas antigas e preservadas.
Sua construção data do início do século XX chama a atenção pela imponência em meio a casas tão singelas e, segundo informações apuradas, o local está mantido em grande parte original. Outro fator extremamente positivo em relação a esta local se refere à própria beleza paisagística do ponto onde a mesma foi edificada. Defronte a antiga casa existe o açude Ponta da Serra e uma elevação denominada Serra do Macapá, com quase 500 metros de altitude, segundo informa o mapa produzido pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, da região de Pau dos Ferros, na escala de 1:100:000.
Francisco Javier de Lucena, conhecido na cidade serrana de Martins como Dr. Lacy,, quando entrevistado em 2010 – Foto Junior Marcelino.
Segundo o médico aposentado Francisco Javier de Lucena, conhecido na cidade serrana de Martins como “Dr. Lacy”, esta residência era em sua opinião “-A mais original do todas as que existem no pé da Serra de Martins”.
Em 2010, apesar de um relativo problema de surdez, encontrei na cidade de Martins o Dr. Lacy muito altivo e lúcido e o nosso encontro se deu através do apoio do amigo Junior Marcelino.
O Dr. Lacy nasceu no dia 15 de julho de 1917, tinha quase dez anos de idade na época da passagem do bando de cangaceiros de Lampião pela região e comentou que na ocasião o seu pai, João Xavier da Cunha, era cunhado e trabalhava para o então proprietário do sítio Ponta da Serra, João Frutuoso da Silva.
Este se encontrava com a sua família na propriedade, quando recebeu o aviso da chegada de Lampião através de uma senhora chamada Idalina, o já famoso “Corre que Lampião vem aí!”. Esta senhora vivia em um sítio próximo denominado Tabuleiro de Areia.
Logo a esposa de João Frutuoso, dona Alexandrina, buscou guardar objetos de importância para serem transportadas em dois tradicionais caçuas. Estes são uma espécie de saco de grandes dimensões, feito de couro de boi, montados em uma cangalha no lombo de um jumento. Este animal foi conduzido por um trabalhador da fazenda, enquanto a família seguiria para a cidade de Martins em um veículo Ford de três marchas.
Dr. Lacy relata que na cidade de Martins havia certo número de soldados e pessoas do lugar armadas, sendo levados para piquetes organizados nas ladeiras da região, para assim resistir contra alguma investida do bando. Na opinião do Dr. Lacy, mesmo com muitos moradores buscando refúgio no mato e o clima de medo reinante, a situação não desbancou para uma fuga desesperada naquela urbe, houve certa ordem em Martins.
Seu pai João Xavier, assim que soube da aproximação do bando, mandou um irmão chamado Manuel Galdino seguir da cidade e ajudar João Frutuoso na propriedade. O motorista devia descer pela ladeira que seguia pelos sítios Comissário e Vertentes. Este caminho rústico, feito em 1915 por uma firma inglesa que construía o açude do Corredor, não era nada fácil de ser trafegado naqueles rústicos veículos, pois possuía muitas curvas nos contrafortes da Serra de Martins. Mesmo assim o motorista partiu.
Notas existentes na página 2, do jornal natalense “A República”, edição de quinta feira, 8 de março de 1928, onde quase um ano depois o então prefeito daquela cidade, o Sr. Emídio Fernandes de Carvalho apresentava os custos municipais com a presença do bando de Lampião na área rural de Martins – Fonte – Coleção Rostand Medeiros
Ao chegar ao sítio Ponta da Serra, Galdino encontrou seus tios e seu primo João Batista da Silva, tratando de sair do local. Em meio a toda confusão associada ao medo, ele rapidamente deu meia volta no veículo e partiu. Acabou deixando de transportar as três empregadas da casa, que ficaram desesperadas e desorientadas. Coisa mesmo de verdadeira comedia pastelão em meio ao caos.
Catinga da Mistura de Perfume Barato, Suor e Cachaça
Segundo Dr. Lacy, foi por muito pouco que os membros da família não foram capturados, pois logo após a saída dos veículos o bando a galope chegou. Ríspida e rapidamente os bandoleiros invadiram todas as dependências da casa, onde arrombaram gavetas, malas e quebraram utensílios.
Defronte a casa grande do Sítio Ponta da Serra, esta é a visão que temos. O Açude Ponta da Serra e a Serra do Macapá – Foto – Rostand Medeiros
Defronte a casa existia um comércio que era tocado pelo filho de Frutuoso, logo este lugar foi arrombado, sendo consumidas as bebidas do estoque e várias mercadorias foram roubadas ou depredadas.
Na casa os cangaceiros, aquecidos pelo álcool, fizeram as três empregadas passarem por apertos. Devido o rápido retorno do veículo de Galdino e da chegada dos celerados na sequência, elas não tiveram tempo de fugir para os matos. Mas o pior foi evitado devido ao chamado de Lampião para que deixassem as mulheres em paz. O próprio chefe comunicou às empregadas que se houvesse capturado Frutuoso, ele só seria libertado mediante o pagamento de quarenta contos de réis, verdadeira fortuna para época, demonstrando o poder econômico do proprietário do lugar.
Na casa os cangaceiros mexeram em uma grande e pesada mesa de madeira, quebrando as gavetas que nela existiam. Em um fogão de ferro fundido, fabricado na Inglaterra, os cangaceiros buscavam avidamente comida, mas nada encontraram. A mesa e o fogão continuam na Ponta da Serra marcando a passagem dos cangaceiros[4].
Enquanto o saque prosseguia foi capturado o agricultor Francisco Dias, do sítio Corredor, propriedade existente mais adiante. Perguntado qual a próxima propriedade na sequencia da vereda existente comentou ser a Morcego, a um quilômetro de distância, cujo dono era Manoel Raulino. Rapidamente Francisco Dias foi “promovido”, mesmo a contra gosto, a função de guia dos bandoleiros.
Tão violentamente e rápido como chegaram, satisfeitos com o butim, Lampião ordenou que a cabroeira seguisse adiante.
Rostand Medeiros e o Dr. Lacy na cidade de Martins, 2010 – Foto – Junior Marcelino.
Logo aquele troço de uns 60 e tantos homens montaram em seus corcéis sertanejos e partiram. Seguiram altivos, coroados pelos seus chapéus de couro, transportando vistosamente suas armas, gritando, assoviando, proferindo palavrões, estalando chicotes e deixando no ar a catinga da mistura de perfume barato, suor e cachaça.
Varias outras propriedades foram assaltados, roubos aconteceram, destruições ocorreram, sequestros e mortes. Mas no dia 13 de junho de 1927 o povo de Mossoró resistiu galhardamente e Lampião e seus cangaceiros foram vencidos e fugiram sem conquistar a “Capital do Oeste”.
Hoje quase ninguém que viveu aquela época está neste plano para dar depoimentos, mas locais como o sítio Ponta da Serra são testemunhos daqueles dias incertos e devem ser preservados.
Defronte a casa da Ponta da Serra em abril de 2014, com os amigos Silvio Coutinho e Rivanildo Alexandrino.
Em abril de 2014 eu estive novamente nesta residência, acompanhado do diretor de cinema Silvio Coutinho, do Rio de Janeiro, e do amigo Rivanildo Alexandrino, da cidade de Frutuoso Gomes (RN), durante as filmagens do documentário “Chapéu Estrelado”.
Infelizmente pelo falecimento do diretor Coutinho em 2018, no Rio, esse documentário não seguiu adiante.
[2] O sítio Morada Nova ainda está situado em terras que pertencem a Pau dos Ferros, sendo o único local que comprovadamente marca a passagem de Lampião neste município. Fui informado que a Morada Nova está situada a 18 quilômetros da sede municipal. Já a Ponta da Serra está na área territorial do município de Serrinha dos Pintos, tendo se desmembrado do município de Martins em 30 de outubro de 1993, através da Lei nº 6.492.
Existe mais de uma versão para a origem da expressão, que até hoje possui duplo sentido. “Em geral, é usada para designar o sujeito destemido, mas também pode ser dita em tom de ofensa, quando a valentia vira prepotência”, diz o lingüista Flávio de Giorgio, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). No Dicionário do Folclore Brasileiro, o folclorista Luiz da Câmara Cascudo afirma que “cabra” era como os navegadores portugueses chamavam os índios que “ruminavam o bétel”, uma planta com folhas de mascar. Com o passar do tempo, o bicho pode ter virado sinônimo de homem forte por causa de seu leite, considerado mais denso e nutritivo que o da vaca. Tudo indica que a associação com “peste” surgiu por causa da má fama da cabra, considerada um animal simpático ao diabo na tradição sertaneja. Vale lembrar que os nordestinos também usam a palavra “peste” para nomear doenças graves.
Assim, o “cabra da peste” seria o sertanejo que sobreviveu superando todos os sofrimentos, “da dentição difícil, do sarampo certo, da caxumba, da desidratação inevitável, da catapora, da coqueluche, da maleita e do amarelão, e de tudo mais que atormenta a vida de um cristão nascido no Nordeste”, como sugere o folclorista Mário Souto Maior no livro Como Nasce um Cabra da Peste. “Por tudo isso, a expressão completa só deve ter surgido por volta do século 17”, afirma Flávio. Mas alguns especialistas defendem outra hipótese. A expressão seria uma variação de “cabra-de-peia”, também usada para indicar a valentia do nordestino, que apanhava sem reclamar. “Depois de açoitada com a peia (chicote), a vítima era obrigada a beijar o açoite na mão do seu algoz”, diz o etimologista Deonísio da Silva, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).
ADENDO DO BLOG TOK DE HISTÓRIA – Segundo o ilutes amigo Iaperi Araújo, potiguar da cidade seridoense de São Vicente, artista plastico, escritor, médico e professor da UFRN, a expressão “Cabra de pêia” referia-se ao escravo que vivia atado pelos pés com uma pêia feita de coro de boi prá evitar a fugir. Nos jumentos, a pêia é um laço de couro que liga os dois pés dianteiros do animal com uma distancia curta entre eles, não permitindo fugas para lugares distantes, pela limitação de sua movimentação.
O barco do alemão Manfred Fritz Bajorat vagando pelo Pacífico, quando encontrado pelos tripulantes do veleiro de competição LMAX Exchange, quanse trinta dias antes de ser encontrado por pescadores filipinos – Fonte – http://www.dailymail.com
Um Moderno Drama Marítimo, Que Parece Ter Saído Das Páginas De Um Livro De Suspense Do Século XIX
Seguramente as coisas mais incríveis acontecem quando você menos espera.
Aquela manhã de 26 de fevereiro de 2016 deveria ter sido um dia normal de trabalho para Christopher Rivas e seu primo, companheiro de tripulação. Um dia como outro qualquer.
Quando apareceram as primeiras luzes da manhã no horizonte eles trouxeram seu pequeno barco de pesca para o porto de Barobo, na região de Surigao do Sul, no sul das Filipinas. Após vários dias de fortes tempestades eles partiram em meio a um belo dia de mar calmo e algumas horas mais tarde estavam nas suas zonas de pesca habituais, a cerca de 40 milhas da costa.
Tinha tudo para ser um dia rotineiro para aqueles dois pequenos pescadores artesanais asiáticos.
Em algum momento, quatro horas após iniciarem suas atividades, Christopher parou o que estava fazendo naquele momento e deixou seu olhar vagar sobre o mar, calmo e tranquilo como um espelho. Foi então quando o seu dia se transformou em algo muito difícil de esquecer.
No começo ele não tinha certeza do que estava vendo. De longe viu algo que estava imóvel e flutuando na água. Um pedaço de formas incertas, levado pelas correntes e ventos. Christopher e seu primo içaram as redes e, com parcimônia, se aproximaram do estranho objeto.
Surigao del Sur é relativamente perto de uma das principais artérias marítimas comerciais. Uma área que é rota usual de inúmeros cargueiros que partem da China, Coréia do Sul e Japão e seguem em direção a Europa e Estados Unidos. É uma rota naval tão ocupado, que é um fato totalmente normal os pescadores encontrarem materiais boiando nas águas. Muitas vezes encontram apenas lixo e porcaria flutuante, mas às vezes alguns deles encontram um volumoso contêiner abarrotado de mercadorias. Estes caem no mar a partir de navios de carga atingidos por uma forte tempestade e ficam à mercê das ondas.
É fácil imaginar a tensão que aumentou a bordo de pequeno barco de pesca filipino enquanto eles se aproximavam da grande objeto flutuante: ali poderia estar produtos eletrônicos ou componentes de alto valor, que se bem embalados em recipiente vedados, e se a água salgada não tivesse ocasionado muitos danos, Christopher e seu primo poderiam ter tirado um verdadeiro prêmio de loteria.
Mas conforme se aproximavam do objeto a expressão dos dois foi mudando. Ficou claro que aquilo não era um contêiner e nem lixo.
Logo, flutuando a poucos metros de seu barco estava um veleiro semi-submerso, modelo Jeanneau Sun Magic, de 44 pés.
O estranho barco não tinha mastro, sua quilha estava inclinada quase 30 graus, preenchido por um emaranhado de cordas, restos mutilados de velas e perecendo ter sido achatado pelas ondas. Estranhamente os dois painéis se encontravam em perfeito estado, como se toda devastação que atingiu o barco não os tivesse tocado.
Parte do casco estava coberto de algas, crustáceos e moluscos. Uma marcação de linha de água escura e grossa deixava claro que havia muito tempo que aquele veleiro estava na água, mas o nome do barco estava perfeitamente distinto, Sayo, escrito em grandes letras pretas sobre a tinta branca rachada.
Christopher e seu primo cruzaram olhares nervosos e decidiram abordar o barco para descobrir o que se escondia ali dentro.
Dólares, latas de alimentos e fotos
A luz do sol penetrava através das pequenas escotilhas abertas, mesmo assim Christopher levou um tempo para acostumar os olhos à escuridão do interior da cabine.
Por algum local a água do mar havia penetrado na cabine, deixando água suficiente que chegava à altura dos tornozelos, onde flutuavam restos de comida, óleo e vários objetos. Então ele viu no fundo da cabine um homem sentado na mesa de navegação, que parecia estar cochilando sobre o seu braço direito, com o rádio a poucos centímetros de seus dedos.
O relatório detalhado da Estação de Polícia de Barobo permite reconstruir quase passo a passo o que aconteceu.
Assim o pescador filipino Christopher Rivas encontrou o navegador alemão Manfred Fritz Bajorat – Fonte – http://www.dailymail.com
Como afirmou Christopher em seu depoimento perante as autoridades policiais filipinos, nesse momento uma onda mudou o barco de posição, suficiente para que um raio de luz caísse sobre a cabeça do homem. Foi quando o pescador percebeu que seu dia seria realmente complicado, pois não é todo dia que você se depara com um barco fantasma e ocupado por uma múmia.
Assustados, os dois pescadores decidiram rebocar o iate golpeado para a costa. Conforme seguiam galgando as ondas, mais e mais água entrava na cabina. Quando os primeiros policiais chegaram ao Sayo, a água quase alcançava os joelhos do cadáver dissecado.
A primeira coisa que se observou foi que todos os valores ainda estavam a bordo, retirando a suspeita que aquele espetáculo dantesco fosse fruto de um ataque pirata, algo nada fora do comum naquela parte do Oceano Pacifico. Havia uma carteira cheia de dólares e euros, grandes estoques de alimentos enlatados e equipamentos de telecomunicações caros.
Flutuando na água estagnada dentro da cabine estavam dezenas de fotos, onde se viam pessoas com rostos sorridentes, cujas imagens se transformavam lentamente em manchas de cores turva pela ação da água do mar.
Fotos de Manfred e sua esposa Claudia encontrados no barco a deriva – Fonte – http://www.dailymail.com
Nas imagens estava um homem de meia-idade com um sorriso, ao lado de uma bonita mulher e de uma menina que com o passar dos anos se transformou em uma garota atraente. Havia fotos em alguma cidade da Europa Central, que logo davam lugar a imagens de um sorridente casal nos portos mais inesperados do mundo.
As perguntas estão a começaram a se acumular sobre os policiais.
O que aconteceu com aquele barco?
Como e quando aquele navegador tinha morrido?
E, acima de tudo, como poderia o seu corpo ter ficado preservado, em um último gesto que mostrava uma tentativa de fazer uma chamada de rádio?
Uma carteira laminada com documentos permitiu dar uma identidade ao misterioso cadáver mumificado e único membro da tripulação.
Seu nome era Manfred Fritz Bajorat, um alemão de 59 anos que no final da década de 1990 decidiu trocar a sua ordeira e pacífica vida como vendedor de seguros de uma cidade da região do baixo Ruhr alemão e fugir do frio. Ele vendeu tudo o que tinha e foi explorar os mares do mundo com sua esposa, Claudia, com quem fora casado por mais de trinta anos. Informações apontam que eles tenham terminado o relacionamento em 2008.
Segundo as autoridades constava que Manfred não era visto desde que havia estado no porto de Mallorca, Espanha, em 2009, quando conheceu outro navegador alemão chamado Dieter.
Posteriormente descobriu-se que o Sayo cruzou com outro barco no mar e depois tomaram conhecimento que quando Claudia morreu de câncer em 2010, Manfred a enterrou na ilha caribenha da Martinica.
Um dos documentos recuperados na cabine de Sayo mostrou que em 2013 foi emitida uma permissão ao proprietário deste barco pela polícia marítima em São Vicente, embora ainda não esteja claro se ele foi emitido em Cabo Verde, ou no Brasil, já que ambos os países possuem portos com o mesmo nome.
Mas a partir daí só breves atualizações em suas contas em redes sociais davam algum sinal de vida do navegador solitário alemão. Mas até que de repente, há cerca de um ano, estas também desapareceram completamente e a trilha do velejador solitário ficou perdida
Foi como se o alemão tivesse sido engolido pelas ondas… Até que ele apareceu mumificado nas águas Filipinas.
Enquanto o Sayo, exausto depois de completar a sua última viagem, permanecia amarrado a boias para evitar afundar, um médico legista examinou o corpo do marinheiro. Sua primeira conclusão foi que um ataque cardíaco fulminante matou o alemão e que ele já estava morto há mais de um ano, provavelmente dois.
Uma estranha e curiosa combinação de calor a alta temperatura dentro da pequena cabana, junto com o vento marinho carregado com sal, tinha sido capaz de drenar o corpo de Manfred Bajorat e, sob muitos aspectos, em perfeito estado.
Entretanto, logo circulou na internet uma outra versão. Teoricamente surgida em jornais filipinos, apontou que o relatório da autópsia em Manfred, apesar de seu corpo mumificado, teria levado a conclusão que ele poderia ter morrido de um ataque cardíaco “em torno de sete dias antes da data que ele foi encontrado na costa da Barobo”. Especialistas forenses explicaram que uma combinação de calor tropical, vento seco e ar salgado do mar podem “preservar, ou mumificar, um cadáver, com o processo acontecendo mais rapidamente em pessoas mais magras”.
Independente desta questão, para quem viu o barco na costa filipina se impressionou com o contraste entre o corpo incorrupto de Manfred e suas fotos de família. Havia várias fotografias de viagens a França, Luxemburgo, Bélgica e outras regiões. Algumas imagens mostravam Manfred ao lado de amigos, de Claudia, de Nina Bajorat, a filha do casal. Aquilo foi considerado profundamente perturbador.
Outra situação que chamou a atenção da polícia das Filipinas foi o fato que havia poucos pertences pessoais, além do álbum de fotos.
Enquanto os filipinos buscavam respostas, logo surgiu a notícia que quase um mês antes o estropiado veleiro havia sido visto pela tripulação de outro veleiro e um de seus tripulantes chegou até a cabine do Sayo e encontrou o corpo mumificado de Manfred Bajorat
Visto e Esquecido…
Na manhã de 31 de janeiro de 2016 o veleiro de competição de alto desempenho LMAX Exchange, participava da 7ª etapa da competição Clipper Round the World Yacht Race. Eles estavam percorrendo um trecho entre Airlie Beach, Austrália, até o porto de Da Nang, no Vietnã, quando as 06:24 avistaram um iate com um mastro quebrado, sem tripulação visível e denominado Sayo.
O veleiro de competição LMAX Exchange no Rio de Janeiro – Fonte – O Globo
O capitão do LMAX Exchange, o francês Olivier Cardin, informou a organização da corrida que estava momentaneamente paralisando sua participação para examinar um iate abandonado, que se encontrava à deriva em seu caminho, tendo este barco sido avistado nas coordenadas 11 38N / 137 46E, a 650 milhas náuticas a leste das Filipinas e a 470 milhas náuticas a oeste da Ilha de Guam. Este último local é um território pertencente aos Estados Unidos desde 1898, fica localizado na Micronésia, na extremidade sul das Ilhas Marianas, no oeste do Oceano Pacífico.
O capitão Cardim então apitou a sirene de bordo, mas alma viva deu as caras fora da cabine do Sayo. Ele então ordenou que seu pessoal preparasse um de seus tripulantes para abordar aquele estranho barco e saber o que acontecia dentro.
O barco de competição deu uma volta e, ao passar próximo do iate, o tripulante se jogou ao mar e nadou em direção ao barco aparentemente abandonado. Este tripulante colocou na testa uma pequena câmera a prova d’água, de alta resolução, destinada a filmar o que encontrasse.
Tripulante do veleiro de competição nadando para o veleiro de Manfred – Fonte – http://www.dailymail.com
Após certa dificuldade para subir a bordo do veleiro, o tripulante do LMAX Exchange começou a investigar o que havia na embarcação e entrou na cabine. Foi quando ele tomou um grande susto ao encontrar o corpo mumificado de Manfred Bajorat.
Ao saber do achado o capitão Cardim entrou em contato com a base da Guarda Costeira dos Estados Unidos (United States Coast Guard – USCG) em Guam e informou o achado. Os americanos então transmitiram aos tripulantes do LMAX Exchange que, como eles não poderiam fornecer nenhuma assistência adicional, a equipe deveria continuar na competição enquanto os membros da Guarda Costeira em Guam assumiriam a investigação.
Justin Taylor, Diretor da Corrida Clipper, também notificou a embaixada alemã em Londres, que informou a polícia alemã e a marinha daquele país sobre o ocorrido.
Através dos dados de registro do barco fornecidos pela equipe de competição, a polícia germânica começou a buscar os parentes de Manfred, para descobrir quando ele entrou em contato pela última vez e tentar determinar quando ele morreu.
Só que estranhamente, pelo menos em relação às últimas notícias conseguidas pelo TOK DE HISTÓRIA, ou ninguém foi atrás do veleiro do alemão Manfred Bajorat, ou se foram não encontraram nada, ou talvez não valesse a pena o esforço americano resgatar o cadáver de um navegador solitário alemão.
O barco patrulha USCGC Washington (WPB-1331), da Guarda Costeira dos Estados Unidos, que tem sua base em Guan – Fonte – http://www.uscg.com
Vale ressaltar que segundo o site da Guarda Costeira em Guam (http://www.uscg.mil/d14/sectguam/default.asp) lá existem três embarcações de pronta utilização, sendo duas de patrulha, entre estas a que é apresentada na foto, o USCGC Washington (WPB-1331).
As provas fotográficas feitas em 31 de janeiro pela equipe do LMAX Exchange derrubaram totalmente a tese que Manfred Bajorat só poderia ter morrido de um ataque cardíaco “em torno de sete dias antes da data que ele foi encontrado na costa da Barobo”.
Independente destas questões, o certo foi que o Sayo e seu quieto tripulante percorreram mais de 600 milhas náuticas até a descoberta macabra de Christopher Rivas.
“Que a sua alma para encontrar a paz. O seu Manfred”
É difícil entender como um veleiro de 12 metros pode navegar à deriva por muito tempo sem que ninguém perceba. Talvez a enormidade do Pacífico e a própria natureza solitária em que Manfred estava vivendo ajuda a entender o caso.
Entre todos os documentos existentes no Sayo, o mais significativo encontrado pelos filipinos foi um texto com cerca de 20.000 palavras e dedicado a falecida esposa de Manfred. Ele estava trabalhando neste material quando a morte o surpreendeu no mar.
“Trinta anos estivemos no mesmo caminho. Então, o poder dos demônios foi mais forte do que o desejo de viver. Você me deixou. Que sua alma encontre a paz. O seu Manfred”.
Dependendo do leitor pode ser muito complicado, ou muito fácil, imaginar o sentimento de perda daquele solitário homem do mar, navegando sem curso, em busca de um consolo de que a enormidade do oceano não poderia lhe dar.
Mas não é difícil imaginar o momento de pânico na hora que Manfred sentiu a picada reveladora em seu peito, que anunciou que ele estava sofrendo um ataque cardíaco, totalmente sozinho, a centenas de quilômetros de alguma área habitada. É impossível ficar indiferente ao saber que aquele ser humano, na sua mesa de navegação onde estava seu rádio, tentou enviar uma mensagem de socorro com os dedos cada vez mais desajeitados e sua condição ficando cada vez mais limitada.
O que nós não precisamos imaginar é a postura serena e descontraída com que o seu corpo, com a mão muito perto do transmissor, submergiu em um sono profundo e eterno.
Aparentemente por quase dois anos o Sayo e seu capitão fantasma caminharam juntos no Pacífico, em meio a tempestades, áreas de noites calmas e longos dias de verão e inverno. Uma versão moderna do fantasmagórico navio Flying Dutchman ( Sobre a história deste barco veja –https://tokdehistoria.com.br/2013/10/03/flying-dutchman-o-mais-famoso-navio-fantasma/).
Durante todo esse tempo, apenas as estrelas e, talvez, alguma baleia solitária testemunharam como o barco estava indo devagar, se desmanchando diante dos elementos, enquanto o capitão permanecia sentado, realizando uma chamada eterna em busca de uma ajuda que nunca chegou.
No Sayo foi encontrada uma placa de bronze aparafusada, onde está gravada uma mensagem, que agora, vista em perspectiva, é arrepiante: “Este barco é um deleite para o capitão, mas um inferno para os marinheiros”.
Sem dúvida que Manfred Bajorat, como capitão e único membro da tripulação do Sayo, conheceu profundamente os extremos dessa sentença.
O mais correto seria dizer que o Brasil conseguiu grandes vitórias em pequenas batalhas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) entrou em combate na Europa a partir do segundo semestre de 1944. Do lado dos aliados (Inglaterra, França, União Soviética e Estados Unidos), a FEB enfrentou as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) em território italiano, no chamado front do mediterrâneo. “Tivemos duas importantes vitórias em pequenas batalhas: Monte Castelo, em fevereiro de 1945, e Montese, em abril de 1945”, afirma o historiador Vágner Camilo Alves, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).
Se alguém duvida de que essas batalhas foram secundárias no contexto geral da Segunda Guerra, basta analisar o efetivo brasileiro em ação. A FEB participou do conflito com apenas uma divisão de infantaria, enquanto só no front do Mediterrâneo os aliados contavam com um total de 23 divisões.
Aqui no Brasil, propagandas ufanistas, principalmente na época do governo militar (1964-1985), criaram a impressão de que a conquista de Monte Castelo – montanha da cordilheira apenina, no norte da Itália – foi uma batalha fundamental na Segunda Guerra.
Apesar dessas ressalvas sobre a real dimensão de nossas vitórias, a atuação dos soldados brasileiros foi heróica. Mesmo mal treinados, com equipamento inadequado e enfrentando um frio de até 15 ºC negativos, eles conseguiram derrotar as forças alemãs que estavam entrincheiradas no alto do monte Castelo.
A ação brasileira fez parte de uma ofensiva maior de todo o IV Corpo do Exército dos Estados Unidos – do qual a FEB era uma das divisões. O resultado dessas operações conjuntas foi a expulsão dos alemães dos montes Apeninos, permitindo uma ofensiva dos aliados no norte da Itália que marcaria o fim dos confrontos no país.
Guerra no morroTropas brasileiras enfrentaram até “fogo amigo” para conquistar Monte Castelo.
A FEB já havia tentado tomar o monte Castelo três vezes no fim de 1944, acumulando cerca de 400 mortos e feridos. Na noite de 20 de fevereiro de 1945, a artilharia brasileira bombardeia os alemães posicionados na montanha dando início à quarta tentativa. Cinco ou seis caça-bombardeiros, possivelmente do esquadrão “Senta Pua”, metralham os alemães
Na manhã do dia 21, três batalhões de infantaria da FEB recebem ordem de avançar para tentar tomar o monte. Os alemães respondem com fogo cerrado e a artilharia brasileira dá o troco, mas perde a mira e quase atinge nossas próprias tropas. O avanço é interrompido
Ao meio-dia, o general americano Mark Clark, comandante das operações na Frente Italiana, visita o general brasileiro Mascarenhas de Moraes e vem a ordem para o avanço continuar. Uma unidade de elite americana toma espinhaços próximos para ajudar a subida dos brasileiros
Perto das 14 horas, batedores relatam a chegada de reforços alemães que vieram de regiões próximas. Mesmo assim, as tropas brasileiras seguem avançando e atacam o penúltimo ponto antes de alcançar o cume do Monte Castelo
Às 15h30, os combates diminuem e uma relativa calma se impõe na montanha. Os soldados brasileiros aproveitam para atender feridos e acompanhar as evoluções de um teco-teco da FEB que sobrevoa lentamente a área em missão de reconhecimento
Às 16h20, a artilharia brasileira concentra seu fogo sobre a montanha, e o cume se transforma numa grande cratera. Oculta pela fumaça, uma unidade da FEB avança, mesmo sabendo que os aliados americanos ainda não conseguiram conquistar um ponto estratégico
Sob uma chuva de morteiros nazistas, patrulhas brasileiras e alemãs se enfrentam em combates corpo-a-corpo, usando submetralhadoras, pistolas e fuzis com baioneta. Às 17h50, o tenente-coronel brasileiro Emílio Rodrigues Franklin anuncia pelo rádio: “Castelo é nosso!”
Atrás da linha vermelha
As forças do Eixo na Itália tinham uma linha de defesa chamada Gustav. Quando ela foi rompida pelos aliados, em 1944, os alemães se retiraram para o norte, no alto da cordilheira apenina. Lá, montaram nova linha defensiva, a Gótica, da qual fazia parte o Monte Castelo.
Mergulhe nessa
Na livraria:
O Brasil e a Segunda Guerra Mundial: História de um Envolvimento Forçado – Vagner Camilo Alves, Editora Loyola, 2002
Guerra em Surdina: Histórias do Brasil na Segunda Guerra Mundial – Boris Schnaiderman, Editora Brasiliense, 1995
Na história do Nordeste do Brasil as lutas envolvendo as tradicionais famílias do sertão, que culminaram em sangrentas confrontações, sempre foram situações que marcaram a memória de muitas localidades.
Este fenômeno jamais foi exclusivo desta parte do Brasil, mas nesta região ocorreu com uma frequência preocupante e com exemplos de extrema brutalidade que, em alguns casos, perduram até hoje.
As razões para os conflitos foram inúmeras, mas duas situações se mostram presente na maioria destes casos: questões de terras e hegemonia do poder político.
Utilizando muitas vezes os terríveis combustíveis da vingança e do sacrossanto dever do homem sertanejo de “lavar a honra”, estas contendas deixaram marcas intensas, ceifando vidas até de quem não tinha nada haver com estes problemas.
Estes conflitos eclodiram, cresceram, extinguiram várias vidas e, na maioria das vezes, se retraíram diante das repercussões das mortes ocorridas, ou das ações dos agentes do Estado na tentativa de manter a ordem, por não ter mais quem desejasse combater, ou cansaço mesmo..
Com a ampliação dos meios de comunicação no Nordeste algumas destas lutas ganharam pelo país afora ares de verdadeiras batalhas épicas, marcando de forma indelével muitas comunidades.
Não faltaram aqueles que rezaram fervorosamente e ascenderam maços de velas pelo fim do problema e o retorno da paz.
Normalmente estes confrontos familiares acabavam sem ser apontado algum vencedor hegemônico, ou algum clã derrotado na sua totalidade. No final todos os que participavam eram perdedores.
A cidade paraibana de Catolé do Rocha presenciou um destes casos a partir da segunda década do Século XX.
Aqui está um pouco desta história.
Todos Enredados na Mesma História de Terror
Composta de homens valentes e denodados, o caso de Catolé do Rocha envolveu as famílias Maia e Suassuna, onde a querela entre estes grupos perdurou por décadas e chegou a ter sido destacadamente noticiado em periódicos de todo Brasil.
Edição de domingo do Jornal do Brasil, dia 24 de novembro de 1985, com a reportagem do jornalista paraibano José Nêumanne Pinto sobre a luta dos Maia e Suassuna.
Em 1985, mais precisamente na edição de domingo, dia 24 de novembro, o jornalista paraibano José Nêumanne Pinto apresentou nas páginas do Jornal do Brasil uma magistral reportagem sobre este conflito, onde apontava que a luta entre as duas famílias já durava mais de 50 anos.
Nêumanne mostrou na época, com extrema propriedade, que aquela era “Uma história antiga, especial para corações fortes. Seus personagens são homens rudes do sertão. Não importa se um – João Agripino de Vasconcelos Maia Filho – já foi até ministro (De Minas e Energia, na época do governo Jânio Quadros), ou o outro é um bem-sucedido empresário do Rio (Ney Suassuna, na época da reportagem proprietário do Colégio Anglo-americano e diretor da Associação Comercial da Barra da Tijuca), ou se um terceiro, José Agripino Maia, é governador de estado (Rio Grande do Norte) e se um quarto é conhecido internacionalmente como escritor (Ariano Suassuna). Na verdade, mesmo que alguns tentem fugir, todos estão enredados nesta mesma história de terror, cujo mais recente capítulo ainda não está para acontecer”.
Foto de Catolé do Rocha, realizada pelo escritor paulista Mário de Andrade, quando esteve neste município paraibano em janeiro de 1929 – Fonte – revistacarbono.com
Segundo o jornalista Nêumanne, o clã dos Suassuna no sertão paraibano originou-se a partir de um padre que se chamava Felipe, deixou a batina e se estabeleceu em Catolé do Rocha. Era descende das famílias Cavalcanti de Albuquerque de Pernambuco. Pertenceram a família o Visconde de Albuquerque e o Marquês de Muribeca, que foi lente da Faculdade de Direito de São Paulo.
Já os Maia vem de Francisco Alves Maia, descendente de portugueses desembarcados em praias cearenses e primeiro membro destacado da família na política. Conhecido como coronel Maia foi o responsável por enviar seus descendentes para estudarem em faculdades, como as de Direito de Recife e São Paulo e a de Medicina em Salvador. Este pensamento avançado para a época criou entre os seus descendentes a importância dos estudos para ascensão social, política e profissional.
O Início
Para o jornalista José Nêumanne Pinto, igualmente sertanejo da cidade paraibana de Uiraúna, a raiz do conflito entre os Maia e Suassuna era eminentemente uma rixa política. Para ele muito raramente as duas famílias cerraram fileiras em uma mesma causa, em um mesmo partido e o tempo só fez com que se distanciassem cada vez mais. A última ocasião que Maia e Suassuna foram do mesmo partido aconteceu na época que no Brasil o Presidente da República era o paraibano Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa.
Mas o fato que acende a chama, o que detonou tudo, começou mesmo em 1922, quando Francisco Sérgio Maia, o Chico Sérgio, filho do coronel Sérgio Maia, queria namorar Noemi Suassuna, a mais bela cunhada de Christiano Suassuna.
Este tentou impedir o namoro por considerar Chico Sérgio uma pessoa de pouca saúde. Não podemos esquecer que naquelas primeiras décadas do século passado, com medicina bem limitada, mesmo que o pretendente fosse de boa família, o seu estado de saúde era algo a ser considerado pelas famílias de uma jovem na aprovação de uma futura relação. Mas o caso em questão envolvia outras pequenas desavenças e provocações na área política entre as duas principais famílias de Catolé do Rocha e aquela recusa adicionou mais lenha a fogueira.
Catolé do Rocha na atualidade.
Com a intenção de dar um susto em Chico Sérgio, João Mantense, um capanga de Cristiano Suassuna, foi à fazenda do coronel Sérgio Maia e lá encontrou o jovem Chico conversando em numa roda de amigos. Passou a jogar pedras e pedaços de tijolos no rapaz. Uma banda de tijolo atingiu uma de suas pernas, causando sérias lesões.
Independente do alcance do ferimento ocorrido em Chico Sérgio, evidentemente que o pior foi o atrevimento de João Mantense e do seu Senhor. E a resposta logo veio na forma de uma grande surra no capanga de Christiano Suassuna, em plena feira de Catolé do Rocha. O cabra tomou um verdadeiro “chá de pau”.
João Suassuna discursando em um evento no Rio de Janeiro – Fonte – Revista “O Malho”, do Rio de Janeiro, edição de 18 de outubro de 1924.
Apesar da surra mais que merecida, os membros do clã Suassuna sentiram-se ofendidos pela execração pública de João Mantense. Américo, filho de Pio, irmão de Christiano e de João Suassuna, futuro governador paraibano (Pai do escritor Ariano Suassuna), tomou as dores do episódio e o caldo engrossou.
O magistrado, ex-ministro e ex-governador paraibano João Agripino Filho registrou em suas memórias como se desenrolou o primeiro movimento verdadeiramente grave deste conflito. Tempos depois estas memórias se tornariam o livro “Agripino – O Mago de Catolé”, de autoria do jornalista Severino Ramos.
O que João Agripino Filho testemunhou não deixa dúvidas da valentia dos envolvidos e sempre me impressionei com este episódio.
Para melhor informar o leitor do blog TOK DE HISTÓRIA, junto ao relato de João Agripino Filho, trago a entrevista que este concedeu a José Nêumanne Pinto em 1985.
“-Nessa Casa não tem Homem para Responder a esse Fogo?”
João Agripino Filho era criança, tinha quase oito anos de idade (nasceu em 1 de março de 1914) e estava na calçada com seu pai (João Agripino de Vasconcelos Maia) e sua mãe (Dona Angelina Mariz Maia), que tinha seu irmão mais novo no colo (Antônio Mariz Maia, que no futuro seria desembargador). Em meio a este momento de tranquilidade na pacata cidade paraibana chegou Américo Suassuna com um rifle na mão e ficou passando na frente da casa dos Maia.
Logo perguntou ao bacharel João Agripino “-Você têm coragem?”.
João Agripino Filho narrou que seu pai estava desarmado naquele momento. Mesmo assim, de forma muito calma, sorriu e respondeu com outra pergunta “-Porque você quer saber?”
Américo então falou de maneira fria e ameaçadora:
“-Quero saber se você quer trocar tiros?”
Sem perder a calma, João Agripino disse simplesmente:
“-Atire”.
Na hora que o membro do clã Suassuna levantou a arma, João Agripino saiu levando Dona Angelina, o bebê e o jovem João Agripino para dentro de casa. Américo não se fez de rogado e abriu fogo.
Na foto vemos João Agripino de Vasconcelos Maia Filho e sua mãe, Dona Angelina Mariz Maia – Fonte – http://www.catolenews.com.br
Enquanto as balas batiam em vários locais da casa, em meio ao som dos disparos, poeira do reboco caindo, desespero do momento, Dona Angelina Mariz Maia gritou a plenos pulmões:
“-Nessa casa não tem homem para responder a esse fogo?”.
Raimundo Suassuna, irmão de Américo, entrevistado por José Nêumanne Pinto em 1985, apontou que foram os capangas de João Agripino, conhecidos como João Boquinha e Cícero Novato, que responderam aos tiros de Américo e um deles estava armado com um fuzil. João Agripino Filho informou em suas memórias que seu pai conseguiu se armar e igualmente respondeu ao fogo de Américo.
Diante da resposta aos seus disparos, Américo se abaixou atrás de grossos pilares de madeira, que continham argolas para amarrar os animais que vinha para a feira da cidade e continuou descarregando sua arma. Testemunhas comentaram que o atirador dos Suassuna teve muita sorte, pois o pilar de madeira em que ele buscou proteção ficou bastante atingido pelos disparos efetuados. Provavelmente uma coisa que ajudou Américo era o fato dele ser um homem de baixa estatura e um tanto atarracado.
Aparentemente o tiroteio durou cerca de quinze a vinte minutos. Segundo Raimundo Suassuna a troca de balas encerrou quando seu pai Pio Suassuna interveio ao gritar para os Maia que “-Eles não teriam coragem de matar um filho dele!”. Raimundo narrou ao jornalista de Uiraúna que os buracos de bala feitos pelo seu irmão na casa dos Maia ficaram expostos por vários anos e estes diziam que eles só tapariam quando Américo fosse morto.
João Agripino Filho afirmou a José Nêumanne Pinto que “-Jamais esqueceu aquela cena”.
Pessoalmente não conheci o local do tiroteio, nem onde se posicionaram os atiradores, nem a distância entre os inimigos e se eles eram, ou não, bons de tiro. Mas fato é que aquele episódio, onde não faltou o conceito de coragem, valentia, bravura e o temperamento de muitos sertanejos para lutar de peito aberto no campo da honra, deu início a uma das mais sérias e difíceis rivalidades entre famílias que o Nordeste testemunhou.
Outros Atores
O conflito entre os Maia e Suassuna prosseguiu de maneira variada e alternância de intensidade. Às vezes envolvendo na questão outros atores, de outras regiões da Paraíba.
Ariano Suassuna era um dos membros mais conhecidos da família Suassuna. Ele nunca participou da luta contra a família Maia, mas uma parte de sua obra recebeu influência destes episódios.
Um fato que teve enorme repercussão em todo país foi o ataque de cangaceiros a cidade paraibana de Sousa. Ocorrido em 27 de julho de 1924, foi protagonizado pelo cangaceiro Francisco Pereira Dantas, conhecido como Chico Pereira. Este era paraibano da vila de Nazareth (hoje Nazarezinho), que em parceria com os irmãos de Lampião (que nessa época se recuperava de um ferimento) e numeroso bando de cangaceiros assaltaram Sousa. Este caso teve como um dos principais motivos à concretização de uma vingança pessoal deste cangaceiro contra seus inimigos que residiam naquela próspera cidade paraibana. Entre estes estava Octávio Mariz, ligado em parentesco aos Maia de Catolé do Rocha.
Como se diz que “inimigo do meu inimigo, consequentemente é meu amigo”, independente da negativa repercussão do episódio de Sousa, João Suassuna, já então governador da Paraíba, e seus irmãos, mantiveram ligações próximas com Chico Pereira.
Seda da fazenda Conceição, na zona rural de Catolé do Rocha, antiga propriedade de Manoel Maia de Vasconcelos, que foi visitada por Chico Pereira e parentes de João Suassuna em 1926.
Existe uma notícia publicada em um jornal carioca (A Manhã, edição de 2 de junho de 1926), dando conta que no mês de março daquele ano o cangaceiro Chico Pereira esteve nas propriedades Marcelina e Maniçoba, pertencentes aos irmãos Suassuna. Além disso ele foi visto circulando tranquilamente em automóvel particular em Catolé do Rocha, junto com pessoas da família Suassuna. Vale ressaltar que nesta época Anacleto Suassuna, um dos irmãos do governador João Suassuna, conhecido na região como “major Quietinho”, era o delegado da cidade de Catolé.
A mesma nota aponta que Chico Pereira e os parentes do então governador paraibano estiveram em uma ocasião na fazenda Conceição, de propriedade de Manoel Maia de Vasconcelos, na época juiz em Açu e respondendo pela comarca de Mossoró, Rio Grande do Norte.
Jornal carioca A Manhã, edição de 2 de junho de 1926.
Nesta ocasião Chico Pereira não atacou esta fazenda, apenas parou com seus amigos para pedir “água”. Mas a “visita” deixou totalmente abalada a esposa do juiz e suas duas filhas, além de certamente deixar os homens da família Maia em total estado de alerta.
João Agripino Filho comentou no livro “Agripino – O Mago de Catolé”, que os acirramentos levaram as duas famílias a criarem situações únicas e peculiares. Nos dias de eleição foi criada uma linha imaginária em Catolé do Rocha, que tinha como base a igreja matriz de Nossa Senhora dos Remédios e dividia os setores políticos dos dois clãs na urbe. E ai de quem ousasse transpô-la para fazer intriga política e cabular votos!
E a divisão das duas famílias continuou em assuntos políticos até mesmo externos a Catolé do Rocha.
Em meio às repercussões do conflito na cidade de Princesa, na Paraíba, e da deflagração da Revolução de outubro de 1930, os Maia apoiaram politicamente o governador João Pessoa no plano estadual e Getúlio Vargas na esfera federal. Já os Suassuna cerraram fileira junto ao coronel José Pereira, de Princesa, e no quadro político nacional deram apoio ao paulista Júlio Prestes.
Quem conhece história do Nordeste e do Brasil sabe qual dos dois lados levou a melhor nestas alianças!
A Luta Chega a Natal
E o tempo passou e a questão continuou!
Lauro Maia era o prefeito eleito da cidade potiguar de Patu, fronteiriça a Catolé do Rocha. Era uma liderança política ligada a João Café Filho, que naquele mesmo ano ser tornaria o único potiguar a alcançar o mais alto cargo do poder executivo brasileiro.
Então, no dia 3 de junho de 1954, por volta das onze e meia da noite, defronte ao Hotel América, na Avenida Rio Branco, no centro da capital potiguar, Lauro Maia foi brutalmente assassinado. Ele não foi a primeira vítima do conflito, mas foi um dos casos mais conhecidos sobre estes episódios.
Nota sobre a morte de Lauro Maia no jornal “O Globo”, do Rio, na edição de 5 de junho de 1954.
O pistoleiro desferiu quatro tiros com um revólver calibre 38 contra o prefeito de Patu, que efetivamente foi atingido por dois balaços e faleceu três dias depois no antigo Hospital Miguel Couto, atual Onofre Lopes. O caso inclusive foi publicado no jornal “O Globo”, do Rio, na edição de 5 de junho daquele ano.
A suspeita maior recaiu sobre José de Deus Dutra, ligado politicamente aos Suassuna em Patu. Por falta de provas José Dutra foi absolvido. Já o filho de Lauro Maia, o médico Lavoisier Maia Sobrinho, não quis vingança e foi clinicar em Catolé do Rocha. Mas ele também seria alcançado pela violência daquele conflito.
Na foto vemos a esquerda Lavoisier Maia Sobrinho, quando no cargo de governador do Rio Grande do Norte, dando um abraço no ex-governador potiguar Aluízio Alves.
Segundo José Nêumanne Pinto, na edição do Jornal do Brasil de 1985, comentou que Lavoisier Maia, que durante os anos de 1979 e 1983 foi governador do Rio Grande do Norte, estava na noite de 9 de setembro de 1956 na festa de comemoração de bodas de casamento do juiz de direito Sérgio Maia, no Prédio da Intendência, localizado à Rua Epitácio Pessoa, no centro de Catolé do Rocha. Depois houve uma animada comemoração em clube local.
Em meio à festa, Chiquinho Suassuna queria que um parente seu entrasse no recinto e participasse do evento, mas Lavoisier Maia barrou a entrada deste membro do clã opositor. Isso gerou uma altercação, que descambou para um tiroteio onde ficaram feridos Lavoisier e Chiquinho. Nesse mesmo episódio foi morto com um tiro acidental o agente de estatística Cantidiano de Andrade.
Lavoisier salvou-se por um verdadeiro milagre, mas continuou ao longo de sua vida política e pessoal com sequelas daquele tiroteio e só recentemente deixou a vida pública. Já Chiquinho Suassuna continua vivo e morando em Catolé do Rocha.
Após estes acontecimentos houve um período de trégua na luta das famílias. Mas os ressentimentos, contudo, permaneceram como chagas abertas. Bastava que acontecesse algum problema mais sério para que as acusações voltassem à tona e a violência retomasse o seu sinistro crescimento.
Sangue continuou sendo derramado e ainda por alguns anos corpos tombaram em meio a esta luta!
Trabalhando Pela Paz!
Ao escrever este texto não pude deixar de recordar de Eleanor Roosevelt, que disse certa vez que “Para conseguir a paz não bastava apenas falar sobre ela, mas acreditar e trabalhar por ela”.
Um dia os membros das famílias Maia e Suassuna trabalham juntos e, através do entendimento e não pela força das armas, encerraram aquela luta.
O famoso ator britânico Charles Chaplin disse certa vez que “O tempo é o melhor autor; sempre encontra um final perfeito”. Não sei se neste caso houve um final perfeito para todos os envolvidos nestes episódios. Certamente que não. Além disso, não existem meios de voltar no tempo, de voltar atrás para serem corrigidos diretamente os erros do passado.
Mas ao menos agora estes clãs podem moldar o futuro de suas novas gerações com maior tranquilidade.
Esse foi o obstáculo que o fotógrafo chileno Tomás Munita encarou ao seguir para as favelas do Recife, Brasil, para buscar fotografar a história do vírus Zika.
João Batista conforta a filha, Alice, que tem microcefalia, em sua casa no Jordão Baixo, Recife. Alice tem um mínimo de quatro ataques epilépticos por dia, além de danos ao seu sistema nervoso, que tem causado rigidez nos braços e cabeça. Ela toma 28 medicamentos diferentes e sem nenhuma ajuda por parte do governo – Foto – Tomás Munita
O mosquito Aedes aegypti, principal vetor para a proliferação do Zika, vírus suspeito de causar microcefalia em crianças nascidas de mães infectadas, que também carrega os vírus da dengue e chikungunya, não foi fotografado.
As crianças brincam no Coelho, Recife. Bairros pobres como este, com lixo em vários locais, são terreno fértil para a proliferação dos mosquitos Aedes aegypti – Foto – Tomás Munita
Ao contrário de outras histórias que Munita clicou, o personagem principal ficou escondido em poças de água e qualquer tipo de objeto que acumule água. Muitos destes objetos são ignorados nas ruas.
Todos os oito membros da família de Regina Kelly Siqueira tiveram dengue e chikungunya, e podem ter tido Zika também. Ela e seus seis filhos vivem em um bairro pobre chamado Coelho, em Recife – Foto – Tomás Munita
Munita, no entanto, descobriu que a ira ao inseto era visível nas pessoas que ele conheceu e cujas vidas foram viradas de cabeça para baixo pelo Zika.
Suas fotografias buscam contar a história dessas pessoas, sua ambivalência, sua luta e, em última análise, sua perseverança.
Soldados do Exército Brasileiro alinham-se no início da manhã antes de ir de porta em porta entregando folhetos com conselhos para combater mosquitos – Foto – Tomás Munita
Mas para Munita “É quase impossível de controlar a epidemia do mosquito Aedes aegypti”.
Oito membros da família desta menina tiveram chikungunya e dengue, doenças nascidas a partir do mesmo mosquito que transmite o vírus Zika – Fonte – Tomás Munita
Como você pode parar dos mosquitos portadores de doenças de se multiplicarem? Essa é a pergunta que assola o governo brasileiro, que enviou contingentes de soldados do exército de porta em porta, em uma missão contra o vírus Zika.
Soldados conversam com uma mulher no bairro Alto José Bonifácio, em Recife, sobre como conter a reprodução do mosquito Aedes aegypti. Durante o dia os soldados entregam às pessoas folhetos, inspecionam quintais e aplicado larvicidas em recipientes com água. Foto – Tomás Munita
“Eles estão dando folhetos, dizendo que você tem que manter seu quintal limpo de lixo”, diz o fotógrafo Munita, que documentou estas ações em Recife, a capital do estado nordestino de Pernambuco, cidade com uma população em torno de 3,7 milhões de pessoas.
Um trabalhador de saúde em uma favela na cidade de Recife, Brasil. Fumigação é um dos esforços do governo para evitar a propagação de Zika. Foto – Tomás Munita
O flagelo mosquito vai muito além desses bairros apertados. O Aedes aegypti tem sido incrivelmente difícil de ser erradicado desde que chegou à América Latina através do tráfico de escravos da África.
Soldados do Exército Brasileiro inspecionam uma casa no bairro Alto José Bonifácio, em Recife, como parte de sua campanha para parar a propagação do vírus Zika – Foto – Tomás Munita
Muitos países da região desenvolveram enormes programas de erradicação na década de 1950, com algum sucesso em vários locais, apenas para ver a praga ressurgir na década de 1970 e 80.
Um trabalhador de saúde fumegando em um bairro de Recife. Munita diz que as pessoas são muitas vezes surpreendidas ao ver fumigadores em suas ruas. Alguns fecham suas portas contra o spray, enquanto outros fazem o contrário para ajudar a matar os mosquitos em suas casas. – Foto – Tomás Munita
Marcelo Castro, ministro da saúde no país, tem sido citado como tendo dito que o Brasil está “perdendo a batalha” contra os mosquitos. Agora, o governo está tentando interromper quimicamente a reprodução do mosquito por fumigação de ruas e colocando larvicidas em tanques de água. Mas segundo relata a agência de notícias Reuters, logo o país vai tentar algo muito mais extremo: a criação de mosquitos machos em cativeiro, esterilizando-os com raios gama.
Um bebê de quatro meses de idade, nascido com microcefalia é fotografado em sua casa no bairro de Ibura, Recife – Foto – Tomás Munita
Mas em favelas do Brasil, ou bairros pobres, Munita comentou que é difícil imaginar que a campanha de informação do governo, ou qualquer outra, poderá ter muito efeito sem outras ações por parte das autoridades.
Uma fisioterapeuta trabalha com crianças com microcefalia que vieram com suas mães para um hospital infantil em Recife – Foto – Tomás Munita
“É quase impossível controlar algo assim nesse tipo de lugar”, diz ele. Muitas casas nas favelas são barracos de papelão e chapas de metal descartado. Além disso, estas áreas possuem limitado acesso à água potável e coleta de lixo. O resultado é a existência de muitos locais que podem armazenar água, criando um terreno fértil para a proliferação dos mosquitos.
Um soldado distribui panfletos em uma comunidade – Foto – Tomás Munita
Enquanto isso, aqueles que vivem nas camadas mais pobres da Recife devem decidir se vale a pena gastar o seu tempo para seguir os conselhos do governo sobre como prevenir a propagação de mosquitos. Muitos sentem que isso é apenas um fato da vida.
Bairro do Coque – Foto – Tomás Munita
“O mosquito está em toda parte”, diz Munita. “Realmente, não há muito que podem fazer além de manter sua própria casa limpa. Mas se a do seu vizinho não é limpa, em seguida, toda a vizinhança terá mosquitos e novos casos da doença”.
ADENDO DO TOK DE HISTÓRIA – E JÁ FAZ MUITO TEMPO QUE LUTAMOS CONTRA MOSQUITOS….
REVISTA O MALHO, RIO DE JANEIRO, 17 DE JUNHO DE 1911
UMA DAS POSTAGENS DO TOK DE HISTÓRIA SERVIU PARA A REALIZAÇÃO DE UMA ÓTIMA MATÉRIA SOBRE A II GUERRA NO RN
Rostand Medeiros
Aos amigos que visitam o blog TOK DE HISTÓRIA, eu gostaria de informar que essa semana realmente está sendo bem especial.
Primeiramente por havermos alcançado a marca de 2 milhões de visitantes e depois pela grata surpresa de descobrir que uma das nossas postagens sobre o tema Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte, serviu para a jornalista Marina Gadelha escrever um ótimo texto sobre o sargento Thomas Browning, que morreu em solo potiguar durante o conflito e cujos restos mortais repousam até hoje no antigo Cemitério do Alecrim.
Esta reportagem se encontra na edição de número 32 da Bzzz e possui quatro páginas. Sobre a Bzzz posso comentar que no seu terceiro ano de existência ela cumpre um papel maravilhoso, pois já contemplou seus leitores com inúmeras e ótimas reportagens sobre a história potiguar. É um trabalho muito positivo, que vem sendo arduamente realizado pela jornalista Eliana Lima, editora da revista.
O autor deste artigo junto a Lenine Pinto
Não sei se eu posso utilizar este termo, mas eu me sinto um colaborador da Bzzz. Pois, na medida do possível, quando solicitado pelos seus jornalistas, eu tento ajudar as reportagens de cunho histórico.
Outra coisa muito legal nesta reportagem da Marina Gadelha foi a participação do pesquisador Lenine Pinto, a quem só tenho o mais alto grau de respeito e palavras elogiosas pelos seus trabalhos sobre a Segunda Guerra em nossa região.
Já sobre o TOK DE HISTÓRIA ter chegado a 2 milhões de visitantes, é para mim surpreendente, pois é algo que jamais imaginei alcançar. Até mesmo em razão do formato que dou a maioria das postagens publicadas, com muitos dos textos sendo apresentados de forma extremamente longa, com muitas fotos e informações.
Dizem que “blog deve ser uma ferramenta que apresente textos curtos, de rápido entendimento e no máximo com uma foto”.
Eu realmente nunca me importei com isso, pois escrever sobre alguns temas da nossa história fica meio complicado de colocar em dois parágrafos. Ou vai ver que a minha capacidade de síntese é limitada.
Bem, mas isso não importa!
O que importa é agradecer de coração aos leitores do nosso TOK DE HISTÓRIA pelas visitas, opiniões, críticas, sugestões e torcida.
Um forte abraço e muito obrigado!
Capa da edição de número 32 da Bzzz, que está nas bancas.
Além da história deste inusitado encontro, vamos conhecer um pouco sobre um dos mais importantes grupos musicais do Nordeste do Brasil e que ficaram conhecidos os “Beatles de Caruaru”
Autor – Rostand Medeiros
Uma dos mais importantes, tradicionais e representativos grupos musicais do Nordeste do Brasil é sem dúvida alguma a Banda de Pífano de Caruaru. Verdadeira virtuose daquilo que significa nordestinidade e tradição, este grupo é também um dos mais antigos do país ainda em atividade.
Tudo começou em 1924, em um povoado chamado Olho D’água do Chicão, na cidade alagoana de Mata Grande, distante mais de 400 quilômetros da capital Maceió e localizado em pleno sertão. Foi quando o agricultor Manoel Clarindo Biano, casado com Maria Pastora da Conceição, observou que seus filhos Sebastião e Benedito, então com cinco e onze anos de idade, brincavam com canudos de carrapateira, jerimum e mamão, soprando-os como apitos, que eles chamavam “Gaitinha”. Depois passaram para um instrumento feito de madeira de taquara, com sete furos, sendo um para o sopro e seis para os dedos, que todos chamavam de pife[1].
Banda de pífanos – Marcelo Soares
Na pausa dos afazeres da roça, sem repreender, Manoel deixou os garotos se divertirem. Percebendo que seus filhos tinham um dom para música, ele encomendou pifes melhores a um amigo. O grupo passou a tocar e logo ficou conhecido como “Zabumba de Seu Manoel”.
Fosse apenas para ampliar a brincadeira dos garotos, ou para aumentar suas capacidades musicais visando melhorar o sustento da família, aquela iniciativa mudaria a vida de todos, criando um grande ícone da cultura nordestina, com características próprias e importantes na Música Popular Brasileira[2].
Tempos depois a família Biano deixou a cidade natal e tentou chegar até Juazeiro do Norte, no Ceará, em busca de uma bênção do Padre Cícero. Fugindo da seca e da miséria Manoel juntou a família e começaram a percorrer as estradas do sertão fazendo apresentações em quermesses, novenas, casamentos, batizados, enterro de “anjos”. Tocavam Marchas, Benditos de santos, Dobrados e o que surgisse na mente.
Seguiram nesta jornada pelo interior de Pernambuco, onde passaram por Vila Bela (Hoje Serra Talhada) e Sítio dos Nunes. Neste último local interromperam a jornada, pois era época de Semana Santa e era pecado prosseguir viagem neste período. Depois rumaram para Santa Cruz da Baixa Verde, ainda em Pernambuco e logo adentraram a Paraíba, seguindo para Conceição do Piancó e Bonito de Santa Fé. Depois retornaram para Pernambuco e não viram o Padim Ciço[3].
Nesta época no grupo, além de Manoel Biano, tocando zabumba, os seus imberbes filhos Benedito e Sebastião nos pífanos, havia um sobrinho chamado Martim Grande, também conhecido como Martinho Grandão, também criança e que tocava a caixa.
Banda de Pífanos de Caruaru na década de 1970.
Manoel fazia o grupo tocar uniformizado, todo de branco e usando chapéus de couro para se destacar das outras bandas de pífano. Ninguém sabia nada de métrica, partitura musical, notas e etc. Era tudo de ouvido mesmo. Mas eram competentes no que faziam.
Um dia quis o destino que estes músicos tocassem para ninguém menos que Lampião e seu bando.
“Lá vem o hômi!”
Segundo o padre Frederico Bezerra Maciel, escritor, pesquisador do tema cangaço e autor da série de livros “Lampião, seu tempo e seu reinado”, entre os dias 2 e 27 de setembro de 1926, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, comandou um grupo que na maior parte do tempo era composto por mais de cem cangaceiros em Pernambuco. Durante este tempo eles assaltaram e mantiveram combates com forças volantes em diversas localidades entre a região do Pajeú e as margens do rio São Francisco[4].
Entre idas e vindas, assaltos a cidades, combates em fazendas, emboscadas contra policiais e outras peripécias, um dia este grupo de cangaceiros se dirigiu à propriedade denominada Olho D’água do Bruno, com a intenção de participar das festividades do padroeiro da capelinha do lugarejo.
Igreja de Nossa Senhora da Saúde em Tacaratu, Pernambuco – Foto – Ricardo Sabadia
Enquanto isso o cônego Frederico Araújo de Oliveira, pároco de Tacaratu, chegou ao Olho D’água do Bruno depois de haver percorrido os mais de 18 quilômetros de estrada que separam esta propriedade da sede deste município fincado no sertão pernambucano[5].
O lugar estava animado. Vieram pessoas de várias propriedades da região. Como da Salgadinha, do Mulungu, da Tiririca e da Baixa do Capim. Eles chegavam a pé, montados em animais, em carroças, trajando suas melhores roupas e trazendo no semblante a certeza de um momento de união de todos ali presentes junto a Deus.
Quando os cangaceiros chegaram na festa religiosa, a imagem provavelmente pouco diferia desta foto.
O Olho D’água do Bruno tinha como seu proprietário Manoel Gomes de Souza Lima, conhecido na região como “Faceiro”. Para incrementar os festejos ele mandou chamar a banda de pífano de Manoel Biano[6]. Os músicos passaram os nove dias da novena na propriedade, participando e animando a todos durante aqueles dias.
Por volta das nove da manhã do último dia da novena, o cônego Frederico deu a benção aos fiéis e do lado de fora da capelinha a zabumba começou a tocar um hino, significando o final da cerimônia. Logo os membros da comunidade saiam do templo religioso e se reuniam para escutar a bandinha de pífanos[7].
Foi quando alguém gritou: – “Lá vem o hômi!”.
Neste instante chegou ao terreiro da capela Lampião montado em seu cavalo, acompanhado por Luís Pedro, Sabino, Arcoverde e um grupo de cangaceiros que variava entre 40 a 50 homens. O grupo, totalmente equipado e armado, parou suas montarias em meio a uma grande nuvem de poeira. Os cavalos estavam suarentos e bufando. A cabroeira ficou perfilada, montados em suas alimárias, uns ao lado dos outros em meio ao grande pátio da fazenda.
Diante daquela figura imponente, superior, ostentando suas armas e atavios, Sebastião, segurou a mão do irmão Benedito, dando a ideia de fugirem juntos. Mas seu pai advertiu “Ninguém corre”. Sebastião Biano narrou que então um rapaz da região desandou a correr do local, foi atingido por disparos de um dos cangaceiros e morreu na hora[8].
Certamente muitos outros teriam desejado correr, mas faltaram forças e coragem diante daquela morte. Os presentes estacaram no mais puro pânico. Estavam pálidos, com os pés fincados no chão e alguns tremendo feito vara de marmeleiro.
O Baile de Lampião
Lampião desceu do seu cavalo primeiro e os “cabras” ficaram na retaguarda. Nessa hora o “Rei do Cangaço” gritou: “Não corre ninguém e os meus cabras não vão mexer com vocês”. O silêncio era intenso. Lampião então se dirige ao pároco Frederico e ao proprietário Manoel Gomes e trocam cordiais apertos de mão. Depois todos seguiram para a casa grande do Olho D’água do Bruno, a uns cem metros da capela.
Consta que Lampião cavalgou intensamente com seus cangaceiros para chegar no início da missa, mas não conseguiu. Entretanto, entre sorrisos e atenções, o chefe dos cangaceiros entregou uma grande quantidade de dinheiro ao pároco Frederico. Ele saldava assim uma promessa com Nossa Senhora da Saúde, a padroeira de Tacaratu. Sebastião comentou em uma reportagem realizada em 1972 que o cangaceiro tirava o numerário de algumas caixas que estavam nos cavalos e dos bolsos da corona da sela e era muito dinheiro[9].
Lampião então se aproximou dos garotos e perguntou: “Meninos, vocês conhecem o toque de Lampião?”. Foi preciso o chefe bandoleiro repetir a pergunta três vezes para eles responderem um “nóis sabe sim sinhô” bem baixinho e balançarem suas cabeças afirmativamente. O cangaceiro ordenou então que eles executassem o pífano. “Se sabem, toquem.” Naquele momento os dois meninos se urinaram de medo. “Minha língua estava grudada na boca, eu mal conseguia soprar”, recordou Biano.
O pife finalmente soou, inicialmente com erros devido ao medo, mas logo os garotos foram se acostumando, tomando gosto pela brincadeira, se soltando e a música encheu a casa grande.
“É Lamp, é Lamp, é Lamp. É Lamp, é Lampião, Meu nome é Virgulino, Apelido Lampião”.
Nisso Lampião mandou buscar dois cangaceiros do bando – os responsáveis pelas músicas durante as viagens – e bradou: “Vocês tão vendo essas crianças como é que tocam? E vocês, dois cavalões, não tocam piroca nenhuma!”, lembrou Sebastião Biano em 2012, no programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo.
Arte de Cavani Rosas, 1973.
Animado o “hômi” mandou preparar o lugar para realizar “um baile” e foi àquela correria para aprontar tudo ao gosto do “Capitão Virgulino Ferreira”. Os presentes logo se colocaram a disposição para realizar danças e segundo Sebastião aquilo foi um “arrasta-pé vingado”.
Os próprios cangaceiros encararam os instrumentos musicais. Lampião tocou algumas modinhas com um fole de oito baixos que arranjaram por lá e alguns cangaceiros pegaram outros instrumentos.
Homens e mulheres que normalmente nem praticavam o tradicional “dois pra lá e dois pra cá”, dançaram até tango e rumba. Alguns idosos com limitações devido ao reumatismo nem se lembraram disso e bailaram até quando encerrou a festa.
Os cangaceiros comeram toda a comida do evento. “Nem para o padre sobrou. O que não cabia na boca, botavam no chapéu. E a gente, nem fome sentiu, de tanto medo. Quando acabaram de comer, ainda pediram palha de milho para dar aos cavalos”, lembra Biano.
Mas para Sebastião o melhor veio mesmo no final do frege.
Animado, falante, feliz e tranquilo, Lampião literalmente abriu o bisaco e distribuiu uma boa soma de dinheiro com os presentes. Uma grande quantidade de moedas de prata e níquel foi entregue as damas que ali se encontravam e estas não sofreram nenhuma violência por parte dos bandoleiros.
Os cangaceiros puxavam do bolso sem nem contar. Todos esbanjaram muito dinheiro naquele dia no Olho D’água do Bruno. O menino Sebastião mesmo ganhou algumas boas moedas de um cangaceiro por ter arranjado capim e água para o cavalo deste.
Às quatro horas da tarde o grupo de guerreiros encourados partiu ao som do “Toque de Lampião”, executado pela bandinha de Manoel Biano.
“Os Beatles de Caruaru”
Depois daquele encontro os irmãos Sebastião e Benedito foram crescendo e tocando pífano onde fosse possível. Tudo era válido pela sobrevivência.
Benedito e Sebastião Biano em 1972.
Circularam por vários anos em Pernambuco. Estiveram em Poço Comprido, depois na cidade de Buíque, onde Manoel Biano adoeceu em 1934. Na sequência tentaram a sorte nas cidades de Pesqueira, Belo Jardim, até que finalmente, no dia 15 de julho de 1939, chegaram à uma região próxima a grande cidade de Caruaru, onde se estabeleceram em um sítio entre os povoados de Rafael e Contendas.
Com o tempo Manoel Biano deixou a incumbência do toque para aos filhos. Ele faleceu em 1955, mas pediu para seus filhos continuassem a tradição e eles formaram a Banda de Pífanos de Caruaru.
Tempos depois a família Biano foi morar na “rua” de Caruaru, onde Sebastião Biano trabalhou durante muitos anos em uma fábrica de estopas e os filhos mantinha uma pequena oficina de sapatos[10].
Banda de Pífanos de Caruaru
Em meio à dura luta pela sobrevivência, o grupo continuou tocando, incentivado por várias pessoas de Caruaru. Não era difícil encontrá-los realizando apresentações nas quartas e sábados, nas esquinas da cidade e na famosa Feira de Caruaru. Durante as festas juninas o dinheiro crescia mais um pouquinho, pois havia uma grande procura para eles animarem inúmeras festas.
Mas os músicos da família Biano passaram a ficar bem mais conhecidos na região após algumas apresentações nas rádios Difusora de Caruaru e Difusora do Nordeste, fazendo com que seu som alcançasse uma dimensão que eles não previam[11].
No início de 1967, antes do surgimento da Tropicália, Gilberto Gil realizou no Teatro Popular do Nordeste seu primeiro show em Recife. Foi quando Gil conheceu o compositor Carlos Fernando e trocaram ideias sobre a musicalidade local. Logo surgiu o convite para o músico baiano seguir a Caruaru e conhecer uma banda de pífanos de ótima qualidade que tocava na região e que o próprio Gil já ouvira comentários.
Foto histórica, Caruaru 1967: em 1º plano, da esq. para a dir.: Carlos Fernando, casal Roberto Lira, Gilberto Gil, João Lira Neto, Fernando Lira, rapaz não identificado e Onildo Almeida – Fonte – http://www4.interblogs.com.br/homerofonseca/
Em Caruaru o grupo foi recebido pelo então prefeito Anastácio Rodrigues, que mandou chamar a Banda de Pífanos de Caruaru e o encontro aconteceu no Clube Intermunicipal. Este momento foi verdadeiramente emocionante para o músico baiano natural da cidade de Ituaçu. Consta que Gil chegou a chorar, além de ficar embasbacado com o que viu. Ele percebeu certas relações musicais que o grupo fazia no palco, com o que a banda inglesa The Beatles fazia na Europa. A partir deste momento os filhos de Manoel Biano ficaram igualmente conhecidos como “Os Beatles de Caruaru”[12].
Gil então retornou ao Rio e comentou com o amigo Caetano Veloso sobre o que viu na sua viagem pelo Nordeste. Este encontro em Caruaru é considerado pelos pesquisadores da Música Popular Brasileira uma das experiências que vão gerar e impulsionar o Movimento Tropicalista.
Depois, em 1972, no mesmo ano que a Banda de Pífanos de Caruaru lançou seu primeiro LP, Gilberto Gil incluiu no seu trabalho “Expresso 2222” o tema instrumental “Pipoca Moderna” e depois foi Caetano Veloso que colocou letra e a gravou no álbum “Joia”, de 1975[13]. Consta que depois do lançamento de “Expresso 2222”, Gil retornou a Caruaru, acompanhado do poeta e músico baiano José Carlos Capinam, para apresentar o resultado do seu trabalho a Sebastião e Benedito Biano[14].
Sobre o primeiro disco da Banda existe a informação que a gravadora CBS não acreditava na venda daquele projeto. Aí novamente entrou em cena o prefeito Anastácio Rodrigues, que adquiriu 500 mil cópias do disco e o disco foi lançado.
Logo o grupo estava se apresentando em outras paragens do Brasil.
No MAM do Rio de Janeiro, em 1974, onde tocaram juntos o sanfoneiro Dominguinhos, o grupo Quinteto Violado e a Banda de Pífanos de Caruaru.
Em agosto de 1974, no palco de apresentações do Museu de Arte Moderna, o MAM, localizado no Parque do Flamengo, Rio de Janeiro, ocorreu um dos shows mais antológicos da música nordestina na Cidade Maravilhosa. No palco tocaram juntos nada menos que o sanfoneiro Dominguinhos, o grupo pernambucano Quinteto Violado e a Banda de Pífanos de Caruaru. Pena que, até onde sei, não ficou registro gravado deste maravilhoso espetáculo musical[15].
As formações da Banda de Pífanos de Caruaru mudaram ao longo do tempo, mas não a proposta, fazendo da banda uma referência musical bastante sólida até hoje. A expressividade conseguida com o pífano, instrumento rústico e de poucos recursos, é notável e o nome da família Biano chegou longe[16].
Infelizmente Benedito Biano partiu em 16 de dezembro de 1999, aos 89 anos de idade, quando faleceu de insuficiência cardíaca em São Paulo, cidade onde Sebastião Biano passou a residir. Um ano antes a Banda havia ganho o título internacional de melhor grupo percussionista brasileiro em um concurso na Alemanha[17].
Mas o trabalho continuou. Em 2004 a Banda de Pífanos de Caruaru recebeu um Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Regional ou de Raízes Brasileiras.
Continuidade
Mas pessoalmente o incrível desta história toda é a garra, a disposição e a longevidade vivamente positiva de Mestre Sebastião Biano.
Com o espírito de menino solto na brincadeira, Mestre Biano lança seu primeiro disco solo Rafael Pimenta/Divulgação
Em 2015, aos 96 anos de idade, Sebastião, o último remanescente da formação original da Banda de Pífanos de Caruaru, lançou seu primeiro CD solo da sua longa e virtuosa carreira.
Este trabalho se intitulou “Sebastião Biano e seu terno esquenta muié” e contou com a participação do famoso instrumentista Naná Vasconcelos em três das 18 faixas. Além deste participaram Eder Rocha (Mestre Ambrósio), Renata Amaral (A Barca), Filpo Ribeiro (Pé de Mulambo) e Júnior Caboclo complementam a formação do grupo “Terno Esquenta Muié”, projeto da carreira solo de Sebastião Biano. Mestre Biano ainda se apresenta com a Banda de Pífanos de Caruaru, cuja formação atual inclui Junior Caboclo (pífano), João Biano (zabumba), Amaro Biano (surdo), Gilberto Biano (caixa), José Biano (pratos) e Jadelson Biano (percussão)[18].
E os descendentes de Manoel Biano continuam a povoar este nosso Nordeste com suas toadas maravilhosas.
NOTAS
[1] A taquara é uma madeira muito comum nas matas do sul de Pernambuco.
[3] Ver Diário de Pernambuco, Recife – PE, edição de sábado, 2 de abril de 1977, pág. 6.
[4] Vale ressaltar que esta foi uma fase do cangaço de Lampião onde as mulheres ainda não participavam do bando. Ver Maciel, F. B. – Lampião, seu tempo e seu reinado, Livro III, A Guerra de Guerrilhas, págs. 119 e 120. Ed. Vozes, Petrópolis – RJ, 1985. Um detalhe está no fato de Sebastião Biano comentar em diversas reportagens que este encontro ocorreu em 1927. Mas acredito que neste caso o padre Maciel está certo.
[5] No dia 3 de janeiro de 1938, a cangaceira Durvinha (Durvalina Gomes de Sá) deu à luz um menino na caatinga da fazenda Riachão, em Tacaratu. Quem serviu de parteiro foi o seu companheiro Moreno (Antônio Ignácio da Silva). Com muitas dificuldades para criar o menino Moreno e Durvinha decidiram doar a criança para o cônego Frederico Araújo de Oliveira, o mesmo que em 1926 presenciou a chegada de Lampião e seus homens no Olho D’água do Bruno. A criança foi então batizada com o nome de Inácio.
Após a morte de Lampião e Corisco, o padre Frederico Oliveira fez insistentes apelos para que o casal de cangaceiros fugisse, pois do contrário a presença deles na região, caso fossem descobertos, poderia trazer grandes problemas para o sacerdote. Moreno decidiu atender aos pedidos do padre. No dia 2 de fevereiro de 1940, dia da Festa de Nossa Senhora da Saúde, Padroeira de Tacaratu, os cangaceiros aproveitaram o silêncio da noite e partiram.
O casal passou 66 anos no mais absoluto segredo. Nem os filhos sabiam de nada daquele passado medonho. Em 2005, adoentado, Moreno pensou que ia morrer e resolveu contar a longa e dramática vida que levaram no cangaço para os filhos. A emoção tomou conta de toda a família e começou uma busca na esperança de localizar o irmão Inácio. Vale ressaltar que depois da morte do cônego Frederico, no dia 14 de janeiro de 1944, Inácio foi levado à cidade de Paulo Afonso e depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde se tornou oficial da Polícia Militar daquele estado.
O encontro de Inácio com seus pais, seus irmãos e demais parentes, inclusive os tios, irmãos de Durvinha, se deu no dia 5 de novembro de 2005 na casa de Moreno, em Belo Horizonte. Durvinha faleceu em 2008 e Moreno em 2010.
[6] Nesta época o Olho D’água do Bruno era provavelmente uma antiga propriedade que foi repartida e suas terras vendidas. Pois além de Manoel Gomes de Souza Lima, o conhecido Faceiro, segundo os dados coletados em nossa pesquisa, no início da década de 20 do século passado existia na zona rural de Tacaratu três propriedades registradas com a denominação Olho D’água do Bruno, sendo seus proprietários José Maria Campos, Manoel Antônio Torres e Argemiro Lyra Barbosa. O interessante é que Faceiro não constava desta listagem. Ver “Relação dos proprietarios dos estabelecimentos ruraes recenseados no Estado de Pernambuco – Recenseamento do Brazil, realizado em 1 de setembro de 1920”, pág. 365, Typografia da Estatistica, Rio, 1925.
[8] Segundo o padre Frederico Bezerra Maciel ninguém morreu neste acontecimento. Inclusive o padre apontou que em 1947 entrevistou Benedito Biano sobre este episódio. Entretanto esta afirmação tem de ser observada com reservas, pois o padre Maciel caracterizou sua obra sobre a vida de Lampião por uma intensa defesa das ações protagonizadas por este chefe cangaceiro. Para alguns o padre Maciel “só faltou canonizar Lampião na sua série de seis livros”. Ver Diário de Pernambuco, Recife – PE, edição de quarta feira, 2 de agosto de 1972, Primeiro caderno, pág. 10 e Maciel, F. B. – Lampião, seu tempo e seu reinado, Livro III, A Guerra de Guerrilhas, págs. 119 e 120. Ed. Vozes, Petrópolis – RJ, 1985.
[9] Ver Diário de Pernambuco, Recife – PE, edição de quarta feira, 2 de agosto de 1972, Primeiro caderno, pág. 10.
[10] Consta que outra influência para os irmãos Biano seguirem com a bandinha criada pelo pai, estava no prestígio alcançado por Vitalino Pereira dos Santos, conhecido como Mestre Vitalino, um grande artesão do barro e exímio tocador de pífano. Ver “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro – RJ, edição de terça feira, 18 de julho de 1972, pág. 11, “Diário de Pernambuco”, Recife – PE, edição de terça feira, 20 de maio de 1972, pág. 8 e “Jornal do Brasil”, Rio de Janeiro – RJ, edição de sexta feira, 8 de dezembro de 1972, pág. 15 e
[11] Ver “Jornal do Commércio”, Recife – PE, edição de sábado, 16 de setembro de 1972, pág. 10.
[12] Ver “Diário de Pernambuco”, Recife – PE, edição de sábado, 2 de abril de 1977, pág. 6.
Venda dos carros seria para pagar direitos trabalhistas de funcionários. Arqueóloga denuncia o atraso nos repasses para a Serra da Capivara.
A arqueóloga, diretora-presidente da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) e também administradora do Parque Nacional Serra da Capivara, patrimônio arqueológico internacional, ameaça a venda dos veículos do parque para poder pagar direitos trabalhistas de pelo menos 80 funcionários que foram demitidos em 2015 da Fundação.
Ela contou que a decisão se deu por conta de repasses que o parque ainda não recebeu. Em 2016, por exemplo, ela contou que não foram repassados nenhum valor e lamentou um 2015 ao qual ele definiu como “muito difícil”.
Niéde diz que a manutenção do Parque Nacional da Serra da Capivara custa em todo de R$ 6 milhões por ano, dinheiro que vinha da união e de compensações ambientais.
Serra da Capivara (Foto: André Pessoa/Arquivo pessoal)
“O que acontece é que não estamos mais recebendo esses repasses que eram feitos naturalmente todos os anos, e garantia a manutenção do parque. Mas infelizmente, o governo mudou a lei de compensação ambiental e as empresas não são mais obrigadas a passar esse valor diretamente para as instituições, mas sim, mandam para Brasília, para o fundo de compensação ambiental. Então nós estamos praticamente no fim”, contou.
A manutenção, segundo alguns dos poucos funcionários que sobraram no Parque, fica prejudicada. Segundo a direção do parque, 16 das 28 guaritas foram fechadas. Sobrecarregado, em uma delas, o agente de manutenção José Pedro reclama da dificuldade de cuidar de mais de 16 km de estradas e trilhas todos os dias.
“Como a gente tem o prazer de cuidar do parque, para que os acessos fiquem melhor, a gente sempre estende um pouco mais além do que podia fazer. Mas sem os recursos, não temo como mantermos isso”, contou.
O dinheiro que poderia ser arrecadado com as visitações no parque poderia injetar no parque mais de R$ 84 milhões por ano, bem mais necessário do que o precisaria para manter o parque. Mas o impasse no aeroporto da região que foi inaugurado no ano passado, está fechado, ainda não recebe vôos comerciais e está totalmente parado.
“O ICMbio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) não está sendo protegido. Nós agora estamos mantendo seis guaritas abertas, com recursos que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) nos mandou, mas só foram R$ 400 mil. Dá para manter o parque durante uns três a quatro meses, e só”, contou.
Resposta
Em nota, o Governo do Estado informou que negocia com uma empresa aérea a oferta de voos regulares para o Aeroporto Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, e contou também que oferece isenção de tarifas e subsídios às empresas. O governo se propôs ainda a patrocinar publicidade nas aeronaves.
A nota diz ainda que o Governo trabalha um plano para desenvolver o turismo na região. As ações vão desde o treinamento e capacitação de guias e trabalhadores de hotéis, pousadas e restaurantes até a divulgação e promoção do roteiro turístico da região dentro e fora do Brasil, como forma de atrair turistas.
Uma das mais importantes historiadoras brasileiras do século XX, Emília Viotti da Costa provoca o leitor ao investigar nosso passado sob diferentes perspectivas.
A Editora Unesp acaba de lançar “Brasil: história, textos e contextos”, de Emília Viotti da Costa. Aqui ela investiga o passado para imaginar o futuro.
Emília Viotti da Costa, finalista do Prêmio Jabuti 2015 na categoria Ciências Sociais, conquistou um lugar de destaque na historiografia brasileira do século XX ao resgatar – em obras já clássicas como “Da Senzala à Colônia” e “Da Monarquia a República”, ambas publicadas pela Editora Unesp – vozes marginalizadas pelos registros oficiais.
Seus escritos, além de serem referência para estudiosos, descortinam novos olhares para questões nacionais perenes, como o autoritarismo e a fraqueza das instituições democráticas. Ou seja, trata-se de uma trajetória intelectual provocativa e atuante, delineada de maneira clara em “Brasil: história, textos e contextos” (352 páginas, R$ 58,00).
Emília Viotti da Costa na Universidade de Yale
São aqui recuperados textos sobre a história do Brasil escritos em vários momentos, desde seus primeiros passos em busca do passado até os mais recentes, que datam da última década. Mas todos carregados de uma dramática contemporaneidade, como a defesa que faz da universidade pública – tanto no discurso proferido quando da entrega do título de professor emérito na USP quanto em “Globalização e reforma universitária: a sobrevivência do MEC-Usaid” –, vinculando-a a um processo econômico, político e social mais amplo, numa abordagem vital para os atuais debates sobre autonomia e financiamento do setor.
Dos dilemas do neoliberalismo aos sucessos e fracassos do mercado centro-americano, da reforma universitária às reflexões sobre a crise mundial da última década, Viotti concentra sua atenção em setores sociais ausentes nas grandes narrativas históricas. Com isso, desmitifica concepções simplificadoras da história brasileira, possibilitando um esclarecimento profundo da identidade nacional, que leva a questionamentos essenciais para a compreensão do presente, investigando hábitos gerados e consolidados desde a época colonial e permitindo vislumbrar diferentes formas de imaginar o futuro.
Emília Viotti da Costa, nascida em São Paulo, é formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e livre-docente pela mesma universidade. Aposentada em 1969 pelo AI-5, lecionou em várias universidades dos Estados Unidos.
Algumas obras de Emília Viotti da Costa
A abolição
144 páginas
Por que o regime escravocrata foi repudiado no Brasil com tanta veemência em 1888, depois de ter sido aceito sem objeções durante séculos? Por que o projeto que decretou seu fim foi encaminhado com tanta urgência? Como explicar a aprovação da lei Áurea ao largo de debates mais acalorados por um parlamento em grande parte eleito por senhores de escravos? Por que estes não se armaram para tentar impedir o ataque à sua propriedade, garantida na Constituição? Que papel os negros e os escravos desempenharam no processo? Estas são algumas das questões que Emília Viotti da Costa pretende responder nesta obra, publicada originalmente em 1987, enfatizando que, embora tenha sido uma conquista, a libertação dos escravos foi apenas um primeiro passo em direção à emancipação dos negros no Brasil.
Da Senzala à Colônia
560 páginas
Neste livro fundamental, a autora demonstra que a abolição dos escravos no Brasil representou apenas uma etapa na liquidação da estrutura colonial, mas golpeou duramente a velha classe senhorial e coroou um processo de transformações que se estendeu por toda a primeira metade do século 19. Tal processo prenunciava a transição da sociedade senhorial para a empresarial, do trabalho escravo para o assalariado, da monarquia para a República.
ALGUMAS IMAGENS DESTA COLEÇÃO SÃO MATERIAIS DE ENORME VALOR PARA HISTORIADORES POTIGUARES E NORDESTINOS DE MANEIRA GERAL, COMO ESSE MAPA DO BRASIL PUBLICADO PELO IRLANDÊS-AMERICANO MATHEW CAREY EM 1814. NESSE CASO, DEVIDO A BOA RESOLUÇÃO DA IMAGEM, É POSSÍVEL VISUALIZAR COM ALGUMA QUALIDADE A REGIÃO LITORÂNEA DO RIO GRANDE DO NORTE, PARAÍBA, PERNAMBUCO E PARTE DO CEARÁ. AQUI PODERMOS OBSERVAR ALGUNS ACIDENTES GEOGRÁFICOS DA COSTA DESTES ESTADOS, COM NOMES QUE SE MANTIVERAM ATÉ OS DIAS ATUAIS.
Acervo contém fotos e ilustrações que mostram cenas do cotidiano e personagens comuns do país entre os séculos 19 e 20
A Biblioteca Pública de Nova Yorkdigitalizoucerca de 180 mil imagens de seu acervo e disponibilizou fotos e ilustrações – algumas inéditas em plataforma digital – do Brasil na era imperial.
São imagens de livros antigos que mostram escravos, índios, soldados, fauna e flora, nobreza e algumas cenas do cotidiano das metrópoles do país nos séculos 19 e 20. Entre o material digitalizado estão fotos inéditas comoessade Dom Pedro II.
FOTO DE D. PEDRO II, IMPERADOR DO BRASIL, NO SÉCULO 19.
O arquivo conta com livros como The Negro in The World, publicado em 1910 pelo explorador inglês Sir Harry Johnston, e o Livro de Figurinos do Exército Imperial Brasileiro de 1866,compiladopor um médico holandês e doado à biblioteca em 1911.
Outro livro digitalizado é o “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, de Jean-Baptiste Debret, que chegou ao país com a Missão Francesa em 1816. Depois de uma estadia de 15 anos, o pintor e desenhista produziu uma das fontes mais relevantes de imagens sobre a fauna e a flora e a sociedade brasileira da época.
GRAVURA DE UMA VENDA NO RECIFE DO SÉCULO 19, PELO ARTISTA JOHANN MORITZ RUGENDAS.
Para ver tudo o que está disponibilizado sobre o país, bastabuscarpela palavra-chave “Brazil” no site do acervo digital da Biblioteca Pública de Nova York.
Jornal “A República”, Natal-RN, 3 de dezembro de 1919
Manuel de Oliveira Lima foi um ilustre escritor, crítico, embaixador do Brasil em diversos países, professor-visitante na Universidade de Harvard e membro fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL). Em novembro de 1919 ele esteve em terras potiguares e o blog TOK DE HISTÓRIA traz na íntegra o interessante relato do próprio Oliveira Lima sobre essa visita.
NOTA – Este material foi originalmente publicado no site http://www.consciencia.org/
É um ótimo sinal quando se chega a uma terra que não é uma terra de arte como a Itália ou a Grécia, ou uma terra de incomparáveis belezas naturais como o Japão ou a Suíça, e as coisas que há a mostrar ao estrangeiro são escolas e hospitais.
Quer isto dizer que essa terra acalenta as preocupações sociais sem as quais qualquer comunidade se torna improgressiva e infecunda do ponto de vista humano. Como o Rio Grande do Norte parece precisamente que nutre e dá, pelo que verifiquei, expansão a semelhantes preocupações, sendo isso tanto mais de admirar quanto é um dos Estados mais pobres da Federação.
É clássica a pilhéria de que os vencimentos dos seus empregados públicos se pagavam em parte com jerimuns, cuja abundância era notável ao lado da escassez do numerário. As circunstâncias decerto mudaram: os jerimuns devem ter diminuído ao ponto que os não vi e achei pouco delicado perguntar por eles, e o numerário, se não cresceu muito, tem sido aproveitado com tamanha felicidade que tem chegado para dotar-se o Estado de boas escolas, entre elas notáveis grupos escolares, e atender-se a serviços de assistência aos doentes, aos loucos e aos desvalidos.
Ao aproximarmo-nos de Natal, ao largo da linha negrft dos arrecifes, antes de dobrarmos a fortaleza dos Reis Magos, inofensiva hoje mas sempre pitoresca, que a patina secular embeleza e o senso da tradição faz conservar, e de subirmos o amplo Potengi, avista-se no cimo de um morro, a cavaleiro da praia onde se quebram as ondas e com um horizonte de colinas cobertas de uma vegetação escura, um grupo de construções. São o hospital, a cadeia e o asilo, o primeiro e o último já remodelados de maneira a preencherem adequadamente os seus fins.
O desvelo manifestado por semelhantes assuntos de pedagogia e de assistência honra o espírito público dos dirigentes. Mas também os dirigidos se distinguem pela sua cordura e urbanidade.
Coleção TOK DE HISTÓRIA
Tem-se a impressão de lidar com gente boa, de sentimentos mais pacíficos, e de fato o sertão do Rio Grande do Norte destoa dos sertões vizinhos em não apresentar essa feição peculiar do banditismo. A população acusa, portanto, uma superior disposição moral. Por quê? Não saberia dizê-lo, nem me deram disso a razão. O Rio Grande do Norte tem ainda falta de sociólogos. A superior mentalidade feminina que observei deverá ser, antes do que causa, resultado daquela condição do meio.
É curioso verificar esse maior desenvolvimento intelectual da mulher, que se sente como se sente que já vem de longe o favor que merece o ensino. A primeira formação espiritual da notável escritora que foi Nísia Floresta fez-se no agreste de Papari, desabrochando das brenhas essa flor de civilização. Outras senhoras continuam e zelam semelhante tradição, que dota a inteligência do seu sexo de uma maior independência e de uma maior amplidão. A Escola Doméstica de Natal, da qual não é exagero quanto se disser de bom que não tem sua parelha no Brasil, nem mesmo noutros países, havia forçosamente de adaptar-se ao meio, nele se sentido à vontade.
Ouvi que exerceram grande influência em Natal na sua atividade de educadoras duas americanas, Miss Reed e Miss Porter, se não me engano. Miss Leora James, a diretora incomparável da Escola Doméstica, que pela organização e pela disposição parece um pedaço dos Estados Unidos encravado no Rio Grande do Norte, não faz mais do que seguir-lhes as pegadas na esfera que lhe proporcionou a lúcida iniciativa do Governo.
A educação americana é útil pelo seu espírito prático adequado às vicissitudes da vida, pelo bom humor que preside ao seu desenvolvimento, por uma tonalidade que não é apenas jovial mas altamente eficiente. Considero-a vantajosa para a nossa mentalidade mais formalista e mais pautada pelas convenções. Nos discursos pronunciados na festa literária pelas alunas graduadas da Escola Doméstica pode perfeitamente notar-se esse influxo americano. Nem sentimentais, nem bombásticos, esses discursos, por elas elaborados, foram todos repassados de um humourque se casa perfeitamente com a saudade descrevendo um, com a franqueza da despedida, episódios da vida escolar, esboçando outro com uma ponta de malícia mas sem maldade os perfis dos mestres com os seus cacoetes, dando outro a conhecer um testamentomuito espirituoso, formulando ainda outro com graciosa ironia o programa que por magia cada uma dessas moças se traçara para a existência. Esta última produção é da aluna Isabel Dantas, que teve o prêmio de viagem.
A Escola Doméstica não tem desviado sua atenção do fim essencial da sua ação, que é ajudar o progresso social da comunidade, dando às moças, que serão amanhã mães de família, além dos conhecimentos gerais indispensáveis à vida da inteligência, o preparo necessário para desempenharem conscientemente, isto é, cientificamente, as diferentes categorias de atividade em que até aqui procediam empiricamente, quer dizer, instintivamente. Assim é que para a aula de puericultura existe anexa uma crechecom seis crianças, de dois dias a cinco anos, cuja evolução fisiológica e psicológica pode, portanto, ser diretamente observada.
Oliveira Lima assistiu uma tradicional vaquejada, com vaqueiros trajando sua característica vestimenta de couro, como apresentada nesta foto do início do século XX. Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA
A essa chamada e verdadeira medicina do lar agregam-se cursos que debalde se procurariam noutras instituições: o de educação social, a cargo de Henrique Castriciano; o de educação estética, comportando a decoração da casa, uma arte simples e encantadora mas ainda rara no nosso meio; de direito usual, para que as mulheres não ignorem nem os seus direitos civis, nem o que seja uma hipoteca ou outra qualquer transação sobre propriedade, assim evitando que pela vida adiante venham a ser logradas nos seus bens.
Não há por enquanto na Escola um campo de tennis.Entretanto, o sportnão é alheio ao belo sexo do Rio Grande do Norte: pela mais gentil das deferências, baixei a terra numa embarcação tripulada por adestradas remadoras do Clube Náutico feminino. Outros desportos florescem: não posso dizer se também o footballentre os homens. É mais que provável, se bem que sem o furor que noutro Estado do norte divide a sociedade local em campos irreconciliáveis, sendo por exemplo vedado ao membro ou partidário de um dos dois clubes fazer negócio com o do outro clube, extremando-se o comércio nesses antagonismos e chegando não raro os desaguisados de opinião à pancadaria.
Ao sertão não alcançaram, porém, ainda esses exercícios físicos americanos e o seu desporto principal continua a ser a vaquejada nacional. Assisti a uma na Fazenda Santa Rita, em que tomaram parte oitenta e tantos artistas,na maior parte profissionais vestidos de couro — a vestia, o dianteiro, as perneiras, o chapéu de abas e as meias-luvas — alguns, porém, amadores, como um negociante da Serra Caiada que me confessou que dava a alma por essa corrida em disparada atrás do animal que o cavaleiro trata de segurar pela cauda e desse modo derrubá-lo, para o que se requer força e agilidade. Já noutras ocasiões tinha partido um braço, uma perna e uma clavícula; concertara tudo e lá estava numa das filas de cavaleiros, esperando a saída do bicho do curro.
Antiga sede da Escola Doméstica de Natal – Fonte – tribunadonorte.com.br
Se já não tivesse quatro filhos, não perdia uma, rematou. E eu dava-lhe razão, porque a vaquejada deve ali operar como a tourada no espírito dos que se criaram assistindo a elas e interessando-se por quanto lhes diz respeito.
A Escola Doméstica de Natal representa uma soma incalculável de esforço e de tenacidade. Não faltavam preconceitos a disputar-lhe o passo. Foi ela combatida como pouco pudica por ter uma seção de puericultura, a qual entretanto é de natureza a prestar relevantes serviços, ajudando a cruzada do saneamento da população nacional, empreendida por alguns espíritos previsores e generosos. Nós sabemos quanto é avultada no país a mortalidade infantil e que a razão disto está mais que tudo na falta, não de carinho, mas de cuidados inteligentes dados à alimentação e à higiene das crianças.
Ciência ou arte, a puericultura deve adquirir-se como qualquer outra, e é como se procede hoje nos Estados Unidos, que tão grande atenção estão prestando a esse gênero de questões.
A Escola foi ainda increpada de fútil por pretender ensinar a coser, a lavar e engomar, a cozinhar, a fabricar manteiga e queijos, a tratar de galinhas, a cuidar de jardins e de hortas. Ora, um minuto de reflexão basta para indicar quanta utilidade envolve tudo isso. Ensina-se a costura e a cozinha naquele estabelecimento de instrução com o máximo do gosto e o máximo da economia. No Brasil os pobres sofrem de falta de alimentação substancial mais do que na Europa: em compensação, porém, os que podem gastar, e mesmo os remediados, comem demasiado, considerando uma mesa opípara ou pelo menos muito farta a primeira das condições do conforto. O nosso jantar comum de família compõe-se de dois e três pratos de meio, quando um bastaria, com uma sopa e uma sobremesa. E o desperdício no preparar iguala o desperdício no consumir. O banquete que me foi oferecido pela Escola Doméstica, todo de execução das alunas graduadas, auxiliadas pelas do segundo ano, consistia numa boa sopa, um peixe excelente, galinha com salada de legume e sorvete de abacaxi.
Henrique Castriciano de Souza foi um dos que estiveram junto de Oliveira Lima na sua visita ao Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA
As alunas aprendem a compor o seu orçamento culinário como outro qualquer e a respeitarem esses orçamentos: assim fizessem os governos. Os vestidos das graduadas, para a festa da formatura, por elas próprias executados, custaram, fazenda e enfeites, 47$000 cada um. Também para os trajes se faz orçamento, o que constitui uma magnífica promessa de tranquilidade nos casais. A modéstia é de rigor na vestimenta escolar. Trajam todas igualmente de branco, sem sacrifício da elegância compatível com a simplicidade, e não usam joias, para não estabelecer diferenças de fortuna assinalando-as por esse meio.
Compreende-se a vantagem que o fabrico dos laticínios pode emprestar a muitas raparigas, filhas de criadores, cujas manadas de vacas dão muito mais leite do que podem consumir suas famílias e que só aproveitam as sobras em uma espécie tradicional de requeijão. A avicultura é outra ciência de grandes benefícios, como também a pomicultura e a horticultura. Tudo isso, aliás, distrai dos trabalhos puramente mentais e varia o programa escolar, contribuindo para completar uma educação feminina. A vida no internato faz-se assim tão aprazível, dada também a suavidade da direção, a qual não exclui a disciplina, apenas trata de torná-la consciente, que não há por assim dizer aluna que não deixe a escola com vivas saudades da atmosfera de bem-estar e de cordialidade que em redor delas soube criar a ótima educadora a quem em boa hora a Liga do Ensino confiou semelhante tarefa.
Na época da visita de Oliveira Lima a Natal, a cidade tinha uma população com pouco mais de 30.000 habitantes. Na foto vemos o então Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA
Nessa vivenda adrede construída, em boa parte segundo as indicações da mesma diretora, passa-se uma existência muito mais de família que de colégio, na velha acepção do termo, cumprindo cada qual seus deveres com satisfação e não se regateando as ocasiões de agradável intercurso, participando as alunas da administração comum, vivendo portanto do espírito da casa que é de método ao mesmo tempo que de liberdade, e é sobretudo de autonomia no pensar e no sentir. Pelo que pude ver, as alunas adquirem desembaraço sem contraírem desenvoltura.
A festa da Escola terminou por uma alegoria à paz, a qual expulsa do palco a guerra, enquanto os Estados Unidos e o Brasil se unem num amplexo de aliança. Os educadores norte-americanos, longe de quererem suscetibilizar o sentimento patriótico das nações da América do Sul, fazem o que está ao seu alcance para avivá-lo, no interesse mesmo da cooperação e solidariedade visadas. A sua ação redunda igualmente na disseminação do espírito associativo, que faz parte integrante do feitio americano. A seção culinária da Escola Doméstica de Natal já está ensaiando uma espécie de “extensão” entre as famílias; mediante o preparo, pelas matronas que aderem aos clubes gratuitos, de conservas de legumes e frutas com que aproveitar o produto de umas estações em outras, também de bolos e doces.
De tudo quanto me foi dado observar na minha rápida visita ao Rio Grande do Norte, eu trouxe a impressão consoladora para um espírito brasileiro de que no seu governo e nos agentes que lhe personificam a ação existe mais pronunciado do que noutros pontos do território nacional o sentimento do dever cívico que se desdobra no dever humanitário para com os nossos semelhante. O fato deixará de parecer surpreendente a quem tiver em mente que o vulto histórico para quem vão todas as simpatias locais, todo o culto da comunidade, foi não um agitador ou um demagogo, mas um homem essencialmente de caráter.
O Padre Miguelinho foi um sacerdote instruído e meigo, professor querido dos seus discípulos e espírito não só ilustrado como preocupado de conciliação e de concórdia; mas o que sobretudo o torna grande entre as vítimas generosas da revolução de 1817 foi a sua inquebrantável lealdade para com os companheiros de revolução e sobretudo para com a sua fé política. Nessa figura tocante, que resistiu ao apelo à vida que lhe estendiam, é que se concentra a devoção patriótica dos rio-grandenses do norte. O influxo de tal devoção não podia deixar de ser salutar para uma sociedade.
Manuel de Oliveira Lima (Recife, 25 de dezembro de 1867 – Washington, Estados Unidos, 24 de março de 1928).
Oliveira Lima começou a trabalhar como jornalista com catorze anos de idade. Em seus artigos constantemente criticava o domínio das oligarquias sobre a recém-fundada República e por isso ganhou fama de monarquista.
Formou-se em letras na Faculdade de Lisboa em 1887, e em 1890 começou a trabalhar para o Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Atuou como diplomata em Portugal, Bélgica, Alemanha, Japão e Estados Unidos.
Foi encarregado de negócios da primeira missão diplomática brasileira no Japão. Em 1901 deu parecer contrário ao projeto brasileiro de recebimento de imigrantes japoneses. Escreveu então ao Ministério das Relações Exteriores alertando sobre o perigo de o brasileiro se misturar com “raças inferiores”.
Chegou a ser falado para a embaixada brasileira em Londres mas o Senado não aprovou sua indicação. Oliveira Lima era malvisto pelo governo britânico por defender que o ideal de que o Brasil permanecesse neutro na Primeira Guerra Mundial e por sua proximidade intelectual com a Alemanha.
Também fez inimigos dentro do país, em parte por não aprovar a atitude expansionista da República em situações como a anexação do Acre realizada pelo Barão do Rio Branco. Ele dizia que o território nacional já era vasto e muito mal fiscalizado e que a verdadeira expansão do Brasil só viria através do comércio.
Oliveira Lima sempre gostou de ler e escrever. publicou numerosas obras de história, entre elas: Memória sobre o descobrimento do Brasil, História do reconhecimento do Império, Elogio de F. A. Varnhagen, No Japão, Secretário Del-Rei, Dom João VI no Brasil. Sobre esta última obra de história que Oliveira Lima publicou é importante destacar sua importância para o rearranjo da historiografia brasileira, pois ela é considerada como sendo um clássico da historiografia nacional segundo o Lima um intelectual que têm variadas conferências sobre a formação da nacionalidade brasileira. A ilustre obra “Dom João VI no Brasil” é considerada como sendo uma das grandes obras do autor Oliveira Lima. Essa avaliação é feita por muitos estudiosos e autores relacionados a questões significativas sobre o Brasil. Alguns autores e escritores como Gilberto Freyre, Octavio Tarquínio de Souza e Wilson Martins já tiveram a oportunidade de escrever sobre os relatos de Oliveira Lima contidos nesta obra de grande prestígio para a historiografia brasileira.
Em 1913 quando já morava nos Estados Unidos, Oliveira Lima doou sua descomunal biblioteca à Universidade Católica de Washington por temer que a coleção não recebesse os cuidados adequados no Brasil. Impôs a condição de que ele próprio fosse o primeiro bibliotecário e organizador do acervo, função que desempenhou por quatro anos.
Em 1924 foi apontado professor honorário da Faculdade de Direito do Recife.
Morreu em 1928 e foi enterrado no cemitério Mont Olivet, Washington. Em sua lápide não consta seu nome, mas a frase “Aqui jaz um amigo dos livros“.
Este site é um espaço virtual de estudo, pesquisa e ensino. Tradicional site de filosofia, que ampliou o leque temático para abranger outras ciências humanas: História do Brasil, História Geral, Literatura, Antropologia, Sociologia, Linguística e áreas afins. Foi criado em 1997, pelo filósofo Miguel Lobato Duclós (1978-2015). Segundo seu pai, Nei Duclós, o trabalho desenvolvido por Miguel Lobato Duclós proporcionou a criação de um vasto acerto virtual de conhecimento, um trabalho pioneiro num país onde a universidade ainda possui um forte preconceito contra a internet. O espaço virtual consciência.org atrai milhares de estudantes e é responsável pela introdução à Filosofia e atualização do conhecimento para mais de uma geração de alunos, que se mostram admirados e agradecidos, como atestam as inúmeras cartas recebidas e publicadas neste website.
O blog TOK DE HISTÓRIA homenageia Miguel Lobato Duclós como verdadeiro pioneiro da democratização da informação intelectual em espaço virtual.
Um personagem marcante nas universidades, especialmente as públicas.
Em tempos de crise e impostos draconianos, poucos devem ser os contribuintes sabedores de que uma parte do suado dinheiro que transferem diariamente para o Estado, na forma de impostos, há tempos vem sustentando uma categoria muito conhecida dos frequentadores das universidades públicas brasileiras: o estudante profissional. Para quem não está familiarizado com o personagem, o estudante profissional é o indivíduo que entra na universidade somente para fazer política partidária e, muitas vezes – não sempre –, é remunerado para tal por partidos. Ora, dirão alguns, é um direito de qualquer jovem entrar na universidade, vincular-se a um partido e militar livremente em favor dele, onde julgar oportuno.
A coisa, porém, não é tão simples e transparente. O estudante profissional tem algumas características que são bastante lesivas a quem paga imposto e sonha ver o seu fi lho, o seu parente, o filho do seu vizinho, ou seja lá quem for numa universidade pública de qualidade. Frequentadores, em geral, de cursos com menor concorrência no vestibular (licenciaturas), o estudante profissional despende sete, oito anos para finalizar uma graduação que a média dos estudantes leva somente quatro ou cinco anos para concluir. Dificuldades pedagógicas de um grupo com má formação prévia? Raramente é isso que está em jogo. O estudante profissional quase não frequenta as aulas e praticamente não se dedica a atividades acadêmicas. Ser reprovado faz parte de sua estratégia para permanecer o máximo de tempo possível na universidade – gastando negligentemente o dinheiro do contribuinte e ocupando as vagas de quem realmente quer estudar.
E o pior ainda está por vir. Depois de formado ou, por vezes, quando faltam poucas disciplinas para a formatura, o estudante profissional presta um novo vestibular – em outro curso da mesma instituição, para que seu trabalho de militância e recrutamento partidários tenha continuidade, ou numa outra instituição pública de ensino, levando a sua “experiência de engajamento” para plagas onde é menos visado – e permanece por mais de uma década no sistema universitário público.
Durante o propositalmente longo período em que frequenta o espaço universitário, seus interesses, demandas e comportamentos estão atrelados ao partido que representa. O seu papel, através da presença sistemática em assembleias (seu hábitat natural), centros acadêmicos, diretórios e congêneres, é levar as demandas partidárias para a universidade, demandas muitas vezes estranhas ao meio e contrárias à lógica méritocrática que deveria regê-lo.
Outra atividade que interessa ao estudante profissional é recrutar militantes. Daí o gosto com que faz suas quaisquer “lutas” que apareçam pela frente. É o apoio inflamado a causas diversas – causas quase sempre populistas, que vão da defesa de concessão de bolsas sem avaliação de mérito acadêmico ao apoio à venda exclusiva de produtos oriundos de “movimentos sociais” para refeitórios da universidade – que lhe garante simpatias e possíveis adesões ao grupo político que representa. Dito em poucas palavras, o estudante profi ssional não frequenta a universidade para ser um universitário, ele é um soldado de partido, um soldado que – a prática tem demonstrado isso – não hesita, frequentemente com o apoio de docentes vinculados aos mesmos grupos, em comprometer o bom andamento da universidade em nome dos interesses partidários.
O momento vivido pelo país, que, depois de longa letargia, parece ter urgência em retomar o debate sobre os rumos que deseja tomar, é ideal para que o contribuinte conheça essas pequenas distorções do funcionamento da coisa pública e decida se quer ou não que elas se perpetuem. Instrumentos para corrigir os desvios e gastar com mais rigor o dinheiro dos impostos existem, instrumentos legítimos e democráticos: elevar médias, colocar limites para reprovações, reduzir o tempo máximo de permanência na universidade, criar mecanismos para evitar que um cidadão curse dois, três cursos consecutivamente na universidade pública etc.
É preciso que a sociedade se posicione; afinal, é ela quem paga a conta, e a conta é cara.
AUTOR – Jean Marcel Carvalho França, professor da Unesp, é autor, entre outros livros, deA construção do Brasil na literatura de viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII(José Olympio/ Unesp, 2012) ePiratas no Brasil(Globo, 2014), com Sheila Hue
Normalmente as pessoas que gostam de um determinado tema histórico possuem em suas casas livros sobre o assunto de sua preferência. Certamente que nestas estantes alguns destes livros se destacam de outros pelo constante manuseio e a frequência com que seus proprietários vasculham suas páginas em busca de respostas para certas indagações. São aqueles livros que se tornam referência. Evidentemente que diante dessa situação, surge naturalmente uma positiva admiração pelos autores destes maravilhosos trabalhos.
Na minha estante sobre livros do cangaço, que nem é tão numerosa assim, existem alguns poucos livros que se enquadram perfeitamente nesta situação, cujos autores são verdadeiros Mestres para mim. Um deles é “Guerreiros do Sol”, de Frederico Pernambucano de Mello.
Nessa minha busca pelo conhecimento do que significa o fenômeno do cangaço, sem dúvida alguma esta obra é uma grande ferramenta que me ajuda a ampliar o meu conhecimento sobre o tema.
Com o tempo fui incorporando ao meu acervo outros interessantes livros de Frederico Pernambucano de Mello, todos de alto nível.
E hoje, em Recife, eu tive o privilégio de conhecer Mestre Frederico.
Fui recebido de maneira extremamente atenciosa, em um momento muito agradável, muito salutar, onde pudemos debater de maneira tranquila e aberta sobre o universo do cangaço e da história de nossa região.
Conheci um homem com amplo conhecimento sobre esse tema, mas com uma natural simplicidade, enorme fidalguia e extrema atenção a este seu admirador.
Eu só tenho o mais franco agradecimento ao Mestre Frederico por este agradável encontro.
Sob o governo Vargas, ideário de Hitler influenciou políticas e seduziu parte da população brasileira
Persiste certo silêncio sobre a presença e atuação dos nazistas no Brasil. Não se sabe nem o número de partidários de Hitler que vieram ao país depois da Segunda Guerra Mundial, acusados de crimes contra a humanidade. Governado por Getúlio Vargas entre 1930 e 1945, o Brasil havia se tornado uma espécie de seara livre para a circulação de nazistas, fascistas e integralistas.
Mesmo antes do golpe militar liderado por Getúlio Vargas, o Estado apelou para um conjunto de leis de exceção. Em sua essência, elas prepararam o Brasil para receber as propostas revolucionárias do fascismo italiano e do nazismo alemão como “novidades da modernidade”. A imprensa brasileira cuidou de reportar, com alguma admiração, as conquistas de Mussolini a partir de 1922 e de Hitler a partir de 1933. Os nacionalismos alemão e italiano se transformaram em fontes de inspiração para o modelo de nação que se pretendia construir no país: forte e homogênea. A propaganda oficial emergiu como instrumento para o exercício do poder mascarado de “política trabalhista”, controlada por leis rígidas e um tribunal de exceção. Os conceitos e os partidos de extrema-direita proliferavam e conquistaram segmentos importantes da população.
As ideias de Hitler começaram a aportar no Brasil já em 1929, quando imigrantes alemães recém-chegados formaram os primeiros núcleos nazistas. Após a ascensão do Führer ao poder, em 1933, esses grupos foram integrados àAuslandorganisation der NSDAP –a Organização do Partido Nacional-Socialista para o Exterior (AO). No ano seguinte, o governo alemão organizou um sistema de infiltração e de propaganda com os alemães radicados no estrangeiro. Em 1937, Ernest Wilhelm Bohle, responsável pela AO, assumiu também funções diplomáticas na Embaixada Alemã no Brasil, permitindo que o Partido Nazista cumprisse ostensivamente a missão de “proteger” os alemães do exterior.
Várias dessas instituições foram criadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba. A maior concentração de partidários do nazismo deu-se no Estado de São Paulo, com 785 filiados ao Partido Nacional-Socialista. Entre eles havia operários, comerciantes, agricultores e industriais. Mas nem todo simpatizante se filiava ao partido. Dezenas de grupos fascistas e nazistas emergiram em vários pontos do país, favorecidos pelo autoritarismo do Estado e por segmentos conservadores da Igreja Católica e da imprensa. E havia uma parcela significativa das comunidades de imigrantes italianos e alemães entre os adeptos.
Centenas de fotografias deixadas por esses grupos são testemunhos de um passado que o Brasil se nega a lembrar. As escolas alemãs utilizavam hinos e poemas nazistas para ensinar a língua e a cultura germânicas. O Banco Alemão Transatlântico tornou-se local de circulação dos adeptos do ideário nazista. O jornal Deutscher Morgen (Aurora Alemã) – publicado em São Paulo desde 1932 – funcionou como um dos principais veículos da propaganda de Hitler no seio da comunidade alemã. A partir de 1934, passou a ser o órgão oficial da seção que coordenava as atividades do Partido Nazista em todo o Brasil (NSDAP – Landesgruppe Brasilien), sob o comando do seu chefe Hans Henning von Cossel. A mesma empresa publicava também o almanaque Volk und Heimat(Volk = povo; Heimat = pureza racial, terra natal), que circulou entre 1935 e 1939 propagando ideias antissemitas, antibolchevistas e pró-hitleristas.
Fonte – wiadomosci.onet.pl
As autoridades policiais brasileiras favoreceram e acobertaram as ações dos partidários do nacional-socialismo, assim como fortaleceram as relações do Brasil com a Alemanha na década de 1930. O governo Vargas não conseguia ocultar suas simpatias pelos paradigmas nazifascistas. Basta enumerar a presença efetiva de germanófilos e antissemitas no alto escalão do Estado Novo e na grande imprensa brasileira. Os adeptos do nacional-socialismo ostentavam a suástica como símbolo de sua identidade política. Além disso, eles preservavam elementos identificadores da cultura alemã e do sentimento de pangermanidade, em circulação na Alemanha desde o século XIX.
Ao ser acusado de “fascista”, o Estado tentou calar as vozes destoantes com medidas repressivas. Desde 1935, Getúlio Vargas estava sob constante pressão dos Estados Unidos, que, valendo-se dos diplomatas brasileiros radicados naquele país, cobrava-lhe uma postura mais democrática e menos pró-Alemanha. Com a intenção de burlar essa vigilância ideológica norte-americana, o governo brasileiro manteve secretas e confidenciais algumas de suas iniciativas antissemitas, como um conjunto de circulares contrárias à entrada de judeus fugitivos das perseguições nazistas. Alianças com a Igreja garantiam ao Estado um perfil católico, que serviu também para seduzir grande parte da população que identificava os comunistas como “homens sem Deus” e incendiários. O comunismo foi eleito o“monstro das mil cabeças”, um “cupim da tranquilidade e da ordem”, enquanto o Tribunal de Segurança Nacional era defendido como a máquina repressora idealizada para eliminar os adversários do regime. Acobertado pela lei e por um discurso populista, o governo Vargas sustentava assim o discurso da autoridade,que ocultava o discurso da violência e as ações antissemitas, como a expulsão de comunistas do país e a negação de vistos aos judeus que fugiam do nazifascismo.
Buscava-se um modelo ideal de homem brasileiro, e as autoridades estatais e diplomáticas enfrentavam dificuldades em lidar com as diferenças étnicas e ideológicas. O governo Vargas dedicou-se à elaboração de um projeto educacional e de uma política imigratória em “prol do abrasileiramento da República”, fundados na intolerância, na xenofobia e no nacionalismo exacerbado – elementos característicos dos fascismos europeus. Decretou-se o fechamento de escolas, proibiu-se o ensino em língua estrangeira e os jornais podiam circular apenas em português.
Investiu-se também contra os judeus. Além de serem acusados de “estrangeiros”, eles eram rotulados pelo governo de subversivos, comunistas, sionistas ou antifascistas. Os integralistas colaboravam para a proliferação desse discurso instigados pela produção de Gustavo Barroso, teórico e formador de uma “escola de antissemitas”. Barroso publicou vários livros nessa linha, além de traduzir para o português o clássico Protocolos dos Sábios de Sião (1936).Dentre os livros antissemitas publicados no Brasil, vale citar: Brasil, colônia de banqueiros(1935), de Gustavo Barroso; e O anti-semitismo de Hitler e o julgamento apressado de alguns escriptores brasileiros, de Brasilino de Carvalho (1934).
Fonte – niewiarygodne.pl
Assim como na Alemanha e na Itália, as ações nacionalistas do governo brasileiro insistiam na formação de uma raça homogênea, de um povo integral adaptado à realidade social do país e preparado para servi-lo. As minorias étnicas, linguísticas e culturais que haviam se instalado no Brasil desde as últimas décadas transformaram-se, a partir de 1938, em questão de segurança nacional sob a alegação de que ameaçavam a ordem social e investiam contra a formação da autêntica identidade brasileira.
Lançou-se uma verdadeira ofensiva contra a colonização estrangeira, apresentada como incontrolável e sem regras determinadas. Nem por isso os nazistas passaram a ser perseguidos. Já os judeus – em grande parte alemães, poloneses, austríacos e italianos – permaneceram sob vigilância sistemática.
Fonte – parafia-siennica.pl
A entrada do Brasil na guerra trouxe uma nova terminologia para enriquecer os arquivos da Polícia Política, obrigando-a a abrir novas divisões: “espionagem”, “nazismo”, “fascismo”. O olhar vigilante concentrou-se nos alemães acusados de manterem uma rede de espionagem sustentada pela Abwehr, o serviço secreto do Alto Comando alemão. Foi instituída uma rede de investigações com o objetivo de desmantelar a trama arquitetada pelos nazistas na América do Sul. Nessa luta, uniram-se o FBI, a Interpol, as embaixadas e os consulados brasileiros sediados no exterior, as delegacias regionais espalhadas por todo o Brasil e os cidadãos comuns.
Delatar um alemão por “suspeita de nazismo” tornou-se prática corriqueira, ainda que aquele cidadão fosse um refugiado judeu. Nem mesmo os investigadores se importavam com tal distinção: o simples fato de um cidadão italiano, japonês ou alemão se expressar na sua língua natal já era razão suficiente para enquadrá-lo na categoria de “cidadão do Eixo”. Outro sintoma de uma política de falsas posturas e múltiplas máscaras, que ainda hoje serve aos mitos políticos e favorece versões dúbias, e até mesmo negacionistas, sobre o nazismo no Brasil.
Autora – Maria Luiza Tucci Carneiroé professora da Universidade de São Paulo e autora de O Veneno da Serpente. Reflexões sobre o antissemitismo no Brasil(Perspectiva, 2003).
DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical.São Paulo: Todas as Musas, 2012.
PERAZZO, P. “O brilho das suásticas na capital paulista”. In: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci, São Paulo,metrópole das utopias. São Paulo: Lazuli; Companhia Editora Nacional, 2009.
. O perigo alemão e a repressão policial no Estado Novo. São Paulo: Imprensa Oficial e Arquivo do Estado de São Paulo, 1999.
Saiba Mais – Internet
GRÜTZMANN, Imgart. “Nacional-socialismo em almanaques de língua alemã no Brasil (1933-1939)”. Apresentado no XXIII Simpósio Nacional de História. Londrina, 2005.
Contos de fadas como A Bela e a Fera podem ter milhares de anos, segundo pesquisadores de universidades em Durham, na Inglaterra, e em Lisboa, em Portugal.
Empregando técnicas mais comuns a biólogos, os acadêmicos investigaram as ligações entre diferentes histórias pelo mundo e descobriram que algumas possuem raízes pré-históricas.
Alguns contos, segundo a investigação, são mais velhos do que os registros literários mais antigos – um deles remonta à Idade do Bronze (iniciada por volta do ano 3000 a.C.).
Em geral, acreditava-se que essas histórias datassem dos séculos 16 e 17.
Contos compartilhados
No século 19, os irmãos Grimm – Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) – acreditavam que muitos dos contos de fadas que eles ajudaram a popularizar tivessem raízes em uma história cultural compartilhada que remonta ao nascimento das línguas indo-europeias.
Pensadores depois mudaram essa concepção, ao dizer que algumas histórias eram bem mais recentes, tendo sido transmitidas pela tradição oral após serem criadas nos séculos 16 e 17.
O antropólogo Jamie Tehrani, da Universidade de Durham, que trabalhou com a pesquisadora de folclore Sara Graça da Silva, da universidade Nova de Lisboa, disse ter reunido evidências que mostram que os irmãos Grimm estavam certos.
“Algumas dessas histórias são muito mais antigas do que os primeiros registros literários, e até mais do que a mitologia clássica – algumas versões dessas histórias aparecem em textos gregos e latinos, mas nossas descobertas sugerem que são bem mais antigas do que isso.”
Histórias milenares
O estudo, publicado na revista científica Royal Society Open Science, utilizou análise filogenética, desenvolvida pela biologia para investigar relações entre espécies.
Também analisou uma árvore de línguas indo-europeias para rastrear a origem de contos compartilhados por diferentes culturas, para verificar até onde poderiam ser identificados no passado.
Segundo Tehrani, o conto João e o Pé de Feijão (Jack and the Beanstalk, em inglês) foram classificados em um grupo de histórias nomeado como “O menino que roubou o tesouro do ogro”, e teve a origem identificada no período da divisão Leste-Oeste das línguas da família indo-europeia, há mais de cinco mil anos.
A análise também mostrou que A Bela e a Fera e O Anão Saltador têm cerca de 4 mil anos de idade.
E a origem de uma história de folclore chamada O Ferreiro e o Diabo (The Smith And The Devil, em inglês), sobre um ferreiro que vende a alma em um pacto para ganhar superpoderes, foi estimada em seis mil anos, na Idade do Bronze.
“É notável que essas histórias tenham sobrevivido sem terem sido escritas. Elas têm sido contadas antes de o inglês, francês ou italiano existir, e provavelmente eram narradas em uma língua indo-europeia extinta”, disse Tehrani.
Reprodução da capa de revista Der Nationalsozialist, periódico do Partido Nazista.
Estima-se que existiram 2,9 mil filiados ao partido em 17 estados brasileiros
Apesar de o Brasil não ter aderido ao nazismo – e lutar contra ele junto aos aliados na Segunda Grande Guerra –, um grupo de alemães que morava no país cultivou as ideologias propostas por Adolf Hitler. Essas pessoas ajudaram, inclusive, a colocar o Füher no poder em 1933.
Calcula-se que chegaram a 2,9 mil os filiados ao Partido Nazista Brasileiro. Mesmo se tratando de um partido, ele não almejava nem concorrer a eleições nacionais, nem ser registrado na Justiça Eleitoral do Brasil. Por este motivo, o presidente Getúlio Vargas e os governadores locais não se importaram com sua fundação, pelo contrário, eram simpatizantes, até mesmo participaram de festividades nazistas. O partido existiu em 83 países, mas, no exterior, foi justamente no Brasil onde teve mais repercussão. “Sua expressividade foi maior, inclusive, do que em países como a Áustria e a Polônia, que estavam sob a tutela do 3.º Reich”, afirma a professora de História da Universidade Federal do ABC Ana Maria Dietrich.
Fundação
Um documento mostra que foi em Santa Catarina, na cidade de Timbó, em 1928, que o partido foi fundado no país. O estado, porém, teve um número menor de filiados (528) do que São Paulo (785). No Paraná, o partido foi o quinto maior (com metade dos filiados em Curitiba). Segundo o Censo da época, havia 12 mil alemães natos no estado, dos quais menos de 2% eram filiados. “Os nazistas do Paraná, do ponto de vista institucional, não se reportavam diretamente à Alemanha. Acima estava o Landesgruppe (com sede em São Paulo) e este, por sua vez, se reportava à Auslandsorganisation (Organização do Partido Nazista para o Exterior), em Berlim”, explica o historiador Rafael Athaides, que acaba de lançar o livro O partido nazista no Paraná (Editora UEM, R$ 50 com frete).
Na foto, crianças alemãs da cidade de Presidente Bernardes (SP) fazem a saudação a Hitler, na década de 1930.
Comunidade alemã
A explicação para o partido nazista ter sido bem sucedido por aqui está diretamente relacionada com a extensa comunidade alemã do Brasil – eram cerca de 230 mil – que migraram, sobretudo para São Paulo, na década de 1920, quando a Alemanha de Weimar estava em crise e havia a busca por melhora na vida econômica.
Assim como na Alemanha, o partido nazista brasileiro pregava a superioridade de certas raças, combatia o comunismo, fomentava o repatriamento de alemães (muitos retornaram, após receber um financiamento) e, graças ao partido, os alemães daqui também puderam votar em Hitler para assumir o poder na Alemanha em 1933. “O Füher também financiou atividades nazistas nas empresas alemãs instaladas no país”, conta Ana.
No Paraná, segundo Athaides, a atuação do partido foi barulhenta. “Se fez sentir, sobretudo, nos indivíduos da comunidade germânica do estado. Os nazistas se sentiam no direito de se portar como administradores das entidades germânicas locais ”, afirma. É claro que, para fazer parte do partido, era preciso ser alemão de nascimento (os descendentes não eram bem-vindos). Os partidários, de certa forma, também sabiam que o nazismo não era apenas uma reviravolta na economia alemã – que cresceu e quase zerou o desemprego –, mas, acima de tudo, era violento e exterminador.
Dentre as organizações vinculadas ao Partido Nazista Brasileiro, uma delas era a Juventude Hitlerista. “O discurso de Hitler era o de investir em crianças e jovens, porque, dizia ele, os velhos estavam gastos”, afirma a historiadora Ana Maria Dietrich. As crianças alemãs que viviam no Brasil cantavam hinos nazistas, celebravam o aniversário de Hitler e faziam saudações a ele. O Füher pediu a introdução da disciplina de eugenia nas escolas. As crianças aprendiam, entre outras coisas, que não podiam se miscigenar. Os professores das escolas alemãs do Brasil foram orientados a ensinar às crianças segundo os ideários do 3º Reich.
Amazônia seria alvo de alemães
Existem diversas especulações de que os nazistas pretendiam criar uma área alemã no Brasil, mas historiadores descartam a hipótese porque esta intenção política nunca foi documentada. Na verdade, segundo historiadores, isso não passa de confusão.
Primeiro porque existiu uma expedição de alemães, patrocinada por nazistas, de 1935 a 1937, à Amazônia. “Na verdade, estas expedições de reconhecimento de território eram comuns à época. A questão é que um dos integrantes morreu durante o caminho e o enterram lá com uma cruz que existe até hoje”, afirma a historiadora Ana Maria Dietrich. A cruz, que tem uma suástica, é explorada como atração turística no Amapá.
O historiador Rafael Athaides lembra que a ideia de que os nazistas “agiam sorrateiramente para conquistar o Sul do Brasil é uma falácia veiculada pela mídia durante a Segunda Guerra Mundial.”
“Esse mito de ‘perigo alemão’ serviu durante o Estado Novo (1937–1945) por dois motivos”, diz Athaides. Um deles, o projeto nacionalista varguista, que via nos alemães uma ameaça nacional; outra, a aproximação do Brasil com os Estados Unidos durante a Segunda Guerra, que resultou em benefícios econômicos ao país, mas criou a necessidade de rompimento com a Alemanha.
Atualidade
Outra confusão que costuma acontecer é associar as ações dos neonazistas (de hoje) com a comunidade alemã e o nazismo histórico. Athaides acredita que é pouco provável que exista qualquer ligação. “Basta fazermos um levantamento do perfil dos indivíduos presos por atividades neonazistas. Nenhum deles é descendente dos nazistas históricos”, diz, antes de completar em seguida. “Os neonazis são, em geral, jovens, desprovidos de referencial identitário e que manipulam os signos do nazismo no mundo.” (PM)
A história oral é uma metodologia de pesquisa que consiste em realizar entrevistas gravadas com pessoas que podem testemunhar sobre acontecimentos, conjunturas, instituições, modos de vida ou outros aspectos da história contemporânea. Começou a ser utilizada nos anos 1950, após a invenção do gravador, nos Estados Unidos, na Europa e no México, e desde então difundiu-se bastante. Ganhou também cada vez mais adeptos, ampliando-se o intercâmbio entre os que a praticam: historiadores, antropólogos, cientistas políticos, sociólogos, pedagogos, teóricos da literatura, psicólogos e outros.
No Brasil, a metodologia foi introduzida na década de 1970, quando foi criado o Programa de História Oral do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A partir dos anos 1990, o movimento em torno da história oral cresceu muito. Em 1994, foi criada a Associação Brasileira de História Oral, que congrega membros de todas as regiões do país, reúne-se periodicamente em encontros regionais e nacionais, e edita uma revista e um boletim. Dois anos depois, em 1996, foi criada a Associação Internacional de História Oral, que realiza congressos bianuais e também edita uma revista e um boletim. No mundo inteiro é intensa a publicação de livros, revistas especializadas e artigos sobre história oral. Há inúmeros programas e pesquisas que utilizam os relatos pessoais sobre o passado para o estudo dos mais variados temas.
Em certos momentos, quando as memórias e as lembranças fluem em meio a um diálogo sobre episódios históricos, o melhor é deixar o gravador fora das vistas para a narrativa seguir tranquila. Como no caso desta foto, onde o gravador está “esquecido” em uma cadeira. Foto realizada na comunidade de Areias do Pelo Sinal, município de Manaíra (PB)
As entrevistas de história oral são tomadas como fontes para a compreensão do passado, ao lado de documentos escritos, imagens e outros tipos de registro. Caracterizam-se por serem produzidas a partir de um estímulo, pois o pesquisador procura o entrevistado e lhe faz perguntas, geralmente depois de consumado o fato ou a conjuntura que se quer investigar. Além disso, fazem parte de todo um conjunto de documentos de tipo biográfico, ao lado de memórias e autobiografias, que permitem compreender como indivíduos experimentaram e interpretam acontecimentos, situações e modos de vida de um grupo ou da sociedade em geral. Isso torna o estudo da história mais concreto e próximo, facilitando a apreensão do passado pelas gerações futuras e a compreensão das experiências vividas por outros.
O trabalho com a metodologia de história oral compreende todo um conjunto de atividades anteriores e posteriores à gravação dos depoimentos. Exige, antes, a pesquisa e o levantamento de dados para a preparação dos roteiros das entrevistas. Quando a pesquisa é feita por uma instituição que visa a constituir um acervo de depoimentos aberto ao público, é necessário cuidar da duplicação das gravações, da conservação e do tratamento do material gravado.
A incrível saga dos escravos abandonados por quinze anos em uma ilha perdida do Oceano Índico
Como um Grupo de Pessoas Sobreviveu Por Tanto Tempo, em um Lugar Inóspito, Após Serem Abandonados Por Serem Considerados Seres Humanos Inferiores.
Autor – Rostand Medeiros
Em 1776, 57 anos depois de Daniel Defoe escrever o clássico da literatura Robinson Crusoe, oito pessoas foram resgatadas de uma pequena ilha chamada Tromelin, um lugar perdido no meio do Oceano Índico. Sete destes eram mulheres que tinham sobrevivido na ilha por 15 anos e o oitavo um menino que nasceu naquele fim de mundo.
Aqueles náufragos faziam parte de um grupo de 88 seres humanos que em 1761 foram abandonados e esquecidos naquele pedaço inóspito de coral e areia, em um ponto a 280 milhas náuticas (450 quilômetros) da costa mais próxima.
E tudo por uma razão simples – eles eram escravos negros.
Ilha de Tromelin – Fonte – static.panoramio.com-1
Recentemente uma equipe de cientistas, liderados por Max Guérout, arqueólogo e ex-oficial naval francês, vem realizando sistemáticas pesquisas em busca dos destroços do navio que levou estes escravos e escavando na ilha para descobrir alguns segredos de como estas pessoas se agarraram desesperadamente a vida, desenvolveram uma comunidade elaborada em um fragmento de terra estéril, frequentemente varrida por violentos tufões.
Escavações arqueológicas em Tromelin.
A investigação arqueológica, patrocinada pela UNESCO, era parte de comemorações pela luta contra a escravidão e tinha a intenção de ampliar uma história quase esquecida da desumanidade do homem contra o próprio o homem. Mas a pesquisa descobriu um extraordinário conto de tenacidade humana, de determinação para sobreviver e da capacidade de organização em face das adversidades.
A História do Acidente
O que se sabe sobre a Ilha de Tromelin é que este pequeno local foi descoberto no dia 11 de agosto de 1722, pelo capitão Jean Marie Briand De La Feuillée, que comandava o barco Diana, pertencente à Companhia Francesa das Índias Orientais (Compagnie Française des Indes Orientales). Este chegou ao inóspito lugar após se afastar das rotas tradicionalmente utilizadas pelos barcos da empresa por conta de uma tempestade.
Localização da ilha.
Como era praxe na época o capitão La Feuillée fez uma breve descrição da ilha e um cálculo de posição, que foram anotados no diário de bordo do Diana. La Feuillée batizou o local simplesmente como L’Ile du Sable, ou Sand Island, ou Ilha da Areia.
A partir daí ninguém relatou ter visto a ilha por quase 32 anos.
No dia 17 de novembro de 1760, o Utile, um antigo navio de guerra francês, pertencente à mesma Companhia Francesa das Índias Orientais, zarpou de Bayonne, no sudoeste da França, com destino à Ile de France, local atualmente conhecido como República de Maurício.
Na época a França estava em luta contra a Grã-Bretanha, na chamada Guerra dos Sete Anos e o governador de Ile de France estava esperando um ataque vindo da Índia. Por esta razão ele havia proibido a importação de escravos, temendo que estes se tornassem mais bocas para alimentar durante um possível cerco naval.
Representação do embarque dos escravos no Utile, em Madagascar.
Mesmo com esta ordem o capitão do Utile, Jean De La Fargue, ancorou em Madagascar e comprou clandestinamente cerca de 160 escravos malgaxes. Neste momento o tráfico de escravos era algo muito rentável e os lucros daquela empreitada deveriam trazer para o bolso do capitão La Fargue o equivalente a doze anos de trabalho.
Em 23 de julho o Utile retomou a sua viagem para o leste, mas foi pego por uma violenta tempestade e no dia 31 de julho de 1761, por volta de 22:30, o barco bateu duas vezes nos recifes de coral submerso da Ilha da Areia, que anos depois ficaria conhecida como Ilha de Tromelin.
Hilarion Dubuisson De Keraudic, oficial do navio Utile, escreveu um dramático e conciso relato do naufrágio. Mais de 240 anos depois este documento foi descoberto por Max Guérout nos arquivos marítimos da cidade de Lorient, na França.
Dos 143 homens que formavam a tripulação, 21 deles morreram afogados. Mas dos 160 escravos, apenas 88 “peças” que compunham a carga sobreviveram milagrosamente. Quando se diz milagrosamente é porque os outros escravos ficaram presos no convés inferior, com as escotilhas fechadas e morreram todos afogados.
Diante do episódio o capitão La Fargue foi incapaz de tomar iniciativas confiáveis e caiu em desgraça perante seus homens. O oficial Keraudic o descreveu como “indisposto” e a liderança foi assumida pelo primeiro tenente Barthelemy Castellan De Vernet.
Praia da ilha.
São estabelecidos dois campos (um para a tripulação e outro para os escravos negros) e armadas barracas. Os muitos materiais jogados pelas ondas na praia (barris, comida, utensílios) são armazenados sob vigilância armada e longe dos cativos.
Entre os apontamentos feitos por Keraudic, fica bem clara a razão de quase um terço dos 88 escravos originalmente resgatados, morrerem pouco tempo depois – “Fizemos uma grande tenda com a vela principal e algumas bandeiras. Nós vivíamos lá com todas as fontes de suprimento. A tripulação foi colocada em pequenas tendas. Nós começamos a sentir muito fortemente a escassez de água. Um número de negros morreu, não sendo entregue a eles qualquer assistência”.
Uma ideia de como ficou o barco após bater nos recifes de coral
Foram Vistos Como Animais Que Não Valia a Pena Serem Salvos
Encontrar água potável então se tornou rapidamente uma prioridade e o artilheiro mestre Louis Taillefer ficou responsável por cavar um poço. Depois de um primeiro teste negativo, uma segunda tentativa realizada em 4 de agosto conseguiu água salobra. Além da comida recuperada, os sobreviventes comiam ovos das aves (principalmente andorinhas) e carne de tartaruga.
Consciente de que ninguém iria procurá-los naquela ilhota, pois eles estavam longe da rota usual dos barcos, o primeiro tenente Castellan De Vernet começou a desenhar planos para a construção de um barco de salvamento.
Versátil e engenhoso, o primeiro tenente improvisa uma forja especial com um tronco e assim consegue moldar peças de metal necessárias para a construção de uma barcaça com 33.5 pés de comprimento, 12 pés de largura e 5 pés de altura.
Os canhões do Utile em uma praia de Tromelin.
Em 27 de setembro de 1761, às 17:00, quase dois meses após o naufrágio, o barco de resgate batizado comoProvidência, é colocado na água e os 122 marinheiros brancos sobem a bordo. Por falta de espaço 60 escravos negros sobreviventes são deixados na ilha com três meses de alimentos. Os marinheiros prometem voltar rapidamente e resgatá-los.
Partiram em direção a Madagascar, aonde chegaram quatro dias depois na localidade Foulepointe e apenas um homem foi perdido durante a travessia. Os marinheiros dão testemunho do naufrágio e desenham um mapa detalhado da ilha (provavelmente feito pelo piloto do Utile).
Em 23 de outubro a maioria dos sobreviventes embarcou no veleiro Silhouette e vai para a cidade de Port Louis, na Ile de France, a atual capital da República de Maurício. Esta será a última viagem do capitão Jean De la Fargue, que morre em 12 de novembro e tem seu corpo jogado ao mar.
Após a partida dos marinheiros brancos, os escravos ficaram esperando o cumprimento da promessa de que alguém viria salvá-los.
Na chegada (25 de novembro), o Governador Antoine-Marie Desforges-Boucher é informado do naufrágio. Após saber os detalhes ele fica furioso e recusa a enviar um barco para resgatar os escravos deixados na ilha. Documentos da época apontam que o Governador referiu-se aos escravos como “animais” e que “não valia o gasto para ir salvá-los”.
O Governador era um funcionário da mesma Companhia Francesa das Índias Orientais e alegou que não queria arriscar a perda de outro navio para resgatar um grupo de escravos indesejados e ilícitos. Vários dignitários locais tentaram persuadir o Governador a mudar de ideia, mas este recusou.
Talvez desejando proteger a reputação da empresa, Desforges-Boucher buscou nitidamente abafar o caso e não tornar público o negócio escuso do falecido capitão La Fargue.
Após um período de indignação com a decisão do governador, os escravos abandonados acabam caindo no esquecimento e a promessa de Castellan não foi cumprida.
Max Guérout, arqueólogo e ex-oficial naval francês.
Achados Arqueológicos
Como aqueles náufragos sobreviveram tanto tempo, em um lugar tão inóspito?
A princípio eles tinham a água salobra do poço cavado pelos marinheiros. Tinham também alguns implementos básicos de cozinha e a ilha é, até hoje, um terreno fértil para tartarugas, peixes e aves marinhas.
Essa explicação simplista bastaria como uma resposta para os muitos que desejassem uma explicação sobre a sobrevivência deste grupo de pessoas naquele local e por tantos anos. Mas o arqueólogo Max Guérout, criador do GRAN – Group de Recherches en Archéologie Navale (Grupo de Investigação e Arqueologia Naval), foi para aquela parte perdida do Oceano Índico determinado a descobrir mais.
Mergulhadores próximo a uma das pontas da âncora do Utile – Fonte – Max Guérout, Groupe de Recherche en Archéologie Navale
Seus colegas arqueólogos avisaram que seria pouco provável que algum vestígio se mantivesse em um solo fino, arenoso, em meio a uma ilha plana. Um lugar com altitude máxima de meros sete metros, batido por ondas fortes e que localizado no caminho dos ciclones anuais que varrem o Oceano Índico.
Guérout insistiu que muito deveria ter permanecido na ilha e que os registros arqueológicos encontrados poderiam contar uma interessante história. A crença do cientista francês se baseava em intrigantes referências anotadas por oficiais e marinheiros ingleses, quando estes realizaram visitas à ilha durante o século 19 em navios da Royal Navy (Marinha Real). Os marinheiros britânicos registraram que observaram restos de “casas de pedra” e túmulos dispostos ordenadamente.
Mergulhador do Groupe de Recherche en Archéologie Navale realizando pesquisas subaquáticas em Tromelin.
Com o início das pesquisas os arqueólogos e mergulhadores estiveram no naufrágio do Utile e resgataram muitos objetos interessantes, mas nada que avançasse muito no conhecimento desta história. Mas as escavações na areia rasa da ilha produziram descobertas significativas.
Ficou evidenciado que, pelos vestígios (cinzas) encontrados em camadas de sedimentos desenterrados, os náufragos conseguiram manter com a madeira do barco o mesmo fogo aceso por anos. Eles construíram um forno coletivo e sobreviveram com uma dieta de tartarugas, aves marinhas e crustáceos.
Uma das milhares de aves de Tromelin.
Seus utensílios de cozinha confeccionados em cobre, salvos dos restos do navio, foram reparados várias vezes de forma engenhosa e prática. Um destes tinha sido reparado pelos escravos pelo menos oito vezes. “-Eles remendavam a peça danificada com outras peças de cobre, usando rebites feitos à mão e forjados no fogo do forno. Conseguimos até mesmo encontrar alguns dos rebites”, disse Guérout.
Tacho de cobre descoberto pelos arqueólogos, com inúmeros remendos feito pelos escravos nos quinze anos que ficaram isolados na ilha.
Os cientistas franceses descobriram que os náufragos desenvolveram abrigos com paredes elaboradas, formadas por blocos de coral e areia compactada. Foram erguidos com sabedoria, resultando em paredes sólidas e capazes de enfrentar fortes ventos. Uma habitação coletiva foi organizada no ponto mais alto da ilha e esta teria sido construída com restos do navio e cobertos com cascos de tartaruga.
Abrigos descobertos na ilha.
Escavações também ajudaram a encontrar uma grande quantidade de utensílios (eixos, raspadeiras, colheres, recipientes), algumas confeccionadas pelos náufragos.
Mas o que aconteceu com os sobreviventes da Ilha de Tromelin?
A tripulação de um navio que ancorou em Port Louis na segunda metade de 1775, anunciou haver passado perto da ilha e visto os náufragos.
O novo Governador em Ile de France é então Charles-Henri-Louis d’Arsac de Ternay, o “Chevalier de Ternay” (Cavaleiro de Ternay). Este foi nomeado pelo Rei da França e não pela Companhia Francesa das Índias Orientais. Então o veleiro Sauterelle é enviado para realizar o resgate.
Mapa antigo da Ilha de Tromelin, provavelmente feito pelo piloto do veleiro Utile.
Na ilha a tripulação tenta desembarcar com uma baleeira, mas esta é destruída nos recifes de coral. Um marinheiro nada para o Sauterelle, enquanto o outro, o marujo Grasshopper, se juntou os náufragos na ilha.
Na sequência dois outros veleiros foram enviados já em 1776, mas permanecem incapazes de se aproximar da ilha. Frustrado com essas falhas e cansados de esperar, o marujo Grasshopper tenta deixar a ilha em uma precária jangada, na companhia de três homens e três mulheres. Mas eles desapareceram no mar.
Após estas falhas o governador Louis d’Arsac de Ternay envia a corveta Dauphine, capitaneado pelo nobre Jacques Marie Boudin, conhecido como “Chevalier de Tromelin” (Cavaleiro de Tromelin).
Selo francês, comemorativo ao capitão Jacques Marie Boudin
Tendo aprendido as lições de fracassos anteriores, um dos oficiais do Dauphine assumiu as operações e um barco e uma canoa foi utilizada para desembarcar na costa oeste da ilha. Em três horas os últimos náufragos são recuperados, incluindo um grupo de uma mesma família que tinha uma avó, a filha e a neta.
Por ocasião deste salvamento a bandeira francesa foi hasteada na ilha e oficialmente a França toma posse em nome do rei Luís XVI. Era 29 de novembro de 1776 e o local passa a ser definitivamente conhecido como Ilha de Tromelin.
Foto de Richard Bouhet, da Getty Images, que mostra claramente o grau de dificuldade para se aportar nesta ilha.
As mulheres resgatadas comentaram que um grupo de 18 dos náufragos malgaxes construiu um pequeno barco à vela e partiram da ilha alguns anos antes. Mas sumiram!
Na Ile de France os oito sobreviventes foram declarados livres.
Jacques Maillard De Mesle, um alto funcionário francês na região, dá asilo à criança, sua mãe (Eva) e sua avó (Dauphine). Ele insistiu que os náufragos não eram escravos, mas pessoas livres, uma vez que eles tinham sido comprados ilegalmente. Em 15 de dezembro de 1776 a criança salva é batizada em Port Louis e recebe o nome de Jacques Moise. “Moise” é a forma francesa de Moisés – um bebê resgatado da água.
Outro aspecto dos abrigos encontrados na ilha.
O que aconteceu com Jacques Moise e os outros depois disso?
Max Guérout tem pesquisado os registros na França e na República de Maurício, mas sem sucesso. Ele acredita que os sobreviventes devem ter sido incorporados pela comunidade de escravos libertos em Maurício e provavelmente seus descendentes estão vivendo lá até hoje.
A Ilha de Tromelin é atualmente uma possessão ultramarina francesa, reivindicada pelos governos de Madagascar e da República de Maurício e tem sido o local de uma estação meteorológica francesa desde 1953. Em 60 anos de funcionamento esta estação meteorológica sofreu muitos danos causados pelos violentos tufões e ciclones que danificaram, ou destruíram, as suas instalações.
Foto que mostra a estação meteorológica francesa sendo abastecida por um helicóptero, devido as dificuldades de desembarque na Ilha de Tromelin.
O lugar é apelidado de “Encruzilhada dos Ciclones” ou “Ilha Ciclone”, pois foi alvo de uma dúzia destes fenômenos meteorológicos desde 1975.
Exemplo de Sobrevivência
“-É uma história muito humana, uma história do engenho e instinto de sobrevivência de pessoas que foram abandonadas porque eram considerados seres humanos inferiores”, comentou Max Guérout.
O arqueólogo analisou que os náufragos da ilha “-Não eram pessoas que se deixaram oprimir pelo seu destino. Foram pessoas que trabalharam juntas, de forma ordenada, na intenção de sobreviver de alguma forma”.
Outros abrigos.
Os arqueólogos franceses falharam na busca dos túmulos mencionadas nos registros da Royal Navy. “-Eles certamente ainda estão lá”, disse Guérout, que vai retornar a Ilha de Tromelin com melhores equipamentos de escavação.
Para o arqueólogo francês os estudos realizados na ilha são de extrema importância, pois oferecem uma oportunidade única para estudar como um pequeno grupo humano sobreviveu em meio a condições tão hostis, em um lugar diminuto e por tanto tempo. A Ilha de Tromelin possui 3.700 metros de largura, por cerca de 1.700 metros de comprimento, é cercada de recifes de coral e sem pontos fáceis de atracação.
Ilha de Tromelin
Para Guérout, as análises arqueológicas deste caso talvez possam se transformar em ferramentas que ajudem os cientistas a compreender como pequenos grupos humanos conseguiram realizar a migração entre os continentes e sobreviver em locais inóspitos e isolados durante seus trajetos.
Ainda há muito a ser encontrado e Max Guérout espera liderar novas expedição para a Ilha de Tromelin.
CORONEL JÁ HAVIA SIDO CONDENADO NA JUSTIÇA FEDERAL POR TRÁFICO INTERNACIONAL DE DROGAS FOTO: IMAGEM ILUSTRATIVA FAB
MILITAR FOI PRESO COM 32 KG DE COCAÍNA, ESCONDIDOS EM MALAS
O Superior Tribunal Militar (STM) acolheu a representação do Ministério Público Militar (MPM) e declarou o coronel Paulo Sérgio Pereira de Oliveira, da reserva da Força Aérea Brasileira (FAB), indigno para o oficialato. Com a perda de seu posto e de sua patente, o oficial fica impedido de permanecer nas Forças Armadas.
Pereira, que na época era tenente coronel, foi preso em 1999, juntamente com mais dois oficiais da FAB, o tenente coronel Washington Vieira da Silva e o major Luiz Antônio da Silva Greff. Os oficiais foram presos após a Polícia Federal apreender 32,9 quilos de cocaína, em um avião da FAB, na Base Aérea do Recife.
Estes militares de carreira formavam uma quadrilha especializada em tráfico internacional de substância entorpecente para a Europa, mediante a utilização de aviões da FAB. O esquema consistia em providenciar o transporte da droga por um avião militar, em malas de bagagens comuns, que não passavam pelo processo rotineiro de controle.
TRÁFICO INTERNACIONAL DE COCAÍNA EM UM C-130
Em 18 de abril de 1999 a aeronave decolou da Base Aérea do Galeão, no Rio, e faria escala em Anápolis/GO e em Recife/PE. O destino final era Palma de Mallorca, na Espanha, com mais uma escala nas Ilhas Canárias. E seria nesta escala que a droga sairia do avião de transporte Hércules C-130 da FAB.
C-130 Hércules – Fonte – G1
De acordo com dados dos autos, a cocaína foi embalada em 30 pacotes e estavam armazenadas em duas malas. Todos os pacotes estavam cobertos por uma camada de algodão e enrolados em borracha e papel celofane, com vários desenhos de Mickey Mouse. A cocaína encontrada tinha, segundo peritos da Polícia Federal, 98,96% de pureza. Dependendo das substâncias misturadas para o consumo, poderia render entre 80 a 100 quilos, o equivalente a US$ 3 milhões.
A operação para prisão da quadrilha foi realizada pela Polícia Federal e se chamou “Mar Aberto”. Para a Polícia Federal a prisão não revelou um fato isolado, mas uma prática reiterada da quadrilha, que há algum tempo dedicava-se ao tráfico de entorpecentes. As investigações comprovaram que o coronel possuía importante papel no esquema criminoso. O flagrante foi precedido de uma minuciosa pesquisa que incluiu até mesmo interceptações telefônicas.
Cocaína pronta para consumo – Fonte – sossolteiros.bol.uol.com.br
O coronel Paulo Sérgio Pereira de Oliveira já havia sido condenado na Justiça Federal a 16 anos de reclusão por tráfico internacional de drogas. A 6ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro condenou o militar à pena de 16 anos de reclusão, em regime prisional inicialmente fechado, pelos crimes incurso nos artigos 12 ,14 e 18 da Lei 6.368/76 (lei de tóxicos), com pagamento de 266 dias de multa, com valor unitário de dois salários mínimos.
VOTO DO MINISTRO DO SUPERIOR TRIBUNAL MILITAR
Com a sentença transitada em julgado, o Ministério Público Militar ingressou junto ao STM com representação para declará-lo indigno para o oficialato e a condenação à perda do posto e da patente, conforme previsto nos termos do art. 142, § 3°, inciso VII, da Constituição Federal.
Ao analisar o processo, o ministro José Barroso Filho, do STM. votou por acolher a representação e declarou indigno o oficial. Segundo ministro a ética militar, prevista no Estatuto dos Militares, está calcada em regras e padrões de comportamento que orientam o militar a agir em sintonia com o sentimento do dever, a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe. Nesse aspecto, impõe-se a cada militar uma conduta moral irrepreensível.
Para José Barroso Filho a constatação de que ao oficial da Aeronáutica foram dispensados vários elogios, ao longo dos anos da carreira, não tem o condão de elidir o acentuado grau de reprovação de que se reveste sua atuação contra a lei, disso tendo resultado sua condenação criminal. Nos julgamentos dessa natureza, disse o ministro, levam-se em conta os fatos, o contexto em que se inserem e, principalmente, a retidão de conduta exigida do militar, sob o enfoque da ética e da moral.
“De igual modo, irrelevante se torna sua condição de inativo, pois, mesmo nessa situação, compromete o prestígio e a respeitabilidade da Força a que pertence, não só pela gravidade do delito praticado, mas pelas repercussões nefastas que se espraiam no meio militar e na vida civil, não só no Brasil, mas no exterior, onde os fatos tiveram repercussão, denegrindo a imagem e o conceito dos militares, em especial os da Força Aérea Brasileira e, dos brasileiros em geral”, votou o ministro José Barroso Filho.
Os demais ministros do STM acolheram o voto do relator por unanimidade.
O RESTO DA QUADRILHA
O tenente coronel Washington Vieira da Silva e o major Luiz Antônio da Silva Greff foram condenados a penas similares. Em novembro de 2011, o STM já havia declarado aperda do posto e patentede coronel de Vieira da Silva. Apesar de não estar mais na ativa na época dos fatos, o tenente coronel Washington dispunha de informações privilegiadas sobre os dias de voos dos aviões da FAB para a Europa. Após permanecer foragido por alguns meses, Washington foi preso.
Na época, além dos oficiais foram presos o americano John Michael White, a boliviana Lila Mirta Ibañez Lopez, Luís Fernando dos Santos e Luiz César Pereira de Oliveira (irmão do tenente coronel Paulo Sérgio Pereira de Oliveira). Inclusive a droga seria entregue a Luís Cezar Pereira de Oliveira, que se encontrava nas Ilhas Canárias, na Espanha.
Luís César Pereira de Oliveira, Irmão do tenente-coronel Paulo Sérgio Pereira de Oliveira, sendo levado preso por militares da FAB em 1999, na Base Aérea do Recife – Fonte – http://www2.uol.com.br/JC/_1999/1806/br1806g.htm
A maioria dos réus foi condenada pelos crimes de tráfico de entorpecentes e por formação de quadrilha para o tráfico. John White ainda foi enquadrado nos crimes de falsificação e uso de documentos públicos. Lila Mirta Ibañez Lopez foi condenada por associação para o tráfico de entorpecentes, ocultação de valores obtidos como fruto do crime e também por falsificação e uso de documentos públicos. Luís Fernando dos Santos recebeu pena pelo crime de ocultação de valores angariados com a atividade criminosa.
O americano John White foi quem recebeu a maior condenação: 39 anos de reclusão em regime fechado e multa de 5.750 salários mínimos (o equivalente, hoje, a mais de dois milhões de reais). Além disso, o TRF determinou a perda de todos os seus bens, direitos e valores adquiridos desde 1997, por entender que eles foram obtidos exclusivamente com ações criminosas. Lila Ibañez foi apenada em 19 anos e seis meses de reclusão, mais multa de 1.500 salários. O tenente coronel Washington Vieira da Silva recebeu pena de 17 anos de prisão e 1.330 salários mínimos de multa.
Troféus de guerra normalmente não são tão imponentes como a estátua de bronze sólido da foto acima. Este objeto uma vez adornou o encouraçado de bolso Admiral Graf Spee, um famoso navio de guerra alemão, que afundou vários navios mercantes aliados no Oceano Atlântico, até ser afundado pela sua própria tripulação no Rio da Prata, no Uruguai, em 1939.
Esta águia de bronze, empoleirada sobre uma suástica, cujo desenho foi um projeto pessoal do próprio Hitler, pesando entre 350 e 400 quilogramas, foi resgatada da popa Graf Spee em 2006 por uma equipe de mergulhadores britânicos.
Muitos imaginavam que o artefato havia se perdido para sempre quando o Graf Spee afundou, mas hoje ninguém parece muito bem saber o que fazer com ela.
Nunca a Segunda Guerra Mundial chegou tão perto da América do Sul como em 13 de dezembro de 1939, quando três cruzadores da Marinha Real desafiaram a nave alemã Admiral Graf Spee ao largo da costa uruguaia. Este encouraçado, um dos mais modernos navios de guerra do mundo em sua época, travou uma batalha naval implacável e feroz contra os britânicos, fato que ficou conhecido como a Batalha do Rio da Prata. Seriamente danificado após a luta, o Graf Spee seguiu para o porto de Montevideo, capital do Uruguai.
Dias depois, com a negação da ampliação do tempo de permanência do barco no porto uruguaio, o comandante do navio, o Kapitän zur SeeHans Wilhelm Langsdorff (20 de março de 1894 – 20 de dezembro de 1939) ordenou o afundamento de sua nave diante de uma Montevideo extasiada. A inteligência britânica o enganou com falsas informações que uma poderosa força da Marinha Real estava ao largo da costa uruguaia pronta para destruir seu navio.
A nave alemã em sua última navegação, diante de um grande número de uruguaios – Fonte – http://www.maritimequest.com
Acreditando não ter condições de travar um combate desigual, além de querer evitar que os inimigos se apossassem dos segredos do seu navio e de provocar uma mortandade desnecessária entre seus homens, Langsdorff deu a ordem que selou o destino do Graf Spee. O capitão se matou logo em seguida e a nave queimou por três dias antes de finalmente afundar.
O impressionante símbolo bronze do Terceiro Reich, com quase nove pés de largura, é um objeto único. A única outra estátua confeccionada com a mesma finalidade está junto do que sobrou do encouraçado de bolso alemão Bismarck, que afundou noTerceiro Reich, em 1941.
Embora a peça, logo depois que foi recuperada, tenha sido brevemente exposta no saguão de um hotel em Montevidéu, nos últimos anos o artefato esteve sob a custódia da Marinha do Uruguai e isso vem gerando um longo debate sobre o que fazer com os artefatos nazistas recuperados do naufrágio do Graf Spee.
De acordo com um homem de negócios uruguaio chamado Alfredo Etchegaray, um dos responsáveis pela sua recuperação, o resgate de objeto no naufrágio do Graf Spee levou 30 anos entre pesquisas e recuperação e custou cinco milhões de dólares. Já a Suprema Corte do país lhe concedeu 50 % da propriedade da peça, com o governo uruguaio mantendo os direitos sobre a outra metade. Etchegaray está esperando um retorno do seu investimento através da venda ou exposição da escultura, mas o governo parece relutante em fazê-lo.
A águia nazista exposta em um hotel da capital uruguaia
O Governo do Uruguai pode está inquieto sobre a estátua, pois muitos criminosos de guerra nazistas fugiram para a América do Sul após a conclusão da guerra.
O Uruguai – e outros países latino-americanos como a Argentina e o Brasil – se tornaram os destinos de muitos criminosos de guerra nazistas após o fim do Terceiro Reich. Aribert Ferdinand Heim, um infame médico da SS, chamado Dr. Morte por suas vítimas nos campos de concentração nazistas, viveu clandestinamente no Uruguai até 1983 e Adolf Eichmann, conhecido como o autor do Holocausto, foi localizado pela inteligência israelense na Argentina em 1960.
Além do mais, na época do seu resgate do fundo do mar, quando a águia foi exibida pela primeira vez em Montevidéu, a embaixada alemã no Uruguai reclamou e pediu ao governo para evitar que exibisse “parafernália nazista”.
Etchegaray acredita que seu país continua está sendo pressionado pela Alemanha a manter a controversa peça fora da vista do público. “-Por que não deveria ser exibido publicamente, de forma adequada, é claro, com a explicação histórica?” argumentou o investidor uruguaio em uma entrevista para o Global Post. “-Isso é o que acontece com o Coliseu romano, com instrumentos de tortura utilizados pela Inquisição. Há também museus sobre a Inquisição espanhola e até mesmo antigos campos de concentração nazistas são visitados”.
“-Se o governo quer enterrar esta estátua eles têm o direito de fazer isso, mas nós também temos o direito de receber metade do dinheiro para isso”, acrescentou Etchegaray.
Jose Enrique Gomensoro, negociante de arte de Montevidéu, está esperando para vender a parte do empresário, onde espera arrecadar quinze milhões de dólares e já teria recebido ofertas. Etchegaray garantiu ao Global Post que encontrar um comprador não será um problema, “-É muito difícil dizer quanto alguém pode pagar para conseguir a peça. Pode depender do capricho de um único arrematador”.
William Rey Ashfield, um ex-chefe da Comissão de Património Nacional, pensa que quinze milhões de dólares é um preço muito alto, mas reconhece o valor único da estátua. “-Pode ser uma boa atração para um museu, mas é uma peça controversa, que muitas pessoas também irão rejeitar. É uma batata quente, acrescentou.”
Quando Guido Westerwelle, então ministro das Relações Exteriores da Alemanha, visitou o Uruguai em 2010, pediu para que a águia não fosse vendida para colecionadores particulares, temendo que o artefato fosse usado para glorificar o Terceiro Reich nas mãos de neonazistas. Rey Ashfield acredita que o Governo da Alemanha continua agindo nos bastidores e buscando que esta peça fique guardada.
Todas as partes parecem concordar que exibir uma águia de bronze com uma suástica nazista sob suas garras, não seria tão fácil como exibir uma peça de tecnologia de navegação do Graf Spee. Mas até que uma resolução venha a ser declarada, a estátua continuará armazenada em um depósito da Marinha do Uruguai.
E você, o que acha que deve ser feito deste artefato?
Sim, eu já corrigi Português dos outros, mas também já fiquei extremamente constrangido quando descobri tardiamente que “a gente” não era “agente” e eu morro de vontade de dizer isso para alguns amigos meus que estão por aí escrevendo tal expressão de forma errada. Mas, no meio desse dilema, penso que embora eu queira que todos falem um Português correto, tenho algumas ressalvas quanto a sair por aí bancando um professor chato, e quero dividi-las com vocês:
1 – Perto do Google todo mundo é Pasquale
É muito raro alguém ter um Português irretocável. Na era digital temos o auxílio do companheiro Google, e jogar na caixa de pesquisa para que o sistema deduza a forma correta de escrever é algo tão comum, que às vezes as pessoas até se esquecem de que todo mundo em algum momento levanta dúvidas tidas como vergonhosas pelo senso comum, só que claro, sem ninguém saber – apenas o Google. Posso afirmar que já vi mais da metade das pessoas que eu vejo oprimindo de forma hipócrita quem erra Português cometendo também erros banais de Gramática.
2 – É a língua portuguesa que nos serve, não ao contrário
As pessoas quando questionadas sobre o motivo de não aceitarem erros de Português atribuem tal fato a justificativa do bonito ou feio. Ora, sabemos bem que esse tipo de adjetivação é completamente subjetiva e relativa. Ao pensarmos que a Gramática sofre diversas transformações, e novas normas adentram ao padrão culto e outras são descartadas, concluímos que a mesma é apenas uma convenção, que a língua é dinâmica, justamente para atender a uma demanda de quem se comunica. Se o emissor consegue comunicar o que ele quer dizer mesmo errando algo e o receptor compreende a mensagem, não existe um motivo razoável para que se crie um reboliço em cima disso, uma vez que a ideia transmitida foi entendida corretamente.
3 – Achar que a forma de falar da sua cidade é a certa é preconceito linguístico
É muito comum os nativos de cidades grandes acharem que apenas o jeito de falar local, incluindo o sotaque, é o correto. O Brasil é um país cheio de pluralidades, grande em extensão, e se constitui por regiões que vivem de diferentes influências culturais. É completamente plausível que existam regionalismos e maneirismos na forma de comunicação que ultrapassam uma suposta obediência a qualquer que seja o padrão linguístico de determinada cidade mais influente. Nesse caso existe um predomínio de crença ao invés de conhecimento, e o preconceito acaba se revelando por parâmetros irracionais.
4 – Existe muito de elitismo em julgar o Português dos outros
Mesmo sabendo que deficiências no Português não são uma exclusividade das camadas mais humildes, é importante considerar que muita gente não teve o mesmo acesso que você à Escola; que infelizmente não frequentou um Colégio porque tinha demandas mais urgentes a serem atendidas, ou simplesmente não teve um ensino de qualidade. Muitas das brincadeiras depreciativas em relação ao erro de Português são relacionadas às classes sociais. Se você notar, no discurso explicativo sobre o porquê da correção, sutilmente percebe-se que os patrulheiros gramaticais pensam o erro de Português como algo vergonhoso por ser “coisa de pobre”. E mesmo aos que tiveram todas as oportunidades: quem disse que nossas gavetas cognitivas são iguais? As pessoas não possuem memórias equivalentes, elas não aprendem de forma igual, existem palavras tidas como bobas, que por algum motivo não são memorizadas por nós na época de Escola, e não existe nenhuma lei que obrigue ou convencione a idade certa para que você aprenda uma determinada palavra. Existem também as gírias, muitas vezes tidas como tóxicas à linguagem, quando na verdade são códigos de comunicação que servem como instrumentos de formação de identidade em um determinado grupo ou espaço comum, e mesmo que se trate de um coloquialismo, como dizer que essas palavras são erradas?
5 – Quando você corrige alguém a pessoa geralmente se sente mais constrangida do que ajudada
Eu imagino que alguns vão generalizar e achar que estou fazendo uma apologia ao erro de Português, quando na verdade estou apenas propondo uma reflexão sobre os efeitos causados por quem tripudia ou alardeia em público o erro alheio. Sempre que eu vejo gente corrigindo alguém na frente dos outros, ou postando terrorismos em relação aos erros de linguagem no “Facebook”, só consigo enxergar um opressor se autoafirmando e tentando diminuir o outro, apenas para ostentar uma suposta superioridade linguística. Isso acaba mostrando apenas um cidadão tentando provar que sabe mais, para talvez alimentar as carências do próprio ego, dentro daquela medíocre lógica comparativa que fortalece uma autoinsegurança em cima de uma insuficiência alheia.
6 – Você pode aprender muita coisa, inclusive com quem diz “nóis vai”
Estamos sempre em estado de vigília em relação ao paradoxo nos outros. Costumamos desconfiar de um “Personal trainer” que é gordo ou de um pneumologista que fuma, ou de um dentista com uma arcada desarmônica. Lembro-me de uma professora no meu curso de Pedagogia – em plena Universidade de São Paulo – que flexionava frases erradas na linha “nóis vai”, e eu me perguntava como aquela mulher estava ali me ensinando sobre como lecionar em uma Faculdade cheia de exigências no quesito “competência acadêmica”. A matéria era sobre “Políticas para portadores de necessidades especiais”, e o conteúdo me foi de extrema valia, elevou meu olhar, me fez desconstruir preconceitos, agregou-me novas perspectivas sobre a inclusão e no fim do semestre me dei conta de que independente do Português falho dessa docente eu havia aprendido muito sobre aquele tema. E mesmo se sairmos da esfera dos intelectuais e pensarmos em uma pessoa de situação humilde: você acha mesmo que só porque o seu Português é falho, não tem nada o que aprender com ela?
7 – Haters, quem são?
Existe uma patrulha, que costuma cultivar um tipo de hostilidade gratuita, que vai além da importância do objeto criticado. Um “Hater” é aquele tipo de pessoa que precisar vencer discussões, e que geralmente caça assuntos polêmicos e perde horas elaborando discursos embasados, apenas para provar que estácerto. Precisam chamar a atenção, mesmo que isso os transforme nos vilões da historia. Um Hater geralmente não odeia o Português dos outros, ele apenas ama odiar qualquer coisa.