Arquivo da categoria: História do Rio Grande do Norte

BIBLIOTECA DE NOVA YORK DISPONIBILIZA FOTOS INÉDITAS DO BRASIL IMPERIAL

nypl.digitalcollections.510d47e1-cba6-a3d9-e040-e00a18064a99.001.g - Copy

nypl.digitalcollections.510d47e1-cba6-a3d9-e040-e00a18064a99.001.g
ALGUMAS IMAGENS DESTA COLEÇÃO SÃO MATERIAIS DE ENORME VALOR PARA HISTORIADORES POTIGUARES E NORDESTINOS DE MANEIRA GERAL, COMO ESSE MAPA DO BRASIL PUBLICADO PELO IRLANDÊS-AMERICANO MATHEW CAREY EM 1814. NESSE CASO, DEVIDO A BOA RESOLUÇÃO DA IMAGEM, É POSSÍVEL VISUALIZAR COM ALGUMA QUALIDADE A REGIÃO LITORÂNEA DO RIO GRANDE DO NORTE, PARAÍBA, PERNAMBUCO E PARTE DO CEARÁ. AQUI PODERMOS OBSERVAR ALGUNS ACIDENTES GEOGRÁFICOS DA COSTA DESTES ESTADOS, COM NOMES QUE SE MANTIVERAM ATÉ OS DIAS ATUAIS.

Acervo contém fotos e ilustrações que mostram cenas do cotidiano e personagens comuns do país entre os séculos 19 e 20

A Biblioteca Pública de Nova York digitalizou cerca de 180 mil imagens de seu acervo e disponibilizou fotos e ilustrações – algumas inéditas em plataforma digital – do Brasil na era imperial.

São imagens de livros antigos que mostram escravos, índios, soldados, fauna e flora, nobreza e algumas cenas do cotidiano das metrópoles do país nos séculos 19 e 20. Entre o material digitalizado estão fotos inéditas como essa de Dom Pedro II.

pedro
FOTO DE D. PEDRO II, IMPERADOR DO BRASIL, NO SÉCULO 19.

O arquivo conta com livros como The Negro in The World, publicado em 1910 pelo explorador inglês Sir Harry Johnston, e o Livro de Figurinos do Exército Imperial Brasileiro de 1866, compilado por um médico holandês e doado à biblioteca em 1911.

Outro livro digitalizado é o “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, de Jean-Baptiste Debret, que chegou ao país com a Missão Francesa em 1816. Depois de uma estadia de 15 anos, o pintor e desenhista produziu uma das fontes mais relevantes de imagens sobre a fauna e a flora e a sociedade brasileira da época.

nypl.digitalcollections.510d47df-c9ce-a3d9-e040-e00a18064a99.001.w
GRAVURA DE UMA VENDA NO RECIFE DO SÉCULO 19, PELO ARTISTA JOHANN MORITZ RUGENDAS.

Para ver tudo o que está disponibilizado sobre o país, basta buscar pela palavra-chave “Brazil” no site do acervo digital da Biblioteca Pública de Nova York.

Veja algumas das imagens disponíveis:

TEXTO – Ana Freitas

FONTE – https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/02/02/Biblioteca-de-Nova-York-disponibiliza-fotos-in%C3%A9ditas-do-Brasil-imperial

nypl.digitalcollections.510d47df-7781-a3d9-e040-e00a18064a99.001.v
ILUSTRAÇÃO PUBLICADA ENTRE 1834 E 1839 DA FAMÍLIA DO CACIQUE DE UMA TRIBO CAMACÃ SE PREPARANDO PARA UMA FESTA.
nypl.digitalcollections.510d47df-7779-a3d9-e040-e00a18064a99.001.g
GRAVURA DE UM VALE NA SERRA DO MAR, EM SÃO PAULO, DE JEAN BAPTISTE DEBRET, PUBLICADO ENTRE 1834 E 1839.
nypl.digitalcollections.510d47e1-1c5c-a3d9-e040-e00a18064a99.001.w
ILUSTRAÇÃO DO CACIQUE DE UMA TRIBO DE ÍNDIOS BOTOCUDOS, PUBLICADA ENTRE 1823 E 1838.
nypl.digitalcollections.510d47df-88b7-a3d9-e040-e00a18064a99.001.w
TRABALHADORES NEGROS EM UMA MINA DE DIAMANTES EM LENÇÓIS, NA BAHIA. FOTO DE 1910.
nypl.digitalcollections.79d9c2d8-f36d-4228-e040-e00a18061fdc.001.w
RETRATO DA IMPERATRIZ TERESA CRISTINA DE BOURBON DUAS-SICÍLIAS, ESPOSA DO IMPERADOR D. PEDRO II, FEITO NO SÉCULO 19.

 

UMA VISITA AO RIO GRANDE DO NORTE

A República-3 de dezembro de 1919
Jornal “A República”, Natal-RN, 3 de dezembro de 1919

Manuel de Oliveira Lima foi um ilustre escritor, crítico, embaixador do Brasil em diversos países, professor-visitante na Universidade de Harvard e membro fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL). Em novembro de 1919 ele esteve em terras potiguares e o blog TOK DE HISTÓRIA traz na íntegra o interessante relato do próprio Oliveira Lima sobre essa visita.

NOTA – Este material foi originalmente publicado no site http://www.consciencia.org/

É um ótimo sinal quando se chega a uma terra que não é uma terra de arte como a Itália ou a Grécia, ou uma terra de incomparáveis belezas naturais como o Japão ou a Suíça, e as coisas que há a mostrar ao estrangeiro são escolas e hospitais.

Quer isto dizer que essa terra acalenta as preocupações sociais sem as quais qualquer comunidade se torna improgressiva e infecunda do ponto de vista humano. Como o Rio Grande do Norte parece precisamente que nutre e dá, pelo que verifiquei, expansão a semelhantes preocupações, sendo isso tanto mais de admirar quanto é um dos Estados mais pobres da Federação.

www.fernandomachado.blog.br
Manuel de Oliveira Lima – Fonte – http://www.fernandomachado.blog.br

É clássica a pilhéria de que os vencimentos dos seus empregados públicos se pagavam em parte com jerimuns, cuja abundância era notável ao lado da escassez do numerário. As circunstâncias decerto mudaram: os jerimuns devem ter diminuído ao ponto que os não vi e achei pouco delicado perguntar por eles, e o numerário, se não cresceu muito, tem sido aproveitado com tamanha felicidade que tem chegado para dotar-se o Estado de boas escolas, entre elas notáveis grupos escolares, e atender-se a serviços de assistência aos doentes, aos loucos e aos desvalidos.

Ao aproximarmo-nos de Natal, ao largo da linha negrft dos arrecifes, antes de dobrarmos a fortaleza dos Reis Magos, inofensiva hoje mas sempre pitoresca, que a patina secular embeleza e o senso da tradição faz conservar, e de subirmos o amplo Potengi, avista-se no cimo de um morro, a cavaleiro da praia onde se quebram as ondas e com um horizonte de colinas cobertas de uma vegetação escura, um grupo de construções. São o hospital, a cadeia e o asilo, o primeiro e o último já remodelados de maneira a preencherem adequadamente os seus fins.

O desvelo manifestado por semelhantes assuntos de pedagogia e de assistência honra o espírito público dos dirigentes. Mas também os dirigidos se distinguem pela sua cordura e urbanidade.

DSC04395
Coleção TOK DE HISTÓRIA

Tem-se a impressão de lidar com gente boa, de sentimentos mais pacíficos, e de fato o sertão do Rio Grande do Norte destoa dos sertões vizinhos em não apresentar essa feição peculiar do banditismo. A população acusa, portanto, uma superior disposição moral. Por quê? Não saberia dizê-lo, nem me deram disso a razão. O Rio Grande do Norte tem ainda falta de sociólogos. A superior mentalidade feminina que observei deverá ser, antes do que causa, resultado daquela condição do meio.

É curioso verificar esse maior desenvolvimento intelectual da mulher, que se sente como se sente que já vem de longe o favor que merece o ensino. A primeira formação espiritual da notável escritora que foi Nísia Floresta fez-se no agreste de Papari, desabrochando das brenhas essa flor de civilização. Outras senhoras continuam e zelam semelhante tradição, que dota a inteligência do seu sexo de uma maior independência e de uma maior amplidão. A Escola Doméstica de Natal, da qual não é exagero quanto se disser de bom que não tem sua parelha no Brasil, nem mesmo noutros países, havia forçosamente de adaptar-se ao meio, nele se sentido à vontade.

Ouvi que exerceram grande influência em Natal na sua atividade de educadoras duas americanas, Miss Reed e Miss Porter, se não me engano. Miss Leora James, a diretora incomparável da Escola Doméstica, que pela organização e pela disposição parece um pedaço dos Estados Unidos encravado no Rio Grande do Norte, não faz mais do que seguir-lhes as pegadas na esfera que lhe proporcionou a lúcida iniciativa do Governo.

eloy4web
Alunas da Escola Doméstica de Natal em uma aula na horta do educandário – Fonte – http://www.skyscrapercity.com

A educação americana é útil pelo seu espírito prático adequado às vicissitudes da vida, pelo bom humor que preside ao seu desenvolvimento, por uma tonalidade que não é apenas jovial mas altamente eficiente. Considero-a vantajosa para a nossa mentalidade mais formalista e mais pautada pelas convenções. Nos discursos pronunciados na festa literária pelas alunas graduadas da Escola Doméstica pode perfeitamente notar-se esse influxo americano. Nem sentimentais, nem bombásticos, esses discursos, por elas elaborados, foram todos repassados de um humour que se casa perfeitamente com a saudade descrevendo um, com a franqueza da despedida, episódios da vida escolar, esboçando outro com uma ponta de malícia mas sem maldade os perfis dos mestres com os seus cacoetes, dando outro a conhecer um testamento muito espirituoso, formulando ainda outro com graciosa ironia o programa que por magia cada uma dessas moças se traçara para a existência. Esta última produção é da aluna Isabel Dantas, que teve o prêmio de viagem.

A Escola Doméstica não tem desviado sua atenção do fim essencial da sua ação, que é ajudar o progresso social da comunidade, dando às moças, que serão amanhã mães de família, além dos conhecimentos gerais indispensáveis à vida da inteligência, o preparo necessário para desempenharem conscientemente, isto é, cientificamente, as diferentes categorias de atividade em que até aqui procediam empiricamente, quer dizer, instintivamente. Assim é que para a aula de puericultura existe anexa uma creche com seis crianças, de dois dias a cinco anos, cuja evolução fisiológica e psicológica pode, portanto, ser diretamente observada.

vaq-16
Oliveira Lima assistiu uma tradicional vaquejada, com vaqueiros trajando sua característica vestimenta de couro, como apresentada nesta foto do início do século XX. Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

A essa chamada e verdadeira medicina do lar agregam-se cursos que debalde se procurariam noutras instituições: o de educação social, a cargo de Henrique Castriciano; o de educação estética, comportando a decoração da casa, uma arte simples e encantadora mas ainda rara no nosso meio; de direito usual, para que as mulheres não ignorem nem os seus direitos civis, nem o que seja uma hipoteca ou outra qualquer transação sobre propriedade, assim evitando que pela vida adiante venham a ser logradas nos seus bens.

Não há por enquanto na Escola um campo de tennis. Entretanto, o sport não é alheio ao belo sexo do Rio Grande do Norte: pela mais gentil das deferências, baixei a terra numa embarcação tripulada por adestradas remadoras do Clube Náutico feminino. Outros desportos florescem: não posso dizer se também o football entre os homens. É mais que provável, se bem que sem o furor que noutro Estado do norte divide a sociedade local em campos irreconciliáveis, sendo por exemplo vedado ao membro ou partidário de um dos dois clubes fazer negócio com o do outro clube, extremando-se o comércio nesses antagonismos e chegando não raro os desaguisados de opinião à pancadaria.

Ao sertão não alcançaram, porém, ainda esses exercícios físicos americanos e o seu desporto principal continua a ser a vaquejada nacional. Assisti a uma na Fazenda Santa Rita, em que tomaram parte oitenta e tantos artistas, na maior parte profissionais vestidos de couro — a vestia, o dianteiro, as perneiras, o chapéu de abas e as meias-luvas — alguns, porém, amadores, como um negociante da Serra Caiada que me confessou que dava a alma por essa corrida em disparada atrás do animal que o cavaleiro trata de segurar pela cauda e desse modo derrubá-lo, para o que se requer força e agilidade. Já noutras ocasiões tinha partido um braço, uma perna e uma clavícula; concertara tudo e lá estava numa das filas de cavaleiros, esperando a saída do bicho do curro.

95798
Antiga sede da Escola Doméstica de Natal – Fonte – tribunadonorte.com.br

Se já não tivesse quatro filhos, não perdia uma, rematou. E eu dava-lhe razão, porque a vaquejada deve ali operar como a tourada no espírito dos que se criaram assistindo a elas e interessando-se por quanto lhes diz respeito.

A Escola Doméstica de Natal representa uma soma incalculável de esforço e de tenacidade. Não faltavam preconceitos a disputar-lhe o passo. Foi ela combatida como pouco pudica por ter uma seção de puericultura, a qual entretanto é de natureza a prestar relevantes serviços, ajudando a cruzada do saneamento da população nacional, empreendida por alguns espíritos previsores e generosos. Nós sabemos quanto é avultada no país a mortalidade infantil e que a razão disto está mais que tudo na falta, não de carinho, mas de cuidados inteligentes dados à alimentação e à higiene das crianças.

Ciência ou arte, a puericultura deve adquirir-se como qualquer outra, e é como se procede hoje nos Estados Unidos, que tão grande atenção estão prestando a esse gênero de questões.

A Escola foi ainda increpada de fútil por pretender ensinar a coser, a lavar e engomar, a cozinhar, a fabricar manteiga e queijos, a tratar de galinhas, a cuidar de jardins e de hortas. Ora, um minuto de reflexão basta para indicar quanta utilidade envolve tudo isso. Ensina-se a costura e a cozinha naquele estabelecimento de instrução com o máximo do gosto e o máximo da economia. No Brasil os pobres sofrem de falta de alimentação substancial mais do que na Europa: em compensação, porém, os que podem gastar, e mesmo os remediados, comem demasiado, considerando uma mesa opípara ou pelo menos muito farta a primeira das condições do conforto. O nosso jantar comum de família compõe-se de dois e três pratos de meio, quando um bastaria, com uma sopa e uma sobremesa. E o desperdício no preparar iguala o desperdício no consumir. O banquete que me foi oferecido pela Escola Doméstica, todo de execução das alunas graduadas, auxiliadas pelas do segundo ano, consistia numa boa sopa, um peixe excelente, galinha com salada de legume e sorvete de abacaxi.

almoc3a7o-para-rafael-fernandes-na-antiga-ed-anos-1930
Henrique Castriciano de Souza foi um dos que estiveram junto de Oliveira Lima na sua visita ao Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

As alunas aprendem a compor o seu orçamento culinário como outro qualquer e a respeitarem esses orçamentos: assim fizessem os governos. Os vestidos das graduadas, para a festa da formatura, por elas próprias executados, custaram, fazenda e enfeites, 47$000 cada um. Também para os trajes se faz orçamento, o que constitui uma magnífica promessa de tranquilidade nos casais. A modéstia é de rigor na vestimenta escolar. Trajam todas igualmente de branco, sem sacrifício da elegância compatível com a simplicidade, e não usam joias, para não estabelecer diferenças de fortuna assinalando-as por esse meio.

Compreende-se a vantagem que o fabrico dos laticínios pode emprestar a muitas raparigas, filhas de criadores, cujas manadas de vacas dão muito mais leite do que podem consumir suas famílias e que só aproveitam as sobras em uma espécie tradicional de requeijão. A avicultura é outra ciência de grandes benefícios, como também a pomicultura e a horticultura. Tudo isso, aliás, distrai dos trabalhos puramente mentais e varia o programa escolar, contribuindo para completar uma educação feminina. A vida no internato faz-se assim tão aprazível, dada também a suavidade da direção, a qual não exclui a disciplina, apenas trata de torná-la consciente, que não há por assim dizer aluna que não deixe a escola com vivas saudades da atmosfera de bem-estar e de cordialidade que em redor delas soube criar a ótima educadora a quem em boa hora a Liga do Ensino confiou semelhante tarefa.

teatro-e-bonde-4
Na época da visita de Oliveira Lima a Natal, a cidade tinha uma população com pouco mais de 30.000 habitantes. Na foto vemos o então Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

Nessa vivenda adrede construída, em boa parte segundo as indicações da mesma diretora, passa-se uma existência muito mais de família que de colégio, na velha acepção do termo, cumprindo cada qual seus deveres com satisfação e não se regateando as ocasiões de agradável intercurso, participando as alunas da administração comum, vivendo portanto do espírito da casa que é de método ao mesmo tempo que de liberdade, e é sobretudo de autonomia no pensar e no sentir. Pelo que pude ver, as alunas adquirem desembaraço sem contraírem desenvoltura.

A festa da Escola terminou por uma alegoria à paz, a qual expulsa do palco a guerra, enquanto os Estados Unidos e o Brasil se unem num amplexo de aliança. Os educadores norte-americanos, longe de quererem suscetibilizar o sentimento patriótico das nações da América do Sul, fazem o que está ao seu alcance para avivá-lo, no interesse mesmo da cooperação e solidariedade visadas. A sua ação redunda igualmente na disseminação do espírito associativo, que faz parte integrante do feitio americano. A seção culinária da Escola Doméstica de Natal já está ensaiando uma espécie de “extensão” entre as famílias; mediante o preparo, pelas matronas que aderem aos clubes gratuitos, de conservas de legumes e frutas com que aproveitar o produto de umas estações em outras, também de bolos e doces.

oliveira-lima1
Oliveira Lima em seu local de trabalho – Fonte – http://www.cafecolombo.com.br

De tudo quanto me foi dado observar na minha rápida visita ao Rio Grande do Norte, eu trouxe a impressão consoladora para um espírito brasileiro de que no seu governo e nos agentes que lhe personificam a ação existe mais pronunciado do que noutros pontos do território nacional o sentimento do dever cívico que se desdobra no dever humanitário para com os nossos semelhante. O fato deixará de parecer surpreendente a quem tiver em mente que o vulto histórico para quem vão todas as simpatias locais, todo o culto da comunidade, foi não um agitador ou um demagogo, mas um homem essencialmente de caráter.

O Padre Miguelinho foi um sacerdote instruído e meigo, professor querido dos seus discípulos e espírito não só ilustrado como preocupado de conciliação e de concórdia; mas o que sobretudo o torna grande entre as vítimas generosas da revolução de 1817 foi a sua inquebrantável lealdade para com os companheiros de revolução e sobretudo para com a sua fé política. Nessa figura tocante, que resistiu ao apelo à vida que lhe estendiam, é que se concentra a devoção patriótica dos rio-grandenses do norte. O influxo de tal devoção não podia deixar de ser salutar para uma sociedade.

Parnamirim, dezembro de 1919

Fonte: Oliveira Lima – Obra Seleta – Conselho Federal de Cultura, 1971. Através do link – http://www.consciencia.org/uma-visita-ao-rio-grande-do-norte

———————————————————————————————————————————————-

download
Fonte – pt.wikipedia.org

Manuel de Oliveira Lima (Recife, 25 de dezembro de 1867 – Washington, Estados Unidos, 24 de março de 1928).

Oliveira Lima começou a trabalhar como jornalista com catorze anos de idade. Em seus artigos constantemente criticava o domínio das oligarquias sobre a recém-fundada República e por isso ganhou fama de monarquista.

Formou-se em letras na Faculdade de Lisboa em 1887, e em 1890 começou a trabalhar para o Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Atuou como diplomata em Portugal, Bélgica, Alemanha, Japão e Estados Unidos.

Foi encarregado de negócios da primeira missão diplomática brasileira no Japão. Em 1901 deu parecer contrário ao projeto brasileiro de recebimento de imigrantes japoneses. Escreveu então ao Ministério das Relações Exteriores alertando sobre o perigo de o brasileiro se misturar com “raças inferiores”.

Chegou a ser falado para a embaixada brasileira em Londres mas o Senado não aprovou sua indicação. Oliveira Lima era malvisto pelo governo britânico por defender que o ideal de que o Brasil permanecesse neutro na Primeira Guerra Mundial e por sua proximidade intelectual com a Alemanha.

Também fez inimigos dentro do país, em parte por não aprovar a atitude expansionista da República em situações como a anexação do Acre realizada pelo Barão do Rio Branco. Ele dizia que o território nacional já era vasto e muito mal fiscalizado e que a verdadeira expansão do Brasil só viria através do comércio.

Oliveira Lima sempre gostou de ler e escrever. publicou numerosas obras de história, entre elas: Memória sobre o descobrimento do BrasilHistória do reconhecimento do ImpérioElogio de F. A. VarnhagenNo JapãoSecretário Del-ReiDom João VI no Brasil. Sobre esta última obra de história que Oliveira Lima publicou é importante destacar sua importância para o rearranjo da historiografia brasileira, pois ela é considerada como sendo um clássico da historiografia nacional segundo o Lima um intelectual que têm variadas conferências sobre a formação da nacionalidade brasileira. A ilustre obra “Dom João VI no Brasil” é considerada como sendo uma das grandes obras do autor Oliveira Lima. Essa avaliação é feita por muitos estudiosos e autores relacionados a questões significativas sobre o Brasil. Alguns autores e escritores como Gilberto Freyre, Octavio Tarquínio de Souza e Wilson Martins já tiveram a oportunidade de escrever sobre os relatos de Oliveira Lima contidos nesta obra de grande prestígio para a historiografia brasileira. 

Em 1913 quando já morava nos Estados Unidos, Oliveira Lima doou sua descomunal biblioteca à Universidade Católica de Washington por temer que a coleção não recebesse os cuidados adequados no Brasil. Impôs a condição de que ele próprio fosse o primeiro bibliotecário e organizador do acervo, função que desempenhou por quatro anos.

Em 1924 foi apontado professor honorário da Faculdade de Direito do Recife.

Morreu em 1928 e foi enterrado no cemitério Mont Olivet, Washington. Em sua lápide não consta seu nome, mas a frase “Aqui jaz um amigo dos livros“.

FONTE – https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_de_Oliveira_Lima

MAIS SOBRE OLIVEIRA LIMA – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Oliveira+Lima&ltr=o&id_perso=413

SOBRE O SITE http://www.consciencia.org/

Este site é um espaço virtual de estudo, pesquisa e ensino. Tradicional site de filosofia, que ampliou o leque temático para abranger outras ciências humanas: História do Brasil, História Geral, Literatura, Antropologia, Sociologia, Linguística e áreas afins. Foi criado em 1997, pelo filósofo Miguel Lobato Duclós (1978-2015). Segundo seu pai, Nei Duclós, o trabalho desenvolvido por Miguel Lobato Duclós proporcionou a criação de um vasto acerto virtual de conhecimento, um trabalho pioneiro num país onde a universidade ainda possui um forte preconceito contra a internet. O espaço virtual consciência.org atrai milhares de estudantes e é responsável pela introdução à Filosofia e atualização do conhecimento para mais de uma geração de alunos, que se mostram admirados e agradecidos, como atestam as inúmeras cartas recebidas e publicadas neste website.

O blog TOK DE HISTÓRIA homenageia Miguel Lobato Duclós como verdadeiro pioneiro da democratização da informação intelectual em espaço virtual.

 

 

MOSSORÓ EXPULSOU O BANDO DE LAMPIÃO A BALA – DISSE NÃO À EXTORSÃO DO CANGACEIRO – UM GRANDE FATO NA HISTÓRIA DO NORDESTE – FATOS E FOTOS!

 

DSC05388
Mossoró nos dias atuais – Em destaque a Catedral Diocesana de Santa Luzia
DSC05417
Igreja São Vicente de Paula – Construída por retirantes na Seca de 1915 Uma das trincheiras para impedir que Lampião invadisse Mossoró

Dia 13 de junho de  1927, após dizer não a Lampião, que cobrou 400 contos de reis (em moeda da época 400  milhões de reis – atualmente uns 20 milhões de reais) para não invadir a cidade, começava um tiroteio entre moradores da cidade e os cangaceiros, que se dividiram em 03, forçando a cidade a levantar várias trincheiras, sendo as principais: a  Estação Ferroviária, hoje uma casa de cultura; a sede da prefeitura, hoje Palácio da Resistência e a trincheira no Campanário da Capela de São Vicente de Paula, que Lampião denominou de “ Igreja da Bunda Redonda” .

DSC05418
Igreja São Vicente de Paula – Construída por retirantes na Seca de 1915 Marcas de bala no campanário = onde ficaram mossoroenses

Do Jornal o Mossoroense sobre a história da Igreja:

“Aquele templo é uma dádiva de suor, sangue e lágrimas dos retirantes de 1915. Merece um poema à memória de um êxodo forçado”. E o próprio professor Barreto faria esse poema, quando apelava: 

“Mossoroenses, quando passardes diante da Igreja de São Vicente de Paula, prestai o vosso culto, não só ao orago do templo, como aos seus construtores, quase todos desaparecidos já, porém, ainda mais rendei o vosso preito àqueles humildes grandes, que fabricaram, de graça, o material para o citado templo”.

DSC05419
Igreja São Vicente de Paula – Construída por retirantes na Seca de 1915 Marcas de balas no campanário – onde ficou a resistência de Mossoró

Findando com a expulsão dos cangaceiros, a morte de alguns deles e a prisão do temível Jararaca, enterrado vivo no cemitério da cidade, após cavar sua própria cova. O interessante é que hoje é visto como santo pelo povo, devido a crueldade com que foi morto. Recebendo o seu túmulo visita de milhares de pessoas em dias de finado e ao longo de todo ano. Na verdade mais prestigiado que o túmulo de muitos políticos famosos nacionalmente, enterrados no mesmo cemitério e ao longo do ano utilizado pelos gatos e outros animais como abrigos. Mostrando que nem sempre o séquito que em vida rodeia os poderosos permanece uma vez morto. Ironicamente ao contrário do cangaceiro.

DSC05421
Igreja São Vicente de Paula – Construída por retirantes na Seca de 1915 Marcas de balas no campanário = onde ficaram mossoroenses

Mossoró, depois de Natal, é a maior cidade do Rio Grande do Norte. Tem  quase 300.000 habitantes e uma economia poderosa, baseada sobretudo no petróleo e na produção de sal marinho. Uma das grandes e poderosas cidades da Região Nordeste. A origem do nome Mossoró está ligada  ao rio, à beira do qual floresceu, Rio Mossoró, nascido na chapada do Apodi, que rasga a terra com vigor, criando seu leito, rompendo-a, por isso tendo o nome ligado à ruptura, que em Tupi Guarani é Mossoró. O que rompe, o que rasga poderosamente. 

DSC05422
Placa de homenagem aos heróis que expulsaram Lampião de Mossoró em 13/06/1927

Num lugar assim, Lampião deveria ter pensado duas vezes antes de tentar invadir e ser expulso de forma humilhante, assim historicamente a cidade ligou seu nome ao famoso personagem Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, a exemplo de Juazeiro do Norte, que jamais ousou invadir, pois temia Padre Cícero com seu poder religioso e político. Bom destacar também que Mossoró foi a primeira cidade do Rio Grande do Norte a libertar seus escravos, a exemplo de Redenção no Estado do Ceará.

DSC05425
Placa de homenagem aos heróis que expulsaram Lampião de Mossoró em 13/06/1927

Anualmente, em frente  à igreja que funcionou como trincheira é encenado um musical chamado: CHUVA DE BALA NO PAÍS DE MOSSORÓ, que remonta todo o fato histórico e mantém viva a memória. 

DSC05436
Prefeitura de Mossoró – Palácio da Resistência – uma das Principais Trincheiras

O cordelista Zé Lacerda, no Cordel: JARARACA – O CANGACEIRO ARREPENDIDO.  

(link: http://www.cordelnarua.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=2765774  ) falou assim de Jararaca:

Já falei da Jararaca

Num cordel anterior

Disse que esse cangaceiro

Em santo se transformou

Sua vida e desacato

Mas não expliquei o fato

Que o povo o beatificou.

 

A injustiça o transformou

Num terrível cangaceiro

Aliou-se a Lampião

Se tornando um desordeiro

Os cantos que ele passou

E os crimes que praticou

Contei no cordel primeiro

 

Naquele grande entrevero

Que Massilom projetou

De assaltarem Mossoró

Jararaca se animou

Afoito, sempre na frente,

Mas a coisa ficou quente

Pois Mossoró revidou. 

Abaixo fotos do Memorial ao Cangaço e à Resistência:

DSC05448
Monumento ao Cangaço e à Resistência de Mossoró
DSC05468
Placa com fotos dos heróis da Resistência de Mossoró Único caso em que Lampião foi derrotado numa invasão MEMORIAL DO CANGAÇO E DA RESISTÊNCIA
DSC05470
Aviso de possível invasão a Mossoró – cidade já rica em 1927 MEMORIAL DO CANGAÇO E DA RESISTÊNCIA
DSC05472
Mossoroense capturado por Lampião manda aviso que Mossoró Deve pagar o resgate de 400 contos de reis O equivalente a 400 milhões de reis da época MEMORIAL DO CANGAÇO E DA RESISTÊNCIA
DSC05474
Bilhete do Próprio Lampião ao prefeito de Mossoró Ameaçador – Foi invadir e houve o conflito e bateu em retirada
DSC05481
MEMORIAL DO CANGAÇO E DA RESISTÊNCIA Paineis de Cangaceiros

Um mistério fica no ar: POR QUE O SANTIFICADO É UM CANGACEIRO E NÃO UM DOS RESISTENTES? POR  QUE NÃO SANTIFICARAM O PREFEITO DE MOSSORÓ QUE LIDEROU A RESISTÊNCIA?  POR QUE AS FOTOS DOS HERÓIS DA RESISTÊNCIA SÃO TÃO PEQUENAS E A DOS CANGACEIROS PAINEIS ENORMES? PARECE QUE O POVO DE MOSSORÓ NÃO SE IDENTIFICOU MUITO COM OS HERÓIS DA RESISTÊNCIA! Que interesses realmente defenderam??? De toda forma foram bravos sim! Com a palavra os historiadores.  Abaixo fotos do túmulo do Cangaceiro Jararaca, ou melhor São Jararaca:

DSC05531
Foto do Túmulo do cangaceiro Jararaca Santificado pelo Povo – Enterrado Vivo
DSC05532
Foto do Túmulo do cangaceiro Jararaca Santificado pelo Povo – Enterrado Vivo Túmulo mais visitado em dia de finados e ao longo do ano inteiro
DSC05534
Foto do Túmulo do cangaceiro Jararaca Santificado pelo Povo – Enterrado Vivo Túmulo mais visitado em dia de finados e ao longo do ano inteiro

OBRE A FAMOSA SANTIDADE DO JARARACA DIZ A MÍDIA, que é fato: 

O jornal Gazeta do Oeste em 12 de junho de 1994 publicou uma entrevista com o bioquímico, e hoje Assessor de Comunicação da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), Paulo Medeiros Gastão, onde o Jornal perguntava sobre o fato da devoção hodierna à Jararaca quando muitas pessoas acham que ele obra milagres e a visão do pesquisador, respondeu: “A história do milagre se confunde muito com o misticismo, com a conduta cultural de um povo. Jararaca, apenas foi consagrado, por conta de sua bravura. O povo sempre busca o menor para enaltecê-lo. Nós sentimos isso no próprio cemitério, quando o túmulo de Rodolfo Fernandes, não recebe o mesmo número de visitas correspondentes ao túmulo onde está Jararaca”.

Link:  http://www.osultimoscangaceiros.com.br/blog/?id=33


Fonte do texto e das fotos – http://valdecyalves.blogspot.com.br/2011/12/mossoro-expulsou-o-bando-de-lampiao.html

SANGUE E DOR NO SERIDÓ – O RADICALISMO POLÍTICO NAS ELEIÇÕES POTIGUARES DE 1934

 

9-12-1934
Diário de Notícias – Rio de Janeiro – 9 de dezembro de 1934

Autor – Rostand Medeiros

É inegável que todo a política brasileira mudou com a revolução deflagrada em 7 de outubro de 1930 e no Rio Grande do Norte não foi diferente.

Na época o governador potiguar era Juvenal Lamartine de Faria e, poucos dias depois da eclosão da conhecida “Revolução de 30”, ele foi deposto por uma junta formada por militares do Exército em Natal e seguiu para o exílio na França. Outros políticos partiram rumo ao Rio de Janeiro e outros permaneceram por terras potiguares. Mas para sobreviver na nova arena política, estes últimos procuraram se integrar à nova ordem vigente[1].

ALDO (101) - Copy
Juvenal Lamartine de Faria em 1935 – Fonte – Rostand Medeiros

A mesma junta militar que depôs Juvenal Lamartine empossou no cargo de interventor federal no Rio Grande do Norte o advogado paraibano Irineu Joffily[2]. A posse de Joffily deu início a um período de reorganização política, em meio a uma extrema desorganização administrativa e desconfianças com o fato do advogado ser oriundo de outro estado[3].

Como resultado Joffily ficou pouco mais de três meses respondendo pelo executivo potiguar. A ele seguiu-se três militares que ocuparam a interventoria. Estes foram Aluísio de Andrade Moura (primeiro tenente do Exército, que ficou no cargo de 29 de janeiro a 31 de julho de 1931), Hercolino Cascardo (capitão tenente da Marinha, de 31 de julho de 1931 a 11 de julho de 1932) e Bertino Dutra da Silva (também capitão tenente da Marinha, que governou de 1 de junho de 1932 a 2 de agosto de 1933). Todos estes militares de carreira tiveram uma fraca atuação a frente do executivo potiguar, o que só contribuiu para a descontinuidade administrativa e a instabilidade política local.

IMG_20150819_190954035_HDR
O advogado paraibano Irineu Joffily 

Enquanto isso, em face da crise econômica que existia no Brasil e dos conflitos internos dentro do governo Vargas, a situação política nacional deteriorou-se. Muitos dos revolucionários de 1930 estavam insatisfeitos com a falta de reformas sociais abrangentes, grandes latifundiários do café e industriais paulistas ficaram inconformados com a perda de poder e outros grupos políticos exigiram eleições. Como consequência destas situações, no dia 9 de julho de 1932 eclodiu em São Paulo a chamada Revolução Constitucionalista.

Após 87 dias de combate, com a morte de cerca de 2.200 pessoas, este movimento revolucionário foi derrotado pelo governo federal, mas conseguiu forçar Vargas a convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. As eleições para formar a composição desta assembleia foram realizadas no dia 3 de maio de 1933 e esta foi oficialmente instalada em 15 de novembro do mesmo ano[4].

Preparação do Palco

Ainda em janeiro de 1933, diante das possibilidades políticas que surgiram no cenário local, o ex-governador (período de 1924-1927) e ex-senador potiguar (1928-1930) José Augusto Bezerra de Medeiros, fundou o Partido Popular do Rio Grande do Norte, cujos participantes ficaram conhecidos como “Populistas”[5].

ALDO (101)
José Augusto Bezerra de Medeiros – Fonte – Rostand Medeiros

A criação desta agremiação política tinha a intenção de reunir as lideranças políticas do velho Partido Republicano Federal (PRF), os chamados “Perrepistas”, ou “Perrés”, que eram os participantes do sistema político destroçado em 1930.

Com a movimentação dos opositores para a criação do Partido Popular, diante da clara inaptidão dos interventores militares no executivo potiguar e da grande turbulência política existente, Getúlio Vargas decidiu colocar no comando do Governo do Rio Grande do Norte um filho da terra e civil.

Em 2 de agosto de 1933 tomava posse como novo interventor federal o advogado Mário Leopoldo Pereira da Câmara. Este era de Natal, tinha então 41 anos, era alto funcionário do Ministério da Fazenda, estando em 1933 na função de oficial de gabinete do Presidente Getúlio Vargas. Além de tudo isso Mário Câmara era considerado uma pessoa de confiança de Getúlio. Ele tinha raízes familiares tradicionais no Rio Grande do Norte e era visto pela elite local como o típico exemplo de um jovem “de boa família” que havia seguido para o Rio de Janeiro e tinha conseguido vencer na então Capital Federal.

25-10-1935
Mário Leopoldo Pereira da Câmara em outubro de 1935 – Fonte – Rostand Medeiros

Em um primeiro momento a sua nomeação como interventor foi muito bem recebida pela matreira e tradicional classe política potiguar. O Presidente Vargas tencionava com a indicação de Mário Câmara aproximar-se do grupo liderado por José Augusto, buscando garantir o controle da política do Rio Grande do Norte pelo governo revolucionário e preparando o terreno para a vitória dos governistas nas eleições para a Assembleia Estadual Constituinte, que seria realizada em 14 de outubro de 1934. Nesta ocasião os eleitores potiguares escolheriam seus representantes, os quais caberiam definir o futuro governador.

Mas os políticos tradicionais rejeitaram essa aproximação, pois temiam uma subordinação do Partido Popular ao controle de Mário Câmara. O fracasso do acordo entre populistas e o interventor levaram as duas forças políticas a disputarem a eleição de 1934[6].

cafe-filho-brescola
João Café Filho

Naquele pleito Mário Câmara concorreu pelo Partido Social Democrático do Rio Grande do Norte (PSD), fundado em 26 de junho de 1934, que se aliou ao Partido Social Nacionalista do Rio Grande do Norte (PSN), liderado por João Café Filho, constituindo assim a Aliança Social. Seu grupo político ficou conhecido popularmente como “Maristas”, por serem seguidores de Mário Câmara.

Já o candidato escolhido pelos membros do Partido Popular foi o médico Rafael Fernandes Gurjão. Nascido em 1891 na cidade de Pau dos Ferros, era ex-deputado federal e estadual e principal líder da política mossoroense naquela época[7].

Esse confronto entre “Populistas” e “Maristas” se caracterizou pela participação dos atores como ferrenhos adversários, o que gerou um extremo radicalismo e alto grau de violência.

9-5-34
Nota sobre o falecimento do coronel Francisco Pinto em Apodi, publicado no jornal natalense “A República”, edição de 9 de maio de 1934, página 4.

Para o leitor ter uma ideia da situação conflitante, em maio de 1934, seis meses antes da eleição, era assassinado na cidade de Apodi o coronel Francisco Ferreira Pinto, principal chefe oposicionista daquela cidade[8].

Ganhar de Qualquer Forma

Mário Câmara utilizou a máquina estatal para impor medidas visando ganhar as eleições de 1934, muitas delas totalmente arbitrárias.

Foram criados 32 cartórios eleitorais e nomeados pessoas da confiança do interventor para administrá-los. Houve o aparelhamento do Tribunal de Justiça do Estado, com a nomeação de dois novos desembargadores.

DSC09089
Notícia sobre o tiroteio em Parelhas

Já na área de segurança pública o interventor substituiu o tenente do Exército Ney Peixoto, comandante da Polícia Militar, por este ter vínculos com o Partido Popular. Por esta mesma razão foram substituídos muitos delegados em várias cidades do interior e oficiais militares acabaram remanejados para vários pontos do estado. Outra ação nesta área foi o recrutamento de grande número de homens para a Polícia Militar, muitos destes vindos de fora do Rio Grande do Norte[9].

I0019976-3Alt=005378Lar=004177LargOri=005569AltOri=007170
Outra nota em jornal carioca sobre o tiroteio em Parelhas

Com o início dos comícios e caravanas pelo interior do estado o clima político ficou cada vez mais agitado e ocorreram cenas de violência em diversos municípios[10].

Em 13 de agosto, quando era realizado um comício do Partido Popular na cidade seridoense de Parelhas, houve discussões entre membros de ambas as facções, resultando em tiroteio com o saldo de um morto e dois feridos.

18-10-1934 (2)
Diário de Notícias – Rio de Janeiro – 18 de outubro de 1934

Enquanto a campanha se desenrolava, em outubro de 1934, José Augusto, envia um documento ao Supremo Tribunal Eleitoral relatando o clima político existente no Rio Grande do Norte, fazendo inúmeras denúncias de irregularidades e solicitando a presença de tropas federais a fim de garantir as eleições. Mas o Supremo Tribunal Eleitoral decidiu que seria a polícia estadual que deveria garantir o pleito. Em contrapartida, para evitar prisões e salvaguardar a integridade física dos membros do Partido Popular, o Supremo Tribunal Eleitoral concedeu um grande número de Habeas corpus para seus candidatos.

No dia 14 de outubro são realizadas as eleições no mesmo clima de tensão que a antecedeu. Os jornais ligados aos partidos publicaram diversas matérias com mútuas e fortes acusações. Tanto o Partido Popular, quanto a Aliança Social, encaminham recursos ao Tribunal Eleitoral denunciando o uso de violência contra os seus respectivos partidários.

18-10-1934 (1)
Diário de Notícias – Rio de Janeiro – 18 de outubro de 1934

Somente um mês e dez dias depois do pleito é divulgado o resultado das eleições, com fragorosa vitória do Partido Popular. Os “Maristas” então partem para o contra ataque e solicitam ao Tribunal Eleitoral a impugnação de várias urnas no interior. Os magistrados acatam e ficou decidido que eleições suplementares seriam realizadas em 39 seções eleitorais, em 23 municípios, no período de 3 a 28 de fevereiro de 1935. Uma verdadeira bagunça!

Diante desse quadro assustador, na virada do ano de 1935 continuaram ocorrendo vários conflitos no interior do Rio Grande do Norte. O Partido Popular novamente requisita tropas federais e desta vez o Tribunal Superior Eleitoral defere o pedido. Tropas do Exército guarnecem Natal, mas não conseguem impedir a violência no interior.

É quando a região do Seridó vai testemunhar violências que marcaram sua história!

Trazendo o Terror

No município de Jardim do Seridó, mais precisamente na fazenda Sombrio, morava o fazendeiro Felinto Elysio de Oliveira Azevedo. Homem muito respeitado na sua região e de família tradicional, sendo bisneto de Antônio de Azevedo Maia, o fundador de Jardim.

FELINTO ELÍSIO DE OLIVEIRA AZEVEDO
O coronel Felinto na juventude – Fonte – http://www.construindoahistoria.com.br/2011_08_01_archive.html

Conhecido por todos como coronel Felinto Elysio, nasceu em 29 de novembro de 1852 e estava na política desde os 18 anos, quando o Brasil ainda era um Império. Neste período assumiu o comando do Partido Conservador e foi eleito deputado provincial por duas legislaturas. Em 1889, após a Proclamação da República, foi deputado estadual por sete vezes, presidiu a Assembleia Legislativa e por duas vezes governou interinamente o Rio Grande do Norte. Felinto Elysio era, naquele início do ano de 1935, incontestavelmente a principal liderança política de Jardim do Seridó, o principal representante do Partido Popular na sua área e deputado eleito pela Constituinte.

Jardim do Seridó ainda não havia sentido a mão forte do aparato de segurança de Mário Câmara. Afora algumas intimações para comparecimento na delegacia, nada que alterasse a rotina da cidade havia ocorrido. Mas no final da manhã do dia 16 de janeiro de 1935, uma volante policial passou por Jardim em um caminhão e seguiu para o Sombrio, cerca de 18 quilômetros de distância. Consta que a guarnição era comandada pelo tenente Oscar Matheus Rangel, junto com o sargento Milton Campos, cabo Manoel Feitosa e outros doze soldados. Existe a informação que Felinto Elysio já sabia da vinda desta força, mas continuou nas suas atividades normalmente.

FELINTO ELÍSIO DE OLIVEIRA AZEVEDO 2
Felinto Elysio na época dos acontecimentos – Fonte – http://www.construindoahistoria.com.br/2011_08_01_archive.html

Após os militares passarem pela porteira da propriedade, aberta por um soldado, estes seguem para casa grande. Ao se encontrarem com o idoso fazendeiro, eles pedem armas agindo agressivamente e o coronel Felinto nega possuir algum arsenal. Naquele momento, de forma violenta e covarde, o idoso é empurrado e jogado ao chão. Na sequência o respeitado fazendeiro é praticamente arrastado para uma casa onde existia uma máquina a vapor e ali é sumariamente surrado com a parte lateral da lâmina de um facão de cortar capim e terríveis golpes de virola[11].

O drama só cresceu quando uma filha de Felinto, portadora de distúrbios mentais, diante do que faziam com seu pai começou a dar um ataque após o outro e tentou agredir os militares. O pai, impotente, ficou desesperado!

FAZENDA SOMBRIO
Fazenda Sombrio, palco dos tristes episódios – Fonte – O coronel Felinto na juventude – Fonte – http://www.construindoahistoria.com.br/2011_08_01_archive.html

Após largarem o velho fazendeiro em um canto qualquer, este veio praticamente se arrastando e arquejando para sua casa. Enquanto isso os policiais começaram a buscar armas nos cômodos do casarão antigo, onde desarrumaram o quarto do fazendeiro e de sua esposa, Dona Verônica, que, por sorte, não estava na casa e teve várias roupas espalhadas.

Consta que, mesmo depois de tudo que passou, Felinto Elysio ainda mandou fazer um café para a corja fardada. Mas talvez pensando que o café estivesse envenenado no bule, eles recusaram a oferta.

19-2-1935 (3)
Tenente Oscar Matheus Rangel em foto de fevereiro de 1935

Sem encontrar nenhuma arma na propriedade, a malta de celerados fardados deixou o lugar. Mas deixaram aquilo que realmente trouxeram – o terror.

“Não viemos prendê-lo, viemos matá-lo”

Em pouco mais de um mês após o triste episódio na fazenda Sombrio, a crise potiguar, que já era então notícia constante nos jornais, ganha novamente as manchetes.

15-2-1935

Em 13 de fevereiro de 1935, dias antes das eleições suplementares que ocorreriam em Acari, por volta das quatro horas da tarde, na fazenda Ingá, zona rural desta bela cidade seridoense, o engenheiro agrônomo Octávio Lamartine de Faria, filho do ex-governador Juvenal Lamartine, chegou a principal vivenda da propriedade na companhia de um vaqueiro de sobrenome Medeiros.

Consta que Octávio Lamartine vinha da propriedade Caiçarinha. Quando saltou do seu cavalo e notou que um caminhão com vários homens se aproximava.

Otávio Lamartine
O engenheiro agrônomo Octávio Lamartine de Faria

Alguns empregados, ao perceberem que os visitantes eram policiais, lhe aconselharam a sair da casa e assim evitar desacatos. Octávio então pediu a sua tia Francisca Dantas que cuidasse de seus três filhos menores[12].

Ele ficou ao lado de sua esposa Maria Dinorah Cavalcanti Lamartine de Faria e foi a ela que o engenheiro agrônomo pediu que fosse buscar uma cópia de um Habeas-corpus preventivo, concedido pela Corte de Apelações, para mostrar aos “homens da lei” que ele poderia ficar livre[13].

DSC00479
Histórica fazenda Ingá, Acari, Rio Grande do Norte – Fonte – aryssonsoares.blogspot.com

Ao invés de fugir, ou de se munir de uma pistola, de um rifle, ou de um fuzil, Octávio Lamartine se muniu de um documento judicial. Consta que ele ainda estava vestido com sua armadura de couro tradicional dos vaqueiros nordestinos e aguardou os policiais no alpendre de sua casa.

O caminhão parou na porteira e de lá desceu uma volante policial sob o comando do mesmo tenente Oscar Rangel que atacou o coronel Felinto em Jardim do Seridó. Este vinha acompanhado dos sargentos José Galdino de Souza, José Albuquerque dos Santos e mais oito soldados[14].

Cópia de DSC01411
Outra foto de Octávio Lamartine

Octávio foi ao encontro destes e lhes disse que estava munido de um documento que o impedia de ser preso. Ao que o tenente Rangel lhe respondeu com frieza e determinação – “Não viemos prendê-lo, viemos matá-lo”.

Consta nos jornais da época que Dona Dinorah implorou que não acabassem com a vida de seu marido. O tenente mandou que os soldados a afastasse e este teria dito de forma autoritária para ela “Viemos somente matar seu marido. Arrede-se![15].

I0022091-3Alt=005103Lar=003955LargOri=005273AltOri=006804
Foto do cadáver de Octávio Lamartine e publicada em jornais do Rio de Janeiro

Aparentemente, mesmo antes de Dona Dinorah ser retirada do local, Rangel atirou com uma pistola “Mauser” contra o agrônomo, que faleceu com um tiro que lhe atingiu o braço e o pescoço. Não consta que Octávio Lamartine afrontou os policiais, ou que tenha pedido misericórdia. Ele simplesmente foi assassinado!

Depois do crime os matadores fardados retornaram ao caminhão, que já tinha feito a manobra para sair daquele local e mantinha o motor em funcionamento. Ao saírem da propriedade Rangel e seus homens explodiram em fortes aplausos e vivas ao governo Mário Câmara. Depois seguiram para Acari, Parelhas e finalmente Caicó, onde estavam aquartelados.

I0026456-3Alt=005180Lar=003603LargOri=004804AltOri=006907
Missa para Octávio Lamartine, ocorrida no Rio de Janeiro e mandada rezar pelo seu primo José Augusto Bezerra de Medeiros.

Aquela morte covarde, numa incursão realizada a pretexto de busca e apreensão de armas, causou uma grande comoção e indignação no Rio Grande do Norte, com forte repercussão na imprensa de todo Brasil e na Assembleia Nacional, no Rio de Janeiro. O corpo do agrônomo Octávio Lamartine foi depois transportado para Natal, onde seu enterro foi acompanhado por uma grande multidão[16].

Foi aberto um inquérito sob o comando do bacharel Ezequias Pegado, mas logo a peça foi acusada de ser tendenciosa a favor de Mário Câmara e seu governo.

I0022863-3Alt=005075Lar=003898LargOri=005198AltOri=006767

O tenente Rangel só seria pronunciado, juntamente com os sargentos Albuquerque e Galdino, em 4 de maio de 1935. Depois o tenente e os dois sargentos foram presos e ficaram aguardando julgamento no quartel da polícia em Natal[17].

Mudanças Políticas

Mas voltando para as questões políticas da época.

O resultado das eleições de fevereiro de 1935 só foi divulgado no início de abril do mesmo ano, quando a Aliança Social elegeu quinze deputados, contra dez do Partido Popular. Mas a decisão ainda precisava ser deliberada pelo Supremo Tribunal Federal no Rio.

18-10-1934

Em meio a muitas denuncias de violência em todo Rio Grande do Norte e diante do grande número de votos anulados, o Supremo só anunciou o resultado no dia 16 de outubro de 1935 e, por unanimidade, foi proclamada a vitória do Partido Popular, que elegeu quatorze deputados estaduais contra onze da Aliança Social, e três (José Augusto, Alberto Roselli e José Ferreira de Souza) dos cinco deputados federais. Com esta maioria, o Partido Popular elegeria o governador e os senadores federais ligados ao seu partido.

Sentindo-se inseguros no estado, ou desejando evitar deserções, os mandatários e deputados eleitos pelo Partido Popular seguiram para a cidade de João Pessoa e “pediram asilo” ao interventor paraibano Argemiro Figueiredo. Ali ficaram até o final de outubro, quando a assembleia potiguar se reuniu em Natal para eleger o futuro governador.

ALDO (82)
O médico Rafael Fernandes Gurjão – Fonte – Rostand Medeiros

Mesmo com tantos problemas Mário Câmara não desistiu. Com o apoio de Café Filho ele lançou a sua candidatura para governador. Mas, diante da derrota que se pronunciava, terminou retirando sua candidatura e lançando o seu primo Elviro Carrilho no seu lugar. Sem maiores surpresas, este foi derrotado por Rafael Fernandes.

Mário Câmara deixou o Rio Grande do Norte, tendo antes transmitido as responsabilidades do executivo potiguar para o coronel Liberato Barroso, do Exército Brasileiro.

Memória Dolorosa que Persistiu

Mas como ao longo de sua história a classe política potiguar pouco se caracterizou pela inteligência, logo após a posse de Rafael Fernandes foi iniciado um forte processo de perseguição política e administrativa, atingindo pesadamente grande número de funcionários públicos de todos os níveis da administração estadual. Foram substituições que atingiram desde os prefeitos, delegados de polícia, aos mais simples funcionários. Estas ações só serviram para acirrar os ânimos, a raiva e a revolta.

Rangel
Da esquerda para direita vemos os sargentos José Galdino de Souza, José Albuquerque dos Santos e o tenente Oscar Matheus Rangel, na época em que eram procurados em todo Brasil.

Uma parte dos demitidos do serviço público se transformou facilmente em conspiradores e insufladores da revolta dos militares descontentes que serviam no 21º Batalhão de Caçadores, então a principal unidade do Exército Brasileiro em terras potiguares. Isso tudo ajudou para que no dia 23 de novembro de 1935, eclodisse a Intentona Comunista em Natal.

O tenente Rangel e os sargentos Albuquerque e Galdino aproveitaram a ocasião e, temporariamente, se tornaram comunistas. Eles estiveram à frente de uma coluna de combate vermelhas que seguiu para o interior do Rio Grande do Norte, mas foi desbaratada por grupos opositores. Logo forças federais entraram em território potiguar e o movimento foi debelado. Apesar de toda repressão o comandante do grupo de policiais espancadores do coronel Felinto e assassino de Octávio Lamartine, simplesmente sumiu com seus dois colegas de farda.

25-5-1943
Captura de Rangel noticiada em um jornal carioca, dia 25 de maio de 1943.

Agora aqueles três fugitivos não estavam somente implicados em assassinato, eles eram também comunistas. Isso significava muitos outros problemas, além de um maior número de policiais caçando-os. Em março de 1936 foi anunciado nos jornais que Rangel, Albuquerque e Galdino estariam no interior de São Paulo, mas eles não foram capturados[18].

Oscar Matheus Rangel só seria preso oito anos depois, em 19 de maio de 1943. Até 1946 os ex-sargentos Galdino e Albuquerque continuavam foragidos[19].

A notícia da surra no velho coronel Felinto Elysio e o assassinato de Octávio Lamartine causaram extremo impacto na região do Seridó e deixaram marcas profundas na memória local.

DSC00471
Placa existente na fazenda Ingá – Fonte – aryssonsoares.blogspot.com

Em 2004 realizei uma pesquisa sobre temas que abrangiam o cangaço e o coronelismo no Seridó, mais precisamente nas áreas rurais das cidades de Carnaúba dos Dantas, Acari e Jardim do Seridó. Na ocasião entrevistei várias pessoas na faixa de 83 a 96 anos, onde a maioria destes havia trabalhado principalmente como pequenos agricultores.

DSC01273-001
José Augusto Bezerra de Medeiros, em sua última visita a região de Acari, visitando o monumento criado em memória de Octávio Lamartine – Fonte – Luiz G. M. Bezerra

Ao conversarmos sobre a história da região, me chamou atenção como a história da surra no coronel Felinto e a morte de Octávio eram recorrentes. Mesmo em 2004, passados 69 anos daqueles episódios, a violência policial praticada contra aqueles homens respeitados ainda impressionava aquelas pessoas simples[20].

NOTAS


 

[1] Seridoense de Serra Negra do Norte, Juvenal Lamartine de Faria foi eleito para governar o Rio Grande do Norte entre os anos de 1928 e 1931. Era considerado um homem culto, estudioso, atualizado, com muita capacidade administrativa. Durante seu governo criou o Aero Clube do Rio Grande do Norte, implantou campos de pouso no interior, abriu estradas, foi pioneiro dos direitos femininos, fazendo aprovar a primeira legislação estadual que concedia o direito de voto à mulher. Seu governo ficou marcado na memória potiguar pelo combate ao banditismo e ao cangaço, mas com tremendos excessos realizados por policiais. Sua personalidade autoritária contribuiu para o crescimento da oposição, principalmente nos redutos locais, sendo seu principal oponente o jornalista e advogado trabalhista João Café Filho. Juvenal Lamartine foi deposto em 5 de outubro de 1930 e permaneceu na Europa até o ano de 1933.

[2] Compunham a junta militar que depôs Juvenal Lamartine os coronéis Luís Tavares Guerreiro, Abelardo Torres da Silva Castro e o tenente-coronel Júlio Perouse Pontes.

[3] Antes de ser interventor no Rio Grande do Norte, Irineu Joffily exercia o cargo de Secretário de Segurança Pública da Paraíba.

[4] Ver http://www.dhnet.org.br/memoria/1935/livros/homero/cap_2_1.htm

[5] José Augusto Bezerra de Medeiros nasceu na Cidade do Príncipe (Caicó) aos 22 de setembro de 1884, sendo seus pais o Prof. Manuel Bezerra de Araújo e D. Cândida Olindina de Medeiros. Bacharelou-se em 1905 em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife. Professor de História e Geografia no Ateneu Norte-riograndense em Natal. Juiz de Direito da Comarca de Caicó, de março de 1912 a abril de 1913. Deputado Estadual, Deputado Federal por 05 legislaturas, Governador do Estado, Senador da República por duas vezes. Conquistou e honrou títulos honoríficos de instituições estrangeiras e nacionais. Dirigiu as revistas A Educação (1922 a 1924) e Revista Brasileira de Educação (1929 a 1930). Colaborou como redator em diversos jornais. Intelectual, escreveu várias obras. Dentre elas: Pela Educação Nacional – 1918, A Representação Profissional nas Democracias – 1933, Famílias Seridoenses – 1940, O Sal e o Algodão na Economia Potiguar – 1946, Seridó – 1954 e Amaro Cavalcanti – 1954. Faleceu no Rio de Janeiro no dia 28 de maio de 1971. Fonte – http://jotamaria-oficinamecanica.blogspot.com.br/2010/05/estatua-de.html

[6] Ver http://www.rn.anpuh.org/evento/veeh/ST02/Os%20decaidos%20de%201930%20Jose%20Augusto%20Bezerra%20de%20Medeiros%20e%20a%20reconfiguracao%20politica%20do%20Rio%20Grande%20no%20Norte%20pos-revolucao.pdf

[7] Em 1934 o Rio Grande do Norte tinha alistado quase 48.000 eleitores, que deveriam escolher através do voto direto cinco representantes para a Câmara Federal e vinte e cinco para a Câmara Estadual. Naquela eleição, apesar de não conseguirem êxito, outras duas organizações partidárias concorreram ao pleito. Foi o Partido União Operária Camponesa do Brasil, com representantes do Partido Comunista do Brasil (PCB), e a Ação Integralista Brasileira (AIB). Este último partido possuía seções em diversos estados do país, era de inspiração fascista, nacionalista, anticomunista e tinha como chefe nacional Plínio Salgado. Seu lema era “Deus, Pátria e Família”.

[8] Francisco Ferreira Pinto nasceu na cidade de Apodi, no dia 17 de abril de 1895. Era filho  de Cassimiro Ferreira Pinto e Vicência Gomes de Oliveira. Foi agricultor, comerciante e político. Nesta última atividade chegou a participar da Intendência Municipal, foi deputado estadual e foi o primeiro administrador de Apodi com o título de prefeito em 1928. Foi um político de grande prestígio em toda a região e bastante conhecido no Estado, pelo seu trabalho e dinamismo. Conseguiu importantes melhoramentos para sua terra. Chico Pinto. Por isso, despertou  nos seus adversários em Apodi  os sentimentos de inveja e perseguição, o que motivou a trama de sua morte com o objetivo de ganharem a eleição de 1934 em Apodi e no Estado. No dia 02 de maio daquele ano foi assassinado no seu próprio lar quando se preparava para dormir. Apesar do acontecimento, o Partido Popular ao qual ele pertencia, foi vitorioso em Apodi e no Rio Grande do Norte. O lamentável episódio teve grande repercussão no Rio Grande do Norte. Em frente à Prefeitura Municipal existe uma pequena estátua em homenagem a Francisco Ferreira Pinto. Fonte – http://tudodeapodi.blogspot.com.br/2010/10/biografia-de-chico-pinto.html

[9] Ver ARAÚJO, M. de F. D.; ALVES, J. da S.; ARAÚJO, Q. L. R. de; SILVA, F. M. da e ARAÚJO, S. M. de. As violentas eleições de 14 de outubro de 1934. História do RN n@ WEB [On-line]. Available from World Wide Web: URL: www.seol.com.br/rnnaweb

[10] Ver http://www.dhnet.org.br/memoria/1935/livros/homero/cap_2_1.htm

[11] Esta era um tipo de açoite, normalmente feito de pneus de caminhão, que se tornou o instrumento de tortura preferido para desferir surras homéricas e massacrar os adversários de Mário Câmara. Normalmente estas torturas eram praticadas pela verdadeira súcia de canalhas que vestiu de forma desonrosa a farda da Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte. Mas é importante registrar que a virola como instrumento de tortura em terras potiguares não foi algo criado no governo de Mário Câmara, seu uso era muito anterior.

[12] Octávio Lamartine de Faria tinha 31 anos quando foi assassinado. Nascido em Acari, Rio Grande do Norte, era filho de Juvenal Lamartine de Faria e Silvina Bezerra de Araújo Galvão. Havia se formado pela Escola Agrícola de Lavras, Minas Gerais, e em 1925 fez uma especialização na Universidade de Geórgia, Estados Unidos. Entre 1928 ne 1930 foi Diretor do Serviço de Algodão do Rio Grande do Norte.

[13] Maria Dinorah Cavalcanti Lamartine era filha do Advogado potiguar Francisco Ivo Cavalcanti.

[14] Nesse tempo os sargentos Galdino e Albuquerque eram respectivamente delegados em Parelhas e Acari.

[15] Na década de 1990 eu visitei esta propriedade e tive oportunidade de ver um orifício redondo, com certas dimensões, na porta da casa grande da fazenda Ingá, que segundo as pessoas que moravam no local teria sido provocado pelo projetil que matou Octávio Lamartine.

[16] Ver jornal “Correio da Manhã”, Rio de Janeiro-RJ, edição de terça-feira, 19 de fevereiro de 1935, pág. 2.

[17] Ver jornal “Correio da Manhã”, Rio de Janeiro-RJ, edição de terça-feira, 7 de maio de 1935, pág. 3.

[18] Ver periódico “O Jornal”, Rio de Janeiro-RJ, edição de domingo, 23 de março de 1936, pág. 6.

[19] Existem duas versões para a prisão de Oscar Rangel. Uma é fornecida pelo jornal natalense “A República”, onde soubemos que Rangel se encontrava em Salvador, na Bahia, atuando na Polícia Civil daquele estado como o “Agente Valdemar”. Outra é fornecida pelo periódico carioca “O Jornal”, onde Rangel, igualmente com o nome de Valdemar, era um simples lavrador na localidade de Pirituba, município de Mundo Novo, centro da Bahia, onde mantinha uma vida classificada como “exemplar”. Ambas as versões afirmam que ele não reagiu a sua prisão. Rangel foi condenado a 30 anos de cadeia pelo assassinato de Octávio Lamartine. Ver jornal “A República”, Natal-RN, edição de terça-feira, 1 de junho de 1943, pág. 2 e ver igualmente o periódico “O Jornal”, Rio de Janeiro-RJ, edição de terça-feira, 25 de maio de 1943, pág. 8.

[20] Ver http://www.construindoahistoria.com.br/search/?q=Felinto&x=0&y=0 e Ver – SPINELLI, José Antônio. Getúlio Vargas e a Oligarquia Potiguar: 1930/1935.Natal, EDUFURN, 1996

 

 

UMA BOA NOTÍCIA – A RESTAURAÇÃO DA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE PEDRO AVELINO – RN

A (4)
Reconstrução da estação ferroviária de Pedro Avelino – Fotos – Rostand Medeiros

Em meio a uma época onde impera grandes problemas em terras potiguares, onde grande parte do seu território sofre o flagelo da seca e a situação do nosso patrimônio histórico anda bastante combalida, podemos anunciar que temos uma boa notícia.

Em maio de 2014, ao passar pela cidade de Pedro Avelino, na Região Central do Rio Grande do Norte, presenciei o estado de degradação e abandono da sua antiga estação ferroviária.

dscf3444-copy
A situação do local no início de 2014

Na época fiz uma postagem sobre a situação deste patrimônio, adicionando fotos, conforme os leitores poderão ver com mais detalhes neste link – http://tokdehistoria.com.br/2014/05/29/exemplo-de-descaso-com-o-patrimonio-historico-ferroviario-potiguar/

Como comentei na ocasião, em 2013 foi anunciada por parte do Governo Federal a liberação do prédio para a prefeitura de Pedro Avelino e em 25 de outubro daquele mesmo ano foram empenhados recursos da ordem de R$ 341.250,00, junto ao Ministério do Turismo, para transformar o velho prédio em um centro de cultural.

A (1)

Parece que finalmente as barreiras da burocracia foram superadas e este patrimônio deverá ser em breve totalmente recuperado, salvo e melhor utilizado.

Inaugurada em 8 de janeiro de 1922, quando Pedro Avelino era chamada de Epitácio Pessoa. A chegada dos trilhos de ferro alterou substancialmente os aspectos sociais e econômicos do lugar, tento que no ano de 1938 o pequeno lugarejo foi elevado a distrito e dez anos depois se desmembrou do município de Angicos.

Parabéns a comunidade de Pedro Avelino!

1926 – COLUNA PRESTES NO RIO GRANDE DO NORTE – PROCESSO RELATIVO AO INCÊNDIO DO CARTÓRIO DA CIDADE DE SÃO MIGUEL-RN

EJR_7490
O Juiz de Direito Felipe Luiz Machado Barros

PRESTO AQUI UMA SINGELA HOMENAGEM AO JUIZ DE DIREITO FELIPE LUIZ MACHADO BARROS, QUE DEU INÍCIO AO TRABALHO DE PRESERVAÇÃO E DEMOCRATIZAÇÃO DO CONTEÚDO DESTE DOCUMENTO.

Recentemente fui agraciado com o título de cidadania da cidade de São Miguel, Rio Grande do Norte, onde recebi esta honraria com extremo orgulho e gratidão.

Para esta bela cidade eu retornei no último dia 18 de setembro de 2015, onde participei de uma festa verdadeiramente maravilhosa. Ali reencontrei muitos amigos e amigas, além de voltar a uma cidade pela qual tenho enorme carinho.

Diplomação (31)

Durante o evento eu tive a oportunidade de conhecer o jovem Juiz de Direito Felipe Luiz Machado Barros, que igualmente estava tendo a honra de receber este título de cidadania. Ele é o atual juiz da Comarca de São Miguel e uma pessoa que possui extremo conhecimento, sensibilidade e prazer pela história.

Não posso negar que sempre me sinto muito feliz e recompensado ao encontrar pessoas que sabem reconhecer a importância da história para o aprimoramento da cidadania de uma comunidade. Melhor ainda quando estas pessoas partem para a realização de ações práticas!

Pesquisando no arquivo de sua Comarca, o Juiz Felipe encontrou o documento do processo sobre o incêndio ocorrido no cartório da cidade de São Miguel em 1926 e praticado pelos membros da famosa Coluna Prestes, que ficaram conhecido nas região como “Revoltosos”.

Diante da importância histórica deste documento, o juiz Felipe transcreveu o texto na íntegra e iniciou os processos de preservação deste valioso material.

DSC04892

Anteriormente no nosso TOK DE HISTÓRIA eu reproduzi um texto sobre a passagem da Coluna Prestes na região. Texto esse que faz parte do meu segundo livro “João Rufino – Um visionário de fé”. Para ver este texto clique neste link – http://tokdehistoria.com.br/2012/01/03/a-historia-da-coluna-de-revoltosos-em-sao-miguel/

Mas voltando ao trabalho realizado por este jovem juiz, ele é merecedor dos mais amplos e fortes elogios. Em um texto escrito por este magistrado, que me foi repassado pela amiga e professora Geania Leite, os leitores do nosso TOK DE HISTÓRIA poderão compreender mais sobre este episódio que tanto marcou a região da Serra do Camará.

Ao explicar sua ação, no seu escrito o Juiz Felipe Barros deixa registrado uma frase que para mim é verdadeiramente música – Preservar a história é papel de cada cidadão.

Imagem 037
Igreja de São Miguel na década de 1950 – Foto – René Guida

Mesmo eu não sendo funcionário do Tribunal de Justiça, tenho conhecimento das enormes dificuldades, problemas e do tempo limitado para que ações assim se tornem corriqueiras nas comarcas potiguares. Entretanto, seria algo maravilhoso que outros juízes, promotores e pessoas do direito seguissem o exemplo deste jovem e dinâmico magistrado.

Muito obrigado Dr. Felipe Barros.

Atenciosamente,

Rostand Medeiros

Escritor e Pesquisador

P.S. – Para manter a linha editorial do TOK DE HISTÓRIA, decidi acrescentar fotografias de antigas manchetes do ataque de 1926 e da cidade de São Miguel ao texto resgatado pelo Juiz Felipe Barros. Igualmente coloquei em negrito algumas frases do texto copiado do original. As fotos possuem apenas um caráter meramente ilustrativo e fazem parte da coleção do historiador e meu amigo René Guida.

Imagem 467
O responsável pelo blog TOK DE HISTÓRIA na época das pesquisas para o desenvolvimento do livro “João Rufino-Um visionário de fé”. Este maquinário é do antigo engenho onde ocorreu um forte tiroteio entre os defensores da cidade de São Miguel e os membros da Coluna Prestes.

_____________________________________________________

Domingo, 16 de fevereiro de 2014

Um pouco de história: proc nº 1-1926, da Comarca de São Miguel.
Por Felipe Luiz Machado Barros
Juiz de Direito titular da Vara Criminal de Macaíba, Rio Grande do Norte
Juiz designado para a Comarca de São Miguel e Diretor do Foro

Nos arquivos do Fórum da Comarca de São Miguel foi encontrado o processo com registro de tombo de nº 1 do ano de 1926.

Naquele tempo os processos eram todos reunidos em um único cartório, que fazia as vezes de tabelionato e secretaria de vara judicial (atualmente os cartórios são separados: os judiciais, onde funcionam os juízes, e os extrajudiciais, onde continuam os registros de pessoas naturais e jurídicas, de imóveis, de notas, etc., e que têm à frente um tabelião).

SM
Imagem meramente ilustrativa de um típico combatente da década de 1920 dos sertões do Nordeste. Os membros da Coluna Prestes se vestiam, estavam equipados e armados de forma similar.

O número 1 indica que o processo foi o primeiro a ser registrado em 1926, e sua abertura deveu-se a um fato inusitado: havia a chamada “Coluna de Revoltosos” (nome dado à época à Coluna Prestes), em passagem por São Miguel, ateado fogo no cartório da cidade.

Temos assim um valioso registro oficial da passagem da famigerada “Coluna Prestes” pelo Estado do Rio Grande do Norte, lá pelo alto oeste, mais precisamente pela “Villa” de São Miguel, então sob a influência política de Coronel João Pessoa de Albuquerque, Deputado Estadual.

A instauração do processo para apuração das causas do incêndio (por isso chamado de “auto de incêndio”) no cartório se deu por ordem do juiz de direito da “Commarca” de Pau-dos-Ferros, Dr. João Vicente da Costa, na data de 18 de fevereiro de 1826, que substabeleceu as funções ao “cidadão” Elinas Dias da Cunha, juiz districtal da Villa de São Miguel.

Imagem 003
Tradicional imagem do Arcanjo São Miguel venerada na Serra do Camará – Foto – René Guida

Os originais foram entregues à administração do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte a fim de que sejam preservados pelo Centro de Memória ali existente, organizado pelo servidor Eduardo Gosson, porém tomei o cuidado de copiar os autos em arquivo PDF, podendo ser aqui acessado.

Abaixo segue a transcrição feita por mim mesmo; foi difícil em razão do formato da letra da época, estilo de escrita, mas, enfim, acho que deu certo, e agora tive tempo de disponibilizar.

Preservar a história é papel de cada cidadão.

*************************************************************

TRANSCRIÇÃO FEITA EM 30-9-2013 – PROC. 1/1926 – COMARCA DE SÃO MIGUEL

(Autor: Felipe Barros, Juiz de Direito titular da Vara Criminal de Macaíba, designado para a Comarca de São Miguel)

DSC09763

1926

Juízo Districtal da Comarca de São Miguel

Registro Cronológico nº 1

Auto de incendio no cartorio do publico judicial, a requerimento do Doutor Juiz de Direito da Comarca de Pau dos Ferros, com Jurisdição nesta de São Miguel.

O Escrivão

José Avelino Pinheiro

Autoação

Ano de mil novecentos vinte seis, nesta Villa e Comarca de São Miguel, Estado do Rio Grande do Norte, aos vinte três de fevereiro de dito anno, autoei no meu cartorio o officio e auto que adiante xx, do que fiz esta autoação.

São Mioguel (1)
Foto – René Guida

Eu, José Avelino Pinheiro, escrivão que a escrevi.

Autoados.

Juizo de Direito da Comarca de Pau dos Ferros, em 18 de Fevereiro de 1926.

Ilmo. Sr. 1º Juiz Districtal de S. Miguel.

Scientificado pelo Escrivao do Cartorio do publico judicial e notas desse districto e comarca, ora sob minha jurisdição, do incendio do mesmo cartorio por um grupo da numerosa horda de rebeldes que, no dia 4 do corrente, invadiu esse municipio, recomendo-vos que façais proceder a auto circunstanciado sobre o referido facto, do qual conste a verificação, entre outros que forem julgados convenientes, dos seguintes pontos: 1º Houve incendio? 2º Foi total ou parcial? 3º Se parcial, quais os pontos attingidos? 4º Onde teve começo? 5º Qual a materia que o produziu? 6º Havia em deposito ou derramada em algum local qualquer materia explosiva ou inflamavel? 7º Qual o modo por que foi ou pareça ter sido produzido o incendio? 8º Que objectos ou contas foram incendiados? 9º Quaes os effeitos ou resultados do incendio? 10º Si foram incendiados ou por qualquer forma inutilizados, livros de notas, do registro civil, registro geral de imóveis ou hippotteccas, termos, autos, etc? 11º Si houve arrombamento ou violencia a qualquer móvel ou imóvel? 12º Qual o valor do damno causado?

São Mioguel (2)
Foto – René Guida

Cumprida essa diligencia, por meio do referido auto de incendio, assignado pelas principaes auctoridades locaes, e fazendo-se, a seguir, o exame pericial competente, de accordo com os quesitos supra, que do alludido auto, como medida preliminar, constarão em forma de narrativa, deveis me remetter tres copias desse processado, afim de serem encaminhadas à Secretaria do Governo e do Tribunal e de archivar uma neste Juízo.

Saúde e Fraternidade,

João Vicente da Costa

Auto de incendio

Aos vinte trez dias do ano mês de fevereiro de mil novecentos vinte seis, nesta Villa de São Miguel, Districto e Comarca do mesmo nome, às doze horas do dia, presentes o cidadão Elinas Dias da Cunha, primeiro Juiz Districtal, em exercício, comigo escrivão de seu cargo abaixo-assinado e mais os cidadãos Cel. João Pessoa de Albuquerque, Deputado Estadual e Presidente da Intendência, Major Manoel Antônio Nunes, primeiro substituto do Juiz Federal, Vicente Ferreira de Souza, Delegado de Polícia Francisco da Costa Queiros, Promotor Publico interino da Comarca, Doutor Antonio Gonçalves Vieira, medico residente nesta Villa, perante os mesmos, foi procedida a verificação do incendio, feito no cartorio publico do judicial e notas, nesta Villa, no dia quatro do corrente, pelas quatorze horas, por um grupo de rebeldes chefiado pelo General Miguel Costa e Coroneis Carlos Prestes e João Alberto e outros mesmos graduados, constatando-se o seguinte: que foi arrebentada a porta e revolvidos todos os papéis e livros de qualquer natureza que foram arrastados para fora, sendo queimados ao pé da calçada do mesmo predio, onde se encontravam cinzas; que nenhum livro ou auto ficou em cartorio, o que tudo foi especionado devidamente pelas autoridades acima declaradas, e assim mandou o Juiz que se lavrasse este, que depois de lido e achado conforme, vai assignado por todos.

São Mioguel (4)
Foto – René Guida

Eu, José Avelino Pinheiro, escrivão que o escrevi.

Elinas Dias da Cunha
João Pessoa de Albuquerque
Manoel Antonio Nunes
Vicente Ferreira de Souza
Dr. Antonio Gonçalves Vieira
Francisco da Costa Queiros

Conclusão

Na data retro e lugar, no meu cartorio, faço estes autos conclusos, ao Juiz Districtal no exercício, cidadão Elinas Dias da Cunha, do que diz este termo. Eu, José Avelino Pinheiro, escrivão que o escrevi.

Conclusão

Devendo-se proceder o auto a perguntas ao serventuário respectivo José Avelino Pinheiro, nomeio para substitui-lo nas suas funções ad hoc o cidadão José Pessoa de Carvalho, que juntará o compromisso legal. Intimem-se depois os cidadões Dr. Antonio Gonçalves Vieira e Manoel Vieira de Carvalho para procederem ao competente exame pericial no cartorio publico em prezença de duas testemunhas, tendo em vista as perícias requeridas na petição à fls.

São Miguel, 23 de fevereiro de 1926.

São Mioguel (5)
Foto – René Guida
  1. Cunha

Data

Na data supra e lugar, no meu cartorio, por parte do dito Juiz me foram entregues estes autos, do que fiz este termo. Eu, José Avelino Pinheiro, escrivão que o escrevi.

Certidão

Certifico que em virtude do despacho retro e supra do Juiz, intimei ao cidadão José Pessoa de Carvalho, pelo conteúdo do referido despacho; Dou fé.

São Miguel, 23 de fevereiro 1926.

O Escrivão.
José Avelino Pinheiro.

Termo de compromisso de escrivão ad-hoc.

Aos vinte trez de fevereiro de mil novecentos vinte seis, nesta Villa e Comarca de São Miguel, no meu cartorio, presente o Juiz Districtal no exercício, cidadão Elinas Dias Cunha, comigo escrivão effectivo de seu cargo, abaixo nomeado e sendo ahi compareceu o cidadão José Pessoa de Carvalho, a quem o dito Juiz deferiu o compromisso legal de escrivão ad-hoc, para funcionar no presente feito.
E sendo por ele aceito o dito compromisso, prometteu cumprir tudo debaixo das responsabilidades de seu cargo; do que fiz este termo. Eu, José Avelino Pinheiro, escrivão que o escrevi.

Elinas Dias da Cunha
José Pessôa de Carvalho
Certidão

SAO MIGUEL ARCANJO
Altar da igreja de São Miguel – Foto – René Guida

Cerifico em virtude do despacho retro do Juiz, intimei nesta Villa aos peritos Dr. Antonio Gonçalves Vieira e Manoel Vieira de Carvalho, bem como as duas testemunhas, por todo conteúdo do referido despacho do que ficaram bem scientes; dou fé.
São Miguel, 23 de fevereiro de 1926.
O Escrivão ad-hoc
José Pessôa de Carvalho

Termo de compromisso dos peritos nomeados

Aos vinte e trez de fevereiro de mil novecentos vinte seis nesta Villa e Comarca de São Miguel, no cartorio publico, presente o cidadão Elinas Dias da Cunha, Juiz Districtal no exercicio, comigo escrivão ad-hoc de seu cargo abaixo assinado, e sendo ahi compareceram os cidadãos Dr. Antonio Gonçalves Vieira e Manoel Vieira de Carvalho, a quem o dito Juiz defferiu o compromisso legal de peritos para fazerem investigações acerca do incendio do cartorio publico desta Villa. E sendo por elles acceito o dito compromisso prometteram tudo comigo debaixo da responsabilidade de seus cargos; do que para constar fiz o presente termo que assignam com o Juiz.
Eu, José Pessôa de Carvalho, escrivão ad-hoc o escrevi.

Elinas Dias da Cunha
Dr. Antonio Gonçalves Vieira
Manoel Vieira de Carvalho

São Miguel
Foto – René Guida

Auto de verificação o incendio do cartorio publico da Commarca de São Miguel.

Aos vinte e trez dias do mez de fevereiro de mil novecentos vinte e seis nesta Villa e Comarca de São Miguel no cartorio publico, presente o Juiz Districtal em exercício, cidadão Elinas Dias da Cunha, commigo o escrivão ad-hoc de seu cargo abaixo nomeado, e ahi compareceram os peritos retro compromissados e as testemunhas Francisco Nogueira de Queiroz e Avelino Tavares Magalhães, todos maiores, negociantes e residentes nesta Villa, de idoneidades moraes, e o refferido Juiz encarregou aos dois primeiros de procederem as investigações que julgassem necessarias acerca do incendio do cartorio publico do judicial e notas desta Commarca de São Miguel, e que respondessem aos quesitos seguintes: 1º Se houve incendio? 2º Se foi total ou parcial? 3º Se parcial, quais os pontos attingidos? 4º Onde teve começo? 5º Qual a materia que o produziu? 6º Se havia em deposito ou derramada em algum local qualquer materia explosiva ou inflamavel? 7º Qual o modo por que foi ou pareça ter sido produzido o incendio? 8º Que objectos ou cousas foram incendiados? 9º Quaes os effeitos ou resultados do incendio? 10º Se foram incendiados ou por qualquer forma inutilizados, livros de notas, do registro civil, registro geral de immóveis ou hipotheccas, termos, autos, etc? 11º Se houve arrombamento ou violencia a qualquer móvel ou imóvel? 12º Qual o valor do damno causado?. Em consequencia do que passaram os peritos a faserem as investigações nescessarias, concluidas as quais declararam o seguinte: que examinando as portas do predio que serve ao cartorio publico bem como as portas da casa de morada contigua ao mesmo cartorio verificaram estarem algumas deterioradas a ponto de permettir a invasão do refferido predio, no qual se observa estar o archivo geral completamente desocupado, notando-se ao pé da calçada do cartorio grande quantidade de cinzas, ficando denegrido o local do incendio pelo que responderam: ao primeiro quesito, sim, ao segundo, que foi total, ao terceiro prejudicado com a resposta do segundo, ao quarto, ao pé da calçada, ao quinto, que se tratando de papeis, nescessario se fez apenas phosphoros, ao sexto, não, ao setimo, produzido pelos phosphoros, ao oitavo, todos os papeis e livros existentes no cartorio, ao nono, destruição completa, ao decimo, sim, ao decimo primeiro, sim, ao decimo segundo, valor inestimavel. E são estas as respostas que em suas consciencias e debaixo do compromisso prestado, tem a faser. E como nada mais disseram, mandou o Juiz encerrar o presente auto que depois de lido e achado conforme assignou com os peritos e testemunhas.
Eu, José Pessôa de Carvalho, escrivão ad-hoc, o escrevi e assigno.

Elinas Dias da Cunha
Dr. Antonio Gonçalves Vieira
Manoel Vieira de Carvalho
Francisco Nogueira de Queiroz
Avelino Tavares Magalhães
José Pessôa de Carvalho

São Mioguel (3)
Foto – René Guida

Auto de perguntas feitas ao escrivão e tabelião José Avelino Pinheiro.

Aos vinte e seis dias do mez de fevereiro de mil novecentos vinte e seis nesta Villa e Comarca de São Miguel, no cartorio publico, presente o cidadão Elinas Dias da Cunha, Juiz Districtal em exercicio commigo escrivão de seu cargo nomeado, e sendo ahi compareceu o escrivão e tabelião effectivo José Avelino Pinheiro, a quem o dito Juiz fez as perguntas seguintes: perguntado qual seu nome, naturalidade, estado, profissão, filiação e residencia, respondeu chamar-se José Avellino Pinheiro, nactural do Estado do Ceará, casado, escrivão e tabelião effectivo desta Commarca, filho de Joaquim Pinheiro de Almeida e residente nesta Villa. Perguntado como se havia dado o facto do incendio do cartorio publico que estava sob sua guarda como escrivão effectivo, respondeu que no dia quatro, estando refugiado em casa do Pe. Tertuliano Fernandes, depois de já ter vindo do Sítio “Póto”, proximo a esta Villa, com garantia de um dos officiaes dos rebeldes, e pelas 14 horas ou 15 aproximadamente, houvio fortes pancadas que lhe pareceram ser em portas de casas nesta Villa; e a esse tempo lhe chega seu contra-parente, Antonio Rodrigues de Carvalho, que com pressão fora intimado por um dos officiais rebeldes a lhe mostrar as portas do edificio onde foncionava o cartorio publico; e coagido foi obrigado a incinerar o refferido predio onde por meio de arrombamento das portas alem de danificação de algumas de casa de sua residencia, fez incursão no primeiro de onde retirou todos os papeis concernentes ao archivo do cartorio publico bem como do militar que estava sob minha guarda, e collocando-os ao pé da calçada do refferido predio incendiou-os com o auxilio de uma lata de kerosene conduzida por José e tal, vulgo “José Biró”, vulgarmente conhecido nesta Villa. Somente no dia 6 do corrente é que tomei chegada a minha casa e pude verificar a destruição na repartição a meu cargo além dos prejuisos em minha casa de morada que fica contigua, que avalio em roupas e objectos na quantia de trez contos de réis, afora pequena parte escriptu commercio particular que foi totalmente danificado junto com os papeis do cartorio. Os livros e objectos que tenho em minoria destruidos pela horda são os seguintes – archivo eleitoral – trezentos e cincoenta autos de eleitores; trez volumes de leis que regulava o serviço eleitoral federal e eleitoral; o livro de termo de inclusão de cada eleitor; o livro de ordem numerica de cada eleitor; e os demais papeis como sejam: officios, circulares, telegrammas e outros quaisquer, exceto o livro das assinaturas dos eleitores que está sob a guarda do Dr. Juiz de Direito que tem jurisdição nesta Commarca. – Archivo geral do escrivão e tabelião. Fôram incendiados todos os livros do registro de nascimentos, casamentos, obtos, de notas do tabelionato, de inventarios, arrolamentos e sumarios, autos-crimes, inclusive de Geraldo Affonso da Silva, que sentenciado a trinta annos conforme a ultima sentença do Jury, se acha recolhido na cadeia de Mossoró à requisição do mesmo Dr. Juiz de Direito com jurisdição nesta Commarca; bem como destruídos os autos de Agostinho Nogueira de Queiroz, pronunciado no art. 294, o que se acha homisiado no Estado do Ceará; assim mais foram incendiados diversos autos de demarcação e divisão de terras de licença para venda de immoveis, de habilitações para casamentos, etc. – Registro hypotecario – tambem foram incendiados todos os livros concernentes ao officio de que se trata. – Archivo militar – foram também incendiados todos os livros e papeis do archivo militar como sejam: livros de alistamento geral, circulares, telegrammas, officios, listas de sorteados e o expediente para o serviço do corrente anno, de cujo archivo era o secretario e estava sob minha guarda. Alem de todos os papeis acima referidos, tambem foram danificados totalmente dois codigos do processo penal annotados, dezeceis volumes da Revista do Supremo Tribunal, um codigo civil do Estado, um codigo de processo penal do Estado, diversos formularios e um regulamento da policia estadual. E como nada mais disse nem lhe foi perguntado, deu-se por findo este auto que lhe sendo lido e achar conforme assigna com o Juiz.
Eu, José Pessôa de Carvalho, escrivão ad-hoc, o escrevi e assigno.

Elinas Dias da Cunha
José Avelino Pinheiro
José Pessôa de Carvalho

São Miguel-Escola Padre Cosme-1
Escola Padre Cosme na década de 1920 – Foto – IHGRN

Conclusos

Na data retro e lugar no cartorio publico faço estes autos concluzos ao primeiro Juiz Districtal no exercicio, cidadão Elinas Dias da Cunha; do que fiz este termo. Eu, José Pessôa de Carvalho, escrivão ad-hoc, o escrevi.

Conclusos

De conformidade com a requisição do Doutor Juiz de Direito da Comarca de Pau dos Ferros, constante de seu officio de 18 do actual, o escrivão extraia trez copias de todo o processado para lhe ser remettidos tudo de acordo com o citado officio.

São Miguel, 28 de fevereiro de 1926.

E.Cunha

Data

Na data supra e lugar no cartorio publico por parte do dito Juiz me foram entregues estes autos; do que fiz este termo. Eu, José Pessôa de Carvalho, escrivão ad-hoc o escrevi.

DSC08871
Nota publicada na imprensa potiguar em 1926 pelo governo do Rio Grande do Norte sobre o ataque da Coluna Prestes no Alto Oeste 

Certidão

Certifico que extraí as trez copias deste processado conforme determinou o Juiz em seu despacho de fls. retro; dou fé.

São Miguel, 25 de fevereiro de 1926.

O Escrivão ad-hoc.
José Pessôa de Carvalho.

 

O ANTIGO ATO DE “ROUBAR A NOIVA” NO VELHO SERTÃO

Típico casamento no sertão potiguar na década de 1920
Típico casamento no sertão potiguar na década de 1920
Como aconteciam os namoros no sertão de outrora. Suas regras, limitações e como se “adiantavam os papéis” com honra, decoro e respeito.

Autor – Rostand Medeiros

No antigo sertão potiguar, tal como hoje, as pessoas mantinham em suas existências uma tradicional preocupação com o medo das secas e a sempre renovada esperança das chuvas. Mas também era uma época onde a maioria da população sobrevivia com poucas possibilidades de ascensão financeira, em meio a uma intensa cobrança em relação aos costumes sociais.

Segundo apontam aqueles que conhecem a história do sertão potiguar, nas relações humanas no passado, o namoro era antes de tudo um tórrido drama com pinceladas de comédia e extrema teatralidade.

I0018457-3Alt=002590Lar=001786LargOri=002381AltOri=003454

Namoro Tradicional

A coisa toda começava com olhares rápidos e gestos extremamente controlados. E o olhar nestes casos era direto nos olhos. Quase sempre discreto e fugidio. Além do mais, se o pretendente “escorregasse” as íris para outras partes do corpo da pretensa amada, isso poderia gerar vários e sérios problemas!

Já o tocar-se, sentir a pele e o calor da pessoa que se desejava era algo infinitamente mais complicado. Tudo poderia, por exemplo, começar com um discreto e pequeno toque entre as mãos dos pretendentes, na hora de receber a hóstia, em uma missa dominical na matriz da cidade.

Vale frisar que para aqueles jovens, na maioria das vezes, bastava essa simples troca de olhares, esse leve encontro das mãos, para que em seus corações e mentes existisse a certeza que eles estavam concretamente “namorando”.

I0000099-2Alt=002576Lar=001590LargOri=003757AltOri=006088

Em muitos casos, principalmente quando havia forte afinidade entre as famílias envolvidas, a relação evoluía para rápidos, esquivos, inocentes e emocionantes encontros furtivos em festas de padroeiro, casamentos de amigos e contatos rápidos nas esquinas.

Mesmo com a anuência de ambas as famílias sobre aquela relação, não significava que “os bons costumes, o decoro e o recato”, sempre exigidos para uma moça de família e um rapaz de origem tradicional, fossem quebrados com coisas como abraços apertados, mãos passando pelos corpos e languidos beijos de boca.

Muitas vezes, para aliviar paixões sempre avassaladoras, os futuros nubentes eram forçados a recorrer a cartinhas e bilhetinhos levados pelas tradicionais “comadres”. Onde não faltavam segredos temperados de ciúmes e dúvidas atrozes, que assoberbavam principalmente os amargurados dias do amoroso sujeito.

Quando a família da futura noiva aceitava a presença do possível pretendente, mesmo ele sendo filho de uma família amiga e tradicional do burgo, acontecia toda uma série de formas de condutas e gestos, onde o rapaz era milimetricamente analisado em tudo que fazia.

I0027013-3Alt=002620Lar=001858LargOri=002477AltOri=003493

Mas, para muitos destes jovens, está na casa da dita “namorada”, mesmo que cercado por pares de olhos extremamente atentos era algo que lhe causava uma intensa emoção.

Se um dia fosse convidado a sentar-se na sala de visitas, quando no interior do sacrossanto recinto, após cruzar a incrível linha divisória do portão de entrada da casa da amada, este era capaz de sofrer vertigens.

Para está neste local o garboso rapaz via-se obrigado a redobrados cuidados com a indumentária, com o lustro dos sapatos, o asseio do chapéu e outras coisas que o deixavam com boa aparência.

A nova situação exigia cuidados, delicadezas e rapapés. Dizem que normalmente o futuro sogro pouco aparecia. Somente a futura sogra estava presente.

Se esta fosse uma mulher tranquila e o pretende abastardo, talvez o que não faltasse no rosto da futura sogra fossem sorrisos. Nesta situação poderia surgir uma fatia de bolo e um copo de suco.

Festas tradicionais, como uma procissão, era uma ótima (e muitas vezes raras) oportunidades para se namorar nos sertões antigos.
Festas tradicionais, como uma procissão, era uma ótima (e muitas vezes raras) oportunidades para se namorar nos sertões antigos.

Sempre a conversa era amena, cerimoniosa, em meio a intensos desejos contidos. A pesada solenidade do momento somente era quebrada quando, por exemplo, a futura sogra colocava a jovem para tocar algum tipo de instrumento musical e assim mostrar as prendas da filha. Se as qualidades musicais da garota fossem sofríveis, o tormento era magnificamente suportado por quem andava doido para ouvir outro tipo de música.

Podemos dizer que, com algumas variações sobre o tema, muitos relacionamentos duradouros nasceram desta forma. Mas vale frisar que neste artigo comentamos até agora sobre namoros consentidos entre jovens de famílias que se conheciam e mantinha relações.

E quando o par de querubins desejavam a união, mas a família da noiva não consentia o namoro em hipótese alguma?

“Bulir”

Bem, nestes casos o jovem e impetuoso rapaz poderia chegar um dia na casa da amada, fazer a jovem passar a perna por cima do lombo de um burro, ou de um cavalo, e levar a moça para algum lugar escondido e ermo, onde a relação seria na prática consumada. Quando acontecia essa consumação, se dizia no sertão que o rapaz “buliu” com a garota!

Festa de casamento em propriedade rural, em Juazeiro do Norte
Festa de casamento em propriedade rural, em Juazeiro do Norte

O problema é que este tipo de atitude quase sempre gerava toda uma sorte de problemas e poderia fazer muito mal a saúde do garboso rapaz!

Começa que se a família da jovem fosse formada de uma falange de homens “dispostos”, que não se inquietavam diante da “cor e do cheiro do sangue”, caso o enamorado não assumisse os erros cometidos certamente seria morto.

Isso quando a família da jovem tinha alguma pretensa ideia de fazer o casamento, se não o pobre rapaz era simplesmente eliminado!

Mesmo que a família da garota não possuísse no seu seio homens dessa natureza, mas tivessem condições financeiras, o que não faltavam nos sertões de antanho eram “cabras” dispostos a ir buscar o jovem enamorado (ou matá-lo) onde ele estivesse. Nem que fosse “no oco do mundo”. Além do mais estes homens que perseguiam e matavam os rapazes que raptavam (e “buliam”) com as meninas de família, estavam realizando uma tarefa plenamente aceita pela sociedade sertaneja do passado.

Muitas das antigas normas de comportamentos entre casais eram ditadas pela Igreja Católica, que aqui vemos uma em dia de festa no sertão.
Muitas das antigas normas de comportamentos entre casais eram ditadas pela Igreja Católica, que aqui vemos uma em dia de festa no sertão.

Mas existiu uma forma de consumação de uma relação entre dois jovens no sertão potiguar que é extremamente singular e hoje quase totalmente desconhecida – O “Roubar a noiva”.

Ao invés de explicar de forma pormenorizada, decidi trazer aos leitores do TOK DE HISTÓRIA um material que é fruto de uma entrevista que fiz com um homem do Seridó Potiguar, de família tradicional, nascido na década de 1920, muito lúcido, com quem tive a oportunidade de conversar em 2014 sobre as antigas relações do sertão de outrora.

Por razões outras esta pessoa pediu anonimato para narrar esta interessante história e que descrevesse os personagens aqui envolvidos com nomes fictícios.

“Roubar a Noiva”

Estamos nos primeiros anos da década de 1920, em uma antiga e tradicional cidade da região do Seridó Potiguar. Os jovens Zito e Mariazinha começaram a trocar sinais típicos dos enamorados daquela época, onde a praxe exigia que tudo fosse com muito recato, discrição, em razão das convenções sociais daquele tempo e o medo da reação da mãe da jovem seridoense.

 Família tradicional do sertão, em dia de festa

Família tradicional do sertão, em dia de festa

Eles agora eram namorados, mas em sua pequena urbe apenas os amigos mais próximos sabiam o que ocorria. Era uma relação onde o que mais existia eram olhares, sorrisos, quando possível algum diálogo e raramente algum tipo de contato físico.

Logo Zito soube que a sua pretensa futura sogra não admitiu qualquer ideia de um namoro entre ele e Mariazinha. Para Dona Carminha aquela troca de olhares e sorrisos não poderia continuar.

Mas esta situação, ao invés de demover o rapaz da sua intenção, o fez ver que só fugindo com a sua amada eles conseguiriam a união que desejavam.

Logo surgiu a melhor ocasião para realizar a fuga; durante a festa do padroeiro da igreja mais nova do lugar. A cidade estaria com uma movimentação bem maior que era normal, com a presença de muitas pessoas de outras localidades circulando na praça principal entre as barracas e na procissão.

Grupos de homens a cavalo. Eram grupos assim que serviam para
Grupos de homens a cavalo. Eram grupos assim que serviam para “Roubar a noiva” no sertão do Seridó – Foto meramente ilustrativa.

Como era o costume da época para esses casos, Zito então convocou os seus amigos mais próximos para lhe ajudarem na fuga de Mariazinha. Já a noiva foi informada das intenções de seu amado e aceitou o pedido para fugir. Através de amigas ela soube que deveria se encontrar em sua casa, em dia combinado, aguardando um sinal determinado, em hora especificada e só então ela poderia deixar o lar paterno.

A tradição deste ato para forçar um casamento, hoje praticamente extinto, mostrava que a ajuda dos amigos era tanto para ajudar Zito a tirar Mariazinha de casa, mas também para garantir, sob o peso de se tornarem conhecidos como mentirosos e sem honra, que o rapaz não “buliu” com a sua amada.

Em uma época onde não existia a televisão para ditar os horários caseiros e as pessoas jantavam por volta das cinco da tarde, Zito e seus amigos deixaram a comida de lado e, em uma área fora da cidade, se dedicaram a equipar seus vistosos alazões com arreios e selas. Era uma precaução para o caso da fuga de Mariazinha deixar de ser uma ação discreta e a velocidade das alimárias se tornar um fator preponderante para o sucesso da importante empreitada.

Foto de jovem casal do sertão potiguar entre as décadas de 1920 e 30. Pouca margem para mostrar em fotografias algum aspecto de felicidade.
Foto de jovem casal do sertão potiguar entre as décadas de 1920 e 30. Pouca margem para mostrar em fotografias algum aspecto de felicidade.

Às seis horas, na hora popularmente denominada “Boca da noite”, a comitiva entrou na pequena cidade seridoense na maior discrição. Devido à festa, não era incomum a presença de grupos de cavaleiros vindos dos sítios e localidades próximas. Para quem visse aquele grupo de rapazes montados, com Zito à frente, teria a ideia que eram apenas mais alguns jovens que vinham aproveitar os festejos do padroeiro.

Logo os cavaleiros chegaram ao sobrado do pai da moça, conhecido como Pedro Estevão, e o sinal previamente combinado foi emitido. Mariazinha, entre assustada e decidida, saiu de casa e montou na sela do cavalo de Zito. Naquele momento em que ela abraçou seu amado sobre a sela do seu cavalo, foi o instante em que até então seus corpos chegaram mais próximos um do outro!

Depois deram a volta no quarteirão e, na maior tranquilidade, Zito deixou a garota na casa do comerciante Romulo de Antônio Moreira, um amigo do seu pai. Este, junto com a sua esposa Santinha, seriam as pessoas que guardariam a jovem Mariazinha até o dia do casório.

IMG_20151106_162312687

Romulo Moreira foi então à casa de Pedro Estevão e Dona Carminha para comunicar formalmente que Zito havia “furtado” Mariazinha e que ela estava na sua casa, resguardada, protegida, que agora ela era noiva e de lá só iria sair para casar.

Para os pais da moça aquele comunicado, feito por um próspero comerciante da localidade, era a certeza que aquilo era um fato consumado. Pedro Estevão e seus familiares não iriam tirar Mariazinha à força da casa de Raimundo, sob o peso de quebrar uma tradição secular no Seridó e iniciar uma intriga duradoura.

Agora o fato estava consumado e os preparativos do casamento tiveram início.

Casamento no sertão
Casamento no sertão

E, como não poderia deixar de faltar neste tipo de história, os dois foram felizes para sempre!

Modernagem

Ao logo das décadas o mundo mudou, os costumes foram alterados e as relações entre os jovens no sertão seguiu o mesmo caminho. O namorar deixou de ser salada de maneirismos e salamaleques, sustos e emoções.

O namoro sofreu profunda modificação de sentido e assumiu uma importância jamais imaginada nos relacionamentos do passado. Adquiriu diversos sentidos e proporções capazes de se confundir com a união estável, que se formaliza ainda que os envolvidos não vivam sob o mesmo teto.

E não vamos esquecer o “ficar” (com exclusividade ou sem ela)!   

Baseado no textoOS PERCALÇOS DO NAMORO”, de Hugo Navarro em http://www.vivafeira.com.br/hugonavarro/