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PELOS CAMINHOS DE LAMPIÃO

11- Após a derrota em Mossoró, o bando em Limoeiro do Norte-CE

DOCUMENTÁRIO “CHAPÉU ESTRELADO – OS CAMINHOS DE LAMPIÃO NO OESTE POTIGUAR” COMEÇARÁ SUAS FILMAGENS EM BREVE

Yuno Silva – Repórter, jornal Tribuna do Norte, edição de 10 de abril de 2015

A passagem meteórica de Virgulino Ferreira da Silva pelo Rio Grande do Norte, em junho de 1927, vai muito além da histórica derrota sofrida em Mossoró. Eterno rei do cangaço, temido e amado por muitos, Lampião circulou 96 horas por terras potiguares deixando um rastro de violência que o tempo não foi – e muito provavelmente não será – capaz de apagar. É no encalço dessa rota, que durou apenas quatro dias, que o documentário em longa-metragem “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar” cai na estrada a partir do dia 22 de abril. A data de lançamento ainda não está definida, mas a intenção da equipe é lançar ainda este ano.

Com direção do cineasta carioca Silvio Coutinho, roteiro do escritor e artista plástico Iaperi Araújo, produção executiva do crítico de cinema Valério Andrade (FestNatal) e pesquisa de Rostand Medeiros, o filme refaz o caminho que o bando de Lampião (1898-1938) trilhou entre 10 e 14 de junho de 1927 pelo interior do Ceará, Paraíba e RN. Período que marcou o início do fim do reinado do Capitão Virgulino pelo Sertão nordestino. 

Tribuna do Norte, edição de 10 de abril de 2015
Tribuna do Norte, edição de 10 de abril de 2015

A proposta do ‘road movie’, cujas imagens serão capturadas com equipamento de tecnologia 4k (resolução quatro vezes superior ao padrão ‘Full HD’), é registrar a memória de herdeiros diretos, gente que está na faixa dos 80 anos, daqueles que testemunharam episódios envolvendo o famoso cangaceiro. Entre os depoimentos, imagens antigas e comentários de historiadores e estudiosos do tema.

scan7Sem amparo de leis de incentivo ou editais, com alguns apoios locais, o documentário será rodado de 22 de abril a 6 de maio na zona rural de cidades como Luis Gomes, Major Sales, Marcelino Vieira, Antônio Martins, Caraúbas, Apodi, Felipe Guerra, Governador Dix-Sept Rosado, Mossoró e Baraúnas – em 1920 o caminho dos cangaceiros atravessava seis municípios, hoje são 19.

“Nosso ponto de partida será a fazenda de Ipueira, em Aurora no Ceará, onde Lampião foi acolhido pelo Coronel Isaías Arruda. Foi lá que ele conheceu o pistoleiro (e dublê de cangaceiro) Massilon, que seria seu guia pelo RN. O alvo do bando era Mossoró”, disse Rostand Medeiros, escritor e autor da pesquisa que embasou o projeto “Nas Pegadas de Lampião” encomendada pelo Sebrae-RN em 2010. Saindo de Aurora, o filme segue Lampião pela Paraíba, sobe a ‘tromba do elefante’ e termina na cidade de Limoeiro do Norte também no CE.

O livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”, de Sérgio Dantas, foi utilizado como base para o trabalho de percorrer o caminho de Lampião no RN - Fonte - lampiaoaceso.blogspot.com
O livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”, de Sérgio Dantas, está sendo utilizado como base de dados para o trabalho de percorrer  e filmar o caminho de Lampião no RN – Fonte da foto – lampiaoaceso.blogspot.com

O mapeamento inicial do trajeto dos cangaceiros pelo RN foi feito pelo juiz Sérgio Dantas, que em 2005 lançou o livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”. No livro, Dantas desfaz equívocos e tira das costas de Virgulino Ferreira uma série de crimes que o cangaceiro não teria como cometer por questões temporais e geográficas.

Dinheiro e vingança

“A resistência em Mossoró é um fato histórico muito importante, mas a curta passagem de Lampião pelo RN vai além”, garante Rostand, que já percorreu todo o percurso de moto para se aproximar da trilha original feita à cavalo. O pesquisador ressalta que Lampião tinha pretensões puramente financeiras na empreitada, enquanto Massilon e o Cel Isaías Arruda também tinham motivação pessoal, política e de vingança. “Quando Virgulino percebeu que estava sendo usado era tarde, o estrago estava feito. O plano dos cangaceiros era subir sem alarde até Mossoró, queriam manter o elemento surpresa, mas Massilon tocou o terror logo no primeiro povoado (Canto do Feijão, atual Santa Helena na PB) matando o delegado do lugar”.

Jornal de Caicó repercutindo o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró
Jornal de Caicó repercutindo o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró

Sobre o combate em Mossoró, Rostand informa que há um entendimento de que Lampião não foi para a linha de frente propriamente dita, e sim enviou subgrupos comandados por Massilon (que conseguiu fugir do massacre), e os cangaceiros Sabino, Colchete e Jararaca – este último capturado, executado e que hoje é tido como santo para devotos que visitam seu túmulo todo Dia de Finados na capital do Oeste.

Em 2010, realizando uma consultoria para o SEBRAE-RN, percorri junto com o amigo Solón Rodrigues Netto o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, baseando a rota no trabalho de Sergio Dantas,  Já naquele período este trabalho havia sido notícia no jornal natalense Tribuna do Norte
Em 2010, realizando uma consultoria para o SEBRAE-RN, percorri junto com o amigo Solón Rodrigues Netto o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, baseando a rota no trabalho de Sergio Dantas, Já naquele período este trabalho havia sido notícia no jornal natalense Tribuna do Norte.

“Mossoró utiliza, com razão, muito a memória desse ataque, mas tem muita coisa no caminho”, avisa Rostand, citando o exemplo da igreja de São Sebastião construída no alto da Serra de Veneza, em Antônio Martins, por pessoas que conseguiram escapar do bando e que prometeram rezar uma missa anualmente se sobrevivessem.

Diretor Silvio Coutinho - Fonte festnatal2013.blogspot.com
Diretor Silvio Coutinho – Fonte festnatal2013.blogspot.com

“Até hoje essa missa é rezada”, acrescenta o pesquisador, que ainda não conhece Silvio Coutinho pessoalmente, mas tem trocado ligações telefônicas frequentes com o diretor que chegam a durar horas.

Iaperi Araújo 

O roteiro de Iaperi Araújo, que também assina parte da trilha sonora original, teve como base, além das pesquisas, os três livros publicados por ele sobre o assunto: “A Cabeça do Rei – A morte e a morte de Virgulino Ferreira da Silva Lampião” (2007), “No Rastro dos Cangaceiros” (2009) e “Angico 1938” (2013).

O escritor e artista plástico Iaperi Araújo é o roteirista de “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar”
O escritor e artista plástico Iaperi Araújo é o roteirista de “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar”

“Há um tempo escrevi um roteiro de ficção sobre Lampião no RN. Acabou não vingando, aí surgiu essa oportunidade do documentário. Quando Silvio Coutinho esteve em Natal, em 2013, para o FestNatal, conversamos e ele ficou muito animado com a ideia”, lembrou Iaperi. “Pediu o básico do básico (passagem aérea, hospedagem e alimentação) pois acredita no potencial do projeto”.

Visão do Diretor

“Não conhecia a dimensão dessa passagem de Lampião aí pelo RN, fiquei fascinado com o que ouvi e me ofereci para ajudar a levar essa história para o cinema”, contou o diretor Silvio Coutinho por telefone ao VIVER. “Estamos fazendo tudo com muito cuidado, muito carinho. O projeto está sendo conduzido com seriedade e acredito muito nesse filme”.

Coutinho adiantou que o formato do documentário, que conta com parceria da produtora Locomotiva Cinema de Arte (RJ), será moderno, dinâmico. “Vamos explorar bastante a paisagem dos três estados onde vamos filmar (CE, PB e RN) e ouvir herdeiros dessa memória pelo caminho”.

A produção executiva deste documentário esta a cargo de Valério Andrade, crítico jornalista e diretor do Festnatal.
A produção executiva deste documentário esta a cargo de Valério Andrade, crítico jornalista e diretor do Festnatal.

O cineasta carioca ressalta que o prioridade “máxima” é que a primeira exibição pública seja no RN, “pelo menos” em Natal e Mossoró.  “pelo menos”. O plano é lançar ainda em 2015, mas a data não foi definida. “Depois do lançamento, e antes de chegar ao circuito comercial, pretendemos fazer o circuito de festivais nacionais e internacionais. O cangaço é um tema internacional e continua atual, vide o filme ‘A Luneta do Tempo’, de Alceu Valença, que aborda o cangaço de forma lúdica e poética”

Em 2010, percorrendo o caminho de Lampião no RN e entrevistando aqueles que tinham historias inesquecíveis daquele junho de 1927, que o Rio Grande do Norte jamais esquecerá.
Em 2010, percorrendo o caminho de Lampião no RN e entrevistando aqueles que tinham historias inesquecíveis daquele junho de 1927, que o Rio Grande do Norte jamais esquecerá.

Ele destaca que, apesar de contar com apoio de instituições potiguares, grande parte do investimento é próprio. “Apostamos na repercussão do filme, por isso resolvemos rodar sem esperar por editais e captação via lei de incentivo. Tudo para não perder, como diz Iaperi, ‘o trem da história’. Essa memória da passagem de Lampião pelo RN ainda está muito impregnada nas pessoas, na paisagem, e através do cinema podemos compartilhar com um público maior”.

Colaborou: Cinthia Lopes – editora 


AOS LEITORES E VISITANTES DO BLOG TOK DE HISTÓRIA – DEVIDO A MINHA PARTICIPAÇÃO NESTE DOCUMENTÁRIO, FAREMOS UMA PAUSA NAS PUBLICAÇÕES DO NOSSO BLOG. CONTAMOS COM A COMPREENSÃO DE TODOS E EM BREVE VOLTAREMOS.

UM GRANDE ABRAÇO!

ROSTAND MEDEIROS

1981- FOTOS DA ENCHENTE DE SANTA CRUZ – UMA TRAGÉDIA POTIGUAR

CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR
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FOTOS – Juliergui Andrade, via Elias Damasceno, publicadas originalmente no Facebook.

TEXTO – http://www.jeansouza.com.br/tragedia-trairi/enchente-de-1981-que-devastou-santa-cruz-completou-33-anos-hoje/

As cenas da tragédia do dia 1º de abril de 1981, que contabilizou seis mortes e 1.044 casas destruídas em Santa Cruz deixando cinco mil pessoas desabrigadas e o Rio Grande do Norte sem luz e água por cinco dias, ainda permanece na memória dos moradores do município de Campo Redondo e Santa Cruz.

LUZ

Foram momentos de agonia que marcou as vidas dos cidadãos e fez heroína uma telefonista: Maria de Fátima da Silva, que fez contatos com o prefeito da época, Hildebrando Teixeira, para esvaziar a cidade antes do rompimento da barragem de Campo Redondo, distante 25 km de Santa Cruz, salvando milhares de pessoas.

Telefonista Maria de Fátima da Silva, que fez contatos com o prefeito de Santa Cruz para esvaziar a cidade antes do rompimento da barragem
Telefonista Maria de Fátima da Silva, que fez contatos com o prefeito de Santa Cruz para esvaziar a cidade antes do rompimento da barragem

Apesar de ser o dia 1 de abril, conhecido como o dia nacional da mentira, o alerta da telefonista deu resultado e carros de som anunciaram a ameaça da enchente. Os moradores deixaram para trás suas casas e foram abrigados em prédios públicos ou regiões altas da cidade. Dentro de três horas a enxurrada das águas devastaria a cidade.

A correnteza arrastou veículos em Santa Cruz.
A correnteza arrastou veículos em Santa Cruz.

A ponte da entrada da cidade de Campo Redondo foi arrastada pelas águas. A correnteza percorreu ainda cerca de 80 km e atingiu outros quatro municípios.

Helicóptero Hughes MD 500 da Cosern, decolando em plena rua de Santa Cruz
Helicóptero Hughes MD 500 da Cosern, decolando em plena rua de Santa Cruz

Com 14 torres da rede de energia da CHESF derrubados, o Rio Grande do Norte permaneceu uma semana às escuras. Em Natal, o único hospital com gerador na época era o Walfredo Gurgel. Supermercados fechavam mais cedo com medo de assaltos. Sem energia, o bombeamento para abastecimento de água também foi comprometido.

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O então governador Lavoisier Maia decretou estado de calamidade pública em toda a região do Trairi e levou fotos da tragédia ao presidente da República, João Figueiredo. O ministro do Interior na época, Mário Andreazza confidenciou ao prefeito de Santa Cruz só ter visto cena igual em guerra.

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Com a solidariedade de todos, um grande mutirão envolveu as instituições públicas e privadas, ONGs, voluntários, igreja e as próprias vítimas. As três esferas do poder executivo esqueceram diferenças partidárias e também se uniram para reconstruir as cidades atingidas. As doações chegavam de todas as regiões do Brasil.

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Trata-se da história de uma das mais significativas cidades potiguares e o que ocorreu nunca deva ser apagado da memória!

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O ESQUECIDO REPENTISTA POTIGUAR JOÃO DA TAPITANGA

Curitiba no início do século XX - Fonte - curitibanosdasilva.blogspot.com
Curitiba no início do século XX – Fonte – curitibanosdasilva.blogspot.com CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR

Homem de vida curta, mas que realizava sua arte com talento e fez muito sucesso no Paraná

Autor – Rostand Medeiros

Sou nascido e vivo em um pequeno estado nordestino chamado Rio Grande do Norte. Aqui é uma terra boa, onde a natureza foi muito benéfica e criou paisagens incríveis e maravilhosas. É também uma terra de gente amiga e onde não é difícil surgir pessoas com muito talento para realizar muitas coisas, principalmente para as artes.

Mas, infelizmente, como tudo na vida sempre possui dois lados, esses talentosos artistas normalmente são sempre vistos em segundo (talvez terceiro? Ou quarto? Quinto?) plano por vários setores de nossa sociedade. Estes artistas são muitas vezes marginalizados, desprezados e esquecidos em sua própria terra. Por vezes o melhor caminho para estes potiguares talentosos vencerem através de sua arte é saindo fora desta terra maravilhosa.

Dizem que na atualidade existem mais facilidades para nossos artistas conquistarem seu lugar ao sol por aqui mesmo. Não sei se esta informação é correta, sei que pesquisando sobre a nossa história em jornais antigos disponíveis na internet, não é difícil encontrar dados sobre pessoas que deixaram nosso chão para tentar vencer em terras distantes.

Um destes foi João da Tapitanga… 

No Sul

Em 1871 Natal era uma esquecida capital de província do Império do Brasil, de vida muito tranquila, onde moravam cerca de 20.000 almas (equivalente atualmente em número de habitantes a cidade potiguar de Monte Alegre). No dia 8 de março nascia João, filho de Francisco I. Emereciano China, membro de uma tradicional família que vivia em Natal, onde não faltavam renomados médicos e até um deputado estadual[1].

Curitiba início do século XX - Fonte - Wikipédia
Curitiba início do século XX – Fonte – Wikipédia

Eu nada encontrei sobre a infância de João Emereciano China, sua adolescência, detalhes sobre sua família, seus estudos e o despertar para a arte do repente. Mas podemos apontar com certa tranquilidade, principalmente através do que deixou escrito, que João China teve uma boa educação. Além disso, sobre estes primeiros anos deste repentista, existe documentação que comprova que João era empregado dos Correios e Telégrafos, na função de “praticante de 2ª classe”[2].

Em 1893, aos 22 anos, João China veio viver em Curitiba, a bela capital paranaense, aonde chegou transferido pela repartição pública que trabalhava. Logo este natalense se envolveu em um sangrento conflito de sérias proporções no Paraná, que marcou a história do Brasil.

Em Meio a Guerra

Nesta época Curitiba era uma cidade menor que Natal, com cerca de 11.500 pessoas vivendo por lá[3]. Muitos dos que ali moravam eram imigrantes alemães, italianos, poloneses e ucranianos, que influenciavam a sociedade, a cultura e a economia da capital paranaense. Mesmo convivendo entre pessoas com maneiras de falar tão distintas e aspectos bastante diferenciados aos encontrados em Natal, sabemos que João China não sentiu muitas dificuldades em se adaptar a nova localidade e logo começou a fazer várias amizades entre os curitibanos.

Maragatos em Santa Catarina Prefeitura de Braço do Norte - SC - Fonte - http://ecomoveiogente.blogspot.com.br/2012/09/a-revolucao-federalista.html
Maragatos em Santa Catarina
Prefeitura de Braço do Norte – SC – Fonte – http://ecomoveiogente.blogspot.com.br/2012/09/a-revolucao-federalista.html

Ativo politicamente, se colocou ao lado do marechal Floriano Vieira Peixoto, presidente do Brasil durante a chamada Revolução Federalista.

Este sério conflito, que se estendeu de 1893 a 1895, foi travado entre os partidários de dois oligarcas gaúchos: de um lado, os federalistas liderados por Gaspar Silveira Martins (conhecidos como maragatos e de lenço vermelho amarrado no pescoço como distintivo); de outro, os republicanos (chimangos ou pica-paus e identificados pelo lenço branco), seguidores do positivista Júlio de Castilhos.

Os federalistas defendiam a instalação de um regime parlamentarista nos moldes do que existiu no Segundo Reinado. Já os republicanos defendiam um presidencialismo forte, centralizador, no estilo do governo de Floriano Peixoto. O confronto ultrapassou as fronteiras gaúchas, estendendo-se até Santa Catarina, Paraná e até no Uruguai [4].

Fotografia de 1894 é de um prédio em ruínas, durante a Revolta da Armada no Rio - Fonte - http://www.revistadehistoria.com.br/secao/na-rhbn/ruinas-em-flashback
Fotografia de 1894 é de um prédio em ruínas, durante a Revolta da Armada no Rio – Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/na-rhbn/ruinas-em-flashback

Em setembro de 1893, paralelo aos conflitos no sul do país, estourou no Rio de Janeiro, mais precisamente na Baía de Guanabara, a Revolta da Armada. Seus principais líderes eram os almirantes Saldanha da Gama e Custódio de Mello, que comandaram a tomada de navios de guerra e bombardearam a então Capital Federal. Na sequência Custódio de Mello seguiu para o sul com seus navios, unindo-se aos revoltosos da Revolução Federalista. Na sequência foi criado um governo provisório para os revoltosos na ilha do Desterro, Santa Catarina.

Floriano Peixoto ficou em uma situação difícil, pois além de ficar impedido de deslocar tropas por mar para o sul do país, ao mesmo tempo precisava defender o Rio de um ataque por terra.

Quando ocorreu o ataque dos federalistas estes conseguiram dominar boa parte do Rio Grande do Sul e Santa Catarina e estabeleceram planos de derrotar o Paraná. A ideia era seguir depois para tomar São Paulo e alcançar o Rio. Em território paranaense os revoltosos visaram dominar por mar a cidade de Paranaguá, vindos de Santa Catarina tomariam a cidade de Tijucas do Sul e a tomada da localidade de Lapa deixaria Curitiba indefesa.

Coronel Dulcídio (militar com menor estatura) em pé, atrás de uma metralhadora Nordenfelt - Fonte - Wikipédia
Coronel Dulcídio (militar com menor estatura) em pé, atrás de uma metralhadora Nordenfelt – Fonte – Wikipédia

Desde o início do Império, a região de Curitiba, sempre se colocou ao lado do poder central, funcionando como uma barreira contra revoluções que vinham do sul e o Paraná se preparou para enfrentar este novo problema. O coronel Cândido Dulcídio Pereira, Comandante do Regimento de Segurança, atual Polícia Militar do Paraná, criou uma nova unidade militar que foi denominada Batalhão Patriótico 23 de outubro e colocou seu efetivo à disposição do Governo Federal. O comando da unidade ficou a cargo de Domingos Virgílio do Nascimento, um antigo aluno das Escolas Militares do Rio de Janeiro e Porto Alegre, mas também conhecido como jornalista, poeta e autor do hino do Paraná. Entre os civis incorporados a este batalhão, com a patente de tenente, estava o repentista potiguar João da Tapitanga.[5]

Informações apontam que o Batalhão Patriótico 23 de Novembro foi colocado à disposição das Forças Federais, sendo esta unidade reunida ao 8º Regimento de Cavalaria e o 17º Batalhão de Infantaria do Exército, todos sob o comando do general Francisco de Paula Argolo. Estas unidades militares receberam ordens para avançar sobre a ilha de Desterro, onde se concentravam os federalistas e os marinheiros sublevados da Revolta da Armada.

Devido o iminente cerco por outras colunas móveis, o general Argolo decidiu recuar as tropas para Rio Negro, no Paraná. Esse procedimento desagradou Floriano Peixoto, que ordenou a Argolo que repassasse o comando das tropas para o coronel Antônio Ernesto Gomes Carneiro, com ordens de reter ao máximo os revoltosos no Paraná, em uma linha de defensiva concentrada na cidade de Lapa, até receber reforços de São Paulo. Mas os reforços paulistas nunca chegaram.

Entrada dos federalistas em Curitiba, Alm. Custódio de Mello e Gal. Gumercindo Saraiva Acervo do Museu Paranaense
Entrada dos federalistas em Curitiba, Alm. Custódio de Mello e Gal. Gumercindo Saraiva
Acervo do Museu Paranaense

Curitiba estava sem exército e governantes, só a Lapa estava guarnecida. Carneiro e suas tropas foram cercadas na cidade, em um dos mais célebres episódios da vida militar brasileira, conhecido como Cerco da Lapa. A cidade foi continuamente bombardeada por 28 dias, entre 15 de janeiro e 11 de fevereiro de 1894 e a luta seguiu ferrenha pelas ruas da cidade, onde restavam apenas escombros. Logo após a rendição e desarmamento dos derrotados, começaram as degolas. Curitiba seria invadida pelos maragatos no dia 20 de janeiro, que permaneceram na cidade até o dia 26 de abril, num total de quase 100 dias.

Com o tempo que conseguiu com a resistência no Paraná, Floriano pôde adquirir armamentos e navios de guerra nos EUA e com eles derrotar Saldanha da Gama. Os comandantes maragatos resolveram voltar ao sul, alguns deles refugiando-se no Uruguai e Argentina. Este conflito deixou um saldo de cerca de 10.000 mortes[6].

No meio dessas movimentações militares, segundo os jornais da época, o tenente, depois promovido a capitão fiscal, João da Tapitanga esteve em ação em fins de 1893, na região de Villa Tamandaré e esteve no Cerco da Lapa, mas não teve a cabeça cortada.[7]

O Repentista Curitibano

Aparentemente a participação militar de João da Tapitanga na Revolução Federalista o colocou em um patamar extremamente positivo junto a sociedade curitibana. Este patamar se ampliou com a sua arte, seu jeito tranquilo, carisma e sua boêmia.

Cartão Postal - Setor HIstórico de Curitiba no início do século XX. Acervo Fundação Cultural de Curitiba
Cartão Postal – Setor HIstórico de Curitiba no início do século XX. Acervo Fundação Cultural de Curitiba

Um dos paranaenses de renome que conviveram com o potiguar foi Francisco Ribeiro de Azevedo Macedo, então Procurador-Geral do Estado, escritor, um dos fundadores e professores da Universidade do Paraná (atual UFPR). Azevedo Macedo e sua esposa Clotilde Portugal Macedo, comentaram em 1913 que João da Tapitanga era considerado um jovem poeta talentoso, que versejava com uma espontaneidade extraordinária e era tido como um homem de maneiras simples e honesta[8].

Era conhecido simplesmente e carinhosamente pelos amigos curitibanos como “Tapi”. Boêmio, tinha no álcool um grande amigo e o seu maior inimigo, que inclusive o levou a demissão dos Correios e Telégrafos. Não era difícil encontrá-lo na Confeitaria Bube, verdadeiro areópago e centro da boemia curitibana, localizado na antiga Rua das Flores, depois Rua 15 de novembro, cujo proprietário, Roberto Bube, lhe havia presenteado com uma cadeira cativa, pois atraia os clientes.

Gostava de participar de reuniões politicas, sempre se colocando como republicano fiel e seguidor ardoroso do marechal Floriano Peixoto. Não era raro nestas reuniões que Tapitinga proferisse discursos arrebatadores com seu forte sotaque nordestino (ou nortista, como chamavam na época), repletos de entusiasmo, recebendo aplausos dos presentes e destaque na imprensa curitibana[9].

Para Azevedo Macedo, o poeta João da Tapitanga chegou ao Paraná já homem feito, com seu espirito já formado e havia estudado longe de Curitiba, mas o que ele trouxe de sua terra natal, a sua arte do repente, impressionou os curitibanos. Chamava atenção quando alguém pedia a Tapitanga um verso, ou lhe davam um mote, que ele respondia sem pestanejar cvom uma grande quantidade de versos “cheio de imagens arrojadas, em redondilha menor”, como registrou Azevedo Macedo.

Detalhe da parte inicial da reportagem produzida  por Euclides da Mota Bandeira sobre Tapitanga em 1926 e publicada em Natal.
Detalhe da parte inicial da reportagem produzida por Euclides da Mota Bandeira sobre Tapitanga em 1926 e publicada em Natal.

Vale ressaltar que nos jornais que li sobre este natalense, raramente era tratado de poeta, sendo normalmente apresentado como REPENTISTA.

Outro contemporâneo de João da Tapitanga, pessoa de renome em Curitiba, foi Euclides da Mota Bandeira e Silva, jornalista, poeta e membro da Academia Paranaense de Letras. Este considerava os repentes do potiguar algo que pelo sul era pouco conhecido e chamava atenção. João da Tapitanga deixou em Bandeira o registo de ser um “incorrigível boêmio, perdulário de rimas e de verves, o qual foi durante alguns anos o bardo popular da cidade”. Comentou também que ele era totalmente autêntico, que “não se prestava a digressões acadêmicas, recheadas de complexidades psicológicas e coisas campanudas sobre escolas literárias” e que “escreveria para gente simples”. [10]

Euclides Bandeira trás a informação que o repentista natalense trabalhava, ou como ele mesmo dizia, “ganhava dinheiro quando este lhe faltava”, em jornais curitibanos, ou passando um tempo como um barnabé que não se preocupava muito com a folha de ponto na Secretária do Interior do Paraná e ganhando uns cobres produzindo folhetins com versos de sua lavra. Um deles, intitulado “Alzira”, fez sucesso e chamou atenção dos curitibanos em 1896, cujo um dos trechos foi assim escrito;

“Alzira, fitando o espaço

Cheios de pontos de luz,

E as mãos unidas em cruz

Sobre o pequeno regaço,

 

Pede ao azul transparente,

Onde os astros ascendem,

Que guarde a alma inocente

Das flores que já morreram…”

João da Tapitanga  era um homem típico do final do século XIX, em um período de comunicações limitadas, mas não era distante dos acontecimentos que ocorriam no exterior. Fez versos e produziu folhetos sobre a Guerra de Independência Cubana de 1895, a vitória do imperador etíope Menelik II contra tropas italianas em Ádua no ano de 1896, ou sobre a Guerra dos Bôeres, na África do Sul.

Em 1897 o 39° Batalhão de Infantaria do Exército Brasileiro partiu de trem de Curitiba em direção ao porto de Paranaguá, seguindo depois para a Bahia de barco, com a missão de participar da Campanha de Canudos. Em meio à multidão delirante que assistia à partida dos militares, Tapitanga, com seu sotaque forte nordestino (algo que nunca perdeu e nem escondia), proferiu um inflamado discurso em prol dos soldados e foi intensamente ovacionado. 

Esquecido

O repentista natalense casou com uma jovem prendada e humilde chamada Jesuína Silva da Cunha e tiveram um filho e duas filhas, cujos nomes na época não eram nada convencionais; Jesoão, Joina e Transvalina. Morava em uma casa alugada na Rua da Assembleia, atual Alameda Dr. Muricy, centro de Curitiba[11].

Um "causo" de joão da Tapitanga em Curitiba - Gazeta de Notícias, 15 de dezembro de 1935
Um “causo” de joão da Tapitanga em Curitiba – Gazeta de Notícias, 15 de dezembro de 1935

Mesmo com informações limitadas, percebemos um João da Tapitanga batalhador e desejando melhorar de vida, mas com dificuldades. Através de pesquisas soubemos que este natalense tentou manter uma escola na chamada Colônia de Agua Verde, hoje um bairro de Curitiba. Esta área, então periférica, era pouco assistida pelas autoridades e os que ali viviam recorriam ao uso de abaixo-assinados para reclamarem, denunciarem e suplicarem pelas mais diversas melhorias na sua região. Um destes abaixo-assinados, produzido em 27 de fevereiro de 1896, foi enviado ao então govenador paranaense, José Pereira Santos Andrade, solicitando a subvenção para uma escola particular que era mantida pelo professor João da Tapitanga desde o mês de janeiro daquele ano. Na tese de doutorado “A escolarização dos imigrantes e de seus descendentes nas colônias italianas de Curitiba, entre táticas e estratégias de italianità e brasilitá (1875-1930)”, apresentada na Universidade Federal do Paraná, pela pesquisadora Elaine Cátia Falcade Maschio, temos a transcrição deste abaixo-assinado; 

“Neste sentido, Nós abaixo assignados, moradores na Colônia Água Verde, a qual não tem actualmente escola nem subvencionada pelo Estado nem pública ou contractada pelo mesmo, mas onde há um ellevadissimo número de meninos de ambos os sexos, vimos confiadamente pedir a VEª para que seja subvencionado o estabelecimento de ensino n’esta colônia dirigido pelo cidadão João da Tapitanga desde o princípio de Janeiro último a contento de todos, e onde já se vê o ellevado numero de alumnos que se verifica dos mappas junctos fornecidos pelo mesmo cidadão.”

O repentista natalense aparentemente continuou buscando melhorar sua condição financeira e o futuro de seus familiares. No primeiro semestre de 1897 ele participou de um concurso para o cargo “vitalício de ofício privativo de Escrivão de Casamentos”. Tapitanga concorria com um certo Luciano José Garcia e perdeu a vaga[12].

Pequeno trecho de um verso de João da Tapitanga sobre a sorte, ou a falta dela.
Pequeno trecho de um verso de João da Tapitanga sobre a sorte, ou a falta dela.

Jornais apontam que nos últimos anos de sua vida a sua produção em termos de poesia declinou e o nome do natalense começa a desaparecer dos jornais curitibanos.

Sobre a morte do repentista curitibano nascido em Natal
Sobre a morte do repentista curitibano nascido em Natal

João da Tapitanga faleceu de uma febre, provavelmente adquirida indiretamente das mazelas advindas do álcool, na noite de 28 de setembro de 1901, aos 31 anos de idade. Foi enterrado no cemitério municipal de Curitiba e sua morte foi extensamente noticiada na imprensa local. Na edição de 30 de setembro do jornal “A República” de Curitiba a um extenso necrológico na 1ª página sobre a vida deste repentista potiguar. Vale ressaltar que sua esposa Jesuína ficou em uma situação de extrema pobreza, que foram socorridos pelos amigos que levantaram fundos através para a compra de uma casa. Seu nome foi sendo aos poucos esquecido em Curitiba.

Sua obra ficou dispersa, não foi reunida pelos amigos e parentes. João da Tapitanga jamais retornou ao Rio Grande do Norte e, aparentemente, não voltou a manter contato com a sua família em Natal. Em uma correspondência datada de 23 de março de 1932, a pedido da família de Tapitanga em Natal, o poeta potiguar Henrique Castriciano solicita ao critico literário e ficcionista curitibano José Cândido de Andrade Muricy, alguma informação do repentista potiguar. Não sabemos se houve alguma resposta[13].

 NOTAS


[1] Ver jornal “A República”, Natal, edição de 21 de agosto de 1926, página 1.

[2] Ver jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, edição de 22 de julho de 1891, página 1. Neste jornal encontramos o parecer positivo do “Ministro da instrução pública”, referente a um pedido feito por João China para alterar oficialmente seu nome para João da Tapitanga. Sabemos que o termo em tupi para pedra vermelha é Itapitanga, ou Tapitanga, e que no atual município catarinense de Balneário Barra do Sul existe uma ilha denominada Tapitanga, mas não sabemos porque o potiguar que foi morar em Curitiba passou a assinar com esse nome indígena.

[3] Hoje Curitiba possui de 1.800.000 habitantes.

[4] Embora Floriano tivesse tropas federais nos estados sulistas, somente em 1895, no governo de Prudente de Morais é que seria assinado um acordo de paz na região. Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Federalista .

[5]  Informações apontam que o tenente João da Tapitanga já pertencia ao batalhão patriótico desde maio daquele ano. Em 21 deste mês ele participou de uma celebração a um companheiro de corporação, onde proferiu um marcante discurso. Ver exemplar do jornal “A República”, Curitiba, edIções de 23 de maio de 1893 (pág. 2).

[6] A Revolução Federalista foi um exemplo de barbárie e violência de ambos os lados. Não apenas os maragatos promoveram degolas, estupros e assassinatos de prisioneiros. Os legalistas ocuparam a capital eliminando todos aqueles que acusados de haver colaborado com os federalistas, ou de haver desertado. Ver – http://www.museuparanaense.pr.gov.br/arquivos/File/a_revolucao_federalista_no_parana.pdf

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lapa_%28Paran%C3%A1%29

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Ernesto_Gomes_Carneiro

[7] Ver exemplares do jornal “A República”, Curitiba, edições de 11 de outubro de 1893 (pág. 1), 1 de dezembro de 1893 (pág. 2), 13 de dezembro de 1893 (pág. 1), 14 de dezembro de 1893 (pág. 2). Atualmente a Villa Tamandaré se denomina Almirante Tamandaré. Sobre João da Tapitanga no Cerco da Lapa, ver jornal “Gazeta de Notícias”, Rio de Janeiro, edição de 15 de dezembro de 1935.

[8] Ver jornal “Diário da tarde”, Curitiba, edição de 23 de agosto de 1913. Nesta reportagem ele é apontado erradamente como sendo natural do estado de Alagoas (pág. 3).

[9] Tapitanga também participava como um dos principais oradores de eventos comemorativos ao nascimento e morte de Floriano Peixoto. Ver jornal “A República”, Curitiba, edição de 1 de julho de 1900 (pág. 1) e “o Comércio”, Curitiba, ed. De 30 de junho de 1900 (pág. 1).

[10] Entre os dias 1 e 4 de julho de 1926, Euclides Bandeira publicou no jornal matutino curitibano “O Dia”, uma extensa reportagem biográfica sobre João da Tapitanga, que foi reproduzida no jornal natalense “A República” nas edições de 18 e 19 de agosto daquele ano, sempre nas primeiras e segundas páginas.

[11] Ver jornal “A República”, Curitiba, edição de 13 de agosto de 1898 (pág. 2).

[12] Ver http://www.ppge.ufpr.br/teses/D12_Elaine%20C%C3%A1tia%20Falcade%20Maschio.pdf

[13] Na fundação Casa Rui Barbosa, no bairro Botafogo, Rio de Janeiro, encontra-se o arquivo de José Cândido de Andrade Muricy, onde está a carta de Henrique Castriciano. Ver http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/texto/FCRB_AMLB_Arquivo-Andrade-Muricy.pdf

FOTOS DA CONSTRUÇÃO DO AÇUDE GARGALHEIRAS, SÍMBOLO DO SERIDÓ POTIGUAR

Vista a distância o canteiro de obras de gargalheira em 1922.
Vista a distância o canteiro de obras de gargalheira em 1922 – CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR

Autor – Rostand Medeiros

O Açude Gargalheiras é considerado um dos mais belos reservatórios de água do interior do Rio Grande do Norte. Localizado na cidade de Acari é também um dos principais pontos turísticos para quem percorre os roteiros do Seridó Potiguar. 

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Foi entre 1920 e 1921, quando o Presidente do Brasil era o paraibano Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa, que se iniciou a construção desta barragem, juntamente com outras similares nos estados da Paraíba e do Ceará. 

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Gargaleiras surgiu em meio à ideia que grandes obras de represamento de água seriam a solução para o problema cíclico das secas no Nordeste. O desenvolvimento destas obras estavam a cargo de empresas inglesas e norte-americanas. 

Nesta foto, ao fundo e a esquerda, vemos a casa que servia de residência dos engenheiros e administradores ingleses da firma C. H. Walker & Co. Ltd em Gargalheiras.
Nesta foto, ao fundo e a esquerda, vemos a casa que servia de residência dos engenheiros e administradores ingleses da firma C. H. Walker & Co. Ltd em Gargalheiras.

Foi a inglesa C. H. Walker & Co. Ltd que iniciou a construção da barragem entre as serras do Abreu, da Carnaubinha, Olho d’água e Gargalheiras. Neste link é possível ler integralmente o Decreto Presidencial Nº 14.590, de 31 de dezembro de 1920, que autorizava a contratação desta empresa inglesa para construir o gargalheiras – http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=38128

Guindaste destinado ao transporte de blocos de granito, para o represamento do rio Acauã.
Guindaste destinado ao transporte de blocos de granito, para o represamento do rio Acauã.

Cabia ao IFOCS – Inspetaria Federal de Obras Contra as Secas (que depois se transformaria no DNOCS) fiscalizar o andamento destas obras. A época que se iniciou a construção do Gargalheiras este órgão do governo federal estava sob a direção do engenheiro Miguel Arrojado Ribeiro Lisboa. No Rio Grande do Norte, mais precisamente em Natal, ficava a sede da 2ª Distrito do IFOCS, sob o comando do engenheiro Rodrigues Ferreira.

Miguel Arrojado Ribeiro Lisboa
Miguel Arrojado Ribeiro Lisboa
Presidente Epitácio Pessoa
Presidente Epitácio Pessoa

Apesar do empenho do povo seridoense em ajudar a criar esta grande obra de engenharia, mudanças de governos e uma série de denúncias de desvio de verbas, criação de despesas que não existiam, entre outras roubalheiras, fizeram com que as obras fossem paralisadas ainda na década de 1920. 

Manchete de 1925 sobre os problemas administrativos das grandes barragens no Nordeste
Manchete de 1925 sobre os problemas administrativos das grandes barragens no Nordeste

A barragem no meio da caatinga somente foi inaugurada em 1959, quase quarenta anos após o início de sua construção. Foi denominado oficialmente de Açude Marechal Eurico Gaspar Dutra, mas poucos lembram deste detalhe burocrático, já que é conhecido popularmente apenas como Gargalheiras. 

Outro guindaste de Gargalheiras
Outro guindaste de Gargalheiras

A parede da barragem possui 25 metros de altura, represando o rio Acauã, que faz parte da bacia do rio Piranhas/Assu. A bacia hidráulica do Gargalheiras ocupa uma área de 780 hectares e a capacidade máxima de armazenamento chega aos 40 milhões de metros cúbicos. Localizada a três quilômetros de Acari, suas águas se estendem por mais de sete quilômetros, chegando bem próximo a cidade de Currais Novos, uma das cidades polos do Seridó.

Cabo aéreo para o transporte de material.
Cabo aéreo para o transporte de material.
Leito seco do rio Acauã
Leito seco do rio Acauã
Casa do ferreiro.
Casa do ferreiro.
Casa típica do sertão de Acari, localizada próximo ao canteiro de obras de gargalheiras na década de 1920.
Casa típica do sertão de Acari, localizada próximo ao canteiro de obras de gargalheiras na década de 1920.

UMA NOITE MÁGICA NO TEATRO DO BARRO VERMELHO

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Autor – Rostand Medeiros 

Em um passado já distante, quando Natal ainda era uma pequena capital, antes até da existência do Teatro Alberto Maranhão, ocorreu um espetáculo teatral na região do Barro Vermelho que marcou época e ficou na mente dos natalenses por décadas. Como foi este espetáculo e um pouco da vida de Joaquim Lourival, um dos atores desta apresentação e um homem que foi uma grande fonte de informações históricas para Luís da Câmara Cascudo.

História do Teatro em Natal

O historiador Cláudio Augusto Pinto Galvão, em seu maravilhoso sobre a história do Teatro Alberto Maranhão, intitulado “100 anos de arte e cultura – Teatro Carlos Gomes – Teatro Alberto Maranhão” (Natal : Ed. RN, 2005), informa que a mais antiga notícia documentada sobre uma encenação na cidade de Natal deve-se a uma correspondência de D. João V, rei de Portugal, datado de 23 de agosto de 1730 e dirigida ao Governador e Capitão-general da Capitania de Pernambuco, em que informa que o Capitão-mor do Rio Grande (do Norte), em carta dirigida à Sua Majestade, comunica que, ao tomar conhecimento do casamento do príncipe português D. José com a princesa espanhola Dona Maria Ana, fez festejar devidamente o evento nessa capitania, com nove dias sucessivos com comédias e várias festas de cavalo e outras celebridades iluminando-se três noites todas as casas da dita cidade avantajando-se nas ruas, pois se acendiam nela oitenta luzes cada noite sendo toda esta despesa a sua custa, assim descreve o documento.

As imagens que aqui apresentam teatros e peças teatrais do século XIX, são da coleção da Biblioteca Nacional, mas servem apenas de caráter ilustrativo. Nenhuma delas mostra teatros em Natal no século XIX.
As imagens que aqui apresentam teatros e peças teatrais do século XIX, são da coleção da Biblioteca Nacional, mas servem apenas de caráter ilustrativo. Nenhuma delas mostra teatros em Natal no século XIX.

Segundo Luís da Câmara Cascudo, no seu livro “História da cidade do Natal” (Páginas 215 a 217, 3ª Ed. Natal, 1999), os documentos existentes sobre o teatro em Natal apontam que em 1841, havia um barracão de palha onde funcionava a Sociedade do Teatro Natalense. Este simples local de apresentação teatral foi construído na antiga praça Gonçalves Ledo, onde atualmente se encontra o prédio do antigo Dispensário “Sinfrônio Barreto”. Sob a batuta de Matias Carlos de Vasconcelos Monteiro, era uma sociedade amadora, onde mulheres não participavam das peças teatrais e que em pouco tempo teve o barraco de palha incendiado. Matias Carlos tentou conseguir apoio governamental, mas quando este saiu em 1843, a sociedade já tinha sido desfeita. Cláudio Galvão aponta que nem são conhecidas as razões da desistência e não há mais notícia do “teatro” da Sociedade de Teatro Natalense[1].

Devido ao autor do texto não possuir fotos de Natal na década de 1880, as ilustrações utilizadas para mostrar a capital potiguar são dos anos finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX.
Devido ao autor do texto não possuir fotos de Natal na década de 1880, as ilustrações utilizadas para mostrar a capital potiguar são dos anos finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Outros grupos teatrais surgiram em vários locais da cidade, com peças continuando a serem realizadas em simples barracões de palhas. No mesmo local onde a Sociedade do Teatro Natalense construiu seu primitivo local de apresentação, um novo barracão foi construído por outro grupo teatral e novamente queimado em 31 de dezembro de 1853. Iluminar estas apresentações com lampiões a querosene era fogo, literalmente falando!

No ano seguinte, a Sociedade Theatral Apóllo Riograndense alugou uma casa ao negociante português Manoel dos Santos Martins Romano. Aparentemente na capital potiguar esta foi a primeira casa onde se realizou uma peça teatral feita de alvenaria. Cláudio Galvão aponta que o imóvel localizava-se onde se encontra o Instituto Histórico e Geográfico, com a frente para a Rua Grande, atual Praça André de Albuquerque. Consta que lá ocorreram apenas duas apresentações[2].

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Outras casas, por outros grupos teatrais amadores foram alugadas e espetáculos eram realizados com muito improviso.

Em 1860 foi realizada uma tentativa oficial de criação de um teatro, o que mostra que havia um anseio, talvez uma cobrança, da população natalense por uma casa de espetáculos digna do nome. Mas esta tentativa não deu certo.

Entre 1865 e 66, em pleno período da Guerra do Paraguai (que ocorreu entre 1864 e 1870), no mesmo local onde o teatro da Sociedade de Teatro Natalense havia sucumbido ao fogo, um terceiro teatro de palha foi construído. Aparentemente esta casa seguia seu curso de apresentações de maneira positiva, proporcionando ao natalense um pouco de diversão entre os dias modorrentos de cidade provinciana e as notícias da guerra. Mas em uma noite de espetáculo o alferes Rolim Cavalcanti de Albuquerque cercou o local com uma patrulha militar e prendeu seis homens que foram levados a força para o Quartel local e encaminhados para combater os paraguaios nos batalhões de Voluntários da Pátria[3].

Conflito armado entre militares e civis brasileiros, no período da Guerra do Paraguai. Esta cena poderia ser parecida com a ocorrida no conflito do antigo teatro.
Conflito armado entre militares e civis brasileiros, no período da Guerra do Paraguai. Esta cena poderia ser parecida com a ocorrida no conflito do antigo teatro.

Logo o barracão de palha foi queimado. Existem duas versões para o episódio. Em uma o fogo realizado a mando do Alferes Rolim, como castigo para aqueles que deixavam as obrigações militares para assistir funções teatrais. Já a outra versão, a mais aceita, foi que o teatro de palha foi queimado pelo povo de Natal para evitar que o local servir-se de nova “ratoeira” para levar jovens para a guerra.

Um Recanto Natalense

O Barro Vermelho é hoje um dos bairros centrais da nossa cidade, ainda com muitas casas antigas, mas que vai se verticalizando rapidamente. Luís da Câmara Cascudo aponta na página 257, do seu livro “História da cidade do Natal” (3ª Ed. Natal, 1999), que esta região de Natal foi uma “Antiga área de sítios, casas de veraneio, longe do mar e da mata, onde aconteceram festas memoráveis e maravilhosas festa juninas”[4].

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Um destes sítios pertencia ao Vigário Bartolomeu Fagundes de Vasconcelos, conhecido como padre Memeuzinho. Homem que gostava das artes, maçom, foi o padre que abriu as portas de sua propriedade para que no dia do nascimento de Jesus Cristo de 1886, ali ocorresse as apresentações teatrais[5].

Quase 33 anos depois, o Professor Joaquim Lourival Soares da Câmara, conhecido popularmente como Professor Panqueca, concedeu uma entrevista sobre aquele memorável espetáculo que ficou na mente dos antigos natalenses. Lourival era conhecido na pequena Natal por ser um homem que tinha uma memória prodigiosa, que lhe proporcionava um vasto e profundo conhecimento dos costumes de outrora, que via o presente como um fardo insuportável e que tinha nas recordações do passado um dos consolos da vida. Mas além de tudo isso, Joaquim Lourival foi um dos atores daquele espetáculo.

Parte do relato do conhecido Professor Panqueca, publicado com destaque na primeira página da edição de 14 de dezembro de 1911 do jornal natalense “A República”
Parte do relato do conhecido Professor Panqueca, publicado com destaque na primeira página da edição de 14 de dezembro de 1911 do jornal natalense “A República”

O relato foi publicado com destaque na primeira página da edição de 14 de dezembro de 1911 do jornal natalense “A República”[6].

Recordações de Uma Noite Maravilhosa

O autor do texto de 1911 utilizava o pseudônimo de Paulo da Terra. Este encontrou o velho Professor na sua casa, no final da tarde, descansando na sua velha espreguiçadeira e com uma bíblia na mão, livro ao qual ele denominava holofote dos céus.

Rio Potengi
Rio Potengi

Em uma Natal onde existiam mais cata-ventos para retirar água dos poços artesianos, do que automóveis circulando pelas ruas esburacadas, Joaquim Lourival vivia no final da poeirenta Rua dos Tocos, atual Avenida Princesa Isabel, já nas proximidades da igualmente contemporânea Avenida Deodoro.

Em meio a uma prosa reproduzida em parte pelo jornal, Paulo da Terra perguntou a Joaquim Lourival, homem nascido no ano de 1849, como ele via as mudanças em uma Natal que crescia muito para os padrões da época. Para o velho Mestre o presente lhe invadia a alma de tristeza, enquanto o passado lhe trazia consolação[7]. Preferia o passado, pois não era um homem de deixar amores velhos por novos. Dispensava concertos de palácios para ouvir modinhas cantadas por Botelho, ao som do violão de Heronildes. Era um homem que ainda gostava das Lapinhas e recordava com extrema satisfação as ocasiões em que ia para os “pagodes” da praia da Redinha e dos teatros do Barro Vermelho[8].

Nesse ponto o articulista Paulo da Terra buscou mais informações sobre estes espetáculos teatrais e comentou que não era primeira vez que ouvia falar destas apresentações.

O teatro possuía uma enorme importância na sociedade brasileira na década de 1880.
O teatro possuía uma enorme importância na sociedade brasileira na década de 1880.

A apresentação trouxe uma grande multidão, que para o jovem ator Lourival deixou o perímetro da cidade “sem ninguém”. Era o dia 25 de dezembro de 1868, um sábado, era o Presidente da Província, o governador da época, Manuel José Marinho da Cunha, que havia tomado posse do cargo a menos de dois meses e este se fez presente a função com toda seu séquito[9].

Joaquim Lourival tinha entre 17 e 18 anos e foi o protagonista do drama “Camila no subterrâneo ou os alteadores do Montenegro”, do italiano Camillo Frederici[10]Era a primeira tentativa de se fazer teatro ao ar livre em Natal, aproveitando a noite de lua clara e muitos colaboraram com candeeiros para iluminar o local. Não houve incêndios!

Claudio Galvão, em sua tese de doutorado em história intitulada “Alguns compassos – Câmara Cascudo e a musica (1920 – 1960)”, na página 19, traz um texto do folclorista Câmara Cascudo, através dos relatos do Professor Joaquim Lourival, sobre a peça apresentada no sítio do Barro Vermelho e publicada em um dos capítulos do livro “Histórias que o tempo leva” (1ª ed. Editora Monteiro Lobato, S. Paulo, 1924).

Devido aos preconceitos e as regras sociais da época, nenhuma jovem natalense aceitou o convite de fazer parte do grupo teatral e coube a um jovem ator fazer o papel de uma protagonista da peça. Mas ele foi dublado por uma veterana atriz chamada Maria Epiphania, a quem Câmara Cascudo conheceu pessoalmente e faleceu idosa em 1918. Talvez ela não tenha participado deste evento no Barro Vermelho devido a sua idade e por exigência do roteiro, pois já havia encenado esta mesma peça dez anos antes.

Pouco antes de iniciar a função teatral, mesmo sem explicar a razão, descobriram que não tinha como ser apresentada nenhuma música. Foi o Senhor José Macabeu de Vasconcelos que se lembrou que em casa tinha um realejo de corda e correu a sua residência para pegar o instrumento e salvar o espetáculo. Em sua entrevista ao articulista Paulo da Terra, Joaquim Lourival fala deste realejo, mas informa que também havia flautas, um violino e a apresentação seguiu tranquila para deleite dos antigos natalenses. Houve grande alegria com a apresentação teatral ao ar livre.

A apresentação teatral de 25 de dezembro de 1886 terminou com fogos e balões, quase uma festa junina.
A apresentação teatral de 25 de dezembro de 1886 terminou com fogos e balões, quase uma festa junina.

Era alta madrugada quando o espetáculo terminou. Foram soltos balões e disparados vários fogos de artificio.

Diferenças Deixadas de Lado

Mas enfim, porque este espetáculo marcou época em Natal?

Ocorreu um grande afluxo de autoridades e de pessoas do povo ao Barro Vermelho. Aquele congraçamento coletivo, com a presença do presidente da província (o que garantia que ações como a realizada pelo alferes Rolim não se repetissem), igualmente aliviava as tensões.

Não podemos esquecer que a Guerra do Paraguai estava no seu quarto ano e filhos da terra morriam, ou ficavam aleijados em terras distantes. Para aliviar o fardo da saudade nada melhor do que assistir na noite de natal a um belo trabalho teatral, de forma coletiva e democrática.

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Aparentemente foram deixadas de lado as provincianas diferenças de classe existentes na pequena Natal e todos que ali estavam aproveitaram muito aquela noite do nascimento de Jesus Cristo em 1868.

Foi uma noite onde as coisas funcionaram a contento, mesmo com certas doses de improviso. E não ocorreram incêndios!

Evidentemente que o trabalho daqueles que estavam no palco e nos bastidores deve ter sido singular. A produção, mesmo sendo tida como simples, parece ter sido muito bem trabalhada pelos atores e a peça do italiano Camillo Frederici caiu no gosto popular.

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Joaquim Lourival comentou que a repercussão foi tanta que nos dias posteriores o poeta e acadêmico Manoel Quintiliano dedicou um poema ao espetáculo, que foi publicado com destaque nos jornais de Natal. Em 1911 o velho Professor ainda lembrava das estrofes.

Claudio Galvão aponta, em outro escrito de Câmara Cascudo no livro “Histórias que o tempo leva”, que ocorreu a realização de uma reprise atendendo a inúmeros pedidos, no mesmo local, a 1º de janeiro de 1869.

Parece que Dionísio, o deus grego do teatro, ajudou para que aquela noite de natal, em Natal, fosse mágica e inesquecível!

O Destino de Um Amante da História

Na primeira página do jornal “A República”, de 13 de setembro de 1926, temos a notícia do falecimento de Joaquim Lourival.

Em um longo obituário soubemos que o fato ocorreu na sua casa, às 22 horas de 10 de setembro e houve grande consternação em Natal. Ao seu velório compareceram o governador José Augusto Bezerra de Medeiros e várias autoridades. Tinha o velho Mestre 77 anos de idade, era filho do poeta Lourival Açucena e foi também Professor do poeta Ferreira Itajubá. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Grau 33 da Maçonaria potiguar e estava aposentado. Mas não inativo!

“A República”, de 13 de setembro de 1926,  notícia do falecimento de Joaquim Lourival.
“A República”, de 13 de setembro de 1926, notícia do falecimento de Joaquim Lourival.

Temos a notícia que a sua casa era sempre procurada por aqueles que desejavam saber mais da história da capital potiguar, desde tempos coloniais, sendo ele considerado “tradição viva” da cidade. Grande sabedor da cultura popular, dono de uma memória prodigiosa, Joaquim Lourival Soares da Câmara foi um grande informante de Cascudo e de outros pesquisadores sobre a Natal antiga.

Nas década de 1880, a imagem mais comum ao período natalino estava sempre focada na figura de Jesus Cristo.
Nas década de 1880, a imagem mais comum ao período natalino estava sempre focada na figura de Jesus Cristo.

Pessoas como o Professor Joaquim Lourival Soares da Câmara, o conhecido Professor Panqueca, merecem todo nosso respeito e admiração. Principalmente por não deixarem a história morrer e democratizarem a esta informação junto aos mais jovens que valorizam o conhecimento do passado.

COM ESTA HISTÓRIA SOBRE UM INTERESSANTE MOMENTO DAS ARTES NA MINHA MARAVILHOSA CIDADE E A LEMBRANÇA DE UM HOMEM QUE AMAVA A HISTÓRIA, DESEJO A TODOS QUE FREQUENTAM O NOSSO BLOG UM FELIZ NATAL!


NOTAS

[1] Ver Relatório apresentado à Assembleia Provincial do RN pelo Vice-Presidente André de Albuquerque Maranhão no dia 7 de setembro de 1843.

[2] Ver “Acta Diurna”, de Luís da Câmara Cascudo. O teatro em Natal. “A República”, Natal, 15 de agosto de 1940.

[3] Quando a Guerra do Paraguai teve início, aproveitando o patriotismo que tinha tomado conta do país, muitos voluntários se apresentaram para lutar espontaneamente. O governo assegurava vantagens aos voluntários como prêmio em dinheiro, terras, preferência nos empregos públicos, patentes de oficiais honorários, liberdade a escravos, assistência a órfãos, viúvas e mutilados de guerra. Com o passar do tempo, o aumento da mortandade em combate e a diminuição do entusiasmo popular, o governo imperial passou a exigir dos presidentes das províncias cotas de voluntários, que deveriam recrutar. Cada Província foi solicitada prover, no mínimo, 1% da sua população. Essa foi a razão da ação do alferes Rolim no teatro. Por outro lado, havia várias formas de se escapar da convocação: os aquinhoados faziam doações de recursos, equipamentos, escravos e empregados para lutarem em seu lugar; os de menos posses alistavam seus parentes, filhos, sobrinhos ou agregados; aos despossuídos só restava a fuga para o mato. O Rio Grande do Norte formou o 28º Corpo de Voluntários da Pátria (28º CVP) e no 55º CVP os potiguares se uniram aos piauienses. Por razões que não sei explicar, o 28º CVP foi dissolvido durante a guerra e seus homens incorporado aos 34º CVP (Pará) e ao 36º CVP (Maranhão).

[4] A região do Barro Vermelho era assim conhecida já em fins do século XVIII, quando um antigo documento aponta que o sargento João Antônio Freitas era morador do “Barro Vermelho” e requereu mais outros pedaços de terra até a “Lagoa Seca”.

[5] Bartolomeu Fagundes de Vasconcelos nasceu em 1815, na localidade de Vila Flor, no Rio Grande do Norte. Viveu num ambiente onde a política e a religião eram assuntos preponderantes e foi ordenado em 1839, no seminário de Olinda. Além da formação religiosa recebeu também influências de Padres-Maçons que sonhavam com um Brasil livre e governado por Brasileiros. Homem de caráter firme e sentimentos nobres contrariou o poderoso Bispo Dom Vital por não ter abjurado à maçonaria. Serviu ao sacerdócio por 34 anos e a maçonaria por 37. Foi político, chefe de partido e Vice-Presidente de Província. Faleceu em 1877. Texto de Luís Soares de Lima, exibido no endereço eletrônico http://vigariobartolomeu.org/o-patrono/

[6] Segundo Claudio Galvão, o apelido Panqueca se deveu a um personagem que interpretara, ele que fora ator amador na maioria das sociedades teatrais em atividade na Natal do século XIX.

[7] Certamente o rápido crescimento populacional da capital potiguar dos primórdios do século XX, trouxe para o Professor Panqueca a ideia que o passado lhe trazia mais consolo na vida. Mas não é difícil compreender esta situação quando nos debruçamos sobre os números frios do crescimento estatístico de Natal entre 1900 e 1920 (em 1910 não ocorreu o censo demográfico). Observamos que em vinte anos a cidade saltou de 16.056 para 30.696 habitantes. Pode parecer pouco aos olhos de hoje a proporcionalidade deste crescimento, mas ao observarmos o resultado do censo de 1890, quando Natal tinha 13.725, seu crescimento populacional em dez anos foi de meros 2.331 habitantes. Ao passo que entre 1900 e 1920, este crescimento foi de 14.640 pessoas. Mesmo levando em consideração o hiato de tempo entre os levantamentos estatísticos, a forma de coleta destes dados, é perceptível um aumento da população natalense. Em grande parte isso se ocorreu pelo incremento de novas vias de transporte (principalmente ferroviário). Ver – http://pt.wikipedia.org/wiki/Natal_%28Rio_Grande_do_Norte%29

[8] No início do século XX era normal a população de Natal assistir muitos folguedos populares tradicionais, fato que perdurou com maior força até a década de 1930. Provavelmente a Lapinha que Joaquim Lourival assistia era a da velha Rosário, na Santa Cruz da Bica, próximo a atual sede da COSERN. A Lapinha era uma dança tipicamente religiosa, parecida com o Pastoril, mas que divergia em pontos essenciais de sua execução. Os repertórios eram inspirados em motivos religiosos, onde tinham como figura central o “Pastorzinho”, que dançava junto com as pastoras. Vestiam-se de maneira discreta. Ver Deífilo Gurgel, in “Espaço e tempo do folclore potiguar”, págs. 105 e 106 e 112, Natal, FUNCART, 1999.

[9] Manuel José Marinho da Cunha foi presidente da província do Rio Grande do Norte entre 1 de setembro de 1868 a 10 de março de 1869. Ver – http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Jos%C3%A9_Marinho_da_Cunha

[10] Camillo Federici, nasceu em Garessio, Itália, em 9 de abril de 1749 e morreu em Padova no dia 23 de dezembro de 1749. Foi um dramaturgo e ator de teatro, cujo verdadeiro nome era Giovanni Battista Viassolo.

O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ – A HISTÓRIA DO MOTORISTA “GATINHO”

11- Após a derrota em Mossoró, o bando em Limoeiro do Norte-CE

Autor – Rostand Medeiros 

Quando Lampião e sua horda de cangaceiros estiveram no Rio Grande do Norte, entre os dias 10 e 14 de junho de 1927, com o objetivo de atacar Mossoró, um personagem deste drama entrou na história quase sem querer, tornando-se por algum tempo um estafeta do “Rei dos cangaceiros”. Este personagem foi o motorista Francisco Agripino de Castro, conhecido em Mossoró como “Gatinho”.

 Francisco Agripino de Castro,o “Gatinho”
Francisco Agripino de Castro,o “Gatinho”

Nascido em 1905, “Gatinho” era um jovem de boa índole, simples, que buscava na profissão de motorista uma nova perspectiva em sua vida. Estava ainda na fase de aprendizado, sendo seu mestre o motorista João Eloi, conhecido como “João Meia-Noite”. A prática ocorria em um Chevrolet 1925, cujo proprietário era o Sr. Francisco Paula, para quem “João Meia-noite” trabalhava.

Seja por esperteza, medo ou desinformação, naquele dia 12 de junho de 1927, um domingo, João cedeu o veículo para “Gatinho” fazer o serviço que surgisse e ganhar mais perícia na condução.

“Gatinho”, como todos em Mossoró, estava apreensivo com a notícia da invasão do bando ao Rio Grande do Norte, os boatos sobre o tiroteio ocorrido no dia 10 de junho, no lugar Caiçara (próximo ao atual município potiguar de Marcelino Vieira), as muitas informações desencontradas, a movimentação para a defesa da cidade, a fuga dos moradores e outras situações que alteraram aquela inesquecível semana na “Capital do Oeste”. Mesmo assim “Gatinho” estava pronto para realizar qualquer viagem.

O fazendeiro Antônio Gurgel e framiliares
O fazendeiro Antônio Gurgel e framiliares

Na tarde daquele dia, o carro de Francisco Paula foi contratado pelo comerciante e fazendeiro Antônio Gurgel do Amaral, um rico proprietário que possuía uma fazenda no lugar “Brejo do Apodi”, próximo a então vila de “Pedra de Abelha” (atualmente município de Felipe Guerra). Gurgel estava preocupado com sua esposa, pois a mesma se encontrava na sua fazenda e desejava trazê-la a Mossoró.

Por volta da uma da tarde, os dois seguiram direção sul.

A viagem prosseguia tensa, como não poderia deixar de ser diante da situação reinante. O veículo trafegava por uma estrada irregular, não mais que um caminho estreito, que mal dava para um carro pequeno seguir.

Por falta de conhecimento ou nervosismo, “Gatinho” errou o trajeto e levou seu passageiro para o lugar Apanha Peixe, a 13 léguas da vila de São Sebastião (hoje município de Governador Dix-Sept-Rosado). Nas proximidades se localizava a fazenda “Santana”, de propriedade de Manoel Valentim, que neste momento tinha a sua residência invadida e era prisioneiro do bando de cangaceiros de Lampião.

Eram mais ou menos quatro horas da tarde quando “Gatinho” ouviu tiros que não sabia de onde vinha. O motorista se protegeu como pode, Antônio Gurgel ordenou a parada do veículo. Nove balaços de mosquetão teriam atingido a carroceria do veículo.

Estado de abandono da antiga casa grande da Fazenda Santana, para onde o fazendeiros Gurgel foi levado pelo cangaceiro Sabino e ficou frente a frente com lampião.
Estado de abandono da antiga casa grande da Fazenda Santana, para onde o fazendeiros Gurgel foi levado pelo cangaceiro Sabino e ficou frente a frente com lampião.

Ao levantar a cabeça, “Gatinho” viu um cangaceiro com um fuzil apontado para ele. Era um moreno forte, de estatura elevada, que por esta razão tinha a alcunha de “Coqueiro”.

Este cangaceiro, junto com outros membros do bando, mandou o motorista e o passageiro renderem-se e passou a rapinar os seus pertences. Do fazendeiro Gurgel foram arrecadados uma aliança, um par de óculos, uma caixa com cinquenta balas de rifle Winchester calibre 44, um conto de réis e uma pistola tipo “mauser”. Provavelmente uma pequena pistola com calibre 7,65 m.m., das marca “FN” ou “Colt.

O cangaceiro “Coqueiro” exultava a todo o bando de facínoras a prisão de um “coronelão de muito dinheiro”.

Depois da “coleta”, os dois prisioneiros foram levados à presença de Massilon Leite e Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião”.

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Junto ao líder dos bandidos estava José Tibúrcio e Fausto Gurgel, irmãos de Antônio Gurgel, que tiveram seus resgates estipulados em um conto e quinhentos mil réis. O bandido Sabino, depois de uma rápida palestra com o novo prisioneiro, estipulou a vultosa quantia de quinze contos de réis para a sua liberdade. Sem condições dos prisioneiros ponderarem, ficou decidido que o irmão Fausto retornaria Mossoró com “Gatinho”, para buscar a dinheirama.

1- Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião

E era realmente muito dinheiro.

Para se ter uma ideia deste valor, vamos observar como exemplo a edição de 18 de junho de 1927, do jornal “A Republica”, onde se encontra um balanço financeiro, listando as rendas postais apuradas em cada uma das agências dos correios existentes no Rio Grande do Norte em 1926. Na progressista Mossoró de então, que possuía Banco do Brasil, um forte comércio de algodão e até funcionava uma Alfândega, os Correios e Telégrafos apuraram em todo aquele ano 10.255$300 (dez contos, duzentos e cinquenta e cinco mil e trezentos réis).

Diante da quantia pedida, Antônio Gurgel preparou uma carta para ser entregue a seu cunhado Jaime Guedes, então gerente da agência do Banco do Brasil em Mossoró e pessoa certa para lhe salvar desta situação.

Neste meio tempo, “Gatinho” realizava pequenas voltas pela propriedade, com o veículo cheio de bandoleiros. Muitos destes cangaceiros estavam tendo o seu primeiro contato com um automóvel. A brincadeira acabou quando a chamado de Lampião, o motorista e Fausto Gurgel receberam a missão de levar a carta de Antônio Gurgel para Mossoró.

O “Rei do cangaço” exigia dos dois “estafetas” a maior discrição sobre o caso, se não Antônio Gurgel pagaria com a vida.

No retorno, “Gatinho” e Fausto encontraram dois conhecidos que pediam condução na beira do caminho. Eram Alfredo Dias e Porcino Costa, que se dirigiam a Mossoró.

Buscando informações com os sertanejos, procurando a memória da passagem do bando de lampião pelo Rio Grande do Norte em 1927.
Buscando informações com os sertanejos, procurando a memória da passagem do bando de lampião pelo Rio Grande do Norte em 1927.

Achando estranho o fato de Fausto estar àquela hora de retorno a “Capital do Oeste”, Dias inquiriu-o sobre o que estava fazendo? De onde viam? Se sabiam notícias dos cangaceiros? Fausto no inicio desviou o assunto, mas diante da insistência cedeu e narrou o ocorrido e o suplício por que passava seu irmão.

Um exemplo de como a cidade de Mossoró preserva a memória do ataque de Lampião a esta cidade.
Um exemplo de como a cidade de Mossoró preserva a memória do ataque de Lampião a esta cidade.

Ao chegarem à vila de São Sebastião, atual município de Governador Dix-Sept-Rosado, os dois viajantes pediram para descer do veículo e seguiram para a estação ferroviária, onde deram um alarme para Mossoró através de um telefone existente neste local.

“Gatinho”, para desespero de Fausto, saiu a divulgar pela vila a notícia alarmante; “-Se prepare todo mundo que os cangaceiros vão invadir”. Cinquenta anos depois, em um depoimento prestado ao jornal dominical natalense “O Poti” (edição de 13 de março de 1977), Francisco Agripino afirmava que poucos em São Sebastião lhe deram crédito.

O motorista e Fausto seguiram para Mossoró. Por volta das oito e meia da noite, encontraram-se com Jaime Guedes e o prefeito Rodolfo Fernandes, onde foram narrados os fatos e entregue a carta de Gurgel. O prefeito só ficou satisfeito em relação à veracidade da notícia quando viu a lataria do Chevrolet perfurada de balas.

Nota de jornal sobre o ataque de Lampião a Mossoró.
Nota de jornal sobre o ataque de Lampião a Mossoró.

Nesta mesma noite de 12 de junho, “Gatinho” ainda ajudou na defesa de Mossoró, transportando fardos de algodão de depósitos existentes na cidade, para pontos que seriam utilizados como baluarte de defesa.

“Gatinho” não estava em Mossoró no dia do assalto, fora contratado para seguir para Fortaleza, às nove da manhã de 13 de junho, com a esposa e dois filhos do médico Eliseu Holanda. Segundo o motorista, depois deste episódio, não mais teve notícias se este médico e sua família retornaram a Mossoró, “nem a passeio”.

Igreja de São Vicente de Paula, histórico palco de resistência dos mossoroenses aos ataques dos cangaceiros de Lampião. Anualmente neste local acontece uma encenação do fato dentro do calendário cultural do município.
Igreja de São Vicente de Paula, histórico palco de resistência dos mossoroenses aos ataques dos cangaceiros de Lampião. Anualmente neste local acontece uma encenação do fato dentro do calendário cultural do município.

Em Fortaleza, o “estafeta de Lampião” passou alguns dias esperando a situação se acalmar.

Muitos anos depois, em sua residência na Praça Redenção, 183, na tranquilidade de sua velhice, “Gatinho” narrou ao repórter Nilo Santos, de “O Poti”, as suas inesquecíveis lembranças da meia hora que passou entre o bando de Lampião. Para ele, muitos dos cangaceiros eram demasiado jovens para aquela vida, “umas crianças” ele afirmava. Na sua memória Massilon marcou como um sujeito feio, carrancudo, grosseiro, ignorante, “que dava até medo em olhar para ele”. Lampião lhe deixou uma impressão positiva, apesar da fama, “parecia um sujeito educado, pelo menos neste dia não estava furioso”. Sobre “Coqueiro”, o condutor o considerava um moreno forte, bem disposto e “bastante alto para justificar o apelido”. Quando o cangaceiro “Mormaço”, foi detido, informou as autoridades que “Coqueiro” havia deixado o bando no Cariri e seguira para o Piauí, entretanto, segundo o pesquisador Raimundo Soares de Brito, este cangaceiro foi morto pela polícia cearense, no lugar “Cruz”, aparentemente no município de Maranguape.

Francisco Agripino de Castro se tornou um profissional do volante respeitado, era conhecido como uma pessoa calma, amigo de todos e faleceu em 16 de março de 1991.