Arquivo da categoria: Segunda Guerra Mundial

O GRANDE HOTEL DA RIBEIRA E A II GUERRA

GRANDE HOTEL

Seguramente este local é, juntamente com a Base Aérea de Natal, a Rampa e a Base Naval de Natal, uma das maiores referências relativas a história da Segunda Guerra Mundial em terras potiguares.

Se a vinda dos militares norte-americanos trouxe benefícios a membros da elite social natalenses, seguramente um destes foi Theodorico Bezerra, arrendatário do Grande Hotel, o principal da cidade naquela época, pois este hospedava os oficiais americanos, recebendo o pagamento em dólares.

O velho hotel nos dias atuais.
O velho hotel nos dias atuais.

No final da década de 1930 a capital potiguar contava com cinco hotéis de pequeno porte, que naquela época eram de propriedade de Theodorico Bezerra. Todos ficavam na Ribeira e entre estes podemos listar os Hotéis Internacional, Avenida, Palace e o Hotel dos Leões que funcionava onde atualmente se localiza o escritório da empresa Ecocil.

Quando a aviação começou a destacar a cidade em todo mundo, algumas empresas aéreas começaram a utilizar Natal como escala em viagens entre a Europa e a América do Sul, sendo constantes os pousos de hidroaviões vindos de diversos pontos do mundo junto ao estuário do Rio Potengi. Natal precisava de um hotel moderno, amplo, para um momento de intensas transformações sociais, econômicas e políticas no Rio Grande do Norte. A partir de 1935 começou o projeto do Grande Hotel.

O Grande Hotel na época da II Guerra
O Grande Hotel na época da II Guerra

O empreendimento foi arrendado a Theodorico Bezerra em maio de 1939, pois, enfim, era o único em Natal que entendia de hotelaria. Mas o empreendimento só começou efetivamente a funcionar em setembro daquele ano. Theodorico continuou como arrendatário por 48 anos, até 1987.

Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, o bairro comercial mais importante de Natal era a Ribeira. Era nessa região que se concentravam os principais órgãos de governo, onde estavam as estações ferroviárias e o porto. As avenidas Duque de Caxias, Tavares de Lyra, largas e arborizadas e as praças José da Penha e Augusto Severo compunham o quadro. Os primeiros norte-americanos que chegaram a cidade foram os técnicos da ADP, com a função especifica de trabalhar no desenvolvimento do aeródromo de Parnamirim Field e foi para o Grande Hotel que eles se dirigiram em busca de algum conforto. Logo o inglês, depois do português, passou a ser o idioma mais falado nos bares, restaurantes, boates e no comércio local.

Oficiais militares brasileiros e possíveis técnicos americanos da ADP , no restaurante do Grande Hotel - Foto - Life Magazine
Oficiais militares brasileiros e possíveis técnicos americanos da ADP , no restaurante do Grande Hotel – Foto – Life Magazine

Além dos estrangeiros, grandes figuras de projeção nacional e da máquina governamental de Getúlio Vargas se hospedavam no Grande Hotel, inclusive altas autoridades militares como Gaspar Dutra, Cordeiro de Farias e Mascarenhas de Morais.

Até recentemente o prédio do Grande Hotel foi utilizado pelo Juizado Especial Central da Comarca de Natal, antes conhecido como Juizado de Pequenas Causas. Atualmente está sem utilização aparente.


FONTES – 

DANTAS, Ana Caroline C. L. et al. A paisagem criada pelo saneamento: propostas arquitetônicas para Natal dos anos 30. (XVII Congresso Brasileiro de Arquitetos). Rio de Janeiro: UFRJ, 2003.

EDUARDO, Anna Rachel Baracho. Do Higienismo ao saneamento: As Modificações do Espaço Físico de Natal 1850-1935. Monografia de Graduação. Natal, UFRN, 2000.

FARIAS, Hélio T. M. de. Grande Hotel de Natal: Registro histórico-memorial e restauração virtual. Monografia de Graduação. Natal, UFRN, 2005.

TOK DE HISTÓRIA NAS PÁGINAS DA TRIBUNA DO NORTE

TN-27-06-2015 (1) TN-27-06-2015 (3)

Hoje tivemos a satisfação de ver estampado nas páginas da TRIBUNA DO NORTE, o principal jornal do Rio Grande do Norte uma interessante reportagem sobre algumas fotos produzidas pelo fotógrafo lituano Ivan Dimitri, que esteve em Natal em 1944. O material produzido por este fotógrafo, de maneira bastante interessante, mostra em vivas cores o que foi o impacto daqueles dias em Natal e Parnamirim Field. 

TN-27-06-2015 (2)

A reportagem foi feita pelo jornalista Yuno Silva, a quem demos uma pequena declaração sobre a importância deste material e, principalmente, a importância da democratização histórica de imagens como estas para o público em geral, principalmente no Rio Grande do Norte. 

Recentemente estas fotos bombaram em alguns blogs pela internet, alcançou picos de visualização muito positivos, batendo todos os recordes do TOK DE HISTÓRIA (Ver o link – https://tokdehistoria.com.br/2014/06/23/fotos-coloridas-dos-americanos-em-natal-durante-a-segunda-guerra-mundial/ ).

Temos a clara convicção, mesmo com fortes críticas que recebo com certa frequência, que a nossa ideia de democratizar a informação histórica é extremamente válida. 

TN-27-06-2015 (4)

Este tipo de informação é um gerador de várias coisas positivas, até mesmo na questão da formação da identidade de um povo. Acredito que material histórico guardado por poucos ditos “doutos”, ou dentro de muros de instituições monolíticas que só olham para o próprio umbigo, ou entre pessoas que esperam que governos criem instituições com a ideia exclusiva de geração de recursos próprios e vantagens políticas, é algo verdadeiramente nefasto e complicado.

Estas 22 fotos de alta qualidade, coloridas, com ótima resolução, que mostram Natal e Parnamirim Field, foram conseguidas através do site http://www.buzfeed.com, a quem agradecemos por haver publicado este material tão interessante para a história de Natal. 

A publicação destas fotos foi possível através da dica da amiga Andreza Diniz. Mais uma vez valeu amiga!

O GRANDE ATOR CRISTOPHER LEE E A SUA PARTICIPAÇÃO NA II GUERRA

Christopher Lee 1922 - 2015 - Fonte - www.independent.co.uk
Christopher Lee 1922 – 2015 – Fonte – http://www.independent.co.uk

Christopher Frank Carandini Lee, ou simplesmente Christopher Lee, nasceu em Belgravia, na área de Westminster, Londres, em 27 de maio de 1922. Era filho da bela Condessa Estelle Carandini di Mari Sarzano, de origem italiana, e do Tenente-Coronel Geoffrey Trollope Lee, um condecorado oficial inglês que serviu na Primeira Guerra Mundial.

Os pais de Lee se separaram quando ele era ainda muito jovem, então ele permaneceu sob os cuidados de sua mãe e foram viver na Suíça. Depois sua família mudou-se para Londres e sua mãe uniu-se ao banqueiro Harcourt “Ingle” Rose, tio do escritor Ian Fleming, criador de James Bond.

Anos depois Lee estudou no Eton College, onde ganhou uma bolsa de estudos para se especializar em Estudos Clássicos. Grande fã dos esportes, participou de equipes de cricket, futebol, hóquei, squash e natação. Ao terminar seus estudos começou a excursionar por vários países europeus. De acordo com sua própria autobiografia, testemunhou em junho de 1939 a morte de Eugen Weidmann, último homem executado publicamente pela guilhotina na França.

Lee durante a Segunda Guerra Mundial - Fonte - www.reddit.com
Lee durante a Segunda Guerra Mundial – Fonte – http://www.reddit.com

Como muitos de sua geração Christopher Lee lutou na Segunda Guerra Mundial. No entanto, a sua história é muito mais fascinante do que a maioria dos soldados que lutaram e está envolta até hoje em mistério.

Primeiramente ele se apresentou no corpo de voluntários que apoiaram a Finlândia na Guerra de Inverno que este país lutou contra a União Soviética, embora a sua unidade não chegasse a entrar em combate. Lee então se alistou na RAF – Royal Air Force, onde recebeu treinamento como piloto, mas eventualmente alguns problemas de visão o deixaram longe de um caça. Lee foi então designado para o 260 Squadron RAF, na África do Norte. Em uma ocasião nesta região Lee quase foi morto quando o aeródromo do seu esquadrão foi bombardeado pelos alemães.

Um detalhe interessante – este 260 Squadron RAF era a mesma unidade militar onde serviu o Flight Sergeant Dennis Copping, que em 1942 despereceu no deserto da África do Norte com seu caça P-40. Este avião foi encontrado no início de 2012 por uma equipe de prospecção de petróleo polonesa e foi destaque na mídia mundial. Para saber mais veja sobre a história deste piloto e seu P-40, clique aqui https://tokdehistoria.com.br/2012/06/09/aviao-p-40-da-segunda-guerra-mundial-encontrado-no-deserto-do-saara-70-apos-seu-desaparecimento/

Caças P-40 do 260 Squadron da RAF - Fonte - www.acesofww2.com
Caças P-40 do 260 Squadron da RAF – Fonte – http://www.acesofww2.com

Lee mencionou que em 1941 foi designado para operações especiais e de inteligência no Special Operations Executive (SOE), onde teve um papel ativo, a tal ponto que muitas das suas missões ainda continuam classificados como secretas. Atuou junto ao Long Range Desert Group (LRDG-Grupo de Longo Alcance do Deserto), uma unidade de combate especial que atacava a retaguarda inimiga com jipes e caminhões, utilizando o deserto para deslocamento e proteção.

Muito embora os detalhes sobre as informações das operações em que Lee participou permanecem até hoje classificadas como secretas e sem o público ter acesso aos arquivos, alguns registros mostram os feitos de Lee atrás das linhas inimigas, principalmente destruindo aeródromos da temida Luftwaffe. Lee nunca gostou muito de comentar sua participação na Guerra.

Muitas décadas mais tarde, durante as filmagens da série cinematográfica O Senhor dos Anéis, em uma cena dirigida por Peter Jackson, o veterano de guerra comentou que “esse não é o som emitido por um ser humano ao morrer com uma facada nas costas”. Jackson tomou isso como uma piada, mas Lee comentou que tinha servido nos serviços de inteligência e ações de combate especiais durante a guerra e teve de matar pessoas. Em meio à estupefação geral no estúdio, Peter Jackson decidiu pesquisar e investigar e descobriu que Lee falou a verdade.

Lee atuando como Saruman - Fonte - www.theguardian.com
Lee atuando como Saruman – Fonte – http://www.theguardian.com

Após a Campanha no Norte da África, a unidade militar de Lee seguiu para a Sicília e depois o sul da Itália. Por esta época Lee já havia sido acometido seis vezes com malária e testemunhou a Batalha de Monte Casino. Nessa época quase morreu em um acidente, quando o avião em que estava caiu durante a decolagem.

Em relação aos últimos meses de seu serviço, Lee, que falava fluentemente francês e alemão, além de outras cinco línguas, foi destacado para uma unidade que rastreava e caçava criminosos de guerra nazistas. 

Nos últimos anos Lee marcou muitos jovens em todo planeta com a sua interpretação do mago Saruman em “O Senhor dos Anéis”, mas poucos percebem o quanto ele estava bem preparado para o papel.

www.atomica.com
http://www.atomica.com

Lee tem uma longa história com os livros de John Ronald Reuel Tolkien, conhecido internacionalmente por J. R. R. Tolkien. Depois de deixar a RAF em 1945, quando “A Sociedade do Anel“, foi publicado, Christopher Lee leu este trabalho com muita atenção e também teve a experiência de conhecer o próprio Tolkien, sendo o único membro de todo o elenco de “O Senhor dos Anéis” a ter tido este privilégio.

Lee narrou que conheceu o escritor em um pub e comentou que Tolkien era um homem de aspecto benigno, que fumava um cachimbo, aparentando ser um típico inglês do seu tempo e um gênio de grande conhecimento intelectual.

Christopher Klee era, em todos os sentidos, um homem do mundo. Bem versado nas artes, política, literatura, história e ciência. Ele era um estudioso, um cantor, um contador de histórias extraordinárias e, é claro, um ator maravilhoso. Sua carreira como ator começou em 1948 com o filme “Corridor of Mirrors” e seu último trabalho foi no filme“The 11th” em produção e que está previsto a ser lançado ainda em 2016.

Conhecido por sua versatilidade e longevidade cinematográfica, isso trouxe a Lee um impressionante recorde – o de ator mais prolífico. Sua participação no cinema soma o record de 207 filmes no cinema, em filmes de sucesso como Star Wars, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça e vários filmes de Conde Drácula. Estas interpretações deste personagem de terror o tornaram mundialmente famoso. Ele repetiu o personagem em onze filmes, o primeiro feito em 1958.

Dono de uma voz forte e impressionante, Lee também atuou como cantor de opera e inusitadamente de Heavy Metal. Tendo feito dueto com Fabio Lione, vocalista do Rhapsody of Fire.

Lee recebendo do principe Charles o título de Cavaleiro Real - Fonte - www.reddit.com
Lee recebendo do príncipe Charles o título de Cavaleiro Real – Fonte – http://www.reddit.com

Em 2009, recebeu o título de Cavaleiro Real, a mesma ordem que o professor Tolkien fez parte em 1972.  Em 2011 Sir Christopher Lee recebeu o prêmio BAFTA em reconhecimento a sua grande carreira e foi aplaudido com louvor.

Finalmente, no dia 7 de junho de 2015, aos 93 anos, descansou.

Fontes – http://tolkienbrasil.com/noticias/sobre-filmes/sir-christopher-lee-falece-aos-93-anos/

https://www.fayerwayer.com/2015/06/muere-el-legendario-actor-y-agente-secreto-de-la-segunda-guerra-mundial-cristopher-lee/

DIPLOMATAS NO LABORATÓRIO

Cientistas alemães no aniversário de 80 anos de Bernhard-Nocht (em destaque, na frente), fundador do Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, em 1937. Rocha Lima participou da homenagem (ao fundo)
Cientistas alemães no aniversário de 80 anos de Bernhard-Nocht (em destaque, na frente), fundador do Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, em 1937. Rocha Lima participou da homenagem (ao fundo)

Projeto investiga o intercâmbio científico entre o Brasil e a Alemanha nazista

Nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, a cidade alemã recebeu mais do que delegações de atletas e turistas. Desembarcaram também na “nova” Alemanha os primeiros estudantes latino-americanos atraídos por cursos, congressos e visitas a instituições médicas do país. As excursões cresceram nos anos seguintes, tornando-se itinerantes. Do Brasil, jovens graduandos, principalmente da Escola Paulista de Medicina, visitaram hospitais, laboratórios e órgãos oficiais, em missões médico-diplomáticas manejadas por ministérios à época dominados pelo Partido Nazista. Algumas eram promovidas pela Academia Médica Germano-ibero-americana, fundada em 1935. O objetivo era fomentar as relações médicas entre Alemanha e países da América Latina.

“A medicina teve papel importante nessas relações diplomáticas porque gozava de grande prestígio internacional, embora não fosse uma ferramenta tão visível de propaganda cultural”, diz o historiador André Felipe Cândido da Silva, da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). “Durante o nacional-socialismo, a corporação médica alemã foi um dos segmentos que se alinhou mais estreitamente ao novo regime. Os médicos, como representantes da arena acadêmica, eram porta-vozes convictos do intenso nacionalismo vigente. E havia a dinâmica indústria farmacêutica, com interesse em consolidar seus laços com clientes estrangeiros.” Silva explorou o papel da ciência na diplomacia cultural alemã entre 1919 e 1950, com ênfase na década de 1930, durante pós-doutorado realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Por diplomacia cultural entenda-se o esforço germânico que congregou diplomatas e cientistas, universidades, empresas e companhias de navegação, entre outros atores.

g

Além das expedições científicas de estudantes, enfermeiros, docentes, pesquisadores e até pacientes, algumas estratégias articulavam médicos e diplomatas entre Brasil e Alemanha. Havia periódicos especializados, como a Revista Médica de Hamburgo, fundada por Ludolph Brauer, organização de encontros científicos internacionais, campanhas sanitárias, consolidação de produtos da indústria farmacêutica alemã e construções de hospitais por vezes voltados à assistência de imigrantes.

Enquanto no Brasil – especialmente no circuito Rio-São Paulo – as faculdades de medicina ganhavam corpo, com maior especialização e interesse tecnológico, sofisticação das técnicas de intervenção cirúrgica e avanços em procedimentos de diagnóstico e profilaxia, a Alemanha já era ponta de lança do desenvolvimento científico. Ali foi elaborado o modelo médico que alicerçou a formação contemporânea com o tripé ensino, assistência clínica e pesquisa universitária em Berlim, Göttingen, Heidelberg e Munique. Descobertas clínicas e inovações cirúrgicas vinham de laboratórios de universidades, indústrias e institutos alemães, que contavam com expoentes como Robert Koch, Rudolf Virchow, Paul Ehrlich, Emil Kraepelin, Emil von Behring, August von Wassermann, entre outros.

Estado da Bahia noticia a visita de Ludolph Brauer, da Universidade de Hamburgo, a Salvador em 1935
Estado da Bahia noticia a visita de Ludolph Brauer, da Universidade de Hamburgo, a Salvador em 1935

As ciências tiveram impacto no contexto político, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. “Tornaram-se ingredientes importantes do prestígio nacional, ainda mais no ambiente de intenso nacionalismo”, diz Silva. Na análise do historiador, a experiência da Primeira Guerra já tinha demonstrado a importância de estruturar complexos nacionais de pesquisa científica, aliando instituições acadêmicas, indústrias, militares e Estado. “Além disso, o discurso científico contribuiu para legitimar ambições territoriais e pretensões de superioridade nacional e racial importantes para conquistar a adesão interna e a externa, de aliados”, observa.

Superioridade cultural

De acordo com Silva, médicos alemães se envolveram na propaganda cultural, persuadidos pela superioridade de sua cultura. Entretanto, após a Primeira Guerra, a ciência alemã ficou relativamente isolada quando parte dos cientistas se manifestou a favor do militarismo germânico. Ademais, físicos, médicos e químicos participaram de estudos como o desenvolvimento de gases letais. A instrumentalização do conhecimento para fins bélicos levou vários países a boicotar a ciência alemã até meados da década de 1920. “É importante, no entanto, distinguir os diferentes níveis da cooperação científica transnacional para ter clareza de que muitos pesquisadores continuaram mantendo contato informal com seus pares de países outrora inimigos. Embora repercutisse internacionalmente, para os latino-americanos não teve praticamente nenhum efeito uma política de boicote levada a cabo por organizações das quais muitos deles não faziam parte”, pondera.

O patologista e microbiologista carioca Henrique da Rocha Lima, por exemplo, se tornou um dos principais colaboradores da diplomacia alemã nas décadas de 1920 e 1930. Rocha Lima descobriu a origem do tifo exantemático em 1916, no Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo. Na volta definitiva ao Brasil, em 1928, foi uma liderança marcante do Instituto Biológico de São Paulo. O patologista Walter Büngeler, alemão de Danzig (atual cidade polonesa de Gdansk), escolhido para a cátedra da Escola Paulista de Medicina, pretendia ali iniciar um núcleo alinhado à ciência alemã – e correspondeu às expectativas dos oficiais da chancelaria e do Partido Nazista, transformando a escola num celeiro científico para as iniciativas da Academia Médica Germano-ibero-americana, especialmente com as excursões de estudantes.

A

O intercâmbio expressivo incluiu nomes como o oftalmologista Antônio de Abreu Fialho, o psiquiatra Antônio Pacheco e Silva, o dermatologista Adolfo Lindenberg, que foram convidados a visitar a Alemanha. Do outro lado, vieram ao Brasil médicos como Franz Volhard, Helmut Ulrici e Walter Unverricht, Heinrich Huebschmann e Karl Fahremkamp, entre outros. Diretor do Hospital Eppendorf, Ludolph Brauer visitou o Rio, Salvador e São Paulo – ali ainda passou pela distante colônia de Presidente Epitácio, onde existia uma ativa célula do Partido Nazista. A deflagração da Segunda Guerra Mundial, em 1939, abalou o intercâmbio científico, que acabou a partir da entrada do Brasil no conflito, ao lado dos Aliados, em 1942.

Projeto

As relações científicas germano-brasileiras no contexto da medicina paulista (1919-1950) (nº 2011/51984-5); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisadora responsável Maria Amélia Mascarenhas Dantes (FFLCH-USP); Bolsista André Felipe Cândido da Silva; Financiamento R$ 227.531,91 (FAPESP).

JULIANA SAYURhttp://revistapesquisa.fapesp.br/2015/05/15/diplomatas-no-laboratorio/

BRAZILIAN PARTICIPATION IN WORLD WAR TWO – NATAL – MOST IMPORTANT AIR FORCE BASE IN THE BRAZIL

1944 - A Brazilian soldier artillery in Italy
1944 – A Brazilian soldier artillery in Italy

Brazil’s participation in World War II was the culmination of a foreign policy emphasis that began in 1902. That year, Foreign Minister Rio Branco set Brazil on a course of close relations with the United States. He believed that ties with the United States, a growing world power, would promote Brazil’s aims at leadership in the Latin American region and provide international prestige.

Geopolitical Situation

After the 1930 revolution and 1937 coup that brought Getúlio Dornelles Vargas to power, Brazil’s political priorities were industrialization and the build up of military power. The country balanced its relationship with the United States through closer ties with the Axis powers of Nazi Germany, Italy and Japan.

Getúlio Vargas - www.euamoipatinga.com.br
Getúlio Vargas – http://www.euamoipatinga.com.br

Germany became the biggest buyer of Brazil’s cotton and its main supplier of weapons. Brazil’s leading politicians were divided between “Pro-USA” and “Pro-Axis” factions. Concern that the Latin American region could shift away from the United States politically prompted the administration of President Franklin D. Roosevelt to launch its “Good Neighbor” policy of cultural and economic assistance in place of an earlier policy of direct intervention in Latin American affairs.

Military Bases

Brazil and the United States adopted neutral positions in September 1939 on the outbreak of war in Europe. However, the United States became concerned about a potential German attack on the Western Hemisphere should Britain fall, figuring the most likely route for this to be from North Africa to northeastern Brazil. In 1941, Brazil agreed to the construction and enlargement of American air bases in northern and northeastern Brazil.

Parnamirim Field in Natal, Northeastern Brazil, the most important air base in the southern hemisphere
Parnamirim Field in Natal, Northeastern Brazil, the most important air base in the southern hemisphere

When the United States entered the war in 1941, the U.S. Navy was allowed to use Brazilian ports in its anti-submarine campaign. The air bases became an essential part of the Allied air transport system, a stopover for planes heading to Africa, the Mediterranean and points beyond.

Natal, the largest and most important air base in Brazil

The World War II gave an impulse to the growth of Natal and surroundings.

Seaplane at Potengi River. For the US government to Natal region is particularly important for its strategic position in the South Atlantic
Seaplane at Potengi River. For the US government to Natal region is particularly important for its strategic position in the South Atlantic

It is estimated that, before the War, Natal had 40,000 inhabitants; after the war, not only the population doubled to nearly 80,000 inhabitants, but the city also had improvements in the infrastructure and one airport (the airport of Parnamirim).

The Americans only entered the War on December 7th 1941, when the Japanese attacked Pearl Harbour; however, since the eclosion of the conflict, in 1939, the Americans were watching with preoccupation the expansion of the Axis powers.

American strategists were concerned with an eventual movement from the Axis towards the American continent; since 1940, Italians and Germans were occupying positions in North Africa; the next step could be the invasion of South America.

Ceremony in Parnamirim Field - https://catracalivre.com.br
Ceremony in Parnamirim Field – https://catracalivre.com.br

In 1939, the Major Delos C. Emmons, commander of the US Air Force, overflew the coast of Brazilian Northeast, and concluded that Natal was the most strategic point, both for a German invasion and for the Allies to use as a supporting site to the operations in Africa.

The US were not at war yet, and, to not create diplomatic tensions, decided to create a Program for Development of Airfields; to avoid the direct envolvement of the US government, the airline company PanAm was the co-signer of the agreement.

The first airplane to land in Parnamirim was the “Numgesser-et-Coli”, a monomotor Breguet-19, piloted by Dieu Coster et Le Brix, on October 14th 1927; before then, only aquaplanes arrived in Natal, on the waters of the Potengi River. According to Clyde Smith Junior, this was itself a Historic flight, because it was the first inter-Atlantic flight in the East-West direction. There was not an airport, however; instead, there was little more than the runway.

Hangar nose in Parnamirim Field
Hangar nose in Parnamirim Field

With fundings of the US government, the “Parnamirim Field” was constructed. It became the largest US basis outside American territory. Not only the airport, but also the infrastructure (roads, housing, etc) was built from ground.

Thousands of Brazilians migrated to Natal, looking for work. Also, Brazilian soldiers were sent to the Army and Navy bases. These movements explain the growth in population during the period.

After US entered the war, there was no more need for diplomatic actings. On December 11th 1941, a US Navy fleet composed by 9 aircrafts PB4 Catalina and one Clemson arrived in Natal; two weeks later, 50 marines arrived, to patrol the basis.

A maritime patrol aircraft PV-1 take off from Parnamirim Base
A maritime patrol aircraft PV-1 take off from Parnamirim Base

It is estimated that, during the War, between 3,000 and 5,000 Americans were located in Parnamirim. Also, tens of thousands of Americans and British passed by Natal, in transit. Parnamirim was the busiest airport in the world; flights were taking off and landing every three minutes.

Raw Materials and War Declaration

Brazil supplied iron ore, manganese, bauxite, tungsten, industrial diamonds and especially rubber to the United States during World War II. The Japanese occupation of Southeast Asia had halted 90 percent of world rubber supplies. Brazil received $100 million in arms and military equipment under the Lend-Lease Program, through which the United States supplied its allies.

Natal newspaper announcing the sinking of a Brazilian boat in March 1942
Natal newspaper announcing the sinking of a Brazilian boat in March 1942

Brazil’s close cooperation attracted attacks on its merchant shipping by Axis submarines. Italian and German submarines sank a total of 36 Brazilian merchant ships by August 1942 when Brazil declared war on the Axis powers.

Expeditionary Force

After an initial reluctance to commit troops to the war effort, Brazilian politicians decided that their country’s direct participation would achieve it a special status after the war. The Brazilian Expeditionary Force started as a political project to make Brazil a “special ally” of the United States.

Brazilian Expeditionary Force shipping in Rio de Janeiro. Destiny - The Italian front.
Brazilian Expeditionary Force shipping in Rio de Janeiro. Destiny – The Italian front.

Britain opposed the involvement of Brazilian troops partly because of perceived pro-Axis sympathies of some Brazilian politicians, and partly because of troops of too many nationalities in the Mediterranean Theater. Doubts that the BEF would be deployed in combat at all led to its nickname “the Smoking Cobras.” This referred to a Brazilian saying, equivalent to “pigs might fly,” stating that it would be more likely for a snake to smoke than for the BEF to be deployed. As a result, the BEF insignia was a coiled cobra with head upright and smoking a pipe.

poster-feb-dia-da-vitoria-segunda-guerra-mundial-9364-MLB20015498896_122013-Oindex_clip_image002

Deployment in Europe

The U.S. government considered deploying the BEF in southern Brazil on the Argentine frontier following coups in Argentina in 1943 and 1944, and a 1943 Argentina-inspired coup in Bolivia. However, the Americans conceded to BEF deployment in Italy because of Brazilian wartime cooperation. A total of 25,335 Brazilian troops came under the command of the U.S. Fifth Army. They fought in battles at Castelnuovo, Monte Castello and Montese in the Apennines south of Bologna. Brazilian military and political leaders rejected Allied offers to remain as an occupying force in postwar Europe. In late 1945, the FEB returned home and was disbanded. 

By Maria Kielmas, Demand Media and http://www.natal-brazil.com/

http://classroom.synonym.com/brazilian-involvement-wwii-12185.html

http://www.natal-brazil.com/basics/natal-world-war.html

See this blog – 

https://tokdehistoria.com.br/2011/07/04/1944-the-tragedy-of-the-b-24/

https://tokdehistoria.com.br/2011/05/25/memories-of-world-war-ii-in-natal-brazil/

https://tokdehistoria.com.br/2012/11/21/4369/

A FEB E O USS GENERAL MANN – NAVEGANDO PARA A GUERRA

Navio transporte de tropas USS General W. A. Mann. Em 1944 ele levou os primeiros combatentes da FEB para a Itália
Navio transporte de tropas USS General W. A. Mann. Em 1944 ele levou os primeiros combatentes da FEB para a Itália – CLIQUE PARA AMPLIAR AS FOTOS

Autor – Rostand Medeiros 

Ao longo da história do Brasil muitos foram os barcos e navios que marcaram a história deste país. Hoje a maioria das histórias destes barcos e seus homens estão esquecidos, mas os exemplos são muitos. Desde as caravelas da esquadra de Cabral[1], ou dos barcos holandeses lutando contra naves espanhol-portuguesas em 1640, na maior batalha naval em águas brasileiras[2]. Passando pela fragata Nichteroy, que comandada por John Taylor em 1823, perseguiu uma esquadra portuguesa até a foz do Rio Tejo[3]. Não podemos esquecer do almirante Barroso, a figura mais exponencial da Marinha do Brasil e seus combates na triste Guerra do Paraguai[4].

Rotas e cidade onde o General Mann esteve durante a II Guerra
Rotas e cidade onde o General Mann esteve durante a II Guerra

Entretanto existe um navio que, mesmo não sendo uma nave da nossa marinha e nem sequer ostentando a bandeira brasileira, marcou de maneira muito intensa um momento na história do país. Comento sobre o USS General W. A. Mann, um navio de transporte de tropas da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), que em julho 1944 levou o primeiro grupo de militares da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para lutar na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.

Interessante Missão

Como parte da estratégia dos estadunidenses de vencer as forças do Eixo na Europa e no Pacífico, foram construídos ao longo do conflito 19 navios da classe P-2, destinados exclusivamente ao transporte de tropas. Estas naves ostentavam nomes de almirantes e generais, pesavam mais de 17.000 toneladas, tinham quase 200 metros de comprimento, sua velocidade máxima era de 19 nós (35 km/h) e podiam transportar 5.000 homens destinados ao combate[5]. Um destes navios era o USS General William Abram Mann, ou simplesmente General Mann como ficou mais conhecido entre nossos pracinhas.[6]

O USS General W. A. Mann deixando o estaleiro em New Jersey
O USS General W. A. Mann deixando o estaleiro em New Jersey

Este navio foi construído entre 1942 e 1943, no Federal Shipbuilding and Dry Dock Company, em Kearny, estado de New Jersey, leste dos Estados Unidos. Foi incorporado a US Navy em 13 de outubro de 1943 e recebeu o código AP-112. Seu primeiro comandante efetivo foi o capitão Paul Sylvester Maguire, que realizou sua primeira missão nesta nave em 7 de janeiro de 1944, partindo de Newport News, estado da Virgínia para a cidade marroquina de Casablanca.

Maguire comandou sua nave em outras três travessias entre Newport News e Casablanca e duas tendo como destino a cidade argelina de Orã, as margens do Mar Mediterrâneo.

Em 6 de maio daquele ano o General Mann levantou âncora de Orã, atravessou o Estreito de Gibraltar e, ao invés de seguir rumo noroeste para Newport News, arribou em direção sul, ao Brasil, ao Rio de Janeiro, com a interessante missão de transportar os primeiros soldados latino-americanos a irem combater na Europa. O General Mann atracou porto do Rio, no Píer 10, em 27 de junho de 1944, uma terça-feira.

Símbolo

Não consegui descobrir nenhum documento que aponte se o capitão Paul Maguire e sua tripulação tinham ideia do que aquela missão de transporte representava para o Brasil.

Capitão Paul Sylvester Maguire. comandante do General Mann
Capitão Paul Sylvester Maguire. comandante do General Mann

Acredito que para os homens do General Mann, quando o seu navio atracou no Rio, aquele era apenas mais um porto e aqueles que embarcavam era apenas mais uma grande quantidade de homens fardados que eles levariam para algum lugar para lutar contra os odiados nazistas[7].

Mas para alguns setores do governo brasileiro, grande parte do alto comando militar e, principalmente, para os pracinhas e seus familiares aquele monstro de aço cinzento representou muita coisa. Principalmente a realização de um anseio que surgiu nas ruas das principais cidades brasileiras, diante dos ataques dos submarinos alemães e italianos ocorridos principalmente em 1942.

Após atracar no Rio, o capitão Maguire, o general Gaspar Dutra e o brigadeiro general Hayes A. Kroner, trocam ideias sobre a rota do General Mann para Europa
Após atracar no Rio, o capitão Maguire, o general Eurico Gaspar Dutra e o brigadeiro general Hayes A. Kroner, trocam ideias sobre a rota do General Mann para Europa

Para os setores do governo de Getúlio Vargas e os militares que acreditaram no projeto da FEB, a presença do General Mann no cais do porto do Rio era a finalização anos de muita superação, de muito aprendizado, treinamento duro e muita luta contra todo tipo de entraves e deficiências. Para o general João Batista Mascarenhas de Morais, comandante do corpo expedicionário, a partida do 1º Escalão da FEB naquele navio foi considerada como sendo uma vitória contra a onda de pessimismo e de derrotismo que impregnava certos setores da administração e da própria opinião pública nacional. Na época o militar comentou – “Agora que vencemos o inimigo interno, vamos ver de perto o Exército alemão”[8].

Mann (13)

Percebi lendo os livros que tratam do tema que a chegada do General Mann foi visto em parte como algo do tipo “Agora vai”, ou “Agora era prá valer”. Enfim, havia chegado a hora de os pracinhas iniciarem a travessia do Atlântico. Os brasileiros iriam para os campos de batalha, finalmente “A Cobra ia fumar”.

FEB Embarcada

Na quinta-feira, 29 de junho, começou o embarque de milhares de soldados vindos da Vila Militar, na zona oeste do Rio, sendo transportados pela Estrada de Ferro Central do Brasil, até o cais da Praça Mauá, no centro da cidade.

Embarque da FEB
Embarque da FEB

Ao redor do porto havia muita segurança e isolamento. Gente de toda parte do país, com seus sotaques, cores, trejeitos e maneiras próprias entravam na grande nave carregando sacos de lona. O general Mascarenhas de Moraes e alguns oficiais de seu Estado Maior embarcaram ao lado dos militares do 1º escalão, que totalizaram 5.075 homens.

Mascarenhas de Moraes listou as primeiras unidades da FEB transportadas no General Mann – Escalão Avançado do  Quartel General da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), Estado Maior da Infantaria Divisionária da 1ª DIE, 6º Regimento de Infantaria, 4ª Companhia e 1º Pelotão de Metralhadoras do 11º Regimento de Infantaria, II Grupo do 1º Regimento de Obuses Auto Rebocados, 1ª Companhia do 9º Batalhão de Engenharia, uma parte da Seção de Suprimento e Manutenção do 9º Batalhão de Engenharia, 1º Pelotão do Esquadrão de Reconhecimento, Seção de Exploração e elementos da Seção de Comando da 1ª Companhia de Transmissões, 1ª Companhia de Evacuação, o Pelotão Tratamento e elementos da Seção de Comando, todos do 1º Batalhão de Saúde, Companhia de Manutenção, Pelotão de Polícia Militar, um pelotão de viaturas, uma Seção do Pelotão de Serviços e elementos da Seção de Comando da 1ª Companhia de Intendência, o Correio Regulador, o Depósito de Intendência, a Pagadoria Fixa, os correspondentes de guerra, elementos do Hospital Primário, Serviço de Justiça e Banco do Brasil[9].

O capitão Paul Maguire e Getúlio Vargas no General Mann
O capitão Paul Maguire e Getúlio Vargas no General Mann

Segundo o diário de bordo do USS General W. A. Mann, o embarque do 1º escalão da FEB foi concluído ás três da manhã do sábado, 1 de julho.

João Barone afirma que na madrugada do dia 30 de junho quem subiu a bordo, de forma totalmente discreta, foi o presidente Getúlio Vargas. Ele proferiu um discurso pelo intercomunicador da nave, visitou as instalações do General Mann, apertou a mão de pracinhas deitados em seus catres, posou para fotos e foi embora para uma viagem a Minas Gerais que foi amplamente divulgada nos jornais[10].

No domingo, 2 de julho, ás cinco e quarenta e três da matina o navio norte-americano General Mann desatracou e partiu. Pelos próximos quatorze dias a nave seguiria pelo Oceano Atlântico e pelo Mar Mediterrâneo, sempre escoltado.

Diário de bordo do USS General W. A. Mann sobre a partida do Rio de Janeiro
Diário de bordo do USS General W. A. Mann sobre a partida do Rio de Janeiro

Enquanto toda essa movimentação militar acontecia no porto, os jornais cariocas nada comentaram do que acontecia devido a pesada censura. Mas o Rio seguia sua vida normal, inclusive nos esportes. No sábado, enquanto centenas e centenas de pracinhas embarcavam, tinha início o campeonato carioca de futebol com o “match” entre o Fluminense e o Vasco da Gama (Empataram em 3 x 3). Já no domingo estavam marcados mais seis jogos, sendo um deles entre as equipes do Botafogo e do Bonsucesso (Botafogo venceu de 4 x 3).

O Cardeal Arcebispo do Dom Jaime de Barros Câmara transmite uma prece para os pracinhas pelo intercomunicador do navio. Dom Jaime foi bispo de Mossoró-RN, entre 1934 e 1941.
O Cardeal Arcebispo do Dom Jaime de Barros Câmara transmite uma prece para os pracinhas pelo intercomunicador do navio. Dom Jaime foi bispo de Mossoró-RN, entre 1934 e 1941.

Mas o jogo principal envolveu o Flamengo e o América carioca, com a peleja sedo disputada no tradicional Estádio de São Januário (América 2 x 1 no Mengo). No Jóquei Clube foram disputados nove páreos, onde no oitavo ocorreria o “Grande Prêmio Diana”, cuja égua “Cataflor” era tida como uma verdadeira barbada (E a égua ganhou com quatro corpos de vantagem para o segundo colocado)[11].

Tédio e Preocupação

Nos primeiros dias da viagem os destróieres brasileiros “Marcilio Dias”, “Greenhalgh”, “Mariz e Barros” escoltaram o transporte de tropas, normalmente navegando a velocidade de 17 nós e sempre ziguezagueando para evitar ataques de submarinos[12].

Elogio do almirante Ingram aos capitães das escoltas brasileiras e publicado nos jornais cariocas
Elogio do almirante Ingram aos capitães das escoltas brasileiras e publicado nos jornais cariocas

Sobre a escolta realizada pelos barcos brasileiros, o capitão Paul Maguire fez elevados elogios a atuação dos comandantes Raul G. Reis de Souza, Archimedes B. Pires de Souza e Roberto Nunes. Fato que foi repercutido pelo comandante da 4ª Frota da US Navy, o almirante Jonas Howard Ingram, a partir de sua base em Recife e que teve ampla divulgação na imprensa nacional.[13]

Diário de bordo do USS Omaha, comentando sobre o encontro com o General Mann e suas escoltas brasileiras
Diário de bordo do USS Omaha, comentando sobre o encontro com o General Mann e suas escoltas brasileiras

Na manhã do dia 5 de julho, o grande navio americano e suas três escoltas brasileiras foram captados pelo radar do cruzador USS Omaha (CL-4), que havia partido de Recife na madrugada do dia 4, junto com os destróieres USS Reybold (DE-177) e o USS Marts (DE-174). As naves americanas renderam as brasileiras e prosseguiram na escolta. Esta mudança foi marcada por uma cerimônia marítima.

Apesar de uma pequena diminuição de velocidade devido a um problema no motor de um dos navios, a pequena frota seguia tranquila. Durante certo tempo tiveram cobertura aérea de hidroaviões PBYs Catalinas[14].

Um PBY Catalina sobrevoando o General Mann
Um PBY Catalina sobrevoando o General Mann

A noite todas as luzes do General Mann eram apagadas e o calor tornava a viagem bastante desgastante para os nossos soldados. Devido a possibilidade de ataques de submarinos, era necessário total alerta e treinamentos constantes para a tropa e a tripulação.

Era aconselhado ficar dentro dos dormitórios, e, quando se saía, geralmente era para ir à cozinha ou à lavanderia. Os corredores do navio eram cheios de guardas americanos observando tudo, e pela dificuldade de comunicação, dado que não falavam o Português, os guardas só apontavam para a direção em que os soldados deveriam ir.[15]

Canhão antiaereo do general Mann
Canhão antiaereo do general Mann

Lendo os diários de bordo do Omaha e do General Mann sobre esta travessia, pude confirmar um fato muito comentado pelos brasileiros que estiveram no navio de transporte – houve durante vários dias ocorreram disparos de armas, principalmente as antiaéreas, para treinamento das tripulações. Por exemplo, no dia 7 de julho ocorreu no General Mann, respectivamente 40 e 52 “rounds” de disparos nos canhões antiaéreos de 75 e de 20 m.m. Já no Omaha, muito mais armado, houve um treinamento no dia 11 de julho onde foram disparados 246 “rounds” de antiaéreos de 20 m.m[16].

Contato entre pracinhas brasileiros e marujos americanos
Contato entre pracinhas brasileiros e marujos americanos

Apesar dos navios mistos de carga e passageiros serem o principal meio de transporte naquele tempo no Brasil, onde viajar de navio era algo normal até para as classes menos abastadas, muitos pracinhas deixaram registrado o misto de tédio e preocupação que sentiam a bordo do navio de transporte. Até aquele momento o destino final era completamente desconhecido, o que fazia com que muitos deles andassem da popa à proa do General Mann, seguindo a balaustrada, apenas para fazer o tempo passar e diminuir a ansiedade. Outros para passar o tempo jogavam baralho e assistiam a sessões de cinema.

Enquanto os brasileiros seguiam o seu misto de tédio e tensão, a pequena frota progredia e os membros da US Navy continuavam seu intenso trabalho de vigilância antissubmarino e atentas ao horizonte em busca de aviões e navios desconhecidos. Existe o registro no diário do Omaha a informação que foi avistado um barco que causou certa preocupação inicial, mas que depois foi identificado como sendo a fragata inglesa HMS Tess, comandada pelo capitão C. H. Candler[17].

Um dos inúmeros treinamentos que os pracinhas realizaram para o caso de alguma emergência
Um dos inúmeros treinamentos que os pracinhas realizaram para o caso de alguma emergência

Para a maioria dos pracinhas, a travessia foi tensa e cansativa. Na US Navy havia uma tradicional brincadeira que consistia em presentear os marinheiros que atravessam a Linha Imaginária do Equador com “Diplomas do Rei Netuno. Para diminuir a tensão da viagem, esta cerimonia tornou a viagem mais animada e, como o espírito brasileiro naturalmente é caracterizado pela irreverência, trouxe um ânimo a mais para tropa no General Mann.[18]

A Chegada ao Teatro de Luta

No dia 12 os pracinhas tiveram novamente a visão da terra, mas de terras africanas, o Marrocos. Finalmente, no dia 13 de julho, por volta de três da tarde, os navios chegaram ao Estreito de Gibraltar. Do transporte de tropas, com a ajuda de binóculos, foi possível os brasileiros avistarem a cidade espanhola de Algeciras e o rochedo de Gibraltar. No lado africano foram visualizadas as cidades de Tanger e Ceuta[19].

Militar brasileiro de patente elevada passando em ordem a guarda de Fuzileiros navais (Marines) a bordo do General Mann. Eram estes fuzileiros que mantinha a ordem a bordo.
Militar brasileiro de patente elevada passando em ordem a guarda de Fuzileiros Navais (Marines) a bordo do General Mann. Eram estes fuzileiros que mantinha a ordem a bordo. O armamento é o fuzil M1903A3

Nesta área o Omaha, o Reybold e o Martz, foram substituídos na escolta e o General Mann passou a ser protegido pelos destroieres USS Kearny (DE-432), USS Hollis (DE-794) e USS Marsh (DE-699)[20].

Ao entrar no Mar Mediterrâneo sentiu-se logo um alívio geral, pois com as águas mais calmas, o navio já não jogava e sacudia tanto quanto no Oceano Atlântico, o que fazia quase todos ficarem mareados e vomitarem quase o tempo todo.[21] Durante o trajeto, uma das grandes dificuldades enfrentadas pelos pracinhas dizia respeito à alimentação servida a bordo. Com um efetivo superior a 5.000 militares embarcados, as refeições eram feitas em sistema de rodízio. A cozinha funcionava 24 horas por dia, e não podia ser de modo diferente, pois eram servidas duas refeições diárias para cada homem. Para os que estivessem trabalhando eram três.

A não adaptação à comida, em conjunto com o balanço do navio, fez com que muitos dos pracinhas adoecessem logo ao partirem do Rio de Janeiro[22].

Diário de bordo do General Mann, sobre a chegada a Nápoles e o desembarque da FEB nesta cidade italiana.
Diário de bordo do General Mann, sobre a chegada a Nápoles e o desembarque da FEB nesta cidade italiana.

O capitão Paul Maguire apontou no diário de bordo do General Mann que na manhã de 16 de julho de 1944 o seu navio entrava na Baía de Nápoles, Itália. Lentamente, o navio foi se aproximando do cais do porto em escombros, pontilhado de embarcação em variados graus de destruição. Navio chegou ao Píer A, e atracou no Ancoradouro 8 e logo foi visitado pelos tenente general Jacob Devers e pelo major general David G. Barr, ambos do Exército dos Estados Unidos (US Army). Os generais americanos e seus oficiais confraternizaram com o general Mascarenhas de Morais e os oficiais da FEB. Além da presença dos oficiais estadunidenses, jornalistas também estavam no cais. Já o desembarque dos pracinhas e dos equipamentos levou três horas e meia.

A FEB estava na Europa e logo iria lutar. Já o USS General W. A. Mann partiu três dias depois para Orã e de lá para Liverpool, Inglaterra, depois seguiu para Nova York, Estados Unidos e em 14 de setembro de 1944 retornava ao Rio de janeiro para transportar o 2° escalão de combate da FEB na Itália.

Fim de Carreira

O USS General W.A. Mann continuou sendo usado na Segunda Guerra Mundial, na Guerra da Coréia e na Guerra do Vietnã. Na Guerra da Coréia, foi utilizado pelo governo da República da Coréia para transportar documentos, além de ouro e prata. Na crise dos mísseis cubanos, transportou para o Caribe, armamento caso o conflito ocorresse. Em 1966 foi colocado na frota da Reserva Nacional Americana e em 1987 foi vendido como sucata, sendo desmontado em Taiwan.

Mann (17)

O USS General W.A. Mann ganhou duas Estrela de Serviço, uma para a Guerra da Coréia e outra pelos seus serviços na Guerra do Vietnã.[23]


NOTAS –

[1] – Sobre este tema ver – http://veja.abril.com.br/historia/descobrimento/naus-caravelas-portuguesas.shtml

[2] – Sobre este tema ver – https://tokdehistoria.com.br/2013/11/02/1640-a-maior-batalha-naval-ocorrida-nos-mares-brasileiros/

[3] – Sobre este tema ver – https://www.marinha.mil.br/marinha-do-brasil-e-independ%C3%AAncia

[4] – Sobre este tema ver – http://www.naviosbrasileiros.com.br/ngb/b/B017/B017-NB.htm

[5] – Sobre essa classe de navios ver – http://www.globalsecurity.org/military/systems/ship/ap.htm

[6] – O Major General William Abram Mann (1854 – 1934) Se formou na Academia Militar de West Point em 1875, da arma de infantaria, onde serviu em várias unidades até o final do século XIX. Em 1917 tornou-se o primeiro comandante da 42ª Divisão de Infantaria, conhecida como Divisão do Arco-íris, composta por unidades da Guarda Nacional a partir de 26 estados e o Distrito de Columbia. Foi a primeira vez que as unidades da Guarda Nacional a partir de vários estados foram organizadas em conjunto. Mann levou a Divisão do Arco-íris para a França durante a Primeira Guerra Mundial, mas não conseguiu passar pelo exame físico e por isso não foi capaz de comandar a sua divisão em combate. Voltou para os Estados Unidos e continuou no exército até chegar a idade da aposentadoria compulsória no final de 1918. Após sair da carreira militar se tornou empresário.

[7] – Diário de bordo do USS General A. W. Mann, 2 de julho de 1944, pág. 2.

[8] – Sobre este tema ver – http://www.cepen.org/web1/index.php/48-portal-cepen/feb-fab/mascarenhas/326-embarque-e-desembarque-da-feb-em-italia

[9] – Enciclopédia da II Guerra Mundial, Editora Globo, Livro VI, páginas 285 e 286, 2ª edição, 1956.

[10] – Barone, João, “1942 – O Brasil e sua guerra quase desconhecida”, páginas 137 a 142. Editora Nova Fronteira, 1ª edição, 2013.

[11] – Ver edições esportivas do jornal “Diário da Noite”, Rio de Janeiro-RJ, edições de 1 a 3 de julho de 1944.

[12] – Diário de bordo do USS General A. W. Mann, 2 de julho de 1944, pág. 2.

[13] – Ver jornal “Gazeta de Notícias”, Rio de Janeiro-RJ, edições de 1 a 3 de julho de 1944, pág. 2.

[14] – Diário de bordo do USS Omaha, 5 de julho de 1944, pág 6.

[15] – Ver em http://www.portalfeb.com.br/uma-conversa-com-a-historia-veterano-pedro-candido-ribeiro/

[16] – Diário de bordo do USS Omaha, 7 de julho de 1944, pág. 7 e Diário de bordo do USS General A. W. Mann, 11 de julho de 1944, pág. 10.

[17] – Diário de bordo do USS Omaha, 11 de julho de 1944, pág. 10.

[18] – Ver https://chicomiranda.wordpress.com/tag/navio-general-mann/

[19] – Ver jornal “Diário da Noite”, Rio de Janeiro-RJ, edição de 19 de setembro de 1944, págs. 1 e 2.

[20] – Diário de bordo do USS General A. W. Mann, 13 de julho de 1944, pág. 13.

[21] – Ver http://www.anvfeb.com.br/siteantigo/amynthas.htm

[22] – Ver http://www.portalfeb.com.br/longa-jornada-com-a-feb-na-italia-capitulo-8/

[23] – Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/USS_General_W.A._Mann

OUTRA FACE DA II GUERRA – AS VIOLAÇÕES SEXUAIS PRATICADA PELOS ALIADOS CONTRA AS MULHERES ALEMÃS

Para muitos americanos nos Estados Unidos a imagem apresentada de suas tropas de ocupação na Alemanha pós Segunda Guerra Mundial foi de cordialidade e fidalguia. Mas parece a realidade foi bem outra fora das lentes das câmeras - Fonte - www.organizedrage.com
Para muitos americanos nos Estados Unidos a imagem apresentada de suas tropas de ocupação na Alemanha pós Segunda Guerra Mundial foi de cordialidade e fidalguia. Mas parece a realidade foi bem outra fora das lentes das câmeras – Fonte – http://www.organizedrage.com
Historiadora alemã descobre que não foram apenas
as tropas russas que praticaram as selvagerias.

“-Não havia água corrente e eu e minha mãe tínhamos de ir buscar água com baldes em um córrego. Na ponte havia alguns soldados norte-americanos que disseram à minha mãe para retornar e mandaram que eu esperasse na ponte. Mamãe começou a voltar relutante e eles me empurraram e me forçaram a atravessar a ponte. Ela olhou para trás sem perder de vista, mas não podia fazer nada”. Assim relata Elfriede Seltenheim, quando tropas americanas que haviam ocupado Ostbrandenburg lhe arrancaram do seio de sua família. 

Fim da guerra e do regime nazista na Alemanha - Fonte - www.civishir.hu
Fim da guerra e do regime nazista na Alemanha – Fonte – http://www.civishir.hu

Ela tinha 14 anos de idade em fevereiro de 1945. Uma fotografia tirada poucos dias antes, como uma celebração pelo fim da Segunda Guerra Mundial, mostra a menina com um sorriso tímido e duas tranças douradas que caem sobre os seus ombros. Da ponte Elfriede foi levada para um quartel, onde soldados americanos a estupraram inúmeras vezes, dia e noite, durante quatro semanas. 

“-Eu não me lembro de gritar sequer uma vez. Fiquei apavorada”, diz ela aos 84 anos. Elfriede se lembra dos acontecimentos enquanto revisa suas memórias e fica passando as mãos, uma e outra vez, na cobertura que protege o braço da cadeira em que está sentada.

Quando voltou para casa, ele nunca falou do assunto, nem buscou reclamar visando qualquer reconhecimento ou compensação. “-Alguma coisa morreu dentro de mim”, ele tenta explicar agora. “-Eu perdi o sorriso para sempre. Depois perdi as lágrimas. E eu vou te dizer uma coisa, você pode viver sem sorrir, mas você não pode viver sem chorar.” 

Elfriede Seltenheim em recente entrevista na TV alemã - Fonte - www.welt.de
Elfriede Seltenheim em recente entrevista na TV alemã – Fonte – http://www.welt.de

Setenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial na Alemanha, ainda existe um tabu neste país sobre as mulheres e meninas estupradas por tropas de ocupação Aliadas.

A família de Elfriede, como muitas outras de alemães, estava profundamente apavorada com a chegada das tropas russas nas vilas e cidades. Histórias sobre violações sistemáticas praticadas pelo Exército Vermelho viajaram rapidamente naqueles dias sombrios e os soldados americanos foram recebidos como libertadores. Propagou-se a ideia na coletividade alemã do “amigo americano”, de um militar de ocupação que não cometia crimes de guerra. Mas a pesquisa da historiadora alemã Miriam Gebhardt muda essa versão da história.

 Números Vergonhosos 

Gebhardt, que pela primeira vez coloca números para a violação sexual massiva, estima que cerca de 860.000 mulheres foram forçadas sexualmente ao fim da guerra e nos meses seguintes. Pelo menos 190 mil destes casos foram perpetrados por soldados americanos. Mas, segundo a historiadora, estes números são apenas a ponta do iceberg. “-O número provavelmente é muito maior, pois muitas mulheres e garotas nunca quiseram falar sobre isso por vergonha”, ela explica. 

Livro da historiadora Miriam Gebhardt sobre este complicado tema para os alemães
Livro da historiadora Miriam Gebhardt sobre este complicado tema para os alemães

“-Durante a primavera de 1945, as tropas americanas tomaram uma a uma as aldeias e cidades da Oberbayern (região administrativa alemã, cuja capital é a cidade de Munique). Na maioria dos locais os americanos não encontraram nenhuma resistência e até mesmo foram recebidos com bandeiras americanas nas ruas. Os americanos se instalaram na prefeitura e depois foram de casa em casa e realizaram um primeiro registro sobre os ex-soldados alemães e suas armas. Uma vez que descobriram que estavam a salvo, começaram a pilhar. Eles se apropriavam de relógios, bicicletas, rádios, óculos de sol, joias e qualquer objeto que gostassem como lembrança. Depois passavam a estuprar mulheres e meninas antes de marcharem para outras áreas”. Recorda Charlotte W., então com 18 anos e que ao longo de sua vida assegurou que escapou dos estupros por ter sido escondida por seus pais. 

A historiadora Miriam Gebhardt
A historiadora Miriam Gebhardt

Segundo a historiadora Miriam Gebhardt “-Muitas destas mulheres fingem até hoje que não aconteceu nada e guardaram silêncio durante décadas por vergonha. É um sintoma comum na maioria das vítimas”. O objetivo da historiadora com esta pesquisa é promover uma reparação para essas mulheres e o seu sofrimento, até agora ignorado pelas autoridades alemãs e, claro, pelos responsáveis. 

Russos molestando uma alemã. É inegável que a maioria dos abusos sexuais praticados contra as alemãs foram perpetrados por tropas russas, mas eles não estavam sozinhos na tarefa - Fonte - httpwww.svobodata.com
Russos molestando uma alemã. É inegável que a maioria dos abusos sexuais praticados contra as alemãs foram perpetrados por tropas russas, mas eles não estavam sozinhos na tarefa – Fonte – httpwww.svobodata.com

A maioria das violações contra as mulheres alemãs foram realizadas pelos soldados russos, com fatos muito mais documentados. Mas quase nada se sabia dos ultrajes cometidos pelos americanos. “-Eu mesmo fiquei surpresa com a quantidade desses crimes”, admite a historiadora. Estas violações continuaram até 1955, quando a região finalmente recuperou sua soberania. Durante esse período mais de 1.600.000 soldados dos Estados Unidos estiveram na Alemanha. 

Registros 

Nem a administração alemã, inexistente na época, ou as tropas de ocupação realizaram registros destas violações. Gebhardt encontrou a maioria das provas documentais em relatórios realizados pela Igreja.

O arcebispo de Munique e Freising, diante do silencio do que estava ocorrendo, pediu aos sacerdotes realizarem um registro pontual das atividades dos exércitos estrangeiros na região e os seus efeitos sobre as comunidades. Esses registros são mantidos em Munique e incluem, por exemplo, apontamentos de Michael Merxmüller, pároco da cidade de Ramsau, que em 20 de julho de 1945 escreveu: “Oito meninas e mulheres estupradas, algumas delas na frente de seus pais”. 

A natural beleza platinada de muitas jovens alemãs daquela época foi a razão de muito sofrimento para várias delas - Fonte - kurz-geschrieben.de
A natural beleza platinada de muitas jovens alemãs daquela época foi a razão de muito sofrimento para várias delas – Fonte – kurz-geschrieben.de

Em 25 do mesmo mês, o padre Andreas Weingand escreveu em uma aldeia ao norte de Munique: “A coisa mais triste na passagem das tropas foram as violações de três mulheres: uma casada, uma solteira e uma menina virgem de 16 anos e meio. Todos cometido por soldados americanos fortemente embriagados”. 

Já o Padre Alois Schiml, de Moosburg, escreveu no dia 01 de agosto de 1945: “-Por ordem do governo militar, uma lista de todos os residentes e as suas idades deve ser pregado na porta de cada casa. Como resultado deste decreto, (…. ) 17 meninas e mulheres (…) tiveram de ser levadas ao hospital depois de terem sido submetidas a repetidos abusos sexuais”. 

A vítima mais jovem registrada nestes documentos foi uma pequena de sete anos de idade, que contraiu uma séria doença venérea. A mais velha foi uma mulher de 69 anos. 

Propaganda americana. Foto de Ralph Morse, da revista LIFE, mostrando um aspecto menos complicado da aproximação entre tropas de ocupação americanas e jovens alemãs.
Propaganda americana. Foto de Ralph Morse, da revista LIFE, mostrando um aspecto menos complicado da aproximação entre tropas de ocupação americanas e jovens alemãs.

“-Muitas vezes as tropas dos Estados Unidos pediram às autoridades locais grupos de mulheres, supostamente para realizar trabalhos de secretariado e de cozinha. Era um tipo de trabalho forçado, que muitas vezes escondida violações indiscriminadas. Os grupos de mulheres eram substituídas a cada 15 dias e quando eles voltaram para casa ficavam em silêncio, inclusive com sentimento de culpa”, descreve a pesquisadora. 

Além disso, proliferaram entre as tropas americanas escapadas noturnas em busca de mulheres indefesas. “-Uma noite bateram em minha porta sete soldados americanos armados. Eles exigiram que lhes preparassem comida e, em seguida, estupraram a minha avó e a minha mãe. O meu primo viu tudo, mas nunca falou disso. Minha mãe e minha avó também”, narrou Maximiliane, que cresceu sem saber que era a filha de um daqueles sem coração. “-Eu comecei a suspeitar quando na minha universidade surgiu a oportunidade de ser realizada uma viagem de estudo para os Estados Unidos. Aquela notícia desestabilizou completamente a minha mãe e depois de vários meses de estressante tensão o meu primo me disse o que estava por trás de tudo aquilo”. 

Fonte - www.dw.de
Fonte – http://www.dw.de

Os soldados chegavam ao ponto de venderem para os colegas de farda informações sobre as casas que tinham mulheres e crianças indefesas. “-A coisa que mais me surpreendeu depois de todos esses anos, desde que eu soube o que aconteceu, é que a minha mãe simplesmente aceitou. Em sua concepção das coisas ela pertencia a lado perdedor da guerra e, de alguma forma, tinha que aceitar isso como um castigo. Nós nunca conversamos sobre isso”, lamenta Maximiliane. 

Filhos da Guerra

Os resultados dessas violações indiscriminadas foram inúmeras gestações indesejadas. São sobre elas que a historiadora Gebhardt agora faz suas projeções.

Em registros hospitalares ficaram partes das evidências das brutalidades. “Além de estupro, muitas mulheres foram açoitadas com chicotes ou atacadas com armas.” 

Em documentos judiciais também existem vários registros de suicídios de meninas após terem sido estupradas em grupos. Normalmente se matavam enforcando-se em uma viga nas casas, ou ingerindo altas doses de essência de vinagre. “-Minha sobrinha de 13 anos foi estuprada na sala ao lado por 14 soldados russos. Minha esposa foi arrastada para o celeiro e lá foi estuprada também. Na parte da manhã, antes de saírem da fazenda, os russos voltaram ao celeiro e a estupraram novamente. Quando abri o celeiro eu encontrei seu corpo quebrado”, diz Otto H., que guardou pelo resto de sua vida aquela noite terrível em uma fazenda próximo a cidade de Friedeberg, na Pomerânia. 

Fonte - www.daserste.de
Fonte – http://www.daserste.de

Após os primeiros meses do final da guerra, em que o abuso foi a ordem do dia, proliferaram outros tipos de atos sexuais onde a fronteira do consentimento se tornou muito mais difusa. Fome e privações ocasionadas pela guerra levaram muitas alemãs para a prostituição, onde muitas vezes trocavam o corpo por uma misera batata, que muitas vezes alimentava toda uma família.

A sempre eficiente propaganda americana promoveu a ideia de que as mulheres alemãs ficaram atraídas pelas tropas estadunidenses, que serviu como um argumento para muitos excessos. 

Gebhardt insiste em que o sentido de remover o véu é a denúncia da crueldade com que os conflitos armados afetam as mulheres, que são perdidos no esquecimento nas vergonhas mais profundas. 

Texto de ROSALÍA SÁNCHEZ – http://www.elmundo.es/cronica/2015/03/08/54fadb85268e3ee0518b4570.html